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MUNDO ELEGANTE (COLLEO(AO DE HISTORIAS, BIOGRAPHIAS, ROWANCES, TOZS14S E DRAMAS) CAMILLO CASTELLO BRANCO ALLUSTRADO- (COM O5 RETRATOS DE D. PEDRO V; PRINCEZA AMELIA, GARRETT, ROSSINI, E VARIAS OUTRAS GRAVURAS ae ie © Acouraravo LISBOA LIVRARIA DE MANOEL ANTONIO 1 .ANPC 8 1303 ® he Rua Liiz de Camoes, R10 OE JA ~ 0 MUNDO ELEGANTE ~* PERIODICO SEMANAL, DE MODAS, LITTERATURA, THEATROS, BELLAS-ARTES, &c. son aoaie 9s re. Seber alse ems Kt Rein BSH oa que ja ouvisse dizer que woxno-euecaNre seri 0 mundo-patarata? (“Spon sannnta qe ona inguigar-me] ha una os aman gic, ea ql se prov qe logo no principio! . ‘o mundo cabe n’um eésto maior que 0 mundo (© mundo elegante & a sociedadepolida, lustrosa,| A elegancia tambem ¢ synonimo de lindeza. invernzada no corpo e no pensamento, na acglo e} A sociedade-elegsate nko pide ser substancale tna palavra, na intengio © na obra |tormalmente a sociedade-tinda Patarata quer dizer ostentarto van. | A tomarmol-a assim, famignriamos com inenso Flegancia quer dizer esedlha. derrancado olfactos modestos que entrariam a es- Poderio imparceirar-se as duas coisas n’um mes-|pirrar imo individuo, n’uma mesma classe? A lisonja & aassaftida das boas almas, E" onde bale © ponto, escolhidas, ou elegantes. Demonstrado que a ostenlagio van & a maxima] Na sociedade escolhida ha pessoas que lem a con- sciencia de serem feias. A essas, se thes dissessem palaratice, o mundo-elegan rannica da logica Por outro lado, evideneiada a urgencia da pata ‘ob a pressio ty ubsereva para este papel dedicado aos dons da for- mosura» iam vér 0 signatario da coisa escripta, ¢, rata na vida real, como as visualidades na illusio conscias de que nio inventamos elixir com que f- theatral, a palarala é um incremento da civilisagdo. |zessemos o milagre primeiro em nés, rejetariam 0 O luxo € 0 estimulo das artes e da circulacdo do jornal umerario,-dizem of €conomistas infalliveis. A pa-| _ Q wuNvo-euecaNre faz-se para todas as caras pos- laratice 6 a arte amestrada pelo aguilhio do luxo, |siveis, dese a hotocuda até 4 ana egante a Para todas as intelligencias imagi acerescento eu. Ora, se 0 mundo eis 5 summidor das especies que constituem 0 luxo, ¢ o| Para todas as progenies admissiveis na ordem da fomentador da prosperidade das lo-palarala, Para todos as virtudes ainda as maishypotheticas, s, segue-se que| prop © mundo-elegante & 0 mut a oO MU * Fima sociedade que no tem dbrigagio de ser outra coisa logo que & elegante. As vida como as alforreeas. passaro é um animal voador, 0 peixe 6 um animal elegante é um animal... elegante Diz. A. Karr que Deus fizera a fémea, e o homem a missio 6 andar 4 tna do far revolto da jadador, 0 replil ¢ um animal rasteiro, 0 a mulher ; ora a mulher nio se limitow a fazer do macho um homem, fez do homem uma brochura, de- pendente da habilidade do encadernador, O espirito subia da glandula pineal p: © entendimento desceu a brilhar no yerniz dos sapa- o frisado tos; 0 coracio intumecido infunou o papo da camiza ; as aspiragies grandiosas acolchelaram-se abotoa-| dura dos brithantes; os apértos d’alma apaixonada passaram para o atezamento da luva. A alma, com quanto seja um ser imponderavel, polim este lafelés ¢ lemistes, cale nto, enluva-se de pellica, bambéa-se em coxins; ¢, se exerce a gumas operacdes iatellectuaes ¢ philosophicas, é quan- na éuba do se mette no estomago, como Diogenes Do mundo-elegante sio excluidas as pessoas de todos os sexos possiveis que niio provarem que dis- pendem como se tivessem para mais de doze mil eru- zados de renda os tom ou ni, essa averiguacdo incumbe aos langadores de decima, impostos annexos, e quinto| para amortisacdo das notas, C4, 0 essencial € condicional 6 parecer que os tem, porque a benigna lei economica da circulagio monetaria acceita como factos legitimamente consum- jodos os factos do dinheiro 6 alfaiate, mados Porque a modis| © sapateiro, o lu- veiro, o boleciro, o camaroteiro, e os demais satel- lites do orbe elegante, sio entes de um natural tio sineero, que nem por pensamento suspeitam da pu- reza dos mananciaes, d’onde a moeda deriva pelos meandros da sociedade escolhida Como quer que seja, a sociedade hondsta nao soffre desaire encazando-se no mundo-elegante. A pataratice d’alguns raios postigos da« boa roda » ni | NDO ELEGANTE. tem que ver ‘com 0 cixo—a parte san e legitima- colhida da alta sociedade. A proposito de alta sociedade, vinham aqui a mente es ponto judiciosissimas reflexdes que ficam na pasta para uma estopada opporluna. Ha de entio dizer-se que altributos se requerem no que pretende ser aforado na alla sociedade, e tambem o grau de culpa que 0 torna © mundo-elegante, na segunda cidade de Portu- desaforado. gal, denota uma civilisagio muito adiantada. Aqui € tudo asiatico, menos o espirilo que se 1a quasi nada para as idealidades do orientalismo. Regalia materiaes, fausto, cortezania, gentileza, puritanismo de raga, galhardia, donaire, airosidade, feiligaria de gestos ¢ maneiras, é um pasmar 0 que por ahi vai d'isso. Nao se explica a celeridade com que as camadas se adelgacaram n’estes Vine annos ultimos. A que estava entio no topo da jerarchia social ficou fazendo a8 mesuras solemmnes das velhas agafalas, para se no mesclar com a graciosa desenvoltura da sociedade Esta, porém, gue novo, surgiu de improviso, feita ¢ composta, media. com toda a pujanca de-um san- como se o bom tom the fosse uma heranca de seculos. pasmoso ! As damas portuenses sto muito mais illuminadas que os homens. 0 mundo-elegante constituem-no ell n’um salto, ¢ admira-se o desembarago comedido das senhoras, ¢ o incolhimento canhestro ans. Q mais audacioso encosta-se ao batente fa do saldo, e nfo ousa transpor o limia dos da por rsem que a rabecada do cdr, nuncia da primeira contra- di ca, authorise uma entrada abrupta, como a dos rapazes pela eschola dentro. Este acanhamento, porém, 6 de bom agouro. Os homens de espirito ¢ talento sto os que mais se acovardam diante de senhoras. Aqui ha muito ta- lento e espirito, por forea. 0: der patetas, os lorpas, os atiradigos so por via gra os’ mais festeiros:¢ festejados ‘na sociedade, umas vezes com a virtude christan da indulgene’ outras com o riso zombeteiro da ironia. © MUNDO ELEGANTE. 8 wfc in dcp Te pnd de tolos, 0 primeiro eidadio é 0 mais industrioso, 0 mais Ha de tudo por ea, lowvado seja Deus. E bom 6 que baj para que os tedios da unifor- ddor-| Pres i nio hia modos de vida; agora é tudo vida por cer- dor, mais velhaeo. midade nio volvam 0 mundo elegante js formul; minhocas da velha sociedade, em que 0 elegante to- tos movdos. AUG a lilleratara, por fim, depox a sua di- rmava a quinta chavena de chi a pedido da dona da| es ssmesrstcees Be aets Ook : gnidade entre os tropheus... quero dizer, entre os farra- a dancar 0 minuele, casa, torcia um tend jos de Camis, de Bocage, de Qaita, de Filintho, de No- quanto a menina fazia tossir ao eravo quatro 00195] tases da Cunhs, de Barreto Feio, de Lima Leitio, © roufenhas, com grande applau tenia, a sociedade ‘Um mundo assim elegante pide e deve ter um| —Respeito aos grandes homens, aos austeros guanla jormal, um como archivo dos seus faslos, uma especie dores da arca sancla do suber! Respeito a e de acta em que se ‘0 inserevendo os phases da ci-]4¥¢ ainda s ha n'esta carcass, chamada Portug r Fallo.d’uma fitteratara pita, que por ahi se fax na vilis De hoje a cem annos, quando o Porto altingir 0} seu deating detmaxita perfeciblidade, ‘nostos nelos|[“*Pirito sndeu e reprobo do sizo-commum 26 atreve 40 io portuens gareta, n'esse vallo por onde so escda a vara de quanto aaaaaae ata joraal com eterno do uma ev, eee dass, como fe en profain dispense , uum aoviiado pelo menos egual a0 do sapateiro 6 remota. Os nomes contemporanees, que Mee enn en ello mio coasegue 0 orificados, arranjam barala tas veres aqui devem se sabio fazer umas botas; mas com papel, e tint, e pena, immortalidade assim, 0 ateino fazer um folbetim. Falta saber que este jornal abomina a sciencia.| Se nao fosse iso, nto se vendia o farrapo ; a manu- Aqui s6 se esorevem coisas que o leitor pide esque-| factura do papel seria uma industria morta; calava-se cer uma hora depois, com tranquilla consciencia de| gemido do prelo, e gemia 6 typographo; o snr. com= que nto pordeu coisa alguma mendador Antonio José nio teria quem anninciasse & Abjura-se tambema satyra, eacritica., Cada qual] Fares que elle foi para as caldas das Taipas; 0 conse theito J 4: Joao daria quinhentos.reis aos entrevados pide fazer o que quizer, © viver como quizer. | lpa-k "pn Wei Yeap)" 08 Hammad he sedan «fra; 0 hhonrado capitalista José Antonio voltaria da soa quinta ae cecavre, emi, nijo teria um jornal, nem o bello sexo —_-ee—ms—===— uma galeria de typos especiaes. tudo, castenso-ms sem ninguem dae disso fé; 0 Mevoc ALBUM. Fsla homenagem é-Ihe vida, Aqui estamos nis, sacristio devolo, balancando o thuribulo da myrrha e do incenso... (no se diz do owra, para nio mentir, nem Consazgra-se n'este periodi¢o uma seccio asmulheres| offender o melindre clebres por bellea, talento, valor, coraca0, ¢ muitas| Sse inearecum dignamente a senhoras, debuxani outras coisas com ligeiras link aras e biographias das que mais, E’ novidade, na imprensa portngueza, isto. E uma] resplandeceram atravez dos seculos, ¢ das que ainda bei~ jdéa que inculea idéas na empreza do Mexpo-xuecaxre. | ham na escuridade da historia, quasi sempre grata a E', som vaidade, umn invento que promette a este papel | mais preciosa parte da humanidade, & joia da ereag uma vida Tonga até ao fastio, (0 meu fim & incovar frei Hilarido de Bota (Ora este frade escreveu a favor das sla invengio, e a do bitame imperial de Marrocos, nilhores um pa pertencem & eategoria das pataraticesillustres. ri@ de mil e selecenlas paginas, in-folio, em latin. E’ preciso acceitar o mundo como elle e fez, porque| Ainda lia quem abomine os frad nao 6 possivel que o fizessem assim. Faca eadaqual por| Sio melhores estes litte 4 © MUNDO ft dl Micheli, e S et tum péco volume de treze Sahiu cada um com sadas a res- (0 livro, peito da mulher que, ainda entenda-se)! Bem haja frei Hilario de Bota, que geracbes desco- Seja a primeira a mulher divinisada por um grande poeta. Laura. Seja a segunda a actriz, que enriquec livro de ouro da arte. F? Adriana de Lecouvreur. terceira 0 gra paginas do 10 das cem novellas, que nenhum pae de familia deve consentir em sua casa. Margarida de Valois, a rain Abi tem a Laura de Petrarcha, tal e qual, De Pe cha, disse eu! Pobre poeta! Laura foi tanto d’elle como do leitor, e mink mos-lh trato, e 0 pobre homem teve o infortunio de amar no seculo XIV, em que era mais facil arranjar dex originae que uma cépia. Isto agora é outra coisa. Depois da mi- ‘io de Daguerre, qualquer de nés pode obter uma paixdo em lamina de zinco, com cap isto basta p: de Navarra. Nés, ao menos, possi ore de velludo, m coracio t-Preux tratos, que passam toda a sua vida a beijar fervorosamente o vidro, e reunem em cas nas de latio su completo de Ha de demonstrar-se por uma diss » opportu namente que a profusio dos retratos, até certo ponto, explica a moralidade dos originaes. n 1308, e morreu em 1348. Nenbuma muther formosa devia querer viver alén a satisfazer as necessidades de bem morigerado. Nés conhecemos muitos Sai e Lovelaces de lami- icientes para 0 fabrico de am servigo dos quarenta anos. Se Laura asistisse aos faneraes da sua belleza, e dei- ELEGANTE. nhecidas esqueceram ; mas que os clamores da imprensa, calando no animo das senhoras, vao salvar do ingrato olvidio. Principia a nossa gloriosa taret: Venham para estreia tres celebridades. cdo contasse que ella cheiro dor sciatica na perna esquerda, e um hoje d'ess Vite ¢ um annos, e espremeu do seio d'almaa Petrarcha Lrezentos e sete sonetos, ou quatro mil duzentos e no- venla e oito versos, ou qua setenta e oito syllabas, nio fallando nos desvelos da pon- m enla e sete mil duzentas e 0, porque a’aquelle tempo nio havia ponto te, digase de passagem, para n anachronismo. a gente de boa {¢ quea donosa feitice menina franzina, pallida atar-se dos deb jo, toda poesia, toda grio aromatico ado ao fogo das paixdes mundan bindo sempre em columna de incenso para a sua origen emfim, julgam-na martyr do seu amor de yinte anos, amor, que, alfim, a deixa na sepaltura, menos 0 ecoracio, que ha de 10 poeta nao sabe em que regides ignotas, onde quasi todos os poetas s casa ra isso 0 que pensavam? Inganaram-se, tenham paciencia. Laura tinha um rosto sufficientemente cevado de bra escarlate. Por cima de cada olho arqueava-se-lhe um rofégo de palpebra somnolenta, e pesada. A bo- checha resistin até final ao sorvedouro do coracio. As farlas madeixas ondearam sempre sobre o jaspe do vantado collo. N’essas formas mais robustas que esbellas virgulas, nem simo no assacar vinel corporaes, tod do ceo lan mas su- eum | r entregue os O MUNDO ELEGANTE, . hha muita seiva, giro de bom sangue, pulmies sem tu- bereulos, esophago desimpedido, e por ventura um esto-| 0 vigoroso e patriarchal. Quando digo patriarchal, 0 me tomem 0 estomago de Laura eomo de patriarcha, ‘minha mente dizer que, na antiguidade, os eston gos, antes do invento da culinaria, digeriam os vegetaes| tela cris como a madre natureza os dava, e viviam a bay de sete seculos e mais to a0 corpo de Laura; em quanto a ‘alma ha muito que se diga, para desengano e quietagio| Isto em qui dos coras Pensaan que ella se devorow mos fogos da sua virgin-| e? (Nao sei bem se 6 pertenga da alma este impor fe quesito). Laura casou mo rio fazia sonetos: proprietario de Sa (0 poeta vin Lau com um tal Hugo de Sade, que! mas em compensagao, era um a egreja por ovcasiao da Se- -sancla, ¢ teve o impudor de e seraphicos para a mulher do seu proximo. Laura, que tiuba Ii 08 seus prineipios de san vietude, mas que tambem linha o seu todonada de garrida e Io- grativa (traduzam coguétte) deu a0 poeta certos ares de ‘comprazimento que o tolheram Ahi comeca o homem a sonetar de modo que era ‘mesmo uma lastima! Razio tem o divino Garrett quando| diz que «a propria Law diga e fastio, todos os seus louvores, se Ihe appresenta: sem de uina vez ddecurso da sua vida. » Fu acho que ella nio Ten nenbum, porque o poet dda sua pai sombrado por essas| as de Christo, com a alma atanazada e inferuada ua difficultosa rima do soneto. A mim nio me admira matal-o a sandade; o 4 espanta 6 nio © matarem os sonetost era capaz de lie, sem fa quantos yersos inspiron a Petrarcha n na casa e falar em prosa Onde o infeliz mais se carpiu em lam les tr0¥ foi ao pé de uma fonte celebrada por suas choradeiras, @ onde ainda hoje os viajantes... bebem, se lem sade. Vite ¢ um annos de namorar em verso, sanclo nome! Que seria Petrarcha se vivesse hoje Era um verificador de alfan vvesse juizo; se nio, a veral-o 0 demonio do soneto, 0 yporanea, tinh a da sua terra, se ti= ura conte homem, por causa dima L levado muita paneada, Eo peor & que ella nio era Ii Segundo se infere de sei tura parece que nunea. chegou amada, ss por elle duzias de sonetos, a erea-| sab ‘que era assim Dex annos esteve elle ao pé da fonto, e aqui foi a Roma para ser coroado no Capitolio, @ depois, melhor avisado, foi para Parma, onde era areediago, comer a et olbos menos | = prebenda. Nao acho muito compitivel, em boa moral, a dignidade ecclesiasti por Seca e Meca. Laura morreu de peste em Avinhio, nio se sabe bem se com cheiro de sanctidade; mas com reputacio de bon esposa, mie extremosi, ¢ digna a todos os respetos. Maravilhosa coincidencia! Morrew a seis d'abril, na rmosina cidad ma hora em que Pe ates, © poeta sepultora de Laura? Nao, minhas senboras; 0 p a, conquistou renome de no mesmo mez, wo mesmo dia, e 4 mes reba a vira, vinto © um annos aturalmente finou-se de sandade sobre a ta entrou na vida diplo~ mal 4 insoleneia de viver ainda vinte & Dionde se conclue, que o soneto é& um grande respi= ridoiro das paixies, uma optima sangria para evilar congesties eerebraes; 6 0 soneto, emnfim, corn tico para expurgar a aposthy coragio de quem o faz, ¢ de quem o 18 Para os coracdes inflammados o soneto é uma es na do amor derranc pecie de fonticulo aberlo por onde se esilla a peconha do amor. De fome tem morrido alzuns fazedores de sonetos amor, nio me consta Adrianna de Lecouvreur, que o Ieitor eonhece do drama de Seribe em que Emilia das Neves 6 intel me algamas veres, nasceu em 1690, ¢ estreou-se as vine e sete annos no theatro francez.. Texe um triumpho apenas pizou o paleo. Tomou-a saa conto cclebre grammatico dda Marsais para Ihe ensinae a correcta pronaneia, e mio sei que mais, Adrianna affeig Quando te, 0 sabio apenas regongava do seu eamarote ouese a este homnem por a singular acaso. neticam uum soffrivel? A actriz, humilhada por louvor tio poco ls Jo 6 mundo a applaudia fre= quiz ouvir de perto o excentriea, ¢ eonvidou-o urbana - 0 philosopho, amigo dos cartes, J bons bocados como 1 ce niio sei se das boas mu Theres como todos os philosophos decentes, acceiton 0 [jantars mas, antes de abane sd & acteiz que deck: ‘masse as passagens mais distinclas das pecas em que fora pplaudida, Adrianna comprazeu ao pedido, e du Mar |sais, concluido 0 monologo, digi friamente: soffricel, ou menos mal. A acta szodada em seu legitimo orgulho, pergun- tou: que quer isso dizer? Quer dizer que sois artista mais esperancosa qu | tenho visto; mas que essa honita baca tem obrigacio de dar is palavras o verdadeiro valor: als, sere ewwpte | sofricel, € mais nada Adrianna acceiton a censura e o mestre. ‘Teve muitos amantes, ¢ entre tantos, os mais distin~ ultimo, que a emendou do tom lamentoso com que sua habilidad clos foram o primeiro, Mauricio de Saxonia, Voltaire, desluzia por ve Yoltaire amou-a de collaboragio com o marechal de Ihe o tributo de talento, (0 podia, escrevendo uma elegia Saxonia, mas foi sisinho a pa, que o grande senhor i morte da sua discipula. Vista el inimizades e perseguicdes a seu author, nado n’ella o clero que nio consent de Lecouvreur fosse sepultada em sogi enta anos a celebre actria. 