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umario CAPITULO. 1 = AHistéria da Educagéo no Mundo. Introdugao ... 1.1 Conhecendo a histéria da educagéo 1.1.1 Experiéncias no oriente .. 1 1 .2 Keducagéio na antiguidade.. .3 Apedagogia socrética, a cultura do espirito e a paideia.. 1.1.4 Plata e 0 ideal de educagéo liberal... 1.1.5 Avistételes © a unificagdo entre o ideal e a prética coerentes... 1.1.6 Da Grécia para Roma — A heranga dos gregos e as inovagées romanas .. 1.2 A Educagéio no Periodo Medieval ... 1.2.1 Educagéo na ldade Média, uma mistura de elementos: 1.2.2 Os modelos educacionais na dade Média... 1.2.3 A patristica e a escoldstica, ou a fée a razdo. 1.3. A Educagéo na Modernidade: as modificagSes nos século XVI ao final do século XIX .. 1.3.1 ARevolugdo Industrial, a chegada da burguesia ac poder e os modelos mecénicos de Educagéo 1.3.2 Apedagogia de Rousseau, 0 naturalismo e a educagéo negative... 1.3.3 Kant: a pedagogia idealista, a consciéncia moral e educagdo para a liberdade .....22 Sintese Referéncias Bibliograficas. A Histéria:da Educacao no Mundo Introducdo Vocé consegue imaginar um mundo sem a transmisstio de hdbitos, valores, conceitos e conheci- mento? Se no, é porque hé.a consciéncia plena de que, sem umn conjunto de agées e influéncias transmitidas de um ser humano para outro através dos tempos, néo ha como determinar um propésito no individuo. Dessa maneira, sem os principios basicos da educagéia, néio é possivel guié-lo para que ele possa desempenhar as suas principais fungdes em contextos sociais, econd- micos e politicos nos quais esta inserido. Imagine um aluno que segue para a escola e néo entende o porqué de precisar assistir aulas, se- jam elas de qualquer disciplina. E preciso encontrar caminhos empirices para estimular 0 desejo de aprender, ¢ todas as estratégias sdo vélidas no exere(cio da docéncia. Nesse sentido, entender os processos educcicionais ao longo da histéria de maneira panoramica promoyveré uma reflexdio sobre come o desenvolvimento da histéria da educagdo no mundo influenciou profundamente os processes educacionais no contexto da atualidade. Por isso, & fundamental que voc’ conhega periodos importantissimos para © desenvelyimento da educagéio, estudando a construgdo do pensamento de grandes importantes figuras das civilizagSes greco- -romanas, observando as influéncias filoséficas no perfodo medieval e chegando até o grande salto na modernidade Neste capitulo, voc8 podera conhecer a histéria da educagéio no mundo, observar como a educagao evoluiu de acordo com cada contexto social, politico © econémico e perceber que tais transformag’ relagées de ensino e aprendizagem, que passaram a ser o caminho para a contribuigéo com os es influenciaram diretamente os processos que alavancaram uma melhoria nas novos processos educacionais que es'do sendo desenvolvides e aplicados nos dias de hoje. Boa leitural 1.1 Conhecendo a histéria da educagdo Quando entramos em uma sala de aula, em qualquer lugar do mundo, com o objetivo de trans- mitir e promover conhecimento, estamos levando conosco his'éria humana. Aquele que exerce a fungdo de professor — transmissor de conhecimento — carrega consigo néo somente o conteido que sera ministrado, como também valores, consciéncia e 0 poder de levar & reflexdo aqueles que recebem todos os bens inerentes aos seres humanos. Bens que nem sempre foram transmi- tidos nos moldes vivenciados nos dias de hoje. No sentido formal, educacéo consiste em todo proceso continuo de formagéo e aprendizagem que faz parte, hoje, dos curriculos de estabele- cimentos oficializades de ensino, nao importan do se séio privados e/ou pUblicos (SOUSA, 1998). Conhecer @ historia da educagéio no mundo e saber como cada sociedade via a passagem dos saberes ajudard yocé a construir uma yiséo panorémica dessa trajetéria. Também o auxiliard na descoberta de novos processos e novas maneiras de preparar o outro para exercer plenamente a 05) Historia da educagtio sua cidadania © para © exercicio qualificado de uma profisséo. Isso estd, inclusive, expresso em nossa Constituigdo. Entender, portanto, como as sociedades anteriores pensavam a educagéo contribuiré para que voc’, como educador, estabelega ideias mais concrelas de cada época e, assim, possa tragar esiratégias eduealivas que yenham a selucionar questdes que estéio inseridas no exercicio didrio da sua profisstio. 1.1.1 Experiéncias no oriente Primeiro vocé yer rapidamente os primeiros modelos que se aplicaram fora dos padrées da tradigée oral. A China, por exemplo, durante o século VI a.C., em tempos caéticos e de muita corrupgéio, priorizaya 6 ensino da ética e dos valores morais. Foi quando surgiu a primeira escola oriental — 0 Colégio de Conficio ~ que, & época, chegou a ter mais de 3 mil alunos. A educagéio ndo era para todos: as mulheres, por exemplo, tinham o direito apenas a uma educagde limitada (CAMBI, 1999). Também segundo 6 autor, na India, a educagdo estava limitada as castas @ tinha um fundo total- mente religioso. Os hebreus, por sua vez, lambém dayam importan cia & religido, mas sev ensino transmitia nao sé a Sagrada Escritura, como também todo 0 legado do seu povo, que havia sido escravizado pelos egipcios. Para eles, a educagéo deyeria iniciar-se entre as criangas, ainda em casa. Jé na educagéic judaica, a pratica de ensino nao se distinguia muito das demais vistas entre os outros povos. Ela consistia na repetigcio e revisdo dos contetidos tedricos, com algumas citagées de casos reais. Vocé consegue perceber o quanto os processos educacionais dos povos antigos influenciaram os modelos de educagéo aluais? Até hoje, o modelo de repeligio e memorizagéo ainda faz parte do dia a dia das salas de aula. Os modelos de aulas para os cursos preparatérios para exames vesiibulares, concursos pUblices e Enem, por exemplo, néio consislem em nenhum tipo de modelo educacional inovador, apenas agregaram diversos modelos que foram desenvolvidos ao longo dos tempos. Figura 1. Plaiéio deixou todos os seus pensamentos reqislrados em escrilu- Tas deixadas como grande heran ca para os poves modernos, ic terstock. 2 06|Laureate- International Universities E no ocident e, como a educagio se desenvolyeu? Voré sabia que foram os gregos que inslitulram que a educagéio deveria passar de Unica e exclusiva respon sabilidade da familia também para o Estado? Ou ainda que Platéo foi quem primeiro idealizou o modelo de educagéa liberal (CAMBI, 1999)? No prdximo lépico, voce vera como o pensamente grege e alguns importantes filoso- fos contribuiram profundamente para o desenvolvimento da educagéo. 