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1 Timoteo 2 Timoteo e Tito WILLIAM HENDRIKSEN © 2001, Editora Cultura Crist&. Publicado originalmente em inglés com o titulo New Testament Commentary, Exposition of the Pastoral Epistles por Baker Books, uma divisao da Baker Book House Company, P.O. Box 6287. Grand Rapids, MI 49516-6287. © 1981, William Hendriksen. Todos os direitos sao reservados. 1* edig&o em Portugués — 2001 3.000 exemplares Tradugdéo Valter Graciano Martins Revisdo Claudete Agua de Melo Rubens Castilho Editoragao « Eline Alves Martins Capa Expressao Exata Publicacdo autorizada pelo Conselho Editorial: Claudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, Aproniano Wilson de Macedo, Fernando Hamilton Costa, Mauro Meister, Ricardo Agreste, Sebastiao Bueno Olinto. €DITORA CULTURA CRISTA Rua Miguel Teles Junior, 382/394 — Cambuci 01540-040 — Sao Paulo — SP ~ Brasil C.Postal 15.136 Sao Paulo — SP - 01599-970 Fone (0**11) 270-7099 Fax (0°11) 279-1255 www.cep.org.br — cep@cep.org.br Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor. Claudio Antonio Batista Marra INDICE LISTA DE ABREVIATURAS wicscecssessescsseseesessesneecseesesrsansnceesneaneaeeesneenaneneess 7 INTRODUCAO AS EPISTOLAS PASTORAIS ui... I. Por que Devemos Estuda-las? IL. Quem Escreveu as Pastorais’ II. A Quem Foram Enderegadas IV. Qual é Seu Antecedente Histdrico e Prop6sito? .....0....cceeeeeees 54 CoMENTARIO SopreE | TIMOTEO. Capituto | CapituLo 2. CarituLo 3. CapiTuLo 4 .. Capiruto 5 Capituto 6 .. COMENTARIO SopRE 2 TIMOTEO. CapiruLo | CapituLo 2 CapiTuLo 3 CapiTuLo 4 ComENTARIO SoprE TiTO Capiruto | CapiTuLo 2... CapiruLo 3 ..... BiBLioGRAFIA SELETA BIBLIOGRAFIA GERAL ListTA DE ABREVIATURAS As letras nas abreviaturas dos livros sao seguidas por pontos. As nas abreviaturas de periddicos omitem os pontos e sao grafadas em ittlico. Assim, o leitor pode ver num relance se a abreviatura se refere aum livro ou a um periddico. ARV. AN. C.N.T. Gram.N.T. LS.BE. L.N.T. M.M. N,N. RSV. W.D.B. W.H.A.B. A. Abreviaturas de Livros American Standard Revised Version Authorized Version (King James) Comentdrio do Novo Testamento de Willtam Hendriksen A. T. Robertson, Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research International Standard Bible Encyclopedia Thayer’s Greek-English Lexicon of the New Testament The Vocabulary of the Greek New Testament Illustrated from the Papyri and Other Non-Literary Sources, por James Hope Moulton e George Milligan (edigao, Grand Rapids, 1952) Novum Testamentum Graece, organizado por D. Eberhard Nestle e D. Erwin Nestle (edig&o mais recente) Revised Standard Version Westminster Dictionary of the Bible Westminster Historical Atlas to the Bible EPISTOLAS PASTORAIS B. Abreviaturas de Periddicos Evangelical Quarterly Journal of Biblical Literature Journal of Theological Studies Gereformeerd Theologisch Tijdschrift Westminster Theologica Journal Zeitschrift fiir die Neutestamentliche Wissenschaft INTRODUCAO AS EpisTOLAS PASTORAIS —©-— I. Por que Devemos Estuda-las? E necessario estudar exaustivamente as Epistolas Pastorais:pelas seguintes razGes: (1) Porque elas langam luz sobre o importante problema da admi- nistracdo eclesidstica. Essas cartas contém algumas diretrizes acerca do culto ptiblico que farfamos bem em prestar atengao? Que qualida- des deve um homem possuir para ser um bom pastor? Um anciao dig- no? Um diacono consciente? Até que ponto poderiam as mulheres ser usadas na obra da igreja? Sobre quem repousa a responsabilidade pri- maria de suprir os necessitados? Como o ministro deve tratar os ho- mens de idade avangada que necessitam de conselho pastoral? E as mulheres idosas? E os jovens? E as jovens? (2) Porque enfatizam a s@ doutrina. E verdade que nao importa 0 que uma pessoa creia contanto que seja sincera no que ela cré? A Bi- blia é de fato “a Palavra de Deus” tal como ela se apresenta, ou sim- plesmente se torna a Palavra de Deus quando ela 0 “toca”? Como deve alguém defrontar-se com hereges? FE. possivel prestar demasiada aten- cao aos erros deles? (3) Porque exigem uma vida consagrada. E possivel que uma pes- soa seja “doutrinariamente sa”, porém “corrompida na pratica”? Os homens maus devem ser disciplinados? Com que prontidao? Com que propésito em mente? (4) Porque respondem a pergunta: “Os credos tém algum valor?” A igreja creu, no periodo de transigdo, na formulagao de credos, nas 10 EPISTOLAS PASTORAIS declaragdes concisas e em outros meios de transmitir a verdade do evangelho aos interessados e a juventude? Havia alguns hinos? O lema: “Credos nao, Cristo sim” esté em harmonia com o ensino das Pastorais? (5) Porque nos informam das atividades finais na vida do grande apostolo Paulo. O livro de Atos apresenta um relato completo de todas as suas viagens? Houve realmente duas prisbes em Roma? (6) Porque sao uma valiosa fonte para a compreensdo da histéria da igreja no terceiro quarto do 1.° século d.C. (Ver M. C. Tenney, The New Testament, A Survey, p. 354). (7) Porque nessas Epistolas, tanto quanto nas demais, Deus nos fala. II. Quem Escreveu as Pastorais? A expressdo “epistolas pastorais”, como um titulo comum para | Tim6teo, 2 Timéteo e Tito, data da primeira parte do século 18.' Ora, essas cartas certamente fornecem importantes diretrizes aos pastores. Nao obstante, 0 titulo nao é exato. Timéteo e Tito nao eram “pastores” no sentido usual e atual do termo. Nao eram ministros de uma congre- gacao local, mas, antes, delegados apostdlicos, enviados especiais ou comissionados do apéstolo Paulo, enviados por ele para cumprirem missdes especificas. A eles foram confiadas tarefas concretas segundo a necessidade do momento. A tarefa deles era cumprir seu ministério espiritual aqui ou acold, levando a bom termo a obra que se havia ini- ciado, para em seguida informar ao apdstolo suas descobertas e reali- zagoes. Marciaio, em meados de 2.