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SEMINAR OO + Duh 429 INTERVENCOES EM CENTROS URBANOS: Objetivos, Estratégias e Resultados Intervengdes em centros urbanos: objetivos, estratégias e resultados Heliana Comin Vargas Ana Luisa Howard de Castilho A pergunta: “Par que a construgdo de Tela prolonga-se por tanto tempo?” os babitantes, sem deisar de icar baldes, de baixar cabas de ferro, de maver lon- . pinetis para cima e para baie, respondem: “Para que nao comece a destrui- $80 [-.]". “Qual €0 sentido de tanta construgao?”, pergunta, “Qual o objetivo de wma cidade em construgio senio uma cidade? [..}”. fralo Calvino (1997: 117) Os centros das cidades tém sido identificados como 0 lugar mais dindmico da vida urbana, animado pelo fluxo de pessoas, vei- culos ¢ mercadorias decorrente da marcante presenga das ativi- dades tercirias', transformando-se no referencial simbélico das cidades. Também historicamente eleitos para a localizagio de di- versas instituigdes puiblicas e religiosas, os centros tém a sua cen- tralidade fortalecida pela somatoria de todas essas atividades, e 0 seu significado, por vezes, extrapola os limites da prépria cidade. ias sfo aquelas que incluem o comércio € os servigos varejiss, incluindo servigos de educagio, de lazer, financeiros, de hospedagem ete. 2 INTERVENCOES EM CENTROS URBANOS No entanto, quando a expansio das éreas urbanas intensifica- se de modo espontineo ou planejado, esta nocdo de centro come- 2a diluir-se pelo surgimento de uma rede de subcentros, que passa a concorrer com o centro principal. Este processo foi, sem divida, responsivel pela aceleragio da deterioragio e degradacio dos centros urbanos, que passaram a ser, na Europa e na América do Norte, objetos de preocupagio, desde a década de 1950. No Brasil, esses processos sio discutidos de modo mais intensivo apés ‘os anos de 1980, Observa-se, no decorrer da que os centros das ci- dades tém recebido diversas adjetivagdes: centro hist6rico, cen- tro de negécios, centro tradicional, centro de mercado, centro principal ou simplesmente, centro. A nogio de centro urbano, como ponto para onde conver- gem 05 trajetos ou as agées particulares que facilitam o encon- tro, 0 descanso eo abastecimento, definindo-o, historicamente, como o lugar das trocas comerciais, conduz ao conceito de cen- tro de mercado. Agregando-se a este ultimo outras atividades urbanas, como a religiosa, a de lazer, a politica, a cultural, as ati- vidades financeiras as de comando, também pode ser utilizado © conceito de Centro de Negécios (Central Business District — cpp). Esta visio funcional do centro, atrelada a espacializagio hierdrquica das atividades urbanas, dé origem aos conceitos de centros principais, subcentros, centros regionais, centros locais, definidos pelos tipos de atividades oferecidas e pelos seus raios de influéncia (Vargas, 1985). Logo, infere-se que este centro ar- ticula-se com a cidade por meio de sua fungio e de seu signifi- cado, transmitindo uma idéia de posigio relativa na area urbana (riedrichs et al., 1987). Jé0 conceito de Centro Histérico esti associado a origem do. niicleo urbano, consegiientemente, 4 valorizagio do passedo (Carrion, 1998). Este iiltimo conceito cristaliza-se, por vezes, como se as demais partes da cidade nio tivessem dado a sua con- tribuigio para a hist6ria da sua gente, refletida sucessivamente na INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS sua estrutura em construgzo (Marcuse, 1998), O Centro Hist6ri- co nio deve, portanto, ser analisado como se fosse um lugar pre- destinado a fantasmagoria de perda causada mais pelo desapareci- mento das referéncias do presente do que pela real saudade do passado (Huyssen, 2000). Nessa diregio, sio valorizados os luga- res geograficos, os elementos arquiteténicos (religioSos e civis) e, por extensio, urbanos (estrutura urbana e bairros), em detrimen- to do contetido social, A definigio de Centro, portanto, implica a presenga de uma cidade de diversidade étnica, portadora de processos histéticos conflicuosos, com milhares de anos de existéncia em permanente contradigéo (Carrion, 1998). Nio apenas os edificios expressivos € monumentais merecem ser preservados, mas também as edifi- cagdes de todas as classes sociais que fazem parte da histéria, sem que essa concepgio, no entanto, signifique um congelamento da cidade (Marcuse, 1998). Intervir nos centros urbanos pressupée avaliar sua heranga historica e patrimonial, seu cardter funcional e sua posigio rela- tiva na estrutura urbana, mas, principalmente, precisar 0 porqué de se fazer necesséria a intervencio. Esta idéia de interven¢io sustenta-se na identificagdo de um claro processo de deterioragio urbana que pode ser entendido por analogia aos termos prove- nientes das ciéncias biolégicas. Intervencao e cirurgia sfo pala- vras sinénimas, ¢ o organismo submete-se a uma intervengio ba- sicamente em trés situagdes: para a recuperagio da saiide ou manutengio da vida; para a reparacio de danos causados por aci- dentes e, mais recentemente, para atender is exigéncias dos pa- dries estéticos, Os conceitos de deterioragao degradagio urbana estio fre- qiientemente associados & perda de sua fungio, ao dano ou a rui- na das estruturas fisicas, ou a0 rebaixamento do nivel do valot das transagdes econdmicas de um determinado lugar. Deteriorar é equivalente a estragar, piorar e inferiorizar. Jé a palavra degrada- cio significa aviltamento, rebaixamento e desmoronamento. De- gradar vem de gradus, “grau”, que compée a palavra degrau, na ITERVENGOES EM CENTROS URBANOS qual a preposi¢io “de” refere-se a qualquer coisa que se movi- menta de cima para baixo (Castilho, 2004). Em geral, a referén- cia aos espacos degradados acontece quando, além das estruturas fisicas, verifica-se a reverberagao da mesma situagio nos grupos sociais. Atribui-se & condi¢io de empobrecimento ¢ de margina- lizagao a destruigio das bases da solidariedade entre os individuos € 0 descrédito na nogio de bem comum (Gutierrez, 1989). Esse processo de deterioracio/degradagio intensifica-se apés ‘os anos de 1950, causado, fundamentalmente, pelo crescimento © expansio do espago urbano, Ao mesmo tempo em que os cen- ‘ros congestionam-se pela intensidade das suas atividades, am- lia-se a concorréncia de outros locais mais interessantes para morar e viver. Assiste-se ao éxodo de atividades ditas nobres ¢ a saida de outras grandes geradoras de fluxos, como as implemen- tadas pelas instituig6es piiblicas. A substituigéo faz-se por ativi- dades de menor rentabilidade, informais e, por vezes, ilegais ¢ praticadas por usudrios ¢ moradores com menor ou quase ne- nhum poder aquisitivo. Consegiientemente, a arrecadacéo de impostos diminui e 0 poder pablico reduz a sua atuago nos ser- vigos de limpeza e seguranga piiblicas (Balsas, 2000; Carrion, 1998; Friedrichs et al., 1987; Frieden e Sagalyn, 1992; Garay, 2003; Vargas, 2000, 2004), Essa imagem da deterioracdo/degradagio e seus efeitos afe- tam os diferentes atores envolvidos de forma distinta, de acordo com os respectivos interesses e segundo a conjuntura local, cada vex mais internacionalizada. As intervengSes urbanas propostas e executadas de modo a conter esse processo tém apresentado di- versos objetivos e estratégias, com resultados, algumas vezes, inesperados, surpreendentes ou mesmo distantes dos objetivos \duzindo a seguinte reflexio: “Qual a importéncia da recuperagio dos centros urbanos?” Recuperar o centro das metrépoles nos dias atuais signifi a, entre outros aspectos, melhorar a imagem da cidade que, 20 2. Em comunieagio pessoal INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS. perpetuar a sua histéria, cria um espirito de comunidade pertencimento. Significa também promover a reutilizacao de seus edificios e a conseqiiente valorizagio do patriménio cons- truido; otimizar 0 uso da infra-estrutura estabelecida; dinami- zar o comércio com o qual tem uma relagio de origem; gerat novos empregos. Em suma, implementar agdes em busca da atrago de investimentos, de moradores, de usudrios e de tu- ristas que dinamizem a economia urbana e contribuam para a melhoria da qualidade de vida, valorizando também a gestio urbana que executa a intervencio. No Quadro 1.1, constam enti- meradas algumas motivagdes para a recuperagio dos centros das cidades, Atualmente, observa-se um consenso sobre as razdes que conduzem ao processo de recuperacdo das éreas centrais. A lite- Tatura internacional e seus diversos estudos de casos relatados so- bre 0 processo de retorno ao centro auxiliam na compreensio desse percurso, apontando perfodos bastante diferenciados sobre 0s objetivos e as estratégias para alcangé-los, no Ambito de seus diferentes contextos, OS PROCESSOS DE INTERVENGAO ~ 1950-2004: OBJETIVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS Durante todo 0 século xx ¢, em especial, apés o fim da Se- gunda Guerra Mundial (1939-1945), assistiu-se & dindmica das proposicdes e dos questionamentos sobre a vida urbana e, conse- quentemente, sobre a atividade nos centros urbanos. A anilise da literatura relativa ao tema orientow a divisio dos Processos de intervengdo em centros urbanos em trés perio- dos principais: Renovacio Urbana, relativo as décadas de 1950 € 1960; Preservagdo Urbana, desenvolvido nas décadas de 1970 ¢ 1980; e Reinvengio Urbana, nascido por volta da década de 1990 € prolongado até os dias atuais. E, contudo, necessério observar que esses periodos no sio rigorosos nas suas delimitagées nem excludentes entre si. 66’ INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Quadro 1.1 - Motivacdes que conduzem as intervengdes em centros urbanos. Referéncia e identidade | Os centros tém um papel essencial quanto 2 identidade e a referencia de seus cidadaos e visitantes. Histéria urbana’ O centro & 0 lugar onde se encontram as sedimentagdes e as estratificagoes da histéria de uma cidade. ‘A variedade de atividades e a tolerancia as des reforgam o caréter singular dos centros urbanos em relagdo aos subcentros mais recentes. + diversidade Infra-estrutura existente | Nos centros das cidades, geralmente, hé um sistema vidrio consolidado, saneamento bésico, ener transporte col cultur dessa tanto do ponto de vista econdmico quanto ambiental, é injustificével e servigas de telefonia, ‘Mudangas nos padres | Alteragbes como maior expectativa de sociodemogréficos Vida e consequente envelhecimento da populacio; redugao do