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MINISTÉRIO DA FAZENDA

PROCURADORIA-GERAL DA FAZENDA NACIONAL


PROCURADORIA REGIONAL DA FAZENDA NACIONAL 4ª REGIÃO
DIVISÃO DE DEFESA DE 1ª INSTÂNCIA – DIDE1

Excelentíssimo(a) Senhor(a) Juiz(a) Federal da 1ª Vara Federal de Capão da Canoa –


RS

Processo: 50016477420174047121
Autor: CRIPISOS COM DE PISOS E AZULEJOS
Réu: Fazenda Nacional

A UNIÃO, pessoa jurídica de direito público interno,


neste ato representada pela Procuradoria-Geral
da Fazenda Nacional, órgão do Ministério da Fa-
zenda e de direção superior da Advocacia-Geral da
União, por seu Procurador firmatário, com mandato
ex lege, vem, respeitosamente, à presença de Vos-
sa Excelência, nos autos do processo em apreço,
para apresentar sua

CONTESTAÇÃO,

fundada nas razões de fato e de direito a seguir de-


duzidas.
I – DOS FATOS

Trata-se de ação anulatória cumulada com repetição de indébito, ajuizada


sob o procedimento comum por CRIPISOS COMERCIO DE PISOS E AZULEJOS - ME, em
que se pretende, em tutela de urgência, a suspensão da exigibilidade dos débitos tributários
anteriormente parcelados, mantendo a requerente no SIMPLES NACIONAL, enquanto se dis-
cute a redução proporcional dos valores abrangidos pela decadência e/ou pela prescrição,
ou seja: deverá ser deduzido do parcelamento o quantum correspondente ao período que
decaiu/prescreveu, o qual totaliza o valor de R$ +- 100.000,00 de um total de R$ 118.610,18,
ou seja: em torno de 90% é INDEVIDO.

Alega a decadência e/ou prescrição dos débitos que foram parcelados pelo
SIMPLES NACIONAL.
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A União entende que as assertivas consignadas pela autora não reúnem


condições de prosperar, conforme restará a seguir demonstrado.

II – FUNDAMENTAÇÃO

O cerne da matéria consiste, sinteticamente, em saber se ocorreu a prescri-


ção dos débitos. Sem razão a parte autora, conforme será demonstrado a seguir.

Da Prescrição

Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, a legislação dispensa


todas as formalidades de constituição do crédito tributário.

Dispõe, o Decreto-Lei 2.124/84, que autorizou o Ministro da Fazenda a


instituir obrigações acessórias relativas a tributos federais que “o cumprimento da obrigação
acessória, comunicando a existência de crédito tributário, constituirá confissão de dívida e
instrumento hábil e suficiente para a execução do referido crédito” (art. 5º).

Com base neste Decreto foi instituída a Declaração de Contribuições e


Tributos Federais/DCTF (Portaria MF 118/84 e instrução normativa 129/86). A partir de
então, os débitos dos tributos sujeitos a lançamento por homologação, uma vez calculados
segundo as regras próprias do tributo e informados ao órgão arrecadador, se não forem
pagos no vencimento, poderão ser inscritos em dívida ativa e providenciada a execução
fiscal, sem necessidade de qualquer procedimento de fiscalização ou notificação ao
contribuinte.

Por este motivo, não se há que falar em decadência.

O mesmo ocorre quando a constituição se dá apenas com a entrega da


declaração de rendimentos ou GFIP ou, ainda, como no caso dos autos, através de
confissão de débito (termo de parcelamento – SIMPLES NACIONAL).

Portanto, temos que o débito mais antigo possui vencimento no ano de 2008
e como o débito foi constituído através de declaração (parcelamento) em 2013, logicamente
que não transcorreu o prazo decadencial quinquenal do art. 173 do CTN (início do prazo em
1º de janeiro do ano seguinte – 2009 – até 31/12/2013).

Apenas para complementar, somente a partir desta data (da constituição


definitiva, em 09/01/2013), ou seja, da entrega da declaração, é que teria início o prazo
prescricional previsto no artigo 174 do CTN, o qual dispõe que A ação para a cobrança do
crédito tributário prescreve em 5 (cinco) anos, contados da data da sua constituição
definitiva.

No caso dos autos, o executado efetuou pedido de parcelamento em 2013,


conforme comprovação do relatório anexo (consulta no site do SIMPLES NACIONAL - e
evento 17).
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Posteriormente, entretanto, foi rescindido o parcelamento, em 21/02/2015,


data em que foi reiniciado o prazo prescricional. Na hipótese sub judice, não transcorreram 5
(cinco) anos desde esta data.