° século, rejeitou essas trés cartas. Tertu- liano afirma: “Entretanto, estou surpreso que enquanto ele [Marciao} aceitou esta carta [Filemom] que fora dirigida a um sé homem, tenha rejeitado as duas epistolas a Timéteo e a dirigida a Tito, as quais tratam da disciplina eclesidstica” (Against Marcion V.xxi). Ora, é natural que um homem como Marciao, que pregava 0 mais estrito ascetismo, nega- va a legalidade do matrimGnio e estabeleceu regras rigidas para 0 je- - jum, rejeitasse as Epistolas Pastorais nas quais 0 ascetismo é condena- 1, P. Anton chamou sua obra “Exegetische Abhandlung der Pastoralbriefe”, Sugeriu o termo pela primeira vez em 1726, INTRODUGAO 11 do (fTm 4.3, 4; Tt 1.14, 15). Um herege no gosta de um escrito que direta ou indiretamente condena sua heresia ou algo parecido. No século 19 (1807, para ser exato), F. Shleiermacher rejeitou a au- toria paulina de | Timéteo. F.C. Baur, em sua obra sobre as Epistolas Pastorais (Stuttgart e Tiibingen, 1835), defendia a posicao de que é in- consistente aceitar 2 Timéteo e Tito e rejeitar | Timoteo. As trés devi- am ser consideradas como literatura pseudo-epigrafica. Muitos disci- pulos entusiastas — a Escola de Tiibingen — endossaram seu ponto de vista, Hoje essa posigao € aceita por muitos, ainda que alguns tenham adotado um ponto de vista um pouco mais conservador (ver p. 27). Pode-se honestamente sustentar que nessa atitude negaliva os cri- ticos so tio objetivos como dizem ser? E possivel que a forma em que essas trés pequenas jéias tratam “alguns dos mais queridos temas da mente moderna’? tenha algo que ver com a forma decidida em que negain que Paulo seja o autor? As Epistolas Pastorais poem énfase especial em assuntos tais como a realidade e importdncia dos oficios eclesiasticos (1Tm 3; Tt 1), a inspiracao da palavra escrita(2Tm 3.16), a necessidade de manter a pureza doutrinal (1Tm 4.1-6; 2Tm 3.14; 4.3; Tt 2.1), a realidade da ressurreigéo (2Tm 2.18) e a exigéncia divina de que a fé se torne militantemente manifesta (2Tm 4.2, 7, 8). Ora, se tendéncias subjetivas tém ou nao prevalecido, uma conclu- sao se torna inescapavelmente clara quando os fatos sao examinados: os criticos nao conseguiram provar sua tese que afirma que Paulo nao poderia fer escrito as Pastorais. Os argumentos dos criticos podem ser assim resumidos:* (1) No tocante ao vocabuldrio, as trés epistolas sdo muito seme- lhantes entre si, mas inteiramente diferentes das outras dez epistolas, 2. Cf. Edmund K. Simpson, “The Authenticity and Authorship of the Pastoral Epistles”. EQ 12 (1940), 311 3. Quem quer que leia a seguinte literatura — uma selegao dentre centenas de livros e artigos sobre este tema — terd os argumentos dos criticos e as respostas dos que aderem ao ponto de vista tradicional com referéncia 4 autoria das Pastorais. Reconhecemos nossa divide a todos 08 seguintes: Bouma, C., /, 2 Timdteo e Tito (in Korte Verklaring der Heilige Schrift met Nieuwe Vertaling), segunda edigio, Kampen, 1953, especialmente pp. 13-35. Bouma, C., De Brieven van den Apostel Paulus aan Timotheus en Titus (in Kommentaar op het Nieuwe Testament), Amsterda, 1942, especialmente pp. 17-60. 12 EPISTOLAS PASTORAIS as quais so tradicionalmente atribuidas a Paulo, a saber, Romanos, | Corintios, 2 Corintios, Galatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses e Filemom. Brooks, A. E.. “The Problem of the Pastoral Epistles”, /7AS 23 (1922). Dibelius, M., Die Pastoralbriefe, segunda edigdo, Tubingen, 1931. Easton, Burton Scott, The Pastoral Epistles, Nova York, 1947. especialmente pp. 29-35, Goodspeed, E, J., Paul, Filadélfia, Toronto, 1947, p. 238. Greydanus, S.. Bizondere Canoniek, Kampen, 1949, Vol. Tl, pp. 205-226. Harrison, P.N., The Problem of the Pastoral Episiles, Oxford, 1921 Hawkins. R. M.. The Recovery of the Historical Paul, Nashville, Tenn., 1943, p. 13. Hotzmann, H. J., Die Pastorale Briefe. Leipzig. 1880. Knox, John, Chaprers in a Life of Paul, Nova York ¢ Nashville, 1946, p. 20. Lock, W.. A Critical and Exegetical Commentary on the Pastoral Epistles (in Internati- onal Critical Commentary), Nova York, 1924, pp. xXxv-xxxi. Michaelis, W., “Pastoralbriefe und Wortstatistik”, ZN7W 28 (1929), 69-76. Michaelis, W., Pastoralbriefe und Gefangenschaftbriefe. Zur Echtheitsfrage der Pasto ralbriefe, 1930. Moffatt, J. /ntreduction to the Literature of the New Testament. Nova York. terceira edi- giao, 1918. - Nageli, Th., Der Wortschatz des Apostels Paulus, Géttingen, 1905, pp. 85-88 Parry. John. The Pastoral Epistles, 1920. Pherigo, Lindsey P., “Paul's Life After the Close of Acts”. /BL 70 (dezembro de 1951), 277-284. Plummer, Alfted, The Pastoral Epistles (in The Expositor = Bible), veimpresso em Grand Rapids. Mich.. 1943, vol. 6. pp. 389-392 Riddle, W. ¢ Hutson, H. H., New Testament Life and Literature. Chicago. 1946, pp. 203- 208 Robertson, A. T., Word Pictures in the New Testament, Nova York @ Londres, 1931, Vol IV, pp. 555-558 Schleiermacher, F.. Ueber den Sogenannren Brief von Paulus an den Timotheus, 1807. Schweitzer, A., The Mysticism of Paul the Apostle, Nova York, 1931, p. 42. Scott. E. F. The Literature of the New Testament. 6." edigao, Nova York, 1940, pp. 191-197 Scott, E.R. The Pastoral Epistles Gin The Moffait Commentary), Nova York ¢ Londres, sem data, Simpson, E. K., “The Authenticity and Authorship of the Pastoral Epistles”, bro de 1940), 289-311. Simpson. E. K., The Pastoral Epistles, Londres. 