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‘ovosr2018 prabinow Grupo: Ana Trivellato Rogério Jorge Maria Cristina Fedrizzi RABINOW, Paul - Reflexiones sobre un Trabajo de Campo en Marruecos Ed. Jiicar Universidad, Madrid, 1992 “Reflexiones sobre un Trabajo de Campo en Marruecos", de Paul Rabinow - professor de antropologia na universidade da Califérnia, em Berkeley - traz a narrativa sobre as experiéncias vividas em um de seus primeiros trabalhos de campo, ‘ocorrido no Marrocos, no final da década de 1960. A chamada critica da etnografia 6, sem diivida, uma das principals preocupagdes que autor tem ao relatar sua vivéncia no norte do continente africano. A andlise dos processos de investigagao tem gerado, nos tiltimos anos, uma acalorada fonte de discussées dentro da antropologia e etnografia. O trabalho final etnografico tem dividido sua importncia com os relatos sobre as experiéncias vividas nos trabalhos de campo. Tal preocupagao tem origem no proprio relativismo que a ciéncia antropolégica apresenta desde o principio do século. Rabinow busca responder a um dos principals problemas da realidade da cléncia social contemporanea que é a descrigo, consciente de que os "varios possiveis discursos" se colocam como um novo desafio do qual a antropologia do pode se escusar. Corroborando com este mesmo pensamento, Catedra aponta no prélogo deste mesmo livro que ‘ele ver a ser um "exemplo definitive de que o siléncio da escritura etnografica se rompeu (p.9). Na parte introdutéria, o autor aponta seu estado de espirito quando deixa os Estados Unidos e tem pela frente sua nova provagao ou mesmo 0 rito de passagem para ingresso na vida académica. Partiré para a Africa, especificamente para a branca e islamizada Marrocos, onde desenvolvera pesquisa de campo sobre religido e atividades comerciais de populagdes camponesas da regido do Allas. Este novo desafio para ele tem uma conotagao muito especial, uma vez ‘que, seus colegas de departamento consideram (também é o grupo no qual esta inserido) que quem nao faz trabalho de ‘campo ndo pode ser considerado um antropélogo auténtico. Este momento é tido por ele e seus colegas como o divisor de aguas, onde tudo ira mudar ... Entretanto, Rabinow passa a se questionar © a seus colegas por qué jamais alguém escrevera sobre esta tao significativa experiéncia: do antes e depois do trabalho de campo. Invariavelmente a resposta era que “existem outras coisas que s4o realmente mais importantes". O autor propée-se entao a relatar suas experiéncias e reflexdes sobre sua vida coletando informagdes de campo no Marrocos. Para tanto, o autor questiona aqueles que consideram que a antropologia 6 sustentada pela experiéncia de campo. Para ele 0 corpo tedrico, os dados objetivos da ciéncia, que he dé alicerce e nao o trabalho de campo. Dentro da propria observaco participante existe a idéia de que a experiéncla em campo nao deve aparecer conjuntamente aos resultados da investigagao. Porém, Rabinow sustenta que toda a atividade cultural é experimental, que o trabalho de campo é um tipo especifico de atividade cultural, e & precisamente esta atividade que define a disciplina. Seu livro trata, assim, de refletir sobre os problemas do sujeito ou etnégrafo interpretando o outro. As partes apresentadas a seguir retratam os aspectos mais relevantes para a discussao proposta no paragrafo anterior & que foram divididas pelo autor entre estes capitulos: Vestigio de um Colonialismo Agonizante Sua entrada no terrtério marroquino ocorreu, como a de qualquer outro estrangeiro que tem pouca famniliaridade com 0 local, da mesma forma como ocorre com os turistas ocidentais. Dirigiu-se primeiramente a cidade de Sefrou, hospedando-se em um hotel decadente com caracterislicas francesas. Estas caracteristicas encontram-se por todos os lugares no Marrocos. Entretanto, deve-se dizer