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a v0) AT CaTCNUC | Heo Ucn Fernando Lefevre Ana Maria Lefevre Pesquisa ais Copyright © 2012 Liber Livro Exitora Lida. [\ proibida a reproducio total ou parcial desta publicacio, por quaisquer meios, sem autorizagio ptévia, pot escrito, da editora. Grafia atualizada segundo o Acordo Ortogtafico da Lingua Portuguesa dle 1999, que entrou em vigor no Brasil em 2009, Conselho Editorial Bernandete A, Gatti, Inia Bryexinshi, Maria Colia de Abren, Oomar Favero, Padvo Deno, Rogério de Andrade Cérdova, Sofia Lerche Vitina, Coordenagio da sétie jernardete Angetina Gatti Revisio Cyntia B: Andretta Fiditoracio eletrinica José Severin Ribeiro Diagtamacio final Samuel Tabosa de Castro Capa Jack Severino Ribeiro haseada em tela de Claude Monet, Grainstacks at giverny sunzet, 1888-1889 (detalhe) io e acabamento a Grifica e Fditora Ltda, Dados Internacionais de Catalogasio na Publicagio (CIP) Lefevre, Fernando. 1533 Pesquisa de representagio metodologia do Discurso do $ Maria Cavalcanti Lefevre . 204 p. (Série Pesquisa; um enfogue qualiquantitativo: a oletivo / Fernando Lefevre; An ISBN 978-85-7963-008-8, 1. Metodologia da pesquisa. 2. Pesquisi empirica. 3. Representacio social. 4, Discurso do Sujeito Coletivo. I. Titulo, CDU 3001.8 Impresso no Brasil Liber Livro Editora Lida, LN Qd. 315, Bloco “B” Sala 15 Asa Norte/DP — 70774-520 — Beasflia-DI’ Fone: (61) 3965-9667 /Fax: (61) 3965-9668 editora@liberlivro.com.br / / wwwliberlivto.com.br Para nossos inesqueciveis pais Antonio Frederico Branco Lefevre e Theophilo Arthur de Siqueira Cavalcanti Filho, que nos leearam a maior das herangas: 0 capital cultural. SUMARIO APRESENTAGAO.. INTRODUGAO .. Crpitulo T HLABORANDO PROJETOS DE PESQUISA COM 0 Discurso Do Suyerro CoLetrvo.. Capitulo I OPPRADORES F HO Suserro COLETIVO.....0.65 ATRIBUTOS DO Discurso Capitulo TIL IOCESSANDO O PENSAMENTO COLETIVO OU INDO DO PENSAMENTO INDIVIDUAL AO NINSAMENTO COLETIVO Capitulo IV ALGUNS ARTIGOS. Capitulo V CONCLUSAO GERAL.., IiERGNCIAS BIBLIOGRAFICAS .. O presente livro esta dividido em cinco capitulos. © primeiro versa sobre os diversos aspectos relacionados 4 elaboragio de projetos de pesquisa, de um modo geral e particularmente 4s pesquisas com o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). © segundo capitulo descreve os operadores que permitem qualificar os depoimentos produzindo os DSCs e os atributos quantitativos da metodologia. © terceiro capitulo trata de “como fazer”, ou soja, como processat os depoimentos com base na metodologia. © capitulo quatro apresenta trés trabalhos de pesquisa que foram desenvolvidos por pesquisadores coin a metodologia do DSC. © iltimo capitulo apresenta as conclusdes que iesumem e sintetizam o trabalho. i INTRODUGAO Hoje, com a experiéncia de muitos anos de Pesquisas de representacdo social ou opiniaio MtOrias (Seja porque, quando qualitativas, tais Pesquisas vaio — ou se propéem a ir — a fundo na iivestigacao de depoimentos, mas nio conseguem lesultados genetalizaveis, seja porque, quando tjluintitativas, conseguem generalizacdes, mas sem a profundidade ou substancia necessarias), é possivel uma vacical transformagio nesse panorama. Radical porque é possivel saber, com seguranca, tiqueza de detalhes, tigor e confiabilidade, “jH@ pensam as coletividades sobre todo tipo de problemas que lhes afetam e, ao mesmo tempo, Wert 0 gran de compartilhamento de cada uma das Opintoes circulantes, ou seja, saber como tais [ensamentos se distribuem entre as diversas classes foclais, pSneros, idades, niveis de renda ete, lm uma palavra, hoje é possivel agregar o que | porquisa qualitativa tem de positivo as vittudes (li pesquisa quantitativa, dando lugar ao que vem tendo chamado de pesquisa qualiquantitativa de Hpmao, \s pesquisas de opiniao devem ser qualiquan- fititivas porque as opinides