diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robSon CruSoe e SeXtA-feirA

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Maria Ligia Coelho Prado**
ecprado@usp.br

Resumo: Em 1719, o romance de Daniel Defoe, Vida e Aventuras de Robinson Crusoe, teve inúmeras edições e se transformou em grande sucesso editorial. Com o passar do tempo, as edições foram sendo modificadas, assim como as construções imagéticas dos personagens principais, Robinson Crusoe e Sexta-feira. Este artigo pretende colocar em debate tais interpretações, considerando que a narrativa de Defoe e suas incontáveis apropriações evocam uma relação naturalizada entre colonizador e colonizado. Palavras-Chave: Crusoe, Sexta-feira, Defoe, civilização, barbárie.

O romance de Daniel Defoe, Vida e Aventuras de Robinson Crusoe, publicado em 1719, consagrou seu autor e se transformou em enorme e imediato êxito editorial1. Suas incontáveis edições atravessaram os séculos, fazendo com que o título permanecesse nos catálogos das editoras até o presente. O crítico Ian Watts o considerou o primeiro romance moderno em língua inglesa (WATT, 1957). O interesse por essa obra pode ser medido pela vasta e notável produção intelectual por ela suscitada, incluindo autores tão diversos quanto James Joyce e Karl Marx, cujos olhares circunscreveram aspectos específicos e produziram reflexões originais. Neste artigo, pretendo fazer um recorte particular, colocando a famosa narrativa do náufrago na ilha deserta em um lugar privilegiado dentro do universo dos diálogos culturais entre o Velho e o Novo Mundo. Defoe (1660-1731) se baseou na história real do marinheiro escocês, Alexandre Selkirk (1676-1721), cujo navio bucaneiro navegava pelo Atlântico sul em busca das riquezas transportadas por navios da Coroa espanhola. Depois de um ataque “bem sucedido”, do qual resultou um belo botim, o navio sofreu avarias. Selkirk desentendeu-se com seu comandante, que não queria consertar o navio
* Agradeço a Gabriela Pellegrino Soares que generosamente trouxe da França e da Inglaterra o material fundamental para a realização deste artigo. ** Professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo. Recebido em 28 de agosto de 2009. Aprovado em 30 de outubro de 2009.

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Dossiê

antes de voltar à Europa pelo Cabo Horn. O episódio culminou com a decisão do capitão de castigá-lo, desembarcando-o na ilha Mas a Tierra, no arquipélago Juan Fernández, na costa do Chile2. Isso ocorreu em 1704 e Selkirk lá viveu completamente sozinho por quatro anos até ser resgatado por outro navio britânico que o levou de volta à Europa. Tem-se repetido que as aventuras de Selkirk se constituem na principal inspiração para o romance do escritor inglês. Defoe estava destinado a ser ministro presbiteriano, mas abandonou os estudos e encaminhou-se para o ramo do comércio e das finanças. Porém, os negócios não prosperaram e ele afundou-se em dívidas. Por essa razão, foi preso pela primeira vez em 1692. Viajou pela Grã-Bretanha e pela Europa ocidental sempre em função de atividades comerciais que não frutificaram. Simultaneamente, escrevia artigos e panfletos que discutiam questões de ordem política. Suas posições partidárias oscilaram, ora apoiando os whigs, ora os tories. Simpatizante da Revolução de 1688, escreveu mais tarde, em 1697, um poema em defesa do rei Guilherme III, The true-born Englisman. Sua fama de rebelde e inconstante contribuiu para uma nova prisão, em 1703, desta vez, acusado de ter escrito um panfleto desrespeitoso à Igreja Anglicana, The shortest way with the Dissenters. Foi exposto no pelourinho por três dias (Charing Cross Pillory – Figura 1) e enviado em seguida para a prisão (Newgate Prison), onde passou alguns meses.

Figura 1: Daniel Defoe exposto no pelourinho, Charing Cross Pillory (1703).
Fonte: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/Daniel_Defoe_by_James_Charles_Armytage.jpg>. Acesso em: 12 mar. 2010.

