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Qualidade na Construção Civil

Antonio Carlos da Fonseca Bragança Pinheiro Marcos Crivelaro

Qualidade na Construção Civil

1ª Edição

Antonio Carlos da Fonseca Bragança Pinheiro Marcos Crivelaro Qualidade na Construção Civil 1ª Edição 1
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Pinheiro, Antonio Carlos da Fonseca Bragança Qualidade na construção civil / Antonio Carlos da Fonseca Bragança Pinheiro, Marcos Crivelaro -- 1. ed. -- São Paulo :

Érica, 2014.

Bibliografia ISBN 978-85-365-0947-1

  • 1. Construção civil 2. Construção civil - Controle da qualidade 3. Construção civil - Materiais 4. Construção civil - Orçamentos

  • 5. Indústria de construção civil - Administração I. Crivelaro, Marcos. II. Título.

14-03959

CDD-690.092

Índices para catálogo sistemático:

1. Construção civil : Mão-de-obra : Qualificação : Tecnologia 690.092

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Coordenação Editorial:

Rosana Arruda da Silva

Aquisições:

Alessandra Borges

Capa:

Maurício S. de França

Edição de Texto:

Beatriz M. Carneiro, Bonie Santos, Silvia Campos

Revisão e Preparação de Texto:

Davi Miranda

Produção Editorial:

Adriana Aguiar Santoro, Dalete Oliveira, Graziele Liborni, Laudemir Marinho dos Santos

Editoração:

Rosana Aparecida Alves dos Santos, Rosemeire Cavalheiro Triall Composição Editorial Ltda.

Produção Digital:

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Qualidade na Construção Civil

Agradecimentos

Ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Te cnologia de São Paulo (IFSP) – autarquia fede- ral de ensino gratuito – que, pelo exercício do magistério, nos permitiu a aquisição de experiência docente e a convivência com alunos do curso técnico de nível médio em Edifi cações.

Ao centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza (CEETEPS), que, por meio das Escolas Técnicas Estaduais (ETEC) Getúlio Vargas, Guaracy Silveira e Martin Luther King e da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP) – instituições paulistas de ensino gratuito –, pos- sibilitou-nos aprimoramento profi ssional mediante a prática docente exercida no ensino tecnológico em cursos de Construção Civil.

Ao corpo docente das instituições citadas, pelo convívio repleto de alegria e troca de conheci- mentos.

Às empresas do setor privado fornecedoras de materiais e prestadoras de serviços, que sempre colaboraram em palestras, minicursos e doações voluntárias.

Às instituições de ensino e pesquisa, que permitiram a obtenção de titulação na graduação e no stricto sensu: Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (EPUSP) e Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen-USP).

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Sobre os autores

Antonio Carlos da Fonseca Bragança Pinheiro é bacharel em Engenharia Civil pela Universida- de Presbiteriana Mackenzie e doutor em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (EPUSP). Na área de construção civil, foi chefe de departamento de projetos, geren- te de engenharia e diretor técnico. Foi professor e diretor da Escola de Engenharia da Universida- de Presbiteriana Mackenzie, diretor de campus, coordenador e docente na área de construção civil do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). É docente da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP), da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul).

Marcos Crivelaro é bacharel em Engenharia Civil pela EPUSP e pós-doutor em Engenharia de Materiais pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de São Paulo (Ipen-USP). Na área de construção civil, foi diretor de engenharia e planejamento de obras residenciais e comerciais de grande porte. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP) e da Faculdade de Informática e Administração Paulista (FIAP). É também pesquisador e orientador no curso de mestrado do Centro Paula Souza.

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Qualidade na Construção Civil

Sumário

Capítulo 1 - História da Qualidade

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  • 1.1 Introdução à qualidade

9

  • 1.2 A qualidade no Brasil

15

Agora é com você!

20

Capítulo 2 - Qualidade nas Edificações do Mundo Antigo

21

  • 2.1 A natureza da qualidade

...............................................................................................................................

21

Qualidade

  • 2.2 no Egito antigo

24

  • 2.3 Qualidade nas dinastias chinesas

28

Qualidade

  • 2.4 no Império Romano

34

Agora é com você!

40

Capítulo 3 - Normas ISO – Evolução e Descrição

41

  • 3.1 Origem e objetivos das normas ISO

41

  • 3.1.1 Crescimento econômico

42

  • 3.1.2 Igualdade social

....................................................................................................................................

43

  • 3.1.3 Integridade ambiental

43

  • 3.2 Família ISO 9000 – qualidade

.....................................................................................................................

43

  • 3.2.1 Origem da família ISO 9000

...............................................................................................................

43

  • 3.2.2 Normas componentes da família NBR ISO 9000

.............................................................................

44

  • 3.2.3 Benefícios da utilização da norma NBR ISO 9001:2008

46

  • 3.2.4 Critérios para normalização de procedimentos

47

  • 3.2.5 Terminologia básica da NBR ISO 9000

48

  • 3.3 ISO 14000 – meio ambiente

.........................................................................................................................

48

  • 3.3.1 Comitê brasileiro de gestão ambiental (ABNT/CB-38)

51

  • 3.3.2 Relação e intenções das normas ISO 14000

......................................................................................

57

  • 3.3.3 Defi nições e diretrizes para uso da NBR ISO 14001

58

  • 3.4 OHSAS 18000 – saúde e segurança do trabalhador

60

Agora é com você!

62

Capítulo 4 - Programas e Políticas da Qualidade na Construção

63

  • 4.1 Histórico da qualidade na construção civil

...............................................................................................

63

  • 4.2 Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade no Habitat (PBQP-H)

65

  • 4.3 Programa da Qualidade da Construção Habitaciona l (QUALIHAB)

..................................................

69

  • 4.3.1 Comitê de Projetos e Obras (CPO)

70 ....................................................................................................

5
5
  • 4.3.2 Comitê de Materiais, Componentes e Sistemas Construtivos (CMCS)

72

  • 4.3.3 Programa de Qualidade de Obras Públicas (QUALIOP)

...............................................................

74

  • 4.4 Programa Mineiro da Qualidade e Produtividade no Habitat (PMQP-H)

75

Agora é com você!

78

Capítulo 5 - Qualidade no Canteiro de Obras

79

  • 5.1 Ações da qualidade em serviços no canteiro de obras

79

  • 5.2 Cadeia produtiva na construção civil

.........................................................................................................

95

  • 5.2.1 Etapas do processo de produção de edifi cações

...............................................................................

96

  • 5.2.2 Agentes envolvidos na cadeia produtiva da construção de edifi cações

97

  • 5.2.3 Setores da cadeia de produção de edifi cações

98

Agora é com você!

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Capítulo 6 - Qualidade no Projeto de Obras de Edificações

101

  • 6.1 A dinâmica em obras de edifi c ações

........................................................................................................

101

  • 6.2 O planejamento da execução de obras de edifi cações

............................................................................

102

  • 6.3 Ferramentas de gestão da qualidade

102 .........................................................................................................

  • 6.3.1 Diagrama de Pareto

102

  • 6.3.2 Diagrama de causa e efeito

103

  • 6.3.3 Fluxograma .........................................................................................................................................

104

  • 6.3.4 Ciclo PDCA

104

  • 6.3.5 Folha de verifi cação

105

Agora é com você!

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Capítulo 7 - Gestão de Resíduos na Construção de Edificações

107

  • 7.1 Impactos ambientais

...................................................................................................................................

107

  • 7.2 Greenhouse Gas Protocol (GHG)

108

  • 7.3 Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil (PGRCC)

109

  • 7.4 Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS)

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  • 7.5 Qualifi cação de fornecedores

115

Agora é com você!

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Bibliografia

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Qualidade na Construção Civil

Apresentação

O livro Qualidade na Construção Civil é de fundamental importância para estudantes e profi s- sionais que desejam realizar o planejamento e apropriar os custos de obras de edifi cações.

No Capítulo 1, História da Qualidade, é realizada uma introdução à qualidade, apresenta a importância da qualidade para as relações comerciais. Logo em seguida, é apresentada a história dos programas da qualidade no Brasil.

O Capítulo 2, Qualidade nas Edifi cações do Mundo Antigo, apresenta a natureza da qualidade e a qualidade no Egito antigo, nas dinastias chinesas e no Império Romano.

No Capítulo 3, Normas ISO - Evolução e Descrição, apresenta a origem e os objetivos das nor- mas ISO. É apresentada a família ISO 9000, sua origem, suas normas componentes, os benefícios de sua utilização, seus critérios para normalização de procedimentos e a terminologia básica. Também, apresenta a NBR ISO 14000 (meio ambiente), o comitê brasileiro de gestão ambiental ABNT/CB 38, a relação e intenções das normas ISO 14000 e as defi nições e diretrizes para uso da NBR ISO 14001. Também é apresentada a OHSAS 18000 (saúde e segurança do trabalhador).

O Capítulo 4, Programas e Políticas da Qualidade na Construção Civil, apresenta o histórico da qualidade na construção civil, o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade no Habitat (PBQP-H), o Programa da Qualidade da Construção Habitacional (QUALIHAB), o Comitê de Projetos e Obras (CPO), o Comitê de Materiais, Componentes e Sistemas Construtivos (CMCS) e o Programa de Qualidade de Obras Públicas (QUALIOP). Também é apresentado o Programa Mineiro da Qualidade e Produtividade no Habitat (PMQO-H).

O Capítulo 5, Qualidade no Canteiro de Obras, apresenta as ações da qualidade em serviços no canteiro de obras e a cadeia produtiva da construção civil.

O Capítulo 6, Qualidade no Projeto de Obras de Edifi cações, apresenta a dinâmica em obras de edifi cações e o planejamento da execução de obras de edifi cações. Também ferramentas de gestão da qualidade: diagrama de Pareto; diagrama de Causa e Efeito; fl uxograma; ciclo PDCA; e folha de verifi cação.

Finalmente, o Capítulo 7, Gestão de Resíduos na Construção de Edifi cações, apresenta os impactos ambientais, o Greenhouse Gas Protocol (GHG), o Programa de Gerenciamento de Resí- duos da Construção Civil (PGRCC) e o Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS). Também a qualifi cação de fornecedores (prestadores de serviço, transportadoras e recebedores de resíduos).

Os autores

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Qualidade na Construção Civil

História da Qualidade

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Para começar Este capítulo tem por objetivo apresentar as origens da qualidade nas atividades do homem,
Para começar
Este capítulo tem por objetivo apresentar as origens da qualidade nas atividades do homem, bem
como defi nir seus conceitos básicos ao longo da história.
1.1 Introdução à qualidade

No início do século XXI, a qualidade pode ser entendida como uma necessidade e uma exi- gência social. A necessidade – como o fornecimento de água potável ou o ar que respiramos, em condições adequadas à saúde do homem – deve ser estendida a toda a população.

O grau de exigência, por sua vez, está focado no consumidor, isto é, devem-se oferecer produ- tos ou serviços que superem as suas expectativas. A qualidade de um produto está diretamente rela- cionada à sua concepção, às necessidades do consumidor e ao preço a ser pago.

Fique de olho! A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabelece que o Estado
Fique de olho!
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabelece que o Estado deve promover, na forma da lei, a
defesa do consumidor.

O conceito sobre qualidade (do latim qualitas) surgiu com o fi lósofo grego Aristóteles (384- 322 a.C.); porém, até os dias de hoje ainda não há consenso sobre o seu signifi cado.

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Os estudiosos da qualidade, importantes especialistas da segunda metade do século XX, serão apresentados na sequência, mas já é possível destacar como alguns eles entendiam esse conceito. A Figura 1.1, por exemplo, apresenta as frases de Deming, Juran, Crosby e Ishikawa.

Deming “melhoria contínua” Juran “próprio para o uso” Crosby “em conformidade com os requisitos” “o mais
Deming
“melhoria contínua”
Juran
“próprio para o uso”
Crosby
“em conformidade com os requisitos”
“o mais econômico, o mais útil e que
Ishikawa
sempre satisfaça o consumidor”

Figura 1.1 - Frases famosas dos “gurus” da qualidade.

Com certeza, você concorda com as frases apresentadas na Figura 1.1. Todas podem ser iden- tifi cadas quando, por exemplo, se compra um aparelho celular. A frase de Deming (“melhoria con- tínua”) demonstra o interesse do consumidor por um aparelho com uma melhor tecnologia, uma câmera de melhor resolução, com utilização de 4G, dentre outros. A frase de Juran (“próprio para o uso”) lembra que não adianta possuir um telefone móvel que não faz nem recebe chamadas. A frase de Crosby (“em conformidade com os requisitos”) estabelece que o celular somente funciona utili- zando determinada faixa de frequências. E por fi m, a frase de Ishikawa (“o mais econômico, o mais útil e que sempre satisfaça o consumidor”) alerta que nem sempre o mais caro e o mais moderno satisfazem o consumidor. Continuando no exemplo do celular, a possibilidade de usar simultanea- mente dois chips de operadoras distintas não está presente nos celulares top de linha.

Em termos gerais, a prática da qualidade deve ser uma fi losofi a organizacional, expressa por meio de ações que focalizem o processo produtivo e que busquem a vantagem competitiva a longo prazo. Mas como conseguir isso? A melhoria contínua, o respeito, a participação e a confi ança de todos os fornecedores, clientes e colaboradores são as atitudes necessárias. O conjunto de processos que determinam a excelência de um produto ou serviço é denominado Gestão para a Qualidade Total (GQT), Gerência da Qualidade Total (GQT) ou Controle de Qualidade Total (CQT). Essas siglas surgiram no período após a Segunda Guerra Mundial. Nessa época era necessário fabricar armas em grande quantidade e que não falhassem perante o confronto com o inimigo.

Entretanto, quando teve início a concepção da qualidade? Como isso aconteceu? Provavel- mente com os primeiros seres humanos, que tinham que caçar (e não ser caçados) para a subsis- tência de suas famílias. Os caçadores mais hábeis e com os melhores instrumentos garantiam a melhor caça. Assim, intrinsecamente eles sabiam o que era qualidade para ter sucesso na caçada e se manter vivos. A Figura 1.2 (a) apresenta a caricatura de dois homens pré-históricos carregando sua caça e (b) apresenta fi guras rupestres marcadas em cavernas rochosas mostrando os hábitos e as práticas de caça.

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Qualidade na Construção Civil

Matthew Cole/Shutterstock.com

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(a)

(b)

Figura 1.2 - (a) Caça sendo carregada e (b) ilustrações pré-históricas em rochas (pinturas rupestres).

Avançando na linha do tempo, nos séculos XVIII e XIX, a qualidade era controlada pelos artesãos, que fabricavam seus artefatos. Eles escolhiam a matéria-prima e realizavam todas as etapas do processo construtivo, bem como a venda de seus produtos. Se durante o processo produtivo ocorressem erros de fabricação, eles mesmos percebiam e corrigiam.