nimero de componentes da familia; ampliagao do trabalho feminino, entre outros aspectos, faciltam e reconduzem ao retorno de habitagdes nas éreas centrais. Deslocamentos Estatisticamente, 0 centro de muitas pendulares cidades ainda concentra um maior nmero de postos de emprego. O retorno do uso residencial para o centro diminui sensivelmente a necessidade de movimento moradia-trabalho. Durante muitas décadas, vem ocorrendo a spersdo locacional dos negécios. Em Into, 0s centros ainda retém uma parcela da distribuigao de bens e servicos. INTERVENCOES EM CENTROS URBANOS: OBJETIVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS ‘A Renovagao Urbana - 1950-1970 Neste perfodo, o proceso de intervencio em éreas urbanas assumiu a preferéncia pelo novo. Na Europa, a ideologia do ur- banismo do Movimento Moderno une-se & prética de reconstru- do do pés-guerra. Na América do Norte, a renovagio aparece no contrafluxo do processo de suburbanizagio. A proposta de urbanismo do Movimento Moderno - expos- tana Carta de Atenas de 1933 ~ deu indicios das ages que se su~ cederam: A morte, que nio poupa nenhum ser vivo, atinge também as obras dos homens. E necessério saber reconhecer ¢ discriminar nos testemu- hos do passado aquelas que ainda estio bem vivas. Nem tudo que ¢ pas- sado tem, por definiglo, direito 4 perenidade; convém escolher com sax bedoria o que deve ser respeitado. Se os interesses da cidade sio lesados pela persistncia ce determinadas presengas insignes, majestosas, de uma ca jf encerrada, seré procurada a solugio capaz de conciliar dois pontos de vista opostos(.. (phan et al., 1995: Demolir e construir para renovar viriam a ser o propésito da- quela geragio. As ages passam a coincidir com os interesses tan- to da elite que idealizou 0 movimento quanto daquela que patro- cinou sua materializagio, Nos EUA, a intensidade da deterioragio dos centros urbanos atribufda & migragio para os subtirbios e ao impacto dos shoppings periféricos induziu ao processo de renovagio urbana de grandes proporgdes, quando comparadas com outras partes do mundo, 0 que justifica a farta literatura que analisa esse fenémeno. Em contraposigio, os centros das cidades européias e seus significados culturais conseguiram refrear o proceso de deterio- ragio e impedir as demoligdes em larga escala, além daquelas jé causadas pelas guerras. 8 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Objetivos Na Europa, as intervengées urbanas voltaram-se basicamen- té para a resolugio dos problemas de congestionamento e para a reconstrugdo do pés-guerra, baseando-se no planejamento con- duzido pelo Estado por meio da criagio das New Towns (cida- des novas), como na Escandinévia e na Inglaterra, ou pot meio de Metrépoles de Equilibrio, a exemplo da Franga (Vargas, 1985), As atengGes dirigiram-se para a recuperacio dos espagos pi- blicos, tema presente nos debates do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (Ciam), reforgado pelo 5* Ciam, em 1947. Nesta edigio, a discussao foi ampliada para a relagio en- tre os processos de projeto de edificagdes e de planejamento ur- bano. Assumindo papel paradigmatico nas discusses, o espaco piblico passava a ser supervalorizado, como as Ramblas, em Barcelona; o Picadilly Circus e o Hyde Park, em Londres; as ga- lerias, em Milao; ¢ os cafés e bulevares, em Paris (Costa, 2004), O tema central do Ciam de 1951, por sua vez, foi “The heart of the City” [O coragio da cidade]. No discurso de abertura do evento, Josep Luis Sert apresentou um ideal de centro urbano, que promovesse ¢ facilitasse contatos interpessoais. Na antiga Iugoslévia, os nticleos histéricos das cidades mais présperas também foram convertidos, em parte ou totalmente, sm “ilhas caminhéveis”. O controle piblico do uso do solo e dos transportes, unido a uma politica ativa de implementacio de in- fra-estrutura nas novas reas de expansio, conseguiu resultados que os urbanistas ocidentais esforcaram-se para obter no mesmo periodo (Ciardini e Falini, 1983), A destinagio do espago para o uso ptiblico nas cidades européias foi fundamental para que se consolidasse o que restara do patriménio urbano ¢ houvesse preocupagdo com a sua preservacao (Balsas, 2000). Em caminho diverso, o desenvolvimento das cidades norte- americanas na década de 1950 esteve condicionado a demoligio |NTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWVOS, ESTRATEGIAS € RESULTADOS. de reas considerdveis do tecido urbano ¢ a reconstrugio Reichl, 1999: 22). Este processo ficou conhecido como Reno- vaso Urbana (Urban Renewal), no qual nio havia intuito de preservar os edificios ou mesmo o conjunto deles. Alguns estu- diosos definem este periodo como bulldozer days, owseja, um ar- rasamento de quarteirées, como aqueles que se observam apés as guerras. Em 1957, a Companhia de Seguro de Vida de Connecticut liderou uma conferéncia nacional sobre a Renovacio Urbana com mais de 50 participantes, entre os quais politicos, arquite- tos, pesquisadores, investidores, banqueiros, publicitétios ¢ ur- banistas, na qual se concluiu que os centros nfo respondiam mais as demandas dos seus cidadaos quanto ao tipo de habitagio, tragado de ruas € usos urbanos. A principal aspiragio desse gru- o seria eliminar o congestionamento das areas centrais, com a criagio de grandes espagos para vias amplas, estacionamentos, instituigdes culturais, Além dessa transformacio, 0 novo centro deveria trazer a natureza de volta entre os edificios, promoven- do uma completa mudanga de uso do solo. Inchistrias e armazéns cederiam seus lugares para torres de escritérios, bancos, agén- cias do governo, hotéis, restaurantes, lojas de departamento, preparando-se para ser 0 espago das artes, da educagio e da re- creagdo, ¢ para grupos de moradores que desfrutariam a vida cultural ¢ educacional do centro (Frieden e Sagalyn, 1992). Dis- Por de espaco para implementar tais mudangas significaria der- rubar muito do que Id havia e desalojar milhares de pessoas, pois esses projetos no se referiam apenas as éreas centrais, inclufam também outros distritos na circunvizinhanga do centro, Naquele momento, 0 sucesso observado nos empreendi- mentos imobiliérios residenciais ou comerciais realizados nos subiirbios reforcava a crenga na importancia de seu planejamen- to empresarial, tética esta a ser reproduzida na recuperagdo das reas centrais. Prefeitos, empresérios e equipes de profissionais 10 INTERVENOES EM CENTROS URBANOS de alto nivel desenvolveram os projetos ¢ 0s cidadios tiveram uma atuago secundéria, apenas como agentes de cristalizagio e legitimagio dos planos entio elaborados. Os prefeitos tinham o firme propésito de recuperat a arre- cadagio de impostos, reduzida de modo significativo pelo éxo- do de empresas ¢ dos altos estratos sociais, mostrando sua ca- pacidade executiva diante do olhar de seus eleitores. Varias cidades (Pitsburg ¢ Renaissance, em 1943; Filadélfia, em 1948; Baltimore, em 1955; e New Haven, em 1954) criaram associa 6es com essasintengdes. Nos Estados Unidos, foram elabora~ dos ¢ publicados 700 planos para os distritos centrais até 1959 (Frieden e Sagalyn, 1992). Estes também defendiam a melhoria do centro por meio da construgio de vias urbanas e, para tanto, tiveram como aliados os construtores de rodovias, que incorpo- ravam a temética Recuperagfo de Centros Urbanos em seus projetos rodovidrios para fortalecer a liberago dos recursos federais. Os agentes imobilidrios e os interessados em progra- mas habitacionais para a populagio de baixa renda colocaram em prética um outro projeto que resultou em um processo de “desfavelizagio” das reas centrais, por meio da demoligio da habitagao subnormal, Foram construfdas mais de oitocentas mil unidades de habitagées populares pelo pais com a implementa~ io do Programa Federal de Renovagio Urbana, estabelecido pelo Housing Act, de 1949, vindo ao encontro dos interesses dos agentes imobiliérios (Frieden e Sagalyn, 1992; Reichl, 1999). Estratégias Em decorréncia do éxito da atuagio norte-americana na Se- gunda Guerra Mundial (1939-1945), a legitimidade do governo foi fortalecida, aumentando ainda mais o seu poder de lideranca e decisio, garantindo apoio politico na definigao das grandes INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS; OSJETIVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS obras e das intervengdes urbanas. Por sua vez, as aliangas entre os diversos grupos de interesse, incluindo 0 poder puiblico, como mencionado anteriormente, asseguraram uma soma de re. cursos proveniente de outras esferas de governo, isto sem impli- car a cobranga de impostos locais e garantindo a exequibilidade de grande parte dos projetos elaborados, Tais empreendimentos também foram viabilizados pela desapropriagio de extensas Areas, algo que 0 capital imobiliério levaria sozinho anos para conseguir implementar. Nem todas as reas desapropriadas e demolidas respondiam aos critérios exigidos pelo Congresso noree-americano, que in- dicavam a necessidade da predominancia de uso residencial com sinais claros de decadéncia fisica. No entanto, muitas reas que atendiam aos critérios estabelecidos pelo Congreso nao eram de interesse do mercado imobilisio As dreas destinadas a reconstrugio receberam grandes tor- es de escritérios corporativos e de apartamentos para as clas- ses de maior renda, pois isso significaria maior arrecadagao de impostos. Frieden e Sagalyn (1991) afirmam que essas reas representaram um tergo dos projetos realizados durante a década de 1960. As torres ¢ os edificios isolados inseriam-se €m um imenso jardim, adotando o modelo de Le Corbusier, conhecido como os princfpios de racionalidade e de eficiénci caracteristicos do urbanismo moderno ou do estilo internacio- nal (Reichl, 1999). Seguindo a mesma tipologia de isolamento do entorno, as cidades também construiram hospitais, escolas, museus, centros efvicos, como o Lincoln Center, em Nova York ig 1.1), Outras estratégias para a recuperagio das dreas centrais ba- searam-se no conceito de uso exclusivo de pedestres nas princi- Pais ruas de compras, como se os problemas enfrentados pelo comércio estivessem relacionados com a dificuldade de desloca- mento a pé. No periodo entre 1957 e 1962, cerca de cinglienta Cidades tentaram recuperar 0 comércio fechando suas ruas para a a INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Figura 1.1 - Lincoln Center, Nova York. Foto: Gilza Maria Howard de Castilho, 2005. 