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John Mackrthor dr O Poder da Integridade, Copyright © 2001, Editora Cultura Crista. Publicado originalmente com 0 titulo The Power of Integrity, Copyright © 1997, John F. MacArthur, Jr. pela Crossway Books, Wheaton, IL. Traduzido com permissao. Reprodugao proibida. 1? edig&o - 2001 3.000 exemplares Tradugdo Wadislau Martins Gomes Reviséo Rubens Castilho Ana Elis Nogueira de Magalhaes Andrade Editoragao Aldair Dutra de Assis Capa Magno Paganelli Publicagéo autorizada pelo Conselho Editorial: Claudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, Aproniano Wilson de Macedo, Fernando Hamilton Costa, Mauro Meister, Ricardo Agreste, Scbastiao Bueno Olinto. €DITORA CULTURA CRISTA Rua Miguel Teles Junior, 382/394 - Cambuci 01540-040 — Sao Paulo - SP — Brasil C. Postal 15.136 — Sao Paulo — SP - 01599-970 Fone (0"*11) 270-7099 ~ Fax (0"*11) 279-1255 www.cep.orgbr — cep@cep.org.br Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Claudio Anténio Batista Marra Contetido Introdugao 7 VALORES ESSENCIAIS DA INTEGRIDADE 1 - Valor Insuperdvel 15 2 —Integridade Doutrindria 29 3 -Em Busca da Santidade 43 EXEMPLOS DE INTEGRIDADE 4 —Resultados de Uma Vida Sem Dedicagao 59 5 — Fogo e Ledes 73 6-Em Defesa da Integridade 85 ETICA DA INTEGRIDADE 7-Temore Tremor: O Antidoto da Hipocrisia 107 8 — Submissio a Deus 119 9 —Responsabilidades da Santidade Pessoal 131 10 - Obrigagées da Santidade Pratica 145 Guia de Estudo 169 Introducao Vivemos neste mundo de comprometimentos — em uma so- ciedade que abandonou os padrées morais e os princfpios cris- téos em troca de oportunismo ou pragmatismo. A filosofia assen- ta-se na conquista de objetivos por meio de quaisquer meios. Essa perspectiva centrada no individuo deveria ter esse moto: “Se fun- ciona para vocé, v4 em frente” — uma nogao de que a inevitabili- dade conduz ao comprometimento da consciéncia e das convic- ¢6es. Devido a prevaléncia do comprometimento em nossa socie- dade, pode-se dizer que nao temos mais uma consciéncia civil; culpa e remorsos sao fatores desconsiderados como determinantes do comportamento. A maioria dos politicos, que deveriam ser mantenedores dos altos ideais da nagao, est, ao revés, liderando a caminhada do com- prometimento. Estes promovem seus altos padrées e ideais antes das eleigGes, mas os comprometem todos uma vez que estejam no exercicio de scus cargos. O mesmo ocorre nos negécios, desde 0 executivo corporativo até 0 vendedor; nas cortes, dos juizes aos advogados; nos esportes, dos proprietarios dos clubes aos atletas; e em todos os segmentos da vida. Em conseqiiéncia, as pessoas aprendem a mentir, enganar, roubar e mascarar a verdade — a fazer qualquer coisa para conseguir o que desejam. Tal comprometimen- to torna-se modo de vida. Infelizmente, a filosofia e a pratica do comprometimento ja inva- diram até mesmo a igreja. Visto que a tolerancia é a ideologia efi- ciente da nossa sociedade, a igreja adota semelhante perspectiva para alcangar o nao-salvo. Muitas igrejas buscam atualmente ma- neiras de apresentar o evangelho as pessoas isentas de qualquer ofensa— mesmo que a prépria natureza do evangelho seja ofensiva por confrontar o pecador com seu pecado. Ignorando isto, muitas 8 O Poder da Integridade igrejas comprometem transigentemente a palavra de Deus, em vez de permanecer firmes no evangelho, oferecendo ao mundo sua ver- sao debilitada, incapaz de efetuar qualquer mudanga nele. No aspecto pessoal, o espirito de comprometimento chega den- tro da casa, em nossas relagdes individuais. E provavel que vocé ja tenha tido oportunidades de proclamar Cristo a pessoas incrédulas e, por intimidacao ou falta de seguranga, tenha se calado. Talvez vocé esteja comprometendo a palavra de Deus com respeito aalgum tema ético no trabalho ou na sua vizinhanga, acreditando que isso seja ne- cessdrio para manter sua credibilidade como empregado em um es- crit6rio ou vizinho. Contudo, seu testemunho crist&o esta baseado em sua plena dedicagao a palavra de Deus como a mais alta autorida- de — nao importando as conseqiiéncias que decorram disso. Deus chama os eleitos para o seu reino por meio de cristéos que provem ser diferentes do mundo — que revelem sua verdadeira submissao mediante compromisso e obediéncia aos padrées de Deus. Nossa dificuldade em viver assim é a oposi¢&o que encontra- mos no mundo. R. C. Sproul, em seu livro Pleasing God (Agradar a Deus), comenta a pressdo que o mundo exerce sobre nés: O mundo é sedutor. Procura atrair nossa atenc’io e devogao. Permanece bem préximo e ao nosso alcance, bem visivel e atra- ente, que ofusca nossa visdo do céu. Aquilo que vemos luta para conseguir nossa atengao. Atrai nossos olhos, se nao estivermos olhando para uma patria superior, cujo arquiteto e construtor é Deus. O mundo nos agrada — na maior parte do tempo, diga- mos — e, assim, freqiientemente, vivemos para agradd-lo. E é aqui que ocorrem os conflitos, pois agradar o mundo raramente se harmoniza com agradar a Deus. A vocagao divina que recebemos é esta: “Nao vos conformeis com este mundo” (Rm 12.2). O mundo, porém, nos quer como seus s6cios. Somos instados a participar da sua plenitude. Ele nos pressiona com a Ultima técnica de press&o dos nossos pares (Wheaton, IL: Tyndale House, 1988, 59). A igreja de hoje esta de tal modo envolvida com o mundo que esqueceu de como nao se envolver. Isto porque aceitamos com Introdu¢ao 9 muita facilidade o sistema de valores do mundo e nos tornamos indulgentes a ponto de personalizar-nos e fazer deles os nossos préprios ideais. Na esséncia, nossos padrdes tomam o lugar dos padrées de Deus. AEscritura conclama-nos a um compromisso oposto. Do inicio ao fim da Biblia, Deus ordena claramente que seu povo viva separa- do do mundo. Quando Deus estabeleceu a nacap de Israel, instituiu dia a dia aos israelitas o principio da separagao do mundo. Sua observancia religiosa ao longo do tempo serviu como salvaguarda para evitar, como povo singular (Dt 14.2), que se misturassem com os pagiios. Igualmente, Deus exorta seu povo a separar-se do mundo (1Pe 2.9). Quando somos tentados a nos comprometer, devemos, tao- somente, lembrar que Deus jamais compromete suas verdades e principios absolutos em razao de beneficios escusos. Ele age sem- pre segundo sua palavra. O Salmo 138.2 diz: “...pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra”. Deus esta comprometi- do com sua palavrae, como filhos, devemos estar também. Quando vocé vé a palavra de Deus como autoridade suprema, isto abre caminho para o desenvolvimento da integridade, em lugar do comprometimento. The American Heritage Dictionary (Houghton Mifflin, 1992) define integridade como “aderéncia firme aum severo c6édigo moral ou ético”, “o estado de estar desimpedi- do; desembaracado” ou “a qualidade ou condigao de ser inteiro ou indivisfvel; inteireza”. Vem da palavra integer, que significa “tot ou “indiviso”, “completo”. O termo integridade significa, essencial- mente, ser verdadeiro em relacao aos préprios padrées éticos — em nosso caso, os padrées de Deus. Integridade é sinénimo de honestidade, sinceridade, incorruptibilidade. Descreve alguém sem hipocrisia ou duplice — alguém que é totalmente consistente em suas convicgdes. Uma pessoa a quem falte integridade — alguém que diga uma coisa e faga outra— € um hipécrita. Em nenhum outro lugar a integridade € mais necessdria que na lideranga da igreja, porque o lider espiritual tem de manter a integri- 10 O Poder da integridade dade para firmar um exemplo confidvel a ser seguido. Mesmo as- sim, hd muitos lideres a quem falta integridade e que sdo, por defi- nigdo, hipécritas. Nosso Senhor nao teve paciéncia com tais pessoas. Os escri- bas e fariseus foram, freqiientemente, sujeitos a ataques dsperos de Cristo a sua hipocrisia. Jesus disse deles: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém nao os imiteis nas suas obras; porque dizem e nao fazem” (Mt 23.3). Falta de integridade é exa- tamente isso — viviam por um padrao ético e ordenavam a outros que vivessem por um padrao diferente. Depois de lamentar pro- fundamente a situagao deles, Jesus ofereceu essa reprovacio final: “Serpentes, raga de viboras! Como escapareis da condenagao do inferno?” (v. 33). Para o homem integro, porém, Deus promete béngao. Quando