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O PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL

NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Everaldo Silva e Cristiane Silva


INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por objetivo analisar o princípio do devido processo legal no
novo código de processo civil, Lei nº 13.105 de 16 de março de 2015, que passou a
vigorar a partir de 18 de março de 2015 e que se caracteriza por avanços relativos à
celeridade processual, à supressão de recursos meramente protelatórios e à
uniformização jurisprudencial.

Um princípio que, embora não tenha vindo expressamente nesse novo texto
processual, encontra-se fundamentado no art. 5º, LIV da Constituição Federal Brasileira
de 1988 e considerado um dos mais importantes, uma vez que dele derivam tantos
outros. Para isso observa-se as principais características do devido processo legal e o
que ele representa, hoje, no contexto atual.

RESENHA

Quando nos idos do século XIII, o rei João Sem Terra editava a Carta Magna
inglesa e seu artigo dizia que nenhum servo (homem livre) seria preso ou punido sem
antes a questão ser avaliada pelo sistema jurídico, surgia os primórdios do devido
processo legal. Aquele que assegura a todos o direito à todas etapas processuais
previstas em lei e as garantias constitucionais, trazendo ao indivíduo uma dupla
proteção, no âmbito material e formal.

Também considerado como princípio da legalidade, ele é, ao mesmo tempo,


preceito originário e norma de encerramento do processo, portador, inclusive, de
garantias não previstas em texto legal. (Donizetti. 2018). Assim, o direito de ação, o de
ampla defesa, o contraditório, o juiz natural, a publicidade dos atos processuais, a
duração razoável do processo, a motivação das decisões, o tratamento paritário
conferido às partes, entre outros, são, portanto, princípios e garantias que, em seu
conjunto, representam o devido processo legal e se não observados tornam o processo
nulo, visto que se os princípios e leis que o representam se não considerados, o
processo deixa de ser justo, equitativo, eficiente e eficaz.

No Novo Código Civil de Processo Brasileiro é possível notar um maior enfoque


com a reserva de um capítulo exclusivo intitulado: “Das Normas Fundamentais Do
Processo Civil”, abarcando todas as normas fundamentais do processo e princípios
aplicáveis ao direito processual civil. O que para Rocha & Lemos (2016) evidencia a
maior importância que esse tipo de norma possui atualmente quando comparado à
época da elaboração do Código de Processo Civil Brasileiro da década de 1970, por
exemplo, e que os princípios não são mais somente supridores de lacunas, quando a
lei for omissa, como traz o artigo 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro.
Hoje, se desrespeitados podem colocar o direito de justiça em cheque.

Destaca-se, ainda, que o devido processo legal é cláusula geral, aberta,


causadora de princípios vários e autônomos, incidentes sobre toda e qualquer atuação
do Estado, e não exclusivamente sobre o processo jurisdicional. Não deve ser aplicado
somente no âmbito do processo judicial, mas também em qualquer elaboração
normativa:

[...] O devido processo legal e todas as demais garantias


fundamentais são aplicáveis até mesmo nas relações entre
particulares, independente de mediação ou determinação do
legislador infraconstitucional. Trata-se da eficácia horizontal,
privada ou externa dos direitos fundamentais. [...] o STF já teve
oportunidade de anular ato de Sociedade Civil de Direito Privado
que excluiu sócio de seus quadros sem o prévio contraditório e
ampla defesa, preceitos decorrentes do devido processo legal.
(Donizetti, 2018, p.34).

Diz-se que o devido processo legal se apresenta em duas dimensões, uma


formal e outra material (substancial). Quanto à primeira, nada mais é do que o direito de
processar e ser processado de acordo com as normas pré-vigentes, ou seja, nas
palavras de Gonçalves (2017) diz respeito à tutela processual, ao processo, às garantias
que ele deve respeitar e ao regramento legal que deve obedecer. Já a dimensão
material, substancial, o texto constitucional não se limitou a consagrar a necessária
observância às regras que regem o processo indo mais além, colocando o devido
processo legal como uma garantia de que as normas sejam razoáveis, adequadas,
proporcionais e equilibradas, constituindo, portanto, a autolimitação do poder estatal,
que não pode editar normas que ofendam a razoabilidade e afrontem as bases do
regime democrático. (Donizetti, 2018; Gonçalves, 2017).

Eis uma forma, portanto, de se controlar as decisões judiciais (o justo no caso


concreto) e das leis evitando-se arbitrariedades do Estado, demonstrando que o devido
processo legal é expressão de democracia e cidadania, por aglutinar em seu conteúdo
numerosas garantias de ordem constitucional e processual. O que, num contexto
histórico, pode impedir o retrocesso, proporcionado um direito cada vez mais próximo
da justiça.
E é nesse sentido que a legislação brasileira vem sendo tecida quando, por
exemplo, em 1988 editou-se a constituição cidadã e, agora, o novo código de processo
civil trazendo maior relevância aos princípios constitucionais que para parte dos
doutrinadores são mais que supridores de lacunas, mas, também, são preponderantes
às próprias leis, como um verdadeiro “pote de ouro”.