que esta colonizagao é bem menos evidente que na Argélia, © primeiro contato direto do autor com a populagdo de Sefrou acontece via Richard, 0 hoteleiro onde se hospeda Richard deixara a Franga nos anos 1950 e encontrou na Africa, a principio, o lugar perfeito para quem na juventude buscava aventuras. A aproximacao ao hoteleiro trouxe a consciéncia de que, cada vez menos, a Franca estava presente naquele pais. Esta pessoa extremamente afavel © acessivel expunha um grupo que se extinguia. "Richard era uma reminiscéncia auténtica de um colonialismo agonizante "(p. 34). Estava s6 em uma sociedade que ndo mais existia e, para o etnégrafo colocava-se como um marginal, uma vez que $6 possula interesse em relatar os tempos aureos @ as Mazelas da colonizagao. Entretanto, as informagdes vindas dele foram posteriormente reavaliadas, ja que o aspecto marginal do outro pode ser colocado como vantagem no recolhimento de informagées. Rabinow vé as personagens itp: antropologia.com.brftipolantre-posipesquisadecampolprabinow.him 48 ovosr2018 prabinow marginais como informantes privilegiados porque tém a oportunidade de ver sua propria sociedade de "fora", com olhar mais critico que outros. Richard nunca aprendeu drabe e jamais ampliou seu leque de relagdes aqueles que sao hoje conhecidos como pied noir. Produtos Embalados ‘Aqui o autor aponta seu primeiro contato com um marroquino, seu professor de érabe. Nao conhecer e dominar o idioma do grupo que se observa ¢ tido como um aspecto extremamente limitante para a execucao do trabalho etnogréfico. Para Rabinow este passou a ser um de seus primeiros grandes problemas na estada em campo. O fantasma do colonialismo decadente, que nao conhecia a cultura e 0 idioma local se materializava em Richard e em muito 0 afigia, Seu primeiro professor de arabe era um comerciante razoavelmente préspero, Ibrahim possuia uma barraca de produtos enlatados e periédicos que servia ao abastecimento da populagdo européia de Sefrou. O comerciante conhecia também 0 francés e tornou-se intérprete oficial durante os anos finals do protetorado, Ibrahim péde ser colocado como um representante particular da saciedade de Sefrou. O autor o considerava ao mesmo tempo “tradigao e modemidade”. Isso porque o intérprete, apesar de ter sido educado na cultura e filosofia francesa, Jamais abandonou suas origens. Tinha muito orgulho dela ¢ assim se sentia ensinado-a a um norte americano. Por outro lado, transitava na fronteira, com muita desenvoltura, pelas duas sociedades. Encontrou ali campo proficuo para 0 desenvolvimento de sua vida e de sua prépria carreira. © autor aponta que, como pessoa instruida, seu professor entendia 0 que um antropélogo fazia ali. Sentia-se ttl © orgulhoso de suas tradigées. Entretanto, apesar da boa vontade de Ibrahim, o dominio da lingua arabe passou a ser, ouco a pouco, motivo de grandes preocupages para o antropélogo. Os métodos de ensino, traduzidos diretamente do francs mostraram-se extremamente ineficazes. ‘Aos poucos, a insatisfagdo torna-se cada vez mais presente na relagao professor — aluno ou entre 0 outro e 0 etnégrafo. Rabinow percebe que Ibrahim & muito resistente ao ensino da lingua. Como outros povos, os érabes percebem sua lingua como meio direto de acesso a sua identidade cultural. O imperialismo europeu foi responsavel pela dominacao de varios aspectos da vida norte-africana: economia e a estrutura fundiéria. A lingua arabe entéo, é uma das dnicas vias responsaveis por manter simbolicamente a integridade e a identidade cultural deste povo. Dessa forma, o professor resistia a apresentar seu mundo e, por conseguinte, sua cultura. © primeiro encontro com 0 outro é visto pelo autor como um grande contratempo e, de certa maneira como covarde & preconceituoso. Ibrahim viaja com Rabinow para Marraquesh e lA tem-se uma seqiéncia de acontecimentos que