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Souzousareta Geijutsuka

Souzousareta Geijutsuka

Yuri Firmeza (Org.)

Yuri Firmeza (Org.) Souzousareta Geijutsuka Fortaleza, novembro de 2007

Souzousareta Geijutsuka

Fortaleza, novembro de 2007

SUMÁRIO

ARQUIVO VIVO, 09

KATANÁ, 10

A GESTAÇÃO DA INVASÃO, 17

A INVASÃO E A REVERBERAÇÃO, 35

A VITALIDADE ATUAL, 123

à vida e à minha mãe.

Arquivo Vivo

Este livro é um livro em processo, no sentido que pode ser ampliado de acordo com as repercussões que irá suscitar. Desencadeia, no seu cerne, uma reflexão gerada pelo artista fictício Souzousareta Geijutsuka, que se torna hoje tão arealb quanto seus criadores.

Integrantes, voluntários ou não, do coletivo que ajudou a criar um espaço possível de atuação para Souzousareta, além de terem contribuído para a sua vitalidade:

Irina Theophilo, Ricardo Resende, Tiago Seixas Themudo, Solon Ribeiro, os críticos e os jornalistas envolvidos, entre outros.

Duas ressalvas se fazem pertinentes: a primeira delas é que, sem a colaboração ativa, e, na maioria das vezes, sintomática dos jornalistas, o Souzousareta estaria,

as mensagens

que atualizam o acontecimento, são ao mesmo tempo seu prolongamento, elas

participam de sua efetuação, de sua determinação inacabada, fazem parte delab.

E mais: aO mapa (a mensagem) faz parte do seu território (o acontecimento) e o

território é largamente constituído de uma adição indefinida, de uma articulação dinâmica, de uma rede de mapas em expansãob 1 . A segunda, mais do que uma ressalva, é um agradecimento a Irina Theophilo, por sua intensa participação, não apenas como assessora do japonês, mas no processo de toda a Ação, inclusive na realização deste livro.

talvez, fadado ao anonimato. Como sugere Pierre Lévy , a(

)

O livro está organizado em torno das primeiras articulações e dos contatos iniciais

referentes à criação do artista, com uma série de material fruto de sua invasão, além de reunir os últimos textos produzidos a partir de Geijutsuka; porém, o seu propósito não é apenas documentar todo o processo no qual o trabalho foi desenvolvido, mas abordar e problematizar novas questões que se fazem necessárias,

lançando assim novas discussões sobre o sistema da arte.

Este também é um livro coletivo, em que procuramos estabelecer diálogos com pessoas de diversas áreas do conhecimento, para, dessa forma, ampliar as leituras e visões sobre o trabalho. Foram, no entanto, selecionadas as matérias e textos que, de alguma maneira, potencializavam a discussão entorno da Ação, ficando de fora um vasto acervo referente ao artista japonês 2 .

Sendo um livro em processo, como todos de certa forma os são, no sentido que reverbera e se prolonga a partir das discussões que provoca, cabe a você leitor complementar, e até mesmo escrever, as páginas que estão por vir.

Yuri Firmeza

1 LÉVY, Pierre. O que é virtual?/ Pierre Lévy;tradução de Paulo Neves p São Paulo:

Ed.34, 1996.

2 Os textos que optamos por não incluir nesta publicação devem-se ao fato de serem, na

maior parte, redundantes e não acrescentarem novas questões ao trabalho.

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Kataná

!O ataque é feito às estruturas de controle, essencialmente às idéias6. 1

Em agosto de 2005, fui convidado pelo diretor do Museu de Arte Contemporânea

do Dragão do Mar, Ricardo Resende, para participar do projeto aArtista Invasorb.

Ficara combinado que a ainvasãob não se restringiria apenas a uma sala do MAC

p de fato não se restringiu, nem a uma sala nem ao MAC e nem ao próprio campo

da arte. Durante os meses da invasão eu estaria com o território do museu livre

para atuar. Apenas duas ressalvas às minhas proposições: não agredir fisicamente

os visitantes e nem danificar obras de outros artistas.

A idéia de invasão remetia-me à coletividade, à ocupação ilegal, à difusão, à

irrupção. Alguns rascunhos e projetos de ações diárias, individuais e coletivas, começaram a surgir ainda em agosto. Foi pensada uma série de ações que tinham como mote conceitual o próprio sistema da arte.

Nesse momento, inevitavelmente, eu era remetido às questões apresentadas por Pierre Bourdieu. Em seus diagnósticos traçados ao sistema da arte, Bourdieu apresenta as amarras, as dependências, as forças e interesses existentes dentro desse complexo sistema que é composto e regido por peças distintas p que vão desde artistas até as empresas acomprometidasb com uma pseudo-responsabilidade social à custa de incentivos fiscais, passando por uma série de outros elementos significativos. Dessa forma, deveria ser inerente à aInvasãob uma análise crítica ao mundo da arte; a concepção de Artista-Hacker, assim, pareceu-me apropriada. Como incorporar ao criticismo do trabalho alguns agentes desse sistema?

Em meio a tantas questões que surgiam, às idas e vindas ao Ricardo, às discussões

e às trocas entre amigos, às reflexões no grupo de estudo orientado por Tiago

Themudo, às leituras, aos fragmentos de textos e anotações o trabalho ia sendo

lapidado; as questões que surgiam iam norteando a ação.

Solon Ribeiro seria o Artista Invasor dos meses de novembro e dezembro; exporia fotografias da última performance de Hélio Oiticica, durante o evento Mitos Vadios. No decorrer do processo do trabalho do Solon, surgiram discussões sobre heróis/marginais, sobre a criação de mitos. O que pareciam divagações de ambas

as partes, foi tomando consistência no pensamento. O que era necessário para o

reconhecimento de uma aobrab enquanto tal? De forma bem simplista eu diria que um artista, um museu, uma crítica, matérias nos jornais e o público. Reconhecer

esses elementos implica conseqüentemente pensar o que move o campo da arte.

Reflexões, anotações, textos, diálogos permaneciam constantemente sendo costurados. Dessa costura resultou a criação do Artista-Obra. Todos os dados sobre o artista foram pensados como parte integrante do trabalho. Dei ao artista

a nacionalidade japonesa e um currículo de pesquisas em arte tecnológica e

experiências genéticas. Dentro do contexto do trabalho a exposição deveria

1 BEY, Hakim.TAZ p Zona Autônoma Temporária.Trad.Patricia Decia e Renato

Resende. São Paulo, Ed. Conrad Editora do Brasil, 2001p (Coleção Baderna), pág.19.

chamar-se aArte Ficçãob, enquanto o aArtista-Obrab, aArtista-Inventadob. A partir dos nomes escolhidos, passei a pesquisar a tradução para o japonês. Se verbo no passado, se empregado no sentido de acriadob ou se substituível por afalsob, as variações quanto ao adjetivo dado ao artista resultaram em uma série de traduções:

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Soozoo Sareta Geejutsuka, Gansaku Sakka, Ha(ra)tumeika, Souzousareta Geijutsuka, Hatsumeishita no Ekaki.

Seria feito um intenso trabalho de marketing em torno desse artista e cobrada do público uma quantia simbólica para a visitação da sala, na qual seria exposto algo destituído de qualquer preocupação estética. Porém, preocupava-me o fato de um possível constrangimento do visitante, ao não perceber a crítica aos elementos de legitimação de um artista/obra e à passividade do público dentro desse sistema. O fato de ser cobrada a entrada seria não para afrontar os visitantes, mas para propiciar uma reflexão sobre o porquê da não gratuidade do gozo de um espaço público. O museu, os textos críticos e os jornais autenticando a existência do artista deveriam disparar no público uma reflexão sobre o que esses espaços vêm legitimando. Os jornais funcionariam como suporte e concomitantemente como objeto da crítica. Sem eles a completa realização do trabalho não seria possível. Mas os jornais não eram um fim em si.

Foi encaminhado a alguns curadores/críticos um convite para participar do trabalho escrevendo um texto fictício sobre a exposição Geijitsu Kakuu (Arte Ficção).

Prezados colegas curadores:

Dentro de nossa programação de exposições no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, temos o projeto !Artista Invasor6 que tem como um de seus objetivos apresentar a produção contemporânea das artes visuais e, também, possibilitar o espaço para o artista convidado criar livremente, manifestar-se e até mesmo, testar os limites institucionais entre museu, artista e público.

Para o ciclo de exposições que abrirão 2006, teremos como artista invasor o jovem cearense Yuri Firmeza, que para aqueles que não o conhecem, e posso a rmar desde já, é uma das promessas mais instigantes do circuito cultural do estado. Ainda muito jovem mas já denotando pro ssionalismo, empenho e postura artística.

Gostaria de convidá-los a interagir e participar da intervenção que ele apresentará de janeiro a março do ano que vem em uma de nossas salas de exposições. Este !lugar6 será o seu território livre durante mais de 60 dias. Caso vocês concordem em participar, o Yuri entrará em contato para explicar-lhes como se dará o seu trabalho e da participação dos curadores convidados.

Aguardo a manifestação de vocês para dar o devido encaminhamento com o artista.

Atenciosamente, Ricardo Resende Diretor Museu de Arte Contemporânea do Ceará Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura Rua Dragão do Mar, 81 [ 60060 390 [ Fortaleza / Ceará - Brasil

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Paralelo à esse convite aos críticos, convidei também Tiago Themudo para trazer à tona, através do Souzousareta, algumas questões que nos preocupavam

e que vínhamos discutindo com acuidade. Pensamos inicialmente em ocupar

a sala com algumas frases que suscitassem reflexões sobre arte. Pensamos

também em sons de uma conversa informal entre mim e Tiago, sobre os problemas que percebíamos no campo da arte, como o caráter mercadológico da arte contemporânea, o museu enquanto espaço de consagração simbólica,

a crítica e a possibilidade de pensamento no mercado da arte, a carência de

formação, as políticas culturais, o marketing, a mídia e seu poder de sedução. Optamosporumatrocadee-mailsnaqualapresentaríamostodooprocessodotrabalho. Esses e-mails foram, portanto, pensados como parte do trabalho, previstos então para comporem a sala especial cedida pelo MAC. A espontaneidade prevaleceu nesse espaço de discussão e a abordagem elasteceu-se a temas não restritos ao âmbito específico da arte. Tentamos em um primeiro momento pensar como o poder opera dentro do circuito das artes no Ceará; como trazer os diagnósticos apresentados por Bourdieu, por exemplo, para o contexto da arte local. O intento não era, entretanto, restringir o debate à cena artística do Ceará, mas sim desencadear discussões sobre a arte, sem limitações geográficas.

A configuração da exposição no espaço do museu estava praticamente definida,

porém permanecia ainda indeterminado o mecanismo que seria utilizado para a inserção deste artista/obra na mídia, nos jornais.

Quando apresentei ao Ricardo a proposta do trabalho, deixei claro que não gostaria de ser mencionado como artista participante do projeto. Ricardo adiantou-me que a possibilidade da assessoria do Dragão divulgar uma afictíciab exposição para a imprensa estaria fora de cogitação. Propôs que fosse divulgada a minha exposição

e posteriormente eu esclareceria que se tratava de uma curadoria de um artista

japonês. Dessa forma o Museu não se comprometeria com a ousadia da proposta do Artista Invasor. Mantive a proposição inicial de permanecer invisível na exposição, exigindo da instituição o aceite do trabalho na integralidade da proposta. Aceite

esse que por fim se concretizou na divulgação da exposição Geijitsu Kakuu, do artista japonês, pelo folder e pela revista eletrônica da instituição. Mas até a proximidade da data prevista para a abertura da exposição, havia ainda incerteza quanto à dimensão da participação institucional do museu no trabalho. O primeiro texto crítico escrito por Ricardo Resende sugeria desde já que o artista japonês era fictício. Entretanto, o texto não poderia decodificar as intenções primeiras do trabalho, pelo contrário, deveria ser uma peça a mais no processo de ficção e legitimação do artista. Posteriormente recebi outro texto de Ricardo Resende que juntamente com o primeiro foi incorporado à sala destinada ao Artista Invasor.

Além dos textos de Ricardo Resende essa teia de validação foi composta também pelo texto de Luisa Duarte sobre o fictício japonês.

Começou então uma outra fase do trabalho, a criação textual e imagética de Souzousareta Geijutsuka e de sua produção. Biografia, textos sobre sua poética, imagens fotográficas, experimentações no âmbito da robótica e genética, técnicas desenvolvidas a partir de fenômenos da natureza, exposições em Tóquio, Nova York, São Paulo e Berlim, trabalhos coletivos com uma série de outros artistas também fictícios, pesquisas desenvolvidas no campo das telecomunicações, tudo isso comporia o currículo do artista.

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A divulgação da exposição do artista internacional, conceituado por seus trabalhos

em arte-tecnológica e biogenética, fortaleceu-se através da criação de uma assessoria

de imprensa do próprio artista. Nomeada Ana Monteja, personificada pela minha namorada, a assessora estabeleceu um contato com os editoriais dos cadernos de arte dos principais jornais impressos da capital cearense. Via e-mail e telefone, o currículo do artista e a exposição foram disponibilizados à mídia local.

Prezado(a) Editor(a)

Como combinado há pouco pelo telefone, estou enviando-lhe o material sobre a exposição

do artista Souzousareta Geijutsuka no Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar.

A abertura da exposição será no dia 10 de janeiro, terça-feira da próxima semana.

Souzousareta Geijutsuka vem se rmando como um dos artistas mais representativos no cenário

da Arte Tecnológica, apresentando-se agora ao público cearense a oportunidade de conhecer o

trabalho desse artista que propõe diálogos entre arte, ciência e tecnologia.

O material completo segue em anexo, três imagens de trabalhos de épocas distintas da carreira

do artista, além do texto que apresenta Souzousareta.

Aguardo retorno acerca da veiculação da matéria.

Atenciosamente

Ana Monteja

Dado o último lance, restava observar o posicionamento dos participantes

p voluntários e involuntários - da ação. As tensões provocadas pelo trabalho já

se manifestavam na véspera da abertura da exposição. A potência incisiva de Souzousareta começava a se concretizar no turbilhão gerado dentro do próprio Dragão do Mar. Foi sugerido que eu contatasse a imprensa escrita e explicitasse, antes da circulação do jornal, a ficcionalidade do japonês e a proposta do trabalho,

o que não foi acatado.

Dia dez de janeiro de 2006, os dois maiores jornais impressos da capital cearense publicaram em matéria de capa a vinda da exposição do artista japonês Souzousareta Geijutsuka, Geijitsu Kakuu.

Os jornais foram então comunicados pela assessoria de imprensa do Dragão do Mar sobre a proposta da ação. No dia seguinte anunciaram a afarsab, numa reação desproporcional e desarrazoada.

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aA recente molecagem do artista plástico Yuri Firmeza, que inventou o pseudônimo de Souzousareta Geijutsuka e divulgou para a imprensa local seu (dele, Souzousareta) brilhante currículo de exposições no exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortaleza. Com algumas caras exceções, uma arte

pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial. Nelson Rodrigues é que estava certo: os idiotas perderam a modéstia

(

)

E

é fato também que muitos idiotas vão entender esse gesto como um alerta oportuno sobre

a

cobertura jornalística da cultura em nosso Estado. A imprensa tem seus problemas e deve

permanentemente questionar e ser questionada sobre sua responsabilidade com as artes e a cultura. Mas o que se viu nesse episódio foi apenas a face mais evidente da mediocridade a. 2

aO sr. Yuri Firmeza extravasou suas frustrações e recalques na mídia. Mas foi longe demais em suas elucubrações. Precisava usar de artifício tão mesquinho e irresponsável para divulgar seu trabalho e seu protesto? Mas ele tem liberdade para exercitar a sua acriatividadeb. Não entramos nesse méritob. 3

A reação dos jornais locais evidenciou a resistência em aceitar críticas e ainda a

falta de argumentação ao rebatê-las. Apelando a ataques pessoais, mostraram desconhecimento e preconceito com a arte contemporânea cearense e o quanto as discussões sobre arte nesses veículos de comunicação são rarefeitas de embasamento teórico. Os jornalistas, alheios à proposta do trabalho, valeram-se de pretensas provocações com ares histéricos, ressalvadas as exceções daqueles que não se ativeram à armadura do corporativismo.

Não satisfeitos com o ataque à proposta do aArtista Invasorb, as críticas foram dirigidas também e com igual truculência à produção de arte contemporânea cearense, em completa dissonância com o que tem acontecido no cenário local.

Dia treze de janeiro o site Overmundo noticiou a ação do aArtista Invasorb. Escrito

por Ricardo Sabóia, o texto foi o primeiro a ultrapassar os limites alencarinos, numa abordagem desprendida do corporativismo jornalístico. A narrativa lá exposta juntou-

se ao som da lucidez de alguns espaços que posteriormente se propuseram a discutir

com fidedignidade as propostas do trabalho. E-mails de toda procedência, blogs, sites, participações em aulas em cursos de jornalismo, monografias de graduação tendo

essas

como tema o artista japonês fictício, palestras desencadeadas pelo trabalho amicromovimentAçõesb muito mais me interessam que a polêmica jornalística.

Fez-se do japonês assunto nacional veiculado na mídia impressa, televisiva e radiofônica. O problema, entretanto, é que a espetacularização presente no cotidiano dessa mídia, e apontada na criação e no modo de criação do japonês, foi em relação à figura do Artista-Inventado também realizada. O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo, Zero Hora, Diário de Pernambuco, Estado de Minas, Correio Braziliense, Jornal da Paraíba, Observatório da Imprensa, Rádio Eldorado-SP, Rádio Am-O Povo, entre outros, foram espaços fortuitos de discussão, umas prolíferas outras nem tanto.

2 Trecho do artigo aArte e Molecagemb escrito pelo jornalista Felipe Araújo - jornal O Povo, dia 11 de janeiro de 2006.

O

japonês foi parte essencial do trabalho, na medida em que a sua criação, ou

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seja, a afirmação da sua existência real pela mídia, pelo museu, pelos curadores, pelos críticos objetivava refletir sobre a importância desses elementos como legitimadores da existência de uma obra enquanto tal. Porém, não é a existência ou não do japonês que interessa, não é a sua materialidade; são as questões, as interpelações, discussões, reflexões, ações que ele dispara.

Não se trata de uma negação do sistema de arte, mas da sua problematização

e reflexão constante. Diferentemente do confronto proposto pelos aartistas

guerrilheirosb dos anos 60/70 numa produção engajada contra as instituições de arte, representantes do poder, da repressão e da censura, tratava-se então de uma proposição de diálogos dentro desse próprio sistema.

Inserir-se dentro desse circuito para, ao invés de travar um embate frontal ou de

se posicionar de forma submissa, criar zonas propícias para a troca, trilhar outros caminhos, criar espaços propícios para curtos-circuitos.

!A tarefa do artista crítico é interromper esse uxo de representações, de diagnosticar e revelar seus mecanismos, cumprindo assim um papel na libertação das pessoas do âmbito das instituições [ tangíveis e intangíveis [ que controlam cada vez mais suas vidas6. 4

O

aArtista Invasorb instaurou-se como um câncer que se expandiu fulminantemente

no

campo (não) específico das artes. Ao contrário de um câncer que extermina, o

trabalho se dispôs a gerar vida, movimentos, reflexões e diálogos.

4 In Wood, Paul

Paulo: Cosac & Naify, 1998, pág.221.

[et

alii]. Modernismo em Disputa p A arte desde os anos quarenta, São

A gestação da invasão

A gestação da invasão

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1.

From: ayuri firmezab<yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: Invasor 1 Date: Fri, 02 Dec 2005 10:02:41 p0300

E aí,Tiago? Blz?

Cara, não deu certo ir para o grupo de estudo hoje, acabei de chegar do Dragão do Mar. Fui conversar com o novo diretor do MAC, na verdade, fui mostrar meu portifólio. Ele pareceu interessado pelos trabalhos e me convidou para ser o aartista invasorb nos meses de janeiro e fevereiro. Me passa aê os textos trabalhados hoje no grupo, beleza? Falow.

2.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor 1 Date: Fri, 02 Dec 2005 12:41:35 p0300

Fala, Yuri, beleza? Não esquenta não, cara. Terminamos o primeiro capítulo do livro do Deleuze sobre Nietzsche, que trata do problema da tragédia e da transformação desse tipo de arte em imagem do pensamento. Semana que vem, começamos o capítulo sobre o corpo. Quero saber mais sobre a tua conversa com o Ricardo, o que você está pensando em fazer? Como pretende relacionar sua obra com o Dragão do Mar? Abraços,Tiago

3.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: RE: Invasor 1 Date: Fri, 02 Dec 2005 22:16:50 +0000

E aí,Tiago, massa?

Você entendeu o projeto aArtista Invasorb ? No e-mail anterior, eu falei sobre o convite que recebi, mas não falei exatamente sobre o que se trata, né? É o seguinte, o

Ricardo convida um artista para ocupar, paralelo à exposição em cartaz, uma sala do museu. No meu caso, a invasão acontecerá concomitantemente à exposição do acervo e à exposição coletiva das meninas (Walerinha, Milena, Érica Na conversa que tive com ele, ficou decidido que não irei ocupar um espaço específico no museu: penso em realizar aAçõesb por todo o seu território. Tenho pensado em algumas performances que, de certa forma, têm uma relação direta com o que venho pesquisando e produzindo. A presença do corpo como lugar de trocas, a relação deste

com o espaço, com o outro. Isso fica claro nas aAçõesb anteriores que realizei, corpo/

O que acontece é que, no caso do aArtista Invasorb, o espaço com o

muro, corpo/árvore

qual estarei dialogando é uma instituição. Não posso pensar, em hipótese alguma, somente nos aspectos físicos/formais do museu. Da mesma forma que o muro e a árvore, por suas características próprias, conferiram ao corpo uma potência outra, e vice-versa, o museu tem também suas peculiaridades: o fardo histórico, a sua condição institucional,

o fato de ser um elemento aimprescindívelb à legitimação da arte e do artista Como pensar esse corpo dentro da instituição/museu? Como estabelecer uma relação de troca com os visitantes?

Acho que a urgência de ter o corpo como objeto de pesquisa, aqui no caso, vai mais ou

menos por aí

Esse corpo que não deixa de ser um produto de inúmeras transformações:

estéticas, culturais, sociais e econômicas.Tenho alguns projetos ainda no plano das idéias. Falo com você na seqüência. Valeu

Abraço!

4.

19

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor 1 Date:Wed, 07 Dec 2005 20:13:01 p0300

Muito legal esse convite, Yuri, e também inusitado. Pelo que entendi, o projeto invasor quer então abrir brechas institucionais entre as exposições oficiais para jovens artistas ainda não celebrados. É isso mesmo? Sempre achei que o teu trabalho pudesse ser indigesto para

o

campo da arte, sobretudo devido à constante perda de autonomia para o campo do poder

e

da economia. Sua intenção seria, então, a de dialogar com o corpo da instituição Dragão

do Mar, fazer uma obra que dispare uma reflexão e uma ação sobre esse corpo? Saber do que esse corpo é capaz! Para falar com Deleuze: de que ousadias e transgressões é capaz, qual o limite de desterritorialização que ele suporta!!! Muito legal, vamos conversando. Me diga no que você está pensando. Abraços, meu amigo, Tiago.

5.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: RE: Invasor 1 Date:Wed, 07 Dec 2005 20:58:20 p0300

E aí,Tiago, beleza??

Andei pensando em algumas coisas. Na verdade, é só o que tenho feito por aqui, uma

espécie de tagarelice mental

a possível ocupação de uma sala do museu, além das performances, um espaço que sirva

como base para as eventuais aAçõesb. Essa sala estaria sendo modificada constantemente, como um trabalho em processo, e as transformações seriam como vestígios de minha presença. Pensei também em desenvolver, de alguma forma, uma interação com público

na construção/mutação desse espaço, produzindo assim um trabalho coletivo, pois já não se teriam apenas marcas da minha presença.Tenho um certo receio quanto a isso, talvez a mesma apreensão que tinha ao realizar trabalhos em que lidava com a nudez: corro sempre

o risco de cair em clichês, sei que caminho por uma zona delicada.

No caso de propor a experiência de construção/transformação da obra, esta tentativa pode recair numa discussão já muito explorada sobre as fronteiras entre artista/espectador. Falando nisso, lembrei agora do Artaud. O grupo vai ser quarta-feira às 15:00, né isso? Falow véi.