1.1.2 A educagéo na antiguidade A educagdo de um povo esd intrinsicamente ligada ao contexto social e aos pensamentos filo- séficos de cada época. Para entender a profunda influéncia que os processos pedagégicos da Grécia exerceram na formulagéo da educagéio, & preciso primeiramente entender come era a organizagéio social grega, bem como compreender cada proposta pedagégica dos mais impor- antes fildsofos que contribuiram para as transfor magées educacional s daquele perfodo. A Grécia era composta de pélis ~ cidades- estados que nunca chegaram a constituir uma nagdo. A formagéo das cidades- estados acontecev a partir do século V a.C., quando se passou a dis- culir se 0 Estado deveria ou née assumir a tarefa de instrugdo de um individuo. Alé o fim desse periodo, na maioria das cidades, a educagdo ainda era privada e atendia apenas a uma parte da populagdo, Nao era direito de criangas que nde fossem livres, muito menos dos pobres. As meninas também continuavam a néo ter os mesmos direitos educacionais que os meninos. Sagihde Aranha (2008), ds eecolas passam a ser polleas na Groda'muledenois devvérlias’ dos ideias de Sécrates, Plato e Aristételes terem sido incorporadas aos processos educacionais. Ate entéo, a tipica escola grega era apenas um centro de cultura e intelectual, que, a principio, era yoltada aos adulios e depois acabaram incorporando os adolescentes. Hayia também as tradi- clonais escolas de Retérica, que eram profundamente combatidas tanto por Sécrates quanto por Platao. NOS QUEREMOS SABER! Yocé sabe o que é retérica © por que raztio ela era combatida? A retérica é @ arte de fdlar em poblico. Defende o dominio da oratéria, da palavra falada, da capacidace de articulagéo e convencimento por meio de discursos proferidos. Sdcrates e Platéio combatiam tais escolas porque elas no tinham como intuito a formagéio do individu, que era a reflexdo e a pregagéo. Jé.as escolas de Dialética e Filosofia tinham por interesse apenas quesides que giravam em tomo da melafisica e da ica. Plato e Aristételes, além de outros filésofos, costumavam reunir os aprendizes em torno de si para ouvir, refletir e debater. Mas, 1é0 logo 0 proceso se iniciava, os alunos se organizavam em escol as © salto para as Universidades gregas viria acontecer a partir da filosofia aplicada de ambas as escolas, Filosdficas e Retéricas. Somente duas, entretanto, conquistariam o titulo de Universidade = ade Alexandria e a de Atenas. lll NAO DEIXE DE LER O livro Histéria da Educagéo: da antiguidade aos nossos dias, de Mario Alighiero Ma- nacorda, traga uma viséio bem ampla dos processos educacionais na antiguidade, além de apontar as herangas de outros povos e as inovacées greco-romanas a partir de um contexto social ¢ politico. Nele, yoc® conseguird encontrar uma série de respostas para problemas at uais da educagdo, que ajudam a desmistificar a ideia de que as dificulda- des aparecem apenas nas novas geragées de estudantes e/ou professores. 1.1.3 A pedagogia socratica, a cultura do espirito e a paideia O filésofo grego Sécrates foi quem deu inicio as grandes reflexdes sobre educagéio em sua épo- ca. Suas ideias foresceram em outros pensadores, em especial em Plaldio, que néo se omiliu em registrar todo © conhecimento adquirido por si 6 e com 0 seu mesire. Isso porque, na época, Plato jd acreditava no valor do legado dos pensamnentos. Por essa razdo, também no se deve desconsiderar que, no conlexto de sua época, a proposta de educar para construir um cidaddo no seu ambilo mais amplo e Unico ulrapassava o conceito de educar apenas para gerar contribuigdes mais superficiais daquele individue para a sua socieda- de. A cullura do espirito passou a valer mais, em especial nas abordagens apontadas por Plato sobre 0 que deveria ser a educagéio grega. Pode-se, portanto, afirmar que nascia a “paideia”, que, em palavras bem simplistas, € a educagdo holistica do homem, que o prepara para aluar como ser pleno em seu melo e sua época. Também com seguranca & possivel afirmar quenascia, aqui, 0 conceito da pedagogia (ARANHA, 2006) Figura 2 - Foi na escola de Alenas que todas as eorias, tanlo de Avis: Toleles quanto de Plaldo, se lornaram pratica, Fonte: Shutterstock, 201 5, 08) aureate- Internati onal Universities A imagem anterior est entre algumas das mais reproduzidas ao longo dos tempos. Emblemética, ela traz ao centro dois dos mais importantes pensadores da Grécia e que promoveram as mais rele- vant es transformacées educacionais ae longo da histéria do homem: Plaldo e Aristételes.. Da viséo socrética do individuo — de que ohomem é formade por dois principios, espitite e corpo —, esses filésofos deram origem as duas grandes vertentes do pensamento ocidental,, as quais leriam reflexos profundos nos preceitos pedagdgicos do ocidente: a idealista, de Plaldo, e arealisia, de Arist dteles. Essas ideias de Aristételes néo surliram efeito téo logo foram concebidas, mas foram profunda- mente absorvidas pelas sociedades que se seguiram. Vocé conheceré mais sobre elas nas itens a seguir. 1.1.4 Platao e 0 ideal de educagdo liberal Discipulo de Sécrates, 0 filésofo Platéo fai um dos que mais tiveram influéncia na educagtio da Grécia. De acordo com ele, a atividacle que cada homem desenvolve deve corroborar para que ele conquiste as préprias ideias, para que ele possa viver de acordo com 0 seu pensamento. Em oulras palayras, para o filésofo, 0 conhecimento gerado n&o vem do lado exterior ao homem, mas sim do esforgo de sua alma para conseguir apropriar-se da verdade. Aqui, Plaldo se dis- tancia de seu mesire Sécrates por acreditar que nem lodas as pessoas possuem a capacidade para eleger ideias e viver de acordo com elas. A finalidade da educagéo, portanto, consiste na formagéo moral do homem, e para poder chegar a esse nivel educacional, é preciso que ele viva dentro de um Estado justo. Platao ainda defendia que o Edado fosse 0 responsdvel por prover toda a edu cagéio. Platéio também acreditaya que as habilidades de cada individuo deveriam ser testadas pela educa- do, no entanto, apenas os mais aptos a desenvolverem o pensamento critico, ou seja, aqueles que eslivessem preparados para receber 0 conhecimento deveriam governar. A pedagogia de Plato pregava a rendncia do individu em prol da comunidade, ja que o genio se revelava, aos poucos, apie para tal, E mais, 0 génio de um deveria servir em beneficio de todos os demais. Nesses ter- mos, Plato preconizou Um sistema de formagéio basica, que fosse comum a todes os individuos Nao se deve esquecer que «1 educagéio era para o corpo e para o