poderiamos chamar de "saia justa". O professor de arabe 0 testou até seu limite em um episédio para 0 pagamento da hospedagem. Entretanto, o que mais the chamou a atengao nao foi o préprio contratempo e sim o "estar de frente com 0 outro”. Apés © pequeno incidente © antropélogo reavaliou sua relacéo com Ibrahim. A tipificagdo feita foi errada e preconceituosa ja que foi fazer antropologia para procurar o outro, porém ao se deparar com ele ficou chocado. Este ‘choque o fez recomegar uma reconceitualizagéo sobre categorias sociais © cullurais. Podemos dizer que foram exatamente estas reconceitualizagées um de seus objetivos no Marrocos, mas diante das rupturas o mesmo se sentia bastante incomodado. Ali: um Marginal entre os Seus Mais uma vez diante de um marginal dentro de seu grupo, o autor exalta as qualidades que mais Ihe apetecem quanto a um bom informante: Ali era paciente, curioso, muito criativo, sensual e perceptivo. © novo guia mostrou-se ser, além de excelente guia, um primeiro contato mais intimo © amistoso do autor com um marroquino. Por ser extremamente critico ao modo de vida de seus companheiros de vila, All era considerado por muitos um maldito, apesar de suas qualidades no curandeirismo. Por outro lado, tinha algum envolvimento com a prostituigo local, do qual o texto nao nos revela maiores detalhes. Os primeiros encontros entre os dois ocorriam na tenda de um amigo de Ali, Soussi, localizada no bairro de Mellah. Neste local o autor tem seu primeiro contato com o significado do cha, que se bebe a todo tempo no Marrocos. Além do mais, estar localizado no coragao de uma zona comercial de uma cidade antiquissima dava uma certa trangiilidade © famillaridade que o antropélogo nova-iorquino ha tempos almejava. Cabe ainda relevar alguns aspectos relevantes que a vivéncia com Ali proporcionaram: 1 - a dialética existente entre a reflexao e o imediatismo como importante qualidade que um etndgrafo deve estar ciente de sua existéncia. Deve-se rapidamente reconhecer as experiéncias novas e a conseqiiente normalizaco. itp: antropologia.com.brftipolantre-posipesquisadecampolprabinow.him 28 ovosr2018 prabinow 2- Suas antigas categorias de andlise tiveram que se modificar quando entrevistou Ali a respeito de seus métodos de cura, afinal ele nada conhecia sobre a "ndo ciéncia® que é o curandeirismo. 3 - Percepeao de que o informante tem sua vida transformada quando passa a, cada vez melhor, representar seu mundo para o etnégrafo. O informante reflete mais profundamente e auto analisa sua sociedade. 4 - Inicio de um processo dialético de trabalho de campo, onde nem o sujeito, nem o objeto permanecem estaticos. Criou-se entre os dois um terreno de experiéncias e compressdes construido mutuamente, Conhecer os pormenores da cultura local foi, muitas vezes, penoso para Rabinow. O significado do anfitriao no mundo arabe é extremamente importante e sé foi descoberto depois de alguns mal entendidos. Por outro lado, estes atritos corriqueiros sempre proporcionaram um estreitamento dos lagos de amizade existentes. As possibilidades de comparagées sensilivas entre as experiéncias anteriores vividas pelo antropélogo em seu mundo cotidiano e as novas no Marrocos, algumas vezes parecem ser a Unica maneira de analisar fatos aparentemente estranhos e que em nada, aparentemente, se assemelham. Pode-se notar esta precariedade analitica quando o autor ‘compara a sensagao vivida durante a "velada" (que se tratava de um culto especial que o antropdlogo testemunhou na mesquita de All.) e 0 estado de relaxamento que ele obtinha ouvindo uma apresentagao do saxofonista John Coltrane ‘em sua cidade natal, A Entrada Neste capitulo temos uma nova virada nos rumos no trabalho etnografico de Paul Rabinow. Atormentado e muito ansioso ‘com seus Ientos progressos na lingua arabe ele decide mudar-se de Sefrou e adentrar-se