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Francisco Juliao CAMBAO A FACE OCULTA DO BRASIL Recife, 2013 Copyright© by Francisco Julizo Revisto Anatilde de Paul Crespo Husteapies Acape e demas isstrapbes deste vo, so Fotografias de esultars do artista plistico Abelardo da Hora, que, com sua autorizagio, foram fetas especialmente para esta edigzo,em 12/04/2007. Fotografias ZdiZ sin Comurieagio 2ae@breubo.com br Fone: 81 3222 7087 agag0 Rua Liz Goimaries, 263+ Poso da Panela Resfe/PE+ CEP 52061-160 ‘Telefax: (81) 3205.0132 /3205.0133 emails Lagnco@bagaco.com.be swormbagacocom.br Je Julio, Francisco, 1915-1999 (Cambio: face oeulta do Brasil / Francisco Julio. ~ Recife: Bagago, 2013, (2° tiragem / 1" tiragem 2009) 269p. i Inelui cademo de imegens 1. JULISO, FRANCISCO, 1915-1999 - AUTOBIO- GRATIA, 2, LIGAS CAMPONESAS ~ BRASIL (NOR- DESTE) - ASPECTOS SOCIAIS, 3. CAMPONESES = PERNAMBUCO - VIDA E COSTUMES SOCIAIS. 4 BRASIL - POLITICA E GOVERNO. |. Titulo. CDU SAUL. DD 920 0320 ISBN: 978-85-973-0577-5, Impresso no Brasil - 2013 DEDICATORIA A Anatilde de Paula Créspo, in memoriam, filha do autor, falecida em 20 de abril de 2006. SUMARIO APRESENTACAO UMA PALAVRA 1. 0 ENCONTRO COM A VIDA 1.1 As raizes 1.2 Ainfancia e a paisagem 1.3 O nordeste e a paixéo 1.4 Os caminhos 2. 0 ENCONTRO COM 0 CAMPONES 2.1 O camponés e a humanidade 2.2.0 mundo do camponés 2.3 A filosofia do camponés 2.4 Religido, cachaga e capanga 2.5 O camponés do nordeste 2.6 Uma palovra ideolégica 2.7 O campesinato brasileiro 21 21 35 43 52 65 65 67 72 78 87 92 9 3. 0 ENCONTRO COM A LIGA 3.1 O nordeste e a liga 3.2 Aliga eo morte 3.3 Aliga e a lei 3.4 O comeco da resisténcia 3.5 A resisiéncia coletiva 3.6 Aliga e 0 exército 3.7 A liga e a igreja 3.8 A liga eo sindicato 4.0 ENCONTRO COM A AMERICA 4.1 Aimagem e a projecéo 4.2 Uma mirada pelo horizonte 4.3 Ontem e hoje 4.4 Che CADERNO DE IMAGENS 113 13 125 136 150 164 179 195 204 227 207 233 240 244 251 APRESENTACAO A publicagéo, pela primeira vez no Brasil, de Cambéo: A face oculta do Brasil, livro traduzide para 16 idiomas @ longado em némero bem maior de paises, de todos os continentes, inclusive na Suécia sob o titulo de "Oket...””, palavra que no idioma nérdico significa © jugo, ou canga, ultilizado em carrocas rudimentares de tragéo animal, vem preencher uma lacuna histérico. NGo quis 0 autor que o livro fosse publicado logo apés a onistic, e 0 seu retorno co Brasil, em 1979, por entender que © texto pouco contribuiria para © delicado momento politico de distensdo e abertura vivido, a época, pelo Pais. E tinho rozéo, 1 O titulo completo do livro em sueco &: "Oket: Brasiliens dolda ansikte”. N.E. ‘19 wo] A deciséo de adiar, por tanto tempo, a publicagée no Brasil de Cambéo..., foi tomada levando-se em conside- ragéo a assincronia existente entre os fatos relatados no texto e @ realidade vivida pela sociedade brasileira do- guele momento, de retomada gradual do convivio demo- cratico ¢ do restabelecimento do estado de direito pleno, ainda com etapas substanciais a serem vencidas, como a implantacéo do pluripartidarismo, dos eleigées diretos em todos 08 niveis e da convocagéo de uma assembléia na- jar apenas as mais importantes, cional constituinte, para momento aquele que néo comportava solavancos, que 6 livro, por seu contevdo radical e revolucionério, certa- mente, poderia provocar. A sua leitura, mantendo sempre em mente o contexto histérico em que foi escrito - fins da década de 60 -, daré ao leitor, qualquer que seja o seu viés ideolégico, a oportunidade de melhor usufruir do seu contetdo. Aié porque, & morgem de alguns desacertos que o processo histérico impés ao Cambéo..., néo poderiam ser desperdicades os riquissimos elementos sécio-antropol6- gicos e politicos da época contidos no mesmo. Elementos que foram resgatados na tentativa de compor © cenério sobre 0 qual se desenrolou a epopéia social e politica do surgimento das Ligas Camponesas. A maior parie