A partir da Revolução Industrial, a necessidade de produção em grande escala ocasionou a troca dos artesãos por mão de obra não especializada auxiliada por máquinas de grande porte, movidas a vapor. James Watt, construtor de instrumentos científi cos, destacou-se pelos melhora- mentos que introduziu no motor a vapor, que se constituíram um passo fundamental para a Revolu- ção Industrial.

A Revolução Industrial foi a transição para novos processos de manufatura (trabalhos com máquinas) no período entre 1760 e 1840. Essa transformação incluiu a fabricação de novos produtos químicos, os novos processos de produção de ferro, a maior efi ciência da energia da água e o uso crescente da energia a vapor. A primeira atividade fabril de mecanização foi a fabricação de tecidos. Teares de grande capacidade produtiva foram desenvolvidos na Europa, Estados Unidos e Japão.

A Figura 1.3 mostra tecelões peruanos confeccionando tapetes e apresenta um selo comemora- tivo com a ilustração representando James Watt e a máquina a vapor.

(a)

(b)

Figura 1.3 - (a) Trabalho manual de artesãos e (b) trabalho mecanizado utilizando vapor.

História da Qualidade

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Stanislaw Tokarski/Shutterstock.com

irisphoto1/Shutterstock.com

O aumento de escala da produção introduziu o chamado controle da qualidade, com o obje- tivo principal de evitar os custos do retrabalho. Inicialmente com foco na inspeção do produto fi nal, o controle da qualidade evoluiu com a adoção da inspeção em diferentes etapas do processo produ- tivo, como o controle estatístico da qualidade, as cartas de controle, dentre outros. Todavia, o con- trole da qualidade tinha ênfase na detecção de defeitos ou falhas. O distanciamento entre quem pro- duzia e quem consumia e a segmentação do controle da qualidade, como consequência da produção seriada, diluíram a responsabilidade pela qualidade e os problemas com a qualidade dos produtos surgiram com maior intensidade.

A produção em grande escala, proporcionada pelas grandes máquinas, precisava de traba- lhadores integrados a esse novo cenário. Esse movimento, conhecido como taylorismo, procurava aliar o máximo de produção e rendimento ao mínimo de tempo e de atividade. Elaborado pelo engenheiro e economista americano Frederick W. Taylor (1856-1915), tal sistema promoveu grande racionalização do trabalho e alta produtividade, por meio do trabalho em série. E a qualidade? Na maioria dos casos, ocorria uma diminuição da qualidade dos produtos.

No início do século XX, o norte-americano Henry Ford fundou a Ford Motor Company e inventou a montagem em série, produzindo grande quantidade de automóveis em menos tempo e a um menor custo. Seu modelo Ford T, lançado em 1908, promoveu uma revolução nos trans- portes e na indústria dos Estados Unidos. Tratava-se de um veículo confi ável, robusto, seguro, simples de dirigir e principalmente barato. Sua fabricação tomou novo rumo em 1913, quando Ford baseou-se nos processos de produção dos revólveres Colt e das máquinas de costura Singer, para criar a linha de montagem e a produção em série, proporcionando outra revolução, dessa vez na indústria automobilística.

A Figura 1.4 apresenta um selo comemorativo com a imagem de Henry Ford com o modelo Ford T ao fundo e uma fotografi a do modelo Ford T.

(a)

(b)

Figura 1.4 - (a) Selo comemorativo com imagem de Henry Ford e (b) modelo Ford T.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a situação de ocorrências de inúmeros defei- tos em produtos militares e bélicos levou muitos estudiosos a buscar soluções científi cas. A publicação,

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Qualidade na Construção Civil

de 1931, intitulada Economic Control of Manufactured Products , do matemático americano W. A. Shewart, revolucionou os princípios da qualidade, porque pela primeira vez a qualidade foi abordada com um caráter científi co, utilizando-se os princípios da prob abilidade e da estatística para inspecio- nar a produção.

No início da Segunda Guerra Mundial (1939), houve uma grande conversão das indústrias para a fabricação de produtos militares com qualidade e dentro dos prazos. O período seguinte ao fi m da Segunda Guerra Mundial (1945) trouxe o controle de processos. Esse tipo de controle engloba toda a produção, desde o projeto até o acabamento. No período pós-guerra, os japoneses decidiram partir para a industrialização, importando recursos naturais (commodities) e exportando produtos manufatu- rados. Seria necessário qualidade, preço e fabricação efi ciente, bem como importar conhecimento. Por isso, em 1950 chegou ao Japão o professor W. Edwards Deming, levando um método de controle esta- tístico do processo. Esta época foi considerada o apogeu do controle estatístico da qualidade. Deming criou uma lista de 14 pontos fundamentais para a implantação da qualidade:

»

1 o princípio: estabeleça constância de propósitos para a melhoria do produto e do serviço, objetivando tornar-se competitivo e manter-se em atividade, bem como criar emprego,

»

2 o princípio: adote a nova fi losofi a. A administração ocidental deve acordar para o desafi o, conscientizar-se de suas responsabilidades,

»

3 o princípio: deixe de depender da inspeção para atingir a qualidade. Elimine a neces- sidade de inspeção em massa, introduzindo a qualidade no produto desde seu primeiro estágio,

»

4 o princípio: cesse a prática de aprovar orçamentos com base no preço. Em vez disso, minimize o custo total. Desenvolva um único fornecedor para cada item, em relaciona- mento de longo prazo fundamentado na lealdade e na confi ança,

»

5 o princípio: melhore constantemente o sistema de produção e de prestação de serviços de modo a melhorar a qualidade e a produtividade e, consequentemente, reduzir de forma sistemática os custos,

»

6 o princípio: institua treinamento no local de trabalho,

»

7 o princípio: institua liderança. O objetivo da chefi a deve ser o de ajudar as pessoas, as máquinas e os dispositivos a executarem um trabalho melhor. A chefi a administrativa está necessitando de uma revisão geral tanto quanto a chefi a dos trabalhadores de produção,

»

8 o princípio: elimine o medo, de forma que todos trabalhem de modo efi caz para empresa,

a

»

9 o princípio: elimine as barreiras entre os departamentos. As pessoas engajadas em pes- quisas, projetos, vendas e produção devem trabalhar em equipe, de modo a prever proble- mas de produção e de utilização do produto ou serviço,

» 10 o princípio: elimine lemas, exortações e metas para a mão de obra que exijam nível zero de falhas e estabeleçam novos níveis produtividade. Tais exortações apenas geram inimi- zades, visto que o grosso das causas da baixa qualidade e da baixa produtividade encon- tra-se no sistema, estando, portanto, fora do alcance dos trabalhadores,

História da Qualidade

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Everett Collection/Shutterstock.com

Sergey Kamshylin/Shutterstock.com

»

11 o princípio: elimine padrões de trabalho (quotas) na linha de produção. Substitua-os pela liderança; elimine o processo de administração por objetivos. Elimine o processo de administração por cifras e por objetivos numéricos. Substitua-os pela administração por processos por meio do exemplo de líderes,

»

12 o princípio: remova as barreiras que privam o operário horista de seu direito de orgu- lhar-se de seu desempenho. A responsabilidade dos chefes deve ser mudada de números absolutos para a qualidade. Remova as barreiras que privam as pessoas da administra- ção e da engenharia de seu direito de orgulhar-se de seu desempenho. Isso signifi ca a abolição da avaliação anual de desempenho ou de mérito, bem como da administração por objetivos,

»

13 o princípio: institua um forte programa de educação e autoaprimoramento,

»

14 o princípio: engaje todos da empresa no processo de realizar a transformação. A trans- formação é da competência de todo mundo (DEMING, 1990).

Em 1954, o engenheiro Joseph M. Juran também foi ao Japão ensinar qualidade e colaborou na criação da JUSE (Japanese Union of Scientists and Engineers) para acompanhar e desenvolver as normas da qualidade.

No fi nal dos anos 1950 e no início dos anos 1960, Kaoru Ishikawa aprendeu os princípios do controle estatístico da qualidade desenvolvido por Deming e Juran. Seu papel-chave ocorreu no desenvolvimento de uma estratégia especifi camente japonesa da qualidade. A característica japonesa é a ampla participação na qualidade, não somente de cima para baixo, dentro da organização, mas igualmente começando e terminando no ciclo de vida de produto. Em conjunto com a JUSE, em 1962, Ishikawa introduziu o conceito de Círculo de Qualidade. Em 1982, criou o Diagrama de Causa e Efeito, também conhecido como Diagrama de Ishikawa, ferramenta poderosa que facilmente pudesse ser usada por não especialistas para analisar e resolver problemas.

A Figura 1.5 apresenta munição utilizada durante a Segunda Guerra Mundial, que foi uma das preocupações do desenvolvimento dos procedimentos da Qualidade e o desembarque de tropas americanas, durante esse mesmo confl ito, em uma ilha do Oceano Pacífi co, ocasião em que a qua- lidade dos armamentos e equipamentos – que estavam molhados – deveria garantir seu funciona- mento ao chegarem a terra fi rme.

(a)

(b)

Figura 1.5 - (a) Munição de guerra e (b) desembarque de soldados.

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Qualidade na Construção Civil

Philip B. Crosby fi cou conhecido, na década de 50, pela frase “A qualidade é grátis”. O livro assim denominado teve tanto sucesso que Crosby estabeleceu a sua própria empresa de consultoria e fundou um colégio para a qualidade, na Flórida. Os dois pilares das suas obras são o “fazer bem à primeira” e a fi losofi a de “zero defeito” (pressupõe que a empresa não parte do princípio de que haverá erros de fabricação).

Novamente motivada por um confl ito, a Guerra da Coreia (década de 1960), a indústria bélica americana se destacou com o programa “zero defeito”, criado por Philip Crosby. Paralelamente, nesse período, no Japão foram desenvolvidos os Círculos de Controle de Qualidade por Kaoru Ishikawa. Nas décadas que seguiram até a virada do século XX para o século XXI, os Estados Unidos e o Japão representavam as maiores potências no processo da qualidade, porém defendiam enfoques estratégi- cos diferentes. Os EUA investiram na visão de mercado e nas necessidades do consumidor; o Japão cresceu investindo na melhoria contínua de seus processos. A década de 1990 marcou o início da utilização das normas ISO 9000 sobre modelo de garantia da qualidade. A versão 2000 da ISO 9000 ampliou sua abordagem e trata agora de Sistema de Gestão da Qualidade (NBR ISO 9001:2000). Isso permitiu formar um único sistema: o Sistema Integrado de Gestão (SIG), que é a gestão integrada de todos os aspectos da qualidade da empresa.

Amplie seus conhecimentos O Código de Defesa do Consumidor – CDC, foi criado pela Assembleia Nacional
Amplie seus conhecimentos
O Código de Defesa do Consumidor – CDC, foi criado pela Assembleia Nacional Constituinte e apresenta a responsabili-
dade por vício do produto e dos serviços, indicando que os vícios de qualidade se dão por inadequação do bem de con-
sumo à sua destinação, sendo eles aparentes ou ocultos.
Para ler mais sobre o CDC, acesse: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078.htm> e <http://www.idec.org.br/
consultas/codigo-de-defesa-do-consumidor>.

1.2 A qualidade no Brasil

A qualidade no Brasil “desembarcou” na década de 80 impulsionada pela indústria automobi- lística e seus famosos controles da qualidade implantados nas montadoras e nos seus fornecedores. Criado na década de 90, o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade (PBQP) valorizava

a consciência do cidadão enquanto consumidor e a sua exigência por qualidade. O setor privado também embarcou “nessa moda”, porque, com a abertura da economia ao mercado internacional, as empresas sentiram a necessidade de garantir sua sobrevivência, sendo de extrema

Philip B. Crosby fi cou conhecido, na década de 50, pela frase “A qualidade é grátis”.

necessidade o aumento da produtividade e da qualidade. Ocorreu inicialmente com a indústria automobilística e poste- riormente se espalhou em empresas de todos os setores, indús- trias de transformação e de construção, comércio, serviços, setor agrícola e inclusive o serviço público.

Cliente é o nome dado a quem compra e Consumidor é a denominação de quem utiliza. Podem ser a mesma pessoa ou pessoas distintas.

A Figura 1.6 apresenta o processo automatizado de soldagem da estrutura do automóvel e uma linha de montagem de uma empresa automobilística.

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Figura 1.6 - (a) Processo robotizado de soldagem e (b) linha de montagem de automóveis.

A qualidade está presente não apenas no setor secundário, a indústria, mas também no setor primário (agricultura) e terciário (comércio). Aliás, nesses setores, o Brasil possui a liderança em vários segmentos de mercado.

O conceito da qualidade evoluiu na agricultura. O conceito antigo da qualidade entende a palavra qualidade como associada a certas manifestações físicas mensuráveis no produto. Por exem- plo: tamanho, peso e aspecto exterior dos produtos hortifrutigranjeiros, percentagem de gordura no leite e produtividade de cereais em kg/ha. O conceito moderno da qualidade entende a palavra qualidade no seu sentido amplo e dinâmico. Por exemplo: em uma fruta, mais importante que seu aspecto ou tamanho serão, por exemplo, a quantidade de resíduos tóxicos que ela possui e as altera- ções da riqueza da vida microbiana do solo, induzidas por aqueles insumos, que acabam se embu- tindo no processo produtivo.

A Figura 1.7 apresenta o ciclo de engarrafamento de um recurso natural, a água. Em (a), a amostra de água é coletada; em (b), a amostra de água é analisada em laboratório; e em (c), a amos- tra de água é engarrafada sem contato manual por meio de um processo industrial.

(a)

(b)

(c)

Figura 1.7 - (a) Coleta da amostra de água, (b) análise laboratorial e (c) engarrafamento.

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Qualidade na Construção Civil

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A agricultura no Brasil é responsável pela maior quantidade de recursos monetários vindos do exterior. Por exemplo, citando o cultivo de tomates: no mundo e no Brasil, são valorizados produtos alimentícios de qualidade e sem agrotóxicos (plantio orgânico). A Figura 1.8 apresenta uma estufa de cultivo de tomate; um funcionário colhendo tomates; caixas de madeira que danifi cam a superfí- cie do tomate e uma caixa de plástico para armazenamento mais adequado.

(a)

(b)

(c)

(d)

Figura 1.8 - (a) Plantio, (b) colheita, (c) armazenamento em caixa de madeira e (d) armazenamento em caixa de plástico.

Esse exemplo demonstra que a qualidade deve estar presente em todas as etapas do processo. De nada adianta ser cuidadoso na escolha da semente, no cultivo e na colheita e depois descuidar-se nas etapas de armazenamento e transporte. E perceba que a solução adotada foi simples, sem encare- cer demasiadamente o preço do produto fi nal.