Do Simples Nacional – Lei Complementar n.º 123, de 2006

A partir da vigência da Lei Complementar n.º 123/2006 – diploma legal que


instituiu o Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos
pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples Nacional) – ocorreram altera-
ções no sistema Simples, que pretende concentrar e facilitar o cumprimento das obrigações
tributárias das Micro e Pequenas Empresas. Deixa de existir o Simples Federal e passa a ter
vigência o Simples Nacional.

O Simples Federal possuía, entre outras características, a da unificação


em uma única alíquota dos tributos federais administrados pela Secretaria da Receita
Federal do Brasil (unificação das extintas Secretaria da Receita Federal e Secretaria da
Receita Previdenciária) podendo, por convênio, incluir tributos estaduais e municipais. As-
sim, aquele extinto sistema era administrado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil
(RFB), por convênio podendo incluir outros entes tributantes.

Já o Simples Nacional trata-se de outro instituto, mais amplo, visto que os


débitos por ele englobados também abrangem tributos cuja competência para instituição é
dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Explicitando o exposto, reproduz-se ex-
certo do art. 13 da Lei Complementar n.º 123/2006:

“Art. 13. O Simples Nacional implica o recolhimento mensal, medi-


ante documento único de arrecadação, dos seguintes impostos e
contribuições:
I – Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica - IRPJ;
II – Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, observado o dis-
posto no inciso XII do § 1º deste artigo;
III – Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL;
IV – Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – CO-
FINS, observado o disposto no inciso XII do § 1º deste artigo;
V – Contribuição para o PIS/Pasep, observado o disposto no inciso
XII do § 1o deste artigo;
VI – Contribuição Patronal Previdenciária – CPP para a Seguridade
Social, a cargo da pessoa jurídica, de que trata o art. 22 da Lei nº
8.212, de 24 de julho de 1991, exceto no caso da microempresa e da
empresa de pequeno porte que se dedique às atividades de presta-
ção de serviços referidas no § 5º-C do art. 18 desta Lei Complemen-
tar;
VII – Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Merca-
dorias e Sobre Prestações de Serviços de Transporte Interesta-
dual e Intermunicipal e de Comunicação - ICMS;
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VIII – Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza - ISS.


(...)”(grifou-se)

Ainda, relativamente ao documento único de arrecadação para o recolhimento


mensal, diz a seguir o art. 21 da mesma Lei Complementar:

“Art. 21. Os tributos devidos, apurados na forma dos arts. 18 a 20


desta Lei Complementar, deverão ser pagos:
I – por meio de documento único de arrecadação, instituído pelo
Comitê Gestor;”(grifou-se)

Regulamentando tais disposições legais, veio o Decreto n.º 6.038/2007 a


instituir o Comitê Gestor de Tributação das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte,
denominado Comitê Gestor do Simples Nacional (CGSN), sendo este o órgão responsável
pela administração e regulamentação do Simples Nacional, com a sua competência e de
seus membros estabelecidas no referido Decreto.

Veja-se, então, que o Comitê Gestor é o órgão responsável pela Administra-


ção da arrecadação unificada, efetuada por meio de documento específico, e sua composi-
ção é paritária entre os membros representantes da União (em número de 4) e dos demais
entes federados (também 4). Sua ação é regulada com base na Lei Complementar n.º
123/2006, art. 2º, caput e inc. I. Dessa forma, não só o recolhimento é unificado (LC n.º
123/2006, art. 12), como também a cobrança, a arrecadação (LC n.º 123/2006, art. 2º, § 6º)
e, inclusive, as obrigações acessórias (LC n.º 123/2006, art. 1º, I).

Em resumo, no Simples Nacional a RFB – e, por consequência, a União – é


somente mais um dos intervenientes do sistema, no qual estão incluídos os diversos entes
tributantes. Dessa forma, as obrigações acessórias e os próprios recolhimentos são unifi-
cados, como exige a Constituição (art. 146, parágrafo único, III), “vedada qualquer retenção
ou condicionamento”. Por óbvio, portanto, que qualquer anistia necessariamente deve ser
regulada por lei complementar, já que estará envolvendo também tributos estaduais (LC n.º
123/2006, art. 13, VII) e municipais (LC n.º 123/2006, art. 13, VIII).

