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walter MURCH Jorge Zahar Ealitor ‘Rode Janeiro Prepare ete Rone Tes To gina Inked A ye (A Penpece onl Eng) Tia sina da segunda go srteameriana bled em 0 per Sima ames Pes, Teor Angle tao ad Cay ©1905, 200, Wer rch Capi ge es potas © 20 Iogear sri ru Mey 3 sobre osLt44 Bo dno, 8) eR) 1) 82125 a eer combe vie wm aahacombr Taos ov Si rade A repo esti dos i300 ta cn emp cn ode ets a 91098 Cap Sei Campane Ftd apa Soe Hone © Gt nas CAP-Bri Catsgason ore Sina Nac is Ets de ao Mach Wa, 11 Moen Nam ocd oa ai de lesa ice den mete! ‘Wale arch doco Jame Lis Rio de Jao fore Zahar a, 2004 “Tah dente Bink an ea pret 4 Fl iting) aN SEATON 1. Cinema LTH Sumario Apresentagao, por Francis Coppola Prefdcio 2 segunda edigio 9 Preficio& primeira edigdo 11 Cortese falbos cortes 15, Por que os cortes fancionam? 17 “Cortando pedagos ruins” 22 © maximo com o minimo 2 Aregra de seis 28 Pista falsa 32 Extrapolando os limites do quadro +4 Sonhando em dupla 57 ‘Trabalho em equipe: vrios editores 39 © momento decisive 12 Métodos e maquinas: mérmore e barro 49 Projegdesteste: a dor reflexa 57 Nao se preocupe, é apenas um filme 62 “Dragnet” 09 Uma galéxia de pontos piscantes 75 Posficio: Feigao digital de filmes: pasado, presente e futuro imaginstio. 79 sa trang evita de a pales sobre ego defies pro- fesida por Walter Murch na sala de mixager da Speer Fils, em Sidney, Austin, rm outubro de 198, integrando uma sie de ple teas onanizadas pela Comisso Anstaliana de Filmes Algunstrechos da patra tami foram ncados em una apre- sentago feta em fevereto de 1990 para os anos de ego dos pro- Fesores Barba e Richard Marks como pare do coma de graduagio da Escola de Testo, Cinema e Televish da Universidade da Califia (uct Ei 195, ofl eis inchs um posico para comple rmentar eaprofndar alguns tpios do testo origina. ‘© capil inal dese lio, "Gesamtkusthino, fl rginalme te publicado na seg “As and esses” do New York Time, em 2 de rmaia de 1999 Em 2001, posicio fe resto, a fim de efeitos xanga ee Tzados campo da ego digital. Apresentacao raves Conror, Napa, 1995 Pensar em Walter Murch me faz sori. Nao tenho muita cer- teza do motivo. Talvez pela combinacao de sua personalidade singular com a seguranga inspirada por sua competéncia, bondade e sabedoria.F um Gerald MacBoingBoing” cresci- do, ainda brincalhao enigmatico, mas dotado de grande inteligncia, Pde se também porque ele tenha sido um colaborador ‘esencial naqueles que fram prosavelmente os melhores fk mes em que trabalhci: A eonversagdo e © paderos chefio (parte 1). Guardo um carinho especial poressas obras, tam bbém por Caminhos mattragados, porque foram aquelas em ‘que consegui chegar mais perto do objetivo que tnhaestabe Tecido para mim mesmo quando jover: escrever apenas angumnentose rtetos originals. so foi algo que Walter sern- ‘pre me incentivon a fazer e que foi melhor alcangado quan- do trabalhei com ele. Maso proprio Walter & um objeto de cstudo: fldsofo € teérico do cinema ~ um diretr talentoso por mérito pessoal, o que se pode comprovar no belo (O mundo fantastico de Oz. Nada € to fascinante quanto pas- * Gent MacBoigBng¢ vn penonagen de deenbo ata.) mpc doe sar horas ouvindo as teorias de Walter sobre a vida eo cine ‘ma, além das insimerasparticulas de sabedoria que cle deiva pelo camsinho, como as migalhas de plo de Jo20 ¢ Maria: or entadorase nutiivs. Sortio, além disso, po semos to diferentes um do outro. Enquanto tomo decides instantineas baseadas apenas na ‘emogo ena intuigdo, Waller é ponderado, cuidadoso, meté- dco em cada paso que dé. Enquanto oscilo, como uma cor- rentealtemada de Tesla, entre 0 éxtase eo eeticismo, Walter 6 sensato,afetuoso, confiznle, THe genioso e intutivo quanto eu, é também equilibrado. ‘Walter é um pionciro como eu gostaria de ser, 0 tipo de pessoa que se deve ouvir com atengio e disso tirar proeito, Por tantas coisas, imagino,voc€ deve achar que eu gosto rex peito muito Walter Murch. Poistenha certeza disso. Prefdcio 4 segunda edigao ‘© ano de 1995 fai um divisor de guns para a edigdo de filmes, Foio tltimo ano em que o nimero de filmes montados meca- nicamente se igualou ao daqueles editados digitalmente. Er todos os anos subseqientes, a quantidade de filmes editados em sistemas dgitas eresceu, enquanto a montager mecini- ca foi proporcionalmente diminuindo, Até 1995 nenhum filme com edo digital havia ganhado um Oscar de melhor cedigio. No entanto, desde 1996 todos os vencedores foram ccitadosdgitalmente, com a notivel excegio de O regate do soldado Ryan em 1998. Aquele também foi o ano do langamento de Num piscar de olhos nos Estados Unidos, com um postico sobre a edigio digital na época, Fstava claro para mim ento que a comple- ta digtalizagdo do processo de edigao de imagens era inevitie vel, mas ainda ndo era dbvio quando iso aconteceria e eu ali- rmentava sentimentos ambigues a respeit da situaglo. (Na- ‘quela época me faltava experigncia com edigio digital, Eu havia editado pequenos filmes no Avid, mas ainda ndotinha’ feito um longs-metrager). Isso mudou no ano seguinte: comecei a editar O pacien: te inglés mecanicamente mas, por razbes que serio explicadas a0 longo deste listo, durante a produglo migramos para edie : 4 i «io digital, E todos os filmes em que tabalhet desde entio, incluindo a restauraga de Apocalipse Now € A marea da mat: dade, frat editados usando o sistema digital Avid _Dois anos e meio representam uma geragio na evolugdo dos computadores. Mais de duas desas geragdes eletrnicas se passaram desde 1995, ¢ ento achei que j era tempo de reavaliae 0 panorama do cinema digital, em particulara ed «digital de filmes, Conseqientemente, para esta nova ccisio do livo reeserevi completamente ¢ ampliei considens- velmente o posfcio sobre edigio digital, incluindo minhas experiéncias pesous ao fazer a transicio do processo mecaii- co para o digital e algumas premonigées téenicas ¢ para o segundo século do cinema ‘Warren Mune Toronto, juno de 2001 Prefacio a primeira edi¢ao Tape Suvi dora dar eceits ¢ esreveu bastante sobre ate deinterpeta. Como tisha um uledo dente dle, no era de speeder que exotase os otos 25 Aoinarer. Renita: oxmaztos edocs ler ¢ oncodiar, eo qe ie kam ra 3 gl de ogo ‘ner, erica baa ei eegeceram de qe Aeviam doranarse Enqunt iso aoa, Stains. qe ‘mca seg ot prio conselo, dng sn Apollon Munagt oro fone da atoria um Tehakoas, A «quem inka aprenddo alga 56 esta oui e pasa lant magia, gar Bergman Amaia das psoas busca ~conscente ou inconscentemen- te~etabelecer com o mundo um grade equilib harmo- nia inlerie. Caso constate, como Stavnsy,aexiséna de umn vuleodento desi, id compenséo por um certo comedimen- to-Pela mesina lia, alguém que abrigue una geleiradento de si pode precisir entegarse 8 emogio. O perio, alerta Beaguan,€ que wa pesonlidade glacial carente de emogao, poder er Stans er al apenas comestimento “Muitas das idias que se seguer, apesar de apresentadas sob a forma de palesta, so na verdade anotagies pessoais, métodos de trabalho que desenvols para lidar com meus pré- pros vuledese geleras. Como tas, so insights de uma pes- soa em busca de equilfrioe talver seam mais ineressantes, pelos lampejos dessa busca do que pelos métodosespcificos por ela produzidos. Gostaria de agradecer Ken Salons por colocar minha lsposigloa tanscrgio da palesta orginal e pela oportnida- de de divulgsta para um pablico mis amplo, Fiz agumas reviades meramente esliticas e acrescente’ algumas nots pars o que era, em grande parte, um dislogo extemporineo ene itn e meus alunos, quem agradeco pelo interes e patcipagdo. Tambérm atualzealgumas questes Unica € acrescenei um posicio que tata do impacto que a edigdo digital notinear exe no proceso de ealizagio de um fle Queria agadecer especialmente a Hilary Furlong (oa goa, da Comisso Anstaliana de Cinema), rsponsivel pela ‘minha ida 3 Aus, onde originalmente foi dad ea ples ‘Warren Mut Roma, agosto de 1995 Cortes e falsos cortes Muitas vezes oes extrema que mas nos ensinam sobre os estados intermedi: glo vapor nos revelam mais sobre a natura da dgua do que a propria gua verdade que qual quer fine que merega set eto vai ser nico que as eond- Bez nas ss lee realiza so to varies que seria um equ ‘000 falar em “ondiges noma"; Apacaipse Now fi, por qualquer eitéio quese tome ~cronograms oxgamento, amb io atsica, inovagoteenogia ~ 0 equitalente cinemato src do vapor e do glo. Considerando apenas o tempo que Jevou para ializaro file eu eii* a imagem durante wm, ano e pase ais wm ano preparando e mando o som), esa {oi a pieprducto mais longa de ur filme no qual ab talvez isso ajude a exclarecer umm pouco a idéia do que signif ‘cam ou podem significar “condigdes noma" en ngs, se 0 mes vero, oe, prs designa una eo de ‘mages ets ern computador un nota de neste. Empat ‘fen do noncclais, potnt blareos ag oer eda “Sificndo otal de grr ages, independetemente do proces sets (ST) "exelent ade no roe Richie Ma «Jy Greenberg cig eltande ava move nes qu te oles, em gta de 197, lar es dep de nce lage Tbalhac tn ge jr st na inves de 178 Richie en conti ago com (Slab de Ls Fructan ae que comecs a taalhar no som {Um dos motivos dessa demora fi simplesmente a quan- tidade de material flmado: 1.250.000 pés, o que significa um pouco mais de 230 horas. O filme pronto tem 2 horas © 25 ‘minutos de duragdo, portato, temos af uma escala de 95 para 1, islo 6, 95 minutos “nao exibidos” para cada minuto que ‘entros no produto final, A ttulo de comparagao,a mesa em files comercais € de 20 para | Transitar por este universo de 95 para I era como avan- sat lentamente por utna Mloresta dense, encontrar algumas clareiras, para, e em seguida penetrar de novo na mata. Em alguns casos, como nas seqiigncias dos helicépleros, havia ‘muita imagem de cobertura,e em outas cenas, comparativae mente, muito pouca, Acho que s6 as cenas do Coronel Kilgore davam mais de 220 mil pés. Como els representam 25 minutos do produto final, a scala af € de 100 para umn ‘Mas muita das cenas deligagdo