História da Qualidade

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Em 1991, a Fundação Prêmio Nacional da Qualidade (FPNQ) foi criada e, a partir do estudo de vários modelos de prêmios de excelência, defi niu e passou a conceder anualmente o Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ). Em 2005, a FPNQ tornou-se a Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), cuja missão é propagar os fundamentos da excelência em gestão para o aumento da competi- tividade das organizações e do Brasil.

As empresas que implantaram qualidade apresentaram três conceitos básicos para detectar defeitos e oportunidades de melhorias:

»

a informação interna e em relação aos concorrentes;

»

a redução do tempo de ciclos e processos;

»

o acompanhamento e a documentação de tarefas e processos.

A prestação de serviço apresenta como característica um contato próximo ao consumidor. De nada adianta o produto ser de qualidade e a sua exposição à venda não seduzir o cliente. Deve ser percebido pelo cliente itens como limpeza, organização e atendimento adequado, com gentileza e fornecimento de informações sobre o produto.

As pessoas costumam acreditar que a qualidade está relacionada ao produto fi nal. No entanto, na realidade a qualidade deve ser mantida em cada etapa do processo de execução de um serviço, pois em muitos casos, um material de péssima qualidade pode ocasionar sérios problemas ao con- sumidor e grandes prejuízos na vida do trabalhador. Por isso, é extremamente importante manter a qualidade presente no fl uxo de todos os procedimentos.

A Figura 1.9 apresenta a preocupação com a qualidade de carnes expostas em um supermer- cado e apresenta a preocupação com a qualidade de pães frescos recém-saídos do forno.

(a)

(b)

Figura 1.9 - (a) Exposição de carnes refrigeradas (venda de carnes) e (b) prateleira repleta de pães de forma (venda de pães).

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Qualidade na Construção Civil

A implantação de um sistema da qualidade total leva tempo, porque revoluciona o conheci- mento até as bases do nível organizacional, como a educação constante, a permissão para a parti- cipação e a criatividade, bem como a valorização do ser humano pela política do crescimento e da qualidade de vida. Desse modo, estabelecer o sistema da qualidade não signifi ca aumentar ou redu- zir a qualidade dos serviços ou produtos, mas aumentar ou reduzir a certeza de que os requisitos e as atividades especifi cados sejam cumpridos. Os avanços nas tecnologias de informática, transportes e comunicação aumentaram ainda mais a velocidade das mudanças e transformaram o diferencial competitivo, que passa a ser a rapidez e a competência da empresa em aprender, interagir e respon- der ao mercado.

Amplie seus conhecimentos A qualidade é um conceito dinâmico e estratégico para as empresas e sociedades.
Amplie seus conhecimentos
A qualidade é um conceito dinâmico e estratégico para as empresas e sociedades. A qualidade de um produto está dire-
tamente relacionada com a percepção das pessoas envolvidas. Isso ocorre desde a sua concepção na fase de projeto, sua
elaboração na etapa de produção, seu nível de desempenho quando de sua utilização como produto final e seu descarte
no pós-utilização.
Leia mais sobre qualidade em: <http://www.qualidadebrasil.com.br/.>
Vamos recapitular? Neste capítulo foi visto como se deu a origem do conceito de qualidade nas
Vamos recapitular?
Neste capítulo foi visto como se deu a origem do conceito de qualidade nas atividades do homem,
bem como foram defi nidos seus conceitos básicos ao longo da História. A preocupação com a quali-
dade sempre foi relacionada à sobrevivência do homem, particularmente em situação de guerra, ou em
ambientes mercadológicos.

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Agora é com você! 1) 2) Quem apresentou pela primeira vez o conceito da qualidade? Quando
Agora é com você!
1)
2)
Quem apresentou pela primeira vez o conceito da qualidade?
Quando foi criado o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade (PBQP)?
3)
O professor W. Edwards Deming criou um método de controle estatístico da quali-
dade de processos. Ele criou uma lista de 14 pontos fundamentais para a implantação
da qualidade. Cite cinco pontos fundamentais dessa teoria.
4)
5)
6)
Cite os três conceitos básicos para detectar defeitos e oportunidades de melhorias
que as empresas que implantaram qualidade apresentaram.
Quais são as diferenças entre a qualidade do setor secundário e terciário?
Como a qualidade de produtos interfere na produtividade de serviços?
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Para começar Este capítulo tem por objetivo apresentar como os parâmetros da qualidade eram observados pelos
Para começar
Este capítulo tem por objetivo apresentar como os parâmetros da qualidade eram observados
pelos principais povos do mundo antigo.
2.1 A natureza da qualidade

O homem, desde os seus primórdios, tem percepção sobre o que é qualidade. Para sobreviver, quando extraía da natureza alimentos, ele já se preocupava com a qualidade. A adoção de práticas agrícolas permitiu cuidar da qualidade daquilo que plantava e colhia. A preocupação com a segurança também estava presente na qualidade das pedras selecionadas para a fabricação de armas e ferramen- tas. Lascas afi adas de pedras vulcânicas (mais macias) serviam para cortar carne e retirar polpa de plantas conforme observa-se na Figura 2.1.

Diversos tipos de ossos, pedaços de madeira e de pedras foram característicos da presença humana na Era Paleolítica. Eles eram fabricados por meio do manuseio de grandes pedras de maneira a lhes dar forma adequada para cortar, raspar ou furar. E quais foram os principais instru- mentos fabricados? Pontas de fl echa, machados de mão e mais tarde agulhas de osso, arcos e fl echas.

Os ancestrais humanos também se interessaram por manifestações artísticas, por exemplo, com a confecção de pinturas. Desenhos e sinais eram as representações gráfi cas que compunham a arte rupestre presente em paredes de cavernas pelos homens da Pré-História.

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Figura 2.1 - Ferramentas e armas feitas de pedra.

As principais “ferramentas” utilizadas para a execução das pinturas rupestres eram os dedos das mãos e, na sequência evolutiva, apareceram os pincéis rudimentares de penas ou de madeira. A matéria-prima utilizada para obter uma grande variedade de cores eram o carbono e as rochas em pó, com destaque para o óxido de ferro, do qual se obtinha a coloração vermelha-alaranjada. A fi xa- ção nas paredes de rocha ocorria por conta da diluição em substâncias gordurosas ou seivas vegetais.

Figura 2.2 - Pintura rupestre com desenhos em vermelho.

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Qualidade na Construção Civil

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A grandiosidade das grandes obras da Antiguidade ocorreu principalmente pela grande capa- cidade de organizar milhares de trabalhadores em at ividades organizadas. Por isso é possível afi r- mar que o Controle de Processo foi mais relevante que o Controle Estatístico da Qualidade. Exem- plos dessa afi rmação são as construções das pirâmides do Egito Antigo, das obras arquitetônicas da Grécia Antiga, a construção naval de Veneza no século XVI e a organização militar dos persas.

Os métodos utilizados para conduzir exércitos de trabalhadores baseavam-se na obediência às normas e nos procedimentos relativos às sequências construtivas.

O artesão, desde que começou a fabricar produtos para o seu próprio uso e para a venda, contro- lava todo o processo de artesanato: concepção, projeto, escolha da matéria-prima, fabricação, controle da qualidade e comercialização. Ele praticava o que hoje se pretende implantar – o autocontrole.

A proximidade entre o produtor e o consumidor permitia um retorno imediato de informação sobre o desempenho do produto. Isso permitia que o artesão soubesse rapidamente quais eram as necessidades, expectativas e os desejos de seus consumidores, sem a necessidade de procedimentos administrativos ou a existência de intermediários. E, da parte dos consumidores, estes, conhecendo as aptidões e as limitações do artesão, criavam uma expectativa mais próxima em relação à qualidade do produto e da prestação de serviço que estavam prestes a receber.

A Figura 2.3 apresenta um artefato de vidro sendo fabricado em forno artesanal na cidade de Murano, Itália.

Figura 2.3 - Artefato de vidro sendo produzido por método artesanal.

Qualidade nas Edificações do Mundo Antigo

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2.2 Qualidade no Egito antigo

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Os egípcios desejavam eternizar reinados porque a religião existente na época tinha como dogma a vida após a morte. A arte e a arquitetura tinham um papel fundamental para a existência perene do nome e dos feitos realizados pelos faraós egípcios. Até os dias atuais, muitos turistas visi- tam as diversas pirâmides, esculturas, painéis com hieróglifos e pinturas. As técnicas construtivas utilizadas das pirâmides e suas câmaras secretas intrigam até os estudiosos no assunto e motivam roteiristas de fi lmes a ambientarem suas gravações no Egito.

A Figura 2.4 apresenta um mapa do Egito Antigo. É possível perceber a importância do rio Nilo na evolução do império egípcio. Atualmente muitas regiões do planeta ainda sofrem com as cheias de grandes rios, mas sabemos da importância desse fenômeno. E os egípcios também conheciam os dois principais aspectos positivos da cheia cíclica de um grande rio: a oferta de água e a adubação natural de grandes faixas de terra em razão dos nutrientes trazidos pela cheia. Por isso, às margens do Nilo foram construídos diques e reservatórios, a fi m de reter as águas que seriam utilizadas.

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Figura 2.4 - Mapa do Egito Antigo.

Qualidade na Construção Civil

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Esse “domínio” sobre o rio Nilo auxiliou na evolução da cultura egípcia porque conseguiam ter água disponível em época de estiagem e também tinham anualmente áreas desérticas aptas para o cultivo de lavouras. A regularidade no fornecimento de alimentos permitiu abastecer a população e os soldados que constituíam o exército, responsável por muitas conquistas.

As pirâmides, construções destinadas aos faraós, tinham base quadrangular. Esses monumen- tos ganhavam altura com a sobreposição em camadas de pedras que pesavam de 15 a 25 toneladas e mediam de 10 a 15 metros de largura, além de serem admiravelmente lapidadas. A pirâmide em degraus do faraó Zoser é a mais antiga criação em pedra talhada existente no mundo, sendo conside- rada o berço da arquitetura. Essa pirâmide em degraus foi o primeiro arranha-céu da história, com 60,96 metros de altura.

Muitos dos feitos antigos chegaram até os nossos dias porque causaram enorme impacto na cultura local da época. Imhotep, o arquiteto-chefe das obras do Faraó Zoser, da Terceira Dinastia, eternizou sua marca em virtude da construção da primeira pirâmide egípcia, construída em forma de degraus. Ele conseguiu projetar um sistema de normas para extração, corte e polimento de pedras que, mesmo fabricadas a longa distância do loca l da montagem, eram cortadas com precisão, nume- radas e identifi cadas de acordo com o local da montagem.

Antes da pirâmide de Zoser, os faraós eram enterrados em mastabas (palavra árabe que signi- fi ca “banco de pedra”). Tratava-se de túmulos construídos com pedra ou tijolos, submetidos à expo- sição solar (o que permitia o enrijecimento e um sequente corte mais preciso). Apresentavam formas de pirâmide truncada e dimensões de, em média, 30 metros de comprimento, 15 metros de largura e 6 metros de altura.

A Figura 2.5 apresenta a pirâmide de Zoser, datada de 2650 a.C. Atualmente ela não apresenta o revestimento original de pedra calcária branca polida.

Figura 2.5 - Pirâmide de Zoser.

Qualidade nas Edificações do Mundo Antigo

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São três as Pirâmides de Gizé, por ordem decrescente de tamanho: a Grande Pirâmide de Gizé (também conhecida como Grande Pirâmide, Pirâmide de Quéops ou Khufu), a Pirâmide de Quéfren (ou Chephren) e as Pirâmides de Miquerinos (ou Menkaure). Ao lado leste desse complexo, vê-se a Grande Esfi nge.

A maior delas, Pirâmide de Quéops (147 metros de altura), é também a mais antiga e a mais bem construída. É formada por blocos encaixados com precisão micrométrica, cada um com peso de duas toneladas e meia. Foi necessária a força de trabalho de aproximadamente 100 mil homens livres durante 20 anos, segundo estimativas. Até 1900, ano da construção da Torre Eiff el, detinha o posto de mais alta estrutura feita pelo homem.

À distância, a pirâmide dava a impressão de ser entalhada em uma única rocha, tal era a pre- cisão da fabricação dos blocos de pedra calcária. É bem provável que os pesados blocos fossem colo- cados sobre trenós de madeira e arrastados sobre uma longa rampa. À medida que a pirâmide se tornava mais alta, a rampa fi cava mais longa a fi m de manter o mesmo nível de inclinação. Já outra teoria diz que uma rampa envolvia a pirâmide como uma escada em espiral.

Como a luz do sol era refl etida pela pedra calcária, a pirâmide se tornava visível a uma grande distância. Mas o fato mais curioso é que os quatro lados da Pirâmide de Quéops apontam, com pre- cisão, os quatro pontos cardeais da bússola: Norte, Sul, Leste e Oeste.

A Figura 2.6 apresenta o complexo de pirâmides de Gizé, o detalhe da montagem dos blocos de pedra da pirâmide de Quéops e o detalhe do tamanho dos blocos de pedra perante a dimensão das pessoas.

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Figura 2.6 - Pirâmides de Gizé.

Qualidade na Construção Civil

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Figura 2.6 - Pirâmides de Gizé (continuação).

Em um sistema construtivo, mesmo de civilizações antigas, além de um excelente projeto e um atuante gestor que organize as atividades da obra, são necessários alguns cuidados no aspecto técnico. Diversas pirâmides, obras e construções ocorrendo de maneira simultânea exigiram a ado- ção de um padrão de medida para concretizar corretamente as orientações presentes nos projetos. O faraó Khufu criou o primeiro padrão de medida no Egito, um padrão de granito preto, chamado de “cúbito real egípcio”. Como foi obtido o comprimento de 524 mm que se subdividia em 28 partes? Foi adotado o comprimento da distância do cotovelo até a ponta do dedo médio do faraó Khufu. O faraó também percebeu a importância da disseminação desse padrão em todas as suas obras. Por isso, os trabalhadores detinham nos locais de trabalho cópias desse padrão, em pedra ou madeira, cuja manutenção era da responsabilidade do arquiteto real.

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A Figura 2.7 apresenta o esquema do cúbito real egípcio e a máscara mortuária de um faraó.

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Figura 2.7 - (a) Medida-padrão e (b) máscara mortuária de um faraó mostrando o antebraço.

O que muitos historiadores chamam de milagres ou mistérios nas grandes construções egíp- cias pode ser traduzido por:

»

adoção de sistemas construtivos inovadores;

»

planejamento detalhado do sistema de construção;

»

atendimento às normas de qualidade estabelecidas;

»

implantação de novos materiais;

»

controle rígido de processos.