1954, pp. 1-23 Torm, F., “Ueber die Sprache in den Pastoralbricfen,” ZNTW 18 (1918), 225-243 Van Oosterzce, J. J.. The Pastoral Epistles (in Lange’s Commentary on the Holy Scriptus res), teimpressdo, Grand Rapids, Mich., sem data. pp. 2-6. White. N. J. D., The First and Second Epistles to Timothy and the Epistle to Titus (in The Expositor 's Greek Testamend), reimpressao, Grand Rapids, Mich., sem data, Vol. 4, pp. 57-82. Zahn, Th., Einleitung in das Neue Testament, \897-1900, Vol. Tl. p. 85ss. 4. Ver, por exemplo. B. F Scott, Literature of the New Testamem, Nova York, 1932, p. 193. Também do mesmo autor, Pie Pastoral Episties (in The Moffatt Commentary), p. xxi. Q #2 foutus SEMG SVHGeVl TUNIVCU, 125 INTRMOWaIeaa, CE. 60,001-970 13 Quanto aos seguintes pontos que se acham enfatizados sob esse t6pico geral, alguns criticos enfatizam um ponto, outros enfatizam outro: a. A grande similaridade no vocabulario das trés pastorais. b. Os contraste entre 0 vocabulario das Pastorais e o das outras dez epistolas. As vezes quase pareceria que um simples relance nos famosos dia- gramas de Harrison (em seu livro The Problem of the Pastoral Epis- tles, Oxford, 1921) seria suficiente para convencer alguns de que Pau- lo nao poderia ter escrito 1 Timdteo, 2 Timdteo e Tito. O ntimero de palavras novas por pagina (!) do texto grego que o autor introduz nes- sas trés cartas, nao esta totalmente fora de proporc&%o em relagio a quantidade muito menor de palavras novas por pagina usadas por Pau- lo nas outras dez epistolas? Se o apéstolo escreveu as dez, 6 possivel que tenha escrito as Pastorais? Além disso, nao apontam para um autor distinto de Paulo expres- sdes como as seguintes: “guarda 0 depésito” (thy Tapadijkny pvAacov, 1Tm 6.20; 2Tm 1.12, 14); “segue a doutrina” (uma forma de TapaKodovdéw com ti btdacKaAte, 1Tm 4.6; 2Tm 3.10); “linguagem profana” (BeBnAor Kevoduviac, 1Tm 6.20; 2Tm 2.16); “homem de Deus” (4vOpwmo¢ Ocod, [Tm 6.11; 2Tm 3.17)? E, em contrapartida, nado é verdade que muitas palavras que sdo “fazer usadas diversas vezes nas dez [epistolas] nao aparecem nas tré: injustiga” (&SiKéw), “sangue” (wipe), “incircuncisao” (&«poBvotic), “obras da lei” (€pya vopov), etc.? Burton Scott Easton realga que o verdadeiro Paulo usa a palavra “Espirito” umas oitenta vezes; 0 autor das Pastorais trés vezes. c. A presenga, nas Pastorais, de famflias de palavras inteiramente novas ou grandemente expandidas Nao é verdade que as Pastorais apresentam pela primeira vez com ramificacdes sem paralelos, nao s6 muitas palavras particulares, mas familias completas de palavras? Para apreseniar apenas um exemplo: a famflia de compostos que se centraliza em torno da idéia comum do ensino ou da didatica: As seguintes nao ocorrem em parte alguma nas dez: 14 EPISTOLAS PASTORAIS SéaktiKd¢ upto para ensinar, | Timéteo 3.2; 2 Timéteo 2.24 voposiddoxnhog mestre da lei, | Timéteo 1.7 Kahod.dcoxasoc mestre daquilo que é bom, Tito 2.3 étepodtéacxadeiv ensinar outra coisa, ensinar doutrina diferente, | Timéteo 1.3; 6.3 Que ocorrem também em duas ou trés das dez: SSdoKadog mestre, 1 Timéteo 2.7; 2 Timédteo 1.11; 4.3 brdaokadla ensino, nas Pastorais ocorrendo com grande fre- qliéncia, tanto sentido ativo quanto no passivo (doutrina) dréax} ensino, 2 Timéteo 4.2; doutrina, Tito 1.9 Que ocorrem também em seis das dez: bLddoKw ensinar, | Timéteo 2.12; 4.11; 6.2: 2 Timéteo 2.2; Tito 1.11. d. A auséncia de familias de palavras paulinas. Isso 6 0 inverso do precedente. e. O fato de que varias palavras que se encontram em | Timéteo, 2 Tim6teo e Tito, porém nao nas dez, aparecerem no vocabuldrio dos Pais Apostélicos, e o fato complementar de que uma alta porcentagem de palavras genuinamente paulinas nao aparece nas trés e tampouco aparece no vocabuldrio dos Pais Apostélicos. Alega~se que isso indica que as Pastorais correspondem aos primérdios do 2.° século. Quanto a isso, é também costumeiramente realgado que durante o 2.° s&culo houve o ressurgimento da dic¢ao classica. Mantém-se que isso explica a presenca de um ntimero consideravel de palavras classi- cas nas cartas. f. O uso freqiiente de palavras e expressGes latinas. Diz-se que isso indica que o autor das Pastorais nao poderia ter sido Paulo, mas que certamente teria sido alguém que morava em Roma ou nas proximidades de Roma. Ou, se tal conclusao nao for expressa exatamente dessa forma, 0 argumento sobre os latinismos que ocorrem nas Pastorais ao menos se encontram na lista das causas para 0 ceticismo. g. O sentido totalmente diferente nas Pastorais das palavras que se encontram tanto nelas como nas dez. INTRODUCAO 15 Exemplos: _fé é usada objetivamente nas Pastorais = 0 que se cré, a verdadeira religido; Paulo, porém, a usa no sentido de confianga subjetiva. tomar € usado em | Timéteo 3.16 em referéncia a ascensao de Cristo, enquanto que em Efésios 6.13, 16 no sentido de “tomar” armas espirituais. letra é usada por Paulo num sentido desfavordvel: letras, porém, sao usadas em sentido favoravel em 2 Timéteo 3.15 = os escritos sacros. h. Finalmente, 0 fato de que nao sé “as pedras” diferem das usadas por Paulo, mas também “as ferramentas e argamassa” (particulas de tran- sigdo e inferéncia, que saturam as dez, porém sao escassas nas Pastorais). Nao é dificil demonstrar que o valor deste argumento e de suas ramificagdes tem sido excessivamente superestimado, Quanto a a., até certo ponto a verdade é exatamente o oposto. Das palavras novas (novas no sentido em que nao aparecem nas dez) bem poucas se encontram em todas as trés em conjunto; apenas nove de um total de 306! Daf, se a falta de similaridade no vocabuldrio é prova de que o autor é outro, haveria algo a dizer em prol de uma proposi¢ao que sustentasse