tinham apenas uma toma Francis tinha gusto tanto negativo ¢ tempo nos grandes even tos que compensou fazendo 0 minimo de cobertura ‘Vamos pegar uma das grandes seqiéncias como exem- plo: o ataque de helicéptero em Charlie's Point quando toca A valqutria, ce Wagner, foi encenada como um acontecimen- to rel e portant flmado como dacumentiti,e n3o como tama série de cenas seguidasfitas especialmente para o filme Era uma coreografia em grande escala de homens, mquinas, cimerase cenérios~algo como um bringued diabdico que funciona sozinho depois que se aperta um botio. Asim que Francis dizia “acio", a filmagem parecia umm combate rea: ito eimeras rodando sin © (algumas no solo, ‘utras em helicdpters), cada uma carregadla com rolos de mil pés (11 minutos) Rana NNo final, nao havendo nenhum problema aparente, 4 pesigdo das cameras era trocada € repeliase a operacio, mais uma ver, e outa, Elescontiouavam até, imagino eu, acharem que tinham material suficient, cada tomada geran- «do em tomo de oito mil pés (uma hora e mela). Nenbuma tomada era igual 8 outta ~ muito semelhante ao processo de ‘uma filmagem documenta Finalmente, quando filme estava a salvo nos cinemas, sente’e calculi o mimero de dias que nds (os editores) inhi- ‘mos trabalhado. Dividi este timero pelo miimero de cores existentes no produto final e cheguei 4 médla de cortes, por editor, por dia: 147! Isso quer dizer que se soubéssemasexatamente para onde ‘stivamos indo desde o prinespio, teriamos chegado li gastan- do.o mesmo tempo se cada um de nds tvese feito menos de E tado no men banquinho de manhs, feito um corte, pensado ro préximo corte, ido para cas, vltado no dia seguinte, feito ‘corte no qual tinha pensado na véspera, feito mais um corte e votado para cas, levaria @ mesmo ano que efetivamente Tevei para editar a minha parte do filme. Visto que se leva menos de dee segundos para se farer wm corte © meio, © caso reconhecidamente especifico de Apo- calipe Now nos proporciona wma grande sensacio de alvio por confirmar hipétese de que, mesmo num filme dito “nor. ‘mal, 0 trabalho de edigio nao € tanto o de colar pedagas, ‘um corte e meio por tras paras, se eu tvesse sen- Anu de compar, mn Secon fem mt eres ord, caf ots ‘mas muito mais o de ackar 0 eaminho, de modo que um ed tor gasta muito pouco do seu tempo cortando € colando. CObviamente, quanto mais material houver para tabalhar, ‘nas alternativastém de ser consideradas, uma vez. que um 3 Teque de opgdes exige naturalmente mais tempo de consideragdo, Iso é verdade para qualquer filme com uma smédia alla de material filmado, mas no caso particular de ‘Apocalipse Now o problema foi maior em fungio da temstica dlicada de que tratava, de uma esiutura cuidadosae orig nal, das inovagées tecnologicas em todos os campos e da obri- gio que todos ot envolvides sentiam de fazer 0 melhor tae batho de que eram capazes. Etalvez,acima de tudo, pelo ato de se tratar, para Francis, de um filme pessoal, apesar do orga- mento caro e do amplo alcance do tema. Inflizmente pour os filmes retinem tais qualidades e aspragées. Para cada corte no filme fnalizado, houve provavelmente 15 faloos cores conte ets, consderados e depois desfetos ov retirados do filme, Mesto assim rstaram 1 horas € 58 mime tos dirias dedicadas a atividades que, das mais diversas mane ras, seriram para clareareiluminaro caminho 3 ness rete: projta, discutir,rebobinar, proetar de novo, reuir,elaborar cronogramas, fazer reajustes, tomar nota, cataloga,além de tefltr rite, Um trabalho enorme de preparaglo para chegar a0 breve momento da aco decisiva: 0 corte - 0 momento de transigdo de um plano para seguinte ~ algo que, por defini- ‘ao, devia, por ss, parecer simples e feito sem esforgo (sto, no caso de chegara ser percebid) Por que os cortes funcionam? Apocalipse Now, assim como qualquer filme de fiegao (2 excegio, talvez, de Festin diac, de Hitchcock), fi feito com a jungdo de muitos pedagos diferentes de filme, for- ‘mando um mosaica de imagens. O intrgante € que a jun- ho desses pedagos — 0 “corte” [eu], na tenminologia ameri- canal — parece realmente funcion: meso representando ‘um total einstantineo deslocamento de um campo de visio para outro (deslocamento este que, 3s vezes, aeareta un plo para frente ou para tris no s6 no espago, como tam ‘bem no tempo} ‘Funciona, nas poderia muito bem ser de outra maneira Nada er nossa experigncia de vida parece nos preparae para tal cosa. Ao contririo, do momento em que acordamos de. ‘mana até fecharmnos os olhos 3 nite a realidade visual que percebemos é um fluxo continuo de imagens interlgadas. De le copa pr dz sei, ca com rag de de ar c inperceptelnense colada pat das ops Je que mo have fe [Eenpoetupscala sen des em cone étude de um lao Syience "Faldo com la asain pce una stl eng em nos sg Now tum le € eta" que eliza separa ds pes, Na Res es Cri Btn ic a’ eis ang a fato, por mithdes de anos - derenss, centenas de miles de anos ~a vida na Terra transcorreu desta forma. Ent, de tepente, no comego do séeulo XX, os seres humanos foram Confrontados com algo diferent: o filme editado. [Nesas circunstincias, no sera de estranhar descobit mos que nossas mente foram levadas pela evolugdo e pela experiéncia a rejitar a edigao de filmes. Fosse esse 0 e280, 0 padrio seria os filmes em plano seqiiéncia dos irmos Lumitre, ou filmes como Festin diabico, de Hitchcock, Por imimeras razbes priticas (também artistas), ébom que ndo sein assim Averdade 6 que um filme est sendo efetivamente “corta- do” 24 veres por segundo, Cada quatro € um deslocamento do anterior. Acontece que num plano continuo, 0 deslocamen- to espagoltempe de um quadro para © outro & Ho pequeno (20 ‘ilésimos de segundos) que o pilico 0 vé como uma conti nuidade dentro de um mesmo contexto, em vex de 24 conter- tos diferentes por segundo. Por outro lado, quando o desloca- mento visual 6 suficientemente grande (como no momento do cote), somes forgados a reavaliar a nova imagem como ‘um context diferente, Milagrosamente, na maioria das vezes, ‘io tems dificuldade em faz, (O que nos parece cifcil de acetarsio 0s deslocamentos {que io sao nem suts nem gritantes: por exemplo,o corte de tum plano de corpo inteiro para outro un poueo menor emt que 05 atores estio enguadades do tomozelo para cima, Neste cas0, 0 novo plano ¢ diferente o bastante para assinalar que algo mudon, mas no 0 suficiente para nos fazer reavalan 0 seu contexto, O deslacamento da imagem no € continso, mas também no é uma mudanga de contewo, A colsdo des: sas das idéias produz uma confusto mental ~ um pulo—que, ‘comparativamente, toma-se incémodo.* De todo modo a descoberta, no inicio do séeulo XX, de «que alguns tips de corte “funcionavam’ levou-nos quase ime. diatamente 3 descoberta de que os filmes poderiam sr filma dos descontinuamente, 0 que foi o equvalente cinematogra 0 da descoberta do v6o. Na pritica, 0s filmes no seria mais (delimitados pelos flores tempo e espago. Se s6 pudés- semos fazer filmes juntando todos os elementos simultane mente, como no teatro, a gama de assuntos possves seria comparativamente menor. Entretanto, hoje a descontinuids- de impera: 6 o panto central na etapa de produgio de um filme e, de uma forma ou de outa, quase todas as decisdes to relacionadas a ela ~ como superar as dficuldades impostas por elaelow melhor aproveitar as vantagens que ela oferece® ‘Outro fator a ser considerado € que mesmo que tudo est- ves 8 disposcio ao mesmo tempo, sera muito cf mar * Ayactemente uma clmcia poe st movie Sm por it sem ue abe the fg deena pela anit Sunpesndenement, quo a ‘acon é mov Sms shea ids conmegem vena Hee em Fangio do tl elecaent do seu arb oad ent verdes de drei eo fazer cers. No eto, se cans or ovida {pena 2m a alas nance conden. O abet na Bee eee, cl nose wore e,cseqienerete,n ecenhe ‘lm pip cones ao vole das por alien «Be ag flocspge mio cde ein clea qu ase nce sapere bh "Quando Stanley Kabrck dig O imine, qa lr sm contin dete tds eee ates is don temp od. les poe ‘ode patente td 0 eto em Ele (Land) onto oro ‘cor smutaeent eo main l com stan promt, pelo Tempo qe foe necenir O lumina cot aseruma eco est sed scotia por qe or soe fc Tongos planos seqiénciae fazer com que todos os elementos fancionassem a cada vez, Os cineastas europeu tendem a fil ‘mar planos mais complicados que os americanes, mas, ‘mesmo em se tratando de wm Ingmnae Bergroan, ha um lie te para o que se consegue controlar: no finalzinho algum efi- to especial pode falar, alguém pode esquecer uma fla ou 0 fasvel de uma lampada pode queimar ea coisa toda tem de ser refeita. claro que, quanto maior 6 plano, maiores as chances de erro Ha portanto um grande problema logistco em juntar tudo ao mesmo tempo, e também uma difculdade séia fazer com que tudo “Funcione” todas as vezes. O resltado € que, por razbes priticas, nfo seguimos os padrées dos innios Lummigre ou de Fetim diabslico Por outro lado, além das questdes de conveniéncia, a des continsidade também nos permite escalher o melhor angulo da cimera para cada emogio e para cada momento da histé- ria, € esses planos, quando ealitados, provocardo um impacto crescente. Difcil seria fazer iswo se estivéssemos limitados 2 uma sucessdo conta de imagens; os filmes também nao seriam to precisos e aprimorados como slo.” A descontiiae vin, ¢ no fempor 2 caleriscs mas ines sunt cd ptr do Ea aio, Cada parte dcp humane ett for ‘1 dng mar crctetca «rela a cabs de pelo oc de ‘rae, bor pens de elo oe de ee endo ea jute age pots uma tesa ge. Hoe com ns prec ese eds {Lpenpestna sonra daguel pena rn parece crac “nas E posi qe num fat eto nes files, em 58 combina {es de Snguls frente cad i ma verelade”pr en cbt far eal, pregin eics€tots quant. FEstrapolando essas consideragdes, corar € mais que um nétodo conweniente de tomar continua a descontinuidade. em si, pela forga de sia paradoxal subitaneidade, uma influencia postiva na eriagdo de um filme. Usariamos 0 cote ‘mesmo que a descontinuidade nio fesse to dtl por sua prax ticidade, fato central de