10s cincounta. Era Os formosura Morrew aos qui bella como aos vinte n as restantes flores de u mas mio o ser s devorat que mais tard préso. se converteriam nos espinhos do d Margarida de V rece estar meltida n’uma coneha. Que lois é essa terceira matrona, que pa nodas tao farfa- thudas, e que lamentavel canceira se dio as mulheres] dis veres para se fazerem [eias! Ahi tem uma litterata de polpa! As novellas da nha de Navarra sio a chronica impndica dos escandalos, do seu tempo. Brantome, o escriptor mais impndente do seculo XVI, incarece 0 quilate dos eseriptos de Mar- que al e sabedoras de bonitos contos, quei garida a ponto de diz gumas damas espirituosas, ndo viram as da irman de Francisco I. Ma com 0 duque de Alencon, ida de Valois foi casada em primeiras nupeias melancolia, que morreu de depois da derrota de Francisco I. em Pav acter audacioso da yiuva salvon 0 irmao dos tractos barbaros los V ao rei vencedor, exprobroucthe a. villania, assombrou 0 conselho com que Ihe d Apresentou-s patheticos raptos de eloquencia varonil, e eonseguiu des- opprimir o real prisioneiro. O rei de Navarra, induzido pela fama e gloria d: posa dama, repartin com ella o péso da corda, se que nao abdicou inteiramente no talento governamental de sua mulher. M um livro condem garida escreven dcerea da reforma da religiio wido de que ninguem se lembra; mas conguiston uma is suas novellas licenciosas. Lafontaine respigou por li 0 entrecho de muitos dos sens contos, que tambem dam- nificam um pouco a proverbial bondade do plagiatio. Coisa é digna de espanto que a rainha de Navarra, tio pouco respeitadora do pudor alheio, podésse m: © scu immaculado! Dizem que era austeramente vir~ , e que nenhum dos seus maridos se queixira. Isto nao prova nada, se nio que a esperteza nao serve &6 pi fabricar novellas, m as suas obras| ortalidade pouco honesta com as| © MUNDO ELEGANTE. Margarida de Valois morreu eatholica e contrita. Pa~ que fez bem, porque nio era das que precisava me- penta e sete annos tudo isso & facil. THEATRO NACIONAL. A. Redempeao do snr. E. Biester, Cupido lera um 9 do snr. Ramalho, O Anjo-Maria do sconcellos, e a Escala social do snr. Men- i0 as composigées de maior tomo, e as mais timadas e avaliadas no « Theatro das Variedades. » Nao denegamos mereeimento 4s outras. Se quizessemos assignalar aquellas em que a sur. Velloso acareon applausos animadores, ¢ vaticinow 0 muito Gu cate tendo, Romestiamos a Note do Barac, @ André o fabricante, do snr. Dias Guimaries. A snr.* Velloso entra gentilmente na sua carreira. e tyrocinio q ntever glorias & A arlista. Sa o incendrado e ito se pagam em Portugal as voe: para uma arte mais que desfavorecida A joven actriz estuda com ardor, tem paixto pela arte, é dotada da corda sensivel que estremece a dor si~ lad e aviva 0 quadro ficticio com 0 toque real das lage No 2.* acto da Escala social foi egual as actriz cellentes, e excedeu as mais adestradas, suecumbindo a commocio com que electrisira 0 publico. Quando cot fessa a sua deshonra ao conde, e depois ao pie, eleva-se, crémol-o, 4 realisapio da dolorida imagem que o snr Mendes Leal fantasiira, Que magnifico drama 6 este para experimentar voca- hes theatraes! A snr.* Fortunata Levi preenchen magistralmente o papel da baroneza. Ainda a no tinhamos visto tao ea~ racteristica e adequada no paleo. O seu habitual rizo ma- 10, 0 olhar suspeitoso e sinistro que relanceia a furto, ialuralidade da acedo, a espontaneidade dos dizeres tndo inquad naravilha no correeto typo que o « |lebre dramaturgo daguerreotypira n'um dos mais e nentes degrios da escala social como ella & snr. Braz Martins, Pereira, Abel, e Alves sio ere- dores de justos elogios. 0 terceiro d'estes actores, tio potico geitoso para papeis graves, soube manter a serie~ dade do publico, e revelou uma face desconbecida da grande aptidio. Quem diria, porém, gue a parte secundaria do sur. Meres, dstibuida felzmente a0 sar, Paulo Martins, « plivaria a attencio e os risos constantes, a ponto de ser sempre o bem-vindo 4 scena com os seus’ memoriaes! © snr. Paulo Martins arranjou uma cara de preten- dente, como Ih’a daria 0 Sup hilecto se qui- zesse que das suas divinas mios sahisse expressamente tum pretendente para flagello dos ministros! Aquelle seu sorriso de velhaca eomplacencia para com todos os tra- antes susceptiveis de memorial, era bastante incentivo para arrancar a risada dos que ji pasmaram perante um puro ‘de que es © MUNDO ELEGANTE. 7 dss typos, sempre tiumphants, embora esare-| THEATRO LYRICO. on'O sor. P. Martins é um actor intlligente, com cap cidade para mais do que até aqui tem feito. Ta quasi sempre na entrada da tum empeco que 6 detem longo npo quem das raas| vai correndo, nosso theatr, sto daguelas que wou da medioeridade. 0 capri weja, a modestia, € até] ros paizes excilam grandes applausos, e todavia pode o aspeclo io. muilas vezes& sgulicacto direcladesse| dace que pseam Guan desapercebias eutee ni I Martins fot retidoem Lisboa por um desses estorvos,e| oraum preciosa, comecando pela bastard da insta sor. Cunha, tio prestante para as partes graves, como|e omissies que soffre a partitara, Nao importa que 0 para allies de baa comedia. Xo Redemprdoadmi-|engenhn de quem as istrumenta sj teletente: Wit Famul-o na parte do general, ne Anjo-Morve ea um tin do molaro, at parca iarumentaes de que completo mirquer de velba Yara, tmomentos depois, | thor eon o pristpa eff, xo 6 que a maxima ha era tim gallego chapado no chocareiro Par de mortca|hiidade nso pode adliohar, ¥ demas a instewmenta- do snr Duarte de Ss Glo aqui flea e aera pelo qllas dg orchestra. Um Moe dese qe possess rez somanhi| ncamens excl 9 lot scampi, rece des tye pales dapsieg, Aorolla dis oes, | que 0 maaies ead inavtor @A@sempaabo, oatres bor esmerado ensaio, o estudo proficuo rehabilitou artisas| que o instrumento nio existe na orchestea, E sabido que ainda ha pouico solfriam odesconceito, consequencia| juio poueos instrumentistas da orchestra do theatro Iy- infallivel do menospreco de si proprios. rieo do Porto podem cabalmente desempenbar a sua O snr. Abel ji perdeu o sestro da earicatura, delicias| missio. Pide, portanto, dizee-se que as operas, quaes da arraia-miuda, que boje & foreida a applaudirlhe a| née as conhocemos, si0 apenss clos origina: rapa ustural, Asdomasisde articiode uso goso de comnpashamentes spocrypbos., sppareceram em fim; e aor. Abe, salvo ma farca,em| que a parte cantante inlegralme dhe o author recommen o butlsco para salvar-ce da disso." suppress de sens, 1 sar. Pereira emendou-se do tom declamatorio da| Vemos cantores medineresdesempenhandoprimiras tragedia de horrivel reeordacao; declnou de ios papeis| pares, Venos omiidas personagens de vull, porque lan que Ie cram vilenlos; agradon summatnene| 6 pescal da compantia nio as comporta, Vemos tia parte de. Manoel de Castro do njo-Mar‘a gunda partes darbuies a eanlore, eujacorda de enjo voto & deliberalio, desdenham do acanbado dos| épocas, © para todae as naybes. Como scenario divs fem cinco avés calrilas e aprumadas como Deus e as] vezes um interval de galholn. "Nao € aro ser ie pogeaabarearo conto de res ales, sem que lao de parede decor de ral. 0s ci tra os outros, "As senhoras nao gostam do Theatro das| do que faze. Di-se-n que entre sceas ha umna ma- Variedades, porque. nio podem aor vislas cin toda a| nivela que modila o ar haquellslaryages arin opolencia da sua eloganciay Se fnsem para vr, lalver| A seena<-ihesa coisa mos indiferente dese mundo telipaam de enverponhidos diane ds lumeresdeslunt-|sbes sto mis, « a melhoria do etempenbo nunca ¢ lal trates dos clos des. ex. {que rehablife a opera, Do bom exito da estcia€ qu Conelnide o theatro do ent, Pereira Baquet,é deerér|tinpendem os credits dui paritra, em quanta eke- que a companhia das Variedades se trtlde para fac |cugio. As poovas excepciouaes do contratio entendem digna das damas a formoso fabrica do thea, ¢ mais Redundaria em interesee do emprez se pens fe respeitada, as, eavalletas, ele. ¢ dizes uim crime de 8 receita|foasem executad para os emprezarios. Jque as personagens inquadrassem no talhe que oa ‘tos. thor thes deu; que o esinéro de ensaios nunc donvasiado; que'as mutiagies fossem menos frequent € mais racionaes, ou nnnea se fizessem ; que os libretos, er no vestuario, quer na seen: Cumpridos: que ss operas nunca excedessem as forgas da companhia, e da orchestra. 0 publice portuense nao éexigente; mas é justiceiro, e julga sempre com cordura. Queixa-se de que se facam tentativas arrojadas e temerariamente mallogradas. ( fas operas de grandioso apparato nao cabem no espaco material do palco, nto podem ser devidamente ornadas pela pobreza da guarda-roupa, nem podem jimais velar-se com as foreas dos eantores: 0 baixo prego coun parativo das escripturas & a mais eloquente das razies.. ‘s emprezas perdem necessariamente, porque rara oper comporlari sem fastio a quarta repetivao. Sirvam de exordio estas poneas linhas pa mediato numer avall vér as coisas da arte, os operas dadas alé hoje. noi visto que aco n’este, undo a nossa maneira independente de lores © 0 desempenho das ERAS TU. Eras tu, irman dos anjosy Aquella imagem tao linda, Que eu reeordo agora ainda, E lantos annos 1a vio! Eras a luz ondulantey Que seintillavas errante Quando, em aueias, delirante, Te buscava 0 coragio, Qs meus olhos mal sabiam Conhecer a formosura Mas a alma prematur Te sonbava finda assim. No ceo, na flor, que magi Nio sei que era @-que eu via; Sein saber o que sentia, Sentia 0 ceo dentro em mim. Em que o perfume das flores Filtra vida ao coracio, Lembra-me vér-te, indecisa Como a sombra que desliza Nas folbas que a leve briza Beija em dove agitag vando, mais tardey# belleza Os sentidos me ineantava, Ai mintvilma se abrazava Neoutro fogo doutros ceus. Via uns ols... ai! se via, Nas densis trevas, no dia Een de amor d'elles mottia ‘Que esses olhos eram Leus. Que presagio! ra um mysterio, Um fill danjo ivisivel, eptvel met asi dine: Te dét esse olhar diving « Que ora sonbas, ten destino «E"amar, depois... morrer!» O MUNDO ELEGANTE. fms tu! J. morta a erenca Amin estrada da vida, Julguel extinct, perdida A suspirada visio thatos anos decorridos, Eratn jaye, Jt suis, Ghorata os olhos perdidos Como a luz da saltacao, Muitas vezes me eni Avancia d'elles, e e1 uum rosto que via Com olhos cheios d'amor Que dolorosa chimera! Era lindo, mas no era Um ee ve eu quizera, De que seu ardor. ras tu, Agora sinto ae 0 eras, anjo da. vida, Porque sinto reuascida A mocidade, a paixio. Era um impio atheu, © adoro; Nao tiuhi prantos, ¢ choro; Bra um eynico, e céro ‘Quando aperto'a tua mio! Amor d’alm: Nunca fost isto! Oh! a im querida, Podesse eu ser inspirado Para dizer 0 que és! NOTICIARIO MUSICAL. Por decreto real do rei da Belgica foi instituido 0 premio de uma medalha de ouro ou. trezentos francos a0 author do ‘melodrama que tivesse a primazia no concurso das composi- ‘ches musieaes de 1859, Assist por Destin, Ho f Orchestras, tres mil coristas, € ¢ lastrumentist executarem q iadas no programm am quatorze mil pessoas a0 grande concerto dado Wo de erystal em Londres. Eram cinco as istas cantantes ¢ tres pecas annun= Rossini, no vigor do talento e da residencia de Estio, e recolheu a Paris. No conservatorio de musiea instaurou-se uma eschola po- pular de canto. Esté. em construceio um novo theatro para a ope! cidade para tres mil pessoas. Edifica-se nos Ci + teri oitenta e seis metros de largura, cento e ci ‘de comprimento, e arbitraram-se dex milhdes de fran eos para as desperas, Bernardi canta em S. Petersburgo com Roneoni ¢ Tamberlik. Applaudira ‘A formosura & um grande auxilio. para estes ti © flautista Stephano de Szeletzky inventou uma flauta de duplicado effeito, que di dois sons distinctos a um tempo, isto é ito e do Reompanhamento, apoles, onde foi de proposito ensaiar a fio Boceanegra. » ide, deixou Passis, sua ultima opera « Si © Maestro Jacopo €3 Celestial Order daSanti nos yatieimar,fia- dos no merito ja provado deste Le eseriptor musical, lum exito condizuo da sua ultima produecio. 9 MUNDO ELEGAYy,, WALES Mei Julia MlleeDa Gru. S.GRRLL Oy. 9. \c INTRODEZIONE Tnvito a Ia VALZ Sneed Ne PORTO 4 DE DEZEMBRO 1858, 1. ANNO, 0 MUNDO ELEGANTE PERIODICO SEMANAL, DE MODAS, LITTERATURA, THEATROS, BELLAS-ARTES, &. sn rai we Sas weve asin, furl ay ae as pli A MULHER QUE SALVA. te lexi rm qo humano a ensinaram a conhveer-se, antes da doutrina~ romsce cio da experiencia Para cnmulo de infortanio, Portugal é um paiz onde se 18 muito ‘Acoutece aos estomagos famintos, quando se Thes de- nha soffeegui vita para alimento, ass io, que o marasmo ¢ 0 ineruamento do bolo é | vel. Do mesmo modo, quando os Lucullus ¢ os Vit ‘wma, {das lettras expores 2 Frans, (Cor pletou-+ ma voracidade as suas wat. | tragadas, a fome de aprender a vida nos romances locu~ com tamanha intemperanca, que o resultado gustias vomi- Tornem a le do seu log: ve pudico, honeslo, ¢ talves edificante. mago,¢ lier Quito sublimada mente a do romancista, que 6, por certo, douteinario jas lagrimas nos olbos. Mais de uma ver tenho p immerito desta sociedade, 0 mestre Ignacio da antiga| tado is velbas se isto assim era no seu tempo. Faz d6 ver ha, amoldurado pelas necessidades do secnlo! | conslernagdo eom que al Que’ tremenda responsabilidade mio pe deerancados sacerdot m_bellos erystaes, e desfloram as almas florescencia da sua primaver O romance tem afistulado as entranhas deste paiz.| Hla cincoenta annos que as senhoras no liam roman ‘Nao ha uma fibra diteita no coracio da mulher que be- ome custou lo beua morte, e, peor que a morte, algumas dezenas de| vigilias: & que no sal mos no que por ci se esereve e copia. O anjo da| voutade paternal, nein foge de certos livros, como os editores de cer- | carta a tia em dia d'annos, copiada do « Seeretario por~ tos authores. A eandara virginal de quinze annos & a coisa mais equivoea deste mundo, se | repngnancia o facto eonsummado, ¢ castigavam a filha ar para a ésto epigraphe, ¢ vero que temos ro-| tivas 120 para ologar do coracio. nissio do escriptor, principal-| Ku tenho assistido a esta deslocacio de viseeras eom amas sollam um gemido sobre os] unisono com o assobio da pitada! Compun igosa do dlho desvidrado dou das letras, que ve Jagrima preg que ecorda da honestidade com que foi amada pelo seu into amante, ‘enjo descobris am lée, Algumas, rebeldes a seguiam soletrar e escrever uma uez» de Candido Lusitano. Os paes aeceitavarn com forcando-a a um trabalho litterario’semanalesckever em cada segunda-feira o rol da roupa stjay 4 n'esses tempos, e nos dez anos em seguida, os propagandistas da corrupe maleficio, vertendo para pessima linguagem portugueza novellas fr aderam transpor as ra o tentaram exercitar 0 s vezas, «que couce da bagagem de Junot. Em 1814, a imi lade, sopeada até ent irtude das novellas do principio d’ irlude recompensada » € « 0 es , ¢ despejou do regaco dissoluto a versio de « Tom Jones » 0 « Sophia » de Crebillon, 0 « Candido» de Voltaire, equejandas fatilas incendiarias que pegariam nos eoracdes, se a manteiga tralisasse a forea comburente inarios do worali impertin ‘st culo, taes como « A ceravo das paixdes » quebrou as ferro} 0 unto das tendas nao ne} essa droga que acirira os paladares sa festim de anteopiphigas de 1793: orancia, os livros francezes até 1830 en- Mn os animos feminis hermeticamente calafeta- A mulher era 0 anjo caseiro; era a alma da dis era a providencia da celoura, a do hi na costella do mesmo. Gracas 4 ig conte dos. p mem, qual Jehovah a fizera d Osalio era u vez em quando, u sociedade, a pingar com somno, surgia estremunhaida, dizia: Dominus tecum. A menina casadeira nio se erguia de ao pé da mie. 0 noivo murava-a de Jonge em fellina beatitude; e, no auge da sua audacia ha, pisca- va-lhe a furto o olho, onde reluzia a paixio. Nio havia entio destes homens mulherengos, que alambieam a parlenda assuearada, coando por ouvidos incautos 0 veneno do estylo que é o mais corrosive de quantos ha na toxicologia do amor. A mulher actual quasi sempre vielima da rhetorica requentada do. ro~ mance, que esteril patalvilho Ihe incampa como coisa da sua alma. Eu conheco algumas que resvalaram ao abysmo da perdigio pela rampa d'um adverbio eufonicamente truso n'um periodo arredondado. Este sortilegio da lin= guagem, que infeitica e da quebranto és mulheres, é apa- uhado no romance. 