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8/8/2010 Folha de S.

Paulo - Tecnologia: A inteli…


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São Paulo, domingo, 08 de agosto de 2010

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TECNOLOGIA

A inteligência coletiva
O pacto fáustico da nova internet

TIM O´REILLY
tradução BERNARDO ESTEVES

resumo
A corrida tecnológica e econômica deram à internet feições
descentralizadas, em que aplicativos e sistemas operacionais
dispersos em diferentes plataformas permitem a constituição de
uma "inteligência coletiva". Alimentadas pelos usuários, essas
preciosas bases de dados devem ditar o modelo de negócios na
web nos próximos anos.

PERGUNTE-SE POR UM MOMENTO: qual é o sistema


operacional da busca que realiza no Google ou no Bing? Qual é
o sistema operacional de uma chamada de celular? Qual é o
sistema operacional dos mapas e endereços no seu celular? Qual
é o sistema operacional de um "tweet"?
Num computador que não esteja em rede, sistemas operacionais
como Windows, Mac OS X e Linux gerenciam os recursos da
máquina e permitem que os aplicativos se dediquem às suas
tarefas. Mas muitas das atividades mais importantes para nós
acontecem hoje entre as máquinas individuais, num espaço
misterioso. A maioria acha normal que essas coisas funcionem e
reclama quando, por um instante que seja, cai o milagre diário da
comunicação instantânea e do acesso à informação. Mas olhe
debaixo do tapete: você verá uma imensa infraestrutura técnica,
de alcance mundial, que possibilita o futuro permanentemente
conectado, no qual nos precipitamos sem refletir.

PAPEL SECUNDÁRIO Quando você faz uma busca no


Google, os recursos do seu computador -o teclado em que digita
o pedido, o monitor que exibe os resultados, o hardware de rede
e o software que conecta a sua máquina à rede, o navegador que
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formata e encaminha seu pedido aos servidores do Google-
desempenham um papel secundário.
Na verdade, eles pouco importam para a operação da busca -
você pode digitar o termo que está buscando no navegador,
numa máquina com Windows, Linux ou Mac, ou num
"smartphone" que rode Symbian, PalmOS, Mac OS, Android,
Windows Mobile ou qualquer outro sistema operacional para
celulares.
A maioria dos recursos essenciais para essa operação está em
outro lugar: nas imponentes fazendas de servidores do Google,
onde softwares do Google encaminham a sua busca (uma entre
as milhões feitas simultaneamente pelos internautas) a algum
subconjunto de servidores, onde os softwares processam um
índice maciço para devolver o resultado em milissegundos. Há
também, em cada sistema entre você e o "data center" do
Google (ou você achava que estava diretamente conectado a
ele?), o software de roteamento de IP, a maioria rodando em
equipamentos da Cisco; o sistema de nomes de domínio (DNS),
na maior parte de código aberto, uma rede de servidores que
não só permitem que o seu computador se conecte a google.com
(em vez de precisar digitar um endereço de IP como
74.125.19.106), mas também intervêm para que a sua máquina
acesse qualquer sistema que armazene as páginas da web que
você está procurando; os protocolos da web propriamente ditos,
que permitem que navegadores em clientes rodando qualquer
sistema operacional local (talvez devêssemos chamá-los de
"conjuntos de 'drivers'") se conectem a servidores rodando
qualquer sistema operacional.

CAMADA DE SOFTWARE Você pode alegar que a busca


do Google não passa de um aplicativo que roda em uma rede de
computação maciça e que, no fundo, o sistema operacional
dessa rede continua sendo o Linux. E que a internet nada mais é
do que uma camada de software implementada pelo seu
computador e por aplicativos remotos como o Google.
Mas espere. Vai ficar mais interessante. Imagine agora uma
pesquisa feita no Google com o seu celular, usando a função de
busca com voz. Você fala no seu telefone, o serviço de
reconhecimento de fala do Google traduz em texto o som da sua
voz e passa adiante para o buscador -ou, num telefone Android,
para qualquer outro aplicativo que escolha ouvir.
Alguém que esteja acostumado com o reconhecimento de fala no
PC pode achar que a tradução acontece no celular, mas não -ela
ocorre nos servidores do Google, mais uma vez. Mas espere.
Não acabou. O Google aprimora a precisão do reconhecimento
de voz comparando o que os algoritmos de fala acham que você
disse com o que o sistema de busca (leia "Google Suggest")
espera que você vá dizer. Em seguida, como o seu celular sabe
onde você está, o Google filtra os resultados para encontrar os