O modelo constitucional do processo traz, portanto, como característica o direito


fundamental a uma tutela jurisdicional efetiva, célere e adequada, garantido pelo art. 5º,
XXXV da Constituição, e que atua sobre o legislador e o magistrado. Ao legislador
obrigando-o a instituir procedimentos e técnicas processuais que permitam a efetivação
dos direitos materiais e ao juiz ao determinar a subordinação e a compreensão da lei à
Constituição para que o processo seja conduzido de modo a se obter a tutela
jurisdicional efetiva, impedindo que concretamente as normas processuais possam se
afastar dos princípios e garantias constitucionais fundamentais.

Num contexto geral, podemos, portanto, verificar no texto constitucional os


princípios que expressamente devem prevalecer em processos de todas espécies (civil,
penal, trabalhista, jurisdicional ou não) e em razão do neoconstitucionalismo, grande
parte dos princípios processuais foram elevados à categoria de direitos fundamentais e,
portanto, direitos fundamentais processuais.

Já quanto à principiologia no novo código processual, no qual se insere o


princípio do devido processo legal, tem-se um número relevante de princípios
imbricados a este expostos tanto no novo código, quanto no texto constitucional, mas
também outros que apesar de não estarem positivados no novo Código, continuam a
ser aplicados no processo e que de acordo com Donizetti (2018), deve o intérprete não
se furtar de interpretar

Em suma, como diz Theodoro Jr (2016), o princípio do devido processo legal é


no conjunto dessas normas do direito processual que se consagram os princípios
informativos que inspiram o processo moderno e que principiam as partes a plena
defesa de seus interesses, e ao juiz, os instrumentos necessários para a bisca da
verdade real, sem lesão dos direitos individuais dos litigantes. A garantia do devido
processo legal não se exaure na observância das formas da lei para a tramitação das
causas me juízo. Compreende algumas categorias fundamentais como a garantia do
juiz natural, do acesso à Justiça, de ampla defesa e contraditórios e, ainda, a
fundamentação de todas as decisões judiciais, fazendo-se uma assimilação moderna
de que devido processo legal é um processo justo.
O devido processo legal assegurado constitucionalmente é, portanto, um
sistema de limitações do poder, imposto pelo próprio Estado de direito para a
preservação e seus valores democráticos. Ele tem, na ordem constitucional, o
significado sistemático de fechar o círculo das garantias e exigências relativas ao
exercício do poder, mediante uma fórmula sintética destinada a afirmar a
indispensabilidade de todas elas e reafirmar a autoridade de cada uma.

SOBRE O TEMA

Daquilo que o artigo Art. 5º da Constituição traz, sobre o devido processo legal:
LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o
devido processo legal.
LV – aos litigantes em processo judicial e administrativo, e aos
acusados em geral, serão assegurados o contraditório e a ampla
defesa, com os meios de recurso a ela inerentes

Pode-se dizer que ele foi recepcionado pelo novo código de processo civil,
mesmo que não expressamente, ao trazer, por exemplo, um capítulo exclusivo para o
tema, como forma de se garantir que os princípios fundamentais dos cidadãos sejam
respeitados, observados e amplamente exercidos.

Assim, do princípio do devido processo legal, decorrem outros permitem


assegurar às partes litigantes direitos subjetivos que se constituem em condições
indispensáveis para o correto e efetivo exercício da jurisdição O direito de ação e o de
defesa judicial aos indivíduos, a ampla defesa, contraditório, juiz natural, publicidade
dos atos processuais, duração razoável do processo, motivação das decisões,
tratamento paritário conferido às partes envolvidas no processo, são portanto princípios
que norteiam o devido processo legal, ao mesmo tempo oriundos deste e garantidor de
que os direitos fundamentais sejam devidamente respeitados por meio de um processo
justo, equitativo, quando às portas do judiciário litigantes bater.

CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como proposta analisar o princípio do devido processo
legal código de processo civil brasileiro. Mediante ao que foi observado, conclui-se que
esse princípio se encontra inserido no referido código e representa, sobretudo, a
garantia de que os direitos fundamentais possam ser cada vez mais respeitados e para
isso o grande instrumento é o processo devidamente respeitado conforme os ditames
da lei e os princípios constitucionais. Uma expressão, também, de democracia e
cidadania.

Assim, portanto, não observar o devido processo legal é desprezar a


Constituição e, por conseguinte, o estado democrático de direito e, sobretudo os direitos
e deveres dos cidadãos.
REFERÊNCIAS

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