0 uso exclusivo dos pedestres’, processo este que continuow na dé- cada de 1970 (Frieden e Sagalyn, 1991). Somente apés alguns anos, descoberto o equivoco, muitas cidades, como Toledo, na Espanha; Boston ¢ Seattle, nos Estados Unidos, reabriam as ruas e recons- truiram as calgadas.* verdade de horirio de abertura de lojas, manutengio e se- sguranga, itens certamente encontridos nos Shoppings Centers suburbanos,inexis. ‘iam nas reas centrais. Os espagos publicos com érvores, bancos e fontes acrafam as melhores lojas partir € 2 atender um outro pablico Enquanto muitas cidades recuperaram suas rua, ainda na década de 1970, sssumindo que comemorou seus vinte anos de e 2000). O calgadio de Sio Paulo constituise em sivas para pedestres do mundo einfluenc ue até mesmo a rua Augusta, « mais fro «© conhecida rua de compras de Sio Paulo, foi acarpetaa e eve seu uso destinado pedestres. Ero que feliamente, durou posco tempo. INTERVENQOES EM CENTROS URBANOS: OBIETWVOS, ESTAATEGIAS E RESULTADOS Na Europa, paralelamente a reconstrucio, foram iniciadas, com sucesso, experiéncias voltadas & preservacio dos valores emocionais mersos nas dreas antigas das cidades. Ainda na década de 1960, preo- cupagio semelhante foi observada nos projetos executados nos centros urbanos da Holanda, Inglaterra e Polénia. Em Bologna’, na Itélia, a metodologia ¢ as praticas do seu plano permanecem como referéncia até os dias atuais (Del Rio, 1991; Lucini 1996). Destaca-se uma flagrante diferenca entre os paises ocidentais ¢ orientais na reconstrugio de seus centros. Essa diferenca no esté na metodologia nem nos critéri intervengio, mas na maneira como se apresenta a estruturagio fundiéria. Nos paises orientais, com regimes socialistas, o patriménio era coletivo; jé nos ocidentais, 0 espaco piblico foi mesclado com o privado (Ciardini e Falini, 1983). Resultados Criticas & renovagio urbana, bem como aos programas vié- rios, surgiram na década de 1970. Uma delas apontava a falta de visio empresarial dirigida aos planos e projetos realizados, prin- cipalmente do ponto de vista da dinémica urbana. Os edificios isolados, monofuncionais ¢ fechados sobre si mesmos no pro- moveram a atragio de outros ususrios nem o estabelecimento de sinergias fundamentais para o estimulo ¢ a manutengio da vitali- dade urbana‘ (Copeland, 1968; Carey, 1988). 5. Na Buropa,a cidade de Bolonba (tis) & um e ‘um projeto de intervengio de su érea central I, para as- mesucedido projeto olveu segundo of segurar a do Rock 14 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Em decorréncia desse insucesso, a maioria dos administrado- res piblicos tornou-se mais receptiva a ouvir os incorporadores ea olhar com interesse 0 sucesso dos subiirbios. Sucesso que se traduzia no desempenho empresarial dos Shopping Centers e ‘no no fato de estarem inseridos num tecido urbano novo e mi derno, Em 1964, surge nos Estados Unidos o primeiro Shopping Center Central, o Midtown Plaza, em Rochester. Contudo, em- preendimentos como Galleria, construido em 1970 em um su- biirbio de Houston; Water Tower Place, inaugurado em Chi- cago em 1976; e outros investimentos em edificios antigos (fabricas), como Ghirardelli Square (Fig. 1.2), erguido em 1964 em frente & bafa de Sao Francisco, iniciaram um novo conceit para os Shopping Centers Centrais (Frieden e Sagalyn, 1991), Essas ages demonstraram que um produto diferenciado poderia ser uma nova idéia para atrair o pablico de volta ao centro. Ini- ciava-se a discussio sobre a utilizagio de edificios antigos asso- ciados aos espagos de consumo. “‘Também foi considerado pelas eriticas 0 excesso de oferta de escritérios gerado durante aquele periodo. Na década de 1950, foram adicionados cerca de cinco milhdes de metros quadrados de escritérios no centro das trinta maiores dreas metropolitanas dos Estados Unidos, tendo Nova York absorvido a metade dessa demanda. Em 1960, a oferta de empreendimentos comerciais ul- trapassou duas vezes 0 mimero dos anos 50, com um tergo dos investimentos implementados em Nova York, novamente. As reas dos centros metropolitanos captaram 20% da construgio de escritérios do pais Frieden e Sagalyn, 1991). Outro efeito perverso da renovagio foi o fato de que, ainda em 1971, mais da metade dos projetos iniciados entre 1960 ¢ 1964 no haviam encontrado investidores, e as éreas demolidas permaneciam vazias. ‘Mais um significativo impacto nas éreas urbanas provocou-se com a grande transferéncia de populagdes de suas residéncias. No processo de intervengio urbana, fora desconsiderada qual- INTERVENCOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWWOS, ESTRATEGIAS € RESULTADOS 18 Figura 1.2 - Ghirardelli Square: um paradigma da reutilizagao de edi- ficios industriais para o uso comercial _~ Foto: Ana Luisa Howard de Castilho, 1993, quer possibilidade de participagio comunitétia, assumindo w cardter segregacionista. A expulsio dos residentes, substituidos Por extratos sociais de mais alta renda, iniciou um processo de “gentrificagio” (enobrecimento) nas dreas degradadas, Até 1967, © apartamento (apartheid) social foi justificado por um viés racis. ‘a, contra as minorias étnicas e os pobres, Esses programas de re- novacdo ¢ de reestruturacio viéria desalojaram mais de 700 mi familias ¢ eliminaram empregos e pequenos negécios (Frieden e Sagalyn, 1991). Oano de 1974 é considerado o iiltimo de 25 ma de renovagio urbana. de uma série de mo anos do progra- As criticas a esse programa resultaram fentos cujo discurso baseava-se na estéti- a, no patriménio e na questio ambiental, inaugurando uma no- va fase no proceso de intervengio nas dreas centrai {6 _INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS A Preservagao Urbana ~ 1970-1990 O processo de mudanga da fase da renovagio urbana para a fase da preservagio urbana carregou consigo a negacio do movimento anterior: 0 modernismo. O estilo internacional fo- ra criado nas bases do socialismo europeu e refletia a visio de igualdade que tanto incomodava a elite deventora do capi tal e avida pela diferenciagao. Esta reforgou a importncia da preservacdo das vizinhangas e a restauracio histérica de edifi- cios considerados significativos como os novos simbolos de status € distingio. Os projetos do periodo de 1970 2 1990, 20 incluirem a preservagio ¢ a restauracao de edificios histéricos, aproximaram-se mais da versio européia de intervengio. Uti- lizaram-se nesse proceso antigas estruturas industriais, es- tages de trem, armazéns, mercados e teatros, introduzindo nesses espacos 0 comércio ¢ os servigos vatejistas, as ativida- des de lazer e a cultura, Iniciava-se, naquele momento, 0 pro- cesso da ‘chamada restauragao historicizante de velhos centros urbanos, cida- mnuseus ¢ paisagens inteiras, empreendimentos patrimoniais e heran- sas nacionais, 2 onda da nova arquiterura de museus (..], 0 Boome das mo- das reré e dos utensils repré, a comercializago em massa da nostalgia, fo através da cimera de video, «literatera me- © crescimento dos romances autobiograficos (Huyssen, 2000: 14). € hist6ricos pés-modernos Nos Estados Unidos, as comemoragdes do Bicentendrio de Independéncia norte-americana renovaram 0 interesse social pe- lo patriménio nacional, ocasiio em que ocorreram intimeros eventos publicagdes sobre o pasado do pais. Em entrevista, Ada Louise Huxtable (apud Rifkind, 1998) identifica esse mo- mento como o casamento da “Senhora Histéria” com 0 “Senhor Lucro” e completa: INTERVENGDES EM CENTROS URBANOS: OBJETIVOS, ESTRATEGIAS € RESULTADOS Desde sua consolidaglo, os filhos desta unio nasceramm com maus genes: aqueles baseados na preservagio, com sentimento de lager e com amor pela histéria foram recessivos, enquanto aqueles que preferiram © eeiro © 0 retomo econdmico foram dominantes (tad, das au- tora), Essa nova fase privilegia a preservagio urbana, ao incorporar 0s edificios hist6ricos nos projetos de reestruturacio das ativida- des nas éreas centrais, abrangendo as priticas tradicionais de co- mércio e servigos ali existentes. Como reforgo a esse ideal, Jane Jacobs (1961: 4), uma das maiores criticas ao processo de renova do urbana, afirmava que J os centros culturais sio incapazes de iar uma livrria, Centros civieos sio evitados por todos, a nio ser por aqueles que tém pouca op- fo de escolha, Caminhos que levam nada a lugar nenhum e vias expres- S88 que rompem o tecido urban no constroem cidades. Saqueiam-nas (trad. das autoras) A preservacio de edificios histéricos estava presente no discur- so de intelectuais, da elite cultural e da populagio local em resguardar suas conquistas ¢ os elementos afetivos que delas fa- ziam parte. Cabe destacar o grande nimero de normatizagdes e le- sislagdes visando salvaguardar os centros ditos “hist6ricos”, muitas vvezes eoincidentes com os centros urbanos. Foram executadas, en- tre as décadas de 1970 e 1990, diversas reconstrugGes de edificagées em nome da preservagio do ambiente construido.’ Organizagdes como a Unesco ampliaram a preocupagio com 2 preservagio em escala mundial, participando ativamente do proceso de reconhecimento das areas hist6ticas como parte in- tegrante do cotidiano. Por meio de recomendacdes, os Srgios de preservacio relacionavam as dreas hist6ricas com o planejamen- 7. 0 Patio do Colégio, na cidade de Sio Paulo, é um desses exemplos. uw ad INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS to urbano, com a intengio de salvaguardar a vida e a integridade da sociedade. Essas orientagdes ecoaram em diversas instituigdes voltadas & administragio urbana, por todos os cantos do planeta e, no raramente, resultaram em intervengdes isoladas, dirigidas 2 restauragio de edificios histéricos, sem a devida consideracao do entorno urbano. Objetivos De uma maneira geral, 0 objetivo do perfodo de 1990 2 1970 esteve centrado na valorizagio da meméria, na organizagao da sociedade em defesa do patriménio histérico ¢ no discurso de que os centros das cidades seriam elementos essenciais da vida urbana e gerariam identidade e orgulho civico. Os empreendedores imobilirios reconheceram que 0 mode- Jo periférico estava apresentando sinais de enfraquecimento devi- do. forte concorréncia de projetos similares, como, por exemplo, os shopping centers. Isso fez com que o centro da cidade passasse a ser visto como um grande aliado para empreendimentos dife- renciados. Os administradores das cidades procuravam, sobretudo, pro- jetos com maior apelo popular e préximo aos locais onde os seus eleitores freqiientavam. Passaram a agir como empreendedores € nfo somente como gestores urbanos. Fortaleceu-se, dessa forma, a relagio de parceria entre o se- tor piiblico ¢ o privado, com a finalidade de responder &s criticas estabelecidas no perfodo anterior por meio de projetos vidveis para a economia urbana e para os negécios empresariais, contan- do com o envolvimento da comunidade para os legitimar. Estratégias ‘A migragio da populagio para os subtirbios, reforgada pela idéia de morar junto & natureza, a0 inaugurar um novo conceito de qualidade de vida estabelecera o primeiro desafio: como atrair INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETIVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS 2 populacio para o centro? Era necesséria uma mudanga da ima- gem do centro.