em uma comunidade ‘camponesa arabe. O local escolhido foi Sidi Lahcen Lyussi, por apresentar um grande centro religioso tradicional da regido do Médio Atlas, com festividade que envolvia muito da populagao local, além de um complexo sistema ecolégico ‘que proporcionava uma grande diversidade na produgo agricola e mesmo na vida social © escolha de Sidi Lahcen, posteriormente, se mostrou um tanto quanto prablematica em virtude de sua proximidade com Ali. Boa parte da populagao local nao 0 via com bons olhos porque ele nao assistia adequadamente sua esposa, so relacionava com prostitutas e estava ligado a uma irmandade religiosa considerada marginal. Dessa forma, 0 antropélogo apela ao apoio da lideranga politica local que poderia dar alguma respeitabilidade. Entretanto, o trabalho continua a ser visto de maneira desconfiada. Por que, perguntavam os moradores de Sidi Lahcen, um rico norte- americano viveria em um pobre povoado rural, s6, em uma casa de adobe, quando poderia viver em uma vila como Sefrou? O que temos a ganhar com ele 7 As possiveis respostas dadas por Rabinow aos moradores de Sidi Lahcen seriam as mais dificeis de se encontrar. No processo evidente de troca, 0 que o antropélogo tem a oferecer, a principio, parece muito pouco aos seus observados. Todavia, nota-se que a "gente dos livros" dentro do universo arabe-islimico goza de um grande prestigio e um status ‘especial, Mesmo assim a desconfianga, apesar de amenizada com o tempo, jamais deixou de existir. Tal davida, muitas vvezes, originava-se em seu proprio trabalho que até chegou a ser confundido com o de missionérios cristdos. Nota-se também que 0 estranho norte-americano, com o passar do tempo, tomma-se "propriedade” da comunidade. Ele serd alvo de disputas para receber as mais fiéis informagées, 0 que toma a posig&o de seu informante do momento um tanto quanto delicada. E dentro de um desse contexto que se insere seu primeiro informante em Sidi Lahcen. Mekki foi designado pela comunidade para informar a "verdadeira” histéria do povoado. Era jovem e sem trabalho fixo mas sem qualquer das qualidades de um bom informante, apontadas nas linhas anteriores. Felizmente encontrou trabalho em ‘outra regido e desligou-se de Rabinow, para seu allvio. © proximo auxiliar foi Rashid, filho de um préspero comerciante local, desta vez possuidor de uma ampla gama de qualidades para um bom informante, além de, mais uma vez, estar na marginalidade social. Seu novo informante era acusado pela comunidade de ser um jovem delingiiente, de agredir fisicamente seu pai e ser ma influéncia, Portanto, estar com ele significava para Rabinow ter uma série de outros problemas como os referentes a All. Apesar do agucado espirito critico do rapaz, o mesmo foi afastado do pesquisador pela possibilidade de revelar informagées inconvenientes ‘a respeito comunidade local. Informacao Respeitével ‘Abd al-Malik bem Lahcen, foi o mais respeitavel de todos os informantes que 0 autor teve em Sidi Lahcen. Chefe de familia e ex-professor de religido, desenvolveu um profundo édio ao trabalho bragal que esporadicamente exercia, Malik, apesar de ndo ser mais um professor do Cordo (fai) ainda possula um certo status na comunidade de Sidi Lahcen 0 que Ihe dava uma personalidade um tanto quanto arrogant. itp: antropologia.com.brftipolantre-posipesquisadecampolprabinow.him 35 ovosr2018 prabinow © Fai possula as boas caracteristicas de um informante, enumeradas por diversas vezes no decorrer do texto, entretanto, algumas outras devem ser relevadas: era muito disciplinado, persistente e metédico. As informacées que vieram dele foram as mais precisas e Malik era amplamente aprovado pela populacao de Lahcen. Para Rabinow os sinais de tal aprovagdo se mostravam mais presentes na medida em que os moradores do povoado Ihe pediam mais mais favores. Estes favores