espirito. As criancas deveriam brincar e praticar esportes; os jovens deveriam ter contado com o conhecimento intelectual, sem abandonar as praticas esportivas, para fortalecer ainda mais 0 cardter. Os mais aptos ao traba- Iho intelectual continuavam na busca pela aquisigéio do conhecimento, e isso poderia durar até 50 anos. Os menos aptes deveriam seguir na educagdo menos elementar, Tais ideais se resumem na pedagegia da reminiscéncia, em que todo o conhecimento ocupava um papel central na formagéio do individuo e nao se deveria transmitir conhecimento a nenhum aluno. Ao contraério, cabia ao mestre insti gar o estudante a buscar respostas em si mesmo, par- tindo do seu conhecimento prévio e de suas experiéncias. O método poderia ser aplicade por meio de debates e muito didlogo. Nada, portanto, de mecanismos autorildries, em especial nos processos de qprendizagem das criangas. ® ¢ Assis'a ao filme Sociedade dos poetas mortos (EVA, 1989), que, entre outras discus- ses, chama a atengéio para a busca do conhecimento deniro do préprio individuo, a partir das aulas do professor fora dos padrées impostos pela escola. NAO DEIXE DE VER. Histéria da educagio Platdo rejeitave profundomente a educagio praticada na Grécia em sua époce, que por longo tempo foi de exclusivdade dos scales, que se encarregavain de fransmtir conhacimentiéenico, como @ ofatéitia, ace joveris de uma elife demninante, Por aulro lade, 0 filémcko rejellava a dew moeracia, que jd vigetava em Alenos. Pleléc acredilava que ota ura eslrulure cue dev direitos iguais « pessoas pouco proparadas pera exercer opodor. Foi por isso que ale prepos « chamada “arislocrsea do sober”. NAO DEIXE DE LER. A Republica de Platéo, disponivel em: tado, na concepedo arisictélica, deve todos os deveres civicos dos futuros adultes, Pertanto, fia ser tesponsdvel apanas pcr getir a educacée posterior & primeira inféncia (ARANHA, 2006) Tambérn conforma o cuter, Ais dieles no acreditova nas reminiscencias. Ac contrério, propuaha que 6 precasse do cprondizagom 9 aquisigéo de conhacimonto seentoccsse por meie da mimeo, 00 2910, da rte daimitacéo. O filéeofo acreditaves que cs bens hdbites dos adultos funcionovamn come bens exemplos. Assim, preocupava-se com oformagdo de adultes morcis, icos e conhe: cederes de todes a8 seus deveres. Tambiém née se impcrteiva muito com a «pied des “saberes Gilets", estes Scariam a carga des esctaves que execuariam os trabalhas tidas come cerriqueiras, que née erigiam ce eaberes mais elevades. Ainda pora Aridételes, caberio unicamente & educagio formar para a vide poblica, E @ caminho Jide come ideal serie formar pare a prética de virlude, ou sea, encontrar © camninhe do meio para obiengdo do equilibria Para Avisi6ioles, 1odas as coisas possuem uma finalidade conereta, © cada individu se dosenyl yea parr da imperfe co do outro. Aideia é partlhar o conhecimento, as experiéncias verficor como se cheger ca acerto. A fnolidade da educagao, portanto, em svavisdo, é atingit « fli cide: de, creado. Isso sen 0 piler pore a manutengéc do virtuoso, e toda virtude precise torner-se um habito. © popel funcamentel dei escola, para AvistAeles, & Ustemente celaberar pera que tedes 28 individos que fagaim uso de bem que ele rensmile adeuiram esse habilo. caso Vole acu! imagine © seguinte situagéio: on professeres, an entrorem em sale de aula, costumam ouvir as seguintes perguntas de seus olunes “a que vou fazer cam isto ne fuluroe™, ou ainda “pare que serve aprender is of! LO}Lavrecte: Infernal onal Universiies x wor oyeupressedama/sdiny | omnbes @ | 2 a oySaanpy 2p 10125 By onane @ A Considerando a filosofia da época, hoje seria melhor adotar um Unico tipo de prdtica pedagé- gica? Ou um misto das praticas, levando em conta que néo ha apenas uma orientagdo bnica para e aprender? Como mesclar teoria e pratica dentro dos maldes educacionais de hoje? Um professor que assumisse as ideias de Platéo poderia esperar dos alunos reflexes e algumas descoberlas somente com a observ aco da natureza? Por outro lado, caso 0 educador assumis- se apenas as ideias de Aristdteles, ele também chamaria & reflexéo somente demonstrando um Gnico caminho? O caminho, seja ele qual for, deve sempre conduzir 0 educando 4 reflexdio e ao conhecimento, sejam eles especificos ou mais amplos. 1.1.6 Da Grécia para Roma - Aheranga dos gregos e asinovagées romanas O poder passa de uma méo 4 outra. E assim, como aconteceu em diversos momentos da histéria, aconteceu também com a Grécia, que se tran sformou em propriedade de Roma. Os Macedénios conquistaram a Grécia em 322 a.C., quando se iniciou © chamado periodo helenistico ~ pe- riodo de processo de integragéio entre a cultura grega classica és culturas dos povos orientais conquistades. A histéria da educagéio em Roma remonta ao dedinio dos gregos, que acabaram deixando um grande legado em boa parte da estrutura social romana, especialmente na educagéio. Roma, diferent emente de sua conquistada, desenvolveu a concepgdio de Repiblica e de Império e néo discriminou os seus conquistados, tanto que preferiram incorporar 0 idioma e outros padrées costumes culturais gregos, que acabaram se tornandlo uma grande heranga para toda a humani- dade. Assim, absorveram também os conceitos pedagégicos e fizeram deles um grande modelo que seria passado para outros poos do ocidente bitte, Figura 3. Mas ruines romanas, ainda se vem os vastigios de urn legade intel. Fonte: Shutterstock, 2015. Dessa maneira, pode-se dizer que houve um periodo de transigéio da educagéo grega para a romana, em especial nos primeiros anos da cidade. Nesse contexto, os romanos foram capazes de abservar que havia um elo na educagéio, comum a todos os povos ¢ em todos os tempos alé entdo, Eles notaram também a grande chave para a pedagogia: que existe algo préprio a todos os seres e que somente estes podem fazer ~ criar e assimilar e transformar ideias em conheci- Histéria de educagiéo. mento. A educagéio grega acabou se transformando em outro lipo de educagie, por conta de um nove ideal que vigorava em Roma. Come aponta Manacorda (2001, p. 96-97), Roma absorveu muito dos processos educacionais que eram praticados na Grécia: "|...] a educagéio moral, civica e religiosa, aquela que chama- mos de enculluragéio as tradigées patrias, tem uma his!