0 coravio de certos individuos acha- se muilas vezes a paginas tantas de tal novella, “Sem fi gurinos © romances nio haveria corpos appresentaveis, ate muita gente das aventuras gloriosas de alg midalmente los. Eu nio. Tal ha que se vos afigura zote @ mazorro dalma, e, todavia, a0 lado de mulheres, dispara dese cargas de eloquencia sentimental, que ¢ um pasmar, Nao ha asneira, dita em nome do coragio, que nao seja laus reada, ‘Todos os Petrarchas lorpas tem um eapitolio. A mulher, por via de regra, é de seu natural tao we= nerosa e sensivel, que chega a recompensar a pertinacia do homem que a nauzeou primeiro: 0 segredo deste prodigio esti na influencia contagiosa da babozeira. A a matrona esp jeitos py rio cerrado, onde apenas, de| © MUNDO ELEGANTE. | mulher que fez choratr um'tolo, e vin rebentar lagrimas de uma cabeca de granito, cuida que faz o milagre de Moysés na rocha de Horeb. Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva. D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de na~ moro por: Mew amado bem! Agora ji diz: Anjo! ou Serafin! Ver-te e amar-te foi obra de wm momento! era d'an- tes a phrase sacramental do exordio. Ago encontrar destes arrojos: Amar e morrer é meu destino! * 0 romance, copiado a horas mortas, & luz fun da vela de sebo em placa de folha de Flandres. , depois, o pessimismo do romance nao esta sémente na rapsodia, no plagiato ridiculo. 0 caso em que elle mais damninbamente influe nos espiritos é quando as naginacdes frivolas ou compas ‘ees da vida phantasiosa da novella,¢ eréém que geral do viver é essa, Em quanto a mulher estuda sémente a phrase que appliea bem ow mal, qu: we a vaidade de parecer o que nio é, bem vac. Exemplo: a apaixonad de ecebél-o pela pri sua casa, no tOpo da escada, antes de deixar-se apertar a to em magestosa postura, deu 4 fronte a yegiwalliven-d’ uma Phedea d'aguas-furta das, ¢ dis O meu am de longo dese agt nao é raro was sv intalham os lan- ado a inlo m_ men amigo, ao weira vex em mio, estendeu 0 brago di solemne: Juraes levar-me ds aras? esmungava balbuciante um prefacio studo, soltou um frouxo de riso insolente, e w as escadas por nao poder supporlar o espectaculo da dama inyergonhada sem saber de qué. Bis-aqui uma que 0s romances de Arlincourt salvaram ; quantas, po » perdidas por guardarem as phrases ridiculas para o final? 0 grande mal é.a identificagio da vida romanesca no espirito; 0. veneno incuravel 6 esse revulsivo que tran idéas chans recebidas com o leite, e as doutrinas infadosas que fazem da vida uma vegetacio, e da alma um arbusto bravio que dé flores sem aroma, e frnctos sem sabi Seja mil vezes bemdita a ignorancia de nossas mies, © nossas irma A vida e: torna , © moss monotonia de que pou- ns jf se saboréam no intimo viver, requer muita estapi dex feliz, muito somno a toda a hora, muita dizestio so- porifera de boi cosido. Esta bemaventuranea $6 péde trazél-a a restauracio da ignorancia supina, Comecemyos paes de familias por cireumvalarem as suas casas com um cordio itario contra a peste do romance que se no abonar com a re~ couhecida pudicicia deste, e alguns eom que o mo- desto author tem fomentado toda a casta de virtude, Vou lembrar um alvitre, enja adopedo poder | de momentosa utilidade na regeneracao dos costumes As reliquias das antigas v ser O\ MUNDO. ELEGANTE, se nos velhos; e 0 Porto, de preferencia, aracas orca roffactaria da sua velba organisacio social, ineerra qua-| tro duzias de archontes dignos da Grecia antiga. D'entre estes fra facil eleger uma corporacio ceusoria, incarre gada de examinar os livros que giram no mercado, ¢ ‘com as sins respeitaveis assignatar gue a javentude feminil podésse lor sem damno da sua inniocencia. D'ésCarte, of velhos iio eircumsereveriam a sia virlude & egoista missio de eensurarem o vicio da mocidade i le. Confessamos todos que a velhice 6 exemplar nesta terra; mas, em annos verdes, a vir- tude namora-se mais da doutrina, qué do exemplo Desde ja 0 se di assim publica ¢ Voluitatio téstemuaho. thor submete este romance 4 eensura dos ancia do cordial acatamento com que venera os cabellos bran) ens, posto qe, até hoje, a minha sina eapricha em fic zer-ie malsisto desses que eu mais quizera hemquis- tar, @ cuista ainda de um pasiegyrico & coreupcio senil| dos que, por desgracada excepcio, desgarram da norma de uma murrinhenta virtude BIBLIOGRAPHIA. Da typographia do snr. Sebastiio José Pereira sahi- am ha pouco para o Rio de Janeiro oito mil exemplates do segundo volume de poesias do pocta portuense Faus- tino Xavier de Novaes. Nao sabemos que azedume indispiz o bemquislo a thor com a patria, para que elle impedisse que em Por tugal se vendesse um s6 volume da sua obr 0 snr, Novaes era um poeta tio festejado em Port gal como no Brazil. A querermos de algum modo deci~ frar o enigma de semelhante probibicao, julgamol-o ca- Dricho de poeta 6 volume levava estampada a seguinte canna. Mev rnasao Novaes, Comeco protestando conten 0 frotispcio do teu lineo ‘Stowicse i myo crn de mint uizo erico! Duma assentada um substantivo © um adj tivo! qual dees mas ambicioso a,'¢ juizo, 08 dois allibutos mais sublimes do en tendineato ‘hitmano,”promettides ass, Faustino, com sesplante, com um sem-eeremonia, com wan pedantaia ea pparde lncovar a tnha tomeada neste meu mud das letra Inne ome ah ts ea en, Declaro a tie 4 Baropa que uanea me passou pela idéa es creyer uma chorumentae condimentost analyse aos teus ver- os: Nunea aide forrageando. tas searas estfangeitas via ea az de setencas em ality! em lam |) para eannenct-te fe que... ba excellentes coins escriptas eu lation. Meno ai ‘4a the preveat com um estirado exordio, preahe de ph. aquelles| [phins,e physiologias, esthtica, 6 pla otros rechetus tp igestos com qué por ahi se Costuna eur Aqul peru € synonitne decritea, Veauue seabeeaa val tear * ‘Vio agora berrat contr wim os bireas da eitica, os eo ile race tease. dos ite, weve a0 6 um hora fetorey a ual, igna de te es estos bere . Eu desadoro to que me trava a uma certariquep estenidade fecunday que nia tema pont de nada plo Pore os livre de uta eit de polpa, vm pensaor.. Deus sores Eonsoinem, § wos cousonemn, no Ca espiito. "um pesado soron abre’o fet livre, ¢ sate v eee Deus atin} quelle manda escrever ua erica ‘Quilgier dos tens lvtos poe ser analyeado' um quarto Je papel. poenue pha ave eens | uha'st,e eserevesue depressa, 0 anatysta escusharmaze uma eneyelopeda para ajar une versoe ‘0 rio, pore, prepars-se para a empreza como o Jesuita, sets pata bot fnfoKio Ds a Side! exoedio dex eapituos Os dois um aytho, : alent hua ted histor do espinto humo deed Peet ¢ poesia zene 0. “Oita, 0. Contronta do hhantico, 0) novo, a analyse ‘do espritualismo. que porsi io seeulo XIN. 0 deehmo & una tentatna prop estinos da poe ‘Oundesing devia Urata de te dos tes versos; mas 0 eri nrdido”pelas cormmocoes 4 prtonissa eal tana ‘due 0 pir ds ports da more... do eenso-commu, Tetctiro ¢ quart Ho ‘tito ecimentos rea | reprehensbes, tudo dos Psies, que diese 3 simuland as barbatanas daquele moastea do mestre Era isto o que tu querias de mim? este supremo esfore di cabers hit i alo annos que tei entrar no inferno das letras: jeu dido de baver pactindo com o demonioya trura due perope etna se commendador pelo alari de’ ports satsieo, que te tha nad por clu Toe ‘de smtarem, comprira a prego de sua no, embnuxavas a€ Moers fe ataazanas 2 ell © puna exusticos nos io, 6 obrigavas a falar a3 ast net fll a8 tar: larga, tnllaas a enbeen dos condignos tris, afore ts Grelhas'— que Isso nao erne tu eapaz de inearapogar eft Garveles com o nome'da victims, dems a mats Cot win fa tum a raposiaho que nto pada bar teas 0 a En medite mente n9 futuro da tua alia e, a faiar-te'a Nerdade, tamem me dew que emer 0 futuro do teu toteles no mente, a possue de bom t fsa, me Faustino, euider sempre que nnas 4 resis de satanaz, quando a provadencia dos alaves st 0 Hasse’ uma ver eomligo, e te\propllasse um capital, ques 4 issima do poets ese Arie O MUNDO: ELEGANTE. juro de seis por cento, te rendesse 0 costeio d’uma carrui em, de assignatura de camarote, de algumas locaes assoprs as nas gazelas a respeito de um jantar, d’um baile, di esinola, ete, Bestificado pelos sete por ee wi lado com Deus e com os homens, e podias eontar com aquella bemaventuranca dos tolos, de que resa Millon : The paradise of] foats ‘Ora, © corpo, meu amigo, o teu corpo de poeta, supposto que tens bellos e penetrantes olhos, nio era melhor corpo que 0 do cego Homero, que Tinha os thesouros de Apollo Feamola aos homent pia Das impertinencias daquelle apparelho digestivo que an turers dea poeta, por eacoada, tina. eu muito que discor- Ter, se viesse a poate escre Tibello conta ofabrico do poeta, Ha um sensivel desarranjo no ansinho desta infeli Crealra,exilada num globo onde a Arte de coninha de Dau gos Modrigues tem quatro edicdes, ao passo que ainda ve nao fthauriu segunda dax poesia de Nicolau Tolentino. Isto ¢ sigmibcatiso, e atrormente veridico! O poeta devia brotar em alphombras de verdura, espont neo como as florinhas do monte, aura da tarde, € 0 ofall dda manba, devia fhitrarahe 0 ar © 0 sueco da vida, mio pelo feopbazo, nem pela traches, mas sim pelos espiraculos dains- Piracio, pelos oraicios ajsoryentes dasua follagem, admittin; a que’ & poeta fosse folhudo como os arbustos das reaibes orientaee Entio, sim, As alts de eleigio andariam sobranceiras a este tremedal em que Tamartine pede unin esmola 4 Franca, em que on hows hos da patria. (dx patria‘. que vellaria') vio, como ty Amigo, lorrar-o pao da vida em tortio.estranho, debs de Gntro” sly onde os suores sio male Ancalmados, e 0s des deiros para a sepultura mais escorregndios. ‘ada de melancolias semos 20 corpo, 20 supplemento fanesto.do espiito, aque tao arrscado trouteste por cay tao milagrosamente sal taste do couce destes egoarigos que tw artagoanas todos os dias om a maquia de fava que se Ihestutalava os gorgomilos, Appareteste a horas. Eras. 0 esperado. dos opprimidos quand fieste estoirar os primeiros extalos do teu latego. uo primeiro aununciat a tua vinda aos pagdos. Disse-Ihes fim prosa que se convertessem a0 senso-commurn: prégue thes’ necessidade de aprenderem a ler, como estod prep ratorio para intenderem 0 « Compendio de civlidade para ‘ntendetem o ‘tatado dos deveres sociaes; para intenderein a fartilha do- padre Ignacio, onde se acham a prudencia et il, menos ua estupider 4 fiqueaa, porque o Redemptor do mundo s6 a pols delileroa itriquecer o estupido para lie provar 0 nenhiln faso que elle farin das riquedas tamed no deserto, Fut procurarce ao fundo-da tua gruta, onde te refazias de bravura inoral para'a tremenda eruzada, ¢ disse-te: « Cas Tigao.» diante de uma sociedade eancerosa is medulas, ty, artista, th, operari tu, dependente Jos ¢aprichos d'um vuigacho insolente, era belo sorte, superior 2.{i mesmo, impusade por. impulséo estranta, eujo.alcane item tu mesino ar undo por estas carues Chorriscalas ‘a mofa, afogar 0 rughdo dos i Tarentos com a bie oi entao que eu receei muito pelo teu corpo Oiheiem redor de ti, e nto vi os marquercs qu Javam 0 Tolentino. das sanbas da. gentalb Feal que defendeu Molire. das tras dos marquezes {ua algibe'ra recheada da muniicente-esmola do throm, que facultava o escarteo inexoravel de Boileau Vite sisinho, Novaes, ¢ algum raro ainigo de ti, e do teu talento, acorocoando-te com 0s gabos da imprensa, furtandoste siiacto do rico em que te punhao estro indomavely no melo de unm gente que te incarava a médo, e te fugia com Como foi que a tdalguin «estes reinos te no con lombos, com 0 cabo da enxada, herdada dos avoeng ‘Nio sei E'certo que alé & data desta o ten corpo passa ineolume por entre’ as feras, como qualiuer dos menitos do lagu dos undiu os | edes, ¢ a tua alma multiplica-se em robuster, em coragem, em ardimento, em petulaicia contra os filhos mesticos da fe- Tieidade e da asneit ‘into isto, acabando de examinar as provas do teu segundo volume de versos, Eissaqui as mi vai dictando: 0 teu primeiro volume era uma galeria de retratos tirados de pertil,'c a furto, e de passagem, ¢maneira que os originaes te acotovellaxam as pracas, nos botequins,ie nos salpes. 0 debuxo era rapido, como as aguarellas, caprichoso como os contornos de Grandville; mas a caricatuta filava 0 bode expi torio pelas orell exposicio da hilaridade, Muitas vezes descurayas a elegancia do metro para nfo ar rebicar de enfeites o que era, de natural, feio e suja nudez, Outras, desgarravas do trilho de teu mestre Tolentino, lame tando que os ‘dleste tempo nio tivesse aquelle porte magestoso que winda tinbam os do seculo do professor de rhetorica: Tinhas razio, meu poeta 0 tew auditorio era 0 poro, o“pord inculto, © povo que « tyrisa com um gesto zombeteiro, e fareja os « ridiculos » com aquelle n'sé alfeto aos aromas naturaes impressbes como a reminiscencia m'as 10 intendesse, s¢-0 oro no batesse as p mas, se 6 povo 0 ada do 180, como « fins tua eal en “tinh, da lin para a for de tan seb Fete i gente contarias que polena entrado’ : ‘Quando muito, serias encomiado por meia duzia de tite tos a quem désses o ivr, eesmoreterias de snimo.e de von- tade quando. visses o bario cada ver mais parvo, 0 teu livre cada ver mais pulvedisadosne late do liveeito. Escreveste como devas, e hoje escreves como deves Ensinaste 0 povo a intender-te a satyra desacurada da po- lider Totentianay 0 poxo te intendera agora. salyra mais s- tmerada, mais tered, mais estudada, e. detsaeme assin dizer, thats fidalga ‘teu segundo liso é um progres Pegaste dos mesinos sandeus « albardastel-os mais secios tm ser do cabresto’ panelleir, abvelasteslhes cabeca ‘que » aos teus heroes de © paladar- mais pecboso ha de sent frieassé. O-esmerithador de locugbes comp epitheto frizante, o impertinente que desdenha do verso sem Philosophia, o mabaffetto, que alee a satyra no contraste de Diniz e Borage, ha de contentar-se do teu live. Verse que = repetidas vezes a idea, porque o teu defeito, aantes, era adoptar © primeiro adjectivo que te oc- A sciencia do adjectivo é © mais relevante dote do eseriptor elegante Deixa li dizer que o m Nio assim. As au Uigosamente. Repara wellas ¢ verds 0 bri vel no epitheto. ‘Achas ds vezes tres idéas ‘ineas, para examinar tres imagens. Recarda isto: 5 ¢ proprio & o primeiro que lembra, de Tolentino um yerso, em que Alto topéte, prenhe de pulvithos ‘Que desea gattego dou fader De quebrados tafuce,vadios fithos, et Hom oii, enfrombado em paris betesta no anal ginete ‘Outra prova no ohio a poate fria Do tuzidio, virginat fret, et sempre assim: um verso para cada exemplo, no primeiro poeta satyrico de Portugal, estou por um triz'a dizer do mundo. ‘Queres confrontar-te com o author dA Fi Revé-te nas quintilhas da tua resposta aquella a eschola do teu tuguezissimo metro ned? ‘Manoel Coco, deste por- ito, © epithetos que he Nao sei se liste, dous annos ditaste Ferrel uriste d'esses hhanciaes © mais sélecto, ¢ 0 tnenos aproveitade pelos metriti © MUNDO ELEGANTE. 13 ardadas 4 adores modernos, Aposto que tinbas degenerado do teu na-| Viramos ef er, baixo como toda a gente - farar'getdssses_infronhado. em trancesis de Hugo de] vidas distancia. Andime por ld com as st3 Musset® Deslurtr-sete vasa indole toda portogueza e thans | plas assio amoiduradas pelas do grande mesie, ao raros resgned (odannado do esranueirismo. |. bir 20 seculo XXIL 0 4 ente, que eu fo por cd ras, Isso tverdade, dessts jue os Herelitos [em prosa um arremedo d ‘en poesia; nay palatta Wola, ew tein, 'Se disserem que bavetbow de assatir aos faneraes da nossa xueu! que se ache de sobejo apouquentado com | reputacio, deta fallar os despeitados, eos {Glos ilumin (0s desgostos propriog “Antes de assstirmos aos Tesponsorios funebres Ue. nos 1 poctia das elena si, dos ar agouram os praguentog, havemos de euterrar muito orp, al de thas para eapiar o iteresce Je muitos. Os poeta | Deus quize, {is payeologicos, os orienalsias suo excellentes icouvisinham com osespititogs| Adeus, mew eato Novaes. Diz aos nos imi de até tary que tracem 0 zeizaenmica que val no frontispilo do yee io aoe de peenci esteem eta ‘queres to, Novaes?