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26 O Triunfo de Angelica

26 O Triunfo de Angelica

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Sections

  • Cantor de Peyrac despede-se da amante e enfrenta os piratas
  • As aparências de um sonho triste — Cantor esgueira-se ao Convento das Ursulinas
  • A mensagem redentora do Arcanjo
  • Cantor em busca de seu glutão, Wolverines
  • CAPÍTULO VI
  • Mariângela do lobo
  • A ressurreição de Ambrosina — Cantor face a face com a diaba
  • O fim da Diaba — Reação devastadora do Mal e a fúria dos elementos
  • Em Wapassu destruído, a espera angustiante de Angélica
  • Imenso abismo de gelo — Um ténue sinal de fumaça
  • O cunhado de Passaconaway — Insólita caridade no wigwam abandonado
  • Os pingentes de Jenny Manigault — A loucuras do silêncio
  • Entre a fome e a tempestade
  • Em meio ao delírio, o cadáver de um mártir
  • Frente a frente com o jesuíta Sebastião d'Orgeval
  • CAPITULO XVII
  • O refúgio volta à vida — Cuidados com o mártir moribundo
  • A caçada ao alce — Angélica e os lobos — Diálogo com um morto
  • A cumplicidade de náufragos desenganados
  • O suplício entre os iroqueses— Um covarde entre os heróis
  • O segundo martírio do jesuíta
  • Amor e ódio no jogo das paixões
  • A fuga das crianças — Esperança de salvação
  • Insinua-se o "mal da terra"
  • Uma partida insensata
  • Um companheiro de miséria — Apenas um corpo em movimento
  • "Eles estão mortos!"
  • A profecia se cumpriu
  • Um comediante nato
  • Um aspecto do espírito de Joffrey de Peyrac — Sonhos de regresso à Europa
  • A face oculta de Deus — Rei e rainha da Criação, anjos entre flores de luz
  • A primeira flor da primavera
  • A chegada dos homens de Gouldsboro — O cheiro da grelha dos iroqueses
  • O perdão de Utakê — O coração do mártir
  • Um último discurso de Utakewata — Notícias de Honorina
  • A odisseia de Cantor e Honorina
  • "Encontramos as crianças! Podemos partir" — Um novo limiar de felicidade
  • Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica:
  • ANNEE SERGE GOLON

Título: O triunfo de Angélica Autor: Anne e Serge Golon Título original: Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1989

Publicação original: Gênero: Romance Histórico Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida Nos quase trezentos anos que se seguiram ao descobrimento da América, os franceses tentaram de todas as formas estabelecer um império colonial em terras do Novo ^ Mundo. Desde o início do séc. XVI, quando a ação isolada de corsários e comerciantes os levou a explorar o litoral americano, até o final do séc. XVIII, quando tiveram de se retirar, cedendo ao avanço do imperialismo inglês, os franceses chegaram mesmo a estender seus domínios por um considerável território — no Brasil, nas Antilhas, na América do Norte. O auge da presença francesa na America registrou-se durante o reinado de Luís XIV, quando o Canadá passou a ser uma colónia oficial, administrada diretamente pela Coroa francesa. O comércio e o povoamento foram incentivados, fundaram-se novas cidades, firmaram-se alianças com os nativos. Mas a terra nunca produziu as imensas riquezas ambicionadas, e a sólida presença inglesa na região acabaria por frustrar seus sonhos coloniais. Depois da Revolução, praticamente findava o poderio francês no Novo Mundo. Angélica e seu amor, o Conde Joffrey de Peyrac, viveram o auge do domínio francês em terras americanas.

"Depois de tudo o que passei", conclui Angélica, "o céu bem que me deve a felicidade!" Num derradeiro gesto de esperança, Angélica correu o olhar pelo vasto horizonte ao longo da fortaleza destruída de Wapassu. Além, muito além das montanhas geladas do Canadá, do outro lado do oceano, o Conde Joffrey de Peyrac a esperava. Numa espécie de vazio causado pela saudade e pela angústia, sua mente rodopiou numa embriaguez vertiginosa. Ilusões! Vivera apenas ilusões! Sonhara com um Novo Mundo. Trabalhara para construí-lo. Amara todos aqueles lugares: Katarunk, Wapassu, Gouldsboro, Salem, Quebec. Todos, um a um, deixados para trás. O futuro que a aguardava era ainda um mistério, mas levaria consigo todas aquelas histórias com que preencher horas inteiras de numerosas vigílias e travessias. Reencontraria os amigos, e poderiam brindar e beber alegremente. Sua vida e sua obra não se apagariam. A lembrança de tantos momentos carregados de significados permaneceria como uma soberba promessa de felicidade. Agora seu desejo era navegar para a Europa num belo navio, numa viagem sem atropelos nem tempestades. Lá encontraria um esposo cheio de expectativas, para em seus braços se lançar, prometendo-se mutuamente uma vez mais: dali por diante, nunca mais iriam separar-se! O triunfo de Angélica Anne e Serge Golon Mais uma vez separada do marido, o Conde Joffrey de Peyrac, que partira para a França com o governador da colónia, o Sr. de Frontenac, Angélica não tinha a quem recorrer. Numa cabana perdida na imensidão gelada do interior do Canadá, diante das ruínas do que fora a fortaleza de Wapassu, destruída pelos canadenses comandados pelo Conde de Loménie-Chambord, ela não sabia o que seria de sua vida e das três crianças que a acompanhavam: seus dois filhos gémeos, os bebés Rodrigo Rogério e Gloriandra, além de Carlos Henrique, o enjeitado filho de Jenny Manigault, que tomara a seus cuidados. Os perigos pareciam brotar de toda parte: até sua filha Honorina fora obrigada a buscar refúgio entre os iroqueses, perseguida pela sanha vingativa da diabólica Duquesa Ambrosina de Maudribourg. A Diaba da Acádia e seu aliado secreto, o Padre Sebastião d'Orgeval, seus piores inimigos, como que ressurgiam das trevas. Quem viria em seu socorro: o Arcanjo da profecia? Como, se seu filho Cantor — identificado com o tal Arcanjo — acompanhava o irmão, Florimond, nas homenagens e divertimentos da corte do Rei-Sol, Luís XIV, em Versalhes, do outro lado do oceano? A VIAGEM DO ARCANJO CAPÍTULO I Cantor de Peyrac despede-se da amante e enfrenta os piratas O arcanjo estava no encalço da Diaba, desde a antecâmara do rei. Um pano de tapeçaria que se desloca, uma porta aberta para uma passagem estreita, dois ou três degraus a galgar. A crónica fala daqueles que conduziam do salão da Sra. de Maintenon à sala de bilhar, aonde o rei se dirigia todas as noites para jogar uma partida.

Um pajem o precedia, para segurar o batente de tapeçaria, damas mergulhavam em seus brocados e uma delas se levantava. Dois olhares, um de ouro, o outro de esmeralda, que se cruzam. E na sombra dos labirintos de um palácio, Versalhes, se engolfa o ar salino de um litoral perdido da América, o odor de podridão do peixe que seca ao sol, uma mulher que urra ajoelhada diante de um corpo trespassado por um arpão: "Zalil! Zalil! Não morra!..." "E Ela, tenho certeza", pensara Cantor de Peyrac. No mesmo instante, enfiara um luís de ouro na palma de um lacaio próximo a ele. — O nome dessa mulher que acaba de cruzar comigo!... O lacaio não sabia, mas, estimulado pela fortuna que acabava cair-lhe do céu, não precisou mais de um minuto para voltar e msinuar-se na assembleia que formava um círculo em torno ao bilhar do rei, e sussurrar ao ouvido do belo pajem, tão generoso: — Sra. de Gorrestat. — Seu esposo? Qual é? Seus títulos? — retorquiu-lhe o pajem, doando-lhe. um segundo óbolo. Dessa vez o lacaio abandonou por uma hora seu posto de porta-tocheiro, calculando que, se aquela deserção arriscava atrair-lhe admoestações, custar-lhe-ia menos do que o que tinha a ganhar a serviço daquele jovem senhor. Antes do final da partida do rei, estava de volta e confiava a Cantor, junto ao seu ouvido, tudo o que conseguira recolher. Aquela senhora era a esposa do senhor governador do Nirvanais, recém-chegado a Versalhes por convocação do rei. Corria o boato de que esperava uma nomeação importante. Sua esposa, pessoa de qualidade, discreta e agradável, agradara à Sra. de Main-tenon, que a recebia entre suas damas, o que para elas constituía a melhor maneira de ficar junto ao Sol. Soube que o casal já se preparava para embarcar no Havre para o Canadá, do qual o Sr. de Gorrestat fora nomeado governador. Já no dia seguinte, soube que se tratava exatamente da "viúva" do velho Parys, que se casara com o Sr. de Gorrestat. Tudo se encaixava. Se queria munir-se prontamente do dinheiro para uma viagem além-mar, Cantor precisaria encontrar um expediente. Ele compreendeu. Não havia mais nem um dia, nem mesmo uma hora, a perder. Correu à casa da Sra. de Chaulnes, sua amante. Encontrou-a inquieta por não ver o seu jovem amante havia quarenta e oito horas. Sem querer dar-lhe as razões de sua brusca decisão, Cantor avisou-a que tinha de embarcar urgentemente para a Nova França e que, com esse intuito, teria necessidade de uma soma de vinte mil libras. A Sra. de Chaulnes pensou que o mundo se fendesse em dois. Deu um grito terrível, cujo eco não podia voltar-lhe aos ouvidos sem que se sentisse petrificada de vergonha, de aflição e de dilacerante concupiscência. Um grito de animal frustrado. — Não!... Não você!... Jamaisl Não me deixei... Ele a olhou com um estupor indignado. — Não sabe então, minha cara, que nada dura eternamente? Eis por que nos é preciso colher o fruto e saboreá-lo quando ele nos é dado... Você o sabia quando me recebeu em seu leito. Não existe nada perene no mundo!... Tenho de partir!... Ela o imaginava sozinho, galopando por caminhos, atacado por bandidos, afogado... — Mas o mar!... — gemeu.

Dois diamantes de brincos pingentes.. encheu-lhe as palmas das mãos. — Doce amiga.. Cantor franziu o sobrolho. Ele beijou as mãos generosas que seguravam as suas. O mar?.. Enquanto "ele a beijava. Ela gemia. enquanto a Sra. — Obrigado.. daquela fronte juvenil contra seu ventre..." — Obrigado — gritou ele. Será um pouco de mim que perma necerá com você. um homem que teria tanto sonhado encontrar na aurora de sua vida! Com o qual teria sonhado tanto viver. suas palavras tão sábias. Isso não era nada. cobrindo-o de lágrimas... Trocavam algumas palavras. Algumas semanas ruins balançando ao sabor das ondas. pelo menos.. quem vai abater? — O Mal!. Num impulso confuso. rememorando seus gestos. "Minha cara. — Pior que isso! Ela deixou cair a cabeça em seu ombro. meu querido. A vida toda ela conservaria a lembrança daqueles braços jovens enlaçando-lhe os quadris. — O dever não se discute.... — Meu irmão tratará disso. como o único tesouro de toda uma vida. fez disso um juramento.. que poderá negociar. seus raros sorrisos. — Meu belo sire.. E ela se afastou. — Mas afinal! O que se passa? Sua família lá na América está em perigo?. Via-o apenas através de um nevoeiro.. Ia esperá-lo. ligado à sorte da nave que o conduz. — Ele o chamou? — Não sei.. — Você vai encontrá-lo?. Morreria com esse viático. seja bendita!.. O animalzinho dos bosques?. sem me dizer adeus!... uma questão de paciência! Sua juventude resplandecente inspirou-lhe o arrependimento de não ter sabido levar as coisas da vida alegremente. — Não descontente o rei. O único que guardaria. Ele se lançou aos seus joelhos como da primeira vez... de Chaulnes abria cofres. quando tinha a idade dele... preocupado. Entregou-os a ele. — Não. abraçando-a.. Seu único viático de amor! .... Obrigado. — Não! Você não pode partir assim. já sem lágrimas. cantarolando. fechou-lhe os dedos sobre as jóias como se ali estivesse seu pobre coração.. pérolas de um colar. Fique com tudo. Desvairada de dor. diga-me. ela soube que ele era um homem. "dia após dia! — Espere. Cantor voltou e tomou-a nos braços. que ela lhe confiava. — Não é certo que eu o encontre — respondeu. — E reze! Reze por mim! Corria para a porta. não sabe então que nada é eterno?... Falei com meu irmão para que a reem bolse o mais cedo possível. Ele se levantou.. sonhando. Subitamente veio-me uma ideia. — Não o deixarei partir. que nem se dava ao trabalho de contar..Ele riu. e derramava na escarcela estendida de Cantor luíses de ouro.. Uma sombra passou-lhe pelo rosto. depois caixinhas.. minha cara.

um porto da Normandia. Depois Cantor de Peyrac foi despertar o capitão e pediu-lhe que o acompanhasse a fim de verificar os danos que haviam pretendido causar-lhe. Se me matar para ficar com tudo. e você não gozará muito tempo de minha fortuna adquirida. Soube também. quero crer que você é um homem honrado e que não tem participação neste complô.veio em socorro do capitão. navios de comércio. Se eu chegar vivo às praias do. ou todos os meus bens e minha vida. pela cara dos marujos. sua esposa e sua comitiva. como roubá-lo e assassiná-lo. Ocultar-lhe-ei seu nome a fim de que não alimente o projeto de me manter cativo para pedif resgate. Acabou por encontrar uma embarcação. arremessaram-se sobre a forma ali estendida e. Era um patacho. mas formada por sujeitos que se encontram o mais das vezes no mar. e ambos fomos instruídos a esse respeito por nosso pai e seu exemplo. enquanto se ocupavam em lanhá-la a golpes de facão. não apenas será obrigado a dividir com seus piratas. daí em diante. duas silhuetas se insinuaram na despensa onde dormia. no mínimo. Encontrou dificuldades. A metade do ouro que trago comigo em troca de minha vida. como se não estivesse muito certo de que estivesse ali estirado a seus pés. mais hábil.. e cuja única vítima fora o manequim de panos e trapos estirado em seu lugar. pode levar vantagem quanto à velocidade sobre os grandes monumentos de três pontes e vinte e cinco canhões. dar-lhe-ei a metade do que contém esta bolsa cheia de ouro. Reflita bem. Cantor ofereceu uma boa quantia para subir a bordo. — Capitão — disse-lhe —. retida por reparos indispensáveis de última hora. seus dias estarão contados. Cantor voltou-se e descarregou sobre ele a pistola à queimaroupa. encarregados do correio e de passageiros para a Nova França.A perseguição levou Cantor de Peyrac até o Havre-de-Grâce. em manter a boa reputação de seu navio. conseguira se libertar dos laços um pouco apressados com que Cantor o paralisara. — E continuou: — Estou em suas mãos. já haviam embarcado todos em coro. dois socos violentos. dando a Cantor tempo para conseguir uma passagem para si mesmo. Em qualquer canto do mundo aonde você fosse doravante. que sua aparência e seus luíses de ouro exibidos não deixariam de suscitar intenções muito precisas em seus espíritos. mas surpreende-me que não se empenhe mais. mas. — Quem não sabe matar não pode viver — replicou seu jovem interlocutor. capitão. — Você matou um de meus homens — disse o capitão. ao saber que a intenção do capitão era percorrer pelo caminho mais direto o Saint-Laurent. armado com sua faca. Sem contar que seus bandi- . Só restava esperar que a tempestade que acabava de se formar sobre a Mancha os deportasse até o golfo da Gasconha e os atrasasse. As primeiras partidas efetuar-se-iam aproximadamente nas mesmas datas. Por isso. após contemplar o cadáver por algum tempo. provida de uma tripulação restrita. Proponho um negócio.. fizera-se ao mar dois dias antes. O navio que levava o governador provisório da Nova França. Na segunda noite da viagem. — Eis uma verdade que meu irmão mais velho me repete todas as manhãs. que essa intervenção lhe prove a seriedade de minhas palavras. aplicados na parte traseira de seus crânios. mas você está também nas minhas. mas não poderá desfrutar os poucos luíses que lhe sobrarão. um dos marinheiros que. Enquanto isso. Frota e flotilhas de pesca sazonais. os homens de meu pai o encontrariam e lhe cortariam o pescoço. pois. Canadá. conhecendo seus homens. Indiquei a minha família em que navio embarcaria. Sua experiência das travessias e dos navios ensinara-lhe que uma casca de noz rangente. fizeram-nas adormecer de vez.

pela japona entreaberta do loirinho. após acertar suas dívidas com o capitão. pés-de-vento. Uma alegre sensação de ter voltado ao país nasceu dentro dele ao aspirar o perfume das fogueiras..dos de marinheiros tentarão tirá-la de você. sem água. CAPITULO II As aparências de um sonho triste — Cantor esgueira-se ao Convento das Ursulinas Na Terra Nova. era repousante. — Nosso capitão fecha os olhos para esses jogos. Enviaram-lhe um homem de Dieppe chamado Léon. evitava os aguaceiros. Em compensação. Nem sequer conseguira ver a bolsa com os luíses de ouro. além daquela. Cantor segurava-o com uma mão e com a outra continuava a cortar-lhe a respiração com a ponta do punhal. seja colocado na golilha. — Conhece o regulamento de bordo "Faltas-Castigos"? Quais são os termos para aquela que se prepara para pedir-me que cometa com você? Cantor recitou com uma voz monocórdia de aluno: — Falta: sodomia. tudo permaneceu calmo. Estavam na outra vertente da viagem. O sorriso meigo com que abordou Cantor congelou-se quando ao ajoelhar-se perto dele. pena leve. continuava a tentar os bandidos. confirmou-se que o navio que levava o governador. E começarei por lhe sugerir que. O homem de turbante procurou fazer-se entender. Nãò havia notícias de pessoas que tivessem descido na escala e que tivessem embarcado para a baía Francesa. como fora previsto. E mais a espada pendente do boldrié. Tranqiiilizou-se em relação à família. piratas e calmarias podres. E devia ter uma adaga em cada bota. Desse modo. — Posso pedir-lhe que os abra. sua esposa e escolta.. O jovem loiro. às vezes. a seguir.. vira um verdadeiro arsenal. culpado de ter-se ausentado da vigia a fim de praticar seu crime. Duas pistolas. com o vigor do vira-lata face aos cães de raça. e o do rio. depois de Deus. daquelas que entretém o tédio do marinheiro. das peles. — Que quer de mim? — perguntou o jovem loiro. de ficar três dias no porão. de acordo com a pena prevista. um cutelo e uma machadinha como as dos índios. O pobre Muçulmano repelido saiu. onde a lei dos homens o fez o único mestre a bordo.. Foi uma travessia fácil. mais recomendada. Em Tadoussac. Mais próximos do grande continente da América que da Europa familiar. que quiseram obter suas riquezas por vias menos diretas. e corria a boa velocidade pelas rotas ordinárias. o Muçulmano. quanto àquele. sentiu a ponta de uma adaga espetar-lhe as costelas. porque ficara dez anos cativo em Argel entre os bárbaros e habituara-se a usar turbantes e aproveitar-se de rapazes. Paguei-o para isso. deixou o patacho. proteja-me contra esses piratas com todo o poder e domínio que detém sobre este navio. Portanto. continuava em Quebec. após tantos dias na . As previsões do jovem navegador mostraram-se corretas. mais insosso. soprando uma flauta de pastor grego e mergulhando durante horas na contemplação das imagens. O patacho. pena: estrangulamento e lançamento ao mar ou desembarque numa ilha deserta. sentado contra a amurada. indo confirmar a seus confrades que não havia nada a fazer.

permitia-lhe manter uma aba da capa sobre o rosto. muito antes de Quebec. Diante da ilha de Orléans. Vestidas de preto. A garoa ocultava as copas das árvores e o cimo do campanário e do domo. Contudo. Um calafrio percorreu-lhe a espinha até a raiz dos cabelos. Ereta em meio à bruma. passou pelo pátio e pendurou-se a uma das janelas da grande sala. com os dois atlas de bronze na relva. o lugar perdia sua realidade. bastante fresca. sua mãe. um chapéu camponês que comprara na viagem por causa de suas abas largas." Mas. Entretanto. enquanto subia a encosta da Montanha. à moda antiga. o cortejo que passava. de selvagens e de grão-senhores. a cidade. Os sinos dobraram. Os crimes começavam. Quando chegou à praça da catedral. enquanto não tivesse sondado o ambiente. A casa de Ville-d'Avray ali estava. escondido num canto. Já era outono. Parecia inimaginável que. "Ele vai adivinhar que estou chegando. sempre tão ridiculamente afoitos em recolher o menor de seus sorrisos e de suas palavras. Um latido abafado sugeriu-lhe que só estavam ali a' criada cativa inglesa e a cadela cananéia. Le Bachoys que ia ser enterrada. tinham-no avisado. o olmo e o pequeno acampamento dos huronianos nos wig&ams de casca de árvores. no . tão bela. e nas embarcações que tomou emprestadas para subir o Saint-Laurent. Começou a subir a Rue de la Petite-Chapelle. A tabuleta molhada parecia chorar. que ia exibir todas as suas graças de Benfeitora para conquistar a capital.salmoura. Tomou a direita. cheio de mistérios e ameaças. percebeu. A casa parecia vazia. por muito tempo a água era ainda salgada. as pessoas caminhavam lentamente. sabia já que faria o possível para manter-se incógnito. tão bela com seus sinos e campanários. Aquilo tinha apenas as aparências de um sonho triste. Ia por lá. sabido como Quebec acolhia o governador interino e sua esposa. inverno após inverno. soube que era a Sra. pois sabia. Distinguiu a criada de Ville-d'Avray —a que não quisera ficar quando soube que não teria seu amo só para ela —. mas as persianas estavam fechadas. A agitação dentro e em torno dela pareceu-lhe fantasmagórica. não procurou dar-se a conhecer. ao mesmo tempo. No entanto. A Taverna do Sol Levante estava fechada. Mas não passava de um cenário. ocupada em esfregar as peças de prata como se. não estava deserta nem adormecida. d'Hourredanne. Prestando atenção às palavras dos transeuntes. As cerejeiras silvestres à beira do riacho tinham a cor do sangue. tivesse andado com sua corte de crianças. sempre com o rosto escondido entre a gola da capa e o barrete. atravessando a praça. vazio e nostálgico. saltou a rampa. que seu glutão viera rondar por ali. Seus sentidos alertados dar-lhe-iam uma visão diferente da cidade. a maior parte do tempo dormiu com o chapéu enterrado até o nariz. apesar de apreciar as sensações amigáveis da natureza. Sua intenção era bater à porta da Srta. onde viu luzir o reflexo de um pequeno fogo ha lareira. Tudo estava apagado. apareceu tocada por um morno encanto como uma cidade submersa. Vendo um filete de fumaça diluir-se preguiçosamente no alto da casa do marquês. salmodiando. naquele caminho lamacento.. ouvido os comentários. Uma neblina antecipando o outono. que protegeriam melhor tanto do sol e da chuva como dos olhares indiscretos.

É isso mesmo o que está acontecendo. criadas se calam. de Baumont morreu.dia seguinte.. Ainda não terminara a terrina de sopa que ela servira ao jovem viajante esfomeado. Nesse momento. que reconhecera e seguira desde Versalhes. mas continuou carrancuda. com os sentidos alertados por mudanças sutis na textura do silêncio noturno. Delfina tinha fugido e. na catedral. — Pense o que quiser. a hora noturna do maior repouso e. em casa do rei. apesar de não ser bem com um mosquete que se acabava com aquelas histórias. fossem receber convidados importantes para um lanche ou ceia.. e que Joana Serein pontuava com breves observações.. Joana Serein. o jovem explorador de bosques e a mulher do Canadá se interromperam e se entreolharam. a freira desfaleceu de horror. Criados. de que não lembrava nome ou sobrenome. um dar de ombros. ao vê-lo. — Não me surpreende. sua urbanidade para com todos. de Gorrestat. soaram duas ou três badaladas. que têm às vezes uma carinha bonita. mas nem por isso pensam menos.. — Oh! Você aqui a esta hora. Seu mosquete estava carregado. inclinada para a frente. Eis por que a Hen riqueta da Sra. Inclinou-se ainda mais para a frente. fora a instigadora. mais grave ainda. que vi muitas vezes em Versalhes. — Seria preciso saber o que atormenta Madre Madalena. naquela casa abandonada. Ela o reconheceu imediatamente. Os aborrecimentos choviam sobre as pessoas honestas como granizo.. a meia-voz.. se felicitassem por sua piedade. Janine Gonfarel. subitamente. foi naquele instante mais próxima para ele do que todas aquelas que pudera encontrar desde sua partida. Nós o encontramos entre nós como em toda parte. de mau. Longa narrativa.. desaparecera. Bateu. pelo que dizem. meu rapaz? Veio com toda a família? — Que nada! Mas trago-lhe notícias de seu amo. O senhor governador foi visitá-la e. Que alívio poder falar com franqueza e quase sem empregar muitas palavras! Uma mímica. — Foi ela que ele viu na pedra preta — disse Cantor. por trás daquela mulher. Eu nunca me engano. Essa mulher. E começou a fazer-lhe a longa narrativa dos dramas e malefícios que tinham se desenrolado certo verão nas costas da Acá-dia.. queridinho. Lembra-se daqueles senhores que fizeram sortilégios numa pedra preta. de múltiplos episódios. a ela. nascida no Canadá. as verdadeiras. que os conduziu do fim do dia até a noite. com os braços sobre a mesa a fim de falar mais de perto. Descobriu que houvera vários atentados inexplicáveis.. e já sabia sua opinião sobre a mulher do novo governador. . seu nariz — que ela indicava — avisava que. Sua vida habituara-a a reconhecer as feiticeiras.. havia algo de feio.. que o exorcista teve de ir procurar com todo o aparato.. Cantor confiava nas pessoas simples.. como ele. cocheiros. um fungar.. Embora todas aquelas damas se congratulassem com sua vinda. mas que o Diabo existe. bastavam para dizer tudo e com precisão. desfiando suas horas nos diferentes sinos e campanários do exterior. sua generosidade infinita. Por captar a hipocrisia das pessoas importantes e não se deixar iludir por seus trejeitos. a proprietária do Ao Navio de França. existe. a Sra. e dos quais aquela mesma mulher. A cidade está louca e como que perdida. que ela ouviu sentada diante dele e.

Como outrora. no momento da chegada dos navios. na qual ele se escondeu.. cercado de soldados do prebostado e delegados do novo governador. Tê-lo-ia reconhecido a ele. eventuais clandestinos da religião reformada. Era. que a repudiara outrora. O preposto dos Assuntos Religiosos retirara-se com seus homens. o qual tinha um processo com as ursulinas. estão dando uma batida. Surpreendeu-se de que a numerosa tropa que sentia em volta da casa não tivesse ainda irrompido porta adentro e feito um revista completa. reconhecia aquela ferocidade minuciosa para com todos aqueles que a haviam ofendido. antes de mais nada. "Eles" se aproximam! "Eles" rondam a casa! Com um sinal do queixo. Era certamente "ela"! Se subsistira alguma dúvida sobre a identidade da Diaba. onde uma grande vela se consumia numa pirâmide inchada. acompanhado de chamados e de injunções: "Abram!. A criada alojava-se a meio caminho da escada de pedra. é muito mais maligno que um homem! Quanto a sair da casa sem ser visto nem preso. verificando.. vê-lo sentado àquela mesa. com alívio. Villed'Avray. — Isso não são modos. Homens e selvagens. empurrando-a e galgando a parte de baixo da porta. Sem fazer barulho. teria sido uma pena não se utilizar daquela rede de toupeiras tão cómoda. por boa recompensa. ali se encontravam ovelhas sonolentas e palha. todos nós sabemos. Cantor de Peyrac. não havia problemas. pensando em Wolverines. de seu esconderijo. ele. queria encontrar Madre Madalena. ele ouviu um diálogo veemente que por vezes tomava ares de discussão. Ambos pensaram ao mesmo tempo. cujas . ela subira e. do lado de fora. que ao cair da tarde ela colocara os batentes internos.." Fingindo-se de mulher arrancada do sono. faz mais de uma semana. de modo que não se podia penetrar na casa sem forçar a passagem.. pois bem! O caminho estava livre! Desde o tempo em que costumavam cavar o chão em Quebec e quando isso trazia um monte de problemas e processos monstro. afirmando porém que poderia voltar. ela o intimou a levantar-se. — Ela deu ordens. Procuravam um jovem louro que ao chegar não se apresentara no cartório para declarar sua fé católica.Cantor lançou um olhar vivaz para as janelas. como a uma janela. A fiel guardiã da casa de Ville-d'Avray recusara-se a retirar a trava da porta e abrir. nos lugares onde supõem estar sua toca. sobre os quais tinha de vingar-se. que dava na de Banistere. que era bem alta. — Um carcaju. encarregado de observar. — Isso nem se discute! Claro! — encorajou-o. E já que. Ela baixou de novo a voz. Admirou a presteza com que ela Vestiu a vasquinha e a touca de-dormir. o filho daquela que não conseguira vencer? — Meu glutão será mais forte que eles todos — afirmou com fervor. Ninguém podia. nos arredores da cidade. quando a tempestade impedia pôr o nariz fora de casa ou quando se temia o olho do vizinho. Cantor sentiu-se empalidecer. desceram às adegas. protestantes tentando desembarcar na Nova França. ou ele deu ordens terminantes para procurar seu carcaju e matálo. enquanto ao rés-dochão o ruído surdo de punhos batendo sacudia a porta. mesmo se fosse um pobre animal dos bosques!. na antecâmara do rei. Bastaria lembrar a adega do Sr. O que lhes deu a uma hora dessas? Contentara-se em abrir a parte de cima da porta lateral e postar-se ali. aquele manhoso do preposto dos Assuntos Religiosos.

. Ela prestava atenção às tagarelices. recebe uma visita inesperada "Eles" não acreditavam nela. sem ter o direito de falar durante o dia com suas companheiras. de Gorrestat. Madre Madalena rezava por sua cura. Le Bachoys. Importunada. Sozinha nesse concerto de elogios. a Diaba! — Basta!.. Madre Madalena ficou esperançosa. a freirinha visionária. e mostrava uma máscara oposta. e que aquilo um dia havia de lhe acontecer. que a superiora teve pena dela. Reconheça que você quis se tornar interessante. em desgraça. e que temiam por seus dias. a respeito de uma encomenda de tabernáculo que os burgueses da cidade baixa desejavam oferecer a uma paróquia da costa de Beaupré. "Eles" não acreditavam mais nela. ficou ali. de Frontenac. Dizia-se que a Sra. Isso desde a visita da mulher do novo governador ao Convento das Ursulinas. Foi assim que. que chegavam do outro lado dos muros do claustro. como a primeira dama da Nova França tinha maneiras suaves.. Cantor de Peyrac conseguiu se introduzir até o ateliê de douração da religiosa visionária. Mas a menina que levara o recado voltou anunciando que a boa senhora fora acometida por uma congestão. feitas sob um terreno pertencente a ele.. trabalhar sem descanso. Le Bachoys era considerada uma "pecadora". Ela estava morta. tremendo sobre um fogareiro. Não recomece com sua mania.. "Senhor. mas ela chorara tanto. ela replicara: "A serpente também tem maneiras suaves"... Cogitou-se em privá-la da santa comunhão cotidiana. da modéstia. da caridade da Sra. devida talvez ao ciúme. Ouviu o dobre dos sinos. vai me abandonar?" A cidade se transformava. de Fromenac. Enquanto lidava com seus instrumentos durante o dia. Certamente. a Sra. ou à fidelidade que muitos mantinham ao Sr. . E ela. e eis por que ela saberia resistir. Le Bachoys sacrificara-se muito pelo amor. Le Bachoys tivera uma frase chocante. punida. à noite. Portanto. como que virada do avesso. fora relegada ao ateliê de douração.. que Ele lhe inspire o arrependimento. tendo de levantar-se à noite para cuidar da "cola de aparas de luvas" ou do urucu e da goma-guta para fazer o vermelhão. cuja chama precisava permanecer estável e baixa. como penitência. sem que hoje tenhamos de transformar o novo governador em inimigo. Esse caso já foi resolvido há muito tempo e suas visões nos causaram aborrecimentos suficientes. Madre Madalena. repreendida. em que se viu uma declaração de guerra. de coragem. onde devia. mas você não teve habilidade.. — Que Deus a ajude. que quis intervir na política que não lhe diz respeito. Seu coração se congelava.. — Minha madre. A Sra. aquela que eu vi elevando-se das águas. diante da Sra. Só se falava da piedade. depois de ter passado pelas adegas e ter emergido em meio às reservas de vinhos e de queijos do Convento das Ursulinas. mas isso era sinal de ousadia. lamentamos pelo Sr.. CAPÍTULO III Madre Madalena. Tendo alguém observado.. Se pelo menos a pobre religiosa pudesse falar com ela em segredo! Madre Madalena conseguiu fazer enviar-lhe um recado. eu apenas disse a Santa Verdade. sozinha e sem defesa com seu pesado e aterrador segredo. tinham por engano levado a seus entrepostos.cavações.

Mas acorri à senhora. com seus olhos atravessados por sentimentos imundos. Vim para lhe recomendar isso e para que saiba . de Peyrac. senhor. assaltada pelo demónio súcubo saído das águas. precipitadamente: — Impeça-a de fazer malefícios. do que pelo que ia abater-se sobre o país. Por que duvidara? Não sabia que o Bem triunfaria? Ele se aproximou. e tremia dos pés à cabeça.. A senhora conhece minha mãef Agora ela compreendia. de uma beleza surpreendente. O Arcanjo da visão ali estava. Depois a angústia apunhalou-a novamente.para enxugá-los. não fará nada para nos salvar?" Atrás dela. CAPITULO IV A mensagem redentora do Arcanjo Deus tivera piedade dela. É preciso silenciar. — Não. pois estavam turvos pelas lágrimas. com um dedo sobre os lábios. Ninguém crê em mim. Ele sacudiu a cabeça. Juntou as mãos e disse. tal como observara desde a primeira vez que vira a Sra. Caiu de joelhos no ateliê deserto. de Gorrestat se dirigia ao Canadá. Ora. Uma onda de alegria inundou-a. nem bem arrancado ao paganismo. o arcanjo vencedor se parecia com ela. Bom Deus! O senhor sabe servir-se dos homens para Sua justiça e para socorrer os inocentes! Sua emoção era tanta. Como não compreendera há tempos que nada havia acontecido ainda? Era isso o que deveria ter dito aos juízes. "Deus! Piedade!" . era agora que ia se desenrolar o drama da Acádia. como um rio que regenera uma terra árida. que teve de retirar os óculos. — Então. minha irmã. que ele parecia comandar. Temia menos por sua vida. a obsessão daqueles anos todos de debates e de confrontações que sofrera. — Ninguém. Era-lhe indiferente morrer. E. Você sabe quem ela é? — Sei. enquanto um monstro de dentes aguçados. percebeu o Arcanjo. Voltando-se. "Deus. a mulher nua. Naquele halo luminoso e amendoado como a auréola de Cristo. se lançava sobre a Diaba e a fazia em pedaços. quando a interrogavam e a confrontavam com a Sra. Nada aconteceu ainda! Não sejam tão impacientes nem de ser tranquilizados. de Peyrac se encontrava em Quebec. embora soubesse que um dia a "outra" voltaria para acabar confèla. Não dizer mais nada. E aqueles que sabem calam-se ou tremem. a outra mulher que se opunha à aparição diabólica. E ninguém mais esperava por ele. de Peyrac. Ela está em seus domínios e meus pais ignoram que voltei à América. não tema nada. estava em perigo. — Minha irmã. Eles decidiram que o caso da visão estava terminado. Silêncio! Estou'só. eu me chamo Cantor de Peyrac. nem de concluir algo. e ao qual consagrara sua vocação. É horrível. Se a Sra. o mesmo que lhe aparecera. aos confessores. Os lábios de Madre Madalena tremiam. quando soube que a Sra. houve um leve ruído.. via definir-se a eterna imagem. fazendo recuar os espíritos malignos.O desespero e o terror invadiram o coração da freirinha. armado com uma espada.

. O sol começava a aparecer e dissipar as brumas.. Os lábios. As curtas patas dianteiras. Vou ao encontro dela.. Seja mais forte que suas astúcias... mas doravante seria forte.. Wolverines Cantor abriu a porta do jardim das ursulinas. — O que não a impede de deixar atrás de si um rastro de morte.. com o coração batendo e as mãos sobre as armas. Ele respondia como se pertencesse ao grupo.. — É proibido dar a vitória ao Destruidor — sussurrou ele —. contrastava com a cabeça pequena.. evite encontrar-se em presença de quem quer que lhe peça para vê-la. não soube defender-se?." Mas quando se aproximou bem e viu o animal meio virado.. CAPITULO V Cantor em busca de seu glutão. .. Apesar da máscara negra de bandido. Seus olhos luziam com um brilho tão meigo e ofuscante que ela se perdia em seu esplandor. se preciso for.. que não tiveram sequer tempo de se descobrir para exibir sua ameaça de defesa. "Teria se ressentido com a vida dos bosques?. Desconfiava que os caçadores que perseguiam seu glutão estavam por ali.que estou a caminho... Acariciou o pêlo sedoso entre as orelhas pequenas e redondas. galgou o muro. Humilhe-se.. que tinha o poder de assustar os índios. com a longa cauda soberba. sentiu ao mesmo tempo a fraqueza e a embriaguez que vêm a nós na convalescença. Minha irmã. erguiam-se rígidas e impotentes como braços de boneca.. docemente. contraídos numa triste careta. mais franzino do que aquele de que se lembrava. pois não o podiam distinguir com o nevoeiro.. com as garras fechadas.. Não incite mais sua vingança. Pouco habituado à natureza selvagem. Desobedeça à Santa Regra.. quando se sabe. Seu grande corpo peludo. — E preciso agir com naturalidade. pois fora apanhada na armadilha. pareceu-lhe menor. através dos pântanos. examinou-o... Wolverines. e a neblina da alvorada era espessa. Desculpe-se... Humilhe-se. Continuava a tremer. chamando umas às outras. — Não temo a morte. Desceu até o rio Saint-Charles. — Mas.. permitiam vislumbrar as temíveis presas dos dois lados da mandíbula. que se diluíram numa chuva fugitiva.. com as pálpebras cerradas.. "É uma fêmea. ouviam-se passos pesados e silhuetas indistintas passavam por perto. de focinho curto. — Encontraram o carcaju? — Ainda não! Bicho desgraçado!. como você entrou? — Silêncio — repetiu ele. o corpo abatidój com à longa curva de pêlos dourados que lhe ensolarava o pelame... Não é Wolverines. dizem que está em Montreal. Por instantes. após uma longa e perniciosa enfermidade. que os assistentes cobiçavam. Ao perceber que ele desaparecera. tinha um aspecto tão meigo.. compreendeu. em torno de seus olhos." Ajoelhado perto do animal inerte. Onde ela está? — No momento. Alguém gritou ao longe: — Encontraram-no! Cantor apressou-se. a pequena carcaju. Senão ela conseguirá matá-la também. Atravessou o cercado.. De longe. Não o procuravam por ali.

Mais um crime na série de crimes que vai se espalhar na esteira da Diaba. Cantor voltou os olhos para os homens que o observavam.. Venha comigo a Montreal. e um olhar humano à espreita. vamos vingar sua fêmea.. — Ela nos fez prometer que lhe mostraríamos os despojos quando voltasse de Montreal. Sem ruído e à sua maneira peremptória. gritando a plenos pulmões: — Siga-me.. — Perdoe-me — disse ele mais uma vez. um daqueles humanos que haviam matado sua companheira. Já desaparecera. o caminho de água. Wolverines. mais longe. venha! Venha comigo. Cantor levantou-se. deixando o grupo discutir com veemência sobre quem se apropriaria dos despojos do glutão fêmea. até que pudesse esganá-los. A captura e o encarne. Mesmo reconhecendo-o. — Despojos? Já os têm — disse ele.. naquela mesma linguagem de palavras francesas. Nem o crime. estraçalhá-los. até ali. com o pedido de suspender a caçada e limitar-se àquela caça que ali estava.E adivinhou: "Sua fêmea!. agora. Parecia-lhe que o glutão não estava longe.. galopando e saltando sobre os obstáculos do sobosque. durante longos dias e noites cruéis? Nunca se esqueceria. onde os caçadores iam recomeçar a perseguição a Wolverines. — Wolverines. Era a fêmea dele". Havia tanta tristeza mas também tanta alegria incrédula naquelas pupilas que luziam sob as groselheiras silvestres. Pelo resto da manhã avançou pelo sobosque e pelas brenhas quase impenetráveis de uma floresta que as lavras relegaram ao cume das encostas. — Isso deverá satisfazê-la. entregando a cada um uma gratificação. Vira tudo. separadas do corpo por suas garras e presas vingadoras. em direção à margem do grande rio. observando-o... inglesas ou índias e de onomatopéias que outrora empregava. daí em diante. siga-me. a senhora governadora também nos pagou muito bem para que acabássemos com o carcaju que ronda Quebec há dois invernos e que vem causando muitos estragos — observou-lhe um dos homens. deixaria que Cantor se aproximasse dele. Afastava-se sem ruído.. Finalmente. Não o reconheciam. foi de um a outro dos batedores. quando se encontrava na orla do valezinho devastado.. seguindo-o. os bosques de cimos franjados de chuva perolada. até liquidá-los... não cheguei a tempo. Wolverines!. Wolverines. depois de tê-los vigiado e perseguido a ambos. CAPÍTULO VI Na pista de Honorina — O barqueiro Pedro Lemoine . E continuou a falar-lhe até que sentiu que os laços estavam reatados. — É que. Ou então bem perto. precedendo-o. onde os terrenos não tinham ainda sido entregues aos arroteadores. Mas eu estou aqui. olhando à sua volta os homens silenciosos e. nem aqueles que o cometeram. mas que encontrava meio de se espraiar e progredir bastante na cidade.. vislumbrou uma massa escura^ agachada sob arbustos. "Eles mataram a fêmea dele.. e ele falava incessantemente.. Mas vamos vingá-la." Ele estava lá longe. até conseguir pendurar no alto de um olmo suas cabeças dilaceradas. tanto sofrimento mas também tanta felicidade... e havia de persegui-los até derrotá-los. Jamais se esqueceria. Começou então a correr.

fora convocada com urgência por monsenhor. Um pressentimento não parava de atormentá-lo. Se "ela" chegara à ilha de Montreal havia três «emanas. sem dar a isso muita atenção. captando o nome da Sra. sua diretora. em Quebec. e agora se podia augurar que as obras de caridade seriam beneficiadas. por instinto. Andando para a frente e para trás com hesitação. e ela lhe desagradou. Obrigou-se. isso sim!". que se apresentara como uma grande amiga da Sra. Ao saber de seu desaparecimento. era pois comovente e encorajador ter podido constatar com que fervor ela pusera todo o país em ação para encontrar a pequena interna fugitiva e a ajuda que trouxera espontaneamente às pobres religiosas de Nossa Senhora em sua preocupação. maiores detalhes. se ainda houvesse tempo. Lembrava-se subitamente de tê-la encontrado. em Tadoussac e em Quebec. de Maudribourg. tinha movido céus e terra para encontrá-la. de Gor-restat misturado às explicações muito confusas que lhe dava sua interlocutora. apertando os lábios. e Honorina. Cantor jamais estivera em Montreal. num tom leve e casmurro. Seu espírito permanecia ocupado por dois pólos: Ambrosina. "Céus e terra! O inferno.Antes de aparecer diante daquela que vinha perseguindo de tão longe. e . cujas funções estava naquele momento assumindo. Já estavam se voltando à sua passagem. de Peyrac. que devia proteger. Medo de saber que chegara tarde demais. e por fim compreendeu que a menina desaparecera. Sua hesitação em buscar notícias de Honorina era causada pelo medo. far-se-ia notar. Mas. A cidade ao pé do monte Royal estava ainda marcada pela grande feira de peles do outono. Não se enganava. decidiu-se pelo Convento de Nossa Senhora. contudo. com esse domínio mais aberto à compreensão e à atividade feminina —. Cantor rodou através. Sem tergiversar mais. Madre Delamare disse que Madre Bourgeoys. sem decidir sobre a qual das duas faria sua primeira visita. de Montreal. de ar altivo sob um lenço preto bordado de branco. pois "era muito desobediente". pensou. Isso também sabia Cantor. a Sra. cuja tradição se perpetuava com a vinda das tribos vizinhas. e que aquela mulher caridosa e alerta parecia ser verdadeiramente uma amiga de sua mãe. e que se cogitava inclusive que deveria fazer uma viagem à França. apanhar na armadilha. pôr a salvo. a exigir. Se continuasse a se expor daquela maneira. não devia ter esperado para atacar a filha de Angélica. e se sentia estranho. Ali as notícias corriam depressa. a fim de explicar-se com o arcebispado de Paris. Conhecia muito bem o ser infernal que jurara destruir dessa vez para sempre. pois era esse seu objetivo ao empreender aquela viagem aparentemente oficial. A Sra. tendo escapado por diversas vezes. Por isso. Pediu para ver Madre Margarida Bourgeoys. Cantor examinou sem condescendência aquela que lhe falava. não se surpreendeu ao ouvila dizer que Honorina de Peyrac não estava mais ali. quando uma religiosa. e prendê-lo em Quebec. E tinha de se lembrar que a tal Sra. seu coração baqueou. pois até então a colónia só tivera em sua direção governadores privados da doce e generosa influência de uma companheira. interessava-se pela menina. compreendeu sua imprudência. Em resumo. que devia surpreender. hoje mulher do novo governador. de Gorrestat. Mas. o bispo. antes de sua partida de Versalhes. das ruas de Ville-Marie. que tinham doravante a felicidade de acolher junto àquele que ocupava o mais alto posto da colónia — o que era — explicou num longo parêntese — outro sinal da bênção divina. de Gorrestat tentara mandar matá-lo. era tocante ver com que dedicação aquela grande dama. o recebeu num parlatório cheirando a cera e maçãs recém-colhidas.

. Depois voltou atrás. uma sombra sinistra rondava. — Senhor. mandara trazê-la de volta. uma terceira se escondia. Um dia encontrariam um pequeno cadáver mutilado. Pobres mulheres! Podia-se reconhecer ali o vento de desordem que se levantava à passagem da Diaba. Por trás da imagem mais inocente.. A força de interrogá-la. no fim da alameda. com medo de incorrer em censuras por tentar proteger as crianças. que se trata de um demónio. inquietação por Horiorina. Enquanto subia uma alameda de carvalhos que levava à estrada carroçável e que o ocultava da casa. provocando muito barulho com as pesadas saias. Oh! caro senhor. contrariava suas ordens. mas aparentemente não caíra nas mãos de Ambrosina. como sobre as almas negras igualmente. a linha da infinita floresta americana mal se distinguia sob a aproximação de um nevoeiro. armada com seu suave e inflexível poder sobre os seres de boa vontade. pois sei de fonte segura. me pareceu assustadora. Ela deu um grito de horror. um demónio súcubo. O rapaz deixou o lugar num estado de espírito agitado. que tinha por fundo a extensão cinzenta do rio confundida com o céu do mesmo azul-acinzentado que as águas. Chegando à cerca que delimitava o pomar. Cantor estava furioso. — E você tem razão.. confrangido pela angústia. voltou-se para a casa baixa e branca. O coração de Cantor doía-lhe.. a mulher do novo governador. pelo que compreendi. A menos que fosse apenas um artifício para dissimular seu crime. olhando para os lados —. Essas freiras eram todas retardadas? Uma abandonava suas responsabilidades por uma viagem que podia durar pelo menos dois anos. as meninas comiam pão com melaço e o olhavam com curiosidade. em virtude dos estatutos de sua ordem de religiosas docentes mas não clausuradas. Havia como que um hálito ruim que embotava as cores e o brilho da vida feliz. — Não ouso emitir em voz alta minha opinião — sussurrou a freirinha. entre as santas mulheres.também a Roma. que falava extasiada daquele monstro de vícios. detivera tudo e acionara a máquina ao contrário. para impregná-las de pecado... é o irmão de nossa pequena Honorina. Sentadas na relva. Um sopro deletério envenenava o ar que se respirava. sob macieiras de ouro polido e cerejeiras nuançadas de encarnado. usando das prerrogativas de sua posição. arauto dos primeiros frios. o que acontecera a Honorina? . Ela era capaz de tudo. irmã — desferiu-lhe ele —. em que se misturavam cólera para com as damas do lugar. encontre-a! O que irá dizer Madre Bourgeoys quando voltar? Ela deixou ordem para que a menina pudesse partir com a caravana. Mas. enquanto isso. a outra. pois essa pessoa. tapou a face com as mãos e fugiu soluçando para a casa. o que era motivo de muitas controvérsias nos meios eclesiásticos. de uma fonte eclesiástica. ouviu alguém correr atrás dele e percebeu uma jovem religiosa que se esforçava por alcançá-lo. O pesadelo recomeçava. mas alegrei-me de que a menina tenha escapado. Como nossa irmã Delamare se-deixou enredar a esse ponto?. assim que sua superiora virara as costas. Como Madre Bourgeoys pudera deixar em seu lugar uma pessoa como aquela que o recebera. conforme pedido do mensageiro enviado por sua mãe. Ambrosina. a seu bel-prazer. Suspendera a partida de Honorina. Traçada ao longe. Ambrosina? Mais urna que se deixara enganar e que subitamente se achava guardiã do Mal. Depois a menina desaparecera. pois esta mandara continuar as buscas. o rapaz compreendeu como as coisas haviam ocorrido. terror em relação a Ambrosina.

Chegou à margem do rio e começou a acompanhar seu curso, sem saber ainda o que fazer. Para abordar a inimiga, a hábil criatura de língua viperina, precisava refazer as energias. Pensava em Honorina e, por trás dás palavras pronunciadas no parlatório: "ela era muito desobediente", "ela desapareceu", "causou uma grande confusão, fugiu", revia a silhueta da garotinha de cabelos ruivos, alta "como três maçãs", com a carinha redonda, desprovida de beleza mas tão cómica, encimando-lhe o lindo pescoço, naquela atitude de desafio e dê dignidade tão característicos... Que força indomável naquela criaturinha! Era por isso que havia uma tendência, a se mostrar duro e injusto para com ela. E ele em primeiro lugar, pensou com remorsos. É verdade que ela era insuportável. Mas continuava a sentir raiva de todas as mulheres, e quando pensou na injustiça que jamais deixara de pesar sobre Honorina, sua cólera estendeu-se àqueles que a tiveram sob sua guarda e que não lhe tiveram amor, portanto, a si mesmo. Todo mundo queria livrar-se "da menina. Ele também, quando estava em Wapas-su, queria que ela fosse punida. Aquela menininha, exigente e suscetível, que monopolizava sua mãe e mesmo seu pai sem qualquer direito, o agastava. De onde vinha aquela menina?... Era melhor não pensar nisso, pois sentia vontade... de desembaraçar-se dela. E agora, era bem feito! Não sabiam nem onde ela estava. Todo mundo quisera isso. Mas era uma coisa horrível, mais pesada que chumbo para se carregar. Pois ela era tão pequena e tão engraçada... Era orgulhosa, teimosa mas indefesa. "O que é uma criança?", diz o iroquês. "Não se pode dar importância a seus atos, pois ela não tem juízo. O que lhe deve o adulto?... Defendê-la enquanto ela se fortalece e cria juízo!... Mas Honorina fora arrancada e lançada ao vento!... Lembrava-se de quando ela lhe levava raminhos de flores, quando lhe engraxava as botas para lhe agradar... Ela sempre o amara. Ele era seu preferido. Por que a repudiara? Não compreendia mais. Era apenas uma criança! Não deveria ter deixado aquele estúpido ciúme corroer seu próprio coração. E agora Honorina estava perdida, por culpa deles todos, por sua culpa... As lágrimas brotavam-lhe dos olhos... Esforçava-se por retê-las. "Seguirei sua pista!... Irei até o fim do mundo. Farei aquela megera confessar. Eu a encontrarei, Honorina... Vou trazê-la de volta." A pequena Honorina em. preces. Fora assim mesmo que ela se anunciara da última vez. Ele havia ido às ursulinas de Quebec para despedir-se dela, antes de embarcar com Florimond. Mas ela mandara dizer pela madre superiora que estava rezando na capela, que tinha tido uma visão... e simplesmente se recusara a vê-lo. Que cabeçadura!..." Enxugou os olhos. "Vou encontrá-la, cabeça-dura!. Sozinho, acompanhava a beira do rio. Estava agora longe da cidade e ultrapassara as últimas casas, dispersas em meio aos jardins e campos. Ouvia apenas o roçar das plantas altas contra as botas e o sussurro dos insetos de fim de verão, cujo número começava a reduzir-se pelas noites frias, agrupados em nuvens vorazes. Maquinalmente dirigia-se para o oeste, tomara a direção oposta à de seu acampamento, um canto sob os chorões que escolhera na extremidade oposta da ilha, num lugar pouco povoado, onde só havia, no alto da colina, um velho moinho abandonado, por que o proprietário do lote nunca trouxera um contingente de pessoas

para povoar essas terras. Os sulpicianos que as haviam cedido estavam em negociações para retomá-las, mas o caso se arrastava, e o lugar, enquanto isso, continuava a ser domínio da caça aquática. . Cantor de Peyrac desembarcara ali pela manhã. Não se aproximara da ilha de Montreal sem precaução, e após uma série de manobras destinadas a confundir sua pista, e a encontrar em cada etapa seu companheiro Wolverines, seguia-o ao longo do rio. Dotado de um instinto que o avisava a distância de suas intenções, o animal esperava-o sob um arbusto no lugar onde o jovem viajante deixava a barca ou o navio em que conseguira passagem por um dia para subir o Saint-Laurent, ou então Cantor, sentado junto à fogueira na noite do litoral, via-o surgir ao cabo de algumas horas, dando grandes saltos cómicos. A canoa servira-lhe para fazer o animal atravessar. E agora, o glutão estava na ilha. Era preciso agir depressa, antes que os cães ou os índios ou habitantes, lavradores, pescadores, caçadores ou casais de namorados o descobrissem e anunciassem sua presença. Cantor de Peyrac tinha dè arquitetar um plano. Mas precisava acalmar dentro de si aquele furacão de inquietação que o submergira. Esforçou-se por se acalmar e encontrou consolo na lembrança de todas as brincadeiras que fizera com Honorina, aquele diabrete de cabelos ruivos. Pois, no fundo, os dois entendiam-se muito bem. Muitas' vezes empoleirava-a nos ombros para fazê-la dançar e saltar "como os índios" em suas danças guerreiras, gritando “iu! iu! iu!", e uma noite enluarada levara-a, às escondidas, para escutar o coro dos jovens lobos, chegando bem perto para vê-los. Uma voz de rapaz cantando sobre a água chegou até ele. "A seis de maio do ano passado, Fui lá para cima... Para fazer por lá uma longa viagem... Ir aos países altos Em meio a todos os selvagens..." Cantor levantou a cabeça e viu que o nevoeiro que vinha de longe recobria o rio. Ele passaria e iria pendurar-se na beirada do monte Royal para o norte. Ou então se dissiparia como por encanto. O outono era uma estação clara e alegre, de cores quentes mas breves. Por trás do nevoeiro, a voz melodios a continuava: "Quando a primavera chega Os ventos de abril sopram em suas velas Para voltar a meu país Na extremidade de Saint-Sulpice Irei saudar minha amiga Que é a mais bonita..." Uma barca despontou, saindo do nevoeiro, conduzida apenas por um rapaz de dezoito a vinte anos, robusto, no qual Cantor reconheceu Pedro Lemoine, terceiro filho de um negociante de Ville-Marie. O mais velho, Carlos de Longueil, servia como tenente no Regimento de Saint-Laurent em Versalhes e fazia parte de sua companhia.

Depois de se olharem, cumprimentaram-se. Pedro Lemoine passara também uma rápida temporada na corte. Apesar da pouca idade, era um marinheiro emérito, que já conduzira navios na travessia do oceano. — Julgava que você estivesse na França. Traz notícias de nosso irmão Carlos? Tivemos notícias dele recentemente por Tiago, meu irmão do meio, que voltou na escolta do Sr. de Gorrestat, o novo governador. Ao ver Cantor franzir o sobrolho, acrescentou: — Isso não quer dizer que estejamos de acordo com ele. Ele é meio louco, o Tiago. Fez parte do conchavo contra o Sr. de Frontenac. Mas tudo isso vai se acalmar com o inverno que se aproxima... E você, teria chegado também com o governador?... — Vim para procurar minha irmãzinha, Honorina de Peyrac. Pedro Lemoine, amarrando o barco numa estaca à margem do rio, saltou para a terra. Estava se dirigindo a Lachine e decidira fazer uma parada, enquanto o nevoeiro se dissipasse. — Sua irmãzinha, você diz? — perguntou, com um ar pensativo. — Imagine que há menos de três semanas ela estava aí, bem no lugar onde você está. Estava aí, sozinha, tão pequena e carregando um grande alforje. Eu a vi. Disse-me que queria ir até o solar do Lobo, à casa dos tios. Levei-a em minha barca e deixei-a não muito longe do solar. — Meu tio De Sancé! — exclamou Cantor, iluminado, pois via ali uma pista para encontrar Honorina. Dera pouca atenção à descoberta de uma parentela no Canadá. Já bastavam todas aquelas que Florimond desencavava em Paris. Subiu por sua vez na barca do jovem canadense. Obteria mais informações lá embaixo. "Ora, vejam, aquela danadinha!", dizia consigo, todo animado, "como soube se arranjar direitinho..." Um vento fresco dissipara as brumas. Cruzaram uma barca carregada de crianças. Os jovens de Montreal passavam a vida sobre a água, manobrando velas. Mosqueadas de branco, as corredeiras se anunciaram a montante. Pedro Lemoine deixou Cantor na extremidade inferior da costa. Disse-lhe que se preparava para partir para o alto Saint-Laurent e que, se quisesse encontrá-lo, estaria em Lachine, onde ia recolher bagagens e mercadorias. CAPITULO VII Mariângela do lobo Um elfo de cabelos loiros descia a campina, ainda verde, correndo e dançando, vindo em sua direção. Tinha um olhar que lhe pareceu familiar. Achou-a imediatamente muito graciosa e, quando ela parou a alguns passos para examiná-lo com ar pensativo, lembrou-se de que uma das filhas daquele tio, reencontrado após um silêncio de quase trinta anos, teria, diziam, os traços semelhantes aos de sua mãe, Angélica de Peyrac, nascida Sancé de Monteloup. O que, na ocasião, lhe parecera impossível. Em seu foro íntimo, devia retratar-se. Não seria mais o único a evocar um rosto que fazia o rei suspirar quando ele aparecia, o que ao mesmo tempo lisonjeava e causava alguma inquietação ao jovem pajem, portador, a contragosto, de sombrias lembranças para Sua Majestade. Esta era uma evidência que acarrateria outra. Os dois jovens pareciam-se de tal forma um com o outro que acabaram por rir.

Ela o mirava com os olhos claros e tranquilos. O que não impedira que o tal governador chegasse a Montreal quase imediatamente após a partida do Sr. suponho que seja Cantor. mas ela o levou para o lado das dependências de serviço. — Se é por sua irmã que está preocupado. uma almofada. Por pouco não a sacudiu. e foi ali que se sentaram. um pouco trocistas. abracemo-nos! Como se chama? — Mariângela. Eles voltaram no dia seguinte. lívido.— Prima. — Venha contar-me tudo isso num lugar tranquilo. no Caminho do Rei. Ela o avisou que seus pais estavam ausentes. em frente a Lachine. Tinham sido chamados a Quebec e tiveram que partir para a capital. "Eles" tinham voltado. você me agrada — disse ele. Dessa vez subiram até o solar. Sua carruagem estava parada embaixo. minha amiga. a fim de acolher o governador que substituía o Sr. de Frontenac. E você. . Mas sei o que lhe aconteceu. como periquitos com seus saltos vermelhos. um pente e uma escova colocados sobre uma arca. Ela colocou vivamente a mão no braço do primo. introduzindo-o numa vasta construção. e foi lá que a pegaram. uma manta e um braseiro como os usados nos navios. — Por quê? — Porque o governador e sobretudo sua esposa estão pondo o país inteiro de pernas para o ar. deixe-me prosseguir minha história. eu lhe imploro. contava Mariângela. Ganchos dependurados do teto prendiam lotes de peles. novamente transtornado. Esperou que ela o fizesse entrar no solar. meio entreposto. — Mas o que significa essa-maluquice de viagem e de correr por causa do governador? — gritou Cantor. dos lados da Madeleine. Mas era a garotinha que estavam esperando. Depois da partida dos pais. esses franceses. eu lhe estou dizendo! Mas tenha paciência. Soube que ela tentqu encontrá-los. — Vi-os de longe. no grande prado. Num canto. meio granja. tão impaciente estava. — Senhor! — exclamou Cantor. — Fale. e depois os índios a levaram para mais longe. — Por que você se desola tanto por não ver meus pais? — Eles poderiam dar-me notícias de minha irmãzinha Honorina. longe dos olhos curiosos que vêem de longe. e Sra. Um índio trouxe-me notícias dela. passando afetuosamente o braço pelos ombros da adolescente. não? Olhava à sua volta e começava a se surpreender por não ver ninguém mais. — Ela escapou-lhes. Não sabia o que vinham fazer ali nem o que esperavam. — Oh. Só o soube mais tarde. — Primeiro ela foi escondida entre os iroqueses da missão de Khanawake. Notou alguns objetos de toucador. como se a jovem com jeito de fada fosse a única habitante de um domínio adormecido sob efeito de um súbito encantamento. — Por quê? — Para que escape àquela mulher que quer matá-la. O pobre Cantor sentiu o peito dilatar-se sob o efeito de um alívio incomensurável. E o problema é que ela não compreendera que daquela vez não fora por eles que tinham voltado. — As pessoas estão enlouquecendo? — Gom efeito. posso dar-lhe notícias dela. — Você a viu? — Não. do Lobo. uma boa parte da colheita de feno fora-empilhada. Finalmente alguém que não se deixava iludir. não demorou muito para acontecer. rendas e plumas.

Dizia-se à boca pequena que a Sra. Mas. subir alegremente uma escada ou uma senda nos bosques. Estendeu os membros doloridos. Enquanto ela se eclipsava. Apoiado ao cotovelo. em sua primeira infância. Agora que estava tranquilo sobre a sorte de Honorina. Eu disse a meus irmãos: "Vamos sumir daqui! Vamos sair por trás e nos esconder no bosque". Não devia esquecer que essas moças canadenses eram muito audaciosas. fê-se girar numa ciranda entusiasta. — Anoitece. — Não o tentaram. — Que caminho tomaram os homens de Khanawake para ir ao país das Cinco Nações? — Ignoro. — Ela continuou: — Encontraram a casa vazia. como se ele a tivesse conhecido sempre. entres eles. casada com o oficial com guarnição no burgo de Saint-Armand. creia-me. Perturbou-se um pouco. De Gorrestat não conseguia disfarçar seu desprazer diante da inanidade das investigações. essas feras da corte não poderão mais persegui-la no fundo de nossas florestas!. e o mais jovem. você tirou de meu coração um peso enorme! Essa caça podre.A esposa do governador andava à frente. todas coisas urgentes. sentiu que ela o examinava com os olhos brilhantes de satisfação. — Certo! Eu encontrarei. e eles a esconderam. O surpreendente era que Mariângela tinha também alguma coisa da alma de Angélica. julgando agir cor-retamente. pois essa parte do rio não é navegável à noite. Enquanto ele comia. incitada por um trabalho a realizar ou uma diretiva a ser dada. sentia-se esgotado. e ele me contou tudo. Cantor deixou-se cair para trás no feno. Mas. erguendo-se se atirando o chapéu para o alto. Você teria de ir pela estrada. eu não quis voltar para dentro da casa. E. em Khanawake. onde fazem seus estudos. O índio batizado me disse que o intinerário devia ficar em segredo para que a menina corresse o menor risco possível. Chameio. um pichei de sidra. Agarrando as mãos de Mariângela. em sua juventude em Monteloup.. — gritou Cantor. alojei-me neste armazém. minha amiga. geralmente. em casa de minha irmã. quando viram que aquela mulher vinha procurá-la com tanta constância e quê seus padres jesuítas. procurando alguém para entregar sua mensagem.. não será coisa fácil livrar a terra da sua presença ímpia. num país em que faltavam mulheres. con-fiaram-na a uma caravana de cidadãos das Cinco Nações que. os maiores com os senhores de Saint-Sulpice. apesar de batizados.. sem se preocupar com a idade ou com a dignidade de sua posição. . Mandei meus irmãos instalarem-se na cidade. depois de sua passagem. Não tinha mais forças para pensar em nada. dava-lhe vontade de correr. e suas forças também. Será um dia novo. Ela voltou com grandes fatias de pão. e junto dela sentia-se à vontade. ficaram muito assustados. Que faria se voltasse à cidade e o reconhecessem? Fique até amanhã pelo menos... mas mais tarde. desejavam reaproximar-se de sua nação iroquesa. Enquanto isso. — Minha irmã está salva! Priminha. Como ele esboçasse um movimento para se despedir. Privilegiadas por seu sexo. Tinha-a ainda quando. lhe davam ajuda. tenho de acabar com o demónio. a moça reteve-o. Vou buscar-lhe algo para comer. Era verdade que se parecia com Angélica. vi o índio que rondava pelas imediações. atravessar prados ou casas. — Está salva!. e supunha de bom grado que esta devia ter a mesma vivacidade airosa. ela se estendeu perto dele no feno-e lhe disse que seu pai lhe propunha partir para França para conhecer a vida de uma jovem nobre francesa. Então. permanecendo apenas pasmo com esse encontro com sua prima Mariângela. Alguns dias mais tarde. Honorina fugira com a ajuda de uma de suas irmãs batizadas da tribo dos agniers. Antes. frios.. ela houvesse partilhado suas brincadeiras no Plessis ou em Versalhes.