deles resultado née apenas da interpretacao teérica do reali- dade descrita, mas da vivéncia do autor como menino de engenho, neto de senhor de escravos, que cresceu pisan- do na bagaceira do bangié, ouvindo o farfalhar dos ca- noviais, sentindo 0 cheiro do mel e da rapadura, 0 pao de agdcar nascendo & sua vista; e sentiv na prépria pele « desagregacao desse seu mundo anunciado pelo apito das usinas centrais, de caldeiras endiabradas e moendas pantagrvélicas. Mais do que isso, 0 autor descrave cam maestria o impacto que a mudonga nas relogées de producéo no campo causou sobre a vida das pessoas, com énfase so- bre a vida dos trabalhadores, identificando as herangas medievais prevalecentes nessos relacées quando a nosso incipiente agroinddstria canavieira tornava-se hegemé- nica. Mais importante ainda: consegue desvendar co lon- go dos capitulos mais densos, « consciéncia camponésa, esse pogo de mistérios que guarda, como éguas profundas, © imaginério do trabalhodor rural; sua viséo de mundo; sev individualismo; sua relacée com a terra, de que parece planta; sua religiosidade messiéinica; sua timidez, muitos vezes confundida com medo, quando no seu interior dormi- fa impévido um Cid Campeador; seu apego @ legalidade; sua relacéio com os asiros e as estrelas; sua copacidade de irda mais pesada inércia & luta destemida e feroz, quando tocado nessa sua consciéncia. Os desdobramentos politicos resultantes dessa andli- se, assim como alguns arroubos panfletérios contidos nas paginas deste livro, devem ser tomados cum granum salis, @ entendidos no seu devide contexto histérico, nfo porque que © autor os renegaria, néo! Mas, porque ele préprio, ancorado na mente dialética de que era dotado, foi capaz de revé-los criticamente, & luz da nova realidade em que se inseria nos anos pés-extlio. In rl E que a realidade coletiva, histérica, é qualitativamente diferente das nossas posturas individuais. Af esté 0 Brasil, dionte do enorme desafio de fazer uma reforma agrétia que de fato atenda cos camponeses brasileiros. Ai estéo 0s enfrentamentos armadbs e a luta de classes no compo, registrados dicriamente nos jornais e noutros meios de co- municagéo. Independentemente de suas eventuais distor- ges e erros na atualidade, o luta pela terra nao pode ser ignorada, até porque ela confinuaré acontecendo até que 0 Ultimo dos camponeses tenho acesso & terra, Dos textos originais de documentos produzidos pelo autor durante a sua luta, transcritos neste livro, como o Benca, Mae!, e da exposigéo de sua concepgéo geral da estratégia de luta definida pelas Ligas Camponesas, emergem também dois ospectos essenciais: de um lado, © fato incontestével de que as atuais organizagées cam- ponesas que |utam pela reforme agréria, como © MST, beberam na fonte daquele movimento, tornando-se sues herdeiras naturais; de outro lado, a certeza de que di- ferengas abissais separam essas orgonizagées, © sucs préxis, do enorme movimento de massas, com objetivos claramente revolucionérios, que foram as Ligas Campo- nesas. Finalmente, o Cambéo: A face oculta do Brasil nos traz a saga pessoal do cidadéo, pernambucano de Bom Jardim, Francisco Juliéo Arruda de Paula, advogedo, franzino, cabeleira alvorogada, bem-nascido, pai de fa- milia - Dona Alexina e filhos -, que renunciou a tudo, a absolutamente tudo, para, com a teimosia dos ilumina- dos, lutar por uma causa cuja grandeza era maior que o sua prépria, conquistando um lugar definitivo na Hisiéria do Brasil, ao lado dos nossos grandes préceres nos lu- fas contra a escravidao, pela justiga social e a soberania nacional. Anatélio Juliéo Recife, abril de 2009 Detalhe interessante: Sempre que folava sobre este livro, 0 autor fazia ques- to de lembrar que ele s6 foi possivel gragas a um belo gesto de solidariedade do inesquecivel Presidente do Chi- le, Salvador Allende, & época ainda senador, que, de pas- sagem pelo México, fez questo de visité-lo no cidade de