Você está na página 1de 13
CAPITULO 4 a linguagem e a experiéncta humana* Todas as linguas ttm em comum certas categorias de expressio que parecem corresponder a um modelo constante. As formas que revestem estas categorias sao registradas e inventoriadas nas descri- gées, mas suas fungdes nao aparecem claramente sen3o quando se as estuda no exercicio da linguagem e na producao do discurso. Sao categorias elementares, independentes de toda determinacao cultural e nas quais vemos a experiéncia subjetiva dos sujeitos que se colocam ¢ se situam na e pela linguagem. Tentaremos aqui es- clarecer duas categorias fundamentais do discurso, alias necessa- riamente ligadas, a de pessoa e a de tempo. Todo homem se coloca em sua individualidade enquanto eu Por oposigao a tu e ele. Este comportamento seré julgado “instinti- vo”; para nés, ele parece refletir na realidade uma estrutura de oposigées lingiiisticas inerente ao discurso. Aquele que fala se refere sempre pelo mesmo indicador eu a ele-mesmo que fala. Ora, este ato de discurso que enuncia eu aparecer4, cada vez que ele é re- produzido, como o mesmo ato para aquele que o entende, mas para aquele que o enuncia, é cada vez um ato novo, ainda que repetido mil vezes, porque ele realiza a cada vez a insergao do Jocutor a momento novo do tempo e numa textura diferente de circuns- tancias e de discursos, Assim, em toda lingua e a todo momento, aquele que fala se apropria desse eu, este eu que, no inventdrio das —_ * Dioge; is p33” ts UNESCO, Gallimard, n.° $1 (jutho-setembro de 1965): 68 formas da lingua, nao € senio um dado lexical semelhante a qual- quer outro, mas que, posto em acdo no discurso, af introduz a presenga da pessoa sem a qual nenhuma linguagem é possivel. Desde que © pronome ew aparece num enunciado, evocando — explicitamente ou nao — o pronome tu para se opor conjuntamente a ele, uma experiéncia humana se instaura de novo e revela o ins- trumento lingiiistico que a funda. Mede-se por ai a distancia, ao mesmo tempo infima e imensa, entre 0 dado e sua fungao. Estes pronomes existem, consignados e ensinados nas gramaticas, oferta- dos como os outros signos e igualmente disponiveis Quando alguém os pronuncia, este alguém os assume, e 0 pronome eu, de elemento de um paradigma, se transforma em uma designacao tinica e produz, a cada vez, uma nova pessoa. Esta € a atualizagao de uma expe- riéncia essencial, que nado se concebe possa faltar a un: lingua. Esta € a experiéncia central a partir da qual se determina a possibilidade mesma do discurso. Necessariamente idéntica em sua forma (a linguagem seria impossivel se a experiéncia cada vez nova devesse inventar para cada pessoa uma express4o cada vez diferen- te), esta experiéncia nao é descrita, ela esta 14, inzrente 4 forma que a transmite, constituindo a pessoa no discurso e conseqiiente- mente toda pessoa desde que ela fale. Por outro lado, este eu na comunicagéo muda alternativamente de estado: aquele que o en- tende o relaciona ao outro do qual ele é signo inegavel; mas, falan- do por sua vez, ele assume eu por sua propria conta. Uma dialética singular ¢ a mola desta subjetividade. A lingua prové os falantes de um mesmo sistema de referéncias pessoais de que cada um se apropria pelo ato de linguagem e que, em cada instancia de seu emprego, assim que € assumido por seu enun- ciador, se torna tinico e sem igual, nao podendo realizar-se duas vezes da mesma maneira. Mas, fora do discurso efetivo, o pronome nao é sendo uma forma vazia, que nao pode ser ligada nem a um objeto nem a um conceito. Ele recebe sua realidade e sua substancia somente do discurso. O pronome pessoal nao é a Gnica forma desta natureza. Alguns outros indicadores partilham a mesma situacdo, notadamente a série dos déiticos. Indicando os objetos, os demonstrativos organizam o espago a partir de um ponto central, que é Ego, segundo categorias 69 varidveis: 0 objeto est perto ou longe de mim ou de ti, ele ¢ tam. bém orientado (defronte ou detrés de mim, no alto ou em baixo), visivel ou invisfvel, conhecido ou desconhecido, etc. O sistema das coordenadas espaciais se presta também para localizar todo objeto em qualquer campo que seja, uma vez que aquele que o organiza esta ele-préprio designado como centro e ponto de refe. réncia. Das formas lingiiisticas reveladoras da experiéncia subjetiva, nenhuma € tao rica quanto aquelas que exprimem o tempo, ne- nhuma é tao dificil de explorar, a tal ponto estao arraigadas as idéias preestabelecidas, as ilusdes do “bom senso”, as armadilhas do psicologismo. Queremos mostrar que este termo tempo recobre representag6es muito diferentes, que sao as muitas maneiras de co- locar o encadeamento das coisas, e queremos mostrar sobretudo que a lingua conceptualiza o tempo de modo totalmente diferente da reflexao. Uma confuséo muito difundida é a de crer que certas Iinguas ignoram o tempo, pelo fato de que, nao fazendo parte da familia das linguas flexionais, elas parecem nao ter verbo. Subentende-se que somente o verbo permite exprimir o tempo. Ha nisto muita confusao que se deve denunciar: a categoria do verbo pode ser reconhecida mesmo nas linguas nfo flexionais, e a expressio do tempo € compativel com todos os tipos de estruturas lingiifsticas. A organizagao paradigmética prdpria-as formas temporais de certas linguas, notadamente das linguas indo-européias, nado tem o direito nem o privilégio exclusivo de exprimir o tempo. Mais geral e, se se pode dizer, natural é uma outra confusio que consiste em pensar que o sistema temporal de uma lingua re- produz a natureza do tempo “objetivo”, tao forte é a propensio a ver na lingua o decalque da realidade. As Iinguas nfo nos oferecem de fato senaio construgdes diversas do real, ¢ é talvez justamente no modo pelo qual elas elaboram um sistema temporal complexo que elas sdo mais divergentes, Teremos que nos perguntar a que nivel de expressio lingiifstica podemos encontrar a nogéo de tempo que informa necessariamente todas as linguas, e em seguida, como se Caracteriza esta nogao. 70