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CLASSICOS JURIDICOS JORGE DE FIGUEIREDO DIAS DIREITO PROCESSUAL PENAL 1* ED. 1974 REIMPRESSAO. Coimbra Editra 2004 4 Nogées introdutdrias TIL, A concreta conforiagio juridico-constitucional do direito processual penal. 1 com as\ concepgées politicas fundamentais nio poem sé um problema interdisciplinar de conexdo entre um pen- samento estritamente juridico—o do direito processual penal —e uma ciéncia cultural —a Ciéncia Politica ou Teoria do Estado. Ao lado desta conexdo ha também a de dois ramos distintos do pensamento juridico: 0 direite dadeiro direito constitucional aplicado, Numa dupla dimen- sdo, alids: naquela, jé caracterizada, derivada de os fun- damentos do direito processual penal serem, simultanea- mente, os alicerces constitucionais do Estado, e naquela outra resultante de a I titucionalmente. Daqui resultam, entre outras, as exigéncias correntes: de uma estrita e minuciosa_regulamentagdo legal de qual- quer indispensdvel_intromiss na esfera_dos direitos do i garantidos; de que a lei ordindria nunca elimine 0 mticleo essencial de tais direitos, mesmo quando a Constituigao conceda Aquela lei liberdade para os regulamentar; de estrito j do Estado, mesmo dos que cumpram fungées puramente (1967) 609 ss.; Figueiredo Dias, 0 problema da consciéncia da ilici- tude 322 ss., 376 ss. © passim. “* Vorwort. No mesmo sentido afirmava jd o brasileiro Joio MENDES (cit. por Noronna n. 3): §2. O direito processual penal no sistema juridico 5 administrativas, desde que tal actividade se prend; as garantias constitucionais; de através da garant yr & que pot A 1 0} 3 de proibicdo de provas °\ obtidas com moulin da autonomia ética da pessoa, mesmo Durante muito tempo o pensamento jurfdico tendeu a yr) inham ver nas normas constitucionais — maxime nas que con a garantias fundamentais — simples «principios ticoss, O's meras directrizes dirigidas ao legislador ordindrio que este ee Podia afeigoar a sua vontade, suposto que fosse formada pelo Processo constitucionalmente prescrito. A regulamentacao Processual penal respectiva constituiria sempre, deste ponto de vista, por definicdo, o produto do entendimento que legiti- mamente fora dado pela lei ordindria as directivas consti- tucionais, pelo que mal teria sentido aferir da sua constitu: cionalidade. Hoje, porém, tende por quase toda a Parte a ver-se na Constitui¢do verdadeiras normas juridicas que, mesmo con- tendo uma reserva segundo a qual o direito que asseguram ser mantido s6 «nas condigées determinadas pela lei», “* Sobre o conjunto destas exigéncias cf. 08 estudos de BAUMANN, ScHORN, Stree, Conso, Det Pozzo, Siniscatco e VASSAL! cits. e, por fim, a sintese compreensiva sobre +a Constituigdo e 0 problema penals, com mais indicagdes bibliogréficas, de G. Betriot, Direito Penal, P. G. 1 (trad. de F. de Minanpa, 1970) 95 ss. “Afonso Queir6-Barbosa de Mzto, A liberdade da empresa ¢ a constituicéo, RDES 15(1967) 219 s., 222 ss. Cf. no entanto, sobre o diferente estado do problema na Itélia, Det Pozzo, cit. 41 ss. 16 Nogées introdutorias al t Assim, vemos na Alemanha Federal o Supremo Tribunal Cons- titucional a aferir constantemente da constitucionalidade dos mais infimos pormenores da regulamentagao do direito proces- sual penal, construindo, de par com uma doutrina atenta, ins- titutos juridico-processuais praticamente novos — bastando lembrar o que ai se passou em matéria de «direito de audién- cia» (rechtlich Gehér)*; na Italia assistimos a uma critica tao cerrada, da parte da Corte Costituzionale, a constitucio- nalidade do direito processual penal que leva os mais timo- ratos — sem por isso, todavia, lhe negarem em regra o seu acordo—a falar ja de uma demolig&o, pedra por