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São Bernardo

Graciliano Ramos
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São Bernardo Graciliano Ramos 1934 – 1ª Publicação

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São Bernardo
Graciliano Ramos

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer." Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948
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pela revolução de 30. Esse momento brasileiro é de grande efervescência política. O ditador Vargas manobrava habilmente com comunistas e integralistas. Tendo o país passado pela Coluna Prestes.São Bernardo Graciliano Ramos São Bernardo é o segundo romance publicado de Graciliano Ramos em 1934. pela revolução constitucionalista de 32. 4 . mantendo-se no poder e preparando o golpe do Estado Novo (1935) com que pretendia se perpetuar no poder.

Heloisa. e o poeta chileno Pablo Neruda 1952 5 .São Bernardo Graciliano Ramos com a esposa.

São Bernardo Graciliano Ramos com o filho. Ricardo Ramos 1948 6 .

diferentes em tudo. mas complementares também em quase tudo. O ciúme avassalador de Paulo Honório esbate-se contra a atitude dúbia de Madalena.São Bernardo Graciliano Ramos UM ROMANCE DO REGIME FUNDIÁRIO E OS CONFLITOS SOCIAIS O autor buscou também explorar o drama humano terrível vivenciado por Paulo Honório e Madalena. resultando num jogo de intrigas que muito lembra o drama de Bentinho e Capitu. 7 .

e o tempo histórico é imediatamente após a revolução de outubro de 1930. mas a duração e a ordem dos acontecimentos vai obedecer ao valor que cada um deles tem na psicologia do narrador-personagem. •A trama flui a partir de uma retrospectiva feita aos cinqüenta anos do protagonista. em Viçosa-AL. •A narrativa busca recuperar cerca de cinqüenta anos de história. O tempo da narrativa é psicológico. imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.” 8 . o tempo da trama não segue uma linha cronológica rígida.São Bernardo TEMPO E ESPAÇO Graciliano Ramos •O espaço físico explorado é a fazenda São Bernardo. “Antes de iniciar este livro. que terminou por levar Getúlio Vargas ao poder.

Foi este modo de vida que me inutilizou. E um nariz enorme.” Othon Bastos fez o coronel Paulo Honório. nervos diferentes dos nervos dos outros homens. de Graciliano Ramos São Bernardo Graciliano Ramos 9 . Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. lacunas no cérebro. Sou um aleijado. uma boca enorme. na adaptação de São Bernardo.Paulo Honório: fortaleza deformidades monstruosas física x Paulo Honório – O protagonista define-se físicamente e psicologicamente em duas passagens marcantes do relato: “Começo declarando que me chamo Paulo Honório. peso oitenta e nove quilos e completei cinqüenta anos pelo S. Devo ter um coração miúdo. E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda parte! À desconfiança é também conseqüência da profissão. dedos enormes. Pedro.

“Conheci que Madalena era boa em demasia. Ela se revelou pouco a pouco.” São Bernardo Graciliano Ramos 10 .” “Descobri nela manifestações de ternura que me sensibilizaram (.Madalena: mistério e feminilidade Madalena – Professora recém formada.. mas não conheci tudo duma vez. Ela termina por ceder e casarse. e nunca se revelou inteiramente.) As amabilidades de Madalena surpreenderam-me.. é a escolhida por Paulo Honório que lhe move um cerco avassalador. Dá-lhe o filho desejado. Esmola grande.

Arquimedes e João Nogueira – Pessoas importantes da cidade. Uma pobre velha que se submete aos caprichos e violências de Paulo Honório por não ter outro arrimo onde se apoiar. Azevedo Gondim.São Bernardo Graciliano Ramos Luiz Padilha – O antigo dono de São Bernardo. Glória – Tia de Madalena. Foi quem criou Paulo Honório e a única pessoa a quem ele dedicava um apreço verdadeiro. Muda-se também para a fazenda. Rosa – Peões da fazenda. Margarida – Preta velha. Ribeiro – É o encarregado da contabilidade da Fazenda São Bernardo. Convidadas a participar da criação do livro. Marciano Mestre Caetano. Beberrão e jogador. Mendonça – Fazendeiro vizinho que havia invadido 11 um pedaço da fazenda e que Paulo Honório mandou assassinar. Paulo Honório empresta-lhe dinheiro e o induz a maus negócios. Casimiro é também o encarregado de eliminar os vizinhos inimigos e ameaçadores. Casimiro Lopes. Termina como professor da escola criada em São Bernardo. Serve de motivo de alguns dos desentendimentos entre Paulo Honório e Madalena. D. Padre Silvestre. doceira. .