que hd um autor diferente para cada epistola pastoral. | Tim6éteo contém 127 palavras novas; 2 Timéteo, outras 81; e Tito, outras 45. Em conjunto, | Timéteo e 2 Timéteo contém apenas dezes- sete; | Timéteo e Tito, apenas vinte; 2 Timdteo e Tito, apenas sete; as trés, em conjunto, apenas nove. (Todavia, tanto 0 vocabulario quanto o estilo, tomados em conjunto, apontam antes para wm sé autor.) Quanto a b., o fato é que pouco mais de um quarto do vocabulario total da Epfstola de Paulo aos Romanos é “novo” no sentido em que nao é usado nas outras nove epistolas. A porcentagem de palavras no- vas, em proporciio ao total do vocabulario empregado, em 2 Timéteo (palavras que na&o aparecem nas dez) é apenas superior a de Romanos. O mesmo vale para Tito. Em | Timéteo, cerca de um tergo das palavras sao novas. Por certo, com base nesses fatos, a tese dos criticos, a saber, que Paulo nao poderia ter escrito as Pastorais, nao procede!* 5. Segue-se a proporgio de palavras novas com respeito ao total do vocabulario, dada por 16 EP{STOLAS PASTORAIS Em cada epistola, Paulo usa as palavras (inspiradas pelo Espiri- to) de que necessita, a fim de expressar seus pensamentos (inspirados pelo Espirito) acerca do tema espectfico de que estd tratando. Por essa razao, nao surpreende que certas palavras, encontradas nas dez, este- jam ausentes nas trés. Por exemplo, tomemos as primeiras trés pala- vras mencionadas por Harrison em sua lista na p. 31, tomando-as na ordem em que aparecem. A primeira é dé.Kéw: fazer mal, fazer injusti- ca. A segunda é aij: sangue. A terceira é &kpofvotta: incircuncisao. Ora, todo o tema da justi¢a, obtida pelo pecador mediante 0 sangue de Cristo e nao por meio de ritos tais como a circuncisdo, corresponde a epistolas tais como Romanos, Galatas e, em certa extensao, a | Corin- tios. Portanto, € nessas epistolas que devemos buscar tais palavras ¢ outras similares. Seguramente, porém, o apéstolo nao precisava expor em detalhes a Timéteo e Tito, seus amigos intimos e colaboradores na obra, a doutrina da justificagio mediante a fé! Por isso é que é plena- mente natural que Ss trés palavras nao aparegam aqui, embora a doutrina propriamente dita nao esteja completamente ausente; ver Tito 3.5-7. O mesmo vale para as demais palavras apresentadas por Harri- son nas pp. 31 e 32 de seu livro, A auséncia de qualquer uma delas é estranha nas Pastorais, ainda que se torna mais claramente por que nao deve ser achada mais num caso do que noutro. Além do mais, se deve- mos negar que Paulo é o autor das Pastorais pelo fato de que a palavra “Espirito” aparece somente trés vezes, nao deverfamos também rejei- tar a paternidade literaria paulina de Colossenses, 2 Tessalonicenses € Filemom? Quanto ac. e d., é uma espada de dois gumes, pois poder-se-ia também dizer que a prépria presenga de familias inteiras de palavras aqui nas Pastorais como nas dez aponta na diregao de autoria idéntica. Michaclis e Greydanus: Romanos: 261:993 = 26.3% 2 Timoteo: 27.6% Tito: 81:293 = 27.6% | TimGteo: 17. 9 = 32.7% Ver Michaelis, 0 artigo citado, p. 73; Greydanus, op. cit.. p. 210. Isso se harmoniza com as cifras dadas por Harrison, op. cit. p. 140. Bouma, Kommentaar op het Nieuwe Testament, p. 54, enfatiza o fato de que, das 582 palavras que aparecem nas dez, mas nao nas Pastorais, no menos de 469 se encontram em apenas wna epistola: e que. portanto, essas 469 estdo ausentes nas outras nove, e rambén nas Pustorais! INTRODUGAO, 17 Pode-se explicar facilmente que a palavra basica em torno da qual se tem desenvolvido a familia de palavras nao seja a mesma nas diferen- tes epistolas: nas cartas a Timéteo e Tito, nas quais havia necessidade especifica de bom conselho acerca de sua tarefa especifica de comuni- car instrugdo, de modo algum surpreende que a familia de palavras se desenvolva em torno da idéia de ensino. Além disso, pode-se demonstrar que, se a presenca ou a auséncia de certas palavras e familias de palavras é decisiva na determinagao da autoria, nao seria facil para os criticos da defesa de Paulo como autor das dez, porque na lista que Harrison apresenta de 41 palavras que aparecem em cinco epistolas paulinas, porém nao nas Pastorais (op. cit., p. 31), somente ama palavra das primeiras 22 aparece em 2 Tessa- lonicenses! Naturalmente, alguns estariam bem dispostos a desfazer- se de 2 Tessalonicenses também! Quanto a e., nosso conhecimento do verdadeiro vocabulario que se usava durante a segunda metade do 1.° século d.C., em comparagado com o da primeira metade do 2.° século d.C., é por demais escasso para servir como critério fidedigno. Com quanta freqiiéncia ocorre que pa- lavras consideradas como que pertencentes a tempo posterior de re- pente aparecem em escritos recém-descobertos, e que sao de uma épo- ca bem anterior? A idéia de que 0 uso de palavras “classicas” é indicio de um autor do 2.° século d.C. é admitir como verdade algo que precisa ser provado. Por que pareceria irracional supor que Paulo pessoalmen- te tenha escrito as Pastorais, e que tenha obtido seu conhecimento de vocabulario “classico” de suas préprias leituras e de havé-lo ouvido? Nao fora ele, em sua juventude, estudante? O curriculo de Gamualiel nada fornecera da literatura antiga e contemporanea? Nao é verdade que o Paulo que temos aprendido a conhecer através das dez epfstolas reconhecidas teria tido um extenso conhecimento (direto ou indireto) de autores gregos, de modo a poder citar Menandro (1Co 15.33) e Ara- to (At 17.28)? E absurdo considerar a possibilidade de que durante sua longa primeira prisdo (e, segundo alguns, talvez durante sua segunda prisao, cf. 2Tm 4.13) 0 apdstolo tenha expandido seu conhecimento fazendo, de vez em quando, incursées na literatura extracandénica? Seja como for, sabemos que algumas palavras que nao sao usadas em outros lugares do Novo Testamento, mas que foram usadas pelo autor das 18 EPISTOLAS PASTORAIS Pastorais e por escritores do 2.