coletivas apresentam, meso tempo, uma dimensio qualitativa e uma sunntitativa, De fato, para pesquisar devidamente a opiniao Foletiva é preciso, antes de mais nada, entender que ‘ upiniio nao pode deixar de ser vista e coletada famo uma quakdade, a ser obtida por meio de uma Jergunta aberta que viabiliza a emissio de um ‘lepoimento, INNALLS Mas por que estamos afitmando que a opiniao é uma qualidade? A opiniao é uma qualidade porque o que as pessoas tém a dizer sobre um dado tema deve sempre ser visto como uma éncdgnita, isto é, algo que nao conhecemos antes de fazer a pesquisa. Assim, as opinides devem ser qualificadas, ou seja, descritas. E importante lembrar que as pesquisas quantitativas sdo sempre realizadas posteriormente a ptocessos de qualificagao das varidveis que se propée*investigar, Tomemos como exemplo a variavel peso. Todos concordam que essa varidvel esta perfcitamente descrita, Assim, quando falamos dos diferentes valores que essa variavel pode assumir em determinada populagio, todos os pesquisadores compreendem do que se fala. Porém, podemos imaginar que antes dessa vatidvel ser descrita isso nao seria compreendido da mesma forma. No caso das pesquisas qualitativas, o pesquisador prec ‘reve 0 comportamento dessa varidvel. Para que isso seja possivel sera obrigatéria a presenga de uma questo aberta, pois sé assim sera getada uma nova substancia ou qualidade. A partir do momento em que as qualidades forem descritas, sera possivel quantificd-las. Por isso falamos em pesquisas qualiquantitativas ¢ nao _quantiqualitativas, pois nao teriamos como quantificar algo que nao foi a priori qualificado. I facil perceber que a questo fechada numa pesquisa de opinite nao gerauma qualidade, ou seja, MA Opinio, mas ajuda a comport uma quantidade, Ou se)a, a Mator OU Menor adeséo a uma opiniao ide previamente enunciada na alternativa. \ssim a questio deve ser aberta porque dessa forma é dada a oportunidade pata que os 14 entrevistados manifestem livremente suas opinides sobre o tema pesquisado, com todos os detalhes de tais opinides, petmitindo com isso que sejam revelados os contetdos e os argumentos associados a essas opinices. i Numa questio fechada os entrevistados nao manifestam livremente suas opinides na medida em que s6 podem aceitar as alternativas de resposta previamente colocadas. i Em contrapartida, como se trata, nas pesqutsas de opiniiio, de gerar opinides colefivas, € preciso que tais opinides tenham, na dimensio coletiva, sua substAncia qualitativa (ou seja, sua natureza de discurso e de depoimento) preservada. = E preciso, igualmente, como se trata de opinides de individuos que vivem em coletividades, sociedades ou grupos, fecuperar devidamente, na dimensao coletiva, os_attibutos propria Ps Senet : que requer, obrigatoriamente, que 0 pesquisador obedega a um tigo lanejamento .com vistas a recuperat os principais atributos constitutivos da sociedade pesquisada. Para que isso seja possivel é necessatio que o pesquisador faca uma escolha sistematica de base quantitativa, dos individuos a serem pesquisados. / Tais caracteristicas qualiquantitativas dessa nova pesquisa de opiniao € o que se tem buscado . incorporar na metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). O que é 0 Discurso do Sujeito Coletivo O Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), associado aos softwares Qualiquantisoft e QLQT On-line (ver 15: escrigoes aciante), consti vo método que vem sencdo desenvolvido na Universidade de Sao Paulo (USP), desde o final da década de 1990, pata 4s pesquisas de opiniao, de representacio social ou, mats gencricamente, de attibuigio social de sentido, que tenham como material de base depoimentos ou outros suportes de material verbal como matérias de revistas, jornais etc, Esse novo método permite um significative ganho de qualidade nessas