tudo isso € que os cores funciona. Mas a questio permanece: por qué? Acontece algo parecido ‘com 0 peixesaadr, que nao deveria voar mas voa ‘Voltaremos a ese mistéio dentro de instante “Cortando pedacos ruins” Ha ruitos anos, no nesoprimeio aniversro de easment, exe minha mulher Angie votamos a Inglaterra (ela € inge- sa, emboratenhaas nos casado nos EU) e pude eonhecer alguns de seus amigos de infinca “O que voce fz?” pergunton um dees, ao qu respond que tava estudandoedigio de les. "Ah, ego" die ele, quando se cortam os pedagos ruins” E elaro que figui (educadamente)enfarecido: "Frito mais que iso. Baiga0 € est a cor, a dindmica, a manipulagdo do tempo, todas essas cosas ete. ee..." O que ele tinha em mente exam filmes caeiros: “Opa, ese pedao ests ruim, vamos cortilo fora e colar o rest.” $6 agora, com 25 anos de estrada, pase arespeitar essa ingénwa sabedoria Porque, de cera forma, editar € mesmo cortaros pedagos ruins; 0 problema & 0 que é um pedlago nim? Quando voce st fazendo ur video casero a cimera treme, esse pedago € obviamente ruim € certamente voc’ vai cortélo fora. O objetivo de urn video cascto em geral € muito simples: ma gravacao de eventos desordenadas em tempo continuo. ‘objetivo dos filmes de narrativa € muito mais complex, tanto pela estrutura de tempo fragmentada como pels necessidade de teproduzir estados de espirito, de modo que se torna pro- Porcionalmente mais complicado identilicar que & um “pedag mim que im ex wm ile pode see bom ¢m outro, De so, uma das mancirs dese encaa proces s0 de eliza de um fie € pensar nele como uma busea para identicar~no filme em questo ~0 que € um “pedago rim’, Assim, o editor empenhse na busca para identicar cesses pedagose cots for, cwidando para que, 20 fré40, rio desta aestutura dos "pedagos bons” restates. (© que me leva aoe chimpanzés Hi uns 40 anos, depos de decoberta a etrtura de dhpllice do DNA, es idlogosacharam que tnhamy ua copécie de mapa para a aguteua genética de cada organs mmo, Faro qe nfo espera que a estatura do DNA se parecese com o orgs quc etvam etudando (ain como o mapa da Inglaterra se parece com Ingles), m «que cada ponto do organi, de cea forma, corespondes se um pontoequvalente no DNA ‘of o que descobriram, Quando come com ros fear surpresos ao descobrir que o DNA dos hua nas ¢ dos chimpanzéseram incivlmentepareids. Tanto aque ~ 99% idéntcos —eram inadequados para explicar as hv cferengs ent Ent, de onde vm a ifeenga? 0s bidlogos foram finamenteforgdos a rconhecer «que deveria her lguna outa cis ~ ands cm dacs que as hho DNA eran atsadas € orto com que es informagzo cm atvada a medida que o organism crea ‘Nov estigos niiais do desenvolvimento fetal € dif cstabelecr a diferenga ele embrides humanos € os de chimpans. Amid qe erescem chegim a um ponto em controlsse a ordem na qual as wirias informagées gu B ora pa que diferengas se tomam visives e, desse ponto em dante, cada ver mais claras. Tomemos como exemplo a excolha do {que vem primeir, cérebro oo eranio, Nos seres humans a prioridade € dada ao cérebro porque a enfase est em maxi- mmizaro seu tamanho, Podemos ver nutn recém-nascido que seu cxtnio nao esté totalmente fechado em volta do eérebeo que ainda esti creseendo, ‘Com os chimpanzés a priordade se inverte: primeiro o cnio e depos o eéebro, por razdes que provavelment ‘aver com o ambiente hostil em que nascem. O comando da seqiiéncia dos chimpanzés & "Preencha esse espago vazio ‘com o maximo de cérebro que puder” Hé um espa limi- tado a ser preenchido com cérebro pois, de qualquer ponto de vista, parece mais importante para o chimpanzé nascer ‘com uma cabeca resistente do que com um grande eérebro, Huma celagdo similar em uma lista infindivel: 0 polegar & os outros dedos, a postura do esqueleto, alguns ossos que se de um certo desenvolvimen- formam completamente an to muscular ete. Meu argumento é que a informagao do DNA pode ser ‘comparada a um filme e 0 misterioso c6digo seqiencial, a0 ceaditor. Voce pode sentar numa sala com uma pilha de eopides outro editor sentar em outta com exatamente @ mesino material: 08 dois far filmes diferentes. Cada um far esco- thas diferentes sobre como estraturslo, isto &, quando e em que onder soltar a vias informages, ‘Um exemplo: sabemos que a arma esti cartegada antes dde Madame X entrar em seu carr ou 36 ficamos sibendo clisso depois que ela esti no carto? Cada escolha cra um sen tido diferente para a cena. E 20 proceder assim vamos empi- Thando uma diferenga em cima da outra, Revetendo a com- paracio, podese olhar para seres humanos e chimpanzés ‘como diferentes filmes editados com 0 mesmo copiio™ Nao estou aqui atribuindo valores a um chimpanzé ow a ‘um ser humano, Digamos apenas que ambos estio adequados 0s seus respectivos ambientes: eu estaria desconfortivel balangando num galho no meio da floestae urn chimpanzé tara desconfortivel eserevendlo este lvto. A questio nda é 0 valor intrnseco dos dos, mas o fito de ser desaconselhivel mudar de idéia durante o processo de eriagio de um dos dois [Nao comece a fazer um chimpanzé e depois decida fazer dele um ser humano. lo produz um Frankenstein, uma colagem, € todos nés jd vimos seu equivalente no cinema o filme °X teria sido um filminho ber legal, totalmente adequado a0 seu “ambiente”, mas no meio da produgdo alguém superesti- ‘mou suas possibilidades e 0 resultado foi um filme chato & pretensioso, Era um filme-chimpanré que alguém tentou transformar em um filmeser humano ¢ que acibou no viranda nem urn nem out. (Ou entio o filme “Y", que era um projeto ambicioso que tratava de questes complenas edelicadas até que a produgao cordenou uma filmagem adicional repleta de acio e sexo e, como resultado, © grande potencial foi reduzido a algo ‘menor, nem humana, nem chimpaneé. * Segunda mesma Tags, 5 dhmpanns ea rats sfonde “copier aieenies “oan psig % O maximo com o minimo Nunca se pode jugar a qualidade de wma mixagem de som pela simples quanta de canis usados para prod, J foram prodidas miagens deplorveis a pari de 100 nai, Da mesa forma, misagens maavlhosas foam eliza das com apenas ts canis, Td depende das escohas ini cis que foram feta, da qualidade do som, eda capidade da mistradesses sons de despetar emogSes oc no cos <0 do pblico.O principio hisico €tenta sempre fazer 0 Iniximo con o nim (com énfse note") Vo? poe tio conseguirsempye, mes ete produc os mores eos ta caheca do esectaor com o menor nimero de cosas na tela, Por ue? Po ara conqustar imaginasio do publico~a sugesto sem pre mais efcente que a expoigo, Passa um cet pont, quanto mais voces xorg para ceric os detahes, mais encorja 0 piblico a ser espectador em vee de partcipante (mesmo pinipio se aplca para as wri teas de producio de um fine: tres, diego de ate, fotografia, ia, ig tino B, € claro que se aplica também ego. No xd de tlie que foi bem edad porque tem mito cots E pre ciso mais taba € mas dicerimento para deci onde do cotatningué tem que cortar apenas porque et sendo 1e voce quer fazer apenas © necesirio igo paraiso. O editor esti senda pago para tomar decisbes| , quunto a cottar ou nio,esté de fato tomando 24 decisdes por segundo: “no, 0, nlo, m0, mo, 0, io, no, no, Um editor hiperativo que muda de corte com freq 6 com um gi detrismo que no conse parade apn tar coisas. e ali em cima esti otto da Capel Sisina,€ aqui a Mona Lisa. Por flr nso, olher estes szlejos ¥ claro que quem participa de uma excarso quer justamen- te no, mass vezes a pesion que dar uma voltae decidir por si mesma 0 que oll. Seo guia, ito &, oer no etver sufcicntemente seguro para dear que, de ver em quando, a pessoas escolham o que querem ver, ou para debaralgue ‘mas coisas a cargo da imaginagio dela, ele estarétentando aleangar um objetivo (o controle absoluto} que acaba fr cassando, Em algum momento a pessoas se sent ppladase ieatdo resentidas com a pressio das mas suas eabegas is de Bom esl ier paar o min com omni fica a perguna: hi alguma forma dese descobce qual te minimo? pose tar da uma cone leg, pore aburdae dizer "no corte nad is que volamor20 nso primeio problema: fies so editads (codon) por tans pias também porque cova esa sdb treo dh veaiade~ pode ser uma erament i, Se aintengo€ cortar menos pose, quando teas que fe core, 0 que az dle um bom cote? A regra de seis A primeira coisa que se diseute em aulas de ediglo de filmes 6 algo que vou chamar de continuidade tridimensional: no plano A um homem abre uma porta ¢ anda até a metade da sala, Cotta para 0 plano B, que pega © homem do mesmo pponto e o acompanha até o fim da sala, onde ele se senta na sua escrivaninha, ou algo do genet. Por muitos anos, partcularmente no inicio da produgao de filmes sonorizads, a negra era esta, Era preciso fazer de tudo para preserar a continidade do espago tridimensional, «endo conseguilo era considerado fila de preciso e habilida de” Simplesmente nao se usava "pular” as pessoas no espace, exceto talver em situagdes extremas como lutas ou terremo- tos, quando havia muita acdo violenta Eu, na verdade, coloco a continuidade tridimensional no final de wma lista de seis eritérios que definer um bom corte Encabegando a lista ests a emogo, a tltima coisa da qual se fala em aulas de edigio (quando se fal, porque € coisa mais (0 proble deve rasoinapae evo ma lenis cn pie sie (Gasca iis cinern Conn ca eo guna saneaene erect sempre “sore no que di rope 3 oni el {cgi de com oo, lan tao eres ruins seo fo temp, dliicil de se definir lidar). O que vooe quer que 0 pibico sinta? Se cle sente exatamente 0 que voce queria durante todo mo que poderia fazer. O que ser ler: bradlo nao seré a ediglo, a clmera, as atuagBes ou mesmo 0 cenredo, mas como o piblic sent tudo iso. filme, wood fez 01 (O corte ideal (para mim) obedece simultaneamente aos seis eritrios que se seguem: 1) reflete a emogdo do momen to; 2) far o enredo avancar; 3} acontece no momento “certo”, i ritmo; 4) respeita 0 que podemos chamar de “alvo de ima- ‘gem (eve trace) ~ a preacupacio com o faco de interesse do espectador e sua movimentaglo