pedra, do CPP italiano“; nos EUA, finalmente mas nao por ultimo, sabe-se como o Supremo Tribunal Constitucional tem recente: mente operado verdadeiras revolucées na jurisprudéncia sobre temas relevantissimos do processo penal (v. g. assisténcia de advogados aos interrogatorios, buscas e apreensées, proibicées de provas, etc.), sempre na base dos preceitos constitucionais americanos, maxime dos que se referem aos direitos funda- mentais dos cidadaos . Que, entre nds (onde a ConstP de 1933, * Cf. infra, § 5 11, onde serd indicada alguma da j4 inabarcavel literatura sobre 0 ponto; v. também a bibliografia alemd cit. supra, na nota 53. “ Cf. A. Santoro, ScPos 1970/469; em S. Tzssrrorg, RitalDPP 1970/ /623 ss. pode ver-se uma imponente relagdo — alids longe de ser com- pleta — desta jurisprudéncia constitucional (sé respeitante, de resto ao diveito de defesa); v. também a bibliografia italiana cit. supra, na nota 53. E por wltimo, em excelente sintese, John C. Apams, The role of the italian constitutional Court in protecting and extending the procedural rights of the accused, Studi Carlo Furno (1973) 1. *" Muito ilustrativas, a este respeito, as decisées reproduzidas e comenta- das em KapIsH-PAULSEN 678 ss.; cf. depois KNowLton, The Supreme Court, Mapp v. Ohio and due process of law, lowaLR 49(1963) 14 ss.; Comments: Electronic surveillance by law enforcement officers, North- western UniversityLR 64(1969) 63 ss.; WHITE-GREENSPAN, Standing to object to search and seizure, PennsylvaniaLR 118(1970) 333 s.; S. Bocex, Human rights in the USA: two decades'development, RintDP 41(1970)641; J. Core, Impeachment with unconstitutionally § 2. O direito processual penal no sistema juridico 1 na sequéncia ja da de 1911, consagra no artigo 123.° um dos mais liberais sistemas de fiscalizagao judicial da Constituicao), a jurisprudéncia sobre a constitucionalidade do processo penal, ‘ilmente seja paupérrima, é na verdade uma singularidade dif explicavel. 2. As consideragdes feitas valem também por um programa: numa exposi¢ao valoradora do actual direito processual penal portugués ha que repensa-lo, antes de tudo, a luz da ConstP que nos rege (na sua letra e nos seus principios). E, se fazer aqui o elenco completo dos concretos problemas processuais penais constitucional- mente conformados seria impossfvel e inutil, devera tal- vez chamar-se desde jd a atencdo para aqueles capitulos em que mais agudamente os dois dominios se relacionam. a) & principio constitucional suficientemente expresso na conexéo material dos artigos 8.°, n.° 9.° e 116.9 da ConstP, que a verificagao do crime e a aplicagao da sangdo sé podem ter lugar em processo, i. é, através de um procedimento judicial fixado: nulla poena sine pro- cessu (sine judicio). Nao apenas, portanto, legalidade dos crimes e das penas, mas legalidade da inteira «epres- sao», que pode em jogo a liberdade da pessoa desde o momento em que o mecanismo repressivo se movimenta até Aquele em que a reaccdo declarada é concretamente executada. S6 com este entendimento obter4 o cidadao uma garantia efectiva e concreta, que nao de simples expressdo formal *, obtained evidence: coming to grips with the perjurous defendant, J. of CL, Crim & PS 62(1971) 1 “Neste sentido M. Siniscatco, cit. 122 ss. e G. LavasszuR, Réflexions sur la compétence. Un aspect négligé du principe de la légalité, Etudes Hugueney (1964) 15 ss. B Nogées introdutérias b) Sendo a posicéo do tribunal, nos quadros do processo, verdadeiramente essencial, importa naturalmente —e ainda em nome das garantias de que deve revestir-se a situagdo da pessoa submetida a um processo — defen- dé-la e salvaguarda-la perante desnaturagdes sempre Pp@S- siveis, que tornariam o juizo em juizo aparente. Daqui que seja matéria de directo relevo juridico-constitucio- nal a respeitante aos principios da constituigdo e funciona- mento dos tribunais (A «fungdo judicial»: ConstP, art. 116.9), com os problemas conexos do dmbito da jurisdigdo, da competéncia e da proibigéo de jurisdigées especiais («om competéncia exclusiva para julgamento de determinada ou determinadas categorias de crimes, excepto sendo estes fiscais, sociais ou contra a seguranga do Estado»: art. 117.9) e da representagdo do Estado junto dos triby- nais pelo MP (art. 122.