Hist.R., Goiânia, v. 15, n. 1, p. 133-157, jan./jun. 2010

Produziu entre 1719 e 1724 outros sete romances. a narrativa foi se reduzindo ao episódio do náufrago na ilha deserta. havendo seis impressões em apenas quatro meses. ocorreram adaptações do texto para leitura da juventude4. em julho de 1719. preceptor dos filhos do marquês de Puységur. Em 1766. que narra a história de uma prostituta sem escrúpulos. que lhe deu notoriedade. afiador de Maria Ligia Coelho Prado. Moll Flanders (1722). diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . no mesmo ano de 1719. O livro também foi rapidamente traduzido para diversas línguas. houve outras adaptações para a juventude com ênfase nas questões educativas e morais do texto. emulação da história de Robinson. escreveu seu primeiro romance. carpinteiro. Talvez Feutry tenha se inspirado em Rousseau para quem Robinson Crusoe deveria ser a primeira leitura de seu famoso Emílio (1762). como a do editor T. Rousseau. 1995). com 100 páginas a menos. Um bom termômetro para medir o êxito do texto está na proliferação de edições piratas do livro. 1995). MEUNIER. A história de Robinson Crusoe não interessou a diversos editores para os quais Defoe mostrou os originais. Considerando que o livro era “o mais curioso tratado de educação natural”. William Taylor decidiu-se por sua publicação. Para nos determos na França. O sucesso foi tão inesperado quanto impressionante. Morreu em 1731.000 exemplares vendidos. mas não resolveu seus problemas financeiros. com uma faca e um cachimbo no bolso. Vale observar que já no século XVIII. de náufrago na ilha. desenvolvendo suas potencialidades individuais em confronto com a natureza e encontrando os meios para sobreviver a partir de suas habilidades e conhecimentos.135 Já maduro. Todos conhecem a história do náufrago Robinson Crusoe. Feutry. assim como na iniciativa precoce de publicações resumidas. Homem da Ilustração. deixando de lado a primeira parte e toda a discussão sobre questões morais e religiosas3. Robinson Crusoe. Com o passar das edições. em maio de 1719. já publicava uma edição mais barata. a primeira tradução. Feutry condenava a escravidão e a servidão. 24). o mais lembrado deles. é de 1720 (DELMAS. Robinson se transforma em “arquiteto. Também as imitações se constituem em outra manifestação da popularidade da obra de Defoe. apareceu a versão elaborada por M. Na França. Cox que. Finalmente. que viveu por 28 anos numa ilha deserta. só e endividado. tendo até mesmo sido incorporado como livro de texto nas escolas (DELMAS. num total aproximado de 80. à qual muitas se seguiram. Como afirma James Joyce (1964. publicou-se as Memórias autênticas do Capitão Falconer. p. quase aos sessenta anos. entendia que o texto proporcionaria instrução e diversão a Emílio. pretendendo transmitir uma lição de moral a seus alunos.

construtor de navios. uma arma de fogo. O naufrágio acontece no mar do Caribe. Robinson continua aparelhado com os mesmos emblemas do homem moderno: armas de fogo e ferramentas de trabalho e vestido de maneira inadequada ao clima (Figura 5)5. passa desapercebido ao leitor o fato de que a fatídica viagem de Crusoe inicia-se no Brasil – onde. mas vestido de pele de cabras cobrindo todo o corpo. oleiro./jun. com um guarda-sol. cuja localização carece de importância (HULME. Hist. reza. 1. padeiro. pois a desembocadura do rio Orenoco é a última referência geográfica indicada pelo autor antes do desastre. ainda que a ilha de Crusoe esteja claramente localizada e que os ameríndios citados por Defoe. mas o guarda-sol desapareceu e ele ganhou umas sandálias (Figura 4).R. as ilustrações das primeiras edições de Crusoe não contêm qualquer evidência em termos da flora. fazedor de guarda-chuvas e clérigo”. A religião lhe é um conforto. jan. Defoe constroi um modelo otimista das possibilidades do domínio do homem sobre a natureza. fauna ou clima que identifique o lugar como uma ilha do Caribe. com leis. através do conhecimento racional. n. na edição francesa de 1840. mantém a lucidez. Muitas vezes.. entretanto. 15. tomando a razão como sua bússola. tendo como objetivo determinado a compra de escravos. ele é desenhado de forma semelhante com os mesmos apetrechos. p. na edição francesa de 1933. Nesse sentido. v. Robinson planta. em desacordo com o clima quente. (Figura 2) Essa imagem será repetida à exaustão nas edições seguintes. 1986). Com exceção de raros momentos. 2010 . um cesto às costas e um serrote à cintura (Figura 3). ele chegara trazido por um capitão português e onde vivia como proprietário de terras – com destino à África. ordem e uma refletida divisão do tempo.136 Dossiê faca. Robinson aparece descalço. faz uma casa. 133-157. É uma fábula puritana. Um século à frente. Como afirma Peter Hulme em seu Colonial Encounters. lê a Bíblia. carrega uma espada à cintura e segura duas armas de fogo. ou simplesmente a história de um homem em uma ilha deserta perdida no oceano. Goiânia. um romance sobre o individualismo econômico. busca explicações para os desígnios de Deus. sejam sempre apresentados como Caribes. cria cabras. No frontispício da primeira edição inglesa de 1719. Vive num pequeno mundo organizado. ele aparece vestido. agricultor. Na primeira edição francesa de 1720. E é desse modo que ele está representado em recente edição brasileira dirigida ao público infantil (Figura 6). astrônomo. alfaiate. De forma significativa. levanta uma fortaleza para defender-se de supostos inimigos. o romance não é pensado como um livro caribenho. depois de muitas aventuras. incluindo Sexta-feira. Mais de um século depois.