_ para quntro esses podtas tin quatro interpretes” a gente sobe com elles um Tinanelra que os sublimes aeree tens, vem a gente eahindo como a areia despejada dos saccos Mo hati selho amigo ‘Terrca-terra, & 0 que'se qiée agora, em que esté provado| —ryea so sao . aque a lug, aceasta lo, io dela poetas, nem arrisea a sua ta AMrgindade a troco de algumas trovas puadas da alma Page Ananany deve a Hitorsa a immortalidade. Por tal preco poucos a quereriam, e ereio até que elle a nao acceitaria voluntariamente. Um amor desgracado, as-| sumpto de admiracio e piedade para os philosophos e| poctas de oito secnlos, deram ao amante de Helos sua robusta intellige aquella epocha, nao conquistaia, lim, e hebre Abailard, aos vinle annos, renunciou os direitos de | com o famoso Abailard primogenito, e deixow a Bretanha, os bens, ea familia, | 0 mestre viu a discipula, e propiz ao conego estabe- para, caval ciencia, andar disputando, |Iecer-se em sua asa, para mais de perto promover 0 de cidade em cidade, tamento da sobrinha. Fulbert era fona, e annuiu & como pensionista, © re- e ella de, e abrin eschola onde concorreram de toda a Earopa cinco mul diseipulos, A leitora nao se Ihe di de saber o que Abailard ens: nto, porém, a, sobrinba d'um eonego, ¢ dotada de pe- a, ‘aconteceu a Heloisa ava; outro sabia, aos quinze annos, grego, la- aprender grat tea e dialeetica o andante di ‘om os professores de philo pre, Coroou of seus triumphos em Par npeaux, o maior dialectico ’aquella id Vietorioso set proposta, aeceitando om do- 16 se désse & mandrice, como costumayay’ Diz Abailard, | numa carta ao seu amigo Foulques, que 0 amor, € nio a célera magistral o impelliam a diseiplinar de vez em a fazer, versos amorosos 4 discipala. A, poesia n’aquelle tempo era festejada como um phenomeno, eas mulheres deixavam-se levar disso. 0 caso € que as endeix mentaes de Abailard chegaram aos ouvidos do con homem chato e prosaico. Intendeu elle que a versal do seu hospede podia inquietar a moca, e, 4 eau pol-o na rua. Fez maito bem. Heloisa, fex tambem o que era justo: chorou, ¢ escreven longas cartas em latim, prevenindo Abailard contra as insidias vingativas do ¢0~ nego. 0 poeta, receando o publico testemunho do apro- veitamento grammatical de Heloisa, tirou-a de casa, ves- tina de freira, e trasladou-se com ella Bret radiosos de jubilo, abragaram o sen primeiro filho, a0 qual deram nome de Astrolabius, estrella-brithante. Fiem-se li: na grammati Entretanto, o conego dava 4 lingua escandalosamente. Abailard procedeu como eavalheiro, Foi a Paris, e ama ciow as iras de Fulbert, promettendo-Ihe ca brinha, clandestinamente, para mio damnificar os seus interesses do professorado eccle na ausencia do mestre, onde, que o mesmo é dizer: com a so- Dialli, partin para a Bretauha, e, com grande pasmo_ seu, encontrou He mal disposta am s ella na seguinte i traduzida : rimoniar-se com elle. As razbes d'esta recusa di passagem de uma carta que fielmente Deus sabe que ¢ Foi por th que eu a provit 4 de ti senio tu mesmo de time po: in esperei do'casimento, tos @ eonvenedes. Meus prazeres ¢ vontades tive-o8 sem pre em nenhana conta: hem sabes que 0 meu filo era agra ‘eobedecer-te. Se o titulo de esposa parece mais sa 0.6 magnifico, o de amiga, amante, ¢ ainda o de infamada mulher toda eniregue a teus deleites, me seria sempre mais Affectuoso ()." Quanto. mais invilecida ea Tosse pot ti, mals valor me darias, e menos empécos eu poria 4 tua gloria, Deus me testemunh Se Augusto, soeran do Uni ime offertasse para sempre o throno e-0 iinperio, eu Seria inal soberba dé see tua, que do titulo de impera « por quanto, mem poder nem rig ons da fort esposou un homem volunta Fico, e que ama os hens. de seu marido mais que a tama ai eal Nao'se deve ata malt afegdo mas sin © preeo de uma eniaga apparecahe outro mais opulent, «0 ella 56 prostitu 45h . amente por qué elle Nao s€ dio trecho como prele denot 10 de moral ; mas, © apaixonado desinteresse de Heloisa, e os esforcos que a sua exquisita resistencia custaram a0 philosopho. se as () Bi si moris nomen sanetiae ae valine sidetur, dulive wii sem iiquo me videleca prote ample bumiiaren, ampliorem apud te come , fram os parentes.a felicit 0 MUNDO ELEGANTE. Casados a occultas, voltaram a Paris, ¢ aquartelaram= se em 3 Este, para salvar a reputacio manchada da sobrinha, divulgou 0 casamento. Corre ; ella, porém, sabendo que ava_os interesses escholares de set marido, me- a do conezo. preja gou o facto, e recrudesceu as i vexada pelo padre, queixou-se a Abailard, que a incer- roll no mosteito de religiosas de Argenteuil, onde ella fora educada. 0 rancoroso conégo suggeriu a mais atroz das vin- ancas.. Abailard, vendido por um servo, foi assaltado em seu quarto por cinco parentes de Heloisa. Embora prove um escriptor Jesuits que o philosopho, ainda de- pois d’esse assalto, podia récahir na culposa impruden- cia que o perdeu, as cartas de Heloisa asseveram 0 con- trario. Abailard passou a categoria dos ¢ elas, dos Photius, e Methodius, muito contra sua von- tade. Foi tremenda a catastrophe, mas a sciencia, ¢ a humanidade ganhou em livros substanciaes 0 que a po- pulacio poderia ganhar em almas. Heloisa, instada por Abailard, vestiu o habit fessa. «Ea tua vontade, diz ella, eno o m mo que me forgou a subjugar mi regra monastica, Se me nio agrade, vio me immolei, porque jé agora que recompensa devo esperar de Deus por quem nada fiz? » Ma ainda uma phrase mais significativa da moderada devorio de Heloisa: «Em vex de gemer ante o altar as minhas passadas culpas, lamento a impossibilidade de ser culpada » ( Heloisa nao estava muito no espirito evangelico quando escrevia essas pala- vras pouco edificantes. Deus perdoar-the-ia a blasfemia pelo muito que ella amava; mas a gente séria, como 6 leitor e eu, nao podemos deixar denos escandalisarmos de semelhante desproposito, porque temos ca as nossas virtudes, umas sans e outras podres, mas, emfim, se pre sio virludes. Nao pra aqui o desafogo reprebensivel da freira : «Precedi-te nos yotos monasticos — esereve ella —Ta re- « ceaste de certo que eu seguisse o exemplo da mulher de Lotb, « e por isso antepozeste o meu sacrificio 20 teu, Doeu-me ¢ en- «vergonhou-me a froixa conflanca que eu te merecia. Deus « sabe que eu nio,hesitaria em seguir, ou preceder-te, av ‘inferno, se assim quizesses. 0 men espit nio ew mim. porque Rozo-te, por thas de as, se te apicdares me deres amor por amor, sacrificios pequenos por palavras pot accies » (). cenes, dos Ni lo de pro~ a. 1 ascelis a mocidade a uma 1s 0 sacrificio, en . Isto é de mais! ins de Ke me conGere vehetenter dolut ate etubul Sy a velo Tog te properantem prec vel Sep wan P cm bene stage, obacro. ‘Bene autem tecum, fu Fit site propitum inveneri, si gratiam referas pro rally modich pro stem, Deas jussa 0 tn erat Sed ‘querer graiam, et sc etiam excellent tx glorant minus Kederes ‘nagais, verba’ pro rebus. » Ab pois soprow indirec 1 professou depois de Heéloisa, sé annos de~ yente © fogo sopitado no coragio da ardente esposa. Vira ella ima carla em que Absilan, tem ver de carpir-se, consolava das suas proprias dives a compaixao do seu amigo Foulques. Parece que 0 lau- reado philosopho, embriagado eom a a ia e dos triumphos, transigira com o infortunio, e juecéra um pouco a lamentosa Heloisa. Sio assim quasi todos os philosophos, ¢, na ingratidio, ha muito lorpa aque leva as lampas aos philosophos. Heloisa prorompen m amorosos queixumes numa carta. Abailard respon-| den com mediocre enthusiasmo, e continnon a eserever Ihe com a gélida austeridade de um director de conscien- cia, coisa de que ella mio fazia o maior easo, diga-se verdade, Abailard, treze annos depois da separacio, conse guira trazer para si Heloisa com mais deg re s freira era ainda formosa, © maledicencia inculpou a mystica sociedade, vertendo sobre a chaga da desgraca o| fel da calumoia, Abailard morreu, atormentado de peeares eom que c su talento, 6 de enér que as lagrimas dos timos delissem do coracio da infeliz as manchas la gea-| vadas pelo fogo da painio. Notasse a eoincidencia de aos sessenta¢ tres annos de idade. 0 cadaver de Meloisa foi eneerrado no sepulchro de seu marido. « Aifrma-se, diz 6 chronista Gregorio de Tours, que a0 dlescerrarse 0 turmulo, Abailard abrira os bracos para reecher Heloisa, e, aconehegando-a bem ao peito, legou 4 posteridade um exemplo pathetic ¢ inimitavel de con- jugal amor além da vida, ¢ assim mostrou que o amor é tnais poderoso que a morte, pois que, n'elles, nem a ‘morte o extinguiu. » isto ninguem pide duvidar. B verdade que, em 1792, foi trasladado a Nogent o car= neiro que continha as duas ossadas no Paracleto, e viu- se que uma grossa lamina de chumbo os separava. Ha- de averiguar-se como foi isto. Mais tarde, as preciosas| reliquias foram depositadas no Museu des monumentos| fanceres,e parece que actualmente sio veneradas, como| ‘monument damor desgracado, no cemiterio publicode| Paris. AAs geuuinas carlas de Heloisa foram vertidas para wcez em 1723, em 1782, e em 1840. Esta ultima edi ao & prologada ‘por uma noticia historia, affectuosa~ mente escripla, por M.=* Guisot. Pope ¢ Colardean poctisaram as earlas de Heloisa;| tas a prosa da erudita religiosa € muito mais pathetica © alanceavam os emulos d Heloisa sobrevi- ce sublime de angustia e singeleza m ltterato portuense, o snr. H. E. d’Almeida Cou=) tinho, se é que a indigencia o nio matou ainda, receba os imboras da excellente versio que nos deu da carta de| Pope. His-aqui alguns versos acaso extrahidos do pri- ‘moroso traslado: AA, dessracada! todos te contemplam ial exposa Pum Deus, quando es son Dramor, e dum moral miseraeserava! ro, dieeus' Mas Wonde sce agora Esta supplier mini? Seri tiha Tha desesperacio, ou da piedade? Tena mor malta, onde ateadas mre eu te repent «poo aeto tie deploro 0 crite Delle me accuse, Dos passados prazere Mae Sou no alcance d ‘slevando ao ceu io omen delito, oay embebida ‘Toda em ideas tuss, abandon, Esa innoceneia @ que aspiar andava THEATRO LYRICO. Recopilaremos uma avecinta analyse retrospectina dos a companhla ua presente eatacdo then “és nomas reminiscencin, quanto fata fadouhas repetices, Wal. Seremos tio, ‘ok-o permitem 1X fatten de » de Rellink, Mos taramese a prt neo tenor Devee- ‘hi, 0 primelro oss, Pde elas liedesse regular 0 desempento.. § i mereeot applause com qe frat cota osu exorcos eye e'ltosa no foram menos agradavelmente acolhides, Felli fata deslocadi, Molemou's wats € fk menos atorelda So de Verdi, a opera do Anda’ agorn revigo a 208 tlimos quateo Uigos diaqueliastrovoadas de: pala das de pateada para tad Rolssl, Spas, e Deveecht e Fella Uiadairamos mais na Nexo sir. lernandes ua catexoria de basso profundo,, Mara Hilhou-nos 0 poder omnipotente dum emprezario que faz base indes,e de mais mais profundos Foi txecudo. Nio rn conveniente- da a‘opers, em 08 im de quate que ispensassem aturados iasaion. De Mh opera em que a snr.” be frangeio fot justameate aquells em que te estou aqui: os ‘Purllanos's. este genero de musica o que mais Iie q dra. Varlgndo as peeas, e trocando as votas no « Trovador teniou debalde captivar o gosto, atrahirapplausos. 0 aes tronio esereven a que a cantora disse, A suppress da ea fetta do Miserve¢tndesculpavel A vox no desajudava para Ho bello trecho Jemusien; « v publico, lds desconsiderade ‘eh io adaguo da aria do terceir at intelligent, ho dueto com 2 Zingara ‘Nautras pecas, porci, deslenourse. O conti ne tena do sere produztu 0 efitto uma bareatolla. Nio ba a allio pathelico e triste @aquella fanebre itonacao: Tusa d'esfe mau enito devese i celeridade dos. comp ‘Tue ed litem empre gm quanto & parte dramatic, o sur, Pella’ nfo desagra doa? todavia a sta Nox pode serie para alta cols, ie n modular nots. 0 sar. Mertandes fer 0 que pode, ede urna rova inquestionavel de que baede fzer mata qua do poder. Descontiamos, porci, que quivoco basso i poder subir de segundo a primelro, 0 que Teamente ¢ pars lamentar, porque e snr. Heroandes deve estar farto de fingir que & primeiro basso. (0 shit, Morelli, segundo tenor, exeeutou uma parte de basso, Drestas fallai, que o maestro nao is D potarmolas 16s ante apti- fe outra de sex toleraria, io. fa ror: que ae petentes, e que Si para exeeutar um ‘Veram depois os « Lombardos. © A chr.+ De Moissi camtou.a Giselda. Carecia de suavidade, sentiment, © colorido no eauto, 0 sur. Mazzi estreou-se ni parje de Gronte,. Fol feliz no andante da-eavatina, e em al- Zumnas phrases do duetog na romanza da visio produziv um Stfeito poueo lisongelto fos seus ereditos. Nao deve negar-se a0 st. arelta, na parte desArvino, sufficiencia, attendendo a ‘tue nio é poFtancia a parte, que executou agradavel- thente., Os analistas de theatro desdenham sempre mencionar este atista que merece algum louvor porque estuda, ©. por que revela aproveitamento. -O she. Rossi satistaz nt dificil fharte' de Pagano. ‘Na sua corda de yor é um dos melhores at- tistas que tem pizado 0 nosso theatro a a = a opera nao adou. Faltou-Ihe 0 luxe, a de~ coracio esplendida que o livreto requcer. Ha aquelles vestua- Flos sectigos de traga, Parece que foraty exhumados alguma hecropolis, ou do guarda-roupk de Rossius da antiga Roma As scenas cio mins como se uh raio 1be p as doin Guras. A banda musical pita quando dev eitra em seena, tag 0 tambor € 0 2 festanga da Maia, Os contre-tempos da orchestra banda si0 dissonantes. Er ingraeado aquelle pedago de caverna a subir com Oronte!-O-pablico tem oceastio de ver as iniranhas do mo, fortadas de canicas e farrapagem que arrastam i de biombo, colst mesquinba de se ver. A visio ‘depois trisoria, Parece won Santo Antonio de Padua cao impossivel da pessoa ink fade theatro da Grande-Opera ade ser netade A Favorta fr eserpta par de Paris. Conjecture-se approxi apporato, quala orchestra, a superioridade dos ca orp de baile. sta saber-se qué os bailades duram do extenslesimo 2 act, Ahalisados que sejam os«professores» da orchesira de 8.J0H0s ou entram extomporaneamente. Quando se tata deeneobere o'pequeno numero com o estrondo dos fortes, (aludimos de= Sidmatamente 1 tnstrumentos melalicos, entendise nf hhirmonit, mas, em compensacao, ha. retumbancia gm que Tambor eo zabamba estotran 4 compe mins aos 3-e 4 netos prodialisou a robsten qe e&0NO= Guviesemos tio tobusto. de. vor, quanto hoje se cevelana emie fente na ecto dramatiea Sera entao um « FertandO» come Peto, "Accentoou sgradavelmente a sua rowanea « Seto Kei Ties’ Yoremineate artista no bash da opera. © Snes MOS 1 ‘umn bom Waldassare Xie Spala fol applaudida com sobeja justien. Este Bom, exit previamol-o ja no « Trovador » em que a distineta ean= tora mianifestou os seus muitos recursos de voz ¢ de aero, parte de Affonso XI, que reveu. para Barroillet, al pide supportar Fellini. B”essencial= mente negativo este verbo d na 0 Temos 6 que notar a ap de Affonso XI Como. coist de ehita ad estrellinhas' de pi irado, era um bouito taste, Ora o tosio disputara o in hose © rieo da capa: com uma cruz e um barbante nio se consegue illusio mais acabada. Terminaremos eom a « Norma» em duas linhas, p a analyse acha pouco em que pegar os arpeus. A sur.* De Toisst foi excelente artista, mormente no terzetto final do 1° acto, eno appliudido dueto das duas damas, e na seena ta A sur Spali, em Adalgisa, satisfer. A parte de Adalzisa foi feseripta pata um primeiro soprano; mas a sne.* Spala, posto, {que merto-soprano, couseguit! preencher cabalmente esta im Portaute parte da opera, porque a musica foi alterada em by de que | 0 MUNDO ELEGAN! | monia com a, sua corda de voz. Péd Snrs, Mazzi ¢ Rossi. Da orchestra e banda, da decora acceasorios indispensaveis para o completo exito d'ui ‘iremos que Ludo manquejou desgracadamente SUPPLICA. leia puteatarse de tropheus, Vitor, seep, e-0 mundo the dé Deus Aquelle, qu, inspirado, anbela a gloria Da ides a teibua trap Concedrtbe 0 Senor que a Ive da historia Ao sordido avarento d’um thesouro Converter ihe, Senor, ped Dearie 36 Ao genio pelo estudo iriquerido Que aspen set Gundes ou Raphine Fazey Senor que 0 mundo ag Lie enya em vida Tudo Iaorel A todos quintos ardem n'um descjo, thocherine as ambicbes todas, Seuhor? is eu, que uada tento-e nada uveio, Dai ouro, bonras, nome, 0 fausto, a palma Aquelles de tio baixa aspir Aspiro a muito mais: dat-me uma alma Das que vivem no mundo em solidio, Que um anjo vosso guie mint alma anciosa, Ande igmotas lage (Que eu possa dar eonforio a desditosa, meu premio a dor dessa null NOTICIARIO MUSICAL. ‘Yai entrar em scéna no theatro de tima opera de Verdi: « Um ballo in mare ‘A «Linda de Chamouuix » mimosa ¢ freneticamente laureada em Niza Virginia Baecabodati, e 0 tenor Daniel. ‘Opinnista Jel, ¢ o siolinista Sivori Incorporaram-se @ uma academia musical, que teve lugar em Baden, ‘Cantam em Mido as primas-donas Lafon ¢ Razzurei 0 tenor Sari ¢ o basso Corago, A norma de Bellini é «opera dotium- pho.’ Sit, em Pollion, & am ‘para os modernos ar- ists. Em Sany obtem Donizetti novas slorias com a sua «Lucia, A senhora Beltrameli, na parte de Lucia, realisa a phanitasia opu- Tenta ¢ ambiciosa do illustre maestro. ‘Sio admirados como maravilhas em Milio o grande contra- Apollo em Roma a ul- tpl ul di - ‘rte cata "A |bassista da epocha Bottesini, eo sobreevcellente violinists Trombini. Bottesini esti detinido, dizendo-se que execatov to contrabasso a parte do primeiro violino de wn grande duetio ‘oe «Frome» esriplo para as imine Ferns tradusa | fielmente 0 «Garnaval de Venera » do insizne Paganini houve reuniio de familias na Sociedade Phi- feeutou no piano a grande fantasia *b Maria G, de Sou adn parte musical da is portuenses ineumbe darem Philarmonica o realce que Ihes falta. Pare de ha anuos yal esfriando n’aquella. casa Juma sezio que tem seus periodos de exalt tov... Affigura-se-nos que Ho tempo em que a Sociedade |larmonica st installava n'uma péssima casa, com,anachrox ‘ostumes, era muito maior a eoacorrencia de seuhoras, e mais ‘omplacente a sua dedicacio ao Juzimento dos sarios. . Nags PORTO 11 DE DEZEMBRO 1858. I. ANNO, 0 MUNDO ELEGANTE PERIODIOD' SEMANAL, DE MODAS, LITTERATURA, THEATROS, BELLAS-ARTES, a son susranto we MULHER QUE SALVA. 2 Sein spies! Daca ‘ra! me Tir coaale econo ah gpa F sgoumoy ee A. incre, (Buri). ‘ oh ‘ gy the * s deh, vere ; — eC amibile — er | $e we ae | ee : 4 4 — os ae a x be i i+ leis. 2 ee $ ie 4 LE L comas- Sayers tie? ,? ah con anima. Ne 5. PORTO 25 DE DEZEMBRO 1858. ELEGANTE 0 MUNDO I. ANNO. PERIODICO SEMANAL, DE MODAS, LITTERATURA, THEATROS, BELLAS-ARTES, &. ‘mb 4 PHovaceo pe SUAS mctsTADES MBELESIMMS, Serve om es dos Etre Pepi, ra de Sunt There, 26 — or — Pores tes mes, 0 48 same, 180 rea, Provincia: — Por can es mes, on 42 aumeras, 000 ri, A MULHER QUE SALVA. (. Entrou Jorge Coelho nos saldes da Assemblea, e jul- gou-se em regio de fadas. 0 atordoamento da primeira impressio durou-lhe alguns minutos. Nao inleava esta ‘ou aquella physionomia: eram todas. N’aquella harmo- nia do bello, até as senhoras feias—se por ventura ha senhoras feias— recebiam homenagem admirativa do extatico moco. Se algum amor influia no spasmo deli- cioso do academico, era de certo o amor da especie, por- que seus olhos no haviam ainda estremado 0 individuo que 0 coracio presentia no todo. Do cisco, que volita no ar, faz douradas palhetas 0 raio de sol coado pela festa. Naqueila doirada Incidez que Jorge via por magico pris- ma nio hayeria muito cisco, muito tomo de poeira In mana, que s6 refulge aos reverberos dos lustres, cor soante o variegado das ebres?. Decidam li, os que li an~ dam. Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudant fiu 0 vacuo, porque se ¥ ho alli. 0 que o apre sentiira doidejava no redemoinho das dansas, e raros in tervallos esperdicava, perguntando ao discipulo se estava contente. mn °) Vem do 4° numero, Jorge nao sabia dansar, porque nio tivera tempo de aprender esse insensato appendice da boa educacao. FE? verdade que 0 tio padre, muitas vezes, Ihe dissera, an~ thorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que dan: eram ansas do demonio armadas 4 alma. Nao se glorie, porém, o crendeiro egresso de ter incutido no animo do sobrinho o horror das mazurcas. Ja se disse a convin- cente causa de Jorge no dansar: era a ignorancia d'essa galharda tolice de que muitas vezes impende 0 accesso a na alma, e o passar-se uma noite menos tediosa n’um salio em que o espirito se retouca em piruetas mais ow menos ridiculas e parvoinhas da materia. A’ meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para dizer-Ihe que se retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, vin duas senhoras reclinadas n’uma otlomana, em altitude de aborrecidas ou fatigadas. A mais velha nio excederia vinte e cinco annos: a outra, que teria dezoito, era a primeira physionomia que The captivira a elle exclusivo reparo, sendo antes uma con templacio tio absorta em que ellas mesmas repar ram, Jorge devia prender a altencio de duas mulheres me- lancolicas por indole on fingimento. Tinha elle um sem= blante de si tio meigo ¢ affectuoso, que as pessoas tristes magoas, pensando que oi sentiam-se melhorar em su tras acaso maiores denotava o brando olhar do moco. Estava este condo sympathico na magreza do rosto, cujo pallor mais era signal de compleieio mimosa, que des. \s Vigilias e desperdicios de vida ruinosos, de que algu nossos conhecidos por vezes se aproveitam, affectando 3h © MUNDO ELEGANTE. languor © corpo. « Sympathiea pb penas da alma, das qu » disse a mais velba das sionomi duas senhoras. —@ trar os olhos dos de Jorge que, por mero disfarce, se des- viavam, a momentos, para objectos que realmente nio vian «Nao conheco, nem me lembéa de o ter visto em parte alguma. —Tinha curiosidade em conhecer. Nio te parece! distincta aquella cara? « Tem niio sei que — De insinuante tristeza, sim? «E dem nheces?—perguntou a outra, sem desincon oa supplicante, nio achas? —Tambem. is de certo. Tu, Silvina, é tua examinada com um ar de es panto ou de te Otha aquelle grupo de homens que o examinam a elle e a ti... Nao olhemos triste, & ben e as supplicadas somos ura que compromette.... —Sabe que estamos a fallar del mais. Nés achamol-o sympathicament péde ser que elle seja um tolo com bas para nos dizer que o é. Mas quem ser A curiosidade das duas damas é menos rac Satisfaz le coragen nal que a dos leilores que desejam conheci! he quanto 6 possivel. A mais velha é a sor.* D, lante creatura, com quanto moret des olhos negros, sobrancelhas travadas ¢ negras qu mais parecem pintadas, opulentos cabellos, e espirito de improviso bastante para fingir illustracio. Pertence a ‘uma familia heraldica da provincia de Traz-os-monles, € veio a0 Porto, com seu pae, fidalgo impobrecido pela politica e pelas prop ara froixa vontade d’um noivo de conveniencias, cujos paes ambi- cionam inxertal-o no nobili 0 tronco dos Canhas. 0 genio d’esta menina é exquisito e roman Mais de uuma ver tem baldado os esforgos casamenteiros do pae, ridiculisando a figura e © palavriado um pouco para rit don ‘A’ forca de ser ma, conseguiu fazer-se um anjo no conceito do mal-fadado que espera ser ma- rido d’ella. Maravithada do poder que exerce sobre 0 capitalista, empregando o desdem ¢ o despriso, espan- s dissipagdes, para esp sco. ta-se do presumido dominio que poderi ter sobre o ho- da nentar, sem risco da sua nomeada, mem a quem dér os sentimentos embrionario alma. Para experi recebe cartas de alguns candidatos ua sua. alma, e res~ ponde regularmente a umas com ideias respigadas nas outras. Nos grupos que se vio forma ella se acha com Silvina, sua prima carn quatro dos tiveram po ido nasala, em que 1, avullam seus correspondentes activos, e dois que ob- rem admittidos j que aguardam o insejo de co antes a promessa de sua cortespondencia, ¢ a reclamarem esta gloria, no seu intender, negada a todos, es a maior vietima é} chegando a fazerem-se a mntua injustica de se julgarem parvas uns aos outros. D. Silvina de Mello, prima, como ji se disse, de D. Francisca, & tambem provinciana, e veio de uma aldeia do Minho a banhos de mar, convidada por sua prima, de quem é hospeda. 0 que ella aprendeu em quatro me- zes de convivencia é possivel que 0 nao acreditasse quem visse um rosto de anjo, olhares de innocente acanha- mento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras desan madas, fins, e despresumidas até se fazer acreditar igno- rante até & Jastima. D. Silvina viera para 0 Porto com uma paixio da sua terra por um morgado que fortissimos motivos im- pediram de seguil-a. 0 pae do morgado tinha feito ex- traordinarias despezas na construccio de uma eira, na reedificacio da capella do solar, no muramento de al- gumas cortinhas que comprira, nao fallando nas desas tradas mortes de um macho quadragenario, e uma junta de bois, atacada da epizootia. 0 moco pedira debalde soceorres, fingira-se até epileptico para que o cirurgiio da terra Ihe aconselhasse banhos de mar; 0 velho, po- rém, passaro bisnau, adverso a inelinacio do filho, deu muitos louvores a Deus por Ihe propiciar um insejo de m namoro inconveniente, attenta a mediocre Ivina. Foi facil a D. Francisca obliterar no o da prima a imagem do seu primeiro amor, ridi~ se acabar legitima de corag culisando-o & maneira que a ingenua provinciana Ihe ia mostrando as cartas do saudoso morgado. Nao podemos averiguar por que tracas 0 morgado de Santa Eufemia arranjou dinheiro para Porto, tres mezes depois que Silvina nio respondéra as artas, tanto mais quanto a paixdo as di clava n’um estylo azado para matar paixdes. E’ certo que o allucinado moo chegou ao Porto na espera do baile da Assemblea, e alcancou eartio de con~ vite para o baile, onde esperava encontrar Silvina Todo preoecupado na esperanca de vél-a.e fulminal-a com um olhar terrivel de accusacdes, o morgado de San- ta Eufemia nio cuidou a tempo de mandar fazer casaca. A que trazia na mala, era dos figurinos de Gi 1) com quanto em bom uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e comprimento das abas, na peque- nex dos botdes, e no rebordo dos punhos. Consultou pessoa, que Ihe obtivera 0 convite, acerca da mas, desgracad , a pessoa consultada era uina A’essas pessoas de jnizo que nio concluem do monge pelo habito, e reprovam que se sacrifique aos eaprichos da moda uma easaca de bom panno, farta e commoda, <6 porque alguns peralvithos ociosos, ou alfaia dores inventam feitios novos. © morgado concordou, ¢ foi a0 baile com a casaca velba. A sua entrada teve 0 valor de um acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-no, e seguiram-no com in= iso1 especula- 0 MUNDO ELEGANTE. sultuosa curiosidade até ao salio de dansa, As senhoras, de ordinario pouco attentasao trajar dos homens, nio re- pararam na casaca, mas no podiam deixar de vér 0 col~ Tete e a gravata. Era esta d’uma altura descommunal, atravessada por um laco, enjas pontas caprichosas iam cahir subre os hombros. A cbr verde contrastava com incarnado-ginga do colléte de uma abotoadura apertada até ao pescoco. Sobre isto, cahiam as lapelas desapru- madas da casaca com as quebras e vincos profundos da mala em que a tronxera, para irrisio e descredito de Freixieiro, cujo elegante era. © morgado de Santa Eufeinia desconfiou de alguns indiscretos que o seguiram desde o vestibulo da Assem- blea. Depois viu que as damas se trocavam olhares sus~ peitos que resvalavam por sobre elle, todo atarefado em descortinar . A pertinacia dos chasqueadores nio cessava, e 0 morgado teve um intervallo de lucidez em que olhou para si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma dew gracas & Providencia, se Silvina 0 nio tinha ‘isto; mas o derradeiro olhar que langou aos descarido- sos mofadores do seu costume de Freixieiro era uma pro- vocacio. Resolveu retirar-se, amaldicoando o velho amigo de sua familia, que 0 demovéra do proposito de fazer roupa nova. Quando sahia atravessou, por engano, a sala em que se achavam D. Francisea, Silvina, e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por ali estanceavam, volta~ ram-se de repente para elle, que trazia ainda um pres- tito de admiradores que tinham passadé do exame sizudo 4 tizada descomposta. Silvina cérou até & clamou: «Oh! que original! Repara, Silvina, tu nio v aquelle homem? A.este tempo, 0 morgado estaya no meio da sal: fez machinalmente uma cortezia as duas damas. « Aquillo é ?—disse com desdem Francisca. —Conheces este homem impossivel? Olha que elle esti esperando que o cumprimentemos... Conheces, prima? — balbuciou Silvina, acaso tao afllicta feliz morgado, que estava ali como préso, € orelhas, quando Francisca ex- —Conheco. como 0 suppliciado no pavimento. «Quem é2! é da tua terra? —tornou Francisca, ji vergonhada deque a julgassem a ella a causa d’aquella atlenciosa paragem do homem. Silvina ergueu-se, tomou o brago da prima, e di —Vem, que eu te contarei tudo. personagem, mas dizia-Ihe a hoa alma que o insulto era ndigno de pessoas bem educadas como deviam presn= mit-se aquellas que ali estavam representando a melhor sociedade. 0 fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos razos de lagrimas. Foi ainda Jorge quem vin este signal de af fliceao, e, sem saber porqué, sympathisou com a dor do homem que levava apéz si o escarneo de tanta gente, nna alma a cerleza de que viera ali dar-se em espectaculo aos olhos da mulher que nunca Ihe perdoaria o ser ri= di | dicuto. Diahia uma hora, Francisca e Silvina desciam do tou- cador para o salio do baile. A primeira compunha o gemblante ainda descomposto das gargalhadas com que recebéra a revelagio da prima. Esta, mortiicada pelo amor proprio, se nio antes vexada pela indecorosa elei- cio que fizera outeora d'ura amante ridiculo, capivava indigno interesse com a tristeza que devéra acarear des- | priso. Despréso! Talvez piedade, que a situacio era digna ella, porque a mulher é a que mais se flagella quando a consciencia a inculpa d’uma escdlha que mio sé The nio disputam, mas, peor ainda, Ihe i sio merecida. 0 morgado de Santa fausta noite do bail dosa, a0 menos pi juriam com a icri- Eufemia, até i | , era uma recordacio, senao sau D'ahi em diante, causa- isadora. vaclhe tedio, e foreava-a a quinhoar uma parte da zom= baria. ALBUM. Regale-se 0 coracdo, festejemos a virtude, balance- mos 0 incensorio perante as aras de bronze para onde nos esti apontando 0 dedo da elernidade. 0 Moxno-Euzcante vai ser aformos tratos de duas mulheres que passaran 10s d’este mundo, com os olhos postos em nés viciosa, como para nos insinar a abstinencia dos praze~ res, ¢ exemplificar, na magnitude do sacrificio, a sobre~ excellencia do galardao. O galardio é este, é 0 pregio que o proprio vicio profere em louvor da virtude, &a confissio h para nés, herdeiros de tantas geracies illustradas, diante ido com os re~ orla dos abys- , geracao miliante dum nome pagio, qual o de Aspasia, ¢ d’outro, cele- Sahiram. bprado na época mais livre de Franga, qual o de Ninon Jorge Coelho era 0 unico dos circumstantes que exa- | de Lenclés. minava com seriedade 0 morgado. Achava estranhaa| — Eil-os pois: © MUNDO ELEGANTE. sm pela face do telligivel, quer dizer, que les que 0 genero to a noticia de imonio dos pobres de espiri to, noticia, que a ser verdadeira, explica a grande ind gencia que por ahi vai do genero. Nasceu Aspasia em Mileto, na Grecia, e encheu de ju- bilo seu pae Axiochus, e sua mie, que por nome no perca na gloria que Ihe cabe d’este producto. Ainda no ventre, dava signaes inequivocos do qu viria a ser, fazendo sentir a sua mie raptos de ale extraordinaria a ponto de se tornarem para 0 marido ispeitos effeitos do vinho de Syracusa, até que uma vi- tha, que botava as cartas e’eortava as lombrigas, deci ale, termittentes da gravida snatrona eram precursoras do jubilo que a filha daria a seus pac Aspasia aos doze annos ouviu fallar d'uma ¢ Thargelia, natural de Jonia, matrona respeitavel a todos niugamos agora, mas remettemos 0 leitor a Plutarcho, nos momens 1L.0stREs, artigo Pericles, e li veri com que modelo. predestinada ‘menina sympathisou desde teuros annos. Depois que as mestras de pris por prompl 0s prodi Aspasia humano recebesse dos apostolos de Chi que 0 reino do ceo era pa sce quatrocen ta ras lettras a deram em obras de costura, no que fez progee josos, seu pae tomon-Ihe mestre de rhetorica, sciencia que insina a fallar bem ¢ muito. Asp: uma grande falladora; e, como na sua ter sem aturar o palavriado, resolveu muda Athenas, onde cada qual podia fallar até nao poder mais, fe Ihe nio po- e para A fama fora adiante annunciar a boa vinda da elo- quente menina, e 0 mesmo foi ella chegar a Athen que intrarem-Ihe de baldio em casa chusmas de estu- dantes de rhetorica para aprenderem della a arte que fizera Alcibiades, Pericles e Socrates. O proprio Pericles, orador e guerreiro, foi um dos concorrentes, e de vél-a tamanho ndio se Ihe ateou no coracio que logo alli se Ihe offereeeu para marido. Aspasia havia feito solemne voto de virgindade, e re- jeitou heroicamente o grande lustre e riqueza que seme~ Ihante inlace Ihe trazia. Pericles, porém, cego de pai- xio, teimava contra a virtude isenta da litterata, e tra- tava mal em casa a mulher que elle ceden a outro para mais sua vonlade se lastimar das esquivangas de Aspasia. Entretanto, a casta mestra de rhetorica, nas horas vagas das preleccdes, sabia a visitar os infermos, a reme- diar os pobres, a consolar com sublimes discursos os tristes, e a fulminar involuntariamente os coracies dos poelas de Athenas que a denominavam a nova Omphale, Dejanira, Juno, aféra um tal Cratinus, folhetinista des peitado, que Ihe chamava olhos de eadella, e outrasama- bilidades mais affectuosas. Nao sabemos, porém, se 0 itheto olhos de eadella era realmente uma fineza. Ho- mero, querendo incarecer a formosura de Juno, chama- Ihe olhos de boi, lisonja que as nossas damas nio recebe- am de certo com bom rosto. Recrudesciam as instancias de Pericles, e a donzella, receosa de que a authoridade do i amante a privasse dos direitos de cidadan, resolveu ac- ceital-o como esposo, obtida dispensa dos padres, sob a condigao de que a sua virgindade seria respeitada, 0 MUNDO ELEGANTE. 