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Copyright ©1974, Claice Lisp, Pasi Gurel Valente Foro Gurgel Valente Direios dss ego reservados & EDITORA ROCCO LTDA. ‘Avoids Provdente Win, 231, 8¢ ands "200.021 ~ Rid Jani, Rd “el: Bt) 325.2000 — Fn: 21) 3528 2001 ‘pezn@rces com be ‘ww oe com Printed mBrateimpresso x0 Brit cuabeleinen co tate MARLENE GOMES MENDES (a. ca Litera Bases pela USP? ‘roftde Cri Texual da UFF) tP-Drasit.Caalopardo-a eae Sitesi Nacional dot res de Lvs, R. [7530 Lispecor Canes 192541977 ‘Onde esveses de noite CarseLisper. Ric de Sane Roo, 1999, ISBN: #5.225-09408 ‘ |. Come tase. 1 Tile ss.i79 cpp-360.93 cDU868.0@)-3 SUMARIO ‘A procura de uma dignidade . ‘A pattida do trem Seco estudo de cavalos .. Onde estivestes de noite.. O telatsrio da coisa . © manifesto da cidade, (© morta no mar da Urea Silencio 74 Esvaziamento md Uma tarde plena S80, Um caso complicado. - 83 Tanta mansidi0 van . 86 AAs dguas do mar . 88 Tempestade de almas 91 Vida 20 natural. aa CCLARICE LISPECTOR ferves na minha cara, minha vida esperar. E sabido que se cu desviar um instante o olhar do leite, esse desgracado vai apro- veitar para ferver e entornar, Como a morte que vem quando nio se espera. Ela esperou, caperou € 0 leite ndo fervia. Eneio, desligou oes. No céu o mais leve arco-fris: era o aniincia. A manha como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manh preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, do- ‘minus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecato- Fibus. Nunca et ora nostrae morte Amem. Padre Jacinto exguew com as duas mios a taga de crista que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta vinho bom. uma flor nasceu, Uma flor leve, résea, com perfume de Deus. Ele-ela ha muito sunita no at. A mani etavalimpida como coisa recém- lavada, AMEM. Os figis distrafdos fizeram o sinal da Cruz. AMEM., DEUS FIM Epiloge: Tudo o que escrevi é verdade ¢ existe. Existe uma mente universal que me guiot Onde estivestes de noite? Ninguér sabe. ‘Nao tentes responder — pelo amor de Deus. Nao quero saber da resposta, Adeus. A-Deus. O RELATORIO DA COISA Esta coisa € a mais dificil de uma pessoa entender. Insista. N3o desanime. Parecerd Gbvio, Mas é extremamente dificil de se saber dela. Pois envolve 0 tempo. Nés dividimos o tempo quando ele na realidade nao ¢ di- visivel. Ele € sempre e imutivel. Mas nés precisamos dividi-lo, E para isso criou-se uma coisa monstruosa: 0 relégio. ‘Nio vou falar sobre relégios. Mas sabre um determinado relégio. O meu jogo € aberto: digo logo o que tenho 2 dizer © sem literacura. Este relat6rio é a anciliteratura da coisa relégio de que falo ¢ eletsGnico © tem despertador. A ‘marca & Sveglia, © que quer dizer “acorda’. Acorda para 0 qué, meu Deus? Para o tempo. Para a hora. Para o instante, Esse relé- gio no & meu. Mas apossci-me de sua infernal alma wan ‘Nao é de pulso: 6 solto portant. Tem dois centimetzor € fica de pé na superficie da mesa. Eu queria que ele se chamasse ‘Sveglia mesmo. Mas a dona do relégio quer que se chame Ho- récio. Pouco importa. Pois o principal é que ele é 0 tempo. ‘Seu mecanismo muito simples. Nio tem a complexidade de uma pessoa mas & mais gente do que gente. E super-homem? Nao, vem diretamente do planeta Marte, ao que parece. Se é de Li que ele vem entao um dia para Id voltars. £ colo dizer que ele info precisa de corda, isso j4 acontece com outros reldgios, como ‘© meu que é de pulso, é antichoque, pode-se molhar & vontade. Esces até que si0 mais que gente, Mat pelo menos s40 da Terra. 