Destarte, a Constituição Federal outorgou poderes ao legislador infraconsti-


tucional para, por meio do processo legislativo diferenciado das leis complementares, estipu-
larem requisitos para ingresso no regime do SIMPLES NACIONAL. Com efeito, todas as re-
gras relativas a esse regime devem ser previstas nesta lei complementar, de acordo com as
balizas constitucionais. É certo que, uma remissão de débitos de entes federativos diversos,
como no fundo pretende a parte autora, não pode ser concedido sem previsão específica
em lei de cada um dos entes credores. Da mesma forma um parcelamento funciona. E se o
caso for de deixar de exigir esse requisito, só por lei complementar.
O artigo 146 da Constituição Federal dispõe:

“Art. 146. Cabe à lei complementar:


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(...)
III - estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, es-
pecialmente sobre:
(...)
d) definição de tratamento diferenciado e favorecido para as micro-
empresas e para as empresas de pequeno porte, inclusive regimes
especiais ou simplificados no caso do imposto previsto no art. 155, II,
das contribuições previstas no art. 195, I e §§ 12 e 13, e da contribui-
ção a que se refere o art. 239. (Incluído pela Emenda Constitucional
nº 42, de 19.12.2003)
Parágrafo único. A lei complementar de que trata o inciso III, d,
também poderá instituir um regime único de arrecadação dos
impostos e contribuições da União, dos Estados, do Distrito Fe-
deral e dos Municípios, observado que: (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 42, de 19.12.2003)
I - será opcional para o contribuinte; (Incluído pela Emenda Constitu-
cional nº 42,de 19.12.2003)
II - poderão ser estabelecidas condições de enquadramento diferenci-
adas por Estado; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de
19.12.2003)
III - o recolhimento será unificado e centralizado e a distribuição da
parcela de recursos pertencentes aos respectivos entes federados
será imediata, vedada qualquer retenção ou condicionamento; (Incluí-
do pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003)
IV - a arrecadação, a fiscalização e a cobrança poderão ser comparti-
lhadas pelos entes federados, adotado cadastro nacional único de
contribuintes. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de
19.12.2003)”(grifou-se)
Com a dicção do parágrafo único aqui ressaltado, o legislador constituinte
derivado quis instituir um regime de arrecadação que unificasse tributos de competência da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Isso devido, precisamente, à uni-
formização e à conciliação necessárias ao regime, que engloba tributos de todos os entes
federados, e em atendimento ao próprio princípio federativo insculpido no artigo 1º da
CF/88, que confere igualdade jurídica a seus membros, de modo a não haver por parte da
União ingerência desigual em relação aos demais integrantes do sistema.

Portanto, em atendimento àquele artigo 146 da CF/88, foi publicada a Lei


Complementar n.º 123, de 2006, que, dentre outras providências, instituiu o Regime Especi-
al Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e
Empresas de Pequeno Porte – Simples Nacional, in verbis:

“Art. 12. Fica instituído o Regime Especial Unificado de Arrecadação


de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empre-
sas de Pequeno Porte - Simples Nacional.”

Da observância do mesmo preceito constitucional que condicionou a criação


do Simples Nacional por meio de lei complementar, resulta que a eventual concessão de
parcelamento dos créditos tributários apurados nesse regime deverá, também, ser instituída
por lei complementar, nunca por lei ordinária. Conforme preleciona José Souto Maior Bor-
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ges, a lei complementar e a lei ordinária têm campos que não se interpenetram, decorrência
da distribuição ratione materiae de competências legislativas adotada como técnica constitu-
cional. Se a lei ordinária invadir o campo da lei complementar estará eivada de visceral in-
constitucionalidade porque a matéria, no tocante ao processo legislativo, somente poderia
ser apreciada com observância de um quorum especial e qualificado, inexistente na aprova-
ção da lei ordinária. A reserva constitucional da lei complementar funciona então como um
óbice à disciplina da matéria pela legislação ordinária, como ensina o mesmo doutrinador.

Sendo assim, resta clara a constitucionalidade dos requisitos para ingresso


no SIMPLES NACIONAL exigidos de acordo com a Lei Complementar n.º 123/2006.

III – PEDIDO

Ante o exposto, a União requer a V. Exa.:

(a) a produção de todo o tipo de prova em direito admitido, especialmente


documental, se for o caso;

(b) seja o pedido julgado totalmente improcedente; e

(c) a condenação da demandante ao pagamento das verbas sucumbenciais


de estilo.

Termos em que pede deferimento.

Porto Alegre, data do evento.

Rejane Antunes Rodrigues Deniz


Procuradora da Fazenda Nacional
Matrícula 1321828