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LOCALIZAÇÃO Seu celular sabe onde você está. Como ele


faz isso? A resposta fácil é "ele tem um receptor de GPS". Mas,
se ele tem um receptor de GPS, quer dizer que o seu telefone
recebe a informação sobre a sua posição acessando uma rede de
satélites lançados no espaço pelos militares norte-americanos.
Ele também pode ter obtido com a sua operadora informações
adicionais para acelerar a detecção da localização por GPS.
Ele pode, em vez disso, estar usando a "triangulação de antenas
de celular" para medir a sua distância em relação à antena mais
próxima, ou mesmo consultando uma base de dados que mapeia
coordenadas a partir de pontos de wi-fi. (Essas bases de dados
foram criadas percorrendo todas as ruas e assinalando a
localização e a força de cada sinal de wi-fi.) O iPhone conta com
o serviço da Skyhook Wireless para realizar essas consultas; o
Google tem seu equivalente para isso, criado, sem dúvida, no
mesmo momento em que foram capturadas as imagens para o
Google Streetview. Seja qual for a técnica usada, o aplicativo
depende de instalações e serviços disponíveis em rede, e não
apenas de recursos do próprio telefone. E, cada vez mais, é
difícil alegar que todos esses recursos entrelaçados são um
mesmo aplicativo, mesmo quando são disponibilizados pela
mesma empresa, como o Google.

MISCELÂNEA Continue acompanhando a trama. Afora


eventuais jogos, que aplicativos móveis existem apenas no
telefone? Praticamente todos são aplicativos de rede, que
dependem de serviços remotos para desempenhar suas funções.
E onde está o "sistema operacional" em tudo isso? Está
claramente evoluindo. Os aplicativos usam uma miscelânea de
serviços de vários provedores diferentes para conseguir a
informação de que precisam.
Mas em que medida isso é diferente do desenvolvimento de
aplicativos para PC no início dos anos 1980, quando cada
fornecedor escrevia seus próprios "drivers" compatíveis com a
miscelânea de discos, entradas, teclados e monitores envolvidos
no então emergente ecossistema de computadores pessoais? A
Microsoft veio com uma oferta difícil de recusar: vamos gerenciar
os "drivers"; tudo que os programadores de aplicativos precisam
fazer é escrever e usar as APIs Win32, e toda a complexidade
será afastada. E assim foi. Hoje poucos programadores
escrevem "drivers". Isso fica a cargo dos fabricantes de
dispositivos, com toda a desordem ocultada pelos "fornecedores
de sistemas operacionais" que gerenciam as atualizações e, volta
e meia, oferecem APIs genéricos para categorias inteiras de
dispositivos. Esses fornecedores, que assumiram o ônus de
gerenciar a complexidade, terminaram com um poderoso
padrão. Criaram o contexto em que os aplicativos têm

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funcionado desde então.