Mariângela do Lobo.. posta à sua disposição pelos anfitriões de Montreal. — Em que está pensaiído? — perguntou. depois de enterrar o narizinho confiante em seu ombro. achava-se numa situação que não tardaria a tornar-se difícil. do berço ao casamento. devido a inquietação. prontas a assumir a solidão do inverno. Ficou-lhe grato por não lhe fazer outras perguntas e por. que. de fundadores de famílias. — O combate é para amanhã — respondeu. vivendo. eram afáveis mulheres de colonos.inocentes e naturais. aliás. Mas ali era pior. lhe devolvia o reflexo de um rosto ao qual não estava ainda totalmente habituada. que vinha solapar sua febre de ação. Desde os catorze anos. de Gorrestat. Estava diante da penteadeira. longe de procurar distraílo. pois havia também o tédio. quase dezessete. que lhes pareciam sem sentido. Uma mulher tão bela de se olhar. conquistando. bundo. como todas as crianças que nascem fora das restrições ou das desigualdades de uma velha sociedade hierarquizada. com os olhos fechados. cada golpe desferido. os anos de formação mundana não eram levados em conta. no centro daquela casa de grandes pedras achatadas. endireitar os cachos junto às têmporas e bochechas. não sendo casada e não reconhecendo em si qualquer vocação religiosa. fazendo sofrer. nos longínquos censos. Ambrosina de Maudribourg. Mesmo tendo de reconhcer que era muito bem mobiliada. olhou ao seu redor com mau humor. havia Angélica. E saboreara cada minuto de aproximação. por instantes. Ali. Experimentara o mesmo em Gouldsboro. Devia ter-se lembrado de que as terras longínquas exalam forças estranhas. Os caminhos alambicados do Amor descritos pela Carte du Tendre e as sutilezas das preciosas parisienses eram-lhes desconhecidos. juntando as palmas das mãos sobre o peito e tomando a atitude de um mor. que as esperava. Os curas de suas paróquias e as religiosas que as ensinavam tinham muita razão em fazê-las passar sem demora da férula da escola àquela do casamento. cresciam estreitamente motivadas por esse destino de mulheres de pioneiros. Nada mais delicioso do que ver obscurecer-se. Era tudo tão entediante ali! Ao passo em que Gouldsboro. certas cicatrizes que não conseguia apagar inteiramente. não se embaraçavam com os ares reservados. CAPITULO VIII A ressurreição de Ambrosina — Cantor face a face com a diaba A Sra.. sentia-se pouco à vontade. nascidas e criadas como ela na Nova França. que lançou sobre os dois. os trabalhos dos campos e do estábulo. os nascimentos anuais. mas que. Pouco adiantava maquilar-se com habilidade. estendidos um ao lado do outro. ter-se posto a dormir. Começou a experimentar o insólito dos lugares onde se encontrava. desde que soubera que Angélica fora ali recebida antes dela. aos dezesseis anos. Em primeiro lugar. já não é tempo de nos tratarmos como parentes íntimos? Levantou-se novamente para ir buscar uma grande coberta. Devia ser ao mesmo tempo mais infantil e mais amadurecida que suas companheiras. pois o frio do crepúsculo começava a se fazer sentir. havia certas protuberâncias. A desaparição da filha de Angélica parecera-lhe um mau presságio. — Primo. a cor . Ali estava ela.

desconfiou de mim. nos quais o fogo ardente de uma virilidade declinante exige. nem dele. Fora preciso esperar. Ele a queria. Podia felicitarse por não. fora uma silhueta discreta deslizando pelas ruas. A França fervilhante permitia ao casal apagar os últimos vestígios. nos quais. por bons escudos legalmente válidos. notários" ou homens de negócios. ." Ainda agora. "Ele me desprezava.. Desmascarava todas as minhas mentiras. queria ser salva e escapar de seus inimigos. Enquanto acreditava que ele caía em minhas armadilhas.. rangia os dentes ao pensar nisso. mais voluptuoso ainda. inatacável. e mesmo curas complacentes para passar papéis de casamento. na costa leste de Tidmagouche. as defesas masculinas de homens considerados incorruptíveis: eclesiásticos ou altos funcionários devotos. ou aquele. tentava tornar-se amante da Sra. Desde o primeiro instante. No fundo das províncias. de sangue meridional. vivida em terras da América. Julgavam que ela se cobria com um véu por viver à sombra de um amante rico. para se acender. em desfigurá-la e entregá-la aos animais selvagens da noite. que a entregariam à justiça do rei. não cedera a seus avanços?. como um porco no chiqueiro. que a ajudara a evadir-se. de ver cederem. No final das contas. Mas era Ambrosina que se entristecia ao lembrar-se disso. por quem estava tão loucamente apaixonada. Primeiramente. Precisava desaparecer. Levara anos para compreender. um homem idoso que voltara das colónias e que a tomara como amante. feiticeira e envenenadora.©velho Parys era um bom comparsa e cúmplice.. acompanhado de data e lugar de nascimento.. nenhuma falha se insinuara em seu plano. encontram-se> sem dificuldade. sentia a amargura invadi-la ao rememorar o longo purgatório vivido pela Diaba vencida. Sempre preferira os velhos. se tivesse sobrevivido. um tal de Nicolau Parys. a tornara prudente. igualmente imaginários. Hoje.verde de seu olhar. como assassina. Quanto a ela. Ambrosina sempre fora perita. Ah! quantos anos de fingimento! E sem poder sequer oferecer a si mesmo o sutil e secreto prazer de torturar alguma tola esposa de província roubando-lhe o marido. Queria se espojar sobre ela. cada uma de suas perguntas insidiosas tinha por ob-jetivo me desmascarar. Nenhum escrúpulo. O pacto foi concluído. muitos artifícios. quando retornara ao local escolhido para sua vingança. dar as cicatrizes do rosto tempo de se apagarem.. quando lhe insinuava que Joffrey de Peyrac. ao simples enunciado de um nome de batismo. Desaparecer para sempre. de Maudribourg. ter dado qualquer motivo de suspeita. desfigurada. Uma amarga e inconcebível experiência. em assassinar Henriqueta Maillotin. diante de seus encantos. O navio se distanciara. Durante todos esses anos. Ele! Ele! Por que aquele homem galante. Tanto um como o outro-se ativeram aos termos do contrato firmado entre eles numa noite sinistra. que acabariam . desde a juventude.por tornar irreconhecível aquela jovem mulher que iria substituí-la no túmulo. Tinha de ser prudente. O velho Parys satisfaria sua necessidade carnal com ela. Sempre quisera e continuava querendo aquela mulher ferida. nem dela. mas cujo corpo permaneeia-intacto.

por correspondência entregue por homens da lei. . sob sua ordens. de Maudribourg e de sua expedição. que a haviam colocado em xeque. "Quanto mais eu descia mais ela se tornava deslumbrante. mas munido de apoio seguros e relações importantes. Não deixava de ser engraçado reclamar. se conseguira enganar a rival. vice-rei por vários anos. a própria juventude. para dar prosseguimento a sua vingança. encorajara-o a se ocupar dos negócios coloniais. bem pagos. até em Tidmagouche. nessa questão de origem. dizia consigo. Pois. de fugir para outra cidade e mostrar-se com o rosto descoberto e sob outro nome. obrigado a ir a Paris explicar-se com seu soberano. aquele homem de pouca inteligência e muita vaidade. que transformara em marido. bem recompensados de mil maneiras. quando estava doente. no final Angélica fora. por instantes. a esquecer? E então calafrios de terror a sacudiam.. Ah! quantos anos fingindo. se fosse preciso. que atrelava a sua fortuna e que.. e chegou o momento de o velho Parys falecer.E. o Sr. de Gorrestat. a reclusa. Mas essa fantasia criou-lhe problemas depois. A seguir. para ela. tão jovem. Para Ambrosina. já se podia considerar certa a desgraça de Frontenac. para se divertir. O primeiro desses servidores não era. nascida Richemont. comprar alianças ou cumplicidades e. à força de ser tão ajuizada. Múltiplas intervenções obtiveram para ele sua nomeação como governador interino.. Não era mais totalmente a mesma. depois a pleitear um cargo na Nova França. não teria acabado por esquecer que só tinha um objetivo em vista: vingar-se deles e. E pouco depois. Pois essa identidade falsa lembrava-lhe incessantemente que. tudo se passara conforme seus planos. imposta ademais por um amo que não suportava o fracasso? Não fora tentada. que se fazia chamar Armanda. Por isso. a mais forte. No pé em que estavam as coisas. Ambrosina designara-se como nativa da província do Poitou. despertando seu ódio por "eles". Havia algum tempo. e depois a ressurreição de seu rosto. Não era isso o que mais a tocava." Acalentando suas ofensas. espreitando no espelho a cura. os anos haviam passado para Ambrosina. e isso era culpa de Angélica. que se mandasse esclarecer o caso do La Licorne. o Sr. longamente urdidos. reduzir ao silêncio os "estorvos". se encarregavam. Sim. Os véus foram se tornando menos espessos. principalmente. o Sr. intendente de província.. por efeito de alguma poção. almas negras de sua espécie. dizia-se. de qualquer modo. sem sabê-lo. o que era mais grave que tinha uma missão a cumprir. notícias da Sra. Não era mais tão bela. longe de diverti-la. aquela evocação do Poitou provocava-lhe raiva. sob pretexto de parentesco. dela? E por esquecer. de Frontenac. em Nevers. a apagada. sua esposa. segundo seus desejos. Foi apenas depois de desposar. houvera duas semanas em Paris onde se introduzira em algumas repartições. pedira. sua viúva. Os espelhos lhe anunciavam que podia reaparecer à luz do dia. e eu a mantinha à minha mercê. que começou à recrutar seus "fiéis": senhores arruinados ou criados sem escrúpulos. Certos vestígios jamais se apagariam. O que era excelente. pois parecera-lhe que a outra nutrira com sua derrota a própria beleza. durante a viagem do governador efetivo. e que todos admiravam por acompanhá-lo tão corajosamente àqueles longínquos e rudes países. apagada e discreta. de intrigar. de Gorrestat? Muito rapidamente e atenta a todas as oportunidades. e seu substituto. e por vezes se felicitava por isso.

como exigia seu novo título de mulher de governador. que conseguiram penetrar no estuário do Saint-Laurent... o novo governador. o que todos eles estavam pensando?. Infelizmente. A ilha de Montreal. Inquietava-se. indulgente com esses inimigos da França e com os huguenotes franceses renegados. pois pretendia acertar ali alguns contenciosos com aqueles que. conseguira convencer seu esposo. como o governador Frontenac. o bufão. Não receava as travessias. Nunca tivera a intenção de ficar mofando em Quebec. antecipadamente. Mas. "Paciência. e armara-se antecipadamente de paciência. dirigira-se a Versalhes. mas os prazeres que antevia nessa captura e nos sofrimentos que infrigiria a pequena vítima compensavam os aborreciamentos daquelas viagens fluviais em meio às homenagens. Uma reverência supérflua. o Tenente de Barssem-puy. que queriam ser chamados de "habitantes" e que se consideravam como senhores pelo simples fato de terem recebido direitos de caça e pesca. o presente lhe apresentava imagens do passado. que a odiava por ter mandado executar Maria.. Uma "pequena Versalhes". Considerara uma volta afinal da sorte e da proteção oculta... que tinha a pretensão de passar por capital. que não a notou de modo algum. A primeira vez viera como uma benfeitora. "Traidores inimigos. a Meiga. sentindo-se reconhecida e suspeita em certos olhares. em Montreal.. uma cidade dos antípodas gelados. acreditava nisso.. e Ambrosina rejubilava-se por afastar-se da capital e fazer-se ao mar. e pedido a desgraça do Padre Sebastião d'Orgeval.. Por quê? Como?. daqueles colonos-aldeões grosseiros. preparando seu sorriso mais gentil. para uma reverência ao rei. a montante do rio. seus aliados." Tivera razão. Junto ao batente de uma porta. . Joffrey e Angélica de Peyrac. aquela tola da Delfina e a gorda proprietária do Ao Navio de França. tinham-lhe escapado por entre os dedos. conforme soubera. se fosse preciso. entretanto. tinha de passar por Que-bec. "Mais tarde. dissera a si mesma. Desde os primeiros dias de navegação no Saint-Laurent.. o olhar verde de um adolescente fixara-se no seu. Ah! como se alegrara vendo balançar.. E pouco lhe importava começar pela província do Canadá. sua amiga! "São ingleses!". que navegava arvorando o pavilhão de franquia do Conde de Peyrac! E em Quebec. dizia aquele ridículo Ville-d'Avray. livre para ir aonde quisesse. haviam apoiado seus piores inimigos. fizera prontamente justiça. Prontamente a carruagem dos Gorrestat tomava o caminho do Havre. da qual começava a duvidar. Seu objetivo não era ser incensada por aqueles xucros coloniais. desta vez. pendurado às vergas de sua nau capitânia. estava do seu lado. O Diabo.." Pena que. sentindo vacilar a infalibilidade de suas astúcias.. E Frontenac.Depois. Execute-o para mostrar que não é. pelo tempo que for preciso. saber que a filha do Conde e da Condessa de Peyrac — a menina para a qual Angélica apanhava ame-tistas nas praias de Gouldsboro — era interna na instituição das religiosas da Congregação de Nossa Senhora. cuja antipatiapudera perceber. que sentia serem falsas e perigosas. ficava longe. Mas sua nova função a obrigava a descer até lá. dessa vez. Por outro lado. não se tivesse podido capturar toda a tripulação do pequeno iate. O acaso entregava-lhe a filha de seus inimigos. Mas. O anúncio de sua morte a espicaçara. Lambia os beiços. a ser ali recepcionada e aclamada. E já estavam mortos os que deviam morrer. com um súbito clarão. Gouldsboro". por causa do nevoeiro. isso não era de todo inútil.

Angélica. Ambrosina agora via claramente. não fora pela perda da proteção satânica. mas de ondas poderosas. Conseguira pois afastar da criança seus protetores importantes. tão maldita inimiga... o Sr. "Partamos rapidamente para Montreal".. Espalhou à sua frente. sobre a penteadeira. uma turquesa. um dente de ca-chalote gravado. durante anos de desterro numa província da França. de Frontenac.Mas quanto mais os detestava mais se rejubilava. torturá-la até a morte e enviar. Angélica. o conteúdo dos dois cofrinhos encontrados no alforje da criança. Sua presa desaparecia. alteradas por uma inércia demasiado longa." E repetindo interiormente o ditado. uma cumplicidade natural.. tornarei a encontrá-la! A vingança é um prato que se come frio. fazendo-a deslizar na outra mão.. e que apaguemos em cada um deles a lembrança do governador anterior. Gouldsboro. novamente. explodia num riso estridente. "é preciso que conheçamos todos os nossos administrados antes do inverno.. Deve-se'desconfiar da coalização oculta dos membros de uma mesma família. pois teria muitas oportunidades mais tarde de fazê-los pagar por sua arrogância. tudo em vão. uma vez mais. E começava a aceitar. de uma espécie mal conhecida. fazendo que fosse convocada pelo bispo em Quebec. a rigor. Não fora por culpa de um enfraquecimento pessoal de suas faculdades. Conseguira afastar Madre Bourgeoys. a mãe daquela criança. E. de beleza estonteante.. Pior ainda!. que se pusera a urrar. por exemplo. atacara a "eles". mesmo entre aqueles que pouco se conhecem e não se dão bem.. O que havia afinal naquela família que lhe era tão adverso?. ao saber que fugira. dissera ao esposo. "Muito frio!. menos fáceis de enganar que os humanos do Velho Mundo. já que lhe anunciavam que não podia ser de outra maneira. Tudo isso era exatamen-te desagradável. uma fortuna distribuída. foi procurá-la no convento e." Quanta paciência e abnegação aparente tivera de demonstrar para apagar a má impressão da cena! Aquelas pessoas do Canadá tinham uma proteção ridícula a adorar suas crianças e a dar-lhes razão em tudo. tratando-a de envenenadora: "É a Dama Lombarda! É a Dama Lombarda. conchinhas. E depois." Podia esperar aquele prato de resistência depois de oferecer a si mesma em Montreal o de raptar a pequena Honorina. uma a uma. que jamais lhe faltara. Era-lhe pois preciso concluir que a menina era tão perigosa quanto a mãe. . Você pode esperar." Sim.. a envenenadora. Mas porque. tão desejada. antes que os desse à filha. melhor dizendo. possuidora de um incompreensível poder de sedução. que Ambrosina. conseguira capturá-la de novo. e também os tios de Honorina. ao maltratá-la com raiva. se via posta em xeque. Todas as investigações. "Mais tarde. Desvanecia-se. Até o momento em que se encontrara diante daquela menina enfurecida. uma estação nos gelos da pequena corte de Quebec. as provas do crime a sua tão odiada. não fora sequer pelo fato de os franceses e os índios do Canadá se revelarem menos maleáveis. e plumas. cria-se entre eles. Gouldsboro. tudo andara muito bem até então. diante daqueles objetos heteróclitos de valor desigual. um inexplicável revés. a Diaba. Ali havia largada uma mecha flocosa dos longos cabelos ruivos que ela mesma arrancara da cabeça da menina. adivinhava que alguns deviam ter pertencido a Angélica. pois era com desprazer que tomava conhecimento de haver naquelas paragens um irmão de Angélica.. Pegou aquela mecha entre o polegar e o indicador.

Onde estava ela agora. dará o meu nome. a Marquesa de Brinvilliers. "Foi ela que o matou!".. motivo pelo qual se afastara precipitadamente. àquele Desgrez e a seu mestre. . Foi outrora. de Gorrestat ainda não tinham embarcado quando souberam que La Voisin era acusada de tentativa de envenenamento do rei. sua partida para o Havre assumira o aspecto de uma fuga. em voz alta.. consequentemente. "Se ela for interrogada. sempre o horroroso policial Francisco Desgrez. Entretanto. Paris inteira tomava conhecimento da prisão da adivinha em causa. chamada La Voisin. daqueles padres pertencentes à or-de-nx fundada pelo Sr. Contava com o Sr. Sr. exclamou.. Não era uma coisa injusta? Sempre fugir. sempre dissimular. que se podiam visitar em seus covis. por trás daquela prisão. suspeitas e investigações? Passando por Paris. quando lhe escapara no momento exato em que fora prender sua amiga íntima. a Mauvotsiíi. desse desaparecimento". efetivamente. para a função de mágico. Desaparecido. Dessa vez. quisera consultar a mais famosa das feiticeiras. num refluxo imprevisível das circunstâncias.. morta!" Deu uma gargalhada que finalizava numa cachota macabra e sem eco.. teria uma pletora de endereços úteis. Seu desaparecimento coincidira com a visita que o Sr. ambos cães de fila do rei. eis que lhe anunciavam sua morte. e a Sra. uma de suas mais assíduas clientes. Ao se aproximar de sua casa... e aquilo lhe parecera inquietante e insólito. Seria preferível não deixar em sua passagem nenhuma pista que pudesse ser farejada. Ambrosina tremia só de lembrá-lo.. e há muito tempo. Dois dias depois. E. disse consigo. Uma suspeita assustadora começou á apoderar-se dela. "Devia ter providenciado os serviços de um mágico. refugiar-se no Novo Mundo — onde poderia se manter incógnita com mais facilidade. Como da primeira vez. o Sr. Mas não pôde deixar de olhar em torno." Em Paris. Como as notícias correm. nomes de adivinhos e adivinhas.. medrosamente. 'Eles' também estão por trás dessa morte. Ambrosina sentira-se aliviada por poder fazer-se ao mar. Atenaís de Montespan fugia da corte.. Mas ali. de La Reynie. Sempre esconder-se. Vicente de Paulo para pregar à gente humilde. Mas que importa que me nomeie? Estou morta"." Teria podido fazê-lo... como da primeira vez —. de Varange. sem atrair a atenção da polícia e acarretar. o tenente de polícia do reino. vira saindo de lá um grupo de "missionários".. o policial atingia o cerne da fortaleza dos envene-nadores. perito na arte de feitiçaria e que a esperava em Quebec. escapando. Por que Varange desaparecera no momento em que "eles" chegavam? Como se quisesse ceder-lhes o lugar. de Peyrac tinham feito a Quebec. e a Sra. Por causa daquela personagem. com minha cara Brinvilliers. aquela pequena miserável? Como alcançá-la? Causar-lhe infelicidade? "Podem-se fazer muitas coisas com cabelos. Ora. — A Duquesa de Maudribourg está morta! — disse.

o de Honorina.... Parece que La Voisin ou outra comadre as batizava antes de enfiar-lhes a agulha no coração. vão me considerar louca. Que visão ridícula e despropositada! Que importância tinham esses bebés sem nomes. Suas mãos se abriam e fechavam no desejo de apertar um pescoço de criança. inspirados pelas evocações lúbricas de seus projetos frustrados. e. Queria muito gozar." A frustração e o desejo das visões entrevistas atormentavam-na desvairadamente. Ele também sabe que foi ela que matou Varange.. suplantado por forças que ela mesma desencadeara. mas não sofrer.. muito bem pagas. Onde? Quando? Por quê? Como adivinhara que o velho debochado era seu cúmplice? Impossível sabê-lo.. e. Como é difícil afinal habitar uma carne tão fraca! E eis que. Graças a Deus!."Ela vai pagar caro por haver arrancado a Satã sua presa. teria dito. repetiu. Antigamente.. com a única finalidade de concluir sua missão. muito belo. eu também.. Hoje. . uma criatura humana?. que o rei pusera em ação. Senão.. desejava um amplexo amoroso para acalmar ardores quase dolorosos. Não devia mais fazer projetos.. indagava-se com terror. Mesmo esse Garreau d'Entremont. a não ser em voz alta e para enganar.. E a flor da nobreza da França seria enviada à Bastilha ou ao exílio. mesmo.Estava tão segura de seu pressentimento que não mais conseguia discernir se estava se deixando levar por divagações obsessivas ou se estava sendo avisada magicamente da realidade. Só podia ter sido ela..".." Mas pediria provas. Mas fora Angélica quem matara o Conde de Varange. muito ereto. à pecha de feitiçaria. Ah! sim. Essa nova polícia. que trazia em si a dor possível de Angélica. em comparação às grandes personagens que pagavam um preço tão alto por sua imolação? "Larvas humanas. fora de qualquer estratégia.. um pescocinho branco e firme. que só espera uma denúncia nesse sentido. nascido do mais profundo de suas entranhas. O medo e o ódio dilataram-lhe o coração. "Tornei-me realmente. adivinhava que era o medo que lhe apertava a garganta. se um pacto interior feito com as forças infernais não lhe proibisse empregar esse vocábulo. Se não o conseguisse desta vez. "Que volúpia!". de Varange. à acusação." Provas! Não podia acusar Angélica sem apresentar provas! Deteve abruptamente a louca progressão de seu pensamento. de sua vingança inacabada. verdadeiras larvas humanas. Por não tê-lo experimentado nunca. não lhe concederiam sobrevivência.. Esquecer o que acontecera na Acádia. imoladas nas missas negras. queriam provas. Cometera um erro por esquecer. repetia baixinho com unrlongo suspiro. exigia provas. por culpa dos cadáveres de crianças recém-nascidas. rezadas sobre um ventre de prostituta. torcendo a boca numa careta de asco.. à guilhotina. não tinha razão alguma para sobreviver. Sentia medo. O Medo! Era a primeira vez. Suas entranhas despertavam.. Serei olhada com suspeita. "sem nome e nem mesmo batizadas. ignóbeis larvas brancas retorcendo-se e bocejando". O Fracasso! A Derrota total! Mas sobrevivera.. e seu corpo pareceu-lhe fraco. despertando nele espasmos voluptuosos.. "Ah! como odeio as duas!. subjugado. Idiota. "Vou gritar em toda a parte que foi ela quem o matou. bastava recorrer à delação.. Angélica matara o Sr.

quantas saudades me dilaceraram! Você foi tão maltratada na praia de Tidmagouche. Ela podia fazer as mulheres chorar. Nada representam quando. escravos de seus sentidos e de sua vaidade. você me persegue. Estremeceu-se violentamente. chegando ao Havre com o esposo. e por que atravessei os mares. havia também o medo. Eis. destruir-lhes a existência. quantos remorsos me atormentaram. portanto. mas ele. uma surda certeza a obsedava. senhora. procurando saber mais coisas a respeito dela. está me reconhecendo? — Certamente — disse ela. era muito fácil levá-los a ceder. Apesar disso.. implorando seu perdão. quantas lágrimas derramei. — Senhora. na an-tecâmera do rei. de satisfazer desejos muito diversos de uma simples curiosidade. exceto algumas. então? O receio não cessara de atormentá-la.. Oh! senhora — prosseguiu. já que um acaso abençoado me permitia. — Eu estava à sua procura. . como lhes escapulira novamente? Ele tirou graciosamente õ" chapéu de feltro e saudou profundamente. Preferia o corpo-a-corpo com o adversário. de joelhos tremendo. Desde que se sentira reconhecida por ele em Versalhes.A voz de um serviçal informando-lhe que um homem jovem desejava falar-lhe chegou ate ela. No corpo-a-corpo era a mais forte. — Não acredito em você. ao me lançar em seu encalço. Mistura de medo e de satisfação. Aquele que acabava de entrar era uma resposta a suas dúvidas e indecisões. tratava-se. destroçá-las. Posso saber por quê? — Reconheci-a.se„trata de me assegurar desse milagre. que deixou à sua espera no lugar. senhor!. Como era belo esse Cantor de Peyrac! Seu nome e sua beleza faziam ao mesmo tempo rilhar os dentes e subir água à boca.. belo pajem. a de que ele não permaneceria lá. com efeito. apaziguar minha consciência. quando todos a julgavam morta há vanos anos. — Senhora. o que eu tinha a lhe dizer. sem deixarlhe tempo de perceber nele e nela a falsidade daquelas declarações —. a vitória estava assegurada de antemão. Embarcando talvez em sua perseguição. Enquanto esses machos imbecis. pois. que tinha os mesmos olhos da mãe. O atentado fracassara. que importam os mares a atravessar. ao meu ardor e à minha paixão. e voltou-se.. ao sair de Quebec para Montreal. para mim.. Você está viva! E. O animal fora morto. assassinos. desde Versalhes. e dera-lhes ordens precisas a seu respeito e do glutão. Eis por que quisera mandar matá-lo imediatamente. mas não domá-las. Acredita nele? Havia nos olhos puxados de Ambrosina clarões frios e fixos. E quando se tratava de um belo jovem como esse. Ou mentindo.. que o impele a vir aos antípodas para satisfazêla? Está gracejando. Ela repetiu: — Viram-no correndo em Quebec. Não é normal ter querido assegurar-me de que meus olhos não me haviam enganado? — Uma curiosidade tão desmedida.. Descrevera-o a seus homens.. e não me cabe nenhum mérito. embarcara para a Nova França. Entretanto. Ridículo! Pois. não parava de imaginar aquele Cantor de Pey-rac. e tão injustamente! A loucura dos homens não tem limites quando o ciúme se apodera deles. Estava tão convencida disso que. previra sua vinda. — Mande-o entrar! Sentiu uma presença no limiar do aposento. levantando a cabeça com desafio '—. a alguns passos.

tendo deixado tudo por ela afirmava ele. Olhou em torno com terror. mas. não o pronuncie.. — Com efeito. depois apoderaram-se dele. Não queria ser reconhecida. "mas. "Dane-me... desde que ele surgira. mulher do novo governador. Que mistério explica que seja mais bela do que em minha lembrança. e estabelecido a reputação de dama caritativa e casta. com ansiedade."sêus receios. ali estava naquelas plebeias províncias.. pensou ele. — disse. a Sra. Os olhos verdes defrontavam-se com o olhar de âmbar. — Era isso o que me agradava — disse ela. Ah! Sra. a rainha. — Por quê?. vivamente. investido já de poder e de arrogância. Os cantos da boca descaíram-lhe. em vez de censurá-la e desfazer-se dela. em que precisava ser assegurada. mudou. cujas peripécias nutriram incessantemente suas lembranças com fantasmagorias. concedera-lhe um feriado de amor ilimitado. deixando-a "arrulhar" seu jovenzinho até não poder mais. ao contrario. duvidando de minha lembrança e de meu fervor. perdê-la. Sra. De que modo poderia provar-lhe esses sentimentos senão cometendo a loucura de persegui-la? O que eu procurava nessa corrida insensata? Veja! Julgando tê-la reconhecido. era sobretudo aquela mulher aventureira do Novo Mundo — como esse papel lhe agradara! — que alguns anos antes passara. Quem faria tal gesto senão impelido pelo ardente e sincero sentimento que ouso confessar-lhe? Não reconhecê-lo é lançar-me ao desespero e desconhecer também a força dos ardores que me inspira. Seu ser se desdobrava.. . pelo menos. Pequeno deus. ou. Ela era ainda. Tiraria partido disso... que estava louca por ele. Mas não pudera refreá-lo.. — Tidmagouche!. quando por ali passara.Em Versalhes. com amargura. — Não me nomeie — intimou-o novamente... Avançou imperceptivelmente para ela. um arrefecimento passageiro da luta. Arrisco-me à desgraça junto ao rei. Senhor. senhora. pequeno senhor. Ainda não eliminara totalmente testemunhas perigosas de seu passado. — lançou.. de. mas mesmo assim a reconheci. esse estremecimento era o sinal precursor de. Ainda me restava uma dúvida. entre outros. — Eu era apenas uma criança... por uma odisseia secreta. então! Ambrosina! Esse nome cheio-de encanto preencheu minhas noites. fingindo-se deslumbrado. ouvira mexericos a propósito de uma das damas de honra da rainha. aturdi-la. nas praias da Acácia. por meu pecado".sua rendição? Ele notara suas fraquezas. Pronuncio este nome sem mesmo acreditar.. como na praia de Tidmagouche. cantando incessantemente dentro de mim. — Mudei tanto assim? — Sim. Mas não pensei em nada!. abandonei imediatamente meus cargos na corte. com um sorriso matreiro e cruel. suas possibilidades de sedução. mistificá-la!" Foi invadida por um tremor. mas com dificuldade. mais próxima de meu sonho. e adivinhou que o trejeito a enfeava. não me lembro de você ter me tratado com justiça. — Psiu! — fez ela. de Gorrestat. cuspindo fogo e chamas. que a apreciava muito... de Maudribourg. — Reagiu a seu nome.. ao mesmo tempo para levá-la de volta ao passado e fazê-la temer o presente. — Tidmagouche. — Então é você realmente — sussurrou. Havia vários pontos em que não tinha segurança. — Ambrosina. que minha carne sirva para issc^L.. numa voz estrangulada. e essas duas luzes se aniquilavam numa espécie de trégua. Explodiria em insultos. — Está me ferindo. tendo já conquistado os edis da colónia. Sua beleza. A tal ponto que.

sacudia-lhe o corpd. Nunca mais.. flexível. Mas as mulheres.... Elas me escaparam!.. Reconduzida a uma vida longínqua. assustado com o amor e o domínio da carne. É inadmissível! Isso exige punição!... apagada.. as mulheres não têm o direito de triunfar sobre mim! As mulheres me pertencem. Ah! como as odeio. Apenas elas!. por ter me repudiado. — Não acredito em você — repetiu. um dia ou outro. Seja como for. Não ousou contrariá-la.. As pupilas de Ambrosina brilharam com um clarão venenoso. ele me renegou e mentiu para satisfazê-la. mais criança.. tive. pobre tolinho... enojado..'Era um homem. — Bem que eu quis iniciá-lo. adivinhava que estava falando de Angélica e de Honorina: Uma candente indignação turvou-Ihe a vista. E você também. a despeito de si mesmo. da violência que era cometida contra você naquele momento. alguns dos longos cabelos da ruivinha. eu tentava agradá-lo. que atraía o tempo todo seu olhar. não há o que temer deles.. "Eu a matarei. piedade de você. um pouco mais jovem apenas. pois disso. Sua necessidade dele devastava tudo.. que a harpia provavelmente arrancara do crânio dela. — Todavia você estava com aqueles que se lançaram sobre mim para me massacrar! — Deus me livre disso.. Por causa de minha beleza. jurou a si mesmo. não. elas zombaram de mim.. Mas elas.. Que Deus me assista e sustente minha espada!. cintilante. que me eram desconhecidos. O horror e o asco comprimiam-lhe a garganta. minha cara. ouviria mulher alguma murmurar-lhe palavras de encontro e promessas voluptuosas. um fio de cobre. às duas! Quanto a ele. e dediciu acreditar nele. Não. serenada. Sua mãe! E uma criança. — Lembro-me de sua maldade quando.. em que ele fora quase o mesmo diante dela. . Pois é o mais fraco. Havia em seu ser um debate incoerente. que tinha ciúmes de mim. sua meia-irmã!. em Gouldsboro. — Tive medo. Faço o que quero com eles. — Tinha medo da cólera de sua mãe.. E. esquecida. inconsciente de trair com essa atitude uma inquietação quanto à perenidade de sua beleza e de seus poderes. Mulheres.Ela sentiu junto de si aquela carne rija de um homem muito jovem. perdeu o controle de suas palavras. Não será um pouco tarde agora para vir implorar meu perdão?. que rivalizava com a dela. até que compreendeu que eram alguns cabelos de Honorina. ela se voltara para o espelho e se examinava. pois se tornara seu meio-irmão mais velho. — Em seguida. O homem tem todos os direitos. — Eu era apenas uma criança.. Creia-me. mas chocava-se-com a onda contrária de sua desconfiança demoníaca. Ah! como odeio às duas. atrás dela. "Eu a matarei".. Felizmente para ele. Depois sorriu. tinha daí em diante uma fome e uma sede devoradoras." — "Elas" me desafiaram — resmungou Ambrosina. com uma soturna intensidade dolorosa.. a única capaz de ajudá-lo a dominar sua cólera. uma criança colocada sob Sua proteção. quero-as apenas como vítimas ou cúmplices! Quanto aos homens. numa praia. não lhe queria mal.. Um pouco afastado. ele a via virar e revirar nervosamente em torno do dedo um longo fio de ouro vermelho. E que me odiava porque eu conseguira seduzir seu pai e atraía o olhar dos outros homens. Diaba!. Cantor sentiu que empalidecia. disse consigo.. O homem tem o direito de ser o mais forte. ao contrário. dessa sólida e segura sensualidade primitiva. maltratando-a em sua fúria. — Elas!. enquanto ela falava..

Para a salvação de todos!. ao menor sinal. E o nevoeiro se soma à noite para dissimular aqueles que não querem ser vistos. Toda a astúcia e sangue-frio de seu pai se reuniam nele. nada além de uma impávida luz.. Ela estremeceu da cabeça aos pés... Compreendia que a arma se forja pela virulência do inimigo. "Que minha carne sirva ao menos para isso". essa fixidez ausente. Espera-lo-ei lá... pensou. estrangulada.. com a sombra projetada pelo moinho vazio. coaxos. quase imbecil. Ela respondeu." E surpreendeu o olhar que ela lhe lançava pelo espelho. Compreendia agora aquela força de dissimulação do Conde de Pey-rac. que capitulou. quando?. a jusante do rio. cercado de olmos e de faias-pretas. enquanto ele murmurava: — Onde?. ferindo sua sensibilidade infantil. Como se ele já fosse uma aquisição indiscutível dela!. rangidos. que tantas vezes o irritara ou decepcionara. Procurando adivinhar-lhe os pensamentos. empresta por vezes ao olhar dos homens. pronta a lançãr-se sobre ele.. esvaziando o cérebro de todos os pensamentos. sirva para isso. que tomara de empréstimo a uma de suas criadas de quarto. Ali existe um moinho abandonado. obsedada. intimou a si mesmo.. brilho de cólera ou de repugnância. junto ao bosquezinho. O suor molhava as costas do pobre Cantor. pesados. CAPITULO IX O fim da Diaba — Reação devastadora do Mal e a fúria dos elementos Oculta sob um manto cinzento." Ela via tão próxima sua boca polpuda.. surdo às aterradoras palavras que ela pronunciava como que por descuido. que uma cobiça ardente. a fim de provocar sua ira. pretendia.. tornando-o indiferente a tudo o que não fosse ela. tomado pelo medo de que pudesse alertá-la pelo quebrantamento de um só de seus "pensamentos. o estalejar de asas como .. e confundindo-se... ofegante: — Esta noite. do lado dos bosques. fixos nela. Fora Florimond quem lhe indicara algumas estratégias e fórmulas que. A menor suspeita do que ele sentia verdadeiramente decidiria sobre seu destino. que a traição só pode ser evitada com uma traição ainda maior. Saltos de rãs na água adormecida — de uma campina esponjosa coberta de caniços. na ponta da ilha. e ela se surpreendia com um sentimento mesclado de impaciência e de angústia que não lhe era habitual.. saltos abafados. àquela hora da noite. Os mil ruidozinhos do lugar davam-lhe arrepios. Mas ela não conseguiu ler nos olhos claros. pela extensão do perigo. "que minha carne.. que poderia fazê-la suspeitar que ele não lhe era totalmente devotado. embora também se abrigasse à sombra daquela força e se felicitasse com sua proteção. "Que ela não suspeite nada do que o agita... Tê-la-ia enganado? Gostaria de crer nisso. e.. Deu mais um passo em sua direção..Como aquela horrível criatura ousava falar delas naquele tom diante dele?. uma fúria. A seus pés. que a subjuga... Esse ultimato já dera certo anteriormente. O desnorteamento ávido que apareceu em seu rosto provocou-lhe náuseas. Acorrentado pelo desejo carnal que o cegaria. firme. ela esperava.. "Tome cuidado!". eram irresistíveis.

Estava deslumbrada pelo brilho de suas madeixas douradas sob o grande chapéu emplumado. Lançava-se com ímpeto sobre ela. Não podia nem mover-se.. de um azul inviolado. O fenómeno. ardendo de um desejo que. repetiu a si mesma. ocultou-lhe a visão da bola escura e aveludada fendendo a relva como um projétil. montado pelo jovem herói esperado. disse consigo. Por que vinha a cavalo? Ele não pertencia a este mundo. pois implicava desobedecerão mestre. sibilante ascensão prestigiosa e fatal. de saber tudo sobre ele. E arremetia contra ela. Apesar de sua repugnância e do maldito terror que o invadia. nem avançar um passo. investia. perdeu a noção de sua própria realidade carnal. girava em torno-da cena imunda.de velas moles chocando-se com as ripas do telhado do moinho. que deveria ter subjugado tão facilmente e que se rira dela? "Tudo. lhe pareceu desconhecido e que deslizou para todos os seus membros. "Era essa a felicidade conhecida pelos humanos?".. apeara do cavalo e. O fogo de sua paixão se desprendia de seu ser. indagava-se. matizado por uma claridade mais para lírio do que para rosa. Mas este não queria afastar-se. voltava sem cessar. mas. — Deixe-me chegar perto — dizia Cantor. O impacto do animal derrubou-a. . lá longe. "Não". como se lhe escorregassem das mãos as rédeas que sempre mantivera firmemente sim. que. menos renunciar àquele instante". que lhe causava um padecimento tão atroz quanto um esquartejamento.. "Eu o matarei. de se afogar em suas pupilas límpidas. a fitava com os olhos translúcidos como água límpida. montado no cavalo prateado. que por duas vezes lançaram seu apelo modulado. dissociação das naturezas inconciliáveis. Era tão simples e era o que precisava ser feito. tentando acalmar o glutão enfurecido. o que lhe inspirava um terror sem nome.. e as da criatura feminina. Como fora tola deixando-se tentar por essa escapada! Ele já devia estar morto. sua irmã. A beleza perdida de Lúcifer ficava para o outro. onde se abrigavam e despertavam pequenas corujas aveludadas. como o movimento de uma serpente sutil. Tinha as pupilas fulgurantes. um cavalo branco apareceu. — gritou. que batido pela luz. — Face de anjo. à beira do bosque. Iluminado de frente pelos últimos raios de um crepúsculo que se quisera pálido. apanhava-a em sua armadilha. tomada pelo terror. fazendo de sua carne uma espécie de chama devoradora e sublime. esse fogo do sangue vermelho pelo qual "eles" estão prontos a vender sua alma. Ouviu os passos de um cavalo. de segundo em segundo. traje habitual e muito mimado como instrumento dócil. depois!" E movida por esse pensamento. compreendendo demasiado tarde que esse corpo. que lhe lembravam as de sua rival. sempre. como labaredas púrpuras que lhe fossem arrancadas uma a uma. e as dores de um arrebatamento. de conhecer o vigor de seus braços enlaçando-a. Alguma coisa de si mesma lhe escapava. lhe formava uma espécie de auréola. A espiral arrastava-a. passou a língua pelos lábios. De onde lhe vinha essa vontade devoradora de desfrutar o corpo do jovem. maldito seja!. E ela se transformou no mesmo instante em sua presa devastada. nas trevas. o pavoroso ricto daquele que fora expulso do céu para os infernos. Em sua embriaguez de vê-lo.

de Gorrestat mandou enforcar um iroquês chamado Magoniganbauit. Eu prometi. mistura de carnes e de pedaços de tecido. e já estava tudo consumido. baixaram-se rapidamente os restos da desditada mulher do novo governador. que Ambrosina lançara contra ele em Tid-magouche? Adivinhava que era às suas ordens.. viera falando com o animal domesticado por ele. Estavam ali nos postos avançados. O que sabia Wolverines? Lembrava-se dos cães gigantescos. Um raio... embebidos em sangue. se impedisse um condenado de entoar seu canto de morte. Depois você poderá fazer o que quiser!. e ricocheteou.— Deixe-me chegar perto! Devo fazer isso! Durante a viagem. Foi essa a razão pela qual não se procurou imediatamente a Sra. a capital. a vomitar. que obedeciam os caçadores que o acossaram em volta de Quebec e tinham matado sua fêmea diante de seus olhos?. pois seu nome significava "amigo do iroquês". Teria subitamente "visto". encontrado lá pelos lados da ponta do moinho. Diante dos restos irreconhecíveis que.. pelo estrangulamento. passando em ziguezague ao nível dos telhados de Ville-Marie. Os serviçais e as criadas salvaram-se a tempo. julgando-a desaparecida no incêndio. ainda se duvidava. dominado pelo pânico. e da necessidade de agir. O cavalo relinchava. como uma bola caprichosa. como o pequeno gato outrora. um caçador de abetardas acorreu. atiçando-o daí em diante contra a mulher assassina que ele seria encarregado de exterminar. Tratava-se de um índio batizado. de uma cabeça de mulher de cabelos longos e soltos. Foi preciso esperar para poder sondar as ruínas ainda quentes. encostando a testa ao tronco de uma árvore. de La Reynie. fez com que todas as testemunhas desistissem de prosseguir as investigações sobre a identidade da vítima. Esse tipo inédito de execução gelou de espanto todos os índios. Tenho de enterrar-lhe minha adaga no coração. Não sobraram senão as paredes de pedra enegrecidas. Mas a pavorosa descoberta. numa região pioneira. o Sr. de Gorrestat. É Na ilha de Montreal as investigações criminais não tinham a seriedade que lhes emprestavam ali em Quebec. falando de um cadáver horrivelmente mutilado. o Sr. a meia-voz ou em pensamento-. caiu sobre as ardósias do solar que fora posto à disposição do senhor governador. a verdade do ser aparecido? — Deixe que eu me aproxime! Tenho de fazê-lo! Eu prometi. encabritando-se. a fim de assegurar-me de sua morte. a ela.. puxando o galho ao qual estava preso. não longe dali. tinham já servido de pasto às raposas. engolfando-se por uma das chaminés. quando se surpreenderam por não encontrar nenhum vestígio dela. O horrível espetáculo levou os oficiais e fidalgos. mas cujo desaparecimento causou secretamente a muitos um certo alívio. onde um Garreau d'Entremont se empenhava em fazer reinar a justiça do rei. tão grandes quanto ursos. O governador estava aquela noite em casa dos senhores de Saint-Sulpice. Cheio de ambições. pendurada no galho de um olmo. Achavam indigno que. sobre a qual só se falava bem em voz alta. Cercados de homenagens. com a ajuda de uma polícia inspirada nas reformas do tenente de polícia civil e criminal do reino. Atabou quebrando-o e fugiu a galope!.. Foi o tempo de formar-se uma fila de pessoas até o rio e de se apanharem os baldes. A tempestade eclodiu! Uma tempestade sem chuva. mas acusavam-no de traição. Simultaneamente. que lhe haviam sido insufladas. . recém-chegados da França.

lançou suas tropas sobre os cantões iroqueses. sempre ébrio de raiva e de transportes interiores grandiosos. A moderação não beneficiou os onondagas. isto é. Numerosos capitães e grandes homens das Cinco Nações. um dos mais ardorosos chefes da tribo dos agniers. que haviam agido apenas como governadores. aproveitou-se do pretexto de vingar a morfe ignominiosa da esposa para reclamar o início imediato de uma campanha de represálias até os confins do vale das Cinco Nações. mandou-as desembarcar o mais próximo possível. Os onondagas comportavam-se. Soldados vindos da metrópole. Quatro companhias.~urh pouco menos de abenakis. o Padre Raquet. o Padre de Guérande. duas de suas mais importantes aldeias foram incendiadas: Cassuets e Tuansho. sendo outros tantos embarcados imediatamente para servir nas galeras de Marselha. onde não faltavam mortos a vingar. como que possuído. depois a Quebec. Em Cataracuí. prendendo-os a cepos que os carpinteiros tinham acrescentado aos preparativos da festa. e conseguiu persuadi-los a enviar uma delegação a Cataracuí para homenagear o novo governador. Muitos foram esmagados pela queda de árvores que. mandou que as tropas os cercassem e lhes amarrassem uma corda ao pescoço e aos braços. incessante lançados por Utakê. também atados. quando estavam bem adormentados pela boa comida. Ao término do banquete. Foí um desastre. Quarenta e cinco chefes iroqueses foram assim capturados e enviados a Ville-Marie. Seus guerreiros. Em poucos dias. As tribos. tomaram o caminho do lago Ontário. congelados no sono. Diante disso. Seiscentos regulares. "eles começaram a entoar a plenos pulmões seus cantos de mortos". subindo o Saint-Laurent para atingir o Forte Frontenac. despertavam sob a neve. encontrar em Montreal. Haviam sempre resistido aos apelos do massacre geral dos franceses. acompanhados cada um de uma pequena escolta de guerreiros. nos pântanos invisíveis. A escolha do território era infeliz. nos lagos que em certos lugares não . de Frontenac. sucumbiam sob o peso da insólita neve. numerosos mas dispersos pelas primeiras caçadas. deixaram-se tentar por um convite lisonjeiro. o mesmo número da milíci'a. que se dirigiu aos cantões com o capelão das tropas. Estava seguro de. se reuniram e dispuseram-se numa flotilha animada e cantante. como se a Natureza se sentisse subitamente importunada pelas loucuras delirantes dos homens. embora tardio. Convocou seu missionário. Nesse momento. Assim que foi avisado de que os quarenta delegados das Cinco Nações tinham sido mandados para as galeras da França. seguidores entusiastas nesse projeto. o Sr. na margem sudeste do lago Ontário. algonquinos ou huronianos.Retomando o projeto que concebera de suplantar em ações gloriosas seus predecessores. que lhes incitava a curiosidade. trezentos milicianos e o mesmo número de aliados selvagens caíram sobre eles. insuficientemente vestidos. de Gorrestat. ou não despertavam. Sem raquetes. ainda cobertas de folhas. enquanto ele pretendia agir como vice-rei. o inverno abateu sua pesada pata sobre um outono ainda incipiente e que se anunciava brando. havia vários anos. não tiveram tempo de se reunir. sem que ninguém o notasse. que lamentavam não ter seu encontro habitual de verão para festins e danças com o Sr. como nação pacífica. os homens se afogavam nos montes de neve. vestidos com suas roupas de verão.

• Confissão de má sorte. privadas de qualquer ajuda. eles mesmos incomodados pela chegada precoce do frio.. em circunstâncias muito penosas. uma retomada normal da estação. uma mulher e três crianças pequenas.. e pelos quais entravam. o deserto branco se estendia. e mesmo perdida. a espera angustiante de Angélica Uma ansiedade. O DESERTO BRANCO CAPITULO X Em Wapassu destruído.. que ela não queria ver transformada em angústia. Assim que abria os olhos. Entre elas. começava a invadi-la sorrateiramente. com a intenção de alcançar pelo sul os cantões iroqueses. verdade imposta por um subconsciente mais lúcido que seu consciente. Não foi o que se deu. conseguira chegar à grande ilha de Manituline para invernar entre os odjibways. os exércitos bem ou mal reunidos e guiados pelos milicianos canadenses. detido pelas neves. prisioneiras de um fortim soterrado. censura velada dirigida a nossa própria tolice e que sugere o movimento benfazejo de bater no peito ou de se xingar de imbecil. cujo vocabulário evocava com o Pátio dos Milagres. protesto contra o destino adverso. compreendido por quem de direito. como se faz retroceder um cavalo empacado. carregando pedaços de gelo. no peito. fecharam-se nos fortes ou muralhas das missões que os sobreviventes conseguiram alcançar. A leste do Ontário. Esse grito devia ser ouvido. Num ponto dos quais. de Gorrestat permaneceu no Forte Frontenac. esperava-se uma volta do bom tempo. recobrindo por longos meses espaços infinitos. Antes mesmo de ter percebido a volta de uma nova manhã. o Forte de Richelieu e até o Sorel. de todo tipo e de ambos os sexos. traidores. e contra todos aqueles. no lago Ontário. os fortes dos lagos Champlain ou Saint-Sacrement. iriam morrer de fome dali a algumas semanas. de ter reconhecido a luz da vida ao sair do sono e do esquecimento misericordioso. Mal-estar que traía a percepção profunda que já possuía da situação. aos quais responsabilizamos. à custa de injúrias e de palavras violentas. parece trazer do berço. tudo estava contido naquela palavra. palavra que todo francês. os fortes Saint-Louis e Sainte-Thérèse. . que durante esse tempo subira o rio Utauais e chegava à baía Georgiana. o conjunto de seu desprazer. um peso que a impedia de respirar. franjadas de um mar enegrecido e esverdeado. havia aquelas garras apertando-lhe o pescoço e. inimigos. ao mesmo tempo curta e simbólica. Até as margens do. julgando estar atravessando planícies. no grito de derrota. escondida num canto da memória e que permite exprimir. mas conhecendo o país. constatação de uma situação desastrosa. ao norte do rio Hudson. Depois de tê-la repetido energicamente várias vezes. Saint-Anne. a mais convincente e expressiva começava por um m. um abrandamento.estavam suficientemente gelados. Cantor de Peyrac.Atlântico no sul e as do golfo-Saint-Laurent a leste. de impotência. Angélica se sentia melhor. No início. mas também de feroz reivindicação contra o Céu e os homens. na ilha de Lamothe. denominado Wapassu. Fazia-o recuar logo. O Sr. aquilo lhe saltava ao pescoço.

os definiam. fazendo-lhes. saltar. Com efeito. O raciocínio recomeçava a funcionar.. nem os atos praticados. mas porque estavam felizes por reconhecer seu cenário familiar. alçar vôo para evocações alegres. — Lembram-se daquele? Daquela? Ele era gentil? Malvado. os revelavam. de Carlos Henrique e também dos gémeos — aqueles pequenos "venenosos". endireitava-se. Para eles. Ele lhe dissera: "Eu lhe construirei um reino". ter-se-ia encontrado uma solução. por trás de uma face machucada. comentários que com frequência não eram destituídos de sabor. de nada adiantava proferir insultos aos quatro ventos. As felicidades vividas em Wapassu jamais poderiam ser apagadas. Algumas vezes. vocês dizem? O que ele fez que não o agradou. e ela se deixava levar a uma visão mais sadia e otímista das coisas. sempre atentos às palavras proibidas e que não tinham perdido nada de seu requisitório contra a injustiça e a "cachorrada" da existência. Aquelenão era um reino. em episódios. Essas conversas permitiam-lhes evadir-se. as vitórias. Havia ainda o que comer por alguns dias. Carlos Henrique era o interprete dos gémeos quando ela não compreendia o que explicavam ou evocavam em sua animação. cheios de malícia e de surpresa escandalizada. Perguntava-lhes: — Quem habita nossa pequena república? E elas faziam um esforço para evocar os rostos das pessoas que haviam amado e que lhes faziam falta.. As crianças tinham razão. Viu-se olhando de outro modo os arredores devastados. estão falando de Granadina. como dizia Iolanda —. a narrativa das façanhas de seus amigos. até lá.. acrescentavam um toque suplementar e às vezes inesperado. sacudia os cabelos. e. um ser amado. Pequenos Polegares! Está menos frio. correr ou dedicar-se a essa atividade especificamente infantil que . estão falando do cachorro.. Retratos aos quais os comentários das crianças. Vamos tentar encontrar as armadilhas de Lymon White. era sempre Wapassu. Assemelhava-se a uma crónica. as apostas. habituara-se a brincar de "a pequena república". O termo parecia-lhe impróprio em terras da América. tomando um tom de lenda ao descrevê-los como heróis de romances. cujo desenrolar também lhe era benéfico. como se reconhecese. Tomava pé novamente com animação. como que para espantar-lhes os miasmas da desgraça. Raimundo Rogério? Falava-lhes daqueles que marcavam sua lembrança ou daqueles de que não se lembravam... — Levantem-se. pois revia mais intensamente os rostos de cada um. com a ajuda de seu temperamento. As crianças gostavam de sair quando o tempo o permitia. caía na gargalhada diante dos sorrisos e olhos arregalados. As crianças não estavam conscientes dessas duas obsessões que pouco a pouco se instavalam em suas vidas e as comandavam. as roupas. à noite. e ela percebeu que não era apenas porque podiam foliar ao ar livre. sentindo-se nelas ainda a chama sempre pronta a se acender para brincar. — Estão falando de Colin. Estimulava-lhes a memória interessando-se pelas imagens que já haviam acumulado e que. Com as crianças. Era uma pequena república. o sono. ou então a caravana chegaria.Lançá-lo pelos cantos aliviava-a e lhe devolvia a coragem. os habitantes da pequena república. por sua escolha. repousavam-nos da monotonia das horas escandi-das pelos instantes muito breves das refeições e pela espera dessa outra evasão abençoada.

Tanto um como outro.. ignorando que ela já se encontra ameaçada. as minas e postos disseminados. da admiração e confiança ao receio e rancor. Teria desencadeado em vão sua crueldade cega?. mas Angélica sabia que teria. prometendo revê-los em breve. teriam prosseguido para o sul. povoava seu refúgio. mas os vingadores do Padre d'Orgeval limitaram-se a isso. Wapassu incendiara-se. pois isso era mais um desgaste de energias. cujo último ato — a morte de Loménie-Chambord — lhe pesava no coração. impusera-se naturalmente. diante das quais se apresentava o inimigo. numa mistura de sensações interiores que oscilavam do medo à alegria mais exaltada.. mas naquelas condições. E. a cada dia. e a encontraram. Também lhe fazia bem evocar tantos anos felizes vividos ao lado de Joffrey e toda aquela vida fervilhante que'se estabelecera e se desenvolvera à sombra de sua proteção e de sua atividade incansável. Com o correr dos dias. a viver em comunidade.os adultos chamam "fazer tolices". "É uma lei. seria mais espinhosa de acertar do que a atual. mas adquirir esse sexto sentido que permite chegar a tempo em socorro dos pontos fracos da fortaleza. ou se tivesse capitulado. Seus instintos tornaram-se únicos. de uma . a do escudo prateado do fidalgo independente. grande dificuldade em conservar o rifrho de dias normais em sua vida de soterrados. uma lei lógica da Natureza. "Eu os detive!" Fazia-se essa justiça para manter a coragem. estavam formados nesse jogo de defesa inconsciente. apesar das aparências. com ou sem a ajuda de Saint-Castine. a que permitira evitar o pior. falava sozinha. sem esforço. apesar dos debates e das separações que isso custara. quase sem o saber. desde o nascimento. e teriam capturado. por viverem unidos. o que seria insuportável. sem dar um só tiro. tomavam uma tonalidade ou uma nuança diferente. bem vazio para crianças habituadas. porque era isso o que tinha de ser feito. Retornaram na direção do norte. lançando um olhar de desafio às lonjuras geladas que. ao longo-do Kennebec. sucessivamente. Na verdade. "O pior foi evitado". talvez não deixasse de haver troca de tiros. dessa vez. pertencentes a Joffrey de Peyrac. "Eu os detive!'' Julgando apro. repetia-se. O que não queria dizer que se salvaria tudo sem perdas e danos. Situação que. a bandeira do rei da França teria substituído. Mas fora a melhor estratégia. A medida que se avança em idade e em experiência. Angélicatomou consciência do papel que a na tragédia recente. Isto é. a discorrer com veemência com seu único interlocutor.. Quanto a Gouldsboro.. e a tempo pegamos em armas. deixado que lhes passassem à frente. voltando-se para um lado e para outro. via claramente que a decisão dele de acompanhar Frontenac. e depois Gouldsboro..veitar-se de sua ausência. no torreão do forte. De pé no topo da colina. porém. a cada hora. uma vez ratificada. Lembrando um por um dos amigos.. Continuava. e a dela. a paisagem. Quando pensava nisso. parou de erguer a voz e de mover os lábios. não tinham. como da primeira vez em Katarunk. pouco a pouco. ela e Joffrey. Chegamos a tempo às seteiras. de voltar a Wapassu. Se não estivesse ali. como se costuma dizer. Às vezes. o que se exige não é permanecer continuamente alerta. Tinham recebido a graça de chegar a tempo nos pontos sensíveis visados pelo inimigo. Elas nos favorecerá. eles tinham vindo.

ou à borda da trincheira. a certez -de que dessa vez. alguma coisa ia mover-se ao longe a aproximação da caravana. pesadas e guardadas pelo anjo de espada chamejante. Isso constituíra um problema quando invernavam no fortim de Wapassu. No início. que permitiam sair da trincheira. ela se reaquecia e se punha novamente em ação. Esta se tornava mais profunda a cada inverno. esse sangue vermelho e quente que circulava em suas veias. a uma festa.. o segredo das consolações. esperava o sol.. Estagnavam imóveis por detrás do monte Kathadin.certeza de domínio sobre os elementos ao acabrunhamento. ao baile. Levantava-se muito cedo e seu primeiro gesto era empunhar o caldeirão. sofrimento. Estas. a um casamento.. se revestissem de gelo. com acesso às galerias de minas. Naves do espaço. aquela madrugada. naquele dia. a crueldade do destino dos homens e a promessa da grandeza desse destino. a cortina da noite abriu-se sobre duas nuvens cor de areia. Alternadamente. à renúncia diante de sua força cega." De pé na plataforma. frágil. Por esse motivo fazia essas surtidas quase todos os dias. tornando-lhes perceptíveis as verdades salvadoras. que você contemple o sorriso de Deus!. Diante dela. linhas. aquela orgia de cores.. como se fosse a um encontro de afrior.. "Através de mim. Sabia também que. fome. para essa aventura da Vida que se anunciava e que seria preciso buscar. e jogar água quente nos gonzos de couro da porta para desprendê-la. pois as ampliações e reformas não tinham sido feitas . Como elas. uma flor de esperança. era apenas um abrigo para quatro mineiros. dava alguns passos como que para se colocar melhor no centra de uma solidão em que sua presença única de ser humano. Ela era a Humanidade tremula às portas do Éden. das consolações do esplendor.. múltiplas formas. a neve só podia enterrá-lo ainda mais. gonzos. Suas metamorfoses coloridas anunciavam o aparecimento do astro do dia. a leste. o segredo dos tesouros enterrados. suor do pão de cada dia. edificado contra o talude. retirando a neve com a pá e desobstruindo a beirada da soleira e os degraus talhados no gelo. mesmo que o horizonte permanecesse mudo. Aquele dia. carregadas de ameaças ou. colocado sobre as brasas. um verdadeiro covil. ao contrário. Através daquele espetáculo grandioso passava a corrente de uma confiança que fortificava todo o seu ser. Angélica. Mas também. de pé na pequena protuberância de neve gelada. a Beleza. frio. fecharam-se às suas costas. Já meio enfiado sob a terra. um viático lhe seria dado. ferragens. CAPITULO XI Imenso abismo de gelo — Um ténue sinal de fumaça Naquela manhã. tomava um significado decisivo. a chegada de socorro. mas com esse minúsculo e vermelho coração vivo que batia dentro dela. Se um belo dia as almofadas de madeira. alongadas como dunas sépia-escuras orladas de ouro. via através delas a imobilidade da Natureza. era como uma ópera. Misturava-se a esse prazer um sentimento de espera. Se tivesse nevado durante â noite. não teria mais forças para mover aquela porta pesada e abrir a passagem para fora. sua inércia petrificada.

o mesmo e diferente a cada nascer do sol. por trás do monte mais elevado. Angélica sentia o vento. e os ventres. Através de uma bruma translúcida. na fase mais difícil da estação. a alguns passos dali. instante após instante. Não estava mais assustada por estar sozinha ali. que parecia prometer o perdão. Seus dorsos eram escuros. que retinar a neve. Seria um dia em que o sol teria por mais tempo direito de cidadania sobre o mundo. pois o talude em que estava encostada a casa ocultava uma parte do lago de Wapassu. pareciam duas baleias escuras escoltadas por baleotes. Este. A oeste. nas trevas infinitas do céu e da terra misturadas. as horas que. depois desaparecia. continentes com praias cor de mel. acima dos rios e dos riachos. fazia com que as pessoas de Wapassu pensassem com seus botões. sob pena de ver aquela abertura logo condenada. nuvenzinhas que haviam surgido. quando o sol estivesse a pino. Suas formas se alongaram. A imagem não era idêntica. encobrindo-lhes os meandros. Mexia-se. de um cinza pesado de tormenta. recoberto de uma leve camada de ne^e naquele momento.precedem o alvorecer são talvez as menos sofridas. O lençol estendia-se de um lugar a outro. através da massa escura e tormentosa das montanhas adormecidas. Um teatro ordenava-se para ela em todos os pontos do horizonte. a luz que subia já enganchava pontas de rubis. não se sabia como. apanhado por uma pesada cortina de nuvens. Agora. Nos dias de muito frio. a um leve desvio". mas de uma maneira menos minuciosa que do outeiro. Era a vida. praias. Daquele jade puro ia surgir o astro dourado. Ao meio-dia. ele se levantava. Perdera um pouco a noção das datas e. o sol consentia em prosseguir seu caminho para um mundo purificado e. mas sem pressa. diamantes. ametistas. numa preguiçosa melancolia. multiplicava os punhados de jóias lançadas ao léu. parece que o gelo afrouxa seu abraço. não queria reconhecer que se havia atingido aquele momento do ano que. hà noite mal iluminada. pois. as neblinas se destacavam contra um cinza espesso. subia à plataforma por um alçapão interno. sondava o frio e. Angélica gostava daquela hora. distendendo-se. Falava. ao se estirar e se dividir. por aquele dia. todos os instrumentos da' orquestra afinados. marcando uma pausa clemente. e onde podia observar o horizonte. Havia uma vida. não vinha ali para meditar sobre sua solidão. se nem um nem outro se mostravam muito agressivos. um movimento ao qual era sensível naquele instante grandioso. todas as manhãs. navegando. Nos vales indistintos. Dali também se podia abarcar com o olhar o horizonte. formava a seus pés uma grande extensão branca. do éter azul. ao alvorecer. as duas nuvens. surdo e congelado. Depois que saía. quando a luz do dia começava a se expandir. ou dissessem àqueles que se impressionavam com isso: "O inverno se fechou".na entrada principal. Era às vezes o único momento do dia em que podia perceber o sol. e onde nenhuma luz penetrava. desvelando aquele deserto branco mudo. à beira de uma água azul levemente verde. Quando não se sentia com disposição para os trabalhos de desobstrução. pérolas. tornando-se. nos outros invernos. chamado o Lago de Prata. direito usurpado com frequência pelas nuvens invernais. como um enorme escudo rosa. De todo modo. até que. transmutado em branco e azul. ilhas. . de um branco cintilante.-içava-se para fora do buraco e dirigia-se. Mas outras vezes o espetáculo se desenrolava com magnificência. Se a neve e as rajadas de vento não sopram. Tinha. estando todas as cortinas erguidas.

poderia deixar as crianças saírem. E como todas as manhas, no momento de deixar a plataforma ou -o belvedere, hesitava,, não se decidia a voltar para dentro; retida pelo encanto, experimentava uma frustração deprimente... Para se decidir a entrar, era preciso que o frio começasse a penetrar em seus ossos, que não sentisse mais nem os pés, nem as mãos entorpecidas, e certa vez teve medo de que o nariz lhe tivesse congelado, como acontecera com Eufrosina Delpeh, a comadre de Quebec, que, a fim de espionar os maus passos da Sra. de Castel-Morgeat, incorrera nesse dano. Voltando para o calor, espreitou, no espelho, com inquietação, seu apêndice nasal, prometendo a si mesma que seria mais prudente no futuro. Se um dia ou outro tivesse de reaparecer em Versalhes, não podia fazê-lo marcada por cicatrizes indeléveis de suas viagens no Novo Mundo. As cicatrizes são gloriosas apenas para os homens. E no entanto, aquela manhã, alguma coisa a detinha. Várias vezes voltou da porta a seu ponto de observação, com a impressão confusa de que um detalhe lhe escapara. Subitamente, com o coração batendo, uma interrogação se esclareceu. Em meio àquelas brumas errantes e longínquas, àquelas névoas exaltadas dos pântanos endurecidos e dos abismos fechados sobre quedas-d'água geladas, seu olhar detivera-se numa mancha ao longe, alternadamente esbranquiçada ou transparente, de formas cambiantes, e que se arredondava por vezes, como que impelida por um sopro do vento, ou, ao contrário, estirava-se verticalmente no ar puro, subitamente calmo, num filete branco. Menos que nada: uma mancha arredondada, depois um filete branco alongando-se, mas que não mudava de lugar. A partir do momento em que reparou nele novamente, não lhe despregou mais os olhos. Prendia até a respiração para poder observá-lo melhor. Estava infinitamente longe e não tinha mais consistência que um sonho. Mas não podia confundir-se nem com as briímas acima dos rios, nem com neblina. Era fumaça. Voltou para casa num transporte de alegria, mas não querendo acreditar naquele frágil indício. Seria fumaça? Muitas vezes durante o dia voltou a sair, a fim de espreitar o sinal, e ele continuava no mesmo lugar. — Você fica saindo o tempo todo! — queixaram-se as crianças. Finalmente, não teve mais dúvida: era fumaça. E, atrás da fumaça, havia homens. Fossem eles quem fossem, representavam a salvação. Ao cair da noite, deu mais uma saída. Voltada para a direção de onde vinham os sinais de fumaça, não conseguiu distinguir nenhum ponto vermelho que, na sombra da noite, teria revelado a localização de uma fogueira. "Por isso mesmo!", tranqúilizou-se. "Eles deixaram o lugar e apagaram o fogo porque continuam 'a caminhar para nós." Ficou observando durante muito tempo; quando, diante da obscuridade crescente, decidiu afinal ir para dentro do fortim, estava tão congelada que mal conseguia mover-se. Apesar da decepção por não ter podido distinguir nenhum ponto vermelho, continuava a ver naqueles diferentes indícios novas razões para esperar. "Eles" vinham, "eles" subiam em sua direção. Aqueles fogos eram de uma parada, antes da última etapa que os traria a Wa-passu, naquela mesma noite.

Algumas horas mais e os homens da mina do Sault-Barré, os da mina do Croissant, talvez os de Gouldsboro, alertados, desabariam na trincheira de neve e bateriam na porta do seu retiro, como daquela primeira vez em que, sob trombas-d'água, tinham se refugiado, após o episódio de Katarunk, e seria um nunca acabar de congratulações: 0'Connell, Lymon White, Colin Paturel... Acendeu o fogo na sala grande. Era o máximo que podia fazer para preparar-lhes uma recepção, fora a aguardente e o vinho... Para fazer as vezes de farol, subiu para fincar na neve uma grande tocha. Preparou os colchões e cobertas, e esperou. Ficou acordada a noite toda, mantendo o fogo aceso, espreitando cada estalo no exterior, julgando ouvir a todo momento ruídos de passos ou de vozes no sopro do vento, e precipitando-se ao seu encontro à soleira~'da porta na noite glacial. Mas pela manhã ninguém tinha aparecido, e o grande silêncio continuava. Entretanto, quando subiu à plataforma, a fumaça ao longe permanecia lá, no mesmo lugar, parecendo divertir-se com sua espera, desdobrando-se de modos diversos, em pequenos topetes ou penachos bem visíveis, tfepois fundindo-se até apagar-se completamente, para tornar a aparecer. Estava sempre lá como um sopro humano falando de vida,Tima respiração humana à superfície da terra. Daí em diante decidiu ir até lá para ver. Pelo menos, tentaria avançar suficientemente ao encontro do fenómeno para formar uma opinião. Se havia pessoas lá, elas representavam socorro, possibilidade que não podia desprezar. A ideia de deixar as três crianças sozinhas, nem que fosse por algumas horas, preocupou-a. Eram tão pequenas! Fez algumas recomendações a Carlos Henrique: entre outras, não se aproximar do fogo; acendera-o com pedaços de turfa, que duravam bastante tempo e não produziam chamas altas. — E se o fogo apagar? — Irão para a cama, sob as cobertas, para se aquecer. Não demorarei muito. Voltarei antes do anoitecer. Enfiou os calções de Lymon White, seu capote de lã grossa, puxou o capuz sobre acabeça, cobrindo-o, além disso, com um de seus gorros de pele, tão apreciados pelos habitantes de Wapassu. Escolheu uma raquete bem leve, pegou uma arma de pederneira, pendurou à cintura um chifre para pólvora e saquinhos com balas. As crianças seguiram-na até a porta, prometendo comportar-se. "E se me acontecer alguma coisa? Um acidente!", pensou, atormentada. "O que seria deles?" Recordou-se de sua angústia, na época de suas cavalgadas no Poitou, naquele dia em que, depois de deixar Honorina, um bebe de dezoito meses de vida, amarrada ao pé de uma árvore, a fim de correr em socorro daqueles homens atacados, recebera um golpe na batalha, perdera a consciência e dera por si na prisão, desconhecendo o que acontecera com a criança, sozinha na floresta. Sem saber o que ia encontrar ao final de sua expedição, voltou ao quarto e escreveu numa folha de papel: "Há três crianças pequenas sozinhas no fortim de Wapassu. Socorrei-as, pelo amor de Deus", e enfiou-a no bolso do capote. Se fosse ferida, se... Era preciso prever tudo e agir "como se..." Mas de fato, estava persuadida de que só se lançava a essa empresa para dissipar uma dúvida insuportável: era ou não fumaça, aquilo?... O que mais receava era estar tendo uma miragem. Encontrou as crianças brincando na sala, onde tinham mais espaço que no quarto.