° século d.C., foram também usadas por contemporaneos dos apéstolos. Quem se atreveria afirmar que muitas outras palavras poderiam nao ser do uso comum em data tao antiga que remonte ao 1.° século d.C., ou até mesmo anterior a isso?° A similaridade de vocabulario que se nota ao compararem-se as Pastorais com os escritos cristGos do 2.° século d.C., nao significa ne- cessariamente que, quem quer que tenha escrito | Timéteo, 2 Timéteo e Tito tenha vivido nos dias dos Pais Apostdlicos e dos apologistas Poderia significar igualmente que os autores crist&os do 2.° século te- nham lido, estudado e, em certa medida, copiado e parafraseado Paulo. Quanto a f., o uso freqiiente de palavras e expressGes derivadas do latim é um argumento que pende de um fio muito débil. Os criticos podem assinalar apenas ducs palavras latinas, ¢ nado mais, nas trés pas- torais, a saber: HeuBpdva (latim, membrana), pergaminho, 2 Timéteo 4.13, e (a mesma passagem) eAdunc (latim, paenula), a qual tem sido variada- mente interpretada como capa, capa de livro, pasta [para arquivo]. As palavras latinas, porém, ocorrem naquelas epistolas que mesmo pelos criticos sao atribuidas a Paulo: OprqpBebw, conduzir em triunfo (cf. la- tim, triumphus), 2 Corintios 2.14; Colossenses 2.15; ycikeAAov, agou- gue (latim, macellum), | Corintios 10.25; e mpattup.ov, Guarda Preto- riana (latim, praetorium), Filipenses 1.13. Além disso, em seu Evan- gelho e Atos, Lucas, que fora companheiro de Paulo, e que, segundo 2 Timéteo 4.11, estava novamente com ele durante a segunda prisdo do apéstolo, usa quase a metade de um total de cerca de trinta palavras latinas que sao usadas no Novo Testamento. Se o companheiro fre- qliente de Paulo pdde usar palavras latinas, por que Paulo nao poderia fazer o mesmo? E certo que também se ouvem ecos do latim em expressGes como as seguintes: beondtng (dominus), | Timéteo 6.1, 2; 2.21; Tito 2.9, dono, senhor 6. Ver W. Lock, op. cit., p. xxix, e especialmente B. K. Simpson. The Pastoral Epistles, pp. 16-18: 103, 104. INTRODUGAO 19 Sthovyos (bilinguis nam de seus significados), | Timéteo 3.8, ambiguo édpatope (firmamentum), 1 Timéteo 3.15, suporte, baluarte, fundamento evoeBere (pietas), | Timédteo 2.2; 4.7, 8, piedade, reveréncia, devogao, viver santo, santidade, religiao wataLoAoy to (vaniloquium), | Timédteo 1.6, conversagao futil ob Nétepor (nostri), Tito 3.14, “nosso rebanho”, nosso povo TpdoKALoLe (inclinatio), 1 Timéteo 5.21, inclinagio, parciali- dade TpdKp LO. (praeiudicium), 1 Timéteo 5.21, pré-julgamento, preconceito oevdtnye (gravitas), 1 Timéteo 2.2; 3.4: Tito 2.7, dignidade, respeitabilidade, gravidade, seriedade yap €xew (gratiam habere), | Tim6teo 1.12, reconhecimen- to, gratidao Mas, em conexao com isso, observe 0 seguinte: 1. Também se encontram nos outros escritos do Novo Testamento’ palavras e frases que nos lembram express6es paralelas no fatim. 2. Ja durante 0 1.° século d.C., 0 grego e o latim haviam alcangado uma posicao de intercambio e de tradugdo de um para o outro idioma. 3. O que pode parecer uma expressdo copiada pode bem ser ape- nas 0 resultado de um desenvolvimento paralelo de cognatos. Além do mais, mesmo quando se reconhecesse uma considerdvel medida de influéncia do latim sobre o grego das Pastorais, provaria isso, de algum modo, que Paulo nao péde té-las escrito? Nao é inteira- mente natural que o homem que chegara a metrdpole do mundo, onde bem recentemente havia passado nado menos de dois anos, um homem, ademais, que era altamente suscetivel as influéncias do meio ambiente e que estava desejoso de fazer tudo a todos os homens, comegasse a fazer uso mais pleno da dicgao “romana” e de sua fraseologia, o que até entao nao havia feito? Neste ponto o argumento dos criticos parece fracassar completamente! 7. Ver Gram.N.T., p. 109, 20 EPISTOLAS PASTORAIS Com respeito a g., essas ilustragdes se desvanecem imediatamente ao serem examinadas mais detidamente. Assim, alega-se que Paulo usa a palavra /é em sentido subjetivo (confianga em Deus e em suas promessas), mas que © autor das Pastorais a usa no sentido objetivo (credo, corpo de doutrina). Mas, para comegar pelas Pastorais, a ex- pressao “a fé e 0 amor que estao em Cristo Jesus” (1 Tm 1.14) indica o exercicio dessas virtudes. “Permanecer em fé, em amor e em santifica- cdo” (ver 1Tm 2.15) também ilustra o uso subjetivo. E quando o autor ensina que alguém recebe a “salvagio pela fé que esta em Cristo Je- sus”, todos imediatamente entendem que ele esta falando da atitude de confianga no Redentor e do exercicio dela (portanto, uma vez mais no sentido subjetivo). Ver também 1 Timéteo 3.13; 6.11, 12 e 2 Timéteo 1.13: 3.10; 4.7. Eno tocante as dez epistolas, o autor delas nem sempre usa a palavra no sentido objetivo. Assim, em Galatas 1.23 fala-se de “pregar a fé”. Em Galatas 6.10 usa-se a expressao “os da familia da fé’. Em Filipenses 1.27: “combatendo undnimes pela fé do evange- tho”, temos outro excelente exemplo de uso objetivo. Além do mais, nao surpreende que nas Pastorais, Paulo, sendo um homem que esta para partir desta vida, esteja preocupado com a preservacao de “a ver- dade”, e, conseqiientemente, empregue amitide a palavra “fé” nesse sentido objetivo (1Tm 1.19; 3.9; 4.1; 5.8; 6.10; 2Tm 3.8: Tt 1.13). No tocante aos demais exemplos que se supde demonstram que, quando o autor das trés usa uma palavra paulina, o faz num sentido completamente distinto, demonstrando