Cuernavaca, onde, exilado, residia numa modesla casa de periferia. Allende, de quem era amigo fratemno, foi apresentar Ihe desculpas em virlude do Chile, assim como a entéo lu- goslavia € « Bulgaria, terem-Ihe negado 0 asilo politico, logo apés ter deixado a priséo onde, por alguns meses, dividiu a mesme cela com © Governador Miguel Arraes de Alencar. Allende, indignado com a negotiva do asilo politico © Juliéo, proferiu, no Senado do Chile, veemente discur- so de protesto contra o governo do entdo presidente Jorge Alessandri. [3 1 Ao sair, o senador deixou, discretamenie, no bolso de um surrado paleté, dependurado na sala, a quantia de US 1,000, com os quais 0 autor pode sustentar-se, enquanto escrevia, ¢ custear a impresséo do livro no México, pais que 0 ocolheu sem hesilagées. Nota: A presente edig&o é fruto do trabalho conjunto de trés filhos do autor: Anatélio, responsével pela organizacéo do volume e a apresentacéio da obra; Anatailde, que se en- carregou da revisio conforme o que estabelece 0 Acordo Ortografico da Lingua Portuguesa, j4 em vigor; e Anacleto Juliéo, que um amigo apelidou de “guardiée da meméria do pai", que, co longo de anos, recolheu e preservou com zelo materiais relacionados & vida, & obra e & atuagéio po- litica de Francisco Juliéo, reunindo um consideravel acervo documental ¢ iconogréfico, doado pela familia & Fundacéo Joaquim Nabuco, no Recife, para sua conservacao e cor sulta publica. UMA PALAVRA CAMBAO! Chispa que incendeia o campo, espoleta que faz explodir a carga, a velha carga, tao velha quanto o camponés, 0 servo, 6 também o sinal de partida pora uma longa e dura caminhada. Tem muitos nomes, bem mais do que os idiomas existentes, e dentro de cada um, muitos ape- lidos, querendo dizer sempre uma sé coisa: servidéol Nao vamos investigar sua procedéncia exata e muito menos se- guir sua trajetéria pelo tempo e pelo espaco. $6 isso daria um volume. Nem sequer nos seduz a idéia de acompanhar seus possos na regiéo onde tem esse apelido, o Nordeste do Brasil, e pelos sem-fins deste Pais sem fim, mudando de nome de um lugar para outro, ¢ até de latifindio em lati- fundio, como faz 0 delinquente, porque delinquente sempre foi e segue sendo. 15 No Nordeste de que falo, na zona da cana e da man- dioca, é vulgar e corrente, vulgarissimo e correntissimo, chamar de cambéo a haste ou 0 talo do milho seco, sem espiga © sem palha. Cambéo 6, ali, também o pau que se prende ao pescogo de ume és, e que ela orrasta entre os patas ¢ the manieta os passos. € ainda © que alrela com correias de couro cru a canga ao cabegalho do carro-de- bois. Boi Boi-de-coice 0 que sustenta, atras, © cobecalho. Cambao, finclmente, 6 0 dia de trabalho que o dono da terra exige do camponés, cada semane, pelo sitio que ocupa, um mi- serdivel sitio de um ou dois hectares, quando muito, se ¢ condiceiro, assalariade agricola, trabolhador bracal, jorna- leiro ou eiteiro. Mas se se trata de foreiro, orrendatério ou parceiro, é 0 que cada um desses entrega ao latifundiério, sem remuneragéo, durante ceria época do ano, além da renda paga em dinheiro ou em produto. le-cambéo 6 0 que puxa esse pau na dianteira. Se foi o cambao, a haste de milho seco, sem palha sem espiga, sem préstimo para nada a néo ser para 0 fogo, que dev nome o dia inttil oferecido, ou antes, arranca- do do camponés, como holocausto & fome insaciével dos deuses deste mundo; ou se essa servidéo se origina do pau que © boi arrasta entre as patas ou 0 prende co cabegalho, como 0 camponés arrasta a enxada ¢ por ela fica preso, @ vide inteira, a terra que nao é dele, porque dele é a maldi- ao; ou ainda, se tudo sucede contrariando a ordem natu- ral das coisas, nada disso deve cousar assombro. De toda sorte, pondo © milho de um lado, para sé falar do semo- vente, tanto o boi-de-camb&o como o camponés sem terra vivem © mesmo destino, jungidos, encangados, gemendo de esgotamento na faina que sé acaba quando um some pelo matadouro e 0 outro, de