— Podem brincar um pouco aqui, mais sair, não. — Nem para ir até o lago deslizar um pouco? — perguntou Carlos Henrique, decepcionado. — Deus do céu! Não! Não podem sair, estou dizendo. — Nem para fazer bolas de neve? — Nem para fazer bolas de neve — repetiu. — Por favor, meu homenzinho, você tem de se comportar como um irmão mais velho, como Tomás. Você se lembra de quando ele lhe dizia: "Respeite as instruções". Minha instrução é: "Não saia". Quanto aos gémeos, só lhe restava uma coisa: obedecer a Carlos Henrique. E repetiu-lhe ainda uma vez tudo o que ele devia fazer e não fazer, dirigiu uma última súplica a seus anjos da guarda e saiu para a planície. Avançava sem poder calcular a distância que teria de percorrer. Não sabia se o ponto que visava,e do qual não tirava os olhos, estava próximo ou se situava a horas, ou dias, de caminhada. Aquela fumaça ao longe era um sopro fino, uma mancha ínfima que se diluía, por momentos; perdia-a de vista, depois percebia-a novamente, sem estar certa de não se iludir. Dir-se-ia que era um sopro de agonizante, cuja interrupção significaria para ela, na verdade, quase que a morte. Seria, de qualquer modo, a perda de uma esperança louca. Felizmente, de passo em passo, a fumaça tornou-se mais precisa a seus olhos, lacrimejantes de frio, fatigados de perscrutar a luz para não perder de vista aquele traço azulado, que, finalmente, começou a se desdobrar mais nítido e mais próximo sobre uma cortina de árvores negras. A margem da floresta, homens tinham acendido uma fogueira. Não os via, mas, doravante, sua presença era indubitável. Outros pensamentos a assaltaram. Homens! Amigos? Inimigos? Homens que, vendo-a aproximar-se, uma forma indistinta e desajeitada, mexendo-se na imensidão branca, crendo talvez tratar-se de um animal, poderiam atirar à queimaroupa, como numa caça qualquer. Nesse momento e inesperadamente, um pedaço de bruma amarelada, bastante espessa, arrastou-se para ela pela-esquerda e a envolveu. "Prefiro isso!", pensou. O odor da fumaça a guiaria, pois agora podia percebê-la pelo olfato. Era embriagador. E apesar do perigo possível, Angélica estremecia de impaciência. Subitamente, sob suas raquetes, o solo cedeu. Avançando numa paisagem cujo revelo se esbatia devido à neblina, viu tarde demais a beira de uma falha profunda. Só teve tempo de se agarrar a uma pequena árvore no rebordo. CAPÍTULO XII O cunhado de Passaconaway — Insólita caridade no wigwam abandonado Angélica inclinou-se por cima da ravina. Era daquela falha que a fumaça se erguia em volutas preguiçosas, estendendo-se como um lençol e misturando-se à pesada bruma. Nesse momento, o ramo ao qual se agarrara, e que estava coberto de gelo, quebrou como vidro e ela desabou no buraco, batendo nos rochedos mas sem se machucar, devido à espessura da neve que arrastava consigo.

Viu-se no fundo, quase enterrada pela avalancha, e teve muita dificuldade em livrarse dela, encontrar a arma, que lhe escapara das mãos, e uma das luvas, que lhe fora arrancada. A neve introduzira-se em suas mangas, no pescoço, no capuz. Com movimentos de nadadora, conseguiu atingir um terreno mais firme, encontrando-se junto a um riachinho semigelado. Diante dela erguiam-se as colunatas de gelo de uma queda-d'água, um "salto", como diziam ali. Ao pé de uma cascata, no momento congelada e muda, estagnava-se a fumaça, emanando dos do-mos submersos de dois wigWatns índios, desses abrigos que os nómades armam apressadamente com varinhas flexíveis, sobre as quais jogam pedaços de casca de olmos ou de carvalhos. Através dos interstícios das cascas e sem mesmo derreter completamente a neve, filtrava-se a fumaça, traindo a presença de vida. Ao redor, e apesar da queda da neve fresca da noite anterior, distinguiam-se sinais de um acampamento. Percebeu um trenó e um arreio que emergiam e julgou ter ouvido rosnar um cachorro no interior de um dos dois cogumelos recobertos de branco. Com o dedo no gatilho, ficou à espreita. Ficara tão privada de qualquer presença humana naquelas longas semanas, provavelmente meses, que hesitava e temia o contato. Amigos? Inimigos? índios? Ou exploradores-de bosques canadenses?... A placa de casca que servia de porta afastou-se. Um rosto de mulher índia sob sua tiara de contas mostrou-se a meio, depois apagou-se para dar lugar ao do seu amo e senhor, um índio, o qual, para sair do covil, apontou à frente um alto birote oleoso, ornado de "facões" negros feitos de asas de corvo. Soerguendo a cabeça, observou a intrusa, postada a alguns passos atrás dos arbustos. Pelo perfil arqueado, o queixo curto, os olhinhos faiscantes, ela supôs tratar-se de um abenaki do sul. Assemelhava-se a Pik-sarett. A visão do mosquete não parecia impressioná-lo. Aventurando-se, chamou-o de longe, saudando-o em sua língua. Ele respondeu em francês. — Eu o saúdo. Sou Pengashi, da Federação, dos Wapanogs. De onde saiu, criança? Por sua silhueta, devia tomá-la por um jovem branco. Ela esboçou um gesto para o alto da ravina. — De Wapassu, lá longe. Ele franzia os olhos para vê-la melhor. — Eu pensava que estivessem todos mortos lá. Vi de longe as ruínas do forte e das casas... Deu-se então a conhecer, e ele pareceu agradavelmente surpreso. Ela lhe disse que estava sozinha em Wapassu com três crianças. — Aproxime-se! Entre! — intimou-lhe, afastando-se para abrir-lhe passagem pela estreita entrada. Ela fincou as raquetes diante da soleira, ao lado da cabana, e deslizou para o interior do wigwam. Uma vez fechada a porta, isto é, a placa de casca de árvore recolocada contra a abertura, aquele abrigo estreito, onde só se podia estar sentado, ficou agradável. Estavam imersos numa espessa fumaça, mas Angélica foi sensível sobretudo ao cheiro de mingau, que devia ter sido cozido numa panela colocada sobre as brasas, e do qual duas ou três crianças acabavam de juntar os restos em escudelas de madeira. Eram certamente pessoas muito pobres. Tinha escrúpulos em pedir-lhes comida. Pengashi contava que o inverno os surpreendera quando não havia sequer concluído o comércio de verão nas costas de New Hampshire. Mais que isso, não tivera tempo de caçar e de defumar carne e peixe suficientes para as provisões de inverno.

Desprovido de munições, tendo que abandonar suas peles num esconderijo ao pé de uma árvore, tornara a subir para as montanhas do interior para reunir-se à gente de sua tribo; estavam, porém, quase na mesma situação que ele, e todo mundo se dispersara, a fim de arriscar sua sobrevivência, cada um por seu lado. Seu irmão mais velho encorajara-o a dirigir-se ao norte, a fim de pensar o inverno sob a proteção dos brancos de Wapassu. Mas, após uma longa e penosa viagem, cruzou com alguns grupos dispersos de abenakis e algonquinos, que perambulavam, desorientados, e que o avisaram de que o Forte do Homem do Trovão estava destruído, não havendo vivalma ali. No entanto, não querendo acreditar naquilo, ele prosseguiu, e percebeu de longe as ruínas enegrecidas; resignou-se, mas, como estava quase sem víveres, antes de partir em outra direção procurou um lugar propício para acampar, a tempo de preparar armadilhas. Esperava poder apanhar alguma caça, muito rara devido ao inverno precoce. Tinham erguido suas cabanas havia três dias. No fundo de sua ravina, preocupado apenas com as armadilhas e a caça, antes de pôr-se novamente a caminho, nâo.pensara em examinar mais de perto o sítio de Wapassu e procurar ali sinais de vida, o que explicava que não tivesse notado a fumaça do fortim. Sua intenção era continuar para o norte e pôr a família ao abrigo das missões no Forte de -Richelieu ou no Forte Sainte-Anne. Enquanto falava, fumava seu cachimbo em pequenas baforadas e conservava uma expressão satisfeita, abanando a cabeça com o ar entendido de alguém que tem convicções próprias e que se felicita por ter conduzido tão bem os negócios. — O Forte de Richelieu? O Forte Sainte-Anne? Mas fica muito longe — observoulhe Angélica. — Por que não tentam voltar Pela Chaudiéré em direção a Quebec? Teriam de percorrer uma distância menor. Ele sacudiu a cabeça. Ouvira dizer que o exército do novo governador invernava no Forte de Richelieu e nos dos lagos Saint-Sacrement e Champlain, e que as barcas haviam passado todo o outono levando um abastecimento monumental de Montreal para lá. Não apenas ficaria com os seus, protegido da fome, mas também estaria no local quando chegasse a primavera, para participar da grande campanha guerreira que se preparava contra as Cinco Nações iroqueses. De repente perguntou o nome das crianças que estavam com ela no fortim, e quando ela respondeu, manifestou novamente uma grande satisfação. — Carlos Henrique! Carlos Henrique! — repetiu várias vezes. Depois, inclinando-se para ela, com um ar malicioso, confiou-lhe: — Sou o cunhado de Jenny Manigault. Em resumo, ele era o irmão de Passaconaway, o chefe dos pemacooks, que raptara Jenny, e com quem ela fora se encontrar depois de sua fuga, confiando seu filho Carlos Henrique a Angélica. Pengashi achava que seu irmão mais velho agira mal raptando uma francesa. — Nós dissemos a ele, no começo, nós, seus parentes, amigos. "Meu irmão, tome cuidado", sempre lhe dizíamos. "Você raptou uma francesa, e nossos aliados brancos do Canadá vão criar problemas conosco." Então, ele foi se esconder nas montanhas Verdes, mas, depois, avisou-me que soubera que sua cativa francesa era da mesma religião que os ingleses, daqueles que tinham crucificado Nosso Senhor Jesus Cristo, e que, por essa razão, seus compatriotas franceses a considerariam como prisioneira, se lhes propusesse devolvê-la. E, longe de resgatá-la, os franceses a entregariam a

outros abenakis como butim. Compreendeu então que ninguém viria tomá-la dele, se soubesse precaver-se contra uns e outros. A última vez que Pengashi vira o irmão, o chefe Passaconaway, ele se preparava para "descabanar" com sua família, comnosta de Jenny e da criança que tivera com ela, uma menininha, sua mãe e um jovem primo, que perdera toda a família na guerra do Rei Filipe. O inverno anunciava-se muito rigoroso nas montanhas Verdes. Quis se aproximar do litoral, preocupando-se em não atrair a suspeita dos colonos ingleses que avançavam, cada vez mais numerosos, em direção às montanhas para deslindar a floresta, e que viam por toda parte, assim que a pluma de um selvagem despontava, contingentes guerreiros do norte canadense, franceses e abenakis, vindos para escalpelá-los. Passaconaway não era batizado como Pengashi, que era cristão, assim como sua família, e até seus pais. Passaconaway desconfiava dos homens brancos que podiam vir tomar-lhe Jenny; dos franceses, porque ela era de sua raça, e dos ingleses, porque era de sua religião. Ficaria feliz por poder levar a Jenny notícias do filho. — Se você voltar para o norte, não terá tempo de rever seu irmão nem de transmitir a Jenny notícias de seu filho — disse ela. Mas essa noção de tempo e de distância não impressionava o índio. De qualquer modo, a campanha de guerra contra os iro-queses os conduziria para perto das regiões onde se escondiam Passaconaway e sua pequena tribo. Depois que os iroqueses fossem aniquilados, Pengashi poderia seguir um contingente decidido a recolher as cabeleiras dos ingleses entre os habitantes das fronteiras, o que o colocaria nos limites da hinterlândia do New Hampshire e das montanhas Verdes. Poderia subtrair alguns dias aos combates para encontrar os seus e visitá-los. No wigwam de Pengashi havia duas mulheres. A' mais nova dava de comer a um bebe amarrado a uma pequena prancheta. Era sua filha mais velha, cujo marido morrera esmagado por uma arvore, durante seu êxodo. — As neves chegaram muito cedo. As árvores não tinham ainda perdido as folhas. Com o peso, muitas delas se quebraram. A outra, a esposa, observava Angélica com um olhar pouco ameno. Apesar da estreiteza da cabana, resolvera besuntar os cabelos com gordura de urso líquido. As índias tinham sempre muito cuidado com os cabelos. Aquela, a despeito de sua situação precária, não derrogava seus hábitos. Perguntou a Angélica se não tinha um pente para dar-lhe, de chifre ou de osso, pois o seu, de madeira, se quebrara. Pengashi mandou-a calar-se, com mau humor, e Angélica compreendeu que lhe censurava desperdiçar banha de urso quando suas provisões estavam esgotadas. Sua filha mais velha, a jovem viúva, por sua vez, indagou se a mulher branca podia fornecer-lhe uma faixa para seu-recém-nascido. Acusava também o inverno. Não pudera fazer uma provisão daquela penugem de caniço ou de madeira de pruche socada com que se revestiam as coxas dos bebes, a fim de não sujar as peles. Mais uma vez, o índio mandou a filha calar-se, lembrando que as mulheres tinham usado o pó da madeira de pruche para desengordurar os cabelos, antes de lavá-los, só para tornar a engordurá-los depois. Seus cabelos! Sempre seus cabelos! E não tinham o que comer! Mas logo depois pedia a Angélica, para ele, álcool e também uma coberta, pois não pudera ir à feira buscar nos navios ou no posto do holandês as mercadorias de que precisavam.

Enquanto falava.Angélica lamentou não ter trazido álcool. ordenou com voz rude à pequena criada que atiçasse o fogo. Eles escutavam. Ela já não era uma criança de yenngli. Daqui a pouco estará suficientemente grande para tornar-se minha esposa. sem parar de fumar e sem que um músculo de seu rosto se mexesse. Coberto com um gorro de pele. podia-se perguntar se tinham ouvido alguma coisa do que lhes dizia o filho. Acabou de fumar seu cachimbo e. Há alguns anos. tinham um reflexo dourado. mostrou um grande bloco gelado de uma matéria avermelhada. Observando a pequena índia curvada sobre sua tarefa. envolto em peles. deve ter compreendido a linguagem muda de seus olhares. que desceu ate as proximidades de Portsmouth. depois de muitas encenações. Esperou que o calor voltasse ao interior da cabana para desenrolar as peles. Recomeçou a explicar sua situação. Ela era tão pequena e tão loura! Fui eu quem lhe calçou os primeiros mocassinos. Apesar da gordura que os untava. mas até agora não chegara ninguém. Esperava socorro. dando-se ao trabalho de respeitar as regras de cortesia devidas aos ancestrais. Estava sozinha naquele fortim com as três crianças. fazendo-lhe m sinal para que entrasse com ele. Então dei-a como criada para meus pais. Coloquei-lhe esses mocassinos nos pés. pediu-lhe que o acompanhasse ao lado de fora. tirando um volumoso pacote coberto de gelo. pois . Tinham lenha para se aquecer. Angélica ouvia-o. que um companheiro sobrevivente fora buscar. dirigindo-lhe novamente uma de suas piscadelas de conivência. Depois de fechar cuidadosamente a abertura. mas as reservas de alimentos estavam se esgotando. Com certo orgulho. que não podiam manter a velocidade. — Meu irmão era tão louco por sua cativa branca! Deu-me vontade de ter uma também em meu wigwam. Raptei esta menina. Angélica e seu anfitrião tomaram seus lugares. E a neve recobrira completamente o lugar das armadilhas. da qual arrancava os últimos fiapos de carne e de nervos. sentados com muita dignidade no fundo da cabana. entre as quais Carlos Henrique. o homem fumava seu cachimbinho de pedra vermelha e a intervalos. Ele penetrara até o fundo do wigwam e soerguera uma placa de casca de árvore que formava a parede. Mais uma pequena cativa inglesa. para jogá-los numa panela colocada sobre os tições. presos na testa por uma tira bordada com miçangas coloridas e cerdas de porco-espinho. para que desse algumas baforadas. mas que deixava vislumbrar manchas de sardas. Pengashi explicava aos pais quem era ela e as razões de sua vinda. que esperara pacientemente sua decisão. acabou. as crianças acabaram deixando-o para o cachorro. não podia deixar de olhar cobiçosamente para a tigela com gordura de urso e um resto de mingau de milho. Com a perspicácia de seus congéneres. Uma menina de cerca de doze anos. . Pusera-se a caminho tão persuadida de estar indo em direção a uma miragem que não pensara em se munir. endurecidas pelo gelo.um homem e uma mulher de tranças grisalhas. È por isso que Ganita não gosta dela. sempre fumando.os yennglis nos perseguiam e tivemos de matar quase todos os nossos outros cativos. apesar da corrida na floresta. dirigiu-se ao segundo wigwam. Arranjei um meio de cortá-los e costurá-los. estendia-o à velha esposa. com um grupo aliado. Dois velhos encontravam-se ali. menos atenta a suas palavras que aos gestos. no centro da cabana. de um pouco daquele produto de troca. raspava cuidadosamente uma pele. lançando-se depois avidamente àquela suprema bolinha de pasta. pelo menos. E depois. os cabelos trançados. por menores que fossem. Pengashi. seguimos a campanha do Toga Negra. Angélica surpreendeu o olhar de curiosidade que ela lhe lançava e viu uma pupila clara numa carinha magra escurecida pelo sol e pela gordura. Este não se aborrecia com sua indiferença. agachada ao lado do fogão.

contou na concha da mão. — Eu sou o cunhado de Jenny Manigault — respondeu. Meus pais não dirão nada. — Tenho também um presentinho que Jenny me deu para seu filho. cortou um grande retâgulo de carne. o que ela fez com rapidez e habilidade. com tanto cuidado quanto um avarento com suas moedas. Para Tenny. puxava. Aposto que foi essa danada da Ganita que o furtou de mim. quando se tratava de caça. nem pena. nem tinta consigo. Exceto uma aliança muito larga em seu dedo emagrecido. pois sou batizado. hesitava novamente. Hesitava. entregando-a a Pengashi e explicando-lhe que Jenny reconheceria aquele anel. --. pediu que Angélica estendesse as suas para recolher a preciosa provisão. Mas vou fazê-la confessar. que vira em sua mão. Mas não contei tudo a minha mulher Ganita. Essa generosidade que demonstrou e que o deixou satisfeito não lhe custou caro. Acabou tirando-a meio maquinalmente. Ela prometeu trazer aguardente. uma palavra escrita. Eles defendem do escorbuto. com três ou quatro golpes decisivos. e não usava nenhuma jóia. talvez eu consiga um pouco de carne para partilhar com você. do lado de fora. Um filhote de gamo. Apesar de batizado. Com alegria por levar víveres suplementares para alguns dias. acrescentava três ou quatro pastilhas de suplemento.— Fiz uma boa caça anteontem. Chegou a casa antes da noite. Ela logo ia querer fazer uma patuscada. Eles aprovam que eu seja parcimonioso. também cuidadosamente cortado. Abrindo-a. Quando a mão ficou cheia. cujo valor parecia apreciar tanto quanto o ouro. Com todo o arsenal armazenado nos flancos do fortim de Wapassu. do qual retirou duas raízes de rábano e uma colherona encerrada numa bainha de couro corrediça. um saco. podia dar-se a esse luxo. Não tinha papel. Volta daqui a três dias. — Pode dar-me também seu fuzil? — pediu o abenaki.Não teria com você algum objeto que eu pudesse entregar-lhe uando tornar a vê-la? Meu irmão mais velho acha que sou mentiroso. Ela se confundiu em agradecimentos. mas não consigo encontrá-lo:. Assim ele poderá ver que falo a verdade. Pegou num canto uma velha lâmina de espada bem afiada e. de um outro buraco. — Deixa esses frutinhos dos bosques incharem dentro de um caldo. a volta lhe pareceu fácil e rápida. e nunca é demais precaver-se. preferia dirigir-se ao Grande Espírito. após guardar a aliança na sacolinha suspensa ao pescoço que todo índio usa no peito. O inverno é um inimigo traiçoeiro e cruel. como o parentesco o constrangesse a certas obrigações para com ela. e se corrigia. se o Grande Espí rito continuar a ser bom comigo. Angélica procurou alguma coisa que pudesse deixar com o selvagem e que testemunharia a Jenny que ele a encontrara. sacudia um pouco o saco. Quem sabe! Com o fuzil. . depois parecia reconsiderar e arrepender-se de seu gesto. — Tenho direito a um fuzil. Ela não tem miolos. Enquanto ordenava à pequena criada que costurasse as bordas do embrulho. Pengashi rejubilou-se. derramando mais um pouco. enrolando-o num pedaço de pele. parcelas pretas ou amarronzadas de um produto leve. uma coberta para sua velha mãe e a faixa para o bebe.

um dia o vento começou a amainar. Apesar das raquetes. Finalmente. que transforma uma paisagem já escura numa muralha intransponível. mole e silenciosa. foi arrastada para o fundo. ao rés-do-châo. não tendo pressentido a tempo o desnível. em enormes flocos macios. Como eram corajosas. munira-se de um feixe de varinhas para balizar a pista. Prosseguiu a caminhada. que corroía como poeira de aço a superfície da neve. sem o mínimo galhinho. e. sabendo que não poderia dar dois passos sem ser derrubada. teve de esperar pelo dia seguinte para ir ao acampamento dos índios. A ravina assumira um aspecto fantasmagórico. encontrou. Pengashi erguia suas cabanas na parte mais fundas das ravinas. apesar de quase apagados. tão pequenas. apertou contra o peito as crianças. mas suficiente para que tivesse a possibilidade de saber em que direção estava indo. um pente. atingir as missões do norte? Deixou passar alguns dias antes de retomar o caminho de seu acampamento. Mas. esperou mais-um dia. depois outro. Dessa vez. não percebeu a beirada abrupta do despenhadeiro e. ameaçava recobri-las dali até a sua volta. Aquele Pengashi a enganara com seus projetos de voltar para as montanhas Verdes. mas o vento. chorando suas lágrimas de cera lívida. Será que conseguiria. Avançava lentamente. sem se inquietar e sem fazer tolices! — Comemos ê depois dormimos — disse Carlos Henrique. Um trecho do horizonte se descobriu para oeste num espaço restrito. lamentou não tê-las cortado mais compridas. Caía compacta. os ramos em forma de candelabro. Levaria um quartilho de aguardente. se quisesse rastejar. a neve recomeçou a cair. mas as pancadas de neve. em compensação. confundindo-se com os rochedos submersos. Como da primeira vez. Esperou. Na manhã seguinte. e. Contra qualquer expectativa. algumas faixas de pano e. içou-se para fora e rumou para a planície. Quase imediatamente. guiando-se pelo sulco muito tímido do trajeto anterior. Vento seco mas glacial. afundava até os joelhos a cada passo que dava. Precisou de mais tempo para se livrar da neve. Com a passagem constante de névoas e nuvens no horizonte. pareciam não ter fim. O céu baixava cada vez mais. apesar de não estar muito bem provida. por terem sabido esperá-la sem se assustar com sua ausência. era impossível tentar localizar os sinais de fumaça do pequeno acampamento perdido. sem uma pitada de neve em suas agulhas. duas cobertas de lã inglesa de Limburgo para os avós. As coníferas estavam negras como tinta. compreendeu por que. vestígios de sua antiga pista. não perdera nem a raquete nem as luvas. mas. Devido ao adiantado da hora. turbilhonando com lassidão. ainda não se levantara e provavelmente não se levantaria. houve uma calmaria. caindo como um dilúvio. teria rodopiado. naquela estação. No intervalo. pobre coitado. parando pouco a pouco. como da vez anterior. Ela deixou para falar-lhe sobre a mãe mais tarde. e a própria cascata desaparecera. a neve recomeçou a cair em grande flocos.Aliviada. Com medo de se perder. o que não tinha gravidade. mais pesadona que um urso. depois de desobstruir mais ou menos os arredores da entrada. recoberto por uma carapaça de gelo. deixando sob um céu baixo e ameaçador um mundo decapado. um vento desagradável começou a soprar. As árvores estavam transformadas em longos círios gigantes. sendo varrida de um lado para outro. na mesma precipitação de neve. com as folhas despojadas cor de osso. pois ela lhe amortecia a queda. pois a neve. durante a noite. Os flocos ficaram mais esparsos. . Fez suas recomendações a Carlos Henrique. Agora o vento cessara totalmente.

sem pensamentos. com as pernas cruzadas. Depois. pelos espaços nevados e pelos furacões. o homem com seu gorro de peles e a velha com sua tiara bordada enfeitada com uma pena. estendeu a mão para a panela. após a última baforada. Pouco a pouco. Sob a luz baça que entrava pela abertura. Segundo o ritual e a tradição. deixaram vir a morte. repousava uma espécie de torrão de alguma coisa indistinta. passando-o um para o outro. e acompanhado pela mulher. não se preocupou por não ver fumaça. com seus passos lentos nas raquetes. depois. retida involuntariamente. contendo duas supremas rações da sagamité. impassíveis. lá onde só existe calor e luz. fixavam-lhe os olhos turvos. compreendeu que estavam mortos. Com uma última panela colocada sobre os tições. em seu alívio de sabê-los presentes. não se cansava de contemplá-los. não teve resposta. também salpicado de neve. No momento em que Pengashi e sua família partiam de novo. ajoelhada diante das duas dignas múmias. sentados lado a lado. Tinham fumado calmamente o cachimbo da paz. sem saber por quê. por aquele espetáculo macabro. estava vazia e meio encoberta pela neve. como já esperava. um último fogo aceso diante deles. numa direçào tão distante quanto incerta. à procura das missões e dos postos franceses. assim como os dois velhos. e no entanto nobre e sereno.Nem sinal dos wigwams. infiltrando-se por um buraco no teto. Saudou-os. . Angélica ficou inerte. o velho índio colocara o objeto sagrado diante dele. o bebe e a cativa inglesa. Esperaram que o último tição se apagasse repartindo então os últimos bocados de alimento terrestre. recolocando cuidadosamente a placa de casca de árvore que servia de porta. eles já estavam longe. Só depois de um bom tempo. e percebeu os dois velhos no fundo. percebeu a forma redonda de um dos dois abrigos e. afastou a casca de árvore da entrada. Quando o galho desabara sobre o teto do wigwam. pulverizava os tições do fogão. tal como os deixara. um detalhe insólito atraiu-lhe a atenção adormecida. retomou sua marcha para o norte. Mas. a filha mais velha. Continuavam tão vivos que se continha para não colocar em seus ombros as cobertas que trouxera. continuando seu caminho pelas planíceis do Grande Espírito. uma última pitada de tabaco para o cachimbo do pai. Nas mãos abertas de cada uma das duas personagens hieráticas. carregando e arrastando os aprestos dos pobres e derradeiros bens. Levantou a cavilha de madeira. o ancestral dissera: "Meu filho. Minha pista termina aqui". Chamou. os filhos. e depois. eu fico. da primeira vez. Seme-lhava-se a um grande cascalho de lama. na obscuridade que pouco a pouco se resfriava." Depois. Uma fina poeira de neve. até que viu à sua volta que a neve começava a se depositar sobre suas roupas e que estava petrificada de frio. Pengashi deixara-lhes o wigwam para abrigá-los. aproximando-se. Com um gesto instintivo. com as mãos colocadas sobre os joelhos. quando notou o cachimbo apagado colocado diante do homem e constatou a invasão da cabana pelo sopro-imperceptível da poeira de neve. Não pareciam dar-se conta daquela neve fina que pouco a pouco os recobria e. "Eles descabanaram. sublinhando-lhes de branco as dobras das roupas.

de sua odisseia com a índia. via brilhar aquelas cruzinhas de ouro feitas e usadas pelos índios batizados do sudeste. reconhecera nela sua mãe. Deveria ver nesse gesto uma suprema oferenda ao Deus da caridade sem limites que os Togas Negras lhes ensinaram a cultuar? O que era uma ração a mais nesta terra. Transbordante de gratidão. — Obrigada! Obrigada! Que Deus os abençoe. Ajustou e firmou melhor a porta. Angélica contemplou-os com emoção. não conservava uma lembrança feliz.Mas ao se aproximar percebeu quê era comida. colares de conchinhas. reconheceu uma armadilha de aço para os pequenos animais de pele e se lembrou de que se queixara a Pengashi de não ter encontrado as que o inglês colocara no outono. Dois grandes blocos congelados de mingau de milho. um par de brincos pingentes deslizou na mão de Angélica. que o arrastara duas estações de wigwan a wigwan. que poderia lhe oferecer uma última oportunidade. por outro lado. evitar-lhe o máximo tempo possível o ultraje dos animais carniceiros. Sabia que. ainda que fosse mais fácil distraí-los. oscilava. Estremeceu com uma alegria insensata. misturado com pedaços de carne e frutas secas. entre saquitéis. tinham pensado. Pela forma. cerdas de porco-espinho. saiu do wigwam. Ao se retirar. atingia-os. Se. entre os amuletos de dentes de ursos. Prestes a entregar o presente a Carlos Henrique. adulta. Trémula. interrogando-os com o olhar: "E para mim? Sabiam que eu ia voltar?" Em seus peitos. A última refeição dos ancestrais. A fome tornava a todos frágeis. quando iam partir para lá. esforçando-se por tapar a abertura no teto. desejando que sua aliança pudesse um dia chegar até a pobre criança. Sua sensibilidade se aguçava. enfiou seu butim na sacola. Eram os brincos que Jenny Manigault de La Rochelle usava no dia em que fora raptada pelos índios. Evitava sempre falar a esse respeito e não respondia quando se aludia a ela. a fim de. a falar-lhe da mãe. Uma coisa de nada tocava-os. pequenas granadas engastadas em prata cinzelada. que não vira anteriormente. . Portanto. desprendeu os dois pedaços das palmas esquelétricas e hesitou. Em troca do fuzil. onde estariam saciados para sempre? A mulher branca e as crianças brancas de Wapassu tinham fome. Havia também uma sacolinha de couro colocada sobre a porção que a mulher segurava. pois parecia fazer parte da oferenda. experimentava. chocou-se com um objeto envolto em pele. o que levara vários meses. conteve-se. em que não haviam tocado. e não se podia saber de que modo repercutiria o menor choque. olhando uma última vez para os velhos. medalhas. receou abalar o bom equilíbrio do menino. a ruptura não teria deixado nele uma ferida? Evocá-la não iria despertar sua nostalgia e mergulhá-lo na melancolia? Ele aprendera a sorrir em Wapassu. Recuando de joelhos. também pegou-a. o índio lhe deixava um de seus instrumentos de caça para comércio. As crianças não eram infensas ao que ela mesma. CAPITULO XIII Os pingentes de Jenny Manigault — A loucuras do silêncio Quando esvaziou a pequena sacola de couro encontrada perto da avó.

Saberiam que estava viva. na primavera os indígenas levavamnos para a feitoria ou entregavam-nos aos viajantes e exploradores de bosques. um fidalgote provinciano. na casa de Abigail. Honorina. a influenciara. Não se arrependia de ter-lhe deixado a arma. o índio teria alguma possibilidade. O tráfico de peles era terminantemente recusado em Wapas-su. a alguma distância do posto. num lugar que lhe pareceu propício à passagem da caça. aquela música macabra que pairava perpetuamente nos grandes espaços selvagens. Chamou Ruth e Noémia em seu socorro. os índios comeriam o cachorro. panelas. a carne de veação era caçada com fuzil. Agarrou-se à ideia de que Pengashi falaria dela. a fim de não descontentar os franceses. sacrificou uma bolinha de carne para a isca. Armas de caçadores furtivos! Seu pai. facas. e o barão nunca enforcou ninguém. em Salem. Como último recurso. moeda de câmbio. Não gostava de imaginar aquele estalo perpétuo das armadilhas fechando-se sobre os bichinhos dos bosques. o homem arriscava-se a ser enforcado. tão esfomeados quanto seus aldeões nos anos de má colheita. foi preparar a armadilha que lhe deixara Pen-gashi. Mas será que Pengashi voltaria algum dia. na América.Recolocou as modestas jóias na sacolinha. mas arrebataram-lhe a esperança. partilhando-o entre eles. por isso Angélica se desinteressara. organizavam com os vizinhos batidas em suas terras. não era tão sensível em relação aos bichos. Despertou dando um grito de decepção. sentados em volta de uma boa mesa. Mais tarde as entregaria. segundo a lei senhorial. Ele gostava dela. Tocada pelo inverno. pois fora a única a consolar sua pequena infância abandonada. no entanto. a situação lhe pareceu pior que antes. que assustou as crianças. em seguida. Tinham-lhe dado uma prorrogação de alguns dias de alimentos. reservando-se aos chefes o uso das armas de comércio. e muitos outros objetos dos quais eram ávidos e aos quais nãò podiam renunciar. Colocou-a ao abrigo de uma árvore. Ela sonhou com favas no toicinho e feijões de Boston. Disse consigo que fora estúpida. A visão daquela pequena família errando através do deserto branco forneceu-lhe a medida do isolamento em que estava encerrada. praguejava contra os camponeses furtivos que lhe pilhavam os coelhos-bravos para poder colocar um coelho na panela. em troca das mercadorias de trato: machados. As vezes. toda caça desaparecera no céu e na terra. Em sua juventude. aguardente. ou quando tivessem saído daquele pesadelo e estivessem todos reunidos. ao menino. Ali. mortais as tempestades. Pensava vagamente em tudo isso enquanto lutava. Assim que pôde. ele também. com sua mania de se identificar com toda criatura inocente maltratada. mas ele estava se generalizando. . Seres humanos tinham vindo e. As armadilhas serviam à captura dos animais de pêlo. quando ele estivesse maior. Pego em flagrante pelo couteiro. que. com os dedos entorpecidos. lâminas de espadas. enquanto se perguntava se era mesmo daquele modo que se procedia e censurando-se por não ter testemunhado maior interesse pelo manejo daqueles engenhos de desgraça. à praia dos vivos? Sem fim era a pista. Mas os San-cé de Monteloup sempre foram pobres demais para pagar os serviços de um couteiro. a fim de pegar um veado ou dois. Muitos continuavam a caçar com arco. se degustavam regados com creme e melaço. Com o fuzil. "que vinham em suas canoas. tanto pelos brancos como pelos índios. os senhores da vizinhança. com a malvada mandíbula de aço que era preciso fechar sobre o pulso.

que dissera: "Agora não poderia mais viver sem você"." As crianças berravam a plenos pulmões. Trazíamos a aliança dos homens de boa vontade. tão só.. Era preciso lutar contra a loucura do silêncio. que estava entre os iroqueses.Montanhas de pratos fumegantes. Os trabalhos dos homens. Se desaparecesse. Nós lhe trazíamos cavalos! Trazíamos o teto e o incenso da fumaça dos homens. enquanto corria para a cabana de Lymon White para se refugiar. minha queridinha! Meu tesouro!" Honorina sobreviveria.. . CAPITULO XIV Entre a fome e a tempestade Angélica começava a duvidar de que o "pior fora evitado". Pensava nos primeiros dias de sua chegada ao Novo Mundo. censurava ao horizonte mudo. Tinham sido habituados a viver ao ar livre e. como que tomados de pânico." Mas o Maine era uma região muito difícil. que emprestavam a tudo um sentido diverso daquele que lhe atribuíra outrora. quando subia à plataforma. "Você me traiu! Você me traiu". aureolados ao mesmo tempo de esplendores terrestres e ingerências místicas. Não sabia se aquela visão lhe causava mal-estar ou se a tranquilizava. depois sua própria morte.. Eles saberão encontrar o caminho. E fora encontrar-se com Honorina. Joffrey recebendo a notícia. inquieta e atormentada como ela. enquanto Carlos Henrique se inclinava sobre ela." O pior seria a morte das crianças. Fora embora antes do incêndioe. que se lhe deparavam como na mesa do rei. A ele. — Não chore. Daria o triunfo a seus inimigos. galopavam através das pradarias. o fogo de seu coração e as chamas de seu génio. que haviam jurado terminar com a alegre força daquele espírito livre. sua égua. "Os cavalos!. "Não pense. alguns se tornavam novamente selvagens e indomáveis. no fim do verão. se organizarão em rebanhos. Irão para os lugares onde há menos neve e muita grama e povoarão a América. obrigava-se a falar com as crianças. Os cavalos!" No outono passado. Quando Honorina voltasse. Imagine antes que estão felizes por ter reencontrado o espaço. manter sua atenção desperta. Procurarão o caminho das charnecas e dos planaltos. de florestas e precipícios. o anunciara.. de certa forma. ele. Pensava em Wallis. Os últimos anos tinham sido marcados por um selo de vitalidade cintilante. Era a mais forte de todos. mamãe! Eu os vi galopar! Não se deve ficar triste.. e o inverno chegara cedo demais. que se defrontara com a tartaruga gigante. ensinar-lhe-ia a atirar com o arco. Dizia-lhes que o cão boboca dera provas de grande inteligência. tão renegado. seria ela quem infligiria o golpe de misericórdia naquele homem indómito.. no momento do ataque dos índios. "Honorina. reencontrarão seu instinto.. símbolo dos iroqueses. adivinhando que era o fim de Wapassu e que era preciso fugir. percebera numa visão relâmpago os cavalos que. "Eles descerão para o sul. Havíamos feito umcontrato com você. ao longe. "Você prometeu. não podia fazer isso. Seus rostos pálidos iluminavam-se quando se pronunciava o nome de Honorina. Livres..

Nenhum ser humano!.. Não! O pior seria a morte das crianças. para em seguida desaparecer e me deixar desarmado diante daqueles que juraram minha perda.. e que ela sobrevivesse e reaparecesse diante dele. os ignaros. história caçoísta recomeçada. Eu lhe prometo que sobreviverei". que atingiu o fundo de sua desgraça. Ao despertar. como fizera no início. que a disputava comigo. .. o coro dos destruidores. Será que poderia fazê-lo?. Pegava um pouco de aguardente no côncavo da mão e friccionava as crianças para revigorá-las. toda manhã. Depois de preparar o café com o máximo cuidado. ouvia-se murmurar: "Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!. Tinha de resignar-se a isso.".. . como o Rei-Sol. os tolos. como Dalila. como da primeira vez..... gritou. Pois sabia que desgastava inútilmente suas forças. No fim. mas." — "Não! Não! Não diga isso.. meu amor.Ele teria o direito de censurá-la para todo o sempre. Deus lhe devolveu tudo. Ciclo infernal. os incapazes.... Dir-lhe-ia: ". que não me deixaria capturar nas malhas do Amor. Pôs cinturões e retalhos de couro para ferver e fazer uma gelatina. ordenava Angélica a si mesma. de insultar o destino. sustentava-se com aguardente." "Jó!. Mas bebeu com avidez.Você me corroeu o coração. dia para as crianças. o que é repulsivo. parcimoniosamente dividido entre eles. e todos pareceram menos dolentes depois.". que lhes dispensaria os corações em farrapos.. os pedantes. "Deus que está em toda parte. três dias no máximo.. num estado de sonolência. Já nem tinha coragem.. os ciumentos. : Ninguém. dando-o também às crianças. Foi um belo dia. sem as crianças!.. Andar até os bosques lá embaixo. os devotos.. Dois dias. Partir. é preciso não esquecê-lo." "Não pense! Não pense!". mas um tirano de qualquer modo... invocações que lhe emergiam à consciência como as bolhas de seu desespero.. quando sua imaginação esmorecia. como diz a oração. A neve caíra sem descanso. ela se privava. É preciso crer em Deus! Deus permanece. estão vencidos!. E todos sabem que esse apelo à ajuda suprema. clamando com alegria: "Desta vez. Fazia parte dos fenómenos da fome..Jó queixando-se de sua miséria a Deus: "Tu me engoliste como o leite! Tu me partiste como o queijo. em todos os lugares!..um... O coro dos medíocres. Não poderia naquele dia arrastar-se até a ravina de Pengashi. quando se manifesta no ser humano. Estava dominada pelo medo das alucinações... Carlos Henrique fez uma careta. você me deixou depois de tirar-me todas as forças. teria alucinações. De tanto procurar em todos os cantos. azar... Pois então.. encontrou um restinho de pó de café turco numa lata.. Para ganhar . os bispos. que acompanhava as poucas colheradas de alimento. E depois. Angélica. Lymon White tinha suas pequenas fraquezas. tão convencido de seu poder de sair de todas as dificuldades por seus próprios meios.. a mim.. composta por um bardo feroz.." Bem se vê que tudo isso foi escrito por homens e não por mulheres!. os tiranos débeis e os tiranos inspirados... os medíocres. que ruim!. com os cabelos de Sansão. já não eram as expressões enérgicas do Pátio dos Milagres que lhe voltavam aos lábios. — Hum. bebeu-o como um néctar precioso. significa que ele entrevê o fim de suas esperanças terrestres. desta vez.

— Eles passam! Eles passam! Estão apenas passando. Uma vez. "Certa manhã. de manhã. de La Rochelle. jovem mãe de três crianças. contrastando com o encarneiramento das montanhas. sem que se pudesse saber se era dia ou noite. Apertava as três crianças contra si. por ocasião de breves claros no céu. em meio às rajadas de neve. A velha Rebeca que. se esforçava para abrir a porta e subir para ver o nascer do sol. Mas estava morto. "O que se haveria de encontrar numa cidade. ácido." Então Angélica se precipitava à cabeceira das crianças. Não tinha mais coragem de vê-las definhar. Por enquanto.. seu distanciamento da casa. O poente aquela noite foi de um amarelo agressivo. mas com uma violência brutal que acordou as crianças. CAPÍTULO XV Em meio ao delírio. sacerdotisa de um sacrifício de que era a única celebrante. Mas lembrava-se das histórias da velha Rebeca. aíordou dura de frio. "Por que você é tão cruel?". pensei que estivesse dormindo. não saberia dizer até hoje com que forças. saindo e se movimentando. As noites e os dias sucediam-se. cobrindo-as de beijos e murmurando-lhes palavras reconfortantes. sob o Cardeal de Richelieu. de um azul água-marinha. Aquecera seus corpos franzinos com tisanas. o blizzard começou a soprar. Acabou por retirar a isca. A noite. arrastou-se para o abrigo. quando se arrastava novamente até lá. perdeu-se. surpresas. Depois subia de novo ao outeiro. Mas. Quando. Outra vez. "Tão bela e indiferente?" Também lhe foram recusados aqueles momentos em que. com os filhos ao lado até . já que dispunha de muitas. contava ela. entretanto. Não veio de mansinho. acreditaram que o teto ia despencar.. que poderiam consumir. esqueciam as agonias da fome. A frisa malva e cinza das montanhas desenrolava-se contra um céu realmente cor de pêssego. tomava ares de fuga. estavam dormindo. Angélica abençoou o céu por estar o posto tão profundamente ancorado na terra e na rocha. não poderia levantar-se mais e deslizaria lentamente no sono da morte. elevando as mãos com as palmas unidas como para uma invocação." "Foi meu filho mais velho que se foi em primeiro lugar". desmaiou no caminho. Era belo mas inquietante. encontrando-a sempre vazia. extraía forças da impressão de estar fazendo alguma coisa. quando tudo o que pode ser comido já o foi? Não se deixa nem a um talo de grama tempo para crescer entre os lajedos. espreitando-lhes a respiração em seus lábios descorados. Se se limitasse àquele único cómodo. No sono. e só conseguiu reencontrar o fortim guiando-se pelo cheiro fugaz da fumaça.Examinava periodicamente a armadilha. Postava-se diante do horizonte. o cadáver de um mártir Precisava ao menos reunir suas energias para mover-se através do espaço estreito que lhes permanecia reservado. às quais misturava plantas calmantes. habituadas todavia a esses uivos das noites de inverno e às sacudidelas dos batentes. não paravam de passar. gritava à Natureza. presenciara o sítio de La Rochelle. procurou-a em vão. Os negros esquadrões de tempestade. onde as crianças repousavam.

Abria a porta do quarto e tomava o corredor com a mesma. a fim de seguir a evolução das horas. apenas o sono delas. era o deserto. talvez mais. como uma água turva mas presente. percebeu que a porta bloqueada pela neve tornava impraticável a saída. Após engolir os últimos bocados. decidindo afinal que era crepúsculo. embora lhe notasse a inquietante apatia. quando se sentisse mais forte. Ela mesma. Naquele dia. talvez. enrolou-as mais nas peles de gato selvagem. adormecessem também para sempre contra seu corpo de gelo. ganhou novas esperanças ao vê-las sorrir e até rir e pronunciar algumas palavras. receando a cada dia perceber os sinais precursores do mal terrível. se empenharia em abri-la e depois arrastar-se. fugia da visão de seu último sono. batendo o tacão no assoalho. Seu olhar seguia a fuga da superfície da neve. Do lado de fora. Entretanto. dosando cada bocado. mas decidiu que esses trabalhos lhe revigoravam as forças.. cotidiano. a única saída pela qual a luz do dia podia ainda escoar-se. repetindo: . as crianças enroscaram-s*e no entorpecimento. deslizou convulsivamente para fora da passagem que cavara no gelo. desesperada. Deu consigo correndo _ na superfície gelada e cintilante. para três ou quatro dias. mimou-as. Lançava aos ombros sua manta. A fome chegaria antes do escorbuto. tinha obrigação de servir-se delas. Por ali. Outra hora. seria mais fácil deslizar para fora. atravessava os pátios. Estava coberta por um suor de fraqueza. a tranquilizava. da temperatura no exterior. acabou toda a comida. passo a passo. cuidou delas. percebendo-lhes a avidez. Dedicava-se todos os dias a retirar o gelo do respiradouro. Içou-se até o respiradouro. untada de óleo. inspecionava os estábulos e armazéns. Despertas. na grande sala. até a armadilha. Ergueu a gola do manto até os olhos. Pelo interstício desobstruído. na soleira da habitação principal de Wapassu. Um muro de gelo bloqueava quase inteiramente a abertura. na qual uma fonte de luz invisível projetava salpicos de cobre: aurora ou crepúsculo? Permaneceu observando bastante tempo. Recolocou a pele que servia de cortina. Proteção contra o frio! Todos os dias viria despregar um pano da cortina. visitava os acampamentos indígenas mais próximos. do mesmo modo que é necessário mexer-se e ativar-se quando o entorpecimento do gelo se apodera dos membros e do espírito. para o fundo de seu túmulo. lhe restavam ferramentas. que não podia satisfazer. no gesto habitual. soergueu-se gritando: — Não quero vê-los morrer!.resolução com que começava cada estação.'a serenava. fixando-as com pregos. transpunha os limites das muralhas. o escorbuto. is fazendas vizinhas que. Arrastou um escabelo para junto do respiradouro. Arrancou com a faca a proteçào de pele. pouco a pouco.que. pelo menos. para ouvir o barulho de seus passos. Com a condição apenas de que a tempestade não voltasse a enterrar o mundo em sua noite eterna. prometeu a si mesma. família por família. carne salgada. agia como um autómato. ou os sinais precursores da morte. Já que. Poderia orientar-se? Desprender o aparelho da massa de neve? Começou a andar em volta do quarto. e cada dia. Depois. Endireitava-se. Ainda restavam muitas provisões: gorgura. ocupou-se em tapar o respiradouro com uma proteção de esponja e de peles. se espalhavam fora dos muros. agora. Ia poder desse modo determinar o andamento dos dias e das noites. parando de dispensar-lhes seu próprio calor e suas forças vitais. um frio cruel lhe mordia o rosto. milho. parcimoniosamente. Alimentou as crianças. podia ler muito bem em suas carinhas e corpos o que lhes faltava. enrijecia-se.. — Levante-se! Mova-se.

em outros termos. — Obrigada! Obrigada. Um coelho das neves ali estava preso.. como Agar no deserto. branco no meio de todo aquele branco.. afastando-se da árvore sob a qual morria seu filho Ismael." Mais dois ou três dias de alimentação! — Obrigada! Obrigada. bloqueado. gelo. eu quero muito. Acalentava contra o peito o animalzinho rígido e com grande orelhas erguidas. Com fragmentos da pele do coelho e um pouco dos ossos moídos. Desprendeu-o por milagre. toda tentativa de sair e distanciar-se deles equivaleria a uma condenação à morte imediata. atraindo amigos. De novo ergueuse o espectro da fome. Aquele era o sinal. "nunca houve ninguém a não ser você.. exclamou. irmãozinho! No dia seguinte.— Não quero vê-los morrer! — e afastando-se. "Contarei essa história às crianças. O sinal de que atingiriam o fim do túnel. caiu de encontro às mandíbulas da armadilha que emergia do chão. jamais houve alguém além de você. preparou uma isca suscetível de trair animais maiores e carniceiros. Seu cérebro começou também a girar loucamente. quase invisível. para constatar que.. Eu lhe prometo. ou uma árvore abatida? Dia ou noite? Já não se podia saber.. Mas de que servia enumerar os dias e as horas? Iam morrer. Viu-se no centro de um inexplicável feixe de hostilidades que a haviam rodeado a vida toda e soube claramente que. pois a tempestade levantou-se prolongando o aprisionamento dos seres vivos ao fundo de seus abrigos. nunca cessara de estar cercada de inimigos. Víveres esgotados. mostrando-lhe as etapas de sua vida que a haviam conduzido àquela hora. Tropeçou.. Ela girava e andava pela grande sala deserta e gélida. Simplesmente inimigos que eram seus inimigos porque não podiam ser seus amigos. Que erro cometera para ser assim condenada? Não soubera se submeter? Deveria ter se submetido? "Mas eu obedeci ao Amor. Morte próxima. Era uma noite lúgubre. Recolou a armadilha. — Obrigada! Obrigada... pouco importa!. Seus cálculos avisavam-na de que era noite." .. irmãozinho! Como és bom! Como és bom por teres vindo! Nunca sentira de forma tão intensa e terna a aliança do homem e do animal. submergindo-lhe os pensamentos. Neve.. protegendo as mãos com o xale' e com o auxílio da faca. dirigira-se à sala grande e tentara desobstruir o orifício do respiradouro. voltou à armadilha. Mas inimigos por natureza. Percebendo uma calmaria do lado de fora. O animal. iremos para qualquer lugar.. Pegou o coelho nos braços. Não inimigos ferozes. congelado e tão hirto quanto as mandíbulas de aço. por condição. O fel que lhe queimava as entranhas tornava-se uma maré de amargura. Não voltaremos mais. por sua culpa. perdemos o Paraíso terrestre"." "Oh! meu amor". e que soubessem por que motivo queriam aniquilá-la. dessa vez. a saída se tornara impraticável. partiremos ainda. encontrou os gestos que devia fazer. sirva-se de mim para sobreviver. que dissera ao homem: "Eu.. dessa vez. Apertou-o contra o peito. Tome-me. Com você. irmãozinho!. Tudo estava tapado.. Mas não pôde voltar a ela. agora que.. nascida da fome e da desgraça. Iremos à China. Que aqueles que estavam a caminho para salvá-los chegariam a tempo.

como se ali estivessem emboscados interlocutores.'" Esperou. Naquele espécie de vazio causado pela fome e pela angústia. Deteve-se. perdida. estava aliviada por não ter mais que alimentar esperanças sem futuro. iria sentar-se.. quando a morte estava ali. Tinham labutado para construí-lo.. Cara Angélica. agachados na sombra que a triste tocha acesa mal conseguia dissipar. submeta-se. E tudo era silêncio. os dogmas e práticas que eles idolatravam. Não haveria mais distâncias. Pela primeira vez. um dia. Tinham sonhado com um Novo Mundo. pois. E vinga assim seus ministros desafiados!. A morte de um santo veio para lembrar-me isso. também ela moribunda. As perguntas embarálhâvam-se em sua cabeça: "Estávamos errados por não compreender? Por não nos submetermos?. Mas quem virá dizer-me: "Você não se enganou. numa corrida desabalada que não conseguia deter.. Tudo era tão claro e tão nítido daí em diante! Ilusões! Vivera apenas ilusões! Ilusões que viu se cristalizarem na ingénua imagem de Gouldsboro que acalentara o tempo todo. cercada de amigos. Não traiu a mensagem. não terá razão contra ele".. O que importava era a forma de consolo ritual com que se decidia servi-lo. Mas Angélica. e que seria agradável. mas cujo desenrolar de pensamentos precipitados. seu cérebro rodopiava numa embriaguez vertiginosa. A predição se cumpria. Ruth e Noémia seriam enforcadas nos patíbulos de Salem.. Você me consolou com seu fervor. fraca. A cortina fechada diante da qual tripudiara por tanto tempo abrira-se e. . Não se luta contra um santo.. não era destituído nem de lógica nem de lucidez. Ela amara Wapassu... mais preocupados em manter suas crenças. aniquilada.. As dificuldades seriam aplainadas. pelo menos.. O Espírito desaparecera por trás dos quadros rígidos e pontuais. confiança? "Quem me responderá? "Acusadores não me faltam. E sobretudo contra os representantes de Deus?" Loménie a adjurara: "Não temos o direito de esquecer os ensinamentos de nossa infância.. "Faltou-nos humildade".. Gouldsboro e Salem. A tocha crepitava como que chorando. via o que ocultava sua fachada comum.. Quantas vezes sonhara que um dia. ao fato de que não se pode ter razão contra todos? Contra o mundo inteiro?... e Que-bec.Continuava a andar como um animal enjaulado e se sentia animada a decidir sobre sua vida.' "Pecamos por audácia. aparentemente opostos e incoerentes.. e assustados de perdê-las.. E Quebec apagara Wapassu e. Rostos desfilavam. Sua agitação se acalmava.. em Gouldsboro. do que em agradar ao Todo-Poderoso. O que importava não era servir a Deus. continuava a se debater: "Que erro imperdoável cometi? Tão grande que tenha de pagar com a morte de meus filhos? Faltou-me humildade? Quem nos virá dizê-lo? Quem nos reconhecerá? Se Deus se cala. voltando o rosto para os quatro cantos da sala... fé. e que a graça do batismo foi-nos dada ao nascermos. Tudo era fracasso. sinto-o. Loménie estava certo. reiterou. aos pouquinhos. E esse santo decidira fazer guerra a três princípios que ele abominava.

com desânimo. fazendo-a desfalecer. tinha certeza. . As duas. rival do homem no coração de Deus e perversa por natureza.. caçoando um pouco. que aos olhos dele não era. Era a mesma sensação que a fizera erguer-se uma noite em sua primeira invernada. lhes traziam víveres. mas muito nítido. Permaneceu rígida. Apenas uma sensação poderosa. alguns punhados daqueles grãos transparentes e marrons recolhidos na superfície dos lagos. por que é preciso que triunfe dessa forma?" Nesse exato momento. "Ele triunfa!" pensou. E hoje. de modo algum. através das rajadas do blizzard. inadmissível. disse consigo. E. sufocar. a mulher. Foi breve e súbito. Jonas. sucedendo a sua exaltação. Dessa vez. houve uma segunda pancada. puxaram a pesada porta revestida de uma carapaça de gelo." A tensão. e quando._ engrossada com carne-seca desfiada. Nenhuma pancada a alertara daquela vez. Ela dissera. caiu bruscamente. enquanto ela estremecia e sustinha a respiração. talvez!? Depois... numa voz átona: "Há alguém lá fora". "e nós estamos perdidos. numa mulher. enquanto sua carne estremecia. Oh! meus filhos! Como vai ser bom! E depois arroz integral. e. depois a beleza. sem poder determinar de onde exatamente viera o ruído. a aveia-louca que se coloca para germinar num pouco de água morna e que cura o escorbuto. enfim sua liberdade de espírito. que a mantinha vibrante como a corda de um arco. Utakê! Utakê! Eu sabia que ele não ia me abandonar. um dom do céu mas uma armadilha de Satã. Aquela mesma porta ali. "Eu sabia que ele viria. bem quente. Seus ombros se abateram. perceberam silhuetas nuas inclinadas sobre a trincheira de neve.. a consciência do estado lamentável em que se encontrava a invadia com uma onda sufocante. no Illinois. .. enquanto seus companheiros abanavam a cabeça. com uma efervescência. sem se precipitar para se convencer de que não havia sido vítima de uma alucinação. nada mais. E.. caminhou para a porta. quando toda uma obra gigantesca e benfazeja estava perdida. quando a fome os ameaçava..Primeiramente. que 'eles' viriam. apoiando-se. porta aberta a todas as heresias. nenhuma voz para gritar: "Jesuíta. O estremecimento de uma alegria incrédula começou a correr-lhe nas veias.." Tremia dos pés à cabeça. mais surda. Logo iria poder dar aos filhos uma sopa de feijões. igual à que produziria um punho vigoroso batendo-na porta ou o choque de um bastão-manejado com as duas mãos ou da coronha de um fuzil. ressoando demoradamente. a mesma alegria diante do milagre a invadia com tanta violência que receava cair se esboçasse um gesto. Eram Tahutaguete e seus mohawks. uma espécie de pancada na porta. no silêncio já quase tumular do pequeno posta enfiado na neve. houve um baque. A tempestade soprava lá fora e nenhum socorro podia ser esperado. Duas vezes ressoara uma pancada na porta. enviados por Utakê e o Conselho das Mães Iroquesas. você é um criminoso! E um destruidor! "Ele triunfa". não haveria um dedo que se erguesse acusador. excetuando-se as modulações sibilantes do vento turbi-lhonando incessantemente ao redor. que. Teria forças para abrir aquela porta? Era preciso. Alguma coisa chocou-se contra a madeira. interrogando ainda o silêncio novamente opaco. "Oh! por que. Dessa vez. um arrepio de seda tal como o dos riachos no momento do degelo. duvidando de seus sentidos. com a Sra. ademais.

