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Origem dos antigos egipcios CHEIKH ANTA DIOP A aceitagao geral da hipétese da origem monogenética e africana da humani- dade suscitada pelos trabalhos do professor Leakey tornou possivel ‘colocar em termos totalmente novos a questio do povoamento do Egito, e mesmo do mundo. Ha mais de 150 mil anos, a Gnica parte do mundo em que viviam setes morfologicamente iguais aos homens de hoje era a regido dos Grandes Lagos, nas nascentes do Nilo, Essa nogio — e outras que nao nos cabe reca- pitular aqui — constitui a esséncia do ultimo relatério apresentado pelo dr. Leakey no VII Congresso Pan-Africano de Pré-Histéria, em Adis Abeba, em 19711. Isso quer dizer que toda a raga humana teve sua origem, exatamente como supunham os antigos, aos pés das montanhas da Lua. Contra todas as expectativas © a despeito das hipéteses recentes, foi desse Iugar que 0 homem partiu para povoar o resto do mundo. Disso resultam dois fatos de capital importancia: (a) necessariamente, os primeiros homens eram etnicamente ho- mogéneos e negrdides. A lei de Gloger, que parece ser aplicavel também aos seres humanos, estabelece que os animais de sangue quente, desenvolvendo-se em clima quente e tmido, secretam um pigmento negro (melanina)*. Por- tanto, se a humanidade teve origem nos tropicos, em torno da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava, no inicio, pigmentacio escura, e foi pela diferenciagao em outros climas que a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes ragas; (b) havia apenas duas rotas através das quais esses primeiras homens poderiam se deslocar, indo povoar os outros continentes: o Saara e o vale do Nilo. F esta ultima regido que serd discutida aqui. A partir do Paleolitico Superior até a época dindstica, toda a bacia do rio foi progressivamente ocupada por esses povos negrdides. Evidéncias da antropologia fisica sobre a raga dos antigos egipcios Poder-se-ia pensar que, trabalhando com evidéncias fisiolégicas, as descober- tas dos antropélogos poderiam dissipar todas as diividas por fornecerem ver- 1 PROCEEDINGS OF THE SEVENTH PAN-AFRICAN CONGRESS OF PrE-History aND QUATER- nary STupIEs, Dec. 1971. ?Montacu, M. F. A. 1960, p. 390, 40 A Africa antiga dades confidveis e definitivas. Isso nao é, de maneira nenhuma, o que acon- tece: a natureza arbitrdria dos critérios utilizados — para mencionarmos apenas um aspecto —, ao mesmo tempo que afasta qualquer possibilidade de uma conclusdo. ser aceita sem reservas, introduz tanta discussao supérflua entre os cientistas que as vezes nos perguntamos se a solugio do problema no teria estado muito mais préxima se nao semos © azar de abordd-lo sob esse Angulo. No entanto, embora as conglusGes desses estudos antropolégicos se dete- nham um pouco aquém da realidade, elas sio undnimes em mencionar a exis- téncia de uma raga negra desde as mais distantes épocas da Pré-Histéria até o periodo dindstico. Nio ¢ possivel, no presente capitulo, citar todas esas con- clusées. Elas estéo sumarizadas no Capitulo X de Histoire et Protohistoire d'Egipte (Institut d’Ethnologie, Paris, 1949), do dr. Emile Massoulard, Cita- remos apenas alguns itens: “Miss Fawcett acredita que os cranios de Negadah compéem uma cole- ¢éo com homogencidade suficiente para fundamentar a hipétese da exis- téncia de uma raga de Negadah. Quanto a altura total do cranio, altura auricular, do comprimento e largura da face, ao comprimento do nariz, ao indice cefdlico e ao indice facial, essa raga parece aproximar-se da raga negra; quanto & largura do nariz, a altura da érbita, ao compri- mento do palato e ao indice nasal, ela parece mais proxima dos povos germanicos; assim, os negadenses pré-dindsticos provavelmente se asse- melhavam, quanto a algumas de suas caracteristicas, aos negros e, quanto a outras, as ragas brancas” (pp. 402-3). & importante observar que os indices nasais dos etiopes e dos dravidia- nos os aproximariam dos povos germanicos, embora ambos pertengam a ra¢as negras. Essas medidas — que deixariam abertas alternativas possiveis entre os dois extremos, representados pelas ragas negra e germAnica — dao uma idéia da elasticidade dos critérios empregados. Eis um exemplo: “Tentando determinar com maior precisio a importaéncia do