éria com caraderisticas préprias ao pass que a instru gic escolar no sentido técnico, especialmente das letras é quase totalmente grega’”. Em contrapartida, cabia exclusivamente & familia os primeiros anos de educagdo de seus filhos, isso garantido pelo Eslado: "|...] Desde os primeiros tempos da cidade, a autonomia da educa. g@o palerna era lei do Estado: 0 pai € dono e atfifice de seus filhos” (MANACORDA, 2001, p. 96-97). A partir do grande desenvolvimento da Reptblica em Roma, notou-se a necessidade ¢ a impor- tancia de escrever, registrar leis que fossem as delimitadoras sociais. Era preciso que elas fossern aplicadas de modo que correspondessem as classes sociais e, assim, servissem como parametro para a regulamentagdo do Estado. Em principio, a criagéo de tais leis foi proposta em 462 a.C., no entanto, temia-se que elas fossem usadas contra os governantes ou mesmo que houvesse abuso em suas aplicagées. Mais de 10 anos se seguiram quando, efelivamente, elas foram escritas e passaram a orientar no somente toda a condugéo da Republica romana, mas também toda a edvcagdio. O docu- mento, entdo denominado Lei das Doze Tabuas, foi redigido por uma comisséio ainda no século Va.C. e gravado em 12 placas de bronze. Cicero, considerado 0 mais eloquente entre todos os oradores romanos, néio somente era um defensor de varias ideias educativas aplicadas na Grécia, come também teve contato direlo com elas, uma vez que 0 orader estudara em Atenas. Reconhecido como o "pai da patria”, Cicero apontou em seus escritos a grande import éncia das Leis das 12 Tabuas para a formagao do pove romano, chegando mesmo a comparérlas dos peemas de Homero para os gregos. O filésofo, que era profundo conhecedor da lingua e da cultura grega, vollou-se aos seus mestres para for- mular sua propria ideia de pedagogia (ARANHA, 2002). A educagiio em Roma, a principio, tinha algo de muito préximo & que os gregos praticayam, (4 que a obrigagéo quanto aos primeiros ensinamentos do indiv{duo era da familia. Essa era uma das grandes marcas da educagéo em Roma, cuja figura do pai — pater/patria — era predomi- nante e irrevogdvel. As criangas recebiam os primeiros ensinamentos em casa, as doutrinas eram passadas pelo pai, e a mae ficava restrita & educagéio mais afetiva. Depois, os filhos deveriam seguir para a escola, onde aprenderiam tedos os demais fundamentos para a vida em sociedade. Dentro de uma cultura universalizada e expressa por meio do termo humanitas — cujo sentido literal é humanidade —, da educagéio e da cultura do espirito, a educagéo em Roma acabou se distinguindo da grega por, sobreludo, estar vollada ao cosmopolita e ao universal, |4 que busca va procurar, no ser, todos os tempos e todos os lugares. Tal concepgdo era allamente valorizada por Cicero. O objetivo da educagdio em Roma era fundamentalmente politico, mas Cicero apon- tava a importéncia dos ensinamentos da oratéria, que segundo ele era um ideal ecuménico de humanitas, capaz de reunir os mais diversos poves sob um mesmo império. Para ele, o educando deveria dar maxima atengdo ao desenvolvimento da natureza humana e as disposigées inerentes as aptidées para escolher © exercer uma profisséo, Dessa maneira, a base de sua pedagogia apoia-se nas ideias tanto de Plato, no que concerne as doutrinas para as vocagées, quanto nas teorias de Aristételes, que devem presumir nao somente a teoria, como, ainda as préticas para o conhecimento efelivo do individuo. Cicero, que acreditava na existéncia de um Deus Unico, ajudou a organizar os pilares da educagdo em Roma na época do Império, uma yez que foram elas o grande ponto de partida para a construg vigorou no periodo da latinidade. jo de todo o modelo que 12|Laureate- International Universities As escolas romenes pessaram por algumas transtormagées desde « fundacéio da Repiblice, possonde pela Império © até o perieda em que Rema entra em visivel declinia. Rimeira, hevia fs escclas deRelérica, que visevam apenes ensinar craléria, sem desenvolver plurelmente 6 in dividuo, Essa madelo fei combalide durante © governo de Julio César @ paseou a ser allomente consurode peles principals pensoderes de época, Surgiv entao uma nova possibilidade ~ a de agregar ensinamentos de ouiras disciplines & escola de Direio, que passou néo somente a ensinar os leis, importantes para © process educacional romano. Constentinopla destacou-se como a sede das melhores escolas desse novo molde. De: pois, sequirm-se os escolas de filésofos e os instlulos helenislicas. Desee period, cestaca-se a escola Alene, fundada pelo impereder Adriano, que foi a peda fundemental para ai organize: cio das universidades, Cenforme Arenha (2006), as univ ersidaces ramones foram eriades com 0 infuito de reunir nde semente as disciplinas, mas também os grondes mesires de seu lempo e cs discipules que logo se destacaram no conterto tanto politico quanto filosético e social. Eles se desenvelveram no decorrer doséculo | «.C., ~ especifcamente na época de Cicero. Eram frequentadas pelosjovens da elite, que se destacoriom, pesteriormente, no exercicioda vide publica. Eles estudevem poli ca, direito e flosofia, her como as cemais disciplines que continhem os saberes enciel opédicas Os romones também mentiveram 08 esiudos de Educactic Fisica, mos um pouco mais voliada para aprendizado des artes merciais ~ o inluilo era @ formagio de soldados. Embora predo: minasse a educagio ar socratice, *|..J asm comona Grécia, ela néio era apenes um privilégio da elite” (ARANHA, 2006, p. 90). Nae foram somente as universidades que foram volorizadas nese periodo. Os imperoderes romans deram total cuidado 4 edueagéo e se preocuparem em propagé-la ¢ construir escclas em svos provincias. Além disso, néoficaram resntos & educagéo superior, como também fizeram rscolos dessa modalidade de ensino quesiao de incenlivar e crgonizar 0 ensine elementor eslavam a cargo do Estado, que arcava com todos o& custor, Nelas, tanto os idecis de Plalao quonio os de Arisiéleles foram tololmente abservides pela cultura, em especial na queslée de demoeratizagiio do onsino olamentar. Segundo Arenha (2006), 0 ensino passou, endo, a comproender trés tipos de escolas distintas: © aescola dos ludt-magister, voltodo pera o educagéo elementer + asescolas do gramatico, que hoje corresponderiam ce fundamentel I + escola de educagtio tereiarta, ov escola do Retérico, vovivalente & universidade, en que 80 aprencic Dirsito, Filosofia e outros disciplinas, Deis nomes se destacoram no que diz rempeito & pedagogia e aos processes educacionais no periode romeno: Sénace e Plutarce. © flésofo Séneca tinha como ponte de partida para eslabelecer a sue pedagegia a indiviuc: lidade de aluno, Comparllhava do masme santimento de Cicero - ambos acreditavam que @ psique de um cluno é trégil e aliamente complexa. Porianto, a deis vian a figura do aluna em sua forna humanitas, Para Séneca, © processo de aprendizogem se dé a partir do momento em oue hé a liberagéo das ppcixées per perte do incividuo, que ossim conseque se harmonizar com a natureze, Uma vise estelea da edlucagio, Futo do pensemento helenfstico. 