E.. se o fizesse. com a cabeça abaixada para escapar às bofetadas da ventania. "Eles" tinham vindo. com os dedos nus esfolados pelo gelo. que corriam céleres num céu de chumbo derretido. abaixando o céu ao nível da terra e derramando. quando conseguiu agarrá-la. Percebeu a lua entre nuvens de aço negro esgarçado.. Febrilmente... sem nada dizer. mas nenhuma silhueta humana se perfilava naquele cenário.. alterando a imutável e impávida solidão que os cercava. uma dobra que lhe permitisse puxar com força suficiente para abalar e arrastar o volume pelo leve declive que dava acesso à porta. Um movimento humano ocorrera. Mantinha-a dentro de si como um peso enorme suspenso que não queria deixar cair. encobrindo bruscamente a lua.. forçandose a suportar o amplexo coercitivo do frio. temendo. Sentia.Andou até ela com passos duros e arrastados de velha... Sentia que acontecera algo. turbilhões de neve que. Surpresa e adivinhando a tempestade iminente. mas lua se escondeu com a chegada súbita de espessas nuvens escuras arremessando-se ao assalto do céu.. A tempestade não tinha a severidade cruel da outra vez. Então não tinha sonhado!. Víveres!.... procurava agarrar uma saliência. Alguma coisa se movera. o resto sucedeu-se com relativa facilidade. Abarcou com os braços a massa que. hesitou. Alguma coisa havia mudado. pois ele a esmagaria e ela não sobreviveria. Recuava.. como se lamentassem ter deixado se instaurar por alguns instantes uma sutil trégua. Parecia um bloco de pedra lançado horizontalmente no chão. em alguns segundos. Mas nada no mundo poderia fazê-la afastar-se de sua presa. adivinhou as dobras de uma textura inólita. como que invadida por um pesadelo. de joelhos. que um fino pedrisco soprado pelo vento norte" já estava recobrindo de pó: um saco! um saco grande!. couro ou pano áspero. Era um saco enorme. e os mantinha prisioneiros. para abrir aquela porta que dava para a noite como um perigoso abismo cheio de monstros dissimulados. Víveres!. Com o rosto estendido para o rebordo de neve deu um passo adiante. levantou os olhos para o cimo da trincheira.. Finalmente encontrou uma saliência mais dura numa das extremidades e. Forçava tanto a vista que seus olhos choravam de frio. Não conseguindo movê-lo mudou de tática.. Feijões! Milho! Abóboras secas!. se comprimia entre as paredes. Teve de lutar.. tornou a avançar... Chocara-se contra uma massa dura e escura. em que a obscuridade e a claridade se entrelaçavam tumultuosamente.. no momento de afastar o pesado batente... Estava muito fraca. E se fosse uma alucinação? Não! Não! Não tinha sempre conservado no coração.. ameaçavam soterrar a ela e ao fardo que tentava deslocar.. obstruindo a entrada. provavelmente lançada do alto da trincheira. Após retirar a tranca e girar as chaves. apoiando-se à madeira. Sua esperança não queria morrer. Provisões!. A noite deixara de ser deserta. Pensou em entrar para pegar as luvas.. que o sonho acabasse.. até o fundo do buraco onde se encontrava. e pouco a pouco conse- . duas até. Sua mão apalpou.. Teria sonhado?. inchado. em relevo. A tempestade desabou. A crista branca dos altos entulhos de neve diante da porta resplandecia. a esperança de que o milagre da primeira invernada se repetisse?. depois cambaleou e por pouco não caiu sobre um obstáculo. Não! Não! Não tinha sonhado! Ouvira uma pancada.

tornasse a operação impossível. da garganta. para onde arrastava o saco. Abatida por uma imensa fadiga. Seus sentidos recusavam-se a compreender. Permaneceu petrificada. pouco antes. ganhou vida. julgou vislumbrar naquela fresta o esboço de um rosto. aparentemente queimada. ergueu-se. que achara fria pouco antes. como numa mortalha. contrastando com o negrume do rosto. O saco continuava ali no chão. da cabeça aos pés. puxar a porta. empurrá-la. Num canto.. Cada movimento lhe era custoso. "Que isso não tenha acontecido! Que não seja isso!" O destino não tinha o direito de brincar assim com sua miséria! Aquela cabeça de morto no fundo de um capuz obscuro. a luz fraca da tocha vacilava. o que significava? Que tipo de brincadeira? Que mascarada? Pela palidez das pálpebras abaixadas. projetando sua sombra. A neve derretida em volta da massa estendida revelava um casulo comprido de pele grosseiramente curtida. fechada quase inteiramene de uma ponta a outra por uma tira de couro trançado. se abandonava à cadência ofegante de sua respiração..guiu encontrar a soleira. subitamente horrorizada. e ainda de que era urgente voltar a fechar aquela pesada porta antes que a neve. Angélica. desde o início. Angélica arrastou-se mais uma vez para a abertura. provavelmente um francês. Angélica.. . E teria agora desejado apagar aquela descoberta diante da porta. enegrecido. oprimida por um decepção incomensurável. arregaçados sobre o brilho dos dentes. O silêncio voltou. colocar os ferrolhos. enquanto. Viera-morrer junto à sua porta. apoiou-se ao batente para não cair. que lhe passava como um fogo através dos pulmões. no rosto. Mas uma das extremidades"êstava solta. aquele saco que encerrava sua salvação e a das crianças. aproximou-se e ajoelhou-se. entrar na grande sala. que a sensação de alegria e de triunfo vivida ao descobrir aquela encomenda diante da porta se dissipara. adivinhou que era um homem branco. pálidas e fechadas. Na penumbra. Experimentava apenas um sentimento morno de esgotamento. A luz fraca da tocha. virar a fechadura. Os lábios eram dois traços delgados carbonizados.. no qual as queimaduras do gelo se misturavam à sujeira de uma barba negra e hirsuta. Acalmou-se. aquilo que. Era um cadáver. com pálpebras cerõsas. Não era um saco contendo víveres que fora deposto à sua porta. exausta. depois os abria. já insensíveis à mordida do frio. A sala. esgotado? Não! Não o teria confundido. Hesitante e apunhalada por uma suspeita súbita. parecia-lhe agora sufocante. Seu esforço fora tão grande e tão desesperado. afastou aquele espécie de capuz. a todo custo. o que lhe emprestava um aspecto macabro. Reunindo suas forças. numa pele virada com o avesso para fora. fechava os olhos. conferia-lhe um comprimento desmedido. Um explorador de bosques perdido?. Aproximou a mão temerosamente. dos lábios ressecados. Havia também sangue coagulado. ele estava todo costurado. lutando para não desfalecer. entreabrindo-se ligeiramente. a projètara ao ápice da felicidade. colocar a tranca. ajustá-la. que se amontoava. com um pacote informe. Ora. ficar na obscuridade. Consciente de estar finalmente abrigada e de que devia evitar. enquanto trombas de neve se introduziam às suas costas. achou a forma estranha. Retirar a neve. A face de um homem apareceu-lhe enegrecida.

ao qual aderia um pedaço de carne.. Angélica perdeu o fôlego. Ele. "eles" tinham vindo. alcatrão. o irredutível. A incredulidade.. a seus pés. é outro padre que o está usando. alargando a abertura. a certeza de estar vivendo um pesadelo e de estar sendo vítima das alucinações da loucura lutavam dentro dela. Angélica. Mas seu entendimento recusava-lhe qualquer clemência. O que você fez? Continuava trémula.. seu crucifixo. desvanecendo-se depois como fantasmas. Chegara o instante que devia chegar. mortificado de cem modos?. se desfazia. — Uma mártir!. CAPÍTULO XVI Frente a frente com o jesuíta Sebastião d'Orgeval Teria desejado dizer-se: é sangue. a Mulher que ele.. arrastou alguma coisa que estava colada e viu tratar-se de um retalho de pano preto. Sobre o peito o crucifixo se incrustava nas próprias feridas.. Sebastião d'Orgeval." Ele....... levantou-se de um salto. movidas por um sentimento de fatalidade inelutável. Utakê?. Este corpo era o delel Este cadáver era ele! Ele. Aquele instante em que seu olhar vira brilhar no centro da pequena cruz. não pensava nada. Subitamente. de pé. ele. — Pobre infeliz!. lançando àqueles restos macabros um olhar também" quase extinto. A tal ponto que tinha a impressão de já ter vivido várias vezes aquele instante que acabara de viver. "eles" depuseram aquele morto à sua porta. fora de si. ali a seus pés. Mas não dizia. o brilho vermelho de um rubi. lembrando-lhe que ela sempre soubera também que isso aconteceria um dia. em vez de se darem a conhecer. queimado. — O que você fez. "Eles". uma pequena cruz simples de missionário.. Utakê mantivera sua promessa: "Irei lançar a seus pés o corpo de seu inimigo!. enfim! O perseguidor!. E ela. ao menor toque..Então. Quando afastava os pedaços de couro enrijecidos. Teria podido dizer consigo: este crucifixo. com os olhos dilatados. Sua garganta contraiu-se de horror e de piedade. que. Franceses? índios? Iroqueses? Ãbenakis} Presenças humanas na noite mortal e deserta do inverno. O inimigo sem rosto.. Parecia breu. Mas por quê? Mecanicamente puxou um cordão. Quanto tempo ficou imóvel? . o jesuíta maldito. mais de raiva impotente que de medo. sem vida. sem conhecer.. diante dele. A pele e a carne daquele homem já deviam estar em putrefação. um padre!. quebrado. Sabia! Este crucifixo pertencia ao mártir que estava estirado ali. Só os iroqueses seriam capazes de uma visita tão cruel e inútil. perseguira com seu ódio. Não se enganava sobre a inanidade de tal explicação falaciosa. Sabia. Morto!. aquela forma informe em decomposição. Era a carne de um homem queimado.. como uma gota de sangue...

de raízes primitivas. Misturava palavras francesas e iroquesas. pouco a pouco. Nem dor. entretecendo obscuramente sabedoria e loucura. nem triunfo. e levou a mão à boca para reter uma náusea incoercível. vivo? E nesse caso. requerendo suas últimas forças para um novo dilema. — Vocês me traíram. nem revolta. Zumbindo nos seus ouvidos. plangente como o sopro de uma concha marinha distante.Voltem! índios. Um apelo tão dilacerante que ficou abalada. voltava à superfície de si mesma. tão triste e nostálgico como o que às vezes paira sobre Salem ou Gouldsboro. obrigava-o a considerá-lo sem anteparos. nus e selvagens. Como um animal teimoso. Estava louca?. reencontrava o clarão vacilante da tocha nas paredes de madeira desniveladas do fortim de Wapassu e sua solidão tumular. O blizzard a acometia com mil serpentes furibundas. Começou então lentamente a voltar a si. e saboroso!. Um cozido quente!. voltem! Voltem!. Seu cérebro. girar as chaves.. • Mais uma vez. Havia dentro dela apenas um grande vazio que. enceguecida. Não sofria mais fome ou medo.. na indignação e na raiva que a sacudiam. chegava até ela intermitentemente um apelo lamentoso... índios! Vocês me traíram... pôs-se velozmente em funcionamento... chamando-os com todas as suas forças... carne. na tormenta..Alguns segundos talvez? Longos minutos? Durante esse tem-Do a natureza misericordiosa concedeu-lhe uma total ausência de sensações e pensamentos. Sentiu queimar-lhe o estômago torturado. ela o iptimou a se pronunciar. sua angústia renascia.. e. vingança e alimento? Um espasmo retorceu-lhe as entranhas... Amarga e estéril vitória! A onda tocava-lhe os lábios. fazendo-a vacilar.. carne.. da qual percebeu se escapar em certos instantes o gemido lúgubre... por mais demente que parecesse. silvando. agachados. forças redobradas para soerguer ainda a pesada tranca. atrás de montes de neve endurecida?. reconduzia-o à frente do obstáculo.. mais uma vez. da revolta e da repulsa. nem alegria. por mais espantosa que fosse. Não têm o direito de fazer isso!. a seus pés. se reconhecia que dos lábios negros daquele morto se escapavam queixumes. Estariam escutando-a. Ora. isso devia significar que ainda estava vivo?!.. segundo sua lógica e sua ética. estridentes.. Teve de recuar. nem ódio. devia admitir portanto que estava. puxar os ferrolhos. Era isso o que ele queria. A salvação! A vida! Precipitou-se em direção à porta para fugir das imagens atrozes e encontrou. foi preenchido por uma infinita tristeza.. arrancar o batente à neve e aos gelos.. nas noites de nevoeiro ou de lua.. Não tremia mais. Mas continuava a gritar: — Voltem! Voltem! Mohawksl. sem falsear a verdade.. Comida.. Ou então. — . Lançou-se para fora.. à realidade. acreditou ter perdido o juízo. Vocês me mataram! Eu morro por sua causa!. como uma maré cinzenta que se dilata e sobe sem ruído. Dir-se-ia o lamento de uma criatura humana. Se queixumes escapavam dos lábios daquele morto. aquela forma estendida. por que Utakê o jogara à sua porta? Por que 6 devolvera vivo a ela? Para satisfazer a qual de suas leis vingativas ou canibais? Para que ela acabasse com ele? Para que o comesse?. quando julgava ter tocado o fundo do desespero. E... generosidade e crueldade. imperativamente. . fustigado por um chicote áspero. Não têm o direito!. índios iroqueses.. recusando abandonar-se ao delírio e.

mas repousado. "Eles dormem demais. seu primeiro olhar lúcido era para elas e. mas isso não tinha importância.. Sim. Seria a mistura de liquens e grãos que lhes dera para beber antes de pô-los na cama. Adormeceu. um gémeo de cada lado de Carlos Henrique. colocou mais lenha e turfa na lareira e. mas já não sentia fraqueza. Cambaleando de fadiga. E preciso despertá-los. que continuavam a dormir serenamente na cama grande. aquilo fazia bem. E pareceu-lhe ler naqueles rostinhos emagrecidos um reflexo da beatitude que acabava de experimentar. Pensou em ir repousar um pouco. Consagrou à tarefa de fechar a porta as últimas reservas de energia.Caiu desmaiada na mortalha profunda e suave da neve amontoada à porta. quase inconsciente.. Não tinha necessidade de mais nada! Sentada na pedra da lareira. "Tudo está resolvido". Estava feliz.. A neve penetrara em turbilhões no interior da sala central. como a derradeira refeição. Foi um momento de transição misericordioso. Mas continuavam a dormir pacificamente. haviam saído à sua procura. chamando-a e. e dessa vez soube que fora mesmo vítima de uma alucinação. depois refletiria. Adormeceu. continuava perseguida pela ideia de que haviam. e era o que bastava. ergueu-se de um salto. e a neve derreteria ali dentro.. retornou à entrada para terminar o que não tivera tempo de fazer: fechar a porta inteiramente. entre o esquecimento dispensado pelo sono e a apreensão latente por aquilo que a aguardava quando voltasse à^realidade. de volta ao interior do posto. Ficou contemplando as crianças. Julgou ver diante dela três pequenas silhuetas cinzentas no blizzard mortal. Levantandp-se. Olhou o que restava no fundo da tigela. aqueceu-o sobre as brasas e bebeu demoradamente a mistura bem quente.. Seu despertar a fazia flanrar. acordado e. o fogo duraria bastante. pois seu refúgio estava novamente fechado. Os furores do inverno bateriam em vão. Seu corpo estava leve. O pensamento das crianças arrancou-a de um estado de languidez semelhante a uma suave embriaguez. ainda indolor. disse consigo com um alívio" infinito. que lhe retirava todas as forças. que lhes fizera bem?. Abastecido com madeira de olmo. apoiou-se ao montante do fogão. Teve de trabalhar muito para desobstruir a porta. arrastou-se até o quarto e viu os três. O pior fora evitado!. que lhe pareceu deliciosamente morno. como a cada vez. acordou tremendo. A lembrança das crianças reanimou-a. "Eles vão se congelar!" Os braços abertos para socorrê-los só encontraram o vazio. no grande leito.. Inquietava-se. Tranquilizada. aterrorizada. achando-lhes as bochechas um pouco rosadas. seu coração baqueava com o receio de que a morte as tivesse alcançado enquanto ela dormia. Como ousava deixar-se dominar daquela maneira pelos nervos quando era afinal o único amparo daquelas três pequenas vidas?!. "tudo está resolvido". sentia-se loucamente reconhecida para com o céu. enfiou-se sob as cobertas perto das crianças. não a tendo encontrado. Um sentimento de culpa a atormentava. O medo de ter-lhes quase causado a morte com seu desmaio era tão grande que nada mais importava. Voltando ao quarto bem aquecido. Todavia. Mais tarde se lembraria de ter-se ali afundado com um infinito alívio." . inclinando suas pequenas cabeças para ele. formando uma grande montanha. que as apoiava no pescoço.

quase devorando-a. Não queria saber a continuação. soltando uivos sinistros. tocada pelo terror e pela aversão. Não constatara que aquele homem estava coberto de chagas?. seus gritos. de uma outra presença partilhando aquele abrigo perdido. Não. a mergulhar no misericordioso sono para esquecer. Estava agora certa de ter visto brilhar um rubi no crucifixo? Talvez fosse apenas sangue. a goela negra da noite abocanhando-a em suas presas. Tropeçava no acre bafio da decepção que quase a matara.. transpassada pela flama de uma lamparina que invadia o aposento. Dentro e fora do forte. Emergindo como que das profundezas de um oceano no-turno. Fraca e lúcida agora. Mas ele continuava lá. na sala ao lado? perguntou-se. repetia. por aquela ténue luz de alabastro. E se realmente "ele" ainda estivesse lá? "O que você fez?". inerte. caçar. ali no chão. O Padre d'Orgeval. ela adivinhava que o sol brilhava num céu purificado. não eram víveres. "Eu sonhei!" Houvera um cadáver. reclamariam comida. Lembrou-se. sua loucura. havia um saco. pensou. Por que essa obsessão?" Porque Ruth lhe havia dito: "Eles vão sair do túmulo!!!" Sentiu-se louca e culpada. o silêncio tumular da grande sala quando ela conseguira reentrar e empurrar os pesados batentes protetores. e esse cadáver estava vivo. alisava maquinalmente as roupas e jogava um casaco aos ombros. uma vez reanimado. 'ele' estava morrendo e você o abandonou!" . Sua decepção. vinha-lhe à memória e lhe deixava amarga a boca. Parada à soleira da porta. Quisera sair para tentar. o corredor e a sala estavam gelados. fragmentos do que acontecera na véspera se impuseram: ouvira uma batida na porta. tal como o deixara na noite anterior. aterrada. "Eu sonhei.. e eram víveres. tremendo de ansiedade.Mas." Ela se tranquilizava: "Eu sonhei". incrédula aingV è alimentando uma secreta esperança de que todos os vestígios daquele pesadelo tivessem desaparecido.. sobre o soalho. custasse o que custasse. Caminhou apoiando-se às paredes. Apoiou-se à guarda da cama e se lembrou: "Não há mais nada para comer". "Será que sonhei?" Ela olhava suas mãos esfoladas pelo gelo.. Estátua jacente negra e imóvel. a tempestade amainara. Gemia alto. A neve estava acima das janelas. contra a porta. E aquele grande corpo negro no centro. "Que delírio dominou-me? Pensei que era. contra o peso do saco. no meio da sala. examinou-o de longe. não podia explicar-se o que a impelira a fugir para apagar o horror daquilo que acabava de surgir rompendo a monotonia já horrível dos dias que estava vivendo. Cada detalhe de sua luta insana contra a neve. mas. ao acordar. . levantava-se. o fogo mantivera-se sob as cinzas e. Esse pensamento lhe deu a noção. Reinava uma grande calma. O corpo ainda estaria lá. Em contraste com o quarto bem aquecido. Na lareira.. Seu alento flutuou imediatamente em vapor diante dela. Tinha perdido a cabeça! "O que você fez?" Com gestos lentos. sangue. produziu chamas alegres. estendido. sua cólera contra Utakê. a um só tempo assustadora e insólita.. "Na verdade.

O sinal de que sobre eles velava uma força mais justa e misericordiosa que a dos homens. mas não pôde negar o vestígio do hálito que aflorava. "Você não me conhece. ela também rígida. ela se interrogava. no vazio da sombra.. Acabava de discernir um leve vapor flutuando acima do rosto imóvel. O que ia fazer. no fundo das cogulas de pedra revolvidas. Então ainda estava vivo? Inimaginável! Febrilmente. agora que ele estava morto? E por sua culpa! Seu olhar desceu até o crucifixo. a vista se lhe embaralhava. E não deveria ter feito aquilo. perscrutando os traços informes e desconhecidos. Utakê! Não compreendeu quem eu sou!. Perdoe-me. os rostos em lágrimas daqueles "chorões" cujas estátuas velam junto aos túmulos dos reis. "Mesmo assim. Fustigou-se. um mártir. Eu pequei. eles todos estariam salvos. entrevira na véspera. o sinal do Céu sobre a Terra. aquela mesma face que. as cicatrizes e queimaduras.. Inclinada. tal como nas criptas medievais se descobrem. por um infinito remorso. chegou-se suavemente e ajoelhou-se junto ao corpo. procurou nos bolsos. um sentimento de urgência. Uma face enegrecida pela barba hirsuta e sangrenta. talvez. ." Era um homem branco. impelindo-a a fugir. "O que você. — Perdoe-me. O rubi ali estava e cintilava. sacudiu-a num sobressalto salutar de nojo e de cólera.Certas tribos primitivas fogem e descabanam se se comete a inabilidade de introduzir em sua aldeia uma encomenda com aquela forma alongada de um cadáver. Pensava: "Perdoe-me. um irmão. Não adiantava mais nada chorar. O rubi! Com os olhos pousados na face martirizada. pobre homem! As lágrimas a cegavam. como mármore." O pensamento de que o chefe dos mohawks montara aquela horrível mistificação a fim de que ela pudesse se vingar de seu inimigo-acabando com ele e." Movida por uma infinita piedade. O que não a deixava menos terrificada. "Vou cuidar dele! Tenho de salvá-lo!" Apressou-se. Era o sinal. Compreendia-os. A mão lhe tremia. E agora ele está verdadeiramente morto.fez? O infeliz estava moribundo. ela fugira. não tinha o direito de deixá-lo morrer. afastava tom as duas mãos os pedaços de couro enrijecido do capuz e. um padre missionário católico. encontrou seu espelhinho e passou-o diante dos lábios rígidos.. Se conseguisse arrancar aquele homem à morte. meu padre. dizia consigo. aquele selvagem!" Com as entranhas retorcidas. Perdoe-me!. Quem poderia ser esse jesuíta? E por que trazia ao pescoço o crucifixo do Padre d'Orgeval? Um arrepio tomou conta dela. um jesuíta. um francês. impelida por uma febre de resgate. comendo-o. ela encontrava ali.. Era um homem branco. ele ganhou. e ela não compreendia que espécie de medo ou rancor a agitara ao vê-lo. um moribundo. — Está vivo! Instantaneamente reencontrou força e coragem. o que é um absurdo. um cristão. "O que foi que eu fiz? Mesmo que fosse ele. O sinal da Redenção.

. o cofre de remédios. o remédio impregnara as papilas ressecadas e que ele ia se insinuar lentamente e reanimar o corpo petrificado. adivinhou-lhe o conteúdo.. pelo menos. inchado e esticado. carne salgada. Juntara à bebida que queria fazê-lo engolir uma boa dose de álcool. sempre confiara na promessa contida na denominação latina "aqua vitae". abandonadas por todos. feijões. de cujo segredo era depositária. caído ou apodrecido. Voltou com um cântaro de bebida tépida. pois retirar os pedaços de tecido negro ali aderidos exigiria um trabalho de muita paciência. tudo isso para ir jogá-lo na soleira de um covil onde Angélica.. antes mesmo de ter desamarrado o atilho. os instrumentos de cirurgia. a bebida através das frestas entre os dentes. como uma casca de árvore. Puxando-o. em sua mortalha de couro. a Dama do Lago de Prata. grãos e pedaços de abóboras secas. Deslumbrada. — Oh! Utakê! Utakê! Deus das Nuvens!.. lavou-lhe o rosto. Sob o envelope duro. um pedaço de corda pendurada. mas um imperceptível reflexo de deglutição deve ter-se produzido. que pareciam estar ali para envolver e acolchoar o corpo do mártir. Seria preciso esperar para tratar das queimaduras do peito. índios. e ainda milho. faixas de bandagem. a alegria de hoje poderia tê-la matado. fazia-os deslizar na palma da mão. Mas conseguiu filtrar.. germe de aveia-louca. Sob os lábios enegrecidos e ressecados. Outros sacos e saquinhos continham arroz. As crianças continuavam a dormir. Um corpo sacudido por montes e vales nevados. Vendo.. por léguas. Com sua "água" benfazeja. Era um risco. Empenhava-se agora em desprender o corpo em todo o'comprimento do couro espesso e muito duro daquela espécie de casulo no qual ele fora envolto e costurado inteiramente. Desistiu de arrancar o crucifixo de seu estojo de carne. "Jamais os compreenderei. tal como um avarento contemplando sumamente extasiado suas moedas de ouro. pelo negror das tempestades sibilantes e das noites. e teve de cortá-lo em placas... da cabeça aos pés. iroqueses ou abenakis. que tinham se quebrado. Como a decepção na noite anterior. Precisaria cuidar para que não se reaquecesse depressa demais. ervilhas." O estojo enrugado cerrava-se sem cessar. ficou surpresa por encontrar espécies de almofadas. empreendendo uma corrida alucinada pela brancura imaculada dos dias. evitando que as feridas se deteriorassem. Entretanto. Elas serão salvas. e suas crianças pequenas. correndo aos saltos em suas raquetes. — Víveres! As crianças!. "água da vida". Aquilo acabaria com ele ou o ressuscitaria.Dirigiu-se ao outro cómodo para atiçar o fogo sob panelas cheias de água.. morriam de fome. pois o couro malcurtido era tão resistente e liso quanto a madeira 'de um reboque. pois receava ver transbordar da cavidade bucal o precioso líquido. pois sabia que somente o frio o mantivera vivo. untando as pálpebras grudadas pelo sangue e pelo pus com um bálsamo emoliente. gota a gota. entorpecendo-o como ao animal que hiberna. atrás daqueles índios seminus. a mandíbula crispada fechara-se como um estojo. Como da outra vez! Feijões.. e. retirou o primeiro saco de pele de gamo. à cabeceira. arrastando aquele corpo. pois a xícara ficou vazia e ela se persuadiu de que.. Isso lhe tomou um tempo enorme. no gelo. podia imaginar que "eles" o haviam arrastado assim. feijões do vale dos'Cinco Lagos!.

por um momento.. um olhar diluído. Os olhos pálidos se animavam. naquelas pupilas turvas. desmentindo por sua fraqueza o olhar no qual acabava de se reunir toda a energia do corpo percluso." Falava bem alto e ria de felicidade. "depois.. Virando a cabeça." Mas eis que o fenómeno se repetia. muito puro.. A obscuridade recuara. Sê me ouve. e o feixe de luz incidia sobre ela. veremos. O sol brilhava. A mesma voz abafada e frágil elevou-se. depois. Por mais estranho que fosse o meio empregado pelo sutil Uta-kê para socorrê-la. Um olhar filtrava-se por elas.. "Elas estão salvas! Obrigada. incolor. A vida retomava seu curso. e teria desejado adiar o momento de transpô-lo. Ele penetrava pelo estreito respiradouro. Decorreu um longo tempo. faça-me um sinal. meu Deus! Obrigada. meu Deus! Ajoelhada.. um som escapou deles e uma voz longínqua e penosa. E era lamentável e quase dilacerante ouvir aquele timbre partido e ver aqueles lábios feridos esforçarem-se por pronunciar as fórmulas de cortesia consagradas pelo uso de uma educação aristocrática. . E também teria ele ouvido? Compreendido? "Vou preparar a comida para as crianças". Encontrava-se num limiar temível.. O olhar ali estava também. permita-me. Não receie mais. havia tantos dias. Sebastião. Ele não se moveu.. mas distinta. Estaria morrendo? Foram os lábios que se moveram. Sentiu que alguém a fitava em sua expressão de alegria delirante. Disse. errava às portas da morte. que. Sua cabeça girava. devolvendolhes a vida com o colorido da íris... em voz alta: — Está em segurança. meu padre. Sentiu vertigem.. As pálpebras não pestanejavam... muito intenso... rae apresente. é você? Ela hesitou. Com os olhos presos àquele elhar de cego. que. Vou cuidar de você.. aquele infeliz trouxera-lhes a salvação. Essas palavras a ajudaram a compreender que ele estava vivo.. Eu me chamo.. — Está me ouvindo. perguntou: — Quem... percebeu que as pálpebras do moribundo estavam levantadas. meu padre?. Vou curálo.— Obrigada. meu Deus!. Ou seria uma ilusão? O fruto de sua obsessão? Nenhuma força poderia tê-la obrigado a interrogá-lo.. Mas se poderia jurar que uma luz azul brilhara.. mexendo-se no vazio várias vezes. o mesmo brilho azul emergia translúcido. por sua vez. e. tente mover as pálpebras. a lembrar-se daquilo que precedera seu estado de inconsciência. d'Orgeval. mas um olhar... — Per. E os olhos permaneciam fixos e sem expressão. mas também trespassado por uma cintilação dura e ferina: o brilho da safira. disse consigo. senhora. Renasceu a áspera vontade de retirar dos limbos aquele espírito que. respondeu. Teve de inclinar-se para mais perto a fim de captar as palavras pronunciadas. de um azul muito ténue. ofegante: — Sou a Condessa de Peyrac. erguia as mãos juntas num gesto de gratidão..

Tinham ingerido esse primeiro viático sem abrir os olhos. Angélica de Peyrac e o jesuíta Sebastião d'Orgeval olhavam-se frente a frente. e deslizavam para fora da cama as perninhas magras. impacientes de partir para a descoberta de todas as surpresas que lhes prometia aquele novo dia. exceto aquelas nuvens evanescentes de duas respirações conjugadas. para duas vidas prestes a extinguir-se. plantava-se diante de Angélica e lhe dizia: — Posso ajudá-la. nada parecia vivo. O próprio Utakê mandara dizer-lhes: "O Padre d'Ofgeval está morto". emergia de um repouso mais próximo do desfalecimento que do sono. fora tão-somente uma formiga laboriosa transportando tesouros inestimáveis para o quarto comum: saquinhos de carne-seca e arroz integral. Aquilo não deveria ter acontecido daquele modo. e num outro pusera feijões com um pouco de sal natrão para apressar o cozimento.O feixe de sol se deslocava com lentidão. dividindo-as em porções cotidianas. que se vestira com esmero e impusera aos gémeos pelo menos vestir uma casaco por cima das roupas de dormir. relegando para o fundo do pensamento a lembrança da declaração que lhe fizera aquela voz moribunda: "Eu sou o Padre d'Orgeval". . onde colocara punhados de trigo-sarraceno. o vapor prateado de seus fôlegos esgotados fremia entre eles. condensadas pelo frio. deixando-as adormecer entre cada colherada. como pássaros. minha mãe. E Carlos Henqrique. Era preciso aparentemente tão pouco e dons da terra tão modestos para conduzir da beira do túmulo aquelas crianças cheias de vida e que a fome estiolava como flores privadas de água! Angélica alimentara-as com pequenas quantidades. Nada se movia no forte perdido. lascas de abóboras secas que ela preparara e reservara. Ténue sinal de vida. a cuidar do "morto"? Tinha ele encontrado um meio de sair do quarto e de explorar a casa? E de descobrir na sala grande aquele corpo estirado no chão? Certamente. E agora elas despertavam como numa bela manhã de Wapassu outrora. Era tarde demais! Mas acontecera. O estranho processo que usara Utakê para socorrê-la continuava a mantê-la em estado de incerteza. Oh! Caro e santo alimento! Pendurara imediatamente caldeirões na cremalheira. diluíra a carne-seca em água morna para introduzi-la de surpresa na boca das crianças inertes com os pedaços de abóbora amassados. que. E somente depois ela se alimentara. mais uma vez. A JANGADA DE SOLIDÃO CAPITULO XVII O refúgio volta à vida — Cuidados com o mártir moribundo As ressurreições obtidas por uma terrina de mingau de milho enriquecido com um pouco de carne-seca incluem-se entre aqueles fenómenos que redimem a enfermidade do mundo e confortam as crenças num Deus bom e generoso. Na véspera — tinha sido na véspera? —. e tudo isso parecia alucinação. sacos de milho e de feijões. durante algumas horas. Os três estavam muito mais lúcidos que ela.

dizia: "Um pouco mais. começou a fazer seu plano de ação para cuidar daquele infeliz: tinha ervas. A vida. como naqueles gestos ou mistérios da velha Europa. do outro. Mas agora. o "comatoso". fatigada. Entretanto. Mas quem pode ser ele?" Não acreditava realmente que ele tivesse falado com ela. Aí está. manteria sua insensibidade. Se ele não o matasse. e depois os seus.. Mas Carlos Henrique.. . como um código de honra. e sua feroz e inexplicável paixão. você é muito gentil. cada personagem desempenhava seu papel simbólico segundo um ritual imutável. Ali. de um corpo miserável que ela teria cuidado como de uma criança... o processo de salvação estava iniciado. Pegou uma escova e começou a escovar-lhes os cabelos. um ser humano que se faria conhecer e partilharia sua clausura invernal? Temia mostrar ao menino o estado a que um ser humano podia ser reduzido pela crueldade de seus semelhantes. Há ainda muitos dias pela frente antes do fim da invernada. Será que se reaqueceria? Voltaria à vida? Emer-geria de seus limbos? Conseguiria retornar da condição de um cadáver. teria talvez suportado esse espetáculo com mais simplicidade do que ela. porque seria preciso alimentá-lo quando ele saísse de seu estado letárgico. confundia-se em seu espírito com os efeitos de sonhos ou de obsessão. Mais uma vez estou abandonando-o!" Depois. o gla-bro índio nu. era a gesta dos dois mundos defrontando-se. O frio ali era glacial. em que via uma garantia de que todos eles chegariam com vida ao término daquela longa viagem de inverno. Faria os curativos no cómodo ao lado.. a fim de que não caiam no fogo e não façam tolices. tendo chegado ao fundo do desespero e confessado a si mesma: "É o fim". não canse seu cérebro. — Não — respondeu mais alto.a Deus as almas pagãs. Ouviu-se murmurar: "Não aguento mais esses selvagens! Não os suporto mais!. nascido em terras da América.. dirigindo-se a Carlos Henrique —. fosse ela a sua ou a dos outros. bandagens.. Era agora que acreditava realmente na morte anunciada pelo Padre de Marville. é isso: alimentação. as regras do teatro erigido onde. de lagos com horizontes sem fim e vales desertos. Pois não podia ser de outra maneira. Mas prefiro que fique aqui cuidando de Raimundo Rogério e Gloriandra. O que posso fazer?.... Basta um pouco de sopa no estômago para que nos sintamos novamente criaturas dignas de viver. ocorrera um milagre. um pouco menos. a selvageria que o embalara. o cenário dos lugares de seu nascimento. "Como o abandonei desse modo?!.. pela morte pela tortura. Pois. nos estrados montados nos átrios das igrejas e das catedrais. querido. Caldo também.. as mesmas personagens irreconciliáveis: de um lado o 'missionário de sotaina preta. E o pobre mártir talvez não fosse senão um pobre jesuíta dos Grandes Lagos que enlouquecera com as torturas.. em sua essência. Até ele. e sua declaração: "Eu me chamo Sebastião d'Orgeval".Mas nada lhe assegurava que fosse Utakê o chefe iroquês mo-hawk que lhe enviava aqueles víveres salvadores. A seguir seria preciso arrastá-lo para aquele cómodo. tatuado. uma barba inquietante e suà febre de levar. como toda criança. Não recomece a pensar. pensou. Ele está morto! Ele vai morrer!. sobre um fundo de florestas e de águas cascateantes. dando-se algum tempo para recuperar as energias. aceitando sem dificuldade. apesar de precariedade de sua situação. instalá-lo diante da lareira. os mesmos atos colocados. chapéu grande.. bálsamos. com a escova na mào. "Eu sou louca". cruz na mão. emplumado.

"e nossos huronianos.. Precisou cortar o cordão que a sustinha ao pescoço. Como havia resolvido. . Foi preciso cortar-lhe bem ou mal a barba eriçada. o fio ténue daquela existência. Finalmente examinou-o. os braços. E notou que o membro viril não sofrera qualquer dano. procuravam evitar o derramamento de sangue. cheia de nós e pegajosa de sangue seco. demonstram muita habilidade nessa prática. Não saberia dizer do que o homem estava vestido. Espreitava as reações no rosto do supliciado. ele deu um profundo gemido. que se sentiriam culpados de reCusar a um adversário valoroso. Era costume dos iroqueses respeitar a vítima naquilo que ela. Angélica soubera por pessoas do Canadá que os iroqueses eram peritos na administração dos suplícios. A fim de obter esse resultado. tinha de mais sagrado. coberto agora de pomada e ataduras. colocou-a num pano branco. a seus olhos. Fora. Ao acaso das conversas. colocando compressas de água quente ao redor. essa tradição das tribos iroquesas de fazer peref cer nos suplícios mais bárbaros aqueles que os haviam combatido era uma marca de honra. ele não dava nenhum sinal de vida. a marca continuou ali. sem que ele morresse ou perdesse a lucidez. incrustada. "É uma ciência". não podia deixar de murmurar. Mas depois de lavar e relavar-lhe o corpo. mas com um alento tão fraco que ela se perguntava por onde começar sua tarefa. retirou peça por peça os farrapos negros de uma sotaina. Apesar do frio penetrante que reinava na grande sala. indo de uma ferida a outra e sem compreender como. Tendo cortado com certa dificuldade a pele coriácea de um gibão.. "Pobre infeliz! Pobre infeliz!.Tinha agora de fazer-lhe curativos dos pés a cabeça. estava banhada de suor. que são de raça iroquesa. algumas causadas pela aplicação em cheio de machados incandescentes e outras por sovelas incandescentes que atravessavam um músculo. Continuava contudo a respirar. disciplina cujo pensamento e preparação não cessavam de dominar sua vida. O primeiro. Sentia náuseas. um exame intrigado lhe fazia observar a "distribuição" das queimaduras. conseguindo torturar um prisioneiro mais de doze horas. Restava uma superfície considerável de carne que fora poupada. Sofrer e aplicar bem a tortura constituía um dos mais preciosos ensinamentos que eles recebiam. Quando quis retirar o crucifixo. afirmara-lhe com certo orgulho um L'Aubigniere ou um Nicolau Perrot. Queimaduras e mais queimaduras. Ao contrário.-Não amarravam seu inimigo no pilar de torturas com o intuito de humilhá-lo e de aviltá-lo. num gesto desconside-rável ou muito brutal. Mas por muito pouco. foi inútil tomar todas as precauções." Dessa vez poder-se-ia dizer que haviam torturado o missionário de modo a permitirlhe sobreviver. uma morte que todo guerreiro digno desse nome sempre desejava tão lenta quanto terrível. coberto de tantas queimaduras. A dor voltavalhe com a consciência. no lugar onde ele jazia desde a sua chegada. porém. transudando sangue entre as carnes enegrecidas. Depois de lavá-la piedosamente. Segurou a cruz de madeira de buxo. desde o nascimento até a morte. do leve vapor acima dos lábios. as pernas esqueléticas. O pior seria arrastá-lo até o quarto. algumas das quais exalavam um cheiro pútrido. Quando tentou deslocá-lo. na qual o olho do minúsculo rubi cintilava. fez essa primeira operação na sala grande. para não partir. ainda lhe era possível manter-se vivo. e até dois dias.

ela colocara um pano branco. não lhe ocorria. — Devemos colocá-lo em nosso leito. pois cuidar e receber cuidados é uma das mais espontâneas linguagens de paz e de compreensão mútua. não devia mais recair num estado letárgico. não encontrara ninguém para afastá-lo do braseiro. reduzir a dolorosa inflamação de uma ferida com alguma pomada. devido. Aplicou-lhe compressas sobre os olhos queimados pela reverberação da neve e ameaçados de cegueira branca. a sua dependência. ficou convencida de que não dera o último suspiro. no chão. depois de tê-lo instalado na cama. em suma. ela o içava como podia do outro lado da cama. umedecer-lhe os lábios ressecados. seu assassino. nela. resolveu cortar-lhe os cabelos. suas últimas forças. pois tinha uma prática de muitos anos — na verdade desde a infância —.. Sobre os travesseiros de crina e de ervas. na luta contra o frio. se o fogo ficasse muito alto. quando estivesse ao seu lado. enquanto. que foi pegar no quarto. pois o preposto encarregado protocolar mente dessa função não pôde ser encontrado. Tiveram de recomeçar várias vezes. caía para a frente ou tombava para trás. devia prosseguir incessantemente para uma volta à consciência. sua mãe. nos quais se apoiava a cabeça descarnada. á seu devotamento. . arriscava-se a se res-íriar. Lutava antecipadamente contra o apego que ia tecer-se coti-dianamente entre eles. os aproximavam. Agora que transpusera esse limiar de hibernação. você ficará no meio para cuidar de todos. acreditando cada vez menos nisso. \ Pensara ém instalá-lo numa enxerga diante do fogo. precursor da morte. fazê-lo beber alguns goles. mudar as compressas. Sabia que esses cuidados que lhe dispensava com habilidade. e ela. deu um estertor e tornou-se mais pesado ainda. como um frango com o pescoço quebrado. Carlos Henrique trouxe-lhe a solução que.— Tenho de transportá-lo — explicou-lhe bem alto. para ficar assado. seu inimigo. encontrando o sinal de uma tonsura. Com seixos envoltos em peles ou panos grossos. cerrando os dentes. além da linha fatal. pois era preciso evitar que ele perdesse. E. meu menino. Tentava lembrar-se de que se tratava do Padre d'Orgeval. caso contrário. como o desditado rei da Espanha que. bastava o estado em que se encontrava. Poderia à noite. por outro. quando doente e enfermeira descansaram um pouco.. Por um lado. — Tem razão. poderia ajudá-lo a se reaquecer. segurando sob os ombros a comprida e sinistra marionete machucada. Foi finalmente deitado em toda a extensão. acalmar-lhe os sofrimentos. Tratava-se pois realmente de um padre. O processo de cura. em sua fadiga. Com muita energia. Só depois que lhe colocou diante dos lábios um espelhinho. e os gemidos da mulher e do menino respondiam aos profundos gemidos do mártir. Vamos pô-lo de um lado e ficaremos do outro. Ali está sempre quente. Naquele dia. Depois friccionou-lhe o crânio e as têmporas com um vinagre medicinal. esperando que sua voz o alcançasse onde ele se encontrava. doente. e nele. que o traria de regresso ao convívio dos vivos. Mas ele soçobrou novamente. ele susteve os pés envoltos em curativos. em estado de exalar com dignidade o último suspiro. malcuidada. do estado de coma. e ela suspirou ao vê-lo protegido do chão duro e do frio e na situação de um honrado doente destinado a se encaminhar para a cura ou. podia morrer com a face assada. De estranho que era tornava-se seu filho. Essa solução não a satisfazia. Dessa vez aceitou a ajuda da criança. vigiar a febre ou a perigosa recaída de fraqueza. enquanto sua cabeça balançava para todos os lados.

. foi tomada por uma necessidade de sentir-lhe a carícia. Salvei Ambrosina. porém. com uma mistura de satisfação e de terror. o instalara no terraço do palácio de Toulouse. O sol brilhava. Mas quem ele é?.. as bebidas que poderiam ser necessárias durante a noite e coberto o fogo com cinzas. arrumando os remédios. e ele permaneceu de boca aberta. Ou na verdade nosso irredutível inimigo?. Angélica apressou-se a fazê-los descer para dentro.nosso tempo?.... era também difícil acreditar que ele fosse real. o vigor. acordou persuadida de que tinha sonhado aquela intrusão extravagante em sua existência condenada. e. ela sobressaltou-se várias vezes ao descobrir sua forma imóvel estendida na cama. ao recebê-lo ferido. de reencontrar agilidade e forças. eczema. Arranquei-a das mãos dos homens que queriam matá-la. das mãos do aldeão das Cévennes. que estivera prestes a se transformar em seu túmulo. e depois de ter por sua vez posto as crianças na cama.. O sol tinha virtudes terapêuticas divinas. Fê-las engolir uma bebida quente com uma grande colher de mel — aquele mel. onde ele permanecera durante anos. Pus minha filha em perigo!.. enterrado sob a neve. atormentada por questões que toldavam sua alegria primeira ao receber os víveres para salvar os filhos.. Joffrey contara-lhe de que modo sua mãe. Não podia. Húrarite aquele dia. uma lufada de ar secou-lhe as palavras no fundo da garganta. vacilantes.. esquecer que "devia à sua vinda as bochechas mais rosadas de seus filhos e a volta à vida no forte. vendo as crianças correrem pela casa com uma necessidade de se expandir. Um pouco de sua carícia e as crianças lânguidas recuperavam o apetite. Quando Carlos Henrique quis falar. perdoe-me — disse em voz alta. Quando anoiteceu. Podia-se percebê-lo através dôs interstícios das janelas e das ombreiras que ela tapara cuidadosamente contra o frio de todas as maneiras possíveis. recuperando sua saúde.. E desse modo deixei-a continuar a praticar seus crimes. cruel. mais precioso que o . petrificante. Nos primeiros dias. acima daquele buraco esfumaçado. as pálpebras irritadas e avermelhadas pela fumaça. numa atmosfera confinada. Em ambos os casos. e os clarões abafados das brasas faziam cintilar o rubi. Depois. ao lado do moribundo. eles ficaram ali. encontrou-o. em sua infância. perigo!. que o levara do massacre no qual perecera sua ama-de-leite. pela exposição aos raios solares. exposto aos raios do deus Febo. incapaz de tornar a fechá-la. "O que eu devia fazer? Agi corretamente?.Inerte. Qual é o dever do ser humano em. a do falso celeiro acima. Pela manhã. Uma fraude?. mostrando apenas a ponta do nariz. o frio oprimiu-os. — O cruz. dar-tros.. — Bem sei que é de você que vem todo milagre. numa luz dourada pálida... Mas ao adivinhá-lo. Colocara o crucifixo do jesuíta sobre o anteparo da lareira. Mais de uma vez constatara a cura de feridas ulcerosas. sem se resolver a ir deitar-se junto àquela lastimável múmia. Enfiou as crianças tal como estavam na cama grande. não tendo um sopro de vida. e refugiou-se no quarto único. machucado.. Voltou para acender um bom fogo na lareira da sala principal e ferver um grande caldeirão de água. que lhes feria os olhos enfraquecidos pela penumbra. permaneceu indecisa. fixa êm'sua rigidez mortal.. fazendo-os cair como os passarinhos nos galhos nas florestas. Cobertos como estavam. Cuido dele. concebeu o projeto de -levá-los para fora a fim de tomar ar. fechou o alçapão da plataforma. interrogando-se.. A noite foi tranquila. Içou-os pelo alçapão à pequena plataforma que servia de telhado acima de seu antigo quarto e reuniu-se a eles.

como na Arca de Noé!. que encontrara também entre as vitualhas enviadas. foi tão terrível que ursos adormecidos morreram de frio em seus covis. o que é raríssimo acontecer. O blizzard. transportou para o quarto seus caldeirões de água fervente.. procurando no sono o esquecimento das saturnais externas.. era sacudida em alguns momentos. preparar as . que desenraizou árvores. ceifou como uma lâmina gigante afiada o cimo dos bosquezinhos nas ilhas dos lagos. que. cujos anúncios observara. carregando-os rígidos e pálidos como se.. mãe.. — E ele responde? — Não. o "nordait" dos canadenses.. Oh! mamãe. — Estão dizendo que as águas ainda não se retiraram e que não se deve soltar a pomba! Sabe. Contei-lhes que estamos na Arca de Noé.ouro. encheu uma tina de madeira e. o inverno que tomou de assalto o Escudo Lau-renciano. do Labrador ao sudoeste do Maine.. houvesse tido o dom de petrificá-los. janelas.. — Com quem estás falando? — Com o "morto". a paisagem de fim de mundo que haviam entrevisto. Olhe como agitam os braços e depois param para mostrar que ela não poderia voar. Carlos Henrique voltou-se para a cama e gritou: — Não é. mesmo dentro da casa. Os gémeos contavam uma história com grandes gestos descritivos que faziam respingar a água. verificar as aberturas. o vento do nordeste. quando o banho ficou pronto. Ela não teria onde pousar. — Veja. ocupava a quarta parte do espaço. ao mesmo tempo lívida e de um azul pálido translúcido. por mais enfiado que estivesse na terra e na falésia. reforçar as trancas das ombreiras. Transportara para o quarto comum uma considerável provisão de madeira. Depois a temperatura baixou mais ainda. permaneceram encolhidos sob as cobertas. que não se pode ainda enviar a pomba?. como uma pedra. ambos exagerando os detalhes. e lhe arrancasse o telhado como uma simples panela perdendo sua tampa. dizem que ela cairia. quatro dias. Readquiriram logo as cores e se animaram. não deve! não deve! — Mas o que estão dizendo? — informou-se com Carlos Henrique. Angélica temia em alguns momentos que o vento uivante acabasse por enganchar-se no fortim de Wapassu. uma fúria. Eles gostam muito disso. passou pela superfície da terra a velocidades incalculáveis. Faz frio demais. Falo frequentemente com ele enquanto você está preparando a comida ou quando vai buscar lenha no depósito. Três dias. carregou aldeias de wigwams inteiras com seus habitantes. pluf. mais terrível ainda que as que trazem a neve. — fez Raimundo Rogério. empilhada. pássaro. com os olhos brilhantes. Mas dizem que ainda não se deve enviar a pomba para fora.. desvestiu-os e mergulhou os três. com uma violência. excitaram-se. portas. Não teria pois de sair daquele último refúgio interior.. Angélica só se levantava para cuidar do fogo. é verdade. mais ainda do que o frio. De pé na tina.. e a tempestade. morto. deixando-se cair na tina em meio aos salpicos. tagarelando com loquacidade. — Pluf. Mas ouve tudo. exsudando em seu cestinho de casca —. cuja porta. declarou-se. imitado imediatamente pela irmã. para quem essa linguagem não era Jiermética e que seguia sua exposição aprovando com a cabeça. que repetiam a todo momento: navio. Não poderia voar. Angélica só podia compreender algumas palavras" de seu pequeno jargão. "esse cruel inimigo do homem" vindo do pólo. Naquele "ano. O frio era tão intenso que foi uma tempestade seca.

.. o que .. um religioso. da primeira vez em que as tratara. mas dessa vez era um sono melhor. Depois de alguns dias. e. os furores do blizzard começaram a amainar e. causadas aparentemente por instrumentos pontudos ou garras. Falava-lhe num tom baixo. se desanuviou. inflexões ou palavras que o despertem e o tirem de sua apatia. — É preciso viver. certa noite. Dormiam muito. o vento parou completamente. Entretanto as feridas do rosto se cicatrizavam.. que aumentava seu esgotamento. Deus o exige! Abra a boca!. Deixava-o escorrer pelas comissuras dos lábios. As crianças pareciam não se perturbar com aquele ruído do vento. quando as crostas caíram..rações de alimento — com a preocupação que recomeçava a despontar. padre. de um lado. sobre a qual caíam mechas de cabelos com reflexos castanho-dourados. "A beleza de Cristo". Em certos certos momentos ela o sentia muito distante. Precisava também trocar os curativos do ferido. Mas. cuja fumaça era soprada para dentro pelas lufadas contrárias. que traziam sombrias ameaças: a destruição da habitação sob a ventania ou o incêndio. Era preferível tomar tisanas quentes de camomila e de tília para ter um sono tranquilo a enervar-se e assustar-se com os clamores selvagens que corriam lá em cima sobre a terra. É um dever. Uma calma surpreendente estabeleceu-se. que não eram queimaduras. suspiravam alguns penitentes um pouco exaltados. uma beleza viril e regular. Pelo amor à Santa Virgem! Mas essas objurgações piedosas não produziam nenhum efeito.. Pelo amor de Deus!. sempre ameaçador com o fogo. Ela notara.Faça um esforço!. procurava o que poderia despertar nele.. e Angélica punha-se ao mesmo tempo irritada e desesperada. de outro. As tempestades da América do Norte haviam embalado suas curtas vidas. permanecia acordada. Longa e ingrata tarefa. e em outros. e ela viu esboçarem-se traços de um rosto que não era destituído de beleza.. seu interesse pela existência e encorajá-lo a fazer um esforço a fim de voltar à superfície de seu ser e se alimentar. concedendo-se apenas curtos períodos de repouso. era um alimento precioso que não se podia desperdiçar. pois. As bochechas se encheram. por sons. Ele permanecia inerte. o inchaço cedera e formaram-se cascas. isso indicava que ele estava começando a perder os reflexos da sobrevivência. dando ao doente um aspecto deplorável. inconsciente. de que não se esgotassem muito rapidamente —. Tente engolir. embora lívida. CAPITULO XVIII A caçada ao alce — Angélica e os lobos — Diálogo com um morto Ao cabo de seis dias.. alerta contra os assaltos lúgubres do exterior.. E ele parecia às vezes mais morto do que quando o descobrira em sua mortalha de couro. os traços das feridas começaram a se apagar. fazer todas aquelas bocas avidamente entreabertas engoli-las. a imensa fronte. ao evocar seu confessor. Como para as crianças. A carne tornava-se sadia. mas chagas estranhas. alhures. num lugar onde podia restaurar suas forças. Quanto a ela. suave e persuasivo.. dar de beber às crianças e ao doente. Esses buracos estavam infectados e envenenados à volta toda. sabendo que o conhecimento pode ser atingido sem que nada se perceba. o Padre d'Orgeval. o estado de insensibilidade no qual ele mergulhava advertia-a da lenta aproximação de uma saída fatal. Insensivelmente ele começou a recusar alimento.

Ficou tão contente que julgou estar vivendo um conto de fadas. — E nossa casa? — interrogou. ou talvez de uma floresta.. O abutre caíra daquele céu azul-pálido da Ile-de-France?. na boca. pois era uma floresta furta-cor e cintilante. . um pinheiro azul de tronco rosa. lançando notas escuras sobre a seda verde das folhagens. nãp conseguindo saciar-se com sua carne viva. fosse porque chegara o momento. uma conífera elegante. cheia de árvores de espécies escolhidas e bem ordenadas. malva e azul de-canteiros à francesa. vira pousar um pássaro branco cercado de luz: a pomba da Arca. Estaria querendo pegar a pomba? Emergiu do sonho num estado de sofrimento que a deixou emudecida.pulso e ela não conseguiu dar um grito. a mesma floresta o cercava. O braço de Joffrey enlaçou-lhe os ombros e sua voz dizia: — Construí para você muitos palácios e casas. de sua perna contra ela em sua caminhada. Apoiava-se ao braço de Joffrey e sentia o calor de seu braço. e ela via pousar na areia_a-ponta de seus sapatos de cetim bordado rosa e prata. atraídos continuamente. Ao derredor. sabendo instintivamente que podia relaxar a guarda.. Angélica soube que naquela manhã. diante do qual se estendia o mosaico vermelho. ela dormia como uma criança feliz. outros campos lavrados. estava encerrada com as crianças num buraco sob a terra enquanto uma tempestade furiosa passava acima de suas cabeças. No seio da floresta o pequeno castelo era uma ilha cor de mel. na testa. pois era a primeira vez que o descobria. Ela perguntou: — Há um pombal aqui? — Sim. e a doçura de seus lábios pousando-lhe no rosto. tendo às suas costas a floresta murmurante.ter sido um parque. Nesse pesadelo. Fosse por pressentir o fim da tempestade. como em todo episódio dramático. e viveu esse sonho que lhe pareceu tão verdadeiro que a percorreu com uma impressão subjacente de que tivera um pesadelo horrível na noite anterior.. Que sonho estúpido! Num momento em que fazia um tempo tão boni to naquela primavera e os pássaros cantavam apaixonadamente nas árvores! Estava apoiada ao braço de Joffrey enquanto caminhavam pelas alamedas de um parque. Chegaram à beira de um promontório e postaram-se ali. suas rochas e águas murmurantes. Havia uma volúpia em andar naquele caminho calçada com sapatos tão encantadores. Joffrey1 passou um braço por seus ombros e com o outro indicou-lhe. numa das encruzilhadas. um pequeno castelo claro. A garra de um abutre pegou-lhe o. há um pombal. Uma floresta que poderia. mas tudo era muito real. rebanhos de corças e javalis.coincidiu para Angélica com o melhor sono de que desfrutou após um longo período e um sonho paradisíaco.. mas que levava além a outros domínios. embaixo. dispersos aqui e ali. que se voltava incessantemente para ela. ao despertar.. Mas este é o presente do rei!. Curiosamente. sua pele suave e morna. carvalhos e castanheiros. sua presença. mas era uma floresta humana. Sentia a adoração de seu olhar. seu sorriso. de o movimento de terror refluir para enviar os sinais de esperança. pois seus caminhos e veredas tinham a clara elegância de aléias traçadas. nas pálpebras. com seus recantos de sombra e de luz. de seu corpo.. escoltados por pequenos faiais e bosquezinhos de freixos e. nos cabelos.

. Bruscamente. perguntava a si mesma quem era aquele homem barbudo que estava vendo ali. incerta de que essa ordem emanasse dele. Ninguém para socorrê-la. no lugar de seu "morto". Acorde... Uma mão horrível. e sei quando o animal está rondando. — Levante-se! Levante-se! Há um alce lá fora. senhora.. de seu entorpecimento. Apresse-se! Que está esperando?. de humano para humano. — Aproxime-se.. Ele estava realmente ali: Estava realmente vivo.A garra em seu punho era uma mâo. A voz autoritária arrancava-a de seu sonho. diante dela. Terá carne até a primavera.. olhou para o leito. ninguém virá. Mas cada etapa pareceu-lhe insuperável.. Não se deve deixá-lo afastar-se. Depois tirou o mosquete do cabide. fixando no catre aquele desconhecido que lhe falara com uma voz vinda de alhures e que continuava a fitá-la com olhos ardentes. — Na verdade. a vida está la fora. As crianças morrerão. roídos. morreria sozinha.. Deixou o mosquete tombar contra a parede. sem forças para sustentá-lo. Era a primeira vez que dialogava com ele. Discutiam e brigavam por causa da carne. — Chegue mais perto! Ele estendia para ela dois braços hirtos.. — Que está dizendo? Como sabe que há caça lá fora. expostas ao inverno infernal. Voltando-se subitamente. você não acredita em mim — disse ele. como todas as verdadeiras criaturas daquele deserto branco. — Apresse-se! Apresse-se! O que está esperando? — Não posso sair. Começou a enfiar mecanicamente o casaco e as botas. — Está delirando. Um homem que ela não conhecia e de olhos dementes estava inclinado sobre ela. um alce? — Vivi muito tempo prisioneiro dos iroqueses. desconfiada da loucura que parecia ter-se apoderado daquele semimorto e sem conseguir resistir a ele. Era o Padre Sebastião d'OrgeVal... pulou para fora da cama. todavia.. Então ela pensou que a vida — se estava ainda viva — tomava aspectos fantásticos e burlescos. — Não! Eu sei. de vivo para vivo. não o deixe escapar. Isso lhe dará carne. O que queria dela? . quase lhe tocando o rosto e repetindo: — Há um alce lá fora. — Se eu cair. Você deve sair.. que tinham dificuldade em se mover. os olhos arregalados. Estava inclinada a acreditar nele... Estava pronta a arriscar-se por uma ilusão. Depressa. livrando-se da garra do abutre que a segurava. Ele repetia: — Abata-o. encolerizado..... um alce canadense!. Tem de abatê-lo. procurou o polvorinho e o saco de balas. — A mesma voz estranha adjurava-a: — Aproxime-se! Obedece u-lhe.. uma miragem. e as duas mãos que a seguravam dobravam sua vontade renitente. como os índios exacerbados pela fome. — E. A notícia penetrou no espírito de Angélica.. com os dedos mutilados.. Com o coração disparado.. Por onde sair? Conseguiria subir ao telhado? Colocar as raquetes? Avançar na neve profunda? Ela cairia. por causa do alimento do qual sua sorte dependia... carne até a primavera. Faz muito frio! E estou muito fraca..

Devia ter gestos lentos. — E se eu falhar o tiro? — Não falhará. mas clara pela magia de uma lua quase redonda. alguma. Tem de abatê-lo. aspirando o ar. ávida por surpreender. Calculara que àquela distância tinha ainda uma chance de atingi-lo. Atrás dele. pequenas e numerosas. — Você poderá fazê-lo! Sempre ganhou! Com esse alce.. Dizem que você atira muito bem. Nada se mexia. mas. Sob a abóbada celeste. talvez alertado. puxava-lhe a cabeça contra seu ombros. A noite estava mais glacial do que julgara. um alce. Mas eis que. Não quisera acreditar nele. suavizando o azul aveludado da noite. Sentia florescer em seus cílios cristaizinhos de gelo. Sra.. Depois pensaria em garantir a outra presa. para ir desemboscar aquela caça fantasma na floresta. tinha tanta sede. Seu espírito desanuviado permitia-lhe raciocinar. como ele afirmava. O blizzard arrancara a neve das árvores. se ela ali estivesse. Dali. viu-se de pé. Aproximou-se da beirada de madeira contra a qual pretendia apoiar-se. Avançava com passos hesitantes. de Peyrac. Não queria desistir sem antes ter tentado tudo. sempre com aquela energia de ferro contra a qual sua fraqueza não tinha qualquer poder. que avançava como uma ilha num mar leitoso. prestes a se quebrar sob o efeito do gelo. Você foi chefe de guerra. de Pey-rac. percebia. depois começou a correr. nas paragens do ioite. Ouviu-o falar acima dela. haverá carne até a primavera para você e seus filhos. .Obrigava-a a ajoelhar-se perto da cama. Ganhe! Ganhe mais uma vez. que estava apenas a uma toesa do solo com a acumulação das neves. o animal apareceu. o eco de um passo. Dirigiu-se à sala grande. movida por uma vontade feroz. Deu a volta na plataforma. o animal agitou-se e tomou alguma distância. juncavam o firmamento de rastros pálidos. E. tudo era branco ou negro. Sua língua estava tão seca. e um alce de menor porte surgiu na sua esteira. que agarrou um punhado de neve e o levou à boca. A dor causou-lhe um choque e depois lhe fez bem. olhando para todos os pontos do horizonte. negros os buques de árvores. decepcionada. Mas a neve em volta do fortim era um belo tapete branco imaculado que havia muito tempo não era pisado nem por homem nem por animal. Melhor do que qualquer arcabuzeiro. e não podia tremer. Seus olhos doíam. agora que constatava a inanidade de seu aviso. Se o animal passara junto. e pensou em saltar por cima da muralha. Sua silhueta parecia imensa. Branca era a planície gelada. Decidira sair pelo sótão. As estrelas. semelhante a uma frágil concha de nácar.. Foi nesse instante que discerniu uma agitação na zona de sombra projetada junto ao pequeno bosque. O que lhe picava o rosto eram gotas de suor geladas. Saindo cautelosamente de seu abrigo. emprestando-lhes silhuetas e volumes tenebrosos.. — Dois! São dois! Uma fêmea e seu filhote! Começaria pelo adulto. o movimento de uma sombra. Olhou em torno de si. deveria encontrar suas pegadas. Procedeu a um exame do bosque-zinho mais próximo.. arreada da cabeça aos pés. Sra. poderia primeiro verificar se havia realmente. as florestas junto às quais impalpáveis rastros de bruma pareciam captar em luzes fugazes os reflexos da claridade lunar. destacando-se contra a neve. Subitamente. que a esperança a invadira imediatamente. coisa se moveu.. precisos.. naquele silêncio petrificado.. à casa. sobre a plataforma. Você pode. mantendo-a ali apertada.

pois temia que a cabeça pequena e móvel fosse um alvo menos seguro. um retalho de carne. Mas quando. Agora não podia mais atirar da plataforma. de esgotamento. Em Seu lugar havia um montículo negro sobre a superfície lívida da extensão nevada.. Uma espécie de embriaguez de alegria invadiu Angélica. Ela soltou um grito. Os lobos. o animal continuava de pé.. repetido de maneira infinita até os últimos cimos curvos dos montes Apalaches. — Se tiverem tempo de chegar^não lhe deixarão nada. diante do efeito de uma vitória tão completa e cheia de segurança de vida mais embriagadora ainda. você diz?. tremula.. Apenas a pressão de seu corpo repartida pelas quatro patas dotadas de cascos flexíveis. obrigada.. de precisão e de instinto. Era muito longe. Subitamente o adulto voltava a galope. pareceu hesitar e parou.... Apressese. — Consegui! Consegui! Jogou-se ao pé da cama. De revolta.. meu caro padre. não viu mais o alce. o alce se distanciava como que galopando. e apertando com os braços o corpo de seu morto-vivo.. rindo e soluçando. de impaciência e. virando para a direita e para a esquerda um perfil papudo com um longo focinho caprino. Mal percebeu o ferimento. Recarregou apressadamente. A dor nada era naquele momento crucial. uma sombra negra sob o luar. O animal caíra fulminado.. atravessou cómodos e corredores quase sem tocar o chão. não quis arriscarse a vê-lo partir numa outra direção e atirou. levantava a arma para mirar novamente. —Trouxe o animal?. visara a cernelha para atingir o coração. O menor. que tentara seguir a corrida da mãe. Reunindo todas as suas faculdades de visão. escandia a louca decepção de Angélica. ao abrigo do bosquezinho. e ela quase caiu ao pé da cama.Sobre a neve dura. sentiu que aquele dedo em repouso aderira à placa de aço e que deixava. pois ele parecia impelido como uma bala na direção do posto... Despencou pelos degraus das escadas do sótão.. diminuindo e abafando-se. em meio ao estrondo dos ecos do tiro. Desejava deixar o animal aproximar-se o máximo possível. a corrida e depois parar e farejar o ar. — Ah!. enfim. não sabendo com que dedos podia realizar os gestos necessários. era o inverno vencido. Quando olhou. Depois desmoronara pesadamente.. pois não os sentia mais. Quando ombreou a arma e pôs o dedo no gatilho. — Consegui! Consegui! Oh. não compreendeu inicialmente a direção tomada por aquela massa em movimento. Decidiu tentar o tiro. que se preparava para mudar de lugar para visar melhor o filhote.. uma base larga e preênsil como ventosas.. o mantivera de pé por alguns segundos após sua morte. de consternação. e o eco de seus cascos. Vendo-a aumentar. Tentar ao menos atingir aquele.. tomar fôlego!. mulher tola! . Os lobos! Meu Deus!. O filhote fugira e se refugiara. compreendeu que o animal se reaproximava e pôs-se prontamente em posição à beira da seteira. Estamos salvos! Estamos salvos!"' — Trouxe o animal? Ele a empurrava.de ansiedade. Não se deve abandoná-lo aos lobos!. ao levantá-lo. Angélica. Não me deixa respirar.. Mas. Para lá do corpo do animal morto. vendo-o diminuir.

no qual os iroqueses lhe haviam enviado o Padre d'Orgeval. funcionavam bem. na noite em que encontrara o "cadáver" na soleira. Por sorte. seriam os olhos deles? Não. apresse-se!. Sobre essa neve. A trincheira diante do posto estava coberta de uma fina poeira raspada pelo vento na superfície da neve endurecida. o que lhe seria impossível fora da casa. Com a tocha em punho. Fora de cogitação içar o alce morto à plataforma. e para introduzi-lo pelo alçapão pequeno. que mergulhasse novamente naquele frio glacial para mocrer. Pegou uma comprida como um círio e bem embebida e foi acendê-la na lareira do quarto comum. que é a melhor arma. pois elas são muito rígidas. Reassumira seu autocontrole. — Cuidado com os lobos. quando estava conseguindo galgá-la. Untara-os com um pouco de geléia de líquen. Ocupada com sua vindita.. e que era imperdoável ter-se deixado levar àquela histeria e ter esquecido a irrupção possível dos lobos num lugar de caça. mulher tola!" Era preciso reconhecer que a maneira como se lançara sobre ele chorando de alegria vazava-se no delírio mais imbecil e mais deliquescente. — Vá! Estou lhe dizendo! O tempo está passando! A pistola de dois canos? Não havia nenhuma em condições de funcionamento. introduzindo-o pela porta. E uma pistola de dois canos. Ele simplesmente queria a sua morte. Apenas a tocha. Estava muito calma agora. fechaduras. Pegue um trenó selvagem ou um pano grosso.. pois tinha de decidir sem demora. Vá! Vá. deslizaria facilmente. Não tivera tempo de pôr as raquetes. correias para içar a carga. Estava furiosa contra ele. Leve uma tocha.. aquele intruso. aberto em toda a sua largura. com uma rapidez inigualável.. teria de cortá-lo antes. ordenou mentalmente. Na sala grande. e. pelo menos abri-la. Só tinha uma solução: pôr o alce abatido naquela sala.. — Não conseguirei. Teve apenas de dar algumas pancadas com pás e picaretas de quebrar gelo para abri-la mais. içou-se para fora da trincheira. a tocha. Mas agora sabia que o odiava com todas as forças.. aquele homem. E em primeiro lugar precisava desprender a porta. os esforços que despendera para desprender a porta. que parecia polida por uma plaina. pegue uma tira de pano para amarrar o animal. — Apresse-se. por causa da sanha com que a empurrara. Essas diferentes possibilidades apresentavam-se ao seu espírito numa velocidade vertiginosa. que julgara ver à fímbria da floresta... arrastando atrás de si o trenó emba-raçante. com seu domínio. gritando: "Apresse-se. é melhor do que cordas. uma coberta para puxar sua caça sobre a neve. eu os ouvi! As luzes. Os gonzos. ocupou-se da tocha. aquela espécie de trenó de couro não curtido.Eles não estão longe. Não.. munida de um saco cheio de rolos de correias e tiras de pano. as diferentes fases da operação que se anunciava. se tiver uma preparada. se se considerasse que uma fervilhante cólera interior pode gerar algumas vezes o sangue-frio distraindo o espírito. Perguntara-se algumas vezes se poderia-odiar o jesuíta que os prejudicara tanto. surtiram seus efeitos. — repetia ele. dos problemas insuperáveis do momento. mas seu uso na neve endurecida era inútil e teria atrasado sua caminhada. barras de ferro. um uivo suave elevou-se aparentemente bem próximo. não aguentava mais! Amanhã iria buscar o animal. .. Senão. principal.

ávidos e tristes. O terror do jovem animal era tal que sua chegada pesada e ruidosa não conseguira fazê-lo afastar-se do cadáver do outro. Depois endireitava-se. Angélica correu para pegá-lo e colocá-lo novamente no trenó. orelhas. quase correndo. e percebeu os lobos que vinham a galope da orla da floresta. pensou. viu. tremendo da cabeça aos pés e olhando a sua volta como se todas as saídas estivessem fechadas à sua fuga. mas tropeçou e caiu. Ainda dava tempo. e desprendeu-o bem depressa. — Tarde demais. acreditando num dado momento que o gelo lhe soldara o flanco ao solo. Viu . mas apenas brilhantes. que caíra do trenó e que ela percebeu. Enquanto vigiava incessantemente. antes que ela caísse na neve. Quando se levantou. o menor girava em passos cautelosos rias longas patas filiformes. Com a tocha nas mãos. içando por cima mais facilmente o corpo do filhote e fixando a tocha na retaguarda sob o peso dos corpos dos animais. vendo-o cair perto da mãe. mais meigos ainda do que os dos cães. um barulho feito dê marteladas pequenas e continuadas. atrelou-se às correias de couro e conseguiu abalar sua curiosa equipagem. Uma vez a caminho. — A carne vai ser minha. E ao se inclinar para apanhar a pata do filhote de alce e puxá-lo para ela. adivinhando que os lobos se lançavam em seu encalço. "Dois". O tiro tinha-os imobilizado apenas ligeiramente. o gelo sobre o qual se deslocavam tornava a tarefa fácil. E em volta da forma abatida. meus bons amigos — disse-lhes. com as patas agarradas ao solo. Não se deixou impressionar por sua volta furtiva e rápida. retidos todavia pela chama da tocha na retaguarda e pela chuva de fagulhas que chovia sobre eles a cada solavanco. agarrando-o como lhe era possível." Foi então que ouviu como que o sussurro de uma maré avançando. sobreviveremos até a primavera. colocando-o ao alcance da mão. Agitou a tocha com frenesi. Mas a fiel amiga subitamente vacilou. còm o mosquete atravessado sobre o trenó. Atirou à queima-roupa. Incidente que começara na sua primeira fase por provocar o recuo dos lobos. a espinha abaixada ao mesmo tempo para a esquiva e para o salto para a frente. os olhos dos lobos. pelas patas. Angélica parou e plantou á tocha no solo. e que lhe pareceram menos fosforescentes do que ao longe nos bosques. parecendo uma vaga de espuma cinza rolando para ela. com o risco de apagar-se. quase ao nível dos seus. Eles retomavam sua corrida em direção à presa entrevista. felizmente. caído. ela empurrava. Angélica não teve tempo para deter o trenó e precipitar-se para trás para pegá-la. Andava tão depressa quanto podia. sacudia sobre o trenó o corpo enorme do alce. criando um círculo de luz que manteria a distância as feras esfomeadas. mas receosas do fogo do homem. Manejou a faca e o machado freneticamente. a menos de dez passos. o bale enervado e mudo dos lobos. quase humanos e como que suplicantes. Depois recarregou o mosquete. cujas idas e vindas se cruzavam e entre-cuzavam numa hesitação febril.O alce fêmea continuava ali. "Com isso estamos garantidos. que Honorina amava tanto. pontilhada pelas luzes douradas de seus olhos. medrosos de todos os ruídos. gritando: — Para trás! Para trás! Mas ele se recusavam a recuar. de todos os movimentos insólitos. amarrou-o de qualquer jeito com as tiras de bandagem que ele recomendara como preferíveis às cordas. O que provocara a queda da tocha fora o deslizamento do filhote mal arrimado. puxava. do outro lado do animal e prestes a enfiar-lhe as presas. os lobos estavam bem perto dela. Apanhou a tocha e colocou-a na dianteira do alce abatido. para lá da luz.

depois de darem cabo prontamente de sua magra ração. caiu. eles não se moveram. rolando sobre a neve e apagando-se com crepitação. fome!. Havia barrancos nos quais caiu. a lembrança do lobo de focinho comprido e dos olhos oblíquos e humanos. cinco ou seis. "Vou deixar-lhes o filhote". . ao ouvir aquela voz humana que se erguia. A carga virava. irmãos. Preferiu hão parar... sendo às vezes ultrapassada pelo trenó. de joelhos.. Era ela a mais feroz. ao cair. "devo fazê-lo.. Outra vez. E dessa vez eles se sobressaltaram e deram um pulo para trás. repetiram os ecos intermináveis do país do cristal. e sua carga a aco"mpanhava sem dificuldade. mal-equilibrada. não a seguiriam.. Ela se lembraria que murmurara com os lábios rachados: "Eu lhe suplico! Eu lhe suplico!. Chegando finalmente à beira da trincheira.como estavam magros e eram pouco numerosos no total. Voava. a tocha. irmãos!" E que a passagem do alce através das portas e do sass obscuro do fortim era exatamente igual a um monstruoso parto. Dificuldades surgiram.. inclinado e apontando o focinho pontudo enquanto ela tentava empurrar a porta para introduzir na sala o corpo do enorme alce. do quaí ela tivesse sido a parteira minúscula. e.. Um leve declive facilitava sua corrida para o forte. E o lobo ali. trepidando e raspando ao passar por asperezas com um ruído repercutido que lhe enchia os ouvidos. "Deixolhes o filhote. Perguntava-se incessantemente se os lobos. — Deixo-lhes o filhote — gritou-lhes. porque têm fome. Estava ali debatendo-se naquele buraco com aquele animal do tamanho de um cavalo que. aquele lobo que talvez não tivesse visto. submetidos como ela à provação infernal que ameaçava suas existências: a fome.. e porque somos irmãos. devo. surpreendentemente clara e poderosa. como no conto de Gargân-tua. Isso era uma coisa que os faria rir e bater as mãos." Contaria às crianças que o eco dos lugares perdidos de Wapas-su desaparecido cantara: "Nós somos irmãos. irmãos. enquanto ela os fixou com o olhar. duvidando ainda de sua boa esmola. yiria colocar um bálsamo agridoce em seu coração. Angélica atrelou-se aos arreios de couro com uma energia redobrada. dos olhos tristes. Não tinham ferocidade. continuando a brandir a tocha para imporlhes respeito pelo tempo que pudesse. Chegara ao trenó e permanecia de joelhos. o que era mais perigoso do que ficar de pé. lançando gritos agudos de vingança e alívio provocados pelo aspecto cómico do trágico. Fantasmagoria! Muito tempo depois. derrubou sua carga para baixo e saltou por sua vez. não querendo deixar nada de sua presa. O animal se deslocava.. por seus gestos." Começou a recuar lentamente. Empurrava-o mal-emal sobre o trenó e refazia os nós com dedos inexistentes. Era para permanecer ao nível de seus olhos. no ar gelado.. sonhadores e todavia cheios de interesse. A sombra do forte mergulhou-a na obscuridade. Apenas quando se levantou foi que pôde vê-los aproximarem-se do filhote de alce... e depois se lançarem vorazmente a ele. Levantando os olhos julgou distinguir um lobo maior. Irmãos.. fome. e a porta nada de se abrir." "Fome.. olhando para ela.. Próximo ao final. pensou. havia prendido o mosquete.. mais magro e mais velho que os outros. irmãos. irmãos!.".