* _Nesse contexto, a preservagio do patriménio histérico e ar- quitetdnico, como elemento fundamental para o resgate da iden- tidade e da cidadania, atuou como pano de fundo das interven- ges urbanas (muitas vezes, sobrepondo-se a elas). Foram estabelecidas trés agdes para atrair usudrios ao centro: a inter- vengio fisica por meio de projetos arquiteténicos (empreendi- Mentos); 0 estabelecimento de politicas urbanas; e a implemen- tagdo de programas de gestio compartilhada. Os projetos arquiteténicos (empreendimentos) ___ Quanto aos projetos arquitetdnicos, a existéncia de uma po- litica de preservagao histérica e arquiteténica, principalmente nos Estados Unidos, colocou 3 disposigio do proceso de inter- vengio um volume de recursos significativos’ que certamente ‘no passou despercebido aos olhos dos grandes empreendedores. _O varejo moderno, por exemplo, foi parte de uma estratégia deliberada para vender a histéria em um ambiente de compras. Figurou como uma das opcdes mercadolégicas mais utilizadas or virios projetos, entre os quais devem ser destacados Faneiul Hall Marketplace, que inclui Quincy Market (Fig. 1.3), em Bos- ton; Forum Les Halles, em Paris, em 1979 (Fig. 14 e p. El); € La Part de Dieu, em Lion, em 1975, 8 Una pesquise p, em 1974, apontou que 90% das pessoas preferiam mo- ‘ar nos subiirbios e em cidades pequenas. O centro, para elas, correspondia 30 F- dduto dos negros e dos pobres (Frieden e Sagalyn, 1992) 9. Estabelecidos pelas reformas fiscais de 1976 e I americanos produzin 08 incentives federais norte © periodo de 1982 a 1985, Somente durante esses 10 bilhoes na execugio de projetas de preservacio histérica Rifkind, 1998), 19 20 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Figura 1.3 ~ Faneiul Hall Marketplace, Quincy Market, Boston ~ marca o io de um periodo de venda da histdria em um ambien- te de compras Foto: Ana Luisa Howard de Castilho, 1993, sa estratégia bascou-se na histéria do préprio comércio como um componente orginico da cidade, qualificando os seus centros ¢ os pontos a eles devidamente associados, Os shoppings centers centrais buscavam incorporar comerciantes locais, des- prezar as grandes lojas, dar énfase 4 mistura de usos urbanos fargas, 1992, 2000), introduzindo uma decoragio perso da para promover uma sensago de autenticidade e de ndo-pa- dronizacao. Nos Estados Unidos, a construgio de shopping centers, na maioria das vezes, funcionou como elemento catalisador do proces- so de recuperacio urbana. Mais de cem novas edificagées, localiza- das nos centros urbanos, abriram suas portas entre 1970 ¢ 1988, ¢ as cidades funcionaram como investidoras em 75% dos projetos (Frieden ¢ Sagalyn, 1992). Sao exemplos expressivos desses em- liza | | INTERVENCOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWVOS, ESTRATEGIAS E RESLLTADOS Figura 1.4 - Forum Les Halles (1979): substitu 0 projeto do antigo mercado Les Halles (demolido em 1971), absorvendo a linguagem arquiteténica do entorno construido e inte- grando-se ao sistema de transporte de massa da cidade de Paris Foto: Heliana Comin Vargas, 1998 preendimentos, além do Faneiul Hall Marketplace e Quincy Market, em Boston, ¢ do Ghirardelli Square, em So Francisco (Fig. 1.2), Pike Place Market, em Seattle (1982); Haborplace, em Baltimo! South Street Seaport (incluindo o Pier 17, Fig, 1.5), ¢ SoHo, ambos em Nova York. Uma parcela desses projetos foi objeto de c so piiblico e, para administré-los, formaram-se associagdes e age cias de desenvolvimento, como em Passadena e em San Diego. Outros empreendimentos reforcaram a importincia de ediff- ios de uso misto e recorreram a fascinagio que as obras arquite- tOnicas exercem sobre os individuos. O primeiro Hyatt Regency Hotel, como parte do Atlanta’s Peach Tree Center, em 1967, foi apresentado como projeto ideal e paradigmitico para todas as ci- dades. Os elementos construtivos que geravam tal fascinio eram a ‘22 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Figura 1.5 ~Pier 17, Nova York ~ Elemento catalisador da recuperagao das docas por meio da reciclagem dos armazéns portusrios, destinada aos usos comercial e de lazer. Foto: Heliana Comin Vargas, 1997. elevadores de vidro, lobby com vérios pavimentos e mezaninos, fontes de dgua decorativas, vegetacéo abundante e cafés aconche- saparentes, Francois, W’Orsay, em 1986; ¢ 0 Parqu ando uma nova base cultu- numba, 2002) P INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETIVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS Tniciava-se a fase em la cul nemas, livrarias, bares ¢ lugares de integrava o programa bisico dos empreendimen espacos deixaram de ser exclusivos das exposigdes contem para se transformar ei a de consumo. Os p entenderam-na com Figura 1.6 - 0 Centro Pompidou, em Paris, apresenta in Porténcia da arquitetura na promogao da gestao, Por meio de elementos construtivos de apelo tecnolégico ¢ de impacto visual Foto: Heliana Comin Vargas, 2003. 2 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS lidades econdmicas e sociais, por meio de atividades “Iidico-cul- turais [..] cuja principal performance consiste em encenar a pré- pria ideologia que os anima” (Arantes, 1991: 167). Politicas urbanas Na Europa, por causa do maior controle do estado sobre o de- senvolvimento das cidades, conseguiu-se interferir e manter a con- tinuidade no campo das politicas urbanas. As intervengGes inclui- ram nao apenas o comércio central, mas a habitagio de baixa renda, o sistema de transportes, os espagos piiblicos e o ambiente urbano, Algumas ages, como a liberagio das ruas para pedestres nas reas centrais, bem comno as construgdes de estacionamentos, foram mui- to comuns e tornaram-se exemplos para outros continentes. As politicas de auxilio e subsidios aos pequenos comerciantes independentes, complementadas pela imposigdo de restriges aos grandes desenvolvimentos varejistas, constituiram-se em estraté- gias para conter a deterioragao das areas urbanas centrais na Eu- ropa € em alguns paises asifticos (Lee, 1999). Na Alemanha Oci- dental, se 0 setor comercial nio passou por alterages to grandes como na Franga, em Portugal ou no Reino Unido, foi devido, so- bretudo, 3 existéncia de um segmento associative muito forte, que respondeu antecipadamente as necessidades do comércio tradi- cional e 3s préticas de planejamento urbano, destinadas a promo- ver os centros histéricos como locais privilegiados para pedestres, e ciclistas (Balsas, 2000; Zentes e Schwarz-Zanetti, 1988). Na Ilia, a énfase na conservacio do patriménio cultural e his- t6rico dificultou a adaptagao dos edificios as novas demandas do setor comercial. Bolonha é um claro exemplo de es hana integrada baseada em um posicionamento ideo! ico", que Par- ‘ido Comunista 1996, Op. ct 2. 0 (Pct) e Partide Democritico de Esquerda (PDs INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS Praticamente durante toda a década de 60, foram suspensas as au- torizagdes de construcdes; somente em 1969, aprovou-se um p no regulador. Esse plano principiou a completa recuperagio do centro histérico, inibindo a implementagao de atividades de reno- vagio (Lucini, 1996: 57) e incentivando a recuperagio das edifica- goes € a requalificagio dos espagos urbanos existentes. © projeto integrou sobretudo as agdes dos sistemas de transporte, de infra- estrutura e de dreas livres remanescentes, que foram destinadas aos espacos verdes ou reservadas para usos culturais e de lazer. Entre- tanto, foi o Plano de Edificagio Econémica e Popular (Peep) que conferiu todo o reconhecimento a Na Inglaterra, 0 posicionou-se como uma das intervengdes urbana idade da Europa, apesar de o processo de consolidagio do in- vestimento ter demorado cerca de 20 anos. Em 1979, sob comando de Margareth Tatcher, 0 governo assum 0 London Docklands Development Committe (DDC), crian- do também a Enterprize Zone (£7) e a Urban Development Cor- poration (UDC). Estes nas visavam 3 reutilizagio das ter- tas € dos edificios para atividades empresariais que gerassem emprego ¢ renda com maior aporte de recursos ptiblicos. Na América Latina, as estratégias direcionaram-se, predomi- nantemente, is ages normativas e & criagéo de agéncias destina- das a salvaguardar os bens culturais, nos ambitos federais, esta- duais e municipai Em 1979, as politicas de recuperagio das éreas centrais no Brasil nortearam-se pela criagio simultanea de duas entidades na estrutura do Ministério de Educagio e Cultura: a Secretaria de Patriménio Hist6rico ¢ Artistico Nacional e a Fundacdo Pré-me- miéria, Em 1987, foi elaborada, com 0 premissas para a preservacio dos ta de Petrépolis, do. nario para a Revit cidade como um organismo histérico resultado do process de produgao social (Castilho, 1998). izacio de Centros Histéricos”, que entendia a 28 26 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS © conceito de recuperacdo Figura 1.7 - A imagem do Pelourinho reflete 0 conceito 2 Urbana centrada na valorizacdo do patriménio edificado. Foto: Ana Maria Exemplo importante no perfodo de 1970 a 1990 foi o centro histérico de Salvador (Pelourinho-Maciel, Fig. 1.7), que assistiu 4 sua obsolescéncia funcional a partir da década de 1970. Contu- do, as bases para a sua recuperagio jé haviam sido langadas em 1967, com a criagio da Fundagio do Patriménio Artistico e Cul- tural da Bahia, que teve como énfase, por orientagio da Unesco no mesmo ano de 1967, 0 incentivo ao torismo cultural. Em 1985, o Pelourinho finalmente foi tombado como Patriménio da Humanidade (Uriarte, 2003). ‘A experiéncia de Curitiba merece ser lembrada gragas 20 uso precoce das téenicas de city marketing