pesquisas, jé que os resultados podem ser generalizados ¢ aparecem, numa escala coletiva, como uma opiniao naturalmente se apresenta, isto é, como depoimento sob a forma de discurso. O DSC representa 1 co importante relacdo aos métodos atuais das pesquisas de opiniao que combinam “qualitativo” e “quantitativo”, nos quais, de um modo geral, ha uma cisio entre © momento qualitativo, no qual as opinides ou representacdes, em forma discursiva, sio coletadas por meio de poucas entrevistas em profundidade, ¢ © momento quantitative, em que tais opinides, pata poderem ser genetalizadas, so transformadas em perguntas com altcrnativas fechadas, perdendo a sua natuteza discursiva c deixando, portanto, de serem verdadeiras opinides. No DSC nao ha mais a (falsa) oposicao entre o qualitativo © quantitativo: trata-se de um método- sssencialmente qualiquantitativo, ja que, ‘em todos Os momentos da pesquisa, do comego ao fim, fica preservada a natuteza essencialmente discursiva © qualitativa da opiniao ou tepresentagao e, inseparavel dela, a dimensao quantitativa, associada a representatividade ¢ generalizacio dos resultados, 16 E nao hé nenhum “truque” nisso: 0 DSC o desdobramento natural do seguinte raciocinio se, em qualquer sociedade (como todos sabem), os individuos compartilham idcias, opinides, crengas ou representagGes, a exptessao dessas opinides compartilhadas podetia comportat a reuniao em discursos-statese dos contendos e argumentos que conformam essas opinibes semelhantes. Ou, dito de outro modo, se os sentidos dos depoimentos podem ser semelhantes, o mesmo podetia ser dito dos contetidos em que tais sentidos se desdobram. O DSC como técnica consiste em uma sétie de _ sobre depoimentos individuais ou de outro tipo ial verbal (artigos de jornais, revistas, discussdes em grupo etc.), operagdes que redundam, ao final do confeccionados com estratos literais do conteido mais significativo dos diferentes depoimentos que apresentam sentidos semelhantes. Cada um desses depoimentos coletivos ou DSCs permite veicular uma determinada e distinta opinido ou posicionamento; dessa forma, o resultado final de uma dada pesquisa de opiniao sera composto por quantas diferentes opiniées sob a forma de DSC exishire entre determinada populagao pesquisada, Por exemplo, em pesquisa realizada no “Universo On Line” (UOL) sobte a desctiminagiio da maconha (LEFEVRE, 1999) foram obtidos seis DSCs que representavam, no momento, as diferentes opinides dos usuarios daquele si#e sobre o tema do consumo de maconha, Na técnica do DSC, os depoimentos sao redigidos_na primeira pessoa do singula vistas a produzit no receptor o efeito de uma opiniao coletiva expressando-se diretamente, como fato empitico, pela “boca” de um tinico sujeito de discurso. Isso_é sociologicamente possivel na medida em que se entendam as formagdes sociais, em conformidade com a ‘Teoria das Representacdes Sociais (ODELET, 1989), como entidades compostas por representagdes sociais sob a forma i i vos que os individuos Como o 7 €0 composto por um numero determinado de depoimentos provenientes de distintos individuos pesquisados, cada DSC tem um determinado peso, equivalente a pro porcio de incividuos que aderem a determinada Opinio, sobre 0 total de pesquisados. ho Assim sendo, a opiniao que emerge do DSC apresenta uma dupla pertinéncia: qualitativa ¢ quantitativa. Qualitativa porque no DSC cada distinta opiniao coletiva é apresentada sob a forma de um discurso (e nao, pot exemplo, soba forma de escolha de alternativas pré-fixadas de resposta, nem sob a forma de meras categorias) que recupera os distintos contetidos € argumentos que conformam a dada opini na escala social ou coletiva; quantitativa porque tais discursos tém, ademais, uma expressio numérica, considerando-se que as sociedades sio coletividades de individuos que compartilham ideias € opinides socialmente disponiveis. Pequena historia Como em geral acontece com as novas ptopostas, o DSC nasceu mais ou menos port acaso: quando desenvolviamos pesquisa pata avaliar 0 Programa 18 de Gerenciamento Integrado (PGI), proposto como uma solugio gerencial para a assisténcia 4 satide no Estado de Sio Paulo (SIMIONT et al., 1991), constatamos que a maioria dos funcionatios da Secretaria de Satide entrevistados, no que dizia respeito 4 sua opiniao sobre o PGI, concordava em se posicionar negativamente sobre a proposta. Diante daqueles depoimentos tao coincidentes pensamos: por que nao apresentat esse resultado sob a forma de um depoimento unico, tedigido na primeira pessoa do singular, como se aqueles funciondrios que discordavam do programa fossem um tinico Sujeito de um Depoimento Coletivo? Kassim o fizemos, batizando a “solug4o” com o nome de Discurso do Sujeito Coletivo. Vale dizer, ainda, que 0 efeito do resultado de tal discurso foi tal que a Secretaria da Satide resolveu abandonar definitivamente o PGI. Nio avaliamos, contudo, na ocasiao, a possibilidade de desenvolvimento de uma proposta de metodologia a partir daquela “solugio”. $6 vislumbrarfamos tal possibilidade com a dissertagio de mestrado de Ana Maria Cavalcanti Simioni (1996), na qual o DSC, como uma proposta de metodologia, comegou a tomar forma. Em seguidaa técnica foi aplicada a um conjunto de trabalhos de mestrado desenvolvidos na Universidade de Caxias do Sul (UCS) no contexto de uma proposta de mestrado fora da sede desenvolvido pela Faculdade de Satide Publica da USP com a UCS. Do trabalho de Caxias nasceu o primeiro livro sobre o DSC (LEFEVRE et al., 2000). Com sua aplicagio posterior em diversos tipos de trabalho e com as discusses que se 19 sucederam, a proposta foi sendo burilada e transformada, tecebendo, gradualmente, uma feigZo qualiquantitativa. Em 2004 decidiu-se associat o DSC a um software. Com o concutso da SPI Informatica na pessoa de Luiz Salles nasceu, depois de muitas idas e vindas, 0 Qualiquantisoft (2004), que acabou sendo oficialmente reconhecido com um software gerado na USP. Em 2004 foi associado ao DSC 0 software livre QLQT On-line (2008), desenvolvido pela DRSolutions, na pessoa de Diego Rodrigues, produto que foi incorporado ao patriménio da Vaculdade de Satide Publica da USP. Desde entio vieram a luz mais dois livros sobre o tema (LEFEVRE e LEFEVRE, 2003) (LEFEVRE ¢ LEFEVRE, 2005), um gtande numero de artigos em tevistas especializadas, apresentacées em seminatios, ptojetos de Pesquisa, cursos e até um Instituto (0 Instituto de Pesquisa do Discurso do Sujcito Coletivo, ctiado em 2005), de sorte que em 2010 contabilizamos um significativo mimero de trabalhos usando o DSC, disponiveis no site www. ipdsc.com.br. Alguns desdobramentos que poderio avangar essa histéria em distintas direcdes serio apresentados mais adiante. Alguns fundamentos do DSC Sobre a Representacito Sovial A Sociedade (toda sociedade) é constituida por um plano simb que pode Ser configurado 20 como um sistema de crengas ou Rep Oes Sociais (RS) compartilhadas (ODELET, 1989) que permitem a comunicagio ou a troca de sentidos entre seus membros, conferindo-lhe coesio. A comunicac¢io como sustentaculo das forma- gOes sociais pressupse, portanto, dois tipos de cédigos compartilhados: um _cédigo linguistico e 4 partir dele, um cddigo ideoldgico que € 9 sistema compartilhado de crengas aludido, Os membros de uma formagio social determi- nada costumam falar (aproximadamente) a mesma lingua (no caso da nao existéncia de formas 48 mesmas ideias, possuindo, contudo, em comum um determinado nivel de compartilhamento que permite que ideias, mesmo divergentes, possam ser trocadas. O entendimento, ainda que superficial, do plano simbélico exige, contudo, que se saia dele considerando-o envolvido por uma sétie (le condicionantes