37 Ascombra este feito de virtude na antiguidade! Na idade media, e hoje muito mais, sio frequentes esses fa- los; mas em tempos tio captivos do demonio da impu- reza, como eram os de Athenas, quando as nupcias ce- lestiaes nao tinham ainda sido afiancadas as devotas da ‘eastidade, isso espanta, ¢ faz mais relevante o elogio desta creatura, Esposa de Pericles finalmente, Aspasia deixou de in- sinar rapazes, e quinhoou da governacio da republi com sew marido, Ahi revelow a talentosa matrona pro- fundos conhecimentos de politica, economia social, ad~ ministracao publica, artes, regimentos de alfandega, ju- isprudencia, e fomento, Inspirado pela mulher, fez- a gloria do seu seculo, Pericles, que se pagava em fructos do espirito do debito conjugal que um voto inconside~ rado nio consentia. A virlude, porém, insulta 0 vicio, n’este absurdo mundo, em que a honestidade é um fantasma aterrador do crime, A calumnia tramou o vilipendio de Aspasia. Conspiraram contra ella os invejosos, e d’entre elles hou- ve um poeta satyrico que a accusou de convidar para stia casa mulheres de costumes equivocos para tornar luzidos 6s seus sarios com a coneorrencia dos mocos mais ga~ Thardos da republica. Nao afiangamos os bons costumes| das familias relacionadas com Aspasia; mas concedida a hypothese de que nao podiam as visitas hombrear com ella em virlude, claudicari, por ventura, a memori maculada de Aspasin? Ainda mais: accusaram-na de im- piedade os follicularios de Athenas, A espada da lei es- teve sobranceira 4 eabeca da innocente matrona, Salva ram-i as do marido; que ella, martyr resi- g esmo semblante a accusagao e a sentenga. D'ahi em diante a sua vida ¢ toda caseira. Abrenun- ciou a eloquencia e os negocios do estado, e toda se en- tregou ao governo da sua casa, para o que nao tinha ase a verdade, A tunica de Pericles andaya sempre rota, e, se ndo dizemos o mesmo das ca misas, ¢ porque nao temos por averiguado se os athe- nienses usavam camisa. Nio o quando Aspasia morren. Con- jectura-se que, fallecendo de peste o marido, ella, para evilar a perseguicio d’um tal Lysicles, commerci carneiros, que a queria esposir, se deixira perecer de saudade sobre o tamalo de Pericles. Isto é 0 mais na- im-' a as lagri ada, ouviu com o mi grande geito, d abe ao nte de tural. inda em 1706. nplar nio entrasse: por ingua de modelos Ninon de Lenclds vivia tuma vida tio ex tro, em que a virtude esmorece 4 i pena que te seculo den- itantes. Ninon era filha d'um musico abastado, que the pro- porcionaya todos os elementos para uma edu rigerada. Aos dez annos jé ella lia e intendia, e mo- re ou tros compendios de san moral, as obras de Montaigne ¢ de Scharron. A semente d’estas ferilisantes leituras ger~ minou temporan fructo de bencio, eomo era de esperar. Orphan em annos perigosos, e de mais a mais residindo em Paris, Ninon de Lenelds usava da sua plena liberdade com {io restricto comedimento, que nao havia ahi, na dissoluta cérte do grande rei, cortezio tenlador que se Ie atrevesse. Linda, talentosa, e enamorada do seu anjo da inno- cencia, bem sabia ella que diante do sew pudor se desar- mariam as mais bem tramadas conspiracies contra a wvencivel honestidade. De mais a mais rica, sobeja- vam-Ihe bens de fortuna que repartia pela pobreza, € por doagies a mosteiros de virgens com quem ella sym- pathisava por instinclo, e amor de si propria. Nas ocea- sides criticas de carestia de generos, Ninon dava todos os dias uma sbpa economica aos necessitados do seu bairro, que os jornaes fallassem d’estes rasgos e nao consen de beneficencia. Ninon confessava-se todas as semanas a um jes que morreu em cheiro de sanctidade, e muitas vezes era elle que a consultava a ella em theologia casuistica; tio ito conceito se merec Em quanto os instinctos malquerentes da natureza selvagem a importanaram, Ninon disciplinava-se tres veres por semana, e cingia os rins com um cilicio, que ainda hoje, repartido em fragmentos, se encontra em muitas casas de hereditaria virtude nos dois bairros principaes de Paris. A sua casa era frequentada por anciios de exempla- rissimos costumes, que cedo ou tarde hio de ser canoni- sados com ella, Entre estes, houve um que ella ainda pode abencoar no occaso da e as allas virludes que depois o distin Ihe em vida um bom pe bliotheca de livros asceticos que fada do seu destino. N corda soberba de voz, ¢ admiravel in- genho para bailados; mas, receosa de que estes dons es pertassem ruins pensamentos no proximo, limitou-se a cantar 4 familia devotas litanias, e bailava anm m um ao outro. steneia, agourando-the viram, e doando- io para elle comprar uma bi- era 0 seraphico Voltair: ¢ mostrou sempre digno da confianca de tio boa ndo este fazia uma gayola com padre confess annos, calando os escrupulos de sua consciencia com ter bailado David diante da area. seu trajar, além de modesto, er pobre: vestia¢ elit estamenha, calgava,alparcatas carn gra sconder dos olhos peecadores as bel~ lezas corporat a capricho. ‘A sua amiga predilecta foi Marion de Lorme, nao menos pechosa em pontos de virtude, e mais penitente que Ninon, porque assentem vari imparedou no ultimo quartel da vida, e esti inte Visitou-a uma grande tribulagio a meio eaminho da de recato em tureza torn authores que ella se © MUNDO ELEGANTE. vida: foi a motte da mie, que se despediu gloriosa d’este | mundo, ao qual legava tamanha thesouro. Ninon reco- Theu-se a um mosteiro; mas demasiou-se tanto em pe nitencias, que a prelada e os medicos a obrigaram a sa~ hir do convento para que tio requintada virtude no re~ matasse pelas mortificacies suicidas. Ninon escreveu um volume de eartas edificantissi~ mas, que sio um confortativo para as almas tibias. Re- passadas de unceio ¢ benevolencia para com as fraqu zas da humanidade, nio ‘ha n’ellas 0 assustador inferno de Thereza de Jesus, nem as visbes pavorosas de Maria Alacoque. A leitura destas cartas nio é recommendada pelos directores espirituaes; ma vertencia, consta que muitos espiritos feminis, quebran= tados por desenganos da vida, se recobram lendo-as, & praticando-as quanto a natureza 0 permitte. Ninon de Lenelds, com quanto infraquecida no corpo pelas maceragies, chegou aos noventa annos eom mira~ culosa fortaleza de fibra. Os seus dias natalicios costu- mava celebral-os com o reddbro das disciplinas; e entio mais que nunca se the rejubilava a alma em effluvios de virginal pureza. ‘A sua morte for chorada por toda a Franca, como uma perda nacional. A piedade de la tem-na em conta de predestinada, e muitas matronas se apegam com ella nos trances da vida, e parece que sio servidas quasi sempre. Ahi ficam duas biographias escriptas com a verdade cio de muilas € pontualidade que se emprega na avali virtudes contemporaneas. A proposito d'um sustenide, que nie pode ser languido, e d'uma colcheia, que nao pode ser magra. No pequeno artigo, intitulado Rossisi, impresso no numero anterior, occorreu-nos a deploravel lembranca de comparar 0 inyerso da chorumenta nediez do grande maestro & magreza de uma coleheia e 4 languidez dum sustenido. Nunca a persuasio de ereador imaginoso nos entrou tio dentro na regalada vaidade, como n’essa bora esquerda em que roduzimos aquellas duas ¢ A sciencia, porim, indignou-se com 0 desproposito, e nto averiguamos ainda se os musicos se cougregaram para estigma- tisarem a injuria feita 4 gamma. E’, todavia, certo que um ‘membro desvelado da yeneranda corporacio dos philarmoni- cos, cheio de compunceio pela falta de reyerencia com que ousiramos chamar languido a um sustenido, e magra a uma colcheia, nos observou cortezmente que um sustenido nto po- dia ser languid, porque faz subir a figura meio ponto, © que ‘uma colcheia nao podia ser magra sem licenga da semifusa que € muito menos gorda. Concede o nosso amigo que a languider possa com mais propriedade attribuir-se ao bemol, que é 0 antipoda do sustenido. E, finalmente, obrigou-nos a confessar que dissemos, duas barbaridades que estomagaram 0 senso. commum da solpha, Por nossa parte, fieamos sinceramente pesarosos de usur- par ao bemol as graciosas louganias da languidez, para as ir- mos imprestar ao sustenido com que ficamos antipathisando porque nio é languido. Em quanto 4 questio da colcheia, pedimos ‘venia para a julgarmos um poueo litigiosa a despeito da infallibilidade do- ‘gmatica da arte, Serd admissivel continuarmos a considerar 1, concedendo 4 semifusa as tristes hon! thisi atalhar-se 4 polemica pa hos estamos preparando com provas irrefr da colcheia, sem imbargo de ter por si a semifusa as opin authorisadas da philarmonica. Para o sustenido no temos contradictas. Confessamos a lan- guider do bemol, Sum cuigue. aveis da mi THEATRO LYRICO, © ASSEDIO DE ARLEM. Protestamos contra os élegantes da caprichosa plateia do 1 Theatro de S. Joio, Praticou-se ahi uma offensa a arte. n 0 « Assedio de Arlem » no poderio ser ‘mais juizes integros d'opera alguma. 0 eapricho ¢ feio quando e gera na ignorancia, A arte nunca se desiuz nem deshonra se a injuriam cabalas, intrigas, suggestdes cavillosas, e instru- ‘mentos ignaros que se prestam a ella 0 « Assedio de Arlem » nio 6 um eappo lavoro de Verdi: mas esti Jonge de sahir do theatro do Porto com o labéo que Ihe querem impdr intendedores, em gripho. A reputagio de Verdi € alguma coisa respeitavel e inviolavel aos insultos de alguns sacripantas que vio alli cuspir nos diplomas com quea Europa illustrada, e os primeiros theatros do mundo conde- coraram 0 insigne compositor. 0 rapazio é bom para applaudir, porque até nas ovagdes sa tisfiz 4 propensio da troga; mas, se o sestro Ihe dé para a san~ dice, importa corrigil-o com 0 chasco do despréso, que nko ‘ha outra palmatoria para os imberbes do senso commum e do 0 da arte Guiem-se 1 por essa gente ! {A porcio sensata d’uma plateia no quer entrar em compe- tencia com mentecaptos. 0 jornalismo, no dia immediato ao de um escandalo, laurea a tolice, e diz que uma opera cahiu porque a tumnulencia ou a necedade se arvorou em juiz, e es trugiu 08 ouvidos com 0 assobio petulante. Foi pateado o « Assedio de Arlem ». Cale-se esta ve para que se nfo lavre a acta do insulto nos annaes de Verdi; esconda- ronta d’aquelles que Deus dotou com intendi- nto, e a arte predispoz para avaliar, Pateara Ha abi muita musica de merecimento, muitas phrases, se nifo origiuaes, a0 menos de grandioso effeito. 0 complexo & gradavel. Nio se negam excellencias 4 cav ano no primeiro acto. Se applaudissem ahi a snr.* De Roissi teriamm feito justiga. Nio altenderam ao duetto final ao magnifico ‘quarteto? & aria do baritono? a introduzione e preghiera do quarto acto? Pols abi Ihe sobram pecas que glorifiquem um jaestro Quando foi ahi mais regular o desempenho d’uma opera, na presente estacio theatral ? ni Os que pateari a opera ou a execucio ? a do sop © MUNDO ELEGANTE. 39 Fo infelizem sua esrein o sr, Morel, primero barytono, em vor sympathies, bom estilo de canto, mul artistica accen- tuaglo de phrase; a evalea, poréay, da vn aia esta opera, enige ais volumota vox. Mas para eabalment ae aallar 0 Gok orl cx oss opatan at sat a0 seals cor LE) no andante da aria, Se ao quarteto Ona, 1, mus elevante pera da opere, nfo tiliase om basso, ima par 9 duque &Al fh, sobresiria grandemente ’ instumentaglo cooperria para o condigno sito da ope- ra, 00s descuidos the nto fossem tio frequentes. {As decorages eram melhores; desta vex a empreza nio péde tara aterm o « Ansodlo de Arig? > (Queimem as mis os que applavdiram, Anna la Pre, Go- ana ddreo, e outras de igual ett. 10” divina arte, quantas vezes te crucfam os pharseus que ccsohoeons a toe ‘O'subllme Verdi lembre-te do motivo por que Jesus peda ao Elerno que perdoasee aos seus maladore! PATARATAS. m. Para a menina disereta A poesia é um feitico. Bella coisa é ser poeta, Quando se tem um derrigo, ‘Que nos faz andar pateta, Eu cd por meu alvedrio Amo em rima harmonio ‘Amar em prosa! isso é frio i ninguem namora em prosa Se tem win pouco de brio. Com versos, me: a De coracis Er = mo aleijados, conquistas 's bem formados ; quanto os chichos prosistas jem eruzes, mal-fadados! Paes de familia, eauted Com poetinas de Iuneta ‘Que vos oltam p'ra janella, E vos chamam Julieta A’ fila, sein aduella. E ja fui rapaz do tom, E, com pesar de 0 ter sido, Resolsi fazer-me bom; B a0 mundo, que hei offendido, Em ps faco-Ihe um dom, Dos meus collesas, é certo, Que 0s artificios ti Hei-de mostrar bem de perto. ‘Quero pir a deseoberto Seus planos seductort idores Quando a vietima ineauta, (Quero dizer a donzella) Chilreando em tom de Mauta, Lanea a noite da janella Cartinba escripta por pauta 0 poetastro entra em casa, Devora, séffrego, a impada, E, se nio é maré vasa De i Bate do estro a negra aza. © que primeiro The acode Nio 6 0 ardente dizer Que pintal-o melhor pédes Primeiro cumpre saber Se ha-de ser cangio ou ode. ‘Vai, depois, pondo em fileira As regrinhas desazadas ; Arrepella a eabelleira, Roe as unhas mal lavadas, E, por fim, rebenta asneira. Borra a pintura que fez, E novos versos maquina; Lembra-se d’outros que ha um mez Mandira a eesta menina Que com elle amava tres. Nova edicHo incorrect Da cataplasina damninha Impinge 0 edx0 poeta WY’ analphabeta visinha Que ingole os versos ¢ a peta. Ingo, digo, pois quando Ella, com custo, os soletra Parece estal-os mascando ; E admira nao ver sera, ‘om dois coragdes sangrando. Repete os versos 4 amiga Que diz nunea os vira iguaes; Mas, nio sabendo o que diga, Em resposta a mimos taes, Manda-Ihe velha eantig 0s diques da inspiragio Rompem-se alfim em torrentes De fructos de maldicio; Ji comeca a dar gemidos ‘A imprensa pouco honesta Com os versos nunca lidos, Que o leitor grave detesta, Porque os fins sio bem sabidos. E nfo leva a bella am Que 0 mundo diga que é ella Quem figura no jorndl, Disfarcada em nivea estrella Com promessas de immortal. © MUNDO ELEGANTE. A inveja de certa amiga Nem isto quer que se esconda; E, soberba, se impe Vendo-se em letra redonda, Do pae cruel inimiga Ji 0 sate excelso abarea Um pensamento profundo = YVem-lhe & memoria Petrarca, Que deixou ed n'este mundo Laura zombando da parca. E esoutra Laura tio sua Quer fazél-a eterna em verso; E, quando pensa que actu Na admiracio do universo, io no conhecem na rua. Trinta cadernos aprompta De pavorosa escriptura; ‘Tira prospectos por conta De equivoca assignatura, Que por um tergo desconta. Sie a lume, e em trévas morre, Filho da asneira e do amor, Livro que insomnias soecorre Mas quem riseo amargo,corre E’ de certo o impressor. Entretanto, a virgem Os versinhos, dice prenda, wa vex mais walma arre {A tempo ji que na tenda Se imbrulha n’elles mantel Vive na f, today ‘Que do amante a loquaz fama, ‘Que até aos astros a invia, Hi seu talento proclama Muito além da freguezia. E, convicta d'isto assim, tida em conta de e Julga ser mister ruim Cozer celoura paterna, ‘Ou remendar o carpim. Infelia pae, que afficedes Nio tens tu de amargurar Ao tirar dos gaveties ‘A meia sem ealeanhar, E a camisa sem botdes ! Em velhice desditosa, Doe-me ao vér-te submerso ! Em quanto a filba radiosa Se faz immortal em verso, Morres tu em chilra prosa Paes de familia, eaut Com poetinhas de luneta, Que vos olham p'ra janella, E vos chamain Julieta, W’ filha, sem aduella. Mas, 6 patusca poesia, Es varinha de condio, Es, no deserto, agua fria, tabua de salvacio, Es pharol que & praia guia Sem ti, ddce companheira, Amiga, socia fel, ‘A fabrica da Abelheira Nio venderia o papel, ‘Nem teria preiio a asneira ; Nem seria a mulher rola, Nem celeste 0 seu sorriso, Talver fosse menos tola, E tivesse mais juizo, Mas isso de que consola? Bella coisa é ser poeta, Quando uns olhinhos amenos Nos fazem andar pateta. Se ama os sonetos pequenos, Viva a menina disereta! NOTICIARIO MUSICAL. As operas designadas para 0 preenchimento da estacio thea- tral, que finda em 20 de marco, no theatro de Mido, sio Vas- concello, do maestro Vellanis ; Simo Boccanegra, de Verdi ; It crociato in Egitto, de Meyerbeer ; Semiramide, de Rossini; Ma~ ria de Ricci, de F. Ascoli; It Ducca de Scilla, de Petrella. Em Coburgo, nia vespera do natalicio da duqueza, em 5 de dexembro, foi executada no theatro da edrte a nova opera em tineo actos, Diana von Solange, produecio do duque de Saxe- Coburgo-Golta, irmio de S. M. El-Rei 0 Senhor D. Fernando. Foi esplendida e enthusiasta a ovagio que brindou o talento ‘musical do principe. A cdrte assistiu 4 representacio no ca- marote do paleo, ¢ 0 duque Wirtemberg installou-se no cama- rote ducal. Piccolomini britha em varias operas, no theatro da New~ York, mormente na Traviata, Fitha do regrmento, Trovador, & D. Joao. Tamberlik, De Bassini, Marini, e Bernardi sio applaudidos no Guilherme Tell, em S, Petersburgo. Teve mediocre acolbimento 0 Aroldo de Verdi no theatro ‘de Piacenza, com quanto bem desempenbado por Fiori, Bar- Garibaldi. ia Sociedade Philarmonica Portuense houve reuniio de fa- milias no dia 30 de dezembro. A orchestra executou duas sym- 8. 