Taylor. Figura 3: Robinson Crusoe na primeira edição francesa de 1720. Londres: W. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . Amsterdam. Maria Ligia Coelho Prado. L´Honoré & Chatelais. 1719. Ilustração de Bernard Picard.137 Figura 2: Robinson Crusoe ilustrado no frontispício da primeira edição inglesa de 1719. 1720.

p.138 Dossiê Figura 4: Edição francesa de 1840. 1840. v. 1.R. 133-157. Goiânia. n. jan. Hist./jun. Paris: Fournier Aïné. 2010 .. 15. ilustração de Grandville.

. Paris: Bovin &Cie. Maria Ligia Coelho Prado.139 Figura 5: Edição francesa de 1933. Fonte : Delmas e Meunier (1995). ilustração de Valentin Lê Campion. diáLogoS VeLho noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA entre o e o .

15.140 Dossiê Figura 6: Ilustração da edição brasileira. n. jan. v. Hist. p.R. 133-157.. 2010 . 1. Goiânia. Fonte: Crusoe (1999)./jun.

foram o católico capitão português e o convento brasileiro de agostinianos que cuidaram de suas terras e rendas tão bem quanto a viúva protestante de Londres. Crusoe acredita que seus infortúnios foram um castigo por sua desobediência ao destino que seu prudente pai lhe havia traçado. Adquire o hábito de pedir a bênção de Deus antes de comer e não pode suportar a ideia da nudez. como o dia do Senhor. o protestantismo tradicional está acompanhado por uma visão de moralidade nos negócios. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . que pode ser entendido como uma entrada principal para o universo de problemas debatidos referentes à personagem central do romance. a auto-disciplina e o trabalho árduo guiam seu padrão de comportamento. escreve um diário no qual anota as coisas boas e as coisas más que lhe sucedem e que funciona como um balanço espiritual. dois meninos e uma menina. Além disso. Robinson guarda o sétimo dia da semana. Robinson Crusoe. cobre o corpo inteiramente. Hill também salienta a ausência de mulheres no romance. O ascetismo. Tive três filhos. A única menção ao sexo feminino acontece ao final do livro. Estas anotações são a prova de que a sobrevivência e o final enriquecimento de Crusoe se devem ao trabalho constante e à recusa da perda de tempo. assim.6 Referência obrigatória para nós historiadores é o artigo clássico de Christopher Hill (1972). e mantém boas relações com os espanhois quando estes chegam à ilha. Minha mulher Maria Ligia Coelho Prado. Por outro lado. como já vimos nas ilustrações iniciais. em um único e curto parágrafo. pois ele está bem confortável no Brasil. mesmo estando sozinho na ilha. Na trilha da mesma tradição religiosa. Em primeiro lugar. de acordo com a tradição calvinista na Inglaterra. demonstra acreditar na predestinação. Há uma perspectiva de tolerância religiosa. propondo questões e interpretações que pretendem desvendar os múltiplos significados da obra. muito se escreveu sobre Robinson Crusoe. seguindo o imaginado calendário por ele elaborado. De volta à Inglaterra.141 Como afirmei anteriormente. Hill aponta também para os traços típicos de uma visão religiosa presbiteriana. no romance. sob a ordem dos “papistas”. onde me casei. enquanto estava na ilha longe do mundo comercial. na perspectiva do espírito do capitalismo de Weber7. Segundo Hill. O historiador inglês indica as ambiguidades do comportamento de Robinson na ilha em comparação a um modelo estrito do puritanismo inglês. ainda que o considere um cristão. Também marca seus “lucros” e suas “perdas”. Robinson afirma: “Fixei-me na minha terra. não sabe o que responder a ele. quando este pergunta por que Deus permitiu a existência do demônio. Aceitando que Deus usa nossas próprias ações para nos punir. Robinson não batiza Sexta-feira.