externos, que dizem respeito 10 plano material da vida social, 4 chamada infraestrutura, De fato, os sistemas simbédlicos e, dentro deles, as RS nao se dao no vazio, j4 que, numa larga medida, sto influenciados por condig6es telativas a seu contexto _histérico e de infraestrutura. O contexto historico, presente nesse comego de século XXI, é 0 do mundo globalizado, no qual crescem e se desenvolvem formacées sociais que se Caracterizam, no plano da infraestrutura, entre outras coisas, por setem sociedades dominadas pelo principio do consumo individualizado (BAUMAN, 1998), que tende a impor sua marca, progressivamente, a todas as regides do tecido social. 21 na primeira pessoa do singular) que atualize todas as variantes individuais das opinides socialmente compartilhadas que uma determinada pesquisa conseguiu resgatar. Dessa forma, a opcio do DSC pela primeira pessoa coletiva do singular pata exptessat 0 pensamento coletivo sinaliza explicitamente a vinculacio dessa ptoposta metodolégica com a teoria da RS. ‘Trata-se evidentemente de um sujeito artificial ja que qualquer depoimento ptessupde um sujeito que atualizou uma determinada histéria, certos argumentos e contetidos de um posicionamento particular, individual. Nesse sentido, um “depoimento coletivo” parece a primeira vista artificial ¢ para- doxal, mas tal artificialidade justifica-se porque (em conformidade com a teoria da RS) um mesmo sujeito individual de um depoimento podetia, verossimilmente, atualizar as demais histérias, contetidos e argumentos de sujeitos que compartilham a mesma opiniao. A proposta do DSC é fazer o pensamento coletivo falar diretamente. Isso implica instituir um sujcito capaz de incorporar nele o discurso do pensamento coletivo, sendo que ele no é nem o sujeito do depoimento individual puro, incapaz, por ser individual, de expressar o pensamento coletivo, nem 0 sujeito impessoal do Conhecimento, da Ciéncia ou da Teoria, incapaz este, como sujeito, de exptessar, diretamente, o pensamento coletivo justamente porque, pelo fato de, metadiscursivamente, falar do pensamento coletivo na terceira pessoa, acaba instituindo tal pensamento como objeto (e nio como sujeito). A ptoposta do DSC busca estender a “fala direta” para a dimensio subjetiva das tepresentac6es sociais, 24 dimensdo vista tradicionalmente como incapaz de se autoexpressar, condenada a permanecet eternamente como uma terceira pessoa “de quem se fala”, necessitando por isso, pata ser veiculada, de uum “tutor” (o pesquisador), ou seja, de um sujeito ‘cla exterior, o sujeito impessoal da Teoria. A primeira pessoa coletiva do singular é, pois, ama das bases da proposta do DSC. Sobre 0 “qualiquantitativo” Agora algumas srapidas palavras sobre ° ‘qualiquantitativo” nas pesquisas de opiniao. [ssas notas introdutorias sao necessarias porque esta € a ideia-base do DSC como nova proposta para as pesquisas de opiniaio. Ao longo do livro idletalharemos o tema, mas dada a centralidade da ideia cremos que vale aqui uma pequena introdugao sobre ela. Nesse sentido dirfamos que a maior parte das pessoas e dos pesquisadores acredita que pesquisar Opinides, crengas, valores de uma perspectiva qualitativa é ama coisa e de uma perspectiva quantitativa é owtra coisa; que podemos fazer uma coisa ou outra e até uma coisa e outta (nesse caso quando, por exemplo, numa mesma pesquisa aplicamos um questionario fechado para uma amostra grande da populagio ¢ depois decidimos realizar uma “qualitativa” para “aprofundar” os resultados com uma pequena subamostra dessa amostta maior). . Ora, 0 que vamos tentar mostrar aqui ¢ que. para a proposta do DSC 0 qualitativo e o quantitativo nao sao coisas distintas, mas partes, dimensdes, aspectos da mesma coisa, ou para usat a formula 25 consagrada, duas faces da mesma moeda. Por isso adotamos 0 tetmo qualiquantitativo por