que foi de guia de cego na infância até se tornar latifundiário do interior de Alagoas. São Bernardo está entre o que de melhor o romance brasileiro produziu. Paulo Honório.São Bernardo Graciliano Ramos Publicado em 1934. São Bernardo 12 Graciliano Ramos . que é a destruição do seu caráter afetivo. Num primeiro instante pode até parecer uma história de vitória de seu narrador-protagonista. A perda de sua humanidade pode ser entendida como fruto do meio em que vivia. Para alcançar sua ascensão social. o narrador paga um preço altíssimo.

narrada em primeira pessoa. 13 . é sobre a vida de um proprietário de terras no Nordeste. que desconhecendo seus pais e tendo uma infância extremamente humilde. Paulo Honório.São Bernardo Graciliano Ramos A história. vê-se possuído de uma obsessão incontrolável de tornar-se rico e poderoso.

pobre professora desempregada. •O casamento torna-se um problema. mas a situação 14 . •Nasce-lhes o filho.São Bernardo Graciliano Ramos •Desejando um herdeiro para sua fortuna. casa com Madalena. permanece inalterada. pois Madalena tem outros valores e se transforma na única pessoa que Paulo Honório não consegue submeter e dominar. e Paulo Honório enfurece-se com a bondade e solidariedade de Madalena. •Suas desavenças iniciam-se com a condição de vida dos empregados da fazenda.

Sua relação com a pobreza e com a riqueza. resolve escrever a própria história e pelo uso da palavra.São Bernardo Graciliano Ramos •A pressão constante e o ciúme monstruoso de Paulo Honório levam Madalena ao suicídio. •À proporção que escreve. 15 . Aos poucos as pessoas se afastam. conscientiza-se de sua própria deformação de caráter e encerra com a conclusão desoladora de que era um monstro. •Uma situação delicada nos negócios leva a fazenda à ruína. refletir: Os acontecimentos de sua vida. Busca entender sua relação com Madalena. •Curtindo a solidão e angustiado por compreender tudo de errado em sua vida.

É uma narrativa muito sofisticada para um narrador de caráter tão tosco.São Bernardo Graciliano Ramos Há um aspecto que atenta contra a sua verossimilhança. A linguagem do romance. enxuta. não se quer dizer que haja rebuscamento. mas densa de beleza. que é um célebre problema de incoerência: como um romance tão bem escrito como pôde ter sido produzido por um semi-analfabeto como Paulo Honório. Quando se menciona que a narrativa é sofisticada. é extremamente econômica. 16 . seguindo o estilo de Graciliano Ramos.

O primeiro é pretérito. de contar a história). Movido mais por uma imposição psicológica. Paulo Honório procura uma justificativa para o desmoronamento da sua vida e do seu fracassado casamento com Madalena. propõe-se a escrever um livro. Paulo Honório. de guia de cego a senhor da Fazenda São Bernardo. contando a se vida. Há o tempo do enunciado (a história em si. homem dotado de vontade férrea e da ambição de se tornar fazendeiro. os fatos narrados) e o tempo da enunciação (o ato de narrar. O segundo é presente. depois de atingir seu objetivo. 17 . que se suicida.São Bernardo Graciliano Ramos Outra beleza pode ser percebida pela maneira como o tempo é trabalhado.