0 Sveglia ¢ de Deus. Foram usados cérebros humanos divinos 37 CCLARICE LISPECTOR Para captar o que devia ser este rel6gio. Estou escrevendo sobre cle mas ainda nao o vi. Vai ser 0 Encontro, Sveglia: acorda, mu- ther, acorda para ver o que tem que ser visto. E importante estar acordada para ver. Mas é também importante dormir para sonhat com a falta de tempo. Sveglia ¢ 0 Objero, é a Coiss, com letra maitiscula. Sera que o Sveglia me vé? Vé, sim, como se cu Fosse lum outro objeto, Ele reconhece que is vezes a gente também vem de Maree. : Soe Esto me acontecendo coisas, depois que soube do Sveglia, que mais parecem um sonho. Acorda-me, Sveglia, quero ver 1 tealidade. Mas é que a realidade parece um sonho. Estou me- lancélica porque estou feliz, Nao é paradoxo. Depois do ato do amor nio dé uma certa melancolia? A da plenitude*Estou com vontade de chorat. Sveglia nao chora, Alids ele no tem citcuns- tAncias. Serd quea energia dele tem peso? Dorme, Sveglia, dorme lum pouco, eu nao suporto a tua vigilia, Vocé ndo para de ser Vocé néo sonha. Nio se pode dizer que vocé “funciona”: voc nio ¢ funcionamento, voce apenas & Voce ¢ todo magro. E nada the acontece. Mas é voob que far acontecerem as coisas, Me acontesa, Sveglia, me acontesa Estou precisando de um determinado acontecimento sobre o Sialndo oso falar. Edisme de volta o deseo, que &a mola da Vida animal. Eu nio te quero para mim, Néo gosto de ser vigia- da. E voct é 0 olho tnteo aberte eae eatiolin liens espago. Vocé nio me quer mal mas também nio me quer bem. Serd que também eu estou ficando assim, sem sentimento de amor? Sou uma coisa? Sci que estou com pouca capacidade de amar. Minha capacidade de amar foi pisada demais, meu Deus. $6 me resta um fio de desejo. Eu preciso que este se fortifique Porque no ¢ como vocé pensa, que s6 a motte importa. Viver, coisa que voce nao conhece porque é apodrecivel — viver apo- rsendo impor muito. Um viver seco: um viver o essencial. Se ele se quebrar, pensam que morrcu? Nao, foi simples- mente embora de si mesmo. Mas voce tem fraquezas, Svgla 38 (ONDE ESTIVESTES DE NOITE Eu soube pela rua dona que vocé precisa de uma capa de couro para protegé-lo contra a umidade. Soube também, em segredo, que vocé uma vez parou. A dona nfo se afobou. Deu “a cle- nicle” umas mexidinhas muito das simples e voc nunca mais parou. Eu te entendo, eu te perdéo: vocé veio da Europa ¢ pre- cisa um mfnimo de tempo para se aclimatar, nao & Quer dizer ‘que voct também morte, Sveglia? Voce ¢ 0 tempo que para? Jd ouvi o Sveglia, por telefone, dar o alarma. E como dentro dda gente: a gente acorda-se de dentro para fora. Parece que seu cletrOnico-Deus se comunica com 0 nosso eérebro elett6nico- Deus: 0 som ¢ macio, sem a menor esttidéncia, Sveglia marcha como um cavalo branco solto e sem sela. Eu soube de um homem que possuia um Sveglia e a quem aconteceu Svegliz. Ble estava andando com o filho de dez anos, de noite, ¢ 0 filho disse: cuidado, pai, tem macumba af. O pai Fectiouu — mas nfo é que pisou em cheio na vela acesa, apagan- do-a? Nio parece ter acontecido mada, 0 que também € muito de Sveglia. © homem foi dormir. Quando acordou viu que um de seus pés estava inchado e negro. Chamou amigos médicos que nio viram nenhuma marca de ferimento: 0 pé estava intacto — 36 preto € muito inchado, daquele inchado que deixa a pele toda esticada. Os médicos chamaram mais colegas. E decidiram rove médicos que era gangrena. Tinham que amputar o pé. Mar- cou-se para o dia seguinte e com hora certa, © homem dormiu, E teve um sonho terrivel. Um cavalo branco queria agredi- lo e ele fugia como um louco. Passava-se tudo isso no Campo de Santana, O cavalo branco era lindo e enfeitado com prata, Mas 1ndo houve jeito. © cavalo pegou-o bem no pé, pisando-o. Ato homem acordou gritando. Pensaram que estava nervaso, expli- ‘cata que isso acontecia perto de uma operagio, deram-Ihe um sedativo, ele dormiu de novo, Quando acordou, olhow logo para © pé. Surpreso: 0 péestava branco ¢ de tamanho normal. Vieram (05 nove médicos ¢ nao souberam explicat. Eles nfo conheciam 0 ‘nigma do Sveglia contra o qual s6 um cavalo branco pode lurar. 