expressar dimens6es distintas de um mesmo fendmeno estudado. Por qué? Porque estamos convencidos de que uma verdadeira pesquisa de opinido exige que o pesquisador adote uma perspectiva dialética j4 que a propria “opiniao” (ou crenga, valor, representago etc.) precisa, sempre, para continuar sendo uma opiniao, ter a forma de depoimento discursivo, que exige a presenga de instrumentos qualitativos como questées abertas, andlise de discurso etc., e, na medida em que é um produto e gerado numa coletividade, numa sociedade, exige a presenga de instrumental quantitativo como estatistica, amostra, gtaficos, percentuais etc. Assim, é preciso pensar dialeticamente c admitir que uma coisa pode ao mesmo tempo ser ela e seu contrario ¢ vice-versa. Mostraremos isso em detalhe no corter do trabalho e mais incisivamente em alguns momentos, mas como observagao final dessa inttodugao vale mencionar que de modo algum estamos propondo que, no que toca a pesquisa de opinido e mais genericamente daquelas em que estiver em jogo a attibuigéo de sentido por atores sociais a eventos que lhes digam respeito, os “qualitativos” e os “quantitativos” deixem de sé-lo ou que deixem de trabalhar e desenvolver técnicas e metodologias especificas. O que defendemos é que essas duas dimensdes podem ec devem apontat para uma terceira, a sua fusio, o que vai exigir, por certo, equipes de pesquisa multiprofissionais e mentes abertas para a interdisciplinariedade. 26 O Discurso do Sujeito Coletivo como resgate de diferengas e semelhangas Discurso do Sujeito Coletivo como técnica de pesquisa empitica que tem como objeto o pensamento de coletividades permite iluminar © campo social pesquisado, resgatando nele o universo das diferengas e semelhancas entre as visGes dos atores sociais ou sujeitos coletivos que o habitam. [im nossa pesquisa sobre a pilula do dia seguinte No projeto Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnolégico (CNPq) (LEFEVRE, 2008) envolvendo o macrocampo da sade coletiva e, dentro dele, as politicas publicas de controle da pravidez adolescente, tendo como local de estudo 1 zona sul do municipio de Sio Paulo, langamos infio de duas grandes coletividades de atores sociais envolvidos com o tema: jovens de 13 a 20 anos que {requentam servicos publicos de atengio 4 satide do idolescente e diversos tipos de funcionatios desses servigos, que orientam as adolescentes no manejo cle métodos anticoncepcionais. Lim sua tese de doutorado, Figueira (2003), estudando a assisténcia aos portadores do HIV de erenga pentecostal pelos servigos publicos de sade e pelas instituicdes religiosas a que estavam filiados, mobilizou trés tipos de atores sociais: os portadores do HIV de crenga pentecostal, os profissionais de satide que os atendiam nos servigos publicos © os profissionais das instituicdes religiosas que prestavam atengao religiosa a esses portadores. O modo de ver um determinado problema é sempre a resultante complexa da atribuicio de sentido a tal problema por um conjunto de atores Q7 sociais ou sujeitos coletivos envolvidos, que o vem de modo diverso, seja porque, como diria Bourdieu (BONNEWITZ, 1998), ocupam diferentes posig6es no campo social pesquisado, seja porque, dentro de seu referido campo de pettencimento, adotam diferentes visdcs, e seja ainda porque, dentro de uma mesma visio, apresentam diferentes matizes. O DSC filia-se assim aquelas cotrentes do Pensamento contemporaneo que valorizam o multiplo, o complexo, o diferente, mas considerando, com o mesmo gtau de importancia, que esse diferente, miltiplo e complexo convive em tensio dialética com o semelhante, com 0 uno com o simples. O DSC permite mostrar que sempre ha diferentes tipos ou categorias de pensamento coletivo entre as populagées envolvidas com um determinado tema numa determinada pesquisa empirica. Diferentes individuos pensam