Se Robinson salvou a vida de Sextafeira. que volta à Inglaterra acompanhado por seu “fiel escudeiro”. a resposta do índio somente poderia ser a de uma pessoa eternamente grata. Na narrativa de Defoe. aqui protagonizados por representantes do Velho e do Novo Mundo. incita a outra ordem de reflexões. a relação entre Robinson e Sexta-feira foi naturalizada e surge diante dos olhos do leitor como uma consequência lógica da dinâmica dos encontros humanos assimétricos. ela pode ser entendida como a construção modelar da “relação bem sucedida” entre o colonizador europeu e o colonizado americano. um bezerro. pois o pecúlio que deixara com a honesta viúva inglesa lhe rendera lucro e a venda das terras no Brasil também lhe proporcionara um grande montante de dinheiro. 1. especialmente o período da acumulação primitiva que é seu ponto de partida8. nosso personagem declara que tinha mandado do Brasil para os novos habitantes da ilha “cinco vacas.. 15. 133-157. Defoe cria um final feliz para Crusoe. Para isso. Robinson descobre que se tornara um homem rico. Ele é o verdadeiro protótipo do colonizador britânico. que ia ser devorado num festim canibal.R. que o segue de muito bom grado. p. Esta interpretação de Hymer é um exemplo radical das possibilidades de reflexão sobre o romance. p. Em seu país natal. imaginada por Defoe. Acrescento que a saga do homem solitário no “deserto” mundo americano é uma reprodução em miniatura da “descoberta” do Novo Mundo pelos europeus e de sua “obra civilizatória”. Na minha perspectiva.142 Dossiê morreu logo em seguida. v. acompanha-se a associação entre mulher e mercadoria. acrescenta que também enviara “sete mulheres como domésticas ou companheiras”. A relação entre Robinson e Sexta-feira. 2010 . afirma que quer ir além dos detalhes da história de Robinson para ilustrar a análise de Marx sobre a economia capitalista. Hill (1972./jun. desvendando os segredos da acumulação primitiva do capital. jan. Stephen Hymer (1972) produz uma inesperada interpretação sobre as práticas de Robinson. que culminam com seu enriquecimento ao final do livro.. Baseado nas transações econômicas empreendidas por Robinson. ainda que – como no caso citado – o autor se descole do texto do romance para fazer outras considerações. Em segundo lugar. assim como Sexta-feira (o confiante selvagem que chega em um dia infeliz) é o símbolo das raças submetidas”9. Sexta-feira.”. Como o irlandês James Joyce observou em 1912: “O verdadeiro símbolo da conquista dos britânicos está em Robinson Crusoe. porcos. n.” Mais à frente. como Hist. na sentença seguinte.. 20) lembra que Ian Watts entende “de maneira interessante que para Defoe sexo é mais uma mercadoria que uma relação humana”. Goiânia.

Crusoe ensina-lhe a língua inglesa. exterioridade palpável da condição de civilizado. O encontro estabelece o momento da origem da relação fazendo tábula rasa do passado individual e cultural do índio10. Numa edição inglesa do século XVIII. Sua vida anterior. Robinson. falando de forma trôpega. vestido apenas com uma tanga. há uma edição brasileira que reproduz exatamente a mesma cena (Figura 8)12. a criar cabras. o de uma relação harmoniosa. é apagada. a ilustração mantém a mesma moldura: Robinson paramentado e com a arma às costas encena um gesto paternal. Com argumentos racionais. Numa edição francesa da década de 1920. Sexta-feira deveria curvar-se diante da superioridade europeia e aceitar seu lugar subordinado. mais precisamente na porta. os hábitos e os costumes anteriores do índio. O resultado apresentado por Defoe é. No começo do século XX. O momento da chegada de Sexta-feira à ilha aparece sempre nas ilustrações. olha em direção a Sexta-feira. advertência também aceita por Sexta-feira. Robinson ensina Sexta-feira a plantar. No tratamento dispensado ao caribenho não se coloca a questão da individualidade do “outro”. totalmente nu. Sintomaticamente. a primeira palavra ensinada e aprendida é Master. com uma arma ao ombro e outra apoiada no chão. nessa sequência.143 sua vida foi salva pela utilização de uma arma de fogo. pois representa o primeiro passo no seu ritual de passagem da selvageria para a civilização. A culminância do ato de submissão/dominação está representada pela postura de Sexta-feira que coloca o pé de Robinson sobre sua cabeça (Figura 7)11. a língua. estirado ao chão. Maria Ligia Coelho Prado. vestido com as peles de cabra. A roupa. O ato de vestir Sexta-feira tem um valor simbólico. Está fora do universo cultural de Robinson/Defoe perguntar algo sobre as crenças. faz uma espécie de reverência diante do inglês (Figura 9)13. Mas ele não é considerado digno do batismo. Fornece roupas para vestir sua nudez e coloca-o para dormir do lado de fora de sua cabana. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . Sua real existência se inicia no dia do encontro com o homem branco. produto da técnica moderna. este. na qual deveria ter um nome. beijando-lhe humildemente os pés. estendendo a mão sobre Sexta-feira. faz de Robinson um ser diferenciado do bárbaro índio nu. de joelhos. explica-lhe que deve abandonar o costume de comer carne humana. ar de heroi vencedor. porém Sexta-feira jamais será capaz de aprendê-la corretamente. no imaginado calendário robinsoniano. A submissão de Sexta-feira é relatada nos mínimos detalhes. na qual as duas partes conhecem seus lugares e não os colocam em dúvida. Robinson dá o nome de Sexta-feira ao índio – referido ao dia em que ele chegou.