dentro do quadro; 5) respei- ta a “planaridade” —a gramtica das tres dimens®es transpos- tas para duas pea fotografia (a questio da lina de exo, stage Tine, ec): €6)respeita a continuidade tridimensional do pré- pio espago (onde as pessoas esto na sala e em relagdo umas ‘com as outa) 1) ergo sie 2) emredo Be 3) sito oe 4) alo de imager % 5) plano bidimensonal da tela 5% 6) espaco tridimensional da acto * A emosio, no alto da lista, 60 que se deve tentarpreser vara tod custo, Se achar que deve saerificar uma dessas ses coisas para fazer uin corte, fag de aivo para cima, item por item. Por exemple vac estéconsiderando um Teque de pos siveis cortes param momento particular do filme e descobre 8 reg dese {que determinado corte transmite a emogio cera e faz 0 enre- do avangar ¢ €saisaério ritmicamente e respeita 0 alvo de imagem ea dimensdo dos planos, mas quebraa continuidade do espace tridimensional, este 6, certamente, o corte que deve ser feito, Se nenhum dos outs corts transmite a emogio cert, vale mais a pena sierfieat a continuidade espacial ‘As percentagens que colaquei depois de cada item 30 pouco precisas, mas node todo infundadas: os dois primeitos itens da lista (emog30. entedo) valern muito mais que os que tno ltimas (ritmo, alva de imagem, dimensio de planos e continsidade espacial) e, olhando com cuidado, vése que a cemogiio, que encabega a lista, vale mais que 05 outros cinco juntes. Na verdade, hi uma questo pica que é a seguinte: se ‘a emogio ests adequada,o enredo andou para fente de wma forma originale interessante no ritmo cert, 0 pblico tende «nao perceber (ou ignorar) problemas de edigdo de menor Jmpottincia tis como alvo de imagem, linha de exo, conti- ‘uidade espacial ete. O prineipio geral € que, stisfazendose (06 eritérios dos primeiras itens da lista, os problemas dos demas tendem a ser ofuscados, endo que oinverso nao 6 ver- dadeito, Pr exemplo: se o nvimero 4, avo de imagem, estver axdequado, isso vai minimizar © problema com o mimero 5 (linha de exo), masse 0 imero 5 (linha de exo) esiver cor eto e 0 miimero + (avo de imagem) nao for levado em consi: deragdo, 0 corte nao sers bemsucedido. [Na petica 0 tes primeirositens da lista ~emogao,ente- do ertino~ estiointimamenteligados, As forgas que os man- ‘tém unidos sko como a ligagdo dos protons © néutrons no rnicleo de um stoma, Essas so, de Tonge, as ligagBes mais coesas, ea forca que conecta os outros tr vai diminmiindo 3 medida que se desce a lista. [Na maioria das vezes conseguese stistazer as seis rit ¥ios:espaco tridimensional, plano bidimensional da tela, li ‘nha do olhar, itm, enredo e emogio vio se acomodar. Ese, € clato, € 0 objetivo sempre que pessivel ~ mines aceite menos quando € posivel conseguir mais. (© que estou sugerindo & uma escala de priordades. Se tiver que abr mao de alguma coisa, nunca abra mao da emo- ‘glo em beneficio do enredo. Nio abra mio do enredo em beneficio do ritmo, no abra mio do ritmo em beneficio do alvo de imagem, no abra mao do also de imagem em bene ficio dos planos e ndo abra mao da dimensio dos planos em bbeneficio da continuidade Pista falsa Reforgando essas consideragdesestéo que devera sera prin- ‘Spal preocupagio de um diretor: colocarse no lugar do pico. © que o pablico estaré pensando em determinado ‘momento? Para onde iri olhar? O que vocé quer que ele pense? Em que precisa pensar? E, é claro, o que voee quer {que ele sinta? Se voc® tive isso em mente (e essa a preocu- pagio de todo mégico) estars sendo uma espécie de migico. Nao no sentido sobrenatural, apenas alguém que trabalha com isso no dina ‘Atarela de Houdini era despertar curiosidade mas, para falo, precisava que ninguém olhasse para ali (2 ditita) ‘onde ele estava se soltando das correntes, tna de achar um ito de fazer as pesoasolharem para ld (@ esquerda). Recorria ‘eno 3s “pista falas’, como dizer os magicos, fazendo com ‘que 99% das pessoas olhassem para onde ele queria. Um edi- tor pode e deve fazer isto. No entanto, as vezes voeé pode ficar preso a detalhes e perder a visio do toro. Geralmente, quando iso acontece ‘comigo, & porque estava vendo a imagem como a {que é na sla de edigao em ver de pensar na parede em que se transforma quando projetada nas salas de cinema. Umi ‘coisa que fz com que voc® volte a tera perspectva correla & imaginarse bem pequeno ¢ a tela bem grande, fingindo que nia ‘st assitindo ao filme naizado nur cinema de wil lugares Jotado e que ndo hs mais nenhuma pesibilidade de mever no resultado. Se ainda assim, voce gosta do que est vendo, pro- ‘vavelmente est tudo bem. Caso contro, éprovivel que iso the dé una idéia mais clara de como contig o problema, sea cle qual fr. n dos pequenostruques que uso para me ate dara ating esa perspectiva € recrtar bonequinhos de papel umn homem e uma mulher = colocar um de cada lado da tela de edigootamanho dos bonecos (de apenas alguns cen- timetos) 6 proprcionalmente coeto pata fuera tela pate- cer ter nove metros de lng pata Extrapolando os limites do quadro cet é uma das poucas pessoas que trabalha na produgio| de um filme e na sabe as condigdes exatas nas quais ele fo filmado (ou tem a eapacidade de nfo sabe tempo, exerce enorme influencta sobre filme. Se 0 editor esteve no set @ maior parte do tempo ~ como cativeram os ators, o produtor,o dretor, o eimera, 0 diretor de arte ete. ~ pode se deixar envolver pelos aspects priticos “sangrentos” da “gestag2o"e do “part”. Quando, entdo, asi te a0 copito, no consegue deixar de ver, com 0 olho da mente, @ que extrapola 0s limites do quadro ~ 20 contro, consegue recapitular tudo 0 que estava acontecendo, tudo 0 ue, fisica e emacionalmente, estava além do que foi efetiva- mente flmado. “Trabalhamos pra caramba para filmar esa cena, ela fem «que eta no filme.” Nese caso o diet estéconvencido de que conseguit 0 que queria, mas pode ser que esteja fazendo um ceforgo para achar iso por tercustado tanto ~ em angst, tempo e dinheiro — para chegar I ‘Da mesma forma o dietor também pode mio gostar de algo que flmou, quando todos estayam de mau humor, ¢ dizer sob protests: "Tado bem, vamos fazer isso, pegar esse close e papo encertado.” Tempos depos, ao olhar para a cena, sé consegue lembrar do péssimo momento em que fo filma da, Nesse caso, pode deiuar de ver 0 potencial da cena em: ‘outro context. editor, no entanto, deve tentar ver apenas 0 que esté na tela, asim como o pablicao fark. Este €0 tinico jito de dex vincular as imagens do contexto de sua eriagi0. Mantendo o foco na tela, & ito pasivel que o editor utilize os momen tos que dever ser utilizados, mesmo que tenham sido filma dos sob presso, descarte momentos que devem ser descar- tados, mesma que tenham custado uma enor dinheito esofimento, Tenho a impressio de estar advogando pela presersagio cle uma certa pureza, Nio se deixe impret ade em desnecessariae ‘mente pelas condigbes de filmagem. Mantenhase a par do ‘que esti acontecendo, mas tente fcar 0 mais ditante possive de problemas especfics, pis, em siltima anal, o pubblico iio sabe nadia sobre isso e voo8 € 0 ombudsman do piilico. Certamente, 0 ditor € quem mais tem famliaridade com tudo o que aconteceu durante a filmagem, sendo por tanto.o mais afetado pelo excesto de informagio que extapo- 1a os limites do quadro, Depois de encerradas as flmagens € antes de o primeito corte estar pronto, a melhor coisa que © diretor pode fazer pelo filme é dizer tchau para todos e dese parecer por duas semanas ~ ir para as montanhas, para a praia, para Marte, para qualquer lugar ~ e tentar descarregar Onde quer que ese deve tentar, na medida do posvel, tenham absolwtamente nada a ver com 0 filme. F dificil, mas necessirio, eiar uma barreira, construir um moro intransponivel entre a flmager e a edi «io. Depois das filmagens Fred Zinnemann costumava esca- pensar em cosas que i i lar os Alpes apenas para se colocar numa situacio de risco de vida em que fos obrigado a estar ali, evtando assim deva nea sobre os problemas do filme. asadas algumas semanas, descia dos Alpes e punha de ‘nove os pés no chio; entava sorinho numa sala escua,lga- va oprojetor easistia a seu filme, Continaava a caregar com sigo aquelas imagens que extrapolam os limites do quadro (um ditetor no seré rumea verdadeitamente capaz de esque cE as), mas, se ivesse ido dizeto da filmagem paraaedicio, a cconfusio sera pior e ele teria definitivamente misturado os dois diferentes processos de flmagem e de edi, aga o que estiver ao seu alcance para ajudar o direlor a cexguer esa bartcira para si mesmo a fim de que, quando asis- tir ao filme pela primeita ver, ele pasa dizer: “Bor, vou fine gir que nio tive nada a ver com esse filme, Hi muito trabalho pela frente, vejamos o que precisa ser fit, Assim, voeé fard © possivel para separar 0 que deseja daquilo que de fato existe, munca abandonando seus sonhos ‘mais ambiciosos para o filme, mas se esforgando a0 méximo para ver o que eftivamente esti 2 tela Sonhando em dupla Um editor de filmes desempenha, sob vitios aspectos, 0 ‘mesmo papel para o diretor que o editor de texto para o escri- tor de um livto ~ encoraja algamas atitdes, desaconsetha ‘oultas, discute a possbiidade de incluir wm material espect Fico no trabalho terminado ou a necessidade de se actescen- {armaterial novo, Mas, em iltima intincia 60 escritor quer poe as palavras em order, Em um filme, porém, 0 editor tem de ato a responsabil- ddade de juntar as imagens (quer dizer, as “palavras") nur certa ordem e num certo rtm, Nesse caso cabe a0 dretor aconselhar do meso jeito que fra para um ator interpretar tum papel. Parece entio que a relagdo ene o editor eo dice: tor de um filme varia durante o projelo, o mamerador se trans- formando em denominadore vicevers [Na terapia através dos somos hi uma técnica em que o paciente, aguele que sonha, tabalha em dupla com alguém ‘que owe o sono, O mais ripido possvel depois de acordar, 0 sonhador se junta ao ouvinte para contaro sonho da véspera, Matas vezes nfo hi nada, ou apenas a lembranga de uma imagem