0 snr, G. Pimentel cantow a romanza do Pirata, ea ia a de D. Sebastido. A snr.* De Roissi execu- tou aaria da Neobe, de Pacini, e a sur.* Spalla com o snr. Gui- Iherme Pimentel executaram 0 duetto do Pirata, Este cava- Iheiro é sobremodo louvavel pelo impulso e melhor voutade ‘com que fomenta o desenvolvimento musical d'esta sociedade. Se o imitassem, haveria ahi excellentes concertos compostos 86 de amadores. PORTO 1 DE JANEIRO 1859. 1 PERIODICO SEMANAL, DE MODAS, LITTERATURA, THEATROS, BELLAS-ARTES, &c. 08 pnoraeo DE SCAS MAGETAOES PLUS, Stream es dos Htc roti, ra de Santa There, alates mas, on 12 Princ 25 — Forty — or cla tet mv, 2 eens, 80 ri, er, 2000 i Jorge estava segunda ver defronte das duas senboras. Sentia-se outro. Ja tinha interiormente um mundo, uma imagem, um reflexo do mundo exterior a recompensal-o| vantajosamente da insulacio em que se via no meio de tantos indifferentes 4 sua tristeza. A todo o homem tem acontecido esta mutacio, a0 menos uma vez na vida. 0 baile ¢ triste para os que levam dasoledade do seu q © coragdo de Iucto; a esses mesmos, porém, as vezes conforta uma chimera, li onde menos a esperanga Ih’a Chimeras sio essas que desbotam com as flores dos infeites a0 anianhecer; mas Deus sabe quantas almas se retemperam nas illusbes d’um baile, e que ho- ras de abencoado ingano li divertem as tristezas dos mais desinganados. Nio era assim que Jorge Coelho scismava comsigo mesmo—que a aurora do seu curto dia de fé e amor principiava entio— quando o amigo Pires, langando-lhe © braco ao pesedco, Ihe disse: « Que fazes tu aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, com rosto de pesar, como se ti a fatal macan? ro promet sem comida Vem do 5.» numero, —Contemplo uma, e acho-a celestialmente for- mos. «A cbr de céra? —Sim. «Bu gosto mais da trigueira. Aquillo sim que é mu Ther para incommodar um sceptico. Queres ser apre~ sentado? —Pois tu conheces? 10; mas isso é facil. Eu you tiral-a para a pri- meira quadrilha, apresento-me, e depois tenho a honra de ser o teu apresentante. 0 na boa roda. Mas a quem me has-de tu apresentar? € nece rio, creio eu, que ella te diga quem é. « Pois eu nao Ih’o pergunto!? Essa reflex é piegas. Se queres ouvir o que eu Ihe digo, vai collocar-te ao pé de nés, ¢ escuta-me nos intervallos das fi © senhor Pires nio reconsiderava u toleraya réplicas. D. Silvina, vendo um homem conversar com Jorge, olhow-o com attenedo, para que, se acaso visse alguem de suas relagdes com elle, podésse, de conhecido em co- nhecido, chegar a colher alguma noticia do seu myste~ so observador. Mais propicia do que ella ambicionava, Ihe foi ao incontro a fortuna protectora da innocente cu- sidade. Pires, com elegante desimbaraco, solicitow uma contrad adoravel aprazi- mento, acceitou 0 braco do eavalbeiro, porque os pares se estavam alinhando. ‘Aqui, porém, falhou uma vez a felicidade a um tolo. Pires esquectra-se de procurar vis i tarde lo éeste, ¢ juras. na tolice, nem \¢a a Silvina; esta, con vis, e era 42 para o procurar. A dama dew primeiro pela falta, e 0 academico fez-se da cor do ribano. Silvina relanceou 6s olhos supplicantes , e esta, chamando primeiro cavalheiro couhecido, deu-lhe o braco e introw no logar fronteiro 4 prima. «Esta falta, disse Pires retezando a lava no pulso até a descozer, deve-se ao inthusiasmo com que eu pedi a v. eX." esta contradanea. —Inthusiasmo?! Parece-me qué queria dizer dis- sponden Silvina, ao adiantar-se para ex tar a primeira figura. Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho q ir collocar-se perto de Silvina, mas um burguez.intol rante, incommodado pela pertinacia do mogo, que se es forca os grupos compactos, chegira a dizer-Ihe: « Osenhor nao esti ahi bem? Se quer passea spere que se acabe a polka.» 0 burguer nio sabia 20 certo se era polka ou contradanca o que se estava da sando. Entretanto 0 nosso amigo Pi roso de que Jorge no estivess cursos da eloquencia habit traccao — izera , com quanto pesa- ali para admirar 0s re~ is difficuldades do salio, conversava assim com a attenciosa senho «Quando tive a honra de pedir a v. ex. sua annueneia para esta contradanga... (Silvina collocow © leque diante dos labios) acabava eu de dizer a0 meu amigo que o olhar contemplativo, ¢ ido ¢ justificado. — Maito agradecida; mas eu. amigo de v geiro. «Se v. ex.* ten a bondade de olhar para defronte de nds, ha de incontral-o extasiado. tasiado?! Ora! Isso parece-me der a graca da m que elle fitava V. ex.', era met nao reparei bem no , que ine distinguia d’um modo tio lison- wasiada li- Silvina olhou como quem nao vé ninguem, e volta do-se para o cavalheitc — F’ do Porto aquelle senhor? «E’ da provincia, estudante de Coimbra, meu con= discipulo, chama-se Jorge Coelho, pertencea uma casa nobre, e assevero ay. ex.* que & um coracio virgem, intacto, ardentissimo, sentindo hoje pela primeira vez os primeiros toques do amor. — Nao admira, porque é muito novo. «Muito novo! quantos velhos n’aquella idade, mi- nha senor que elle, ¢ —Realmente?! Aqui estou eu, que pouco mais velho sou ie considero ja desilludido e decrepito, Perdde-me a curiosidade; mas di- ga-me em que romance poderei incontrar 0 seu car ter, ja que nio devo esperar uma revelagio das tempe tades que o fizeram tio ctdo naufragar? «6 meu caracter ainda nio esti eseripto... atalhou nhor Pires, avincando a testa, e earregando 0 so- br’olho em ar de tyrannete. © MUNDO ELEGANTE. Nisto, intraram os pares Interaes em movimento, & a phrase ficou ingasgada n’um continuar-se-ha para 0 proximo intervallo. In; vina, como esquecida da suspensio da lugubre na perguntou ao cavalheiro : «0 seu amigo demora. —Nio so essas as sua: mas é natural que um acé se da familia carinhosa que o esti esperando. «Y. s.* depois que invelheceu julgou distrabir- sua gotta moral, zombando das pessoas que ainda créem € esperam alguma coisa n’esta vida? Silvina dissera isso entre séria e risonhi sustentou egualdade de earacter, posto que v excentrico na inepcia seja de todos o'ma variavel, e de facil sustentagao. Balbuciando, disse Vex fer-me injustigas eu que digo isto é por- que sei o que Jorge esti sentindo, a formosura de v. ex.*, as suas boas qualidades podem. exereer sobre 0 cor «Y¥. s.* conhec — Nao tenho essa honra, minha senhora. assim ajuiza das mi — Um rosto angelico é um véo transparente, atravez do qual o homem experimentado divist © cor anjo. «CE nio sio todas as mulheres demonios p mem insens \tractivos da formosura ? Pires ndo pide responder, porque expirira o inter~ vallo. Terminada a contradanga, conduziu a dama a sentar-se, e, feita a cortezia do agradecimento, diss 1a queria ter a felicidade de apresentar av. ex." 0 meu amigo Jorge Coelho; porém, primeiramente, rogo- Ihe me diga se devo procurar alguem que me apresente aveext —Nao tenha esse inedmmodo. Fico sabendo que v.s.* é um cavalheiro de boa sociedade, e isso basta. Sei tambem que é um estudante de Coimbra, e sympa- thiso com essa qualidade, porque tenho em Coimbra dois, smiios no Seminario, ¢ nao sei que analogias me fazem presar os estudantes. « Direi mais a v. ex. anou-se, porém, 0 sceptico. Sil~ rativa, we no Porto? tengdes, minha senboras 10 de v. ex.* 0 faca esquecer= Pires nao caracter uniforme, in ascendente io do meu amigo. 1as boas qualidades? > de © ho- rel aos que me chamo Ernesto de Souza Pires e Albuquerque, a minha casa ¢ na Maia, e costumo passar no Porto as ferias, porque me.é insupportavel a vida pastoril, e no tenho as mais pronunciadas tenden- ias para admirar a naturezaagreste, — Nao é poeta? «A poesia é uma fldr muito delicada que se desfolha ao primeiro vendaval do coragio. Desfolhada a primeira flor, 0 vaso que fica nio tem seiva para outra, = Isso 6 triste « Tristissimo, minha senhora. Agora eram de vietima os ares de Pires, e Silvina pedia a Deus que nao viesse para junto della a prima, : t 0 MUNDO ELEGANTE. 43 com médo de soltar alguma risada das que o genio da galhofa arranca as veres 4 mais sizuda prudencia Jorge Coelho, sem saber bem 0 que o impaci ni podia tolerar a demora do seu amigo. « Se eu soubesse dansar—dizia-se elle — teria feito © que fez Pires... Seré de mim que elles estio fallando? ® possivel, porque a vejo olhar-me com atter eu me aproximasse, daria lalvez melhor occasiio a Pires de me apresentar, E, obedeceBdo & hypothese, deu alguns passos, mas, tio timidamente os dava, que parecia querer se por entre ds turbas. Entio viu elle que 0 officioso amigo 0 procurava sem o incontrar. Silvina acenou de Jonge ao seu novo conhecimento, ¢ farce onde estava Jorge. © pobre moco tremia, quando viu que era procu~ rado. A sua primeira ideia foi fugir da sala, e nao duvi- damos acreditar que fagiria, se Pires Ihe nao trava do braco, dizendo : « Olha la como Ihe fallas. A mulher é es sabe o que diz. Isto foi peor. «<0 meu amigo Jorge Coelho, que eu tenho a honra de apresentar a ex. snr.* D. Aqui estacou 0 radioso Pire Jorge, baixando a cabeca, eéron, — Nao sabe 6 meu nome? isso nio importa —‘disse a dama— Eu me apresento. © men nome é Silvina, ¢ bo a gloria de ser tambem da aldeia para que nenbum de nis se possa rir dos outros. Entio 0 senhor Jorge nio dansa? «Nio, ‘minha senhora. Eu nao sei dansar — disse Jorge com infantil ingenuidade. — Nio sabe, ‘porque mio ama a dansa, nio é assim? « Em minha casa ninguem aprendeu a dansar. Mi nha mae foi educada nas Ursulinas de Braga, e de la sa~ hin para ser esposa, e mie, governar uma casa, onde nunca se deram bailes. Eu sabi ha menos dum anno da minha aldeia, ¢ tenho consumido todo o meu tempo no estudo... Silvina estava gosando a simplicidade de Jorge, a0 paso que Pires lamentava as pueris revelacdes do sew acanhado amigo. Querendo salval-o, 0 academico in- terrompeu-o com no sabemos qué espirituosa semsa- boria; mas Silvina atalhou-o logo, dizendo « Deixe fallar 0 seu amigo, que me incanta com a ingeleza do que diz... — Eu retiro-me, minha senhora — disse Pires — porque estou compromettido para a seguinte polka. « Tambem eu — tornou Silvina, ja quando o par se avisinhava, ao qual ella disse que a desculpasse, porque se achava incommodada. E yoltando-se para Jorge, que nio soubera avaliar a fineza do fingido ineémmodo, disse: conde \dicou-the com dis- ituosa, ava, |d’ella em coracio que o compre —Tet aqui esta cadeira.... Sente-se, ¢ conversemos da sua familia, porque talvez precise desafogar saudades ada. (Contimia). 6 cAsTELL0-DnAKCO, fo. Se: DESAFOGO. Precisas que os labios te digam ternuras, Que os olhos te dizem no seu vivo ardor? Precisas palavras, protestos, e juras Que nunca revelam dos olhos o amor? i como possa © que a alma sé pide sentir; De certo que ¢ lingua bem pobre esta nossa. Na dar ha s6 prantos, no goso 0 sort. Quaes sio as palavras que 08 labios proferem, Que digam da alma os segredos? n Dois entes no mundo que d’alma se querem Nio sabem dizél-as, nem eu tas dire Amar-te em silencio, adorar-te em segredo, Que até de mim proprio quizera esconder Busear de ti longe, em spontaneo degredo, De migoas ralado, poder-te esquecer... ‘Nilo sei que mais diga que exprima a desdita De amor tio profundo, tio nobre, e infeliz! ber que teu seio por mim nio palpita... Sabél-o, e adorar-te... esta dor nio se diz! E’ grande, & immensa a coragem do homem, ‘Que péde assim n’alma a paixio suffocar. So dores sem nome que dentro o consomem.,. ‘Nao ha salvagio n’este inferno d’amar, Senti sempre, sempre, este affecto profundo Por anjo que foge ao queimar d’este amor ‘Aos reos de mil erimes, occultos ao mundo, Que penas mais agras daria o Senhor?! E eu sito e prevejo que nunca hei de ouvir-te Palavra sé uma d’esperanca... jimais! temas que eu ouse, chorando, pedir-te © amor impossivel que negas aos mais. Quem sou? que triumphos, que nome, ¢ que fausto De glorias condignas porei a teus pés? Sou nada! Na terra meu nome é infaust Sou nada, sou verme, s6 grande tu és! faidades que eu tive, soberbas de gloria, Orgulhos punidos que eu sinto hoje em min Mil sonhos vaidosos que anceiam na historia Grinaldas e honras e uome sem fim... Ai! tado é mesquinho, se eu tudo te dera Em troca d'esperancas de um dia ser teu, Ser teu? sim, esorava! que mais eu quizera? Mais nada... seguir-te na terra, € no eeu. 0 MUNDO ELEGANTE. 0 PADRE JOSE AGOSTINHO DE MACEDO E A ZAMPERINL 0" sandosa edade de ouro, dias do velho Portugal, er» que a virlude, com sua irman gémea, a castidade, anda vam entre os homens, como hoje dizem que andam en- tre os malaios e os hottentotes, para os quaes os réseos dedos da rora da civilisagao nao levantaram ainda o ‘véo dos escandalos illustrados! 0” virtuosos prelados, que vedaveis com 0 baculo flammejante de excommunhdes a entrada dos the: ao clero, para que o sal da terra se no derranca onde a podridio é tamanha que o proprio sal corre risco de apodrentar-se! O' dalcissimas recordacdes! Ha hoje oitenta e nove annos que prima-don; rini cantou no theatro da rua dos C ondes en Qual fosse o inthusiasmo incendido pela cant farta colheita de almas fez entao o it dio Wella, aféra muitas que a religiao pode ainda ar- rancar as garras do anjo das trevas, que be hoje chamar-se 0 anjo das luzes: isso infere-se do artigo que vai adiante transcripto de uma nota ao flissope, poema heroi-comieo de Diniz. 