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INTRODUÇÃO GERAL
Bem-aventurado o leitor
e bem-aventurados os que ouvem
as palavras da profecia e a guardam
(Apocalipse 1,3)

A Bíblia é como o horto concluso do Cântico (Ct 4,12): por ser amada, tem de ser
adentrada com o máximo de carinho e delicadeza. Ler as Escrituras é salutar (2Tm 3,15-
17), mas exige um coração generoso, um ouvido aberto e uma mente disposta a
aprender. Algumas vezes, as palavras da Bíblia nos tocam diretamente. Outras vezes,
exigem estudo, para que seu sentido, mesmo se não pode ser esgotado, pelo menos não
seja falsificado. Para este fim servem os subsídios, comentários, notas.
Quem crê no Deus que se manifesta nas palavras da Bíblia não a lê sem se preparar,
procurando conhecer e respeitar o mundo em que essas palavras viram a luz, o mundo
da Bíblia. Ler a Bíblia é encontrar as raízes de nossa tradição de fé, dialogar com nossos
pais de tempos remotos, não como curiosos deseducados, que destroem o que deveriam
descobrir, mas usando os devidos subsídios para nos movimentar no mundo de Jesus de
Nazaré.
Preparar-se não significa apenas entender intelectualmente as frases da Bíblia, mas,
sobretudo, entrar no espaço espiritual, o templo de pedras vivas na comunidade e no
interior do coração (1Pd 2,5). Assim se lê a Bíblia no espírito em que foi concebida: no
Espírito de Deus, que encheu o coração dos profetas e, desde os tempos antigos até
hoje, inflama as comunidades dos que buscam a Deus.
Entendemos o livro da Bíblia à luz do livro da Vida. Sobretudo, à luz da vida de
Jesus de Nazaré, pois é por causa dele que conservamos, na letra da Bíblia, a memória
escrita dele e do povo do qual ele nasceu.
1 – LER A BÍBLIA HOJE
Para nós, cristãos, a Bíblia não é um livro de ciências naturais ou de história erudita,
mas o livro de vida da comunidade de Jesus, ou seja:
– da comunidade de Israel, da qual nasceu Jesus, o judeu (o Primeiro ou Antigo
Testamento);
– da comunidade que surgiu a partir de Jesus, realizador da nova Aliança (o Novo
Testamento, chave para a leitura cristã da Bíblia inteira);
– de nossa comunidade hoje, que pretende ser fiel ao que Jesus viveu (a Bíblia
interpretada na Igreja).
Para nós, cristãos, o centro da Bíblia é Jesus de Nazaré, que chamamos de Cristo ou
Messias. Jesus, que, por sua vida doada até a morte, nos deu a conhecer o Deus-Amor,
expressou a experiência de Deus na linguagem de seu povo, a linguagem das Escrituras
de Israel. Por isso, guardamos, além das palavras de Jesus e sobre Jesus (o Novo
Testamento), também as Escrituras de Israel (o Antigo Testamento), procurando nelas o
que faz Jesus crescer em nós.
A Bíblia tem seu lugar preferencial na comunidade da Igreja, onde vive o espírito em
que ela foi escrita e conservada. A comunidade de fé dá continuidade à obra de Jesus na
palavra e na vida. Ela mantém viva a herança de Jesus, na prática do amor fraterno e na
experiência de Deus como Pai (por isso, o Pai-Nosso de Jesus é a principal oração).
É preciso que a leitura da Bíblia seja participada por toda a comunidade eclesial.
Pelos mais humildes, os iletrados, os últimos, que são os primeiros no amor fraterno. E
pelos que tiveram formação especial e podem partilhá-la com seus irmãos e irmãs. O
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ponto alto da leitura bíblica é a celebração litúrgica, ampliada na catequese e na reflexão


bíblica comunitária.
Tal leitura não é literalista, não procura entender tudo “ao pé da letra”, nem se
contenta em abrir a Bíblia aleatoriamente para nela encontrar alguma mensagem
particular, nem a utiliza para defender alguma opinião sem perceber a mensagem central
dos textos bíblicos. A leitura eclesial parte da escuta da Palavra na comunidade e lança
mão do conhecimento bíblico herdado do passado e aprimorado até hoje.
É leitura com os dois olhos: um fixado no texto (com o seu contexto histórico, social
e cultural), o outro fixado na vida que estamos vivendo hoje (também com seu contexto
histórico, social e cultural). E assim, olhando com os dois olhos, aquilo que olhamos
ganha relevo, profundidade, terceira dimensão... Podemos ler a Bíblia como uma
história de amor: a história do amor leal de Deus para com o povo que ele escolheu para
ser, no meio do mundo, testemunha do seu amor (Dt 7,7-8).
2 – MUNDO E TEMPO DA BÍBLIA
Um meio para compreender melhor a Bíblia é ver como ela nasceu, conhecer a
história do povo que a deu à luz (veja os quadros cronológicos nas páginas finais).
Vejamos como a própria Bíblia apresenta essa história.