decepcionante, mas iso € 0 suficente para comegat ‘ processa. Uma ver desrita a imagem, 0 trabalho do ouvine te € sugerie uma seqiéncia imag baseada naquele fragmento, Se, por exen de acontecimentos so, aTembranga se resume um avido,o ousinte sugere imediatamente que deve ter sido um avi de passageiros sobrevoando o Tait carreg do de bolas de golfe a caminho de um tomeio na Indonesia, Assim que the 6 oferecida esa desrigdo, 0 sonhador retruca: "Nao, era um bimator,sobrevoando os campos de batalha da Franga,e Anibal estaa atirando neleflechas de sua lego de clefantes” Em outras pala, o sonho, oculto na meméria, aparece em defesa propria revelando-se quando se é ammeaga do por outra versio, Essa revlacio sobre bimatorese elefan- tes pode levar 0 ouvinte a elaborar ma nova improvisaci, que levard a outro aspecto do sonho encoberto, ¢ asim por lante até que transparega o maximo de informacio possivel A elagio entre odiretor eo editor éparecida, consideran- dose que o diretor & geralmente o que sonha € 0 editor, 0 fouvinte, Mas mesmo para o dietor mais bem preparado hi Timites para a imaginagio ¢ a meméria, particularmente no nivel das minicias. E portanto trabalho do editor propor ‘oper altemativas como iscas a fim de estimular 0 sonho adormecidoa se erguer em defesa propria erevelarse em sua plenitude. Essas opedes podem desdobrarse em grandes pro- porgdes (seri que tal etal cena devem ser retiradas do filme para o bem do conjunto?) ou no detalhe mais espectfico (sera ‘que esse plano deve tenminar nesse quad ou no seguint, 1124 de segundo depois). Porém, s vezes o editor € 0 sonha- ore diretor é 0 onvinte, aquele que joga isa para instigar 0 sonho coletiv a tevelar mais des. Pergunte a qualquer pescador e le dei que a qualidade da isca determina o tipo de peixe que voce pega, Trabalho em equipe: varios editores ceitor nao colabora apenas com o dtetor. Freqientemente dois ou mais editorestrabalham a0 mesmo tempo, as vezes, ‘com a mestna autoridade. sso pode parecer estranho para muita gente, jd que o mesmo nao acontece com dietores de fotografia ou arte. Numa produgio € comum a contratagio de varios editors e isso tem dois motives: primeire 0 perfil soliditio dos editres¢, segundo, o ato dos prazos de pi-pro- ‘duglo no serem to impl ‘quanto durante a produgio, Em is nas suas conseqincias ros filmes taba, e gos tei da experigncia, com a colaboragio de outros editors: Acorersapao, Apocalipse Now, A insustentave leveza do sere ppoderoso chef (parte I) A principal vantagem de se trabllar em eqipe é a rapi- er; 0 principal risco &a falta de coeréncia. Quando se tem, mais de 350 mil pés de material filado (65 horas, € preciso comer esse isco € ter dos eitores ou, pelo menos, mais um editor tabalhando sob supervsto. Problemas podem sot ro caso de se ter apenas um eiitor ¢ ele desenvalver wna visio intransigente acerca do material so ¢ partcularmente problematico quando ditetor e editor nunca trabalharam jun- tose nao tém tempo de desenvolver una linguagem comin, Neste caso também pode nilo ser ma idéia considera taba tha com wtioseditores 0 poderaso chefdo foi o primeito filme no qual Francis trabalhow com dois editores. Originalmente havia um $6, ‘mas o problema da intransigencia se agravou e 0 editor foi dispensado depois de virios meses. Tomouse a decisto de reconstituir 0 que tinha sido feito até enldo e recomecar Porém, como aqueles meses haviam sido efetivamente perdi dos, parecendo que o filme ficaria com quase tes horas de dduragdo e havia um prazo inadivel,fazia sentido contratar dois editors. O filme ainda estava endo rodado e ji ha snuito trabalho a ser feito: cada editor tina o equivalente a 90 minutos de filme para terminar em 24 semanas. Dife- renlemente de O poderoso chef (pate Il) e de Apocaipse, ‘ trabalho foi efetivamente dvidido pela metade. Bll Rey- nolds editou a primeira pare ¢ Peter Zinner, a segunda, Hi ‘um momento especifico onde termina a parte de Bill € co- mega a de Peter. [No Pederaso chefo (parte I), apesar dea responsabilida- de pela ediglo ter sido dividida como num tabuleiro de sadrez, 2s cenas exam inicialmente trabalhadas pela mesma pesca” Quando Francis eomecou a brinear com a estrutura do filme, as pessoas se viram mexendo no que outos jé haviam editado, CO ucro de um filme de 25 miles de dares € de cerea de 250 mil por més. Se ter dois eitores pode ajudaro filme a set langado um més antes, eles trdo pago boa part, se no 4 soma total, de seus salirios pelo trabalho no filme inti. "Os eto de O pad chef pte fram Pee Zine Bary Malin Rnd Ma A questio é simplesmente aonde se quer chegar no tempo ‘que se tem dsponivel. Terminar com ma média de 147 corte por dis, como fizemos em Apocalips, significa que mie tas avenidas foram exploradas antes de se chegar ao produto Final. Se € isso que voce quer fazer, é provivel que precise de mais de um editor 2 © momento deci: Quando Phil Kanfinan estvaflmando A insustentave levera do ser na Franga, eu estavaeditando em Berkeley, California =a 9.500km de distinc, A cada duas semanas, aproximada- mente, eu tecebia 0 copido, sentava eassistia a de horas de filme, fizendo anotagies, vetificando se estava sineronizado, decupando o material ete. Além do procedimento normal, ainda selecionava pelo menos win quadeo representativo de cada posigdo de cime- ra fotografavao. Em seguida fotos num laboratério “I hora", como se fosser fotos de familia, ea colocivames em painéis de acordo com a cena, ndavamnos revelar ess Sempre ue os planostinham uma encenagio mais comple- xa on uma cdmera em movimento, ea preciso tar mais de tuna flo (acho que o maximo que ite para A insustentavel foram sete para uma cena de festa muito eomplicada) ~ eralmente trava tes, mas, na maioia das vezes, apenas “Tinhamos que usar um negative especial para fze esas fotos porque © negative normal prodz muito contaste. A relocidade do filme ¢ lenta ~ ASA 2 mais ou menos ~ € 0 tempo de exposiao tem de ser grande, mas funcionava ben as flos eam bastante pednimas em cores e contest em ela ao file As fotografia so de grande aud nas acu poste tes com odrtor sobre o que fade e como, slicionane do rpidament ee tipo de discus, Serem também como regis de alguns dtalhes que dkesafiam a habilidade do melhor contin particular des do cote decabelo de um ator, alguma pcularidade do fgurno, ocolainho que sbe ou desce, 0 qo res ests a pele de alm, urna marca na esa que aparceu quando se fron um chapéu ~ esse tipo de coisa, ‘So também uma ima font de ecuss para a dvulg- <0 on par alguém que ene nomena capa posterior 2flimagem, Voce pode ohare cna refeéncas dos persone gens nos mais diversas estadosemocionais e compa a fo- sai, o guna eo endo, Alem dso, em nga a forma em que so dispostas, s fotografia se relacionam ente si de forma interesante, Em A itt! aos, gars, 16 pain de fotos, 130 fo tosem cada pane cada painel foi ongmizado com a pi rade um io: as fotos da esque era “Tid” pra act tae depois, na linha segint, ds exquerda para a dita de ovo et, exataente como na Feta de wet, ane do se chegiva ao final de um panel, voc ia pars 0 alo do sequinte ina prime linha ete. A jungio entre ess pang cea coi interesante dese er porque jstapaha cenas Ge apesar de munca fren sidopensadas juntas, etavar a, Jado a ado, Ar veres surgi da gums idea, o que nos leva pensar em algunas cots, pulos de dio, nos quis do terms pensao sem ese ses. “Mas para mim o trunfo das fotos era que elas se transfor- ‘mavatn em hierdglifs para a linguagem das emogbes Que palavraexpressria 0 conceito de raivairinica com uma ponta de melancolia? Nao hi palavra pata isso, pelo mens no em ing] fica representada nama fotografia mas € posiel ver esa emogo expect Afoto pore também representar um tipo de antecipacao rneross: a personagem esté amedontads, ao mesmno tempo cexcitada € confuss porque sente desejo por outra mulher. E esta mulher esti dormindo com 0 marido dela, O que isso significa? Seja 0 que for, eta li, na expresso dela, no angulo da cabeca com o cabelo eo pescaco e ra tensio dos muscles, nna posiglo da boca e nos olhos dela, Basta apontar para a expressio do rosto de um ato estardo superadas as dificulda- des da linguagem ao lidar com a sutileza dessas emogdes intraduziveis. O editor eo diretor podem dizer. “Esso que ew quero, AseqQncia na qual estamos trabalhanndo deve ter mais diso aqui entendeu? Quero que ela incorpore as indefinives, porém ber conhecias, emogdes que veja nessa fotografi A pati dat o trabalho do eto serio de esclher as ima gens certas e colocas em sequéncia na medida certa para ‘expressr algo semelhante a que fo captado naquels fotografi Ao escolher um quadro tepresentatvo, que se est pro- crurando & uma imagem que sintetize a essencia dos milhares de outros quadros que formar a tomada em questo, Eo que CartiesBresson — referindose & fotografia — chamou de ‘momento decisivo”. Acho ents que, na maior das vezes, {imagem que escotho acaba entranda no filme e, na grande ‘maori das vezes, bem perto do ponto de corte ‘Quando se assist an copido, hd uma armadilha parecida com uma na qual se pode cair durante os testes de elenco, ois quaos de Tees (alte Binoche) em A insistetivelleveza do sex. Ornmer det digas embuito 2 eguerda 20,296) rere asp de mer do plano de nde fos tad 0 ime 1 retngul adjacent ao 620 identifi laa dewe quad guacho mua ride des, Daas quai de Sabina (Lea Ola) em A insustentivelleveza dose (sisters manic aqui 0 memo das feted Tess. Ambo os qu rs forum tides da egéeia que mods a eto imprvisaa de fotos de Sabina e Teresa Dit quados de Terese A insustentivel Ievera do er. No caw cdo miner 2, um qua fo sfcente pra dar ma ida compet do rc de ts ote — das quai eta & segunda ~ om virude ds noturececomplesa do plano, Este vem da plano, No entanoo miner 6 ‘mesma cena da foto 6 de Sabina os dois quao xe sonal do fle. sam pti ol pe qi nnd pl pt, te ded (Caconanems enue cew apni oet£ putador. Ese foi a inovagio fundamental tanto para 0 Avid ‘como para 0 Lightworks, que podem ser considerados “i taleletronicos” Por