0 mais tocante, porém, do artigo, o que mais dentro, das boas almas vai bulir & de poeta, que quebra a lyra das suas odes a Zamperini, aos pés do cardeal, e obedece & prohibicao que Ihe veda 0 regalar em publico os ouvidos com a voz arrebatadora, pela qual, por um triz, e, se Ihe nao vale o patriarcha, se enha nas voragens do inferno, onde, segundo 0 san- meu, reina horror eterno e Fanger de dentes. eta era José Agostinho de Macedo, 0 patriarcha ‘isco de Saldanha. is uma pagina da historia do theatro lyrieo em Por= tugal « Zamperini, comica cantora, veneziana, veio a Lis boa em 1770, om a qualidade’ de prima Donna, e a testa de uma Companhia de comicos italianos, ajustados e trazidos de Italia pelo sur. Galli, notario apostolico da Nunciatura, e banqueiro em negocios da curia romana, « Entregon-se a essa virtuosa sociedade o theatro da rua dos Condes. Como havia tempos que nao se ouvira opera italiana em Lishoa, foi grande 0 alvoroco que cau. sow esta chegada de tantos virtuosos, mormente da snr. Zamperini, que logo com sua familia foi grandiosamente alojada. Fta familia Zamperini compunha-se de tres ir- mans e de um pae, hotnem robusto e bem apessoado, que, apesar de uma enorme cabelleira com que debalde pretendia dar quinio aos espertos alvidradores de eda: des, mostrava todavia no semblante poder exigir da sm Zamperini menos alguma coisa que piedoso e filial res peito, ou dever-Ihe outorgar alguma coisa mais que a sua paternal bencio. « Sendo forcoso costear esta especulacao theatral, os agentes interessados n’ella, lembraram-se de recorrer ao filho do marquez de Pombal, 0 conde de Oeiras, entio presidente do Senado da Camata de Lisboa, que, ja préso € pendente da incantadora you da séria Zamperini, a nuiu sem difficuldade a0 plano que Ihe foi propos Sob os seus auspicios ideou-se uma sociedade, com 0 rto'a humildade dum | g 'fando de cem mil eruzados, repartido em cem acces de quatrocentos mil reis eada uma. Para aleance prompto desta quantia, langou-se uma finta sobre alguns nezo- ciantes nacionaes e estrangeiros que, em d ea horas fixas, sendo juntos no Senado, s que eram chamados, ouviram da bdca’ do conde pr Tate as condigbus desea nova sociedade theatral, 6 receio de serem malvistos do governo, n’outros a von- fade de agradar ao filho do primeiro ministro, foram a poderosas consideracdes que os arrastraram todos a assi~ gnar as ditas condigdes, das quaes a mais penosa era ada somma, que logo preencheram. « Parece que os inventores e agentes d’esta sociedade tiveram por alvo singular o de multar a atistera sizudeza de alguns negociantes velhos; pois no rol dos assignan- tus a maior parte dos nomes era de pessoas edosas que nnunea haviam sido vistas em public Nessa mesma junta foram logo nomeados qu nistradores inspectores do theatro, os quaes com o maior desinteresse, rejeitando commissio e ordenado, se deram Ror pogas¢ salisteits com a simples e modicaretibi cio de um camarote commum a todos quatro. Ignacio Pedro Quintella, Provedor da Companhia do Gran-Pard € Maranhao, e tio do ill." bario de Quintella, Alberto Meyer, Joaquim José Estolano de Faria, e Theotonio Go- mes de Carvalho foram os nomeados inspectores admi nistradores, nemine discrepante. -0s mezes depois da abertura deste theatro, as ntado ¢ administrado, morren o j ado pae Zamperini: a administracao fez-lbe um surn- ptuogo funeral, eno trigesimo dia apéz 0 obito, magni- ficas exequias ina igreja do Loreto, onde fora sepultado. Alguns criticos de ma lingua haviam espalhado 0 boato de que, n’essas exequias, havia de recitar a oracdo fane- bre o padre Macedopa esse tempo muito bom, e justa- mente ereditado prégador, poeta que jt eompri tira a Zamperini com varios sonetos, odes, &c. O'pa- triarcha dom Francisco de Saldanba, receando que as- sim succedesse, mandou vir & sua presenea o padre Ma- cedo, prohibiu-lhe de orar em taes exequias; de ir 4 opera; de fazer versos 4 Zamperini; e ordenou-the de substituir por uma cabelléira 0 cabello que trazia, a ita liana, bem penteado e muito apolvilbado. Em vio allegou © padre Macedo com o exemplo dos clerigos da Nuncia~ ura, que todos usavam de pomada e pds; e quea cabel- leira offe ; pois alé os padres, que d’ella isavam por causa de molestia, eram obrigados a impe- trar breve de Roma, que na Nunciatura era taxado em um quartinho, por tempo de um anno de indulto. 0 patriarcha foi inexoravel sobre este ponto da cabelleira, e sémente moderon a ordem de nao ir & opera, com 6 preceito unico de nio apparecer na plateia, e com a culdade de acantoar-se no fundo de algum éamarote, ou em frisura pouco apparente, como a do auditor da Nun. ciatura, Antonini, ¢ do secretario do eardeal Conti, 0 pa- dre Carlos Bacher, e outros padres italianos, que, como elle, frequentavam a opera ea casa da Zamperini, «Nao foi o padre Macedo 0 unico apaixonado da Zamperini: muitos poetas nacionaes ¢ estrangeiros t butaram-tIhe obsequiosas inspiracies das suas musas. En- tre elles distinguiu-se 0 encarregado dos negocios de Franca, o chevalier de Montigny, cujos lindos versosain= da sio lembrados. Ki todos os estados e em toda a eda— de, encontrou essa seréa rendidos e rendosos adoradores. O MUNDO ELEGANTE. AS Em dias santos, & ultima missa, a que ella costumava as sistir, na igreja do Loreto era o concurso, que apéz si chamava, numeroso e lusidissimo. « Antes de findos dois anos, ¢ logo depois da morte \dministrador Ignacio Pedro Quintella, o fando da sociedade theatral achava-se exhausto, e as receitas mon tando a tio pouco, que mal cobriam as despezas indis- pensaveis de servigo mais ordinario, os administradores deixaram de pagar os salarios dos comicos e dos musicos da orchestra. Entre os primeiros havia um chamado Schiattini, tenor acontraltado, homem jovial e poeta que, por haver pedido o que Ihe era devido, em estylo que nio agradou aos administradores, foi por estes aquarte- Jado na casa dos orates, donde era conduzido ao theatro todas as vezes que havia opera. Schiattini, valendo-s entio do privilegio analogo 4 residencia a que fora con- demnado, vingava-se em parodiar sobre a see jue no drama Ihe tocava, com satyras re das que divertiam os espectadores & custa dos agentes da administracio. Recrescew a provocada raiva Westes, e pobre Schiattini, vendo-se em maior aperto, recorreu a el-rei dom José, que, informado da injustica com, que era tratado, o admitlin na sua capella « Eseusado 6, parece-me, dizer q theatral de Pombal fez sahir de Li smperini ; eainda mai escusado relatar as cansas d'esta ordem de governo; di- simente que os aecionistas nao colheram coisa al- guma dessa empreza; pois achando-se empenhada e de- vedora a infinites eredores, nao tiveram outro beneficio, que 0 que Ihes resultava do privilegio especial de nio rem obrigados a mais de que o fundo que cada um jul- gou perdido, logo que com elle contribuiu. » Aqni termina a nota illustrativa, e um tanto i nstallacao do theatro Iyrico em Lisboa. F’ allamente comica a loucura foreada a que demnado o tenor por que pediao que Ihedeviam. Quan tas companbias de canto teriam sahido doudas do thea tro de S. Joio, no Porto, se o pedirem os seus ordenados fosse symptoma de demencia! Trociramos de boa mente este ehilro existir da actua- lidade, estes bocejos de impertinente somno que nos bru- talisa n’uma eadeira de plateia, troe: le certo por ouvir ha oitenta e nove annos Schiattini improvisando satyras em verso italiano contra os administradores que The nao pagavam, e os bons burguezes a rirem, ¢ os ad- ministradores, fulos de raiva, a jurarem entre si que homem estava sinceramente doudo! Oh! que cheias noi- tadas nio tiveram aquelles dilettanti de rabicho e ealgao, em confronto d'estes, cuja soporifera seriedade & apenas interrompida por algam soneto ebxo de amador lorpa que o padre Macedo teria mandado no dia seguinte com 6 tenor Schialtini para a casa dos orates! ‘A proposito do Macedo, importa saber que, privado € apparecer na plateia, ¢ relegado para 0 fando d’um camirote, 0 bom do padre excedeu o zélo, do prelado, acantoando-se de modo que nio podia ser lobrigado p los olheiros do patriarcha; mettia-se nos eamarins co seraphico resguardo; e prestava 4 arte um preito inno- cente, conduzindo aZamperini a casa, depois do theatro, € ceando com ella, na companbia de alguns padres ila- | ianos nao menos orthodoxos. esta negociacio da E ainda ha quem nos incampe a auste religiosidad penas durou até meado de 1774, queo marques | P do clero no seculo passado! Atrevem-~ 6s pessimistas estes nossos dias de triumphal devassidio a volver ‘olhos saudosos para o seculo em que se fazia Matra e a ‘capella de S. Roque, e se despejavam no Vaticano as pa rias que nos pagava'o Oriente ¢ a America Sejamos equitativos. 0 clero actual nio esconde a corda na plateia, ¢ isso verdade; mas, ou porque se ber za no vestibulo do theatro, ou porque v \do de ar~ ruda contra os feiticos das primas donas, é certo que a musica nio o gafa de ruins tentagdes, nem consta que elle gaste muito do seu sal em combater a lepra que, por via de regra, traz iscadas as almas das primas do~ nas, contraltos, comprimarias, e tutti quanti. UM VIAJANTE EM PORTUGAL HA 393 ANNOS. Era rei da Bohemia, em 1463, Jorge de Podiebrad. Affecto 4s doutrinas hereticas’ de Jo%o Hus, martyrisado em (415, 0 ‘movareha attrahirs de Paulo Il, que (ou contra a Bohemia cruzada de exterminio. Mathias Cur- Ninus, rei de Hungria, enteado de Jorge, conspirou contra 0 padrasto, induzido pela promessa da corda, que'o pontifice Ihe Hizera. Jorge reagiu contra os raios do vaticano, e pediu auvilio aos monarchas, queixosos de Roma. Esta dilizeneia diplowa- {ica foi commettida a Léo de Rosmital, seu cunhado. Naquella época ainda as edrtes se nio mutuavam ministros represen tuntes com aposentadoria permanente. Léo, bario de Rostai- tal, sabiu de Praga a visitar as principaes edrtes da Europa em 1465, Dois homens lettrados intravam no prestito do illustre via- jante; um bohemio, e outro allemao. Cada qual escreveu em sua lingua uma narrativa m. A do primeiro, vertida para Tatim, e a do segundo, na lingua em que féra originari mente escripta, foram reimpressas em 1844. Da segunda nao podemos dar Cépia ao leitor, porque, ndo conhecemos sequer © alphabeto teutonieo; da outra, porém, extractaremos as pa- ginas que dizem respeito a Portugal. Primeiro, porém, afigura-se-nos interessante uma suceinta noticia do fransito de Léo de Rosmital desde a Bohemia 4 frouteiras de Portugal. Servimo-nos de uma noticia do roteiro do seeretario allemio, analysada na Revista britannien de 185 © Niajante praticava_um heroismo inaudito, abalancando- se aos perigos de excursio tio demorada. A rainha de Bole mia, na carta em que o recommenda aos monarehas, espanta-se da temeridade de seu irmao, geme na incerteza da volta, e pede a Deus que o proteja (). Dresta carta de chancella 10 politico da imbaixada: infere-se zatelis, e omiasos nos factor de algum valor Compuntiacse o sequito de quarenta pessoas, cincoenta e ios, um car Pilsen coo ral,'¢ derash x familias um deus lagrimoso até dia dott : O'aho apparemte da imbaixada era participar do exerccio da earallarie-andantes colher tnformagoes dos costumes das ‘arias ebrtes; 'e-adorat em pereerinaedo as sancis religuiasy bisequiando’os santos male aistnctos no culo dos deren tes pazes.Né-se-que a hypocrsia das imbanadss d'aqucties tica dos nossos. Hostal devia ser herege como seu cubado, ailectos 1 Homa, © monarehas (6 ados como 0 da Bohemia, lation condolentex Sed quid faiendam’ Deo com> t propositum bono principio, meliore medio, t optino fine ter- 46 Rosita no trajecto do imperio austiaco, retalhado entio em pequends:prineipados, ia rompendo leas el Us tov nao mentem! Em Framer, o proprio arebapo sess a um dos bohe r ite as hospitaleiras dat aqui eavaile ni 0s, © munca os addidos di po distiburu pela comitiva reliquias, quasi todas tira pollo das onze mil vtgens ahi martyrisadas, setido mu dostbohemios a favor das virgens existentes. iim Aicia-Chapelle iu o-imbaixador um cito authentic de Nossa Senhoray, posto. que na cidide de Prato, em ltaa, thentico, visto. que’ os papas os decararam authentic todos tres ‘um mosteiro de freias tiveram os bohemios um almoco- tm que houve profusio de vinhos do kheno, ¢ dan ita do elmucro, exceutadas pelas novicas © pe nidos que os das hospedeiras mona Stileros da terra bebian endeu-os tambem 0 primelto moinho de vento que t is haveria ah que o8 sur fandos hostis que se dilaceravam, uns porque eram sequazes do dague Adoipho, outros porque tentavam arrancar dt mase do duu préso 4 ordem do dl ciram a Brvellas, A vbrte de Fiippe 0 Dom era por esses tempos a mais luxuosa © magniiea a Europa, 0 frei presate que o nana non ay sre ptestino ol uma profusa dada de vinbos brancos etintos em enormes tacas de oiro, Tres semanas de festas e torneios celebraram a thogada da imbatsador obemio, que ao tay. dia fol hone rado na cbrte-com um banquet incrivel © superebundante, dit Ssceretarioallemio,. Terminado o fest, houve Tucta de pac tinadores sobre o silo; e,tal-era a seguranca de alguns, que os bohemios suspeitatam’ que inteava taquullo cots de rae Xo. ‘Mats os maravilhou slnda o thesourd do principe. Foi tame de tree dias fabuloso o valor por que’ f os historiadores. "0 monarch, pedis a Lio fxealhesse a pea que mas lhe agradasse do th ime lie de celta ovat alguma! disse 0 bardo. — Que-| Fendo Deus, hei-de grangear-ouro prata; a gloria, potem, ‘Que philosophia tio. selsagem a deste barSo! A disputar ‘io sahiram of peregtinos da Bohemia sem delsarem ilus- tre renome de proesiecavalleirosas. Un esforgado palladino do fei fol tres vezes a terra imbatido’ pela lanes um bohemio, Nioaconteceu.o. mesmo. a0 historador, que, atordoado por jo it as estrellas, coufesa elle que Wra 0 “ideo hum’ projectuseectdi ut damonem pparere cre in.» Diab sahiral, tinalmente, com um interprete que fae deesete inguas! Urados Sandwich por uma tempest, inchewoe de a Posta de néos de tres baterias, eras cam duzentox Femadores, e numerosos botes. Notaram elles a singularidade de andarem musicon de aote tocando violes e cornelas, de’ se fazerem a yela as imbareacbes.. Chegados a Cantorbers, fZastaram o seu tempo adorando 9 relicario do mosteiro de Xgostinios, e uma imagem da Senhora. que. conversata rege ste com. @-mamia de S, Thomar Reckett, palesttas que cote tinha presencia, posto que os péregrinos babe: Ihios nto tiveram essa houra: Limitaramse a beber uma foate, que se tausforma em sangue, c, de veres, em lite; quando, port, elles heberam, era meramente aga fresea. Eils'em Londees, quando teinava Eduardo IV. «Seri pre~ ciso, dito seerlarioy dois escriptorese duas semanas de tac Dara deserever as reliquias que vimos em Londres,» La ge Ics deparou outro cinto autheptico de Nossa Senhora tibia de S.Jorges tim erucixo de pau que conversava coin os seus devotos;-e uma vas seis tages que serviram as bodas de Cinaa ‘0s bohemios foram convidados a acompanhar a ruinha a0 0 MUNDO ELEGANTE. ia ia um regimento de mse edros de canto- 1a e dois cantores templo processionalmente. Na vangua naaes fom as rlqaae espostay floret aeompanhados'atrombetas e solas; uma tera de for- josas damas de Londres ecircumisinhanas; vnte © quatro frautos erreis darmas; sessenta comdes e cavalleiros; a guar- dada tainhay que marchava sob am docel, hasteado por duas tn couce da prociseio testenta danas do paco amos da philirmoniea das violas trombelas, € tenemos sd espectaclo, um variezndo de capricho= Sos matizes, formados pelos trajos multicores das damas ¢ ca- 2 procissio, Houve Iauto jantar, em que o im- anid teve assento to pe de Eduardo TV aramn ao soberbo salao onde devia jatar a rainba mde pea mite ertans do rel, que ajelbavam quam clan ¢ 30 podiam assentar-se depois a primeica foverta. Serviancna dah em diane as condessas de joelhos. Todas esas ceremonias cram fetas em proundo sleucio que durava tres horas. Seguin-se umn baile, aberto, pelas irmans do rei pelas duqueris, com vat misuete |°"fegaados com toda a exsta de honraria, muitos dos bohe- injos foram srimados eatalleios pelo proprio monarch. No Saemos qual seria mals grato aos perearinos, s-0s"diplo- ie cavalarin, ae. 08 beyjos que cles contessam terem Te- ds formosasinglera. Isto & um pouco afrontoxo para Beas ds 839: parece jocente vluptvonidade que as de 1466 necessidade do bom tom: do beljo que a mo scdesocilart necesse est » diz 0 texto. Despediram-se de Londres ); imbarcaram em Poole; ¢ sof- freram a abordagem de dois corsarios inglezes, que eahiram de joethos diante de Rosmital, quando este Ihes mostrou 0 passaporte com a assi ‘de Eduardo IV. Depois de grandes trabalbos, aportaram a ram oduque René em Saumur, ¢ passaram a Ci sidia Luiz XI. Com quanto a imbaixada, por ordem regia, pa- isse a uma Tegua de distancia da fortaleza, o descontiado jonareha admittiu-o a sua presenca por tempo de nove dias. Vinte mil soldados de eavallo rodeavam o castello, e sessenta guardas escoltavain sempre 0 rei jiavam noite e dia na Aantecamara de seu quarto. A vida’ de Luiz XL uo era Ue eerto mais feliz que a dos présos que elle tinha aferrolhados em aiolas. de ferro. ‘De Franca passou a Hespanba a imbaixada, atravez de gran- des embaracos oppostos pelas guerras civis de Hespanha ; che- zou a Compostella e conversaram em Burzos com o bispo, ju- dew convertido, que se dizia parente da Virgem Maria, © viramn tho mosteiro de Holgas win Senhor erueificado, cujos’ cabellos € uuhas eresciam a olhos vistos. Depois d'este edificante es- pectaculo, assistiram a outro de corridas de touros, em que Viram morrer dois capiuhas.. Os touros nao tinkam curro, e corriam livremente as ruas da terra. Passaram a Segovia, € Vira © aqueducto construido pelo architecto Satanaz.. Incon- n Olmedo Henrique 1Y, de eécoras ijos costumes adoptéra, com trext Fos em volta de’si, Os seeretarios taxam-no de sovina, porque Festringiu as suas dadivas a fazél-os eavalleiros com a insignia ia », 0 que elles realmente precisavam para Soffrer com bom rosto as estalagens de Hespanba, em que ‘muitas vezes tiveram de puriflear-se com jejuns fore: impurezas peccaminosas dos beijos de Inglaterra. Junto de | Gantalapiedra incontraram um rei da Polonia feito eremita, sta Datalhia 0 fizera abandonar 0 throne @ desde que uma inks Passaram. ainda por Sala- @ patria, onde o julgavam morto. ane: long, este, © Povo ts"tldean, ca vlan: a bem ‘zee ¢ um eee Aya cident’ por montana wlan im- Ste raron 02 vehiculon to vise powea pray mas muito Ava ah carina conffontada com a de yao do tanger, A prnepl righ, dpa 8 ‘Os inglenos so velhacos desloses: tramam sempre a ruina dos es- trangeiosie convém desconfar sempre dalle, aada que vos suppliguem fe foathos. » . * are gun torna rma ona ferro, ei Doteins tan