5 ~ og'eanp3 ap 10135 by ao @ Al cr oynpaseenn/sciny | onbes @ | Historia da educagéio Ores QUEREMOS SABER! © que € a vistio estoica? Os estoicos defendiam a nogéio de que toda a realidade exis- tente € uma realidade racional. Em outras palayras, a natureza e todos os seres fazer parte da realidade que nos cerca, ou seja, racional . Plutarco, por sua yez, elogiaya a educagéo doméstica e a indicava como a melhor maneira de formagée elementar para o individu, Concordava diretamente com Aristételes em relagdo aos falores essenciais da educagéio: nalureza, arte e habito. 1.2 A Educagdo no Periodo Medieval A Idade Média foi um misto de culturas que sofreram os processos do eristianismo. E possivel entender um pouco mais a relagéo que a educagéo tera, portanto, com a religidio. Uma estaré ligada a outra de maneira intrinseca. Com © surgimento e a aceitagdo de uma nova doutrina religiosa como ponto de partida para a manutengéo do poder e da dominagéo, néo seria de estranhar que, com © adyento do cristianis- mo, a educagéo fosse a primeira a sofrer transformagées. Todos os poros que foram acolhidos e/ ou tiveram relevancia para o periodo — bizantinos, islamicos, paideia cristianizada — promo- yeram mudangas no pensar e fazer educacional. Alguns ainda tentaram lutar contra os pagéos e, por meio das escolas, promoveram a fé na crenga de um Deus Unico, contrariando anos de cultura politefsta. Ha duas figuras de alta significagéio para os processos educacionais do periodo. Santo Agosti- nho, por meio de sua fé, encarnou com todas as suas forgas o modelo de inteligéncia crist. No campo da educagdo, um de seus trabalhos é tido como o de maior referencia para a pedagogia: "De Magister”, que trata do processo de ensino dentro de uma visto platénica. Sao Tomas de Aquino, igualmente emblemdtico, procurava aliar a fé crista ao pensamento aristotélico. Assim como Santo Agostinho, Tomas de Aquino também acreditava que Deus era © grande agente da educacéo, e que a figura do professor nada mais era do que um agente externo para apresentar © conhecimento. A parit dessas premissas, vamos ent ender melhor o que aconteceu dentro dos processos educa- cionais na dade Média Partimos, pois, de seu context historico. 1.2.1 Educagaéo na Idade Média, uma mistura de elementos Os processos educacionais modificam-se, do mesmo modo que 0 contexto social, o homeme a sua filosofia. Assim come os processes evolutivos de organizacéo social, a pedagogia se expres- sa pot meio do homem e de seu tempo. No seria, pois, diferente no perfodo que vai do século V d.C. ae XV d.C., a Idade Média - ou Periodo Medieval. Pode-se, dizer que a ldade Média abrange um perfodo de mil anos, que vai justamente da queda do Império Romano, em 476 d.C., alé a tomada de Constantinopla pelos turcos, isto ja em 1453. Em termos gerais, a Idade Média 6 uma mescla de elementos dos greco-romanos, germénicos & crisléos. Também vale considerar todas as herangas das civilizagées bizenlinas edo Isla. Todes, cios seus modes, contribuiram para a educagtio que foi modelo na Idace Média, E neste periodo que a pedagogia comega a ganhar uma configuragéo, sob © ponto de vista de seu contexto histérico. 14|Laureate- International Universities Nessa €poca, as cidades eram pouco poveadas e havia um processo de ruralizagée bastante acentuado, que se estendeu alé o séculoX, no auge do sistema feudal. Assim, o sistema de escra- vizagéo desapareceu aos poucos, dando lugar a outra figura: a dos servos que, embora fossem livres, mantinham-se na dependéncia dos seus senhores. A sociedade era piramidal, ou seja, no ponto mais alto, estavam os nobres e oclero. © rei néo detinha tanto poder quanto a igreja, e os demais contingentes estayam na base, sempre em uma escala de dependéncia. Nao se rat avai de uma sociedade que estivesse preocupada dire amente com a manutengiio do saber, em particular de maneira demcratica e popular, come fizeram es gregos e os romanos. © cenhecimento adquirido durante séculos foi totalmente resguardado nos masteiros. Por isso, os monges linham um papel fundamental nos processos educativos na época, visto que eram a Gnica figura tolalmente letrada, fora alguns nobres e clérigos. Os servos ndo liam, muito menos escreviam, 0 que explica a grande influéncia que a Igreja Catdlica exerceu sobre a educagio. Alé aqui, vimos que os processos educacionais na Idade Média estéo intimamente ligados ao seu contexto histérico, em particular & ascensdo do cristianismo. Mas e todas as filosofias e os questionamentos a respeito da educagéic? Aonde estdio os grandes pensadores? Havia eferves- céncia cultural nas universidades, elas néio desapareceram do contexto. No entanto, muito do que foi produzido foi tomado pela Inquisi gio inslituida pela Igreja, que resistia as tentativas de contestagéio ao seu poder. O Estado ou a familia no eram mais figuras centrais nos processos. E todos os que se opunham eram punidos forternente como hereges. A educagéio na Idade Média, portanto, foi “ebscurecida”, tendo voltado & luz apenas com a chegada das mon arquias nacionais (CAMBI, 1999) Voc8 verd agora os modelos que predominaram durante o perfodo. 1.2.2 Os modelos educacionais na Idade Média A concepgao filoséfica do perfodo mediev al é 0 teocentrisme, ou seja, tratava-se de uma filoso- fia que consideraya Deus e os ensinamentos religiosos como o centro de todo 0 universo (CAMBI, 1999). Assim, a educagéio no perfodo medieval tinha relagdo estreita com a f€ no cristianismo, bem como com todas as inslitvigdes edlesidsticas, que eram as guardadoras do conhecimento. No Império Bizantino, por exemplo, havia uma énfase sobre a vida religiosa, assim como uma grande preocupagéo com as famosas "heresias”, Pouco ha de documentagdo sobre o ensino primério e secundario entre os bizantinos. De acordo com os documentos histéricos, sabe- se que © ensino religioso ndo predominava nas escolas, e os cldssicos podiam ser estudados de maneira livre. Também hé informagées de que a pouca educagtio era humanfsica e que os funciondrios poblicos deveriam ser capacitados para esse trabalho. Sobre as escolas superiores, hd bastante documentagdo, visto que a Universidade de Constantinopla foi uma das mais importantes, Nao se estudava religido na matriz curricular. Ela era estudada parte (ARANHA, 2006). Enire os drabes, os processos educacionais, bem come as pesquisas, seguiram adiante, mesmo com grande oposigde por parte da Igreja cris'a ocidental. Os arabes eram grandes interessados em temas como matemética, medicina, geografia, astronomia, filoscfia e cartogratia. Tanto que se destacaram em todas elas. Sabe-se que, por volta do século X, hauve a criagio de varias es- colas primérias para ensinar leifura e escrita. Assim, durante as aulas, era ainda possivel ensinar © Alcordo, Apreciavam a memorizacéo come forma de educar. J4 0 ocidente, que via as civilizagées orientais florescerem, aprofundou-se na retragéo do co- nhecimento. Somente durante © perfodo Caralingio, por volta do século VIll, é que ocorreram algumas mudangas. No entanto, todas com &nfase na cristianizagtio da paideia. Ainda segundo Aranha (2006), as primeiras escolas cristés foram as escolas monacais, que surgiram ao lado dos monastérios € catedrais. Os funciondrios leigos passaram a ser substituidos por réligiosos, pois eram os Unicos que sabiam ler e escrever. © monarquismo foi um movimento Historia da educagéio que teve inicio de mado lento, na vida solitéria dos monges e que, aos poucos, passou a ter grande influéncia na cultura do perfodo medieval. A finalidade da criagéio dessas escolas néio era pedagégica, e sim religiosa. Cabia aos funciondrios inslruir novos cristaos. Um pouco mais & frente, por conta do crescimento das cidades e da burquesia, foram instituidas as escolas seculares, que surgiram de outras necessidades educacionais. Era importante que fosse ensinado historia, geogratia, cartografia, nagées da lingua nacional e de ciéncias naturais, visto que a populagéo crescia e viajava, No entanto, a escola secular ndo estava destinada a todos, néio era democratica. Ela estava destinada ao patriciato urbane, que se dedicava ao comércio e, portanto, finha posses. A escola © a educagéio promovidas aqui se aproximavam muito da ensinada aos poucos filhos de nobres. Para a burguesia plebeia, restaram, por volta do século XIll, as escolas profissionais, que eram permitidas e mantidas pela lgreja. Os processos de aprendizagem da leitura e da escrita foram reduzidos a quase nada As mulheres e aos servos, a educagtio formal néo era permitida. A mulher nascida pobre e, além de trabalhar ac lado do marido, ainda permanecia iletrada, Ja as nobres, algumas vezes, rece- biam uma educagéo mais refinada, no proprio ccstelo. As meninas burguesas tiveram acesso &s escolas seculares somente depois de uma emancipagtio das cidades-livres. Jé outro grupo de meninas, o das érfas que eram deixadas nos monastéries, recebia educa ao bdsica. Elas tinham uma vida regrada para se fomarem freiras. Elas liam, escreviam e sabiam um pouce de artes, além de aprenclerem juntamente com outros monges a fazer cépias de ma- nuscritos. Embera tenham sido os monges beneditinos que proveram a ctiagéio desse modelo de escola, ela no estavai restrita somente para as meninas que desejavam seguir como religiosas. Havia outros caminhos para aquelas que ndo seguiriam os rumos da fé. 1.2.3 A patristica e a escolastica, ou a fé e a razdo Voce viu alé aqui os modelos de escola que estiveram presentes no contexto do proceso educa- cional no periodo medieval. E importante agora compreender a fillesotia eri sta da época, para ter uma visio mais abrangente do que foi a educagéio, de fato, nesse momento da histéria. E importante netar que nao somente a f movia os ideais da época. Havia outra forga que, por yezes, simbolizaré uma imensa contradigéo: a razdo. Duas foram as importantes linhas floséficas da época, assim come foram dois os grandes pensa- dores. Em seus ideais e crengas, Santo Agostinho e Tomas de Aquino representam, respeclivamen- te, a crenga na educagio pela fé ¢, 0 outro, na educagéo pela fé, mas alimentada pela razdo. A filosofia cristé pode ser vista de maneira impregnada na patristica. Trata-se de uma filosofia diretamente ligada aos padres da Igreja, dai o seu nome. Teve inicio no fim do Império Romano, no século lll, e seu grande representante 6 Santo Agostinho (GADOTTI, 2001). @)A vocé 0 CONHECE? Santo Agestinho nascev em Tagasa, no ano de 354 d.C., alval Souk-Ahras, na Argélia. Foi uma figura que viveu por muito fempo uma vida mundana e que, ao se converler ao crislianismo, vendeu a fazenda que herdara dos pais e tentou viver uma vida de re- clusdo. Foi nomeado bispo da Igreja e também 6 considerado um dos mais importantes filésofos do cristianismo, que muito coniribuiu para os processos da educagdo de sua época. Morreu em 430 d.C., na atual Annaba, Argélia. 1 6|Laureate- International Universities © contraponto da filosofia patristica & a escoldstica, que significa "o saber da escola”. Vigorou entre os séculos IX e XIV, quando se iniciaram os primeiros movimentos que culminariam no Re- nascimento. Nesse perfodo, o grande destaque é Tomas de Aquino, que via na figura do professor um colaborador na aprendizagem do aluno. No entanto, para 6 filésofo, a verdadeira aquisigdio do conhecimento dependia de maneira fundamental da vontace do educando. Para ele, somente Deus pode ser chamado de mestre. A proposta pedagégica do espiritualismo agostiniano ainda era muito presente no periodo de Tomas de Aquino, que também via no espirito uma valorizagéo maior frente 4 razdo. No entanto, a escoldstica de Tomas de Aquino tinha por objetivo ensinar a verdlade revelada por meio do exercicio cla atividlade racional. Recorria-se, para isto, ao ensino do texto, lectio, e & discussdo, disputotio. © ¢ NAO DEIXE DE VER... © filme O Nome do Rosa (EUA, 1986), baseado no romance de Umberto Eco. Nele, um monge franciscano e seu aprendiz s4o enyiados a um monastério para solucion ar alguns crimes ligados a um livro proibido. O filme mostra com clareza e exctidéo como era a relagdo com o saber no perfode da Idade Média, além de deixar claro que aque- les que néo seguiam os preceitos impostos pela Igreja deveriam ser punidos. 1.3 A Educagao na Modernidade: as modifica- ¢6es nos século XVI ao final do século XIX Vocé sabia que os processos educacionais por muito tempo ainda permaneceram com as mes- mas premissas promovidas de educagio religiosa durante o perfodo medieval? Seria esse mo- delo um impedmento para o desenvolvimento da razéo e do conhecimento humano? Novos acontecimentos historices néio seriam capazes de promover mudangas na educagao? A educagéio laica, ou seja, néo religiosa, até meados do século XVIII, ainda era muito restrita. Durante os séculos XVI 6 XVII, a Igreja Catdlica ainda manteve a sua forca, a tal ponto de retomar algumas préticas que haviam diminuido consideravelmente, tais como a persequicée acs ndos cristdos e aiqueles que se opunham aos dogmas clericais. Tais praticas comegaram a perder forga por conta da disseminagdo de novas correntes religiosas. © século XVII foi o caminho para a re- agdo: a Contrarreforma, que suscitou 0 nascimento do Calvinismo, do Anglicismo e Luteranismo. Algreja Catdlica se descentralizou, mesmo com todas as tentativas de angariar novos dissiden- tes. Achegada de um novo modelo pedagégico, diante desse contexto, era iminente, bem como oadvento de novas teorias & luz do conhecimento. 