terem tudo ~a midiae as informaes sobre ela~ "sob ‘omesmo teto”, esses sisters gia earn naturalmente mais cficientes,produtiv eflexiveis que seus precursors analégi- os. E os proprios editores podiam digitalizar filme de forma tipida € eficiente pasando 05 copides para video, em vez de terem que mandaro filme para um servigo profsional de ‘opiagem para discos laser ou para viras itas de VHS. As méquinas digitas foram muito eriticadas no inicio por terem uma imagem de qualidade inferior as dos discos laser do EditDroid, por exemplo, mas como o prego das memérias de disco rigido caiu vertginosamente durante os anos 1990, a qualidade da imagem digitalizada melhorou proporcionalmente, a ponto de, tanto 0 EditDroid quanto 0 Montage, terem cada vez mais dificuldade de enfientar a cconconréncia, Entrelanto, apesar de todo ese desenvolvimento nos si temas de edigzo, em meadas des ans 90 vimo-nos estagnados numa demorada “fase de transiglo” eletromecdnica ~ que ddurou mito mais do que eu poderiasupor ao me deshumbrar com o sistema CMX em 1968. Afinal de contas, 2001 estava logo ali, os LPs de 33 rotagSes jf eram, as maiquinas de esere- ver tinham sido universalmente substitudas por processado- res de texo, eI estamos nds ainda ouvindo o ra da ent seta da Moviola, com o chao da sala apinhado de pedagos de filme aranhado e coladeiras, fitas adesivas, banheira e pis _gordurosos por todo lado, Acredito que a tomacla de conscién cia desse estranho atraso tecnolgico foi uma das presses pi col6gicas que mais impulsionaram a edigio elettnica. A per- manéncia da Moviola na iltima década do século XX € to surpreendente quanto ver, nes dias de hoje, alguém colocar ‘uma velha maquina de escrever numa nave espacial (O que estava acontecendo? sti dil de os Problemas no desenvolvimento Objetvamentefalando, os primeios sistemas de ediglo nao- linear estavam exgotados, principalmente levando-se em con tua imensa demanda dos filmes de longa-metrager para a azenamento © processamento nos computadores. Além disso, as dificuldades de se transfert o filme para esses siste- mas, © depeis retiéslo com seguranga, eram consideravel- mente subestimadas, +a capacidade de meméria das primeiras méquinas noe Tineares er imitada, Simplesmente mio se podia armaze- nar o filme inteiro de uma s6 ver, iso nha que ser feito ‘em partes, 0 que desrtculava 0 proceso prticoe criti vo. Ir de uma parte do filme para outrasignificava trocar 10 suport (disco rigido, disco laser ou fits) no qual 0 filme estava armarenado. O poderoso chefdo (pate Il), {que fi editado em um Montage com um sistema no Tinear a base de fitas, passou por esse problema ainda em 1999. + havia um obsticulo para o andamento do trabalho. As primeiras maiquinas eram to caras que geralmente s se podia dspor de uma por filme. Consequentemente 0 ed- tor € 0 assslente tinham que revezar 0s turos de traba- Tho —o assstente, portant, trabalhava noite, com todos ‘0s problemas que se pode esperar desse tipo de organiza- ‘620, Mesto que um filme dispusesse de mais de uma mquina, essas miquinas no permitiam o comparttha- ‘mento do mesmo mate. + era complicado, inconveniente e caro coloca a imagem “online” nos sistemas andlogo-letrénicos (KaitDroid, Montage). Era preciso fazer discos laser especiis para a litDroid e dezenas de edpias idénticas do material em fitas VIS para o Montage ‘© a qualidade da imagem osclava de pobre a razoave A qualidade da imagem no EaitDroid, ¢ em outros siste- mas que usavam discos laser como suport, era muito boa, mas dificil de se conseguir. A qualidade da imagem do Montage era equivalente 3 das ftas VHS da época € no era adequada para cert tipo de material. A qualida- de da imagem dos primeitasAvids era pobre se compara- dda pelicula (com uma resolugio tes mil vezes menor). Para armazenara imagem ocupando um espaco de disco correspondente, processo de digtalizaco tinha que ser roscio, 0 que resltava num efeito“pontilhado” que ‘ofuscava os detalhes eimpossiblitavaa percept de pro- Dlemas oculos, tas como uma imagem fora de foco (0 «que também acontecia com o Montage) Esa fla de resolugo da tela podia, por exemple, enco- raja editor a fazer mais uso de closes que necessiio.O fator determinant para a escolha de um plano espectfico € muitas ve7es 2 percepeio ou no da expresio nos olhos do ator Quando ndo esti clara, a tendénca 6 o editor usar um plano ‘mais aproximado, mesino que o plano mais aberto sea itido fo bastante numa tela grande. F clare que iso aela 0 proces- so criatvo do filme pv pa de oe +a facildade de fazer o corte propriamente dito ~sendo *amigivel” no sentido engonémico: alguns dos sistemas (0 ‘Avid, por exerplo) eram altamente dependentes do tecl- do, que deiava muitos etores poco vontade. Bra pre so estabeloce um retomacineticoimedito entre 0 mate rial ea coordenagio visual e motora do editor, tanto para selecionar 0 quaro deseo como para fazer 0 “corte Acedigio € um tipo de danga congelada na qual deve estar ‘envolvida a maior parte possivel do corpo do editor (O¢itDreid,baseado no modelo Steenbeck, inka contto- Je mais “parecido” com o das montagens ditetas em filmes, ‘* “trabatha melhor quando menos se precisa”. Freqiien- temente, quando acionado para exeeuta uma série de cor tes ripides ou uma edicao de som mais complicada, 0 six tema de fits ou discos laser avsava que, de alguma forma, a capacidade de procesiamento da méquina estava sobre careegada € que o trabalho niio poderia ser exbido em tempo real. Asolucio pata sw fo (e ainda 6) simplesmen- te uma questio de se insert mais meméria e vlocidade para fazer o trabalho, *confiabilidade da lista de decisdes de edigo (EDL): con- fia na decisiva lista de decisdes de ediclo, de onde ssem as informagBes para que ofilme seja conformado a0 que ests ‘no compitador, eta problemtico nos primeizos sistemas [Na Entrapa, onde tanto filme quanto video rodam a 25 quadros por segundo, isto ndo € um problema. Mas nos Estados Unidos, um filme cinematogafico roda a 24 quadros por segundo eum video a 30 quadres, endo portant preciso claborar uma compatbildade matemtica quando se que juntar os dos. Quando se copia umm negatvo para video, apa- recem 6 “quadros fantasmas” (que slo na verdade repetigdes de quadeos ji exstentes) que io adcionados a cada segundo, ‘Como os primeiros sistemas eletrinicos& base de video rodavam a 30 quadros por segundo, 3s vezes o editor decidia fazer o corte em algurn dos quadros fantasmas que nao tinha equivalente imérica no filme, Nesse caso, o computador tinha que decidir arbitrariamente qual quadro “real” selecio- nas: 0 anterior ou © posterior a0 quad fantasma, Se Fosse feita apenas uma versio do filme, esa era uma questo sim- ples de se resolver. Mas 0 processo de editar um filme envole ve mudangas e mudangas e mais mudangas, entio a decisio do computador de tirat 0 lado “esquerde” em determinsado corte pode se seguir de uma outta decisio de trar 0 lado ‘irito” do mesmo corte na segunda versio ~ mesmo que 0 editor iio tena feito mudangas ness Em O poderosochefdo (parte Il), que fo eitado em um sistema Montage em 1990, tivemos que contratar um asisten te para comparar manus nente a lista de decisdes de edica0 ‘com 0 que aparecia na tela, ¢ cancelar cartes de umn quadro {que no tinham sda fitos. Asta acima ndo esté completa, mas nos dé uma boa mostra das questdes sobre a ediglo elettinica que mais Inguietavar os eitores no comego das anos 90, Era o bastan- te para distadir mmitos editores de mergulharfundo e “ado- tar ocleednico”. As vantagens nd pareciam superar os poss: ves problemas, ¢ hava histras lendirias de produgdes que eo iit de les sear oon terminaram atlando em pntanos etnias, sem conseguir selibertar ani ser voltndo para ovelho sistema mecinico. Ese € um bom momento pra fier a pasa e resi uma stuagio bastante catia, com slemas rt diferentes ompetndo ente si: Movila vem KEM verus EitDroid emus Avid versus Montage vers Lightwots et importante perceher que cad sistema pode ser defini dbo por rs ertrosindependentes 1, O operacional, que pode ser mecinico on eletrinico, 2. O suprte de amazenament, analgjeo ou digital. 3. O acess as mia, randomico ou linear, [A Moviola, por exemplo, uma miquina de aces rando- rmico apes de ter sido inventada em 1920, Ela pode ser pete tamente chamada de tim MAR: mecnicoanalogicorandomi- co, 0 Avid seria um EDR (eletnico-digitalandmico) a KEM. seria um MAL (mecdnicosnaldgico linear), e asim por diane. ‘Mabela a seguir sinttiza toda as varives: [ Operacao: Aeon | iG Ties [oew| EE ad saitti| » | s : ; vasa | on ‘ teint Um paciente inglés e meio Em 1995 fui contratado para editarO pacienteingls, filme de Anthony Minghella adaptado do lito de Michael Ondatie, Nessa époes, ris dos problemas abordados acim jd cstavam solucionados —ou a solugoestava a caminho — pelo inexorivel avango na velocidade de processamento dos compit- tadores ¢ pela redugio dos custos de meméria. Apesar de ainda no ter editado um longa-metragem inteto eletronica- mente, eu havia digi e editado um videoclipe de quatro ‘minutos para Linda Ronstadt em 1994 e uma montagem de teés minutes com cinco camadas para o filme Ador prob. ‘mas, em 1995, ambos no Avid. Eu estava impressionado com as rmudangas ocortidas em cinco anos Houve tes grandes avangos: 1a capacidade de meméria a velocidad de processa- ‘mento tinham aumentado a tl ponto que agora era eco- némica e tecnicamente vidvel armazenar o filme inteiro ‘em um disco rigido de computador a qualidade da ima- ‘gem digitalizada tinha melhorado consideravelmente; ‘eraras eram as ezes em que o fluo de trabalho era inter rompido. 