Inté!

foda!!! Mas, olha só, uma das coisas que pensei foi sobre

6.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor 1 Date:Thu, 08 Dec 2005 13:06:58 p0300

Diga lá, meu parceiro. Acho ótima sua idéia. Gostaria de poder entender melhor como você está pensando em formatar esse processo de intervenção. Acho que você já parte

de um lugar importante, ou seja, a preocupação com os clichês. Eu diria que toda obra de arte moderna e contemporânea esteve ou está em luta direta contra os clichês, contra

a possibilidade de eles se instalarem, de se inscreverem na obra como bicho pegajoso.

Acredito então que você esteja num momento de limpeza: enxugando a obra antes mesmo de sua concretização, afastando os problemas artificialmente construídos e impostos pela

20

mídia, assim como as soluções compartilhadas com o senso-comum. Em seu livro sobre Bacon, Deleuze descreve o esforço inicial do pintor que tentava, num momento primeiro da criação, ainda diante de uma tela branca, afastar os clichês que invadiam a obra por todos os lados: clichês visuais, mentais, perceptivos etc. Começar uma tela, por exemplo, com pinceladas ao acaso,era,para Bacon,uma forma de desestruturar o clichê,rompendo com sua evidência e estabilidade prévias.É isso aí cara,vamos conversando.Acho que pode dar samba. Teremos sim o encontro sobre Artaud.Texto: aO teatro e a peste.b Abraços meu amigo,Tiago.

7.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor 4 Date:Thu, 08 Dec 2005 19:47:04 +0000

Oi,Tiago!

Responde os e-mails cara!!! De qualquer forma, vou logo adiantando: referi-me ao Artaud

num outro e-mail e agora escrevi algumas coisas, já que temos refletido bastante sobre forças, acho interessante levar essa discussão para o aArtista Invasorb. Acredito que a preocupação do Artaud em relação à cultura, que tenta reger a vida e em nada coincide com esta, pode ser bastante pertinente para se pensar o Museu.Veja se concorda: a gente

sabe que o museu, as galerias, os críticos

têm o poder de legitimação de artistas e da

própria aArteb. Em diversos momentos da história da arte, houveram conflitos entre

artista e instituição, acho inclusive que esses conflitos deram uma maior liberdade para

a produção contemporânea. E aí mora o perigo! Mesmo com todos esses conflitos, o

museu permanece como aespaço mistificado e mistificadorb. Artaud protesta contra a idolatria da cultura e contra a separação que se faz entre cultura e vida. Quero inserir essa questão em um campo mais específico, o da Arte. Ora, se a afunçãob da arte é revelar forças, a função do museu seria fazer com que essas forças reverberassem a ponto de

quase explodirem. Vamos delirar

Imagine um Museu cheio de atotensb p captando,

dirigindo e derivando forças (usando aqui palavras do Artaud) p esse espaço, Museu, estaria sobre um campo de vibração dessas forças, que seriam facilmente sentidas pelo público, instaurando nos transeuntes a tal arevolta virtualb. Não sei se estou sendo claro, mas, resumindo, seria um MuseuTrágico! Esta discussão sobre a morte do museu, a morte

da arte e blá blá blá não me interessa. O que me interessa é interrogar sobre a qualidade do que aelesb vêm legitimando e apresentar as peças que compõem todo esse sistema de

legitimação: críticos, jornais, artistas, curadores, galerias, museus e o próprio público. Acho que dá samba, o que você pensa sobre isso? Vamos nos falando, escreve!!!

Falow

Abraços

8.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: invasor 4 Date: Fri, 09 Dec 2005 11:27:01 +0000

Diga lá, parceiro, concordo quando você identifica no Artaud um artista que veio denunciar os males da institucionalização da cultura, da bifurcação entre a cultura e a vida de uma sociedade. Todo o seu projeto teatral, me parece, foi uma tentativa de reestabelecer uma conexão vital entre esses dois campos: o da cultura e o da vida. Há um livro do Bourdieu, LivreTroca, em que ele dialoga com Hans Haacke, artista plástico alemão, sobre essas tensões entre as razões da arte e as razões do poder e do mercado. Podemos trabalhar esse livro na expectativa de criarmos uma discussão mais ampla sobre

o estatuto das instituições estéticas contemporâneas, assim como sobre a possibilidade do que você está chamando de museu trágico.Vou pensar sobre isso! Nos falamos em breve. Abraços,Tiago.

9.

21

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: Invasor 1 Date: Fri, 09 Dec 2005 11:41:33 +0000

Salve Salve,Tiago!!! Acredito que agora chegamos a um ponto crucial da aInvasãob. Estive com o Ricardo hoje

à tarde para uma reunião e apresentei o projeto do trabalho. Permanecem as performances

pelo espaço do museu e também a ocupação de uma sala. Você citou os diálogos entre o Bourdieu e o Hans Haacke no Livre Troca. Esse tem sido um livro bastante significativo para as minhas atuais interrogações.Você tocou numa questão cara ao Bourdieu, que acho pertinente ressaltar: a constante perda de autonomia do campo da arte para o campo do poder e da economia. Ao longo do Livre Troca, essas entrelinhas, essa rede de dependências vão se tornando visíveis. Pretendo, com o aArtista Invasorb, problematizar algumas condutas existentes nessa rede. A idéia é que a Invasão seja acompanhada ade uma análise crítica do mundo da arte e das próprias condições da produção artísticab. Quando você fala que meu trabalho é indigesto, acho que se refere a isso; concordo. Há, na concepção do

trabalho, sempre uma preocupação política aliada à poética. É impossível dissociar a forma do conteúdo. E, no caso do trabalho que estou propondo para o aArtista Invasorb, isso acontece de maneira contundente.Te explico depois com mais calma sobre o que se trata

exatamente. Tô na correria por aqui

Valeu, Falow !!!

10.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: invasor Date: Sat, 10 Dec 2005 20:15:48 +0000

Fala, Yuri! Você trata de muitas questões relevantes no teu último e-mail. O problema da autonomia da arte toca numa questão fundamental: em que medida

os regimes de signos ativos no capitalismo, inclusive os regimes estéticos, têm força para conduzi-lo, enquanto máquina de espoliação, ao seu próprio limite?

e continuamos

Vou pensar melhor nas questões que você me manda. Sistematizar algo

pensando.Acho legal você aproveitar essa força invasora da maneira mais intensa.Abraços,

do amigo Tiago.

11.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: Invasor Date: Sat, 10 Dec 2005 21:31:14 p0300

Sem dúvida, a invasão será intensa!!! No caso do capitalismo, que opera justamente por

controlar esses signos ativos, afirmar ao limite a potência dos mesmos seria como perder

o controle sobre esses signos. Isso iria desencadear um curto-circuito. Um curto-circuito

salutar! Acredito que essa é uma das intenções do meu trabalho. Lembrei agora da série que fiz com carteiras de identidade, em que fotografias 3x4 foram substituídas por fotos de partes do corpo, e acho que essas questões perpassam este trabalho. Reli nossos e- mails anteriores e percebi que as questões levantadas sempre recaem, de alguma forma, na discussão desse alocal de consagração simbólicab p Museu, e nas aformas de dominação no mundo da arteb, novamente partindo do Bourdieu.Vou arriscar dizer algo, algo que pensei agora, veja se concorda: Fortaleza, por não ter um circuito de arte vigente, dificulta uma expansão nacional da produção local. Faltam apeçasb próprias do circuito de arte: galerias,

22

críticos, grandes exposições, universidades, colecionadores, centro experimentais, espaços

alternativos, enfim

Acredito que a falta desse sistema seja uma possível arazãob para explicar a potência e a qualidade da produção contemporânea daqui. É foda não ter acesso a grandes exposições nacionais e internacionais, não ter muitas fontes para consumir arte, não ter espaços de

experimentação

que pensam/vivem arte. Por outro lado, a falta de mercado faz com que os artistas tenham uma maior liberdade, estamos um pouco longe dos amodelosb ditados pelas galerias. Sei que nem sempre os artistas submetem seus trabalhos aos interesses mercadológicos, mas

e isso muitas vezes se dá pela falta de articulação da nossa parte, pessoas

Porém, a cidade me parece propícia para pensar/fazer/viver arte.

é possível perceber a subordinação de vários artistas às galerias. É claro que as galerias adirigemb a produção de alguns artistas, não tenho dúvida! E é claro também que os

críticos têm afinidades com alguns artistas, e, em particular, com questões propostas por

em Fortaleza, as poucas galerias que existem estão interessadas em

vender decoração e isso se apresenta de forma clara: o trabalho que melhor combinar com

o tapete e o sofá da sala é o amelhor trabalhob.Até aí, tudo bem, mas quando essas questões aparecem escamoteadas por outras? E quando o mercado passa a ditar a maneira de afazer arteb? E quando os artistas que tinham autonomia na produção passam a produzir para

suas produções

Aqui,

suprir as necessidades da galeria? Deleuze atenta para isso, numa outra perspectiva, quando reflete sobre o risco que toda minoria corre em se transformar em maioria, não é mesmo?

Bom

Abraços,Yuri.

,

o e-mail acabou ficando longo demais, né? Hehehe espero um retorno seu!

12.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor Date: Sun, 11 Dec 2005 13:58:57 p0300

, um tratamento para o trabalho muito interessante, sem corporativismo de aartistab. Até lá,Tiago.

mas acho que você está dando

Te respondo hoje à noite, meu amigo. Muitas questões

13.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date: Mon, 12 Dec 2005 17:00:13 +0000

Ei,Tiago, você lembra da 1ª (última e única) Bienal Ceará América? Se você não lembrar, tudo bem, eu também não lembro! Sei que, em um dos espaços que a bienal ocupou, quase não apareceram visitantes. Havia dias que, fora os monitores, não circulava ninguém. Catálogo??? Não, não teve! Fui aqui ao lado, em Recife, para o SPA (Semana Pernambucana de Artes), citei a Bienal para algumas pessoas com quem conversei e elas simplesmente desconheciam a existência desse evento. Quantos mil reais devem ter sido investidos ali, hein? Por que não investir na formação de um público, que é o real problema de Fortaleza,

e sim em eventos megalomaníacos? Há um texto no catálogo do Rumos Itaú Cultural Artes

Visuais 2001/2003, escrito pelo Jailton Moreira, em que ele aponta, de forma incisiva, para essa questão. Vou transcrever aqui parte do texto: aSegue-se com o pensamento do poder messiânico dos grandes projetos, porém sem o lastro cultural devido, correndo o risco de terminarem não encontrando sustentação adequada nas frágeis malhas culturais. São propostas que, embora bem-intencionadas, buscam apenas uma visibilidade, negligenciando as carências de formação. Enganam-se ao achar que certas lacunas de toda uma dinâmica cultural possam ser suprimidas pelo poder mágico do grande eventob. Vou encerrando por aqui, continuemos conectados!

14.

23

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date: Mon, 12 Dec 2005 17:48:08 +0000

E você lembra dos festivais Vida e Arte? Esses talvez a gente lembre um pouco, porque

afinal era um evento realizado pelo jornal O Povo. Eles não pouparam matérias no jornal.

Por sinal, esse era o cachê dos artistas locais, sabia? O argumento deles era que uma matéria no jornal era muito cara e os artistas que participassem do festival teriam um espaço na mídia. Será que os artistas nacionais tiveram como cachê uma matéria no jornal??? Dá pra imaginar os interesses desse festival, né? Convidaram 20 artistas cearenses, eu era um deles, o cachê era o que falei anteriormente, uma matéria no jornal. É que eles não

Só a Coelce, Tim, Nokia, Dona Benta,

tinham dinheiro, sabe? Poucos patrocinadores

Fábrica Fortaleza, Correios, Banco do Nordeste, Cagece, Coca Cola, Iguatemi, Varig e mais uma outra dezena, que, se eu for escrever aqui, enche páginas. Sabe o que aconteceu? Os artistas daqui ficaram putos!!! Olha que interessante, resolveram tomar uma atitude, que maravilha!!! Fomos reclamar com os acuradoresb. Se não tivéssemos uma condição

favorável para a produção de nossos trabalhos, nós não participaríamos. Pedimos palestras, catálogo e um cachê. Ficou combinado que eu iria tratar dessa anegociaçãob diretamente com os organizadores do festival. Fui, no outro dia, em uma reunião com os coordenadores,

os acuradoresb

e eu sozinho, representando a aclasseb dos artistas. Sabe o que falaram?

aSe não está satisfeito, retire-se, o que não faltam são artistas querendo participar desse

eventob. Em outras palavras: você é descartável, caia fora! Com exceção do Murilo, Cecília

e eu, todos os outros artistas, mesmo sem catálogo, cachê e palestras, participaram do

festival como se nada tivesse acontecido. E rapidamente apareceram outras pessoas que, conformadas com migalhas, ocuparam as aconcorridas vagasb deixadas por mim, Murilo e Cecília. Como você vê, falta resistência coletiva por aqui, né? Forte abraço!!!

15.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: invasor Date: Fri, 23 Dec 2005 19:38:52 +0000

Olá,Yuri, beleza parceiro!!!! Este e-mail é só para dizer que andei relendo todos os e-mails que você me enviou,instigando uma discussão que também me é muito cara, talvez seja uma das questões que traz mais problema nos dias de hoje, a ponto de queimar e ultrajar: a cultura está definitivamente em perigo, sobretudo pela sua crescente perda de autonomia em relação aos valores do mercado e aos imperativos do lucro. Estarei totalmente concentrado neste final de semana

para fazer eco às tantas questões que você levantou. Então até, meu amigo, e

Tiago.

16.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: invasor Date: Sun, 25 Dec 2005 20:01:55 +0000

Fala Yuri, e aí? Muitas biritas e petiscos no natal? Tentei passar da maneira mais imperceptível possível, com uma leve ceia na casa da minha sogra. Estou relendo o livro em que Bourdieu fala da necessidade de serem organizadas formas coletivas de resistência à perda de autonomia do campo da arte. A proposta é mais ampla e sua urgência, inevitável:

24

deve abranger todos os campos da vida social e natural, cujas razões não podem ser

definidas por cálculos econômicos. A organização dessa resistência no campo da arte é,

de fato, algo que parece difícil de ser composto, talvez pela desmobilização que o regime

de astros e estrelas produz. Não sei, estou meio por fora da lógica dos conflitos no campo da arte cearense, mas seria uma coisa pertinente para ser explorada, sobretudo quando ela prejudica e enfraquece a vitalidade da cultura e da criação artística de uma geração, de um povo. Me diga lá, você, que está mais perto, e vamos ver se conseguimos estabelecer as razões não estéticas que movem o campo da arte!!! Abraços, meu amigo, Tiago.

17.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date: Mon, 26 Dec 2005 20:27:13 +0000

Oi,Tiago,

O problema de Fortaleza é a desarticulação e a divergência de interesses dos artistas.

Mas, ainda assim, a nova geração de

artistas cearenses, na qual estou incluído, tem apresentado uma produção consistente e começa a atrair olhares para o lado de cá. A idéia do artista guerrilheiro me atrai; em Fortaleza, o artista é guerrilheiro por natureza. Não vejo muitas razões para se produzir/

pensar arte nessa cidade, a não ser a necessidade. E isso é maravilhoso, justamente por ser o aessencialb. As operações de captura ainda não agem de forma incisiva no campo da arte cearense. Temos eventos esporádicos, como os que citei no e-mail anterior, mas sabemos quais são os seus reais interesses. Acredito também que existam diversas formas para se estabelecer alguma resistência a esses eventos, uma delas é tentar não

se colocar de fora, atuando de forma subversiva, elaborando estratégias, causando

curtos-circuitos dentro desses sistemas; seja discutindo a própria origem e interesses

desses mecanismos, seja criando estados de tensão a partir das situações propostas. A gente vai se falando! As estratégias da invasão estão tomando forma!!! Abraços

Como te falei, faltam espaços, faltam discussões

18.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: invasor Date: Mon, 26 Dec 2005 23:35:26 +0000

Amigo Yuri, que bom saber que algo interessante está sendo fermentado. Pessoalmente,

tenho acompanhado com pouca intensidade o que tem sido feito e exposto ultimamente. Concordo com você, existe algo no ar, e, por vezes, é possível sentir o bom aroma das experiências realizadas. De fato, é preciso explorar ao máximo esse estado de possibilidade que todas as vanguardas produzem, antes que a coisa seja excessivamente institucionalizada. Tenho acompanhado, por exemplo, o que o pessoal do Alpendre vem produzindo: vídeo- danças, vídeo-instalações. Gosto de algumas coisas e de outras, não, mas tenho certeza de que o frescor e a alegria com que tudo é feito é, no momento, o mais importante, já que a consistência vem no movimento. Fiquei sabendo da existência de uma associação de artistas

ou coisa parecida. Eles não fazem nada legal? E nos órgãos da cultura municipal e estadual, não há nada de bom sendo pensado e feito?

19.

25

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date: Wed, 28 Dec 2005 10:56:29 -0200

Oba,Tiago,

Cara, sem dúvida, o Alpendre e algumas faculdades que asurgiramb foram fomentadores de discussões sobre arte e, de certa forma, são responsáveis por mudanças no cenário da arte local. Porém, o núcleo de artes visuais do Alpendre perdeu um pouco a sua

intensidade inicial e o curso de artes do CEFET, até onde eu sei, é bastante acadêmico, conservador e a sua estrutura física é precária. Já a FGF tem uma diretoria altamente autoritária, que conseguiu arruinar o curso. Você lembra como tentaram foder com o Solon de todas as formas? Eles gostam dos dóceis, dos adestrados. Por isso, saiu o

Carlos Emílio, você, Solon

FUNCET o Salão de Abril, que, esse ano, trouxe uma certa expectativa: uma possível melhora parecia se manifestar, mas permaneceu no apareciab. E, mesmo que fosse algo

extraordinário, ainda assim seria muito pouco para a cidade. Deve haver mais instigação,

Já a Secult, no incentivo à cultura, tem aberto editais que subsidiam

pesquisas, exposições, publicações

maravilhar, é dinheiro público que está na jogada!!! No caso da associação, eu não vejo muita repercussão deles na cidade, pensando, discutindo e propondo coisas, mas sempre ouço que estão tentando articular uma exposição ali e outra ali e mais outra ali Parece-me que a preocupação deles é fazer o maior número de exposições possível, e só. Quanto ao invasor, vou te escrever um e-mail logo mais te falando em que pé anda o projeto. Você recebeu o e-mail em que me refiro a questões do capitalismo e da arte como resistência? Abração.

cursos, trocas

É uma iniciativa bem legal, mas não vamos nos

Quanto aos órgãos públicos, tem sido promovido pela

20.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date:Thu, 29 Dec 2005 12:44:26 -0300

A desarticulação e a divergência de interesses, na verdade, são alguns dos problemas de

Fortaleza

entendi, o capitalismo não opera por repressão, mas justamente por liberação de forças num primeiro momento, para depois reconstituir, reestruturar, capturar essas forças, seria isso?

E como permanecer nesse solo instável sem ser capturado? Como instaurar, no apúblicob,

esse solo instável, fazer fugir seus pensamentos como vagões desgovernados? Bourdieu fala

que ao artista é aquele que é capaz de fazer sensaçãob. Lembro de você ter falado algo sobre arte e entretenimento, sobre boa parte da produção de arte contemporânea ser da ordem do deslumbreenãodaordemdoaagressivob(infelizmente).Issolevantaproblemáticasdaprópria

naturezadaarteemeinteressabastante!Otalmovimentodeguerrilhadentrodasinstituições!!!

Quero te ouvir Forte abraço.

e não O problema, retificando aqui o e-mail anterior. Ei,Tiago, então, pelo que

26

21.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: invasor Date: Sat, 31 Dec 2005 19:44:39 +0000

Recebi sim, cara. E já respondi. Você não me pareceu muito otimista na sua breve descrição do campo artístico fortalezense. Gostaria de comentar um ponto específico da tua reflexão, que toca no problema dos financiamentos públicos. Quanto à morosidade das instituições de ensino, ela é praticamente dominante em todo o Brasil, por isso, deixemos esse assunto, momentaneamente, de lado. Mesmo que falar do setor público no Brasil implique imediatamente a idéia de corrupção, morosidade, trambique etc, é uma política de financiamento público da cultura que deve ser almejada. Até que se prove o contrário, as empresas, na medida em que subordinam o investimento em arte ao crivo da eficiência publicitária, não têm se apresentado como boas promotoras das potências artísticas de nossa sociedade. Bourdieu, no livro a que você se refere, fala até da necessidade de uma organização jurídica dos artistas, que seria responsável pela fiscalização dos processos de financiamento da cultura, procurando evitar o monopólio na apropriação dos recursos por uma pessoa ou grupo de pessoas, assim como o conservadorismo estético nos projetos financiados, a ausência de diversidade e a descentralização na aplicação desses recursos. Não dá para esperar que burocratas do ministério da cultura, sozinhos, façam esse serviço. É trabalho dos artistas também, como condição de conquista de sua necessária autonomia. Abraços, meu amigo, vamos conversando. Tiago.

22.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: invasor Date: Sat, 31 Dec 2005 23:37:51 +0000

Você sacou bem a lógica de funcionamento do capital. Não se trata de reter energias, já que vemos, por todos os lados, a corrida enlouquecida em busca de novas formas de energia, de onde quer que ela possa ser extraída. Porém, uma vez liberadas essas energias, todos os emissores de intensidade, inclusive o corpo e o desejo humanos, devem ser integrados à lógica da produtividade; o que não é necessariamente ruim em todos os domínios, como no caso das construções de plataformas de energia sustentável,retirada das ondas,por exemplo. Mas, quando essa lógica se apropria das semióticas humanas, é, muita vezes, no intuito de manter mercados consumidores babacas.Você pergunta como escapar desse quase eterno

processo de captura

Permanecer

sempre em movimento!!! Fugir, traçar linhas de fuga sempre que o ambiente tender a endurecer, sempre que os ares ficarem mais pesados. E isto é difícil, porque implica um certo desapego ao que parece ser mais relevante: poder e dinheiro, fama, acesso Essas coisas que costumam dar algum sentido à vida. Os artistas estão dispostos a abrir mão disso para produzir coisas boas que realmente inscrevam uma permanente revolução de valores em nossa sociedade???? Estamos nós?? Abraços,Tiago.

Não sei, vou usar uma formulação meio enigmática

23.

27

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: Invasor Date: Sun, 1 Jan 2006 08:10:43 -0300

Olha aê,Tiago, e diz o que acha

A ocupação da sala será da seguinte forma: irei inventar um artista. Biografia, currículo,

obras

desenvolve trabalhos com tecnologias de ponta e experiências genéticas. Quero viabilizar

uma publicação sobre esse artista nos jornais, com textos críticos autenticando sua obra,

além de entrevistas com ele

de visibilidade nacional, na tentativa de articular alguns textos fictícios.Você topa escrever

um texto sobre a aobrab desse artista? Você poderia inventar um pseudônimo para você Também posso inventar a crítica, bem como os críticos. Esses textos, além de serem publicados em jornais, deverão ser colocados do lado de fora da sala, como apresentação do artista, apresentação que incite o visitante a entrar no espaço, pois, para entrar na exposição, o visitante terá que pagar. Dentro dessa sala, haverá algo ou talvez permaneça simplesmente vazia, ainda não sei exatamente. Mas, não quero constranger o público, quero que os visitantes entendam que, na verdade, estou discutindo sobre as próprias

Pedi para o Ricardo entrar em contato com alguns críticos

Tudo ficção. Um artista representativo dentro do cenário internacional, que

condições e relações existentes dentro do universo da arte p as tais redes de dependências que a gente vem discutindo nessas trocas de e-mail, as entrelinhas desse jogo p ; quero que eles entendam que também fazem parte desse jogo, assim como o marketing, a crítica,

o museu, as galerias, os curadores, o mercado, o poder de sedução da mídia Espero respostas!/Falow

, enfim

24.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor Date: Mon, 02 Jan 2006 14:20:21 +0000

Acho que o projeto está super legal. É claro que topo escrever um texto simulacro, sem problemas. Seria legal escrever algo depois também. Talvez uma conversa entre nós dois ou com o Ricardo, sobre a duração da obra. Sei lá, você poderia colocar um DVD sobre história da arte, pelo menos a galera que pagou pode se divertir um pouco depois de perceber a lógica da obra. Há, Há. Falou Tiago.

25.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date: Fri, 06 Jan 2006 18:49:43 p0200

E aê,Tiago, blz?

Você topa então escrever o texto? Massa! Só tem um detalhe, uma certa urgência. Preciso enviar os textos para o museu o quanto antes, pois a exposição abre dia 10.

Está em cima!!! Vou te passar os dados sobre o artista: é de origem japonesa, trabalha com arte-tecnológica e experiências genéticas. O texto não precisa ser grande. O nome do artista é Souzousareta Geijutsuka, que significa aArtista Inventadob em japonês. E o nome da exposição será aGeijitsu Kakuub, que quer dizer aArte-Ficçãob.