mostraram-se, em um primeiro momento, allamente felizes para o autor mas com 0 tempo tornaram-se enfadonhos e dificeis de cumpriz. Em algumas outras ocasiées chegaram a atrasar 0 desenvolvimento do proprio trabalho etnografico. Seu carro era o alvo da cobiga e de verdadeira necessidade do povo. O antropdlogo passou, paulatinamente, a servir de motorista aos moradores de Sidi Lahcen. Volta e meia um adoentado ou um novo amigo batia a sua porta para ihe pedir para leva-lo a Sefrou. Este problema s6 sera contomado quando ele vende 0 carro. Possuir 0 carro e ser aceito pela comunidade local leva o autor a, cada vez mais, se adentrar naquela sociedade. Passa endo, a emitir opiniées sobre a vida cotidiana e, dessa forma, passa a integrar a vida cotidiana. Este proceso de integragao social serd 0 novo centro de reflexdo de Rabinow. Ele se percebe como um "nado comum" e que suas opiniSes sua prépria presenga tem um importante papel transformador na sociedade local. Dessa maneira, podemos até mesmo concluir que o antropélogo, definitivamente, tem uma importancia para seus observados. Cabe a ele avaliar como serd a repercussao desta influéncia, Em campo, Rabinow também teve a oportunidade de contrapor a imagem que ele fez do observado © a que 0 observado fez de si mesmo. Quando colocou esta imagem diante dos olhos de Malik, a principio o mesmo ndo acreditou, porém com sucessivas conversas o Fai comega a se ver de outra maneira. Pode-se dizer que através das perguntas 0 antropélogo propicia ao informante e, em titima andlise, ao grupo pesquisado uma auto interpretagao. A Transgresséo Neste capitulo, mais uma vez, 0 autor expée as disputas pelo controle da verdade, existente entre os diferentes grupos de Sidi Lahcen, Se por um lado Malik, com sua disciplina e seu status, representava a verso oficial do povoado, de outro, All era o responsavel pela critica e a discérdia. A mediagao e, até mesmo, a consciéncia desta disputa pela interpretagao do grupo 6 muito estimulante para Rabinow. Auto Reconhecimento Rabinow, reconhece que sua influéncia dentro de Sidi Lahcen muito grande. O vilarejo uma cidade de peregrinacao, ali nasceu um santo mugulmano e no mesmo local ainda residia uma linhagem de seus descendentes. O autor julga que seria necessario coletar maiores informagdes sobre este santo. Entretanto, seu trabalho é enormemente dificultado, porque os moradores e descendentes do santo resistiam muito em transmitir tais informagées. Sentiam-se incomodados ‘om falar, Partes da histéria de sua vida, seus feitos e causas de seu carater etéreo eram ocultados. Gradativamente, percebe-se que o incémodo € gerado pela ignordncia. Os filhos do santo ignoravam a origem e a historia de seu antepassado. "Neste caso, ndo que as pessoas estivessem resistindo ou ocultando algo, sendo que se ‘sentiam incomodadas por sua ignorancia sobre o tema” (p.127). Dessa forma, os habitantes de Lahcen dao-se conta da grande ironia que se instala naquele momento: um estrangeiro pagao 6 responsdvel por fazer as perguntas sobre seu legado cultural. Em outro momento, reuniram-se para jantar 0 norte-americano @ os mais poderosos e bem sucedidos homens das sub-linhagem de Malik e por isso, descendentes do santo. Os hamens, que segundo o autor eram capazes de ler 0 arabe cldssico com facilidade confessaram que pouco sabiam sobre a vida do santo, Mais uma vez 0 antropélogo, com seus questionamentos é responsavel por uma auto-andlise e auto-reflexdo no grupo que pesquisa A Amizade Ao final de sua estada no Marrocos seu novo meio de obter informacées sobre a aldela na qual etnografava no foi ‘exatamente aquilo que os antropélogos chamam de informante. Driss bem Mohammed era um jovem que por algum tempo transitou pela vida de Rabinow, porem sem grande aproximagao. Jamais aceitou ser seu informante, apesar da constante insisténcia do pesquisador