2, duas ou mais ilhas podiam agora comparihar 0 mes ‘mo conjunto de discos rigidos onde o filme estava arma- zenao, o que diminuia os obsticulos 3. um software para 24 quadros havi sido desenvolvido pela Avid para o programa Film Composer, assegurando 3 tama rela de 1:1 entre os quadros do computadr e os aquadeos do filme. Kise achado tomou a lista de deisdes da edigao absolutamente confidvel para a conformagao deur filme de 35mm, Apesar de anda relutar com algumas questbesereceos, eu ‘etava ansioso para experimentar a edi digital, © O paciente inglés, com sa estutura de tempos diferentes, parecia se ade quar peretamente 3 flebilidade ofeecida pelo Avid. Contudo, 0 produtor do filme, Saul Zaenty, estava ten- tando teduzir oorgamento (todos os diretores de ea estvarn trabalhando com o adamento parcial de seus sitios) € alte gir um Avid representava um custo extra ¢ antecipado de rmilhares de délares por semana ~ embora posibiltase uma ‘economia de tempo mais adiante no cronograma. Além diss, O paciente inglés estavasendo flmado na Italia e na Tunisia, ¢ Saul estava compreensivelmente preocupado com a infra cetruturalogistica ‘Anthony Minghella havia editado os seus dois filmes anteriores de forma convencional, em filme, e mostrava preo- ‘cupagdo com a mudanga para digital. Nao bastaseo tersité- rio Ihe ser pouco familiar, recentemente vrios de seus amigos haviamn tide experigncias infelizes com a edicio eleténice: ‘no s6 pr problemas técicos, mas também porque o sistema eletrOnico em si parecia fvorecer a interferéncia dos estos. Ento decidiseeditar O paciente inglés dinetamente em filme de 35mm, 0 que me patecia razaivel. Pensando bem, tale. fazer um filme num pais estrangeiro © aprender um nova sistema a0 mesmo tempo impusesse varveis demas Haveria sempre o préximo filme, Comegamos a produgio de O paciente inglés na Cinecit, em Roma, em setembro de 1995 com um equipa ‘mento convencional: uma KEM de “oito patos” para mim «uma Steenbeck para os meus asisentes, Daniel Farell e Rosmary Conte, além da tradicional, enroladeiras € outras parafernlias. Como de hibit, dspinhamos do meu banco de dados computadorizado para armarenar anolagBes e co :mentrios sobre cada tomada, bem como 0 equipamento de reprodugio fotogrifica para trar fotos representatvas de cada plano, Porém, na sesta semana de produgéo minha mulher Aggie (que estava se preparando para me visitar em Roma) ligou contando que nosso filo Walter sofrera uma convulsio| no dia anterior eo diagnéstico era de um tumor no eérebvo. Comuniquei a Anthony e a Saul e discut a situagdo de acordo com as informagies recebidas ~ Walter estava bem e se recuperando, mas havia a possibilidade de uma cirargia dllia duas semanas para a remogao do tumor. Agravidade da situagdo ndo poderia ser constatada até © momento da operae lo, quando se fara uma bps. Disse a Anthony e Saul que pegaria um v6o para casa no dia seguinte, com a perspectiva de, na melhor das hipéteses, Ficar ausente pelo menos oto semanas, e que deveriam per- sar em contratar um editor para me substi, Ambos se rect saram a considera essa posbildade, pediram que no me Preocupasse com o filme ¢ desse noticias. No dia seguinte de ‘mana eedo eu estava 4 caminho de Bolinas, uma pequena cidade a0 norte de Sio Francisco, Esse tipo de crise extrema, para a qual nunca estanos pre- parades, tem o poder de nos arremessar, por asim dizer, con ek dg de les = um pear de eos tra 0 pirebrisa do nosso disedia,Felizmente alguma inter- ‘vengio magica poe as cosas numa perspectva surpreenden- temente clara: © que importa salta aos olhos com magnifico realee; todo o resto recua para o pano de fundo, O horizonte se reduz a0 que € possvel se realizar hoje ou, no méximo, amanha. 0 "se" é banido, eo nosso papel no desdobramento os acontecimentos adquire um sentido sido e determina 4o, Iso deve ser algum tipo de mecanismno de autodefesa com raizes muito antigas Assim oflme, que estava sendo o meu foco principal até 2b horas antes, agora parecia uma mera curiosidade do outro lado de um telesedpio. Apesar disso, estava consciente da minha responsabilid- de profssional em relaglos pessoas que haviam confiado em ‘mim. Ku estarialonge por no minimo dois meses e a filma gens nfo seriam interrompidas: um atraso de oilo semanas rum eronograma de 20 tem um peso tremendo. [No momento em que aerrissei em Sio Francisco, est va clara qual seria a minha proposta para Saul e Anthony: se quisessem realmente me manter como editor do filme, teria- ‘mos que instal um Avid no galpdo ao lado da minha casa nandar os copides para Sao Francisco depois de terem sido vistos pelo grupo de li, © eu comegaria a editar em casa, podendo estar perlo e disponivel durante a recupe- ago do meu filho. Iso implicava um custo adicional con- siderdvel pata o filme, como também o fato de o editor estar 4a mais de quatto mil uilémetros de distancia da produgao, ss para mim parecia no haver outa altemativa, Para minha eterna gratidlo, Saul ¢ Anthony ndo he aceitar a propos, A operagio de Walter acontecen antes do prevstoe fat bbemsucedida. Abidpsia do turnor era ambigua, e ele se res sow a fazer tratamento de quimioe raioterapia. Ficou rats, meses em casa durante o primeira corte do filme. A piada era «que, como a minha mulher € ingles, tinhamos um “pacien- te inglés” e meio em nossa casa em Bolinas. ‘Walter era professor de alpinismo antes dso tudo acon- tecer seu objetivo passou a ser escalar, numa excursdo de sobreviventes de céneer, 0 Monte Denali, no Alasca, 0 pico smaisalto da Amética do Norte. Em junho do ano seguinte ele fer parte de um grupo de 15 pessoas que chegaram ao cume ‘com sucesso, Walter trabalhou comigo nos meus itis tes projets de edigao ~ pasados quase cinco anos da operacao,, «,gragas a Deus, 0 eu prognéstico é bom. O homem encontra a méquina (© Avid que fsicamente era apenas um poderoso computa- dor pessoal com alguns monitores de video — foi instalado ser demora no andar de cima do galpdo, € 0 filme comecou a chegar da Italia, Um dos problemas era manter a comunicar «fo com os meus asistentes em Roma, Dan e Rosmary, & também com Anthony e Saul, que nessa época estavam ‘mando em um lugar remoto da Tunisia. Por sore, Rosmary tinha um email, que rapidamente vou a autocstada por ‘onde passavam tanto a correspondéncia como as informagies da base de dados. Havia também o diffeil quebracabega de como integrar ahora de material que eu ja haviaeditado em filme ao novo i 5 iad oe sislema, enquanto. continaévames progredindo em outs fientes. Nao conheco outro caso de transigo do mecirico para o eetténico durante a produgdo, mas as circunstinias partculares dese caso exgiam isso. Os méritos por fazélo da forma mais tranqtila possvel so dos meus asistentes: Ede Bleiman e Sean Cullen, em So Francisco, e Daniel Farell e Rosmary Conte, em Roma, “Transpostas para fitas de video, as 60 horas do copido de trabalho do Pacienle inglés enchiam duas prateletas de uma estante de livros mediana e, assim que Edie comegou a dightalizé-las para 0 disco tigido, eu me vi editando nova- mente ~ exatamente dois meses depois do problema de Walter. [La estava eu, em casa, com tudo o que tinha pedide. O dilema agora era: seri que tudo aconteceria da maneira que ce havia esperangosamente previsto? O que aconteceria com 10 mew estilo particular de edicio, todo desenvolvido em Moviolas © KEMs, agora que tinha que mergullar naquela montana de material arquvada no Avid? ‘Aprimeira coisa que me agradou fia faciidade com que 6 Avid se adaptou ao mew método de trabalhar em pé. Com, a KEM eu preciswa de pelo menos mais duas pessoas para Tevantar uma maquina extremamente pesada e colocéela em cima de caitasteforgadas de compensado. Com 0 Avid, base tava colocar os monitores na prateleira mais alta de uma «stant de metal, na minha linha de visio, e depois posicionar ‘uma simples prancheta de arqutetona frente da estante. Essa confguragdo me dava no s6 espago para 0 teclado € 0 ‘mouse, mas também para espalhar até oito paginas de anota- ‘es 8 minha frente € bem embaixo da imagem ~ algo que ‘nunca consegui com os sistemas mecdnios. (Por sorte, as oto piginas de anotagio revelaram ser 0 niimero exato, mesmo para uma cena razoavelmente complicada.) [No entanto eu estava um pouco decepeionado com a baixa qualidade da imagem, comparandose ao filme. Para ‘economizar tempo ¢ meméria, deci cigitalizar O paciente inglés er resolugio 4, 0 que gra uma imagem relatvamente tosca. Depois dos primeiros das tabalhando nessa resolugéo ccomece a me perguntar se no havia erado ese nto deveria| redigitalizar © material numa resolugdo mais alta. Por sorte, enquanto lave umas anotagdes no tercciro da, vi de relan- ce umm olhar de Juliette Binoche nur quadro parado no moni ‘or. Estava tio bonito, como uma pinturaimpressionista, que fiquei mais tranguilo quanto 4 minha decisio, “Iso nao € 0 filme”, disse pra mim mesmo, "Estoutraalhando sobre uma pintura impressonista do filme” Sé o tempo diria se aquilo «era um tro no exeuro, mas o ato & que me encorajou a pros- seguir como planejado, (© que me salvou foi que os fotogeamas seecionados de ‘qualquer cena em que estivese trabalhandbo ficavam ber ali, na estante do Avid. Esas imagens, fotograadas diretamente da c6pia em filme, me serviam como lembreteconstante do valor ral das imagens, $m relagto a operacionalidade do Avid, iqud feliz ao des- cobrir que o meu velho sistema de cota “er tempo real” isto 6, selecionando o xitimo quadro de um plano enquanto filme ests rodando a 24 quadtos por segundo} era mais fei de ser pesto em prtica no Avid do que na KEM ott na Moviola Depois da primeira tentativa de selecionar 0 quadro de ‘aida’, o Avid me diz was tentativas seguintes, quantos haa iit de les ‘quadtos eu esta atrasado, on adiantado,e também (obrigte do) se linha atingido exa mente © mesmo quadro, Iso era ‘muito importante porque quantificava imediatamente a sen sagto do que havia acontecido naquela segunda tentativa Por exemplo, poderia ter a impressio de ter cortado um ‘pouco ced demais,e uma olhada na tela me dizia que tha ime aiantado, digamos, tres quadros. Nesas circunstanci, ‘com ese material em paticulr, eu saberia qual a sensagio de estar “trés quadeos adiantado”. Iso faciltava eas tent vas subseqQentes eram impressonantemente mais infuitivas ce precisas (Os sistemas mecinicos também dio esse retorno, mas de ‘uma forma urn pouco mais complicada (oi usando