. 133-157. porém sem data específica. p. n./jun. Bodleian Library. 2010 .144 Dossiê Figura 7: Edição do século XVIII. S. Fonte: Opie Collection of Children´s Literature. v. Jewkes (p. Universidade de Oxford. 1. Hist. Londres.R. Goiânia.75). 15. jan.

Maria Ligia Coelho Prado. s.145 Figura 8: Ilustração da Livraria Garnier. traduzida do original inglês.. Rio de Janeiro. p.248.d. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA .

. 133-157. jan. Nehlig. Neste preciso episódio. 15. 2010 . Goiânia. v. n.146 Dossiê Figura 9: Edição publicada em Paris./jun. Robinson permite que Sexta-feira empunhe uma arma de fogo – suprema prova de confiança do inglês .para ajudá-lo a salvar os espanhois. chega à ilha um grupo de espanhois prisioneiros dos índios que se preparam para executá-los. com ilustração de I. acontece a perfeita conversão de Sexta-feira à civilização com sua decidida escolha pelos valores ingleses.R. Ao atirar contra seus Hist. matando os indígenas caribenhos. pela editora Garnier. Quase ao final da história. p. 1. Fonte: Delmas e Meunier (1995). por volta de 1924.

p. enquanto Robinson conforta um espanhol ferido. o episódio aparece constantemente nas ilustrações. Na gravura da edição inglesa de 1885. os elementos centrais estão presentes com sua simbologia mantida intacta no que concerne às distinções entre civilização e barbárie. Figura 10: Reproduzido da imagem do texto de Peter Hulme. como civilizado europeu. Sexta-feira. Sexta-feira demonstra sua adesão completa à ordem do colonizador branco. Como afirma Peter Hulme. Em duas edições brasileiras do século XX. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . os indígenas (Figura 11)15.147 “irmãos selvagens”. há uma cabeça cortada de europeu e alguns ossos humanos para indicar a justeza da causa dos brancos (Figuras12 e 13)16. “Robinson Crusoe”. Fonte: Colonial encounters… (1986. para lembrar porque essas batalhas precisavam ser travadas (Figura 10)14. Robinson ampara o espanhol que. Na edição francesa de 1845. o crânio meio enterrado colocado à frente da ilustração funciona como memento anthropophagi. no primeiro plano à esquerda. veste roupas em contraste com os indígenas nus.74). Por sua importância. Note-se na edição da Garnier que. lá está a mesma composição da cena. vestido com as mesmas roupas de peles de cabra está de costas atirando para matar os índios. Maria Ligia Coelho Prado. Sexta-feira se encarrega de atirar nos “inimigos”.

Edição de 1845.R. s. Figura 12: Ilustração da primeira edição publicada no Rio de Janeiro Livraria Garnier. 133-157. p./jun. v. 239.. 15.148 Dossiê Figura 11: Paris: Didier. 2010 . Hist. (já citada). 1. n. jan. p. Goiânia. Libraire-Éditeur.d.

em que Crusoe salva Sexta-feira (sempre semi-nu) de alienígenas17. pois suas constantes releituras indicam sua sempre renovada atualidade. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . Veja-se. Robinson Crusoe em Marte. indicando as metamorfoses pelas quais passou Sexta-feira. ele é representado como um índio nos seus traços fisionômicos e na cor da pele. Desse modo. Interessante Maria Ligia Coelho Prado. p. aliado à possibilidade da suspensão do tempo em que a história acontece. na qual lá está Sexta-feira no seu formato indígena (Figura 14)18. Companhia das Letrinhas (1999. É manifesta a vitalidade da fábula do homem solitário vivendo na ilha deserta. Curioso é lembrar que há até mesmo uma “versão espacial” da história. Fiz referência anteriormente ao fato do esquecimento do lugar – o mar do Caribe – onde a saga de Robinson Crusoe e Sexta-feira se desenrola. Essa representação do bárbaro como índio continuou a ser reproduzida. Nas edições do século XVIII. filme de ficção científica de 1964. 52 e 53) Nota: Foi traduzida da edição inglesa publicada em 1998 pela Dorling Kindersley Limited. a narrativa foi ganhando uma roupagem mítica – fora do tempo e do espaço. Este não-lugar. voltada para o público infantil. como já foi mostrado. Essa dimensão pode explicar as últimas ilustrações que apresento.149 Figura 13: Edição publicada em São Paulo. por exemplo. contribuiu para a proliferação de reapropriações do tema. Livros e filmes revisitam a narrativa. a recente e já indicada edição brasileira.