1800-1200 a.C. Os patriarcas. Abraão, Isaac e Jacó-Israel
O povo da Bíblia chama-se a si mesmo “filhos de Israel”, israelitas; os outros o
chamam de “hebreus” (gente desorganizada, sem Estado, sem terra). Israel,
originalmente chamado Jacó, é o neto de Abraão, o patriarca por excelência. Ligado à
antiga cultura da Mesopotâmia, a Babilônia do tempo do rei Hamurabi (por volta de
1800 a.C.), Abraão migra para a terra de Canaã (Israel-Palestina-Líbano) (Gn 12). Tem
dois filhos: Ismael, do qual descendem os ismaelitas (os árabes), e Isaac, o pai de Jacó,
chamado Israel. No tempo de Jacó-Israel, o reino dominante é o Egito. Para lá se
dirigem, num momento de carestia, os doze filhos de Jacó: José e seus irmãos (Gn 47–
50).
1400-1100 Israel antigo. Moisés e o Êxodo
Depois da morte de José, os descendentes de Jacó-Israel conhecerão, no Egito, a
escravidão (Ex 1–5), sob a tirania de um faraó que não conheceu José (Ex 1,8). Graças à
intervenção de Deus, e sob a liderança de Moisés (Ex 6), os “filhos de Israel” são
libertados da escravidão, atravessando o mar Vermelho (ou dos Juncos), no qual o faraó
e suas tropas afundam (Ex 15).
Assim, os israelitas já não devem obediência ao faraó, mas sim, àquele que os
libertou do Egito: o Deus Único, cujo nome (yahû ou yahô) é representado pelo
tetragrama YHWH e, por respeito, pronunciado “Adonai” (o SENHOR). Moisés estabelece
uma “aliança” (pacto) entre “o SENHOR” como soberano e o “povo do SENHOR” como
vassalo (Ex 19–24). Israel não deve ter outro soberano, nem no Egito, nem na “terra
prometida”, Canaã, onde os senhores locais exploravam o povo para pagar tributos ao
faraó do Egito. Deus liberta seu povo para que seja seu povo, livre, aliado só a Ele.
Para que o povo viva conforme essa aliança, Moisés, encarregado por Deus mesmo,
lhe dá a Lei (torah, que significa instrução, ensinamento). Por isso, Moisés é
considerado, especialmente no livro do Deuteronômio, o profeta ou porta-voz de Deus
por excelência (Dt 18,15).
1100-1000 Josué e os “juízes”
Depois da morte de Moisés, Josué introduz o povo na terra que Deus lhe prometeu
em “herança” (Js 1) e onde ele renova a aliança com o SENHOR (Js 24). As doze tribos
(conforme o número de filhos de Jacó-Israel) se estabelecem em ambas as margens do
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rio Jordão. São governadas por líderes, chamados “juízes”, que surgem segundo as
circunstâncias e presidem os conselhos dos anciãos. Em tempo de ameaça por parte dos
cananeus ou de outros povos, algum juiz pode reunir as diversas tribos para se
defenderem, como faz, por exemplo, a juíza Débora (Jz 4–5).
1000-900 Os primeiros reis. Saul, Davi, Salomão
O povo acha que os juízes, como chefes ocasionais, não conseguem defendê-lo
contra os fortemente armados filisteus. Pede, então, ao juiz e profeta Samuel, um rei que
pode ter um exército permanente, mas também cobrar tributo (1Sm 8). O primeiro rei,
escolhido pelas dez tribos do norte, é Saul.
Depois dele, vem Davi (± 1000 a.C.), que é “ungido” (em hebraico, mashîaḥ, de
onde “messias”) como rei sobre o norte (Israel) e o sul (Judá). Ele leva o santuário do
deserto (a Tenda ou Tabernáculo) para Jerusalém (Sião).
Seu filho e sucessor, Salomão, constrói o templo de Jerusalém. Reina com muito
luxo e muitos impostos; por isso, depois de sua morte, as tribos do norte separam-se do
sul (1Rs 12).
900-700 O reino dividido. O reino do Norte (Israel). Os assírios
Depois da separação, o primeiro rei do norte é Jeroboão I. Um dos sucessores, Amri,
constrói Samaria como nova capital. Seu filho Acab o sucede no trono. No tempo destes
reis atuam os profetas Elias, Eliseu e Miqueias de Jemla. Outro sucessor, Jeroboão II, é
contemporâneo dos profetas Oseias e Amós. Em 722 a.C., os assírios, novos “donos do
mundo”, invadem Samaria e deportam os samaritanos para outras regiões de seu
império (2Rs 17).