Ele era exasperante. — A bala estourou-o. muito nutritiva. — Pela manhã vão ver se eles deixaram os cascos. O que a surpreendeu muito foi descobrir que não se tratava de uma fêmea. um cutelo. num tom impaciente.. Tem um avental grande. de couro? Ele não parou durante toda a noite de indicar-lhe as etapas do trabalho. Tínhamos carne daí em diante. — Só uma bala?. que teria dito: "Pobre alce!" — Dar-me-á ao menos algum tempo para cuidar de meus filhos e preparar-lhes um caldo? — gritou a seu atormentador e guia no corte da carne. — Como se explica que não seja uma fêmea? — Porque é um macho — retrucou ele.. não tinha qualquer consideração pelo estado de fadiga no qual ela se encontrava e que a tornava meio atoleimada.. que podem estragar as partes sadias. Só percebeu a chegada do dia e que já estavam no meio da manhã quando viu Carlos Henrique diante dela propondo-se a ajudá-la. um prato especial. magro e de menor tamanho que o ancestral. sempre com aquela careta que ela julgava ser um sorriso zombeteiro. . Não tinham o sentimentalismo de Honorina. nem ninguém podia vir tirá-lo de nós.. O homem deitado dirigia-lhe um olhar zombeteiro.. E vinha perguntar-lhe. triture!. raspe.alce e por seus grandes olhos extintos sob cílios semelhantes a escovas. Ela acendera um fogo bem alto na outra sala. — A que distância? — Ao alcance de um tiro.. parecia-lhe. — Sim. como se sua excitação lhe parecesse pueril."Meus filhos". As duas portas estavam fechadas. Serre. "o alce finalmente ali estava na sala do forte. Não se deve esperar — disse. separar os miúdos. dei-lhes o filhote!. — Não era um filhote. mas de um macho. Carne. a bexiga. o fel. Sempre aquele brilho de ironia. — Ele não tem coração — lançou-lhe ela. começavam a chafurdar no meio dos quartos de carne e a se interessar pelas orelhas do. descabelada e com as mãos ensanguentadas: — E agora? Ele dizia: — Pegue uma serra.. Nem os lobos.. E agora é preciso destrinchar o animal. cortar a língua.. até a primavera!" — Dei-o aos lobos — declarou-lhe com ar de desafio —. diria. mas um alce provavelmente novo. — É preciso retirar as vísceras. vestidos com roupas limpas que o menino os ajudara a vestir. — Você queria visar o coração? — Sim. como se previsse a revolta de sua lassidão. pratos. dispondo ali todos os seus caldeirões. escudelas. um machado. como último recurso. — Um filhote o acompanhava. Ele lhe dava instruções precisas para retirar o coração. Pode-se fazer uma boa sopa de cola. enquanto os dois pirralhos.. corte.

fê-lo beber em pequenos goles. ditava-lhe a receita do caldo. se elevou.. e sua alegria era tanta que se esquecia de seus membros doloridos e das horas de provação. ela se perguntava ainda o que fazia ali. construído. Bebeu por sua vez. Dirigiu-se cambaleante para a lareira. julgando que iria desmaiar de tanto bem-estar. não mais semimorta. pois era vida que voltava para ela. jesuíta! Caro mensageiro da noite e dos iroqueses. Não seria você quem poderia me ajudar! Nem nenhuma dessas frágeis crianças! Você não sabe de nada!. deixou fluir sua onda de cólera. A vida voltaria a ser cotidiana.. senhora. e o raciocínio. E azar dele se reassumia sua aparência de tronco morto e apodrecido. você. embriagada como se tivesse. entregou-o a ele. com tantos esforços e sacrifícios aqui! Tomou fôlego e. senhora.Ele perguntou-lhe se ela colocara os pedaços principais de carne envoltos em peles ou em cascas de árvore no gelo. palavras. esgotar-me para devolver-lhe a vida.. Ele tinha um olhar muito azul. Olhando para o leito.... você. depois de têlo acomodado um pouco. Duas luzes puras que emergiam daquela cloaca cinza na qual se perdia seu olhar habitual Sua voz. por minha falta de civilidade. Era isso mesmo o que ele era. . depois do alce. Não acontecera nada.. mas encantada. Os segundos eram preciosos. mortes e desastres? E ainda por cima me insulta! Ah! Como você odeia as mulheres! Via-lhe a face" empalidecer e o olhar turvar-se. A caça passava ao seu alcance. Você. A porta estava fechada. meu e dessas pobres crianças. Estava ao mesmo tempo enojada e superexcitada. Você me concede um pouco de repouso?!. orgulho. Você me repugna. era a receita de sua "Tia Nenibush". mas não conseguia refrear suas. concebido. Julga que me diverte curar suas feridas. e Angélica começou a considerá-lo um loucov Ou então era ela que estava ficando louca por ter respirado aquelas exalações de sangue e de entranhas quentes. Já estava na hora de ele ouvir aquelas verdades de sua própria boca. — Realmente. Ainda não era hora para isso. que é a causa de nosso estado miserável. Não esperava tanta bondade de sua parte — ironizou ela. Não passa de desprezo. com agressividade. que. surpresa com seus gestos. Repouse. como ele continuassecalado. disse-lhe. — Creio dever apresentar-lhe minhas desculpas. Era sinal de que a ceifeira não os alcançara. Oh! Obrigada a você. fraca e hesitante. continuou sua obra de destruição. tantas derrotas. a você. egoísmo. Preparou para ele uma tigela do divino e quente néctar e. como fez. a quem devemos a perda de tudo o que havíamos sonhado. novamente longínqua. os pedaços que ela devia usar..úma a uma. mas era um boa coisa ser capaz de irritar-se contra alguém. Ele era destestável. Ele se calava Ela pensava que. — Isso não era motivo para me insultar. Sustentando-lhe a cabeça. consentindo finalmente em que interrompesse o trabalho. Deu de beber às crianças. — O menino já me dispensou alguns cuidados. seria preciso renovar-lhe as compressas. edificado. abatido sobre a terra que vai absorvê-lo e enterrá-lo. — E lhe informarei em primeiro lugar que tive razão em não me lançar do telhado onde me encontrava empoleirada para trazer para dentro aquele animal enorme. bebido um cálice cheio de vinhos capitosos. os gestos daqueles que têm com que se aquecer e se alimentar sobre a terra. mesmo morto. a quem injustamente devo tantas desgraças. Não poderia nem arrastá-lo até o posto nem subir ao teto e entrar na casa. Eu posso esperar. reações de pessoa viva e. em vez de caldo de carne. os gestos se tornavam seguros. Mesmo assim.

eu lhe devo mil desculpas.Quando ela se calou. Ficaria novamente sozinha com as crianças. apesar de lenta e rouca. num tom de súplica intensa: "Perdoe-me! Perdoe-me!". — Eu não estava pronta para viver um instante tão sublime — disse ela. Depois de ter assim falado com uma clareza e uma lucidez que não deixavam de ser estranhos. Dessa vez.." Seria preciso novamente ficar sozinha. deixando-à completamente sem forças. o que a fez apoiar-se à parede. e calou-se.. Adormecera de joelhos. "Carne até a primavera. que estava de pé ao seu lado. Foi para ela um choque supremo. o ar contrafeito. A loucura se apodera de nós quando percebemos que estávamos armados para a vitóra. e toda a vilania. — Ele! — respondeu o menino. Essa súbita humildade fez ceder sua cólera. . E depois. ele falou entretanto. Ele reunira suas últimas forças. — Não sei o que me deu — reconheceu —. Ele estava morto.. Fiquei enlouquecida. Tinha sobre os ombros uma coberta de peles. Daí nosso desnorteamento. Pronunciara uma última palavra: "Perdoeme". expirara. O trato com os bárbaros torna as pessoas grosseiras. calou-se novamente e pareceu apagar-se e desaparecer. — Nossos corpos são fracos para as correntes que os atravessam — disse ele. invadida por uma terrível decepção. Via-o tão pálido. mas que não estávamos ainda preparados para ela. — Tem razão. toda a lama que permanecem no fundo dos corações dos homens emergem à superfície naquele que não possui uma alma suficientemente forte para resistir a esse rebaixamento.. que compreendeu que o esforço feito por ele para levar a bom termo a batalha do alce o aniquilara.. estava morto de verdade. com o coração pulsando ainda com uma emoção que não conseguia nem controlar nem explicar. portanto. que apagava a exaltação da vitória. Tudo foi surpresa. — Estamos prontos para o que devemos viver — respondeu ele —. Sua voz baixou. Essas ressurreições e desaparições tinham algo de esgotante. senhora. — Deus sabe que eu não estava pronto para nada do que me dispus a viver. de reconhecimento. depois de ter abatido o alce. e sua voz continuava inteligível. morto. Perdoe-me. como se desertasse do ser vigoroso e decidido que o habitara por algumas horas. mas nem sempre é o que havíamos previsto. Dormira tão bem que não compreendia muito bem onde estava. Caiu de joelhos junto à cama. vindos dele e naquele lugar. senhora. Repetiu várias vezes. — Quem colocou essa pele sobre mim? — perguntou a Carlos Henrique. da embriaguez de vitória. Ele estava morto. Mas não sei se era de alegria. com as pálpebras azuladas e fechadas. com a testa apoiada à mão do morto. que se apagou como a chama de um fogo de palha. Pousou a fronte sobre a mão inerte e pôs-se a soluçar.. Foi o balbucio das crianças que a despertou. Não estava. para gritar assim e perder a cabeça.. — Há coisas enterradas que subitamente saem como cóleras ou desesperos de crianças que jamais teriam sido expressos.. apontando para o homem deitado.

A mão permanecia gélida. O Padre d'Orgeval estava morto. Uma trégua seria possível. O receio da terrível gangrena invadiu-a. Quando a febre baixou. Ele se agitava. CAPÍTULO XIX A cumplicidade de náufragos desenganados Ela reconhecera ser ele Sebastião D'Orgeval." Tinha cortado uma alce inteiro. — Porque julguei que você havia morrido. Convencer-se disso iria exigir-lhe mais tempo. de joelhos. não poderia! Readquiriu sua força interior. Eles também. Teve a impressão de que os lábios lhe devolviam o sorriso. Ela continuava. ou pelo menos um ser enfraquecido. e ele exclamou: — Você lamentaria então minha morte!? meu fim? Eu..". ele. — Por que você chorava? — perguntou uma voz. por instantes. — Quando? — Antes de adormecer. seu pior inimigo?. dando a Angélica novamente a impressão de que um morto partilhava a moradia. apoiara a cabeça dela contra seu ombro comunicando-lhe sua força. só havia duas saídas: a morte ou a ablação do membro atingido. à força. Não se reaquecera nem ao calor de sua fronte. sorriu. com a face apoiada. Ficou muito tempo apoiada. Examinou-a..Acabava de se perguntar . como quando dormira aquele sono reparador. recompondo-se depois com brutalidade. apesar da deformação dos dedos cortados e das unhas arrancadas.. levantando a cabeça. Ele tinha de viver. Ser-lhe-ia preciso esperar para obter resposta às perguntas que colocava a si mesma.se não fora visitada por um "verdadeiro" morto que. a força para se levantar. Mas a febre não baixava. Angélica notava que uma delas estava mais inchada. parecia morto e em outros voltava a habitar-lhe o corpo. sair e matar o alce.à sua mão. em iroquês.permaneceu prostrado. o que lhe era mais difícil de suportar. não.. agora que havia carne para muito tempo. ' A mão cerúlea era bem a mão de um morto. O espectro da gangrena se afastou. e. espreitando-lhe o estremecimento.. Pois. sem o perceber. pensou rememorando aquele instante em que ele dissera: "Aproxime-se! Venha! Venha mais para perto!" E em que a pegara com mãos que pareciam garras e. Respondia àquela voz como à de um fantasma. declarado morto havia dois anos. Acariciou-a várias vezes. Era uma mão fina e longa que permanecia aristocrática. e depois. teria desejado rejubilar-se e distender-se. um moribundo. Muitos sinais haviam sido dados. Obstinou-se em prodigaJizar-lhe todos os remédios de que dispunha. "Que força existe nele!". e aquele que ali estava era um impostor. "Não! Não! Isso eu não poderia fazer. com a pele esticada. Quando uma coisa como aquela começava. examinando-lhe as pernas no dia seguinte pela manhã. O passado edificara situações e imagens e tudo isso se esboroava diante da realidade. Mas sentiu estremecer a mão que segurava entre as suas. mas ter de serrar uma perna de um ser vivo. Uma febre muito alta apoderara-se do doente. e balbuciando o tempo todo frases indistintas. . . martirizado pelos iroqueses. lamuriando-se e virando a cabeça da direita para a esquerda e repetindo: "Oh! que ela se cale!.

Vou desmascará-lo. — Sim... Não é ele. cuja significação não poderia precisar. Sinto-o. de Zalil. nos grandes Lagos. aqueles que diziam ter o dom da ubiquidade. voltando-se em sua direção. parecia estar se deixando deslizar para a morte por covardia... Esboçava uma espécie de careta zombeteira. Como poderia esquecer essa criatura do Diabo. que se prostrava em preces ao pé do altar. a atormentava. Ele pareceu perturbado como uma criança com medo de não encontrar a resposta correta. Seu: olhar turvou-se e ele virou a cabeça.. E seu olhar vacilou. abandonando-se às visões de seu delírio ou do torpor. algum explorador de bosques. não era minha irmã de leite. após um breve silêncio: — Entretanto. a mãe de Zalil foi também minha ama-de-leite antes dele.. _ Não! Não é o Padre d'Orgeval. Teria desejado apagar os vestígios das sevícias que sofrera. Estava decidida a preparar-lhe uma armadilha para confundi-lo.. continuando.. Depois respondeu. em virtude de uma tendência a envesgar que se seguira à febre alta. mas também. . Roubou seu crucifixo. mas que lhe despertou novamente as dúvidas. Ela insistiu. de exaustão. o pensamento de que os índios haviam levado o grande missionário a um tal grau de depauperamento. Aquele que jazia ali era um impostor. A moléstia que o corroía ia além de seus males físicos. sem desviar-lhe os olhos. o intratável. fazê-lo voltar ao que era antes. que sabia tudo.. o grande. sua irmã de leite. hesitante: — Não. Fixava-a com aquele sorriso sardónico.. enquanto escovava os cabelos das crianças contando-lhes uma história. pelo que me lembro. tudo. num tom de conversa. seu nome começa com A. ele mudou de expressão e pareceu inquieto. tinha um pé aleijado. — Não é o jesuíta santo e mártir. que para evadir-se pegara o crucifixo. Essa força que alguns momentos irrompia nâo parecia pertencer ao mesmo indivíduo que. em Quebec. por vezes.. viu naquele olhar. sentiu que ele "a observava de maneira consciente. O filho mais velho de Zalil. que ela julgou vulgar. sua identidade. Colocado ao. Não pôde impedir-se de lançar-lhe: —Quem é você? A essa pergunta abrupta. articulava mil intrigas e fabricava velas verdes perfumadas com a cera dos frutos da flor-de-cera.. e. Ele era um ser de elite. novamente lúcido.. meu verdadeiro irmão de leite. —Já lhe disse! Sou Sebastião d'Orgeval. uma expressão sorrateira. Depois recomeçou a sorrir com a brusca ironia. o intolerante Padre d'Orgeval. que odiava a Mulher porque só conhecera mulheres infames e as combatia como a encarnação do Mal. ele queria matar-me. que ela amamentava ao mesmo tempo que a mim. o que lhe pareceu muito desagradável. Certa manhã. a sotaina do falecido Padre d'Orgeval. da Companhia de Jesus. confessando na Acádia.séu lado. desdentado. Você!— Você é desprezível. mas também que sofria as traições de seus amigos. bêbado.. Puxou um escabelo e sentou-se à sua cabeceira. — Fale-me de sua irmã de leite — disse ela. de expressão ambígua e subitamente angustiada.. Ambrosina? Sua pele terrosa empalideceu. desocupado. mas. espreitando aquela face estranha. — Quem é você? — repetiu. Disseram-me que fui eu que acabei por estrangulá-lo em nosso berço comum. de embrutecimento. que conduzia suas tropas ao combate brandindo sua bandeira bordada. excomungado.Considerando que talvez fosse realmente o Padre d'Orgeval. Aproximou-se do leito.. como o da Diaba.

por favor. um disfarce para um período transitório? Não teria se tornado jesuíta apenas para poder mais facilmente tomar seu atalho? — Que me conduziria aonde? — Aonde está chegando.. e não sem motivos. escravizá-lo.. Mas quando se levantava por deixá-lo repousar. mais precisa. Que tenha sido cercado em sua infância por mulheres perversas e cruéis.. sob o efeito da contrariedade. lá longe. desejado por Deus. Os dogmas! A Letra! Armas que matam. o conquistador de mundos novos para a glória de Deus e do reino. talvez. Isso a aproxima de Lutero.. Ele permaneceu estendido por um breve momento e depois lançou o corpo para trás. Seguir-se-ia um período silencioso. não acredito. mais exigente o destino. ele se ergueu com um movimento ágil e. Na verdade ignoro tudo a seu respeito. acredito. Fora uma troca de palavras súbita. que dizia: "Peque. tomandolhe a mão entre as suas. E que você deveria parar de se preocupar com o que diz Lutero. Era na verdade um manto de neve. e não me fará mudar de ideia. Mas talvez você tenha razão. Calvino ou São Tomás. Pois não está apto a decidir sobre o que é pecado ou não! Ela falara sem refletir. Não quero aceitar que tantos horrores. considerá-la através de outras verdades. lembrando-se das palavras que Ambro-sina gostava de repetir com exaltação e nostalgia: "Éramos três crianças malditas. Ele se debateu. levou-a aos lábios: — Deus a abençoe! — murmurou. atenuado.Angélica estremeceu. — Você foi carregado com um fardo muito grande. Quanto mais estranho é o nascimento. A personagem que lhe foi atribuída: o missionário. Não creio... tantos atos vis sejam o caminho de meu destino. Mas que tenha sido feito à sua imagem.. — Com que ardor você me defende!. cuja cor azul se tornava. mantendo-se rígido e de olhos fechados. ela protestou energicamente: — Tolices! Quiseram persuadj-lo dessa fábula para assustá-lo. Seus raciocínios estão fortemente maculados de heresia. mas não destituído de vivacidade e de brilho. era mesmo você?. Voltando à realidade. por mais jesuíta que seja.. com a volta da saúde. padre. e ela reencontrou o brilho perigoso de suas pupilas. Angélica perguntou a si mesma se. o guerreiro. o padre devotado à salvação das almas. — Não. Não estou em condições de discutir teologia. por não ter tido mais cuidado. Quero dizer simplesmente que é preciso lançar sobre sua vida um outro olhar. e arrependeu-se por ter sido tão ríspida. mas peque fortemente!.. — Você poderia expor-me os motivos? — Não o conheço suficientemente bem. Não falemos de assuntos lúgubres. .. mas não se deixou impressionar. — Sim! Sim! É assim.. ele não estaria novamente passando desta para melhor.. como duas lâminas brilhantes de duelistas cruzando-se no início de um combate para avaliar suas forças." — Oh! Não me fatigue. Essas últimas palavras fizeram-no estremecer. ou não passava de uma roupagem. Tive uma amostra disso com sua Ambrosina. nas montanhas do Dauphiné". tal como os que dispensam as brasas ardentes de um fogo minando sob um manto de cinzas.

Censurava-lhe antecipadamente esse último golpe. Teria visto esse fim como o anúncio inelutável do deles. Colocava em pratos revestidos com estopa úmida pequenas porções de arroz. tão escuro e tão pouco diferente da noite. permitia-lhe relaxar.. em resposta ao grande silêncio que estivera prestes a enterrá-la nos limbos da loucura. Até o dia em que isso também se evaporou. únicos sobreviventes na superfície do mar. Suas sensações aguçadas percebiam tudo a respeito daquela existência que tomara lugar ao lado deles em seu túmulo. A presença humana ao seu lado deixara de causar-lhe um mal-estar ambíguo. dar banho nas crianças.. que era ali chamado também "moléstia da terra". A noite.. dividindo-o bem ou mal entre noites. quanto nos navios. seria então o momento de ir para trás de sua cortina fazer suas abluções e sentar-se diante do espelho para cuidar por sua vez dos cabelos. Tudo havia mudado. Sede!. podendo enfiar-se novamente sob as cobertas. como se dava conta. No silêncio da noite. Mas algumas vezes sentia-se logo exausta de se manter sentada e voltava rapidamente para a cama. se dispersara.. finalmente. se juntasse ainda o de vê-lo sucumbir. desfrutando daquela calma em que todas as coisas tranquilizadoras estavam enfim nos devidos lugares. do calor. esse leito levou-os de um dia para o outro do inverno mortal. chamando um ao outro nas brumas. Via-o terminar com prazer.E Angélica perdeu um pouco a noção do tempo. do repouso concedido a seus membros enfraquecidos.. como uma jangada carregada de homens exangues descendo a corrente de um rio noturno em direção à luz da primavera. para germinar dia após dia. — Está dormindo? — Não. "Sede!. ele virou a cabeça. trocar os curativos. Por que me salvou? Por que não me comeu?.. náufragos.. acordava surpresa por sentir a doçura de momentos em que. onde se deixava ficar com um suspiro de bem-estar. e compreendeu que não queria que ele morresse porque se lhe afeiçoara. esses germes representavam uma defesa contra o escorbuto. Dava uma colherada todos os dias às crianças. — Sente dores? — Não. entrecortada em alguns momentos pelo estertor ou por palavras desconexas. que ela se cale!. em que precisava levantar-se para cuidar do fogo. Restava apenas a obsessão de que. A claridade dos carvões abrigados sob as cinzas lançava reflexos róseos e dançantes na vigas baixas do abrigo.. às vezes. escovar-lhes os cabelos. ou então: "Ah! que ela se cale!. Sou uma boca inútil. distribuir as refeições. do sono das crianças. a angústia." Era uma voz humana. . Em palavras breves e sussurradas teciam-se uma cumplicidade. quando faltavam víveres frescos. em que se misturavam o medo que se ligava a um nome inimigo e o receio que sentia permanentemente de vê4o morrer. do dia seguinte. de aveia-louca. levou-os ao fundo da sombra. Mais tarde levantar-se-ia para alimentar outra vez toda a sua gente. o leito. ancorada no fundo de seu ser. esquecer a fome e as angústias. quando quis introduzir-la nos lábios do "comatoso". que era quente e onde se podia distender no repouso.. era muito curto. O deserto branco afrouxava seu abraço. Suas rea-ções primeiras haviam se acalmado.. que realizava muito lentamente. escutava a respiração de seu morto. O conforto que experimentava. Cozinhar. uma aproximação de cegos procurando-se em sua obscuridade. gemeu e depois murmurou: — Dê-o às crianças. a todos os fracassos que a ele devia.". sendo tão ameaçador nas invernadas. e os trabalhos diurnos. pois o dia.

Citou "Faudencia de tormento" como método de tortura utilizado de modo corrente. envolvendo de neve algodoada dias em qué o sono tinha tanta importância. Isso ajudou Angélica a dar à existência uma estrutura mais de acordo com a disciplina. que nasciam daquela pegajosa intimidade do inverno.Uma vez ele respondeu: — Não sei. Tudo era de uma leveza. não podendo mais agarrar-se senão a vagas claridades que não sabia como interpretar. o cavalete e o interrogatório pela água. consciente da vacuidade do mundo enfim deserto. de uma simplicidade. dizia consigo Angélica. obscuro e opressivo como um subterrâneo por onde se rateja sem esperança de algum dia encontrar a luz solar na outra extremidade. pela duração de sua salvação. O fogo vinha em seguida. como ele parecia esperar uma resposta ou comentário. também. que foi o Grande Inquisidor de Toulouse durante quase vinte anos. e em que Angélica sentia o estranhamento de ser conduzida por forças vitais de uma espécie desconhecida. É noite. noites em que. de um dia a uma noite e de uma noite a um dia. Essas palavras lhe viriam aos lábios quando se voltasse para aquele tempo. quase os meses do coração do inverno. intimou-o a meia-voz: — Cale-se. as palavras e até essas praias cegas do sono. um tempo fora do tempo. um período interminável e muito breve. ele sempre sabia se do lado de fora era dia ou noite. "Como fomos felizes!".. Tudo tinha um sentido. pontuado de momentos de encantos. dizia. No início. o pensamento se comprazia em eclodir mais livremente. julgando que estivesse delirando. Esses assuntos podem alimentar seus pesadelos. deixou-o prosseguir seu sinistro discurso. confidências. seu núcleo duro e negro. que ajuda os mortais a conduzir a vida. discussões. receando o enfraquecimento da memória. Nela. mas." vindas para ajudá-los a atravessar o inverno num estado de graça semelhante ao que se deve experimentar quando se anda sobre as águas e que. um dos célebres manuais da Inquisição. "Queria não me esquecer de nada". para reuni-los em meses. depois em anos. . os silêncios. podia resistir melhor à tentação de se estirar e se refugiar no sono. tudo foi trocado entre eles. de uma doçura e de uma ternura infinitas.. se a neve caía ou se o céu estava limpo. o sangue não devia verter-se de maneira a acarretar uma morte demasiado rápida. para a purificação. mistificador como úmTlabirinto. Sem se mexer e sem mesmo reabrir os olhos. as semanas. Seguir-se-iam pois as horas e os dias. como que dando continuidade a uma conversa anterior. Narrativas.. Sendo o dia destinado a se ficar de pé e aos trabalhos. no início do século XII. Há muito esqueci o que é viver sem sofrer. pois amiúde não souberam se era dia ou noite.. Eis por que se ativeram a três pontos principais: a roda. se deixava dominar pela influência da noite. os libertava do peso e da impotência que oprimem os humanos. escrito por Bernarel. E começou a discorrer em seu tom de professor catedrático sobre os princípios expostos na Practica Inquisitionis. mas dia. de uma clareza incríveis: os gestos. que aquelas pesadas e inesgotáveis quedas de neve. confissões. mais perigosas que as tempestades uivantes. Durmamos. cortado de remissões ensolaradas. — Não é noite. se o vento ia soprar ou se a geada ia aumentar. ensinamentos. tentação que a ameaçara quando. dir-se-ia ela um dia.

Como se tivesse se esforçado para reunir dentro de si os pedaços de uma personagem que se esfacelara. as revoluções dos tempos e dos espíritos. misturados a alguns ossos e pedaços de pele. diante de uma janela ensolarada. explicou: — Oh! Minha Tia Nenibush me cobria de pancadas. de uma ganga de embrutecimentos. de magister mundano: — Senhora. um velho e um jovem. As palavras que lhe escapavam às vezes. ocupada em redigir suas "Crónicas da jangada de solidão". uma fêmea com o filhote. à razão. Conhecia pelo menos oito receitas diferentes para preparar o trigo-sarraceno. numa certa medida. expulsos de seus territórios pelas intempéries. Dir-se-ia que esta emergia. mas também sobre o futuro. o mingau de milho ou de trigo-sarraceno. a alguns passos de sua casa? . Por exemplo.. até se tornar aquele soberbo penacho que. E eis què ele lhe explicava por que. numa noite de Epifania. A fêmea só parirá oito meses depois. seu chamado faz então ressoar as florestas. acrescido do efeito mais material de revoadas de pauladas. mas era uma ótima cozinheira. os destinos. seu passado. — O alce macho perde os chifres em dezembro. em que duas vozes subterrâneas. gostaria de ouvir-me falar sobre os alces? — Os alces? Mas Carlos Henrique. no outono. a maga de Salem. que o Padre Massérat e seus companheiros morriam sob a neve. de preferência no crânio. replicara: "Alguém um dia lhe dirá". aberta sobre os murmúrios de um parque. arrastando os gémeos para ouvi-lo. num esforço supremo. dizia de repente. garantia: — Gosto quando ele conta histórias de bichos.. e até aquela pergunta que um dia se colocara: "E eu? Quem sou eu?". em que as respostas tinham sido dadas pouco a pouco sobre ele. com sua voz rouca. A pergunta que ela fez: — Como sabia que havia um alce lá fora? Respondeu irrefletidamente: — E você? Como soube. no dia seguinte à caça. como que por descuido. mas estava fora de mim. Daí por que é impossível encontrar. suas voltas à superfície tomavam um aspecto estranho. cujos estupores profundos da alma o haviam ferido. retraçavam esse calvário. não podia ser uma fêmea com o filhote. parece-me. a propósito de discussões para tornar saborosa a sagamité. — Os dois animais. Irritado e perigoso. Foi no dia em que Angélica estava fervendo os cascos do filhote de alce que. e eles só começam a crescer novamente por volta de abril. Para o jesuíta o desenvolvimento da crónica seguia a evolução lenta e anárquica de sua volta à saúde e. No início. deviam ser os últimos sobreviventes de um bando disperso pelo frio e pela fome. hesitante e aplicada. fora cotidianamente cumulado em seus anos de cativeiro. abafadas pela noite e pelo peso do inverno. segundo seu relato. e à qual Ruth. naquela época do ano. e que encontrara em meio aos rastros dos lobos. fora buscar. com as quais. mamãe. aos arrancos. nessa"estação.Imaginava-se mais tarde com uma pena na mão. aumenta a excitação do cio. — Quem era sua Tia Nenibush? — Minha ama iroquesa. sobras do festim. dialogavam tendo por único eco um balbucio de crianças ou o crepitar do fogo na lareira de seixos. — Que estúpida! Eu sabia tudo isso. — Ele não tinha chifres — arguiu Angélica.

.. compreendia melhor que estava diante de um homem que vinha perseguindo-os com sua hostilidade havia muito tempo. — Aquele que levou a notícia não tinha nada que autorizasse a dizer que era um tagarela. morto como mártir dos iroqueses. com um tom de desprezo: — Os tagarelas gostam de criar lendas. sentiu que não estavam.. — Padre — disse-lhe um dia —. missionários ou exploradores de bosques. — Por que tanta animosidade no que se refere a mim. em condições de abordar com franqueza e simplicidade o tema. começou a esclarecer pontos obscuros. Mas. o chefe dos onondagas. — Sim. O jesuíta soergueu-se na cama. —O que dizia exatamente esse colar? —Na verdade. além de tudo.. E nos descreveu seus suplícios e seu. ainda que isso não prove nada. no sentido em que o entende. no que se refere a você. que levava a meu esposo. "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo. há mais de dois anos já? Ele fechou os olhos e deixou passar um tempo antes de responder.Ele sabia muitas coisas sobre ela. Sebastião d'Orgeval. —Ele fez isso! Ele fez isso! — repetiu várias vezes. Verrumou-a com um olhar feroz.. em breve virá a canonização. Ora. jamais foram avaros de suas falanges em prol da salvação dos índios. —É verdade. Por essas explosões de raiva. num relicário. e deixou-se cair sobre o travesseiro. tudo!. a existência daquele jesuíta estivera mesclada à deles. Viu-o sacudir-se em espasmos e julgou que estivesse sufocando. se se lembrasse a que ponto. nas procissões em Quebec costumam levar. Eu sou testemunha". Oh! Como isso era verdadeiro!.. nem um nem outro. o Padre de Marville. Jamais me havia visto!. Mas as palavras exatas do wampum eram: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo". mas ele ria às gargalhadas. padre. Está já na lista das beatificações apresentadas a Roma. avisando-lhe: "O Padre d'Orgeval está morto". Você está morto. Como se explica a divulgação de sua morte e. murmurando: — Mas foi por culpa sua. Trata-se de um de seus irmãos de ordem.. pois os canadenses. com os olhos faiscando de cólera. Sua culpa. Pareceu-me muito sério e pouco afeito a brincadeiras. sem que ela pudesse saber se se referia a Utakê ou ao Padre de Marville. Nesse ponto. eu mesma o ouvi afirmar: "O Padre d'Orgeval morreu como mártir. solícitos em testemunhar pela tortura diante dos pagãos sua fé cristã e sua dedicação ao rei da França. perdendo as forças. um de seus dedos. que confirmava as declarações do Padre de Marville.. Ela recebia pois a confirmação daquilo que até então fora apenas uma suspeita.." Voltou-se para ela. ele se . Acompanhava-o Tahutaguete. da parte de Utakê. eu a vi.. por sua culpa... E afinal não havia nisso 'nada de tão maravilhoso. acreditamos nesse primeiro sentido. Vi o colar e decifrei-lhe a "mensagem". falam de relíquias santas. um riso rouco e desencantado. um colar de wampum. Pouco a pouco. fim.. sobre eles. Adivinhando a que incidente ele aludia. e que a atacara pessoalmente. o chefe dos mohawks. — Ele ousou fazer isso!. padre? Você não me conhecia.. durante seus anos de América.

Como ele evocasse Loménie. que lhe colocara. dominada pela noite e pelos massacres. Essa infância parecia familiar a Angélica. sem conseguir demovê-lo. e elá preferia restringir-se àqueles primeiros esboços de confidências. exceto de seu tempo de noviciado. no início da adolescência. ao lado de seu temível pai. para ir massacrar os hereges das regiões vizinhas. como que invadido por uma angústia enorme. irmão de meu pai. pois . — E foi esse paradigma de vícios que você nos enviou para alcançar seus objetivos de abater seus rivais. Ele falou a esse respeito de boa vontade. Pressentia que era de seu dever ajudá-lo nisso. Nascera pois entre mulheres demoníacas.. tanto pelas armas dos argumentos como por ameaças e alguns socos. Ele pôs na cabeça que eu devia entrar para as ordens.. que fora seu amigo dos tempos de colégio. Adivinhava o mergulho que ele seria obrigado a dar. ainda muito jovem. pela graça de Deus. Ignoro se. da baía Francesa!.. de que tudo o que eu vivia no domínio paterno não era sadio e acabaria por causar minha perda moral e física. — Eram todas Liliths. que os aproximava pelo conhecimento íntimo e sem ilusões que cada um deles tinha acerca daquela criatura. — Um magnífico combate para duas belas mulheres!. insisti junto a meu tio em acompanhá-lo. Falava de bom grado sobre sua infância..chocava contra um obstáculo que o deixava ofegante. Ela o encorajava. Você triunfou! — Não inteiramente. Mas quando começou a explicar-lhe com veemência o desenrolar dos últimos acontecimentos. O que acontecera depois que fora para as tribos iroque-sas não lhe interessava. e que somente ela podia fazê-lo. em especial no da mentira e crueldade. Ambrosina. ao Maligno. não sei mais. provavelmente por causa das histórias e da pessoa de Ambrosina. Preferia que ambos permanecessem nas explicações superficiais. Consciente. encantadora como um anjinho. de diferentes formas. Os dois enormes indivíduos lutaram durante dois dias. Desde muito jovem. tão perigosa. D'Orgeval deu um sorriso zombeteiro. tão feroz em descarregar a férula da Igreja sobre suas ovelhas quanto meu pai com sua espada sobre os hereges. Seu espírito parecia detido diante dos primeiros episódios de sua luta. cada uma delas submissa. Voltou com frequência a seus anos de estudos na adolescência. nas zonas proibidas de seu ser. Foi assim que entrei para o Colégio de Clermont dos Jesuítas em Paris. bispo ou cónego. a mulher primeira do pecado. um espadeirão nas mãos. falando da amizade do jovem Cláudio de Loménie-Chambord. e meu pai tentou inutilmente demonstrar-lhe que eu era seu único herdeiro. esmerava-se em todos os vícios. um dia ou outro. ele demonstrou indiferença. como filho caçula. Ela voltou para concluir sua obra. Ela não pensava que você lhe devolveria suas armas: astúcia e impertinência. ai de mim! Pois ela tampouco estava morta. o eclesiástico queria ficar com uma parte da herança. Não parecia convencido de que se tratasse da mesma Ambrosina. Foi minha intervenção que decidiu a partida em favor do bispo. Infância soturna. ela se informou sobre os acontecimentos que o tinham levado daquele rude Dauphiné ao convívio dos jesuítas. — Eu tinha um tio. abençoado pelo capelão do castelo. o princípio feminino do Mal.

— Creio poder assegurar-lhe que meu^esposo. Voltava depois à infância. Naquele dia ele se recusou a dizer qualquer outra coisa. Dessa vez. sempre se mostrou disposto a encontrar todo habitante ou missionário da região. Mais tarde. não foi o perigo da vinda dele o que me alertou. Uma vez mais. Dominado pelas fontes e pelo sangue. — Ele continuou: — Por isso. aquele que ele preparava para mim era de uma espécie desconhecida.. vindo para cá. quando eu embarcava para a América. que não conseguia superar com palavras sem desmaiar. Mas eu tivera uma espécie de sonho: "Tudo começa. escocês... a assuntos menos penosos. Ao contrário. — As crianças se lembram do inefável. Os caminhos que fui obrigado a tomar em seguida afastaram-me de sua doçura. Tudo começa". apontando o quadril. no início. gritava-me uma voz na nuvem. e que a disciplina da ordem lhe impunha calar. a harmonia e ó caos. Conseguem conciliar melhor a' lu"z e a sombra. — Quebraram não. nem sequer estava presente nas paragens da baía Francesa. que se tornara Cavaleiro de Malta. e em que fora bemsucedido. dessa vez. Eu era -urna criança da natureza. CAPÍTULO XX Uma paixão condenada . esse trazia consigo minha perda. — Eles me quebraram alguma coisa aqui — dizia. para se aliar a ele. torceram. A América! Acreditava que.. parecia-lhe. Era um flibusteiro das Pequenas Antilhas. As mulheres escapam com mais facilidade a essas influências. Mas nada em sua vida fora anódino. Se eu via nele um perigo. Mas havia mais alguma coisa. vedados ao profano. fiquei imediatamente de sobreaviso. eu alimentava ilusões. reconduzia-o a questões anódinas. a perda daquele estado de inocência quando chega a adolescência. inglês.. ao se instalar nas costas do Maine com cartas de gerência do Massachusetts. depois de anos de lutas. pior que isso. onde me esperava meu antigo condiscípulo Cláudio de Loménie-Chambord. A baía Francesa é um tal cadinho de nações que todos podem ainda encontrar ali o seu lugar. Quando fingia não se lembrar ou estar confuso. nas costas da Acádia. mas para deplorar.tratava-se de longos anos de iniciação. francês. mas ele se referia a seus mestres-jesuítas. O êxtase é algumas vezes concedido somente ao inocente. — Para dizer a verdade. a luz estivesse à minha espera.. até que o ramo cheio de seiva se tornasse seco e petrificado e incapaz de renascer.. Julguei reencontrar isso algumas vezes junto ao pequeno Cláudio de Loménie... eu continuava esperando encontrá-la. que eu viera trazer para cá. Com que rapidez a cinza e a areia são lançadas sobre seus sonhos. Tomei informações sobre ele. Recomendava-lhe então que tivesse pa ciência. Via estender-se até os confins dessa terra selvagem o reino de Cristo. E ela julgava que' estivesse falando dos torturadores iroqueses.. que não dependia nem do rei da França nem do rei da Inglaterra. quando soube que um fidalgo de aventuras. Quanto a mim. A obra que eu abraçara. ela sabia que nele isso era sinal de uma dor insuportável. à negra infância. ignorava tudo a seu respeito.. alguns anos mais novo que eu.. se instalava nessa no man's land do Maine. preenchia minha expectativa!.

. uma afirmação de não se deixar deter por nada.. banhar-se num dos dez mil lagos da regiãodo Maine americano. a fim de retomar fôlego. "Não sei por que esse detalhe me atormentava o espírito como uma verruma de artesão penetrando profundamente na madeira e extraindo-lhe a substância. mas não era a primeira vez que meu amigo de infância e eu fazíamos nossos negócios de acordo com nossas próprias ideias. e que eu sentia como um desafio.. Ela era em toda parte a presença temível. De minha parte eu me preparava para reunir-me a um segundo contingente de forças armadas vindo de Trois-Rivieres e de Ville-Marie. não apenas com mulheres e crianças. daqueles que subiam do sul numa caravana. com uma voz sufocada. Ela. assim como da região do Richelieu. 'a mulher nua saindo das águas". num âmbito de milhares de milhas ao redor. deixou passar um longo momento de silêncio. Menos por pudor que por estar habituada a esse tipo de debate. Mas eu andava como num pesadelo. a fim de chegar antes 'deles'. como lhe acontecia regularmente. por ordem minha. Loménie. comandados pelos melhores senhores canadenses que já me haviam acompanhado em minhas campanhas contra os heréticps da Nova Inglaterra: L'Aubigniere. ela não procurava romper o silêncio. Huronianos e algonquinos. que ela julgava dentre os mais inalienáveis. A essa altura. a cavaleiro de um lago. de que pudesse ser percebida por um estrangeiro-. eu tinha conseguido até então que os diques não se rompessem — declarou de repente. numa cálida tarde de verão indígena. "Pronto!".. apesar do cuidado que tínhamos tido em prepará-la. realizando uma façanha sem precedentes. tive de me deter. Pois uma notícia me fora transmitida: 'eles' subiam com cavalos.—Seja como for. "Agíamos sem a aprovação de Frontenac. Ele calou-se. "A floresta chamejava. Eu o apressara a pôr-se em ação. mas com cavalos. "Ele e eu tínhamos feito um acordo de "arrancar sem demora as raízes do invasor. "Estava indo pois ao seu encontro. foi naquele dia do outono. pensou Angélica. Continuou. Minha angústia chegou a tal ponto que. Eu andava na floresta. monocórdia e por instantes trémula: — A primeira vez que os diques se romperam. e com Loménie e as tropas que os esperavam para trucidá-los. "O pressentimento associado a meu sonho abalava minha convicção de levar aquela campanha a bom termo. eu a via chamejar a meus olhos.. O vermelho e o dourado das árvores no outono cercavam-me de chamas imóveis.. de poder. no cimo de um promontório.. Quero dizer.. "Havia nessa audácia de invadir o centro de uma região até então deserta. "Eu começava a andar num estado desdobrado. Maudreuil. "E foi então que eu A vi. Havia expresso muitas vezes sua defesa quanto a seus direitos. Mas quando ele se calava. Depois. dando a impressão de que perdera o fio do pensamento ou que adormecera. Estava ao mesmo tempo com os estrangeiros e seus cavalos. e o calor incandescente do dia contribuía para essa miragem. Menos por tolerância que por lassidão. seguro de ter posto tudo em açào para acabar com os indesejáveis. de passagem por ali. região por outro lado considerada tão impenetrável que havia poucos riscos. depois prepararia a emboscada. Pont-Briand. devia investir contra o posto de Katarunk. Cláudio atearia fogo no posto. reconhecidamente escaldante. a certeza de que nenhum daqueles estrangeiros lhe escaparia. uma tranquila segurança de se mostrar finalmente o mais forte. que prometiam -proliferar.

as únicas palavras que podiam obrigá-lo a reconhecer que ele se utilizara disso para subjugar os espíritos..permanecia. — Fale agora. indecifrável para todos ou quase todos. "Pior: agindo dessa maneira.. "Encontrei-me nu. não tinha outra alternativa. tudo foi destruído. mas que encontraram um pretexto para eclodir. subitamente. por isso mesmo. Depois.Que isso tenha acarretado toda uma série de dramas. o Amor. foi o que se encarregaram de fazê-la compreender no decorrer dos anos. O Amor!. que somos os únicos a viver. voltando à sua cabeceira. Ela se levantou e foi encher uma tigela com uma bebida quente.. Que você queria esconder? — O que me aconteceu. estrangeiros jurados de destruição. insaciável. Depois do que acabava de me acontecer. minha condenação.. que eu me apresentasse diante de vocês. Mas. num mundo povoado de inimigos. pois abrem-nos um paraíso. — É verdade. A vontade de reduzir o caso a suas proporções normais ditou-lhe uma reflexão muita chã. em que vira apresentar-se ao mesmo tempo toda a artificialidade do fenómeno." — Valia a pena fazer disso um drama tão grande? — disse ela. e que deviam ser evitados e combatidos. com uma voz sufocada. Mas eu me escondi.. Isso exigia demais de mim. Único em minha espécie. às penas de uma paixão que só poderia ser corrosiva e mortal. "Caí fulminado como por um raio. pois era assim que eu sempre considerara os transportes do amor. Decidi prosseguir meu caminho na direção escolhida. e dos quais. entreguei-me. Ao contrário. de complicações e até guerras. fazendo de mim um danado que queimava de um fogo cujo domínio jamais eu suspeitara. através de delícias e sofrimentos. me sentia presa. deslizou-lhe o braço sob os ombros. E tudo não passou de uma lenta e convulsiva queda de todo o meu ser até o fim.. a dar. e que reconhecesse: "Sou um dos seus". prudentemente. poderia enganar-se a esse respeito! — É verdade — concordou. Eu compreendia. melhor. . — Sim! Pois era a negação de toda a minha vida e. a partir daquele dia. — Mas afinal o quê? — Como vou sabê-lo. adivinhava-o antecipadamente. mas que . Decidi esconder-me atrás das mentiras. amparando-o enquanto ele bebia. se quiser. mas também sua amplitude secreta. ele exigia que eu abandonasse tudo. Como explicar o sentimento que se apoderou de mim? Mais do que um sentimento. mas do mesmo modo que o animal em perigo se camufla. Um dia eu lhe explicarei tudo.. Devia obedecer à iluminação? "Não pude fazê-lo.. Encontrei-me só. aproximando-me de seu objeto. jamais tive a menor dúvida de que não fosse você a mulher demoníaca da visão de Madre Madalena de Quebec. "Quantas confissões tinham me descrito os mesmos sintomas irresistíveis. sem sequer a fé num deus qualquer ao qual pudesse oferecer o sacrifício de minha metamorfose. — Não me diga que julgou ter visto realizar-se a visão da Madre Madalena sobre a Diaba da Acádia que agitava sua grei! Você. que teriam provavelmente-ocorrido cedo ou tarde. A descoberta de paixões desconhecidas? Você não pode compreender. não porque lhes desse crédito. Ele gemeu. menos que ninguém. Seu peito erguia-se de maneira espasmódica. como o jovem rico do Evangelho. A palavra é fraca. em que se é o único a penetrar.

eu teria retomado a cidade. não recebeu nenhuma notícia de quem quer que fosse. nada mais que selvagens. banido e relegado. mais ou menos desprovidos de licença. num súbito acesso de cólera: — Sem sua intervenção. sozinho e sem amigos. recusando-se a tomar conhecimento de fosse o que fosse que acontecesse no Canadá ou na Acádia." Falou pouco dos meses passados nos povoados de um largo setor entre o lago Frontenac ou Ontário e o lago Huron. naquele último encontro.. pois nenhuma notícia chegava jamais sobre ele. Mandei buscar na França a súmula do processo de feitiçaria movido outrora contra seu marido.-Marie. Ninguém procurou se informar sobre o lugar em que se encontrava nem fazer chegar-lhe às mãos qualquer mensagem. como do Forte Frontenac. O ponto de ligação dos missionários era esse estabelecimento do Forte Sainte. Entretanto. Fui para muito longe. O Sr. os andastes. de que estava prisioneiro dos iroqueses. Maubeuge me exilou. Procurava evitar os exploradores de bosques e os comerciantes canadenses. e a Sra." Deteve-se. para lá das corredeiras. e não mesurpreendeu. como. perto de Montreal. convertidos. mas também para receber proteção dos militares franceses. " "Sentia no fundo de mim a covardia. Fora os homens de guarnição dos fortes. ademais.Mas sua vitória em Quebec suplantou-me em rapidez. "Meus votos de obediência me obrigavam a me afastar. Segundo o que dava a entender. Quando vocês se aproximaram de Quebec. cuidadosamente dissimulados aos olhos de seus irmãos de religião. a fraqueza invadindo-me. parecia ter atravessado aqueles anos. sempre estivera. de Peyrac . censos e senhorias da Nova França. no momento em que me sentia mais desprovido. isolados. num estado de transes nervosos. não somente a fim de poder praticar sua nova fé. compreendi que ninguém se preocupava comigo — disse com um muxoxo de amargura.. raros e a semanas de marcha uns dos outros. "Perdi meus poderes. à beira de um lago.. depois lançou. As missões agrupavam os índios batizados e os catecúmenos de nações iroquesas. Eu o soubera. selvagens. num outro tom de voz: — Maubeuge. de onde partiam. e também iroqueses das Cinco Nações. e o medo de ser despojado daquilo que constituía minha força dominadora sobre os outros me atormentava. meu superior. — Nem com o que podia acontecer-me. me exilou. no fundo. eu já sabia. perseguidos e expulsos de suas tribos por esse fato. nem com a importância dos trabalhos aos quais eu dedicava meus dias. que se apresentavam como anos ativos de apostolado. e à exceção da passagem de alguns "viajantes" ou exploradores de bosques. os outros jesuítas. mais ou menos dispersas e aniquiladas pelas guerras com seus congéneres pagãos: os neutros. Daí o rumor que se espalhara prematuramente nas cidades."Contra você e os seus. — De fato. Eu estava vencido de antemão. e de seus ajudantes e servidores franceses. Eles deixavam o vale dos Cinco Lagos para vir se reunir à sombra dos franceses e dos jesuítas. os do Erie. Situava-se a meses de navegação do último ponto da Nova França habitado. o jesuíta. o que ele me disse. Não sem antes fustigar-me com palavras duras. tentei todos os meus planos. e vocês não a teriam conquistado. Continuou. todas as expedições para o alto Saint-Laurent e os Grandes Lagos. num clarão. o povoado de Lachine. reconstruído no estreito que ligava o lago Huron ao lago Superior ou Tracy. E.

Depois de dois dias de caminhada. sempre a mesma. Mas apenas depois de minha 'morte'. eu me dirigia a uma aldeia para celebrar a missa. haviam mergulhado num sono tranquilo. enquanto eu.. Conhecíamos a sorte que nos estava reservada. colocando a mão sobre a dela. em companhia do Padre de Marville e de um jovem "dado"canadense. Certa manha de verão. Estava num inferno povoado de demónios. por me ter aparecido! "Mas. espreitando as horas. guerreiros e prisioneiros chegaram às cercanias de uma das primeiras aldeias do vale dos iroqueses. "Subsistiam em meu espírito apenas o medo visceral das torturas e. Num inferno às portas do qual havia deixado toda e qualquer esperança. ávidos em se beneficiar com o encontro. E eles.estavam em Que-bec. Você não viveu. tremendo dos pés à cabeça. A tortura e a morte nos esperavam. as razões daquela odiosa fatalidade. como você disse. como um animal forçado que sente a morte e espera o abate. As palavras saíam-me dos lábios como substâncias estranhas. 'Ah! que a noite jamais termine.: "Não". dizia comigo. quando fomos cercados por um contingente de guerreiros iroqueses. naquele momento." CAPÍTULO XXI O suplício entre os iroqueses— Um covarde entre os heróis —Eis em que circunstâncias fui capturado. a não ser por existir. que. surgindo desse caos como que para me desafiar. Você não tinha nenhuma responsabilidade sobre aquele delírio que me corroía havia tanto tempo. Um rosto. e todos procuravam voltar-se para os vencedores. humanos dementes e cruéis. essa morte que. penetrado pelo terror. E a lembrança daquela a quem eu devia minha queda voltou-me ao pensamento. "Queriam esquecer-me. Você sabe como eles são. Eu mesmo os exortara a essa serenidade. rejubilar-se. uma silhueta de mulher. antes de o ser na Nova França. "Tudo isso é falso. que Ele nos destrua a todos. "Ora. Eu olhava com inveja meus companheiros Marville e Labour. Emanuael Labour. que não comece um novo dia. Estamos andando pelo centro de uma floresta aparentemente deserta. e subitamente os troncos das árvores se desdobraram com uma silhueta humana.. O calvário começava. que havia um ano fora para ali devotar-se à conversão dos selvagens. "A noite foi longa na cabana onde fomos encerrados. Eu não fizera por merecê-lo.' "Ah! A agonia de Cristo. Você. mas que jamais chegue o instante da dor que nos preparam. eu hauria um sombrio sustento . depois de terem rezado. "Estava no inferno. dormiam. "Fui invadido por uma fria paralisia. que não conheceu o amor. E era mais simples dizer que eu era cativo dos iroqueses. via aproximar-se o momento das assustadoras torturas que já conhecera. dizendo-lhes que eles estavam nas mãos do Senhor. — Nenhum de nós tinha ilusões. O céu era surdo. vermes da Criação. mas na qual os pássaros estão calados. Não conheceu a felicidade. como estava próxima! Nenhum anjo veio me consolar. disse ele. vai ser entregue aos bárbaros para suplícios aos quais sua carne se recusa. cativo eu fui. Que Deus pare a terra. felicitar-se com minha perda. em meu pensamento. além de alguns neófitos. E eis-nos cercados por fantasmas emplumados que se apoderam de nós.. Eu desaparecera. reconfortados por minhas palavras. foi inicialmente anunciada na Nova Inglaterra. 'E agora esse corpo.

vi a luz do dia invadir um céu puro e suave. que haviam sido colocados numa outra cabana. pegando-lhe a mão. também nesse caso. Ora. Depois percebi os bafios do cheiro de carne grelhada tão característico que uma-brisa levava até nós: o odor dos suplícios. para conservar-lhes a brancura e a saúde. nos quais.' "Pus-me a tremer. "Ao alvorecer. Outros se calavam. como ridícula e perigosa impostura. "Três pilares nos esperavam. "O sol nasceu. "Subia-me aos lábios um grito que. os guerreiros eram numerosos. Até a clareira onde. surgiu Utakê. Por essa brecha todas minhãs defesas haviam fugido. nem de ser diminuído diante de seus inimigos. Mas Deus me enganara. mas de uma insuportável injustiça.. "As náuseas do medo atormentavam minhas entranhas. 'Duas vezes. "Revezando-se junto às vítimas. que me enfrentou com seu olhar brilhante. num último sobressalto de dignidade. mas com olhares lúcidos ainda. para ter-se combatido e feito perecer amigos e parentes mútuos. reunidos numa espécie de silêncio solene e preocupado. '"Você tão orgulhoso de sua dentadura. como nós. "Desse despertar dava minha perda.. . cortado apenas. Toga Negra. e todos devemos nos esforçar para enfrentá-lo eventualmente.. com sua aparição. por uma litania de insultos e de responsos. ter perdido meus dedos. começou a serrar-lhe uma falange com o gume de uma concha. periodicamente. "Foi então que ele se aproximou de mim. cuja malícia jamais soubemos discenir. como todos os brancos. eu impedia de sair. £ eu o vi mascar goma misturada com argila fina e suco de su-magre branco. e sobretudo. nossos índios continuavam a insultar seus torturadores. entre aqueles demónios prontos a me imolar pàrecia-me não só intolerável. disse ele. refletindo-se na superfície de um lago. "Disse-lhe uma vez que eu não estava preparado para nada do que empreendera. começarem a cantar seus cantos de morte. com a língua cortada ou queimada. para lá da palavra.num sentimento de rancor e de ódio para com uma personagem símbolo — uma mulher — que. Um serviço limpo e rápido. lançavam-se ao rosto uns dos outros as razões que possuíam para se odiar. de seus amigos!. "Minha presença-naqueles lugares. não!' "Eu acreditava ter ganho por meu primeiro suplício direito à serenidade e à predominância. pois o canto se distanciava. não! Duas vezes. Outra coisa. já bem queimados. fruto ela mesma de um monstruoso engano. transtornara o curso de minha vida. 'Inveja'.. "Diante de mim. e muito mais mortal. Percebi que vinham buscá-los. huronianos e iro-queses. mas por instantes podia-se ouvi-lo vogar pela floresta. fazendo-me abrir a boca. Você não gosta de sofrer. porém. uma coisa é tomar consciência de um erro ou de um fracasso. acima da aldeia. "Levaram-nos por nossa vez. nossos dentes sadios. quebrou-me dois dentes. conforme o ritual. Não me bastava ter sido torturado uma vez. Ouço dizerem: 'Que belos dentes têm esses selvagens!' E eu sei que você procurou descobrir nosso segredo para conservar os seus tão belos e brilhantes quando eram quando chegou a nossas terras. sempre espreitando. já longa. Toga Negra!'. Por um interstício das paredes da cabana. munido de um sílex de gume afiado e de um pequeno malho e. "Um guerreiro aproximou-se do jovem Emanuel e. é perceber sua própria existência. ouvi nossos índios cristãos.

"Mas essa situação humilhante foi julgada ainda muito honrosa para mim. Ycalme-se! Acalme-se! — dizia-lhe Angélica. — Eu não ocultava absolutamente. . Não poderei mais dizer a missa. mas o centro de meu espírito tornou-se um turbilhão de revolta. Eu ouvia esse grito e não sabia que era eu que bramia. meu Padre! Tornaremos a falar de tudo isso um outro dia." assistiam a minha ignóbil fraqueza. Acariciou-lhe suavemente a fronte. Eu a teria comido. no pilar de torturas. que havia trazido a toda a Companhia uma vergonha sem precedentes. Mas era-lhe preciso prosseguir o alucinante relato. "Levantaram-me brutalmente. não!. —Há uma certa volúpia em ser covarde. dentre os neófitos.. "Joguei-me de joelhos diante de Utakê.' gritava-lhe. aquelas pequenas criaturas inocentes de unhas pontudas não eram melhores que seus esposos. adivinhando o veredicto. mas por mim. "Um grito! Um grito de pavor soprou em meu peito como um furacão. mas poupe-me da tortura. o olhar azul e cândido daquela criança. Rastejava a seus pés. desespero e recusa.. do pequeno 'dado2 canadense. e pelas gotas de sangue caindo pesadamente no chão. Eu teria beijado a terra viva. o que era reservado aos guerreiros poltrões que davam mostra de pusilanimidade diante da morte e do suplício. "Eu ouvira os chefes discutirem sobre entregar-me às mulheres e às crianças. se estreitaram. — Acalme-se. Emanuel. e dessa vez ele não passará por cima disso.. Os olhos de Utakê eram duas lâminas cortantes. e que. Que me poupasse sobre tudo o suplício. com a fronte na poeira. horrorizado!. Ela se levantou e foi banhar-lhe as pálpebras.. incrédulos. me olhava. daqueles que me cercavam."Tudo se misturava. O papa me recusará autorização por causa de minhas mutilações. 'Mais uma vez. As lágrimas escorriam em pequenos sulcos pela face machucada. O que posso dizer-lhe? Como descrever o covarde alívio que eu experimentava por me reencontrar vivo e ver afastar-se o espectro sinistro dos sofrimentos desumanos? Pouco me importava o desprezo com que todos me cumulavam. num tom baixo e reconfortante. quando se lutou a vida toda para dominar os demónios do medo — continuou ele.. enquanto ele arquejava com soluços secos e dilacerantes. estará acabado. os carrascos e as vítimas. "Depois. permaneci estendido no chão. pais e irmãos para fazê-lo morrer como um covarde sofrendo dores inomináveis. e. daqueles. os amigos e os inimigos.' "O que havia de mais horrível nessa cena abjeta era perceber os olhares perdidos. nu.. 'Mate-me. "Era uma coisa demente e sem lógica. nãol-Mais uma vez." —Não chore — disse ela.. Você pode ficar cego... todos aqueles olhares se apagaram. disse comigo.. Nió pelos sofrimentos e pela morte próxima... escandalizados. pois saberá que não sou digno'. que se deixava destacar. sem um queixume nem um sinal de medo. tanto dos carrascos quanto de meus infelizes companheiros prometidos ao martírio. e que. que ja haviam derramado seu sangue. Dessa vez. me olhava. horrorizado!. semimortos. suplicando-lhe que me poupasse. — Faz mal a seus olhos. se me cortarem outros.e sofrido sua paixão pela fé cristã. acredite-me. "Eu pensava: 'Eles já me tiraram dois dedos. constelada de equimoses e de cicatrizes pérfidas. Estava abnubilado por aquele dedo branco do jovem adolescente que o índio ia serrando com a concha.. passaram a ser um único olhar. "Meio desfalecido depois dessa crise. os vivos e os mortos. 'Graças a Deus'.. farei o que você quiser.

como se recitasse uma frase que lhe martelava a memória. enviou primeiro a você. Os termos da confissão que acabara de fazerlhe. esse colar que dizia: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-la". — Assim." — murmurou. e tudo o que implicavam. para ser seu servidor e substituir-lhe o filho.. você sabe que os sonhos têm para os índios uma prioridade absoluta sobre a realidade dos fatos. pois jamais se vira uma mulher da aldeia servida por um prisioneiro que se houvesse mostrado tão covarde diante da morte. como deseja. dizia-me.. pouco robusto. de L' Aubigniére. e queria que fôssemos avisados antes do franceses. . a quem eu havia combatido tanto. e esclareciam em seu espírito. aniquilado.. entre os índios. no momento daqueles acontecimentos. me atiraram como lixo aos pés de uma mulher velha. Mas para ela essa divisão do tempo não passava de brincadeira. morrera com muita coragem. — Por que Utakê quis que os ingleses fossem os primeiros a saber? — Não era "os ingleses primeiro". de que eu era seu filho ou a reencarnação dele. que se estabeleceu pouco a pouco. — "Inimigos mais terríveis do que eu sou para você." CAPITULO XXII À cabeceira do supliciado Quando ele se calou. com as pálpebras fechadas. mas nós. disse-me. pois vira em sonho que eu era seu filho e que minha atitude diante dos chefes das Cinco Nações a desonrara. que o honrava. Oh! Como ele tinha razão! "Haveria criatura mais desprezível e mais despojada de todas as possibilidades de prejudicá-la que eu?! Mas eu compreendo a que imperativo obedeceu Marville." 'Não espere nada de mim'. portanto. apoiando-se na certeza.' "Nada mais de seu desprezo me atingia. Angélica ficou durante muito tempo sentada à sua cabeceira. precisamente. ainda não lhe fora dado como escravo. — Agora compreendo. "Minha patroa me moía de pancadas. mas de sua existência. e isso era muito vergonhoso para ela. Então eu lhe lembrava que seu filho. tão repugnante em suas súplicas. 'Não lhe concederei o benefício de matá-lo com um golpe de tomabawk.. Você susparia o título de mártir junto a seus irmãos. — O jovem Emanuel? Os iroqueses não o imolaram? — Não. Você nos faz não só duvidar da grandeza de seu Deus. Ela falara a meia-voz. A vergonha recaía sobre ela. Essa perda a deixava sem ninguém para levar-lhe caça e realizar as tarefas que a idade avançada não lhe permitia mais efetuar. 'Como você pôde fazer isso'. que ela perdera na guerra. que representava meu filho?' Eu tentava mostrar-lhe que. Utakê sabia que estávamos na Nova Inglaterra. Era esse. de seu martírio..-Ora.. nós o vimos vivo. em seguida.. Ora. e ela era objetivo de zombaria e de brincadeiras perpétuas por parte das companheiras. não existe antes e depois. chegou a Salem para levar a notícia dè sua "morte" e. torturado durante pelo menos seis horas pelos huronianos do Sr. para si mesma. Mas isso não a consolava. o terrível segredo que o jovem Emanuel queria confiar-me no jardim. Ela abriu bruscamente os olhos. e me feriu com sua conduta. meu esposo e eu. Ele acompanhava o Padre de Marville quando este. Ela confundia seu filho e a mim. escoldado por Tahutaguete. Você é muito vil. E isso não lhe concederei tampouco. "Para certas coisas.. a mim. o chefe dos onon-dagas. tanto mais que eu era muito desastrado. mesmo quando. 'você.

rememorando o luxo de detalhes com que o jesuíta lhes descrevera em Salem a "morte gloriosa" do Padre d'Orgeval. a Mulher. Através da personalidade orgulhosa do Padre de Marville.a suas palavras. a morte de mim mesmo. subsistia em mim a vontade de clamar minha justificativa. um sofrimento verdadeiro. é a ela.. No momento em que o chefe Utakê baixava sua mão e. Eu não era mais nada para eles. de respeito que eu acreditava que tivessem por mim. que eu conseguira persuadir-me de meu enfeitiçamento. de dar àqueles que eu escandalizava pelo menos uma explicação que ateuasse o alcance de meu ato..... que eu quisera ser?. A ordem dos jesuítas tinha sido marcada com a mais horrível das máculas: a abjuração. receando que fosse acometido por um novo acesso de febre. semelhante a um estertor. A verdadeira morte. mas minha obsessão nutrira-se de tantas aberrações. Minha morte total. Eu não existia mais. Eles não eram meus amigos!...... o objeto responsável por minha ruí-a.testemunha de meu renegamento. isso era levar a hipocrisia muito longe. com todas as minhas forças essas palavras. enquanto ele continuava a falar. Levantou-se para ir preparar e aquecer as rações. que sonhara ser. que eu sentia desabar sobre mim. eu proferi... não deu atenção . eu gritava em vão. que devo minha morte. concedia-me perdão.. de decepção. que eu tinha sido vítima dos maus espíritos. feito de humilhação. "Eu o sei. . e só me aparecia ""esse caos. declarando-me morto. acusá-la. Vinguem-me!. E fora ela que me matara. — Que seu irmão em religião o tenha feito passar por morto. por não ter outra solução para ocultar sua vergonha. nem admitir. sentira vibrar um sofrimento de esfolado vivo. Em toda aquela cena não deixara de supor o tempo todo uma mentira oculta. gritei. "Eu gritava: 'É ela. como lhe disse. por exemplo. Era uma ideia louca." Deu um soluço profundo.' "Vi suas faces lívidas e rígidas. Ela. eles me rejeitavam... Eles não me vingariam como eu merecia ser vingado.. monstruosa.. O que há de verdadeiro nessa acusação que. a morte total. Soube que nunca me tinham amado. Eles não me vingariam. Nada subsistia dos sentimentos de afeição. a mulher cuja visão me arrastara por um processo que eu não odia nem analisar. eu admito — disse ela.. Soube que.. áDama do Lago de Prata. numa loucura fatalmente con-ária a tudo o que era o caminho reto de minha vida até então.. a Dama do Lago de Prata é a causa de minha morte. teria proferido em seu suplício: "É ela! É por sua culpa que morro!"? — Tudo isso é verdadeiro. de pavor e de pesar. Sua intuição era portanto correta. de devotamente.. avisando-o de que estava na hora de seus "ágapes" cotidianos.. — Eu falava de minha morte.. Podia-se adivinhar o que sentira aquele jesuíta convicto diante da ruína do mestre. pensou Angélica.. — Mas que tenha aproveitado a oportunidade para invocar sobre nós a maldição do céu e nos tornar responsáveis-por seu suplício. ao denunciar os sortilégios e gritar-lhes: "E ela! E ela que me condena. A morte do herói que eu havia sido.. ao que parece. que devo minha p^rda. durante anos de mutismo e de solidão. Sim. Vinguemme!. deve-se fazer-lhe justiça". a você especialmente. ponto de me persuadir de estar certo. a seus olhos. por desprezo.. e Angélica. minha inimiga de sempre. Era preciso salvar a honra da ordem!" "E certamente não poupou esforço para isso. Tinham dormido durante minha agonia! Horrorizados com minha abjuração." Ele se agitava. da covardia do maior e do melhor dentre deles... fazê-los acreditar..

seus dois anos e meio completos e solidamente postados em seu lugar nesta terra.. Havia recebido um abalo interior mais violento que o da tortura. ou a obscura intuição daquilo que se declarava hostil à sua família.. os cabelos embaraçados e sedosos. baixinho. o Padre de Marville. em sua perplexidade. de nossos combates imbecis!. Cranmer. sua criadagem e tripulantes?. "Enquanto Tahutaguete o conduzia para a costa. mas. e depois as fazia sentar-se num banco diante dela. "Vocês já faziam parte da tribo. caso não estivessem saciados.— É verdade. Angélica. com o rosto encovado pelas privações. deve ter re-moído sua amargura. estava sentada nos degraus da escada de Mrs. a luz de seus olhos e de seus sorrisos.. a parturiente. Tomava-as nos braços e ninava-as. uma após outra.. deu-lhes um pauzinho de ju-juba para enganarlhes a fome. "Para não ser por sua vez destruído. apontava-a e gritava: "E ela que é a causa dessa morte". à cabeceira . "Vocês são a consolação do mundo! São o tesouro de minha vida!". precisava construir uma versão. Pois bem! Agora vejo que não é lenda quando dizem que os jesuítas sempre se apoiam. sua mes-nie. e embaixo. a sotaina esfarrapada. conteve-se.. deve ter-se apegado a esse pensamento de combater inimigos. Mas não era o momento de recomeçar o debate. em que a vida e o vigor fremiam novamente. Ria sem querer daquela lembrança. como profeta vingador. Pelo menos foi como indiquei a Marville. e sendo seus recursos de transmutação mística limitados. Não era hora para amenidades. Beijava-lhe as bochechas frescas.. murmurava. Fez as crianças se levantarem.." Angélica escutava-o. parece até que você o aprova!. Explodira então o vigoroso concerto gemelar e contestador daquelas criaturas que. cantarolando-lhes um versinho... Teria sido o rumor de vozes desagradáveis ou o fato de se verem subitamente postas de lado por pessoas habitualmente atentas e subitamente transformadas como galinhas no galinheiro pela aparição de um jesuíta no seio da puritana Salem. que acabara de pôr no mundo em Salem. Olhando para os gémeos. haviam desaprovado em altos brados a intervenção do Padre de Marville.. enquanto passeava de lá para cá. "São a justificativa de nossas lutas ferozes. — Palavra de honra. eu gritava que era preciso destruir aquela feiticeira. Então. não pesavam seis libras." Ou simplesmente as amas-de-leite nervosas e curiosas tinham esquecido a hora da mamada?.. adorava sua fragilidade e sua inocência. meus pequenos Peyrac!. pôs a esquentar o caldeirão cheio de água para as abluções e arrastou o escabelo para o outro lado da cama. cercada por todas as mulheres inglesas e heréticas da casa. o caminho a seguir para prosseguir minha luta. derramava sopa numa escudela e distribuía o alimento em suas boquinhas abertas como as de passarinhos. seus pequenos corpos harmoniosos e perfeitos. Depois de alimentar seus filhotes. para despertá-las suavemente. em seu roupão caseiro. sua casa. juntas. Era um ritual imutável. evocou-lhes a primeira cólera. apesar de vontade de descrevê-la a seu hóspede. Humilhado como estava diante de minha ruína. Está bem! Está bem! Ele agiu corretamente. E o espetáculo se encerrara. como um segredo ao seu ouvido." Dava a cada uma um pouco de carinho. em qualquer circunstância. intrigada. quando as duas "coisinhas".