assim que 0 apéstolo nao po- deria ter escrito as trés, nao é de todo evidente por que um autor nado poderia usar 0 mesmo verbo grego no sentido de “tomar” as armas espirituais e no de “recebido no alto”, ao referir-se a Jesus e sua ascen- sao. De forma semelhante, nao deve causar estranheza o fato de a ex- pressiao “a letra”, no singular, ser usada num sentido, porém o termo “letras”, no plural, em sentido diferente. Muitos idiomas contém expres- sdes desse carter: por exemplo, é muito necessdrio tomar ar puro (no singular), porém nao é aconselhavel “dar-se ares” (plural). Nao é verda- de que nas epistolas que mesmo os criticos atribuem a Paulo, as palavras “carne” e “lei” saio usadas em mais de um sentido, assim como o autor do quarto Evangelho usa a palavra “mundo” em diversos sentidos? Finalmente, quanto a h., nos discursos exposifivos ou argumentati- INTRODUCAO, 21 vos — pense especialmente em Romanos, | e 2 Corintios e Galatas —, podemos esperar naturalmente um uso muito mais extenso de partfcu- las de transigdo e inferéncia do que num manual de adverténcias e instrugdes para “pastores”. Nesta buscamos e encontramos 0 modo imperativo. Em suma, estamos diante de Paulo, “j4 anciao” (denominagao que ele mesmo da a si em Fm 9), escrevendo uma carta. Um homem de idade avangada usaria o mesmo vocabuldrio de um jovem? Apesar das vigorosas negativas, nao é possivel que a idade e a experiéncia de estar em priséo, quer num passado recente ou no exato momento em que escreve, tenha algo que ver com 0 vocabulario, com a gramiatica ou com ambos? O autor das Pastorais esta escrevendo a colaboradores muito ache- gados que ele mesmo comissionara. Em nossos dias, quando 0 minis- tro de uma congrega¢ao grande ministra conselho a seu “auxiliar’, com quem tem um trato amistoso, emprega ele 0 estilo oratério do pulpito que usa aos domingos? Ao escrever aos seus colaboradores, 0 autor os aconselha sobre a forma de organizar a igreja, que tipo de presbjteros se devem designar, © que se deve fazer com os hereges, etc. Temas dessa natureza reque- rem 0 vocabulario que alguém usaria ao expor ante a congregagao a doutrina da “justificacao pela fé” (Romanos) ou de “a unidade de to- dos os crentes em Cristo” (Efésios)? N. J. D. White, op. cit., pp. 63, 65, 66, justifica a ocorréncia de algumas das novas palavras nas Pastorais, mostrando que sua presenga é plenamente natural em cartas que con- denam heresias. Ele pde termos tais sob 0 topico “Fraseologia polémi- caem referéncia ao falso ensino”. Um exemplo é “Jinguagem profana”. Em conclusao, gostarfamos de perguntar aos criticos: No inicio de sua carreira como escritor, foi entregue ao apdstolo um catdlogo de palavras com a exigéncia de que, nao importa quais fossem as circuns- tancias suas e de seus leitores, e sem importar o propésito da epistola ou do tema que fosse escrever, usasse invariavelmente essas palavras, e 1do-somente essas, e além disso as distribuisse em igual proporgdo em todas as suas cartas, como os salpicos num vestido de bolinhas? Em volume real, ffsico, a heranca literaria que Paulo nos legou nao é de modo alguim imponente: somente 138 paginas pequenas no texto 22 EPISTOLAS PASTORAIS grego de N.N. (para as dez epistolas). Temos 0 direito de supor que o que esta escrito contém todo o vocabulario e a sintaxe de Paulo, de modo que qualquer discordancia (em palavras ou gramatica) que al- guém encontra nas Pastorais demonstra que estas devem ser atribuidas a outro autor? Teria alguém o direito de aplicar aos escritos de Paulo um critério que, aplicado a Milton, Shelley e Carlyle, os despojara de grande parte de seus escritos? O argumento baseado no vocabuldrio e na gramdtica nao conduz a parte alguna. Mesmo o mais zeloso defensor da autenticidade das Pastorais reconheceré com prontidao que ha uma notavel diferenga no vocabulario, quando as trés sao comparadas com as dez, assim como ha uma variacdo consideraével quando cada uma das trés séio compara- das uma com as outras duas. E totalmente possivel que as explicagdes que sao apresentadas — tais como a idade de Paulo e sua prisao (passa- da ou presente), 0 carater dos leitores, os temas abordados, 0 propésito ~- nao sejam razao suficiente para tais diferengas. Também podem ha- ver afetado outros fatores, por exemplo, o rapido avan¢o ¢ desenvolvi- mento da igreja como uma nova entidade, crescente, mutante e vigoro- sa, ea necessidade de criar uma nova fraseologia. Expressdes tais como “guardar o depédsito”, “seguir a doutrina” e “homem de Deus” s&o con- sideradas por White como pertencentes a essa categoria. Podemos su- por que aqui Paulo esté usando fraseologia que ouve ao seu redor. Além do mais, tem-se sugerido que em certa medida o “secretario” ou “se- cretdrios” poderiam ter influenciado no produto final. Sobre este pon- to, veja nota 193, no final do capitulo 2 de Tito. Entretanto, 0 ponto a notar é 0 seguinte: a responsabilidade da prova repousa intetramente na critica negativa! Nao € o crente con- servador que pretende que o vocabuldrio e a gramatica demonstrem que Paulo foi 0 autor, mas que sao os criticos que proclamam em voz alta que o vocabuldrio e a gramdtica indicam que Paulo néo poderia ter sido o autor. Os criticos literdrios dos primeiros séculos, que esta- vam bem conscientes das peculiaridades gramaticais e do estilo, ¢ portanto puderam pér em divida que Paulo fosse o autor de Hebreus, jamais tiveram dificuldades com as Pastorais. O critico moderno tem fracassado completamente em seu intento de demonstrar que uma s6 palavra sequer do total do vocabuldrio das Pastorais nao tenha sido INTRODUGAO. 