900-600 O reino do Sul (Judá)
No sul perpetua-se a linhagem de Davi. O sucessor de Salomão é Roboão. Mas o sul
só ganha importância com o rei Josafá, que se une a Acab na luta contra os arameus
(sírios), no 8º século a.C. Quando o norte é submetido pelos assírios, destacam-se os
profetas no sul (Miqueias de Morasti e Isaías), no tempo do rei Acaz. Seu sucessor,
Ezequias, tenta uma reforma religiosa, mas vira vassalo dos assírios. Só meio século
depois, o rei Josias (por volta de 620 a.C.) realizará uma reforma significativa: acaba
com os “lugares altos” no interior da região e concentra todo o culto e o sacerdócio no
templo de Jerusalém. Essa reforma é chamada a “reforma deuteronomista”, por estar
relacionada com o livro do Deuteronômio (o “livro da Lei” de que se fala em 2Rs 22–
23). Por esse tempo, atuam os profetas Jeremias e Sofonias. Jeremias insiste junto aos
sucessores de Josias (Joaquim, Jeconias e Sedecias) para que não façam pactos com os
egípcios, mas reconheçam que o poder está com os babilônios – o que lhe custa a
prisão.
600-535 Os babilônios. O exílio babilônico
Confirmando a previsão de Jeremias, o rei da Babilônia, Nabucodonosor, em 597,
faz uma expedição punitiva contra Jerusalém, leva o rei Jeconias e seus partidários para
a Babilônia (1ª deportação babilônica; 2Rs 24), e coloca no trono Sedecias. Quando
este, em 586, se rebela, os babilônios destroem o templo e deportam Sedecias e sua
gente (2ª deportação; 2Rs 25). Junto aos exilados atuam os profetas Ezequiel e um
longínquo discípulo de Isaías, o “Segundo Isaías”. O exílio dura até 538, quando Ciro,
rei da Pérsia, depois de vencer os babilônios, se torna o novo “dono do mundo” e
decreta a liberdade dos exilados (edito de Ciro: 2Cr 36,22-23).
535-335 O período persa. Nasce o “judaísmo”
Ao voltarem do exílio, os exilados restauram Jerusalém e o templo. Inicia-se, assim,
o período do Segundo Templo, também chamado o judaísmo, porque os protagonistas
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são da tribo de Judá (onde fica Jerusalém). Os promotores da restauração são o


sacerdote Josué e o governador Zorobabel. Este é descendente de Davi, mas não pode
ser rei, pois o reinado pertence ao rei da Pérsia; por isso, os judeus vão almejar
intensamente um novo rei “ungido” como Davi, um Messias. Os profetas que animam a
restauração do templo são Ageu e Zacarias. Outro profeta da escola de Isaías (o
“Terceiro Isaías”) exige, em primeiro lugar, justiça no meio do povo. Nos séculos 5º-4º
a.C., o governador Neemias e o escriba-sacerdote Esdras consolidam a organização do
povo em Jerusalém. A Esdras atribui-se a organização das sinagogas e do estudo da Lei
(Ne 8). Ele é chamado “o pai do judaísmo”.
335-63 a.C. O judaísmo no helenismo
Por volta de 330 a.C., Alexandre Magno, “o grego”, conquista o império persa,
inclusive Judá. Assim começa o helenismo (heleno = grego). Depois da morte de
Alexandre, em 323, seu reino é dividido. Nos anos 300-200 a.C., Judá vive sob o poder
dos que sucederam a Alexandre no Egito (lágidas ou ptolomeus). Os samaritanos, que
no tempo dos persas obedeciam a Jerusalém, agora separam-se dos judeus. Por outro
lado, muitos judeus se instalam na metrópole Alexandria do Egito, onde, por volta de
250, iniciam a tradução da Bíblia para o grego. No 2º século, os reis helenistas da Síria
(selêucidas) abocanham Judá. Em 167 a.C., o rei Antíoco Epífanes profana o templo.
Isso provoca a resistência armada de Judas Macabeu e seus irmãos: a luta dos
macabeus. Em 164, Judas Macabeu reconquista e reconsagra o templo (1Mc 4,36-61).
Os macabeus chegam a constituir uma dinastia, conhecida como os hasmoneus.
Apoiando-se nos saduceus (partido dos sacerdotes do templo), usurpam o sumo
sacerdócio. Isso provoca a oposição dos fariseus (leigos) e dos essênios (sacerdotes
dissidentes). Acirra-se também o conflito com os samaritanos, pois em 128 a.C. o rei
hasmoneu João Hircano destrói o santuário dos samaritanos no monte Garizim.
63 a.C.-60 d.C. Os romanos. Inícios do cristianismo
Quando as brigas internas dos hasmoneus tornam o país ingovernável, os anciãos de
Judá apelam para os romanos, os novos “donos do mundo”. Em 63 a.C., eles vêm para
ficar, sob o comando do general Pompeu. Instalam como vice-rei o idumeu Antípater,
ao qual sucede o seu filho, Herodes, o Grande. Pouco antes da morte de Herodes, no
tempo do imperador Augusto, nasce Jesus de Nazaré (± 5 a.C.), cuja ação profética
termina na morte de cruz, durante o império de Tibério, sendo Pôncio Pilatos
governador da Judeia e Herodes Antipas vice-rei na Galileia (Lc 2,1-7; 3,1-2.21-23).