.. o fim de nossos mundos... — É por isso que você tem essas duas feridas nas costas? Notara que não eram queimaduras. os fatos se encarregam de avisá-lo disso!" Essa máxima dirigia-se também a si mesma. ele demonstrava uma verdadeira repugnância em relação à comida.. o jovem "dado" que tinha um nome tão belo.. Não.. Emanuel. — Ele. em pequenos pedaços que um guerreiro me retirava das omoplatas com uma faca bem afiada. você estava vivo! Não! Não! Utakê. Não sei. Começava a compreender que não tornaria a ver o homem que amo. também estava morto. — Folgo em saber que ele tenha sido poupado — murmurou ele. o impetuoso e sorrateiro corcel do destino fizera-o perder as estribeiras. Eu estava exausta.. Será que o mandou para mim para que acabasse com você. Não havia nenhum outro recurso. Ajudou-o a recostar-se nos travesseiros a fim de poder alimentá-lo mais comodamente. julgou o momento inoportuno para revelar-lhe toda a verdade a propósito do pobre Emanuel. na penumbra de uma invernada sem fim.. Via nele um homem que superestimara os próprios talentos para dominar o cavalo fogoso da vida... CAPITULO XXIII O segundo martírio do jesuíta Conversavam sobre temas que teriam feito arregalar-se de uma surpresa inquieta os olhos de quem quer que não tivesse vivido na América.. numa dependência infantil? Suas mãos. Foi um pensamento fugaz.. um cadáver. depois cuspia. que... Ele saberá o que fazer dela.. Ele me comia. foi com horror. em vez de víveres. o comesse?.... perguntas.. Naqueles momentos irritava-se menos com ele do que quando ele discorria com uma súbita autoridade.. apesar de seus cuidados deixavam profundos sulcos na pele.. uma vida que ele pretendera superior. Também pensei nisso. Não sei o que ele quis.do ferido. E depois.. — Você teria me comido? — perguntou ele. realmente.. uma tentação. enfraquecidos. E que eu escandalizara tanto.. Folgo em saber que tenha escapado ao fogo. — Pois bem! A mim eles comeram — disse — um pouquinho assim.. Tudo isso é muito louco... certo dia em que ela lhe contava a descoberta na soleira da porta e o desagrado por encontrar. pôs-se a considerá-lo como um irmão. infelizmente. seus braços estavam muito fracos para poder segurar a tigela e levar à boca a colher sem derrubá-las.. seja por desejo de economizar provisões. Seria o fim. para a glória de Deus e o benefício dos homens. Sentia-se humilhado por estar entregue à sua mercê. e que as feridas cicatrizadas. "Quando não se está preparado.. resposta que só podem ser trocadas por aqueles que falam. um irmão de combate.. Vendo-o sereno e aceitando com docilidade o alimento que lhe oferecia. Não. Seja por apatia... Não sabia nunca se conseguiria fazê-lo comer sem dificuldades. e julgando-o pela medida de suas experiências e à luz das confidências que acabava de ouvir.. Foi uma vertigem causada pela fome... E que tenha conservado a vida. sentou-se com a tigela na mão e começou a fazê-lo engolir caldo em pequenas colheradas. — Talvez!.... Se isso me passou pela cabeça.. dizendo: "Como sua carne é imunda!" — Quando aconteceu isso? Em que suplício? .. que meus filhos estavam morrendo. e tivera uma esperança tão grande... enquanto me levaram ao suplício. — Sim!. o fim do mundo.. Não se deve pensar nisso.

-Durante meses. Seus gritos gravaram-se em minha memória e me perseguem em meu sono.... nem a monotonia daqueles trabalhos humilhantes. me acostumara à minha escravidão. "Não compreendi quando vi diante de mim quatro guerreiros. pobre mulher. o mohawk. "Foi apenas no meio do caminho que os guerreiros conseguiram li-vrar-se dela." — Ouvi quando você repetia: "Ah! que ela se cale! que ela se cale!" — Sem dúvida. "Você é mais desajeitado que os yennglis".. Têm muito tutano. talvez três?. encarregados de me levar à aldeia vizinha. "Quanto a Nenibush. Tínhamos conversas interessantes. diziam-me. você pode imaginar como. não apenas mudo. Era evidentemente moído de pancadas da manha à noite.. Você que é o maior entre os maiores dos Togas Negras. trata-se mesmo dela!. à qual retiravam uma segunda vez seu filho-prisioneiro-escravo.. e no fundo éramos bons amigos. no terceiro. "Ó Hatskon-Ontsi.— No segundo". "Vieram e me disseram a fórmula consagrada e para mim aterradora: 'Meu irmão. Um outono? Dois outonos. eu me habituara. e o domínio dos sonhos abrem múltiplos labirintos à sua imaginação. "Segui-os. agarrando-se. nós. As mulheres índias não são nada tolas. embaraçaçdos com nossas sotainas. Foi entretanto nesse trajeto que um deles começou a comer minhas costas. Não receava nem desejava a morte. aqui está você! Teria reencontrado a amizade de seu Deus e o caminho de Sua Força?. encontrei alguns guerreiros em volta dos chefes das Cinco Nações. O inverno era atroz. Eu voltava muito depois delas. Utakê... "Já lhe disse. que descontava em mim seus nervos. se quiser.. e à sua frente. em que foram me buscar novamente. que vinham procurar-me. Utakê.. o que mantinha as forças de minha Tia. Fez-se um longo discurso. Minha única obsessão era o receio de perecer sob as dores do fogo. aterradas por meu comportamento. Ouço-a ainda gemendo e maldizendo. Gostam de refletir sobre os destinos humanos. Ao chegar ao burgo. mais ainda que os exploradores de bosques comerciantes. a meus trapos para não me deixar ir. coragem! Chegou o momento de cantar seu canto de morte'. Fui imediatamente invadido por uma mortal inquietação. "Estava pois nessa situação quando vieram naquela fria manhã em que estava tingindo peles. Depois foi aquela outra manha. ganhamos os prémios do desajeitamento entre os senhores selvagens. ao saber da chegada de meu pior inimigo. furiosa. foi ela que se encarregou de me cantar meu canto de morte com o concerto que ofereceu com protestos e uivos. aonde o chefe dos mohawks. . como lhe disse. entre os jovens corajosos. Nem as contei. Ia. Eram pessoas muito jovens. ia à floresta buscar um animal que um parente dela lhe caçava. que são indianizados. a menos que me fosse concedida por um golpe de tomahawk. acompanhando por zombarias das indiazinhas ágeis que também iam buscar os produtos da caça dos pais ou esposos. tropeçando nas raízes. As neves começavam cedo aquele ano. Chamavam-me de Mulher Negra e riam de meu desajeitamento para encontrar o caminho e penetrar na floresta. pois. — Mas eu julgava que Utakê tinha decidido poupá-lo! — Eu também acreditava que já estava resolvido. "Creio que nem vi passar as estações. perdendo-me nas brenhas. acabara de chegar. Eu recolhia e cortava lenha para ela. mas num estado de estupor e de abatimento que bambeava tanto as pernas que tiveram de me segurar pelos braços. Eu acabara por me acalmar. que minha Tia e eu devíamos preparar para o parente caçador. minha cara Tia Nenibush. Eu estava tingindo peles. Não temia mais nem as pancadas nem as fadigas daquela existência. missionários...

que elas me aplicaram aqui e ali. pois apagou-se quase inteiramente de minha memória. os anciões. Meus pulmões queimavam. após um longo momento. personagens de um tempo passado. você nos humilhou em nossas crenças. Sim. agora sei. paralisando-o com as gavinhas de uma vinha inculta.' "Eu ferira profundamente Utakê. pois creio que. O que eu suponho é que. com os punhos bem cerrados. as palavras. Durante essa 'viagem' talvez eu tenha conseguido expulsá-las. "Pus-me a gritar de pavor. Quando chegou a mim. pois nos o entregaremos às mulheres'. que tinham se insinuado no centro de meu ser atual. mais do que de dor. Minha covardia e minha fuga tinham feito deleita inimigo implacável. furioso por ter sido enganado. enquanto as mulheres histéricas riam e repetiam que iam deixá-los atacar meus olhos. vidas antigas que sobrecarregavam meu eu. quando ficaram bem perto. desembaraçando-se pouco a pouco dessas sombras. submergindo-o. denso. fora de seu direito. mais complicado que isso. que nos rejubilamos desde muito cedo com a ideia da morte nas torturas.. "Senti náuseas.não me atingiram. sufocando-o. que é deixar a criatura nova prosseguir livremente seu destino. reservada unicamente ao exercício de fumar. arrastando-me para um canto até a sala do Conselho.você nos feriu e insultou mais que ninguém. "Revejo a cena. mas pouco me importava. de uma maneira. vi que seguravam. "Ouvi-os pronunciar palavras que tinham mais ou menos o seguinte sentido: 'É preciso no entanto prepará-lo". Os anciãos continuavam à minha volta. "Diante disso. na testa. Depois duas delas avançaram e. Estávamos vazios. em que mal cabíamos. eles começaram a morder e mordiscar. A couraça . a fim de provar a grandeza do homem. Eu me desou-rava mais uma vez. a seu ver. levaram-me para outra aldeia. encontrei minha alma. alguns de seus 'prestidigitadores' e eu. por uma nova razão. calou-se. só com a cabeça de fora. lanharam-me o rosto com a ponta de caniços cortantes. a droga ajudou-me a voltar ao ponto de partida.. No início circulou uma cabaça. teria podido suportar a dor em silêncio. Só Gonsigo rever claramente o momento em que. 'Elas então irromperam com gritos agudos. nas faces.. mais como médicos do que como torturadores. Depois. Não apenas o meu eu. onde havia uma choupana especial para pitar. sem nenhum alimento. desonrosa. seguro por mil punhos miúdos e com garras. isto é. sabia-o. Depois desmaiei completamente. Mas este logo se tornou rarefeito. "Após deliberarem. e não ficaria surpreso se tivesse durado dois ou três dias. Nós. os diferentes amálgamas de minha alma. durante essa 'ausência'. unicamente para o líquido. aspirado por um fenómeno que me seria difícil descrever. O ar estava azul. Ficamos assim fumando sem beber. mas. como os médicos contemplados um caso desesperador. que nascemos no orgulho de nossa morte. O cachimbo da paz começou a circular de boca em boca. E calar-me. os anciãos interviram e me retiraram das mãos das mulheres e das crianças. Como lhe descrever? Também nesse ponto minhas lembranças são caóticas. Falavam entre eles e me observavam com um ar sombrio e desanimado. jorrando de cada uma das Casas Compridas como uma torrente rolando as águas mortíferas. Isso durou muito tempo. Os cantos salmodia-dos sustentavam o estado de idiotia. Mas não se rejubile tão depressa. Entidades embaraçosas e estéries. não para beber mas para as necessidades naturais. pediram-me que tirasse mais baforadas que os outros. "Era uma casa pequena. disse: ' 'Vejo pelo seu rosto que não se emendou e que não merece sofrer a prova dos bravos. inteiramente impregnados de fumaça. exibindo uma boca de dentes afiados. rostos. cuja gravidade ultrapassa sua competência. pequenos roedores que se debatiam.. "Finalmente. "Deveria ter dominado aquele sentimento de repulsa. os chefes. Mas era tarde demais.

e creio ter sofrido horrivelmente. ele é muito grande e ele me domina.. Depois continuou a rir e. Ele me diz: . depois de refletir por muito tempo. — Ainda assim. reencontrar o fio de seu destino porque o Maligno. os brancos eram uma espécie ingrata e inoportuna.. Para eles. sempre ele. aumentando a vergonha de meus infelizes carrascos. — Tenho ainda uma última lembrança... Dessa vez. deslizando através do céu como velas... E... Eu não era um ser honrado. o que aconteceu em seguida? — Ignoro-o. ele voltou ao que se seguira à saída da choupana de pitar. Gosadaya.. mas. melhor dizendo. muitas drogas são úteis quando a alma não pode. Era preciso pegá-los muito jovens. modeladas pela luz... pois parece-me que estou estendido no chão. lembro-me também. Deu novamente uma risadinha nervosa e soluçante. a ablação de órgãos importantes. ela percebia-lhe um espírito jovem e brincalhão que apenas sua existência entre os selvagens lhe permitira exprimir. e prepararam os instrumentos para aquecer ao fogo: machados. eu não estava curado..era tão dura.. de minha parte. Vejo os machados incandescentes que passaram ao longo de minhas coxas e parece-me sentir aquele cheiro infecto de carne queimada sufocando-me. sentia-me mais como alguém que acaba de sofrer uma cirurgia. Deixou passar um longo tempo." Passou a falar do mistério dos conhecimentos que o continente ainda inexplorado do Novo Mundo continha. onde havia um velho pilar abandonado.. uma visão. Somente o futuro diria o benefício que eu iria retirar daquela terapia singular... No entanto. com caras de nojo de pessoas obrigadas a realizar a mais entediante e insípida das tarefas. — E. pois continuavam a me olhar com ar dubitativo. que era preciso ao menos isso! Ajudou a quebrar essa concha petrificada ao redor do núcleo de meu ser. Eu os cobria de vergonha. Hiyatgu. diziam... para fazer deles homens dignos desse nome. Mas ele repetiu: — Ignoro-o. Garagonti. sovelas. "Eu adivinhava seus sentimentos. Creio ter sofrido o suplício. Ela pensou-que ele tivesse adormecido. que não aproveitava os precisos tesouros e ensinamentos "dispensados pela natureza tutelar. e sobretudo as expressões aborrecidas dos carrascos humilhados. Ela esperava com paciência. escolheram um lugar afastado da aldeia. Vejo Utakê acima de mim. para torturar uma criatura tão reles. Os anciãos não se iludiam.." Angélica ouviu-o dar risadinhas como se revisse o espetáculo. Tahutaguete. Os índios das possessões espanholas têm um cogumelo que permite tais regenerações. Nisso.. ajudando pelo menos a sobreviver sem enlouquecer tudo quando o que é humano se fecha. por suas próprias forças. atrás dele há o sol e grandes nuvens brancas dilatando-se. Não sei se gritei novamente. elas salvam o espírito sem prejudicar o corpo. naqueles momentos. que começou a nomear à meia voz: — Utakê. É muito vago. mas que estavam podres e eram portanto perigosos. "Estavam tão convencidos de que não podiam tirar muita coisa de mim que renuciaram a pedir-me para cantar meu canto de morte enquanto me conduziam de novo ao sacrifício. "Usadas eventualmente... se divertiu em embaraçá-lo para perdê-la.

quando.. Entretanto. "Entretanto. Eu retornaria às áridas e inelutáveis certezas da crueldade do mundo. não podia furtar-me à derradeira prova: "O sonho ia estourar. ela adivinhava que Joffrey despertava nele um antagonismo mais confuso.. aquele nome. sofrimento e compaixão. todas as paixões. contra a qual não há remédio. compreendi o quê Utakê quisera. e ele devia ter sonhado com um mundo em que todos os homens se uniriam para rebaixar e reduzir ao silêncio a Eva culpada. eu disse meu nome. encontrava seu significado naquele caminhar. eu esperava. que havia arrastado Adão e toda a criação ao caos do pecado. sua voz se abrandava. nesta terra.. até ser digno de que eu devore o coração!. a você que me enganou e me insultou mais que ninguém no mundo. como nenhuma mãe. a fim de manter-lhe o espírito alerta. Evitava instintivamente pronunciar-lhe o nome. pois dessa vez." C A PIT U L O X X IV Amor e ódio no jogo das paixões Após esses dois longos e penosos relatos. Minha via. A gente acredita que parte para as missões da América. sem sabê-lo. Ela curava minhas feridas e dava-me de beber. Seus olhos cruéis chamejaram. Você atraiu maiores inimigos que eu. "Perguntei-lhe: "Por que não acaba comigo?" " 'Não cabe a mim acabar com você. por minha vez. todas as dores. julgo ter conservado a esperança de que um dia eu poderia entrever a face luminosa da mulher. então. Quão sutil e refinada foi sua vingança! Do mesmo modo que não podia fugir do tição inflamado aproximando-se de minha carne. Vou enviá-lo para além dos montes. Hatskon-Ontsi.. provocando nele uma irritação mesclada de amargura. pois sabia que.'" — Em seguida. nenhuma mulher jamais fizera por mim. Ela se identificou...' "Diante do enigma dessa resposta. tornarei encontrá-lo. mostrava-se prudente quando se sentia tentada a mencionar Joffrey de Peyrac. você sofrerá. "Da época mais sombria de minha infância.. . A quem iria entregarme?. a quem cabe esse direito. a "traição" vinha do homem.. depois de ter-lhe conhecido o lado venenoso. houve um período de interminável mutismo. quando seu nome for evocado: aquele que não merece sequer um nome era o inimigo de Utakewata! Você vai partir.." 'Não creia que vou perdoar-lhe a vergonha. só pude ler em seu rosto tristeza. Mas eu o perseguirei. Se ele proclamava muito alto que ela era sua principal inimiga. estaria procurando no silêncio o esquecimento? Ela continuaria a falar-lhe. houve uma longa viagem obscura. ou dizer: "meu esposo". "Eu a reconhecia e nunca pensara vê-la tão próxima. "Quando despertei estava entre seus braços. senti medo novamente.. mas agora sei que parti para um outro encontro. A taça da salvação seria afastada de meus lábios.. '"Eu lhe declaro. de que não me lembro. Hatskon-Ontsi. a você que foi tão grande. Não admitirei que deixe em nossas memórias uma lembrança de desprezo e que se ouse dizer.. Mortificado em seu orgulho. "Então. extasiado e aterrorizado.

seu amigo e mestre. "Mas eu estava presente. mais do que com qualquer outro. Atacar o Forte de Wapassu em nossa ausência e queimá-lo. — Foi você que o matou? — Sim! Reclinou-se lentamente para trás. e assim se desmascarar? Eu movi para a frente esse peão. Era uma missão sagrada. "Fqlo de um de meus colegas de ordem. falava do desafeto sentimental do Cavaleiro de Malta em relação a ele. — Como julgar os seres sem deixá-los fazer uma escolha. e também a que tipos de provocações podia reagir o Sr. Uma vez mafs. Foi sentar-se ao pé da cama a fim de olhá-lo de frente. até então. que o levara a pronunciar-se a nosso favor. Era apenas um executante. Em nossas missões e em nossos trabalhos. Angélica compreendeuque. Sempre contou com ele. — Eu não disse a ele para vir. Nem sombra. e ele veio. que reconhecesse seus erros culposos. — Pont-Briand? Ele se impacientava. — Acontece que foi ele quem ouviu melhor seu apelo: "Vingue-me". como fez em outras oportunidades. o Reverendo Padre de Vernon. — Por sua culpa. onde ele me sorriu pela primeira vez. quando dizia: "Eu o perdi". ele não hesitava em se mostrar acerbo.Por provocação. e. tentativa de justificativa à qual não queria renunciar. pois conhecia-o muito bem. e realizaria seus desejos de álém-túmulo. que eram uma parte de mim mesmo!" — Como soube que o Cavaleiro de Loménie estava morto? — Morto!? Seu grito explodiu como o de um homem que acaba de ser atingido no coração por um punhal assassino. "E você mente a si mesmo. — Ele?! Não é possível! Onde? Quando foi isso? — Aqui mesmo. No outono. soube melhor não quem ele era. como em Katurunk. . Você o soube sempre. para obter nossa capitulação! Sempre esperou que ele se arrependesse de sua cegueria. Temiamuito por sua vida. Ele cumpriu seu papel. Você era o Homem negro que estava por trás da Diaba da visão. — Pont-Briand não era alguém que se pudesse elevar ao nível de amigo. a aliança eficaz em tudo. O conhecimento mútuo. E foi só você aparecer para tudo desmoronar! O meus amigos desaparecidos! Quanta mágoa por tê-los perdido assim!. Sua face estava emaciada. que o afastaram de você. O que lhe aconteceu foi lógico e sem más intenções. "Com esses dois. graças a essa manobra. a vocês. — Fui a causa disso? — Você é a causa de todas as desgraças da Acádia. "Mas deixemos Pont-Briand. Cjueria mantê-lo afastado de minha desgraça. não sabendo nada sobre seu fim. você o enviara para a vingança. de Peyrac. Dessa vez ele não faltaria com seu de ver. onze. querendo decifrar em seu rosto a sentença em que se recusava a acreditar. mas quem era você. e depois do Cavaleiro de Loménie-Chambord. jamais tive qualquer querela. perdi meus dois amigos mais queridos. Eu tinha catorze anos e ele. "Ele pretendia renovar a façanha frustrada de Katarunk. que voltasse a você. ele fitava-a com um olhar alucinado. meu irmão dileto desde o colégio de Clermonte. — Você o induziu a isso de maneira hábil e maquiavélica. Inclinando para ela. quando recomeçava a falar. Um entendimento perfeito.

— Ele morreu imediatamente. Eu o abati. É melhor assim. cessaram o debate. Por sua culpa! Por sua culpa! Eles se espreitaram. Pelo menos você o matou imediatamente. quem sabe. com aqueles que seus "vingadores" deixaram agonizar na ravina ou.. — Com efeito! E preferível o verme e a sujeira das Casas Compridas iroquesas a cair nas mãos de uma Ambrosina."Não tinha outra alternativa senão executar-me. Ele estava persuadido de que eu me deixaria convencer. não pensava que viria. abespinhados.. O que não impede que seja um destino terrível ser prisioneiro dos índios. pálido e sem fôlego. Depois.. no incêndio? Ignoro tudo o que aconteceu a meus amigos. ou reconduzir-me à Nova França. a selvagens fedorentos.. numa de minhas voltas. que caíra nas mãos dos hereges. de Belial e das oitenta legiões do Inferno!. — O Cláudio. ou entregues cativas. .. encorajando-a a fretar uma expedição cujo objetivo era enviar colonos. que tinha influência. minhas amigas. crianças que vi nascer aqui em Wa-passu e que foram arrastadas pelas "pistas intermináveis do retorno". — Apesar de tê-la encorajado a trabalhar em meus projetos. Ali. de Maudribourg vir para a América. onde eu estava refugiada. — Selvagens fedorentos? Por que fala assim dos selvagens? Eu a ouvi felicitar-se por saber que sua filha Honorina estava refugiada com os iroqueses e em segurança. Segurou-lhe o punho. mas como prisioneira. Ela era meu medo. O sofrimento o consumia. não sem ter antes pilhado e depois incendiado Wapassu. ofegantes como dois lutadores esgotados pelo combate e que olham. pelo menos sua lendária habilidade lhe terá poupado uma longa agonia? Pois. Diga-me. minhas companheiras. meu amigo.. de Lúcifer. Ambrosina esteve comigo em Paris. longe de qualquer socorro. não sei se poderia perdoar-lhe o destino dessas mulheres e crianças. concebi a ideia de fazê-la servir a meus desígnios. Isso tinha raízes tão profundas! Jamais me tentou. ferido. — Se tivesse de encarar seus longos sofrimentos e sua agonia. — Eles retiraram o corpo e se foram. Meu medo das mulheres. é preferível acabar com um ferido a arrastá-lo pelas intermináveis pistas do retorno!. Aquele que você havia escolhido. mas por falta de energia para continuá-lo. jamais a perdoaria.." Ele baixava as pálpebras. libertando-se com tanto mais cólera quanto nunca deixara de recear ter tremido demais ao puxar o gatilho. não como triunfadora dessa vez. morrendo talvez de frio e de esgotamento. Por várias vezes ele se defendeu de ter feito a Sra. pasmos. "Do alto deste fortim.. Jamais me perdoou por haver fugido dela. Quando soube que estava rica. O ciclo infernal estava fechado. discípula de Satã. que erguera uma barreira entre ela e meu desejo. Senão. eu teria sido entregue a Ambrosina. após obter a rendição de todos os nossos territórios até Gouldsboro. espero?. Ela sabia que sua paixão me repugnava.. correr o sangue. reconquistar um território que eu julgava francês. — E devo perdoar a você? Você se preocupa com nossos feridos. não por falta de acusações para lançar ao rosto um do outro. vi-o aproximar-se. Cláudio! — gritou — Meu irmão.. quando eu ali pregava. Gouldsboro. O que mais poderia fazer? Render-me? Trair os meus? Meus esposo? Meu amigos? Todos aqueles que haviam confiado em nós? "Privadas de seu chefe. escolhidos entre corsários ou flibusteiros. não é? — Não sei! — gritou. como butim. suas tropas se retiraram.

Denunciou-a numa carta que lhe era destinada. um monstro de perversão." — Pensei ter entendido que no momento de partida do La Licorne a polícia estava em seu encalço.. minha pequena companheira do VOiseau Blan". depois de tramar sua morte. nas quais me solicitava o obséquio de fazer chegar a carta anexada à Sra. espionar os novos ingleses ou assegurar-se da mi-nha presença no navio de Clin Paturel. "Julga que o fato de o Padre de Vernon tê-la desmascarado seja razão suficiente para que você se queixe de tê-lo perdido.Para me tirar da água.. depois de tê-la deixado reconquistar Gouldsboro. conciliar-nos. E descobria-se uma das maiores envenenadoras da história."Em Paris. Eu era seu confessor.. Toda vez que a nomeio sinto um calafrio — Ela se chama "legiões". mas não é a mulher que me indicou expressamente como tal.. Tomou-a em seus braços — . Senhor! Que jesuíta! Fazia-me pensar em meu irmão Raimundo. a iniciativa de contrariar minhas ordens e de julgar minhas intenções. Eu a encorajava a colocar-se como benfeitora para a salvação da Nova França. por minha culpa? Ele continuava a ser-lhe muito dedicado. Frio com gelo! Confundi-o facilmente com um inglês. de Brinvilliers. também ele. de Peyrac caso lhe acontecesse alguma desgraça. Era muito hábil e ultrapassava de muito as recomendações que eu teria podido fazer-lhe. Ou seja. Não pode censurar-lhe não se ter mostrado um executante hábil e eficaz nas missões que lhe confiou. . — Você está obcecado. e ela se rejubilava por desempenhar um papel num obra que causaria dramas e derrotas. Os armadores mais empedernidos vinham comer em suas mãos.. — Padre de Vernon suspeitou dela imediatamente. ela fez' maravilhas.. Os togados caíam como patinhos em suas armadilhas. Essa carta continha um envelope selado com suas armas e algumas breves linhas. Quando lhe indiquei sua presença. Teve tempo para reunir todas as informações a seu respeito. — Aquela carta? Então você a leu? — Sim! Eu era seu confessor. o Padre de Vernon! um verdadeiro jesuíta. A Diaba está em Gouldsboro. Vi brilharem seus olhos quando lhe falei de. — Ela não deveria ter nome. a Condessa de Peycrac!!. Naquele momento. Estava ainda na casa do Barão de Saint-Castine. meu padre. depravada desde a mais tenra idade. pudemos. Tomando. Ela recrutou Colin Paturel.. Era um produto das trevas. "Quando lhe foi dada a oportunidade de desenvolver astúcias e enganos e desempenhar o grande papel de sedutora junto a um número considerável de homens. Sua melhor amiga. enquanto amigo.. ela deve ter tomado a decisão de fazer parte da expedição. ela e eu. em resumo. — Belo confesso! — Essas licenças são autorizadas aos diretores de consciência. — Estava apaixonado por você. acabava de ser presa pelo policial Desgrez.seu esposo. — Ambrosina também jamais foi uma criança. indo: de um ministério a outro. como o Coronel de Loménie-Chambord. francamente! Ele. mas que ela furtou em seguida. a Sra. ele ainda não a havia trazido consigo. Tive essa carta sob os olhos e lembro-me que ela dizia. o seguinte: "Sim. Começava assim: Minha cara criança. ela era minha penitente. — Bela consciência! — Era uma carta de amor. seu "navio e sua tripulação.. Mas como você sabe de tudo isso? — Recebi dele uma carta enviada da fortaleza de Pentagouet.

. comprazer a sua memória? Ou tentava escapar?. aos pés da força?. renegando a aliança que fizera conosco. deixar-me submeter. os 'ternos'.. não?. segui-lo. meus partidários. fatalmente espezinhadas e destruídas pela crueldade e traição dos adversários.. Sem terçar armas?. a imitaram.. o humor de Angélica mudou. Julgam-na uma mulher sensível.. — Se bem entendo. os desgarrados ou os inecrupulosos. Aquele da mulher hereditariamente submissa. quem sabe?. com a ajuda de Saint-Gastine. Eu lhe gritava: 'Não se aproxime! Não se aproxime!. como pretendia. — Compreendo agora como você pôde vencer Ambrosina. inclinandose espontaneamente diante do homem. Ele também fizera sua escolha. O Padre de Vernon não pôde deixar a senteça ser execultada. O que acontecia com ele? Recaíra sob sua égide a ponto de fazer pouco de sua própria honra. entregando-lhe Wapassu." O Amor me protegeu. Eu o abati ". É isso o que ela não lhe pode perdoar. Necessitaria de horas para descrevê-los. mas a vida é tão maravilhosa! Uma vidente mê disse um dia: "O amor a protege!. meus filhos. Sempre me foi insuportável dar a meus inimigos a'satisfação de minha derrota sem fazê-los arrepender-se. O da sensibilidade e da generosidade. escapar àquela escolha.. são os outros. aquela boca fina e perfeita que pronunciava tais palavras.. Sou uma sagitariana. "Não somos nós. vencida. Entre as leis do Céu e as da Terra. Haveria mortos.. Eu o abati". é a felonia dos outros que nos obriga à escolha.' "Mas ele continuava a avançar. vulnerável. aureolado pela luz proveniente da lareira. E a vida. E a mediocridade. que ficam desolados com isso. — Perdoe-me! — disse.. sem isso!.. sua campanha até Gouldsboro. Mas há mais algumas coisas. Restabelecer o equilíbrio entre o Bem e o Mal. Ele mergulhou!. acordadas. em minhas palavras. que nos mostramos duros e intratáveis. seria tão fácil. escapar a todos os que não o compreendiam mais?.. que não têm escrúpulos.. . Não conseguia esquecê-lo.... deixá-lo continuar. Não é a primeira vez que me fazem essa censura e. Ficara alvoroçado.."Que jogo?. prostrando-se. Não pôde deixar que eu fosse afogada. a rir tanto que as crianças. para comprazê-lo. de um modo ou de outro. E subitamente você se revela astuta.Subitamente. O da fraqueza. não é? "Fazer o jogo. não é coisa certa.escandalizado com a brutalidade com que ela resumira a cena fatal: "Ele vinha com as mãos nuas. o estabelecimento lhe teria sido entregue. Ele não tem escolha.. "Você me achou brutal. Contando com a afeição que eu lhe dedicava para render-me mais facilmente. teria deixar-meenternecer. O meu caro Merwin! Como estou feliz!. desastroso — replicou Angélica —... ou contra ele. onde.. sem pé nem cabeça. aqueles poucos segundos de hesitação antes de atirar. "É fácil abusar da bondade e do impulso dos corações generosos para causar sua perda... Foi Sebastião d'Orgeval quem dessa vez voltou lentamente os olhos a fim de observar aquele perfil de mulher ao seu lado. recompondo-se — . O ser humano está no meio. por pouco que seja. sobretudo. meu padre.. ele voltou ao assunto de Loménie-Chambord. Mais tarde. e ela começou a rir. porque lhe expus todos os conflitos e tormentos que agitaram minha alma e partiram meu coração.. A fraqueza muitas vezes apenas adia o massacre e multiplica sua amplitude.. repetiu.. falando de paz. você quer dizer que eu não faço o jogo. do guerreiro. implacável. Não suportava principalmente a insensibilidade dela. Era chocante! — Mais chocante para mim. Uma questão de justiça.

por terem. Chegava o momento de encorajá-lo a mover-se ainda mais. E depois. E essa obrigação o que mais odeio. CAPÍTULO XXV A fuga das crianças — Esperança de salvação Imaginavam sempre que tudo fora dito. mas aprendi como ela era inelutável. estendendo-lhe as mãos para segurá-lo. Sr. uma vez saciadas. chega um momento em que somos obrigados a fazer uma escolha. Pois eu também o amava. entre eles. Saiba. d'Orgeval. Pois ela notara que ele podia executar movimentos que davam mostras de flexibilidade e de vigor. feito o jogo de reles paixões que. saída que veria os primeiros passos do "ressuscitado" à luz do dia. com um dos braços em volta de seus ombros. desespero diante do irreparável. desengonçado. como daquela vez em que ele se erguera para alcançar-lhe a mão e beijá-la. "Cláudio de Loménie morreu porque ele fizera sua escolha. o desespero. crianças felizes em meio a nossas obras fecundas. como um polichinelo quebrado. mas conseguindo deslocar os pés algumas polegadas. durante o qual não puderam fazer nada além de ficar enterrados em seu buraco. Os progressos foram lentos."Quer o queimaremos. esquelético. paz. felicidade cotidiana. — Hoje você deve tentar sentar-se — disse-lhe ela. a uma palavra. Seu antagonismo explodiu mais uma vez. estendidos lado a lado. Desde o início. que a paz voltara a reinar. Enquanto retomavam forças. despertavam-se o rancor. pelo menos uma vez na vida. desproporcionais em relação aos desastres que acarretam." Essas duas cenas convulsivas deixaram-nos abalados. das queimaduras. parecem fúteis. um dia em que temos de pegar em armas. sempre imperfeitas. que me impôs um ato de que nunca me consolarei. que o faziam gritar. e isso ocorreu todavia de um acontecimento que deveria ser marcado pelo signo da alegria: sua primeira saída do fortim. quer sonhemos com harmonia. a uma alusão. Rancor por ter pago um tributo tão pesado. imperfeitos. Acima deles passavam os-eoros do vento e também o dos anjos em cavalgadas fantásticas. Um dia ele ficou de pé. compreendendo a inanidade de suas discussões e a profundidade de um sentimento que vinha de longe e que se parecia com a amizade. depois de um longo período inclemente de noites e tempestades. quer não. que se arriscavam a ficar deformados pelas cicatrizes. E isso evitava o enrijecimento dos membros. apesar das dores. superadas de uma hora para outra como que por um milagre. ela tomara o cuidado de fazê-lo flexionar as pernas. os arrependimentos. arrependimentos por terem se mostrado medrosos. as lágrimas que fizeram correr. o carregava. esgotados. e ele se apoiava com a outra mão no pequeno Carlos Henrique. por boa vontade. os lutos que engendraram. enquanto ela o segurava. a de servir-lhe. marcados contudo por etapas decisivas. pela cintura. Para sobreviver ou para defender a inocência. . ou melhor. Poucos são os que podem evitar enfrentá-la. flutuaram sobre águas pacíficas.

com a fumaça elevando-se dos telhados enterrados das outras casas que. cujo caos. Quando viu o jesuíta. Os gritos das crianças soavam ao longe. que organizava suas partidas de patinação e piqueniques no Pão de Açúcar. mas hoje. o olhar que Angélica lançou sobre a planície branca e resplandecente. experimentava uma perigosa vertigem medindo toda extensão do desastre. custando-lhe cada passo um grande esforço e provavelmente muita dor. Quando conseguir transpor a trincheira gelada. sob o peso das neves. sentiu-se mal. não resistiu à malícia de perguntar-lhe se ele não ficava impressionado por estar vestido com os trajes de um inglês puritano congregaciònalista de Massachusetts. Enfraquecida pela contrariedade e pelo rancor que aquelas reflexões mal-intencionadas de seu paciente lhe haviam provocado. Em Wapassu. Odiou-o por isso. que era arrastar todo mundo para fora. andava-se de trenó e as crianças deslizavam à beira do lago. Trouxe-lhe para aquela ocasião calções. perto das quedas Montmorency. estremecendo: — Como ousa brincar sobre suas traições? A canalha perniciosa de que se cercaram. ou. Mas ele não compreendeu. sapatos do guardião da casa — o que teria acontecido cõm o pobre mudo? —. Fora um erro não ter renunciado a ela e prosseguir em seu desígnio. A aventura começava mal. Faziam-se visitas. tendo ela e Carlos Henrique dificuldade em sustentá-lo. recoberto de neve. Nas saídas precedentes. erguiam-se toldos em volta de braseiros. em que alguns ursos se arriscam a uma saída titubeante para em seguida tornar a mergulhar num sono mais benéfico. achando-se de pé ali na neve. E a época. que era preciso amealhar. para imitar a sociedade de Quebec. Angélica e Joffrey subiam ao cimo do torreão e olhavam a animação em volta da bela fortaleza de madeira de Wapassu. nos outros invernos. pusera o nariz para fora e percebera a carícia do sol para lá do abraço do gelo. ia-se ver os índios. Estava preocupado em avançar ao longo do corredor. equipado dos pés à cabeça. na . depois de ter-lhe tirado os andranjos que o cobriam. erguia uma bárbara catedral do outro lado da colina. Angélica desprendera a porta. despertavam nela. — Com você. causaram sua perda. você e seu esposo. passando as breves horas ensolaradas do dia a flanar. vou envelhecer dez anos — disse-lhe ela. Isso lhe partiu o coração. Quando da chegada do Padre d'Orgeval moribundo. no meio da invernada. sob sua salvaguarda. chamando-se ou encorajando-se em seus trabalhos. além do casaco e do gorro de pele forrados. em vez de feliz. pois acabara por se esquecer. injustas e revoltantes. foi amargo. presas do frio e da luz. Para as crianças eram sempre dias de alegria. obrigou-se a ter paciência e permaneceu em silêncio. Como ele estava de pé e muito vacilante. Saíam para tomar ar e sol como uma panaceia. Ele replicou. antes que a tempestade os aprisionasse por outras longas semanas. distribuindo salsichas e pães com melaço. sempre evitara voltar-se para aquele lado.Como o tempo melhorara. todo mundo saía. mas o sol brilhava sobre a neve recém-caída e fofa. O frio continuava intenso. os risos das mulheres. passeava-se com as raquetes. as interpelações dos homens. A de não levar em conta a emoção que tais palavras. O que via destacar-se contra o céu azul eram as ruínas de Wapassu. A estação atravessava um período de estabilidade. entre quatro paredes. ela decidiu dar uma saída com ele e as crianças. por causa das palavras que acabara de ouvir. ela vasculhara entre as camisas e coletes de Lymon White para vesti-lo. meias. Com as crianças. Cometeu uma imprudência. Nessa época. haviam proliferado em torno.

tão corajoso. padres. E como Angélica julgasse ter surpreendido no olhar fixo pousado sobre ela um brilho de alívio. sublinhavam as palavras irrisórias que ouvia a si mesma pronunciar.. para me fazer revelações.do porto o corpo de Emanuel Labour. ter-me-ia dito chorando.. — Olhe! — gritou. Morreu para que ninguém conhecesse a verdade sobre sua ruína. Ele não a acusou. Repisara-as por muito tempo. Mesmo assim eles o vingaram bem. a destruir-se a si mesma. — Eis sua obra! Rejubile-se! Você se queixa de seus amigos. Não se lamente mais disso.. de Peyrac. sentiu-se enlouquecer de indignação. "Você o teria feito. Pois bem! Aí está. enfraquecida pela fome. Mas o espetaculo era para ela ainda mais penoso pelo fato de se encontrar diante do homem que quisera aquela derrota e que podia rejubilarse com ela.. "Eis o que estava prestes a me dizer. — Teria sido preciso tão pouco para que tudo fosse salvo!...... inocentada pelas mais altas instâncias da Igreja. de dar uma coesão ao que lhe queria explicar. O Padre de Marville surgiu diante de nós. senão para dissimular sua fraqueza diante das torturas. a desencadear certas influências. "mas vejo meus mais veneráveis mestres construírem uma lenda destinada a enganar as almas piedosas". lançando-as aos quatro ventos do universo gélido. Pequenas nuvens de vapor escapavam-lhe da boca. quando julgam necessário. Era preciso salvar a honra da ordem. que o traíram. — E?„. a você. para arrastar aquela pobre criança. desorientada. Eis o que explicava sua palidez e seu desatino. se não soubesse que vocês não hesitam. tão cristão. Tudo não passa de mentiras". não é? Você o teria feito? Teria jogado com seus "poderes". Ia confiar-me sem dúvida o que vira no vale das Cinco Nações... a se afogar voluntariamente. Intimou o rapaz a calar-se e segui-lo. Você ganhou. Ele não aguentava mais sentir-se envolvido nessa felonia. como se poderia explicar tal gesto.. — As últimas palavras de um mártir têm o peso de ordenações! O imperativo de um testamento!. carregando seu segredo para o túmulo? Ele. de pé ao seu lado. E nossa obra está aniquilada. para que o pobre Emanuel tivesse tido tempo para me falar antes de morrer! — Morrer? Emanuel? Você não me havia dito que ele fora poupado? — Pelos iroqueses. dirigindo-se a forma masculina. A honra da ordem está salva. Dirão que ele se suicidou? Receio que uma vontade estranha o impeliu a isso. ele transmutou esse chumbo em .. como diz. vocês. Ele falou? — Não teve tempo. Não o revi mais. sim! Mas não pelos seus! Ele está morto!. espreitando-a com um olhar ansioso. — Você também acha que está tudo bem assim.. Eis o resultado! As palavras violentas lhe saíam da boca. ia gritar-me: "Não é verdade! O Padre d'Orgeval não morreu como mártir entre os iroqueses. em Salem.. a Dama do lago de Prata. Mas era incapaz de ordená-las. Sra. Pois as últimas adjurações de um santo mártir são ordens sagradas. pela fadiga e pelas torturas. Ele foi até o jardim." O jesuíta tentava acompanhar-lhe as palavras loquazes." Ela ofegava. como tantas vezes fizeram. encontrar um pretexto para sua fraqueza. repetindo-as em voz alta quando ficava sozinha no silêncio do deserto branco. a você. Sabendo que não poderia jamais apagar a realidade de seu ato.urgência das ameaças da fome. No dia seguinte recolhiam das águas . mas não enganaria ninguém. Marville soube o que conseguiria colocando-o nos altares. teria sacrificado a criança também você. de seus fiéis.. Ia falar. como o Padre de Marville o fez. Olhai à sua volta.

indigno. O meu Deus! — Não se mova — disse ele. muito caros e santos e modestos mártires. Angélica tossia. voltando à realidade. viu-se novamente cercada pelo grande silêncio branco e o frio cruel. meus irmãos jesuítas do Canadá. O que. Começou a sacudir a cabeça e repetiu várias vezes: — O que foi que eu fiz?!. que o mundo esquecerá. Perdera a cabeça discutindo com aquele homem. gritar dessa maneira. a glória e a reverência que lhe são devidas. deslizando na neve — disse o Padre d'Orgeval. dissimulando-o. Acabava de dar-se conta da maquinação que o Padre de Marville armara em torno de seu nome. Recomeçou a bater os dentes de frio e de pânico. e pela virtude de suas santas chagas. vocês. a vocês somente. . — Perdoe-me.. numa expressão de estupor. — Acalrne-se! — Não poderei jamais ir tão longe para buscá-las. Mas ele simplesmente se ajoelhara.. A luz que tornava sua face translúcida viria do sol ou da transfiguração interior de seu ser?. — Estão lá. à beira do lago. a mim. a mim. Perdoem-me! A mim.. pensou. a vergonha de nossa santa ordem. —Para onde foram? Olhava ao_redor. O frio raspava-lhe a garganta.. Você é o maior.Levantara-se e colocara-lhe a mão no ombro.. mas também de incredulidade.. Edificam-lhe capelas. que morreram apenas pelo amor de Cristo e não pela adulação dos homens. perdera as crianças de vista. dignem-se assistir-me na hora da minha morte!. depois as mãos para o céu.. Vagarosamente dobrou os joelhos. — Onde estão?— Onde estão? Onde estão as pobres inocentes?. para lhes servir. Você os simboliza a todos. Padre d'Orgeval. de exemplo e não para suscitar sua veneração idólatra.. pois sentia o suor escorrendo-lhe pela espinha e congelando-se. Pela fraternidade de nossos compromissos. o mais covarde. "De que adianta essa diatribe dirigida a um ressuscitado que não se aguenta em pé e que não consegue dar um passo?!" E retomou fôlego. perguntando-se onde ficara o indivíduo ao qual acabava de dirigir seu violento requisitório. E vocês. — Elas vão voltar. "De que adianta a cólera?". e elas voam como pássaros. arrependendo-se de sua explosão e do estado em que se colocara. as felonias às quais impeli os meus. E ela o viu erguer os olhos. conservem-me sua piedade. verdadeiros sacrificados de Deus. Glória lhe seja prestada. sua mandíbula caída.. Estão se afastando. Emanuel. Seus lábios estavam secos. Depois. Vão voltar por conta própria.. — Onde estão as crianças? — gritou.. eu lhes suplico. subitamente. e multidões lhe dirigem preces e súplicas.. isso de nada mais adiantava e não vingava ninguém. foi que êu fiz?!. orem por meu resgate. o fez servir à maior glória de Deus e do reino. com os olhos fechados.. vocês. Mais uma vez Angélica se encontrava diante de um desconhecido. que "tinha uma visão penetrante. Estava errada por falar assim. As" crianças haviam sumido. perdoem-me! "Perdoem-me os erros cometidos por minha culpa. e depois erguendo-os para ele. Como alcançá-las?.. Viu sua boca aberta. Ela estendeu o braço para ampará-lo. Seu irmão em religião fez mais do que vingá-lo. involuntariamente. ó. o mais vil. E quem iria se arrepender do resultado de uma tão brilhante impostura!. Mas como é que elas conseguem? Eu mal tenho forças para dar alguns passos. Ele o canonizou. perdoem-me! Perdoem-me por ter usurpado.ouro puro e. a mim.

enquanto os pequenos lábios inchados se esforçavam em vão para esboçar um sorriso. que pareciam vesti-la. que nem sequer eram silhuetas. com uma animação tão devotada quanto admirativa. as iniciativas de seus irmãos. Carlos Henrique no meio.. e que seguia.. ela sobrenadava como um pequeno peixe valente na correnteza das doenças e provações físicas que se abatiam sobre o irmão. De todo modo. Estavam vindo. tão pequenas e desengonça-das estavam em suas roupas. ocultá-la em seu abandono contra o ombro da mãe.. dando provas de uma vigorosa saúde. Angélica levou mais tempo para se alertar. — Não. fornecendo-lhes reservas de carne até a primavera. apodrecida. garantiria sua sobrevivência até lá. dando a mão aos gémeos. não a acostumara à inquietação. E quando se deu conta. tão belos e incrivelmente longos numa criança tão pequena. sempre alegre. não lhe era possível detêlo.. por suas próprias forças e sem prejuízos.. Desaparecer!. — Estão vindo? — Sim. Depois as crianças ressurgiram diante dela. Sentia aquele braço nervoso enlaçando-a para sustentá-la e impedi-la de lançar-se à procura das crianças. de carnes inchadas e gengivas sanguinolentas... Não ralhe com eles. depois da fome: o escorbuto. Essa encantadora boneca. como se nascessem do ouro vermelho do inverno. Não parta! . Desde as primeiras horas de seu nascimento. Face horrível. Com a menina no colo. acáriciava-lhe o rosto redondo. Eles são o nosso perdão! São a nossa salvação! O SOPRO DO ORANDA CAPITULO XXVI Insinua-se o "mal da terra" Ela acreditava que o alce. Talvez por causa disso.. os frês muito satisfeitos com sua expedição. fundindo toda a paisagem por trás de um véu de irrealidade. em que as pupilas de um azul cambiante se haviam turvado. — Não consigo vê-las. que bamboleavam sem pressa ao lado dele. — Estão voltando? — Sim. três pontos redondos. E voeê se vai!.Uma bruma sorrateira de fim de dia começava a despontar ao longe. — Não lhes diga nada. pois teria caído e não poderia levantar-se.. Começou a perceber-lhe a aproximação ao notar a palidez e a fatiga da pequena Gloriandra.. e que se haviam habituado a vê-la transpor. — O minha princesinha! O meu tesouro! Não é possível! Sei ainda tão poucas coisas sobre você! Não tive ainda tempo para conhecê-la. mas três pontos que aumentavam visivelmente de segundo em segundo. pois faltavam-lhes elementos essenciais à alimentação. Eu lhe suplico. estão vindo. Mais eis que despontava a face insidiosa do segundo mais cruel inimigo das invernadas. Onde estão? Elas vão desaparecer. estão voltando. acariciava os longos cabelos negros. elas vão voltar! Acalme-se. dando às florestas azuis um tom pastel. Angélica não via mais as crianças e estava inquieta. o mal já lhe parecia muito adiantado.

embora não o menos acidentado... vestido com o casaco e o gorrinho de Lymon White. na região da HauteChaudiere. A filha do Conde de Toulose. Compreende agora o que isso quer dizer. Podia ser que estivesse deserta. com voz firme: — Confie. Para este. Disse-lhe que decidira partir e andar até encontrar um posto ou uma missão. Gloriandra de Peyrac! A princesinha! A pequena maravilha!. Descobria-lhe nos traços transtornados a vulnerabilidade de seu coração. E na regente da Aquitânia. novamente. Como defender-se da horrível doença?... de onde traria o suplemento de víveres necessários. depois. foi inclinar-se sobre a criança e examiná-la com atenção. estampada em sua fisionomia. O que você receia? — O escorbuto. que não alcance o fim do inverno. soberba e ardente. — Outra vez.. Em seguida. — E eis que recomeço a recear que me seja tirada. não! — Ah! Você vê?. Ia encontrar um meio. Acreditara piamente que estivessem a salvo de tudo. às vezes tão imperioso. ornada de todas as graças.Esse terror". A esse espírito tutelar ela confiou a criança condenada. Que todos ali estivessem mortos ou tivessem ido embora. com um olhar que podia ser tão fulgurante. que. sua mãe.. assa loucura. ao despertar. — Minha filhinha. a ternura comovente que aquele belo rosto. eu a julgava salva — murmurou Angélica. evocando as vagabundagens de sua juventude aturdida. ao cabo de alguns instantes. "Você não tem o direito de deixar que lhe retomem sua filhinha. Aquela mulher adorara seu filho. Quando tivesse encontrado o fio de um outro riozinho que serpenteava no verão entre falésias de duzentos pés de altura." Estipulado o acordo. Ele se informava sobre sua preocupação. Pensou nas mulheres de sua linhagem.. voltou a estirar-se na cama e fechou os olhos com um profundo suspiro. mesmo no fim do mundo. apaixonadamente. uma das mais modestas.. sentiu-se melhor. Ela mordia os lábios. guardara a sensação de jamais tê-la deixado. fazia esquecer.. não se tem uma reserva de forças. e Angélica compreendia e partilhava esse sentimento. e sem lhe confessar uma lembrança coti-diana. com pequenos passos de doente de gota. A voz do jesuíta. Caso . sobre a qual ele dizia. Mas nos primeiros instantes só podia apertar a criança contra o peito. viu-o de pé junto à cama. Outra vez. chegou até ela. E o segundo golpe que provoca a queda. mas a mais próxima para eles. Ia subir para o norte até atingir os canais gelados de Mégantic. Mas. e era a primeira vez que ele a via retendo as lágrimas. não! — murmurou. dos abenakis. não. Pensou em Joffrey. Ele fez um esforço para sentar-se e sair da cama. eram seu primeiro reflexo sob o choque da descoberta. — Essa angústia. CAPITULO XXVII Uma partida insensata De manhã. para chegar à Missão de São José. disse. Sua bravura devia ter dado à mãe de Joffrey o poder de continuar a velar por ele no além-túmulo. sabia que estaria no caminho mais curto. que estava deitado. e que todos reveriam a primavera com saúde.

" Angélica levantara-se. durante a primeira invernada no rio Saint-Charles. apertáhdo-o em seus braços. E você.é? — Voltarei. "A sabedoria manda que nos fiemos nos remédios dos selvagens. Os loucos do deserto branco. lembrou-se da vinda de Pont-Briand e de seu índio. e um coadjuntor temporal. Mas.contrário. farinha. Mal se mantém de pé. — Você voltará. ó mulher bem-amada. — Viva. sob as árvores. o "dado" do Padre d'Orgeval. mais o projeto lhe parecia o que era: louco. viva! — disse ele. todas as coisas que afastam em pouco tempo o escorbuto. três brancos. procuraria algo para mudar a sempiterna dieta de carne de alce. E se não pudesse achá-los no caminho. sem ponto de referência nas trilhas apagadas. que condena o isolado perdido sob as rajadas de neve. pois aquela era uma região para os insensatos. nessa etapa. feijões e grãos de aveia-louca para germinar. O círculo dos furacões cercava sua ilha deserta. e também milho. Ele ergueu o dedo. No verão. — Eu trarei a casca específica para isso — repetiu —. o grupo de Loménie e D'Árreboust. No máximo. ela se lançou sobre ele. — O sopro do Oranda me sustentará. cada um querendo deixar ao outro o viático de sua confiança. se os padres os cultivassem. Estava de pé diante dele. lançando um olhar à pequena Gloriandra. no próprio ar que respiramos. sem que todos lhe predissessem morte certa. Mesmo um homem vigoroso não teria podido pôr-se a caminho naquela época do ano para atravessar a região por uma extensão tão grande. — E se os jesuítas o reconhecerem? E se não o deixarem voltar? — Só existem dois jesuítas lá. ainda doente. quando se abandona a cabana isolada infestada finalmente de pernilongos. conforme a terrível expressão. o Padre de Lambert. apesar da esperança que despertava. Num movimento. Depois. Ele virá. no inverno. talvez um servidor leigo. quando já deram provas de eficácia. ela insistiu: — Você está fraco. Havia às vezes alguns que sobreviviam e que voltavam. — O que é o Oranda? — O Espírito" e a força suprema no seio das coisas. e se uma delas o surpreendesse. a fim de que meu sacrifício não seja inútil! CAPITULO XXVIII . permanecem ali para dar assistência às populações errantes. as façanhas isoladas de intrépidos como o jovem Alexandre ou Pacífico Jusserant. com a qual o chefe huroniano. conservados sob a neve. Todavia. — Sua filha foi atingida — disse ele. ferido. salvara a tripulação de Car-tier. morrem de fome e frio no caminho. sem conseguir acreditar em sua decisão. Quanto mais pensava nela. ele "se perderia". insensato e fadado ao fracasso irreparável. que tentam alcançar Levis e Quebec a fim de buscar socorros e que. A distância era imensa. como que posto em comunicação com um contato invisível. Angélica não podia habituar-se à ideia. ameixas-pretas. e ela compreendera muito bem que ninguém podia escapar dele nem penetrar ali antes do degelo. Eu o chamarei. para matá-lo em duelo. repolhos. e até daquela louca tripulação de Joffrey. As tempestades ameaçavam todos os dias. não. quem sabe repolhos. Um professor. dizimada pelo escorbuto. abraçando-a também. Jamais conseguiria chegar até lá! Pereceria no caminho. o lugar é impraticável por causa das cheias da Chaudiere. encontraria em sua farmacopeia aquela famosa casca de árvore. ou frutos secos. mais milho. que perseguira Pont-Briant até o lago Mégantic.

mas o tempo permaneceu limpo.. Era a pista que lhe fazia sinal. que tinha um rosto de sólido camponês. mas ele os examinava em segredo e desconfiava de sua sutileza. Escutava aquelas vozes de homens falando francês. signo de amor! Deus crucificado! Escândalo do Universo.. Foi através das rajadas sibilantes que ouviu o carrilhão» O sino da salvação! O sino do ofício noturno. Atribuiu-lhes parentescos com os narrangasetts do sul. "Oranda! Oranda!" O Grande Espírito lhe trazia sua desforra. Os índios tinham uma aparência estranha. voltava a cabeça para trás." Os dois homens de batinas pretas voltaram para a sala comum. primeiro sobre os nómades que acampavam à sua porta. primo? — perguntou-lhe o irmão coadjuntor. lutando pela salvaguarda de uma mulher e de crianças pequenas. os missionários fechavam as portas da pequena paliçada que cercava a habitação.Um companheiro de miséria — Apenas um corpo em movimento Ele saltava! Galgava o espaço! Quebrava o cristal do frio. Sabia onde transpor as falhas do terreno com um salto. retomando a língua algonquina quando o índio aparecia. o medo. Estariam achando estranho que não se identificasse? — Você se perdeu. Recusou-se a perceber seu corpo. "Todos esses ruídos de uma missão". Respeitavam o silêncio do hóspede estrangeiro. Seu dialeto era quase incompreensível para os abenakis da região. Flocos de neve eriçavam-lhe a barba. Onde abordar os montes para atravessá-los. Seus lábios enegrecidos pelo gelo e pelo sol esboçaram um sor-nso quando avistou a cruz da capela. sentiu que as vestes se lhe colavam na carne em diferentes pontos. Uma brusca tempestade levantou-se no último dia. "Como eu te amo. Murmúrios de preces. Fez um sinal indicando que queria primeiramente apenas aquecer-se e repousar. De missais! Ruídos de irmãos arrumando os terços na sacristia. Um cheiro de pão! De velas apagadas. Não possuía mais corpo. como eu te amo!" O cheiro cálido era embriagador. O novo governador parecia . as nuvens portadoras de neve fugiram. Houve algumas borrascas. atravessava as vibrações douradas do sol. atravessar uma longa planície e subir lentamente para a missão. Ele seria um homem como os outros. não se lançou sobre o alimento que lhe apresentavam. e o céu limpou-se. Caiu a noite. Depois conversaram sobre acontecimentos da Nova França. Salve Regina! Salve Rainha do Céu! Foi o tempo de sair da floresta. mas ele sabia que estava perto e não se perdeu. Ele era apenas um ouvido atento. Quando se sentou diante da lareira. Por instantes. Depois de ter rezado o terço na capela e entoado os cânticos com os fiéis. meio enlouquecido pela solidão dos bosques. A floresta que se abria diante dele. Ele sacudiu a cabeça negativamente. Dialogavam uns com os outros. Ele se inquietou. Ingleses sanguinários do sul haviam acabado com sua revolta para sempre. pois as feridas se tinham aberto de novo. — Fizemos pão — disse-lhé o-missionário que o acolhia. ele se dizia. a fome. Os dois jesuítas consideravam-no em silêncio. Todavia. Depois compreendeu que sua aparência era a de um joão-ninguém. Sobreviventes da grande confederação dos narragassetts. esquálido. "esses odores! Um cheiro de incenso. Não era ele que reconhecia a pista.

deram-lhe um olhar de piedade e de respeito. e respondia às perguntas que lhe faziam resmungando. aquele que habita em seu coração. . Ouviu-os felicitar-se pela partida — dizia-se já "pelo chamado" — do Governador Frontenac. Receava também trair-se por seu olhar. com os olhos baixos. por havê-lo reconhecido. e não renasceria de suas cinzas. sua força. compreendendo que se tratava apenas de um diálogo banal. que são aliadas dos neutros e dos petuns. um pobre homem que merece piedade. um inimigo ao qual você nunca perdoará. Falou de uma viagem aos andastes e como permanecera em seguida entre os sioux. cujas etapas não haviam podido acompanhar. atrasara seu avanço. mais tivera dificuldades dessa vez de escapar aos sioux. ou se não adivinhavam de onde ele vinha. com os filhos de seu amor. — Você também. Naquele ardor de destruir Wapassu que sentia em suas palavras. O irmão dispôs escudelas sobre a mesa e copinhos de estanho. de Loménie pusera fim àquela perigosa vizinhança. acentuando seu lado um pouco limitado de "viajante" taciturno que se "perdera" no furor do inverno. um companheiro de miséria. e não a compreendia mais. Pensava nela. Seu coração batia. — Você vem partilhar nossa refeição. como se se tratasse de uma cruzada santa.. encontrando uma doçura e um conforto nesse tratamento ousado. mas terei oferecido a você esse presente. Tinha de responder. Também falaram de Wapassu. e ele ficou muito atento. Calava-se. como os que travam após um dia de trabalho aqueles que se encontram e comentam a situação. O anúncio da companhia do Sr.. sinal de uma amizade mais profunda e que nunca transporia seus lábios. meio provocante. amigo? Obedeceu-lhes.. decidindo-se a retirar o gorro preto e as luvas forradas. mesmo que eu seja apenas um companheiro de passagem. lá embaixo. detida pelo inverno." Ficava sentado no canto da lareira. Quando avançou a mão para pegar o pedaço de pão que lhe estendiam. a campanha do Sr. que é mais que sua vida. pensava. a fim de decidir sobre o dia seguinte. muito rigoroso aquele ano. parece-nos. meio indulgente. Calava-se. sofreu nas mãos dos iroqueses. pois "eu sou aquele que veio para lhe dar apoio e ajudá-la a viver até que você possa se encontrar do outro lado do inverno e correr novamente para seja amor. Não sou nada perto dele. aquelas tribos do extremo oeste dos Lagos..decidido a reduzir os iro-queses que trabalhavam para os ingleses. Não sou nada. A coalizão que Frontenac imprudentemente fizera com o fidalgo francês. e depois a rudeza do inverno. Começara uma campanha militar. reconhecia sua própria raiva. aquele pelo qual você enlanguesce seu corpo. tão hostil à Companhia de Jesus. tão longe.. referindo-se à visão de uma mulher e à ternura de seu olhar pousado nele. um olhar que ela só tinha para ele. receando cair nas mãos de seus torturadores no caminho de volta. seu sorriso. aliado dos hereges da Nova Inglaterra. repetia a si mesmo. Depois tranqúilizou-se. conservá-la viva para ele. mesmo que você não pertença senão ao outra. apaixonado pelo seu corpo. meu irmão. No outono. aquela que alimentara outrora. O ninho de piratas ímpios fora queimado. "e me pertence. Notícias chegadas recentemente tinham informado aqueles dois solitários sobre mudanças de política. Wapassu não existia mais. mas você me pertence se eu o quiser". fora dissolvida. de Gorrestat contra os iroqueses o encorajara a fazer uma tentativa. mal refeito das fadigas e dos esforços que tivera de fazer para escapar à morte branca. Perguntava-se se não estariam falando para ele. "Você está lá longe". que queriam detê-lo.

a pretexto de caçar. Esse ano. eles partem em campanha. direi a missa. mas. Todos os rostos da Nova França lhe pareciam ser perigosamente familiares. para não tentá-los. mergulhada na gordura de urso. Mas. o hóspede que viera do frio desértico. ao mesmo tempo. — Não é tempo de irem descansar? Quanto a mim. que muitas vezes roubam nas armadilhas das tribos locais. Estavam diante da porta. segurando lamparinas chamadas de "bico-de-corvo". como que surgido. Ficarei feliz por retribuir-lhes a hospitalidade com algum serviço. defendê-los-das feitiçarias de seus "prestidigitadores" e da amoralidade de suas mulheres. eles compreendiam que o único refúgio que podiam doravante encontrar era à sombra da cruz católica e a da bandeira do rei da França. e suas luzes vermelhas e saltitantes refletiam-se nas faces dos três homens sentados à mesa e inclinados uns para os outros numa atitude de confiança. Na missão. nascido da própria tempestade. Nem sequer fazemos cerveja. sabendo em que fonte santa hauriam sua coragem. Conversaram e ele se deixou ficar a escutá-los. Chegavam em grupos cada vez mais numerosos. tocado de piedade por eles. como que por uma dura e intransponível cortina. disse o padre. cuja mecha. o que cria muitos conflitos. Sebastião d'Orgeval foi o primeiro a tomar consciência de que a noite avançava. meus amigos — murmurou. e que não procurava mais simular a postura canhestra e ríspida de um explorador de bosques insubmisso. as velas eram reservadas para a capela. Mas o irmão coadjutor sacudia a cabeça antes dele. dormirei nesta sala. de suas rajadas e de seus gritos. invejava-os. — Temos uma reserva pequena de bebidas alcoólicas aqui. — Nós nos levantamos para rezar as matinas — disse o Padre de Lambert. O irmão coadjuntor lembrou-se de que precisava vigiar até o fim o cozimento do pão da segunda fornada. havia aquelas tribos algonquinas que haviam subido do sul. O fogo diminuía na lareira. separado deles para sempre. sentia-se seu irmão mais do que nenhuma outro poderia sê-lo e. assim que o tempo melhora e o frio fica menos intenso.— Peço-lhes. — Eu vigiarei — interpôs-se o hóspede. Mas. E sobretudo da embriaguez. se me permitirem. tornando a subir para Sorel ou Levis para obter provisões de aguardente. de compaixão pela rudeza de sua existência. — Faz-se tarde. aprová-los. em troca das peles. que causava grandes crimes. Não era fácil alimentá-los.. Eles olhavam para o homem. Quantos catequistas? Quantos batismos por ano? Falaram de bom grado sobre seu ministério. cuidar deles. naquele banco de-pedintes. Apenas para os doentes e feridos. Em seguida. encorajá-los por breves palavras. cuja família está sem notícias há três anos? — perguntou o padre. Para desviar-lhes a atenção. Você . esforçou-se por interrogá-los sobre seus trabalhos. de pé ali na penumbra o homem com mãos de mártir. admirava-os. habituado aos índios. primo! Ia continuar a fazer-lhe perguntas. — Não o reconheço. repousem. difundia um halo dourado-escuro como o das iluminuras. O Padre de Lambert e o irmão aquiesceram com um sinal de cabeça. tendo perdido tudo para os ingleses.— Não será você um habitante do cabo da Madeleine. até a eternidade. como o véu da morte. Os índios não ouviam com boa vontade a boa palavra. Os dois religiosos levantaram-se silenciosamente. — Nossos dias não nos dão muito tempo para isso. que estou vendo ali.