chao adentro. Cambéo, cambaio, cambeta, cambado, cambo, cam- bembe, cambito ou cambada, quem quiser que consulte os lexicos @ vera que tudo é uma sé desgraga, da cambada 20 cambéo, em que se fala de corja, de torio, de pau-de- nora, de perna fina ou de troncha ov de muitas outras c: sas, além do que jé disse, menos do principal: o trabalho gratuito, nem sequer a péo e agua, triste sintoma de que até os léxicos se omitem, por conivéncia ou por temor ao latifindio, que tem a idade do servidéo humana. © cambio & o comeco de tudo. O fim sera a morte definitiva, irremediével, total e absolute do latifindio, de modo que no reste uma raiz, uma batata, uma rama, um nédulo, uma semente, sendo brota de novo, se alastra e restoura seu reinado. Porque assim tem sido. A Liga Camponese extraiu do cambéo a sua chispa, a que Ihe acendeu 0 entusiasmo e Ihe deu vida, precisamente no Nordeste brasileiro, em que ele, como uma planta car- nivora, fincou sua raiz dura, junto com o primeiro rebolo de cana que 0 colonizador portugues levou para lé. Dat, © nome de CAMBAO, dado a este livro que néo pretende teorizar sobre a terra, o homem e todas as outras coisas de que se trata, mas, se tanto, revelar a face de uma sociedade em decadéncia, sufocada pelo peso de um sis- tema: 0 que engendra o latifundio, tolerado e alé cultivado pelo copitalismo, com a ajuda e a béncéio que vem de fora, sistema que permanece & margem da Histéria, como um Iv corpo estranho, um tumor enorme e feio reclamando bistu- ri; sistema que ofende como uma bofetada, que insulta as consciéncias projetadas para 0 mundo como uma flor que se obre pare o sol. E que ali onde medra 0 cambao, também vegeta o ho- mem, entre o orla maritima, onde se entulha e morre quase mois do que vive, e 0 Sertéo de caatingas ralas e dridos chapadées, numa luta tenaz e desigual que é menos com a terra do que com o dono dela, esse dono que j& nao se de- fine como uma pessoa fisica, porque se dilui cade vez mais na pessoa juridica da sociedade anénima, essa invencéio genial e diabélica do Capitalismo. Este quadro, de resto, néo & “privilégio” do Nordesie brasileiro, mas um esboco em miniatura da América Latina, com seus contrastes violentos, em que a geratriz é uma sé: «@ detengéo, pela minoria, das fontes noturais de riquezas e dos insirumentos de sua transformogéio, mantida com tal rigidez que resiste a todos os apelos e desafia todas as vio- lencios. Sim, a América Latina, projegéo continental do Nor- deste brasileiro, continua sofrendo, como o boi jungide & canga e o camponés escravizado & terra, 0 peso que vem de longe. Muda de nome o patréo, mas 0 feitor~o latifindio ~ per- manece, @ © regime 6 0 mesmo: a servidao, o saque, o roubo. Numa palavra, o CAMBAO! Noscido e criado na tradigéo catélica, vi no Cristionis- mo a orientagdo da vida, mas na minha regido sou tido pelos latifundiérios como 0 Anti-Cristo, « Besta do Apoca- lipse. Minha mée, catdlica fervorosa, devota daqueles mis- 05 que a Igreja canoniza e manda adorar, dev a seus oito filhos nomes de santos, sendo que as irés mulheres foram levadas 6 pia batismal com 0 de Maria, Nao salisfeita ain- da, pés entre o nome e o sobrenome de cada filho varao 0 do santo do dia. A mim coube o de Juliano. Embora conste no meu registro civil esse segundo nome ~ Juliano -, nun- ca 0 grafei assim, mas sempre adotei o de Julido, desde a escola priméria, quando ignorava que Juliano, 0 mais famoso e conhecido, 0 apéstata, 0 imperador romano, Desconhego a data do seu nascimento, mos & certo que DI néo foi a 16 de fevereiro. A hagiogratia fala de outro Ju- lian, o Hospitaleiro, mas nd Juliano, come estava grafado na folhinho, segundo o testemunho tranquilo, tantas vezes repetido pela minha mae, sempre que se levantava divide sobre isso. A festa de Julian, © Hospitaleiro, venerado na Espanha, se comemora a 12 @ néo a 16 de fevereiro. Nao hé de ser por uma questao de grafic, Juliano para Julian, nem por ume diferenca de data, 12 para 16 de fevereiro, que eu vé me deter aqui até que deixe esse assunto sufi- cientemente esclarecido. Um padre catélico, professor de teologia, a quem perguntei sobre a questéo, limitou-se a dizer que 0 dia 16 de fevereiro 6 consagrado a S40 Juliéio e a0s cinco mil mértires Os camponeses do Nordeste brasileiro, com quem convivi desde a primeira inféncia, nunca se preocuparam com essa distingéo. Os latifundiérios tampouco. Também no trago a curiosidade espicagada por isso. No fundo de judo, 0 que me sobra é a lembranga de minha mée, da- quela docura mistica na escolha dos nomes ungidos pela Igreja para os filhos por quem a sua vigiléncia cristé eo sentimento maternal zelavam, esperangosa de que o ca- minho de todos eles fosse uma alameda florida. Bem sei que as lagrimas vertidas em siléncio, com aquele esioi- cismo que a vida exige de uma mae, mais que de outras criaturas, seriam resgatadas se ela pudesse ter sentido na hora extrema, os olhos cerrados pelas méos de um filho padre ou de uma filha freira. Néo alcangou essa consola- 0, pois a Unica das trés Marias que poderia fazé-lo par- iu muito antes dela, com a sua coroa de virgem e todos os icos. Dos filhos, os que nao se rebelaram seus sonhos mi contra a ordem social e econémica vigente, permanecem inconformados. Do meu pai, que néo sobreviveu & noticia divulgada pela imprensa sobre meu “assassinato”, quardo a impere- civel lembranga do caréter reto e da firmeza de principios. Eis uma das lig6es que nos ministrava, quando ainda nos finho a todos pequenos em volto da mesa larga do chalé: “'Se um de vocés encontrar no seu caminho uma carteira de dinheiro, néo deve sequer apanhé-le, porque esse gesio pode acender a cobiga de ficar com ela. Passe adiante”. Aos oito anos de idade, quando se é como argila décil, o bom modelador pode imprimir-lhe as formas mais delica- das e definitivas. Hoje, quando recordo essa teira, pergunto a mim mesmo, com justificada razéo, se ela nao contribuiu decisivamente para ter, como sempre tive, jonto desprezo pelo dinheiro. liga da car- Como advogado, sustentei, gratuitamente em sua quase fotalidade, as causas que abracava, e uma vez em que firmei um contrato, o Gnico em 25 anos de profisséo, rompi-o dias depois, diante do consfituinte, sé porque ele 0 invocara fora de propésito. De outra feila, uma senhora «a quem defendera com sucesso deixou de vir trazer os ho- nordrios que, espontaneamente, estipularo. Fez mais. Pas- im na rua, dobrando esquinos ou metendo-se pelo primeiro pé de escada que encontrava. Um dia, néo resisti. Acelerei 0 passo, pus-me diante dela e disse-lhe: “Senhoro, néo se vexe por causa dos honorérios. O dinheiro 6 a Unica coisa que nao me faré jamais ter um inimigo. A injustica sim" sou a esquivar-se de 123 2a Aquelas e outras lices de meu poi, ligées radicais, em que o meio termo, a meia medida, a atitude equivoca, o claro-escuro sempre foram repelidos com intransigéncia, ever ter influido para que eu me tornasse um radical. Su- blinho: um radical, nunca um sectério. A distingéo é clara, mas hé quem, por ignoréncia ou, intencionalmente, para confundir, tome os dois termos como sinénimos. © radicalismo tem uma dimenséo: © homem. Um ho- rizont ‘éria. Um objetivo: a liberdade. © sectarismo nao. E que o sectarismo se encerra dentro de si mesmo e se comporta como um outigo. © radicalismo busca o essén- cia, 0 €mago, 0 cerne, « raiz dos coisas. Tem uma filosofia. E dialético. Quer © encontro, aceita © didlogo, participa. O sectarismo, ao contrério, € 0 monélogo, o desencontro, «@ exclusdo, a intolerdncia, 0 tudo ou nado. © radicalismo ama e v8. O sectarismo se apaixona e cega. O radicalismo descobre 0 homem e o identifica como a raiz dele préprio. E pare salvé-lo que néo concilia. O sectarismo sé vé a si mesmo. E imediatisia. E inconsequente. A ideologia prole- idria é radical. A pequeno-burguesa, sectdéria. Cristionismo, na sua esséncia, é radical, mas a Inquisi- <