Enquanto a Judeia é administrada pelos governadores romanos e os vice-reis
descendentes de Herodes (Agripa I e Agripa II), cresce no ambiente judaico a
comunidade dos seguidores de Jesus, com Pedro e Tiago como principais líderes. E um
fariseu convertido, Saulo de Tarso (= Paulo), provoca a expansão do cristianismo pelo
mundo greco-romano afora (At 15).
60 d.C. ... Fim do Templo e do judaísmo antigo. Nascimento do judaísmo rabínico
Em 66 d.C., o movimento nacionalista dos zelotes lança uma revolta contra os
romanos. Os zelotes ocupam o templo de Jerusalém, mas o general Tito, depois de
prolongado cerco, toma a cidade e destrói o templo, em 70 d.C. Os escribas fariseus,
que, durante o cerco, se tinham refugiado com os livros sagrados em Jâmnia, a 50km de
Jerusalém, refundam então o judaísmo, com base no estudo da Lei (sem templo nem
sacrifícios), dirigido pelos rabinos. É desta refundação que se deriva o judaísmo que
conhecemos hoje.
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3 – GESTAÇÃO E NASCIMENTO DA BÍBLIA


A gestação da Bíblia no coração do povo começou quando, a partir do Êxodo e a
ocupação da terra de Canaã, por volta de 1200 a.C., o povo tomou consciência de sua
identidade. As tradições conservadas, oralmente ou por escrito, foram progressivamente
sendo relacionadas com a Aliança e com a Lei. Assim surgiu o embrião daquilo que ia
ser chamado “a Lei e os Profetas”.
O nascimento da Bíblia judaica situa-se logo depois do exílio babilônico, por volta
de 500 a.C. No afã de reconstituir sua identidade nacional e religiosa, os judeus
consignaram por escrito, substancialmente, sua memória de “povo eleito por Deus”:
– a “Lei” (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt): os textos e as tradições a respeito da libertação da
escravidão do Egito, sob a liderança de Moisés, que tinha promulgado a Lei e selado a
Aliança de Deus;
– os “Profetas anteriores” (Js, Jz, 1-2Sm, 1-2Rs): a história do povo de Israel no
tempo dos profetas antigos, que foram os porta-vozes do Senhor junto aos juízes e aos
reis de Israel e de Judá antes do exílio babilônico. Nesta coleção aparece a história dos
profetas, mas não a transcrição dos seus oráculos ou mensagens.
Entre 400 e 200 a.C. foram acrescentados:
– os “Profetas posteriores” (Is, Jr, Ez e os 12 profetas menores): os oráculos dos
antigos profetas, completados com os que atuaram depois do Exílio;
– os “Escritos” (Sl, Jó, Pr, Rt, Ct, Ecl, Lm, Est, Dn, Esd-Ne, 1-2Cr): os salmos
cantados no culto, os provérbios e pensamentos dos sábios, baseados em longa tradição,
textos poéticos como o Cântico dos Cânticos etc.
4 – ANTIGO E NOVO TESTAMENTO
Os judeus chamam suas Escrituras Sagradas “a Lei, os Profetas e os Escritos”. Os
cristãos chamam esse conjunto de “Antigo Testamento” ou “Antiga Aliança”. Antigo,
nesta terminologia, não tem o sentido de antiquado, mas de primordial. Da parte de
Deus, a Aliança para a salvação da humanidade é uma só. Se as Escrituras de Israel
testemunham a(s) aliança(s) anterior(es), no “Novo” Testamento, que tem por referência
Jesus Cristo, o antigo não é abolido pelo novo, mas assumido nele e levado à plenitude
(Mt 5,17-20; 13,42).
Ao ser lida e estudada nas sinagogas judaicas, logo depois do exílio, a Bíblia ainda
não era o que ela é para nós, os cristãos, hoje. Cresceu à medida que o Espírito de Deus
levava o povo a reconhecer, nas Escrituras, sua experiência de Deus e seu caminho de
vida. Para os cristãos, esse processo chegou ao ponto culminante quando foram postos
por escrito a memória de Jesus e os traços essenciais de sua comunidade. Isso se deu a
partir da pregação dos apóstolos de Jesus, entre 50 e 100 d.C. Por causa de Jesus, que
instaurou a “nova Aliança” anunciada pelos profetas, os cristãos incluíram na Bíblia os
escritos do “Novo Testamento”, as Escrituras cristãs.
A Bíblia cristã, todavia, não suprimiu, mas guardou as Escrituras de Israel: o Antigo
Testamento. Isto porque, como escreve Paulo Apóstolo, a comunidade cristã está como
que “enxertada” na tradição de Israel (Rm 11,17-24). A expressão “nova Aliança” nem
sequer teria sentido, se não tivéssemos as Escrituras de Israel, que nos falam da antiga.