é curto.São Bernardo Graciliano Ramos No livro. Graciliano Ramos desnuda o complexo destrutivo que Paulo Honório representa: Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber por quê! Comer e dormir como um porco! Como um pomo! Levantarse cedo todas as manhãs e sair correndo. Narrado em primeira pessoa. 18 . para muitas gerações. para os netos. aparentado com Dom Casmurro. direto e bruto. ao mesmo tempo em que faz o levantamento existencial de uma vida dedicada à construção da Fazenda São Bernardo. procurando comida! E depois guardar comida para os filhos. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? São Bernardo é um romance de confissão.

tipo de gente para quem o mundo se divide em dois grupos: os eleitos. Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro. adquirir um rebanho bovino regular. plantar mamona.São Bernardo Graciliano Ramos De guia de cego. respeitado e temido. e os réprobos. construir esta casa. que têm e respeitam os bens materiais. ignorando escrúpulos e visando atingir o seu alvo por todos os meios. levantar a serraria e o descaroçador introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura. graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida. filho de pais incógnitos. que não os têm ou não os respeitam. plantar algodão. criado pela preta Margarida. 19 .” É um homem que supervaloriza a propriedade. O “teu feito na vida foi apossar-me das terras de São Bernardo.

Sofri sede e fome. viajando pelo sertão. e persegui-lo sem descanso.São Bernardo Graciliano Ramos “A princípio o capital se desviava de mim. imagens. marchando no fiado. ganhando aqui. perdendo ali. e na ética dos números não há lugar para o luxo do desinteresse. 20 . rosários. briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações de armas engatilhadas. assinando letras. miudezas.” O próximo lhe interessa na medida em que está ligado aos seus negócios. dormi na areia dos rios secos. realizando operações embrulhadíssimas. negociando com redes. gado.

São Bernardo Graciliano Ramos “ (.” 21 ... ele meteu o rabo na ratoeira e assinou a escritura. os juros.) esperneei nas unhas do Pereira..) levei Padilha para a cidade. deixei-o de tanga. No outro dia cedo.. Depois. Deduzi a dívida. que me levou músculo e nervo. aquele malvado. e entreguei-lhe sete contos quinhentos e cinqüenta mil-réis. vigiei-o durante a noite. Não tive remorsos. o preço da casa. vingueime: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo. (.

Custame dez mil-réis por semana. Ainda assim.São Bernardo Graciliano Ramos Uma só vez age em obediência ao sentimento de gratidão. as relações afetivas só se concretizam numericamente: “A velha Margarida mora aqui em São Bernardo. recolhendo a negra que o alimentou na infância e que ama com uma espécie de ternura de que é capaz. e ninguém a incomoda.” 22 . porém. numa casinha limpa. quantia suficiente para compensar o bocado que me deu.

Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo.São Bernardo Graciliano Ramos Com o mesmo utilitarismo estreito analisa a sua conduta: “A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. a sua estética é a da economia: “É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas. fiz coisas ruins que me deram lucro. o resto é bagaço.” 23 .” Até quando escreve.

Para adaptar-se.) O que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de São Bernardo.. de início. teria sido necessária a Paulo Honório uma reeducação afetiva impossível à sua mentalidade. o patriarca à busca de herdeiro termina apaixonado. revela-se. e o amor em vez de dar a demão final na luta pelos bens.” Com efeito. incompatível com eles. e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito. difícil de governar (.“Amanheci um dia pensando em casar Não me ocupo com amores. devem ter notado. formada e deformada.. casando-se por amor. São Bernardo Graciliano Ramos 24 .

Madalena.humanitária. unifica e totaliza. pelo contrário. O amor. o distancia das pessoas. e o seu convívio com outros se resume em relações de mera concorrência. Daí o horror com que Paulo Honório vai percebendo a sua fraternidade. a mulher . o sentimento. não concebe a vida como uma relação de possuidor e coisa possuída. mão-aberta -. de participar na vida dos desvalidos. para ele incompreensível.O sentimento de propriedade. acarretando o de segregação dos homens. porque origina o medo de perder o que já conquistou. São Bernardo Graciliano Ramos 25 .

Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.Nessa luta. a inutilidade do violento esforço da sua vida: “Sou um homem arrasado (.. vencida..) Estraguei minha vida estupidamente (. Acuada. etc. sente.. . terras.. Madalena suicida-se... Julgo que me desnorteei numa errada (.” São Bernardo Graciliano Ramos 26 .) Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. não há vencedores. vitorioso. móveis. no admirável capítulo XXXVI. porém.) Quanto às vantagens restantes — casas. Paulo Honório.) Nada disso me traria satisfação (. consideração de políticos.. semoventes.é preciso convir em que tudo está fora de mim. de uma maneira que não esperava e não queria..

São Bernardo Graciliano Ramos Vencendo a vida.” 27 . Foi este modo de vida que me inutilizou. E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também uma conseqüência da profissão. ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer. Sou um aleijado. uma boca enorme. E um nariz enorme. “Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. nervos diferentes dos nervos dos outros homens. dedos enormes. Devo ter um coração miúdo. porém. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. lacunas no cérebro. imprimindo-lhe a sua marca. foi de certo modo vencido por ela.

ao descobrir em si mesmo estranhas sementes de moleza e lirismo. Saudade? Não. Daí a angústia desse homem. um peso enorme no coração. de tagarelar novamente com Madalena. desejo doido de olhar. quando escapavam à sua tirania. incompatível com a dureza em que se encouraçou. não é isto: é antes desespero. como fazíamos todos os dias. que é preciso abafar a todo custo. e por elas penetra uma ternura engasgada e insuficiente. “Emoções indefiníveis me agitam — inquietação terrível.” 28 .São Bernardo Graciliano Ramos O seu caso é dramático. a esta hora. raiva. porque há fissuras de sensibilidade que a vida não conseguiu tapar. cujos sentimentos eram relativamente bons.

São Bernardo Graciliano Ramos  Graciliano Ramos nos apresenta um romance sintético. de expressividade e ao mesmo tempo de desvendamento metalingüístico. isto é. Nele. econômico como o seu narrador. resumido. de reflexão sobre o ato de escrever um romance enquanto este é escrito (através das digressões de Paulo Honório). que comprovam a sua maturidade literária. consegue um nível de concisão de linguagem. 29 .

constituem os motivos principais da grande qualidade artística de São Bernardo. e entre o regional e o universal. demonstraram a superioridade deste escritor no contexto de sua geração e da modernidade literária do país.São Bernardo Graciliano Ramos  A condensação e a densidade psicológica do romance. cuja verossimilhança ocorre pela narração em primeira pessoa. Um livro no qual o equilíbrio e a interpenetração entre o social e o individual. por outro. 30 . exclusivamente centrada em Paulo Honório. por um lado.

Contexto literário   A obra São Bernardo pertence a segunda geração Modernista brasileira – a geração de 1930. Figurando entre muitos nomes que elevaram nossa literatura ao conhecimento do mundo.cujo autor Graciliano Ramos foi um dos principais representantes. São Bernardo Graciliano Ramos 31 . psicológica do ser em relação ao espaço em que vive. Trabalhou na obra São Bernardo o regionalismo realista da época fazendo um paralelo entre o social e o individual claramente descritos de forma profunda.

“Saudade? Não. não é isto: é antes desespero.” Cenas do filme São Bernardo. de Leon Hirszman. com Othon Bastos e Isabel Ribeiro 1972 32 . raiva. um peso enorme no coração.

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São Bernardo Graciliano Ramos 34 .

 Uma das obras primas de Graciliano Ramos. que se propõe a contar sua dura vida em retrospectiva. É narrado em primeira pessoa por Paulo Honório. de guia de cego a proprietário da fazenda São Bernardo.  35 .São Bernardo autor Graciliano Ramos É um dos romances mais densos da literatura brasileira.

Paulo Honório narra a difícil infância. suas atitudes e seu modo de ver o mundo. A linguagem é seca e reduzida ao essencial. numa tentativa de compreender. pelas palavras. da qual pouco se lembra excetuando o cego de foi guia e a preta velha que o acolheu. 36 .   Paulo Honório sente estranha necessidade de escrever. não só os fatos de sua vida como também a esposa.