1884). do Colégio D. mas ostenta penas coloridas na cabeça. p. na qual ele está semi-nu. Figura 14: Edição (já citada) publicada em São Paulo. 1. Companhia das Letrinhas (1999. EditoresProprietários em 1884 Hist. p. 49). Goiânia. O texto foi redigido “para a mocidade brasileira” por Carlos Jansen. Figura 15: Edição publicada no Rio de Janeiro por Laemmert & Cia. 133-157. jan./jun. 2010 . Pedro II (Figura 15) (DEFOE.150 Dossiê também é apresentar a caracterização de Sexta-feira na edição brasileira de 1884. 15. n. numa imagem que lembra as representações do indígena do Brasil.. v.R.

estendendo os braços. encontraremos imagens de um negro africano. Se entrarmos aleatoriamente na internet em busca de representações de Sexta-feira. Essa alteração nos contornos da figura modelar do colonizado vai se processando de maneira paulatina. a pele de Sexta-feira assume um tom mais escuro a ponto de poder ser confundido com um africano (Figura 16)19. Diante de um Robinson cuja vestimenta consiste em “calças” de pele de cabra e casaco próprio de uniforme militar europeu. numa atitude de submissão. eles estão atravessados por ossinhos. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . Didier. a ilustração carrega os traços de uma visão colonialista europeia num tempo em que a Europa precisava encontrar justificativas para a intervenção na África. 1995). Tal transformação foi apropriada pela edição brasileira da Editora Itatiaia de 1964. que integra a Coleção Clássicos da Juventude. Na edição francesa de 1845. MEUNIER. O mesmo acontece com os índios na já identificada gravura da edição brasileira da Garnier do século XX (Figura 12)20.Paris. Mas a transformação inequívoca ocorre em edição francesa do começo do século XX: Sexta-feira foi plenamente transfigurado em negro africano (Figura 17) (DELMAS. está Sexta-feira pintado como um negro africano com lábios grossos e cabelos crespos. Desse modo. Na capa. 1845. Maria Ligia Coelho Prado. Figura 16 : Edição francesa. associando – de forma equivocada – a África ao canibalismo (Figura18)21. com as palmas das mãos voltadas para cima. ajoelha-se um negro africano semi-nu.151 Entretanto. Libraire-Éditeur. mostrando a permanência dessa imprópria assimilação (Figura19). há uma fundamental transformação do “selvagem” índio em “selvagem” negro africano. a partir de algumas edições do século XIX.

152 Dossiê Figura 17: Ilustração Estraída de M-Charlotte Delmas & Jacques Munier. 2010 . Goiânia. 1. 15. 40). n. jan. v. Hist. em 1964. Figura 18: Capa e contracapa da edição publicada pela Editora Itatiaia de Belo Horizonte. 133-157. p..R. p. Les Aventures de Robinson Crusoe (1995. Coleção Clássicos da Juventude./jun.

As apropriações e adaptações da história original de Robinson Crusoe e Sexta-feira carregam fortes significados culturais e políticos. Acesso em: 12 mar. que se renovam até o presente. no alvorecer dos tempos modernos.gif>. Maria Ligia Coelho Prado. 2010.com/_yEE_GL-q3ho/SbRj8evlpRI/AAAAAAAAAVY/dybxE5vtpWo/s400/ home.blogspot. Nos diálogos culturais entre o Velho e o Novo Mundo. a saga de Robinson Crusoe e Sexta-feira desponta como texto referencial.bp. sua pretensa neutralidade e sua contundente formulação da possibilidade da construção de uma relação harmoniosa e ingênua entre colonizador e colonizado. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA .153 Figura 19: Sexta-Feira. em qualquer época da História. O olhar imperial se manifesta naturalizando essa relação e ocultando sua violência22. A história do inglês náufrago no Caribe oferece elementos que permitem releituras e contribuem para sutilmente defender a lógica da superioridade da “civilização” sobre a “barbárie” e justificar o encontro assimétrico entre colonizador e colonizado. Fonte:<http://1. por sua simplicidade.