de modo semelhante e o DSC, adotando procedimentos de base indutiva sobre um conjunto de depoimentos individuais e selecionando adequadamente os estimulos (as questdes abertas), permite identificat reconstituir semelhangas, bem como dar diferentes nomes a esses diferentes conjuntos de depoimentos de sentido semelhante. Evidentemente, o julgamento de semelhancas e diferengas semanticas entre depoimentos nunca é definitivo e sera sempre passivel de critica ¢ tevisdo, mas isso faz parte da natureza mesma desse tipo de pesquisa ¢ 0 tinico modo de controlar tal flutuagaio € a abertura dos procedimentos e a discussao dos achados entre os pesquisadotes. 28 Mas se os procedimentos de base empirico- indutiva adotados pelo DSC permitem, tecnicamente, feconstituir modos semelhantes de pensar, tal nao se dé apenas pelas virtudes da técnica, mas também porque os individuos que vivem nas formagées sociais pesquisadas esto submetidos a condicées objetivas e a pressdes sociais que os levam a pensar de modo semelhante: assistem aos mesmos noticidtios de televisdo, leem os mesmos jornais, estio submetidos as mesmas técnicas de marketing, compartilham dos mesmos interesses de classe ou categoria profissional ete. Os diferentes modos de pensar sio diferentes \ipos de discursos. Diferentes tipos de discutsos tém diferentes nomes ou etiquetas: o DSC e cada DSC em particular é um tipo de discurso, porque retine diferentes depoimentos de sentido semelhante, e é um determinado tipo porque é diferente de outro (leterminado tipo. Assim, o nome ou etiqueta que se diac DSC permite — como todo nome ou etiqueta identificar e individualizar algo. Mas a funcao do nome ou etiqueta para por af e, portanto, nao esgota de modo algum o sentido do nome de algo evidentemente nao diz tudo sobre ele; compreender o sentido do que quer que scja exige uma exaustiva ou pelo menos detalhada i¢do dos atributos ou qualidades dessa coisa, eja, um discurso sobte a coisa, entendendo-se por utfso um agenciamento coetente de contetidos © argumentos. O sentido do pensamento coletivo exige, pois, a presenga ¢ a considetagao da dimensao sintagmatica que, no DSC, retine e articula os diferentes contetdos ¢ argumentos que recheiam ou encorpam uma determinada opiniao, 29 Em suma, 0 DSC, como técnica que visa a identificagio ¢ descrig&o de representacdes sociais presentes em uma dada formacao sociocultural a Pfopésito de um determinado tema que se pesquisa, Procura recuperar o semelhante eo divetso proprio das Representacdes Sociais. Num sentido muito amplo, todas as tepresentacdes sociais ptesentes numa dada formacio sociocultural sao semclhantes ou tém algo em comum justamente porque fazem parte de uma formacio social (e nfo de outra); e uma formagio sociocultural é um sistema de troca (didlogo, conflito, conciliac4o, confronto etc.) de ideias, e para que elas possam ser trocadas precisam ter algo em comum. Mas, da mesma forma, sao diferentes e, nas sociedades contemporaneas, muito diferentes, porque tais sociedades s4o, objetivamente, diferenciadas, complexas, miltiplas, dinamicas, conflitivas, correspondendo — ainda que nao mecanicamente ~a tais diferencas objetivas outras tantas diferencas no plano da subjetividade, do sentido. CAPITULO I Elaborando projetos de pesquisa com o Discurso do Sujeito Coletivo ‘Temas abordados no Capitulo I |. Identificagao de temas e problemas de pesquisa 2, Construgao do campo social 2.1, Definicio de atores/agentes sociais 2.2. Definigao de lugares do campo social 2.3, Defini¢éio do namero de sujcitos de pesquisa 2.4, O critério de satutacao e o Discurso do Sujeito Coletivo . Resgate do pensamento coletiyvo 3.1, Hlaboragio do formulario de questdes . Coleta de depoimentos 3.2.1. Entrevistas individuais 3.2.2. Enttevistas em grupo 3.2.3, Entrevistas on-line 3.3. Treinamento de entrevistadores de campo 31