2.3 Qualidade nas dinastias chinesas

A China é uma das mais antigas nações a ter desenvolvido uma civilização. O sucesso obtido pelas dinastias da China, desde a primeira – Dinastia Xia (século XXI a.C.) até a destruição da Dinastia Qing (1911) – pode ser atribuído a um sistema político rígido que atuou no controle do país, auxiliando a instalação de práticas gerenciais sólidas e uniformes. Por exemplo, a Dinastia de Zhou (séc. XI a.C.–séc. VIII a.C.) estabeleceu um sistema composto de um número específi co de organizações gerenciadas por ofi ciais.

Essas organizações foram divididas em grandes departamentos de acordo com as funções por elas desempenhadas:

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»

coleta, processamento, armazenamento e distribuição de matéria-prima e materiais semiacabados;

»

manufatura de produtos;

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armazenamento e distribuição de produtos;

»

elaboração de normas para qualidade e produtividade;

»

inspeção e ensaios regidos por normas.

A Figura 2.8 apresenta o mapa da China Antiga. O império chinês manteve, de maneira cen- tralizada e documentada, a tecnologia construtiva de templos, edifi cações e muralhas.

Figura 2.8 - Mapa da China Antiga.

Há um velho provérbio chinês que diz: “O povo chinês tem uma mente histórica”, ou seja, o passado é considerado um fator crucial para o entendimento da mentalidade chinesa. Durante o período da dinastia Zhou, muitos avanços importantes foram conseguidos, como:

»

surgimento de grandes fi lósofos, como Confúcio (nome latino do pensador chinês Kung- -Fu-Tze), a fi gura histórica mais conhecida na China;

»

formação de um sistema de comércio sólido, que utilizava dinheiro em vez da prática do escambo, ou seja, troca de mercadorias como meio de pagamento;

»

proibição da venda de utensílios e matérias-primas cujas dimensões ou qualidade não atendessem às exigências das normas.

Qualidade nas Edificações do Mundo Antigo

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Nessa mesma época existia um sistema de medição de comprimento, volume e massa com a utilização de instrumentos-padrão para tais medições. A exigência no sistema de qualidade era tamanha que eram obrigatórias, duas vezes por ano, a aferição e a calibração de instrumentos, que só podiam ser usados após a fixação do selo de calibração.

A Figura 2.9 apresenta artefatos cerâmicos fabricados na China, sujeitos ao controle de quali- dade da época.

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(a) (b) yienkeat/Shutterstock.com
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Figura 2.9 - (a) Prato e (b) jarros cerâmicos chineses.

Atualmente os carros de luxo têm em seu motor, por exemplo, a inscrição do nome do enge- nheiro que o fabricou. Na China Antiga, durante a Dinastia Tang (618 d.C.–907 d.C.), a venda de armamentos de guerra somente ocorria se seguisse padrões estipulados pelos governantes e se eles tivessem o nome dos trabalhadores inseridos na própria peça. As punições nessa época não eram multas, mas castigos físicos.

Já na Dinastia Ming (1368 d.C.–1644 d.C.), as punições tinham foco nos artigos e utensílios de baixa qualidade (produtos descartáveis) e para aqueles que tecessem seda abaixo das especificações. A Figura 2.10 apresenta armamentos de guerra e roupa feita de seda.

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A Muralha da China, também chamada de “Grande Muralha”, foi formada por diversas mura- lhas construídas no decorrer de várias dinastias chinesas, iniciando-se a construção em 220 a.C. e concluindo-se no século XV, durante a Dinastia Ming, um total de quase 2 mil anos.

A fi m de se proteger de invasões dos povos ao norte, os chineses começaram a erguer muros, o que ocorreu antes da unifi cação do império. Com a unifi cação dos sete reinos em um país, o impera- dor Qin Shihuang (259–210 a.C.), da Dinastia Chin, procedeu à unifi cação da muralha, com o apro- veitamento de outras fortifi cações existentes. Medindo cerca de 3.000 km de extensão naquela época, foi gradativamente ampliada nas dinastias seguintes. Diversos segmentos desta obra foram construí- dos com tijolos, tendo-se alcançado um alto nível de tecnologia.

(a)

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Figura 2.10 - (a) Cavaleiro com armamentos e (b) bailarina com fantasia em seda.

Houve uma reconstrução durante os séculos XV e XIX, concluída com 2.400 km que cru- zam parte do país de leste a oeste, atravessando planícies e montanhas. Sua parte mais estreita tem 40 cm de espessura e a mais larga mede 6 metros, com altura de 7 metros. Em toda a sua história, a muralha só foi medida em 1700, por ordem do imperador Kangxi, (quando se contaram aproxima- damente 8.000 km) e em 2006 (ocasião em que foram registrados 21.196,18 km).

Como a muralha foi construída com materiais disponíveis em cada região, ela conta com par- tes feitas de pedra e outras revestidas de tijolos. As construções realizadas tinham garantia de um ano; caso houvesse danos durante esse período, eram aplicadas punições aos ofi ciais e artesãos res- ponsáveis pelo trabalho, sendo refeito o trabalho sem qualquer ônus para o Estado. A Figura 2.11 apresenta trecho superior da Muralha e perfi l da Muralha.

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Figura 2.11 - (a) Trecho superior da Muralha da China e (b) perfi l da Muralha.

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Madeira e tijolo são perecíveis e os chineses cuidaram muito pouco de seus monumentos, ao contrário dos japoneses. Tudo o que caía em ruínas era frequentemente abandonado, até que fosse necessário e fi nanceiramente possível construir uma edifi cação com nova planta. Assim, foram raras as obras de tempos antigos mantidas nos dias atuais.

A estrutura de madeira dessas construções conheceu progresso durante a Dinastia Ming; houve amadurecimento das artes decorativas e foram utilizados tijolos para a construção de casas populares.

A Figura 2.12 apresenta uma edifi cação pertencente à China antiga.

Figura 2.12 - Edifi cação chinesa antiga.

A pedra é um dos materiais antigos mais utilizados. As técnicas de sua obtenção e de sua uti- lização eram conhecidas pelas civilizações antigas. Ro chas coloridas e de texturas exclusivas eram consideradas como material nobre. A sua utilização ocorria em partes ou em todos os templos, monumentos e obras de arte. O mármore era muito cobiçado pelos imperadores em arcadas de jane- las, por exemplo.

Existiam artesãos com grande habilidade na confecção de esculturas que eram anexadas às edifi cações e aos monumentos. A Figura 2.13 apresenta a imagem de um dragão esculpido em rocha.

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Figura 2.13 - Dragão esculpido em rocha.

A Dinastia Sui (581 d.C.–618 d.C.) cravou a sua marca da história chinesa com a construção da Cidade de Shang-Na, construída com a utilização de cerca de 2 milhões de trabalhadores civis. Além de sua beleza arquitetônica diferenciada, a extensão de uma área de 84 quilômetros quadrados é um destaque. A inovação urbanística residia nas grandes avenidas na direções norte-sul e leste- -oeste, com formação de grandes quadras divididas por 108 alamedas.

A ligação do povo chinês com a natureza se materializou com a construção de rios e canais. Além da prática de pesca artesanal em grande esca la, esses sistemas aquaviários eram utilizados nos sistemas de abastecimento de água potável, nos sistemas de drenagem e como vias de transporte.

A rápida construção perante os padrões existentes (nove meses) somente foi possível graças ao extraordinário planejamento. Outros fatores que também podem ser atribuídos a esse sucesso são:

Jun Mu/Shutterstock.com Figura 2.13 - Dragão esculpido em rocha. A Dinastia Sui (581 d.C.–618 d.C.) cravou

»

detalhamento do projeto (uso de escala 1:100 nos projetos);

»

controle rígido da qualidade da construção;

»

gestão detalhada as atividades.

A qualidade era uma preocupação dos governantes de grandes impérios da Anti- guidade, sendo colocada em prática por meio de decretos governamentais.

2.4 Qualidade no Império Romano

Os romanos utilizaram os conhecimentos arquitetônicos desenvolvidos pelos gregos para cobrir os diversos campos da engenharia civil. A Figura 2.14 apresenta o mapa da expansão do Império Romano. Muitas tecnologias construtivas e controles da qualidade foram adquiridos em cada uma das nações conquistadas.

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Qualidade na Construção Civil

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Figura 2.14 - Mapa da expansão do Império Romano.

O Panteão romano é o principal prédio romano e o único edifício da Antiguidade Clássica que se encontra em perfeito estado de conservação. Esse é apenas um exemplo das grandes construções romanas que demandaram um grande volume de mão de obra (sem qualifi cação). Isso realmente era um problema. Por isso, foi necessário desenvolver métodos simplifi cados e de fácil entendimento de construção. Essas grandes realizações somente ocorreram porque existiu um incremento no número de supervisores e foram criados procedimentos de inspeção para acompanhar a força de trabalho não qualifi cada. Muitos historiadores relatam que nessa época foram criadas associações de artesãos e de sindicatos de trabalhadores qualifi cados.

A Figura 2.15 apresenta a fachada do Panteão romano e a vista interna onde ocorre a incidên- cia de luz solar através de uma abertura circular vazada, sem fechamento.

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Figura 2.15 - Panteão romano: (a) fachada e (b) vista interna.

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A argamassa romana era obtida misturando-se terra vulcânica (pozolana) com cal. Existiam descrições bastante precisas dos materiais a empregar (e que variavam de acordo com as regiões), assim como as dosagens e a maneira conveniente de se proceder à sua mistura. A argamassa pronta recebia pedra britada, alcançando-se a conformação desejada por meio de formas de madeira. Utili- zava-se o mesmo processo para a construção dos arcos e das cúpulas.

Eles privilegiavam a estrutura de tijolo com enchimento de concreto, que não exigia tanta pre- cisão quanto às técnicas de corte de pedra. O assentamento de placas de mármore travertino por pedreiros qualifi cados servia para “esconder” defeitos de construção da etapa construtiva anterior. Utilizava-se muito o travertino, uma pedra de superfície granulosa e, portanto, com excelente rugo- sidade para seu assentamento com argamassa.

A Figura 2.16 apresenta uma placa de mármore travertino, que é uma rocha calcária natural. Em seu processo de formação, ela sofre a ação de água doce subterrânea, responsável pela criação dos espaços ocos, tão característicos desse material. Por que artistas e construtores tornaram esse material tão cobiçado? Podem ser listadas as seguintes propriedades: diversidade de padrões, quali- dades estéticas e durabilidade.

Fique de olho! A definição da qualidade no mundo antigo é cultural, pois recebe influência dos
Fique de olho!
A definição da qualidade no mundo antigo é cultural, pois recebe influência dos objetivos dos governantes e das condi-
ções de mão de obra, materiais e tecnologias existentes.

Figura 2.16 - Mármore travertino.

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No telhado de sua residência, talvez exista a cobertura realizada com telhas de barro chamadas de telha romana. Esse tipo de cobertura inspirou-se no modelo grego. Ela chegou até os nossos dias porque apresenta as seguintes características: baixa impermeabilidade; baixa rugosidade, ou seja, ser lisa para permitir um rápido vazamento da água; dureza apropriada; e ter a resistência mecâ- nica necessária para suportar o peso de agentes atmosféricos como a chuva. A Figura 2.17 apresenta telhas antigas de edifi cações romanas.

Figura 2.17 - Telhas romanas feitas à mão.

Os romanos herdaram dos povos conquistados as suas técnicas construtivas. Os fenícios con- tribuíram com as técnicas aplicadas na construção de portos e faróis em todo o Mediterrâneo. A construção de faróis é classifi cada como obra de grande porte, na qual o problema mais grave era o do levantamento de cargas pesadas, efetuado por guindastes de roldanas. Esses equipamentos sofi sti- cados para a época e de grandes dimensões tinham como fonte de energia a força física dos escravos.

Amplie seus conhecimentos O maior e mais famoso símbolo do Império Romano foi o Coliseu. Ele
Amplie seus conhecimentos
O maior e mais famoso símbolo do Império Romano foi o Coliseu. Ele era um enorme anfiteatro reservado para as lutas
entre gladiadores, ou entre eles e animais selvagens. Sua construção foi iniciada em 72 d.C. por ordem do imperador
Flávio Vespasiano, sucessor do imperador Nero. Tinha uma altura de 48,5 metros e uma forma elíptica com 189 metros
no maior eixo e 156 metros no menor eixo. Sua arena tinha 85 metros por 53 metros. Suas arquibancadas foram cons-
truídas a partir de 3 metros do solo e tinha capacidade para mais de 50 mil pessoas. Em sua construção, foram utiliza-
dos 100 mil metros cúbicos de mármore travertino, principalmente no revestimento da fachada exterior, além de tijolos
de barro, blocos de tufa (pedra vulcânica) e concreto.
Para ler mais sobre o coliseu, acesse: <http://www.sogeografia.com.br/Conteudos/Lugares/?pg=3> e
<http://discoverybrasil.uol.com.br/guia_roma/entretenimento/coliseu/index.shtml.>
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Qualidade na Construção Civil

PHB.cz (Richard Semik)/Shutterstock.com

Quais dimensões tinham essas edifi cações? O farol de Bolonha, com 60 metros, e o de Alexandria, com seus 87 metros, fi guravam entre os mais altos. E quais eram as suas utilizações? Assinalavam as zonas perigosas e atraíam os marinheiros para a segurança dos portos. A luminosidade dos faróis provinha da queima de madeira de árvores resinosas.

Figura 2.18 - Farol de sinalização marítima.

Amplie seus conhecimentos Os romanos antigos eram um povo objetivo, com mentalidade aberta e receptiva. O
Amplie seus conhecimentos
Os romanos antigos eram um povo objetivo, com mentalidade aberta e receptiva. O que era considerado bom dos povos
conquistados era copiado e adaptado às suas necessidades.
Como consequência dessa mentalidade, surgiu uma forte indústria da construção, com legislação específica para regular
alguns aspectos construtivos e algumas normas de serviços obrigatórios para a mão de obra (similares às do serviço militar).
Eles estabeleceram também regulamentações específicas para o controle da qualidade dos materiais, dentre elas a obri-
gatoriedade, a partir do séc. II a.C., do uso de marcas nas unidades de alvenaria (tijolos e blocos de pedra) que iden-
tificassem o fabricante. Conseguiram, dessa forma, unificar as técnicas construtivas em todo o império, porém sempre
respeitando as vantagens dos sistemas construtivos locais.
Para ler mais sobre arte e arquitetura romana, acesse: <http://www.historiadomundo.com.br/romana/arte-e-arquitetura-
-romana.htm>.