A antiga Aliança é confirmada por parte de Deus, pois Deus é fiel. Mas em vista do
povo, que não foi fiel, a Aliança precisava ser renovada. Na Última Ceia, Jesus diz que
o cálice com vinho é o seu sangue da (nova) Aliança, derramado por todos (Mt 26,28;
Mc 13,24; Lc 22,20; 1Cor 11,25). Jesus lembra aqui a aliança da Lei, concluída por
Moisés com o sangue do sacrifício (Ex 24,1-12), bem como a nova aliança anunciada
pelos profetas, quando a Lei estará inscrita no coração de cada um (Jr 31,31-33).
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Quando Jesus dá a própria vida, a Aliança se realiza plenamente, abrindo-se a todos os


que buscam Deus de coração sincero.
A primeira Aliança não é revogada, mas transformada, levada à plenitude (Mt 5,17).
Em Jesus, ela recebe amplidão muito maior. Não só os israelitas de sangue, mas todas
as pessoas podem dela participar, se aderirem a Jesus, à sua palavra e à sua prática de
vida. Na visão cristã, a vocação de Israel como povo eleito (Ex 19,5-6) chega a seu
ponto culminante em Jesus: nele, a Aliança e a palavra de Deus são oferecidas a todos.
Por essas razões, a Igreja cristã sempre tratou com o maior cuidado as Escrituras de
Israel. Apresenta-as na primeira leitura da liturgia dominical e na oração dos Salmos.
Graças a esse cuidado, somos capazes de orar com as mesmas palavras de Jesus, que,
sendo judeu, fala usa a linguagem do Antigo Testamento.
5 – AS DIVERSAS CONFIGURAÇÕES DA BÍBLIA
Nosso povo tem muitos problemas com as diferentes formas da Bíblia: a judaica, a
católica, a protestante etc. Essas diferenças compreendem-se a partir da história.
O Antigo Testamento
No tempo de Jesus, o judaísmo transmitia suas Escrituras em duas formas principais:
nas sinagogas da Palestina, em hebraico; e na “*diáspora” dos países helenísticos, em
grego. A tradução grega tinha sido iniciada pelos anos 250 a.C., em Alexandria do
Egito; é chamada Septuaginta (ou Bíblia dos Setenta, sigla: LXX), por ter sido atribuída
a setenta escribas.
Ora, a tradução grega incluía alguns livros a mais que a Bíblia hebraica. Os primeiros
cristãos – muitos deles judeus de língua grega – liam o Antigo Testamento na forma
grega. Mas enquanto os cristãos adotavam o “cânon” (lista) da Bíblia grega, os judeus
não cristãos, talvez por reação, valorizaram a forma hebraica, com o cânon mais restrito.
Por isso, nosso cânon cristão contém, para o Antigo Testamento, sete livros a mais que
a Bíblia hebraica, chamados “deuterocanônicos” (= incluídos no “cânon” num segundo
momento; os protestantes os chamam de “apócrifos”); e as Igrejas orientais ortodoxas
admitem ainda alguns livros a mais (cf. infra).
Mais tarde, por volta de 1500-1600 d.C., os reformadores protestantes criaram
traduções em língua moderna, voltando ao original hebraico. Adotaram, quanto aos
livros do Antigo Testamento, o cânon restrito (hebraico), enquanto os católicos
continuaram com o cânon amplo (grego). Seja lembrado, contudo, que Lutero e Calvino
guardaram os livros *deuterocanônicos (embora chamados de “apócrifos”) como anexo
na sua edição da Bíblia.
Por essas razões, existem diversas configurações da Bíblia do Antigo Testamento:
1) a Bíblia hebraica (cânon restrito do AT) e a Bíblia protestante:
TORÁ, ou Lei: Gn, Ex, Lv, Nm, Dt.
NEBIIM, ou Profetas: Anteriores: Js, Jz, (1+2)Sm, (1+2)Rs; Posteriores: Is, Jr, Ez,
e os “Doze Profetas” (Os, Jl, Am, Ab, Jn, Mq, Na, Hab, Sf, Ag, Zc, Ml).
KETUBIM, ou Escritos: Sl, Jó, Pr, Rt, Ct, Ecl, Lm, Est, Dn, Esd-Ne, (1+2)Cr.
Com as letras iniciais das três categorias forma-se a sigla TANAK, para indicar a
Bíblia hebraica. A Bíblia protestante adota, para o Antigo Testamento, estes mesmos
livros, porém, na ordem da Bíblia grega, reproduzida a seguir.
2) a Bíblia grega, adotada pelos primeiros cristãos e pelas Igrejas católica e ortodoxa.
No seguinte esquema estão grafados em itálico os livros que a tradição grega tem a
mais (os livros deuterocanônicos) e, em itálico e entre [ ], os livros que a Igreja
católica não adotou, mas que são aceitos por algumas Igrejas ortodoxas orientais.
Lei ou Pentateuco: Gn, Ex, Lv, Nm, Dt.
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Livros históricos: Js, Jz, Rt, 1/2Rs (= 1/2Sm), 3/4Rs (=1/2Rs), 1/2 Paralipômenos
(= 1/2Cr), [1 (ou 3) Esd], 2Esd (= Esd/Ne), Est + fragmentos
deuterocanônicos, Jt, Tb, 1/2Mc, [3/4Mc].