1.3.1 A Revolugdo Industrial, a chegada da burguesia ao poder e os modelos mecdnicos de Educagao A burguesia, até meados do século XVIII, esteve sempre & margem, ocupando, quande muito, um papel secunddrio na estrutura social. Desde 0 surgimento desse novo grupo social, os prota- gonistas sempre foram a aristocracia e o clero. O que era para ser apenas um grupo de comer- clantes enriqueceu com a ajuda da Revolugéo Comercial. No entanto, a burguesia encontrava-se tolalmente sufocada pela quantidade de impos os com os quais precisava arcar, mesmo tendo feito aliangas econémicas com os absolut istas; A-chegada das méquinas € « Revolugde Indistrial no somente mudariam toro esse pan ‘come premey eriamn mudan cas irrevetsivers nai hiskéric: do homem. sso. tambérn marcaria as funds macificagées nos sistemas educacionais de alé enldo. A Revolugio now imei Jévol 0 que era evilado alé entéo: © burguesia raivindiccu © pader econémica e tombém 0 polf iodes pelos ideais flosétices d Edodiram as revolugies burquesas por teda a Europa. Inu nis chagarem até o Nevo Mundo, infuen 2001; ARANHA, 19: Figura eT 6 enibe conhedido Sem dividas, 0 grande prepulsct deludo isso form os ideai de lluminismo. Trafa-se de ume das meis imperlantes marcas do séeulo XVIIl, que Lrouxe de valia 6 poder da razéo para rec ve 0 homem sa libertacs aligiosos © of «: ainde conterpler mundo, © lluminismo prepuni ‘© munde per meto exc ro2éo, Ele p tempo quena também antendé-la @ demina-la, © emer des iluministos ara "ibercle dade e iqualdade". A religidio possou a nia ceupar mais © lugar central na vide des 08 Hlésafos desse perlodo ndo mais acailom or 1a divina, Admiliam Di passou © ear |aice 18}Laurecte: Infemali onal Universiies x Fi - £ ze e e 4 onbss @ | O oulaug i i Figura §- O pensamento Lluminista provecou um novo pensar nas relacé es com as pe- dagogias — 4 educagtio deveria chegar ate as camadas mais pop ulares, Fonte: Shutlerstock, 2015, No contexto do lluminismo, néo fazia qualquer sentido atrelar a educagéo 4 religidio, embora isso continuasse a ser um desejo da aristocracia. Foram os déspotas esclarecidos — alguns sobe- ranos que colocaram em pralica os ideais iluministas ~ que fizeram implantar as escolas laicas (leigas), que nao eram religiosas, livres (independentes de classe social). Tais pressupostos de- monstram que o Estado passaria a gerir as escolas de maneira definitiva, conferindo gratuidade, além de obrigatoriedade, ao menos para o ensino elementar. A énfase do ensino seria na lingua matera, nas ciéncias técnicas e nos offcios. © primeiro Plano de Instrugéio Publica foi redigido por Condoreet, em 1792, estendendo a instrugdo publica e gratuita ci todos os cidadéios. Era dever do Estado a garantia da insirugéio minima, assim como a preparagéo para exercer um oficio, ou seja, a profissionalizagéo. O plano ndo foi aprovado, mas inspirou outros que viriam posteriormente. A universalizagdéo da Educagéio reapareceria no século XIX. Desse perfodo em dianle, podemos dizer que a educagéio estava em sua fase moderna: livre da instrugdo religiosa, mas ainda presa a alguns preceitos e sistemas que somente seriam modifi- cados posteriormente. No entanto, alguns acontecimentos podem ser considerados, em especial © que ficou conhecido como "model os mecdnicos” da educagéo Os modelos mecénicos foram pensades por um dos mais importantes nomes da pedagagia do século XVII, mas que viria a ter parle de seus pensamentos aplicados somente no contexto do iluminismo: Coménico. Ele foi considerado um dos mais importantes pensadores educacion ais de sua época e escreveu diversos tratados ¢ livros sobre as préticas educacionais, nos quais faz diversas reflexes sobre a educagdo. Histéria da educagéo Um de seus trabalhos mais importantes é "Didética Magna”, no qual afirma que o principal objetivo da educagto € auxiliar o homem a alcangar a felicidade eterna com Deus. Isso ndio era nenhuma novidade em seu contexto. Entretanto, Coménico inovou em relagéo aes outros tedricos ao apontar que o objetivo da educagdo também deveria ser alcangar o dominio de si mesmo, assegurado pelo autoconhecimento e pelo conhecimento de todas as coisas. Ao fazer tal afirmacéo, ele acabou antecipando parte dos preceitos iluministas. Figura 6 — Com@nico, Fonte: Encyclop andia Briann: 1 Coménico foi além. Ele acreditaya que a ideia do métado e da ordem de educar era vago, além disso, custoso. Por isso, para ele, a educagéo deveria ser sistematizeda. Em outras palavras, foi ele quem preconizou a sala de aula tal como concebemos hoje, com aulas expositivas, tradi- cionais, tendo come figura central © professor, expondo didaticamente todes os conteédos para os seus alunos. Estes, por sua vez, deveriam escular e obedecer. O grande problema visto aqui, por Coménico, era justamente como fazer com que os alunos tivessem tal postura, muito mais passiva do que em outros sistemas, um problema que é encarado até hoje Coménico tinha uma particular predilegéio pelas méquinas e nelas vislumbrou © processo de educagéio em massa, tal como eram os processes realizados nas fabricas. O sentimento de Co- ménico parecia ser o mesmo enfrentando pelos teéricos da alualidade, que veem na informatica grandes possibilidades de processos e inovagées educativas Ainda néo se pode deixar de mencionar que, nessa época, a educagdo sofia com grandes pro- blemas, como professores mal pagos, mestres sem qualificagéio e escolas insuficientes. Assim, era dificil ensinar. As praticas de castigos corporais ainda eram constantes e, apesar de todo o desejo de se estender a educagéo para todos, havia também o dualismo escolar, ou seja, uma escola que era destinada ao povo, e outra, a burguesia. Essas questées feriam profundamente 9s caros ideais de igualdade propostos pele Iluminismo. Muitos ideais foram abandonados no século seguinte, e 0 Estado desconfiava das inicialivess privadas de educagéo, pois viam com temor a possibilidade de que 0 formalismo religioso fosse novamente implantade. 