Cheguei de viagem ontem, fui para Guaramiranga. Falando

Estou na correria por aqui

nisso, feliz ano novo! E o grupo volta a acontecer a partir de quando?

Abraços,

Valeu!

28

26.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: Invasor Date: Sat, 07 Jan 2006 17:11:24 -0300

Tiago, nossa troca de e-mail apresenta todo o processo de elaboração/pensamento do trabalho. Penso, se você concordar, em expor nossos e-mails na sala. Acho que, dessa forma, ficam mais claras, para o público, as intenções do trabalho.

Como te falei, para se visitar a sala de exposição, o público deverá pagar. Isto implica em deslocar um funcionário do museu de sua função normal, para controlar

o fluxo de pessoas na entrada da sala. Assim, a cobrança da entrada constitui,

junto com os outros elementos, a crítica instigante a que se propõe o trabalho.

E você viu o folder da programação do Dragão do Mar de janeiro? Saiu uma

nota sobre a exposição do Souzousareta. Fiquei surpreso, pois, inicialmente, tive minhas dúvidas quanto à incorporação da idéia pelo Dragão. Acho que a sala apresentada faz jus ao nome do projeto, realmente uma invasão! O MAC-CE, de fato, convidou o artista Souzousareta Geitjutsuka, ao aceitar a empreitada da invasão!!! Abraços, até mais

27.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date: Sat, 07 Jan 2006 19:44:13 -0300

E aí, beleza? Cara, a veiculação de uma afalsab matéria no jornal está um pouco difícil de ser executada. Há alguns dias, enviei alguns e-mails para colunistas, e-mails assinados com o nome de Ana Monteja, uma assessora que criei para o artista japonês, mas nada foi publicado até então. Hoje, minha namorada telefonou para os editores chefes dos cadernos de arte dos jornais locais. Falou que era a assessora Ana Monteja e que estava mandando um e-mail com imagens e textos sobre a exposição inédita do artista japonês Souzousareta. Vamos ver o que acontece. Acho que o jornal deve ligar para o Dragão do Mar, para saber da tal exposição. Uma matéria paga também seria interessante, comprar um espaço no jornal para promoção do tal artista, justamente da forma que funciona na realidade. Abraços, a gente se fala.

28.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor Date: Sat, 07 Jan 2006 22:37:20 -0300

Diga lá, cara. Tô só mandando a carta do artista inexistente. Te respondo as questões na seqüência.Vou dar uma caída agora ao lado da minha princesa. Abraços,Tiago.

29.

29

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: invasor Date: Sun, 08 Jan 2006 15:21:54 -0300

Oi,Tiago,

A

Luisa Duarte esteve aqui em Fortaleza, ela também irá escrever um texto fictício sobre

o

artista. O Ricardo Resende mandou um e-mail para alguns críticos p Paulo Reis, Ricardo

Quero entrar em contato também com a Luiza Interlenghi. É legal poder

contar com a participação de alguns críticos, que, a meu ver, estão interessados em discutir

Basbaum

o papel, os limites e as possibilidades da crítica, a inventividade em termos de linguagem

Li

um texto, há uns dias, que abordava o problema da crítica no pensamento do Nietzsche

e

traçava um paralelo com o que o W. Benjamin pensava sobre a crítica e o espectador,

no caso do cinema. Vi que, no livro do Deleuze sobre o Nietzsche, há um capítulo sobre crítica.Vou apegarb esse capítulo do Deleuze e novamente o texto.

A gente volta a se falar.

Forte abraço.

Falow!

30.

From: ayuri firmezab <yurifirmeza@hotmail.com> To: tiagothemudo@hotmail.com Subject: RE: Invasor Date: Sun, 08 Jan 2006 20:05:49 -0300

Oi,Tiago,

O Souzousareta começa a expor a partir desta terça-feira, depois de amanhã. O que ficou,

ao longo dessa discussão, foi a certeza de que a arte não pode limitar-se a um campo específico. A arte, no mundo da Arte, tornou-se uma mercadoria, segundo Hakim Bey. Ele fala da TAZ, (Zona Autônoma Temporária), como sendo um lugar e um tempo onde

a arte, enquanto mercadoria, seja impossível, onde a arte seja uma condição de vida. Não

sei até que ponto um aobjeto de arteb é apenas uma mercadoria, afirmar isso seria como ignorar o poder simbólico inerente ao mesmo. Mas, entendo o que Hakim Bey propõe ao refletir sobre a problemática da autonomia. Acho que nossas discussões trataram, por diferentes pontos de vista, sobre essa questão: o problema da autonomia na arte; todas as manipulações, controles e mesmo auto-censuras com as quais o artista e as instituições

freqüentemente se deparam.Volto a pensar no Artaud, quando traça um diagnóstico sobre

a cultura. Hoje, uma acultura capitalistab que influencia, de maneira gritante, boa parte da produção contemporânea das artes visuais. Produção essa que se encontra subordinada às exigências mercadológicas e/ou modelos determinados pelo circuito de arte vigente. Não sei como será a receptividade do público em relação ao Souzousareta, mas acredito que suscitará saudáveis desconfortos. Enquanto o depois de amanhã não chega, vamos trocando e-mails.

Abraços!!!

30

31.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor Date:Tue, 10 Jan 2006 12:22:03 +0000

AmigoYuri, que satisfação saber que a tua exposição vai acontecer. E, pelo jeito, reunindo mais elementos e acontecimentos do que poderíamos imaginar. Sem nenhuma dúvida,

o envolvimento do Ricardo foi definitivo, na medida em que permitiu que a instituição

Dragão do Mar embarcasse nessa experimentação estético-política.Todas as indas e vindas,

as forças em jogo, as avoltas atrásb e concessões também fazem parte de toda a experiência.

No seu último e-mail, você fala da importância da crítica na arte, que muitas vezes não se confunde com o que fazem os acríticos de arteb. Por acríticab, devemos entender operações importantes e específicas do pensamento, que não se confundem, de forma alguma, com o politicamente correto ou com as nossas atuais disposições religiosas. Há dois efeitos no real pelos quais podemos identificar a ação da crítica: crítica frontal dos valores estabelecidos, desde que impliquem um enfraquecimento da vida individual e social; e uma transvaloração de todos os valores, ou seja, a criação, invenção, pela arte, de nossos valores de vida para a vida. Sem isso, sem essa agressão dos hábitos e dos sentidos das pessoas, das práticas e das relações de uma sociedade, não há crítica. E é nisso que os críticos de arte deveriam ajudar: manter o campo da arte em permanente condição de fazer críticas reais, não para criticar alguém, mas, sobretudo, para inventar novos valores.A crítica consiste nisso!!! A tua exposição funciona nesse sentido: mostrar, fazer sentir, fazer perceber que há muitas razões não estéticas, sobretudo comerciais, publicitárias, no campo da arte, no fazer artístico contemporâneo. Não se trata, de forma alguma, de demonizar o mercado e o comércio, mas exigir que eles, o consumo, o entretenimento, o comércio da arte se dobrem, se submetam aos valores e critérios do campo da arte, e não o contrário. Temos que conseguir superar a idéia de consumidor de massa, de produto de massa, que tanto apequena o homem e as sociedades contemporâneas. Um tipo de consumo que se confundiria com apreciação estética, numa espécie de pessoa consumidora amante de arte, arredia também aos clichês. No dia em que a crítica for marca de uma sociedade, acredito que estaremos nos vitalizando. Por enquanto, é só guerrilha contra o império da idiotice. Parabéns meu amigo, Tiago.

32.

From: aTiago Seixas Themudob <tiagothemudo@hotmail.com> To: yurifirmeza@hotmail.com Subject: RE: Invasor Date:Tue, 10 Jan 2006 12:51:19 +0000

Você recebeu meu último e-mail???

aGeijitsu Kakuub

e a analogia da natureza

31

O artista plástico Souzousareta Geijutsuka invade o Museu de Arte Contemporânea do Ceará.

A partir de 10 de janeiro, ele exibe a mostra !Geijitsu Kakuu6, apresentando a relação da natureza com seus fenômenos vivos e mortos.

A partir de 10 de janeiro o Projeto Artista Invasor do Museu de Arte Contemporânea

do Ceará (MAC CE) apresenta a exposição aGeijitsu Kakuub, do artista plástico Souzousareta Geijutsuka. Na sua quarta participação em eventos no Brasil, o artista

japonês revela ao público o mundo das flores e vegetais, usando objetos carbonizados. Ele busca a harmonia entre a natureza que nasce e a que morre, empregando equipamentos tecnológicos para expor suas obras. Na exposição Souzousareta discute

a fragilidade da vida e suas contradições.

O nome de Souzousareta é considerado um dos mais importantes no panorama

das relações entre arte, ciência e tecnologia. Desenvolve pesquisas no campo da Eletrônica e das Telecomunicações, buscando parceria com cientistas e engenheiros. Assim, ele incorpora ao seu trabalho novos conceitos como os de operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade. No trabalho que

desenvolveu com Tamura Murakami, o artista dispôs em telões, rádios e alto-falantes

a imagem e o som de uma barra vermelha se desfazendo até desaparecer. A imagem

da barra, convertida em som, era transmitida acusticamente pelo rádio e ouvida nos

alto-falantes. O evento procurava mostrar como um mesmo objeto se apresentava simultaneamente em três meios diferentes.

Souzousareta também desenvolveu a fotografia ÖShiitakeÜ, uma técnica japonesa que permite a captação dos fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera. Recentemente,

Press-release enviado aos meio de comunicação divulgando a exposição aGeijitsu Kakuub, do artista plástico Souzousareta Geijutsuka.

o

artista vem desenvolvendo um trabalho nos domínios da robótica, explorando

as

possibilidades de utilização de um autômato num diálogo com a escultura e a

instalação ambiental. Seus trabalhos já foram expostos em Tóquio, Nova York, São

Paulo e Berlim.

CONTATO:

Ana Monteja p anamonteja@hotmail.com / anamonteja@yahoo.com.br Ricardo Resende p diretor do MAC CE - (85) 3488.8622

SERVIÇO:

Artista Invasor apresenta a exposição aGeijitsu Kakuub, do artista plástico Souzousareta Geijutsuka. A partir de 10 de janeiro no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, no Dragão do Mar. Visitação de terça a domingo, das 14h às 22h. Ingressos: R$ 2 (inteira), R$ 1 (meia). (85)3488.8622.

EVENTOS SELECIONADOS

1993

p Tóquio - Yachi - evento de arte digital.

1994

p Nova York - Ambient x Technological - uma rede de rádio, televisão e videotexto.

1994

p Brasil /Japão - conexão simultânea - entre CSSP e Embaixada do Japão.

1996

p Estados Unidos/Alemanha p Utopics reverberation at Post age - evento via

satélite - conexão via SSTV.

1996 - São Paulo SP p Ausência e Presença - evento de telecomunicação via fax e TV ao vivo - organização e participação.

1998

- Sakata e Estocolmo - Entre Oriente e Ocidente - evento telecomunicativo.

2000

- Colônia (Alemanha) - Grupo Festigkeit - projetos de arte mediática de Akira

Takeo, Thomas Ströbel e Friedrich Agahd.

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An Oak tree,

uma porta de entrada para obra de Souzousareta Geijutsuka

Texto de Luísa Duarte sobre Souzousareta Geijutsuka.

Ao ser apresentada a obra do artista japonês Souzousareta Geijutsuka, na mostra Geijitsu Kakuu, imediatamente me veio a lembrança de um trabalho de arte que me é muito caro, chamado An Oak Tree, de 1973, do inglês Michael

Craig-Martin, que se encontra no acervo da Tate Modern, em Londres. Pela simplicidade, pela devoção ao que é quase impalpável, pela crença incluída em qualquer trabalho de arte, crença primeiro do e no artista, depois do espectador, por esses e outros motivos creio que a obra de Craig-Martin pode ser uma excelente porta de entrada para quem quiser adentrar o universo proposto por Geijutsuka em sua exposição no Centro Dragão do Mar. An Oak tree nada mais é do que um copo de vidro com água dentro, apoiado sobre um suporte de vidro preso numa parede. Ao lado lê-se um pequeno texto, que traz

o seguinte diálogo:

Q: To begin with could you describe this work? A: Yes, of course. What Imve done is change a glass of water into a full-grown oak tree without altering the accidents of the glass of water. Q: The accidents? A: Yes. The colour, feel, weight, size. Q: Havenmt you simply called this glass of water an oak tree? A: Absolutely not. It is not a glass of water anymore. I have changed its actual substance. It would no longer be accurate to call it a glass of water. One could call it anything one wished but that would not alter the fact that is an oak treeo Q: Do you consider that changing the glass of water into a oak tree constitutes an artwork? A: Yes.

Se não for uma afronta ao grande artista que temos a honra de receber no Brasil, e dada a simplicidade da obra que trago aqui como referência, sugiro que reproduzam An Oak Tree na ante-sala da exposição Geijitsu Kakuu, de Geijutsuka. O público terá, a meu ver, um ótimo cartão de visita para compreender melhor a aposta feita pelo trabalho deste artista asiático que lida com a crença no poder do artista, com

a imaterialidade e os fenômenos da natureza.

Luisa Duarte Crítica de arte e curadora

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Sala Especial

O Artista Invasor - Souzousareta Geijutsuka

Ao pensar em um texto para esta exposição do japonês Souzousareta Geijutsuka, fiquei em dúvida, o que poderia abordar para melhor apresentar a obra de nosso artista convidado. Decidi então falar sobre a questão da sensibilidade na arte, particularmente a sensibilidade do olhar necessária para se perceber a obra desse jovem de carreira promissora. Geijutsuka, nosso convidado especial e primeiro a expor no MACCE em 2006, no programa Artista Invasor, é o que poderia se caracterizar como o artista do sensível, da invisibilidade e da sensibilidade. Enxergar e ver são dois verbos que definem um de nossos cinco sentidos, o da visão, sentido necessário para se perceber a obra de Geijutsuka. Talvez o mais importante dos sentidos no mundo atual, onde vivemos em função da imagem, enxergar é mais importante que ver, embora a maioria das pessoas não percebam esta sutil diferença. Enxergar define a capacidade humana sensível de entrever, de pressentir, de

advinhar, de sentir emoções por meio da visão. Ver é mais fácil, está mais ligado justamente a esse mundo de imagens rápidas, fugazes, excessivas que bastam apenas serem vistas de forma também rápida e que, não necessariamente, precisam ser apreendidas pela visão ou decodificadas por nossa capacidade de percepção, quero dizer, enxergar. Idéia que me foi reforçada muito recentemente, quando me foi dado o prazer de conhecer esta obra do artista japonês. Uma agradável surpresa. Uma obra que nos fala de sensibilidade, dos sentidos, particularmente o da visão

e da falta dela. De como se dá o aser sensívelb e que, infelizmente, não esta em

todo ser humano o poder de se tornar um aser sensívelb. A obra nos fala das várias formas de enxergar. Enxergar através do amor. Enxergar através da pele. Enxergar

através das palavras. Enxergar através do cheiro, do tato, do paladar e até mesmo, obviamente, da própria visão. Não basta ser cego para não enxergar. Este parece, a mim, o mote do seu trabalho aqui apresentado para o nosso público. Não enxerga quem não quer se dar ao trabalho de refletir, de ser curioso, de olhar. Enxergar é um sentido que requer o exercício do sensível. De se sensibilizar particularmente pelas coisas simples da vida. O simples pode ser um quase nada. Não é uma tarefa fácil ver no quase nada algo sensível ou lhe dar algum sentido.

A arte pode estar ai.

Ricardo Resende Diretor Técnico Museu de Arte Contemporânea do Ceará

Texto do então Diretor do MACCE, Ricardo Resende, para a exposição aGeijitsu Kakuub, do artista plástico Souzousareta Geijutsuka.

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Texto do então Diretor do MACCE, Ricardo Resende, fixado na sala de exposição.

Sala Especial

O Artista Invasor ou o artista invisível

O artista japonês Souzousareta Geijutsuka, convidado especial para expor no

MACCE, é o que poderia se caracterizar como, não apenas um artista invasor, mas um artista invisível ou o artista impossível. Geijutsuka invade a instituição museológica e questiona os seus limites estruturais com suas proposições artísticas conceituais que fogem do puramente contemplativo e exige do público a reflexão sobre o que se vê ou quê não se vê. Vivemos uma era em que muitas outras forças além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte. A principal delas e a que move tudo, é o dinheiro, sem dúvida alguma. Depois são alguns poucos artistas que ditam as próprias regras estéticas e de contuda no mundo para os demais colegas. Chegam os galeristas na sequência, que comercializam o aprodutob da criação

artística. Depois os diretores das feiras de arte que vieram como muitos já afirmam, substituir o papel das grandes exposições bienais. Na sequência dessas forças estão

os diretores de museus importantes tais como o Museu de Arte Moderna de Nova

Iorque e a Tate Modern em Londres, depois aparecem os colecionadores com o

seu poder de compra, a mídia que fabrica os ícones, surgem os publicitários que

controlam o dinheiro dos patrocinadores não menos poderosos e, por fim, os curadores que fazem as aescolhasb entre a orda de artistas que se espalha pelos

quatro cantos do planeta. Embolados no meio de toda esta gente e é o que dá a liga, reinam os desejos individuais fúteis da vaidade, da fama, do luxo e do poder.

O artista japonês, por sua vez, vem para questionar algumas das regras desse

ajogob. A primeira pergunta que nos coloca (instituição e público) é sobre o que entendemos por arte na atualidade. Depois ele nos questiona sobre o nosso papel como instituição cultural e de como fomentamos a arte. Ele nos pressiona ainda

mais ao nos perguntar quais são os nossos limites como fomentadores ou o que

aceitaríamos em nossas salas de exposição. Se já não tinhamos claro estas questões, com sua presença no museu parece ficar ainda mais confuso esse quadro. A arte adquiriu contornos na atualidade nem sempre aqueles a que estávamos acostumados a reconhecer como tal. Por exemplo, uma pintura, uma escultura ou uma fotografia. Se olhamos para uma nos moldes convencionais pensamos aahh!

Isso é uma fotografiaâb.

A arte adquiriu novas formas, de uma simples projeção de um filme a uma instalação

ou ajuntamento de coisas variadas nas salas de exposição. Da ação humana no

espaço expositivo que chamamos de performance ou happening a um manifesto na

forma de uma ocupação de nossas instalações, e ai temos como exemplo e não diria aqui invisível, o artista Geijutsuka.

O

artista japonês está presente no MACCE ocupando visivelmente toda uma sala

de

exposição. Ocupação que também escapa do que estamos acostumados a ver.

Ela

assume aqui a forma de uma invasão que afogeb do controle do museu quando

nos

propusemos a abrir as portas para o que há de mais instigante quando se pensa

na arte contemporânea que arolab no país. O museu quando recebeu a proposta do

aArtista Invasorb convidado, foi colocado em xeque. Vamos ou não vamos nesta? Quais serão as consequências de receber um artista imaginário?

Estamos na verdade, recebendo um jovem artista que lida com a aficçãob de se fazer arte na atualidade. Resta para nós, público e instituição, nos darmos o tempo necessário para acompanhar durante mais de 50 dias as performances, as ações,

e por quê não, as estripulias artísticas do primeiro artista invasor do MACCE de 2006. Começamos bem o ano.

Ricardo Resende Diretor Técnico Museu de Arte Contemporânea do Ceará

A invasão e a reverberação

A invasão e a reverberação

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Programação oficial do MAC-CE: um texto com algumas apistasb.

4 0 Programação oficial do MAC-CE: um texto com algumas apistasb.

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41 Yuri Firmeza e Ricardo Resende. Chá com Porradas: discutindo a polêmica.
41 Yuri Firmeza e Ricardo Resende. Chá com Porradas: discutindo a polêmica.

Yuri Firmeza e Ricardo Resende. Chá com Porradas: discutindo a polêmica.

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Os comentários desta coluna referem-se aos textos de Ricardo Resende e Tiago Themudo (reproduzidos respectivamente
Os comentários desta coluna referem-se aos
textos de Ricardo Resende e Tiago Themudo
(reproduzidos respectivamente páginas 69 e 107
deste livro). Esses textos foram originalmente
publicados no jornal O Povo em 29.02.2006.

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Adorável invasor

por Ricardo Sabóia, Fortaleza (CE) http://www.overmundo.com.br

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Como um vírus, Yuri Firmeza infiltrou-se na mídia e expôs as fraquezas de uma imprensa que, com raras exceções, mostrou-se incapaz de fazer uma autocrítica vigorosa.

O sobrenome de Yuri não poderia ser mais apropriado. Sua mais recente obra de

arte é uma iniciativa que divide opiniões, mas não pode não ser classificada de firme. Ele criou um artista japonês fictício, batizado de Souzousareta Geijutsuka (bartista inventadob em japonês, segundo ele) e a exposição de arte e tecnologia Geijitsu Kakuu (bArte e ficçãob), programada para ser inaugurada na última terça- feira, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MACCE) do Centro Dragão

do Mar de Arte e Cultura, pólo referencial das artes no Ceará.

Yuri também criou uma assessora de imprensa igualmente fictícia, batizada de Ana

Monteja, que abasteceu a mídia local com press-releases sobre a exposição e o

suposto artista japonês. Conseguiu até emplacar uma entrevista na capa do caderno

de cultura do jornal de maior circulação no Estado, o Diário do Nordeste, só para

usuários cadastrados. Tudo com o aval do Dragão do Mar, a aiscab que a imprensa precisava para ser fisgada pelo artista.

A surpresa veio com a revelação, no dia seguinte à publicação dos textos noticiosos

divulgando a exposição fictícia, de que Souzousareta, apresentado como renomado artista contemporâneo internacional, com quatro passagens pelo Brasil e mostras em Tóquio, Nova York, Berlim e São Paulo, nunca existiu p não fora do projeto artístico de Yuri e das páginas dos jornais, pelo menos.

No MACCE, o projeto de Yuri, correspondente à quarta edição da série Artista

Invasor, ganhou a sala supostamente destinada às obras de Souzousareta. Lá, estão expostos e-mails trocados entre o artista e o sociológo Tiago Themudo, com quem Yuri dialogou na concepção do projeto, e um texto de apresentação (em português

e inglês) de Souzousareta ao público, escrito pelo diretor-técnico do MACCE,

Ricardo Resende. No debate Chá com Porradas, promovido pelo Centro Dragão do Mar na última quarta-feira, Yuri declarou: aOs jornais de hoje (quarta-feira) confirmam o descaso, comprovam que não têm seriedade. Seduzi os jornais do mesmo modo que eles seduzem o público. A obra é uma situação.b

A asituaçãob criada por Yuri busca refletir as complexas relações entre o status

da arte contemporânea e seu posicionamento com outras instâncias, como os espaços de museus, galerias de arte e a cobertura midiática. aQueria discutir o museu como espaço de conservação simbólica e outras questões que não sejam propriamente estéticas. Aí entrou a questão da mídia, do mercado, das galerias. Uma invasão que não se limitou ao status museológico, mas a todo um sistema em que ele está inserido. E a mídia é o principal sistemab, afirma. Outra preocupação do artista era revelar o descaso da cobertura da imprensa local com os artistas contemporâneos cearenses: aFalta um acompanhamento sistemático da produção contemporânea, de artistas que expõem em projetos importantes aqui e em outros Estadosb, enfatizou.

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Questionado pelo Overmundo sobre os métodos empregados no seu processo

de criação, duramente criticados pela imprensa, Yuri afirmou: aNo meu caso, a

invenção do artista é o próprio trabalho. O suporte era o jornal. Faltou humor da imprensa. Ela não teve iniciativa de se sentir como co-autora da obra. Os jornais se sentiram afrontados, viram que são vulneráveis a esse tipo de invasão. Não existiu uma auto-reflexão da imprensa.b Ainda no Chá com Porradas, o diretor do MACCE defendeu o artista: aA ousadia

de Yuri talvez seja demais para os nossos padrões. Ele veio com uma proposta

ousada, de testar os limites da instituição.b A obra de Yuri não se encerrou com a

revelação de que Souzousareta é fictício: aAté fevereiro, faremos na sala do MACCE um acúmulo das matérias publicadas, o vídeo do debate no Museub.