PACTO FÁUSTICO Eis a essência do meu argumento sobre o


sistema operacional da internet. Aproximamo-nos, mais uma vez,
do ponto em que o pacto fáustico será feito: basta usar as nossas
instalações, e toda a complexidade se dissipará. E, assim como
aconteceu nos anos 1980, há mais de uma empresa fazendo essa
promessa.
Estamos entrando numa versão moderna do "Grande Jogo", a
rivalidade para controlar os estreitos desfiladeiros até o
prometido futuro da computação (John Battelle chama-os de
"pontos de controle").
Essa rivalidade é vista de forma mais aguda em aplicativos
móveis, que dependem de serviços da internet para alimentar a
interface com o usuário. Como Nick Bilton, do "New York
Times", descreveu num artigo recente, comparando o Google
Nexus One e o iPhone: "Chad Dickerson, diretor-chefe de
tecnologia da Etsy, recebeu um Nexus One do Google antes do
lançamento. Disse que o celular do Google parece conectado a
determinados serviços da web de um jeito que o iPhone não fica.
"Comparado com o iPhone, para mim o telefone do Google
parece fazer parte da internet", disse-me ele. "Se você vive no
mundo do Google, tem o mundo no bolso de um jeito mais limpo
e mais conectado do que com o iPhone." O mesmo se aplica ao
iPhone. Se você é usuário do MobileMe, iPhoto, iTunes ou
Safari, o iPhone o conecta sem dificuldades a suas fotos,
contatos, favoritos e músicas. Mas se você usa outros serviços,
às vezes precisa achar uma alternativa para acessar o conteúdo.
Em comparação com o Nexus One, se você usa o Gmail, o
Google Calendar ou o Picasa (o software de armazenamento de
fotos on-line do Google), o celular se conecta sem esforço a
esses serviços e automaticamente sincroniza com uma simples
autenticação no telefone. Os celulares funcionam perfeitamente
com seus respectivos soft-wares, mas nenhum deles faz esforço
para lidar bem com outros serviços.

ESCOLHA Não se preocupe com os detalhes técnicos sobre se


de fato a internet tem ou não um sistema operacional. É claro
que, na tecnologia móvel, estamos sendo apresentados a uma
escolha de plataformas que vai muito além do sistema
operacional do dispositivo que temos em mão.
Vejamos qual é o estado do sistema operacional da internet -ou
melhor, dos sistemas operacionais concorrentes da internet- tais
como existem hoje. Entre outras funções, um sistema operacional
convencional coordena o acesso dos aplicativos aos recursos da
máquina -coisas como memória, armazenamento em disco,
teclado e monitor. O núcleo do sistema operacional -o "kernel"-
gerencia processos, aloca memória, lida com interrupções dos
dispositivos, com exceções variadas, e geralmente permite que

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muitos aplicativos compartilhem o mesmo hardware.

NUVEM É fácil concluir que plataformas de "computação em


nuvem", como Amazon Web Services, Google App Engine ou
Microsoft Azure, que dão aos programadores acesso a
armazenamento e computação, estão no âmago do sistema
operacional da internet que está nascendo.
Os serviços de infraestrutura em nuvem são, de fato,
importantes, mas concentrar-se neles seria cometer o mesmo
erro que a Lotus fez ao apostar que o DOS permaneceria o
sistema operacional padrão, mesmo depois do surgimento de
concorrentes baseados em interfaces gráficas com o usuário.
Essas interfaces, afinal, não faziam parte do sistema operacional
"real", apenas eram mais um construto no nível dos aplicativos.
Mesmo que o Windows tenha sido, ao longo de anos, apenas
uma fina casca sobre o DOS, a Microsoft entendeu que levar os
programadores a graus maiores de abstração era a chave para
fazer aplicativos mais fáceis de usar. Mas quais são esses graus
mais altos de abstração? Seriam eles apenas aspectos que
ocultam os detalhes das máquinas virtuais em nuvem, isolando o
programador da gestão da escala, ou ocultando detalhes de
exemplos de sistemas operacionais dos anos 1990 em máquinas
virtuais em nuvem?

SUBSISTEMAS Os serviços subjacentes acessados pelos


aplicativos hoje não são meros componentes do dispositivo ou
recursos de um sistema operacional, mas subsistemas de dados:
localizações, redes sociais, índices de websites, reconhecimento
de voz e de imagem, tradução automática. É fácil pensar que são
os sensores no seu dispositivo -a tela sensível ao toque, o
microfone, o GPS, o magnetômetro, o acelerômetro- que tornam
possível essa nova funcionalidade "cool". Na verdade, tais
sensores são apenas "inputs" para subsistemas maciços de dados
que residem na nuvem.
Quando, por exemplo, como um programador para o iPhone,
você usa o Core Location Framework para estabelecer a
localização do telefone, você não faz apenas uma solicitação ao
sensor: faz uma consulta de dados em nuvem com os resultados,
transformando coordenadas de GPS em endereços, ou
transformando a intensidade dos sinais de wi-fi em coordenadas
GPS, e daí em endereços. Quando o aplicativo da Amazon ou o
Google Goggles leem um código de barras ou a capa de um
livro, eles não apenas usam a câmera com processamento de
imagem integrado: passam a imagem para um processador muito
mais poderoso, em nuvem, e depois fazem uma consulta no
banco de dados com os resultados.
Cada vez mais, os programadores de aplicativos não recorrem à
programação de baixo nível para fazer reconhecimento de
imagem, reconhecimento de fala, determinação da localização,

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gestão de redes sociais ou conexão com amigos.
Solicitam funções de alto nível a plataformas ricas em dados que
oferecem esses serviços.
DESAFIO
Como o volume dos dados a serem tratados é muito grande,
pois estão em constante mudança e distribuídos ao longo de
milhões de sistemas em rede, a busca revelou-se o primeiro
grande desafio da era do sistema operacional da internet.
Resolver o problema da busca requer um pesado e contínuo
rastreamento da rede, a construção de índices maciços e
mecanismos algorítmicos de recuperação de dados para achar os
resultados mais apropriados para a busca de um usuário.
Por se tratar de uma tarefa complexa, apenas alguns
empreendedores tiveram sucesso na busca para a web,
especialmente o Google e a Microsoft. O Yahoo! e a Amazon
também fizeram avanços substantivos nesse campo, mas
deixaram grande parte do terreno para os dois líderes do
mercado. Nem toda busca, no entanto, é tão complexa como
uma pesquisa na web. Um site de comércio eletrônico como a
Amazon, por exemplo, não precisa rastrear constantemente
outros sites para achar seus produtos; ela está diante do
problema bem mais específico de encontrar apenas páginas na
web que ela própria gerencia. No entanto, a busca é fractal e a
infraestrutura para isso se replica sucessivas vezes em muitos
níveis em toda a internet.
Isso sugere que há oportunidades futuras para dirigir mecanismos
de busca especializados e distribuídos para rastreamentos mais
completos do que os que poderiam ser feitos por um mecanismo
centralizado. A Amazon, por exemplo, classifica seus produtos
mais populares lançando mão tanto de dados visíveis apenas por
eles, como a taxa de vendas, quanto dados que eles tornam
públicos, como o número e avaliação das resenhas dos usuários.

BUSCAS POR ARQUIVO Além da busca na web, há muitos


tipos especializados de busca por diferentes tipos de arquivo.
Sempre que você coloca um CD de música num leitor ligado à
internet, por exemplo, ele imediatamente busca o nome das
faixas no banco de dados CDDB usando uma espécie de
impressão digital produzida pela duração e pela sequência das
faixas no CD.
Outros tipos de busca por música, como a feita por aplicativos
para celulares como o Shazam, buscam músicas comparando sua
impressão digital acústica. Já o "projeto genoma da música", da
Pandora, encontra músicas parecidas recorrendo a um complexo
de centenas de fatores analisados por músicos profissionais.
Muitas das técnicas de busca desenvolvidas para páginas da web
se baseiam na semântica dos links, em que cada link é um voto, e
votos de fontes com autoridade têm peso maior do que os
demais. Trata-se de um caso de metadado implicitamente

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alimentado pelo usuário, ausente na busca por outros tipos de
conteúdo, como livros digitalizados.
Nesses casos, a busca permanece na mesma idade das trevas e
da força bruta em que a busca na web estava antes do Google.
Avanços significativos nas técnicas de busca para livros, vídeos,
imagens e sons serão, muito provavelmente, uma característica
da evolução futura do sistema operacional da internet.

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