9 CCLARICE LISPECTOR Nio havia mais motivo de operagio. Sé que no pode se apoiar nesse pé: fraqucjava. Era a marca do cavalo de arreios de prata, da vela apagada, do Sveglia, Mas Sveglia quis sr vitorioso € acon. ceu uma coisa. A mulher desse homem, em perfeito estado de satide, na mesa do jantar, comegou a sentir fortes dores nos intes tings. Interrompeu o jantar e foi se deitar. © marido preocupa- dissimo foi vé-la, Estava branca, exangue. Tomou-lhe © pulso: ‘nfo havia. tinico sinal de vida é que sua testa se perlava de suor. Chamou-se o médico que disse talvez ser caso de catalepsia, (O marido nio se conformou. Descobriu-lhe a barriga e fez sobre cla movimentos simples — como ele mesmo os fizera quando Sveglia parara — movimentos que ele nao sabia explicat ‘A mulher abriu os olhos, Estava em satide perfeita. E esté viva, que Deus a guarde. Isso tem a ver com Sveglia. Nzo sei como. Mas que tem, tein. F 0 cavalo branco do Campo de Santana, que é praca de passarinhos, pombos c quatis? Todo paramentado, com enfeites de prara, de crina altiva¢ erigada, Cotrendo ritmadamente contra 0 ritmo de Sveglia. Correndo sem pressa. Estou em perfcia sade flsica e mental. Mas uma noite eu estava dormindo profundamente e me ouviram dizer bem alto: eu quero ter um filo com Sveglia! Eu creio no Sveglia. Ele no cré em mim. Acha que minto ‘muito. E minto mesmo, Na Terra se mente muito. Ex passei cinco anos sem me gripar: isso é Sveglia. E quande ‘me gripei durou trés dias. Depois ficou uma tosse seca. Mas 0 médico me receitou antibidtico ecurei-me. Antibistico & Sveglia. Este ¢ um relatério, Sveglia nio admite conto ou romance © que quer que seja. Permite apenas transmisedo. Mal admite que eu chame isto de relatério. Chamo de telatério do mistério. E faco 0 possivel para fazer um relatério seco como champanha ultra-seco, Mas As vezes — me desculpem — fica molhado, Uma coisa seca é de prata de lei. Ouro jé é molhado. Poderia eu falar em diamante em relagio a Sveglia? o ONDE ESTIVESTES DE NOITE Nio, ele apenas é. E na verdade Sveglia no tem nome faximo: conserva 0 anonimato. Alifs Deus néo tem nome: con- serva o anonimato perfeito: nao hé lingua que pronuncie o seu nome verdadeito, Sea ie Barrcns onmeois eee agora dizer uma coisa muito grave que vai parecer heresia: Deus ase redaeeioee ee ee Poeaenae verdade que é de uma burrice que executa-se a si mesma. Mas Ele comete muitos erros. E sabe que of comete. Basta olharmos para nés mesmos que somos um erro grave. Basta ver © modo como nos organizamos em sociedade ¢ intrinsecamente, de si para si, Mas um erro Fle nao comere: Fle nfo morte. Sveglia também nio morre. Ainda no vi o Sveglia, como jf disse. Talver seja molhado vé-lo. Sei tudo 2 respeito dele. Mas a dona dele ngo quer que eu 0 veja. Tem citime. Chime chega a pingar de to molhado. Aliss, nosse Terra corre 0 risco de vir a ser molhada de sentimentos. O galo € Sveglia. © ovo € puro Sveglia. Mas 56 0 evo inteiro, completo, branco, de casca seca, todo oval. Por dentro dele é vida; vida molhada. Mas co- mer gema crua ¢ Sveglia ‘Querem ver quem 6 Sveglia? Jogo de futebol. Mas jé Pelé io ¢. Por qué? Impossivel explicar. Talvez ele néo tenha respei- tado 0 anonimato. Briga é Sveglia. Acabo de rer uma com a dana do telégio Eu disse: que vocé nio quer me deixar ver Sveglia, descreva- ime os seus discos. Entio ela ficou furiosa — ¢ isso & Sveglia — € disse que estava cheia de problemas — ter problemas nio € Sveglia. Entio tentei acalmé-la e ficou tudo bem. Amanhé no Ihe telefonarei. Deixarei ela descansar Parece-me que escreverei sobre 0 cletrénico ser jamais vé- fo, Parece que vai ter que ser assim. E fatal Estou com sono. Seri que ¢ permitido? Sci que sonhar nio é Sveglia. O niimero é permitido. Embora 0 seis nio seja pene Se eee ee 6 (CLARICE LISPECTOR Tive uma empregada por sete dias, chamada Severina, € que tinha passado fome em crianca. Perguntei-lhe se estava triste Disse que ndo era alegre nem triste: era assim mesmo. Ela era Sveglia. Mas eu nao era e nao pude suportar 2 auséacia de sen- ia € Svegli Su Mas agora vou dormir embora néo deva sonhar. ‘Agua, apesar de ser molhada por exceléncia, é. Escrever é Mas estilo nao &, Ter seios é. O érgao masculino é demais. Bon- dade nio €. Mas a nio-bondade, o dar-se, é Bondade nio é 0 posto da maldade. Estarei eserevendo molhado? Acho que sim. Meu sobseno- ime é. J4 0 primeiro & doce demais, € para 0 amor. Nao ter ne- tnhum segredo — c no entanto manter o enigma — € Sveglia. Na pontuagio as reticéncias nio sio. Se alguém entender este meu intevelado relatério e preciso, esse alguém é, Parece que eu no sou eu, de tanto eu que sou. O Sol é, a Lua nao. Minha cara\ é Provavelmente a sua também é Uisque & E, por incrivel que parega, Coca-cola é, enquanto Pepsicola nunca fol. Estou fazen- do propaganda de graca? Isto esté errado, ouviu, Coca-cola? Ser fiel €O ato do amor contém em si um desespero que é Agora vou contar uma histéria. Mas amtes quero dizer que quem me contou essa histéria foi uma pessoa que, apesar de bondosfssima, ¢ Sve ‘Agora estou quase morrendo de cansago. Sveglia —‘se a gente nto coma cuidade — mata. A historia é a seguinte: Passa-se numa localidade chamada Coelho Neto, na Gua- nabara, A mulher da histéria era muito infeliz porque tinha uma ferida na perna e a ferida no se fechava. Ela trabalhava muito e 0 marido era carteiro. Ser carteiro é Sveglia. Tinham muitos filhos. Quase nada 0 que comer. Mas esse carteiro que se imbuit. da responsabilidade de tornar sua mulher feliz. Ser feliz € Sveglia. F 0 carteiro resolveu a situacio. Mostrou-lhe uma a ONDE ESTIVESTES DE NOITE vizinha que era estéril ¢ sofria muito com isso. Nao havia jeito de pegar filho. Mostrou 4 sua mulher como esta era feliz em ter filhos. E ela ficou feliz, mesmo com a pouca comida. Mostrou- Ihe também o carteiro que outra vizinha tinha filhos mas © marido bebia muito e batia nela e nos filhos. Enquanto que ele aio bebia c nunca espancara a mulher ou as criangas. O que a tomnou feliz. ‘Todas as noites eles cinham pena da vizinha estéril ¢ da que apanhava do marido. Todas as noites ees eram muito felizes. E cer felia € Sveglia. Todas as noites. Eu quoria chegar & pagina 9 na miquina de escrever. O imero nove é quae inatingivel. © niimero 13 € Deus. M& na de escrever é O perigo dela passar a ndo ser mais Sveglia é ‘quando se mistura um peuco com os sentimentos que a pessoa ‘que estd escrevendo tem. Bu enjoei do cigarto Consul que € mentolado ¢ doce. Ja 0 cigarro Carlton é seco, é duro, € dspero, ¢ sem conivéncia com 0 fumante, Como cada coisa é ou nao é, no me incomodo de fax ter propaganda de graca do Carlton, Mas, quanto & Coca-cola, io perdBo. "Fa queto mandar ese rela6rio para a revista Senor e quero uc cles me paguem muito bem. se Como Yor julgue se minha cozinhira, que coz bem e canta o dia inteiro, €. ‘Acho que vou encertar este relatério essencial para expli- ‘ar 0s fendmenos enérgicos da matéria. Mas ndo sci o que fazer. ‘Ah, vou me vestir. ‘Acé nunca mais, Sveglia. © céu muito azul é As ondas brancas de espuma do mar so mais que o mar. (Jé me despedi do Sveglia, mas s6 continuarei a falar nele por vicio, tenham aciéncia.) © cheiro do mar mistura masculine ¢ feminine € nasce no ar um filho que é ‘A dona do rel6gio me disse hoje que ele € que ¢ dono dela. Ela me disse que ele tem uns furinhos pretos por onde sai © a CLARICE LISPECTOR som macio como uma auséncia de palavras, som de cetim. Tem tum disco interior que é dourado. O disco exterior € pratcado, {quase sem cor — como uma 2eronave no espaso, metal voando. Espera ¢ ou no & Nao sci responder porque sofro de urgéncia e fico incapacitada de julgar esse item sem me envolver emocio- rnalmente. Nao gosto de esperar. Um quarteto de mésica € muitissimo mais do que sinfonia. Flauta € Cravo tem um elemento de terror nele: os cons stem cafarfalhades ¢ quebradigos. Coisa de alma de outro mundo, Sveglia, quando afinal & que vocé me deixa em paz? Nao vai me perseguir por toda a minha vida transformando-a na claridade da insdnia perene? Ja te odeio. Jé queria poder escre- ver uma histéria: um conto ou romance ou uma transmissab Qual vai scr o meu ficuro passo na literatura? Desconfio que aio escreverei mais. Mas é verdade que outras vezcs desconfici ¢ no entanto escrevi. © que, porém, hei de escrever, meu Deus? Contaminc-me com a matemtica do Sveglia es saberc fazer relatérios? E agora vou terminar este relatério do mistério, Acontece que estou muito cansada. Vou tomar um banho antes de sair € perfurmai-me com um perfume que é segredo meu. $é digo uma coisa dele: € agreste € um pouco dspero, com docura escondida, Ele ¢. ‘Adeus, Sveglia. Adeus para nunca sempre. Parte de mim Yoeé ji marou, Eu morti¢ estou apodrecendo. Morrer E agora — agora adeus. O MANIFESTO DA CIDADE ‘ePor que nio tentar neste momento, que nao é grave, olhar pela janel2? Esta é 2 ponte. Este o rio. Fis a Penitenciria. Bis o relé- gio. E Recife. Fis 0 canal. Onde esté a pedra que sinto? a pedra que esmagou a cidade. Na forma palpivel das coisas. Pois esta é uma cidade realizada, Seu dltimo terremoro se perde em daras. Estendo a mao ¢ sem tristeza contorno de longe a pedra. Algu- ma coisa ainda escapa da rosa-dos-ventos. Alguma coisa se en- dureceu na seta de ago que indica rumo de — Outre Cidade. Este momento nio é grave. Aproveito e olho pela janela. Fis uma casa. Apalpo tuas escadas, as que subi em Recife. De- pois a pilascra curta. Estou vendo tudo extraordinariamente bem. ‘Nada me foge. A cidade tragada. Com que engenhosidade. Pe- dreiros, carpinteiros, engenheiros, santeiros, artesios — estes contaram com a morte. Estou vendo cada ver mais claro: esta € casa, a minha, a ponte, o rio, a Penitenciétia, os blocos quadra- dos de edificios, a escadaria deserta de mim, a peda. Mas eis que surge um Cavalo. Eis um cavalo com quatro pperas e cascos duros de pedras. pescogo porente. e cabeca de Cavale. Eis um cavalo. Se esta foi uma palavra ecoando no chao duro, qual € 0 teu sentido? Como é cavo este coragao no peito da cidade. Pro- curo, procure. Casa, calgadas, degraus, monumento, poste, tua indhistria Da mais alta muralha — olho. Procuro. Da mais alta mu- ratha nio recebo nenhum sinal. Daqui nio vejo, pois tua clareza os