como estratégia de politi ca urbana no Brasil. Essas técnicas visavam a valorizacao da ima- gem da cidade por meio do planejamento. Outro instrumento eficiente foi a politica de comunicagio dirigida 4 populacao de Curitiba, que criava no cidadio um sentimento de pertenca € INTERVENGOES EW CENTROS URBANOS: OBLETIVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS identidade, constituindo-se em uma estratégia similar 3 que ocorria nos Estados Unidos ¢ na Europa, com 0 propésito de promover a legitimagio necesséria para as priticas urbanas im- plementadas. Gestdo compartihada Ainda na década de 1970, observa-se o surgimento de organi- zagbes de ruas inteiras ou distritos, com énfase nos procedimentos de gestio, inaugurando um intenso relacionamento entre empre- endedores, gestores urbanos e comissdes de cidadios e pequenos proprietirios envolvidos com o centro, Destacam-se Main Street Program ~ Msp (Programa da Rua Central) ~e Business Improve- ment District ~ Bip (Area de Desenvolvimento Econémico) O se foi pecto dos centros histéricos e comerciais das cidades de recursos piiblicos por meio da auto-sustentabilidade econdmi- ca. Apesar de ser um programa nacional, adaptou-se facilmente as necessidades © 3s oportunidades locais, atuando em quatro grandes reas: reestrutura¢o econémica para fortaleces a base da economia local e atrair novos investimentos; organizacio para coordenar a associagZo entre os diversos atores, planejando suas ages e buscando novos recursos; promogio da drea por intermé- dio da historia e da melhoria urbana, divulgagio e promogio de eventos; ¢ desenho urbano desenvolvido com base em projetos de recuperagio e preservacio do patriménio, Vérios institutos ais foram criados para dar suporte técnico ao progra alguns deles institufram as certificagdes que permitiram a obten- gio de subsidios para financiamentos de determinados projetos (Balsas, 2000). O msP fundamentou-se na ajuda mitua, pratica- mente sem subsidios governamentais e sem uma legislago espe- idades que ad progra 3» apud Balsa, 28° INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS cifica, apoiando-se na existéncia de uma expressiva lideranga po- litica. O programa, ainda intensamente adotado, caracteriza-se por privilegiar processos graduais e de pequena escala, baseados em parcerias. Também considera as especificidades ¢ complexi- dades de diversos casos e os enfrenta de maneira particular. ‘Nesta mesma linha, o 51D"? fundamenta-se na obtengio de re- cursos originados na tributagdo extra sobre os iméveis valorizados no decorrer do processo de intervengio. Essa estratégia foi bem aceita pelos proprietitios em razdo do reconhecimento de que 0 valor da propriedade é diretamente influenciado pelo meio que a rodeia (Balsas, 2000). A International Downtown Association (1D4)" identifica como principais atividades dos BIDs: planejamen- to estratégico; desenvolvimento de pesquisas sobre a érea; busca de recursos financeiros; regulamentacio dos espagos publicos e do desenho urbano; intervengio fisica nas fachadas, passeios e pracas publicas; manutengio e limpeza; seguranga com instalagio de equipamentos, aumento do efetivo policial e contratacao de guias; promogio de servigos de inclusio social; promogo de eventos, campanhas publicitérias; gestio de estacionamentos e transportes privados" (Houstoun, apud Balsas, 2000). Resultados Acerca desse perfodo que se estende dos anos de 1970 aos de 1990, reconhece-se a ampliagio do debate sobre os tipos e os propésitos das intervengdes urbanas, principalmente entre os ob- servadores, pesquisadores e criticos. Predominam quatro discus- 12, Estima-se que existam 1,500 sibs espalhados pelos Estados Unidos, dos quais cer ‘a de $00 constituiram-se em entidades auténomas (Colley, apud Balsis, 2000). 13, A International Downtown Association foi fundada, em 1954, com o objetivo de incentivar a melhoria dos centros urbanos das cidades. Realiza estudos e fornece servigas de orientagio séenica As orgenizagées associadss 14. A cidade de Nova York possui mais de 40 bs, entre os quais 0 mais conhecido & do Times Square, ciado em 1990, contanco em 2000 com um orgamento de [USS 7 milhies Balsas, 2000: 35). INTERVENGOES EM CeNitRoS URBANOS: OBJETIVOS, ESTRATEGINS € RESLITADOS sdes que envolvem a intervengo nos centros urbanos: o carter ideoldgico na discussio sobre a privatizagio dos espacos pibli- cos; 0 comércio ¢ os servigos como estratégia de recuperagio; a ctiagdo de cenarios; ¢ o entendimento do que é histérico. A privatizagao dos espagos piblicos, por meio de projetos ur- banos ¢ parcerias piblico-privadas, costuma ser criticada negati- vamente, em razio da transferéncia das competéncias das admi- nistragdes piblicas para o setor privado. Alega-se que as parcerias induzem & privatizagio da cidade. No entanto, os defensores de- Jas afirmam que as areas hist6ricas sio promotoras de uma cidade idealizada, principalmente para pessoas que perderam o contato com a urbanidade quando foram isoladas nos subiirbios (Frieden e Sagalyn, 1991). Os programas de gestio tém demonstrado sobretudo grande eficiéncia no alcance de seus objetivos. A utilizagio dos recursos arrecadados pelos tributos, a exemplo do BID, que se reverte no Ambito local, permite a previsio e a antecipagio dos investimen- tos, imprimindo um carter empresarial ao projeto. Por outro la- do, uma das grandes dificuldades do msP é a auséncia de meca- nismo legal para a obtengio de recursos financeiros. Apesar esse empecilho, o programa tem crescido significativamente", gracas ao seu poder de mobilizagdo de capital, recursos humanos e lide- ranga (Balsas, 2000; Cloar, 1990). Quanto as atividades de comércio e servicos varejistas, para diversos autores estas tém sido catalisadoras das principais estra~ tégias de recuperagio das dreas centrais (Balsas, 2000; Carey, 1988; Copeland, 1968; Frieden e Sagalyn, 1991; Omholt, 199 Vargas, 1992, 2001). No periodo das décadas de 1970 a 1990, fo- tam produzidos projetos arquitetOnicos atraentes e populares, 15. Com mais de novecentas aerar empregos e preser programa de desenvoli nos UA, ereditando-sea lea ca para cada USS | investido, USS 38 de retorno em investi Balsas, 2000), ‘20 INTERVENGGES EM CENTROS URBANOS embora, muitas vezes, criticados pela artificialidade com a qual construiram o cenério urbano. No entanto, é necessario lembrar que esta situagio sempre se repete. As arcadas e galerias comer- ciais do século x1x, hoje apreciadas, foram altamente criticadas em sua época, por causa da auséncia de naturalidade estabelecida pelos grandes arcos romanos, afrescos alegéricos e estituas de italianos famosos, cujo exemplo mais significative € a Galeria Vittorio Emanuelle, em Milo. Pesquisadores garantem que é um paradoxo utilizar 0 con- ceito de preservagio para um proceso que cria um novo am- biente urbano, como um cenério, fora de suas estruturas his ricas. Hi quem denomine esse novo lugar, ou talvez no-lngar, de parque tematico histérico (Reichl, 1999), onde se restauram reas hist6ricas como a construgao de objetos de consume, for- mando um tipo de espeticulo que atrai residentes e visitantes ¢ alimenta a atividade comercial. Essa alternativa de parque temé- tico pode conduzir a um processo de exclusio social, uma vez que inclui argumentos que relacionam a camada social de baixa renda 3 violéncia, 3 sujeira e 4 desordem (Samuel, 2000). Sobre o entendimento do que é hist6rico, defende-se ser um mito 0 congelamento do passado como fundamento das politicas de preservagio, pois, nas cidades, os centros historicos represen- tam o que hé de mais dinamico e mutante. Sio a sintese dos mil- tiplos processos urbanos em constante alterago que condensam a histéria (Carrion, 1998). Seguindo na mesma direcao, a contri- buigdo da preservagio da histéria sera muito limitada para a ci- dade como um todo se a intervengio nos centros for somente fisica e direcionada ao turismo. Essa preservacio nao seré histé- rica, pois refletird somente a arquitetura ¢ nio o ambiente urba- no ou a sua meméria. A qualidade arquiteténica é apenas um dos itens que devem ser considerados na preservagio histérica (Mar- use, 1998). Entre as décadas de 1970 e 1990, absorvendo parte dessas li- 4g0es, a politica do patriménio no Brasil ampliou a possibilidade INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS. de sua apropriagio pelos diversos segmentos populares da socie- dade. Essa medida visava alterar a postura anterior quando iden- tificou a sociedade como a auténtica agente do processo de cons- truco da nagio por meio de sua histéria. Essa iniciativa conferiu, na forma de diretrizes, uma visio mais democritica ao, processo de preservagio, considerando a revisio e a aplicagio do tomba- mento que passou a incidir nos espagos que abrigavam rituais, festas, enfim, atividades vivas e em constante transformaco. Com base no discurso, a preservagio associou-se 4 necessidade de manter a diversidade cultural da nagio e inseriu o passado ov a tradig&o como referenciais no proceso de desenvolvimento econdmico e cultural (Castilho, 1998: 15). Porém, as medidas pa- ra vitalizar os centros urbanos durante o periodo de 1960 a 1990 foram acanhadas, baseadas em aces normativas, discursos polt- ticos ¢ intervengées isoladas, voltadas, na maioria das vezes, 3 ex- clusiva restauragao das edificagdes, Em sintese, todas estratégias e instrumentos estabelecidos ara a recuperacio das éreas urbanas, direcionados ao desenvol- vimento urbano local ¢ fundamentados na preservagio do patri- ménio histérico cultural, agiram como embrides de uma nova era nos processos de intervengio em éreas centrais. ‘A Reinvengao Urbana ~ 1980-2000 Esta Era, reflexo de um novo modo de producto (flexivel) que surgiu no inicio da década de 1980, demonstrava que, por meio da utilizagio da microeletrénica, era possivel gerar vantagens extras com a diversidade de produtos, sem o sactificio das van- tagens econdmicas, permitindo responder adequadamente (cus- to, tempo, qualidade) a demandas diferenciadas de dimensdes menores (Gatto, 1989). A bomogeneidade da sociedade industrial fora substituida por uma imensa diversidade de estilos de vida, nna qual se apresentam grupos de todos os tipos, como hippies vegetarianos, atletas (Toffer, 1970), ambientalistas, entre outros at 3° INTERVENQOES EM CENTROS URBANOS A segmentacio do mercado ¢ a necessidade da diversificagio de formulas de vendas, aliadas As técnicas mais