Os primeiros movimentos que esboçou provocaram-lhe caretas de dor. Deslocava-se com tal serenidade evanescente que parecia não deixar nenhum rastro nem na neve. Pegou-os todos e levou-os um a um para o reboque. No ar gelado. Escolheu um reboque grande. passou pelos ombros os arreios do reboque e pôs-se a caminho através do pátio.estará conosco? — Com alegria. trouxe sacos de farinha de trigo. Segurava-os junto ao coração com voluptosidade. voltou à habitação e abriu o forno para pegar os pães que estavam bem crescidos e que se poderiam considerar assados. O produto de sua rapina fora solidamente arrumado no reboque. tornando a apertar as fivelas e atilhos. Entreabriu a porta da cabana e viu o pátio interno atravancado de neve com um terrapleno desobstruído diante da casa. caixas de ameixas e de conservas de limões verdes. pães de açúcar. os eflúvios se elevavam como uma oferenda sagrada. ficaria feliz por assisti-lo. Dirirgiu-se à sacristia da capela e pegou alguma coisa numa das prateleiras. antes de se afastar. Precisava aproveitar esse curto espaço de tempo. pelo cheiro que dele se desprendia. E se não me julgar indigno. e retiraram-se. chegasse às narinas dos religiosos adormecidos. Agia sem fazer qualquer ruído. Pensou nas mãos suaves de Angélica aplicando compressas nos ferimentos e naquela rugazinha entre suas Sobrancelhas quando se punha examinar com atenção uma chaga. pesados casacos de pele ou capotes de lã grossa com capuz. "Rápido! Apressemo-nos!" Foi até o forno e. suas feridas se fizeram lembrar. Em último lugar. Voltou para o interior da cabana e foi abrir o galpão onde eram guardadas as provisões. nem na terra batida dos armazéns e das adegas. Quando tornou a se levantar. O aterro de neve. com passos tão leves e gestos tão precisos que nem um índio teria podido supreendê-lo. comprido e sólido. Não sentia mais nada. botas e luvas forradas. retirou . com gravidade. Do armazém. o pão. a fim de abafá-lo. grãos de aveia-louca. Toda a astúcia corporal do índio estava nele. debruado de luar. colocou algumas cinzas no fogo. Ao chegar à porta da paliçada. Voltou para a casa. não haveria sono. Fizeram um sinal de cabeça afirmativo. gorros. Em certo momento receou que aquele incenso generoso do mais nobre alimento do homem. como se lhe falasse frente a frente e ouvisse suas explicações. Cobriu os pães fumegantes com uma coberta de cornércio.retirando também o par de raqueques. abóboras secas e todo tipo de ervas. melaço. Para ele. nem nos assoalhos da habitação. No inverno guardavam ali reboques e raquetes. Sorriu. Depois entrou num telheiro contíguo que devia servir de cozinha no verão. projetava sua sombra até o limiar. e um par de raquetes de reserva. Dispôs o reboque do lado de fora. e o brilho claro do luar lhe era indiferente. aquecendo-se com seu calor e dizendo consigo que aquele perfume de pão era o mais embriagador da terra para uma pessoa esfomeada. sal. potes de conservas de gordura de pato. Não poderia cuidar delas. depois de confessar-me. feijões. Procurava ainda um objeto que achou finalmente num cofre-zinho da sala grande e. Sua noite seria curta.. nem dor. trigo-sarraceno. Depois calçou as raquetes. avaliou o tempo que ainda seria preciso para que os pães ficassem assados. nem fadiga. Era apenas um corpo em movimento. já arreado.

— Uma assombração não furta três sacos de farinha de flor de trigo. havia os wigwams dos índios. Como nos . a missão. Comida é o que ele queria. — Ele pegou o reboque. e prometia ser feroz. Crianças choravam. mas era apenas um prelúdio de quedas mais pesadas que não deveriam tardar. Os ruídos eram abafados. a pista do reboque e das raquetes ainda era visível.. muito pesaroso. — Para levar o saque. Desorientado. — Não é por isso que estou chorando — disse o convertido. já semi-enterrada"sob massas de neve. No coração da noite. — Será que sonhamos? Era uma assombração?. girou a chave'da forte fechadura que eles haviam colocado para desencorajar os ladrões noturnos e começou a avançar pela planície. batera à sua porta e pedira hospitalidade.. Eles nem pensaram em persegui-lo. mas pela miséria e a angústia da derrota. A interrogação do dia seguinte como um peso infinito que nunca mais se poderia fazer recuar. wapanogs e wonolancets. decepcionados por não ver seu hóspede na missa. para o perigoso sudeste inabitado. voltou-se. Mas poucas luzes brilhavam. uma barra preta que subia lentamente. — Por que chora. pois. sob o brilho da lua ou de uma leve névoa. enterrando-os. depois de fazer uma rápida ins-peção no armazém de víveres. Era para ela que ele se dirigia. se não ele mesmo e seus furtos.. velhos tossiam. A tempestade. — Onde foram parar todos os pães da segunda fornada? — gritou o Irmão Adriano. amontoados em covis. como um sonho. dos quais se elevava um lençol estagnante de fumaça. De madrugada. No tapete fino e aveludado formado pela neve fresca.habilidosamente as diversas cavilhas. A neve recobriria as pegadas do ladrão. acima das montanhas iluminadas pela lua. a tempestade passara por eles.. como a própria vida. os dois religiosos foram à sala comum e o convertido abriu a porta do forno. economizavam lenha. uma neve revolta caíra. O padre não queria contar que notara o desaparecimento de uma sotaina e de um missal. Durante a noite. não apenas pelo inverno. Do outro lado da colina. três de milho e a metade de nossa reserva de ameixas — observou o Padre de Lambert. — Vamos! Vamos! São apenas algumas libras de farinha roubadas! Ele deixou o suficiente para nós. não se via brilhar nenhuma estrela. rejeitar. nuvens escuras sobrevoaram a missão. Num nível inferior. Pouco depois. sem que pudesse retê-las. A tempestade continuava a avançar. Era um barulho que mal se ouvia. na noite anterior. Olhou na direção do sudeste e viu. muito fraco. ele olhava à sua volta e não discernia nenhum vestígio daquele que. começava a desaparecer aos seus olhos. — Que mais queria que roubasse?. —Que me importa o furto. meu irmão? — interrogou o padre professo. — Estou chorando porque me lembro de nossa vigília ontem à noite. Seguiram-na até um pouco além da paliçada e ficaram a olhar para as lonjuras. em direção do qual se fora o desconhecido.. A pequena cruz do sino continuava a brilhar como filigrana prateada contra o céu azul-escuro e vazio. — Vamos ver se não roubou mais nada — disse o irmão. Lágrimas corriam-lhe pelas faces de camponês. mas eram lágrimas suaves. longínquo.. cães latiam. quando.

por que me fez nascer entre os demónios? Por que regou minha infância com sangue?. você o notou? — Com efeito — disse o padre. "Eu quis sua morte. pensava. partilhando nossa refeição e conversando! Que luz! O padre. por mais ténue que ela fosse. CAPÍTULO XXIX "Eles estão mortos!" Várias milhas antes ele já retomara seus saltos dementes. tão meiga! Não pensei nas crianças pequenas. tão alegre. Depois continuava. e uma serenidade em nós e à nossa volta..diluída do ar gelado. voava por cima dos barrancos. sem vê-la.. a pista branca. Já devia ter percebido o cheiro de fumaça. por trás das fendas da máscara de couro indígena que fizera para se proteger da reverberação. — Aqui estou. sonhador. Não pensava que ela fosse tão frágil.. Mas nenhum filete de fumaça se elevava acima do telhado meio enfiado sob as neves. estava a Punição!.. se dilatava. farejando o vento. Quase quebrou o pescoço. Seus olhos choravam de dor por trás da máscara de couro. Um pânico que. "Oranda! Oranda!" Havia várias milhas já deveria ter percebido ao longe aquele vestígio de fumaça que olhos exercitados não podem confundir com os rastros de neblina e que o teriam avisado da aproximação de Wapassu. no fundo do impávido horizonte translúcido e gélido. Queimava os olhos para descobrir aquele vestígio de vida na paisagem morta. .sentíamos bem quando ele estava sentado co-nosco. Através dela eu queria destruir a Mulher. — Havia uma espécie de claridade em torno dele. nem dos assuntos dé nossas conversas." Fez alto.. batendo vagarosamente contra o vazio e o silêncio. Levantava-se de novo.. "O que eu fiz?". minhas crianças!... engolindo.. O atroz estava diante dele. — Não me lembro de mais nada além disso.. lembro-me apenas que seus olhos eram azuis como o céu e que nossos corações estavam repletos de alegria. retorcendo-lhe as entranhas. Ela estava encostada e cedeu. estou chegando! Estou chegando!. dizia consigo. Aqui estou. Ele parava e torcia as mãos. Nada... Vou preparar-lhes uma boa sagamité. Deus. Jamais em toda sua vida experimentara um choque tão terrível. caindo na trincheira com sua carga. investia contra a porta pesada. quis sua destruição. a cada passo. por que deixaste uma loucura dessas apoderarse de mim? Eu queria servi-lo. Tarde demais! Lá embaixo. E uma apreensão mortal o abatia. pois avistava fortim de Wapassu. impelido pelo ritmos das raquetes batendo na neve e pelo barulho de sua respiração sibilante. Como se não soubesse que atrás de toda mulher existem crianças! O Senhor.. "Eles estão mortos! Eles estão mortos!" Lançou-se pela encosta lançando gritos e apelos desesperados. Nenhum movimento. Nem de suas palavras.

chegou ao quarto no fundo do corredor e entrou. Vou prepararlhes uma boa sagamité. ele julgoú-a morta. podia ficar acordada. Em seguida. as faces.. novamente estremecendo. que não havia retirado. Ele pousou a fronte em seus joelhos.. preferindo deixar o fogo apagar-se para economizar um pouco da provisão de lenha. com boa intenção de mantê-lo aceso. — Onde está sua mãe? — Mamãe está dormindo! — responderam com um gesto em direção ao quarto. Estavam geladas. Pouco a pouco distinguia com estupor as três crianças muito agasalhadas. A claridade de um sol pálido entrando pela pequena bandeira da janela. pois.. mas que. evitara acender o fogo. Ficando sentada. — O Senhor! — murmurou. — Quase morri de sofrimento quando não vi nenhuma fumaça acima do telhado. que não encontrara mais forças para os gestos essenciais dos cuidados às crianças. havia alguns dias.. — Aqui estou. era preciso aproveitar aquele sol.. a fim de se habituar à penumbra.. Viu o viajante de joelhos diante dela. semelhante a uma hóstia branca. bem quente..Embaraçado pelas raquetes. mas percebeu o leve movimento de sua respiração. Trago-lhe também compota de cidra. estava com febre. com gravidade. espreitando-lhe o olhar.. ou que as crianças resolvessem brincar com ele. e ela se ergueu com um sobressalto de espanto. Estava tão fatigada. diante da qual a neve fora retirada. vertendo-lhe água. os ganizes no assoalho de madeiras grossas. Trago-lhes a vida. Tinha saído com as crianças. Ainda ofegante. com airelas. que tinha parado à . agora estou aqui. melaço. Foi um estalejar das chamas que despertou Angélica. E continuaram a fazer soar. se está febril. Estou aqui. grãos de aveia-louca. começou a quebrar gravetos e reunir ramos e cavacos para acender o fogo. pensava: "Ela está morta! E as crianças confundem sua imobilidade e seu silêncio com um sono profundo.. Ela lhe disse que as horas do dia lhe pareceram muito quentes. — Por que não acendeu o fogo? — gritou.. receando cair ou não poder vigiá-lo. tremendo dos pés à cabeça. Tocou-lhes as mãos... numa atitude de abandono que traía uma grande fadiga. permanecia na soleira da porta. Ajoelhado na pedra da lareira. Compreendeu que ela não sabia mais há quantos dias ele partira. mel. com efeito. e Angélica viu entre os cabelos espessos a tonsura. — O Senhor! Que sofrimento! Mas cheguei a tempo." Com passos titubeantes. amarelecia seu rosto já muito pálido... Pendurava o caldeirão à cremalheira. minhas crianças — resmungava —.. não se aqueceu deitando sob as cobertas? Ela explicou-lhe que receara ser arrastada pelos delírios da febre. ameixas e todo tipo de fruta seca. percebendo que ia perder os sentidos. Ela estava sentada diante da lareira apagada e dormia. — Por que. piscando os olhos feridos. Teria se resfriado ou seria um ataque de malária? — Agora estou aqui. Então ela lhe confessou como um pecado que. no meio da sala jogavam cucarne tranquilamente..

a justificativa de sua existência. trazia uma provisão de aguardente. concordou em -que era um dos prazeres da vida abandqnar-se à doença. no lugar onde guardavam as provisões. E quando não houvesse mais pão. O fortim de Wapassu assinara um novo contrato com a sobrevivência. e já lhe mostro nossas riquezas. conseguiu engolir algumas colheres do mingau. Está um chiqueiro. cobrindo-a com cuidado.. Em compensação. Deitou-a. como uma lâmpada acesa de vigília. — Vou só chamar à ordem aqueles jogadores inveterados que estão na sala entretidos numa partidinha de cucarne. — Agora estou aqui. logo seria o dia de Santa Honorina. e apresentam. Mas ela virou a cabeça. Angélica se resfriara quando fora procurar tripas de rochedo e casca de espinheiros para Gloriandra. prato vital e rico. Conseguira encontrá-las e dera-lhe uma tisana. confiando apenas em seus atos. Apenas vinho de missa. Vinho. As mulheres só se sentem em paz com sua consciência quando podem provar sua utilidade. não me comprometi a mante-los todos com vida de qualquer maneira? Até a minha volta. — Faremos um bolo em homenagem a sua grande irmã e rezaremos por ela. fora um erro não ter ficado a esperá-lo. faz tempo que nem varro nem arrumo a casa. produto do grão mais precioso que o ouro. — Mulher de pouca fé — disse ele —. ele a carregou e colocou na cama. Podem constituir o último recurso para engrossar a sagamité. Dispôs as rodas de pão nas prateleiras ao longo das paredes do quarto e da sala grande. apesar de suas admoestações. Durante a noite. E também velas. Deixara-o. água." Ela olhava ao seu redor com desolação. de braços cruzados. Apesar de suas recusas. poderiam assá-lo. de modo às vezes excessivo. Com muitas precauções. Eu me encarregarei de cuidar de você. ela o ouviu delirar. dispostas como rostos bonachões velando por ela. com as pálpebras baixadas sobre uma martelante dor descabeça. um pouco de fermento e farinha. foi abundantemente provida. Não era de seu temperamento fazer isso. Pois bem. disse ela. todavia. . Agora que o sopro do Oranda permitira ao jesuíta seu giro de salvação. que fica muito quente mas demasiado rala no fim das invernadas. transferindo a outra pessoa todas as responsabilidades. tão cedo não se corrigiria. Abriu os olhos e percebeu na parede as rodas de pão da Missão de São José. Só as acenderiam para as festas. daquele pão que é. milagre das searas. sal. Pão. Farinha de flor do trigo. E. Fariam crescer um bom pão no forno. vinho. Cristo o denunciou quando foi visitar Marta e Maria. Depois vou preparar-lhe uma sopa digna de minha Tia Nenibush.. por excelência. Que só conseguia manter-se viva repetindo-se incessantemente: "Não adormeça. — Desculpe-me. encolhida sob as cobertas. um defeito de dona de casa. quando se persuadirá que o mais precioso de si mesma é invisível? Você parece desprezar esses "poderes" com que. A menina estava melhor.. nascido no entanto de tão poucas coisas. Mas ia-economizá-las. Mas. murmurando que não tinha fome. havia muito pouco na missão. Esse é um defeito feminino.espera de sua volta.. o combate contra o inverno podia ser retomado. o alimento dos franceses.

dizem as mas línguas que tinha uni encontro amoroso. de uma estranha agressão. continuariam a fazer a morte recuar. — Venha aquecer-se na cama. enrolado numa coberta. — Dessa vez. fora vítima. Mas. Se havia . um esqueleto sob a roupagem gelada por seu suor na corrida.Então ele voltara? Mas onde estava? Na realidade. E depois? O companheiro de infância de Ambrosina sorriu sardónico. Apesar da reputação de piedade e virtude que já havia granjeado. a não ser. foi ajé ele e ajoelhou-se ao seu lado. Tivera contudo tempo de dizer-lhe que ele parecia um espectro. Aposto que suas feridas se reabriram e que você nem sequer tomou uma tigela de caldo. As opiniões da colónia. CAPITULO XXX A profecia se cumpriu Dias depois. de Gorretast fora passear à noitinha lá pelos lados do moinho. os olhos afundados na sombra do capuz. Mas.. — Você soube detalhes? Não é usual uma dama de prestígio ser atacada por um animal selvagem na ilha de Montreal. em visita oficial a Montreal. revezando-se um ao outro. e agora úmida. Como pudera executar tal façanha. Uns são inocentes e querem acreditar em seu encanto.. na extremidade oeste da ilha. no outono.. despender tal esforço?! Despertou-o suavemente. — E o Arcanjo "estava lá! E o monstro!. segundo dizem.. jamais acreditara que voltasse. Ah! que belo par formamos!. o nariz azulado. Uns falavam de um animal selvagem que a teria feito em pedaços. permaneciam. Sozinha. — A Sra. Parecia quase em pior estado do que quando o encontrara costurado na mortalha de couro. nada. e isso influíra mais sobre sua saúde que as privações. Então ela se afastou. nem de passos.. irritando as feridas.. tendo se afastado em seu passeio. nem de patas. outros. dirigindo-se a ponta do Moinho. Àquele viajante que acabava de atravessar o Tártaro gelado do Inferno. é verdade — murmurou ele. de um ataque de um grupo de iroque-ses que rondavam sorrateiramente nesse fim de verão. o traço de garra na casca de uma árvore. — Não é a primeira vez que isso acontece. outros sabem e se calam e só falam-depois.. Dormia um sono febril e murmurava frases sem nexo. A esposa do novo governador. Surpreendera a notícia nas palavras trocadas pelos dois jesuítas da Missão de São José. mas sentindo-se melhor. Ele estava estirado diante da pedra da lareira. muito abalada pelas condições horríveis desse atentado sem precedentes. A pele lívida sob a barba hirsuta. que é bem povoada.. — Ela morreu! Um animal selvagem devorou-a. Sofrera sua partida como uma morte. sozinha.divididas a respeito da agressão.. ele lhe falou da morte daquela que eles continuavam a chamar de Ambrosina de Maudribourg. — Sempre a mesma ambiguidade quando se fala dela.. só oferecera queixas e nenhuma hospitalidade. uma assombração. — O que viram? — Nada! Nem ninguém! Não havia vestígios nos arredores. Ainda fraca.

com algumas baixas. Um dava para o antigo quarto dos Jonas. e depois levados a Quebec. Ele subia à plataforma para farejar as mudanças de tempo. Para justificar essa exibição de navios e barcos carregados de armas partindo para o lago Cham-plain. Mas a própria neve era sinal de um abrandamento. dormia um sono mais reparador. segundo os ferimentos. arranjou forças para enfrentar sua desdita num ardoroso desejo de vingança. o esposo aniquilado. que lamentavam não ter estado no pawa do Forte Frontenac em Cataracuí. tão temível. Nevou abundantemente. branco e cinza da neve enjoativa e invasora. "Um chefe huroniano foi propor-lhe uma "caldeira". que dava apenas para o universo fechado. os chefes foram raptados e acorrentados. que. aceitaram o convite do novo Onôn-cio. construída segundo os modelos da Nova Inglaterra. para provar a si mesmo. pendurada sobre eles como que os envolvendo em seu . não parava de vigiar os fogos. de que fora antes vítima de um animal feroz — o que também não deixava de parecer inverossímil. Os dois outros. uma expedição de guerra. Angélica. Conseguiram persuadi-lo de que a morte da mulher se devia a um grupo de iroqueses e. abria-se para quatro fogos diferentes. para a grande sala. e as portas e janelas foram novamente bloqueadas. A noite.estar uma pessoa cuja cabeça foi encontrada na forquilha de uma árvore. O exército. as tropas tiveram de retroceder. Entrava de mansinho. manifestando o desejo de encontrá-los e oferecer-lhes um festim em suà honra. O novo governador enviou uma convocação aos chefes das Cinco Nações. O gelo. O que habilitou em seguida a tese de um ataque de índios. "O exército continuou em direção ao Vale dos Cinco Lagos. apesar das evidências. A lareira do pequeno cómodo correspondia-se com a chaminé central. pensava ela. Entretanto. A CONFISSÃO CAPITULO XXXI Um comediante nato Assim que readquiriu forças e ficou em condições de cuidar ele mesmo das feridas das pernas. e. de um rigor sem igual. Dispôs-se a reanimar a casa entorpecida. parecia recuar. como todos os anos. parece. tão perto da cidade —. isto é. escaparam. Era preciso dar ao Sr. de onde foram enviados às galeras do rei. de Gor-restat algo para alimentar-lhe o sofrimento e o desejo de represálias. pretendendo continuar a campanha na primavera. — O Mal prossegue seu caminho. Durante a refeição. para apagar vestígios com tanto talento. "Apenas Utakê. Retiraram-se para os fortes e feitorias de comércio. os senhores canadenses e os aliados selvagens puseram-se em ação. saía novamente como uma sombra. recorreu-se à astúcia. que o inverno afrouxava seu abraço. Angélica não a odiava. que não tivera coragem de olhar o corpo. Preferia aquela neve. instalou-se no quarto de Lymon White. Mas com a chegada do inverno. enquanto o corpo jazia no chão a alguns passos dali. A profecia se cumpriu. Estará ela realmente morta? — Tanto quanto pode . não tendo mais com o que se preocupar. Os iroqueses. Tahutaguete. que estava em expedição num lugar distante. pois. seria preciso ser um espírito ou um frequentador dos bosques. Desobstruíam com constância a entrada do túnel.vestígios foram apagados.

conferia-lhe uma silhueta quase feminina. Ao vê-lo ficou estupefada. amor carnal recusado. dar primazia à procriação. quase elegante em sua toga preta. quando era seu inimigo declarado. Mas forma inacabada. Havia somente dois ou três pontos ainda que gostaria de esclarecer. e quando receava constantemente vê-lo surgir diante dela. mas que lhes permitira prosseguir com alegria e. Eosse uma vez Penobscot. pensara: "Desta vez é ele!. fino. era o Padre de Vernon. ao círculo sem fim de um universo sem vida ou ao sopro das tempestades. Amor sublimado. cada dia marcava um avanço. confundindo-o com outras. felicitar-se com a marcha do tempo. evocou sua amizade e aquela forma de amor existente entre eles. só podia. com um medo pânico: "Ele vai-se embora!" Mas. apertando-lhe a cintura magra. uma noite em Quebec — e era simplesmente Joffrey. o largo cinto. Simultaneamente ela pensou: "Como é belo!". porque interdita pela dura Bíblia. a aparição inopinada de um deles fizera-a estremecer. e várias vezes. delgado. à beira de um bosque — mas não era ele. por uma silhueta entrevista. Mas sempre. ele afirmou que isso não punha em questão sua presença entre eles. com paz de coração.. à imitação do grande Inácio de Loyola. ele se furtara. lavadas previamente em água fervente. Naquela manhã. Depois adivinhando seu receio. Desejava simplesmente falar com ela. oriundo do mesmo lar único do amor essencial. e através do qual tinham podido amar com paixão e ternura o resto da humanidade. Ele permaneceria ao seu lado até a volta da primavera. ao pé da escada.regaço. os caminhos árduos de devotamento e sacrifícios de suas vocações. acusador e implacável. podia alinhar os rolinhos de tecido branco e deixá-los de reserva no cofre de farmácia. julgara tê-lo visto aparecer. Aquela neve salvara-os no outono. daí em diante. até que pudesse deixá-los entre amigos. com uma espécie de devoção. essa imagem. Lentamente.. muitas outras vezes. encantadora e dilacerante. sutil. Chegou a hora do combate". mas. frequentemente. sempre em Quebec. depois: '"Onde arranjou essa sotaina?!" E finalmente. falou de seu amigo mais dileto. na penumbra da casa dos jesuítas. Primeiramente. segurando a ponta do crucifixo onde brilhava o rubi. abrigando-se por trás de outros porta-vozes. Subitamente o Padre d'Orgeval surgiu diante dela.. uma vez que não tiveram outra escolha. com multo cuidado e vigilância. pois. que haviam vivido desde a juventude e durante os longos anos naquela incompletude. Fosse na pequena casa de Ville d'Avray. . obsedada por. E assim. amor do coração aceito. Como o inverno era longo! Todavia. Usara abundantemente aquelas faixas. com um ar espanhol. pelo colarinho alto com o avesso branco arredondado. E agora ali estava.vestido com uma sotaina preta. Ou então. esperando não ter de servir-se deles por um bom tempo. Estava exatamente como o imaginara outrora. com a mão colocada sobre o peito. à qual juntara um pouco de cinzas. que voltava tarde da noite vestido com seu capote preto. fazendo com que para que cada um deles o outro fosse o símbolo do fogo que queima no coração de todos os seres. uma silhueta negra. estava sentada ao lado da lareira enrolando as tiras de bandagem. ele lhe pedia para não se emocionar e não interromper sua tarefa. sem deixar-lhe tempo de abrir a boca. mas reconhecera uma vez mais o Padre de Guérande. Quando se lembrava do estado em que fora deposto na soleira da porta aquele que. nos tempos primeiros. Cláudio de Loménie-Chambord. a qual devia. a ajudava agora.

já que ele o pedira. dizendo: 'Ele ficou louco. Mas era demais. pensou em Ruth e Noémia. Ninguém podia ouvir suas palavras. Eu era um mestre nisso. que eu confundia com concupiscência. que não desejam ser envolvidos. Apontavam-me com o dedo.. ferir. Eu me obstinei. e seu coração se rejubilou ao ouvir esse padre de batina preta conceder a seu amor proibido uma espécie de absolvição indireta. deixando em paz meus sentidos. A loucura de Babel agitava-se para além das fronteiras visíveis. abençoei a Deus por isso. desmantelamento dos quadros que a sustinham. tratava-se realmente do Padre Sebastião d'Orgeval ali à sua frente. — Soube então que o Amor era um dom de Deus.. de tê-lo ignorado. deserto. enganar. e que é tudo para nós. No entanto. "Censurava a meu corpo estar implicado nesta revelação. Eu desfaleci. Estavam sozinhos no mundo. estavam sozinhos sem outra testemunha a não ser o Criador. numa ruptura de todo o ser. Ela o escutava atentamente.. mas com mais lentidão. ninguém podia recolhê-las para distorcê-las e transformá-las em armas mortíferas. fazer inimigos que destruíssem suas vidas e a dos seus entes queridos. Ensinam-nos em nosso noviciado a dominar pela sublimação esses desejos imperiosos. decepcionar.— E ainda — disse. Ela me feria em todas as defesas que eu edificara para me preservar contra aquilo que eu odiava e que mais me aterrorizava: o Amor. A ideia da Diaba anunciada atravessou-me o espírito e foi-me difícil refrear um grito de vitória. dizendo que devia voltar àquele dia de outono. o Amor. dando involuntariamente uma suavidade ritual àqueles gestos simples dos afazeres cotidianos que acalentam a vida. pois aprendi que nada é mais criativo e vitorioso que o amor sincero. Não precisavam recear nem ser compreendidos. Voltei a mim tomado pela confusão e também pelo terror. Sensações de arroubos e de arrebatamento jamais experimentados. e que eu fora culpado.' A Mulher. que vinha me revelar o inverso oculto de seu mistério e ensinar-me que a força de um tal sentimento podia dar a todo indivíduo a sensação de existir na terra. "Achara minha jogada. e reconheço que esse puro e terno amor que eu nutria por meu irmão predileto me preservou do peso da solidão e da aridez do coração e preencheu por muito tempo meu ser afétivo. Quanto a eles. muito culpado. Procurava retomar pé em meu universo familiar. Renunciar a meus melhores amigos. "Foi assim. Tomou novamente a palavra. Pouco a pouco sentiu-se invadida por uma convicção tranquilizadora de que naquela hora podiam dizer um ao outro tudo.. Não quis reconhecer a Luz. decepcioná-los. No momento. ao lago de Moxie. Talvez porque não visse como materializar a revelação. prosseguindo um discurso que devia ter repetido amiúde a si mesmo — eu me pergunto atualmente se não teria sido melhor para a glória de Deus que não nos tivéssemos separado de forma alguma. Num mundo destruído. a . O desmoronamento de toda a sua vida. Consequência da revelação. podia ser o caminho do sagrado. noção ignorada e que vinha me tocar com sua luz.. "Aquilo que eu entrevira era muito louco. Aquele dia em que. Nem desencaminhar. acabava de compreender que o Amor. enquanto continuava a enrolar as tiras. inacessível. o Amor. Quando ele falou do ardor do sentimento que o unira ao Conde de LoménieChambord.. e o amor carnal também.

.. estava apavorado. eu entrevira os cavalos dos homens no sobosque. era mais sensível quando se tratava daquele a quem adorava.. no poder... forjado no poder sobre os seres. "Louco. crendo que em seguida reencontraria minha alma.. O que eu esperava daquele instante em que ela estaria diante de mim. que eu não era o único a decidir esse duelo... Teria desejado ver sua soberba diminuir. de captura. em virtude de uma injustiça intolerável.. de vingança.. Não assegurou-lhe.. Falava de campanhas de guerra. destruir. Não ria!. seu esposo. prisioneira?. vencida. mas tão convencido de servir a Deus e de que Ele me perdoaria esses crimes. assustados por monstros. a fim de poder encontrar razões para pensar nele. nasciam sob o aguilhão de uma atração à qual eu recusava dar um nome. a ele. "Nós nascemos cegos. rígido. não? — tentou protestar Angélica. como você vê. Eu acreditava querer abater. Sim. procuro desculpas. quis sua morte para extirpar aquilo que me corroía. a fim de justificar a obsessão de meus pensamentos. cercados por neblinas. pois ele começava a conhecer melhor Angélica e sabia que.... partia para massacrar os protestantes com minha grande espada. "Todos os projetos de derrotas. levamos anos para compreender que não passam de espantalhos de palha e de madeira morta. Podia continuar minha guerra. que eu chamava de ódio. Essa confissão era mais difícil. e seu desfecho. Vibrava. naquele lugarejo de puritanos na colina. aviltar aquilo que não merecia triunfar. "Esse amor.. e gritava: 'Tragam-na até aqui!' Estava certo de atingir o objetivo.liberdade da consciência. se conseguia acolher com uma fronte serena o anúncio de que ele quisera sua morte. o homem que a possuía e que. Portanto. "Soube-o no dia em que deixei de ter a consciência pura dian-:e dos meus atos. seu amante. Eu começava a compreender que o duelo tinha mais importância do que eu lhe queria atribuir. apagar. e estava obsedado por uma única coisa: aproximar-se disso. Mas ela não foi.. Adivinhara quem era minha aparição. uma caravana. na guerra. "E como circunstância agravante. "Mas quando se vê claro. . Teria desejado afastá-lo... e não sabia com que impaciência.. seu amor. tudo entrava nos eixos.. Era muito tarde para mim.. Não as tenho. sem nada esperar em troca.. Mas isso não muda nada. por uma verdade entrevista.." Falou em seguida sobre o rancor e o ciúme devorador que sentira pelo outro. Deixar tudo. "Sinto-me criminoso por fêf continuado a viver dando àquilo que realizava aparências de açóes virtuosas.. quebrar sua insolente aptidão para viver. "Quando subi para o assalto de Newchevanik."para cumprir minha missão. "Acreditava que era para destruir os inimigos de Deus. era também amado por ela. Quando era criança. não quisera matar.. o homem a quem ela pertencia. Meu corpo estava formado. — Não julga que a vida sempre lhe foi fácil. de cruzadas. que na realidade ocultava todas as loucuras de um sentimento amoroso. sabia que você estava lá. e eu não conseguia suportar isso. de perseguições quê fomentava contra vocês. — Ele sabia tudo — atalhou ele —. é então que começa a culpa. Teria desejado que ele desmerecesse esse amor. E Piksarett desapareceu com você!.. depois de Brunswick Falis.

nem servidão e vassalagem de qualquer espécie para com ninguém. os novos olhares e onde se preparam as transformações das gerações." Calou-se. após um longo silêncio meditativo.'mas fora correspondido. libertino.. ele havia coroado essa existência culposa pela descoberta das mais elevadas e embriagadoras alegrias. Mas. Eis o que eu queria confessar-lhe para que o passado não deixe subsistir equívocos e amarguras entres nós. Entretanto. Ele foi aquele designado para satisfazê-la. às vezes me pergunto se seu erro inicial não teria sido entrar para os jesuítas em vez de se apresentar ao grupo do Sr. E melhor continuar a acreditar que somos um dos eleitos. aquele homem pelo qual ela estava tão perdidamente apaixonada e que não havia recusado nem a carne.. arrebatá-la.. — Padre d'Orgeval. É preferível ficar cego a compreender que a luz da Verdade não nos é concedida segundo nossos méritos. Com as mãos sobre os joelhos. nem apegos.. "E uma coisa terrível descobrir o erro que se cometeu e a amplitude das armadilhas nas quais se caiu. Por que ele e não eu?. "Tudo aconteceu alhures. Isso também eu tive de enfrentar. Mas que ela não falaria. o que se liga ao êxtase divino. fora amado por ela. em contrapartida a tantas transgressões efetuadas com desenvoltura e sem se preocupar com o escândalo.. o verdadeiro. Angélica acabara de enrolar as faixas. pensara muitas vezes. "Aquele fidalgo de aventuras. maravilhá-la. Era preciso desembaraçar esses acontecimentos do engano das aparências: Eu não combatia por Deus e vocês ?ião eram Seus inimigos. Tendo obtido a mais bela das mulheres. Tinha medo de compreendê-lo. zombava da Igreja e de suas instituições — seu processo não fora provocado pelas queixas do bispo de Toulouse? — Eu via que. Estou tranquilo e seguro de mim mesmo. Pois. apesar de perdido diante dos meus. ensiná-la. Ateu. Era ele quem tinha razão. Um leve sorriso brincava-lhe no canto dos lábios. com efeito. Percebeu que a deixara nervosa. e jamais se perturbara com as leis. e tinha havido muitas palavras. porque andava no caminho de sua verdade. tudo e tão lento na terra. pisava em todos os preceitos. nem o amor." — E agora. para sempre. Ele que andava pelo Caminho da Verdade. ela disse: — Onde arranjou essa sotaina en perfeito estado? Pensei ter feito em pedaços aquela que você usava quando chegou! — Tomei-a emprestada aos missionários de São José. — Por que a vestiu hoje? — Para confissões difíceis às vezes é necessário uma armadura. o que pensa a esse respeito? — Que Deus acolhe todas as vias que exaltam Sua grandeza e celebram Sua bondade. tudo era imponderável.. Ele achou-lhe uma graça -infinita e fechou os olhos..Como era afortunado. ela disse: — Posso fazer-lhe uma pergunta? E como ele aquiecesse com um movimento da cabeça. aquele Conde de Peyrac. mas segundo o Plano. Não apenas descobrira o Amor. E no entanto. colocando-as cuidadosamente uma após outra no escabelo ao lado. merecia tanto? Eu o maldizia. Moliere. lá onde se abrem.. entre os justos. Não é um comediante nato? . eu o sentia justo. "Comecei a invejá-lo por não ter moralidade. ela o olhava.

Durante as breves saídas que se permitiam fazer. refúgio dos homens. um pouco desgastada. Assobios. que provavelmente também tinha trazido da missão. do mesmo modo que sempre fez em todo o resto do mundo. se discerniam um imperceptível abrandamento nas violências. um pouco". estridente do pássaro que nunca se vê. uivos. de Peyrac é tão hábil quanto os novos ingleses em singrar os mares com seus navios. — Nem por isso esses deslocamento e essa mudança cortarão os elos que vocês já estabeleceram com o Novo Mundo.do furacão. aquele ruído das águas que recomeçam a murmurar nas profundezas dos bosques. num clima de confiança e de familiaridade novas.. CAPITULO XXXII Um aspecto do espírito de Joffrey de Peyrac — Sonhos de regresso à Europa A seguir. junto ao único fogo que devia ser mantido com sentimentos mesclados de simpatia e de receio pelo que bramia acima de suas cabeças. que iria curar-me disso. . pois.— Sempre fui. No colégio fiz todos os grandes papéis dos heróis da Antiguidade. É preciso ter gosto pela declamação e pela tragédia para pregar. O frio continuava forte e trazia incessantemente pesadas nuvens fustigadas de neve. subindo gradualmente para os desencadeamentos ordenados da tempestade. isso era muito relativo. Mas quando se falava em tepidez. Daí em diante. a cidade. obrigando-os a se encerrar em casa. como ele dissera. guardou cuidadosamente a sotaina "emprestada" e recolocou o crucifixo sobre o batente da lareira do quarto de Angélica. Seu instinto gregário os impele a pôr em comum todos os bens e serviços de que têm necessidade para sustentar esta mísera vida que uma côdea de pão e um vizinho caridoso podem salvar da morte. Algumas vezes viu-o lendo um missal. Pois você não ignora que a educação dos jesuítas atribui muita importância ao teatro. Só quem não conheceu o deserto branco do inverno nas re-giãos incivilizadas pode se queixar das cidades. durante a qual destruiria ludo." Velha harmonia. Companhia familiar que escutavam. e não lhe será difícil conservar um pé em cada porto. em atrelagens conduzidas por um vento único que conhecia seus caminhos e só tinha uma finalidade: devastar a terra até o osso.. Ele a escutava avidamente.cansativa. como os velhos tiranos loucos. Sebastião d'Orgeval encorajava-a a fazer projetos no sentido de uma volta à Europa. falavam das cidades longínquas que reveriam um dia.. E não seria viver com os índios. Podia falar-lhe de Joffrey. quando falavam. que caíam como cataratas ou turbilho-navam com agitação. mesmo com Abigail. Deu-se conta de que nunca tivera oportunidade de falar a respeito dele ede seu amor. era. esforçavam-se em vão por perceber aquele ruído ténue. Os homens têm muita razão de construir cidades. Os períodos de dias mais tépidos surgiam entre duas tempestades. sabiam que ainda não estavam a salvo de um despertar de suas forças numa derradeira cnse. Oprimidos pelo eterno silêncio. O sr. a impassibilidade de uma paisagem onde ainda se lia a morte de todas as coisas. Em vão se voltavam para as árvores mais próximas para ouvir o apelo aflautado. mas que se denomina "o pássaro da primavera" e que teria prefigurado para eles a pomba da Arca. que são comediantes natos. de Nova York a Quebec. reunidos novamente no único quarto. estertores.

o que é pior. os encantos de Versalhes e o que ali havia de excelente e que tão poucos apreciavam no trato com o soberano. vivos. tudo seria mais fácil e principalmente mais divertido. Os espanhóis não reagirão. ou. e quem sabe?. Miúdas expedições de formigas roem os espaços. poderiam desfrutar. até no golfo do México. se conseguir descer o rio Mississipi. então seria realmente o fim do mundo. o peso do silêncio e a rudeza do cenário que reencontrava eram difíceis de superar. perdidos em nossa geena. É preciso fazer ainda mais por ele. um louco imbecil. O Sr. A dois. absolvia Luís XIV. como o rei. Era o culto que o rei prestava à Beleza. "Quanto reconhecimento não devemos ter nós. colhidas nos jardins do rei? — Sim. índios ou brancos. — Versalhes governa os destinos desses povos até os confins dos vales mais desconhecidos e menos visitados. em alguns pontos. dá para imaginar — dizia ele —. para com aqueles que. e que há esperança para nós de vir um dia também a sentar-nos. paz e riqueza. o que. que existam banquetes onde se podem degustar. — Dá para imaginar que em algurfia parte existem palácios onde se dança. cuja espécie lhe era tão contrária. continuam a procurar e a criar todas as formas de Beleza para encantar os olhos e os espíritos! "Pois isso significa que o fogo continua a crepitar. um planeta deserto e congelado. A dois. sem distinção de vítimas. aos olhos de Angélica. Quando voltava desses desvaneios. e quem mais que ela podia saber disso? No entanto. dos massacres perpetrados de ambas as partes. Ela evocou a corte. se em toda parte só houvesse miséria. neste momento. mas também o Templo do Beleza. ainda que numa única lareira do mundo. É a honra de nossa estrela Terra manter assim sem descanso. E preciso que ele volte ao Canadá. riem. Não havia saída. cumprira sua missão diplomática. até sua embocadura. das campanhas de represálias. Se seu esposo não tivesse podido acompanhar o Sr. e as guerras que delas decorrem. que já se tornara infernal. Ele falara. o Pai das Águas. Agora que Jof-frey entrara em contato com o rei. E. de preferência às intrigas sortidas que circulavam nas estranhas do palácio. — Veja que é de Versalhes que se decidem as partilhas. não deixá-lo sozinho no meio daquela fauna absurda e fútil. não sem razão. dançam. segurando com as duas mãos enormes e deliciosas frutas. e pode-se agradecer aos céus por isso. fogo. Mas ela sentia forças vivas prontas a se erguer. naqueles dias em que toda visão se adorna com um véu de clemência. Se a vida se extinguisse em toda parte. A corte era uma selva. — E no entanto — disse Angélica — é mais difícil voltar com confiança a um lugar onde se sofreu do que fazer ali suas primeiras armas.Em sua opinião. — E a Nova Inglaterra ficará cercada. de uma selva perigosa. Receava ainda um último e sorrateiro golpe do destino. as intrigas fomentadas contra ele teriam conduzido nosso melhor governador à Bastilha. teria desejado estar perto dele. Do lado de fora. onde se fazem rega-bofes de patês tão grandes que uma criança disfarçada em Amor pode ali se esconder para surgir sob os aplausos de uma corte coberta de pérolas e fitas. onde se deleitam com músicas celestes. ou seus partidários. de La Salle não tardará a ir plantar o estandarte do rei da França no Illinois. entre . fora do círculo. das guerras. a todas as formas de arte. Pois o novo governador é um louco. ingleses ou franceses. o destino das colónias não se resolveria apenas por aqueles que ali se encontravam. era a beleza de Versalhes que lhe aparecia. de Frontenac. — A bússola está lá — dizia. ébria de todos os prazeres.

ausência de preocupações domésticas. repugnava expor atualmente em voz alta o fundo de seu pensamento. seda. era o rei. se se sabe que num só ponto o fogo permanece. eficaz. ricas tapeçarias. nossas alegrias e ardores. Seu coração ansiava por Joffrey. "Certamente. belos quadros. nenhum adereço. — Você não pode vir a sofrer. que Joffrey não teria hesitado em lançar e desenvolver com brilho e ardor nas cortes antigas da Arte de amar. Mas a vaga de ouro e de pedrarias dos esplendores da vida. Com a diferença de que ao Trovador do Languedoc.os que estendem suas mãos a essas chamas revigorantes e partilhar com eles o festim. Se meu esposo desejar meu retorno à Europa e decidir ali esperar-me. — Estou aqui para velar por vocês. No momento. de Peyrac faria mais para o bem dos povos e dos continentes do que tentando lançar-se em socorro dos seus. por exemplo. Tudo é permitido à esperança." Dir-se-ia que havia nele um aspecto do espírito de Joffrey. E com ela que devemos iluminar nossos sonhos e ambições. — Pode estar certo — dizia-lhe ela —. tem também sua força irresistível. nada que possa devolver-me o gosto pela existência e me ajudar a encontrar o esquecimento daquilo que perdi. tudo estará pronto e não faltará nada. veludo para vos vestir. O FIM DO INVERNO CAPÍTULO XXXIII . Em várias oportunidades o Padre d'Orgeval repetiu que desejava que o Sr. Seu imenso poder de concentração não deixava de criar nos corações ciumentos uma impressão de abandono. Pois sentia que as palavras que ele empregava. Nós nos reencontraremos na paz e falaremos juntos". O importante era o rei. e ela sempre se inquietara quando seu interesse. que havia perdido sua voz no átrio de Norte-Dame quando ali o arrastaram com uma corda no pescoço. Ser-lhe-á preciso uma numerosa criadagem devotada. eram exatamente aquelas. que nos arrasta. lava incandescente que escapa ao vulcão divino. jóias para vos ornamentar. Ela pensava baixinho: "Eu o compreendo. Nas paredes de seus palacetes e de suas residências campestres. dentre a multidão de pensamentos que fermentavam no cérebro genial do senhor da Aquitânia. com uma ponta de censura. de Peycrac devia também preparar com o maior cuidado sua instalação no reino da França. e sobretudo por falsos alarmas. Ela afirmou-lhe que sempre vira Joffrey consagrar-se a uma tarefa sem se deixar distrair no momento por nada. Ela se divertia quando este insistia em que o Sr. Mas o que ele enunciava por sua conduta causara transtornos mais importantes que seus discursos. o Sr. meu amor. que carrega nossos êxtases e arrebatamentos. as teorias que enunciava. belas parelhas. qualquer desconforto! Deve poder aproveitar todos os prazeres que sua fortuna lhe permite e que a capital do reino coloca à' sua disposição. — Talvez até demais — acrescentou. Aprendera a calar-se. Nenhum bibelô. Sebastião d'Orgeval estava convencido disso. é poderosa. carruagens. crimes e torpezas. meu caro diretor de consciência. se dirigia ao género feminino. Cada vez mais ela acreditava ouvi-lo quanto o jesuíta se exprimia. a vaga de lama. E conquistando-o. de Peyrac não perdesse suas forças inquietando-se com a sorte de sua família. objetos jdeestima. Tudo seria conduzido magistralmente. móveis.

ou que conhecem os bloqueios secretos dos precipícios ou os entrançados misteriosos de pistas antigas. anjos entre flores de luz Surpreendeu-o examinando as armas. — Não quero dizer que estarão mortos. lançava ele. Assim que seus perseguidores tiverem se retirado. também não disseram que você voava pelos ares?!. uma teia de aranha. Os próprios povos nómades não se agrupavam ali. — Então.. meu padre. Mas não dizia mais nada.. Dela só posso esperar perambu-lações solitárias. com zombaria. inverno e verão.. na complicação e no visco de sua teia. inextricável. Opôs a sua instância um rosto subitamente sombrio. Havia abundância de munições. Mai-ne ou Acádia. é preciso fugir. Inutilmente os perseguirão. — Por onde eles passarão? — Creio que sei.. de uma linha de cristas a outra.. Um deserto. Não me sinto feito para ser ermitão. mergulhado em profundas reflexões. Cercarão os povoados e os queimarão. Pode ser que seja o fim dos iroqueses. o Sr. — Ela já não me interessa. atravessando-o. Mas eu os conheço.A face oculta de Deus — Rei e rainha da Criação. Ele conhecia de cor todos os segredos da imensa região de rochedos e de brenhas de florestas selvagens. o Atlântico e o SaintLaurent. sim. mas. com um gesto indicando apagamento. Pois era um trecho de deserto impenetrável.. incivilizável.. Tenho uma opinião sobre isso. Eles reaparecerão. — Para que vida?. eles ressurgirão na face"da terra e. envoltas em panos impregnados de óleo. de Gorrestat e seu exército retomariam a campanha contra os iroqueses. cavada per lagos. penso que deve haver uma explicação material que você vai dar-me. Mas ele apenas sorriu. de Peyrac. E como ela esperasse a continuação. Seja. não haviam sofrido danos. e que "podia tornar-se invisível? Entretanto. e creio que você tem razão. Pois eles terão desaparecido da face da terra. até em sua solidão. se está persuadido de que vão surgir. — Não nego o maravilhoso em muitos fenómenos. Assim que o degelo começasse e os riachos. Era preciso ser canadense ou abenaki para arriscar-se nesses lugares. ter julgado que se poderia um dia abrir estradas nesse lugar. ou então pertencer a um contingente de guerra iroquês em expedição para o litoral. Era uma utopia da parte do Sr. e que se chamava. Era uma loucura ter trazido para ali cavalos. estriada de falhas profundas intransponíveis numa extensão de léguas. intrigada.. O mais isolado anacoreta pertence.. Ele conservava a lembrança daquilo que surpreendera na Missão de São José. não longe daqui. que um dia se coriseguiria unir o norte e o sul. empolada de montanhas em vagas sucessivas que lhe barravam o acesso. ele consentiu em dizer algo mais. Dois terços da França. Para que existência? Para que obra? — Sua vida. nesse. e não longe daqui. Bem cuidadas. O fim do inverno representava a volta dos homens. — O que quer dizer com isso? — Terão desaparecido! — repetiu.. Ele trará consigo todos os sobreviventes. — Eles estão em prontidão no lugar. . que só podia se abrir para alguns loucos que saltam as corredeiras. Padre d'Orgeval. Utakê escapará uma vez mais. — Quero dizer que terão se tornado invisíveis. uma teia de aranha. rios e lagos ficassem livres dos gelos. conforme as bandeiras.

prometi a mim mesmo comer seu coração.. seus "pobres de Lyon". a imitar a corajosa e constante Mãe do género humano. por exemplo. mais ainda que os cátaros. que teria de enfrentar." seus lolardos ingleses. Adivinhando. que lhe recomendam afastar-se a tempo? O jesuíta desviou os olhos e sacudiu docemente a cabeça. que Angélica sabia ainda existir e que o encorajava a partir para outros lugares. — Oh! eu sei. pois nenhuma luz poderia substituir a vocação religiosa que queimara por tanto tempo... e por sua influência. — Você pode tudo.. apesar de tudo vazia. — Assim que a primavera chegar — dizia ele —. Seus heréditos de todo género. os objetos perdidos que a neve levada pelos ares nos devolve. as sendas cortadas. Mesmo no fundo dos desertos.. abadias. medita sobre as mesmas verdades. Por isso.. Toga Negra". você deixará que o salve? Ouvirá meus conselhos. esses val-denses de que falam como que do Diabo em nossas montanhas. — Não — afirmou ele. você deve superar sua fadiga e sarar. Sentia-se tentado. De qualquer maneira. então. nos dias que passavam. Tomei consciência disso em nossas palestras. em seu íntimo. como ele.s separam da salvação: a primavera. que é o Estado católico das possessões inglesas.a uma comunidade escolhida por ele.. em que os mergulhavam o frio e a obscuridade ainda reinantes. grutas junto a águas murmurantes. eles não estão todos mortos. — Seja.. A França é rica desses lugares de recolhimento. seus quacrés. você verá. que professam o gosto da mesma austeridade e sobretudo das mesmas disciplinas místicas. a escuta. — Alguns capuchinhos eremitas encontraram um lugar para erguer seu oratório lá pelos lados do rio Saint-Jean ou do istmo de Chignecto. onde estiver. ouviram o apelo do deserto. Apenas alguns dias no. E o que me trará a primavera.. o afrouxamento do círculo de gelo do inverno. . Não o abandonaremos. Você deve isso a mim. que já governa a metade da Europa e uma parte do Novo Mundo. quanto trabalho para limpar o lugar! Contando as barreiras quebradas. encorajavam-se mutuamente a emergir da inércia da morte. sobre os quais você fala com tanta ternura: seus hu-guenotes. do que por esse medo diante da ideia de cair novamente nas mãos do iroquês. Ora. Existem lugares muito bons desse tipo. a pior seita francesa... Aqueles que. Minha América. Menos pela perspectivas dessa existência. tentando sorrir e amenizar as palavras. Você haverá de encontrá-los e ainda salvá-los. você poderá agir e fazer o bem. vendo a terra renascer por sinais invisíveis. os tetos arruinados. e os corpos. Ele sorria vendo que suas palavras atingiam seu objetivo e que o ardor que já lhe inspirava a perspectiva de se debater pela salvação de seus amigos punha-lhe nas faces uma cor rosada. não é? — Quantos corpos terei"de contar? Terá ficado algum sob os escombros de Wapassu?. No Dauphiné. dirige orações ao mesmo Deus. Mas não são a América. — Utakê me disse: "Eu voltarei. Mas.. minha cara. O rei está a seus pés. E disseram-me que havia monges procurando refúgio em Maryland. — Nada de mortos. que estou dizendo? O cetro do rei está em suas mãos. Conheço um deles. Existe uma energia irresistível em recomeçar tudo. — Seremos sua comunidade. Há cartuxas. estaremos ligados a você. esta terra que não se recusava a reflorir da nudez e das devastações do inverno. Não existe mais comunidade para mim. Existem belos valezinhos que incitam à oração. mais do que pelas armas.. O soberano.. você sabe! — disse ela. O eremita liga-se a seus irmãos de espécie.

reduzindo-os certas vezes a uma cinzenta travessia de algumas horas. Depois de realizados os trabalhos do dia. uma lenta encarnação do poder divino que se encontra instilado.. A estação das tempestades e das quedas de neve ainda não se encerrou. — Sinto-me melhor agora. "A natureza esmaga aqueles que se opõem à sua marcha. nenhuma ideologia. pode recusá-la. que se deixara transportar por sua eloquência e que subitamente se reencontrava em sua pobre cabana —. Mais longe. Todos os espíritos são seus depositários. nem por ninguém. Toga Negra. e recomeçavam a falar casualmente e depois a conversar mais demoradamente. Prometo-lhe. pois sua voz é a própria voz da Criação. Ocorreu então a Angélica que era preciso reter aquelas horas. Não~o sabemos. Escondê-lo-ei num lugar seguro. Já basta! Você pagou seu tributo a sua vocação. Angélica ficava na cama com as crianças e seus brinquedos. como ele lhe recomendava. elas se prolongarão. para esse grande fogo.. Condena aqueles que se recusam a seguir sua torrente imperiosa. insuflado nas maravilhas do mundo.. A noite de inverno que torna os dias tão curtos. por mais humildes'que sejam. Não é por mim que receio.— Loucura! Não se deixe levar pela loucura dos selvagens. jamais à destruição completa antes da hora. "Povos desaparecem por ter recusado o avanço. nem perder a razão seguindo os meandros de seus pensamentos. — Não fique o tempo todo pensando em me mandar embora. a Criação é um lento nascimento. Sare! Sarará mais depressa se não se atormentar nem por mim. sempre mais longe. — Não posso deixá-la sozinha com as crianças. Encontrar-lhe-ei um refúgio. seu feixe. e. — Utakê me disse: "Você deve isso a mim.. E o completamento da Criação que perseguimos. Julgamo-nos senhores dela. um lento partejar. Ele tinha razão. Saberei avaliar o momento de me afastar tranquilamente. Utakê sabe o que diz quando me avisa: "Quero comer seu coração". mas pelo encontro dos elementos mais fortes que existem nelas com o que há de mais forte em nós. por se igualarem a opiniões tão grandiosas. falando sobretudo da sua vida de missionário. algodoada de neve caindo ou zebrada de rajadas fustigantes. Por trás desta palavra. A evolução da Criação é nosso dever. — Elas sobreviverão — dizia ele —." — Um fogo também o atingirá se pronunciar tais palavras no púlpito — disse Angélica. Os homens podem chegar à destruição. Duas vezes!. de suas experiências entre as tribos. Aqueles que não querem ouvir desaparecerão. mas engendra. A noite ainda era profunda. — E no entanto todos os ouvidos humanos podem ser abertos para ouvi-las. para isso}" Ela protestou com ardor. às vezes. Ora. — Não! Não! Uma vez!. Não tema nada. o jesuíta sentava-se diante do fogo. Fuja! Vá para a baía Francesa. pois essa força é cega e irresistível. parar de se atormentar para desfrutar-lhes a riqueza e o encanto. Não veio do outro lado do oceano. Ele voltava menos ao passado. até nós. e às criaturas frágeis também.que não consome. Nós o encontraremos. como essas crianças pequenas. Cruelmente. Ela sabe o que faz. Mas "eles têm olhos e não vêem. Angélica não protestou mais. a . Parta sem demora. Eles fêm ouvidos e não ouvem". Cada um contribui com seu raminho. Você mesmo dizia que não se deve tentar compreendê-los. que seriam as horas derradeiras do inverno. Nenhum povo.

A solidão de seu estado e o excesso de sofrimentos padecidos fizeram recuar.Natureza. apesar de tudo. Se eu posso desdobrar meu corpo e se ele permanece aparentemente mergulhado no sono enquanto meu espírito viaja e vê esse corpo pesado elevá-lo acima da terra e deslocálo. ávida de conhecimento. Talvez seja por isso que o Espírito Maligno se preocupou tanto em ocultarlhes a verdade.. O que os cativa são suas pequenas preocupações. e já aturdida e indisciplinada por natureza. imperativa. sentados. o que vai acontecer. em relação a soberanos que dirigiam o mundo. o círculo dos olhares-juízes que não cessam de pesar sobre cada membro de uma sociedade. O tom de brincadeira e de comédia que adotavam e os risos que não conseguiam refrear faziam com que as crianças prestassem atenção a suas palavras. Elas ficavam imóveis e boquiabertas. — Olhe-as — murmurava ele —. Levantava-se diante do fogo e olhava a seus pés como se contemplasse do alto do púlpito uma assistência ocupando a nave de uma igreja. Eis por que eu a amo. as mulheres são mais aptas que os homens a apreender os mistérios ocultos. Com que cuidado. Eles não querem saber. Ele é estreito demais. como que por um fio de prata. inelutável. — Eles estão lá. Verão seu ídolo. mas pouco lhes importam as palavras que lhe caem dos lábios. por intermédio de revelações pessoais. Nela se descobrem mais facilmente os segredos enterrados. não é. é arrastado. até apagá-lo. a essas curiosas. Divertiam-se tratando assim com impertinência as personagens bíblicas. Antes mais audaciosa já e sem temor a Deus. Sua força de mulher e de mãe amorosa.. e levantam o nariz para ouvir o pregador. Eles riam. pelo menos. render sua força de mulher que enfraquecia. eles estão lá. Viera como um anjo. não o compreenderão. liberava-lhes o espírito tal como uma leve embriaguez. não vêem que se oculta a face de Deus." — Foi a punição de Eva. por natureza!. O severo jejum ao qual estavam. Do mesmo modo. sentiam-se. podendose dizer que as palavras mais abstratas tinham o poder de mergulhá-las em êxtase.. seus pequenos negócios. E mesmo a América. sobretudo de pensar. Mas. E se eu digo Deus. ao domínio do sonho e da visão. "Entretanto. Era como a presença de um anjo. dirigindo os grandes olhos para um e para o outro. não é sequer porque Deus me concede uma graça ou por ter recebido um dom. ela é vasta e vazia e o futurp lhe está aberto. Não se pode abrir-lhes o horizonte.. à de . falando com as crianças. mas porque. podiam olhar do alto os poderosos da Terra. cheios de desenvoltura. Não o verão. Para escorar. Abandonados num astro morto. encarregada de manter com vida as crianças pequenas. em cadeiras de palha ou em banquetas de tapeçaria de cetim. com toda a humanidade. Ouvia-o andando de lá para cá no posto.. nos tronos. — Não.. transportá-las para fora de si mesmas. submetidos. como são belas! São flores de luz. ela é muito vazia e muito vasta para ouvir e compreender o que acontece. dominadora. cortando lenha. tratando-as como marionetes no pequeno teatro de seus colóquios. O desaparecimento da vida em torno deles transformara-os em rei e rainha da Criação.em bancos de madeira. mas também a pequena Honorina perdida entre os iroqueses. com que malícia impediu-as de agir. não o conceberão a imensa aventura dos mundos à qual cada homem.. de adivinhações pessoais.. Uns falam de milagres e outros falarão de ciências!. na qual o acaso o fez nascer. força que devia se ligar. penetrei no caminho de um segredo natural.

sob efeito do calor do dia. Sua constância sustentaria a sua. levemente esverdeada. Somente o Espírito pode multiplicar a força. dizia consigo. Ele não passa de um ponto mínimo no universo. CAPITULO XXXIV A primeira flor da primavera Ele entreabriu a porta cautelosamente.. E também o pequeno Carlos Henrique e todas as crianças. todos os jovens que tivessem necessidade de ajuda. Uma vez aceito isso. a primeira flor!" Teve uma súbita vontade de revê-lo. Ho-norina se juntaria a eles em Gouldsboro. seus meios. por eles. era de uma brancura de alface. . Marcelina certamente estava viva e. quando a apertava nos braços. Ela não parara de tossir. teve uma recaída. quando Marcelina. A ideia de atravessar o oceano para consegui-lo cessara de parecer-lhe insuperável. e em quantas partilhas. dizendo: — A primeira flor! Segurava entre o polegar roído e o dedo médio truncado um açafrão rosa. perto de Joffrey. Era apenas um inverno. ao qual se sucedia o frio glacial das noites. Como a vinda das flores. Raimundo Rogério e Gloriandra. num jarrinho de água. acompanhada de lolanda e de Querubim. no qual cada um combateria no torreão que devia guardar. Onde Joffrey dissesse: "Fiquemos!". ao longe. e. Tossia. Querubim. a Bela. Mesmo Joffrey. sob a beira do telhado que está começando a gotejar. Deixou a flor junto dela. da trama de suas alianças. Aqui podemos viver em paz ainda um tempo de nossa vida". como com um sangue novo subindo-lhe ao rosto. de rever os filhos. em palavras febris e apaixonadas. abrigo. de reunir todos os seus à sua volta. Cantor. todos. Ela compreendia o que ele quisera dizer-lhe. portanto. refúgio. que lutava. de socorro para iniciar o périplo de sua existência em meio às emboscadas deste século. na última noite na costa Leste. o defensor. e depois. onde sua prudente experiência. era preciso reconhecer que as intervenções do céu para sua salvaguarda tomavam as mais irnprevisíveis formas e rostos. tudo ia ordenar-se espontaneamente. se encontrava acuado.Joffrey. Angélica pensava em Cantor.. o conde-cavaleiro. "Mãe. e isso lhe lembrava o tempo da costa Leste. Honorina. apesar de sua coragem sem limites. sob sua asa. fora cuidar dela. o autorizassem à dizer: "Ergamos aqui nossa tenda. e todos se reencontrariam: Florimond. Ela abrira caminho na sombra e no gelo. força de todos eles. avaliando como aquele homem estava investido de encargos. lolanda também.. como estavam naquela época. tão reduzidos! Nem todo o ouro do mundo pode resgatar a impotência na qual o çojocam muitas vezes as escolhas de suas lutas ou de seus mandatos. Mas as forças do homem mais4orte são tão fracas. e depois embarcariam. seu conhecimento dos homens. o invencível. e. Sua força seria a sua. — Encontrei-a ao virar uma placa de gelo. Sua voz sob a janela no fim da invernada. Joffrey de Peyrac. o indómito. se soergueu e se adornou com todas as suas cores.desde a última doença. com o cálice aberto sobre pistilos dourados e ornado por algumas folhinhas em feixes verdeclaros. após alguns instantes em contato com o ar e com o sol. sem dúvida nenhuma. Que teto abrigaria tão numerosa família? Que província seria seu feudo? Pouco importava!.

esse ruído distante nas florestas proveniente do murmúrio das águas liberadas. com uma dose de aguardente. e a superfície opaca do lago que ela percebera como um espelho sem polimento. sob uma luz translúcida que parecia brotar de todas as direções. E para convencê-los ao mesmo tempo da iminência dessa volta e permitir-lhes olhar uma última vez de frente o inimigo que não os tinha vencido. Mas é em vão. não quis que renunciassem à saída cotidiana. tudo isso anunciava a salvação. Colheram dentes-de-leão. colocando-as de lado para secar. Isso não nos impedirá. Ele tinha hábitos de celibatário. mas também a volta dos homens. Um vento forte se ergueu. Acendeu o fogo em todas as lareiras do fortim. e a neve . Permaneceram imóveis. As árvores. infiltrando-se como um elemento espesso que tivesse preparado uma temperatura polar. como no milagre do óleo santo do templo ou no dos pães e peixes do Evangelho. de colher dente-de-leão e comer nossa primeira salada. logo a primavera vai eclodir. Angélica levantou-se tiritando de frio e batendo o queixo. persuadida de que fora acometida por outro acesso de febre. de homem que aprendera a se arranjar sozinho. Ilusão. Mas ouviu as crianças se agitarem e se queixarem em seu sono. — Ele luta ainda. da qual só se tomaria consciência sob seu efeito paralisante e mortal. que deixava escoar lágrimas de alegria. e desanimada com a recaída. à noite. pois aquele era apenas o último assalto do Pai Inverno. essa franja de espuma à beira do telhado. daqui a uma semana. bruma com uma água de pérola arrastando-se com as aparências desses vapores de calor que se vêem no verão. da qual parecia ter guardado de sua expedição à Missão de São José uma reserva inesgotável e que se renovava incessantemente. encolher-se a superfície de seu manto branco. a fim de se certificar de que as chaminés estavam puxando na medida certa. no seio de uma paisagem de cristal. trouxe seixos enrolados em flanela com que os cercou e fez Angélica tomar uma bebida qilente. — A florzinha tinha razão em se conservar sob a neve — sussurrou. pois ele tinha sempre a mesma maneira furtiva de se deslocar como os felinos ou os índios — ir e vir para vigiar as lareiras e subir à plataforma. A primavera sempre volta. Sebastião d'Orgeval mostrou-lhes ao longe a mesma bruma dourada. foram imediatamente ajaezadas de gelo até a ponta da última agulha ou raminho. pressentiu-lhe a presença. Mas. e ela o ouviu o resto da noite — ou melhor. Podiam-se permitir essa orgia de lenha. descobria-se que essa neve que não havia caído pulverizava o fundo já verdejante dos vales. — Ela sabia melhor que nós que o inverno ainda não acabou. Mas isso não significa nada.stá longe. Atiçou o fogo. Seu companheiro logo chegou com cobertas e peles. Essa flor. curiosamente inaudível. Era o gelo. olhando-o mais de perto. explicou-lhe. cintilante de mil fogos. A primavera não e. — O Pai Inverno não quer ceder. Angélica recomendou que se raspassem as raízes. e as próprias crianças desistiram de debater-se. Veriam diminuir. que haviam recomeçado a respirar. e poderemos nos encontrar!" Gelo."Joffrey! Joffrey!. A neve derreteria depressa. A colheita das pequenas estrelas de verdura ligava-se a um ritual solene no início da nova estação.