23 escrita por Paulo. Tratei disto com detalhe em conex&o com 0 vocabu- lario do segundo capitulo de Tito. Veja nota 193. (2) O estilo das Pastorais denuncia sua origem forjada. Alguns, ao falarem sobre “estilo”, usam este termo num sentido que se aproxima de “vocabulario”, “dicgio”, Isso ja foi discutido. Ou- tros, contudo, dao uma conotagao mais ampla ao termo, e sob esse t6pico discutem o que o autor das Pastorais diz e especialmente como ele o diz, 0 cardter geral de seus pensamentos e particularmente a maneira como ele os expressa. Aqui tomaremos 0 termo neste sentido mais amplo. Em wim assunto os criticos estao de acordo, a saber, na afirmagao de que o estilo das Pastorais aponta para a direg&o oposta a Paulo. Mas assim que se formula a pergunta: “por qué?”, as respostas se dividem e se tornam contraditérias, afirmando alguns que o estilo propriamente dito de forma alguma é paulino; outros, que em muitos pontos ele faz lembrar Paulo, que teria de ser um falsificador, um imitador conscien- te. Teria de ter uma cépia das epistolas genuinas de Paulo diante dos olhos. Dessas cépias, teria copiado uma e outra frase, agindo como se fosse Paulo! A Juz dessa confusdo no campo dos criticos s6 hd uma forma segu- ra de alguém recuar, a saber: mediante um exame imparcial dos prépri- os fatos. Estes apontam para Paulo como autor. Observe o seguinte: Nessas breves cartas encontramos a mesma classe de pessoa que se revela nas dez. O que aqui se reflete é 0 carter de Paulo, justamente como, por exemplo, em 1 Tessalonicenses e 2 Tessalonicenses. Veja C.N.T. sobre 1 e 2 Tessalonicenses, pp. 33, 34. O autor das Pastorais esta profundamente interessado naqueles a quem se dirige, a saber: em Tim6teo e Tito, revelando cordial afeigao por eles (1Tm 1.2; 5.23; 6.11, 12; 2Tm 1.2, 5, 6, 7; 2.1, 2, 15, 16; 4.1, 2, 15; Tt 1.4). Partilha suas experiéncias e sente-se prazeroso em recomendar tudo quanto de bom existe neles (2Tm 1.8; 3.10-15; 4.5-8; Tt 1.4). Atribui a soberana graca de Deus tudo quanto de bom existe nele e em seus destinatarios (1Tm 1.12-17; 4.14; 2Tm 1.6, 7, 13, 14; 2.1). Ele revela admiravel tato no aconselhamento (1Tm 1.18; 4.6, 11-16; 5.1; 6.11]-16; 2Tm 1.2-7; Tt 1.4; 2.7). Trata uma a uma as matérias de especial preocupagao para 24 EPISTOLAS PASTORAIS com Timéteo e Tito (evidentes a todo aquele que porventura leia essas trés breves cartas do inicio ao fim). Esta ansioso por vé-los (2Tm 1.4; 4.9, 11; Tt 3.12). Além do mais, ele aprecia a figura de linguagem chamada litotes, ou seja, afirmagao por meio de negagao do oposto. Pode-se considerar como um tipo de exposigao atenuada ou incompleta de uma ocorréncia ou miosis. B assim, em vez de dizer que ele esta “orgulhoso” de poder pregar a Cristo, ele afirma que “ndo se envergonha” daquele em quem ele cré (2Tm 1.12; cf. 1.8, 16). Semelhantemente, afirma que a Palavra de Deus “ndo esta acorrentada” (2Tm 2.9) e que Deus é aquele que “ndo pode mentir” (Tt 1.2). Isto fortemente lembra Paulo, o homem que declarou ser um cidadao de uma “cidade ndo insignificante” (At 21.39); que “ndo fui desobediente” a visdo celestial (At 26.19); que “ndo me envergonho do evangelho” (Rm 1.16); que seu ingresso entre os tessalonicenses “nao foi infrutifero” (1Ts 2.1); que seu apelo “ndo procede de engano” (1Ts 2.3); que ndo queria que os leitores fossem ignorantes (1Ts 4.13); e que “ndo vos canseis de fazer o bem” (2Ts 3.13). Ele aprecia as enumeragées. E assim ele agrupa as virtudes ou os vicios, catalogando-os em séries (1Tm 3.1-12; 6.4, 5; 2Tm 3.2-5; 3.10- 11; Tt 3.3), Isto € exatamente o que Paulo faz nas demais epistolas (ver Rm 1.29-32; 2Co 12.20; GI 5.19-23). Nao é contrario a introduzir aqui e ali um “jogo de palavras”. As- sim ele admoesta 0 rico a depositar sua esperanca naquele que da rica- mente (1Tm 6.17). Ele contrasta “amantes dos prazeres” com “aman- tes de Deus” (2Tm 3.4). Ele nos informa que um dos propésitos dos escritos inspirados é “para que 0 homem de Deus seja completo (ou equipado), plenamente munido (ou completamente equipado) para toda boa obra” (2Tm 3.17, passagem esta onde a R.S.V., por meio da sua tradugao, perde evidentemente o jogo intencional das palavras). E ele admoesta a Timéteo que, ao pregar a Palavra, que isso “seja a tempo ou fora de tempo”. Aqui, uma vez mais, alguém inevitavelmente pensa em Paulo e em sua inelinagfio para a mesma caracterfstica estilfstica. E Paulo quem, conhecedor do fato de que a denominagio judeu (cf. Juda) significa “que ele (isto é, Deus) seja louvado, escreve: “Porém judeu é aquele... cujo /ouvor nao procede dos homens, mas de Deus” (Rm 2.29), E Pau- INTRODUGAO 25 lo também quem faz uso do fato de que o nome de um escravo fugitivo, ou seja, Onésimo, significa “til, benéfico, proveitoso: “sim, solicito-te em favor de meu filho Onésimo, que gerei entre algemas. Ele, antes, te foi indtil; atualmente, porém, é itil a tie a mim” (Fm 10, 11). Além disso, Paulo gosta de “compostos breves” (E. K. Simpson). Ele as vezes escolhe termos que séo compostos de varias palavras (as vezes uma ou mais preposigdes mais um verbo). Daf, é ele quem diz que o Espirito Santo nos ajuda em nossa fraqueza. Ora, essa palavra, ajudar, originalmente significa “ele se apodera de (AcpPd&vetor) junta- mente com (obv) uma pessoa, ou enfrentando essa pessoa ou assumin- do seu lugar, de modo que leva a carga no lugar (atl) dessa pessoa. O verbo inteiro € ovvavttAcpBavetot.