sofisticadas de in- ugio do consumidor (propaganda) ¢ & evolugio dos meios de co municagio, entio altamente intensificados e barateados pela difu- sfo da informitica, despertaram desejos que estavam longe de ser considerados necessirios ou sequer conhecidos. Essa revolugao nas comunicagées, além da possibilidade de maior difusio da in- formagio, promoveu uma transformagio na relago das atividades econ6micas com o territério, tornando-as mais independentes do espago fisico (feat oose), a0 mesmo tempo em que aumentou sen- sivelmente a visibilidade do territério (Vargas, 1992). A maior capacidade de comunicagio permitiu que o territério se transformasse em mercadoria para ser consumida por cidadios de renda elevada, investidores ¢ turistas, deixando de ser priorita- riamente o locus da produgdo para ser o locus do consumo (Glaeser et al., 2000). A globalizacio mudara o conecito de cidade, de des- tino final e permanéncia para o lugar dos fluxos. Verificava-se 0 dominio do trajeto, da transigio ou do movimento em detrimento da troca e do encontro, tio comuns desde as sociedades primitivas (Carrion, 1998), © capital imobiliério e 0 poder piiblico local tornaram-se gran- des parceiros nesse proceso. O primeiro foi capaz de criar localiza- Bes privilegiadas e induzir & demanda por intermédio da oferta. O segundo buscou a valorizacio positiva da imagem da cidade para a captagio de investimentos externos destinados ao desenvolvimento da economia urbana, Juntos, adotaram o planejamento de mercado" ¢ introduziram as técnicas de marketing urbano (city marketing) 16, Privicas de planejamento urbano gertnnias ensinam que hé uma grande dite entre o planejamento tradicional eo de mereado. Isto é, 0 plane- wientada para oferta, visa & investigagdo dos entraves, dos 15 € do ambiente construido (projeto urbano). O Planejamento de Mercado & mais orientado para 2 demanda, em que ascidades e as possiveis mu- dlengas no contexto urbano slo consideradas, do ponto de vist dos consumidores, atuaise potenciais (Ashworth ¢ Voogd, 1990). INTERVENGOES EM CENTROS URSANOS: OBIETIOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS O exemplo paradigmatico desse periodo foram as obras para as Olimpiadas de 1992, em Barcelona, Além de promover uma completa transformagio das suas areas portuérias deterioradas e abandonadas, tornaram-nas mundialmente conhecidlas e cobica- das por meio da sua divulgacio. Objetivos ‘Um dos objetivos relevantes desse periodo, manifesto em dis- curso, foi criar ou recuperar a base econdmica das cidades pa- ra gerar emprego e renda, preocupagio antes referente ao poder central que desloca paulatinamente para o poder local. Nesse processo, unem-se os setores piblico e privado, principalmente os empreendedores imobilirios, a fim de reconstruir ou reinven- tar o ambiente construido, Mais um propésito, que de certa forma esteve presente nos dois periodos anteriores, pode ser atribuido a fase de 1980 a 2000: a intensificacdo dos projetos arquitetdnicos e urbanisticos como forma de promogao politico-partidéria. Estratégias Em termos de estratégias para o processo de intervengio nas reas centrais, foram poucas as inovagdes nesse periodo. O que mudou foi a dimensio dos projetos, o foco da interveneio, a for- ma de gestdo ¢ a propagaco desses feitos decorrente da sua am- pla e intensa divulgacéo, conduzindo a uma proliferagio de gru- Pos e associagdes que passaram a se envolver nessas intervengdes. Intervir no espago urbano, portanto, torna-se uma ago mais ampla. Outras reas urbanas deprimidas passam a ser focalizadas, além das regiées centrais, como aquelas decorrentes da obsoles- Céncia das estruturas industrais, portustias, orlas ferrovisrias etc Por outro lado, enquanto nas éreas centrais a questo da preser- vacio histérica se mantém; nas demais, a busca pelo novo, pelo 3 34 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS inusitado, passa a ser 0 campo fértil para as experiéncias arquite- tonicas, restringindo-se ao antigo centro a historia da cidade. Entre os anos de 1980 ¢ 2000, algumas ferramentas aperfei- goam-se, ¢ a cidade passa a ser pensada, definitivamente, como uum empreendimento a ser gerenciado, mediante a adosio de prinefpios do planejamento estratégico e o uso de seu mais efi- ciente instrumento: o city marketing. Nesse contexto, dé-se énfa- se A gestio urbana assumida como uma politica de governo e 20 grande projeto urbanistico como elemento catalisador. A gesto urbana As mudancas ocorridas apés os anos de 1980, na Inglaterra, tiveram suas raizes na politica monetiria da primeira-ministra ‘Margareth Thatcher. Essa politica visava a redugio do financia- mento do Estado ¢ ao aumento da participagio do poder priva- do, situagio que conduziria a uma mudanga da prépria idéia de planejamento urbano como prerrogativa do Estado. Figuram co- mo medidas préticas decorrentes dessa nova politica, tal qual fo- ram expostas anteriormente, as Enterprise Zones (£2), as Urban Development Corporations (UDCs) e, a partir dos anos de 1990, © Town Centre Management (TCM), que se transformou em uma politica de destaque nas eidades da Europa Ocidental O TeM baseia-se na filosofia da gestio comercial centraliza~ da dos centros urbanos, incluindo entre as suas atividades pro- graméticas a formulagio de um plano ¢ sua implementagio. Essas ages englobam a melhoria do ambiente construfdo, a si- nalizagio urbana, a acessibilidade e a seguranga, além de incenti- var o uso residencial, acompanhar a situagio da propriedade fundiéria, controlar as atividades noturnas, agenciar o apoio aos 17. Seu sucesso foi tio grande que comegou com sete centros e passaram a ser 300 “Tews, em nove anos (ATCM, 1999), INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS visitantes, promover 0 comércio local ¢ 0 monitoramento de to- do © proceso. Os empreendedores nacionais e os comerciantes locais sio a base do apoio dessas estratégias para enfrentar a con- corréncia de outros centros. O TCM tem como elemento princi pal um gestor, auxiliado por um conselho de administragio, que € constituido pelos parceiros e, em funcio da dimensio das cida- des, por um conselho consultivo para dar suporte técnico, Algumas limitagdes encontradas no funcionamento dos ‘TCMs foram responsiveis pela criagio da Association of the Town Centre Management (arom). A aTCM apéia os seus membros por meio da realizagio de conferéncias e seminérios, da assistén- Gia técnica aos associados, da formagio profissional, da certifica- ‘do € da pesquisa sobre reas criticas, além de mediar a interlo- cugio com outras organizacées mundiais. E financiada pelo setor piiblico e privado, com os quais desenvolve propostas e Projetos, e foi responsivel pela introducdo do sistema dos Busi- ness Improvements Districts (gis) na Inglaterra. Nos diversos paises da Europa, foram estruturando-se asso- ciagées para organizar seus centros urbanos. A Federagao Euro- péia de Centros de Cidade (European Federation of Town Cen- te - EFTO)' foi criada em 1996, com o objetivo de proteger e manter a vitalidade ¢ a viabilidade dos centros urbanos europeus para beneficiar a comunidade, promovendo solugdes para quem vi- ve, trabalha, compra e diverte-se nos centros. Eis outras associa- ges que operam nos paises europeus: Association du Manage- ment de Centre-Ville (sMcv), na Bélgica; Fédération Nationale des Centre-Ville (ENCV), na Franca; ForNya Stadskarnan, na Suécia; Programas de Orientacién para los Equipamentos Co- merciales da Generalitat de Catalunya e Medologia de Trabajo para la Revitalizacién Comercial de los Cascos Histéricos da Consejeria de Industria, Comercio y Turismo da Junta de Castil- lay Leén, na Espanha, 18, Em 2002, a EFTC contava eam 11 patsesassociados. 136. INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Outras formas complementares de ages em 4reas urbanas centrais também vém sendo observadas. Na Noruega, na Espa- nha, na Alemanha, na Franga, na Bélgica, na Escécia, no Japio e em Singapura, essas politicas esto voltadas ao apoio das comu- nidades locais, por meio de assisténcia técnica, facilitando os em- préstimos pessoais, o treinamento ¢ o estimulo 4 aposentadoria (Lee, 1999). No Japio, a recuperacio das dreas centrais esteve gada ao comércio independente, incorporando a cultura local ¢ 0 farnily employment (trabalho familiar), bem como tirando partido do sentido comunitario por meio da promogio de eventos e fes- tividades naquelas zonas (Fujimoto et al., 1999) ‘Na América Latina, ainda sem muitas ages concretas nese sentido, verifica-se, a partir da década de 1990, que uma expressi- vva parcela da sociedade vem defendendo o retorno de varias ati- vidades funcionais a0 centro de suas cidades. E, interessante observar, no entanto, que as nogdes de centro hist6rico e de pre- servacionismo” sio predominantes nessas politicas. Um dos exem- plos dessa preocupagio é a institucionalizagio de uma rede de ci- dades da América Latina ¢ do Caribe com centros hist6ricos em processo de recuperagio, em 1997, visando a recuperagio e & reva- lorizagéo das areas centrais historicas das cidades de Sio Paulo, Quito, Buenos Aires, Lima, Bogoté, Havana, Rio de Janeiro, Sal- vador, Sao José e Sio Salvador", Na Cidade do México, foi criado © Fideicomiso Centro Histérico de la Ciudad de México, uma en- tidade de natureza privada, cujo principal objetivo é a gestio do ic cao do seu patriménio™ © Programa Monumenta™, criado em 1999 pelo Ministério da Cultura e pelo Banco Interamericano de Desenvol- vimento (B1D), visa a0 resgate e 3 conservacio do reconhecido a preservaglo baseada somente studios Urbanos A.C, . 21, Ciudad y Patrimonio : 22. Ver mais sobre o Programa Monuments no capitulo sobre "O centro histérico de Porto Alegre e o Projeto Monumenta: a estratégia dos eixos” INTERVENGOES EW CENTROS URBANOS: OBJETIVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS triménio hist6rico e cultural urbano brasileiro e prevé a criagio de Fundo Municipal de Preservagio, com a fungao de administrar 05 recursos destinados a conservacio permanente dos investimen- tos do programa, Esse fundo deve ser dirigido, de maneira parité- ria, por um conselho gestor composto pelos representantes das trés esferas de governo e por representantes de segmentos da co- munidade ¢ da iniciativa privada locai Na cidade de Sao Paulo, em 1991, foi organizada a Associacio Viva 0 Centro por meio da sociedade civil, com representantes de instituigées financeiras, comerciantes, profissionais auténomos outros especialistas. A associagZo criou midias préptias, como 2 “Revista Urbs” ¢ os boletins informativos “Informe”, “Interagio” ¢ “Na Imprensa”, Para conscientizar a populagio sobre a impor- tincia de valorizar 0 centro, a Viva o Centro desenvolveu um pro- grama denominado Agdes Locais. Esse programa é responsivel pelo constante relacionamento do corpo técnico e dos consultores da Viva o Centro com cingiienta microregides em que se divide a area central, onde se exercitam, ainda timidamente, os princ do Main Street Program. Projetos urbanisticos A visibilidade intrinseca & arquitetura, expandida para uma escala global, conduz, a um aumento significative da gama de Propostas urbanisticas que ndo mais se restringem a localizacio junto aos centros urbanos (histéricos), jé que a cidade como um todo adquire o status de produto de consumo. Defensores de projetos urbanisticos de grandes proporgdes destacam que estes sio elementos catalisadores do processo de recuperacao urbana, representando produtos imobiligrios de tiltima geracao que com. pdem com outros mecanismos de gestio, a exemplo do ocorrido nos projetos do Faneil Hall e Quiney Market, em Boston, do Battery Park, em Nova York, de Puerto Madero, em Buenos Ai- res, e de Postdamer Platz, em Berlim (Garay, 2003). Mas, sem divida, o paradigma das intervengées ¢ a cidade de Barcelona, a 38 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS que, ao divulgar ¢ legitimar sua prética, inspirou as intervengdes em outros paises. Em Barcelona, a partir de movimentos reivindicativos desde 1970, foi iniciada uma série de intervengées pontuais, centradas na melhoria dos espacos pablicos e na construgio de equipamentos intra-bairros. O porto, no Moll de La Fusta (1987), projetado pe- Jo arquiteto Manuel Sola-Morales ¢ a érea dos Jogos Olimpicos de 1992 agiram como elementos catalisadores do processo de reestru- turagio urbanistica da cidade (Koulioumba, 2002). A base dessas intervenges constitui-se por meio da combinagio de diversas agdes, como 0 acesso aos servigos ptiblicos ¢ 3 infra-estrutura vid- ria, que promoveu a integragio com espagos urbanos qualificados, a énfase nas atividades terciérias e nos espacos piiblicos e a renova fo da Barceloneta. A consolidagao da orla com a regeneragio das praias finalizaram 0 cenério da nova Barcelona (Fig. 1.8) Figura 1.8 - Moll de La Fusta, Barcelona, Espanha, 1998. A importancia da orla de rios e mares para complementar os espacos Piiblicos urbanos de convivio, de encontro e de consumo. Foto: Heliana Comin Vargas, 1998. INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS A construgio do complexo Canary Wharf, inserido nas Docklands, em Londres, foi conduzida por uma das maiores in- corporagées imobilidrias mundiais, Olympia e York, em mais de 1 milhdo de metros quadrados para escritérios e comércio, com uum custo total entre 4 8 milhdes de libras esterlinas, contando com incentivos significativos por se encontrar numa enterprive zane (Koulioumba, 2002), O centro de Berlim, que se estendia do Portio de Brandenbur- go até a Potsdamer Platz e a Leipziger Platz, permaneceu vazio du- rante dois anos apés a queda do Muro. “Era um espaco assustador, entrecruzado por um labirinto de trilhas que levavam a lugar ne- nhum” (Huyssen, 2000: 98). O projeto da Potsdamer Platz, um dos propostos para reconstruir esse vazio, transformou-se em exemplar para as intervengdes urbanas recentes, além de um étimo merca- do para a construgio civil. Esse tipo de intervengio faz parte de uma proposta de transformacio de Berlim em locus onde a arqui- tetura ¢ 0 urbanismo contempordneos sio direcionados para a for- macao da identidade politica e nacional, do esquecimento do passa- do por meio de um “estilo high-tech internacional, o éxtase das fachadas, a preferéncia por prédios banais muito altos e uma infini- dade de imagens geradas por computador [...]” (Huyssen, 2000: 103). A rea que integrava o enorme vazio urbano foi sendo adqui- la por grupos privados, e o plano diretor da Potsdamer Platz tor- nou-se objeto de concurso, vencido por Hilmer e Sattler em 1991 Entretanto, o plano foi alterado & medida que virios arquitetos fa- ‘mosos projetaram diferentes edificios, também decididos por con- curso, Além da diversificagio, na linha dos empreendimentos de 80 misto, a oferta de espagos pitblicos ¢ o uso residencial foram direcionados a elite consumidora (Koulioumba, 2002). Iniciado em 1984, 0 projeto da 42! Street, em Nova York, foi levado adiante na década de 1990, O intuito inicial era expul- sar o crime e conter a deterioragio da érea da Times Square, por meio da construgio de edificios corporativos, shopping centers € horéis, com base na revitalizagao dos teatros existentes. A partir de 1992, com a criagdo do programa Business Improvement Dis- x» “0 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS Figura 1.9 ~ Parte da Rua 42, Nova York, e suas fachadas conforme as Propostas do projeto 42” Street Nov Foto: Ana Luisa Howard de Castilho, 2005. trict (B1D) e um discurso estruturado segundo a estratégia cultu- ral, a Disney Company redefiniu o futuro da Times Square. O projeto, de autoria de Robert Stern (Reichl, 1999), foi denomi- nado de 42” Street Now! (Fig. 1.9 ¢ p, El) ¢ estabelecia uma re- lacio mais estreita entre 0 antigo eo novo, sem propor alteragdes na estrutura vidria, nem mesmo na reconstrugéo de quadras. Pri- vilegiou a permanéncia das estraturas que sc diluiram diante dos intimeros e gigantescos monitores de video e luminosos de néon, tentando preservar e revigorar 0 aspecto cadtico e comercial do INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS espago. Para varios autores, trata-se de um processo de divmey~ fication (Huyssen, 2000; Samuel, 2000 ¢ Reich 1999), que con- siste na criago de sonhos e fantasias incorporadas as inter- vengdes urbanas, ao considerar qualquer edificacio (estagdes ferrovidrias, mercados municipais, armazéns portuarios, fibricas fordistas) candidata a um cenério para os novos usos urbanos de lazer, entretenimento, cultura e consumo. O Projecto Urbano da Parque Expo, inaugurado em 1998, ex- pés claramente o seu designio: ser um programa estratégico para Portugal, baseado na estruturagio qualificada da imagem de 1 A fim de atingir essa meta, os organizadores criaram legal mente a empresa Parque Expo 98° S. A., incumbida de conceber, executar, construir, explorar e desmontar a Exposi¢io Mundial de Lisboa (Expo'98), bem como intervir na reestruturacio urbana da zona oriental de Lisboa. A Expo’98 foi implementada em uma érea de 350 hectares em frente ao estuatio do Rio Tejo. O seu plano de urbanizagao objetivou a recuperagio ¢ a reconversio urbanistica biental da zona de intervengao. Para tanto, apoiou-se em veto- res estratégicos, como a valorizagéo da paisagem natural da drea, a centralidade perante a regio metropolitana de Lisboa, a proposi- do multifuncional”, a constituigio de um pélo metropolitano, a promogio de eventos, a construgio do espaco piiblico como ele- mento estruturador, entre outras acdes (Rosa, 1998). O programa de necessidades foi decidido por meio de pesquisas de mercado tigidas as empresas ¢ ao potencial grupo de residentes. O resultado do levantamento permitiu a inclusio de se comércio, escolas, espagos de lazer ¢ esportes, outras demandas complementares. Os requisitos apontados para incentivar a instalago das empresas foram a localizacao privilegia- da que valoriza a imagem corporativa, a acessibilidade e os am- plos parques de estacionamentos. Apés a Expo’98, 0 nome do tal, entre 23, Nesta proposi ins, reas verdes, sevigos infra-estru tos como a Estagio Oriente, transportes da zona oriental de Lisboa. central da a 2 INTERVENGDES EM CENTROS URAANOS Figura 1.10 - Porto Madero, Buenos Aires, 2005, O Projeto de Porto Madero apropria-se da idéia da recuperacéo da otla flu vial para © uso piblico de convivio, de encontros e de consumo. Foto: Heliana Comin Vargas, 2005. empreendimento foi alterado para Parque das Nagdes, Atualmen- te, a Parque Expo S. A. é uma sociedade anénima com capital pit- blico e capital social com a seguinte composigio: 99,1% detidos pelo Estado portugués (diregao-geral do Tesouro) ¢ 0,9%, pela Camara Municipal de Lisboa.* Em Buenos Aires, 0 projeto de Porto Madero (Fig. 1.10) in- cluiu, entre seus objetivos, o fortalecimento da identidade de seu cidadZo com 0 porto. Iniciado em 1880, pelo engenheiro Eduar- do Madero, tornou-se obsoleto nos anos de 1930, Desde os anos de 1950, haviam sido propostos nove projetos para a area, entre 6s quais um de Le Corbusier, em 1936, Somente em 1989, o es- paco foi inclufdo no plano de desenvolvimento urbano de Buenos INTERVENCOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS Aires. Para administrar o empreendimento, as prefeituras de Bue- ‘os Aires e de Barcelona criaram a Corporacién Antiguo Puerto Madero, com a participagio efetiva do arquiteto Alfredo Garay. Essa corporagio encarregou a Sociedade Central de Arquitetos a Promover um concurso para a execugéo do plano diretor em 1992, pelo processo de aquisigio da area. O objetivo inicial era aproximar do centro da cidade os dezesseis galpdes do antigo por- to, abandonados em seu formato de tijolo aparente. O complexo de Porto Madero foi construfdo sobre um total de 170 hectares, dos quais foram previstos 32 hectares em espagos de uso puiblico, além das reas dos eanais e dos isto, como habi- taco, escritérios corporativos e diferentes atividades ter Os investimentos previstos foram de aproximadamente USS 1,45 milhio da iniciativa privada ¢ USS 85 milhées do setor piblico (Koulioumba, 2002; Massul , 1994; Rivoira, 1995), Em 1997, a cidade de Santo André, em Sio Paulo, resolveu contratar, em decorréncia das discusses de um fram de desen- volvimento promovido no ano de 1992, uma consultoria interna cional para desenvolver 0 seu projeto de Cidade do Futuro. O entio prefeito de Barcelona, Jordi Borja, por ocasiio da constru gio da Vila Olimpica, foi o escolhido. A idéia era projetar um novo eixo de centralidade préximo ao Rio Tamanduatehy, trans- formando seu vale, repleto de lotes e edificios industrials aban- donados, em um espago urbano dinamico e promissor (Fig. 1.11, p. E2). Contava, para tanto, com cerca de 7.000.000 m? distribut. dos 20 longo de uma faixa de 8,5 km, de largura variével, que acompanha @ Avenida dos Estados ¢ a ferrovia. O programa de requalificagio da rea foi pensado considerando investimentos piblicos ¢ privados capazes de criar uma sinergia para 0 desen- volvimento urbano, Para definir as diretrizes do projeto, foram contratadas quatro equipes de arquitetos, trés delas lideradas Por arquitetos estrangeiros: Christian de Portzamparc, Joan Busquets, Eduardo Leira e Candido Malta Filho, O modelo de gestdo do executivo municipal incorporou um estruturado mar- keting de cidade, lastreado no slogan “Santo André — Cidade do ificios de uso 1 is. a3 ial icicle acacia sett 44 INTERVENGOES EM CENTROS LRBANOS Futuro”, como forma de atrair investimentos ¢ promover a ges- tao urbana (Galvanese, 2004; Vargas, 2003). Resultados Embora os resultados devam ainda ser avaliados, o que se ob- serva é um interesse cada vez. maior do poder local pela melhoria da imagem dos centros das cidades. Areas fortemente desvalori- zadas vém a ser alvo das atencdes do poder pablico, que se alia a0 capital imobilidrio, iniciando dessa forma uma reconquista da- quele espago. Orlas maritimas e de rios, leitos ferroviérios, areas portuarias e edificagdes industriais desativadas sio as primeiras eleitas no processo de intervengo, Essas ages sugerem que a ar- quitetura ¢ o planejamento urbano também vieram a ser regidos por estratégias de marketing, destinadas a estruturar a mudanga da economia urbana de base produtiva para a base do consumo, Na arquitetura ¢ no urbanismo, conhecimento ¢ poder con- vergem em suas praticas modernas de ordenacdo dos espacos e modelam padrdes de comportamento (Foucault, apud Reichl, 1999). De certa maneira, essa visio explica a opgio pelos proje- tos urbanisticos e arquiteténicos assumida pelas diversas esfe- ras do poder puiblico, independentemente da dimensio das in- tervengdes, A reuniio dessas observagdes revela que, durante o perfodo de reinvengio das cidades, diferentemente dos perfodos anterio- res, no € 0 cidadao a razio do urbanismo ou da intervengao nos centros histéricos. Ela é feita para a populacio flutuante. Sen- do assim, a cidade, que outrora refletiu o contexto social, agora valoriza exacerbadamente a imagem, a estética e a maquilagem (Carrion, 1998). Ainda que essas estratégias variem, o cerne das preocupagées tem sido 0 contexto urbano ou citadino, aquilo que os norte- americanos chamam de sense of place, pois os atributos do lugar, o regionalismo, os valores étnicos, o ser singular passam a ser alta- mente valorizados (Vargas, 1998). Nessa etapa, a meta passou a INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS: OBJETWVOS, ESTRATEGIAS E RESULTADOS. ser a obtengio de alguma vantagem sobre os chamados nichos de mercado, nos quais no apenas os centros das cidades, mas tam- bém outras areas urbanas esquecidas ou abandonadas pelo cres- cimento urbano, oferecam oportunidades tinicas, dificeis de ser reproduzidas. Essa estratégia esté sendo implementada com re- sultados francamente positives’ nos centros das cidadés norte- americanas (Milder, apud Balsas, 2000). Enquanto a imagem cla cidade pode ser um elemento impor- tante para atrair capital e pessoas, em um perfodo de intensa competicdo urbana, lugares espetaculares e festivais piblicos ser- vem, também, para ofuscar fortes conffitos sociais e desigualda- des, A sociedade pés-moderna prové sua populacio, como os an- tigos imperadores romanos provinham, de panem et circensus, ow Pio circo, para sustentar a ordem capitalista (Harvey, 2000). Problemas como gentrification (enobrecimento) sio mascara~ dos pela imagem de um urbanismo espetacular que simula a re- qualificagio do centro, legitimando a atuagio do poder piiblico nas diversas instancias, de modo a gerar o suporte politico neces- sério para minimizar a oposigao (Reichl, 1999), De qualquer forma, se 0 objetivo era o retorno ao centro, po- de-se dizer que ele tem sido alcangado."* Observa-se, sobretudo, uuma forte participagio da sociedade civil, por intermédio da for. magio de associagdes locais, na busca de solugdes para a melhoria do ambiente construfdo. Essa situagao € fundamental para que as 25, Em Sto Paulo, a Grande Galeria, na rea central, desenvolv cspecializado em prod nacional. 26. Nos Estados Unidos, hi cadeas nacionas de lojas, como G ban Outfitters, Talbots ¢ Starbucks, que estio regressendo aos centros das caes © as suas roas principais, onde as vaneagens dess lcalizaio, além da buses de uma identidade urbana, eonsstem nos menorescastos das lacagdes se comparades 20s dos shoppings centers. Outra tendénciaerescente nos Estados Unidos € o regresso dos supermercados e das cadeiasalimenares ts reas centais das cides. E Aénciaestéassociada &investigagzo recente sobre o poser de e xisténcia ddetuma massa ertic de consumidores nos centros cas cdades Bales, 2000), 48 i aca a RR NR 46 _INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS agdes pontuais adquiram o carter de um processo, incapaz de ser interrompido quando se alternam as gestdes piiblicas e mudam os objetivos e os interesses de suas atuagdes. No entanto, a grande parceria entre o capital imobilidrio e 0 poder publico, fortemente ampliada nesse periodo de 1980 a 2000, indica a necessidade de reflexio sobre os limites dessa par- ceria e sobre a forma de controle dessas intervengGes urbanas e da avaliagio dos resultados alcangados CONSIDERAGOES FINAIS No mundo contemporineo, os centros sao parte integrante das vitrines urbanas ¢ devem sintetizar a sua “boa e bela” imagem para garantir uma vantagem competitiva entre as cidades. No entanto, todas as ages para melhorar o centro, com essa visio competitiva entre as cidades, pode vir a malograr, uma vez que existe a possibi- lidade de esses projetos serem reproduzidos rapidamente. Portan- to, uma vantagem competitiva sustentével no pode ser apenas ba- seada em uma eficiéncia operacional ou em projetos inovadores, facilmente imitados ou superados (Omholt, 1998). A melhoria da qualidade da vida urbana nos centros ¢ 0 au- ‘mento da sua atragio externa deveriam ser construfdos para e por seus cidadios, com 0 propésito de que a real vantagem competi- tiva, baseada no alcance ou na diferenca das ofertas, jamais pu- desse ser reproduzida (Porter, 1996). Aliés, a vantagem competi- tiva de uma cidade ultrapassa, sem chivida, o sistema de atividades exclusivo do centro, A andlise dos processos de intervengio relatados neste capitu- Jo aponta para o fato de que nao ha falta de interesse em investir no centro, nem o consenso dessa necessidade de intervencio. Existe, todavia, pouca habilidade para compreender a situacio es- sratégica, desenvolver alternativas viéveis ¢ calcular 0 valor do po- tencial criado por virios desenvolvimentos alternativos de carter sistémico que ocorrem nos centros urbanos. Ainda predominam a INTERVENGOES EM CEWVTROS UABANOS: OBJETIVOS, ESTRATEGIAS € RESULTADOS 47 anséncia de visio sistémica em relagio ao desenvolvimento urba- no € a desconsideracio cada ver. maior da interdependéncia entre as diversas atividades, baseadas em uma velha e ultrapassada a ¢ semantica industrial. H4, portanto, falta de racionalidad: estratégica, que se traduz na forma como os atores locais enfren- tam ¢ compreendem os problemas (Omholt, 1998). Essa crise de racionalidade estratégica manifesta-se quer no ambito institucio- nal, quer entre os diversos segmentos envolvidos, por meio de al- gumas préticas que se perpetuam ou pela deficiéncia nos procedi- mentos que se desconhecem e se menosprezam. Sobre a gestio das dreas centrais, a capacitagio profissional specifica falha, a interferéncia dos politicos e o desconhecimen- to de elementos para a avaliagdo das conseqiiéncias de determi- nados eventos nio colaboram com a sua eficiéncia. A titulo de exemplo, pode ser lembrado 0 erescimento do mimero de ruas exclusivas para pedestres nas éreas centrais destinadas a garantir € ampliar o fluxo de ususrios ou consumidores. Neste caso, ob- serva-se a lacuna no conhecimento da légica do comércio e ser- vigos varejistas e sua relagdo com a cidade. Acclaboracao de diagnésticos, por sua vez, deve considerar a si- ‘tuagio como o ponto de partida para a anélise urbana e social. Ui pré-requisito para explorar essas possibilidades, evitando dificulda- des e ultrapassando as contradigdes inerentes is condigGes s6cio- materiais, é o conhecimento profundo da érea e de seus problemas que requer informagoes atuais, bem elaboradas e bem anal Os atores locais devem ser capazes de refletir sobre o que eles que- rem mudar (definigio de objetivos) na situagdo presente, assim co- mo em que diregdes pretendem seguir (caminhos) (Omholt, 1998). Em resumo, uma conclusio desses processos indica que gran- de parte das intervengdes urbanas tem estado distante das deman- das locais. Estas deveriam ser definidas mediante a discussio do en cmc ee 148 INTERVENGOES EM CENTROS URBANOS diagnéstico, considerando uma base de dados bem elaborada e competentemente avaliada, As demandas locais e seu atendimen- to teriam de estar na base da politica de city marketing e refletir a veracidade das suas estruturas. Se assim acontecesse, talvez todo 0 aparato de cenografias € de reinvengio do urbano nao fosse ne- cessirio. A auséncia de capacidade técnica para agir nesse novo momento, o desinteresse pblico ¢ a desconsideragao do carter de processo € suas constantes reavaliagées tendem a enfiaquecer as intervengdes urbanas na busca dos devidos resultados. A mu- danga percebida do estégio de intervenges urbanas que partiam exclusivamente de um grande projeto arquiteténico para um pro- cesso de gestio do espaco urbano, comandado principalmente pe- la sociedade civil, parece apontar para caminhos mais promissores a serem tentados. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ARANTES, Ottla Beatriz. “Os novos museus” In: Novr eda, Sio Paulo, n. ASHWORTH, G. Js VOOGD, H. “Selling the city". In: WARNABY, Gary. The Siogping desinasion offer: an exploratory conceprual framework, Paper presented at the Marketing Education Group Conference, University of Strathelyde, Londoa, july/1990. BALSAS, Carl para.a gestio do centro d 8 patcerias pl dome: past and present attempts at revitalization. B 9, Environment, ¥ CARRION M,, Fernando, “Conceptos, realidades y mitos de los centros caso de Quito”. Texto apresentado na Shelter a torie Urban Center, Havana, 1998, CASTILHO, Ana Luisa Howard de, “A vila de Pa tervengio”. Sio Paulo, 1998. 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