1965). 1840. 5 Essas imagens foram retiradas das seguintes edições: Londres: W. Taylor. Paris: Bovin &Cie. 15. 4 Fenômeno semelhante aconteceu com o romance para adultos de Jonathan Swift. Jacques. Robinson Crusoe and Friday. Life and Adventures of Robinson Crusoe. o santo retira-se para uma ilha deserta. notAS 1 Para a leitura do romance.154 Dossiê diALogueS betWeen the oLd And the neW WorLd robinSon CruSoe And fridAy Abstract: The novel. considering that Defoe’s narrative evokes a naturalized relationship between the colonialist and the colonized. e traduzido para o francês. 7 Não nos esqueçamos que no romance. Defoe. Keywords: Crusoe. 133-157. 2 O navio em que Selkirk viajava acabou naufragando e matando toda a tripulação. written by Daniel Defoe.. Defoe (1955. 8 É interessante lembrar que Karl Marx utilizou Robinson Crusoe como exemplo Hist. Na Idade Média. 1972). São Paulo: Companhia das Letrinhas. ilustração de Bernard Picard. porque suas rendas deixadas nas mãos de pessoas honestas fizeram multiplicar seu capital. Paris: Fournier Aïné. onde deve se purificar através da penitência e do sofrimento para alcançar o perdão de suas faltas (MANN. publicado em 1726. 6 Ver alguns textos clássicos como Novak (1963) e Starr (1965). 1720. barbarism. narrativas de ermitões que escolhem o isolamento são inúmeras. Les Aventures de Robinson Crusoe : parcours éditorial d’une oeuvre littéraire. 1. changed throughout the times. quando Robinson regressa à Inglaterra. 1719. p. 1995. jan. n. utilizei as edições com texto completo. 3 A ideia da solidão absoluta. v. ilustração de Grandville. Friday. was published in 1719 and immediately became a bestseller. Marie-Charlotte & Meunier. Issy-les-Moulineaux : Association d’Animation de la Médiathèque d’Issy-lesMoulineaux. em 1727. da vida apartada da sociedade. ilustração de Valentin Lê Campion in Delmas.R. As Viagens de Gulliver. Amsterdam: L´Honoré & Chatelais. 1999. Goiânia. descobre que está rico. mostrando como o capitalismo recompensa aqueles que poupam. parece ter sempre povoado a imaginação ocidental./jun. E a edição brasileira: Robinson Crusoe: Aventura de um náufrago numa ilha deserta. The book had many editions and the illustrations of the main characters. civilization. 2010 . This article intends to discuss these different images and their interpretations. pelo abade Desfontaines.. Lembro aqui a versão de Thomas Mann sobre a vida lendária de São Gregório: depois de cometer “terríveis pecados”.

com ilustração de I.cuja ilha explodiu porque Sexta-feira inadvertidamente jogou seu cachimbo aceso na pólvora guardada . retirada de Delmas (1986.155 para. Tomando alguns pouco exemplo. Integra a Opie Collection of Children´s Literature que se encontra na Bodleian Library da Universidade de Oxford.d. Rio de Janeiro: Difel. s.” 10 Para uma visão oposta à de Defoe sobre a relação entre Robinson e Sexta-feira. 1999..revê seus valores e suas crenças e começa a aprender com Sexta-feira a viver de outro modo. a calculada taciturnidade. a segunda é de São Paulo: Companhia das Letrinhas. Michel. a imagem está na p. traduzida do original inglês. Tournier faz parte da geração vinculada aos movimentos culturais de 1968. mas é do século XVIII por todas as características da publicação. uma mercadoria – como sua única companhia. ver Tournier. No romance. 12 É uma edição produzida no Rio de Janeiro. p. Nehlig.que mostra uma visão absolutamente tradicional. 24). 9 Cf. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . entre uma patroa burguesa e seu criado.75). O recente filme de Robert Zemeckis – Náufrago (2000) – conta a mesma história da luta do indivíduo solitário para conseguir sua sobrevivência apoiado em seus conhecimentos e habilidades racionais. Foi publicada em Londres por S. p. 74). depois de muitas peripécias. Robinson . no primeiro tomo de O Capital. 13 Edição publicada em Paris. pela editora Garnier. o mais revelador é que o náufrago elege uma bola – vale dizer. 16 A primeira edição já citada foi publicada no Rio de Janeiro: Livraria Garnier. Jewkes (p. No fim da história. 74).. Libraire-Éditeur. O texto de Joyce continua: “O completo espírito anglosaxão está em Crusoe: a masculina independência. pp. os mastros do navio) embarca. começo pelo dirigido por Luis Buñuel – Robinson Crusoe. na França.248. mostrar a diferença entre produção para uso e produção para troca e valor de uso e valor de troca. a apatia sexual. p. s. Sexta-feira ou os limbos do Pacífico. Maria Ligia Coelho Prado. a lenta mas eficiente inteligência.produz um filme extremamente interessante sobre as relações entre as classes sociais. a religiosidade equilibrada e prática. p. 15 Paris: Didier. Lina Wertmüller – Por um Destino Insólito (1974) . Para mim. da Livraria Garnier. Seu fim será a escravização. Robinson se recusa a voltar para a civilização. náufragos numa ilha deserta.1985. a persistência. enquanto Sexta-feira deslumbrado com a técnica moderna (por exemplo.d. 1845. Joyce (1964. 11 A edição não tem data.239. 14 Reproduzido da imagem do texto de Hulme (1986. sem qualquer perspectiva crítica da relação colonizador/colonizado. de 1952 . por volta de 1924. 17 Impressiona o número de filmes que têm Robinson Crusoe como protagonista. a crueldade inconsciente. 52 e 53.