Chegou a ser preso por esfaquear João Fagundes motivado pelas “dores” de uma antiga amante.  Possuidor de fino trato para os negócios, viveu de pequenos biscates pelo sertão até se aproveitar das fraquezas de Luís Padilha- jogador compulsivo.

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Comprou a fazenda São Bernardo onde trabalhara anos antes, Astucioso, desonesto, não hesitando em amedrontar ou corromper para conseguir o que deseja, vê tudo e todos como objeto, cujo único valor é o lucro que deles possa obter. Trava um embate com o vizinho Mendonça, antigo inimigo dos Padilhas, por demarcação de terra. Mendonça estava avançando suas terras em cima de São Bernardo. Logo depois, Mendonça é morto enquanto Honório está na cidade conversando com Padre Silveira sobre a construção de uma capela na sua fazenda.
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São Bernardo vive um período de progresso. Diversificam-se as criações, invade terras vizinhas, constrói o açude e a capela. Ergue uma escola em vista de obter favores do Governador. Chama Padilha para ser professor. Estando a fazenda prosperando, Paulo Honório procura uma esposa a fim de garantir um herdeiro. Procura uma mulher da mesma forma que trata as outras pessoas: como objetos. Idealiza uma mulher morena, perto dos trinta anos, e a mais perto de sua vontade é Marcela, filha do juiz.
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Paulo Honório. Decide por escolher essa. o casamento. acredita que ela com o tempo se acostumaria a sua vida.  40 . da qual já ouvira falar. e ela aceita. professora da escola normal.  A moça é Madalena. no início. Paulo Honório mostra as vantagens do negócio. começam os desentendimentos. conhece uma moça loura. Não muito tempo depois de casado.Porém.

ofensas e humilhações. Ela torna-se a única pessoa que Paulo Honório não consegue transformar em objeto.   Madalena. 41 . Dotada de leve ideal socialista. não concorda com o modo como o marido trata os empregados. mulher humanitária e de opinião própria. Madalena representa um entrave na dominação de Honório. encerrando-a num círculo de repressões. sentindo que a mulher foge de suas mãos. explorando-os. passa a ter ciúmes mórbidos dela. O fazendeiro.

pouco a pouco. As lembranças persistem em seus pensamentos. e irrita-se com seus choros. os empregados abandonam São Bernardo. Paulo Honório é acometido por imenso vazio depois da morte da esposa. 42 . A vida angustiada e o ciúme exagerado de Paulo Honório acabam desesperando Madalena. Então. Sua imagem o persegue. levando-a ao suicídio. Paulo Honório não sente nada pela sua criança.     O casal tem um filho mas a situação não se altera.

Sozinho.” 43 . por ter destruído a vida de todos ao seu redor. ou antes. Reflete a influência do meio quando afirma: “A culpa foi minha. na solidão. Considera-se aleijado. procura escrever a história da sua vida.    Os amigos já não freqüentam mais a casa. que me deu uma alma agreste. Paulo Honório vê tudo destruído e. a culpa foi desta vida agreste. Uma queda nos negócios leva a fazenda à ruína.

de guia de cego a proprietário da fazenda São Bernardo.Roteiro em fatos O social e o psicológico se fundem em São Bernardo para criar uma obra de profunda análise das relações humanas. Este é. É narrado em primeira pessoa por Paulo Honório. um dos romances mais densos da literatura brasileira. 44 . uma das obras primas de Graciliano Ramos. que se propõem a contar sua dura vida em retrospectiva.

desonesto. viveu de pequenos biscates pelo sertão até se aproveitar das fraquezas de Luís Padilha – jogador compulsivo. 45 . Comprou-lhe a fazenda São Bernardo onde trabalhava anos antes. Chegou a ser preso por esfaquear João Fagundes por causa de uma antiga amante. vê tudo e todos como objetos. Astucioso. Possuidor de fino tato para os negócios. Paulo Honório narra a difícil infância. da qual pouco se lembra excetuando o cego de que foi guia e a preta velha que o acolheu. não hesitando em amedrontar ou corromper para conseguir o que desejava. cujo único valor é o lucro que deles possa obter.