Se

a estratégia de Yuri não chega a ser propriamente uma novidade p pensemos

no

pronunciamento dos ataques de invasão da Terra por marcianos descrita em A

Guerra dos Mundos e apropriadas por Orson Welles em discurso radiofônico, ou

mais recentemente, no escritor JT Leroy p, sua iniciativa despertou ataques de quem mais se sentiu ofendida por seu projeto artístico: a imprensa local p ironicamente, quem viabilizou em última instância sua obra. Em um primeiro momento, os jornais preferiram desqualificar o artista e o Centro Dragão do Mar. O Diário do Nordeste publicou texto na última quarta- feira cuja manchete classifica o projeto de afactóideb, sugerindo que o Dragão do Mar comprometeu o avínculo de credibilidade estabelecido junto aos veículos de comunicação e a sociedade cearense.b

A reação na edição do mesmo dia do concorrente O Povo foi ainda mais agressiva:

além de um texto informativo registrando aos leitores que a exposição era umabpegadinha contemporâneab, artigo assinado pelo jornalista Felipe Araújo classificava a obra de amolecagemb p não deixa de ser curioso que a molecagem, tão celebrada como marca identitária cearense, torna-se algo pejorativo quando põe em xeque o funcionamento da imprensa local. No texto, sobram ataques para a arte contemporânea no Ceará p aCom algumas caras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (â) com pichaçãob p e corporativismo com os pecados da imprensa na cobertura do circuito artístico local. Onde houve excesso de verborragia para desqualificar o artista e o Centro Dragão do Mar, faltou autocrítica incisiva para debater a ausência de uma imprensa

responsável e especializada e questionar o uso do release por jornalistas, questão que vai muito além da aboa féb dos profissionais de imprensa.

O diretor Ricardo Resende rebate as acusações de que o Dragão do Mar foi

irresponsável em apoiar a iniciativa do artista. aEm nenhum momento a gente se eximiu da responsabilidade. O Yuri impôs, entre algumas regras, que a gente ficasse fora da divulgação. Quando a imprensa presssionou por informações, achamos que

era hora de convocar o Yuri para falar. O Dragão não mentiu para imprensa, omitiu

para viabilizar o projetob, declarou ao Overmundo. E sentencia: aHouve uma cegueira da imprensa. Os jornalistas estavam interessados porque era um japonês

consagrado, artista que trabalha com arte eletrônica. Mas entendo que isso não seja um erro apenas da imprensa local, é da imprensa brasileira em geral.b

A polêmica não arrefeceu. O mesmo jornal O Povo, que em edição de ontem

publicou matéria de capa do caderno de cultura Vida&Arte dando voz ao artista

e ao MACCE, acompanhada de um sensato artigo da jornalista Regina Ribeiro

analisando criticamente o episódio, não hesitou em publicar editorial classificando

a obra de Yuri de aProvocação Infelizb. O texto reconhece que a imprensa local

anão sai ilesab do episódio e diz que aem plena era da Internet (â) não custava nada uma checagem em torno do nome divulgadob, mas não poupa o artista de mais

ataques, sugerindo que ele aextravasou suas frustrações e recalques na mídiab. A afirmação revela justamente o que Yuri procurou mostrar: quem está precisando de um divã, efetivamente, é a imprensa cearense. Trechos de e-mails enviados por Yuri Firmeza a Tiago Themudo:

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aOlha aí, Tiago, e diz o que achaâ A ocupação da sala será da seguinte forma: irei inventar um artista, biografia, currículo, obrasâ tudo ficçãob aNão sei como será a receptividade do público em relação ao Souzousareta, mas acredito que suscitará saudáveis desconfortosb A (não) exposição de Souzousareta pode ser conferida no MAC. Yuri é convidado do projeto Arte Invasor até fevereiro.

Na rede:

Yuri Firmeza participou do Salão Nacional de Arte de Goiás e do Salão Sobral de Arte Contemporânea, entre outros eventos. Foi selecionado no Projeto Rumos Itaú Cultural 2005/2006. http://yurifirmeza.multiply.com http://www.yurifirmeza.zip.net

AgitoFortaleza:Ivna Bessa

Entrevistado: Yuri Firmeza, artista plástico e responsável pela exposição que não existiu

!O problema é que o poder sente-se mais confortado com instituições e artistas tímidos, acanhados, que não causem curtos-circuitos.6

Quando você lê uma notícia em um jornal, o mínimo que espera é que ela seja verdadeira; pode ser parcial, pode vir carregada de preconceitos, mas deve ser verdadeira. Isso se chama pacto de confiança entre leitor e jornalista. Mas há um outro pacto: entre o jornalista e a fonte. Há duas semanas, Yuri Firmeza, artista plástico cearense, até então pouco conhecido (ou totalmente desconhecido) na mídia, resolveu fazer uma intervenção que nos faz repensar o papel da fonte. Junto com o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Yuri inventou um artista chamado Souzousareta Geijutsuka, que seria um famoso japonês. O currículo de Souzousareta impressionava e a sua suposta exposição rendeu várias páginas nos cadernos de cultura do Diário do Nordeste e de O Povo. No dia da abertura, quando os jornalistas estavam lá para cobrir o evento, eis que se descobre que tudo era uma brincadeira. Nada de japonês, nada da exposição prometida (havia uma mostra de e-mails), e nada de arte? O fato gerou uma grande polêmica, mas até agora não se chegou a conclusão: os jornalistas foram ingênuos e desastrados ou Yuri e o Dragão do Mar não tinham o direito de brincar com a imprensa? Leia a entrevista, confira a exposição e, se conseguir, ache a resposta. Detalhe:

Souzousareta Geijutsuka significa, segundo Yuri, aartista inventadob em japonês.

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AGITOFORTALEZA: Como surgiu a idéia de fazer a intervenção tão polêmica e como você conseguiu convencer o Dragão do Mar a participar?

YURI FIRMEZA: Surgiu a partir de leituras e diálogos. Não consigo identificar uma origem, pelo simples fato dela não existir. Entende o que eu falo? A exposição aborda várias questões, vistas, cada uma delas, por diferentes prismas. A polêmica não foi criada por mim, o que criei foi um artista japonês.

AGITO: Muita gente lhe acusou de querer apenas promover seu nome. Qual foi o objetivo da intervenção? Você considera que ele tenha sido atingido?

YURI: Quando digo que a polêmica não foi criada por mim, acredito ficar claro que se alguém promoveu o meu nome, com certeza esse alguém não fui eu. Da mesma forma que a performance não tem origem, ela também não tem um objetivo único. Caso seja necessário falar em objetivo, vamos falar em objetivos múltiplos. Justamente pelo fato do trabalho lidar com diversas questões. Infelizmente as pessoas estão discutindo o trabalho atendo-se apenas às matérias que estão sendo veiculadas nos jornais, reduzindo assim, as questões que o trabalho se propõe a discutir. É preciso ver a exposição!!!

AGITO: Você imaginava que iria causar tanta polêmica?

YURI: A polêmica é o que menos tem me interessado nisso tudo, é pequena demais frente ao trabalho.

AGITO: Se a intenção era criticar o pouco destaque da arte cearense na imprensa, porquevocênãoaproveitouomomentoparaapresentaralgumaproduçãooutrabalho?

YURI: A intenção não era a de criticar o pouco destaque da arte cearense na mídia!

inicialmente pensei que

eu, o Yuri Firmeza, fosse ficar praticamente invisível nessa exposição. Uma das

intenções do trabalho era suscitar uma discussão sobre o museu, sobre crítica e possibilidade de pensamento no mercado da arte, sobre formação, sobre políticas culturais, sobre o marketing, a mídia.

Não há intenção, mas sim intenções, tensões, ações

AGITO: No lugar da exposição prometida, havia apenas e-mails trocados com o filósofo Tiago Themudo. Houve uma discussão muito grande se isso poderia ser considerado arte. Para você isso é arte? O que é arte? YURI: Certa vez, perguntaram para o Picasso: ao que é arte? Então ele disse: não sei. Se soubesse não diriab. Eu adoro o Urinol do Duchamp, não o objeto em si, mas o ato. E você? Para você aquilo é arte? O melhor a fazer é conferir a exposição e tirar suas próprias conclusões.

AGITO: No Brasil e principalmente no Ceará há espaço e destaque para a arte?

YURI: Mesmo com uma enorme carência de espaços de formação, discussão,

pesquisa

O problema é que a falta de opção e apoio para os jovens artistas atuarem faz com que aos poucos eles deixem a cidade. Nesse momento, de efervescência da jovem produção contemporânea cearense, já podemos notar o aadeusb de alguns artistas.

os artistas cearenses estão conseguindo uma excelente projeção nacional.

AGITO: Você considerou que sua intervenção poderia resultar em conseqüências negativas. Como a demissão de jornalistas?

YURI: O que considerei é que tal intervenção pudesse fomentar discussões que gerassem um maior esclarecimento sobre as feridas em que cutuca, questionando certos discursos geralmente tidos como verdades e desvelando certos fatos e atividades do véu que os encobre. As feridas vão se apresentando ao longo da troca de e-mails que se encontra dentro do MAC.

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AGITO: O Dragão do Mar como órgão público pode ter perdido a credibilidade entre os jornalistas. Você não acha que isso pode ter acontecido com o nome Yuri Firmeza também?

YURI: O problema é que o poder sente-se mais confortado com instituições e artistas tímidos, acanhados, que não causem curtos-circuitos. O sociólogo francês Pierre Bourdieu escreve sobre isso quando discute a rede de dependência que existe dentro do sistema das artes. Instituições, artistas, jornalistas estão constantemente perdendo autonomia ao submeterem os seus trabalhos a uma lógica do poder, e aí mora o perigo. É necessário que a resistência seja coletiva. Nesse caso específico, o Museu de Arte Contemporânea do Ceará não perdeu sua autonomia, e nem eu, é isso que me interessa pensar no momento.

AGITO: Os artistas Estrigas e Nice Firmeza, que possuem o Mini Museu Firmeza no Mondubim, tiveram alguma influência na sua carreira artística?

YURI: Temos alinhas de pesquisab divergentes. É sempre interessante dialogar com pessoas como o Estrigas, pessoas que tem uma história de vida que se confunde com o próprio fazer artístico. Concordo com diversas questões que geralmente o Estrigas aponta, e com outras discordo completamente. Se há influência ela surge a partir desses diálogos, do embate das idéias. É sempre bom está atento à diversidade de olhares e sentidos.

AGITO: Quais são os planos agora? Alguma nova exposição está sendo pensada?

YURI: Fortaleza vem despontando no cenário nacional com uma densa produção de arte contemporânea. Em março deste ano começam as exposições do programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 2005/2006. Nesta edição do programa temos 5 cearenses selecionados (Bosco Lisboa, Jussara Correia, Ticiano Monteiro, Waléria Américo e Yuri Firmeza) e 3 mapeados (Cecília Bedê, Milena Travassos e Murilo Maia). A exposição é itinerante, acontece em um primeiro momento em São Paulo,

em seguida Rio de Janeiro e

Irei também participar de uma exposição no Centro

Cultural do BNB, a exposição conta com a curadoria de Solon Ribeiro e reúne trabalhos meus, da Valéria Pena Costa (DF) e da Gabriela Maciel (RJ). Além disso,

estarei lançando um livro ainda este mês; um livro composto de trabalhos que venho desenvolvendo há algum tempo e de textos meus e de outras pessoas.

LEIA A SEQUÊNCIA DE MATÉRIAS PUBLICADAS EM O POVO SOBRE YURI FIRMEZA E SUA INTERVENÇÃO:

http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/554137.html

http://www.noolhar.com/opovo/opiniao/554634.html

http://www.noolhar.com/opovo/fortaleza/554712.html

http://www.noolhar.com/opovo/opiniao/555016.html

http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/554975.html

http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/554969.html

http://www.noolhar.com/colunas/kelmericas/557906.html

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O mistério do artista japonês

Por Braulio Tavares

Deu no aGlobob no último dia 23/01, mas eu já sabia, porque sou leitor da coluna

de

Ricardo Kelmer (www.ricardokelmer.net). O Museu de Arte Contemporânea

de

Fortaleza anunciou no Centro Cultural Dragão do Mar uma exibição de obras

do

artista japonês Souzousareta Geijutsuka, com fotos, instalações, e a proposta de

discutir aa harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas

conseqüentes contradiçõesb. O MAC forneceu à imprensa o email do artista, que

concedeu uma entrevista de página inteira a um jornal local. Dias depois, bomba!

O artista não existia, era uma brincadeira (ou, mais contemporaneamente, um

artifício mimético expondo a fratura metalinguística do capitalismo virtual em que a própria noção de Arte se desmancha no ar) do artista cearense Yuri Firmeza, que

não se perca pelo nome.

O Museu coçou a cabeça mas, precavido, admitiu que, sendo a Arte de hoje o que

é, aquela era uma proposta saudável e instigante. Quem não gostou foi a imprensa, que engoliu a isca com anzol, caniço e tudo, mas se engasgou com o pescador. Saíram protestos nos jornais, o artista foi chamado de amolequeb, etc. (Cobertura completa em: www.dragaodomar.org.br/macce/galerias/2006_01/invasor/ index_invasor.htm.)

Olha, qualquer jornalista corre o risco de cair numa dessas. Eu mesmo já caí. Anos atrás, li no aLetras & Artesb daqui do Rio uma entrevista com um fotógrafo alemão chamado Gedencher, que afirmava deixar placas fotográficas expostas ao relento para captar relâmpagos em noites de tempestade. Achei fascinante a idéia, e já estava indo procurar álbuns dele na Livraria Leonardo da Vinci quando recebi um telefonema do autor da entrevista, o escritor cearense Carlos Emílio Corrêa Lima, o qual me segredou que Gedencher não existia, e aquilo tudo era uma pegadinha urdida por ele (o termo que usou foi ametaficçãob).

Parece que é coisa de cearense, mas não é. O erudito e respeitável Adolfo Bioy Casares, depois de ler uma resenha de seu amigo Jorge Luís Borges sobre um livro indiano publicado em Londres ( aA Aproximação a Almotásimb), encomendou um exemplar à editora, e só depois Borges confessou tratar-se de metaficção.

A esta altura, já estou me perguntando se o próprio Yuri Firmeza não será um

heterônimo de Carlos Emílio. Depois que Marcel Duchamp impingiu um mictório

como obra de arte e Borges inventou a falsa resenha, houve uma brusca redução de espaço entre Real e Simulacro, entre Ficção e Não-Ficção, e assim por diante. No caso das artes plásticas, no século 20 houve um enorme esforço coletivo para reduzi-

las a agestos conceituaisb, esvaziando-as de tudo que lembre artesanato, trabalho

manual, técnica, execução. Ser artista é tentar inventar uma ruptura nova, o que, aliás, só funciona onde essa ruptura nunca tinha sido tentada, ou o fora sem deixar

cicatrizes. Parece que em Fortaleza a marca vai ficar.

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no !Jornal da Paraíba6 (http://jornaldaparaiba.globo.com). 23/2/2006 02:25:00

A profecia DADÁ

Wellington Júnior Especial para o Caderno 3

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Incompreensível: é assim que boa parte da crítica de arte - ainda - vê o Dadaísmo. O balbucio dadaísta ainda pode ser ouvido, 90 anos depois, no mundo das artes e da cultura. Fazer ouvir alguns desses ecos é a proposta do artigo do semiólogo e professor de Comunicação Social da UFC, Wellington Júnior

aBerr

bum, bumbumbum/ Prä, prä, prä

SIGNIFICA NADAb. aDádá não existe para ninguémb. Dada está morto. E isto é só

Dum,

aDADÁ NÃO

bum.

bumbum, bum

/

Ssi

bum,

papapa, bum, bumm/ Zazzau

/

Haho!

b

râ, äh-äh, aa

o começo. aohi, hoho, bang, bangb.

aVarrer, Limparb. Todo bom senso, aodeio o bom-sensob; toda disciplina, toda

moral; a religião, a família, a república

pintura; a arte (aporque a arte não é sériab e aa beleza está mortab). Nojo dadá:

à amemóriab, à arqueologia, aos profetas, ao futuro, aos aanimais com roupas humanasb: ano fundo tudo é merdab.

lógica, psicanálise, crítica, literatura,

;

Meia década (1916-1921). Diz a cronologia oficial estribada nas datas de publicação dos manifestos que definiram o movimento e na desagregacão do grupo formado pelos seus principais representantes: Baader, Breton, Tzara, Aragon,

Soupault, Duchamp, Man Ray

particular que motivou o surgimento do movimento e, de modo mais incisivo, os experimentalismos, já testados em escolas anteriores como o expressiomismo, o futurismo e o cubismo e levados ao limite extremo da desconstrução (automatismos psíquicos, glossolalias, destruição da linguagem, ausência de coerência e unidade, desordem, improvisação e dúvida, inversões de gênero), resultaram numa postura de desprezo pela participação do público que, na época, já não digeria muito bem as inovações vanguardistas, como aponta Gilberto Mendonça Teles.

Mas há também a mudança no cenário político

Morrer não é problema dadá. A morte, sim. Dadá morre e ri-se disso. Diz Huelsenbeck. Quando Baader publica em jornal o anúncio da morte do aSupradadab, o aPresidente do Globo Terrestreb - de passagem: sua própria morte! - , ao mesmo tempo que sintetiza o espírito dadaísta (na morte, o esvaziamento total do significante) prenuncia o fim precoce do movimento.

Primeiro, ao grande espetáculo do desastre, do incêndio, da decomposiçãob. Liberdade. Dos convencionalismos estabelecidos pelo gosto burguês desde o Renascimento; dos sistemas. aEu sou contra os sistemas, o mais aceitável dos sistemas é aquele que tem por princípio não ter princípio algumb. Só então se pode ver a faceta transformadora do movimento na arte ocidental.

Não falo apenas das influências mais diretas como o surrealismo e, no caso do Brasil, o Modernismo em sua faze antropofágica. As questões cruciais gestadas pelo movimento foram, e ainda são, apropriadas por artistas das mais variadas tendências. A ácida crítica ao poder político estabelecido, à ideologia burguesa;

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o

recurso aos procedimentos próprios e aos produtos dos meios de comunicação

de

massa e da indústria cultural; a busca de uma aoralidade tipográficab, ou seja,

da

recuperação da dimensão verbivocovisual da poesia e, colateralmente, das

possibilidades expressivas do corpo na arte; a exploração do infanto-primitivismo;

o uso dos recursos de deslocamento e estranhamento, também ponto de interesse da semiótica russa; terrorismo cultural.

Passado quase um século, as vanguardas tornaram-se históricas, dadá também, mais para localizá-las no tempo, talvez um tempo de origem, exemplar, mítico, ou para diferenciá-las do que só o distanciamento cronológico pode separar.

Jonh Cage, Pierre Boulez, Pierre Schaeffer, entre outros, revolucionaram a música com a distensão do tempo (Cage propõe uma sinfonia de 639 anos), a renúncia

à tonalidade, ritmo e harmonia e a utilização de ruídos pilhados do cotidiano

(máquinas industriais, automóveis, panelas, sons da natureza) e do silêncio. A mesma matéria serviu para as experimentações da poesia sonora de Minarelli, Fontana e muitos outros. A poesia visual abusará da colagem, da variedade de tipos gráficos, da linguagem da publicidade e dos mass media como um todo. O Concretismo e o Neoconcretismo ocupam-se das possibilidades do significante,

para além de sua dimensão referencial. aO artista novo protesta: ele não pinta mais (reprodução simbólica e ilusionista), mas cria diretamente na pedra, na madeira,

no ferro, no estanho, nas rochas)b. Não será impróprio também pensar na atitude

desconstrutora que norteou, no Brasil, com a tropicália, o trabalho de artistas

como Lígia Clark, Hélio Oiticica e músicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Torquato Neto e Tom Zé. Na dança Cunnimgham, no teatro Ionesco e Artaud.

No campo da crítica às estruturas política, econômica, religiosa, ética, moral e estética, com o novo estado de coisas que começa a se configurar desde o final dos anos 80, há o recrudescimento de ações mais incisivas, de terrorismo cultural mesmo, que chega às telas de cinema (vide aEdukatorsb, de Hans Weingartner). Chris Ofili fez uma madona com excrementos de elefante; Mutandas afixa placas comemorativas às ações urbanísticas desastrosas e corruptas realizadas pelo poder público; o coletivo 3 de fevereiro leiloa celebridades em praça pública; Júlio Silveira solta um porco na abertura do Salão de Abril; Yuri firmeza inventa Sousouzareta e dribla a imprensa local

Se em outras modalidades da arte não é possível negligenciar as influências

dadaístas, no campo da performance elas são evidentes por demais. Das performances glossolálicas de Hugo Ball no Cabaré Voltaire, passando pelas ações do grupo Fluxos, Joseph Beuys, até o trabalho de Nam June Paik, Laurie

Anderson, Marina Abramovic, Teresa Mantero. Para citar alguns. Aqui, para além

dos pontos de toque do movimento (deslocamento, estranhamento, desconstrução,

está em pauta a presença do corpo e suas possibilidades

instabilidade, caos

expressivas, subversivas; o corpo tomado como matéria prima e não mais lugar de mera decodificação da mensagem estética, mas como avatar dela.

),

A extrema radicalidade do movimento, seu repudio a todo e qualquer

convencionalismo, o desprezo à participação do público impediram que boa parte

dos estudiosos e críticos da arte avaliasse corretamente a importância do dadaísmo

e seus desdobramentos no contexto da arte ocidental. Apesar das acusações de

inconseqüência e inconsistência não é possível pensar a arte atual destituída dos procedimentos dadaístas. A crítica ainda não aprendeu isso. Desconcerta-se,

incomoda-se, estranha. Arte afracab, aressentidab, arecalcadab; amolecagemb: dizem

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os jornais daqui. Mas não chegam ao cerne da questão, porque desconhecem e

preferem a ignorância. Dadá não se importa. aA crítica é portanto inútil, não existe senão subjetivamente, para cada um, e sem o menor caráter de generalidadeb. Dada não que ser entendido. aA arte é uma coisa privada, o artista a faz para si; uma obra compreensível é produto de jornalistab.

O que não se entende é que Dada significou a liberdade e isso revolucionou a

produção artística de nosso tempo. A destruição dos cânones renascentistas foi o

ponto de partida necessário para a emersão de aobras fortes, diretas precisas e para sempre incompreendidasb. Dada institui o nada como condição sine qua non para

o surgimento do novo; confronta o observador como aquilo que é a verdadeira

função da arte: não ter função. O fato estético é autônomo, diz Jakobson.

aDADÁ, DADÁ, DADÁ, uivos das dores crispadas, entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições, dos grotescos, das inconseqüências: A VIDA.b

Artigo publicado originalmento no jornal Diário do Nordeste em 12.02.2006

Em Off

Página dedicada aos profissionais de imprensa. IMPRENSA CEARENSE

http://www.geocities.com/emoffbr/arquivojan2006.htm

ARDIL p A semana passada foi marcada por um dos mais incríveis casos de engabelação jornalística dos últimos tempos, envolvendo os dois jornais impressos locais, o Instituto Dragão do Mar, o Museu de Arte Contemporânea, o artista plástico cearense Yuri Firmeza e o aartista plástico japonês Souzousareta Geijutsukab. Yuri resolveu, para chamar a atenção com o que considerou falta de atenção da mídia para com os artistas locais, criar um personagem, o tal Souzousareta Geijutsuka. Uma exposição, também fictícia, do tal artista plástico nipônico, sob o título Geijitsu Kakuu, também foi criada.

ARDIL p Até mesmo a chegada a Fortaleza foi anunciada, para o dia 10/01, às

22:00h. Uma falsa assessoria de imprensa enviou release para as redações dos jornais O Povo e Diário do Nordeste e até mesmo uma entrevista, feita por correio eletrônico com aSouzousareta Geijutsukab foi publicada. Tudo com o conhecimento

do Instituto Dragão do Mar e do Museu de Arte Contemporânea. No dia seguinte

a estratégia de Yuri seria motivo de novas publicações dos jornais p na verdade

apenas O Povo o fez p, desta vez para condenar a atitude do artista local e dos dois órgãos estatais.

ARDIL p Na edição do dia 10/01, o jornal O Povo publicou, na capa do caderno Vida & Arte, uma matéria, com o título aDesconstruindo a arteb, onde o texto falava de uma exposição onde flores e vegetais carbonizados representavam o equilíbrio entre a vida e a morte. Também afirmava que Souzousareta Geijutsuka

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não se intimidava com o estranho. O texto dizia que o artista plástico nipônico transformava em arte o que nem de longe parecia isso.

ARDIL p aA exposição de Souzousareta busca a harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições. O artista conquistou fama mundo afora, exatamente por elencar assuntos tão distintos, como: arte, ciência e tecnologia em suas exposições. Souzousareta desenvolve pesquisas na Eletrônica e Telecomunicações, isso aliado aos conceitos de tempo real, simultaneidade, supressão de espaço e imaterialidade. O uso de objetos e tecnologias tão ousadas são influências da ÖdesmaterializaçãoÜ dos anos 60/70b, trazia a matéria.