SalomAo terminou a construg4o da casa do Senhor, ele apareceu- lhe e disse: “Ouvi a tua oragao e a tua siplica que fizeste perante mim; san- tifiquei a casa que edificaste, a fim de pdr ali o meu nome para sempre; os meus olhos e o meu coracao estarao ali todos os dias. Se andares perante mim como andou Davi, teu pai, com integridade de coragiio e com sinceridade, para fazeres segundo tudo o que te mandei e guardares os meus estatutos e os meus juizos, entdo, confirmarei 0 trono de teu reino sobre Israel para sempre, como falei acerca de Davi, teu pai, dizendo: Nao te faltara sucessor sobre o trono de Israel.” — | Reis 9.3-5 Aconclusao é simples: aqueles que mantiverem uma vida integra serao abengoados por Deus; os que nao a mantiverem, sero amal- digoados, especialmente os que estiverem na lideranga espiritual. A integridade é essencial para que 0 crente represente Deus € Cristo nesse mundo. Qualquer coisa menos que a inteira devogao ao Senhor, tanto no cardter quanto na conduta, acaba em compro- metimento com o mundo. Um erro freqiientemente cometido por cristéos bem-intencionados é irem na extrema diregao oposta: ado- Introdu¢do 1 tam o cédigo biblico de conduta sem a prépria motivagao interna. Isto é também hipocrisia. O propésito desse livro é cultivar a inte- gridade, partindo de motivos justos. A primeira parte examinard os pontos essenciais do desenvolvi- mento dessa motivaciio, o que abrange um desejo de conhecer Cristo intimamente, um compromisso com a palavra de Deus como autori- dade suprema e um desejo de ter uma vida piedosa. Examinaremos cada um desses pontos nos primeiros trés capitulos. Na segunda parte, examinaremos alguns exemplos biblicos de homens piedosos que tiveram sua integridade constantemente testa- da. O livro de Daniel proverd exemplos do Antigo Testamento de como 0 profeta e seus trés amigos, quando tentados por homens mundanos a negarem a Deus, responderam sem condescer. Nosso exemplo do Novo Testamento sera baseado na vida de Paulo. Em seu ministério, ele suportou ataques ao seu cardter e, em 2 Corintios, respondeu a esses ataques e apresentou um modelo de vida integra. Asegao final mostrar4 como vocé pode manifestar uma vida de integridade. Uma vez que é tio importante evitar a hipocrisia, no primeiro capitulo dessa segao examinaremos como um esforgo dis- ciplinado da sua parte, somado a uma completa dependéncia de Deus, éa chave para a vitéria sobre a tentacao de ter uma vida de hipocrisia. Os trés capitulos finais oferecerao os detalhes de como vocé poderd cultivar ativamente a integridade mediante um exame das suas responsabilidades e deveres em relagao a Deus, a si mes- moe aos outros — tanto incrédulos quanto crentes. Finalmente, 0 objetivo desse livro é que vocé seja habilitado a responder as seguintes questdes, tal como fez Davi: “Quem, Se- nhor, habitard no teu tabernéculo? Quem ha de morar no teu santo monte? O que vive com integridade e pratica a justiga, e, de cora- Go, fala a verdade...” (S] 15.1,2). VALORES ESSENCIAIS DA INTEGRIDADE 4 Valor Insuperdvel Oespirito olimpico sem adesismo do velocista escocés Eric Liddell ficou famoso por meio do filme premiado, Chariots of Fire (Carruagens de Fogo). Durante meses Liddell treinou para correr nacompeti¢ao dos 100 metros rasos dos Jogos Olimpicos de Paris, em 1924. Repérteres esportivos de toda a Inglaterra predisseram que ele venceria. Contudo, quando as datas agendadas foram anun- ciadas, Liddell descobriu que sua competicao estava programada para um domingo. Em razio de sua crenga de que competir no Dia do Senhor seria desonroso perante Deus, recusou-se a participar da competicao. Os fas de Eric ficaram atonitos. Alguns dos que o haviam exalta- do previamente chamaram-no de louco. Ele, porém, permaneceu firme. O professor Neil Campbell, um dos seus colegas de estudo e companheiro de atletismo dessa época, comentou assim: Liddell era a Ultima pessoa a festejar tal possibilidade. Ele apenas disse: “Ndo vou correr num domingo” — e mais nada. Ele se irritaria muito com qualquer coisa que fosse feita no Dia do Se- nhor. Sabiamos que a decisao devia-se ao seu carter, e muitos dos atletas se impressionaram com isso. Sentiram que ali estava um atleta preparado para representar bem o que julgava certo, sem interferir com ninguém mais e sem ser dogmitico. (Sally Magnuson, The Flying Scotsman, New York: Quartet, 1981, 40) Diversamente do contetido do filme, que utilizou recurso dra- matico para o tratamento dos fatos, Liddell soube da escala da cor- rida meses antes das Olimpiadas. Ele n&o aceitou participar também das corridas de 4 por 100 e de 4 por 400 metros, competigdes as quais ele se classificara, porque todas ocorreriam aos domingos. Um vez que era um atleta tao popular, o Comité Olimpico Britanico perguntou se ele treinaria para competir na competi¢ao dos 400 16 O Poder da Integridade metros rasos — modalidade em que ele antes se dera bem, que, porém, ele jamais havia considerado competir. Ele decidiu treinar para competir nela e acabou por descobrir que tinha talento natural para essa dist&ncia. Sua esposa, Florence, comenta sobre aquela decisao: “Eric sempre disse que sua grande decisao para ele foi que, ao resolver permanecer firme quanto aos seus principios e se recu- sou a correr na competigéio dos 100 metros rasos, descobriu que os 400 metros eram sua modalidade. Ele nao o descobriria de outra maneira” (Magnuson, 45). Liddell acabou vencendo os 400 metros e, no processo, mar- cou um novo recorde. Deus honrou seu espirito de nao-comprome- timento. Acima de tudo, que havia na vida de Eric Liddell em sua resolugao de permanecer firme em sua decisao, apesar da pressaio das autoridades e da midia? Os produtores do filme Chariots of Fire, sem querer, forneceram a resposta em cena que dramatizava as tentativas do Comité Olimpico Britanico de mudar 0 pensamento de Liddell sobre a corrida dos 100 metros. Depois das tentativas malsucedidas, um dos homens comentou: “O certo... é que ele éum verdadeiro homem de principios e um verdadeiro atleta. Sua veloci- dade é uma mera extensao da sua vida — sua forga. Quisemos separar sua corrida dele proprio”. A despeito de os repérteres tra- tarem Deus como uma forga genérica, a declaragao era verdadeira. A vida crista nao pode ser vivida separa de Deus. Fazer isto é com- prometer o proprio ser. E af que o poder da integridade comega. Somente quando vocé e eu derivamos nosso ser da relagdo pessoal com Cristo, podemos es- perar vivermos como ele viveu, sofrermos como ele sofreu, enfrentar- mos aadversidade como ele enfrentou e morrermos como ele morreu —tudo sem engajamentos que nao ocompromisso com Deus. Ocoragio e aalma de todo o cristianismo € 0 nosso relaciona- mento pessoal com Cristo. Nossa salvagaio comega com ele, nossa santificagao progride com ele e nossa glorificagao se realiza nele. Ele é a razao do nosso ser e, assim, mais valioso para nds que qual- quer outra pessoa ou fato. valor Insuperdvel 17 Oapéstolo Paulo sabia muito bem que 0 coragao da vida crista é aconstrugio de um conhecimento intimo de Cristo. Por isso mes- mo ele disse: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8). Isso era tanto sua paixao quanto seu alvo (v. 14). Quais eram essas coisas todas que ele considerava perda? Eram. as credenciais finais da religiao de obras de justia a que Paulo ser- via antes de vir a conhecer Cristo. Ele foi “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto a lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto 4 justiga que ha na lei, irrepreens{vel” (vs. 5,6). Segundo a sabedoria convencional religiosa de seus dias, Paulo seguiu 0s rituais certos, foi membro da raga e da tribo certas, aderiu as tradigdes certas, serviu areligido certa coma exata intensidade e de acordo coma lei certa e seu zelo cheio de autojustiga. Um dia, porém, quando estava em viagem para perseguir mais cristaos, Paulo encontrou Jesus Cristo (At 9). Ele viu Cristo em toda sua gléria e majestade, compreendendo que tudo o que pensa- va ser de algum valor desvalorizava-se diante disso. Ele disse: “Mas © que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cris- to... € as considero como refugo, para conseguir Cristo” (vs. 7,8). Namente de Paulo, seus bens se tornaram em débitos —a tal pon- to de ele consideré-los como refugo. Por qué? Porque eles nao poderiam produzir o que ele esperava deles; nao poderiam produzir justiga, poder ou permanéncia. E nao poderiam conduzi-lo a vida eterna ea gléria. Assim, Paulo abriu mao de todos os seus tesouros religiosos pelo tesouro do conhecimento profundo e intimo de Deus. Esta é a esséncia da salvacao: uma troca de algo sem valor por algo valioso. Jesus ilustrou essa troca assim: “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo 0 que tem e compra aquele campo. O reino dos céus é tam- bém semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a 18 O Poder da Integridade compra” (Mt 13.44-46). Esses dois homens encontraram algo de tao grande valor que superava tudo o que possujam. Para eles a decisao foi facil: vender tudo 0 que julgavam de valor em troca que algo ainda mais valioso. Isto € o que ocorre Aqueles que Deus decide trazer para 0 seu reino. A pessoa que vem a Deus esta disposta a pagar 0 que quer que ele requeira, nao importa quao alto seja o prego. Quando con- frontado com seu pecado 4 luz da gléria de Cristo — quando Deus retira a venda dos seus olhos — 0 pecador arrependido de repente percebe que nada que ele considere precioso vale a pena ser con- servado se, para isso, tiver de abrir mao de Cristo. Jesus é 0 seu tesouro e a sua pérola. Em certo ponto de nossa vida descobrimos que ele é muito mais valioso que qualquer coisa que tivéssemos — seja 0 que for, posses, fama ou desejos. Tudo isso se tornou sem valor comparado com Cristo. Assim, langamos tudo no lixo e tornamo-nos para ele como nosso Salvador e Se- nhor. Ele se tornou 0 supremo objeto da nossa afeigao0. Nosso novo desejo era o de conhecé-lo, amé-lo, servi-lo, obedecer-lhe e ser como ele é. Isto ainda é verdade para vocé? Ha qualquer coisa em sua vida que entra em competicao com Cristo? Ha qualquer coisa nesse mun- do que prenda sua lealdade, devocao e amor mais que ele? Vocé ainda deseja conhecé-lo com a intensidade de quando ele 0 salvou? Se assim nao for, vocé comprometeu sua relagao pessoal com Cris- to € esta se deliciando com 0 lixo desse mundo. Este é 0 perigo dessa espécie de comprometimento. Se vocé nao toma cuidado na preservagio e na prote¢ao do tesouro do seu relacionamento com Cristo, a exuberancia e a devo- ¢4o dos primeiros dias com Jesus se desacelerarao e, de repente, se deterao em um marasmo de complacéncia ¢ indiferenga. Por fim, uma ortodoxia fria tomard o lugar do amor obediente e 0 resultado ser4 o de uma vida hipdcrita que se comprometerd com 0 pecado. Felizmente para nds Deus nos tem dado, em sua palavra, os recursos necess4rios para combatermos nossa tendéncia de pecar e Valor Insuperavel 19 restaurar nosso relacionamento com Cristo. O apdstolo Paulo nos mostra como fazer isto, ajudando-nos a ver 0 que j4 temos ganho quando trocamos lixo por Cristo. Ganhamos os bens de uma nova vida e de uma nova relagao com Deus. Uma Nova Vida Quando introduzido no reino de Deus, vocé foi completamen- te transformado. Tornou-se uma “nova criatura; as coisas antigas jApassaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). Vocé nao sé recebeu algo novo, mas tornou-se alguém novo. Paulo disse: “Es- tou crucificado com Cristo; logo, j4 néo sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; ¢ esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (G1 2.19-20). Essa novacriatura nao é acrescentada A velha natureza, mas a repde — ocorre uma substituigdo. A pessoa transformada é com- pletamente nova. Contrastando com 0 antigo amor ao mal, o novo ser — a profunda e verdadeira parte de um cristo — agora ama a lei de Deus, deseja o cumprimento de suas justas reivindicag6es, odeia o pecado e anseia pela libertagio da carne nao redimida em que habita o pecado. O pecado nao mais 0 controla como antes, mas ainda 0 tenta a obedecé-lo em vez de ao Senhor. Conhecendo muito bem o que é a tentago do pecado, Paulo se dirige aos cristaos de Efeso considerando sua nova natureza. Con- trastando 0 estilo de vida do incrédulo iniquo com o estilo de vida do cristao espiritual, ele procurou demonstrar que a natureza trans- formada requer um comportamento transformado. Em Efésios 4.17- 19, Paulo descreve o antigo estilo de vida infquo em que todos vive- mos anteriormente: “Isto, portanto, digo e no Senhaor testifico que nao mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus proprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios A vida de Deus por causa da ignorancia em que vivem, pela dureza do seu coracio, os quais, tendo-se tornado insensiveis, se entrega- 20 O Poder da Integridade tam a dissolugao para, com avidez, cometerem toda sorte de impu- reza”. A palavra “gentios” representa todas as pessoas — impios, nao regenerados e pagiios. Como a igreja dos nossos dias, a igreja de Efeso e de quase todas as Areas fora da Palestina do Novo Tes- tamento era cercada por um paganismo vigoroso e sua conseqiiente imoralidade. Centrado em Cristo Para os crentes que haviam retrocedido a tal degradagao, Paulo escreve: “Mas nao foi assim que aprendestes a Cristo” (Ef 4.20). A frase “que aprendestes a Cristo” é uma referéncia direta a sal- vacao. Qualquer pessoa que professe a Cristo ndo pode mais par- ticipar ou se associar aos caminhos desse mundo. Tiago 4.4 diz: “Infiéis, nao compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus?”; os caminhos de Deus e os caminhos do mundo sao in- compativeis. Qualquer comunhao com o mundo é, de fato, um comprometimento da nossa nova vida. O préprio propésito de se receber Cristo é “salvai-vos desta geragao perversa” (At 2.40), e ninguém é salvo sem se arrepender e ser perdoado dos seus peca- dos. Continuar preso ao pecado é como recusar a Deus, despre- zar sua graga e anular a fé. Uma das primeiras coisas que temos de aprender como cristaos €nao confiar em nossos préprios pensamentos e nao nos estribar- mos em nossos préprios instintos. Agora temos a mente de Cristo (1Co 2.16), e dele é a tinica mente em que podemos descansar. Quando somos fiéis e obedientes ao nosso Senhor, pensaremos como ele, agiremos como ele, o amaremos e nos comportaremos de to- das as maneiras possiveis como ele, e assim, “quer vigiemos, quer durmamos” (1 Ts 5.10), estaremos para sempre com 0 Senhor. Para demonstrar a natureza transformadora da regeneragao, Paulo descreve e define as realidades inerentes 4 nossa nova vida em Cristo. Essas realidades nao sao exortagdes — sao, antes, lem- bretes do que ocorreu no momento da conversio. valor Insuperavel 21 Despojamento do velho Homem Paulo escreve: “No sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as con- cupiscéncias do engano” (Ef 4.22). Em contraste com a pessoa nao regenerada que continuamente resiste e rejeita a Deus, 0 cristao ouve o chamado para “pér de lado o velho eu”. O verbo utilizado ai significa “desvestir-se”, como se retirasse do corpo a roupa velha. O tempo verbal indica que esta é uma ago completa, isto 6, de uma vez para sempre. O“velho eu” se refere aos crentes em seu antigo estado de nao convertidos, que Paulo descreve como corrompido “segundo as concupiscéncias do engano”. O chamado do evangelho é para dei- xar de lado o velho eu por meio do arrependimento do pecado, 0 que inclui nio sé a tristeza pelo pecado, mas 0 tornar-se do pecado para Deus. Revestimento do Novo Eu A medida que deixamos de lado 0 velho eu, 0 substitufmo-lo por algo novo: “e vos renoveis no espirito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiga e retiddo procedentes da verdade” (Ef 4.23,24). Colossenses 3 e Ro- manos 6 caracterizam essa troca como a uniao com Cristo Jesus em sua morte e ressurrei¢gdo, que também poder ser descrita como a morte do “velho eu” que agora anda em “novidade de vida’. Nossa uniao com Cristo e nossa nova identidade demonstram claramente que a salvagao é transformacao. Nossa salvagio significa também que pensaremos de maneira diferente: “vos renoveis no espirito do vosso entendimento”. A me- lhor tradugao desse presente passivo infinitive € como um modifica- dor do verbo principal “revestir”. Isto significa que a renovacaio da nossa mente é dupla: a conseqiiéncia de desvestir-se do velho eu e ocontexto do revestimento do novo eu. 22 O Poder da Integridade Quando vocé se torna um cristao, Deus, inicialmente, renova sua mente e Ihe da uma capacidade espiritual e moral completamen- te nova. Essa renova¢ao continua ao longo da sua vida 4 medida que vocé obedece a vontade de Deus ¢ & sua palavra (cf. Rm 12.1,2). Tal processo nao é atingido de uma s6 vez, mas por um continuo trabalho do Espirito de Deus (Tt 3.5). Seus recursos no processo sao sempre mediante a palavra de Deus e a oragao. Por meio deles vocé adquire a mente de Cristo (C1 3.16). Seu novo eu foi feito “segundo Deus, em justi¢a e retidao pro- cedentes da verdade” (Ef 4.24). Assim, aquilo que antes era trevas é agora iluminado, aprendido em verdade, sensibilizado quanto ao pecado, puro e generoso. Uma vez caracterizado pela inigiiidade € pelo pecado, somos, agora, caracterizados pela “justia e santida- de”. Segundo Pedro, somos “co-participantes da natureza divina” (2Pe 1.4). Cada um de nés tem, agora, um novo ser — um homem interior santo e justo apropriado para viver na presenga de Deus. Este é 0 verdadeiro “eu” do cristao. Comprometer esse novo ser — essa nova criagio — com qual- quer coisa que nao seja Deus, é a maior injustiga que podemos cometer contra Deus. Ele nos salvou, transformou, deu-nos uma nova natureza € renovou nossa mente. Assim, a capacidade de ter uma vida integra é inerente 4 nossa nova natureza. Vocé precisa se apropriar desse elemento fundamental de nossa salvacio antes de ter a esperanga de construir uma vida sem comprometimentos. Uma Nova Rela¢ao Pessoal HA outro aspecto da nossa salvacao, que é igualmente vital: nossa nova relacdo com Jesus Cristo. E 0 relacionamento pessoal que vocé deve valorizar acima de todos os outros, por duas im- portantes razées: a mais intima comunhao possivel com o nosso Senhor e Salvador, e os maravilhosos beneficios que essa comu- nh&o pode trazer. valor Insuperdvel 23 Comunh4o intima Como tratamos antes nesse capitulo, 0 anseio mais valoroso da vida de Paulo era a “sublimidade do conhecimento de Cristo” (Fp 3.8). Conhecer Cristo nao é simplesmente conhecé-lo intelectual- mente; Paulo usa 0 verbo grego ginosko, que significa conhecer “experimentalmente” ou “pessoalmente”. Paulo ensinou aos ef€sios que uma das fungGes da igreja é edificar as pessoas no “conhecimento do Filho de Deus” (Ef 4.13), A pala- vra “conhecimento”, aqui, vem de epignosis, que se refere ao pleno conhecimento, correto e acurado. E desse conhecimento que Jesus falou quando disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conhego, e elas me seguem” (Jo 10.27). Ele no estava falando meramente de conhecer sua identidade, mas de conhecé-la intima- mente, e é dessa maneira que ele quer que seu povo 0 conhega. O desejo de Paulo é que cada crente desenvolva esse profundo co- nhecimento de Cristo, edificando um relacionamento com ele por meio da oragao e do estudo fiel e obediente da palavra de Deus. O comentarista F. B. Meyer apresenta dessa forma 0 nosso relacionamento pessoal com Cristo: Podemos conhecé-lo pessoalmente, intimamente, face a face. Cristo no vive no relato de séculos atrés nem entre as nuvens do céu: Ele esté préximo de nés, conosco, marcando o compas- so da nossa caminhada e 0 nosso descanso, sabedor de todos os nossos caminhos. Nao poderemos, porém, conhecé-lo nessa vida mortal, exceto mediante a iluminagao e 0 ensino do Espirito San- to... e, certamente, precisamos conhecer a Cristo, nao como um estranho que nos visita por uma noite, ou como o exaltado Rei dos homens — deve haver em nés 0 conhecimento interior como o daqueles que ele tem na conta de seus préprios amigos familiares, aos quais ele confia seus segredos, os quais comem de seu pio (SI 41.9). Conhecer Cristo na fiiria da batalha; conhecé-lo no vale das som- bras; conhecé-lo quando a luz do dia resplandece em nossa face, ou quando o dia esta toldado de desapontamentos e tristezas; conhecer a dogura do seu lidar com a cana esmagada e a torcida 24 O Poder da integridade que fumega; conhecer a ternura de sua simpatia e a forga de sua mio direita — tudo isto envolve muita diversidade de experién- cias de nossa parte, mas cada uma delas, como as facetas de um diamante, refletir4, de diferentes Angulos, o espectro da beleza de sua gl6ria. (The Epistle to the Philippians, Grand Rapids, MI: Baker, 1952, 162-163) E isto que significa conhecer a Cristo intimamente. Crescer nes- se conhecimento profundo de Cristo é um processo que dura toda a vida e que nao se completa até que vejamos o Senhor face a face. Uma Unido Benéfica Além da intera¢ao pessoal que temos com Cristo, diversos be- neffcios séio acrescentados aqueles que confiaram em Cristo paraa salvagiio. Justiga de Cristo. Paulo desejou “ser achado nele, nao tendo justiga propria, que procede de lei, sendo a que é mediante a fé em Cristo” (Fp 3.9). Conhecer a Cristo é ter Sua justiga, sua san- tidade e suas virtudes a nds imputadas, que nos faz justos diante de Deus. Durante toda a primeira parte da sua vida, Paulo tentou obter salvacio por meio da estrita observancia da lei. Quando, porém, confrontado pela maravilhosa realidade de Cristo, ele estava pronto para trocar toda sua justiga prépria, valores morais externos, boas obras e rituais religiosos, pela justiga que lhe era garantida pela fé em Jesus Cristo. Paulo estava disposto a perder a veste ténue e desvanecente da sua reputaga, se téio-somente pudesse ganhar a veste espléndida e incorruptivel da justiga de Cristo. Este é 0 maior de todos os beneficios porque assegura nossa permanéncia diante de Deus. 6 0 dom de Deus ao pecador, apropriado pela fé na obra perfeita de Cristo, que satisfaz a justiga de Deus. Poder de Cristo. Conquanto a posse da justiga de Cristo nos livra da puni¢ao pelo pecado, estamos ainda sujeitos ao controle do pecado. Felizmente, temos o poder de Cristo 4 nossa disposig&o Valor Insuperdvel 25 para a vitoria didria sobre o pecado. Se houver alguma dtivida so- bre se seu poder é bastante suficiente, Paulo diz que este é 0 “poder da sua ressurreigao” (Fp. 3.10). A ressurreigao de Cristo demonstrou explicitamente a extensaio de seu poder. Ressuscitando dos mortos, ele expés sua autoridade e controle tanto sobre o mundo fisico quanto sobre o mundo espiri- tual. Esse € 0 tipo de poder que Paulo quis experimentar porque entendeu que era incapaz de, por si mesmo, vencer 0 pecado. Sua justiga prépria nada conseguiu senao a percepgao de sua propria incapacidade de lidar com 0 pecado. O poder da ressurreigao de Cristo trata o pecado de duas for- mas. Primeiro, como jé falamos antes, experimentamos 0 poder da sua ressurreicao na salvagaio. Fomos sepultados com Cristo em sua morte e ressuscitamos com ele para que “andemos nds em novida- de de vida” (Rm 6.4). Para vencer 0 pecado, porém, precisamos ter o recurso do poder dessa ressurrei¢aio. Precisamos da sua forga para servi-lo fielmente, para vencer a tentagao, para sobrepujar pro- vagGes e para testemunhar audaciosamente. Queremos experimen- tar a poténcia de Cristo até esse ponto: Ele “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, con- forme o seu poder que opera em nds” (Ef 3.20). Somente 4 medi- da que edificamos nosso relacionamento com Cristo e experimen- tamos seu poder é que obteremos, nessa vida, a vitoria sobre 0 pecado. E esta € a tinica maneira por meio da qual edificaremos uma vida integra. Comunhdo com Cristo. Embora 0 poder de Cristo seja nosso recurso na batalha que se trava contra o pecado, temos um outro problema: o sofrimento, que é parte inevitdvel da vida. Porque vive- mos em um mundo cheio de pecado e sofrimento, cada um de nés provard um ou outro grau de sofrimento. A questio é: a quem nos voltaremos quando precisarmos de consolagao? Paulo diz que a resposta esté em nosso relacionamento com Cristo, porque nele podemos experimentar “a comunhio dos seus sofrimentos, confor- mando-me [nos] com ele na sua morte” (Fp 3.10). 26 O Poder da Integridade Quando sofremos, Cristo esta conosco para nos confortar em nossa angtistia. Paulo disse aos corintios: “...assim como os sofri- mentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolag&o transborda por meio de Cristo” (2Co 1.5). A forma como ele mesmo jd experimentou o nosso so- frimento, e até mais, é a raz4o pela qual ele esta apto a nos confor- tar. Foi rejeitado por seu povo, desprezado pelos lideres religiosos, sofreu zombaria dos soldados romanos e foi crucificado por todos. Apesar disto, suportou tudo sem pecar. Jamais comprometeu a lei ou o plano de Deus para a salvagao em uma tentativa de minorar seu sofrimento, O verdadeiro teste do seu cardter é sua resposta aos mais dras- ticos momentos de sofrimento e perseguig&o. Quando o sofrimento se torna muito intenso, a coisa mais facil a fazer é irar-se contra Deus e atribuir-lhe culpa. Quando a perseguiciio se torna muito se- vera, a coisa mais facil a fazer é comprometer sua fé. Reagir de qualquer dessas formas é perder a riqueza da intimidade com Cris- to, que estd a sua disposigao. Isto porque os mais profundos mo- mentos de comunhio espiritual com 0 Cristo vivo sdo resultados diretos do sofrimento intenso. O sofrimento sempre nos conduza Cristo, porque nele temos nosso Sumo Sacerdote, que se compa- dece da nossa fraqueza” (Hb 4.15) e que “...naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorter os que so tentados” (Hb 2.18). Vocé precisa considerar seus sofrimentos como oportunidades de ser abengoado por Cristo 4 medida que encontra conforto em sua comunhao, Gl6ria de Cristo. O Ultimo beneficio dessa nova relagao com Cristo ocorreré no futuro. Paulo espera “alcangar a ressurreigo dentre os mortos” (Fp 3.11). Esta é uma referéncia de Paulo ao arrebatamento da igreja, o dia em que Cristo retornaré para o seu povo e todos seremos transformados, e viveremos a experiéncia final da libertagdo da presenga do pecado. Ansiamos por esse dia porque “‘...nossa patria esta nos céus, de onde também aguardamos 0 Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformard o nosso Valor Insuperavel 27 corpo de humilhagao, para ser igual ao corpo da sua gléria, segundo a eficdcia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (Fp 3.20,21). Este é 0 evento pelo qual todos ansiamos. Nesse dia veremos 0 cumprimento da nossa salva¢ao. Até entiio, viveremos nesse mun- do tendo o entendimento especial de que o nosso lar € nos céus. Isto nos ajuda a viver o presente porque “...a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperanga, assim como ele é puro” (1Jo 3.3). O melhor caminho para manter essa integridade e evitar outros comprometimentos é manter os olhos fixos em Cristo. Permitir-lhe livre acesso para govemar e guiar nosso caminho sob as mais seve- ras tempestades do mundo. 2 Integridade Doutrindaria Um antigo ditado diz: “Cada homem tem seu preco”. Ser ver- dade? Sera que todos temos padrées morais validos, contanto que se acomodem aos nossos objetivos pessoais e desejos? Ou estamos dispostos a pdr de lado nossos desejos em fungdo dos padrdes em que professamos crer? A historia da igreja esta cheia de pessoas que se recusaram a comprometer seus padrdes biblicos. Quando enfrentou a Dieta de Worms e the foi ordenado que se retratasse dos seus escritos para nao perder sua vida, Martinho Lutero nao negou a Cristo. Hugh Latimer e Nicholas Ridley, dois reformadores ingleses, foram quei- mados no poste de execugao publica por causa da sua fé em Cristo. Esses homens foram representantes do povo que nao péde ser com- prado; nenhum pre¢o poderia fazé-lo que se vendesse. OPreco do Compromisso A igrejade hoje tem falta de homens que adotem padres que nao possam ser comprometidos, Muitos dos chamados cristaos se orgu- Iham dos seus padrdes morais € se gloriam do seu carter justo, mas abandonam suas conviccGdes quando comprometer-se € mais facil e lucrativo. Talvez vocé reconhega um ou mais dos seguintes exemplos: * Pessoas dizem crer na Biblia, mas freqiientam igrejaem que a Biblia nao é ensinada. * Pessoas concordam que o pecado tem de ser punido, porém nao se esses pecados forem cometidos por criangas. * Pessoas opdem-se & desonestidade e A corrupgio até que sejam confrontados por seus chefes e corram 0 risco de per- der o emprego. 30 O Poder da integridade * Pessoas sustentam altos valores morais até que sua luxtiria seja estimulada por uma relagao antibiblica. * Pessoas so honestas até que uma pequena desonestidade Ihes renda algum dinheiro. * Pessoas mantém uma convicgao até serem desafiadas por al- guém a quem admirem ou temam., Infelizmente, tais comprometimentos nao sao excegGes; tém-se tornado a regra. Nao pense, porém, que os cristdos deste século sejam os tinicos entendidos na arte do comprometimento. A Escri- tura estd repleta de pessoas que se comprometeram, incluindo al- guns servos escolhidos de Deus. + Adio comprometeu a lei de Deus, seguindo o pecado de sua esposa, e perdeu 0 paraiso (Gn 3.6, 22-24). * Abraao comprometeu a verdade, mentindo acerca de sua re- lagdo com Sara, e quase a perdeu (Gn 12.10-12). * Sara comprometeu a palavra de Deus, entregando Agar a Abrao, a qual gerou-lhe Ismael, destruindo a paz no Oriente Médio (Gn 16,1-4,11,12). * Moisés comprometeu a ordem de Deus e perdeu 0 privilégio de entrar na terra prometida (Nm 20.7-12). ¢ Sansdo comprometeu sua dedicag4o ao nazirado e perdeu sua forca, sua visao e sua vida (Jz 16.4-6,16-31). + Israel comprometeu os mandamentos do Senhor, viveu em pecado e, quando fugia dos filisteus, perdeu a Arca da Alian- ¢a (1Sm 4.11). Comprometeu também a lei de Deus com sua idolatria e perdeu sua terra (2Cr 36.14-17). * Saul comprometeu a palavra divina e nao sacrificou os animais de seus inimigos, perdendo seu reino (1Sm 15.3,20-28). * Davi comprometeu os padroes de Deus, cometeu adultério com Bate-Seba, assassinou Urias e perdeu seu filho recém- nascido (2Sm 11.1;12.23). * Salomao comprometeu suas convicges casando com mulheres estrangeiras, perdendo a unidade do seu reino (1Rs 11.1-8). Integridade Doutrinaria a1 + Judas comprometeu sua pretensa devogao a Cristo em troca de trinta pecas de prata, sendo separado de Cristo por todaa eternidade (Mt 26.20-25,47-49;27.1-5; cf. Jo 17.12). + Pedro comprometeu suas conviccées acerca de Cristo, negou o Senhor e perdeu sua alegria (Mc 14.66-72). Mais tarde, comprometeu a verdade a fim de ganhar a aceitacdo dos judaizantes, e perdeu sua liberdade (Gl 2. 11-14). * Ananias e Safira comprometeram sua palavra quanto a sua ofer- ta, mentiram ao Espirito Santo e perderam a vida (At 5.1-11). Duas observacdes vém 4 mente acerca desses exemplos. Pri- meiro, em cada caso 0 efeito do comprometimento foi a perda de algo valioso em troca de alguma coisa temporal e incompleta, algum desejo pecaminoso. Qui diferente € isto daquilo que vimos no pri- meiro capitulo. Ali aprendemos que vocé ganha algo valioso (sua salvacao e seu relacionamento com Cristo) em troca de algo sem valor (seu pecado e sua justiga propria). Segundo, observe o que foi comprometido em cada um desses exemplos: a palavra de Deus, o mandamento de Deus ou a convic- ¢4o em relagao a Deus. Assim, o verdadeiro ponto do comprome- timento é uma rejeigao da palavra de Deus que desenvolve uma rebeliaio contra Deus e promove 0 eu como autoridade final. Esta é a situagaio hoje de muitas igrejas. Mesmo em igrejas que um dia j4 foram evangélicas, em que a Biblia era o padrao divino de fé e pratica, hoje a palavra de Deus esta comprometida. Algumas vezes esta despida do seu significado claro, outras vezes relegada a um lugar secundério. Em muitas igrejas que j pregaram a sa doutri- na, males que Deus, plena e repetidamente condena, sao promovi- dos como aceitaveis. A Escritura é, com freqiiéncia, interpretada para acomodar certas vis6es antibiblicas. O pragmatismo estéem voga; 0 compromisso com a verdade biblica é desprezado como sendo uma fraca estratégia de mercado. O fato é que pessoas estio satisfeitas com nogdes nao-biblicas que aumentam 0 nivel do seu conforto e justificam ou permitem que 32 O Poder da integridade sejam indulgentes quanto ao préprio pecado. Sao rapidas em rejei- tar aqueles que os responsabilizem pelas crengas doutrinarias e pa- drdes morais — que julgam estar fora de moda ¢ ser irrelevantes — acusando-as de falta de amor. A igreja de hoje est4 repleta de meninos espirituais “agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astticia com que induzem ao erro” (Ef 4.14) —a antitese de um cristo espiritualmente maduro. Meni- nos espirituais correm risco constante de cair como presas de cada modismo religioso que surja. Por nao estarem ancorados na verda- de de Deus, ficam sujeitos a toda sorte de falsificagao da verdade —humanista, cultural, paga, demoniaca ou 0 que quer que seja. Tal como muitas familias sao dominadas pelos filhos, assim sao muitas igrejas. Quao tragico é quando crentes imaturos esto entre os pro- fessores e lideres mais influentes da igreja. Proteger a Verdade Onde est4 o problema? Sem diivida, a falta reside, primaria- mente, na lideranga — tanto pastores como lideres leigos, cuja res- ponsabilidade é ensinar, guiar e proteger 0 povo de Deus. Como Paulo advertiu os lideres de Efeso: “Eu sei que, depois da minha partida, entre vés penetraraio lobos vorazes, que nao pouparao o rebanho. E que, dentre v6s mesmos, se levantaro homens falando coisas pervertidas para arrastar os discfpulos atras deles” (At20.29,30). Falsos mestres siio um fato, cabendo a lideranca estar em guarda quanto a eles. HA, entretanto, um sentido em que 0 povo deve compartilhar a culpa. A palavra de Deus esté a disposi¢ao deles também, e eles nao podem seguir cegamente qualquer lideranca. Aqueles que sio edificados e fortalecidos na palavra de Deus sao aptos a discernir a verdade do erro e, assim, tém um dever, para com sua mesma bata- Tha espiritual, de estar certos de que seus lideres preencham os pa- drées da Escritura. Integridade Doutrinéria 33 Todos os crentes devem atuar como guardides da verdade. E como Paulo comentou sobre o privilégio da identidade de Israel: “Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisao? Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos judeus fo- ram confiados os ordculos de Deus” (Rm 3.1,2). O principal dom de Deus para Israel foi sua palavra. A igreja est4 na mesma posi¢Ao, pois foi-Ihe confiada a guarda e a proclamagao da sua verdade. Unidade e Integridade Doutrindria Antes que a igreja possa preencher os padrées de Deus nesse mundo, todos os crentes precisam se comprometer com a integri- dade doutrindria. O apéstolo Paulo afirmou isto ao dizer que um dos papéis do pastor-mestre era o de edificar “...0 corpo de Cristo, até que todos cheguemos a unidade da fé...” (Ef 4.12,13). Pela “fé”, Paulo nao estava se referindo ao ato de crer ou obedecer, mas ao corpo da verdade crista — a doutrina crista. A fé é 0 contetido do evangelho em sua forma mais completa. Muito tem sido feito, em anos recentes, com relagao a necessi- dade de unificar a igreja e, como resultado, temos testemunhado a inclus&o de toda sorte de religides e seitas dentro de circulos evan- gélicos. Esta nao é, porém, a unidade que Deus deseja para a sua igreja. A unidade da fé é impossivel a nao ser que seja edificada sobre 0 alicerce da verdade corporativamente professada. Jesus orou assim: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mun- do. Ea favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade. Nao rogo somente por es- tes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por inter- médio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, 6 Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nds; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17.17-21, énfase acrescenta- da). A unidade s6 é possivel como resultado da santificagio do crente na verdade. A comunhao que negligencia ou desconsidera as 34 O Poder da Integridade doutrinas essenciais da fé nao é unidade crista; é, sim, um compro- metimento fmpio. (Para um conhecimento mais completo desse tema, veja meu livro Reckless Faith, Wheaton, IL: Crossway Books, 1994) A verdade de Deus nao é fragmentada nem dividida contra si mesma. Quando, porém, as pessoas sao, estarao vivendo a parte da verdade de Deus e alheias 4 fé que envolve o conhecimentoe o enten- dimento certos. Somente uma igreja biblicamente equipada, servidora fiel e madura espiritualmente pode conquistar a unidade da fé. Qual- quer outra unidade existiré apenas em nivel humano e estaré sempre separada e em constante conflito com a unidade da fé. A unidade nao pode existir na igreja separada da integridade doutrindria. Guardiées da Verdade Hoje, aigreja existe em um mundo que jé foi predito a Timsteo pelo apéstolo Paulo: “...havera tempo em que nao suportarao a sa doutrina...” (2Tm 4.3). Ao longo da histéria, a igreja verdadeira permanecera fiel 4 verdade entre perseguig6es vindas de fora e do falso ensino vindo de dentro. Recebemos 0 legado dos que vieram antes de nés. Nosso tinico meio de contra-atacar a corrente ten- déncia de comprometimento doutrinario é a renovaciio de esforgos no sentido de guardar, proclamar e conservar a verdade sem adul- terag&o, para a préxima geraco de crentes. Como a igreja de hoje, os crentes efésios do primeiro século enfrentaram a tentagao de comprometer a verdade da palavra de Deus. Efeso era uma cidade ardentemente paga, lugar do templo da deusa Diana (Artemis), uma das sete maravilhas do mundo antigo. Havendo ministrado ali por trés anos, Paulo estava bem c6nscio das presses e tentagdes de comprometimento ou abandono da verdade. Suas car- tas a Timéteo, que servia como pastor da igreja de Efeso, estavam cheias de exortagGes 4 vida, proclamagio e guarda da verdade. Em uma dessas passagens de exortagao, Paulo estabeleceu a visao da igreja com a seguinte imagem: “coluna e baluarte da verda- de” (1Tm 3.15). Paulo emprestou essa imagem dos pilares do tem- Integridade Doutrindria 35 plo de Diana — todos os 127 deles. Assim como esses pilares su- portavam o maci¢o teto do templo, assim a igreja € a coluna eo baluarte que mantém a verdade. Como a fundagio e os pilares do templo de Diana eram testemunho do erro da falsa religiao paga, assim a igreja deve ser um testemunho da verdade de Deus. Esta é amissao da igreja no mundo. Cada igreja tem a solene responsabilidade de guardar firme- mente a verdade da palavra de Deus. A igreja nao inventa a verda- de, e nao a pode alterar sob pena de juizo. Deus confiou a igrejaa guarda da Escritura, e seu dever é manter e salvaguardar a palavra como 0 mais precioso bem na terra. As igrejas que lidam impropria- mente com ela mal representam ou abandonam a verdade biblica, destroem sua tinica raziio de existir e experimentam impoténciae juizo. como Salvaguardar a Verdade Embora seja responsabilidade coletiva de cada igreja manter a palavra, isto nao pode acontecer, a menos que cada crente, indivi- dualmente, se comprometa com esse dever. HA diversas maneiras de se fazer isto. Creia na palavra. Paulo deu o seguinte testemunho diante de Félix, o governador romano da Judéia: “...assim eu sirvo ao Deus de nossos pais,-acreditando em todas as coisas que estejam de acordo coma lei e nos escritos dos profetas...” (At 24.14). Sua crenga na palavra de Deus se estendia ao Novo Testamento. Ele escreveu aos corintios: “Eu cri; por isso, 6 que falei” (2Co 2.13). As muitas exor- tages para se ouvir a palavra de Deus também se referem ao ouvir com f€. Jesus disse: “...quem ouve a minha palavra e cré naquele que me enviou tem a vida eterna, nao entra em juizo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Vocé nfo pode sustentar a palavra se nao ouvir e crernela. Memorize a palavra. O salmista escreveu: “Guardo no cora- gio as tuas palavras, para nao pecar contra ti” (SI 119.11). Nao basta ouvir a palavra — ela precisa estar guardada na mem6ria. 36 O Poder da integridade Somente entao vocé estar, como todos, “sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razao da esperanga que ha em vés” (1Pe 3.15). Medite na palavra. Josué 1.8 diz: “Nao cesses de falar deste livro da lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele estd escrito; entao, fards prosperar 0 teu caminho e serds bem-sucedido”’. O salmista também professou: “Quanto amo a tua lei! Ea minhaimaginagio, todoo dia” (SI 119.97). Estude a palavra. Paulo instou Timéteo: “...procura apresen- tar-te a Deus aprovado, como obreiro que nao tem de que se en- vergonhar, que maneja bema palavra da verdade” (2Tm 2.15). Obedega a palavra. Jesus disse: “...bem-aventurados sao os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11.28) e “Se vés permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus disci- pulos” (Jo 8.31). Pouco bem faz ouvir a palavra, memorizé-la, me- ditar nela e estuda-la, se vocé nao a obedece. Defenda a palavra. Paulo disse aos filipenses que ele havia sido “incumbido da defesa do evangelho” (Fp 1.16). A verdade serd sempre atacada e vocé precisa estar pronto para defendé-la vigorosamente. Por isso é que Judas disse: “...exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entre- gue aos santos” (Jd 3). A palavra grega traduzida por “‘batalhar di- ligentemente” é epagonizo. Inclui a palavra grega agon, da qual temos a palavra agonia. Agon, originalmente, referia-se a um esté- dio. Quando entramos no estddio para enfrentar a luta espiritual, precisamos batalhar pela pureza da fé. Viva a palavra. Paulo lembrou a Tito que os crentes deviam ornar “em todas as coisas, a doutrina de Deus, nosso Salvador” (Tt 2.10). Ter a mente controlada pela palavra de Deus produz bom comportamento (C1 3.16). Proclame a palavra. Em obediéncia 4 ordem do Senhor, de- vemos ir e fazer “discipulos de todas as nagées, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo; ensinando-os a guar- dar todas as coisas que” o Senhor nos tem ensinado (Mt 28. 