Livros sapienciais: Sl*, [Odes], Pr, Ecl, Ct, Jó, Sb, Sr, [Salmos de Salomão].
Livros proféticos: Is, Jr**, Lm, Br***, Ez, Dn + fragmentos deuterocanônicos, e
os 12 “Profetas Menores” (Os, Am, Mq, Jl, Ab, Jn, Na, Hab, Sf, Ag, Zc, Ml).
* A numeração de uma parte dos Salmos na Bíblia grega e na Vulgata de S. Jerônimo é levemente
diferente da hebraica.
** A ordem dos capítulos na Septuaginta é diferente da hebraica, a qual é mantida na Vulgata e na Bíblia
católica.
*** A Bíblia grega separa, do livro de Baruc, a Carta de Jeremias (= Br 6).
O Novo Testamento
Quanto ao Novo Testamento, não há diferença entre católicos, ortodoxos e
protestantes. A Bíblia hebraica, evidentemente, não contém o Novo Testamento.
Evangelhos e Atos: Mt , Mc, Lc, Jo, At;
Cartas paulinas (“corpus paulinum”): Rm, 1/2Cor, Gl, Ef, Fl, Cl, 1/2Ts, 1/2Tm,
Tt, Fm, Hb;
Cartas católicas (= universais): Tg, 1/2Pd, 1/2/3Jo, Jd;
Apocalipse: Ap.
6 - TEXTO ORIGINAL, LINGUAGEM E TRADUÇÕES
Os idiomas originais
Os idiomas originais da Bíblia são os seguintes:
– o Antigo Testamento hebraico foi escrito em hebraico, com alguns trechos em
aramaico, língua irmã do hebraico;
– os sete livros deuterocanônicos (cf. supra) foram escritos em grego;
– o Novo Testamento foi escrito em grego, principal idioma dos primeiros cristãos.
A presente tradução foi traduzida destes idiomas originais.
O texto ou documento original
Se se pergunta pelo documento original, devemos consultar a ciência que se chama
“crítica (= investigação) textual (ou documental)”.
Embora não exista mais nenhum manuscrito autógrafo (= escrito pelos próprios
autores), a Bíblia encontra-se, em comparação com outras obras da Antiguidade, numa
posição invejável quanto à conservação de cópias antigas. Até um século atrás, as
cópias antigas conservadas remontavam até o século 11 d.C. para os escritos hebraicos e
até o 4º século d.C. para o Novo Testamento em grego. As recentes descobertas, porém,
nos trouxeram manuscritos do Novo Testamento que datam do 2º século d.C. e, do
Antigo Testamento, cópias feitas no 3º século a.C. (os “documentos do Mar Morto”, ou
de Qumrã). Assim podemos agora verificar que a transcrição feita pelos escribas, de
mão em mão, foi de uma fidelidade surpreendente!
Entrando nas minúcias, porém, apresentam-se problemas. Houve um só ou vários
textos “originais”? Os textos foram usados na liturgia, expostos a contínuas pequenas
modificações. Em Jr 36, vemos que Jeremias mandou fazer nova cópia de suas palavras:
será idêntica à primeira versão? Pensa-se que existiram duas versões originais do
evangelho de Marcos. Os textos passaram por “recensões” na comunidade. Há casos em
que alguma tradução antiga parece ter conservado melhor o original do que as cópias
conservadas na língua original: daí a importância das versões antigas em grego, siríaco,
egípcio, latim.
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A linguagem
Por linguagem entende-se não apenas o idioma, mas também a maneira de usá-lo em
circunstâncias diversas. O português do açougue não é o mesmo português das canções
ou da igreja, é outra linguagem!
A linguagem da Bíblia é quantitativamente reduzida. A Bíblia hebraica utiliza pouco
mais de mil raízes verbais, das quais se derivam algumas outras formas, enquanto
nossos dicionários de português trazem até trezentos mil verbetes. Ora, exatamente por
essa razão, as expressões bíblicas são qualitativamente bem mais ricas do que nosso
modo de falar. Estão abertas a diversas significações, apontam para outras utilizações
das mesmas raízes verbais em outro contexto, criam uma rede de significações que as
nossas traduções dificilmente conseguem sugerir. Isso confere à linguagem bíblica uma
densidade incomum, um quê de mistério, que convém respeitar. Não pensemos
prematuramente que compreendemos tudo.
O valor das traduções
Os primeiros cristãos, muitos dos quais judeus “helenizados”, usavam o Antigo
Testamento em tradução grega (a Septuaginta; cf. acima). Por volta de 400 d.C., São
Jerônimo fez uma tradução em latim a partir do hebraico (para a Bíblia judaica) e do
grego (para os deuterocanônicos e o Novo Testamento). O latim era, naquele tempo, a
língua do povo; por isso, sua tradução se chama a “Vulgata” (de vulgus, “povo”). Essa
tradução foi tomada como referência pelo Concílio de Trento (1546 d.C.). No século 20,
com base em manuscritos hebraicos e gregos recém-descobertos, a Vulgata recebeu uma
revisão radical: a “Nova Vulgata”, publicada em 1979; ela leva em consideração todos
os documentos atualmente conhecidos, inclusive os famosos manuscritos do mar Morto.