ARDIL p O Diário do Nordeste, no mesmo dia, também publicou matéria sobre a aexposiçãob, assinada por Dalwton Moura, no Caderno 3. aEsta é a quarta vez em que Souzousareta, considerado um dos nomes mais importantes quanto à interface entre arte contemporânea, ciência e novas tecnologias, participa de eventos no Brasil. O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição aGeijitsu Kakuub, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vidab. O autor do texto afirmava que por quatro vezes Souzousareta Geijutsuka havia estado no Brasil. Mas onde mesmo?

ARDIL p Dalton Moura também afirmou que o artista plástico japonês já havia exposto seus trabalhos em Tóquio, Nova York, Berlim e São Paulo. Também revelava que ao pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influênciasb. A primeira pergunta da entrevista feita por e-mail foi a seguinte: aCaderno 3 ç Esta é a quarta vez que trabalhos seus são expostos em eventos no Brasil. Que importância esse contato com o País tem para o seu trabalho?b.

ARDIL p Numa de suas respostas, aSouzousareta Geijutsukab dá uma pista de sua verdadeira mensagem, quando indagado a aresposta que vem obtendo do público

e das instituições de arte brasileirasb: aMuito pequena, como deve ser o caso da

maioria dos artistas contemporâneos, pelo menos aqueles que ainda resistem a uma total subordinação dos procedimentos e problemas estéticos aos imperativos de consumo. Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar

linhas abertas de financiamento e incentivo. Acontece o mesmo com o público, sobretudo com a arte eletrônica. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E

é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil.b

ARDIL p E continuou dando dicas, ao ser questionado se ahá ainda uma forte resistência do público a esse tipo de arte, em formas não-convencionais, ou já é mais fácil aproximar a arte eletrônica do público em geralb, ao que respondeu: ao público sempre resiste ao que não é convencional. Por isso a arte necessita tanto do marketing nos dias de hojeb. Fez uma provocação ao responder a pergunta aVocê já declarou que os ahistoriadores de arteb ainda vêem com reservas a arte tecnológica. Há possibilidades de se reverter esse quadro? Em que prazo?b: anormalmente os historiadores da arte, assim como os historiadores da filosofia, são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendemb.

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ARDIL p Arrematou com um vaticínio, quando instado a fazer uma síntese do conceito e o objetivo da exposição Geijitsu Kakuu: aessa exposição tem várias

facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado

a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo aPor que gostamos de arte?b. É preciso ver a exposiçãob.

ARDIL p No dia seguinte à revelação do artista afakeb, o jornal O Povo publicou reações. A primeira, um artigo assinado por Felipe Araújo, arepórter especialb do

periódico, sob o título aArte e molecagemb. Nele, o jornalista ataca p ou rebate, se assim desejarem classificar p a atitude do artista plástico atrueb Yuri Firmeza. aA recente molecagem do artista plástico Yuri Firmeza, que inventou o pseudônimo

de Souzousareta Geijutsuka e divulgou para a imprensa local seu (

currículo de exposições no exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortaleza. Com algumas caras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial. Nelson Rodrigues é que estava certo: os idiotas perderam a modéstiab.

brilhante

)

ARDIL p Teria sido Yuri moleque p e molecagem é uma forte característica do povo cearense, a não ser que o jornalista tenha utilizado o adjetivo fora do nosso contexto acearensesb p ou os que embarcaram em seu devaneio artístico/personal irresponsáveis, incompetentes, preguiçosos e outros adjetivos? Afinal, que relação de confiança cega é esse do jornalista/fonte que chega a causar a dispensa da confirmação das informações que recebe? Ademais, se é para usar este parâmetro para classificar o autor da, digamos, molecagem, muitos jornalistas também acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que gritar, tentar extorquir por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial, um lugarzinho no guarda-chuva do barnabé comissionado de aungimento canetalb.

ARDIL p Continuou o jornalista: anão há nenhuma novidade na invenção de pseudônimos como forma de afirmar determinados discursos artísticos. Yuri, aliás, tem todo o direito do mundo de fazer a brincadeira ou a provocação que quiser. Como ÖÜartista contemporâneoÜÜ, sua provável falta de domínio sobre certos procedimentos criativos e o discurso esquálido naturalmente ampliam seu horizonte de atuação estética às raias da falsidade ideológicab. Ora, se a discussão iria enveredar por esse meandro jurídico, com a citação do ilícito de falsidade ideológica, tipificado no Artigo 299 do Código Penal, por qual motivo Felipe também não aproveitou para debater sobre a contravenção penal contra a organização do trabalho exercício ilegal de profissão, tão presente nas mesmas páginas onde escreveu, através de falsos jornalistas que assinam, aos montes, colunas no periódico que o abriga? Para citar alguns: Karine Alexandrino, Pompeu Vasconcelos, Fernando Costa, etc., etc., etc. Que pesos e que medidas distintas são essas?

ARDIL p Felipe terceiriza a responsabilidade pelo erro: ao que estranha é o fato de

a presidência do Dragão do Mar - principal centro cultural da Cidade - e a direção do Museu de Arte Contemporânea chancelarem uma irresponsabilidade desse tamanhob. Afinal, quem foi irresponsável, cara pálida? O Dragão do Mar e o MAC, que achancelaram uma irresponsabilidade desse tamanhob ou o (ir)responsável(is)

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pela publicação da matéria sobre a tal aexposiçãob, que não se cercou dos cuidados necessários e que todo jornalista responsável lançaria mão? Afinal, vivemos numa realidade onde a Internet funciona como um apêndice praticamente indispensável nas redações. Bastaria que o pai da criança buscasse informação sobre aSouzousareta Geijutsukab nos sítios de busca que veria a inexistência. Nessa, com certeza, Yuri foi genial. Apostou que os jornalistas não iriam se dar ao acansativob trabalho de confirmar informações, o que colocaria por terra sua engenharia artística.

ARDIL p O jornalista seguiu transferindo responsabilidades: aa título de ÖdenúnciaÜ sobre uma suposta negligência da imprensa com a produção local, Yuri tentou

arranhar a credibilidade e a boa reputação de alguns profissionaisb. Suposta? Está tudo muito cristalino. Quanto à acredibilidade e a boa reputação de alguns profissionaisb, como não citou quais seriam, vale lembrar que escrever sobre o que não sabem é uma prática muito mais comum do que ele ou qualquer outro desavisado pensa. Constantemente a imprensa local se refere a um aSupremo Tribunal de Justiçab, além

de já ter jornalista que escreveu ser Buñuel natural da Andaluzia, apenas baseado no

fato dele ter em sua filmografia a película aUm cão andaluzb.

ARDIL p Teve mais: aé fato que, demagogicamente, vai arregimentar a simpatia de uma classe artística boçal que (feitas as devidas exceções) projeta na imprensa

a frustração de seu próprio fastio criativo. E é fato também que muitos idiotas vão entender esse gesto como um alerta oportuno sobre a cobertura jornalística da cultura em nosso Estado. A imprensa tem seus problemas e deve permanentemente questionar e ser questionada sobre sua responsabilidade com as artes e a cultura.

Mas o que se viu nesse episódio foi apenas a face mais evidente da mediocridadeb. E

a imprensa, projeta seu afastio criativob em quem? Álbuns imbecis também teriam

que entender o episódio como uma lição, não um alerta. A imprensa não tem problemas, os jornalistas sim. Até mesmo para a categoria a culpa foi empurrada.

Toma que o filho é teu! O que se viu foi, também, a face clara da mediocridade,

da irresponsabilidade, da preguiça, da incompetência. Ninguém está livre de tudo

isso, mas quando se é abatido por elas, o mais digno a fazer é reconhecer a queda.

ARDIL p Continuou o périplo de se eximir: ao pecado dos jornalistas envolvidos no

episódio talvez tenha sido o de acreditar na boa fé e no respeito que sempre pautou

a relação entre as redações e o Dragão do Mar. E acreditar na reputação do Dragão como um centro que, através do MAC, quer promover exposições e discussões procedentes sobre a arte contemporânea. Não somente a credibilidade do Centro junto à imprensa, mas a própria credibilidade do Dragão junto à opinião pública

estão gravemente arranhadas a partir de agora. Afinal, quem iria a uma exposição de Souzousareta sabendo que se trata de uma exposição de Yuri Firmeza?b. O pecado dos jornalistas envolvidos foi, mais uma vez, a irresponsabilidade, a preguiça, a incompetência, somadas à arrogância, prepotência, soberba, medo de assumir o erro.

A credibilidade do Dragão do Mar com a imprensa e a sociedade saiu gravemente

arranhada? E a credibilidade do jornal, dos jornalistas envolvidos, não?

ARDIL p Semana passada o Em Off publicou mensagem enviada por internauta de André Carvalho, de Sobral, onde expôs a mesma atitude quanto a dois furos tomados pelo O Povo: um relativo à transferência de um comparsa do traficante Fernandinho Beira Mar para o IPPS, outro sobre uma foto do acidente no qual caiu um helicóptero do CIOPAER. O internauta mostrou, com riqueza de detalhes, a forma como o jornal transferiu a culpa dos furos à comunicação social do governo do Estado. Não reconheceu a própria incompetência, tampouco, naquele episódio,

a

asorteb que assolou o concorrente. Culpar apenas uma ponta do problema também

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não é raro: há alguns anos, numa matéria sobre emissoras de rádio do interior do Estado que pertenceriam a políticos, publicada sem qualquer documento que comprovasse as informações, apenas o repórter autor da matéria foi demitido. Editor de política p na época ainda existia isso nÜO Povo p, editor geral, gato, cachorro e papagaio ficaram de fora. O erro foi coletivo, pois no jornalismo não há erro de apenas um autor, mas a culpa e a punição foram centralizadas.

ARDIL p Em matéria publicada no mesmo dia que o artigo do jornalista, o jornal

O Povo aborda o fato, com o título aPegadinha contemporânea de artista cearenseb.

No dia seguinte, 12/01, o jornal mais uma vez reportou-se ao fato, com uma extensa

matéria publicada no caderno Vida & Arte. Nela, a professora Adísia Sá, procurada para falar sobre o fato, é citada: asegundo a jornalista Adísia Sá, houve erro tanto por parte do Centro Dragão do Mar, que perpetuou a brincadeira, quanto dos próprios jornalistas, que acreditaram na fonte sem apurar sua veracidade. ÖO Dragão compactuou com a farsa, para fazer charme. Quem se desgasta é a fonte. Vai demorar muito para o Dragão restaurar sua credibilidade. Por outro lado, não

há fonte absolutamente veraz. A informação deve ser buscada e investigada pelos

jornalistasÜ, explica Adísiab.

ARDIL p Aliás, a própria Adísia já foi vítima de um caso, no mínimo, parecido:

quando dirigia a rádio AM do Povo, foi surpreendida com a informação de que um dos seqüestradores da empresária Paula Frota, uma das herdeiras do Grupo Edson Queiroz, que já havia sido libertada, mas o grupo que a seqüestrara era

acaçadob pela Polícia, havia sido preso. A informação foi dada pelo então repórter Afrânio Marques, na abertura de um programa, no início da tarde. Imediatamente um batalhão de jornalistas de todas as empresas de comunicação passou a buscar

a informação na emissora e fora dela, mas o repórter, circulando com o carro de

reportagem p de onde deu a informação p não respondia aos chamados da redação pelo rádio. Algum tempo depois, quando respondeu ao contato, indagado onde estaria preso o tal seqüestrador, o jornalista disse que se tratava apenas de uma pegadinha: era primeiro de abril, dia da mentira.

ARDIL p O erro, como bem frisou a professora Adísia, foi do Dragão do Mar e

dos jornalistas. Caso ao primeiro não tenha ocorrido a responsabilidade devida no trato das informações que divulga, ao segundo segmento isso é imperativo. Não

há desculpas para, hodiernamente, alegar confiança na fonte ou dificuldade para a

confirmação de notícias que recebe, por parte da Imprensa, como justificativa para um erro. O próprio editorial do jornal O Povo, edição do dia 12/01, aProvocação Infelizb, também terceirizou a culpa por ter embarcado na fábula, repassando a responsabilidade ao Dragão do Mar e ao Museu de Arte Contemporânea, mas ao final, afirmou: aÉ preciso reconhecer que a imprensa cearense também não sai ilesa do caso do japonês fictício. Em plena era da Internet, com sites de busca tão precisos, não custava nada uma checagem em torno do nome divulgado. Apenas a credibilidade no Dragão do Mar não era suficiente. Que sirva de liçãob.

ARDIL p O jornal O Povo, mesmo com o posicionamento individual/institucional

de transferir a responsabilidade pelo episódio, pelo menos expôs o caso e o debateu.

De uma maneira distorcida, mas pelo menos não fingiu que o fato não aconteceu. Esse posicionamento, entretanto, ocorreu com o Diário do Nordeste, para quem retificar um erro significa errar duas vezes. Com sua postura hermética e superada, preferiu não mais tocar no assunto depois da revelação da traquinagem. Logo ele,

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que conseguiu aentrevistarb o artista japonês

ARDIL p O fato ocorre num período emblemático: de um lado o Diário do Nordeste com uma agressiva campanha de mídia, apresentando-se como o jornal

de maior circulação no Nordeste e, segundo sua própria avaliação, tornando-

o ao melhorb; do outro o jornal O Povo, igualmente com uma forte campanha

publicitária, apresentando-se como o jornal que mais ganhou prêmios, rebatendo

a intenção do concorrente. O mais vendido cometeu um erro infantil. O mais

premiado idem. Ambos são os melhores? Ambos pagaram o preço, também, de repassar informações oficiais, sem que a veracidade seja confirmada. Do jeito que a coisa vai, se consolidarão ainda mais como flanelógrafos de releases chapa branca.

Quando a arte e o jornalismo caem no aconto do vigáriob

http://www.fotolog.com/faketown

O artista-plástico japonês Souzousareta Geijutsuka seria recebido como uma

celebridade internacional no início do mês em Fortaleza. Capa e matérias nos jornais de cultura do Ceará denunciavam a expectativa local. Pena que ele não compareceu. Personagem fictício de um artista local, o que se viu foi um belo golpe na imprensa e uma reflexão sobre a arte.

Vamos explicar a confusão. Convidado para participar de uma exposição no Museu

de Arte Contemporânea do Ceará, com sede em Fortaleza, o artista-plástico Yuri

Firmeza (esse é real) teve uma idéia que incomodou muitos na região.

Com um esquema bem planejado, inventou a existência de um renomado artista-

plástico japonês, cujo nome seria Souzousareta Geijutsuka, e vendeu a história para imprensa cearense. Os principais jornais locais, como O Povo e o Diário

do Nordeste, sem saber que se tratava de uma farsa, acreditaram na conversa,

principalmente por ela ter sido validada pela curadoria do MAC-CE.

A foto do gato de rua divulgada pelos jornais como sendo um vídeo-arte

Para dar mais veracidade ao fato, Yuri convenceu especialistas a escrever sobre os inigualáveis dons artísticos de Souzousareta. Sem sequer fazer pesquisas sobre a

vida e obra do tal japonês, a imprensa local embarcou nos mirabolantes releases de divulgação criados pela equipe de Yuri Firmeza e deu destaque à exposição inédita

no Brasil.

Em matéria publicada no dia 10 de janeiro sobre a vinda da exposição do japonês,

afirmou que aesta é a quarta vez em que Souzousareta, considerado um dos nomes mais importantes quanto à interface entre arte contemporânea, ciência e novas

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tecnologias, participa de eventos no Brasilb. De acordo com o jornalista, Souzousareta

já teria exposto em Berlim, Tóquio, Nova Iorque e São Paulo.

Além disso, o Diário do Nordeste publicou uma entrevista realizada com Souzousareta. Nas respostas enviadas ao jornalista por e-mail, o fictício artista diz:

aNão só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivob. Continuou: aessa exposição tem várias facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado

a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de

evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo ´Por que gostamos de arte?Ü É preciso ver a exposiçãob Para ilustrar a matéria, fotos que a namorada de Yuri Firmeza fez de um gato de rua, que seria uma cena de um suposto vídeo-arte de Souzousareta.

Segundo o jornal Estado de São Paulo, em matéria publicada na última terça- feira (17), Yuri Firmeza deixou algumas pistas de que tudo era uma armação. Souzousareta Geijutsuka significa aartista inventadob. E o nome da exposição Geijitsu Kakuu, pode ser traduzido como aarte e ficçãob.

A afarsab foi revelada na abertura da exposição, reunindo intelectuais, estudantes,

professores, artistas-plásticos e membros da sociedade do Ceará. A anunciada presença

de Souzousareta não foi concretizada. No lugar da obras do japonês, impressos de e-mails trocados entre Yuri Firmeza e um amigo sobre a idéia de criar um artista imaginário e como isso poderia ser recebido pelo público e pela imprensa.

O principal questionamento de Yuri é a respeito dos processos que validam a arte

aO que me interessa é interrogar sobre a qualidade do que compõe todo esse sistema de legitimação estética: críticos, jornais, artistas, curadores, galerias, museus e o próprio públicob, escreveu Firmeza em uma dos e-mails.

Assim eh se lhe parece

Isabel Löfgren http://www.bookofhours.blogspot.com/

Para mim, artistas existem de 3 maneiras:

1) São uns chatos reacionários, tradicionalistas, que se crêem poetas, mas acabam fazendo pinturas enfadonhas que merecem mofar acima de sofás de casas de madame, ou preferivelmente manter a arte como hobby;

2) São metidos a moderninhos, o que encobre a sua falta de originalidade, e seguem fazendo cópias ruins do que já existe com sucesso morno, condição da maioria dos artistas, infelizmente;

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3) São bem-humorados e irreverentes, muito inteligentes, imprevisíveis e querem mesmo é dar uma banana para o sistema de arte, ato em que desbancam e ofuscam

os dois tipos citados acima e todo o sistema que os favorece, inclusive imprensa, galerias, etc. - o que chamam de asistema de arteb.

++++++

Hoje, para minha grande surpresa, finalmente o Segundo Caderno do jornal O Globo publicou, depois de meses, uma matéria interessante que fugia ao lugar- comum a que a editoria cultural do jornal em geral se submete de publicar press release de músico ou ator da globo. Não, pelo contrário, saiu a matéria sobre uma exposição lá de Fortaleza, cidade de país longínquo onde os cariocas mal sabem que existe vida cultural.

aUm célebre e renomado artista japonês, Souzousareta Geijutsuka, viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 deste mês, sua exposição aGeijitsu kakuub, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Fortaleza.b

Achei estranho. Um artista japonês em Fortaleza? célebre e renomado? Olha que

eu leio ArtForum e nunca ouvi falar. Mas os nomes japoneses são impossíveis de

memorizar então deve ter passado reto

no Japão? Nome esquito esse, grafia esquisita

Souza

bSOUZOUsaretab

e pensei

tem

achei esquisitão.

Mas, ao ler o artigo, comecei a rir muito. É que o artista em questão é completamente fake, inventado, imaginado por outro artista de nome esquisito, porém menos duvidoso, chamado Yuri Firmeza, de 23 anos, de Fortaleza.

Este artista, que eu já conhecia por ele ter participado no ciclo de exposições aNano-exposiçãob que organizo junto ao meu coletivo de arte Grupo DOC no Rio, realmente me surpreendeu pela precisão e pela atenção aos detalhes em torno da exposição do japonês . O cara inventou tudo de cabo a rabo: o nome do artista, o currículo, pegou as imagens de divulgação do artista de qualquer site da Internet, fez parceria com a namorada jornalista para lançar um release na imprensa, e convidou uma jovem curadora para escrever um texto crítico para a obra imperdível e incrível do renomado, porém recluso, (não)-artista japonês.

Yuri foi esperto. Manteve o bico calado antes da abertura da exposição no dia 10 de janeiro de 2006, igualmente fictícia, e deixou que tudo se desenrolasse normalmente, permitindo que as pessoas chegassem às suas próprias conclusões quando vissem a exposição. Mas não havia o que olhar. Antes disso, no entanto, a informação já havia ocupado toda a imprensa cultural local e foi ali reproduzida na manhã deste mesmo dia de vernissage.

O artigo de Dawlton Moura (nome igualmente estranho) aSOUZOUSARETA:

Arte, natureza e tecnologiab A questão é que Souzousareta só existe a partir da informação publicada. É uma invenção. Uma fábula.(Portanto, arte.) Não se

materializa em torno de uma alma pensante, mas existe como discurso. É real enquanto informação.

Mesmo diante da possibilidade da infinitude da interpretação de uma obra de arte que se propõe aabertab e que trafega no espaço singular do imprevisível e das descobertas, o jornalismo é convidado a participar, quando ele é suporte dessa arte. Pronto. O bosque está pronto para ser explorado.

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E aqui estão alguns vales e muitos atalhos. Os recursos e sistemas da produção da

notícia deixam o jornalismo vulnerável a que tipos de armadilhas ? Criamos ou fazemos

parte de um exército de crédulos seguindo discursos pré-fabricados com interesses anteriores definidos sem nenhuma reflexão? Por que nos dobramos tão facilmente ao que é estrangeiro? Por que referendemos com tantos adjetivos (bons e maus) o que não conhecemos? Será que são todas essas questões que arrastam o jornalismo para o mero entretenimento? (Pelo menos lá não há motivos para indignações).

E a verdade - motivo da revolta em torno do japonês e a forma como ele se fez criar

a partir da mídia local- se apequena diante do volume de outras acriaçõesb políticas, bélicas, científicas que o jornalismo contemporâneo tem ajudado a tornar reais. Sem dúvida, Souzousareta existe.b

++++

O artista poderia afirmar que o fato de eu estar escrevendo um post sobre o

Souzousareta faria parte do suporte da obra, que não se conclui em um espaço físico, mas permanece existente enquanto a notícia for viva. Então aqui vai: Souzousareta existe, é um artista internacional de grande nome e influência, e recomendo que todos vão apreciar seus trabalhos sobre a linha tênue entre natureza e tecnologia no Centro Dragão do Mar em Fortaleza.

Pois bem, Yuri, long live Souzousareta.

O Diálogo entre os Autômatos e a Arte Carbonizada

http://locutorio.blog.com/512556/

!Vivemos uma era em que muitas outras forças, além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte.6 (Ricardo Resende, diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea do Ceará)

Uma contundente crítica ao atual panorama das artes plásticas no Brasil foi trazida

à tona, em dez de janeiro de 2006, pelas mãos de alguém que também é parte da

própria crítica que faz. Yuri Firmeza - nome artístico do idealizador de tal protesto

- é artista plástico em Fortaleza, Ceará, e em conluio com altos funcionários do Instituto Dragão do Mar e o Museu de Arte Contemporânea daquela capital,

construiu o que se pode chamar de a maior engambelação jornalística dos últimos tempos no Brasil, na qual estrelam dois dos jornais de maior circulação daquele estado nordestino.

O artista plástico cearense, com o apoio do diretor técnico do Museu de Arte

Contemporânea (MAC) do Ceará, Ricardo Resende, decidiu criar, no intuito de denunciar o que chamou de afalta de atenção da mídia para com os artistas locaisb,

96

um personagem fictício, um famoso artista plástico japonês de nome Souzousareta

Geijutsuka - uma frase que, em japonês, significa literalmente aartista inventadob

- cuja mais recente exposição, também fictícia, intitulada aGeijitsu Kakuub, seria aberta no MAC em janeiro de 2006. No engodo bem urdido, anunciou-se até mesmo a presença do artista em Fortaleza para a abertura da exposição.

A namorada de Firmeza passou-se por assessora de imprensa e enviou elogiosos

press releases para as redações dos jornais O Povo e Diário do Nordeste e até mesmo uma entrevista que teria sido dada por correio eletrônico pelo artista nipônico. A farsa, que contou com a bênção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, bem como do MAC, deu resultados: a exposição virou tema de ampla divulgação nos jornais locais e até mesmo a entrevista foi publicada na íntegra.