De todo modo. você possa descer comigo até o lago. Por ora. Vou até a beira do lago colher vime para fazer nassas. Durma sossegadamente. durma e recupere suas forças. como diziam as crianças espantadas. formar-se-ia uma caranava para subir para o alto Kennebec. Levou-a para o quarto e ajudou-a a deitar-se. Ou irá colocá-lo novamente ao pescoço?" ... São as amigas mais fiéis do homem." Sobre as superfícies esponjosas liberadas. . apesar de não confiar inteiramente neles. As pequenas flores nos escoltaram até agora e nossas provisões estão terminando. Pagou um preço muito alto. Quero que ele viva. Não quero mais que seja ignorado e desprezado. sem saber se lhe recomendava fugir dos homens civilizados. ela pensou: "Quem estão queimando?" O cheiro que lhe invadia o sono apagou-se quando voltou à consciência em seu quarto do fortim de Wapassu. Quando despertar. quando acordar. "Não quero que ele tenha de passar de novo por provações atrozes. "Não tem o direito de me fazer isso. que viriam buscá-lo para fazê-lo morrer pelas torturas.. como teria pensado em um de seus filhos ameaçado." — Você me promete que partirá amanhã?. ele poderia partir. CAPITULO XXXV A chegada dos homens de Gouldsboro — O cheiro da grelha dos iroqueses Antes de abrir os olhos. "Vai deixar-me o crucifixo quando se for?. nesse caso. Dessa vez. Eu teria perdido quase todas as colheitas. Vou dormir para adquirir forças. "Está esperando que 'eles' cheguem".. Feliz! Ele merece viver. Ela repetia: "Fuja! Fuja!". acabou-se. As crianças estão brincando diante da casa. — Haverá de colhê-las na Ile-de-France. eu o obedeço. Olhou para a lareira onde estava o crucifixo e viu brilhar o rubi.. As notícias iam começar a correr. falaremos de meus pro-jetos..desapareceria "sem que se saiba". — Sim! Sob a condição de que. Voltou com uma tigela nas mãos. E agora. e Colin Paturel estaria provavelmente mais apressado aquele ano para vê-la pôr-se em marcha. — Então. — Prometo-lhe que partirei. Chegariam de Gouldsboro e conheceriam finalmente a sorte de Wapassu. enfim repousada. Depois do trabalho que tive para curálo. Sentia-se bem. e ela dormira apenas algumas horas.. ou depois de amanhã. — Em Wapassu?! Acabou-se. "para onde ela foi!!.. Essas diferentes perspectivas faziam-na oscilar entre a alegria e a angústia. Deslizou para o sono com felicidade e. com uma mistura de irritação e de mágoa. pensou." Pensou nele com ternura. pensou. com uma sensação de verdadeira convalescença. ou dos índios incivilizados. O sol se punha. para informar-se sobre Angélica. mas logo renascerão e você poderá colhê-las.. Vejo que está bem recuperada... tranqúilize-se. — Beba mais uma tisana! É a última que nos resta. Esses preparativos pareceram-lhe de bom augúrio. como de hábito. que os ajudarão a pescar enquanto sua caravana não chega.. Partirei amanhã. As flores estão em toda parte. pés calçados de mo-cassinos já estavam a caminho. pela primeira vez. que não compreenderiam mais sua linguagem.

— Você não havia partido para Boston para seus estudos?. tanto mais . depois de nos asseguramos de que estava com vida. cara Dame Angélica. As crianças! Como estão bonitas! — extasiava-se —.que o inverno se mostrou a seguir. Era melhor conservar todos os braços valentes. mais do que nunca. para olhá-lo com mais atenção. que não levara menos de dois meses a se deslocar. conduzido por um empregado do posto do holandês de Houssnock. depois de ter atravessado tais provações. Já estavam acostumados com o silêncio hibernal. a deixamos entregue a seu sono reparador Angélica ergueu-se. correndo grande perigo de perecer. Na verdade. todo mundo estava feliz.shranger lhes fora preciosa. Este parecera reconhecê-lo com alegria. Sua experiência de bu. ele contou que. a fome. Depois. ele fugiu. tempestuoso. e mais que nunca. apoiada aos travesseiros. Dame Angélica. Dame Angélica. — Marcial Berne? Que faz aqui? — Encarregaram-me de velar por seu repouso. ao vê-la acordada. Diziam que todos os habitantes haviam sido levados como prisioneiros para Quebec. percebeu.. E acrescentou que o pai de Carlos Henrique quisera fazer parte da caravana. proveniente de vagos rumores de relatos indígenas. Quando chegou até eles a notícia. ficaram aterrados. as neves e. O rapaz começou a falar com loquacidade.. Vendo-a ouvi-lo com atenção. — E eis que nos encontramos há algumas horas do lugar. A neve abateu-se sobre nós. ele também temera pelo filho. vestido de preto. que. Lymon White fora retido como cativo numa aldeia abenaki. O Sr. que. de que Wapassu fora atacado e queimado no outono. Levava a notícia surpreendente de que Angélica e seus filhos estavam vivos em Wapassu. na costa. quando Gouldsboro estava ameaçada de um ataque. Descartou-se resolutamente a pavorosa perspectiva. combatendo o inimigo principal: o frio. um jovem de colarinho branco. sorrindo. repetia. dirigindo-se como pôde aos lugares habitados. e um frio de rachar árvores. Mas achei que não era momento. de ir debruçar-me sobre os hieróglifos em país inglês. o inglês mudo chegara. como cresceram! E estão falando que é uma maravilha! Quem podia imaginar. e só esperavam que ela despertasse para ficar inteiramente tranquilos e festejar esse feliz desfecho de uma provação tão longa e terrível. Ele riu. nem desconfiavam do que acontecera em Wapassu. Nenhuma notícia chegava até lá. — Que alegria de encontrá-la com vida! Que alívio à nossa angústia. Paturel organizou imediatamente uma caravana de socorro. Quando a tribo "descabanou" por causa da fome. para muitos. . — Tem boa memória.. naquele ano.. quando o frio começou a amainar. Enfim.Depois. levantou-se e dirigiu-se para ela. Nosso outono foi perturbado. Você dormia tão profundamente ao chegarmos. parecendo aliviado por ver que ela o reconhecia e se lembrava dele sem esforço.. O mar gelou na embocadura dos rios Penobs-cot e Kennebec. o que era preferível à morte e reconfortava um pouco seus amigos. cada qual vivera em sua fortaleza. — Bom dia. que aguardavam mais detalhes. sentado à sua cabeceira. iriam encontrar os pirralhos com tão boa saúde!. que.. voltando a cabeça. se isso já não tivesse acontecido. pois os rios e cursos de água ainda estavam gelados.

Ao ver-nos.. e ainda estava aturdido pelcTcombate com as florestas e rochedos que tivera de travar para . percebemos na outra margem um homem que estava colocando armadilhas ou nassas. os homens de Gouldsboro.. — Como a vida é boa! Ao ouvir esses detalhes. Descreveu o medo lancinante que tiveram de não encontrá-los vivos. no batente da-lareira. Seu subconsciente continuava a se sentir indisposto por aquele cheiro de fogo..chegar àquele coração das montanhas. Eram fogueiras de um acampamento? Não estava mais habituada ao cheiro dos humanos. por descobrir no forte as crianças muito vivas e espertas. E Colin começava a contar o que Marcial já havia exposto. Não o viram?. Aqui. — Eele? — Ele? — O homem que estava conosco. — Quando chegamos à beira do lago.. como parecia estar sozinho. — Oh! meus caros homens! — exclamou. e não: "O que estão queimando?" Era um homem das praias atlânticas... tudo oferecido com a melhor boa vontade pelas damas e crianças de Gouldsboro. Seres humanos tinham-nos finalmente encontrado em sua solidão e. compreendeu que não estava sonhando. tão sonhado. e a prova disso era que. as dificuldades de locomoção. quero me levantar! Seu olhar caiu sobre o crucifixo. Colin pareceu não ouvir ou não compreender o sentido da pergunta estranha. acontecera. muito penetrante e desagradável para ela. Insistia em que haviam acreditado no milagre de sua-sobrevi-vência. enquanto Marcial lhe lançava um olhar atento e depois se calava. como tiveram de esperar para se pôr a caminho para as regiões inacessíveis do interior. — Com efeito! — reconheceu Colin. —Quem estão queimando? — murmurou Angélica. Depois. Um verdadeiro milagre! Capaz de incitar os próprios huguenotes a colocar uma vela diante de alguma divindade papista falando de milagre. escondemo-nos primeiro. o renascimento pôs-se a correr-lhe pelas veias com a mesma alegre vivacidade de uma fonte que finalmente quebra sua prisão de gelo. O anúncio demasiado tardio do desastre de Wapassu. e a alegria. e não do interior. encontraram?.. em que custaram a acreditar. roupa-branca. lançando-se-lhes ao pescoço e cercandoos com os braços. Seu olhar ansioso se iluminou quando viu Angélica recostada ao travesseiro e parecendo atenta ao que lhe explicava Marcial Berne. — Oh! que ideia sublime! — exclamou Angélica. além de víveres. O momento tão esperado. — Depressa. compreendendo pelas narrativas — se assim se podia dizer —. o que era o cúmulo da felicidade e do reconforto. roupas de mulher e de crianças. sapatos e brinquedos. e na moldura da porta baixa apareceu a forte estatura de Colin Paturel. maquinalmente.do pobre mudo que Angélica e as crianças estavam desprovidas de tudo lá em cima. — Com efeito — continuou Colin. Foi nesse momento que este deixou de ser para Angélica uma aparição ainda incerta. haviam trazido. receando que surgissem em seu encalço exércitos vindos do norte. Quando viu Colin inclinar-se para ela. de incêndio. ele . e.Um pesado passo de botas fez ranger o assoalho do corredor. eram os seus.. que os acolheram com muita graça. quantas vezes tinham sido detidos pelas últimas tempestades de neve e as incomodida-des do degelo. Não entendia por que ela dizia: "Quem estão queimando?". Tinha o aspecto de um explorador de bosques. dois dentre nós se mostraram e o chamaram. e que tantas vezes parecera impossível de se realizar.

retorquia-me. o chefe desses intratáveis convenceu-se de que não pertencíamos aos "normandos". um dia. não sabíamos como tratálos. quase entornou o caldo. que cheiro de fogo e de carne grelhada é esse. E logo reveria Joffrey. pelo próprio Utakê. Enfim.. consentiram em deixar-nos prosseguir. adormecendo ao ver presenças tranquilizadoras. "Eu sou amigo de Te-conderoga.Sentíamo-nos em brasas. disse ele. Estão preparando um regra-bofe? Estou com náuseas. Os índios malecitas e etchemins que nos acompanhavam se retiraram. o Padre d'Orgeval. se não me falha a memória. "Você não sabe nada". — Meus caros homens! Ia poder voltar a viver. primeiro para nos defender de sua emboscada. pois sabíamos que estava lá. . e. mas temíamos não conseguir encontrá-la viva. não sei.. que estamos habituados aos abenakis batizados do Sr.. normando". dizia-me com desprezo quando eu lhe tentava demonstrar que o padre não podia estar em Wapassu. do alto de uma colina. ao travesseiro. de Saint-Castine. — era um contingente de guerra.. — Os iroqueses estão lá embaixo! — disse Marcial. Essa reflexão ou nossa impaciência demasiado evidente. e pouco depois. recostando-se. esse missionário está morto há dois anos. Vigiei melhor por sua estrela do que você o fez. Fechou os olhos.. pelo que nos foi dito. — Para onde ele se dirigia? — Para Wapassu. — Colin. —Deus seja louvado! — repetia. Não sei se queria apoderar-se de seu fantasma ou de seu espírito. atrasando-nos um pouco devido ao peso das cargas. uma sensação confusa continuava a atormentá-la.. Apesar de sua garantia. senhora. e nós. que se encontrava aqui. Parece um acampamento índio. pois. pois fora morto. e não os vimos mais. depois para nos fazer reconhecer por eles e persuadi-los de que hão tínhamos intenções hostis. receando chegar demasiado tarde. Esses demónios não são nada fáceis. — Finalmente! Deus seja louvado! — suspirou ela. o antigo posto destruído — emendou logo Colin. Dizia querer "apoderar-se de um jesuíta. tão forte?. "Não pense que é mais amigo do que eu e que ele me deva menos que a você. como uma criança medrosa... subitamente fraca.. — Ele fugiu. retornar ao convívio dos humanos como quando se retorna a casa. Não sei se utilizaram outros caminhos. com a voz subitamente embargada. Por outro lado. Os iro-queses continuaram em nosso encalço ou nos precediam. estávamos perto de você — concluiu Colin. como nós. inimigos deles. as ruínas de Wapassu.abandonou precipitadamente o que estava fazendo e fugiu. o que nos fez perder alguns dias preciosos. Entretanto. avistamos. Enfim. A afeição de seus olhares pousados nela a reaquecia. insistíamos em dizer-lhe que estávamos impacientes por vir em seu socorro. Segurava-os agora. aumentadas por aquelas abandonadas pelos nossos ajudantes índios. Não os deixaria mais. Enfim. eu tentava fazê-lo compreender que tínhamos pressa de chegar ao nosso destino. sempre com um desdém supremo. — Utakê? — É o nome dele. Seguíamos o caminho habitual. CAPITULO XXXVI O perdão de Utakê — O coração do mártir — Encontramo-los lá pelos lados de Katarunk.. Sobre isso também nossas discussões não foram fáceis com esse selvagem. Continuava a segurar-lhes as mãos. "Ela está viva".

Angélica permanecia petrificada. — Pois bem. Ele nos ajudará a nos defender pela diplomacia. e chegamos próximo da parte baixa do fortim.. de Peyrac. "Erguendo os olhos." — E eles o pegaram — murmurou Marcial. Ela o fitava com aqueles olhos claros que se dilatavam. O Barão de Saint-Castine e seus etchemins e malecitas nos defenderão de qualquer adversário que apareça enquanto o Sr. comandados por Utakê... sem ter tempo sequer para levar a mão à coronha da pistola.Segurou a mão de Angélica. olhos cujo poder conhecera e que naquele momento analisava dizendose que éleS arrebatavam a alma. Temos de partir sem demora. "Em seguida.. os iroqueses saíram da floresta. sob a perturbação que o subjugava apesar de todas as rudes e rígidas barreiras que o Governador Colin Paturel quisera erguer entre eles. — Avistamos esse homem na outra margem do lago. ao qual empenhou lealdade. que não podíambs atravessar. meus companheiros não puderam nem levar a arma ao ombro. e prometeram-se assistência mútua. nesse momento. mas era evidente que as atravessara e dominara sem querer abandonar nada de sijnesma. e ele fugiu. vi no centro do crucifixo uma pedra vermelha brilhante. . E então. apesar de sermos franceses. nem a vitalidade de coração. se se tratar dos iroqueses. como fizera outrora nas estradas do Magreb.. para disfarçar a emoção. quando se aproximou. Você o deixou escapar!. Já é muito que esses terríveis inimigos dos franceses tenham concordado em nos deixar com vida. . ou seja. brandindo o tomahawk. estendendo-a a nossos olhos. dizendo-lhe: 'Eis-me aqui'. já lhe dissemos! — replicou.. se tivermos algum problema com as pessoas da Nova França. mas nunca estive tão próximo de ter o crânio rachado. Segurava uma cruz. na acepção mais próxima da palavra "arrebatar". brancos e selvagens igualmente petrificados. e perguntando-nos que intenções se ocultavam por trás de sua audácia. pelo oeste. nem segurança. Ele me gritou: "Aquele que eu procuro está lá. límpida e rara. não voltar. Somente lá estará fora de perigo. Ela o ouvia olhando-o fixamente.. e. imóvel como uma aparição. e ele se perguntava de onde lhe viera a ideia de que estava enfraquecida e que talvez lhe seria preciso — reencontrando com doçura e compunção em sua fisionomia as cicatrizes do deserto — carregá-la nas costas no caminho de volta. apesar de o encanto também existir. Ambos são da Gasconha. Esperávamos que desaparecesse. Um homem sob esse olhar não tinha escapatória. contornamos o lago. Angélica a você e a seus filhos. enquanto ficávamos todos em suspenso. Se ele não tivesse parado do mesmo modo brusco a alguns passos de mim. mais de "apoderar-se" do que de "encantar". — Vamos levá-la de volta a Gouldsboro. Desviou a cabeça. eu estaria morto.. — E o homem? — repetiu Angélica. — Então. cautelosamente.." — E então?.. nem a energia. E estendeu o dedo para o alto da colina.. ouvindo decrescer dentro dela o eco daquele gongo solene: "Eles o pegaram". "O jesuíta foi diretamente a Utakê. Não temos condições de defesa ou de ataque. Um jesuíta estava em pé lá no alto." Protestei energicamente. percebemos o Toga Negra. Mas ele começou a descer para nós num passo tranquilo. Infelizmente! Aqui a batalha está perdida. e pelas armas. Certamente aquele rosto tão querido trazia a marca de provações indizíveis. acentuando a cor verde. Vi o chefe mohawk correr em minha direção desabaladamente. Mas ele parou.

os seguiram de perto.. Sentia-se mais leve descalça para correr. e não tinha nada de uma moribunda. Aproveitar que eles estão. enquanto outros iam se postar nas cercanias do fortim e na plataforma. "Ah! não me amolem com seus 'piores inimigos'!. Todos os que a viram aparecer como que saída de um túmulo a reconheceram. — Leve-me até eles! Colin a segurou. o jovem huguenote de La Rochelle. quer que nos massacrem? Sabem como eles são com seus prisioneiros. Mas não teve forças para lançar-se sua resposta. entre os quais o grande Siriki. gritar com desespero: — Por quê. sem vê-las.. Vestia sua pobre saia velha. lançou-lhe todas as palavras que lhe giravam pela cabeça desde a sua chegada. Correr.. Estava agora descalça sobre o tapete castanho-douradó da relva esmagada. Mas . contou. Se eu pudesse andar. Será preciso matar todo mundo. Depois seu chefe subira até as ruínas de Wapassu. tinha o aspecto de um fantasma. sem saudálas uma ala de pessoas.. ela vacilava. amarraram o jesuíta. ocupados. estou lhe dizendo! Não podemos intervir. apoiada a ele. que a acompanhara durante toda a invernada. talvez. mas seu olhar não os enganava. Um de nossos piores inimigos.— Colin. E ainda que tentássemos.. Ajude-me. Atravessou. Mais tarde voltar-Ihe-ia à lembrança o choque que sentira ao distinguir o espaço deserto que permanentemente os cercara preenchido de súbito por presenças humanas. iria sozinha. Pois ele a conhecia e teria agora desejado que ela tivesse dormido por mais tempo. vários dos homens de Gouldsboro. A um sinal de Colin. Dame Angélica?.. Mas eu posso.. — Joffrey faria o mesmo! Subitamente ela se precipitou. Com veemência.. Eles o haviam levado. Não estamos em condições. vivas?!.. É apenas um jesuíta.. esquecendo-se de calçar os sapatos.". mas era ela que o arrastava dirigindo-se ao valezinho onde estava reunida a massa sombria e emplumada dos iroqueses e de onde se elevava. pensou ela. Não suportarei que ele caia novamente em suas mãos. Ajude-me a andar.. Temos de partir o mais cedo possível.. enquanto. pelo amor de Deus. tiraram-lhe as roupas e começaram a supliciá-lo.. Depois de fincá1© no chão. o que fizeram com ele? O que fizeram com ele? Ele virava a cabeça.. — Angélica. — Deixe-me! Você não pode saber.. Eles não me metem medo. — Angélica. Leve-me até eles!.. por quê. erguendo-se num salto. Angélica! Basta de riscos! Basta de loucuras! Já não obtivemos muito do céu encontrando-a a você e a suas crianças. Com que cara vou me apresentar diante de seu esposo se -você não estiver mais viva? Esse pesadelo me atormenta.. transportados por um vento sereno. — Vocês. Colin a sustentava.. Não suportarão que os brancos se intrometam. o odor de fumaça e um rumor incessante de tambores. Era realmente ela. — Eu lhe suplico.. recémliberada do degelo. Seus costumes são sagrados. Angélica sobressaltou-se. trazendo de lá um pilar de paliçada enegrecido.. prontos para qualquer eventualidade.. Você decide nossa morte! Pense nele! Ela teve uma breve hesitação. segurando os mosquetes. Ouvia Marcial. só estarei seguro de sua vida quando a tiver levado para a margem. para o valezinho..

pareciam belas.. Era impossível contarlhe. Ela chegava tarde demais!.. que sucumbisse àquela crise de força sobré-humana. De revolta e de pesar impotentes. em meio às manchas sarapintadas de suas pinturas de guerra.. Não posso deixar que façam isso. Foi a única coisa que viu inicialmente. Colin não podia saber. Ouvia aproximar-se o ruído dos tambores. Finalmente chegou! E viu imediatamente. do outro lado da grande ravina. viu que ele inha a cabeça erguida e os olhos voltados para o céu.ninguém queria voltar para dentro. O coração dela também ardia. Tarde demais!. Uma silhueta de carne nua. seu olhar era febril... e o grupo. as longas. não!. com as crianças nos braços.. não! Três vezes. — Duas vezes. Vai cair. Seu cérebro estava como que vazio. o que explicava a sensação de estar no mesmo lugar. sabiamente. — Eu lhe suplico. magra e miserável. — Utakê! Utakê! Dê-me sua vida!. Seu silêncio não era o da morte.. até o fim dos tempos. contra um céu pálido com trilhas mais verdes nos vales... enquanto avançava. como nos pesadelos. O cheiro de fogo e de carne queimada se intensificava. faça que. cortando pequenas tiras sobre seu peito. Seus pés mal tocavam a terra.. Pôde avançar novamente. Era apenas a força de Colin que a sustinha. cheia de energia e de esperança." Lá embaixo!. não se destrua — implorava ele. longas e longínquas montanhas dos Apalaches se desenrolavam. Uma natureza virgem e soberba despertara. em que uma força contrária nos prega ao chão. e era nessa direção que se inclinava seu esforço.. você está fraca. O wampum. e tão feroz e terna que as ruínas enegrecidas de Wapassu. Mas ela não o ouvia. ficou a olhar de longe. Mas precisava chegar lá embaixo. — Veja. Tudo se tornou diferente. De revolta e de pesar... mas do heroísmo.. impelindo-a para a frente. — Utakê! Utakewata! Dê-me sua vida! Ela ia sozinha. rápida. não tenho mais o wampum.. Receava agora. a cavaleiro do lago na ponta do bosque. eu não chegue demasiado tarde!. arrastar Colin. por tê-la sentido tão frágil em seu corpo emagrecido. amarrada ao pilar em meio às danças sincopadas de alguns "prestidigitadores" e à fumaça das brasas a seus pés. enquanto facas passavam e tornavam a passar lentamente. e... devorando-a para sobreviver. Sua cimeira . um homem branco cercado pelo bale horrível dos machados incandescentes que faziam chiar a pele de suas coxas. Teria desejado correr.. Ele voltou para ela o rosto... lançando seu apelo numa voz alta e clara. e teve de parar para reter o grito que lhe subia aos lábios e retomar fôlego.. O coração da América queimando a própria carne. Colin — murmurava Angélica.... faça que. Tudo entrou nos eixos.. E diante dela. Uma prece ali estremecia: "Meu Deus.. — Você não pode compreender.. Era muito longo para contar-lhe. o deus tutelar da América.. Mas olhando novamente na direção do supliciado. o deus vermelho...

Enviei-o a você para que acabasse com ele. O rosto pintado pareceu transmudar-se em pedra. quase sem movimento de lábios. Você me deu sua vida uma vez. que disse esta frase insensata: "Perdoem seus inimigos".. numa mistura de dialeto mohawk e de francês.. você. Você me enganou. você é bem isso. animando-se — com suas unhas à moda das mulheres. — Olhem! Eis aqui uma mulher louca a serviço de um deus louco. Depois. Até quando você se obstinará em salvar aqueles que a rejeitam ou aqueles que querem sua perda? O que importa esse jesuíta? Por que quer salvar-lhe a vida? Ele era seu inimigo. sabia que eu o pouparia... — Queria saber se você era de fato isto: a estrela fixa. Estabeleceu-se um longo silêncio.erguida e os pingentes das orelhas fremiam. imóveis nas órbitas dilatadas.. e é ela quem me dita ordens.. Salvou o inglês doente e o iroquês ferido. enquanto ela parava.. que permaneceu hirto como o de uma estátua. Segui-la! Na noite de nossas almas. ei-la. Venho de outro país. Deus-das Nuvens.. — Deilhe a sua e a de seus filhos.. Enviei-o para que acabasse com ele — insistiu. Utakê. agrupadas na encosta relvada. lançaram estranhos fulgores. O chefe dos mohawks permitiu-se uma breve risada. — Não! Você sabia que eu não acabaria com ele. e sobretudo das mulheres!. Continuou a se agitar com uma mímica que significava que estava sufocando de indignação e com gestos derrisórios que exprimiam que toda a sua razão era suplantada pela inconsciência dos seres.. que ele falava muito bem apesar do sotaque agudo resultante de uma pronúncia gutural. tem o coração reto e segue seu caminho sem se desviar.. Então. — Vocês a ouviram?. — Sim!... Kawa. As palavras que lhes caíram da boca tiveram uma espécie de ressonância eterna.. os olhos de jade. — Eu não o desnorteio. E isso tem seu valor. — Não preciso obedecer as suas leis. o pirata francês abatido e o Toga Negra moribundo. Sou eu que a cumulo de benefícios.. na noite de nossos corações. Utakê começou a andar para lá e para cá. Ah! você brilha e no entanto nos desnorteia. e sobretudo dos brancos. Ela é louca mas é fiel a seu deus.. Utakê. sua expressão mudou e adquiriu uma gravidade solene. Ela.e subitamente. apontando sempre para a mesma direção?. antes de enviá-lo... lhe disse: "Voltarei para buscá-lo e devorarei seu coração". retesando-s. e o que podemos nós contra a estrela que está colocada no centro do céu. Sua pose mudou um pouco. Eu a desprezo. mas sua expressão continuava ameaçadora. que atravessou o oceano. E você não o fez. Não parecia surpreso por vê-la ali.. E vem gritar: "Devolvalhe a vida! Devolva-lhe a vida!... — Até quando você me pedirá vidas? — lançou-lhe enfim... Eu lhe enviei o jesuíta para que acabasse com ele. pare de usar artimanhas comigo. — Sim. pelo menos. mal-humorado. e tenho outro Deus para me julgar. estrela fixa.. Você não se desvia de seu caminho. Você o sabe muito bem. os movimentos de seu braço tornaram-se ao mesmo tempo acusadores e líricos. dirigindo-se com ênfase às tropas iroquesas. A prova é que. — Portanto. Você desobedeceu às leis da justiça. Uma mulher tão louca quanto seu deus. Não basta?. . Aproximou-se alguns passos. Com um gesto lento e hierático estendeu para Angélica o braço. Pode muito bem dá-la uma segunda.

Não tem o direito de nos tirar a caça. a dor causada por seus ensinamentos fanáticos. era difícil de acompanhar. Não comece a esquecê-lo. traduzida por um surdo ronco. ele seria escolhido entre os onondagas. : — Seja! Devolva-o — gritou-lhe com raiva. colocaria um bálsamo nos mais vivos ressentimentos. da mulher. Utakê. multiplicada. Deviam devolver-lhe a vida para que viesse destruí-los novamente? Sua tirada veemente provocou uma aprovação geral por parte dos iroqueses presentes. a de fazer morrer lentamente um inimigo abominável — que. mas seu furor era visível e os gestos exagerados o tornavam explícito. a ordem de Utakê de libertá-lo e sua subsequente execução provocaram a cólera daqueles que participavam do suplício e que. imóvel. Eles também. ele permaneceu de pé. Mas. acolhidos com tão boa vontade por aqueles traidores huronia-nos e aqueles malditos algonquinos. Hiyatgu não se deixou iludir.O chefe das Cinco Nações recomeçou a andar de um lado para outro. mal havia começado o suplício. Hiyatgu. — Não é uma caça. imerecida e prematura. A um sinal deje. que encontrava finalmente o objeto em que saciar esse ardente sentimento de desforra. adivinhando que tinha o controle da situação. cuja sombra encobriria para sempre o espírito de Hiyatgu ao se lembrar dos filhos. tarefa para a qual ele. sempre os defendi de suas emboscadas. as galeras do rei da França. Você infringiu os princípios da Liga Iroque-sa. — Mas não será dito que não obtive nada! . Sem extingui-lo completamente. tão atroz. dos guerreiros. para as terras de caça do Grande Espírito. mas meu inimigo — retorquiu Utakê. chamado Hiyatgu. sabia que a aprovação se dirigia às palavras de Utakê. instalados em torno da fogueira. Seu discurso. Um deles. sem se perturbar. preparavam suas ferramentas de tortura com a aplicação e a seriedade de trabalhadores conscienciosos. por suas ordens. Um outro ronco se elevou. agora que o perigo foi afastado. não admitia ver-se privado de uma nobre e difícil tarefa. seus apelos à guerra contra o iroquês. mas. graças a minhas astúcias e minhas injunções. pronunciado em seu dialeto loquaz. Se houvesse. conhecendo seu adversário. — Pois bem! Eu lhe darei sua vida! Não quero que escarneçam de você por ter respeitado os preceitos loucos de seu Deus louco — declarou. Cpmo seus associados presentes. quando fui raptado e levado para o outro lado do oceano para remar nos grandes barcos. sabendo que ofereceria aos manes dos desaparecidos. interpelou Utakê de modo mais direto. precipitou-se para a'arena. O Conselho colocou-me à frente daquilo que restava de nossos povos. dessa vez. mortos nas muralhas de sua cidade de Onondaga ou nas chamas daquelas Casas Compridas incendiadas. nem apagar o luto. — Somente eu sofri com ele em minha juventude. nós também participamos da caçada. Hiyatgu. orgulho e satisfação. era reconhecidamente muito hábil e cuja execução lhe proporcionava intensas sensações. haviam causado a partida dos seus. tão profundo e prolongado que poderia fazer acreditar na aproximação da tempestade se o céu não estivesse tão puro e azul. A isso se acrescentava a da vingança. Ainda veria aqueles que se agitavam à sua volta nesta terra? Todavia. já lhe retiravam das mãos —. dos quais faço parte. e não entre os mohawks. inimigos hereditários e que não tardariam também a pagar por todos esses crimes. E. apesar das cordas cortadas. como um animal feroz. pois. desde minha volta. — Não existe chefe supremo entre nós. um jovem guerreiro avançou e cortou as cordas que amarravam o prisioneiro.

Um guereiro puxou-o para a frente pelo ombro. E você permanecerá entre eles. — Sim. E. Insensível à indignação e à cólera que provocava. O jesuíta permanecia de pé. Foi aquele corpo sangrando que arrastaram e lançaram aos pés de Angélica. Indagava-lhe suplicante quem iria dispor de seu cadáver. Não voltaria mais dentre os mortos. ele não caía. Ela compreenderia? Mas ela compreendia tudo. haviam explorado o dédalo dos mistérios do Amor e das múltiplas aparências sob as quais se dissimula sua chama. Um grito saído de todas as bocas sublinhou seu ato imprevisto e cruel. e ela sentiu que permanecia. Seu olhar ainda azul iluminou-se com uma centelha de alegria. depois uma expressão grave e imperiosa. inclinando-se até envolvê-lo com os braços e aproximar o rosto do dele. triste e quase humilde de um homem que não se julgava digno. afastou-Sé. Ele a via mas distanciava-se como num navio rumo às margens ida alegria eterna. cortou com uma lâmina aguçada o alto da testa e puxou. Seu olhar turvou-se. Empunhando-lhe a cabeleira. encostado ao pilar do suplício. o sangue corria-lhe pelo rosto em mil regatos enceguecedores. A última exigência de sua vocação. continuando a se desafiar. Utakê. E eles comerão seu coração. o ardente desejo de um coração que viera para a Nova França para a salvação dos selvagens e que os amara tanto. pois as pálpebras haviam se fechado sobre o olhar ainda brilhante. e sua palavra traída pelo . Chamou a meia-voz: — Padre! Padre d'Orgeval! Meu amigo! A voz dela. Viva para que meu sacrifício não tenha sido em vão". Hiyatgu.. eu lhe prometo — disse a meia-voz e ainda que essa decisão lhe fizesse mal —. primeiramente pelo insulto depois entregando-se ao bale da luta. podia alcançá-lo nas zonas do inferno.. pulou sobre o prisioneiro. Houve então um brilho zombeteiro. apesar disso. eu o entregarei aos iroqueses. Num salto.Sua manobra foi demasiado rápida. o arrancaram do pilar. aspirava ao mérito. Angélica desamarrou o lenço de pescoço e tentou suavemente estancar-lhe o sangue. triunfante. mas que. Quando dois homens. Leu ainda nele uma súplica ardente. Estava tão próxima dele! Tinham seguido juntos trilhas pouco comuns. mas. na obscuridade da terra. cego por uma súbita chuva de sangue. na última hora. pôs-se a emitir urros alucinados. cortados por imitações de cânticos cristãos. sempre de pé. louco de raiva por ter visto sua supremacia e seu direito de clemência questionado... tiras de carne que ali se grudaram. os dois chefes haviam prosseguido sua querela. para sempre. Durante essa cena. balançando seu trofeu como um incensório ou um hissope. ou do paraíso onde seu espírito já vagava? Desejava ouvi-la? Ele levantou as pálpebras. girando um em volta do outro... desprenderam-se.. Dessa vez ele acabara.. pesada. pegando-o pelos braços. De seu crânio escalpelado. mulher longínqua e terrestre. brandindo o machado e o tomahawk. aspergia a relva de sangue ao seu redor. e ela julgou ouvir a adjuração que ele lhe repetira com tanta frequência: "Viva! Viva! Por seu triunfo e por nossa luz. A vida apagara-se na face sangrenta. eu o entregarei a eles. Ela se ajoelhou. ajoelhada num chão duro sujo de sangue. da espinha até os rins.

Poderemos marchar em busca da paz. e a luta entre esses últimos sobreviventes das Cinco Nações estava prestes a estourar e se transformar em batalha. Finalmente. O dia já ia muito alto para que se pudesse organizar a partida. Colin Paturel levantou a jovem mulher nos braços e a levou até o forte. — Para não Se tomar seu veneno ao mesmolempo que sua força. Tocados pelo respeito. imaterial! A pressa de arrancá-la às loucuras mortais que campeavam naquelas paragens apoderou-se dele. essa querela em palavras e ameaças foi sangrenta. ficou decidido que Utakê e o outro se bateriam num duelo iroquês. O dia acabava. — Mas ele está envenenado — retorquia o outro. pois não fomos todos exterminados. e que o chefe dos onondagas tinha prioridade sobre o dos mohawks. . Este coração é puro.' Seria preciso ficar até o dia seguinte. receberemos os conselhos deste coração que nos trouxe o ódio e que nos amava. a paz para nossos cantões que renascerão.como um punhal oscilava no céu de um azul primaveril. A mulher branca fezrse fiadora dele ao reclamá-lo. Na luz púrpura. os chefes das Cinco Nações Iroquesas sobreviventes. deve ser assado. a confiança que devemos concederlhes para sua sobrevivência e a nossa. e nos guiará para saber o que devemos esperar deles. Mais tarde. a disputa se reacendeu quando se colocou o problema de saber se o coração do jesuíta seria comido assado ou cru. aquele coração tão discutido. lembrando-lhe incessantemente que as sentenças que estatuíam o destino de um prisioneiro deviam ser tomadas no Conselho. Então. porque ele deve nos comunicar sua força sobre-humana e sagrada. — Eu sou filho da Paz. Temos de comê-lo palpitante ainda.. Dessa vez Utakê foi o mais rápido. Ele nos inspirará. Assim que os chefes iroqueses pegaram das mãos de Angélica o corpo do Padre d'Orgeval. confrangidos ao mesmo tempo por uma dor e uma esperança imensas.. Enterro o machado de guerra ao mesmo tempo que devoro este coração. dos dois chefes. e que não conseguiram ser atingidos por golpes suficientemente mortais para colocar este ou aquele fora de combate. este. Embriagados mais por uma mágoa que não conseguiam definir do que pela aguardente.gesto do rival. — Não! Não é assim. sem muita dificuldade. os outros fizeram silêncio. Ela era tão leve. Utakê levantou. Ele nos trará o conhecimento desses franceses indomáveis que nos confundem o espírito e enganam nossos corações. A discussão alteou-se a graus de veemência elevadíssimos. Vamos alimentar-nos deste coração purificado. O céu tornava-se vermelho no poente. pouco usada por aqueles chefes. ao devolvê-lo a nós. partilharam e devoraram o coração de seu inimigo Hatskon-Ontsi. com passes e cambalhotas magistrais e que concluiu resolutamente pela vitória. na ponta dos dedos. Este coração está purificado. O mais rápido a abrir o peito do morto e arrancar-lhe o coração. o jesuíta duas vezes morto e várias vezes mártir. com o machado e o tomahawk. A paz para nossas aldeias. tão fortes um quanto o outro. mas a questão foi acertada pela eloquência de Utakê. O coração de Hatskon-Ontsi não tem mais veneno. Foi portanto um combate muito curto e cerrado. quando a lua de cornos pontiagudos . — Ei-lo. perolado de sangue. por assim dizer.

sob a guarda de sentinelas que se fenderiam a cada duas horas e que vigiariam permanentemente os bosques. Dormiam apertando nos braços os brinquedos trazidos para elas de Gouldsboro.. o relógio do tempo soara. de Peyrac está adormecida.. se não houvesse esse crucifixo. dizia ele.. ele teria tido tempo de fugir. apenas o som de uma voz diferente que rompera a noite eterna dos dias de inverno. você não me disse que o jesuíta levava ao pescoço um crucifixo. veladas por pares de olhos zelosos e enternecidos. era maníaco como uma mulher!. e no fortim.. tudo recomeça". Oh! realmente. As crianças. em lufadas... Alguns meses de inverno para atravessar. 'Os homens haviam surgido. com seus mineiros. o ronco lúgubre dos cantos e dos tambores. As portas de gelo se romperam. E foi o fim dos dias sem fim. Era um maníaco!. por favor. para esses detalhes. As crianças' estão sozinhas!. no quarto em que neste momento a Sra. trabalhadores. as lonjuras. — .. atento.. Um fantasma acompanhando-a com sua força para ajudá-la a chegar ao fim do túnel: Teria podido acreditar que ele não existira. Acampariam no velho abrigo aquela noite. artesãos. saciadas de guloseimas. que não as perdiam de vista um só instante.. Podia acreditar que nada acontecera. afinal. Ela tem estado muito doente.. — Não creio que quisesse isso — disse Colin. quando o arrastavam: "Suba depressa para o forte. Bens preciosos que se julgavam perdidos. Mas Colin ficou junto dela. os arredores e mais assiduamente o valezinho onde faiscavam as fogueiras dos iroqueses e de onde chegava. Via Colin sentado ao seu lado. que não deveria tardar. Gritou-me de longe. mas mais suavemente. Uma pancada. — Por que dormi? Por que dormi tanto tempo? Se eu tivesse acordado no momento em que vocês chegavam acompanhados dos iroqueses. Subitamente. Angélica pediu que a deixassem chorar sozinha." Angélica começou a rir em meio a suas lágrimas. Ela erguia as pálpebras doloridas e via-se sozinha na jangada da sobrevida. Essas palavras não chegavam até ela. mas muito firme: "Senhor. quando via a onda de soluços se acalmar. . já haviam comido e dormiam no antigo quarto dos Jonas. Ou poucas coisas. dizia algumas palavras que aludiam à paz que encontraria entre eles em Gouldsboro. familiar. mas ei-la fora de perigo. tenha a bondade de recolocar este santo objeto no batente da lareira. Recriava-se o alegre ambiente que haviam conhecido os homens de Peyrac na primeira invernada.Como era autoritário!.. e a inquietação e a ternura daquele olhar claro. — Colin.Com as ventanias noturnas aproximava-se uma noite gelada. à volta próxima do conde. Teria podido acreditar que havia sonhado. Quero que ao despertar veja este crucifixo em seu lugar habitual". Mas'quando os selvagens o pegaram eleretirou-o e deu-o para mim: Disse-me de modo muito cortês. estrangeiros de todas as nações e aventureiros de todo tipo.. que ela percebia com sua pequena cintilação Vermelha refletindo as luzes do fogo.. soldados. e que caminhava estendendo-o a você? — Isso mesmo. e. tesouros que era preciso agora levar com vida para as praias. "Tudo tem fim!. mãos diligentes haviam acendido fogos em todas as lareiras. Nada a não ser alguma coisa muito simples e muito natural na vida dos homens. sempre ali.. Por que dormi? Continuou a chorar.

pois apenas por eles podia esperar obter notícias de Honorina.CAPITULO XXXVII Um último discurso de Utakewata — Notícias de Honorina Mais tarde retirou as roupas sujas de sangue do mártir e impregnadas pelo cheiro de fumaça. Deslizou para o sono tranquilamente. Se ela passou o inverno numa de suas nações. Colin Paturel ajoelhou-se junto dela e colocou os lábios sobre a mão abandonada. como para lembrar-lhe um segredo entre eles. prometendo interiormente convencê-la no dia seguinte.. Abigail pensara em tudo. um pouco antes da aurora. pensava. que não tivera tempo de tratar. ao final. Logo estaria junto à doce amiga... Levahte-se". olhando-a recair no sono como que sob o efeito de um desmaio.. repetia. insistiu. esqueci-me de pedir-lhe informações. mas sempre indomável. Não havia necessidade de . mas são eles. — Graças a Deus!. com uma piscadela cúmplice. Eu sei por que não quero deixar wapassu — disse a Colin. Julgou que fosse dizerlhe: "Há um alce lá fora!. do blusão e do lenço o perfume discreto de sua amiga Abigail. e que ainda tinham uma obra comum a resolver. pelo odor do inverno. Colin pôde satisfazer-lhe a vontade logo. mas num quarto ensolarado. "Os iroqueses! Os iroqueses!". Desejava chorar mais. Como ela estava fraca. — Tenho de esperar Honorina." Acordou gritando: "Os iroqueses". "Os iroqueses... que podiam me dar notícias de Honorina. pelo odor dos longos meses passados nas trevas. Sem tentar distraí-la de sua ideia fixa. Seus olhos eram azuis e não havia nenhuma brecha negra no sorriso dos. Haviam-na deixado dormir. apesar da chegada do dia... continuam a parlamentar e a querelar no fundo do valezinho. a noite ainda era profunda. perseguindo um pensamento que lhe fugia mas que. Estava sozinha dessa vez.. Mas ele contentou-se em sussurrar-lhe: "E Honorina?". Mas. afirmou-lhe que ficariam em Wapassu o tempo que fosse preciso para esperar Honorina. Colin Paturel ignorava tudo a respeito da odisseia de Honori-na. Ela não sabe que Wapassu foi incendiado e tentará encontrar-nos aqui. Soube que dormia quando o rosto de jesuíta veio inclinar-se sobre o seu.belos dentes. — Os iroqueses ainda estão por aí? — Sim! Muito ruidosos e desagradáveis. —Obrigado por ter salvo a felicidade de nossas vidas suplantando sua morte.. se tornou preciso. Inclusive juntara ao que mandara um saquinho de cascas de quina trazidas por Shapleigh. atirou-se para fora da cama. Ela lhe explicou que era preciso ir ao encontro deles ou convocá-los imediatamente. vendo Angélica agitar-se.. A segunda fase de seu repouso. Por ora. deixando-se rodear por suas atenções.. que continuava à sua cabeceira. Era preciso dormir. Zangada consigo mesma. enquanto esperava que surgissem as velas do navio que traria Joffrey de volta.. pelo menos alguns dentre eles. com todas as energias reanimadas. foi para Angélica mais turbulenta. nervosa e diáfana!. mas ao ver-se vestida com roupas limpas e pouco usadas e reconhecer nas pregas da saia. para nossa infelicidade. — Obrigado! Obrigado. meu cordeiro — murmurou-lhe.. uma euforia benfazeja a conquistou. — E verdade! Honorina!. e julgava lembrarse de que a menina estava interna no colégio das religiosas em Montreal. ouvindo o mar bater nas praias de Gouldsboro.

ou talvez nada. Angélica permanecia calma. será preciso que nossas sentinelas dissimulem as suas — recomendou Angélica a Colin.. Seus dois rebentos. a maior parte daqueles que tinham vindo das margens para socorrê-los nutria uma forte desconfiança em relação-aos índios do interior. Ao longe. e seus gestos de idas e vindas pareciam indicar que estavam se preparando para partir. jamais os compreenderei!. arrastando um cadáver de alce. lembrando-lhe sua presença com uma voz gentil. mas não era por isso que tomava essas medidas. seu olhar abarcava a perspectiva de Wapassu. ou-que tinham tido a oportunidade de viver nas aldeias fronteiriças. quem sabe falado com a menina. distinguia uma parte do Lago de Prata. que lhe pareceu mais deserto ainda que nos primeiros dias." Na esplanada. "Esses índios. Angélica abraçou-o e apertou-o contra o peito. quando haviam chegado em caravana para encontrar.. e cujos contingentes de guerra vinham de muito longe semear o pânico entre os algonquinos do leste. Utakê fizera-se anunciar com os seus para dali a uma hora.convocá-los. Tinha pressa de interrogar Utakê. Saindo. alguém que a tivesse visto. Vai ficar de pé ao meu lado e me ajudar a receber o chefe das Cinco Nações. em sua espera de receber algumas notícias sobre a filha. provando-lhes que não inspiravam receio e que eram recebidos como amigos da família. a multidão castanha dos iroqueses se agitava. Dele talvez obtivesse uma indicação. Angélica percebeu a grande poltrona de madeira que fora levada para fora. os quatro mineiros que já haviam começado a trabalhar ali. você também. — Se eles subirem sem armas. sacudindo a cabeça com resignação. Uma pequena mão colocou-se sobre a sua. percebido. De sua parte. O que mais lhe iria pedir Utakê? O impossível. você é meu filho. Estavam vindo até eles. — Sim. estava persuadida. e que será longa. perseguida pelos lobos. que ele pretende dirigir-nos antes de despedir-se. não deixariam de se interessar por aquele espetáculo multicolorido de uma delegação iroquesa. esquecido de que sobre sua planície branca ela correra.. Com ele. Fora alguns. epidemias e fome. A esquerda. — O mensageiro do mohawk recomendou que lhe fosse preparada uma cadeira para que você possa escutar. que haviam andado pelos bosques à procura de peles. na curva verdejante do valezinho. anos antes. Angélica tomou assento na poltrona preparada para ela. e principalmente os ferozes iroqueses. no fundo daquele covil. Ou ser vencida pela impaciência durante o discurso. . Deveria pois esperar sem nervosismo o final da arenga. reverberando ao sol. Pediu aos dois rapazes encarregados de vigiar Raimundo Rogério e Gloriandra que viessem colocar-se ao seu lado com as crianças. Temia apenas perder a paciência. e que lhe devolveria a esperança. sem fadiga. Ela explicou àqueles que se inquietavam que a visão das crianças lisonjeava os índios. muito temidos. pousada no braço da poltrona. garantindo-lhe que estava viva. — Eu também estou aqui — disse-lhe Carlos Henrique. Conserve sua mão na minha e fique bem ereto como o orgulhoso soldado que é. não temia nada. homens do grupo. apesar das guerras. que suscitou murmúrios de desaprovação ao seu redor. podia-se esperar qualquer coisa.. sua arenga. mais ainda em relação aos iroqueses. meu valente compa-nheirinho.

cerdas de porco-espinho nos cabelos levantados. É. — Um de nós deveria estar morto.preciso separá-los'. os meandros das grutas e rios subterrâneos. contrariamente ao aviso que havia dado. como de meu combate com Hiyatgu. atravessando. não houve vencedor nem vencido.. ele começou falando com toda a simplicidade sobre sua querela com Hiyatgu. e de uma força tão grande! Foi o que disse o Toga Negra: 'Unidos não se pode abatê-los.. Todavia. para que se escondessem atrás da casa ou nas brenhas ao redor. um sol ainda frio de inverno os iluminava. você corria para a frente. Kawa. de pé atrás dela. Sebastião d'Orgeval-explicara isso ao chefe das Cinco Nações?. mas pode conduzir à ponte. braceletes de penugens tingidas de vermelho. Eis por que eu o poupei — disse. O que significa. foi de curta duração.ocativo ao chefe dos onondagas. A homilia de Utakê. Ele obrigou minha razão a pensar um pouco ao lado de seu caminho habitual. lembrar-se-ia dela como uma mão aflorando as cordas de uma harpa. Mas. "Teconderoga me fez fazer coisas bem estranhas desde que o vi. jamais. Levavam na cintura as machadinhas de combate e os tomahawks de pedra vermelha ou branca. Eis-me obrigado a andar ainda um pouco ao lado de meu caminho. colares de dentes de urso.. e quase sem rancor. e você. — Mas Teconderoga não está mais aqui. Um sol pálido. e você vai partir. Sua carne pareceulhe pálida sob a retícula azulada das tatuagens. Assegure-me. as palavras adequadas. Kawa: de seu último combate. Ele se mantinha na terra. — Tenho ainda necessidade de ouvir uma palavra apenas de sua boca.. ainda que tivesse escolhido com cuidado. Apesar do penacho de plumas e de peles.. Mas a cláusula é secreta e é preciso esconder-s. que se mantinham com a mecha pronta para o ataque. se não quiser perder tudo. E eis por que Hiyatgu está vivo.e daqueles que não vêem a ponte e que não compreendem por que nós a atravessamos. olhava-os vir sem receio.— Eis nossos teatrais que avançavam — disse a Colin.. assegure-me que aquele que morreu ontem não voltará . É a lei. Cada palavra puxava outra e ia mais longe. Ele torcia meu ser por dentro como uma pele ria água do rio. Mais tarde. Soube disso quando os vi em Kátarunk. tal como as linhas superpostas das montanhas. e Angélica fez sinal aos portadores de mosquetes. e que lhe pareceu mais tenso e menos à vontade que se tivesse de tomar de assalto toda uma frota de piratas das Antilhas. Porque na realidade não há inimigo e não há guerra. Dois e unidos. E eis-nos aqui diante de você com vida. nós dois. seguidos de uma massa de guerreiros reunidos. Ignorava que haviam vivido escondidos longos dias nas trevas da terra. lançando um olhar prov. Os chefes das Cinco Nações pararam a alguns passos da poltrona. Provavelmente. Utakê talvez o tivesse ouvido em sonho. quase tão magros quanto lobos esfomeados. depois do fogo." Onde. e cujos sons chegassem até ela amplificados pelo eco. e pelo eco do eco. eles estavam magros. ladeada pelo pequeno Carlos Henrique. o que é um sofrimento e um perigo. foi um discurso difícil de compreender. Foi um combate que nada decidiu. Apenas um precipício e uma ponte que faltava para passá-lo. em seu francês castigado. você é o espírito flutuante de Teconderoga. Quanto a ela. quando. Tinham deixado os mosquetes no vale. arcado sob o peso da ciência. leve e invisível para me agarrar. "Você. num percurso de várias léguas.

não? — As mães que o enviaram a você estão mortas — disse Utakê com uma voz cava —.. Não há vencido nem vencedor. Guarde-o como símbolo de minha aliança eterna. sabe agora como ele os amava. pretas e malva. uma terra queimada. os franceses. — É tudo o que me resta do tesouro de guerra dos mohawks. — Não irá ele aplicar-se em ajudar seus irmãos de raça. iroqueses das Cinco Nações. Utakê. e este. Talvez se pudesse encontrá-lo nos escombros. — A fome e a derrota enfraqueceram a clareza de minhas pres-ciências. mas sabia que. Dá a si mesmo a resposta. a fim de continuar uma discussão "de valor". e foi por vocês que ele veio. Nesse breve instante em que fechara os olhos para refletir. uma resistência que poderia levá-los até a noite.. — Quer dizer que ele terá descoberto a justiça de nossa causa e a horrível traição com que nos oprimem nossos inimigos? — interrogou o mohawk. julgara que ia desfalecer. você dizia. — Ele desapareceu no incêndio de Wapassu. uma terra que se devoraria a si mesma até que os renovos de raízes mais robustas conseguissem firmar-se e dominar o caos. que comeu seu coração. Hatskon-Ontsi perturbava e enfraquecia meus julgamentos. Veio para ficar entre vocês. mesmo feridos ou ameaçados como estavam presentemente. não o perca. ou pelo menos adormecer. e o wampum que teceram com suas próprias mãos está enterrado sob as cinzas. Reabriu-as corajosamente. — Você é avisado dessas coisas melhor que eu mesma. porque nunca houve inimigo. de tal modo estava fatigada. cujas pupilas negras refletiam uma centelha de alegria e triunfo. . que os franceses chamam de "agniers". mostrando. contra nós? — Não! Os franceses não precisam dele da mesma forma que vocês.. mas precisava responder-lhe'e devolver-lhe a confiança. — Mas eu não perdi o wampum das Mães das Cinco Nações que você me enviou em nossa primeira invernada aqui — protestou Angélica. a América que deixavam para trás parecia-lhe como um campo de ruínas. — Ofereço-íhe este colar de porcelanas — disse ele. Do mesmo modo que Teconderoga me fortalecia. As pálpebras de Angélica fecharam-se novamente. tomando fôlego por um longo período.para nos destruir. os selvagens. pela apresentação e refutação dos argumentos de sua defesa e de seus ataques. Você. e sobretudo seu interlocutor. eram capazes de adiar sua partida e minimizar o perigo que os espreitava. ficando surpresa por ver o chefe das Cinco Nações inclinado diante dela e apresentando-lhe nas duas palmas uma fina tira de couro com contas de koris brancas. — Você fala no passado. Digo-lhe isso porque foi o que ele me disse e porque é o que sinto também. Assim são os sinais.. — Ele terá descoberto que você mereceu tê-lo ao seu lado para apoiá-lo e aconselhálo até o fim de seus dias — respondeu com firmeza. Daqui a algum tempo ele se infiltrará entre você. mas erguendo as pálpebras com dificuldade. — Você crê realmente? — recomeçou Utakê. Eu sei que você principalmente o sentirá presente para ajudá-lo na sua tarefa e combater ao seu lado. Não estava em condições de lançar sobre o futuro um olhar otimista. A imagem de Wapassu destruído. surpresa de ler em seus traços impassíveis uma ansiedade real. Angélica fechou os olhos." — Cpmo você pode duvidar? — disse ela.

Ele recuou alguns passos, deixando o fio de conchinhas enfiadas sobre os joelhos de Angélica. — E agora tenho de dar-te notícias de sua filha, cujo nome é impronunciável,« que nós, iroqueses, chamamos de Nuvem Vermelha — disse, num,tom voluntariamente neutro e comedido. Mas seu olhar faiscou de malícia, rejubilando-se antecipadamente com o que ia suscitar com essas palavras numa francesa tão impulsiva quanto aquela que estava à sua frente e que, ainda que se esforçasse por respeitar as maneiras ponderadas dos índios, continuava submetida ao sangue fervilhante e anárquico da raça dos caraspálidas sem educação. Não podia falhar. Angélica soltou uma exclamação de alegria, e sua expressão dolente deu lugar à mais desperta excitação do mundo. — Honorina! Minha filha Honorina! Você sabe alguma coisa sobre ela?... Sabe onde ela está? Ah! diabo de mohawk! Por que se calava? Por que não.o disse logo? — Porque em seguida você não teria escutado coisa alguma dos discursos que eu tinha de fazer-lhe. Não teria dado a menor atenção às palavras muito importantes que tinha a lhe comunicar antes de deixá-la, para talvez nunca mais rever, e eu fazia questão de me dirigir a uma pessoa atenta. Você não teria sequer notado, eu a conheço — disse com um grande gesto desiludido —, que eu lhe oferecia meu único ramo de porcelanas em sinal de aliança eterna, ó Mãe que você é! ó Mulher! Mulher! Mulher que você é, pois você é três vezes mulher, pela lua e pelas estrelas. Há mulheres que podem se lembrar do homem que foram num outro ciclo, e encontrar as palavras ou atitudes que não chocam absolutamente a dignidade daquele que a ela se dirige, mas você sempre foi demasiado mulher para se preocupar com isso... — Fale! — exclamou Angélica, agarrando-se com ambas as mãos nos braços da poltrona. Se estivesse lidando com Piksarett, ter-se-ia levantado para sacudi-lo por suas tranças de honra. — Fale! Eu lhe suplico, Utakê! Diga-me tudo o que sabe sobre ela e não me faça esmorecer, ou prometo que vou me lembrar que fui também um guerreiro que manejava o cutelo melhor que você mesmo, e que o fez compreender isso uma noite junto à fonte, e isso não aconteceu numa vida anterior. Utakê deu uma gargalhada, imitada por seus companheiros, que não compreendiam inteiramente a alusão, mas apreciavam a animação da cena. Depois, acalmando-se: — Seja! Dir-lhe-ei tudo o que sei sobre ela. Vou primeiro dizer o que sei com certeza. — Onde ela está? Está viva? Você a encontrou?... O mohawk fez uma expressão melindrada. — Se eu a encontrei? Que está dizendo? Se ela partilhou todos os meses de inverno a vida de uma família na Casa Comprida do ohtara do Chevreuil aux Oneiouts, e, todos os dias, eu, que me dirigia ao Conselho da Federação como chefe das Cinco Nações, via-a e conversava com ela, até o dia em que, maldito seja, o novo Onôncio de Quebec conduziu novamente suas tropas até nosso vale dos Cinco Lagos e queimou o provoado de Tuansho, apesar de suas fortes paliçadas, após um combate assustador. "É por isso que não posso responder com certeza à primeira pergunta: 'Onde está ela?...' Nem à segunda: 'Ela está viva?...' Pois, talvez você o ignore, quase toda a população desse povoado pereceu, exceto alguns poucos miseráveis que consegui

arrastar comigo e subtrair por minha habilidade ao furor vingador dos franceses e de seus danados huronianos, e desses cachorros de abenakis. Tudo o que posso dizer com certeza é que ela não estava entre nós." Ele repreendeu com um gesto o movimento desesperado de Angélica. "Sei que algumas mulheres e crianças iroqueses, disseram-me, foram levadas pelos franceses até as missões de São José ou de Quinté, perto do Forte Frontenac, mas não posso dizer-lhe seguramente se ela estava entre elas." Cobrindo o rosto com as mãos para dissimular seus traços, Angélica recusava-se a encarar que a criança tivesse perecido nas chamas das aldeias incendiadas. Era impossível. Era-lhe pois preciso desejar que Honorina estivesse em poder do.s franceses, seus compatriotas, que eles a tivessem levado de volta a Madre Bourgeoys ou a seu tio e sua tia do Lobo. Utakê levantou os braços com solenidade como para reclamar do céu a inspiração e, das pessoas presentes, a mais escrupulosa atenção. — E agora vou lhe dizer o que sei dela, Nuvem Vermelha, por vidência. Fechou os olhos e começou a sorrir. — Ela chega! — murmurou. — Ela vem para você! Nao se apresse em deixar estes lugares, Kawa, pois sua filha se dirige para o Lago de Prata para aqui encontrá-la. Ela está acompanhada... por um anjo!... Novamente deu uma sonora gargalhada como se tivesse sido testemunha de uma brincadeira. — Ah! Você me escuta neste momento, e desta vez sem dormir!... Ria cada vez mais, sustentado pela hilaridade de seus guerreiros. E com essas explosões de uma alegria franca, suscitada mais uma vez pelas expressões aturdidas dos brancos, e por suas dificuldades em dar fé às revelações tão seguras dos sonhos, os iro-queses se afastaram e se separaram daquela que provavelmente jamais tornariam a ver. Atordoada pelo que Utakê acabara de dizer-lhe, Angélica compreendeu demasiado tarde que eles se haviam eclipsado. E quando quis pelo menos fazer voltar Utakê para pedir-lhe mais informações e despedir-se melhor dele, não se encontrou mais nem sinal do chefe mohawk nem de seus companheiros. — Por favor, alcancem-no — suplicou ela. Utakê não dissera sobre Honorina: "Eu a via todos os dias?..." Queria interrogá-lo sobre a menina perdida no coração da vasta América. E depois deu-se conta de que em nenhum momento pensara em agradecer-lhe pelos sacos de alimento que ele lhe mandara por intermédio do jesuíta. — Alcancem-nos! Mas não conseguiram encontrar os iroqueses, que haviam partido à procura dos fragmentos errantes de suas tribos, a fim de reconduzi-los ao vale dos Ancestrais, e à procura de seus inimigos para exterminá-los. Tinham-se diluído na vasta paisagem de montes, bosques e abismos, nas pistas invisíveis e não-traçadas. E, para dizer a verdade, ninguém se sentia realmente muito ansioso por alcançá-los. CAPITULO XXXVIII A odisseia de Cantor e Honorina Cantor puxou o barco para a pequena praia, num recanto do rio, e depois, içando-o sobre a cabeça, carregou-o até um abrigo de rochedos, onde o escondeu sob os galhos.

— Não iremos mais muito longe pela água — disse. — Temos de ir a pé. Mas se andarmos bastante, poderemos estar em Wapassu um pouco depois do meio-dia. A criança índia que o acompanhava opinou com seu penacho vermelho de cabelos eriçados, e pôs-se a andar docilmente atrás dele. Cantor segurava-a por uma corda presa ao pulso, pois a criança estava meio cega, e, no início de sua viagem, por várias vezes, quase a perdera ao atravessar florestas muito cerradas. — Onde arranjou esse selvagenzinho? — perguntara-lhe o boticário do Forte Orange, naquela noite em que, depois de atravessar mil perigos, puderam dormir ao abrigo das muralhas da cidadezinha anglo-flamenga, no alto Hudson. Respondera que era um órfão iroquês, que recolhera entre os sobreviventes dos massacres, e epidemias que haviam dizimado o vale dos mohawks. Era difícil confessar ao bravo holandês, que, muito caridoso, fora buscar uma pomada para cuidar dos olhos do pequeno ma-quas, que o bugrinho era sua meia irmã Honorina de Peyrac. Honorina fora enfim encontrada por ele num campo de refugiados do lago Ontário, entre as mulheres e crianças iroquesas reunidas pelos franceses sob a ptoteção dos sulpicianos de Quinte. O Sr. de Gorrestat, o intratável e limitado governador com que fora brindada a Nova França — provisoriamente, dizia-se, mas que parecia um pesadelo —, não esperara o degelo completo das neves para lançar novamente seus exércitos contra os cantões iroqueses. Foi assim que Cantor, que, ele também, desde os primeiros sinais de degelo, se pusera a caminho, não sem incorrer no risco de enfrentar as últimas e temíveis tempestades do rigoroso inverno, só encontrara, quando se aproximou das regiões onde queria procurar sua jovem irmã, povoados devastados pelos combates, fumegantes ainda dos incêndios. Desnorteou-se perguntando-se se não estaria morta, onde deveria investigar. Diziam que os iroqueses tinham "desaparecido da face da terra... Um contingente dos mais valentes e dos principais "capitães" daquelas nações, entre os quais o incansável Utakê, evaporara-se no momento de uma batalha decisiva, e os viajantes e exploradores de bosques supunham-nos escondidos da perseguição dos franceses e de seus aliados índios sob os labirintos subterrâneos de grutas, cuja longa rede se desenrolava invisível através de várias dezenas de milhas. Mas nenhum branco jamais penetrara ali. E corria uma lenda de que a obscuridade era ali tão profunda que uma permanência muito prolongada naquelas trevas fazia perder a visão. Cantor ocupava-se com os sobreviventes, sobretudo com as mulheres e as crianças, entre as quais lhe restava uma esperança de obter alguma informação sobre a pequena Honorina. Jamais esqueceria sua alegria, mesclada de terror e de compaixão, quando finalmente a encontrara, uma noite, à luz das fogueiras, quando a segurara nos braços, uma pequena caça gordurosa, magra de fazer medo. Terror porque por pouco não a reconhecera sob seus trajes de menino, repudiando-a inicialmente; então ela escapara e ele tivera de percorrer todo o campo lançando seu chamado de antigamente: "HonnL. HonnL." Compaixão, descobrindo-á desfigurada pelas marcas da varíola, cuja epidemia começara por dizimar as populações iroquesas já durante o inverno. Não diziam até que fora o Sr. de Gorrestat que tivera a ideia de mandar introduzir cobertas de comércio que haviam abrigado variolosos entre os inimigos, cuja perda pretendia?... Mas diziam tantas coisas! Os flagelos abatiam-se sobre aquelas regiões selvagens como o furacão. Dir-se-ia que as intenções tinham possibilidades de materialização e

mas continha-se. Era bem feito para essas mulheres idiotas que queriam que eu fosse buscar lenha ou apanhar o animal morto pelo caçador. Tivera de carregá-la nas costas e acabara por prendê-la com uma cordinha. ficava em Wapassu. caía. . Maldito inverno! Muito precoce. sua alegria de vê-los. E a casa. Era melhor continuar em direção ao leste. Mas teria podido fazê-lo? Pois o inverno é implacável e os teria apanhado a ambos em qualquer lugar inexoravelmente. a casa deles. Era o rosto e os olhos de sua mãe. eram seus amigos. cuja pista maltraçada os levava a Wapassu. que já não era muito hábil. seus braços abertos. pensara: ". mas dos quais Honorina não parava de falar-lhe. pois eu atirava bem com o arco. Estava tão orgulhosa por estar vestida como um menino iroquês! — Utakê disse que eu era digna de ser um guerreiro. Ele se voltava e olhava-a andar atrás dele "com um profundo sentimento de felicidade. entre duas tempestades.de rapidez anormais. no lugar em que os surpreendia? E pobre daquele que procurasse enfrentá-lo. onde se concederam uma noite de repouso sob o conforto dos colchões de penas dos holandeses. talvez. enfrentando os barrancos do degelo. agora esbarrava em tudo. pela selvageria das florestas. pois o domínio do frio impedia qualquer movimento. a travessia das aldeias irOquesas incendiadas. longe de qualquer abrigo. no no man's land do deserto branco. pensava Cantor enquanto. de escala em escala. De voltar o mais depressa possível para a casa dele.. O périplo teria exigido vários meses. que não lhe permitira salvar a tempo Honorina. raro mas tão caloroso. Tinha vontade de dizer-lhe que ela se parecia com um porco-espinho sem touca. longo e rigoroso. Cantor se interrogara. tão cúmplice. Em Orange. receber-lhe a aprovação.. era a presença do pai. teria achado mais seguro continuar a viagem descendo em direção a Nova York. perdia-se. readquirindo já as rabugices de irmão mais velho. Por pouco os dois irmãos Lemoyne. já que havia meninos aos quais permitiam vestir-se de mulher quando não sentiam gosto pelas armas. Só o conseguiram graças a uma fogueira que Cantor acendera para eles.pobrezinha! Ela. empreendiam a longa viagem de volta para Wapassu. tão estimulante. e. dissera consigo. a imobilidade da morte também tinha o poder incomensurável de congelar subitamente todo sinal de vida por centenas e milhares de lugares. que eles não paravam de imaginar. o perigo dos lagos e dos rios. cujo gelo cedia sob °s pés. Na Europa. o sorriso dele. carregando-a nos braços. Se o Hudson fora desobstruído dos gelos. a casa deles. por outro lado. enquanto. não puderam voltar para os odjibways sem "se perder". num passo estugado. eram o irmãozinho e a irmãzinha que ele não conhecia.. e. seguia a linha da crista dos montes eriçados. que quiseram prosseguir seu caminho em direção à grande missão dos jesuítas em Sault-Sainte-Marie. podia-se conceber o poder do deus feroz do inverno que os petrificava a todos. pilhadas e cobertas de cadáveres. Sentia a impaciência de voltar para casa. os espanhóis. os Jonas. "Maldito inverno!".Que importa! Está viva! Nossa mãe a curará!" Sua única oportunidade. Ela estava abusando. Elas se realizavam mais depressa que o pensamento.. subiriam novamente para Goulds-boro. sob pretexto de que eu era uma menina. Depois. não havia razão para impedir-me de me vestir de menino. E. Ele era como a irmã. