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REVISTA LITTERIS – ISSN 1983 7429 Número 4, março de 2010

PARA ALÉM DA ORIGEM DA PALAVRA SAUDADE ( OU ANTROPOLOGIA DE UM


SENTIMENTO COLETIVO)
Leonardo Lucena Pereira Azevedo da Silveira1(PUC-RJ)

Resumo

Embora a palavra saudade seja considerada pelos participantes das culturas de língua
portuguesa como uma particularidade de sua cultura e também pela própria terminologia tanto
popular quanto erudita de Brasil e Portugal, ainda faltam estudos que comprovem ou verifiquem
esta afirmação. O debate sobre a saudade acabou formando dois blocos antagônicos que
defendiam posições estanques da origem da palavra e se esta seria de expressão universal ou uma
característica única e local. Tendo isto em vista, analiso o que seria o deslocamento da questão,
propondo um terceiro olhar para a o problema.

Palavras-Chave

Saudade. Tempo. Antropologia. Literatura portuguesa. Sentimento.

Title: Beyond the origin of the word saudade


Abstract

Although the word saudade is known as unic within the brazilian and portuguese culture
and for the own terminology as popular as erudite in Brazil and Portugual, still need some
studies that prove and verify this afirmitive. The debate about saudade cease forming two
antagonics blocks defending stops positions of the word origin and if saudade is a universal or
local expression. With this in mind, analiso what would be the ―slinding of the question‖
proposing a third wacth to the problem.

Keywords
Saudade. Time. Antropology. Feeling. Portuguese Literature.

1
Mestre em Ciências Sociais pela PUC-Rio.
REVISTA LITTERIS – ISSN 1983 7429 Número 4, março de 2010

Introdução

Não há dúvida que a identidade brasileira — ou o que nos ajuda a dar sentido a nossas
vidas, e que se manifesta tanto na territorialidade (espaço físico) quanto no plano cultural
(espaço virtual), agrega um sem número de características particulares, variando entre dimensões
populares, como o futebol e o carnaval, aos menos famosos como o jogo do bicho e — por que
não? — o churrasquinho de fim de semana. Entre esses pólos do mais óbvio e importante, ao que
é menos notado temos um vasto conjunto de símbolos que comunicam para nós mesmos e,
sobretudo, para os outros, o que é ser brasileiro. A saudade, como proponho neste artigo, figura
como um desses símbolos mais modestos ou implícitos. Não tão falado como o futebol e o
carnaval (de percepção mais visível ou física), mas tão sentido quanto (embora menos visível
sentida na carne e na alma), presente nas juras de amor, de amizade e nas trágicas ocasiões de
perda e de dor.
Embora pouco falada como um dado da identidade brasileira (e isso passa pelo grau de
invisibilidade exposto acima), a saudade é um sentimento crítico para quem vive em nossa
sociedade. Impossível ser brasileiro sem saber e, sobretudo, sem ter sentido saudade. Ademais, a
saudade é um sentimento compartilhado entre os povos colonizados por Portugal, pois é uma
particularidade herdada do fato de serem os portugueses os fundadores ou ―descobridores‖,
dependendo do ponto de vista da análise, do nosso país.
Sabendo da importância do termo saudade para quem é brasileiro e se define enquanto
tal, não poderia ser diferente prorromper entre estudiosos, especialistas e curiosos do assunto,
uma acalorada discussão sobre uma suposta ―verdadeira‖ origem etimológica da palavra. Daqui
em diante esboço essa discussão em um quadro geral para podermos compreender qual a
contribuição da antropologia para este tema.

Debate do termo e deslocamento da questão

A etimologia da palavra saudade gerou grandes controvérsias entre estudiosos


portugueses, sejam lingüistas, filósofos ou apenas eruditos e curiosos sobre a questão. Contraste
marcante com os estudiosos brasileiros que escreveram sobre a saudade, onde a maioria se
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contentou apenas em tangenciar o assunto através de antologias sobre a saudade, com raros
trabalhos tentando explicar sua origem. Mais recentemente, a portuguesa Maria Paula Lamas2
resumiu muito satisfatoriamente as tentativas de definir uma suposta origem para o conceito:

Na realidade, a saudade está intimamente ligada ao povo português, embora não seja
exclusiva deste. No entanto, trata-se de um assunto mais completo do que aparenta à
partida. Devido a este fato, muitas têm sido as definições e contradições, múltiplos os
contextos e respectivas implicações, sem se conseguir um resultado conclusivo (Lamas,
2003: pág.10).

Como dito acima, aqui proponho mostrar as principais discussões sobre este sentimento
tão falado e discutido em Portugal e tão sentido e pouco discutido no Brasil, para situar melhor o
leitor e compreender o que eu denomino deslocamento da questão ou o que realmente importa ao
investigador que tem a saudade como objeto de estudo.

Vejamos as duas correntes mais significativas desse debate que uniu e separou tanto
portugueses e brasileiros num mesmo grupo. Podemos dividi-lo em dois pólos. De um lado,
temos os estudiosos que defendem uma origem árabe da palavra saudade (saudah) ; e, do outro,
os que afirmam ser a saudade originária do latim (solidad). No primeiro caso, figuram o
brasileiro José Antônio Tobias e o português Antônio Borges de Castro, enquanto; no segundo,
temos a conhecida estudiosa portuguesa D. Carolina Michaelis de Vasconcellos3.

Para o brasileiro José Antônio Tobias4 (que infelizmente não leu Joaquim Nabuco — e
vamos saber o porque mais adiante), as palavras de outros países como souvenir (francês),
sehnsucht (alemão), nostalgia (grego) e remembrance (inglês) não traduzem a saudade
portuguesa, pois embora o autor reconheça uma certa universalidade no sentir saudade, ele
afirma que a palavra saudade está revestida de profundidade em todas as suas acepções. O autor
destrincha os termos acima para mostrar a diferença com a saudade. O sehnsucht alemão é preso
só às pessoas; o souvenir francês não se refere somente do amor podendo ser ligado à mais

2
Em seu ensaio “Reflexões sobre a saudade”. Impressão José Fernandes Lda. Lisboa, 2003.
3
Em sua obra ―A Saudade Portuguesa: divagações filosóficas e lítero-históricas em volta de Inês de Castro e do
cantar velho Saudade Minha – Quando te veria?‖.
4
Em seu livro ―A saudade: idéia ou sentimento‖. AM Edições, São Paulo, 1997.
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antipáticas das coisas, a nostalgia grega é somente a falta da pátria e o remembrance inglês é a
lembrança em geral, com ou sem a presença do amor.
J. A. Tobias, embora esteja no grupo dos que acreditam na origem árabe, que ele
classifica de herança possível, nos diz ser a palavra saudah uma melancolia, padecimento
empático, depressão e dor de coração. Atentemos que não é a tradução perfeita da palavra, mas o
autor adverte que nenhum termo começou como saudade, pois tanto o termo quanto o sentimento
não nasceram feitos todos de uma vez, mas aos poucos foram entrando na língua portuguesa, até
conceituar-se no que é hoje. Diz o autor ser a saudade percebida e sentida de forma mais ou
menos intensa de acordo com a região do Brasil. A saudade aparece com mais força no Nordeste
e em lugares como Bahia, Ceará, Minas Gerais, que em outras regiões como Santa Catarina e
Rio Grande do Sul. Para o autor, essa questão se explica na diferença das culturas dos povos que
colonizaram o Brasil, tendo a região sul uma colonização italiana e alemã divorciando-se da
tipicamente portuguesa do Nordeste, onde a palavra saudade não só tem mais força como
também de maneira geral é mais sentida e percebida. Mas esta hipótese me parece sem muita
base, pois a priori, a saudade está presente em todo território nacional e, dizer que uma região
sente mais saudades do que a outra, é algo difícil de se medir, julgar e comprovar.

Manuel Bandeira contribui com esta visão do Nordeste ao dizer em seu poema Evocação
do Recife: ―Atrás da casa ficava a rua da Saudade...‖ Um lugar onde a saudade é mais sentida,
onde aparecem ruas, rios e pontes com seu nome estampado em placas pelo caminho.

Assim, procurando uma definição filosófica, Tobias define a saudade como ―o sentimento
amargosamente gostoso de um amor ausente‖ (Tobias, 1997: pág.28). A saudade aparece ligada
à ausência e ao amor. É uma ausência não só sentida como falta, mas como uma falta gostosa,
embora deixe um gosto amargo. Claro! Pois está ausente! E o amor porque é a ausência de uma
pessoa, coisa, ou acontecimento querido da pessoa que sente saudade. Veremos que esta
definição proposta por Tobias está em consonância com a abordagem sociológica da saudade.

Já o ensaísta português Antônio Borges de Castro 5 preferiu se aprofundar na língua


alemã, ao invés de seu conterrâneo que preferiu analisar quatro línguas distintas, para mostrar

5
Em seu ensaio ―Saudade (ensaio) – Etimologia (árabe); Significação; Antologia‖. Tipografia Nunes, Lisboa, 1985.
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quais palavras seriam necessárias para formar um vocábulo semelhante à saudade na língua
alemã:

Para traduzir ao alemão este termo, além da já conhecida palavra ―sehnsucht‖ (desejo de
ver), precisaria unir ainda dois termo, ―heimweh‖ (desejo de regresso) e ―wehmut‖
(sentimento de dor) (Castro, 1985: pág.12).

Então, para uma tradução da saudade em alemão, seria necessário o amálgama de três
termos, um contraste gritante com os falantes de língua portuguesa que utilizam apenas um
conceito para se referir ao que essa única palavra, a saudade, remete em termos de sentimento.

O mesmo autor defende a origem árabe da palavra ao se opor à origem latina, já que para
ele, a origem latina seria de significado individual. O ensaísta afirma ser a suposta origem do
latim solitate ou solidad, que significam solidão, um erro, já que a saudade se trata de um
sentimento coletivo, ―não é só de <o> que parte que tem saudades é mais de <os> que ficam, são
muitos que sentem a ausência do ente querido‖ (Castro, 1985: pág.15). É através do ditado
português ―Quem parte leva saudades, quem fica saudades tem‖, que o autor corrobora sua
afirmação de ser a saudade um sentimento coletivo, ―pois se é solitário o que parte, não são
solitários os que ficam, e, geralmente, estes sentem mais saudades pelo que vai‖ (Idem). O autor
também enfatiza a presença árabe na península ibérica desde o séc. VIII ao XIV, e que muitas
palavras portuguesas têm comprovadas a origem árabe, entre elas chafariz, enxaqueca, alfazema,
fulano e como ele defende, a saudade com suas variantes: saudoso, saudosismo e saudosista.

Lembremos que Joaquim Nabuco, na conferência Camões: the lyric poet6, diz — com sua
habitual percepção sociológica e cultural — que para se expressar a palavra saudade a alguém de
cultura e pensamento anglo-saxão, seria necessário usar quatros palavras: remembrance, love,
grief e longing. Como se vê, o próprio Nabuco já discordava da simples tradução da palavra por
longing como aparece no dicionário. Para Nabuco, a saudade se apresenta mais do que isso e por
enquanto, embora seu sentimento seja universal entre os povos, pois todo ser humano tem a
capacidade para compreendê-lo e senti-lo, defende ser somente a língua portuguesa capaz de
expressar um sentimento de extrema densidade e conteúdo em apenas uma palavra. Por isso que
6
Conferência realizada no Vassar College, em 1909.
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Nelly de Carvalho7 define ser a saudade uma palavra-síntese. Seja na união de três termos como
notou Castro na língua alemã ou de quatro termos como notou Nabuco na inglesa.
A posição de Joaquim Nabuco nos traz uma outra dimensão da discussão acerca da
origem etimológica da saudade, se ela seria uma expressão particular de uma dada sociedade ou
um sentimento universal entre os homens. Sua fina percepção também me iluminou no que
denomino deslocamento da questão.

Entre os quatro autores citados acima, somente D. Carolina Michaelis de Vasconcellos


defende ser a saudade universal, mas mesmo ela acaba por ceder em sua visão ao dizer que em
Portugal – país de sua análise e preocupação - a saudade ganhou uma conotação singular. Já
Tobias defende a posição de Nabuco:

Cristalizar o sentimento desses múltiplos e diferentes amores numa só palavra (...) é


trabalho de séculos, realizados por uma única gente, as nações de língua portuguesa e
pelo povo da Galiza (Tobias, 1997: pág.39).

Já Castro utiliza uma frase de seu conterrâneo Garret para se unir aos dois anteriores na
visão particularista da saudade.

É porventura o mais doce e delicado termo da língua. A ideia, o sentimento por ela
representado, certo que outros países o sentem; mas que haja vocábulo especial para o
designar, não o é de nenhuma outra língua senão da portuguesa (Castro, 1985: pág.2).

Aqui entramos num paradoxo. Se a saudade é um sentimento universal e ao mesmo


tempo inexistente em nenhuma outra língua, senão a portuguesa, esse sentimento desfruta de
uma palavra tão densa cujo escopo seria esgotar todas as dimensões do seu sentido, como
atentarmos para o fato de que nossos sentimentos só são sentimentos enquanto se têm as palavras
para defini-los? Melhor dizendo, a saudade só é saudade e sentida como saudade por que existe

7
Carvalho, Nelly de. A saudade na língua portuguesa. In: Confluência. Revista do Instituto de Língua Portuguesa,
n31. Rio de Janeiro, 2006.
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essa palavra específica no vocabulário de uma certa nação para que ela possa ser expressa e
sentida.
Na verdade é a palavra saudade que nos conduz a uma consciência do sentimento e não o
sentimento que de alguma forma se descobriu como saudade. A saudade só é possível, porque
existe a categoria saudade para senti-la. Por isso, para nós que temos a saudade como categoria
nativa, não nos soa tão estranha a afirmação de Garret. Sem dúvida que a idéia do vocábulo
saudade é universal, mas só enquanto sentida através da própria saudade. Ao contrário das
línguas mortas, que não possuem mais povos que lhes dão vida, a saudade precisa ser falada e
sentida para existir. Não que o amor ou a amizade seja uma palavra menos sentida, isso seria
correr em erro, mas acredito ser a saudade uma palavra que necessita estar constantemente viva,
pois ela é sentida na carne pela pessoa que a tem. Não tem como se confundir de ter saudade ou
não, como ocorre com o amor. É essa dimensão que estou tentado pôr em evidência. E a única
língua a ter esse conceito em sua estrutura é a portuguesa. Por isso a defesa de sua
particularidade por tantos autores. Vale lembrar que todos esses mesmos autores são de origem
portuguesa ou brasileira, isto que dizer que todos não só falam a língua portuguesa, como
também foram educados desde crianças a pensarem na mesma estrutura lingüística, estrutura
essa que vê e sente a saudade como um bem precioso, uma jóia guardado no peito com carinho e
atenção. Como propus em minha dissertação (Silveira, 2007) um bem e um tempo querido, assim
como o amado.
E aqui entramos no que denomino deslocamento da questão. Enquanto nada se resolvia
entre os dois lados da discussão, para o cientista social que resolvesse estudar a saudade e todo o
campo já construído sobre seu significado, pareceria que o ponto nuclear do debate estava sendo
posto de lado. Ficar perpetuamente numa discussão com posições nitidamente absolutas não
serviria ao cientista social como resposta da questão formulada por ele: onde realmente reside
essa importância da saudade ou, sendo mais direto, por que a saudade gerou esse debate caloroso
entre uma suposta origem mais verdadeira ou se seria um sentimento universal ou particular?
Talvez a saída esteja no que disse o brasileiro Osvaldo Orico8, membro da Academia
Brasileira de Letras, ao salientar a importância da vocação da palavra saudade, que nos faz sentir
o agora, para além de sua suposta origem ―verdadeira‖; se é um sentimento particular de uma
cultura ou de característica universal. Orico define a saudade como palavra viva, como um termo

8
―A saudade Brasileira‖. Editora S/A a Noite, Rio de Janeiro, 1948.
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que dá vida a tudo que está morto. Mas mesmo com esse terceiro olhar ao problema, o autor não
resistiu muito em sua posição ao afirmar ser a saudade um sentimento particular de nossa
cultura:

Nenhuma palavra traduz satisfatoriamente o amálgama de sentimentos que é a saudade.


Seria preciso nos outros países a elaboração de um conceito que também amalgamasse
um mundo de sentimentos em apenas um termo (Orico, 1948: pág12).

Então, dos autores citados acima, embora somente um assuma o lado universalista da
saudade, todos acabam por concordar de alguma forma (seja até em atos falhos) que este
sentimento possui uma forte singularidade nas línguas que o contenha em seu vocabulário.
Se para o cientista social existe um deslocamento da questão, o que realmente importa
neste debate ou qual seria o lado de maior peso, se é que poderia dizer isso, na explicação da
saudade?
O que importa aqui, então, não é se realmente a saudade é única na língua portuguesa,
mas que os falantes dessa língua a definam enquanto tal. A saudade é percebida então como um
valor, um ―bem‖ para as sociedades que compartilham esse mesmo conceito. A importância da
palavra se dá no momento mesmo que ela é evocada, isto é, a carga valorativa que ela tem para a
sociedade brasileira e portuguesa, o que ela significa para os falantes dessa língua – que
transparece no momento de sua evocação. Pois o sentimento só é passível de ser sentido a partir
do conceito que lhe dá a forma.
Como Geertz9 definiu muito satisfatoriamente, o antropólogo não tem que imaginar ou
procurar se o que os nativos pensam é verdadeiro ou tem sentido num mundo objetivado e ―real‖
fora do mundo simbólico e mitológico do nativo. A tarefa é perceber quais os valores que os
nativos possuem e dão ao mundo de acordo com seu próprio aparato simbólico e sua estrutura
social. Para usar a terminologia de Geertz, devemos sempre olhar ―do ponto de vista dos nativos‖
(Geertz, 1997).
No caso em questão, pode ser muito instigante procurar uma raiz única para a palavra
saudade e mais ainda procurar saber ou tentar explicar sofisticamente se a saudade seria um
sentimento universal a todos os homens ou um valor particular de uma dada sociedade. Mas o

9
Geertz, Clifford. ―O Saber Local: novos ensaios em antropologia interpretativa‖. Editora Petrópolis, Rio de
Janeiro, 1997.
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que realmente importa ao antropólogo é saber o que, para a estrutura simbólica dos nativos em
questão, que eles consideram como valor, o que lhes dá sentido a sua existência e permanência
nesse mundo – e, no caso brasileiro, no outro também10!
Se a saudade é considerada um valor inestimável para a definição do ―ser‖ brasileiro, e se
nesse valor está amalgamada a idéia de particularidade do sentimento, é isso que prefigura o
mais importante no olhar antropológico. Esse debate todo só foi e é possível, porque na estrutura
valorativa dos falantes de língua portuguesa a saudade tem seu lugar como um ―bem‖, tempo
querido e desejado, onde sua importância é tal que nenhuma outra sociedade pode ter ou alegar
senti-la como nós a sentimos. Daí as tentativas e aproximações entre outras línguas - mais para
afirmar sua particularidade do que uma suposta universalidade do conceito.
Mais vale lembrar que sendo a saudade entendida como única por aqueles que a
compartilham em sua estrutura lingüística e simbólica, acarretando todos os valores expostos
acima, não quer dizer que seu sentir esteja ―fechado‖ aos membros de outras culturas e povos.
Como tudo que tange ao saber humano, a saudade pode ser ensinada e sentida como qualquer
outra coisa, como qualquer outro valor cultural passível de transmissão. Mas Isso não impediu
que eruditos e especialistas até hoje continuassem na tentativa de encontrar respostas para o
<porquê> da saudade ser tão valorizada nas culturas que compartilham da mesma estrutura
lingüística – distanciando-se assim do terceiro olhar proposto por Orico e caindo no
deslocamento da questão.

10
Para entender o porque desta afirmação ver DaMatta, Roberto. ―A Casa e A Rua – Espaço, Cidadania, Mulher e
Morte no Brasil‖. Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1997.
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Referências Bibliográficas

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LAMAS, Maria Paula. (2003) ―Reflexões sobre a saudade‖. Impressão José Fernandes, Lisboa.

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Texto da Fundação Joaquim Nabuco, acervo digital.
REVISTA LITTERIS – ISSN 1983 7429 Número 4, março de 2010

ORICO, Osvaldo. (1948) ―A Saudade Brasileira‖. Editora S/A A Noite, Rio de Janeiro.

SILVEIRA, Leonardo Lucena Pereira Azevedo da. (2007) ―Em Busca do Tempo Querido: um
estudo antropológico da saudade‖. Dissertação para obtenção do título em Mestre em Ciências
Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Orientador: Roberto Augusto
DaMatta.

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filosóficas e lítero-históricas em volta de Inês de Castro e do cantar velho Saudade Minha –
quando te veria?‖. Edição Renascença Portuguesa, Porto.