°) ®. c) Pela mesma razdo acabada de apontar sao juri- dico-constitucionalmente fixados os principios fundamen- tais que presidem a actividade e fungdo do juiz, como ema- nagdo, quer indirectamente do «principio da separagado dos poderes do Estado» (ConstP, arts. 71.° e seguinte e 116.°), quer directamente dos principios da «independéncia da fungdo judicial» — donde derivam, por sua vez, as garan- tias de vitaliciedade, inamovibilidade e irresponsabilidade (arts. 119.° e 120.9) — e do «auxilio judicial» ( art. 122.°) ®, 8 Sobre estes pontos, em pormenor, p. ex. KERN, Kurzlehrbuch des Geri- chisverfassungsrechts* (1965). A este propésito —como também ao propésito mencionado na alfnea anterior —fala-se, na doutrina alema, do princfpio do «juiz legals e, na italiana, do principio do ¢juiz naturals (cf. infra, § 10 1). © Sobre tudo isto cf. infra, § 9 1. § 2. O direito processual penal no sistema juridico 79 d) Entre nés foi também elevado A categoria de maxima constitucional — com oportunidade indiscutfvel, por dela derivar para o réu uma importante garantia —o principio da publicidade da audiéncia, trave-mestra de uma processo acusatério, que sé sofrera excep¢do «nos casos especiais indicados na lei e sempre que a publici- dade for contraria ao interesse e ordem ptiblicos ou aos bons costumes» (ConstP, art. 121.0) 61, ¢) Finalmente tém foros de garantias constitucionais os principios da inviolabilidade do direito de defesa e da tutela da liberdade pessoal. Através do primeiro (art. 8.9, n. 10.°) nao se indivi- dualizam com precisao, ou mesmo sé de acordo com esque- mas gerais, as formas que em concreto deve assumir a defesa para que se dé satisfagdo ao preceito constitucio- nal respectivo; mas, afirmando este que é garantia dos cidadaos portugueses chaver instrugdo contraditéria, dan- do-se aos arguidos, antes e depois da formagao da culpa e para a aplicagdéo de medidas de seguranga, as necessd- rias garantias de defesa», conforma assim um direito e garantia individual dos cidadaos, valido para todo o decurso do processo, cujas notas constitutivas do seu «nucleo essen- cial» nao podem ser afectadas, sem inconstitucionalidade material, pela lei ordindria, e pde com isto a pedra funda- mental que fara reconhecer o Estado portugués, nesta matéria do processo penal, como verdadeiro Estado-de- -Direito *. “Sobre este principio cf. infra, § 7 11. ** Cf. em pormenor, infra, §§ 13 e 14 80 Nogées introdutdrias Sendo o processo penal, por outro lado, um proce- dimento em relagdo ao qual sdo notaveis as possibilidades de restrigdes e violagdes da liberdade pessoal dos cidadaos, é relevantissima a tutela que desta se encontra na ConstP, através dos principios da proibigdo da prisdo preventiva (art. 8.9, n. 8.°, com excepgao dos casos previstos nos, §§ 3.° e 4.°), da exigéncta, para a prisdo fora dos casos de flagrante delito, de ordem por escrito da autoridade legal- mente estabelecida (art. 8.°, § 4.°, 1.8 parte) e da concessdo da providéncia do habeas corpus (art. 8.°, § 4.°, in fine) *. © Cf. os cits. supra, na nota e infra, no vol. 1. Exacta indicagdo do relevo desta providéncia ¢ dada por S. Tavotaro, Auspicio di un «Habeas Corpus» mondiale, RivP 89(1965) 645.