19,20). Integridade Doutrindria 37 Paulo responsabilizou Timoteo: “...prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer nao, corrige, repreende, exorta com toda a longani- midade e doutrina” (2Tm 4.2). O apéstolo escreveu a Tito que Deus “em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a prega- gio que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador” (Tt 1.3), “Proclamagao” é a palavra traduzida de kerugma, que se re- fere 4 mensagem que um arauto deveria pronunciar em nome do governante ou do conselho a que servia. No Novo Testamento, esse termo (freqtientemente traduzido por “pregacao”) é sempre usado para a proclamacio publica da palavra de Deus, que traz os ho- mens a fé salvadora, edifica-os na verdade divina e fortalece-os para a vida piedosa. Que privilégio temos de preservar a verdade a nds entregue pelo Senhor! Possa cada um de nds ser fiel nesse dever diario e, no processo da manutengio da integridade da palavra de Deus, esta- belecer nossa prépria integridade. Proclamar a Verdade A Esséncia da Proclama¢do A palavra de Deus € um vasto e inexaurivel armazém de verda- de espiritual. De toda essa verdade, o que é mais essencial para a igreja manter e proclamar? Paulo oferece a resposta em 1 Timédteo 3.16: “Evidentemente, grande é 0 mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espirito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na gléria”. A mensagem que proclamamos no é outra senZo Jesus Cristo; ele é 0 4mago de nosso ensinoe pregacao. Ecomum, hoje, ouvir pregadores e mestres evangélicos dize- rem que o simples evangelho biblico nao érelevante para o homem moderno. Dizem que é preciso ser energizado e enfeitado por di- versas adaptagées culturais que o tornem mais atraente e aceitvel. Quanta presungo pensar que um instrumento humano, imperfeito e 38 0 Poder da Integridade pecador, poderia melhorar a mensagem do préprio Deus para tra- zer homens a si. Quando o evangelho é claramente pregado a ho- mem e mulheres pecadores, a certa altura o Espirito Santo regene- rara aqueles a quem Deus escolheu, e eles crerao e entrarao no pleno beneficio da sua eleicao. O apéstolo Paulo sabia que a fé salvadora a que fora chamado apregar jamais poderia ser reproduzida ou enriquecida por sua pr6- pria sabedoria, inteligéncia ou capacidade de persuasao. Ele escre- veu 4 mundana igreja de Corinto: «Mas nds pregamos a Cristo crucificado, esc4ndalo para os judeus, loucura para os gregos; mas para os que foram chama- dos, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus € mais sdbia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens ... Eu, irmaos, quando fui ter convosco, anunci- ando-vos o testemunho de Deus, nao o fiz com ostentagao de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vés, senio a Jesus Cristo e este crucificado. — 1 Corintios 1.23-25; 2.1,2 A simples, mas infinitamente poderosa verdade do evangelho de “Jesus Cristo e este crucificado” jamais falhara em evocar a fé salvadora, no tempo apropriado, em relagdo aqueles que so esco- lhidos por Deus. Anica fonte dessa verdade monumental, a verdadeira mensa- gem sobre Deus, é manifesta na sua palavra (Tt 1.3). Como poderia qualquer pregador ou mestre, que chama a Cristo de Senhor e Sal- vador, proclamar outra coisa que nao a sua Palavra? Qualquer ver- dade que precisamos para o evangelismo é encontrada na palavra de Deus — é a tinica semente que dé a vida eterna (cf. 1Pe 2.1,2). Essas verdades absolutas e outras mais relacionadas a vida espiritu- al sao encontradas nela e em nenhum outro lugar. integridade Doutrindria 39 Lealdade na Lideran¢a Conquanto 0 que se segue seja responsabilidade de todo cris- (do, isto tem especiais derivagdes para aqueles que estéo no minis- tério ou pretendem ser pastores ou presbiteros. A base para um ensino efetivo da palavra de Deus é seu préprio entendimento e obediéncia a essa revelacao. Vocé deve ser, portanto, inabalavel- mente leal 4 Escritura. Paulo escreveu a Tito que ele deveria ser “apegado a palavra fiel, que é segundo a doutrina...” (Tt 1.9). “Apegado” significa que “agarra-se firmemente a alguém ou a alguma coisa”. Assim, vocé deve apegar-se a palavra de Deus com fervente devogao e incansa- vel diligéncia. Em uma palavra, vocé deve amé-la. E sua nutri¢ao espiritual. Vocé deve ser constantemente “alimentado com as pala- vras da fé e da boa doutrina” (1Tm 4.6). Isto envolve compromisso coma autoridade e suficiéncia da palavra de Deus como tinica fonte de verdade espiritual e moral. A lideranga na igreja nao é construida sobre habilidades, educa- ¢40, senso comum ou sabedoria humana naturais do individuo. E crigida sobre o conhecimento e entendimento da Escritura, sua fide- lidade a ela e sua submiss&o ao Espirito Santo na aplicagao das verdades de Deus ao seu coragiio e vida. Um homem que naa esta apegado a palavra de Deus nem decidido a viver por ela nao esta preparado para pregé-la ou ensin4-la. A verdade da palavra preci- su estar entrelacada no tecido do seu pensar e viver. Somente entéo © poder da integridade do lider produz um impacto naqueles aos quais ministra, Os que siio desleais 4 Escritura sao, em alta conta, responsdveis pela pregacao e ensino superficiais e automotivadores em muitas igrejas evangélicas. Essa falha é 0 real culpado pela proclamagao que tem levado tantos a se converterem ao que eles acham relevan- tee, assim, a pregarem um evangelho diluido ou de autogratificagaio. O pastor fiel, entretanto, como disse Esdras, dispora “o cora- gio para buscar a lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar ... 40 O Poder da Integridade Os seus estatutos e os seus juizos” (Ed 7.10). Ele sabe que a Biblia nado é apenas um recurso da verdade, mas a fonte de verdade divina- mente inspirada. Nao é um texto suplementar, mas 0 tinico texto. Suas verdades nao sao opcionais, mas obrigatorias. O propésito do pastor nao é 0 de fazer a Escritura relevante para 0 seu povo, mas capacité- Jo aentender sua doutrina, que se torna a base da sua vida espiritual. Viver a Verdade A vida eficiente nado pode ocorrer sem um entendimento sélido da doutrina crista. Por isso é que, em Tito 1.1, 0 apéstolo Paulo associa o “conhecimento da verdade” coma “piedade”. Mais tarde, na mesma epistola, Paulo diz: “Porquanto a graca de Deus se mani- festou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, rene- gadas a impiedade e as paixdes mundanas, vivamos, no presente s€culo, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.11,12). A verdade e a piedade divinas sao intrinsecamente relaciona- das, Nao importa quao sinceras sejam nossas intengdes, nao pode- mos obedecer a vontade de Deus se nao a conhecermos. Nao po- demos ser piedosos sem sabermos o que Deus aprova e 0 que ele espera daquele que lhe pertence. O comentarista D. Edmond Hiebert escreveu: “H4 uma conexio infinita entre verdade e piedade. Uma posse vital da verdade é inconsistente com a irreveréncia ... A ver- dade real jamais se desvia do caminho da piedade. Uma profissao da verdade, que permite que o individuo tenha uma vida de impie- dade, é iniqua e significa uma profissao de fé falsa”. (Titus and Philemon, Chicago: Moody Press, 1957, 21) Em seu livro Pleasing God, 0 tedlogo R. C. Sproul explica quao vital € a sa doutrinae a vida sa: Precisamos rejeitar a falsa dicotomia entre doutrina e vida. Nao podemos ter si doutrina sem uma vida santificada. E extrema- mente diffcil progredir na santificagdo sem uma doutrina sa. A sa doutrina nao é condigao suficiente para produzir uma vida sa. Ela nao produz automaticamente a vida sa. A si doutrina é uma Integridade Doutrindria 41 condigio necessdria para a santificagao. B um pré-requisito vi- tal. E como o oxigénio para o fogo. A mera presenga do oxigé- nio no garante a presenca do fogo, mas nao se poder produzir fogo sem ele. (Wheaton, IL: Tyndale House, 1988, 217) A construgao de uma vida sem comprometimentos pode so- mente ser conquistada por aqueles que se apegam a palavra de Deus como tinica fonte de autoridade e conduta. No préximo capitulo, examinaremos como vocé pode progredir na santificagao tendo a palavra de Deus como guia. 3 Em Busca da Piedade J.C. Ryle, o conhecido e piedoso bispo e expositor anglicano, na Inglaterra do século XIX, escreveu um livro de notas biograficas sobre 0 ministério de grandes lideres britanicos, tais como George Whitefield, John Wesley e Daniel Rowlands. No infcio da sua com- pilagdo, Ryle apresenta essa visao geral: Eles ensinaram constantemente a insepardvel associag4o entre fé verdadeira e santidade pessoal. Jamais permitiram nem por um momento que afiliagdo a igreja ou profissio de fé fosse pro- va de alguém ser verdadeiro cristo, se este estivesse vivendo impiedosamente. Um cristo verdadeiro, diziam, deve ser sem- pre conhecido por seus frutos, ¢ esses frutos devem ser plena e inconfundivelmente manifestos em todas as relagdes da vida. “Onde nao h frutos, nao ha graga”, era o invariavel tom da sua pregagao. (Christian Leaders of the Eighteenth Century, Edin- burg: Banner of Truth, reedig&o de 1978, 28) Ha uma grande necessidade, em nossos dias, dessa mesma pers- pectiva. Em vez disso, muitos crentes professos de hoje pensam que a manifestagao de frutos é coisa opcional — que nao é um produto necessario e natural da salvagdo genuina. O apéstolo Paulo via isto de forma diferente. Em Romanos 7.4 ele diz: “Assim, meus irmaos, também vés morrestes relativamente a lei, por meio do cor- po de Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, aquele que ressus- citou dentre os mortos, para que frutifiquemos para Deus”. Santidade e frutificagéo espiritual so tio importantes na vida dos crentes que Paulo, freqiientemente, orava em favor dos convertidos para que crescessem em santidade e na maturidade crista. O progresso constante na santificagao é algo crucial. Sem isto a vida de integridade se tora impossivel. Seu desejo de ter uma vida piedosa farda diferenga entre sua suscetibilidade ao pecado e sua capacidade de perseverar. 4a 0 Poder da integridade O Progresso da Santidade Em Filipenses 1.9-11, Paulo ora pelo progresso espiritual do seu povo. Como pastor fiel, ele estava preocupado com que os crentes da igreja de Filipos e de todos os lugares buscassem cinco coisas essenciais da vida justa: amor, exceléncia, integridade, boas obras e a gloria de Deus. A ordem é seqilencial; cada uma dessas qualida- des serve de base e ajuda para a produgao da proxima virtude. Buscar o Amor Paulo orava pedindo que o amor dos filipenses aumentasse “mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepgao” (v. 9). Pode- mos inferir diversas basicas, mas profundas caracterfsticas do amor. Amor divino, Primeiro, sabemos que 0 apéstolo se refere ao amor divino, pois, de outra forma, nao pediria a Deus que lhe provesse e fizesse crescer na vida dos cristios filipenses. A Escritura deixa claro que o amor tem origem em Deus: “...o amor de Deus é derra- mado em nosso coragao pelo Espirito Santo, que nos foi outorgado” (Rm5.5). “Nos amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). Amor de fato. Segundo, o amor de que Paulo fala é um amor de fato (descrito pela palavra latina cujo significado é “na realidade” ou que “existe realmente”). A cada crente é dado o amor de Deus, quando ele é salvo. Paulo deseja que todos os cristéos expressem. mais plenamente o amor que jé tmem si. Amor volitivo, Terceiro, Paulo ora por um tipo de amor volitivo — 0 tipo de amor indicado diretamente pela palavra grega agapé usada em Filipenses 1.9. Agape é a mais alta e nobre expressio de amor mencionado no Novo Testamento. E 0 amor determinado pela vontade e nao-dependente do padrao de amor do mundo, como atrag4o, emogo ou sentimento. Esta é uma rea em que muitos crentes facilmente comprome- tem o padrao de Deus. Seguem, cegamente, a exigéncia do mundo de que uma pessoa que ama sinta de modo positivo em relagio a Em Busca da Piedade 45 pessoa a quem ama. Mas esse amor é baseado em impulso, nao em uma escolha. O amor impulsivo caracteriza o marido que anuncia 4 esposa que planeja divorciar-se. Seu arrazoado é: “Nao posso evi- tar. Estou preso ao amor de outra mulher”. O amor impulsivo é completamente contrario ao amor volitivo de Deus, que é volitivo porque ele esta em seu controle e tem um propésito em mente. Jodo 3.16 nao é uma exposigao da perda de controle da parte de Deus sobre suas emogGes. Ele néo nos ama porque somos tao irresistiveis — nada havia de atraente em nés como pecadores; Deus, sacrificialmente, escolheu nos amar (Jo 15.13). Quando vocé comega a desenvolver uma atitude sacrificial, alcanga ativamente os outros e supre suas necessidades sem fazer distingSes mundanas quanto a seus méritos. Amor dindmico. Todos os crentes devem ter um amor dinami- co. O amor dos filipenses estava j4 crescendo, mas Paulo queria que ele fosse expandido — aumentando “mais e mais” (Fp 1.9).O amor que € parte da genuina vida crista, que € progressivo em san- tidade, seré dinamico em sua ess€ncia. Se estivermos decididos a crescer em maturidade em nossa caminhada com Cristo, jamais es- taremos contentes com um tipo de amor estatico nem com 0 statu quo em qualquer outra fase da nossa vida. E assim que vocé come- gaa edificagio de uma vida de integridade: eleve seu padriio e pare de aceitar 0 statu quo. Nosso Senhor jamais o fez. Ele marcou 0 padrao em relagio ao amor dinamico. Efésios 4.32 diz: “...sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como tam- bém Deus, em Cristo, vos perdoou” (cf. 5.1,2). O tiltimo exemplo desse versiculo é o amor humilde e sacrificial de que Cristo foi modelo para os seus discipulos quando lavou-lhes os pés. Isto deve ser nossa muotivagao para seguir seu modelo de servigo, alargando nosso amor e buscando meios de ministrar uns aos outros (Jo 13.14-17). Amor profundo. O quinto aspecto que Paulo requereu em rela- ¢4o ao amor dos filipenses foi que deveria ser profundo, arraigado no “pleno conhecimento”. O amor que procede de Deus é regulado 46 O Poder da integridade pelo conhecimento da sua palavra, o que significa que sera profun- damente fundado em convicgdes baseadas na verdade. Pedro nos exorta com essas palavras: “Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediéncia a verdade, tendo em vista 0 amor fraternal nao fingido, amai-vos, de coragao, uns aos outros ardentemente” (1Pe 1.22). Quando somos obedientes e controlados pela verdade divi- na, podemos amar em toda a extensao do amor. Amor com discernimento. Finalmente, Paulo ora pedindo que o amor cristo seja caracterizado por “todo discernimento”. Um amor com discernimento tera percepgdo moral e aplicagao pratica do profundo conhecimento a que Paulo se referiu. O amor com discernimento, certamente, nao seguird o adégio popular: “O amor écego”. Antes, ele lutard para discernir 0 certo do errado, 0 verda- deiro do falso, e para fazer a aplicagdo correta da verdade nos momentos prdprios da vida. Aqueles que negligenciam o discernimento, freqiientemente se tornam vitimas do ensino falso, de causas esptirias e de praticas nao escrituristicas dentro e fora da igreja— muitas vezes influenciando com seus erros outras pessoas que tenham recebido um ensino mais fraco. Muito disso poderia ser evitado, se todos os crentes buscas- sem 0 amor que é regulado por um escrutinio cuidadoso e sensivel apego a verdade de Deus, sua palavra. Os que amam com discerni- mento nao somente mantém sua propria integridade, como também protegem a integridade da igreja. Buscar a Exceléncia Todos os crentes que sejam controlados pelo amor divino dese- jarao também buscar e aprovar aquilo que é excelente. Por isso, Paulo prossegue sua oragao pelos filipenses com essas palavras: “..,para aprovardes as coisas excelentes...” (Fp 1.10). A palavra ‘“exceléncia”, aqui usada, vem de uma palavra grega que significa “