os siste- ‘mas mecinieos que desenvolvi essa abordagem); endo fiquel bastante aliviado ao descobrir que o Avid posibilitava 0 uso desi estralégia ~e de maneira mais ripida e automtica do «que nos sistemas mecnicos, Nunca 6 demaisenfatzar 0 sig. rificado dese retomo imediato:€ de importinci erucal para ‘ desenvolvimento de uma asinatua itmica (e su sensagSo) em cada filme individualmente ‘Também descobri que outta das minhas pecularidades no trabalho de edigio — fazer o primeiro corte de uma cena sem som ~ era bem mais facilitada no Avid. Com a Moviola ou a KEM eu podia,€ claro, fazer uma montagem sem som com a maior faclidade e de fato, uma das tazdes para se dei- aro som de lado era ter um primeio corte o mais ripido pos- sive), mas ouvilo depois signiicava gastar duaslongas horas achando as pistas certas de som e sineronizando-as corretar ‘mente com a imagem através do niimero de digo. No Avi, 0 som do filme esté sempre sincronizado com a imagem, nto a opeao de ouvilo ou ndo depende apenas de ligar ou desligar um botio. No inicio eu desconfiava do uso do teclado no lugar das ferramentas de controle mais intuitivas dos dspostivos mecd- nicos. O design da Moviola € quase automotive: tem pedais para adiantare etrocedero filme e tem um feio de mio que ‘44 um bom tranco quando pita o filme. Permite também que se segure com a mao esquerda um prato de rodarafim de parar melhor © que se use o fieio pata adiantar on voltar 0 filme, quadro-squadeo. F; uma experigncia extremamente tail que envolve o corpo todo. Em outas palavas, exatamente o que o teclado do Avid Portanto fiquei impressionado ao descobrit que, para ‘mim, aqulo no consttui um obsticulo~ achei até confor- tivel usara mao esquerda para apertar o comando de “cor: te", A apidez com que me adapt ao teclado ainda & um ppouco misteriosa para mim. A explicagio pode estar sim- plesmente no fato de me sentir confortivel com 0 teclado em outtas situagbes. Pode ser também que o habito de edie {arem pé me asegute pelo menos parte da experiencia cor poral da Moviola Ta Ibém comecei a apreciarrapidamente duas caracle- riticas do Avid 1. Suaaltacapacidade de manipularas pista de som em sineronia com a imagem, possbilitando que mesmo nos Drimeiros estigios de edicio eu realizasse experiéncias adicionancdo musica ou véeiaspistas de diglogo, Tambérn iho dig de nes pied oe podiaajustar € estabelecer os relatives nives e equaliza- ‘bes do som, alg impossivl nos sistemas mecinicos. 2.4 posibilidade de se incuir um terceto grande moni- tor, separado das duas teas de “trabalho” do Avid. Eu 0 colocava do outro lado da sala, de forma a ter que grat 90° para véo, Muda a minha relagofsica com a im gem me ajudava a ver as cosas de maneira diferente Isso nao quer dizer que era tudo um mar de rosas~€ claro yuehavia problemas, Alguns dees tvs, oukos mais séris © interessntes” (dos quai flare dagui a pouco). Ainda assim as vantagens do Avid prevaleciam sobre suas desvantagens a ponto de me sentir confortivel, confiante e entusissmnado por ‘star trbalhando naquele novo cendio. Mesto num estgio to prematuro, o Avid pratcamente duplicava a quantidade de filme que eu conseguia editar em uma semana. Com a ajuda de Pat Jackson, que trabalhou como co-editor por uim més, conseguimos em oito semanas trar 0 atraso do material nfo- ceditado fechar o primeira corte do Paciente inglés com que tno horas € meia de duragdo trés semanas depois de termina dass filmagens. Iso nfo tera sido possivel mecanicamente,¢ ‘com certera nio eta algo que podesia ser feito facilmente na casa de alguém, Por iss tudo, se & que voce sabe quo longo pode sero dia de um editor, sou gato & edi cial (Em tempo: depos de toda a turbulenciae incerteza que atrayesamios durante esse periodo, O puaciente inglés acabou sganhando nove Oscars, um deles pela edigdo. De fto, foi 0 primeio filme editado dgitalmente a ganhar wm Oscar.) Todas essa vantagens da edi digital podem dar wma sensagio de liberdade quase intoxicante, partcularmente para os editores que vem arquivando sobras e rebobinando rolos por muitos anos. Mas essa sibita avalanche de liberdade pode ser frustrante. Como qualquer ferramenta, as caracteris- ticas da edigao digital representam uma facade dois gumes, € algunas das suas mais admirdveis qualidades escondem lados obscuros que podem surpreender os desprevenidos ‘Vou tentarexpliar isso com alguns exemplos Acesso randémico e velocidade lronicamente, ama das coisas que ainda nio sohucionei com edi digital €2 forma mais eficazde lidar com a sua maior vantagem — 0 acessorandémico instananeo. (s sistemas de edicio computadorizada aleangam gran- de parcela de sua velocidade recuperando instantaneamente 1 material requerido, que € 0 que eu quero dizer com “acesso| randomico instantineo”. Isso permite ao editor, por exemple, compara falas de tomadas diferentes sem nenusm esforgo Mas o aces ico depend, sobretudo, de se siber exe tamente aque x quer... c, como palquer eto pode con firmar, isto nem sempre € possivel ‘A Moviola em uma miquina de acess randémico, ape- nas ndo era um acesso randérmico instantaneo (ao contitio dda KEM e da Steenbeks que s4o méquinas de acess linear (Os sistemas de acesso randémico slo altamente dependentes dda qualidade das anotagoes fits no primeito contato com ‘material ~ porque essas anolagdies slo chave para abr e pes- quisar a vasta biblioteca formada pelo acervo de cada filme, Elas refletem necessriamente nid 86 as primeiras opinioes sobre o material, mas também uma visio de como o filme cetava sendo concebido naquele momento No entanto, a medida que o filme evolu, ele exige smudangas e essas primeiras anotagOes podem ficar ultrax passadas: uma tomada que foi considerada init pode assim se tomar til, A nfo ser que haja uma forma de estar sempre revendo o material, questionando essas primeiras impresses, parte do material stil pode ficar perdido para sempre sob o epitifio de “maim”. Quanto mais material, mais verdadeira serd essa afirmagio. J4 mencionei esse aspecto, mas vale a pena retomé+lo no presente contexto, sa revisdo constante do material era uma parte crucial do ‘meu processo mecinico e criativo nas maquinas lineares (Steenbecks e KEM) que armazenavam 0 material em rolos de der minutos ‘A mente humana tem mais aptido para reconhecer idéias do que para artculHlas. Quando voce esti mum pats cstrangeiro € sempre mas iil entender a lingua do que flat. De cera forma todo filme é umn “patsestrangeiro” ea prime ra coisa que se deve fazer € aprender a lingua daquele “pas, adi filme ter (ou devera ter um jeto nico de comnica, cabendo.anéso esforgo para aprender sua lingua. Mas filme fala a lingua prdpria dele melhor que voce! Portanto, a pro- ‘cura mecdnica do que eu queria, acabava encontrando 0 precisava ~algo diferente, melhor, mais argu, mais espont neo e mais verdadeiro do que a minha primeira concepgao. ‘Consegta reconhecer quando achava, mas no poderia ne cater aticulado auilo antecipadamente. Picasso costumava dizer: “eu nio procuro, eu acho” ~ que 6 outa forma de expor ‘a mesma idea Anda assim, 2 caracteristiea mais pronunciada de qual- (quer sitema ndolinear é precisamente a sua naodinearidade "Chegue rpidamente aonde quer it. Basta pedir que a mi- (quina trax para voe@ instantaneamente, como 0 melhor dos asistentes” Nao deisa de ser verdade, mas iso acaba sendo um inconveniente porque a miquina me dé apenat © que eco, enem sempre quer ir aonde digo que quera ir. Querer algo € apenas o ponto de partda ico entio 3 espera de que 0 proprio material me diga 0 que fazer em seguida, Se bem que, tecnicamente, nada impede que se use 0 Avid como uma maquina linear ~€ posivel oganizar 0 mate- rial em grandes blocos e vsualizar esse material em alta velo- cidade exatamente como em uma KEM, Mas € to fil usar ‘acess randdmico que, revel, ele controla as decisdes que ‘oe8 toma, Como controlar impulso da satisfagdo imeciats? Quero o que quero, €a miquina ~ como o génio da impada me di, Mas alguma coisa se perde. A observagoirdnica de Oscar Wilde se aplica aqui: “Quando Deus quer punir alguém, Ele di o que a pessoa quer” Devo acrescentar que hé uma diferenca sutil mas profane dana forma como o filme (pelicula) eo video (digital) so vis tos em alta velocidade. Nas méquinas lineares que lidam c a pelicula, comoa KEM, aumenta-se em dez vezesa velocida- de nornalredusindose em 90% o tempo em que cada quadro E visto. Entio um quadeo ¢ visto em 1/240 de segundo, € nfo em 17 de segundo. E muito ripido, mas ainda assim se pode captaralguma coisa de cada quadto, Pela forma como sio cconeebidios, os sistemas digitais n2o possibiltam iss. Eles aleangam de vezes a velocidade normal, mas suprimem 90% a informagao, Entéo, quando se pede que uma maquina Aigital ande dez vezes mais répido que o normal, ela exibirs apenas um quadro de cada dez. E como quicar uma peda ma superficie de um Iago. Vocé nao vé 90% do filme ~ a paso «que a rodat a pelicula em alta velocidade, em uma KEM ou Steenbeck, voce vé tudo, Sempre me surpreendo com a capa cidade de percepedo do olho humano, mesmo nessasaltas velocidades, para detectaralteragdes suis num olhar, expres sio € ago ‘Taber seja ese 0 motivo da minha resstincia a usar 0 ‘Avid como sistema linear, Tecnicamente acho que esse é um problema grave, de agua forina ligado & natuteza dos moni- tores de video: leva-se um tempo exalo e imutivel para passar tum quadro para o video, €as coisas no podem ser mais epic das do que so, Enquanto com uma KEM é fic aumentar velocidade simplesmente aumentando a rotagio do prism das lentes No entanto, a verdadeira questio em relago velocida- de no 6 apenas aumentilae sim saber para onde se est indo tao rapido, Nao adianta chegat répido se voce acaba caindo no lugar enrado, E se chegar ao destino significa ter uma visio ‘mais ampla do material, ento os sistemas lineares realmente tém uma grande vantagem a ofrecer 1m ikima andlse, no entanto, a tecnologia raramente & 0 {ator determinante no duelo entre velocidad ecriatividade Aqui