Qualidade nas Edificações do Mundo Antigo

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Vamos recapitular? Neste capítulo foi visto como os parâmetros da qualidade eram observados pelos principais povos
Vamos recapitular?
Neste capítulo foi visto como os parâmetros da qualidade eram observados pelos principais povos
do mundo antigo. O Império Romano foi o que mais tempo durou, e uma das razões é a de que ele
era muito pragmático; fazia uso das normas da qualidade dos povos conquistados, adaptando e introdu-
zindo-as em suas práticas culturais.
Vamos recapitular? Neste capítulo foi visto como os parâmetros da qualidade eram observados pelos principais povos
 
 

Agora é com você!

 
 
 

1)

Qual a altura da Grande Pirâmide de Quéops?

2)

Qual a origem da Grande Muralha da China?

3)

Qual a essência do antigo controle de processo?

4)

Quais as qualidades de uma antiga telha romana?

Vamos recapitular? Neste capítulo foi visto como os parâmetros da qualidade eram observados pelos principais povos
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Qualidade na Construção Civil

Normas ISO – Evolução e Descrição

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Para começar Este capítulo tem por objetivo apresentar a família de normas ISO 9000 (Qualidade), bem
Para começar
Este capítulo tem por objetivo apresentar a família de normas ISO 9000 (Qualidade), bem como
sua origem, seus objetivos, sua terminologia e os benefícios de sua utilização. É também apresentada a
NBR ISO 14000 (meio ambiente) e sua relação, suas intenções, defi nições e diretrizes. Por fi m, são apre-
sentadas as normas OHSAS 18000 – saúde e segurança do trabalhador.
3.1 Origem e objetivos das normas ISO

Em 1926 foi criada a primeira entidade para padronização internacional, denominada International Federation of the National Standardizing Associations (ISA), que terminou suas ativi- dades em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Logo após o fi m desse confl ito, representantes de 25 países se reuniram na cidade de Londres, em 1946, com o objetivo de criar uma organização internacional que, em nível mundial, facilitasse a coordenação e a unifi cação de normas industriais.

Assim, começou a funcionar oficialmente, em 23 de fevereiro de 1947, a International Organization for Standardization (ISO – Organização Internacional de Normalização), com sede na cidade de Genebra, Suíça.

A ISO é uma organização não governamental internacional que reúne mais de uma centena de organismos nacionais de normalização. Hoje ela representa cerca de 160 países que respondem por cerca de 95% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial, e tem por objetivo promover o desenvolvimento

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da padronização de atividades correlacionadas de forma a possibilitar o intercâmbio econômico, científi co e tecnológico entre os países.

Fique de olho! O PIB (Produto Interno Bruto) é a soma de todos os bens e
Fique de olho!
O PIB (Produto Interno Bruto) é a soma de todos os bens e serviços produzidos em um país durante certo período.

O campo de ação da ISO sobre normalização está estabelecido em quase todos os campos do conhecimento. Ela não atua em normas da área de engenharia eletrônica e elétrica, que são de res- ponsabilidade da International Eletrotechnical Commission. No Brasil, é representada pela Associa- ção Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

A ISO procura conciliar interesses de produtores, usuários, governos e da comunidade cientí- fi ca na preparação de normas internacionais. Seu trabalho é desenvolvido por intermédio de mais de 2.600 grupos técnicos de trabalho, compostos por mais de 20 mil especialistas de todo o mundo, e que participam anualmente dos trabalhos técnicos da ISO, dos quais já resultou a publicação de mais de 13 mil normas desde a fundação da organização.

Os objetivos da normalização realizada pela ISO são:

»

Proteção do consumidor: prover a sociedade de meios efi cazes para aferir a qualidade de bens e serviços,

»

S egurança: proteger a vida e a saúde,

»

Economia: proporcionar a redução da crescente variedade de produtos e procedimentos,

»

C omunicação: proporcionar meios mais efi cientes de troca de informações entre o fabri- cante e o cliente, melhorando a confi abilidade das relações comerciais,

»

Eliminação de barreiras técnicas e comerciais: evitar a existência de regulamentos confl itan- tes sobre bens e serviços em diferentes países, facilitando, assim, o intercâmbio comercial.

Dessa forma, a normalização encontra-se na fabricação dos produtos, na transferência de tecnologia e na melhoria da qualidade de vida, por meio de normas relativas à saúde, à segurança e à preservação do meio ambiente.

As práticas da ISO estão relacionadas aos campos do crescimento econômico, da igualdade social e da integridade ambiental. Assim, suas ações nesses campos são:

3.1.1 Crescimento econômico

»

disseminação de novas tecnologias;

»

boas práticas de negócios;

»

facilitação de comércio;

»

comércio eletrônico;

»

economias emergentes;

»

redução da pobreza.

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Qualidade na Construção Civil

3.1.2

Igualdade social

»

»

»

»

»

»

proteção ao consumidor; proteção ao trabalhador; serviços de saúde; segurança; comércio justo; ética.

  • 3.1.3 Integridade ambiental

»

»

»

»

»

»

administração de resíduos; qualidade da água, do solo e do ar; efi ciência energética e recursos renováveis;

emissões de gases de efeito estufa (GHG) e recur- sos renováveis;

análise do ciclo da vida e trabalho verde; administração do meio ambiente.

3.1.2 Igualdade social » » » » » » proteção ao consumidor; proteção ao trabalhador; serviços

A qualidade é um conceito que firma um compromisso social, sendo relacionada com a economia, com as pessoas e com o meio ambiente.

3.2 Família ISO 9000 – qualidade

Relacionada com a palavra isonomia, que é um princípio de igualdade, a ISO tem como obje- tivo a padronização do gerenciamento do sistema da qualidade, visando sua unifi cação de forma universal. Assim, a sua função é a de promover a normalização de produtos (bens e serviços) para que sua qualidade seja permanentemente melhorada.

  • 3.2.1 Origem da família ISO 9000

No ano de 1979, o Comitê Técnico ISO TC 176 elaborou as normas sobre qualidade. Com a globalização ocorrida na década de 1980, aumentou a necessidade de normas internacionais, princi- palmente a partir da criação da União Europeia.

Em 1987, a ISO lançou um conjunto de normas denominado ISO 9000, fortemente baseadas nas normas britânicas da qualidade e nas experiências e contribuições de especialistas e representantes de diversos países. Para isso, os elaboradores conseguiram superar divergências quanto a terminologia, conceitos e práticas e chegaram a um resultado, que pode ser considerado um marco histórico na evo- lução da garantia e da gestão da qualidade. A partir desse instante as normas começaram a evoluir.

A primeira norma – ISO 9000:1987 – baseou-se principalmente na norma de origem britânica BS-5750 (British Standard) e em normas militares:

»

Normas Militares Americanas (MIL STD) – padronização;

»

MIL-Q-9858 – foi a primeira norma de especifi cações de sistema da qualidade;

Normas ISO – Evolução e Descrição

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»

MIL-I-45205 – requisitos de um sistema da qualidade;

»

AQAP (Allied Quality Assurance) OTAN – garantia da qualidade;

»

DEF-STAN (Defense Standard) Reino Unido – normas das Forças Armadas sobre siste- mas da qualidade;

»

BS-5750 (British Standard).

Essa norma fi cou conhecida como norma de gestão, porque, além de especifi car como produ- zir, também discriminava como gerenciar o processo de produção.

A expressão ISO 9000 designa um grupo de normas técnicas que estabelecem um modelo de gestão da qualidade para organizações em geral, não importando a sua dimensão.

3.2.2 Normas componentes da família NBR ISO 9000

Como visto, as normas ISO foram publicadas pela primeira vez em 1987 com o objetivo de padronizar requisitos para o desenvolvimento de sistemas de qualidade para empresas. A primeira versão tinha uma estrutura de três normas sujeitas à certifi cação – a ISO 9001, 9002 e 9003 –, além da ISO 9000, que era um guia para escolher a norma mais adequada a cada tipo de organização.

A série ISO 9000 é uma família de normas que formam um modelo de gestão da qualidade. Foram desenvolvidas para apoiar as organizações no estabelecimento, na implantação e na manuten- ção de Sistemas de Gestão da Qualidade, independentemente do ramo de atividade ou porte.

»

NBR ISO 9000:1987: Normas de Gestão da Qualidade e Garantia da Qualidade – diretri- zes para seleção de uso,

»

NBR ISO 9001:1987: Normas de Sistema da Qualidade – modelo para garantia da quali- dade em projeto, desenvolvimento, produção, instalação e serviços associados. Aplicava- -se a organizações cujas atividades eram voltadas à criação de novos produtos,

»

NBR ISO 9002:1987: Normas de Sistema da Qualidade – modelo para garantia da qua- lidade em produção, instalação e serviços associados, compreendia essencialmente o mesmo material da anterior, mas sem abranger a criação de novos produtos,

»

NBR ISO 9003:1987: Normas de Sistema da Qualidade – modelo para garantia da quali- dade inspeção e ensaios fi nais, abrangia apenas a inspeção fi nal do produto e não se preo- cupava como o produto era feito,

»

NBR ISO 9004:1987: Normas de Gestão da Qualidade. Elementos do Sistema da Quali- dade: diretrizes para melhoria do desempenho.

Em 1994, a série foi revisada, mas sem grandes modifi cações, mantendo a mesma estrutura, ou seja, três normas sujeitas à certifi cação.

Com a revisão em 1994, passou-se a adotar o termo “família ISO 9000” para indicar o con- junto formado pelas normas da série 9000. Nesse mesmo período, a ABNT alinhou-se ao restante do mundo e passou a adotar a seguinte nomenclatura para versão nacional: “NBR ISO 9000”. É o con- junto de normas da série “família NBR ISO 9000” pelo sistema Brasileiro de Normalização e publica- das pela ABNT:

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44

Qualidade na Construção Civil

»

Norma NBR ISO 9000:1994: essa norma continha as defi nições e os termos relativos à norma ISO 9001:1994. Não era uma norma certifi cadora, apenas explicativa de termos e defi nições da garantia da qualidade.

»

Norma NBR ISO 9001:1994: essa norma tinha a garantia da qualidade como base da cer- tifi cação.

Em dezembro de 2000, a série foi totalmente revisada; além das alterações em sua estrutura, as vinte cláusulas foram reduzidas para cinco, fi cando, agora, apenas uma norma sujeita à certifi cação – a ISO 9001:2000. Assim, a família de normas NBR ISO 9000:1994 (9001, 9002 e 9003) foi cancelada e substituída pela série de normas ABNT NBR ISO 9000:2000, que é composta de três normas:

»

Norma ABNT NBR ISO 9000:2000 (versão fi nal da revisão das normas ISO 8402:1994 e ISO 9000-1:1994): descreve os fundamentos de sistemas de gestão da qualidade e estabe- lece a terminologia para estes sistemas (fundamentos e vocabulário). É aplicável a orga- nizações que buscam vantagens por meio da implementação de um sistema de gestão da qualidade; organizações que buscam a confi ança, em seus fornecedores, de que os requisi- tos de seus produtos serão atendidos; usuários dos produtos; aqueles que têm interesse no entendimento mútuo da terminologia utilizada na gestão da qualidade etc.

»

Norma ABNT NBR ISO 9001:2000 (versão fi nal da revisão das normas ISO 9001:1994, ISO 9002:1994 e ISO 9003:1994): especifi ca requisitos para um Sistema de Gestão da Qualidade, no qual uma organização precis a demonstrar sua capacidade para fornecer produtos que atendam aos requisitos dos clientes e aos requisitos regulamentares aplicá- veis, e que objetiva aumentar a satisfação dos clientes por meio da efetiva aplicação do sistema, incluindo processos para melhoria contínua e a garantia da conformidade com requisitos do cliente e requisitos regulamentares aplicáveis. Dela poderão ser excluídos, com a devida justifi cativa, os itens que não se aplicam ao tipo de atividade realizada pela empresa. Assim, está focada na efi cácia do Sistema de Gestão da Qualidade em atender os requisitos dos clientes.

» Norma ABNT NBR ISO 9004:2000 (versão fi nal da revisão das normas: ISO 9004-1:1994, ISO 9004-2:1991 e ISO 9004-3:1993, ISO 9004-4:1993 e ISO 9004-4/Cor.1:1994): fornece diretrizes, além dos requisitos estabelecidos na NBR ISO 9001, que consideram tanto a efi cácia como a efi ciência do sistema de gestão da qualidade e, por consequência, o poten- cial para melhoria do desempenho de uma organização. O objetivo dessa norma é a melhoria contínua do desempenho global da organização (efi ciência e efi cácia) medida por meio da satisfação dos clientes e das outras partes interessadas.

Nas versões anteriores à de 2000, as normas ISO não exigiam que as empresas tivessem obje- tivos ou adotassem ações para a melhoria da qualidade nem que demonstrassem quaisquer resultados nesse sentido. Nessa condição, era possível observar a tendência das empresas terem o objetivo de ape- nas obter suas certifi cações, em vez de focarem na melhora dos seus processos, produtos e serviços.

As últimas revisões da “família ISO 9000” são:

»

Norma NBR ISO 9000:2005: Sistemas de gestão da qualidade – Fundamentos e vocabu- lário – foi a única norma lançada nesse ano, descrevendo os fundamentos de sistemas de gestão da qualidade que, no Brasil, constituem o objeto da família ABNT NBR ISO 9000,

Normas ISO – Evolução e Descrição

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defi nindo os termos a ela relacionados. É aplicável a organizações que buscam vantagens por meio da implementação de um sistema de gestão da qualidade,

»

Norma NBR ISO 9001:2008: Sistemas de gestão da qualidade – Requisitos – esta nova ver- são foi elaborada para apresentar maior compatibilidade com a família da ISO 14000, e as alterações realizadas trouxeram maior compatibilidade para as suas traduções e conse- quentemente melhor entendimento e interpretação de seu texto,

»

Norma NBR ISO 9004:2009: Sistema de Gestão da Qualidade – diretriz para melhoria de desempenho. Essa nova versão substitui a versão 2000 e fornece às organizações um modelo de “sucesso sustentado”. É a terceira versão (a primeira publicada em 1987),

»

Norma NBR ISO 19011:2012: diretrizes para auditorias de sistemas de gestão da quali- dade e/ou ambiental.

A revisão da NBR ISO 9001:2000, que originou a versão NBR ISO 9001:2008, trouxe poucas mudanças. Elas serviram para melhorar o entendimento sobre a norma ISO 9001 e para aprimorar sua utilização.

O comitê técnico ISO/TC 176 é responsável pela família ISO 9000. Ele reúne peritos de 80 paí- ses participantes e 19 organizações internacionais ou regionais, além de outras comissões técnicas.

A NBR ISO 19011:2012 apresenta as diretrizes para auditorias de sistemas de gestão.

3.2.3 Benefícios da utilização da norma NBR ISO 9001:2008

A norma ISO 9001:2008 se baseia em oito princípios de gestão, que podem ser usados como guia para a melhoria da performance das organizações:

1)

Foco no Cliente: as organizações dependem de seus clientes e, portanto, devem entender suas necessidades atuais e futuras, satisfazer seus requisitos da qualidade e implementar métodos para monitorar sua percepção quanto aos produtos (bens e serviços) entregues,

2)

Liderança: a liderança é necessária para promover a unidade de objetivos e direção e criar um ambiente no qual as pessoas se tornem plenamente envolvidas em atingir os objetivos da organização,

3)

Envolvimento das pessoas: as pessoas são a essência da organização, seu principal recurso. Sua cooperação, seu envolvimento e sua motivação permitem que suas capacidades sejam plena e efi cazmente utilizadas para o benefício da organização,

4)

Abordagem por processos: para alcançar os objetivos organizacionais, os recursos e as ati- vidades necessitam ser tratados como processos, entendendo-se que as saídas de um pro- cesso afetam as entradas de outro,

5)

Abordagem sistêmica para a gestão: os processos se relacionam entre si de modo a cons- tituírem sistemas; assim, a abordagem sistêmica para o gerenciamento é o princípio que orienta a organização a identifi car, entender e gerenciar os processos inter-relacionados,

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Qualidade na Construção Civil

6) Melhoria contínua: deve ser um objetivo permanente da organização. Este princípio garante que, a partir de ações de correção e de prevenção, siga-se na busca da excelência de seus produtos e processos,

7)

Abordagem factual para a tomada de decisões: decisões efi cazes são tomadas com base na análise dedutiva de dados e informações,

8)

Benefícios mútuos nas relações com fornecedores: uma organização e seus fornecedo- res são interdependentes, e uma relação mutuamente proveitosa aumenta, para ambos, a habilidade de agregar valores.

Assim, as empresas que utilizarem os princípios contidos na NBR ISO 9001:2008, como condi- ção de suas ações, terão como benefícios:

»

maior condição para quantifi cação dos produtos e das melhorias; consequentemente, maior capacidade de análise para a tomada de decisões gerenciais mais objetivas e efetivas;

»

maior habilidade para revisar, desafi ar e mudar opiniões e decisões;

»

maior capacidade de identifi car oportunidades de melhorias, dirigidas e priorizadas;

»

maior fl exibilização e rapidez nas respostas às oportunidades oferecidas pelo mercado, bem como às oportunidades internas advindas de um monitoramento estruturado de produtos e processos;

»

melhor capacidade de comunicação interna entre os diferentes níveis da empresa;

»

unifi cação, ajuste e implementação da avaliação das atividades;

»

maior compreensão de objetivos e metas pelas pessoas, bem como seus papéis dentro da organização e, consequentemente, maior motivação para alcançá-los;

»

redução dos custos e dos ciclos de tempo para a execução das atividades, por meio do uso efetivo dos recursos;

»

maior integração e adaptação dos processos que melhor contribuem para a obtenção dos resultados desejados.

3.2.4 Critérios para normalização de procedimentos

Os critérios para a normalização partem do princípio de que as normas técnicas da série ISO foram elaboradas por consenso internacional sobre as práticas que uma empresa deve tomar a fi m de atender plenamente os requisitos da qualidade.

A NBR ISO 9000 não fi xa metas a serem atingidas pelas empresas a serem certifi cadas; elas próprias é que devem estabelecê-las.

Para obter a certifi cação, as empresas devem adotar alguns procedimentos, como:

»

padronização de todos os processos-chave da organização, isto é, dos processos que afe- tam seus produtos (bens e serviços) e, consequentemente, o consumidor;

»

monitoramento e medição dos processos de produção para assegurar a qualidade dos produtos (bens ou serviços), por meio de indicadores de performance e desvios;

Normas ISO – Evolução e Descrição

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»

implementar e manter os registros adequados e necessários para garantir a rastreabilidade

»

dos processos; inspeção da qualidade e meios apropriados de ações corretivas quando necessárias;

»

revisão sistemática dos processos e do sistema da qualidade para garantir sua efi cácia.

3.2.5 Terminologia básica da NBR ISO 9000

A terminologia básica utilizada na série ISO é:

»

Ação corretiva: ação para eliminar a causa de uma não conformidade identifi cada ou de outra situação indesejável,

»

Ação preventiva: ação para eliminar a causa de uma potencial não conformidade,

»

Cliente: organização ou pessoa que recebe um produto,

»

C onformidade: satisfação com um requisito,

»

Efi cácia: medida em que as atividades planejadas foram realizadas e obtidos os resultados planejados,

»

Efi ciência: relação entre resultados obtidos e recursos utilizados,

»

Fornecedor: organização ou pessoa que fornece um produto,

»

Política da qualidade: conjunto de intenções e de orientações de uma organização, relacio- nadas com a qualidade, como formalmente expressas pela gestão de topo,

»

Procedimento: modo especifi cado de realizar uma atividade ou um processo,

»

Processo: conjunto de atividades inter-relacionadas e interatuantes que transformam

»

entradas em saídas, Produto: resultado de um processo,

»

Qualidade: grau de satisfação de requisitos dado por um conjunto de características intrínsecas,

»

Requisito: necessidade ou expectativa expressa, geralmente implícita ou obrigatória,

»

Satisfação de clientes: percepção dos clientes quanto ao grau de satisfação dos seus requi- sitos,

»

Sistema de gestão da qualidade: sistema de gestão para dirigir e controlar uma organiza- ção no tocante à qualidade.

3.3 ISO 14000 – meio ambiente

Em 1991 a ISO criou um Grupo Assessor Estratégico sobre Meio Ambiente (Strategic Advisory Group on Environment – SAGE), com o objetivo de analisar a necessidade de desenvolvimento de nor- mas internacionais na área do meio ambiente. Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992, o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, presidido pelo empresário suíço Stephan Schmidheiny, apoiou a criação de um comitê específi co, na ISO, para tratar das questões de gestão ambiental.

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Qualidade na Construção Civil

Em março de 1993, a ISO estabeleceu o Comitê Técnico de Gestão Ambiental, ISO/TC207, para desenvolver uma série de normas internacionais de gestão ambiental, a exemplo do que já vinha sendo feito pelo ISO/TC 196, com a série ISO 9000 de Gestão da Qualidade. A série, que recebeu o nome de ISO 14000, refere-se a vários aspectos, como sistemas de gestão ambiental, auditorias ambientais, rotulagem ambiental, avaliação do desempenho ambiental, avaliação do ciclo de vida e terminologia.

A Associação Canadense de Normas dá suporte ao secretariado e administra o programa geral de trabalho do TC 207, com os órgãos de normalização de diversos países se responsabilizando pelos diferentes grupos subsidiários do TC 207.

As normas de gestão ambiental abrangem vários assuntos de Sistemas de Gestão Ambiental (SGA) e Auditorias Ambientais até Rotulagem Ambiental e Avaliação do Ciclo de Vida.

O Comitê Técnico de Gestão Ambiental, ISO/TC 207, conta com a participação de represen- tantes de cerca de 60 países nas suas reuniões plenárias anuais. O campo de trabalho do TC 207 está em constante evolução. Em maio de 2002 foi aprovado um novo item de trabalho na área de mudan- ças climáticas: “Medição, Comunicação e Verifi cação de Emissões de Gases Estufa”.

Quando um TC tem um grande volume de trabalho, o procedimento normal é dividir o traba- lho de desenvolvimento das normas e distribuí-lo para um grupo de subcomitês, cada um cobrindo uma área específi ca. O TC 207 atualmente tem cinco subcomitês tratando dos seguintes assuntos:

»

SC 01: Sistemas de Gestão Ambiental.

»

SC 02: Auditorias Ambientais.

»

SC 03: Rotulagem Ambiental.

»

SC 04: Avaliação de Desempenho Ambiental.

»

SC 05: Avaliação de Ciclo de Vida.

Além desses subcomitês, o TC 207 conta com dois grupos de trabalho (WGs) que lidam com comunicações ambientais e mudanças climáticas. Existe também um grupo de trabalho que cuida de termos e defi nições, e do qual participam representantes de todos os subcomitês e grupos de traba- lho, para evitar que os diversos SCs e WGs usem termos com interpretações diferentes (pois os téc- nicos que participam em cada grupo são diferentes).

Desde a sua formação em 1993, o TC 207 tem organizado plenárias anuais, realizadas em dife- rentes localidades em todo o mundo, para equilibrar os custos de viagem e os custos de sediar esses eventos. As mais recentes reuniões plenárias do TC 207 ocorreram no Rio de Janeiro (1996), São Fran- cisco (EUA), Seul (Coreia), Estocolmo (Suécia), Kuala Lumpur (Malásia), Johannesburgo (África do Sul), Bali (Indonésia), Buenos Aires (Argentina) e Madri (Espanha, 2005). Grande parte dos grupos subsidiários (subcomitês, grupos de trabalho, grupos tarefa etc.) do TC 207 reúne-se simultaneamente com a plenária anual, e toda a série de reuniões ocorre em cerca de oito dias. Os subcomitês e grupos de trabalho podem organizar reuniões adicionais durante o ano para adiantar o trabalho.

Existem três idiomas ofi ciais na ISO: inglês, francês e russo. Na prática, o russo não é utilizado em reuniões, apenas nos glossários de termos da ISO. Reuniões plenárias do TC 207 são geralmente conduzidas exclusivamente em inglês, com serviço de tradução simultânea para o francês. Todas as

Normas ISO – Evolução e Descrição

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reuniões de grupos de trabalho do TC 207 são conduzidas em inglês. A pedido dos países de idioma espanhol, o TC 207 montou uma Força Tarefa de Tradução para o Espanhol, que faz uma tradução “semiofi cial” das normas da série ISO 14000.

Em virtude da impossibilidade de a ABNT criar, em 1994, um comitê brasileiro para acom- panhar e infl uenciar o desenvolvimento das normas da série ISO 14000, foi criado com o apoio da ABNT o Grupo de Apoio à Normalização Ambiental (GANA), com sede na cidade do Rio de Janeiro e com a participação de empresas, associações e entidades representativas de importantes segmentos econômicos e técnicos do país. O grupo tinha como objetivo acompanhar e analisar os trabalhos desenvolvidos pelo ISO/TC 207, e avaliar o impacto das normas ambientais internacionais nas orga- nizações brasileiras.

O GANA, por meio de uma participação efetiva nos trabalhos do ISO/TC 207, infl uiu deci- sivamente para que os interesses da indústria brasileira e dos países em desenvolvimento fossem levados em conta no desenvolvimento da série ISO 14000. Como resultado, temos hoje mais de 2 mil certifi cados ISO 14001 (algumas empresas, como a PETROBRAS, têm vários), contribuindo, portanto, para promover maior competitividade dos produtos nacionais no mercado internacional. As normas ISO 14000 são de adoção voluntária pelas empresas, mas na prática, tornam-se quase obrigatórias para empresas que vendem seus produtos no exterior. Nesse período, várias normas da série ISO 14000 foram traduzidas para o português e publicadas como normas brasileiras NBR ISO (como a NBR ISO 14001 e a NBR ISO 14010).

A ISO lançou, em 1996, a série de normas ISO 14000, que têm como objetivo a criação de um sistema de gestão ambiental que auxilie as empresas a cumprir compromissos assumidos com o ambiente natural, estabelecendo também as diretrizes para as auditorias ambientais, avaliação de desempenho ambiental, rotulagem ambiental e análise do ciclo de vida dos produtos.

No fi nal do ano 1998, o GANA encerrou suas atividades e, em abril de 1999, a ABNT criou o Comitê Brasileiro de Gestão Ambiental (ABNT/CB-38), que substituiu o GANA na discussão e no desenvolvimento das normas ISO 14000 em âmbito internacional e na tradução e publicação das normas brasileiras correspondentes. O ABNT/CB-38 foi criado com estrutura semelhante ao ISO/ TC 207 e seus subcomitês.

Para apresentar efetivamente uma posição que represente os interesses do país no desenvol- vimento das normas de gestão ambiental, é fundamental a participação do mais amplo espectro da sociedade brasileira no CB-38. Por esse motivo, o comitê é aberto à contribuição de todos os inte- ressados na formulação dessas normas. A participação de uma empresa ou instituição pode ser feita como cotista do CB-38, condição por meio da qual é possível participar ativamente na discussão e votação das posições brasileiras adotadas nas reuniões internacionais de desenvolvimento das nor- mas. Universidades, organizações não governamentais e instituições não cotistas são convidadas e estimuladas a participar nas reuniões das comissões de estudos, durante a fase de discussão das posi- ções brasileiras e da redação dos documentos.

Como foi dito anteriormente, a estrutura operacional do comitê é semelhante à estrutura do ISO/TC 207, visando facilitar os contatos de mesmo nível e atribuições de responsabilidades. As principais atribuições e responsabilidades dos órgãos que constituem o comitê seguem o regimento interno da ABNT.

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50

Qualidade na Construção Civil

O CB-38 tem hoje em sua estrutura os seguintes subcomitês:

»

SC 01: sistemas de gestão ambiental.

»

SC 02: auditorias ambientais.

»

SC 03: rotulagem ambiental.

»

SC 04: desempenho ambiental.

»

SC 05: avaliação de ciclo de vida.

»

SC 06: termos e defi nições.

»

SC 07: integração de aspectos ambientais no projeto e desenvolvimento de produtos (ecodesign).

»

SC 08: comunicação ambiental.

»

SC 09: mudanças climáticas.

3.3.1 Comitê brasileiro de gestão ambiental (ABNT/CB-38)

O Comitê Brasileiro de Gestão Ambiental ABNT/CB 38 fez os seguintes estudos:

3.3.1.1 SC 01 – Sistemas de gestão ambiental

Foram aprovadas e publicadas (em 1996) as seguintes normas:

»

ISO 14001: Sistemas de Gestão Ambiental – Especifi cação e diretrizes para uso.

»

ISO 14004: Sistemas de Gestão Ambiental – Diretrizes gerais sobre princípios, sistemas e técnicas de apoio.

Foi também aprovado o Relatório Técnico ISO TR 14061, o Guia para Orientar Organizações Florestais no Uso das Normas ISO 14001 e a ISO 14004 (esta última publicada em 1998).

A ABNT publicou, também em 1996, a tradução das normas de sistemas de gestão ambiental, que são a NBR ISO 14001 e a NBR ISO 14004.

A ISO 14001 é, por enquanto, a única da série ISO 14000 que pode ser certifi cada por uma terceira parte, isto é, uma entidade especializada e independente, reconhecida em um organismo autorizado de credenciamento 2 (ou acreditação): no Brasil, tal organismo é o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

O TC 207 já realizou uma revisão das normas 14001 e 14004 para um melhor alinhamento com a norma ISO 9001-2000 e para esclarecer melhor partes do texto das normas. As ISO 14001:2004 e 14004:2004 foram publicadas pela ISO em 2004. A ABNT já publicou a NBR ISO 14001:2004.

No Brasil, praticamente todas as empresas certifi cadas com a ISO 14001 melhoraram seus desempenhos ambientais e fi caram mais competitivas, pois reduziram o consumo de água, energia e matérias-primas, passando a produzir menos efl uentes para serem tratados.

Para obter a certifi cação ISO 14001, uma empresa deve defi nir a sua política ambiental, implantar um sistema de gestão ambiental, cumprir a legislação ambiental aplicável (ao país e àquela localidade) e assumir um compromisso com a melhoria contínua de seu desempenho ambiental.

Normas ISO – Evolução e Descrição

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51

3.3.1.2

SC 02 – Auditorias ambientais

Em 1996, três normas de auditorias ambientais foram aprovadas e publicadas pela ISO:

»

ISO 14010: Diretrizes para auditoria ambiental – princípios gerais.

»

ISO 14011: Diretrizes para auditoria ambiental – procedimentos de auditoria.

»

ISO 14012: Diretrizes para auditoria ambiental – critérios de qualifi cação para auditores ambientais.

Nesse mesmo ano, a ABNT publicou as NBR ISO correspondentes. As normas de auditoria são importantes porque garantem a credibilidade do processo de certifi cação. São dirigidas às audi- torias de terceira parte, por entidades externas e independentes, que verifi cam se o sistema de gestão implantado está de acordo com a ISO 14001.

Essas três normas foram substituídas em 2002 por uma única, que uniu os procedimentos de auditoria ambiental e da qualidade, a ISO 19011 (Diretrizes para auditorias da qualidade e ambiental). A ABNT já publicou sua tradução, a NBR ISO 19011.

Foi publicado em 2001 o Relatório Técnico ISO TR 14015 (Sistemas de Gestão Ambiental – avaliações ambientais de localidades e organizações), muito útil para verifi car o passivo ambiental de empresas. A NBR ISO 14015 foi publicada em 2003.

  • 3.3.1.3 SC 03 – Rotulagem ambiental

A “rotulagem ambiental” já é praticada em vários países, como Alemanha, Suécia, Japão, Canadá e Holanda, mas com formas de abordagem e objetivos diferentes. A conscientização dos consumidores sobre as questões ambientais propiciou o surgimento de sistemas de rotulagem ambiental (conhecido como selo verde), destinados a identifi car benefícios ambientais em proces- sos e produtos. Num programa de selo verde (Rotulagem Tipo I), o selo é concedido a produtos que satisfaçam a um conjunto de requisitos pré-determinados.

A rotulagem começou com iniciativas nacionais, em geral com a participação de órgãos gover- namentais. A iniciativa mais antiga é da Alemanha (Blue Angel, 1978), seguida pelos países nórdi- cos (Nordic Swan, 1988), Canadá (Environmental Choice, 1988), Japão (Eco Mark, 1989), Estados Unidos (Green Seal, 1990), França (NF-Environnement, 1991), Índia (Eco Mark, 1991), Coreia (Eco Mark), Cingapura (Green Label), Nova Zelândia (Environmental Choice) e União Europeia (European Ecolabelling), todos em 1992, e Espanha (Aenor, 1993). Esses programas usam critérios diferentes para a concessão do selo verde, com alguns (como Japão e Canadá) focalizando as exter- nalidades ambientais do consumo (uso e descarte fi nal) e outros (como França e União Europeia) focalizando as externalidades ambientais da produção. O selo dos países nórdicos adota, como crité- rio para concessão, a avaliação do ciclo de vida do produto.

Por iniciativa da organização Green Seal, foi criada uma rede mundial de rotulagem ambien- tal, denominada Global Ecollabeling Network (GEN). O interesse pela rotulagem ambiental vem aumentando, assim como a preocupação com a possibilidade do sistema (Rótulo Tipo III) ser usado como barreira não alfandegária no comércio internacional.

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52

Qualidade na Construção Civil

Para harmonizar esses procedimentos diferentes, o SC 03 do ISO/TC 207 publicou as seguintes normas de rotulagem ambiental:

ISO 14020: Rótulos e declarações ambientais – princípios básicos (1998). ISO 14021: Autodeclarações ambientais (rótulo ambiental tipo II, 1999). ISO 14024: Rótulo ambiental tipo I (de terceira parte, 1999). A ABNT publicou a NBR ISO 14020 em 2002, e as NBR ISO 14021 e 14024 em 2004. A NBR ISO 14020 da ABNT estabelece nove princípios gerais, aplicáveis a todo tipo de rotu- lagem ou declaração ambiental, cujo objetivo fi nal é assegurar correção técnica, transparência, credi- bilidade e relevância ambiental. Os princípios são:

»

»

»

1)

Rótulos e declarações ambientais devem ser precisos, verifi cáveis, relevantes e não enganosos.

2)

Procedimentos e requisitos para rótulos e declarações ambientais não devem ser elaborados, adotados ou aplicados com intenção de – ou efeito de – criar obstáculos desnecessários ao comércio internacional.

3)

Rótulos e declarações ambientais devem basear-se em metodologia científi ca sufi cientemente cabal e abrangente para dar suporte às afi rmações, e que produza resultados precisos e reproduzíveis.

4)

As informações referentes aos procedimentos, às metodologias e a quaisquer critérios usados para dar suporte a rótulos e declarações ambientais devem estar disponíveis e ser fornecidas a todas as partes interessadas sempre que solicitadas.

5)

O desenvolvimento de rótulos e declarações ambientais deverá considerar todos os aspectos relevantes do ciclo de vida do produto.

6)

Os rótulos e declarações ambientais não devem inibir inovações que mantenham ou tenham o potencial de melhorar o desempenho ambiental.

7)

Quaisquer requisitos administrativos ou demandas de informações relacionadas a rótulos e declarações ambientais devem ser limitados àqueles necessários para estabelecer a conformida- de com os critérios e normas aplicáveis dos rótulos e declarações ambientais.

8)

Convém que o processo de desenvolvimento de rótulos e declarações ambientais inclua uma consulta participatória e aberta às partes interessadas. Convém que sejam feitos esforços razoá- veis para chegar a um consenso no decorrer do processo.

9)

As informações sobre aspectos ambientais dos produtos e serviços relevantes a um rótulo ou declaração ambiental devem ser disponibilizadas a compradores e potenciais compradores junto à parte que faz o rótulo ou declaração ambiental.

Rotulagem Tipo I – Programas de selo verde (NBR ISO 14024): Estabelece os princípios e pro- cedimentos para o desenvolvimento de programas de rotulagem ambiental, incluindo a seleção de categorias de produtos, critérios ambientais e características funcionais dos produtos, critérios para avaliar e demonstrar sua conformidade. A NBR ISO 14024 estabelece também os procedimentos de certifi cação para concessão do rótulo ambiental.

Normas ISO – Evolução e Descrição

53
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A Rotulagem Ambiental Tipo I apresenta os seguintes problemas:

  • a) A impossibilidade de estabelecer critérios objetivos e cientifi camente defensáveis que identifi quem os melhores produtos do ponto de vista ambiental em uma dada categoria.

  • b) Os selos verdes orientam os consumidores a procurar símbolos. No Brasil, temos apenas selos verdes setoriais, como no setor papel e celulose.

Rotulagem tipo II – Autodeclarações ambientais (NBR ISO 14021)

Especifi ca os requisitos para as autodeclarações ambientais, incluindo textos, símbolos e gráfi - cos, no que se refere aos produtos. Descreve os termos selecionados usados comumente em declarações ambientais e fornece qualifi cações para seu uso. Essa norma descreve também uma metodologia de avaliação e verifi cação geral para autodeclarações ambientais e métodos específi cos de avaliação e veri- fi cação para as declarações selecionadas. No Brasil, existe a tendência de utilização cada vez mais ampla das autodeclarações ambientais, que oferecem informações mais precisas, relevantes e de fácil entendi- mento para o consumidor (consumidor fi nal ou relação entre empresas – B2B, business to business).

Rotulagem tipo III – Avaliações de ciclo de vida

A ISO TR 14025 foi publicada em 2000 e exige a Avaliação do Ciclo de Vida do produto para ser concedido. Em 2002, iniciou-se o trabalho de desenvolvimento da ISO 14025:2006 para os rótu- los ambientais do tipo III, que apresenta alto grau de complexidade em razão da utilização da meto- dologia de Avaliação do Ciclo de Vida do produto.

3.3.1.4

SC 04 – Avaliação de desempenho ambiental

Em 1999, o ISO/TC 207 publicou uma norma e um relatório técnico:

»

ISO 14031: avaliação do desempenho ambiental – diretrizes.

»

ISO TR 14032: exemplos de avaliação de desempenho ambiental.

A ISO 14031 objetiva medir e analisar o desempenho ambiental de uma empresa, a fi m de comparar os resultados com as metas defi nidas no estabelecimento do sistema de gestão ambien- tal e comprovar as melhorias alcançadas. Foi publicada em 2004, e os indicadores de desempenho ambiental escolhidos pela empresa devem ser específi cos para uma determinada área, como quanti- dade de efl uentes e de resíduos sólidos perigosos gerados por unidade de produto, peso da embala- gem produzida etc. Os indicadores escolhidos devem ser relevantes, cientifi camente válidos, de fácil comprovação, e devem ter custos de medição aceitáveis em relação aos objetivos da avaliação.

3.3.1.5

SC 05 – Avaliação do Ciclo de Vida

A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) de um produto é uma ferramenta cada vez mais aplicada aos processos produtivos, por permitir uma visão abrangente dos impactos ambientais ao longo de toda a cadeia de produção, incluindo a extração e aquisição das matérias primas, a fabricação do produto, a sua embalagem, transporte e distribuição, o seu uso e seu descarte no fi nal de sua vida útil. Considera também a possibilidade de reciclagem do produto. Por esse motivo, a ACV é conhe- cida como uma abordagem do “berço ao túmulo” para o estudo dos impactos ambientais, que pode ser aplicada a produtos, atividades, processos ou serviços. Trata-se de um estudo caro, pois exige uma equipe de profi ssionais especializados e demanda tempo para sua execução. Na maioria dos

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Qualidade na Construção Civil

países desenvolvidos, já existem bancos de dados básicos sobre matérias primas, energia, transportes etc., que reduz o tempo e o custo da elaboração da ACV de um produto.

O ISO/TC 207 já publicou as seguintes normas de Avaliação de Ciclo de Vida:

»

ISO 14040: Avaliação do ciclo de vida – princípios e estrutura (1997).

»

ISO 14041: Avaliação de ciclo de

vida – defi nição de escopo e análise do inventário

(1998).

»

ISO 14042: Avaliação do ciclo de vida – avaliação do impacto do ciclo de vida (2000).

»

ISO 14043: Avaliação do ciclo de vida – interpretação do ciclo de vida (2000).

»

ISO 14048: Avaliação de ciclo de vida – formato da apresentação de dados (2002).

Foram publicados também dois relatórios técnicos:

ISO TR 14047: Avaliação do ciclo de vida – exemplos para a aplicação da ISO 14042 (2002). ISO TR 14049: Avaliação do ciclo de vida – exemplos de aplicação da ISO 14041 para a defi nição de escopo e análise de inventário (2000). A ABNT publicou a NBR ISO 14040 em 2001, e as NBR ISO 14041 e 14042 em julho de 2004.

»

»

Em 2003, o ISO TC 207 decidiu que as quatro primeiras normas (40, 41, 42 e 43) seriam con- densadas em apenas duas – 14041 e 14044 –, para facilitar a aplicação da ACV de produtos. A pri- meira norma, 14041, conteria apenas os princípios e as defi nições da ACV, sem os requisitos (sem os shall), e a outra conteria todas as exigências e requisitos.

  • 3.3.1.6 SC 06 – Termos e denições

A norma ISO 14050 (Termos e defi nições) foi publicada em 1998 e sua revisão, a ISO 14050 Rev. 1, foi publicada em 2002. A NBR ISO 14050 Ver. 1 foi publicada em 2004.

  • 3.3.1.7 SC 07 – Aspectos ambientais no projeto e desenvolvimento de produtos (ecodesign)

Em 2000 foi criado um Grupo de Trabalho (WG 05) e iniciado o trabalho para a elaboração do relatório técnico ISO TR 14062 (Integração de aspectos ambientais no projeto e desenvolvimento de produtos – Ecodesign). Esse relatório técnico foi publicado em 2002, e a ABNT publicou a NBR ISO TR 14062 em 2004.

Esse documento foi produzido porque produtos e serviços provocam impactos sobre o meio ambiente, que podem acontecer durante todos os estágios dos seus ciclos de vida: extração e pro- dução das matérias-primas, transporte, energia necessária, fabricação, distribuição, uso e disposi- ção fi nal. Com a integração dos aspectos ambientais no projeto e desenvolvimento de produtos e serviços, o que é geralmente denominado de ecodesign, vários benefícios ambientais e econômicos são alcançados: redução de custos (redução do consumo de energia, água, matérias-primas e menor geração de resíduos para serem tratados), melhor desempenho ambiental, estímulo à inovação, novas oportunidades empresariais e melhor qualidade do produto ou serviço.

Normas ISO – Evolução e Descrição

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O processo de integração dos aspectos ambientais deve ser contínuo e fl exível, devendo levar em consideração a função do produto, a sua performance, a segurança e saúde dos usuários, o custo, a aceitação pelo mercado, a qualidade, bem como legislação, regulamentos e normas em vigor.

Aqui no Brasil, já existem várias iniciativas de ecodesign. Em São Paulo, a Federação das Indús- trias (FIESP), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnolo- gia e Desenvolvimento Econômico (SCTDE-SP), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científi co e Tecnológico (CNPq) e o Programa São Paulo Design criaram em 2001 o Centro São Paulo Design, com o objetivo de consolidar o design como ferramenta fundamental para a melhoria contínua dos processos de produção e de seus produtos. A FIESP organiza e patrocina o Prêmio Ecodesign – FIESP, realizado a cada dois anos, para estimular o desenvolvimento de produtos de maneira sustentável em todo o seu ciclo de vida, desde a escolha das matérias-primas, passando pelo processo produtivo, até a embalagem e a distribuição.

Em 2002, foi criada a comunidade virtual Ecodesign-net, fruto de uma parceria entre o Centro de Gestão Estratégica do Conhecimento em C&T, do Ministério das Relações Exteriores – CGECon, com a Associação Brasileira de Instituições de Pesquisa Tecnológica (ABIPTI). A Ecodesign-net possui hoje um universo de 145 membros de universidades, ONGs, empresas privadas, órgãos governamentais etc. e é uma referência no Brasil e no cenário internacional como importante rede de atores de ecodesign.

  • 3.3.1.8 SC 08 – Comunicação ambiental

As grandes empresas, particularmente nos países nórdicos e na Alemanha, começaram a ser pressionadas para publicar anualmente um relatório sobre seu desempenho ambiental. Não havia, entretanto, um modelo que facilitasse a comparação do desempenho ambiental de empresas dife- rentes. Por esse motivo, a ISO/TC 207 resolveu iniciar o desenvolvimento da norma internacional ISO 14063 (Comunicação ambiental – diretrizes e exemplos). Para isso, foi criado um novo grupo de trabalho, o WG 4. O objetivo é aprovar diretrizes sobre como comunicar o desempenho ambiental e outros aspectos ambientais das empresas, fornecendo exemplos. A ISO 14063 foi publicada em 2006.

  • 3.3.1.9 SC 09 – Mudanças climáticas

O Grupo de Trabalho do ISO/TC 207 sobre mudanças climáticas (WG 5) foi criado em 2002. O objetivo é desenvolver normas internacionais para a medição, monitoramento, comunicação e verifi cação das emissões e absorção de gases estufa, no âmbito de projetos e entidades:

»

ISO 14064 – Parte 1: Gases Estufa: especificação para quantificação, monitoramento e comunicação de emissões e absorção por entidades.

»

ISO 14064 – Parte 2: Gases Estufa: especifi cação para quantifi cação, monitoramento e comunicação de emissões e absorção de projetos.

»

ISO 14064 – Parte 3: Gases Estufa: especifi cação e diretrizes para validação, verifi cação e certifi cação.

As três normas foram publicadas em 2006.

Foi também criado o WG 6, sobre acreditação. Esse grupo de trabalho desenvolveu a norma ISO 14065:2007 – Gases de Efeito Estufa (GEE) ou Greenhouse Gases (GHG) – Requisitos para vali-

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Qualidade na Construção Civil

dação e verifi cação de organismos para uso em acreditação ou outras formas de reconhecimento. Tal norma foi publicada no Brasil como NBR ISO 14065:2012.

3.3.2 Relação e intenções das normas ISO 14000

As normas ISO 14000 são:

»

ISO 14001: Sistema de gestão ambiental – especifi cações para implantação e guia.

»

ISO 14004: Sistemas de gestão ambiental – diretrizes gerais.

»

ISO 14010: Guias para auditoria ambiental – diretrizes gerais.

»

ISO 14011: Diretrizes para auditoria ambiental e procedimentos para auditorias.

»

ISO 14012: Diretrizes para a auditoria ambiental – critérios de qualifi cação.

»

ISO 14020: Rotulagem ambiental – princípios básicos.

»

ISO 14021: Rotulagem ambiental – termos e defi nições.

»

ISO 14022: Rotulagem ambiental – simbologia para rótulos.

»

ISO 14023: Rotulagem ambiental – testes de metodologias para verifi cação.

»

ISO 14024: Rotulagem ambiental – guia para certifi cação com base em análise multicriterial.

»

ISO 14031: Avaliação da performance ambiental.

»

ISO 14032: Avaliação da performance ambiental dos sistemas de operadores.

»

ISO 14040: Análise do ciclo de vida – princípios gerais.

»

ISO 14041: Análise do ciclo de vida – inventário.

»

ISO 14042: Análise do ciclo de vida – análise dos impactos.

»

ISO 14043: Análise do ciclo de vida – migração dos impactos.

Organizações de todos os tipos estão progressivamente preocupadas em alcançar e demonstrar um desempenho ambiental adequado por meio do controle do impacto ambiental de suas atividades e produtos (bens e serviços), levando em conta suas políticas e objetivos ambientais. Isso é feito no contexto de uma legislação progressivamente mais exigente, do desenvolvimento de políticas econô- micas e outras medidas para promover a proteção ambiental e do aumento geral da apreensão das partes interessadas a respeito dos assuntos ambientais, inclusive do desenvolvimento sustentável.

Muitas organizações têm realizado “análises críticas” ou “auditorias”, para avaliar seus desem- penhos ambientais. Entretanto, essas “análises críticas” e “auditorias” por si próprias podem não ser sufi cientes para fornecer às organizações a garantia de que elas não só atingirão, mas que também continuarão atingindo as exigências legais e de sua política. Para serem efetivas, elas precisam ser con- duzidas dentro de um sistema de gestão estruturado e integrado com a atividade da gestão empresarial.

Espera-se que normas internacionais de gestão ambiental forneçam às organizações os ele- mentos de um sistema de gestão ambiental efetivo, que possa ser integrado com outros requisitos gerenciais, a fi m de auxiliar as organizações a alcançar objetivos ambientais e econômicos.

Essas normas, como outras normas internacionais, não são destinadas à criação de barreiras comerciais não tarifárias ou para incrementar ou mudar as obrigações legais das organizações. Elas

Normas ISO – Evolução e Descrição

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especifi cam os requisitos desse tipo de sistema de gestão ambiental e foram feitas para serem aplicá- veis a todos os tipos e tamanhos de organizações, bem como para se ajustar às diferentes condições geográfi cas, culturais e sociais. O sucesso do sistema depende do comprometimento de todos os níveis e funções da organização, especialmente da alta administração. Um sistema desse tipo habilita uma organização a estabelecer e avaliar a efetividade de procedimentos para estabelecer uma polí- tica ambiental, atingir os objetivos e a conformidade com estes, e a demonstrar essa conformidade para outros. O propósito geral dessas normas é apoiar a proteção ao meio ambiente e a prevenção da poluição em equilíbrio com as necessidades socioeconômicas. Deve ser notado que muitos dos requisitos podem ser alcançados simultaneamente ou retomados a qualquer tempo.

Há uma importante distinção entre essa especifi cação, que descreve os requisitos para a certi- fi cação/registro e/ou declaração própria de um sistema de gestão ambiental, e uma diretriz não cer- tifi cável, que se destina a fornecer uma assistência genérica a uma organização para implementar ou melhorar o sistema de gestão ambiental. A gestão ambiental abrange uma ampla faixa de elementos, inclusive aqueles com implicações estratégicas e competitivas. A demonstração da implementação bem-sucedida da norma poderá ser utilizada pela organização para garantir às partes interessadas que um sistema de gestão ambiental adequado está sendo aplicado.

A norma de especifi cação contém somente os requisitos, que podem ser objetivamente audi- tados para fi ns/propósitos de certifi cação/registro e/ou propósito de declaração da própria empresa.

As organizações que necessitem de diretrizes mais genéricas, em uma faixa mais abrangente dos itens do sistema de gestão ambiental, devem basear-se na ISO 14004 (Sistemas de Gestão Ambiental – Diretrizes gerais em princípios, sistemas e técnicas de suporte). Deve-se notar que esta norma não estabelece requisitos absolutos para o desempenho ambiental além do compro- misso, dentro da política, com o cumprimento da legislação e regulamentos ambientais aplicáveis e com a melhoria contínua.

Assim, duas organizações com atividades similares, mas com diferentes desempenhos ambien- tais podem, ambas, estar cumprindo seus requisitos. A adoção e a implementação de um conjunto de técnicas de gestão ambiental de uma maneira sistemática podem contribuir para ótimos resul- tados das partes interessadas. Entretanto, a adoção dessa norma de especifi cação não garante, por si só, ótimos resultados ambientais. A fi m de se atingir os objetivos ambientais, o sistema de gestão ambiental deve encorajar as organizações a considerar a implementação das melhores tecnologias disponíveis quando apropriadas e onde economicamente viáveis. Além disso, deve ser considerada a relação custo-benefício dessa tecnologia.

Essas normas não têm a intenção de indicar nem tampouco inclui requisitos para os aspec- tos de saúde ocupacional e gestão da segurança (do trabalho); entretanto, procura não desencorajar uma organização a desenvolver a integração entre esses elementos do sistema de gestão. De qualquer maneira, o processo de certifi cação/registro será aplicável apenas para os aspecto do sistema de ges- tão ambiental.

3.3.3 Denições e diretrizes para uso da NBR ISO 14001

A norma NBR ISO 14001 (Sistemas de gestão ambiental – especifi cação e diretrizes para uso) apresenta as seguintes defi nições:

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»

Melhoria contínua: processo de aperfeiçoamento do sistema de gestão ambiental para alcançar melhorias no desempenho ambiental global alinhadamente com a política ambiental da organização. Observação: o processo não precisa ser realizado simultanea- mente em todas as áreas de atividade,

»

Ambiente: cercanias nas quais a organização opera, incluindo ar, água, terra, recursos naturais, fl ora, fauna, seres humanos e suas inter-relações. Observação: cercanias, neste contexto, estende-se desde dentro da organização até ao sistema global,

»

Aspecto ambiental: elemento das atividades, dos produtos ou dos serviços de uma organi- zação que pode interagir com o ambiente. Observação: um aspecto ambiental signifi cativo é aquele que tem ou pode ter um impacto ambiental signifi cativo,

»

Impacto ambiental: qualquer mudança no ambiente, quer adversa, quer benéfi ca, inteira ou parcialmente resultante das atividades, produtos ou serviços de uma organização,

»

Sistema de gestão ambiental: aquela parte do sistema de gestão global que inclui a estru- tura organizacional, o planejamento de atividades, as responsabilidades, as práticas, os procedimentos, os processos e os recursos para desenvolver, conseguir implementar, ana- lisar criticamente e manter a política ambiental,

»

Sistema de auditoria da gestão ambiental: um processo de verifi cação sistemático e docu- mentado para, objetivamente, obter e avaliar evidências para determinar se o sistema de gestão ambiental da organização está de acordo com o critério de auditoria ambiental estabelecido pela organização, e realizar a comunicação dos resultados desse processo à gerência,

»

Objetivo ambiental: metas ambientais globais, quantifi cadas onde praticável, resultantes da política ambiental, que uma organização estabelece para si própria alcançar,

»

Desempenho ambiental: resultados mensuráveis do sistema de gestão ambiental, relacio- nados com o controle da organização sobre os aspectos ambientais, baseados na sua polí- tica, seus objetivos e metas,

»

Política ambiental: declaração da organização sobre suas intenções e seus princípios rela- cionados com seu desempenho ambiental global, que provê uma estrutura para ações e para o estabelecimento dos seus objetivos e metas ambientais,

»

Meta ambiental: requisito detalhado de desempenho, quantifi cado onde praticável, apli- cável à organização ou à parte dela, resultante dos objetivos ambientais e que necessita ser estabelecido e alcançado de maneira a permitir atingir aqueles objetivos,

»

Parte interessada: indivíduo ou grupo relacionado ou afetado pelo desempenho ambiental de uma organização,

»

Organização: empresa, corporação, fi rma, empreendimento, instituição ou parte ou com- binação destas, quer incorporada, quer não, pública ou privada, que tenha suas próprias funções e administração. Observação: havendo mais de uma unidade de operação, uma única pode ser defi nida como organização,

» Prevenção da poluição: uso de processos, práticas, materiais ou produtos que evitam, reduzem ou controlam a poluição, os quais podem incluir reciclagem, tratamento, modi- fi cações de processo, mecanismos de controle, uso efi ciente de recursos e substituição de

Normas ISO – Evolução e Descrição

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materiais. Observação: os benefícios potenciais da prevenção da poluição incluem a redu- ção de impactos ambientais adversos, melhoria de efi ciência e redução de custos,

Tais normas internacionais são aplicáveis a qualquer organização que deseja:

  • a) implementar, manter e melhorar o sistema de gestão ambiental;

  • b) certifi car-se de estar em conformidade com sua política ambiental declarada;

  • c) demonstrar esta conformidade a outros;

  • d) solicitar certifi cação/registro do sistema de gestão ambiental por uma organização externa;

  • e) assumir o compromisso e fazer declaração de conformidade com a norma.

Amplie seus conhecimentos A rotulagem ambiental ou “selo verde” é a certificação de produtos adequados ao
Amplie seus conhecimentos
A rotulagem ambiental ou “selo verde” é a certificação de produtos adequados ao uso, que apresentam menor impacto no
meio ambiente em relação a outros produtos comparáveis disponíveis no mercado.
Para apender mais sobre selo verde acesse: <http://www.seloverde.org.br/> e <http://www.ecologflorestal.com.br /
sub/81.av> .

3.4 OHSAS 18000 – saúde e segurança do trabalhador

A Occupational Health and Safety Assessment Services (Serviços de Avaliação de Saúde e Segurança Ocupacional – OHSAS) é um conjunto de normas internacionais que consiste em diretri- zes de um sistema de gestão, assim como a ISO 9000 e ISO 14000, porém com o foco voltado para a saúde e a segurança ocupacional. Em outras palavras, são ferramentas que permitem a uma empresa atingir e, sistematicamente, controlar e melhorar o nível do desempenho da saúde e segurança do trabalho por ela mesma estabelecido.

As normas que compõem o sistema OHSAS 18000 são:

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OHSAS 18001:2007: diretrizes para a implementação da OHSAS,

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OHSAS 18002:2008: sistemas de gestão da segurança e saúde no trabalho.

Ess as especifi cações da OHSAS fornecem os requisitos para um sistema de gestão da Segu- rança e Saúde Ocupacional (SSO), permitindo a uma organização controlar seus riscos de aciden- tes, suas doenças ocupacionais e melhorar seu desempenho. Elas não prescrevem critérios espe- cífi cos de desempenho da SSO nem fornecem especifi cações detalhadas para o projeto de um sistema de gestão.

Essas especifi cações da OHSAS se aplicam a qualquer organização que deseje:

  • a) estabelecer um sistema de gestão da SSO para eliminar ou minimizar riscos dos funcio- nários e de outras partes interessadas que possam estar expostos aos riscos de SSO as- sociados a suas atividades;

  • b) implementar, manter e melhorar continuamente um sistema de gestão da SSO;

  • c) assegurar-se de sua conformidade com sua política de SSO defi nida;

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Qualidade na Construção Civil

  • d) demonstrar tal conformidade a terceiros;

  • e) buscar certifi cação/registro do seu sistema de gestão da sso por uma organização exter- na; ou

  • f) realizar uma autoavaliação e emitir auto dec laração de conformidade com esta espe- cificação.

A certifi cação pela OHSAS 18000 acentua a abordagem pela minimização do risco, procu- rando reduzir, com sua implementação, os acidentes e as doenças do trabalho, os tempos de paragem por esses motivos e, consequentemente, os custos econômicos e sobretudo humanos. Identifi cam-se ainda como possíveis benefícios da implementação de um sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho, como:

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integração das responsabilidades de higiene, segurança e saúde ocupacional em todas as atividades da organização;

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adoção de boas práticas em saúde e segurança do trabalho;

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manutenção de um meio ambiente de trabalho seguro;

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redução dos riscos de acidentes e incidentes nas operações;

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evidenciar o funcionamento da saúde e segurança na empresa;

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permitir a existência de um sistema de gestão integrado;

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