Ergue uma escola em vista de obter favores do Governador. por motivo de demarcação de terra. Chama Padilha para ser professor. invade-se terras vizinhas. Trava uma briga com o vizinho Mendonça. Mendonça é morto enquanto Honório está na cidade conversando com o Padre Silveira sobre a construção de uma capela na sua fazenda. Logo depois. Mendonça estava avançando suas terras em São Bernardo. 46 . antigo amigo dos Padilhas. constrói o açude e a capela. Diversificam as criações. São Bernardo vive um período de progresso.

e a mais perto da sua escolha é Marcela. A moça chama-se Madalena. perto dos trinta anos. Estando a fazenda prosperando. 47 . professora da escola normal. Idealiza uma mulher morena. Decide por escolhê-la. Paulo Honório procura uma esposa a fim de garantir um herdeiro. e ela aceita. Paulo Honório mostra a todos a vantagem do negócio. o casamento. Procura uma mulher da mesma forma que trata as outras pessoas: como objetos. Encontra uma moça loura. filha do juiz.

começam os desentendimentos. Paulo Honório. Ela torna-se a única pessoa que Paulo Honório não consegue transformar em objeto. colocando-a num círculo de repressões. O fazendeiro. ofensas e humilhações. passa a ter ciúmes excessivos dela. 48 . Madalena representa um entrave na dominação de Honório. Porém. Não muito tempo depois de casado. sentindo que a mulher foge de suas mãos. Dotada de leve ideal socialista. não concorda com o modo como o marido trata os empregados. acredita que ela com o tempo se acostumaria a sua vida. mulher humanitária e de opinião própria. Madalena. no início. explorando-os.

levando-a ao suicídio. A vida angustiada e o ciúme exagerado de Paulo Honório acabam desesperando madalena. e irrita-se com seus choros. 49 . O casal tem um filho mas a situação não se altera. Paulo Honório não sente nada pela sua criança.

As lembranças persistem em seus pensamentos. 50 . Sua imagem o persegue. os empregados abandonam São Bernardo. Os amigos já não freqüentam mais a casa. Uma queda nos negócios leva a fazenda à ruína. pouco a pouco. Então. É acometido por imenso vazio depois da morte da esposa.

” 51 . na solidão. Reflete a influência do meio quando afirma: “a culpa foi minha. Sozinho. Considera-se aleijado. por ter destruído a vida de todos ao seu redor. ou antes. Paulo Honório vê tudo destruído e. procura escrever a história da sua vida. que me deu uma alma agreste. a culpa foi desta vida agreste.

foi necessária a sua desumanização. Paulo Honório – como já pudemos perceber pela trajetória de sua vida. 52 . passando de trabalhador braçal a proprietário. trapaceando.Personagens   Paulo Honório e Madalena são os protagonistas desta obra.que se tornou superior à sua classe. mentindo.( homem que se faz por si mesmo). Para realizar esta travessia. é o capitalista tacanho. roubando. a coisificação de sua humanidade por meio da qual pôde exercer o domínio sobre os outros: matando.

  Assim. a violência da tradicional dominação patriarcal. que deveria consolidar a vitória do proprietário. destituído de qualquer positividade. dando-lhe um descendente. uma vez que aos olhos de Madalena o seu sucesso é mesquinho. transforma-o em derrota. especialmente em se tratando de uma pessoa delicada e instruída como Madalena. O casamento. também não condiz com a relação afetiva. que não condiz com a modernidade do modelo produtivo que imprime em São Bernardo. prepotente. 53 .

é transformadora: de proprietário se converte em homem. começa a adquirir consciência da bondade. Quando perde a esposa. Paulo Honório. abandonado a vertigem da posse e substituindo-a pela procura de si mesmo. Esta consciência. que até então não a compreendia nada que fosse alheio ao mundo. e conseqüentemente de seu próprio embrutecimento. da intensidade humana de Madalena. embora não lhe mude os modos por demais enraizados. 54 .