A história das traduções modernas baseadas nos idiomas originais é complexa.
Lutero empenhou-se em aproximar a Vulgata dos textos em idioma original. Marcante
foi, e até hoje é, a tradução inglesa conhecida como King James, bem como a revisão
intitulada Revised Standard Version. Na mesma linha foi produzida a primeira tradução
portuguesa dos originais hebraicos e gregos, de João Ferreira de Almeida (séc. 17-18).
Pouco depois, Antônio Pereira de Figueiredo produziu a clássica tradução católica em
português, baseada na Vulgata.
Não faz muito sentido opor as traduções clássicas umas às outras. Todas elas
queriam a mesma coisa, mas foram feitas em épocas e circunstâncias diferentes. A
antiga Vulgata de São Jerônimo, procurando restabelecer a “hebraica veritas”, baseava-
se nos documentos hebraicos e gregos disponíveis por volta de 400 d.C. As primeiras
versões modernas baseavam-se nos documentos disponíveis nos séculos 16-17 d.C.,
chamados de textus receptus (texto “comumente aceito”). As traduções científicas
recentes, porém, dispõem de uma base documental muito mais ampla que Jerônimo ou
os Reformadores. Descobertas recentes (documentos do mar Morto etc.) trouxeram à
luz manuscritos mais antigos e mais abundantes, que são levados em consideração nas
edições atuais (como a Nova Vulgata). Algumas traduções mais tradicionais, contudo,
continuam baseando-se no textus receptus, embora já não seja mais “comumente
aceito”...
As primeiras traduções modernas eram bastante formais; traduziam quase palavra
por palavra. Hoje, as traduções consideram mais o sentido da frase do que as palavras
individuais. Acentuam a dinâmica semântica. Algumas tentam um linguajar mais
coloquial; outras, procurando evocar mais acuradamente a realidade a que o texto
bíblico se refere, usam uma linguagem mais complexa e erudita. Esta nossa tradução
mantém-se no meio, próxima da linguagem usada na liturgia.
Hoje os cristãos de diversas denominações se unem para produzir traduções
interconfessionais da Bíblia, o que é também aconselhado pelo Concilio Vaticano II
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(Dei Verbum 22). Isso é muito útil num país como o nosso, no qual cristãos de diversas
denominações convivem na mesma família e os católicos frequentam a mesma escola
que os presbiterianos e os judeus. Na realidade, quando traduzidas com fidelidade, não
há diferenças fundamentais entre as Bíblias, a não ser quanto ao cânon aceito pelas
respectivas tradições.
A divisão em capítulos e versículos
Para a leitura da Bíblia na assembleia litúrgica e para a oração e estudo pessoal, os
livros bíblicos foram subdivididos em perícopes (lit. “recortes”), identificadas pelas
primeiras palavras de cada trecho. Mais tarde, na Idade Média, foram acrescentados os
números de capítulos e versículos, que facilitam o manuseio da Bíblia. Em alguns casos,
esta numeração diverge segundo o grupo que a adotou (nos Salmos, em Jeremias etc.),
mas isso não atinge o substancial. Em vista do ecumenismo foram indicadas, na
presente tradução, as diferenças de numeração entre a tradição protestante e a católica.
7 - A LEITURA CRISTÃ DA BÍBLIA, HOJE
Nós, cristãos, lemos a Bíblia, não por curiosidade, mas para expor nossa vida à luz
de Jesus, o Cristo – filho do povo que por primeiro “disponibilizou” as palavras de sua
fé por escrito. A Bíblia nos permite conhecer melhor o pano de fundo (o Antigo
Testamento) e o efeito de Jesus de Nazaré naqueles que o seguiram (o Novo
Testamento). Por isso, a leitura cristã da Bíblia pergunta: que luz Jesus projeta sobre a
minha vida? Como posso, com ele, repetir os Salmos do povo de Israel? Que significa
minha vida profissional ou familiar à luz das Bem-Aventuranças? Que significa para
mim a sua cruz redentora – e não só para mim, mas para aqueles que comigo constituem
a comunidade de fé e para toda a humanidade?
Essas perguntas surgem porque a comunidade cristã transmite a memória de Jesus e
leva seus membros a iluminar a vida com a luz de Cristo, como diz o texto batismal Ef
5,14. Para tirar proveito da leitura bíblica hoje é fundamental escutar a Bíblia dentro do
âmbito em que ela nasceu e ao qual se destina: a comunidade que, até hoje, celebra e
busca praticar aquilo que a Bíblia fala. A Bíblia só se compreende verdadeiramente no
meio dos que a vivem. Só num ambiente que transmite de geração em geração o amor
fraterno ensinado por Jesus é que se entende: “Amai-vos uns aos outros como eu vos
amei” (Jo 13,34-35). A Bíblia precisa ser compreendida à luz do compromisso com os
irmãos e irmãs que Deus nos deu e pelos quais Cristo deu sua vida. E também à luz da
oração, em comunidade ou na solidão de nosso quarto, pois ali Deus e os nossos irmãos
estão presentes quando “curtimos” a Bíblia no espírito de Cristo.
Leitura cristã da Bíblia significa, ainda, reconhecer que os escritos conservados pelo
povo do qual Jesus nasceu – a Bíblia judaica – só recebem seu sentido decisivo para
nós, cristãos, à luz de Jesus, que é a palavra de Deus em carne humana, por suas
palavras, por seus atos e por todo o seu modo de ser e de viver (Jo 1,1-18). Não
podemos dar a todas as frases da qualquer página da Bíblia o mesmo peso. As
prescrições rituais do antigo Templo não têm o mesmo caráter definitivo que as palavras
de Jesus para o “bom ladrão” crucificado com ele!
Tudo isso supõe o estudo e aprofundamento da Bíblia, não só da parte dos
especialistas a serviço da comunidade, mas de todos os que querem conhecer esse rico
tesouro, conforme as possibilidades de cada um. Para desfrutar a leitura da Bíblia como
luz para nossa fé é preciso ser treinado na “arte de ler”: ler como se lê toda literatura,
levando em consideração os aspectos históricos, culturais e sociais, os modos de falar e
de escrever, a interação entre o autor e o destinatário. Por esta razão, a presente tradução
junta a cada trecho uma chave de leitura. E os mais treinados em nossas comunidades
são chamados a ajudar, neste sentido, os que tiverem menos estudo.
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Esta maneira cristã de ler a Bíblia deve estar presente na catequese. A Bíblia contém
as primeiras palavras da fé, é o bê-á-bá da fé. O cristão que capta as grandes lições da
Bíblia bebe a verdade fundamental que Deus quer proporcionar-nos, especialmente em
Jesus de Nazaré: sua Aliança, seu amor e fidelidade comprovados pela vida e morte de
Jesus, alicerce da nova comunidade. Sem isso, a catequese não passa de uma construção
sem fundamentos. Naturalmente, a Bíblia deve ser usada como um bom cardápio:
escolhem-se os trechos que correspondem ao que se é capaz de assimilar. Na catequese
de crianças não se deve começar pelas histórias da criação, que causam muitos
problemas (o “criacionismo”), nem pelo sangrento livro dos Juízes ou pelos Salmos
imprecatórios! Mas as parábolas de Jesus ou o Sermão da Montanha (bem explicados)
são sempre um bom ponto de partida.
O lugar por excelência para nos alimentar com a Bíblia é a “mesa da Palavra”, tão
ricamente provida, à qual nos convida a liturgia dominical (Vaticano II, Sacrosanctum
Concilium, 51). Aí se proclama, num ciclo de três anos, domingo após domingo, todo o
Novo Testamento e os trechos fundamentais do Antigo. A homilia litúrgica seja, pois,
um verdadeiro aproveitamento da “mesa da Palavra” – palavra comprovada pelo dom da
vida de Jesus, do qual a “mesa eucarística” é o memorial. E organizem-se círculos
bíblicos para, em simplicidade e fraternidade, “ruminar” esse alimento, ligando a
Palavra de Deus com a vida do povo: a Palavra ilumina a vida, e a vida, o sentido da
Palavra.
8 - A VERDADE DA BÍBLIA
Muitas vezes a Bíblia é criticada por não concordar com a biologia, a arqueologia, a
Ciência em geral ou opiniões corriqueiras, nem sempre muito científicas... Ora, apesar
de ela conter coisas interessantes e até comprovadas do ponto de vista cientifico, sua
intenção não é ensinar aquelas ciências que outras instâncias podem e devem pesquisar.
Em vez de rejeitar a Bíblia em nome de um conceito estreito e superado da Ciência,
convém admirar o carinho com que ela foi copiada de mão em mão, milhares de vezes,
sem alterações significativas, no tempo em que só existiam papiro e pincel ou
pergaminho e pena de ganso. Convém abri-la com o mesmo carinho com o qual nossos
antepassados a conservaram.
A Bíblia ensina a verdade útil para nossa salvação (Vaticano II, Dei Verbum, 11), e
isso, não tanto mediante as palavras impressas no papel, mas mediante o caminho de
vida que ela mostra: o caminho da retidão e do dom total, o caminho que é Jesus de
Nazaré (Jo 14,6).
***
A tradução em suas mãos apresenta o texto que a Igreja Católica no Brasil
usa na liturgia e em seus documentos. Por isso, é cuidadosa, escrita num
estilo que deixa transparecer a linguagem original, sem ser inacessível ao
leitor de hoje. Deseja entrar na memória e no coração, para alimentar a
oração, inspirar a meditação e orientar a prática da vida, individualmente e
em comunidade, em meio a esta humanidade tão querida por Deus e tão
desajeitada no seu caminhar.