O corte epistemológico e Euclides da Cunha

No tempo em que a ciência adquiriu pela primeira vez a
plena liberdade de pesquisa e expansão, se formou uma
ideologia progressiva a lhe dar cada vez mais foros de
verdade e perfeição absolutos.
Na luta contra aquela que se achava ser a derradeira contra
a religião não era

possível admitir erros e eventuais

lacunas no caminho da ciência e dos cientistas.
Segundo os critérios tradicionais do conceito de “ corte
epistemológico”tirado de Gaston Bachelard ,há um
momento especifico na caminhada do conhecimento em
que

tudo

que

é

superstição,perfunctório,ilusão(ideologia),dá lugar a uma
pura adequação entre o discurso do cientista e a
objetividade.E todo este abandono ,o abandono de uma

parafernália anti-cientifica se dá por um método que
permanece para sempre(?).
No fundo isto deriva da compreensão do papel histórico e
gnosiológico da contribuição de Galileu ,que fundou a
física.
E dentro do espírito do século XIX de usar como modelo
das “ ciências sociais” as “ ciências naturais”,as primeiras
seguiriam sempre o mesmo caminho.
Contudo

uma

simples

e

despojada

olhada

sem

preconceitos na história de ambos estes ramos do saber
humano e nós veremos que o caminho das descobertas não
é tão simples assim.
Vamos usar o exemplo mais famoso e clássico do corte
epistemológico:a

contribuição

de

Lavoisier

e

sua

balança.Realmente depois de Lavoisier a química se livrou
inteiramente da alquimia porque fez medições precisas

com o uso da balança e as combinações entre os elementos
perderam o seu caráter especulativo.
No entanto antes de Lavoisier Priestley já havia
descoberto o oxigênio e já usava para isso técnicas
apuradas de investigação e todo o desenvolvimento destas
técnicas teve reflexos no surgimento da balança no
laboratório de Lavoisier.
Não é verdade,nos chamados saberes

sociais, que o

passado,como supostamente teria acontecido com as
ciências naturais,não teve importância em construir certos
arcabouços essenciais.
Pestallozzi tem estudos sobre o papel da mãe na criação do
filho e a teoria dos sonhos tem mais de quinhentos
anos,fatos reconhecidos pelo próprio Freud,o mestre da
distinção clássica das “ ciências” sociais.

Euclides da Cunha é muito acusado aqui no Brasil de ser
uma mistura inútil e monstruosa de literato discutível com
cientista,notadamente na questão do papel das raças,mas
ele expressa em si mesmo,de uma forma original,este fato
notório do conhecimento humano:que ele não dá saltos e
vai por tentativa e erro.
“ Os Sertões” expressa isto,erro e tentativa,acertos e
inadequações e nem por isso o seu escopo não é atingido.
Euclides foi designado a esquadrinhar o grande problema
do Brasil,que deveria ser enfrentado por intelectuais e
políticos ao longo da república,que,apesar dos erros,vinha
eivada

de

fundamentos

positivistas,científicos,o

conseqüentes objetivos de civilizar o Brasil.
Neste sentido a identificação do salvacionismo como
característica nacional (e da América latina também)faz
dele altamente bem sucedido.

Nenhum cientista posterior poderá alegar as suas falhas
para abordar o Brasil de forma diferente porque esta
descoberta é inelutável.

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