55 .Madalena  Professora loura e de olhos azuis. de quase trinta anos. é o avesso dele: com grande sensibilidade. preocupada com as condições de vida dos trabalhadores. o que a leva a rejeitar o mundo de Paulo Honório. incapaz de assumir a passividade da condição de esposa. que se recusa a ser objeto de posse de Paulo Honório. sente necessidade de trabalhar e de andar pela fazenda.

precária. assim como a sua formação de “escola normal”. 56 . a sua solidariedade e o seu inconformismo diante do sofrimento das pessoas. especialmente os de condição social inferior. mas claramente incompatível com a brutalidade do sistema patriarcal. não conseguem impedi-la de se destruir. A dimensão humana dessa personagem.

 Ao mesmo tempo em que revela a fragilidade e a impotência da condição feminina diante de um mundo que restringe radicalmente o seu espaço de ação. a recuperação da humanidade de Paulo Honório. 57 . a fragilidade e a fraqueza transformam-se em força. pela lembrança de sua presença. este fato possui uma função precisa no romance: por meio dele. em móvel de uma revolução interna. pelo afeto que dedicava à Madalena.

 Nesse sentido. da forma íntegra como se conduz moral e existencialmente. é magistral a revelação da suavidade de Madalena. da dúvida. Procurando destruí-la. ele. agiganta-a aos nossos olhos. na verdade. e ao mesmo tempo mostrando este fato ao leitor. através da incompreensão. 58 . da maledicência atormentada e algumas vezes reconhecida de Paulo Honório.

submisso. ele ensina comunismo aos trabalhadores.Luís Padilha  Antigo dono de São Bernardo. covarde. é um personagem profundamente antipatizado pelo narrador. Fraco. 59 .

60 .Marciano  Velho e doente. marido de Rosa. a mulher com quem Paulo Honório tinha encontros amorosos clandestinos.

Muito liberal. no dizer de Paulo Honório. 61 .Padre Silvestre  Descrito como uma personalidade estreita. “anda no mundo da lua”. que impossibilitado de admitir coisas contraditórias. lê apenas as folhas da oposição.

62 .João Nogueira  O advogado que auxiliou Paulo Honório nas falcatruas.

63 . o primeiro mais moderado e o segundo mais radical. ardente e confusamente defendida por João Nogueira no romance. são exemplos do pensamento conservador da oligarquia. criticadas e ironizadas pelo narrador. e também em sua linguagem retorcida.Azevedo Gondim  O jornalista. A imprensa – representada por Gondim e também pelo Brito. o jornalista surrado por Paulo Honório por difamá-lo – aparece em sua corrupção e venalidade.

Protege o Pereira. apesar de ter menos ciência e menos manha que ele. que despreza. Além da ironia com que se refere a episódios e ao mesmo tempo aos personagens ligados à política. julga-se superior ao João Nogueira. agiota e chefe político. de acordo com os interesses do momento. afirma não saber quanto o Padilha vale. 64 . isto é. Paulo Honório demonstra claramente em sua narração que se relaciona de forma utilitária. até que este caia do poder. com os personagens mencionados. desprezando mas achando úteis suas habilidades. embora o contrate por um preço baixo para trabalhar na escola São Bernardo. Assim.

menos com ele. durante as crises entre os dois. Achava suas habilidades intelectuais inoperantes. Paulo Honório o criticava. por ser este um dos eixos de sua inferioridade em relação à Madalena. que conversava longamente com todas as pessoas. 65 . inócuas.

passou a indigente solitário. de Major do lugarejo em que morava. 66 .Seu Ribeiro  Guarda-livros a cuja história de vida Paulo Honório dedica um capítulo. uma vaga solidariedade que destoa do seu habitual desrespeito pelas pessoas e que se acentua em outros personagens. Paulo Honório demonstra simpatia por ele. fazendo às vezes de justiceiro e de homem sábio em várias funções. devido à vinda do progresso.

que inclusive se identifica com o capanga nos momentos de grande solidão. crédulo como um selvagem. cantando para embalar as cantigas do sertão. 67 . o único a se interessar pelo filho abandonado por todos. possui a estima de Paulo Honório.Casimiro Lopes  Capanga que tem “faro de cão e fidelidade de cão”.

o mesmo amparo financeiro oferecido à Dona Glória. manda buscá-la e a alimenta em São Bernardo. 68 .Margarida  Preta velha que criou. é outro referencial afetivo do narrador: ele a redescobre.

69 . o vizinho que mandou matar. após a morte de Madalena. quando não precisavam brigar e conversavam longamente durante os serões.Dona Glória    Tia de Madalena avessa ao campo e cuja urbanidade a irritava quando esta se vai. faz parte deste lado humano da personagem. Conclusão: Paulo Honório tem a sua brutalidade relativa por esses personagens e também pelas referências tímidas que faz à necessidade de auxiliar as filhas do velho Mendonça. A referência aos raros momentos de união e de harmonia que vivia com Madalena.

Temos.O foco narrativo   O narrador de São Bernardo. como alguém que pretende relatar sua própria vida. um personagem-narrador que se coloca como autor. Distribui a cada amigo. assim. escrevendo uma romance. é também o protagonista da história que conta. Entretanto. tal procedimento não dá certo: 70 . Paulo Honório. de acordo com a sua especialidade. uma função na construção do romance. Primeiro Paulo Honório faz uma divisão de trabalho.

. Está direito: cada qual tem as suas manias. Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim. com períodos formados de trás para diante.. periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam. Calculem.Fragmento do livro:    João Nogueira queria o romance em língua de Camões. Paulo Silvestre recebeu-me friamente .. 71 ..

está safado.. apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados. Está pernóstico. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro. tão cheios de besteiras que me zanguei: _ Vá para o inferno. engoliu em seco. _ Não pode? Perguntei com assombro. Há lá ninguém que fale dessa forma! Azevedo Gondim apagou o sorriso. Gondim. 72 .     O resultado foi um desastre.. Você acanalhou o troço. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode. está idiota.

rechaça os participantes do projeto de descrever o romance. como faz com Gondim. a quem considera “uma espécie de folha de papel destinada a receber idéias confusas”. ora os criticando (“João Nogueira queria o romance em língua de Camões. Ele manda nelas sumariamente. Ao mesmo tempo.. Calculem”) ora 73 .. também sumariamente. A relação de Paulo Honório com as pessoas se explicita neste trecho do primeiro capítulo do romance.

Com essa rispidez ele se propõe a realizar sozinho a tarefa.  Nos três casos. instigado por um pio de coruja que o faz pensar em Madalena. ora xingando (“Vá para o inferno..  74 .Aceitando sua recusa (“está direito: cada qual tem as suas manias”). a rispidez de Paulo Honório salta aos olhos. a esposa morta há dois anos. Gondim..”).

faria as despesas e colocaria o nome na capa. então.  Valendo-se de seus próprios recursos e sem indagar as vantagens materiais que o livro lhe traria. Paulo Honório começa a escrever.” transforma-se no único autor do romance. mudando de atitude em relação à “divisão do trabalho” e ao retorno financeiro no início pretendido. introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária. 75 . que apenas “traçaria o plano. Ele. ou seja.

cara a cara. procura se restringir ao essencial. ao longo da escritura. a rispidez e a falta de cultura literária que demonstrou. Ele duela em vez de conversar com as pessoas. 76 .  Um romance escrito com o sumarismo. ao mais pragmático. não teria a coragem de revelar a ninguém. As características da personalidade de Paulo Honório que nos foram desvendadas até agora são imprescindíveis para a compreensão do foco narrativo do romance: o proprietário da fazenda São Bernardo. mas no qual poderia revelar fatos que. submete-as ao seu poder duramente conquistado. ou seja um narrador autoritário. usando os expedientes do “capitalismo selvagem”. por cuja posse lutou muitos anos.