® Aqui também as Pastorais se assemelham as dez, atestando com- postos tais como katwotpnvidowoty (se tornam levianas, !1Tm 5.11), dtaTepatp pat (altercagdes mtituas ou atritos sem fim, 1Tm 6.5), ebuetééotot (disposto a partilhar com outros, generoso, 1Tm 6.18), Sedmvevotos (inspirado por Deus, 2Tm 3.16) e abtoxatdxpitoc (conde- nado por si mesmo, Tt 3.11). O amor de Paulo por frases “em aposigaéo” ~ ver, por exemplo, Romanos 12.1, “apresentar-se como sacrificio vivo... (que €) seu servi- ¢o segundo a razao (ou culto racional)” — € bem conhecido e pode ser ilustrado por varias passagens das dez epistolas. Exemplos semelhan- tes de aposi¢ao ocorrem por todas as Pastorais. Ver, por exemplo, | Timéteo J.17; 3.15, 16; 4.10, 14; 6.14, 15; 2 Timéteo 1.2; 2.1; Tito 1.1, 10; 2.14. O stibito irromper de doxologias, trago que deparamos ao estudar as dez (ver Rm 9.5; 11.36; 16.27; Ef 1.3ss.; 3.20) aparece uma vez mais nas Pastorais (1Tm 1.17; 6.15, 16; 2Tm 4.18; e cf. outros exemplos de ustilo elevado — “quase doxologias” — em 1Tm 3.16; Tt 2.13, 14). -A expressao de sua indignidade pessoal (Ef 3.8; 1Co 15.9) recorre em | Timéteo 1.13, a fraseologia “se nao... como...?” (1Co 14.6, 7, 9) se encontra também em | Timo6teo 3.5; além disso, quem, senao o Pau- lo que conhecemos & juz das dez epfstolas, poderia ter escrito esta li- 8. Discuti este verbo em minha dissertagio doutoral, “The Meaning of the Preposition divel in the New Testament”, pp. 83, 84. 26 EPISTOLAS PASTORAIS nha intensamente pessoal e exuberante: “Combati o bom combate, com- pletei a carreira, guardei a fé”, etc. (2Tm 4.7, 8)? Um relance nas frases das Pastorais que Harrison sublinhou (para indicar que também se encontram nas dez) acrescenta ao actimulo de evidéncia em favor da autoria paulina, ainda que nao fosse a intengiio de Harrison abonar tal conclusao. O argumento segundo o qual Paulo nao poderia ter escrito as Pas- torais uma vez que 0 estilo de certas passagens nas dez nio é caracte- ristica de 1 Timéteo e Tito nada prova ou prova demais. Existe algum autor de nota que sempre, em todas as circunstancias, em todas as Epo- cas de sua vida, e sem importar a quem escreva ou sobre que tema escreva, empregue a mesmo estilo sem variagdo? Naturalmente admito que ha um notavel contraste entre a fraseolo- gia de estrutura extensa e complexa de passagens como Efésios 1.3- 14; Filipenses 2.5-8, de um lado, e as muitas admoestagoes breves e cheias de contetido das Pastorais, por outro lado, Porém, esta compara- ¢ao é justa? As sentengas extensas nao estaéo completamente ausentes das Pastorais (ver 1Tm 1.5-7; 1.8-11; 1.18-20; 2.5-7; etc.). As deciara- cées breves sobejam nas dez. Tampouco é justo comparar o tom exuberante de certos paragrafos nas dez, com a forma de expresso mais calma e prosaica que caracte- riza grande parte do material das Pastorais. Nao se deveria comparar | Timéteo 2.8-15 com o vigoroso climax de Romanos 8, e, sim, com uma passagem mais ou menos semelhante: | Corintios 11.1-16. Tam- pouco dever-se-ia alguém pér Tito 3.9-14 ao lado de | Corintios 13, mas junto de | Tessalonicenses 5, 12-22 para comparacao. Se as varia- gées no estilo provam um autor diferente, entao o autor de | Corintios 13 nao poderia ter escrito a epfstola a Filemom, nem o autor de Roma- nos 8 poderia ter escrito Romanos 13! Além do mais, nao é inteiramente natural que o homem que estava bem avancado em anos ao escrever as Pastorais, agora, quando a car- reira estava chegando ao fim, empregue um estilo mais reservado? Sentir-nos-famos surpresos com 0 fato de que com freqiiéncia nas Pas- torais notamos que esse fervor rude e vigor fogoso dos primeiros anos haja desaparecido? INTRODUCAO 27 Quando as Pastorais sio comparadas com aquelas segdes das dez que formam a base de uma comparagio legitima, torna-se evidente — como ja se indicou por numerosos exemplos — que seu estilo é caracte- risticamente paulino. Alias, 0 estilo dessas trés breves cartas é tao no- tavelmente paulino que varios criticos se disp6em a abrir uma conces- sao. Admitem que num ou noutro lugar se encontra material genuina- mente paulino; por exemplo, as notas pessoais que se encontram em 2 Timéteo 4.6-22. Nesse pardgrafo ele solicita a Timéteo que venha an- tes do inverno € traga a “capa” do prisioneiro e os livros, especialmen- te os pergaminhos. Demas é descrito como um renegado e Lucas, como leal. HA um breve esboco de sua “primeira defesa’”. E saudagdes pesso- ais sdo enviadas a varias pessoas. Uma passagem um tanto parecida é Tito 3.12. Ora, ainda que alguns criticos (especialmente alguns dos primei- ros) tenham sido bastante ousados a ponto de considerar também essas notas pessoais como sendo obra de habil falsificador, o qual tentou dar colorido e verossimelhanga a seu habil produto literario, e que inven- tou situagées irreais — porém de aparéncia real - com o fim de alcangar seu objetivo, ao mesmo tempo que bafeja ares de profundo respeito pela verdade, essa solugao nao encontrou aceitagao geral. E de muitos angutos objetdvel. E dificilmente provavel gue um forjador usasse tantos nomes pessoais. Além do mais, ele se veria obri- gado a fazer que suas notas de toque pessoal assumissem um aspecto por demais real e vivido. Seguramente, nao teria falado de Demas em tom desfavordvel (2Tm 4.10), que em nenhuma parte € tomado por Paulo como desertor, um homem que se havia apaixonado pelo mundo (contrastar com Cl 4.14; Fm 24). Mas a alternativa proposta por outros criticos negativos é algo melhor? Esta alternativa transforma o autor das Pastorais num adapta- dor que tomou certas passagens genuinamente paulinas, acomodou-as a Sua propria composicao, e assim deu a impressao de que Paulo era o autor do todo. Esta teoria, porém, nado explica como € que as transigdes do mate- tial genuino ao forjado veio a ser tao fluente. Como ja se observou, poder-se-ia esperar que as costuras fossem percebidas! Além do mais, nao é estranho que da correspondéncia original entre o grande apésto-