1987. o escritor sul-africano J. 1492-1797. Robinson Crusoe. 1986. Robinson é um preguiçoso que não trabalha e morre na viagem de volta à Inglaterra. O livro é desesperançado e não propõe qualquer solução para os dilemas vividos pelos personagens. Hist. mas não sabe o que fazer com ele.. Defoe (1999. Christopher. Daniel. Meunier. 19 Paris: Didier. v. COLONIAL Encounters: Europe and the native Caribbean. Com a morte de Robinson. Coleção Clássicos da Juventude. 15. _____. Robinson Crusoe. 1986. 49) Foi traduzida da edição inglesa publicada em 1998 pela Dorling Kindersley Limited. Les Aventures de Robinson Crusoe : parcours éditorial d’une ceuvre littéraire. traduzida do original inglês. 1995. p. HULME. Vida e aventuras de Robinson Crusoe. jan. _____. Sexta-feira é seu escravo negro cuja língua foi cortada. 1492-1797. History Workshop Journal.. n. A personagem principal é uma decidida mulher que viajara à Bahia em busca da filha perdida. Robinson Crusoe and the secret of primitive accumulation. Nova York: Penguin Books. Colonial Encounters: Europe and the native Caribbean. 133-157. 1972.d. morrendo no início do romance. Nova York: Methuen. Colonial Encounters: Europe and the native Caribbean. HILL. Goiânia. Sept. 1492-1797. 1. Coetzee. Peter. Nova York: Viking. Foe./jun. Stephen. 1845. 1955. 1995. Foe. São Paulo: Clube do Livro. Monthly Review. Oxford: Oxford University Press. 22 Numa perspectiva bastante crítica com relação à colonização e ao eurocentrismo. Nova York: Viking. referênCiAS COETZEE. Libraire-Éditeur. 1964. 1987. Issy-les-Moulineaux: Association d’Animation de la Médiathèque d’Issy-lesMoulineaux. 1971. p. Jacques. M. DEFOE. M. que não é a personagem principal. HYMER. Coetzee escreveu sua versão da saga de Robinson Crusoe. J. 1965. J. Issy-les-Moulineaux : Association d’Animation de la Médiathèque d’Issy-les-Moulineaux. 21 Belo Horizonte: Editora Itatiaia. Ela naufraga e encontra Robinson e Sexta-feira em uma ilha e com eles volta à Inglaterra. Robinson Crusoe.R. sente-se responsável por Sexta-feira. Londres e Nova York: Methuen. _____. Londres e Nova York: Methuen. Marie-Charlotte. M.156 Dossiê 18 Cf. 20 Rio de Janeiro: Livraria Garnier. Londres. s. 2010 . Les Aventures de Robinson Crusoe: parcours éditorial d’une oeuvre littéraire. 1986. DELMAS.

Jonathan. Fontes. Berkeley: University of California Press. 1964. 2004. SWIFT. Thomas. The rise of the novel: studies in Defoe. I. 1995. 1965. Defoe and Spiritual Autobiography. 1972. TOUNIER. Maria Ligia Coelho Prado. Lisboa: Publicações Europa-América. Richardson and Fielding. Michel. 1963. Economics and the Fiction of Daniel Defoe. São Paulo: M. Sexta-feira ou os limbos do Pacífico. ROUSSEAU. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2005. As viagens de Gulliver. M. Jean-Jacques. E. James. A. diáLogoS entre o VeLho e o noVo mundo: robinSon CruSoe e SeXtA-feirA . 1962. E. NOVAK. Porto Alegre: LP&M. Londres: Chatto and Windus. 1957. Emílio ou Da Educação. Princeton: Princeton University Press. Defoe and the Nature of Man. Nova York: Buffalo. Daniel Defoe. STARR. Oxford: Oxford University Press.157 JOYCE. NOVAK. Buffalo Studies. WATT. MANN. G. M. Ian. O eleito.

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