elemento negrdide nas séries de cranios de El-Amra, Abidos e Hou, Thomson e Ran- dall Maclver dividiram-nos em trés grupos: 1. cranios negréides (aqueles com indice facial abaixo de 54 e indice nasal acima de 50, isto ¢, face curta e larga ¢ nariz largo); 2. cranios nfo-negréides (indice facial acima de 54 € indice nasal abaixo de 50, face comprida e estreita e nariz estreito); 3. cranios intermediarios (podem ser atribuidos a individuos dos dois primeiros grupos, com base no indice facial ou nas evidéncias referentes ao indice nasal, e ainda a individuos marginais a ambos os grupos). A proporcéo de negrdides no inicio do periodo pré-dindstico parece ter sido de 24% de homens ¢ 19% de mulheres, ¢, no final desse mesmo periodo, de 25% de homens ¢ 28% de mulheres. Kieth contestou o valor dos critérios utilizados por Thomson e Randall Maelver para distinguir os cranios negréides dos nfo-negrdides. Sua opiniao & de que, se os mesmas critérios fossem aplicados para estudar qualquer série de crdnios ingleses contemporineos, a amostra conteria aproximadamente 30% de tipos negrdides* (pp. 420-1). Origem dos antigos egipcios 41 Pode-se afirmar também o reverso da proposigio de Kieth, isto é, que, se © critério fosse aplicado aos 140 milhées de negros que hoje vivem na Africa negra, no minimo 100 milhées deles apareceriam “branqueados”. Deve-se enfatizar também que a distingiio entre “negrdides”, “ndo-negréi- des" © “intermediérios” nfo é clara: “nfo-negréide” nao significa de raga branca, e “intermedidrio”, muito menos. “Falkenburger retomou o estudo antropolégico da populagdo egipcia num trabalho recente, no qual analisa 1787 cranios masculinos do periodo que se estende desde o Pré-Dindstico Antigo até nossos dias. Ele distingue quatro grupos principais” (p, 421). A classificagao dos cranios pré-dindsticos nesses quatro grupos da, para © total do perfodo pré-dindstico, os seguintes resultados: “36% de negréides, 33% de mediterranicos, 11% de cro-magndides e 20% de individuos que néio se enquadram em nenhum desses grupos, mas se aproximam dos cro-mag- néides ou dos negrdides”, A proporeao de negréides é definitivamente mais alta do que a sugerida por Thomson ¢ Randall Maclver, a qual, no entanto, Kieth considera muito elevada. “Os nimeros de Falkenburger refletem a realidade? Nao é nossa tarefa decidir. Se estiverem corretos, a populacao pré-dindstica, longe de representar uma raca pura, como disse Elliot-Smith, compreendia pelo menos trés elemen- tos raciais distintos: mais de um terco de negrdides, um tergo de mediterrani- cos, um décimo de cro-magnéides e um quinto de individuos mestigos em varios graus” (p. 422). O fundamental em todas essas conclusdes é que, a despeito das discre- pancias que apresentam, o seu grau de convergéncia prova que a base da populacao egipcia no periodo pré-dindstico era negra. Assim, todas elas sao incampativeis com a teoria de que o elemento negro se infiltrou no Egito em periodo tardio. Pelo contrdrio, os fatos provam que o elemento negro era pre- ponderante do principio ao fim da histéria egipcia, particularmente se obser- varmos, uma vez mais, que “mediterranico” nao é sinénimo de “branco”; esta- tia mais préximo da “raga morena ou mediterranica” de Elliot-Smith. “Elliot-Smith classifica esses protoegipcios como um ramo do que ele chama raga morena, que corresponde a ‘raga mediterraénica ou euro-africana’ de Sergi” (p. 418). © termo “moreno” neste contexto refere-se 4 cor da pele ¢ € simplesmente um eufemismo de negro *. Assim, fica evidente que toda a populagdo egipcia era negra, com exce- Gao de uma infiltragao de némades brancos no periodo protodinastico. O estudo de Petrie sobre a raga egipcia revela um elemento classificatério possivel muito fecundo, que nao deixaré de surpreender o leitor. “Petrie (...) publicou um estudo sobre as racas do Egito nos periodos pré- -dindstico e proto-dindstico, trabalhando apenas com representagdes. Além da raga esteatopigica, distinguiu seis diferentes tipos: um tipo aquilino, repre- 8Pelo método deserito, pode-se avangar o estudo da pigmentagao dessa raga. De fato, E.uor-Smit muitas vezes encontrou fragmentos de pele nos corps datando de épocas em que os métados de mumificagio que causavam a deterioragio da pele ainda no estavam em uso.