20|Lauredte- International Universities 1.3.2 A pedagogia de Rousseau, o naturalismo e a educacdo negativa Jean-Jacques Revssoau fol um granda pensador da sua époco, 0 sous idoais influsnciaram pre Yundemente © Revolugée Francesc, em 1789. O-flésato é consderado um roméntico naturclisio, rtonto, © mee o corrempe: ié que, em sua visdo, todo heme & born em sua netureza, no Tadenuot mie daciincia ente apenas darelicio Fonte: Shultertock, 2015, A educogio ne chamado movimento nalurdista opresentou uma ravclugdo em vérios senlidk 120 que era lide como pedagedia aplicével alé entdo. Rousseau acrediiava que 0 formalisma era esiér'l, @ 0 ensino raligioso que havia tomado a educagéo nao era natural. Elo, entao, propos ume concepgtio mais espontanes @ sincera. Privilegiou a abordagem antropolégica no er fem que a figura mais importante & 0 sijeito, a crienga. Ele néo cereditava cue o ser | estivesse pronto, como pregeva a epistemolegia, que estava centrada apenas na transmissdo do scber Rousseau considerave « crianga néo scmente um set em constiugéio, como tam ome de edueacée negativa a pr rd conhecimenta, Diferentemente, a sua pree lum ser per feito. Portanto, ele 1 pedagagiea que centra a educ fem um ser que apen como educagée posi que deixaram um lagade pero as lrensformagSes fealizadas ao lenge des anes, come lamar 50 rolaciena dirctamarte com as préticas ecucacionais no mundo de hoe, coma 6 sabido, uma vyez que, apenes par meio da consirugdo do conhedmento ~ professor, aluno, teoria e pratica-, 6 possivel prover uma fomagée sdlida no educondo, Essa teoria pode ser apreciada em Emito, ov ya. Ela inf uendiou néo somente oul Da Educagao, romance pedagégico publicado em 1762 por Rousseay e que trata da educagio > ‘egieonp3 2 10135 & 7 ipressedwman//sciy | oonBas | D x ~ e Histéria da educagio 1.3.3 Kant: a pedagogia idealista, a consciéncia moral e educagao para a iberdade Ouiro importante fidsefo para a educagée fei Kant. Suas prine’ pais contribuigées para a educe: gée mederna estéo registrades em clgumas de suas obras mais déssicos, come Crifica da razdo pura, na qual desenrolve a artica do conhecimento, © Criteo da razio prérica, no qual analisa ‘2 moralidde. Karl eracittico veemente dos empiristas, os quais acreditavam que oconheamento éproveniente fodos os pensomenios nescern de dentro de nés mesmes, au seja, que dc inerenles ao ser. Para Kani, 0 conhecimento provém des centetdos dados pela experiéncic e da edrulura universal en. contrada unicamenis ne rez. © cenhecimento vem da yentade de aprender, © @ indvicuo é um ser moral, perque & copez de aios de ventade. Logo, totalmente capaz de aprender. Na prética, isso 2e traduz no respeito & vontade que o aluno tem de aprender e no reconhecimento da sua copacidede de fransformar conhecimentos adquirides em préticas no dic a dia Come voct péde observar, « edveactio ver mudendo com @ possar de tempo, # a preowpacdo cam a forma de ensiner ven de muito lempe alrés. Grandes pensaderes do antiguidade, coma Flatdo © Ariiéioles; outros da Idole Média, como Tomé ce Aquino © Santo Agoatinho; da mo: derridade, como Rousseau, continuam exercendo algumas influénaas até hae noa processes pedagécicos, que so proticados no contemporaneiciade, Como apenta Ludces: (1993), todes, 13 concepcdes pedagdgieas e os tendénicias tednces estiverom chretarnente ligadas ac memento histénco vivide pelo hamem. Em autras polavras, os préficas edlicoconais sempre pretendaram dor conla do momento e das circunsléndas sociois, polilicce e floséfices. Elas passoram pelas linhes libercis, Hadicicnais, leeicistes, progressislas @ liberladera e libertéia, bem como eflica secial das conteddes, que é uma das tendéncies mais vistas atualmente, 22|Layrecte- Injernali onal Universities x wor oyeupressedama/sdiny | omnbes @ | 2 a eurdosg Gy Ze ee5eonp] a5 20155 By Sintese A educogtio 6 um processo socializedor 0 quo passou por diversas mudangas a6 longo dos lempas. Eslé dretamente ligacla se conterto de homem, que preduz @ sober e que se dosarvolveu em divercos mementos importantes desde a anliguidede, Os pores antigas, cada uma a seu modo, ofereceram viséas particuleres de como daveria ser © processo eclucotivo, Estée na Grécia ca names e modelos que mais infuuenciaricam 08 modelos de ecuueagéo no ocidente, Sécrales, Pinto e Aristételes, em suas tecrias que divargem en determinades pentas, mas cenvergemn pora autres, seréa os grandes influeniciaderes do pensar e fazer pedagig co. A educogtio em Roma basecu-s8 nos preceilos gregos. Os romanos criaram as Leis dos Doze Tébuas, que influenciaram © Diroito, democratizaram © educagio @ estabeleceram 18 quais devenam ser obrigagdo de Estado: oferecer a educagéo formal ¢ gerit escolos ora que uncionassem adequadamente, pessande a se reli gioen, ambi ices coma Senle Agostinho @ S40 Noperfoda medieval, o edlicagéo sofreu un retreces 4 alguns nemes fenham marcede mudangss pedag Tornds do Aquino, A mecanizagéo do ensino iniciou-ce ainda no final da Idade Média, com os tocrias propostas por Coménice, Namodernidede, ceorrau ume demecratizagéa efetiva da educagéia, mesma resguardlaces problemas que sto vislos aié hoe. Os iluministas © as ravelugées centribulram profundamento para a modiicagtio des procozsos educecionars, Na prétice pretissional cotidiona, eam todas as propedes pedagégicas levantadas, a eduengéc estoria limitada a processas relrégradas que née promaveriam a.contemplagéia eduealiva de individue come um tada, x oudoeg (ey fine ee8soney 2010155 By wor oyeupressedama/sdiny | omnbes @ | 2 -apepiun-or> Bibliografica: ARANHA, Marici Licia de A. Histeria da educagao e da Pedagogia: geral © do Brasil. 3 ed Sao Paulo: Moderna, 2006. __. Filosofia da Educagae, Sao Paulo: Moderna, 2002 __. Histaria da educagao. Sao Paulo: Modema, 1996 CAMBI, Franco. Historia da pedagogia. Sao Paulo: Unesp, 1999 ENCICLOPADIA BRITANNICA. John Amos Comenicus. Disponivel em: . Acesso em: 26 jun. 2015 GADOTTI, Moacir, Histéria das ideias pedagagicas. Séo Paulo: Atica, 2001 LEITE, José Assungtio Fernandes. A Repéblica de Platdo: rel acéo entre os livros |, Il, Ill, Ve Vill, 2009, 163 . Tese (Doutorado em Filosofia) ~ Pontificia Universidade Catdlica de Sao Paulo, Sdo Paulo, 2009 LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da educagéo. Sao Paulo: Cortez, 1993 MANACORDA, Mario. Historia da educagéao: da antiguidade aos nosses dias. Sao Paulo: Cortez: Autores Associados, 2001 ROUSSEAU, Jean- Jacques. Emilio ou da Educaga@o. Sao Paulo: Martins Fontes, 2004 SOUSA, Cyntia Pereira de. Historia da Edueagéo: processos, prélica © saberes. Sao Paulo: Escrituras, 1998, 24|Laureate- International Universities