norte americano. Por outto lado, essa nova relago foi, pelo préprio autor definida, como de crescente amizade e por isso muito distinta de todas as anteriormente vividas. Pode-se dizer que até mesmo as informagoes de interesse etnogratico obtidas de seu amigo eram diferentes das oriundas de informantes remunerados. itp: antropologia.com.brftipolantre-posipesquisadecampolprabinow.him 45 ovosr2018 prabinow Mohammed estava totalmente integrado a cultura marroquina, considerava a figura de seu antepassado, o santo de Sidi Lahcen como guia para o mundo moderno. Nesta mesma linha de pensamento, cria na essencial e incondicional superioridade do Isla Os fortes lagos de amizade conjuntamente & vistio etnocéntrica de seu povo e de sua religidéo nao contribuiram para uma transformacao na percepgao que Mohammed fazia de seu companheiro. Diz Rabinow: "Eu era para ele um membro rico de uma civilizagao dominante sobre a qual tinha muitas reservas.” Todavia, o antropélogo também possuia a sua acida visdo sobre 0 tradicionalismo seu amigo: "Para mim ele lutava para reviver, nele mesmo, um universo cultural em que eu ja nao habitava e que, em titima instancia, nao podia apoiar.” (p.148). Tais diferencas substanciais dentro de cada um tera reflexo da profunda crise no sustento das tradicdes culturais que os dois carregavam consigo. Era evidente que os amigos tinham de maneira clara esta ambigtiidade e isto Ihes servia como um combustivel a reflexdo e a renovagao, Ambos tinham com orgulho que seu amigo era outro em virtude de seus passados. Este passado Ihes proporcionava possibilidades de interpretagdes diferentes dos outros mundos. Porem, "o didlogo s6 era possivel a partir do momento ‘em que reconheciamos nossas diferencas, quando nos mantiamos leais, de forma critica, aos simbolos que nossas tradigdes nos proporcionavam. Ao fazé-lo iniciamos um processo de troca.” (p151) Concluséo “A oultura interpretagao. Os feitos do antropdlogo, o material que foi encontrar em campo ¢ em si mesmo interpretagao". (p.141) Esta afirmaco se aplica a dois niveis: o do antropélago @ do informante. O informante deve interpretar sua propria cultura @ a do outro @ o mesmo acontece com o antropélogo. Ha também que se considerar 0 processo de tradugao, que 6 uma das tarefas @ habilidades mais importantes, basica num trabalho de campo. Essa tradugdo ndo $6 acontece com a capacidade de se manusear o idioma, como da propria cultura. A antropologia é uma ciéncia interpretativa cujo objeto de estudo 6 a humanidade abordada como o “outro”. (..)"ndio hd uma posigao de privilégio, nem perspectiva absoluta, nem forma valida que possa eliminar a consciéncia de nossas atividades e as dos demais". Seria muito simplista pensar que pelo fato de os antropdlogos estudarem os sistemas subconscientes de forcas determinantes, que teriam eles a chave da verdade nas maos. Isto seria mera pretensao. O proceso de informagao passa por varias etapas. O informante primeiro deve tornar-se auto-reflexivo e consciente de certos aspectos de sua vida, que nao havia sido anteriormente. Estes informantes vao gradualmente aprendendo a interpretar as perguntas do antropélogo e a informar. A informagao nao é processada em laboratorio, mas num ambito de interagdo interpessoal que é um carater intersubjetivo entre sujeitos. As investigagdes passam por rupturas, siléncios, entraves. Mas tais rupturas sao altamente reveladoras: séo pegas decisivas para o futura da investigagdo. Sempre que hé uma ruptura, ha um ciclo recomegando, porém com uma nova Profundidade, © trabalho de campo é um proceso de construgao intersubjetiva. Isto implica na existéncia de mais de um sujeito, cada qual em seu lugar. Os sujellos em questo ndo compartlham de um mesmo conjunto de assuntos, experiéncias ou tradigées, itp: antropologia.com.brftipolantre-posipesquisadecampolprabinow.him 35