O press release é, talvez, a verdadeira obra-de-arte da história: nele, diz-se que a

exposição do artista no Ceará seria sua aquarta participação em eventos no Brasilb

e Geijutsuka é apresentado como aum dos [nomes] mais importantes no panorama

das relações entre arte, ciência e tecnologiab e um artista preocupado em revelar aao

) [buscando]

público o mundo das flores e vegetais, usando objetos carbonizados(

a harmonia entre a natureza que nasce e a que morre, empregando equipamentos tecnológicos para expor suas obrasb

O escárnio continua com a descrição das supostas obras do artista fictício:

aSouzousareta também desenvolveu a fotografia Shiitake, uma técnica japonesa que

permite a captação dos fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera. Recentemente,

o

artista vem desenvolvendo um trabalho nos domínios da robótica, explorando

as

possibilidades de utilização de um autômato num diálogo com a escultura e a

instalação ambiental. Seus trabalhos já foram expostos em Tóquio, Nova York, São

Paulo e Alemanha.b Shiitake, como todos sabem, exceto os jornalistas cearenses, é

o nome de um cogumelo muito utilizado na culinária japonesa.

Mas a imprensa cearense não pareceu se contentar apenas com os press releases divulgados - publicou também fotografias de algumas obras do mestre japonês da

arte-ciência-tecnologia - um gato branco, tirada no quintal da casa de Firmeza, e uma imagem de uma praia cearense contorcida com o uso de um software comum

de edição de imagens - e repassou a seus colunistas a tarefa de gerar resenhas para a

exposição tão importante que iria acontecer na capital cearense. Na edição do dia 10

de janeiro de 2006, o jornal O Povo publicou, na capa do caderno Vida & Arte, uma

matéria, com o título aDesconstruindo a arteb, na qual afirmava que aSouzousareta Geijutsuka não se intimidava com o estranhob e que ao artista plástico nipônico transformava em arte o que nem de longe parecia issob. No mesmo dia, o aDiário

do

Nordesteb também publicou matéria sobre a aexposiçãob em seu Caderno 3.

aO

sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua

exposição ÖGeijitsu KakuuÜ, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vidab, dizia o artigo assinado por conhecido crítico de arte do jornal. No mesmo texto, o articulista afirma que ao pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887- 1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influênciasb, e reproduz trechos da entrevista fictícia que a assessora de imprensa fajuta enviara para o jornal como se o próprio Caderno 3 houvesse realizado contato com o pintor fantasma, com direito a respostas como estas:

CADERNO 3: !Qual a resposta que vem obtendo do público e das instituições de arte brasileiras quanto à sua arte?6

GEIJUTSUKA: !Muito pequena, como deve ser o caso da maioria dos artistas contemporâneos, pelo menos aqueles que ainda resistem a uma total subordinação dos procedimentos e problemas

estéticos aos imperativos de consumo. Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de nanciamento e incentivo. Acontece o mesmo com o público, sobretudo com a arte eletrônica. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil.6

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CADERNO 3: !Como o senhor sintetizaria o conceito e o objetivo da exposição Geijitsu

Kakuu?6

GEIJUTSUKA: !Essa exposição tem várias facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo uPor que gostamos de arte?m. É preciso ver a exposição6.

O que mais assombra em todo o ocorrido é que vem às claras o que o leitor mais

atento já desconfiava há tempos: não há critérios, tampouco cuidados, para o que é

publicado ou não em nossos cadernos de cultura dos vários jornais brasileiros. Não raro se vê nas páginas desses periódicos artistas que são endeusados nos mesmos termos que o falso press release usa para exaltar o inexistente mestre japonês

- e vai sobrando no imaginário popular a noção de que a arte é loucura, é algo

incompreensível, é perda de tempo. Fácil imaginar o porquê: estamos em uma rea

na qual os artistas obtem espaço para exibir sua arte, seja em galerias e museus ou

nos jornais e canais de televisão, mais por seu currículo e indicações que por seu talento puro e simples. A arte contemporânea vai-se firmando como um grande clube de amigos, no qual entra quem é indicado por um sócio. E para ser amigo de um sócio, não basta ter talento: há que seguir a cartilha e encontrar um caminho

para penetrar neste hermético mundo, seja pelas portas da formação acadêmica ou das graças de curadores e descolados marchants. Curiosamente, no dia seguinte à revelação do vergonhoso papel desempenhado pela imprensa cearense no episódio, o jornal O Povo fez publicar artigos em defesa da imprensa e contra o empulhamento do artista e dos órgãos públicos que o apoiaram na farsa. Em um dos artigos, intitulado aArte e Molecagemb, o jornal critica veementemente a atitude de Yuri Firmeza, a qual classifica como amolecagem

que inventou o pseudônimo de Souzousareta Geijutsuka

e divulgou para a imprensa local seu (

brilhante currículo de exposições no

do artista plástico (

)

)

exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortalezab. Para aO Povob, a brincadeira de Firmeza revela que a arte contemporânea cearense é auma arte pobre, recalcada

e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial.b

Yuri Firmeza tem uma obra artística bastante questionável - em uma de suas performances, intitulada Ação 4 e disponível em vídeo em sua página na Internet, o artista cearense tira a roupa em meio a uma galeria de arte e sai caminhando, como

se

estivesse admirando as demais obras expostas no lugar, até entrar em outra sala

e

simular (?) uma relação sexual com outro homem, projetando as imagens para

o

público - e só, a velha história de usar o sexo e o nu para chocar os pequenos

burgueses conservadores que os artistas contemporâneos ainda acreditam existir

no Brasil. Por mais tola que sua arte seja, sua recente peripércia jornalística merece

98

aplausos. A atravessurab do artista levanta questões, isto sim, sobre a imprensa brasileira como um todo. Não raro vemos, aqui mesmo em Porto Alegre, diversos

jornais publicando textos praticamente idênticos sobre um novo livro a chegar no mercado ou um espetáculo que estréia, muitas vezes repetindo até o título - sinal de que basta ter um bom apress releaseb nas mãos certas, hoje em dia, para que qualquer trabalho artístico receba um status de obra-prima.

E pensar que nem o Google eles tiveram curiosidade de usar como fonte de pesquisa

Nem um autômato,

para escrever sobre a bela arte de Souzousareta Geijutsuka carbonizado ou não, resistiria a tal tentação.

O artista invasor

Publicada no site do Observatório da Imprensa.

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs/blogs.asp?ID={F372EAE3-

01E3-403E-83C6-CF620A35607D}&id_blog=4

Jornais de São Paulo e do Rio acharam uma delícia o episódio da falsa exposição de um inexistente artista japonês no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, de Fortaleza, promovida há duas semanas por Yuri Firmeza. Ele é um artista de 23 anos e teve a cumplicidade do curador do museu, Ricardo Resende. Yuri desmascarou métodos de uma mídia que terceirizou parte de sua apuração para assessorias de imprensa. E vive pendurada em governos. O artista estava tratando de complexas questões sobre a arte propostas pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu.

YURI: E uma das questões é o papel da imprensa e da mídia dentro desse circuito das

Vários artistas, e instituições

de arte acabam perdendo a autonomia do trabalho justamente por estarem subordinados a outras questões que não são meramente estéticas. Outra questões que regem o jogo da arte. E uma dessas questões é justamente essa visibilidade na mídia. E para isso tanto artistas como instituições não podem, ou não devem, segundo eles, arranhar, ou colocar o dedo na ferida da mídia, porque essa tem o poder de manipular informações.

artes. A imprensa, que tem esse poder de sedução

MAURO: Ricardo Resende, curador do Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar, explica sua posição.

RICARDO: Ele teve toda a liberdade para criar esse Artista Invasor, que veio questionar como hoje é construída a informação, a matéria jornalística, além de

questionar também os próprios limites do museu, do que nós entendemos por arte.

É uma discussão muito boa, rica, porque a gente conseguiu um espaço que jamais conseguiríamos em condições normais.

O

Brasil tem esse histórico, infelizmente, de devoção ao estrangeiro. Nós tivemos

99

vários outros eventos no decorrer do ano de 2005 e poucas matérias foram publicadas nos jornais locais, evidenciando um certo preconceito contra o artista local, e principalmente o jovem artista.

MAURO: Os jornalistas foram obrigados a parar para pensar. É o que conta Marcos Tardin, chefe de Redação do jornal O Povo.

TARDIN: Do ponto de vista da polêmica, é ótimo. O Yuri, como personagem artístico, fez o papel dele muito bem. O que, para a gente aqui do jornal O Povo, deixou a

gente chateado, dois pontos. Um, a evidente reflexão que a gente precisa fazer sobre falhas de checagem, de apuração, que a gente tem. Aliás, não só nós. Boa parte da imprensa brasileira e até mundial sofre hoje em dia desse mesmo mal. Agora, um ponto que deixou a gente chateado, decepcionado, foi que nesse ponto específico do Yuri, ele contou, mais do que com a conivência, com a colaboração ativa mesmo de uma instituição pública forte, importante aqui para Fortaleza, que é o Dragão do Mar. A gente procurou essa instituição até para saber da exposição, para confirmar as informações, e ela confirmou tudo: Ah, o artista vem mesmo, a

exposição começa no dia tal

Deliberadamente, mentiu para os jornais daqui de

Fortaleza para dar sustentabilidade a essa grande farsa do artista plástico.

MAURO: O Povo teve algum fairplay. Publicou logo, com grande destaque, uma entrevista de Yuri Firmeza, e promoveu um debate sobre o assunto.

O caso do Ceará ilustra um fenômeno que, em maior ou menor grau, acontece

todo dia em todos os jornais brasileiros.

A marmota do ano

Ricardo Kelmer 2006

Oi, recebi teu recado. Tomara que seja muito importante mesmo, pra tu me ligar

uma hora dessa

É verdade mesmo? Quer dizer que atualmente o maior sucesso aí em Fortaleza é um artista japonês que nunca existiu? Não, vocestão de sacanagem comigo. Heim?

Os jornais fizeram matéria de capa sobre ele? O quê?! Entrevistaram o japa?! Não, assim vocês não querem que eu volte Yuri Firmeza? É um artista daí de Fortaleza? Não sei, acho que não conheço. Ah, foi ele quem inventou o artista japonês. Tá. E acertou com o Centro Cultural Dragão do Mar uma exposição no museu de arte contemporânea? Como se fosse

do japa? Putz

Comué? Ele criou um passado pro japa? Criou fotos das obras

do cara, inventou uma assessoria de imprensa, enviou informações à imprensa?

Tá, mas o que tinha

Deu entrevista por e-mail como sendo o japa? Que louco

na exposição? Cópias de mensagens de e-mail? Ah, tá, que Yuri trocou com um

filósofo, exatamente sobre a idéia da farsa. Ahahah! Sensacional! Isso sim é que é

molecagem contemporânea! Mas por que ele fez isso? Chamar a atenção sobre o quê? A questão da arte, tá. E denunciar a negligência da imprensa com os artistas locais? Hummm, olhassó

Tô no orelhão, fala rápido. O quê? Sério? Não, eu não acredito

100

Danado esse Yuri, heim? E o público, o que achou? A maioria se manifestou favorável ao artista moleque? Certo. Os leitores do jornal o quê? Ah, criticaram

o pedantismo dos jornalistas. Ok. E os jornalistas? Ahn? Apedrejaram o artista? Comassim? Quer dizer que não reconheceram o próprio erro? Ah, não. O quê?

O jornalista afirmou que tudo isso era medíocre e que o objetivo do artista foi

arranhar a credibilidade e a boa reputação dos jornalistas? Credibilidade e boa reputação. Entendi. Peraí que tá passando um caminhão limpa-fossa. Pronto, já passou. Heim? O jornalista disse que muitos idiotas vão entender a coisa como um alerta oportuno sobre a cobertura jornalística da cultura no Ceará? Vixe, e é pra entender o quê?

Ops, volta a fitaí, ele disse aidiotasb? Não, ele não disse isso, não é possível. Bem, então muito prazer, eu sou um dos idiotas. Corajoso o jornalista, né? Chamar

o artista de medíocre, vá lá, é a opinião dele, apesar de ter um cheirinho de

ressentimento. Mas chamar seus próprios leitores de idiotas? Uau! Afinal, o que

tá havendo com a minha querida imprensa alencarina? Devem ter botado alguma

coisa na bebida desse povo, não é possível.

Como é mesmo o nome do japa? Souzousareta Geijutsuka? Diabo de nome é esse? Quer dizer o quê em japonês? Artista inventado? Não, tu já tá sacaneando. Mas

peraí

existia mesmo? Não tem internet nas redações do Ceará não? Heim? Os jornalistas insinuaram que o Dragão do Mar perdeu a credibilidade? Pois pra mim, isso que o Dragão fez foi uma benfeitoria pública. É. Afinal tudo isso serviu pra mostrar que o rei tá pelado e que o pinto do rei é pequeno. Sim, todo mundo sabia. Menos o rei.

Nenhum jornalista se deu ao trabalho de pesquisar se esse seo Zé Sareta

O papo tá bom mas os créditos tão acabando, vamo ter que encerrar. Mas antes

manda um recado aí pra turma. Diz que eu voto nessa história pro acontecimento

jornalístico de 2006. Claro. A marmota do ano. De uma lapada só fez a cidade

inteira discutir arte, lógica de mercado, subserviência cultural ao que vem de fora,

Ah, é, e serviu

também pra mostrar como são idiotas os tais leitores do jornal. Eu principalmente, que leio todo dia.

o papel da imprensa e sua credibilidade, a postura dos jornalistas

Olhassó, esse Yuri devia fazer uma estátua. Dele não, do seo Zé Sareta. Isso, no Dragão do Mar. O Ceará não é a terra da molecagem? Não foi Fortaleza quem uma vez vaiou o Sol na Praça do Ferreira? Então. Uma estátua do japa lendo jornal. Pra gente nunca mais esquecer do dia em que Fortaleza aplaudiu um artista que nunca existiu.

Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo,Terra, 3a. Pedra do Sol. este texto foi originalmente publicado em: http://www.ricardokelmer.net/rktxtamarmotadoano.htm

Que sirva mesmo de lição

Ricardo Kelmer http://www.ricardokelmer.net/rktxtamarmotadoano.htm

101

Abaixo segue uma cronologia da marmota, dia após dia, através da cobertura do acontecimento pelo próprio jornal O Povo - que se falhou em algumas atitudes, ao menos fez bom jornalismo ao informar e foi democrático em dar voz aos leitores. Nisso honrou o nome de seu fundador. Você pode ler diretamente no site do jornal clicando nos links. Ou pode ler os textos transcritos aqui na página, mais abaixo. Minha intenção com isso não é debochar dos jornais ou dos jornalistas que caíram no conto do japa, até porque no lugar deles, naquele corre-corre das redações que eu conheço bem, cheio de serviço pra ontem, eu certamente também cairia. Pretendo, isso sim, chamar a atenção prum fato que é tão absurdo que parece mentira, pra que o leitor reflita sobre esse acontecimento riquíssimo de implicações artísticas, jornalísticas e sociais, e tire suas próprias conclusões.

É

interessante notar que num primeiro momento, após a descoberta da farsa,

o

jornal O Povo, em seu editorial, chama o artista de frustrado, recalcado e

rancoroso e a sua atitude de mesquinha e irresponsável . E chama de deplorável

o comportamento do Centro Dragão do Mar por ser conivente com a proposta

do artista. No único momento de mea culpa, o editorial admite que não custava

Mea culpa?

Hummm, maizomenos. Na verdade era só um trampolim estilístico pra frase final que insinua que o Dragão não tinha ou não tem mais credibilidade.

nada checar na internet informações sobre o artista japonês. Ops

Infelizmente o editorial esqueceu de comentar que um dos objetivos da pegadinha era justamente denunciar a subserviência da mídia ao que vem de fora e seu descaso

com os artistas locais . Mas, pensando bem, seria reforçar ainda mais o ridiculamente óbvio: a subserviência tá estampada, em manchete, no espaço cedido ao forasteiro

famoso

artistas não têm mais do que reclamar. Ganharam até editorial! Mas não sejamos injustos. Na última matéria O Povo resume toda a marmota, informando corretamente, deixando o resentimento de lado e atendo-se aos fatos. E no mesmo dia, no site, disponibiliza o fórum pra que seus leitores se manifestem. E eles se manifestam: a imensa maioria aplaude o artista e critica duramente as atitudes do jornal e do jornalista, como se fosse um grito de inconformismo, guardado há muito tempo, contra a postura dos meios de comunicação e o pedantismo de seus profissionais. E, dez dias após o início do caso, o portal Noolhar, que é ligado ao jornal O Povo, publica minha crônica aA marmota do anob, provando que, assim como o jornal, o site também entende o valor da multiplicidade de opiniões num veículo democrático. Ponto pro jornal e pro portal.

que jamais existiu. E quanto ao descaso, bem, se existia descaso agora os

Há uma outra questão envolvida: a coragem do artista. Imagine se algum jornalista, antes de escrever sua matéria, resolve investigar algo sobre Souzousareta. Ou imagine se os planos de Yuri vazam por descuido ou delação de alguns dos

envolvidos. A farsa fatalmente seria descoberta, o jornalista se livraria do ridículo

e ao mesmo tempo o passaria pra Yuri Firmeza. O artista seria desmascarado e,

certamente, criticado e ridicularizado pela imprensa e até por artistas. Talvez

Seu esforço teria

virasse persona non grata das redações (bem, talvez já o seja

).

102

sido em vão. O público possivelmente não o apoiaria como agora faz. É, o artista foi muito corajoso. E assumiu um risco enorme, que poucos, pouquíssimos, quase ninguém mesmo ousaria assumir. Você assumiria?

Trabalho com comunicação. Escrevo pra jornais e sites. Como profissional

da notícia, o episódio me deixou constrangido. Infelizmente estamos sujeitos

a pegadinhas como essa. Mas nesse caso apóio o artista e o Centro Dragão do

Mar. Eles foram muito úteis à sociedade e à imprensa. O que Yuri Firmeza fez, admitamos, foi genial e, mesmo constrangendo a nós que fazemos jornalismo, nos ensinou coisas muito importantes. Quem aprendeu, aprendeu.

Performance questiona deslumbramento do jornalismo cultural com artistas de fora

Sindicato de Jornalistas de Santa Catarina.

http://www.sjsc.org.br/noticias/jan_2006.htm

Buscando mostrar o deslumbramento de certa parcela da imprensa com o que vem de fora e a conseqüente falta de valorização dos artistas locais, o artista plástico cearense Yuri Firmeza criou, no início de janeiro, uma performance

que abalou o meio jornalístico do Ceará. Informou, via release, aos cadernos culturais locais, que o arenomadob artista japonês Souzousareta Geijutsuka viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 de janeiro, sua exposição aGeijitsu kakuub, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Fortaleza. Geijutsuka participaria no MAC de mais uma edição do projeto Artista Invasor. Um dia após

a publicação das matérias, veio à tona a realidade: Souzousareta Geijutsuka não

existe. Foi criado por Firmeza, para uma intervenção artística que discute os critérios para o reconhecimento da arte nos dias atuais. aA invenção do artista é o próprio trabalho. O suporte era o jornalb, afirmou Firmeza ao site Overmundo.

Para o diretor do MAC, Ricardo Resende, a divulgação prova o preconceito da imprensa com os artistas cearenses, já que nas outras edições do Artista Invasor não houve qualquer reportagem. aHá um certo deslumbramento com o que vem de fora no Brasil todo, não só no Cearab, disse ele ao jornal O Globo. Até fevereiro os visitantes do MAC poderão ver como foi a gestação do projeto, as

fotos do suposto japonês divulgadas para a imprensa, reportagens publicadas sobre

o caso e performances e registros em vídeo de Yuri.

Para os profissionais da imprensa, fica o alerta - que todo jornalista conhece desde os tempos da faculdade - a respeito da importância em verificar as informações antes de publicar. Fica também a crítica sobre o modelo de imprensa cultural baseada em press-releases. E o estímulo à especialização na área cultural. Leia o que foi publicado a respeito em veículos da imprensa

Para Conversar

103

(considerações acerca de Souzousareda Geijutsuka) por Fabiola Tasca

http://www.canalcontemporaneo.art.br/blog/archives/000673.html

Ouvi falar do trabalho de Yuri Firmeza. Inicialmente por intermédio de amigos, depois li alguma coisa na imprensa. Fui contatada pelo Jornal O Povo para escrever sobre arte contemporânea em função, justamente, dessa repercussão e, embora não tenha produzido nada naquele momento, o fato é que minhas disposições iniciais de leitura para a ainvasãob de Firmeza me conduziam à qualificá-la como atolab; apenas a conivência do Centro Dragão do Mar parecia constituir um elemento importante. Claro que tal conivência não se trata de um detalhe, e era a intenção de salientá-la que parecia conferir ao trabalho uma espessura e interesse capaz de desviá-lo da expressão aMuito barulho por nadab ou, ainda, das inúmeras sentenças (estranhamente entusiasmadas): aarte contemporânea é mesmo uma fraudeb. Pretendo aqui, então, apontar minha pretensão de leitura inicial para o trabalho e exibir como esta pretensão encontrou um certo endereçamento a partir da leitura de alguns apontamentos de Anne Cauquelin, bem como das repercussões da asituaçãob.

Convidado da Curadoria do Museu de Arte Contemporânea do Ceará, para o projeto aArtista Invasorb, Yuri Firmeza aproduziub um artista japonês de nome Souzousareda Geijutsuka (artista inventado), autor da mostra a ser inaugurada:

Geijitsu Kakuu (arte e ficção). No dia previsto para a abertura, a galeria estava ocupada pelas matérias publicadas na imprensa local e mensagens de e-mail trocadas entre o artista e o sociólogo Tiago Themudo (de cuja existência, obviamente, duvido: um sociólogo chamado aO Mudob?) A divulgação da exposição contou com a fabricação de biografia, currículo, obras, bem como uma assessoria de imprensa e, principalmente, com a parceria entre o artista e o Centro Dragão do Mar. É sobre tal parceria que gostaria de, num primeiro momento, discorrer. Acredito que essa relação pode nos auxiliar a qualificar alguns aspectos da expressão aarte contemporâneab. Refiro-me aos laços entre artista e instituição como condições de possibilidade para a própria existência do trabalho. O importante é salientar que tais laços configuram uma certa especificidade do contemporâneo, ou seja:

estamos há muito distantes da conhecida condição de exterioridade, típica do artista moderno. Condição cúmplice da idéia de arte em ruptura com o poder instituído (o artista contra o burguês, os valores da recusa, da revolta, o exilado da sociedade - apesar de algumas matérias da imprensa local insistirem em qualificar o artista de arevoltadob, o trabalho como aprotestob ou apichaçãob, tais termos soam anacrônicos se ressaltarmos o engenho da ação e a cumplicidade da instituição). Nessa perspectiva, o trabalho de Firmeza compartilha questões problemáticas com o trabalho Fortuna, da artista Carla Zaccagnini, realizado para/no Museu de Arte da Pampulha em Belo Horizonte, em 2002. Convidada pela instituição para realizar um projeto específico para aquele espaço, Zaccagnini convidou o leitor à montagem de uma espécie de puzzle para o qual dispôs como peças: registro via e-mail de conversas com a curadoria; fotografias de viagem; cotação de preços de passagens aéreas e de hospedagem; recibos e comprovantes de custos de viagem; termos que explicitavam relações de chancela e subvenção; antigos objetos de jogo utilizados pelo Cassino da Pampulha, compartilhando a asala da memóriab com

104

depoimentos gravados em áudio (vozes falando sobre ganhar e perder no cassino, bem como sons provenientes de atividades de jogo); orçamentos para confecção de cartões postais que se encontravam expostos, e nos quais havia uma justaposição de imagens do atual Museu da Pampulha (antigo cassino) e do Casino Central, em Mar

Del Plata. A partir da leitura das mensagens trocadas entre a artista e a curadoria, um leitor atento e interessado poderia conectar os elementos dispersos no espaço

do Museu e conformar uma estrutura narrativa que configurava a experiência de

uma viagem realizada pela artista para o Casino Central, na cidade de Mar Del Plata, em seu país natal. Tal leitor poderia também problematizar noções acerca de sua idéia de arte, em função dos papéis e lugares articulados pelo trabalho (artista-instituição e público). Percebemos assim, como as intenções do projeto foram se conformando pela interlocução entre estes lugares discursivos (artista e instituição), até constituir o trabalho aFortunab.

Assim como em Fortuna, em Artista Inventado a cumplicidade entre artista e

instituição é uma chave de leitura importante para o trabalho, também porque

tal cumplicidade aponta para a condição do público de exclusão dessa relação. Em

matéria de Dalwton Moura, no jornal Diário do Nordeste, no dia 11 de janeiro de 2006, Firmeza pontua: aMeu objetivo não é constranger o público, aliás, o público é uma das peças dessa engrenagemb. Ambos os trabalhos sublinham um espaço de ajogob ao qual o público pode aceder por um exercício de leitura (um exercício

de conferir sentido às ações). Mas há inúmeras diferenças entre as propostas de

Zaccagnini e Firmeza. Em Fortuna, a relação que o trabalho propõe com o leitor, convida-o a uma atitude detetivesca, recolhendo indícios e procurando conferir sentido a elementos aparentemente desconexos. A desconexão é apenas aparente, está tudo ali, exposto no Museu, bem às vistas do leitor, numa disposição cujo princípio parece emular o da famosa acarta roubadab, de Poeb. Em Artista Inventado

o que salta aos olhos é um movimento que conduz o leitor a uma espécie de

asentimento de pegadinhab (sentimento esse expresso veementemente por algumas vozes da imprensa). O trabalho é a própria revelação de sua condição de engodo. Risos e resmungos à parte, o que interessa aqui é salientar algo de sua articulação e estratégia e procurar analisar seus efeitos. O protagonista da estratégia de Firmeza

poderia ser descrito como o papel e lugar dos meios de comunicação na sociedade contemporânea (e o sistema da arte aí incluído).

Para compreender melhor esse propósito, Anne Cauquelin oferece alguns apontamentos úteis. A partir de uma distinção entre os regimes de funcionamento

da arte moderna e da arte contemporânea, Cauquelin estabelece uma polarização

entre regime de consumo e regime da comunicação. Diagnosticar ou apreender algo

da

qualidade do contemporâneo consistiria, então, em analisar o funcionamento

da

arte no regime da comunicação, este completamente distinto daquele regime

de consumo que regulava a arte moderna. Nessa perspectiva, Cauquelin lança mão de algumas noções do campo da comunicação que servem de princípios tácitos ao funcionamento dessas práticas, para daí extrair ferramentas de leitura e entendimento da arte contemporânea.

A noção de rede é fundamental para a análise empreendida pela autora que

a contrapõe à dinâmica do regime de consumo, no qual cresce o número de

intermediários entre artista e consumidores. Mas, como Cauquelin pontua, anão é

na progressão linear do regime de consumo que vão se encadear as características da

arte contemporâneab . Nesse ponto, a noção de rede vem salientar o funcionamento do aregime de comunicaçãob, que gere tanto a maneira como a arte circula (o

mercado), como o aconteúdob das obras. E, aqui, podemos encontrar como efeito

105

da estratégia de Firmeza a demonstração de que apassar a informação, em uma rede

de comunicação, é também fabricá-lab . Assim, não seria pertinente afirmar que

os acriadoresb do artista japonês seriam os próprios meios de comunicação? Mas,

nessa perspectiva, a matéria de Regina Ribeiro, publicada no jornal O POVO, em 12 de janeiro, lança luzes mais esclarecedoras ao afirmar que Souzousareta existe, uma vez que aeleb aponta para a existência de aoutras ÖcriaçõesÜ políticas, bélicas, científicas que o jornalismo contemporâneo tem ajudado a tornar reaisb. Mas o trabalho de Firmeza também equaciona alguns problemas específicos da arte contemporânea que são formulados por Cauquelin: aA realidade da arte contemporânea se constrói fora das qualidades próprias da obra, na imagem que ela suscita dentro dos circuitos de comunicaçãob . Nesse sentido, a afirmação de Firmeza, reproduzida ao final deste texto: aé preciso ver a exposiçãob ganha uma perspectiva menos evidente. Melhor seria dizer que tal imperativo dirigido à exposição de um trabalho que dispensa aquestões propriamente estéticasb poderia ser entendido como um convite a ver, perceber, se dar conta do que fica aexpostob por intermédio do trabalho; seria preciso, então, ver através do trabalho. Ainda assim, não penso que os termos adenúnciab, adesmascaramentob, aprotestob e afins sejam os melhores conselheiros em uma jornada de leitura de Artista Inventado - mesmo que as próprias declarações de Firmeza, muitas vezes, conduzam a esse campo semântico.

No início deste texto afirmei meu interesse em tentar apreender algo da arte contemporânea a partir da leitura do trabalho de Firmeza. O que consegui concluir está expresso no título deste texto como resposta à questão enunciada pelo próprio Firmeza, que oferece algumas chaves de leitura para o trabalho: aTudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo ÖPor que gostamos de arte?Ü

É preciso ver a exposição.b

Arte Invasora

Maria Helena Bernardes - artista plástica http://www.iberecamargo.org.br/content/revista_nova/artigo_integra.

asp?id=42

A propósito da polêmica (1) desencadeada pela participação de Yuri Firmeza, no

projeto Artista Invasor, do MAC-CE, em janeiro último, chamaram-me a atenção algumas reações de ceticismo em relação à autenticidade da crítica implícita no trabalho do artista e reiterada por seus depoimentos à imprensa.

Manifestações como, por exemplo, Öalguma coisa esse rapaz deve ganhar com issoÜ, ou Öo que ele ambiciona é ganhar projeção no meio que criticaÜ e ainda, Önenhum artista se exporia tanto para nadaÜ, etc., proliferaram nas últimas semanas.

Certamente, outros aspectos da polêmica são mais relevantes do que pequenos comentários como esses. Prova disso, é que há muito o meio cultural não se via mobilizado em torno de problemas como o dos critérios que norteiam a imprensa na divulgação dos eventos culturais, ou do papel dos meios de comunicação na

106

promoção social de artistas, ou ainda, do resistente complexo de inferioridade que induz o brasileiro a superestimar artigos importados.

A despeito do interesse que tudo isso merece, volto ao exemplo daqueles

comentários espontâneos, cujo tom determinista me parece transparecer um ponto

de vista negativo, uma descrença a priori da sinceridade de certas ações artísticas,

especialmente as que desacomodam, em alguma instância, o sistema de artes. No caso particular de Yuri Firmeza, esses juízos negativos foram alimentados pelo fato de seu trabalho estar exposto no Dragão do Mar, um dos centros culturais de maior visibilidade do nordeste brasileiro, e de sua ação ter envolvido diretamente a imprensa, alcançando grande repercussão na mídia.

Por outro lado, essas mesmas condições são declaradas pelo artista - e evidenciadas em seu trabalho - como parte central de sua estratégia de ação. Negar as evidências

de sua intenção é negar aquilo que se pode ver e, antes disso, negar, de forma não

fundamentada, o testemunho do artista.

E no que consiste esse testemunho?

Yuri Firmeza declarou sua intenção de se apropriar de um sistema de comunicação, (a imprensa), para inserir, ali, informações falsas que produziriam uma situação

no meio artístico e jornalístico, um desconcerto. Esse gesto de apropriação de

um sistema tem como precedente histórico o trabalho Inserções em Circuitos Ideológicos, de Cildo Meireles, a quem o jovem artista faz referência em seus testemunhos.

Como ele mesmo declarou, suas influências e reflexões abrangem outras áreas

do conhecimento e da experiência cotidiana, não se restringindo ao domínio da

arte. Creio mesmo que ele se surpreenderia positivamente ao levar esse debate para outros campos profissionais e áreas do conhecimento, externos aos problemas corporativos do meio artístico.

Tendo sido eficaz ou não na realização de sua proposta, gostemos ou não de seu trabalho ou do tom de seu discurso, sejamos ou não simpatizantes de ações dessa

natureza, o que os resultados de sua proposta evidenciam corresponde exatamente

ao que Yuri Firmeza vem afirmando.

Então, novamente, me interrogo: por que pôr em dúvida a sinceridade de seu

depoimento? Qual é a relevância dessa especulação em torno de aspectos subjetivos

e invisíveis, que só a passagem do tempo poderia, talvez, elucidar? Por que não

considerar o testemunho do artista e dar crédito ao desejo declarado por ele?

Algo nas palavras de Yuri Firmeza, na manifestação de seu propósito, provocou essas reações de descrença. A meu ver, poderíamos afirmar mais: uma vez declarada, sua intenção receberia, em qualquer circunstância - expondo ou não no Dragão do Mar, despertando ou não a atenção da imprensa - o descrédito do senso comum.

A origem desse preconceito, talvez, não se localize no que Yuri Firmeza afirma desejar, mas sim no teor negativo que seu gesto evidencia, naquilo que ele rejeita: a morna planície dos debates culturais, a conformidade do meio artístico diante de um

Öassim funcionam as coisasÜ, o inercial e pouco inventivo Öisso já foi feito nos anos Ö70Ü,

o reinado dos protocolos burocráticos e das conveniências corporativas, o desdém

pelas atitudes parciais e comprometidas, o cinismo tautológico em desacreditar que alguém possa opor-se a tudo isso porque simplesmente não seria crível.

107

Não conheço nem a pessoa, tampouco o trabalho de Yuri Firmeza. Ele é jovem, nosso país é gigantesco e a imprensa, como ele mesmo demonstrou, dedica-se mais à difusão de eventos culturais do que à divulgação da produção artística, propriamente dita.

Entretanto, acato o que é evidente em seu trabalho e acolho as declarações de seu desejo, pois, ainda que ele não fosse sincero, na defesa dos interesses da arte e de uma produção artística liberta de convenções de caráter estritamente social, sou movida a dar crédito ao que Yuri Firmeza afirma e a reconhecer as falhas das estruturas e modos de operação que ele contesta.

Há muito tempo, um jovem artista não declarava, publicamente, sua determinação de produzir arte segundo suas convicções. Antes disso: há muito, um jovem artista não aparecia na imprensa unicamente em razão de suas convicções. Só isso, já faz com que toda essa polêmica tenha valido a pena.

1. O debate foi desencadeado por uma ação de Firmeza no MAC-CE que consistia da divulgação junto à imprensa de uma exposição inventada por ele, na qual seria apresentada a obra de um renomado artista japonês que jamais existiu. Sem questionar as informações recebidas, os órgãos de comunicação deram ampla cobertura ao evento, baseando-se em releases e imagens falsos encaminhados pela Öassessora de imprensaÜ do artista oriental que, inclusive, concedeu entrevistas por e-mail (na verdade, a namorada de Firmeza se fez passar por assessora). Firmeza foi criticado por órgãos de comunicação locais que se consideraram duplamente ludibriados, pois o artista contou com a conivência da diretoria do MAC, que concordou em acolher sua proposta no projeto Artista Invasor. No dia anunciado, a exposição foi aberta com a apresentação, entre outros materiais, de textos e imagens divulgados pelos órgãos de comunicação, constituindo-se num questionamento incisivo dos critérios que norteiam a imprensa e o sistema de artes na promoção pública dos produtos culturais.

Nem artistas X Nem jornalistas

Tiago Themudo Publicado no Jornal O Povo em 12.01.2006

Já faz algumas semanas que os cadernos culturais da imprensa brasileira vêm discutindo o episódio do artista japonês, criado pelo artista plástico Yuri Firmeza. Pelas bandas de cá, o que acompanhamos foi uma sucessão de artigos e opiniões desajeitadas por parte dos mais diversos representantes da imprensa; pelas bandas de lá, o que veio foi deboche do que aconteceu pelas bandas de cá, prolongando o riso colonialista que insiste em perdurar pelas bandas de lá. Os jornalistas do asulb têm se divertido tanto com o despreparo dos jornalistas cearenses, quanto com a veemente indignação com que esses adespreparadosb reagiram à suposta arapuca armada pelo Yuri. Tanto num caso como no outro, o que ficou de fora foi a obra do aArtista Invasorb, o aproblemab que ela quis explorar. Não bastasse essa oposição entre os de cá e os de lá, foi criada uma outra oposição, talvez ainda mais perigosa:

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haveria de um lado o campo jornalístico, comprometido com a verdade e com a credibilidade das informações, e de outro, o campo da arte, refúgio do devaneio humano, espaço da imaginação airresponsávelb, útil apenas para preencher as paredes vazias de nossos museus. E o que haveria de inadequado no gesto do Yuri e dos representantes do Dragão do Mar teria sido a mistura desses dois campos. Tal como um demon, que atrapalhava a ordem dos espaços bem distribuídos do Olímpo grego, Yuri e o Dragão do Mar teriam cruzado os limites do território da arte, e invadido com suas regras características o campo do jornalismo, misturando as coisas. É justamente esse o reparo exigido pela imprensa: que o artista e o Dragão reconheçam que tudo não passou de um equívoco, de um erro que não deve ser repetido. Mais uma vez, a oposição criada impediu a percepção da obra. Pois a obra do Yuri é, sobretudo, mistura, mistura de códigos, mistura de forças. Até agora, forças da arte e forças da filosofia e da sociologia.

Quando começamos a pensar no projeto do aArtista Invasorb, o principal foco do Yuri não era a imprensa, mas o próprio campo artístico. Preocupava-nos o fato de que as instituições promotoras da arte, não só no Brasil, mas em todo o mundo globalizado, estivessem conhecendo há mais de dez anos uma crescente subordinação às regras do mercado, ou seja, aos imperativos do lucro. Não haveria nenhum problema nisso se os mercados culturais atuais fossem democráticos, quer dizer, realmente abertos à diversidade de manifestações estéticas de que as sociedades são feitas. Mas não é isso o que acontece: o que vemos é a submissão dos investimentos em cultura ao gosto tacanho de elites pouco interessadas no que é belo e forte. As atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Sendo assim, a perda de autonomia do campo da arte em relação à lucratividade necessária dos projetos culturais lança à marginalidade tudo o que destoa do gosto médio, tudo o que não pode ganhar uma formatação publicitária.

A obra começou, portanto, antes do embate com a imprensa. O primeiro efeito crítico da obra do Yuri foi produzido junto ao Dragão do Mar. Acreditávamos que a obra falaria da impossibilidade da obra, justamente porque o Dragão do Mar não permitiria tamanha ousadia, não seria capaz de desobedecer às orientações do bom senso, de misturar as coisas. A demora e a tensão nas negociações nos mostraram que essas forças não estéticas estavam realmente presentes no campo da arte, mas para nossa surpresa, o Dragão topou usar sua credibilidade para permitir a crítica às próprias instituições da arte contemporânea. Não temos dúvida de que essa ousadia é coisa nova entre os dirigentes da cultura de nosso estado.

Quando acreditávamos que ao problemab posto pela obra seria finalmente aexploradob pela imprensa, veio o segundo momento da obra, a revelação da perda de autonomia também da imprensa. Se nos anos setenta, bom jornalismo significava independência em relação aos poderes estabelecidos, hoje em dia o jornalismo reedita essa bobagem positivista de objetividade e neutralidade que não incomoda a ninguém. O discurso da verdade no jornalismo serve apenas pra encobrir as verdadeiras relações de dependência que ele tem para com o poder político e econômico nas sociedades contemporâneas. Como se não bastasse, alguns intelectuais têm emprestado sua suposta autoridade, que também deveria prezar pela sua autonomia p em risco nos dias de hoje -, para legitimar essa máxima ética da neutralidade e da objetividade. Se até Hollywood já produziu filmes explorando os bastidores das grandes corporações da comunicação, e a rede de interesses que regem a fabricação de todas as abordagens da vida cotidiana,

acreditar na independência da imprensa é quase como acreditar em Papai Noel ou em campanha de responsabilidade social de empresas multinacionais. Acho que está na hora de dizer a averdadeb aos nossos jornalistas e alunos de jornalismo. Pensar é necessariamente tomada de posição!

109

Mas a grande diferença em relação às tomadas de posição que marcaram esse acontecimento, jornalistas de um lado e artistas do outro, é que a posição que tomamos. A posição do pensamento livre é sempre a do meio. O pensamento se faz sempre entre as coisas, entre as opiniões já formadas ou teorias estabelecidas. Função amáquina de guerrab do pensamento crítico. Esse caso me lembra o início de uma peça alemã chamada Pentesiléia, de Kleist, e que narra a aventura amorosa de Aquiles e Pentesiléia, rainha das amazonas. Ao avistarem as tropas troianas em acirrado combate contra as formações das guerreiras amazonas, os generais gregos raciocinaram logicamente sobre as vantagens que poderiam tirar daquela querela: se as amazonas se batem contra os troianos, e os troianos são nossos inimigos, logo as amazonas são nossas amigas. Mas, para a surpresa dos gregos, ao se aproximarem do exército amazonas, foram recebidos com a mesma fúria com que eram atacados os troianos. Queda da lógica dos homens de Estado! Como era possível que existisse uma força que não se enquadrasse nem de um lado nem de outro? Forças nômades que não se seduzem com os prazeres prometidos pelo poder de Estado.

Não foi nosso objetivo fazer uma crítica da imprensa a partir das instituições artística, nem é possível aceitar uma crítica à arte vinda das máximas corporativas da imprensa. O que queríamos era fazer uma crítica à desmesurada presença do poder do mercado - com conseqüente perda de autonomia - nas diversas áreas de produção de pensamento em nossa sociedade, seja no jornalismo, nas artes, nas universidades e nos movimentos sociais organizados. Felizmente, foi possível perceber que, tanto de um lado como do outro, já existem pessoas que transitam pelo meio.

Yuri Firmeza e o artista japonês de Araki

Carlos Sena¹

aEu menti!b, disse Macunaíma com a cara mais deslavada do mundo. Não me lembro agora, afinal já se passaram quase trinta e cinco anos da leitura do livro de Mário de Andrade e, à moda da urgência jornalística, também eu não tenho tempo para verificar na obra se foi por causa do mentido que o anti-herói foi condenado a viver isolado numa ilha deserta, debaixo de um sol sempre a pino, onde a única sombra que existia era sob a única palmeira existente no lugar, e sobre esta, um urubú cagava intermitentemente na sua cabeça.

Mas, lembro-me do Drummond narrando no aFala Amendoeirab, que quando era um jovem cronista de um jornal de Belo Horizonte, usou esta mesma expressão macunaímica, aEu menti!b, para justificar uma série de escritos que publicou narrando visita anônima de Greta Garbo, a quem ele foi incumbido de ciceronear na capital de Minas Gerais. Sabia-se na época que ela tinha acabado de deixar o cinema buscando um asilo voluntário, mas na verdade, estava muito doente e bastante esgotada da maratona de sucesso, e fora aconselhada pelos seus médicos americanos

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a buscar os ares mineiros, como remédio certo para curar sua depressão. Pela graça de ser amigo do adido cultural americano de bBeagáb, coube a Drummond a difícil tarefa de conduzir a diva nas grandes incursões a Serra do Curral, ou nos lânguidos passeios pelo Parque Moscoso durante tardes mornas.

Foi isso, que o jovem jornalista narrou semana após semana na sua crônica domingueira, enchendo a mineirada de um orgulho ufanista e permitindo, até, que

uma leva de causos sobre flagrantes dessa inesperada visita se alastrasse pelas rodas dos incautos socialites, e se constituíssem no repertório temporal de tradicionais famílias mineiras, e também dos poderosos políticos emergentes, e até, dos novidadeiros de plantão. Quando todos tinham uma história para contar sobre encontros casuais com a atriz e seu jovem cicerone, e alguns tinham divulgadas suas participações no restrito séqüito de condutores aos passeios, ou nas fechadíssimas listas de convidados para recepções secretas, o poeta saiu com esta: aEu menti!b.

E assim, Belo Horizonte teve que engolir o orgulho e saber que não estava com

aquela bola toda, teve que aprender a rir da sua própria imagem e do folclórico acontecimento que ajudara a criar.

A obra que Yuri Firmeza criou para o Dragão do mar, bem poderia se chamar:

aArtista japonês de Araki X Imprensa de Cristalb, pois, apesar do tipo de estratégia

usada não ser exatamente uma novidade no campo da arte p inúmeros exemplos poderiam ser citados, desde o antológico engôdo de Orson Welles, passando pelo falso cheque de Marcel Duchamp destinado ao seu dentista, até o vazio de Yves Klein p percebe-se que mudaram-se os tempos, mas a irreverência da juventude artística continua a mesma. O curioso disso, é que o impacto sobre os desavisados também não mudou, e eles continuam chiando pela ética e pela verdade.

No que diz respeito à imprensa jornalística p que vive da reprodução das notícias, quase sempre sem checar às fontes p dá vontade de rir. Mas nesse episódio até que é compreensível a reação dos tapeados, afinal os jornais vivem da espetacularização dos acontecimentos e quase nunca abrem espaço para a crítica ou para o debate cultural. É sempre o fato espetacular ou a novidade da moda que domina toda a divulgação na mídia jornalística. E pouco interessaria nesse caso, se o jornalista tivesse humor suficiente para encarar o dito pelo não dito, pois, o que lhe falta é tempo para pesquisa numa imprensa que é massificada na velocidade imediatista,

e que não tem espaço para reflexões mais profundas a respeito da cultura e dos desdobramentos e tensionamentos da arte.

Segundo a crença de uma parte significativa do jornalismo, as complexas atividades da arte contemporânea só interessam mesmo para meia dúzia de intelectuais, e que os jornais são escritos para as massas. Afinal, uma notícia inverídica atinge principalmente o seu público alvo: o povo. Este, segundo as leis das redações, não irá mesmo entender as mazelas da arte, e, portanto, o caminho mais fácil para retratar essa falsa notícia é mesmo a detratação do artista. Em nome da verdade dos fatos, será ele o único malandro julgado, condenado, culpado pela situação.

Mas também, quem mandou o artista revelar para o povo que a imprensa é de cristal, e que um grito mais agudo poderia transformá-la em milhões de caquinhos. Cuidado Yuri! Comenta-se em off que aquela ilha ensolarada fica no litoral nordestino, e nela o fatídico urubú ainda continua pousado sobre a mesma palmeira, espreitando ansiosamente um abusado artista. Advinhe para quê!?

¹ Artista plástico, Prof. Mestre em Arte Publicitária e Produção Simbólica da ECA/USP Leciona Arte Moderna e Contemporânea na FAV/UFG

A Ficção Estética de Yuri Firmeza

Roberto Galvão Artista Plástico, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte - ABCA

http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=922

111

Fiquei surpreso com o tratamento dado pela imprensa cearense à exposição de Souzousareta Geijutsuka promovida pelo Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar, de Fortaleza. Não por sua virtualidade ou pela opinião do

jornalista Felipe Araújo, de O Povo, que comete os equívocos de classificar a arte contemporânea que se pratica em Fortaleza como apobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso com pichaçãob, explicitando o despreparo

do jovem jornalista e a sua desinformação sobre a arte local. Também não foi

pelos jornais estranharem que a direção do Museu de Arte Contemporânea e a

presidência do Dragão tenham chancelado o fato. É óbvio que, pelo menos a direção

do Museu deveria apoiar a performance do artista Yuri Firmeza, principalmente

se lembrarmos que o projeto onde foi realizada a experiência denomina-se Artista Invasor. Ou será que esse nome é para obras e artistas bem comportados?

O tratamento dado pelo jornal O Povo ao trabalho artístico de Yuri Firmeza é

incompatível com a história de um veículo que em 26 de março de 1928 publicava em suas páginas:

!UMA TELA DE PEREIRA JÚNIOR NA VITRINA DA !CASA ALMEIDA6 Na vitrine da !Casa Almeida6 acha-se em exposição uma original tela a óleo de Pereira Junior, em que o apreciado artista retrata o nosso collega de imprensa Mozart Firmeza [ que não é outro sinão o próprio Pereira Junior.

O

referido trabalho prima pelo exotismo com que foram lançadas as tintas em chocante disposição futurista, pouco conhecida em nossa capital.

Ao

joven talentoso conterrâneo enviamos as nossas felicitações pelo êxito de seu aprimorado

trabalho.6

Era a primeira manifestação de arte modernista em nossa capital e O Povo soube acolhê-la assim como no ano seguinte, 1929, soube receber Jader de Carvalho, Sidney Neto, Franklin Nascimento, Mário de Andrade, Filgueiras Lima, Rachel de Queiroz e o próprio Mozart Firmeza no suplemento Maracajá, a primeira publicação de caráter modernista de Fortaleza, sob direção do líder do movimento literário local, na época: Demócrito Rocha. Curioso é que o amesquinho, rancoroso, irresponsávelb artista Yuri Firmeza, bacharel em Artes Visuais pela Faculdade Integrada da Grande Fortaleza é sobrinho neto de Mozart Firmeza, que pintou aem chocante disposição futuristab, a tela de Pereira Junior, há 75 anos.

O que redimiu um pouco O Povo foram os comentários de Regina Ribeiro e de

Paulo Linhares que sinalizavam a existência de outros olhares. Que bom que seja

da editora de cultura o tom dissonante e de lucidez nesta história. De qualquer

modo, revela-se uma falta de sintonia do jornal com os movimentos artísticos contemporâneos o que precisa ser melhor refletido.

O surpreendente e o mais preocupante em toda essa história é o descompasso

perceptível entre a produção artística local e a nossa sociedade de certo modo representada pelos jornais locais. Sabemos da falta de arte-educação nas escolas, mas não percebíamos a sua grave amplitude que foi explicitada pelo trabalho de

112

Yuri Firmeza. Pensava que seis anos de Museu de Arte Contemporânea tivessem um efeito mais abrangente no entendimento das práticas artísticas atuais. Não poderia imaginar que mais de noventa anos depois da aFonteb, de Marcel Duchamps, uma obra pudesse despertar tanta indignação em pessoas que deveriam ser mais informadas sobre arte.

Perceba-se que o trabalho de Yuri não é algo que pudéssemos classificar como revolucionário. Pensar assim seria desconhecer a produção de muitos artistas internacionais e as manifestações performáticas de alguns artistas cearenses, como as ações de Kleber Ventura e Regina Cavalcante, no final da década sessenta do século passado. É apenas um trabalho bem elaborado de ficção estética que o seu professor nos semestres iniciais do Curso de Artes Visuais da FGF, Carlos Emílio Correa Lima, por certo daria uma nota elevada.

A disciplina que Carlos Emílio ministrava era Português. Era prática comum nas aulas dele a criação de textos sobre livros, filmes, quadros e autores imaginários, com biografias, bibliografias, fortuna crítica, análise da linguagem das obras com a máxima verossimilhança. Os alunos realizavam ainstalações literáriasb:

entrevistas, reportagens, comentários de exposições fictícias como se fossem para revistas especializadas. Emílio levava seus alunos a exercitar o que chama de aficção estéticab, conduzindo-os no desenvolvimento de novas formas de arte, inventando- as e descrevendo, criando obras inexistentes, engendrando desdobramentos inusitados e transformando-as em materialidade literária.

Quando era menino muito escutava que não se deveria aparentar o que não era. Hoje, no tempo da virtualidade, principalmente no Brasil, o paradigma mudou: a verdade aparentemente perdeu importância, o que aparenta é. As provas materiais perderam sua importância e se aceitam ajulgamentos políticosb. É a verdade reduzida ao que foi dito na mídia.

Sobre o assunto, Carlos Emílio faz um comentário nas páginas 71 e 72 de sua dissertação de mestrado Virgílio Várzea: os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso, defendida na UFC, em 2001, onde alerta para que, se essa prática de instalações literárias ou falsificações criativas forem se avolumando sobrepondo-se ao simulacro estruturado do sistema do real (perceba-se que o real também é um simulacro), elas provocarão infiltrações nos diques aparentemente indestrutíveis dos meios de manipulação, tornando-os vulneráveis, desnorteando-os, abalando em seus fundamentos o sistema controlador do real e da notícia.

Como os veículos de comunicação no Brasil têm efetivamente trabalhado como manipuladores do real, principalmente no noticiário político, tornando verdadeiro

o que de fato é apenas verossímil, o trabalho de Yuri Firmeza tem efetiva significação

e total pertinência, já que uma das funções da Arte, se isso existe, é fazer ver o que não se percebia.

O que seria da arte

113

se ela não questionasse o mundo, o homem, se ela não se colocasse em questão?

Solon Ribeiro - Artista Plástico

Se a arte não tiver o compromisso com a liberdade da invenção, se a cada momento ela

não procurar se superar, propondo outros parâmetros que rompam com a tradição, que tornem a definição de arte mais complexa, penso que deveríamos procurar outra definição para este fenômeno, como decoração, entretenimento, etc.

Segundo o historiador de arte inglês E.H. Gombrich, anada existe realmente a que se possa dar o nome arte. Existem somente artistas, e não podemos alimentar

a esperança de entender uma obra de arte sem compartilhar desse sentimento de

libertação e triunfo que o artista experimenta quando avalia as próprias realizaçõesb.

Penso que o único compromisso da invenção é com a invenção dela mesma.

É lógico que não podemos ser ingênuos de pensar que a arte consiste somente no fazer

artístico. É imprescindível toda à vontade de uma sociedade para a construção do fazer

poético, instituições com o compromisso com a formação, a produção e a divulgação, que ressoem em sua estrutura os riscos que a atividade artística demanda. E acima de tudoéimprescindívelumpúblicodesejosodeseroartefatofundamentaldessecenário.

É lógico que há momentos históricos que são mais propícios para a festa, para

a sedução, para a utopia. Apesar de todos os conflitos, de todas as guerras,

a modernidade foi palco para esse fazer-se. Principalmente os anos 60 e 70. Penso que todo dia é dia D.

Nos últimos anos na cidade de Fortaleza vários fatores têm convergido para a implantação de uma estrutura para as artes visuais, que começa a dar resultados. Temos toda uma nova geração de artistas cearenses reconhecidos nacionalmente e compromissados com o fazer de uma nova arte brasileira.

Uma das peças fundamentais dessa estrutura é o Museu de Arte contemporânea do Ceará (MAC CE) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

O

Museu tem se comportado muito mais como uma associação, com o compromisso

de

formar e de divulgar, contribuindo para colocar o estado do Ceará no mapa das

artes nacionais, do que como uma instituição defensora de uma única verdade.

claro que o compromisso com a liberdade e principalmente com o experimentar haverá de gerar controvérsias. Mas como pensar em arte sem se colocar em debate?

É

O

projeto artista invasor criado pelo diretor do museu, Ricardo Resende, encontra-

se

na quarta edição. Como o titulo indica, o projeto demanda do artista, um

compromisso com a ousadia poética.

Yuri Firmeza é o convidado para esta edição do projeto de janeiro a março de 2006.

O artista se apresenta como um bom inventor e cria um outro, batizado de

Souzousareta Geijutsuka (um dos mais importantes no panorama das relações entre arte, ciência e tecnologia) e a exposição Geijutsu Kakuu. O que torna o

acontecimento poético, da maior relevância, é a criação de um artista onde, criador

e criatura, fundem-se num só agente. Talvez o encontro com seu duplo indique uma

síntese das experiências sensórias e motoras. A presença deste novo personagem é super bem-vindo à cena da arte contemporânea, à medida que anuncia o tempo da irreverência.

O ato criativo não se limita apenas ao artista, mas ecoa pelo museu, pelas

praças,

A platéia confirma: o artista é apenas um jogador de dados e sua função messiânica

é apontar uma cidade em cujo portal esteja escrito aduvido logo existob.

bancas

de

revistas

e

bares,

pronto

para fazer festa ou comício.

114

A Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica

Tarcisio Pequeno - Professor do Doutorado em Ciência da Computação e do Mestrado em Filosofia Universidade Federal do Ceará

A Örealidade físicaÜ é, no fundo, um construto lingüístico social. Desse indiscutível

fato da epistemologia pós-moderna se conclui que para que a ciência possa vir a exercer um papel libertário em nossa sociedade deve ser subordinada a estratégias político-sociais progressistas. Uma ciência libertária não poderá ser construída sem uma ampla revisão do canon da matemática, uma vez que a matemática atual foi construída sob profundas influências do capitalismo liberal do Século XIX. Alguns aspectos que uma Ömatemática emancipatóriaÜ deve incluir são Önão- linearidadeÜ, Ödinâmica de fluxoÜ e ÖinterconectividadeÜ. Tais elementos podem ser encontrados na lógica não linear e multidimensional dos Ösistemas nebulososÜ e na Öteoria das catástrofesÜ, por exemplo, ainda que estas teorias estejam também irremediavelmente marcadas pela crise das relações de produção do capitalismo tardio. Por outro lado, a introdução do conceito de Öcampo morfogenéticoÜ na teoria da Ögravidade quânticaÜ permitiu a confirmação das especulações psicoanalíticas de Lacan nos mais recentes trabalhos em teoria quântica do campo.

Se você consegue entender o texto aí em cima e se, ademais, é capaz de concordar com ele e ter simpatia por suas idéias, querido leitor, é preciso revisar seus conceitos. Qualquer semelhança entre ele e a afotografia ÖshiitakeÜ de objetos atmosféricos invisíveisb certamente não é mera coincidência. O texto é uma montagem livre e pessoal de trechos do artigo aTransgredindo as Fronteiras: Por uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quânticab, do físico Alan Sokal, da Universidade de Nova York, submetido, aceito e publicado pela revista Social Text. O problema é que o eminente cientista enviou paralelamente a uma outra publicação acadêmica, a revista Lingua Franca, o artigo aExperimento de um Físico em Estudos Culturaisb, no qual descreve a peça que havia pregado na Social

Text. O artigo original, confessava o autor, era um pastiche de termos científicos

e pseudo-científicos, teorias exóticas, citações exatas, conclusões improváveis

apresentadas sem qualquer argumentação razoável, conexões esdrúxulas e idéias, para dizer o mínimo, extravagantes. Era, enfim, um samba do crioulo doido

científico-cultural.

O que Alan Sokal fez com a Social Text foi, no pior e no melhor sentido da palavra,

uma molecagem. O que intriga no episódio é p por que um cientista de prestígio entre seus pares, um intelectual engajado que inclusive deu aulas de matemática como voluntário durante o governo sandinista na Nicarágua, arriscaria a reputação e a careira e se exporia à ira de outros scholars de esquerda para fazer uma sacanagem dessas? O melhor é deixar a ele a resposta p ameu método foi satírico, mas minha motivação foi extremamente sériab. Sokal sentia-se incomodado por uma tendência

anti-racionalista, anti-científica e ultra-relativista que dominava um certo ramo da esquerda americana, auto-denominada pós-moderna. Deixar à direita o monopólio

da

racionalidade e da ciência não fazia para ele nenhum sentido político, estratégico

ou

filosófico. A sua incapacidade de entender a literatura dessa esquerda o fazia cismar

se

provinha de irremediável limitação intelectual e ignorância pessoal ou se decorria

da

falta de nexo da própria literatura. Daí o experimento. Onde argumentos seriam

simplesmente ignorados, a ação subversiva obrigou à discussão.

A

peça que Yuri Firmeza, o ÖJapa InvasorÜ, pregou foi Öum experimento sócio-

115

culturalÜ. Não teve a mesma elaboração e sofisticação do de Sokal, talvez não tenha

seu alcance, nem é mesmo muito original, mas teve dessas qualidades o suficiente para funcionar na cena cultural da província, que é o que importa. Funcionar para que? Para forçar o debate, agitar os espíritos, acordar mentes opiadas na modorra cultural. E o debate se deu, ou se ensaiou. A pena, e o que sobremodo preocupa, é que mal começado o que deveria ser um embate de largas idéias, estreitos palpites e mesmo loucas opiniões já dá lugar a raivosas manifestações, corporativas pressões, intimidadoras reações.

O ÖJaponêsÜ merece o beneplácito da suposta boa motivação que Sokal advoga para

si. O episódio, em si, não seria de gravidade. Não causa dolo físico, moral ou profissional a quem quer que seja. O dolo vem é da desmedida reação, do recibo mal passado, da arrogância juvenil e da truculência senil em lugar ao bom humor com que deveria ser tratado. Não somos a terra do humor e da molecagem? Herdeiros orgulhosos da irreverência sem limites da Padaria Espiritual? E é o senso de humor outra coisa que não a capacidade de rir de si próprio? De aprender achando ridículos e engraçados os próprios erros? Teremos inadvertidamente abolido essas qualidades e virado todos chatos de galochas e velhos rabugentos? Se assim for, Yuri, my brother, o melhor a fazer é as malas. Dada a ira que se anuncia não lhe restará instalação sobre instalação.

Yuri Firmeza no Sítio do Coroné

Uirá do Reis 12 de Janeiro de 2006

Leio agora no jornal aO Povob de 12 de Janeiro de 2006 a reportagem sobre a suposta polêmica do artista Yuri Firmeza, e seu ex-fictício amigo artista japonês. Eis que tem um trecho de um pensamento da jornalista Adísia Sá, que diz assim:

aO Dragão compactuou com a farsa, para fazer charme. Quem se desgasta é a fonte. Vai demorar muito para o Dragão restaurar sua credibilidadeb. E minha testa franze mil vezes. Não entendo do que ela fala. Penso que o Dragão do Mar ganha credibilidade quando se mostra, pelas mãos de seus gerentes, uma instituição capaz de compreender tão aberta e largamente o processo criativo na arte contemporânea. Em contrapartida, os polemizados jornais locais (ou seus invisíveis coronéis) se mostram tacanhos e incapazes de dialogar com o que não seja tão-somente parnasiano e vulgar, o que gera o tédio em mim.

Participei da discussão no Dragão do Mar, o tal de aChá com Porradasb, e fui- me embora mais cedo. Penso que o trabalho do Yuri Firmeza seja consistente e mais: traga à tona questões interessantíssimas, que estão para além do pensar a arte contemporânea, mas - e sobretudo - pensar a sociedade midiática (ou a nossa micro-sociedade saudosa de coronéis dentro do contexto globalizado-midiático). Infelizmente (e não espantosamente, posto que é sempre assim) a discussão fica pairando sórdida na superfície e não permite a profundidade que o tema exige. Chocar-se com a farsa e buscar fazer com que ela não exista pelo simples fato de sentir-se ludibriado, pra mim é grande tolice. Para aquele que gosta de arte e sobretudo para aquele que a entende (com o conhecimento formal ou pelas mãos da

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emoção), ser ludibriado e saber disso logo após, é no fundo (e no mínimo) divertido demais. Na política, claro, ser ludibriado é o que não se pode. Ou também pelos jornais, não podemos ser ludibriados. Mas na arte é diferente. E aí eu me pergunto:

Se alguém perde a credibilidade - ou se alguém merece perdê-la - quem é esse alguém? Se me perguntam, eu respondo que é o jornalista que vai falar de arte e julga-la mal pelo simples fato de não compreende-la. A ignorância é algo existente

e não é nenhum crime, mas penso que seja mesmo bom termos algum senso de

humor diante de nossa ignorância, e diante daquele que nos mostra ignorantes.

Eu, que sou leitor de Fernando Pessoa, amante de Orson Welles e David Bowie, e cresci com todos dizendo que a Monalisa era o próprio Da Vinci, eu penso que o trabalho do Yuri Firmeza não seja novo, mas velhíssimo, se olhado somente por esse prisma que teimamos todos (o medo do ignorante diante do supostamente novo).

Não importa se ele existe ou se não, e também não importa se o artista japonês está morto (após descoberta a farsa é quando ele começa a viver, ou ele morre tão logo

o pano toque o chão?) ou se o artista banhou seu defunto em formol e para sempre. Não é esse o ponto. E me incomoda o fato de perderemos a chance de discutir

o que é realmente eficaz e pertinente no trabalho. Além de me incomodar, me

preocupa essa corrida anti-Yuri Firmeza que passou a existir após esse seu trabalho exposto antes nos jornais e depois no Museu. O Sousozareta vem, então, pra nos fazer pensar não só na fragilidade da mídia, mas também sobre questões mais profundas e pertinentes aqui, como o comando da fala e do silêncio pelos meios de comunicação, obedientes a alguns, ou na fragilidade do direito de expressão, que reforça o meu medo diante dos poderosos do Estado.

Talvez a mídia local (que na verdade não existe p o que existe são os seus patrões), acostumada ao extremo comando de sempre, acostumada a me fazer ver ou não ver de acordo com sua pequena vontade (que mesmo sendo grande ainda é pequena), ficou deveras furiosa com o artista Yuri Firmeza, esse jovem artista que levou o nome do Estado para tantos outros Estados, como vencedor de bolsas, de prêmios, com suas performances e exposições, o amolequeb, como fora tratado pelo jornalista Felipe Araújo que, ao que parece, ficou muito ofendido ou expressou muito bem o sentimento de seus patrões. Em verdade, essa resposta jamais teremos, posto que

o jornalista não foi a nenhum debate aos quais foi convidado.

Então ficaram com o pé na forca, o aMolequeb e o aLoucob, que são Yuri Firmeza e o Ricardo Resende, grande gerente do Museu de Arte Contemporânea da Instituição Dragão do Mar de Arte e Cultura, onde o resultado da farsa foi exposto. Acho uma bobagem pôr em xeque a credibilidade do Dragão do Mar e do Ricardo Resende, que tem feito um ótimo trabalho, e acho uma bobagem xingar o artista de amolequeb por ter caído nas armadilhas transbordantes do mesmo, e acho uma bobagem olhar para esse trabalho importado somente para o fato de que o artista japonês não nasceu por uma mãe e por um pai, como mandam Cristo e a Natureza. Francamente! O que me agride é a falta de humor e intolerância desses da mídia diante de sua própria ignorância e não a ex-inexistência de um artista-obra-objeto. Porque na arte o impossível faz-se possível e espero que se possa sempre ser assim. De outro modo, não poderei mais acreditar nas possibilidades interessantíssimas da

arte e de seus criadores. Existe a responsabilidade na arte, inclusive social, e acho que esse trabalho suscitando coisas tão profundas e tão maiores que ele próprio (o trabalho) acaba por assumir seu compromisso com sua sociedade, lutando contra

o que é morbidamente tacanho em nós. A vontade de seguir (tosco rebanho) e a obediência aos patrões.

Caro Felipe,

fiquei contente com a publicação do teu artigo, e se te escrevo é porque acredito que as reações que ele provocou em mim não merecem mais as páginas do jornal.

O que mais me entristece, é que você mais uma vez escreveu como quem está

acuado, esbravejando, espumando. Mesmo depois de ter considerado a necessidade

de jornalistas preocupados com o que é novo e criativo na arte de Fortaleza, você

inicia o seu artigo chamando a obra do Yuri de amacaquiceb. Se não quisermos considerar o equívoco lógico de sua colocação, ela é no mínimo grosseira e ofensiva

- postura que você não encontrou em nenhuma das linhas que escrevi. E mais, o

mau gosto se volta para mim, me apresentando como o cérebro que estaria por de trás do macaco. O dia em que você me conhecer melhor, saberá que não ando por

de trás de ninguém; tudo o que digo e penso é para quem quiser ouvir, embora

muitas vezes não haja o menor interesse naquilo que digo.

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Resposta de Tiago Themudo ao texto publicado por Felipe Araújo no Jornal O Povo em 04.02.2006, reproduzido na página 76.

aPosar sem contrapontob, diz você. Mais uma vez, parece que você não entendeu

o que escrevi, mesmo que se apresente também como alguém preocupado com

a crescente intervenção do poder político e econômico na mídia. Ou seja, você

me agride, faz chacota, e depois usa o que escrevi. Diz que o que faço é apenas

atirar adenúncias contra o conservadorismo da imprensab, e depois concorda que

há realmente conservadorismo na imprensa. E como se não bastasse, depois de ter

antropofagizado minhas reflexões - o que é ótimo desde que você aceite ser um possível aliado - o que não parece ser o caso, prossegue afirmando que anão tem nada contrab a publicação do meu artigo. Que é isso, caro Felipe! Apresenta-se como democrático, e define um direto pela negativa!! aNada contrab! Seria melhor ter dito, atudo a favorb!!

Não me incomodo com contrapontos. Aliás, me ofereci para participar do suposto adebateb no sindicato. Não fui convidado. Queriam o Yuri, alguém que para vocês é ridicularizável e que acreditam não saber se defender, duplo equívoco. Mas não quiseram debater, aregra básica do jornalismob. E o nome do encontro ainda era aConversa afiadab. Uma pena. E estou à sua disposição para prolongar esse diálogo o quanto for conveniente para você. O que escrevi não são opiniões, são pensamentos. Não quero comentar o que você escreveu sobre o artigo de Ricardo. Diria apenas que, com o que você escreveu, perdeu a chance de encontrar um grande interlocutor, mas pelo seu aestilob, acredito que você não precise de ninguém para apensar comb.

Quando você se refere diretamente ao meu artigo, devo confessar ter sido surpreendido pelas palavras auma análise em parte corretíssimab; primeira demonstração de enfraquecimento do corporativismo que mesmo depois de algum

tempo, continua marcante nas suas idéias sobre esse episódio. Mas se meu acerto

é parcial, é porque há algo que peca por imprecisão. Tal imprecisão diria respeito

ao meu desconhecimento da existência dos ajornalistas que, por vocação, são

compromissados com o que está à margem do mercado. Apaixonados, valorosos

- e não certos taroucos que ficam fazendo média com Deus e o mundo para melhor

passar diante de um debate -, esses jornalistas circulam pela Cidade em busca do novo e brigam permanentemente por espaço editorial para eventos, personagens

e produtos que não são pautados pela grande indústria nem pelo sentido de

lucro.b Como é possível que a hostilidade da tua reflexão te torne indiferente ao que

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estava concretamente escrito em meu artigo, que diz: aFelizmente, foi possível perceber que, tanto de um lado como do outro, já existem pessoas que transitam

pelo meio.b Mas você parece não ter dado atenção à conclusão de meu argumento,

o que teria evitado mais uma oposição. O que você faz não é contraponto!! Bach

faz contraponto em suas composições. A função do contraponto é de composição, não de desagregação gratuita. É claro que concordo com você de que há jornalistas interessantes na imprensa cearense; há forças de resistência em todos os lados, mas

normalmente despontencializadas, mas não concordo de forma alguma que tenham sido estes os jornalistas que escreveram sobre a obra do Yuri. Se assim o fosse, estes jornalistas apaixonados teriam aproveitado o que a obra permitiu disparar para tentar problematizar o próprio campo jornalístico, que você mesmo reconhece ser hoje controlado por máximas corporativas que ferem sua autonomia. Mas se você concorda, por que você não explorou também esse tema mais a fundo? Talvez esteja aí a razão do corporativismo de todos: como diz Lawrence, em aA educação dos povosb, estamos todos petrificados pelo medo de perdermos o nosso emprego. Em nenhum momento, ao contrário do que você diz, me defini como uma força nômade. Eu não sou nenhum tipo de sábio da montanha alheio às dores

e opressões de nossa sociedade, sobretudo pela classe social a que pertenço. A

frase aforças nômades que não se seduzem com os prazeres prometidos pelo poder de Estadob, não se refere a mim, mas às Amazonas, aos personagens conceituais criados por Kleist, que acredito deverem ser as mesmas forças do pensamento. Mas você parece também ter perdido esse detalhe, talvez pela sede de resposta, pela sede de vingança.

O pior é que você deduz dessa minha autodefinição a causa de uma contradição, sugerindo de forma confusa que nós é que teríamos perdido a autonomia, principalmente o Dragão. E você insiste em continuar falando de farsa. Como posso compreender, Felipe, que você porte uma alma democrática e que defenda apaixonadamente o que está à margem do mercado p supostamente porque reconhece avidab nessas manifestações - se você continua teimando nessa desqualificação da obra, do Yuri e todos que a afirmaram, quando tudo não passa de uma profunda incompreensão sua do que aconteceu. Se você realmente concorda com alguns aspectos de minhas reflexões não há como continuar pichando uma instituição que também está sendo hoje em dia ocupada por pessoas aApaixonado(a)s, valoros(a)os - e não certos taroucos que ficam fazendo média com Deus e o mundo para melhor passar diante de um debate -, esses jornalistas (artistas e curadores) circulam pela Cidade em busca do novo e brigam permanentemente por espaço editorial para eventos, personagens e produtos que não são pautados pela grande indústria nem pelo sentido de lucro.b As palavras são suas, meu caro, só acrescentei os aab e as palavras artistas e curadores. E como não somos corporativistas, não há problema nessa variação!

Talvez baste deixar de lado a vontade de dizer a última palavra. Abraços sinceros Tiago Themudo

Rizoma

Entrevista inédita concedida à Ricardo Rosas em 30 de janeiro de 2006,

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RICARDO ROSAS - Yuri, conta um pouco para gente do seu background, formação, produção, etc.

YURI FIRMEZA - Oi Ricardo, nasci em 1982, em São Paulo, dia 10 de novembro

p

escorpião p às 6:45hs da manhã, nesse dia choveu.Vim pra Fortaleza ainda bebê

e

por aqui continuo. De lá para cá algumas coisas aconteceram, dentre elas o

meu interesse pelas artes. Sou graduado em Artes Visuais, participei de algumas

exposições e desenvolvo pesquisa com performance, vídeo e fotografia. Adoro olhar o movimento do mar, conversar com pessoas desconhecidas no ônibus e nesse instante lembro do Manuel de Barros: aSei que fazer o inconexo aclara as loucuras. Sou formado em desencontros. A sensatez me absurdab e por aí vai

RICARDO - E como surgiu a idéia do aSouzousareta Geijutsukab?

YURI - O trabalho começou a ser germinado a partir da convergência de uma série de inquietudes as quais era necessário convertê-las em uma situação. Essa situação é o próprio Souzousareta. A estratificação do pensamento

e da produção no campo das artes, as estratégias de manutenção do

poder legitimador dentro desse sistema, as desvitalizações de trabalhos

operadas por lógicas mercantis, a perda de autonomia por grande parte dos

essas, dentre outras p inúmeras p questões,

incomodavam-me e serviram de substrato para a constituição do Souzousareta.

artistas/críticos/curadores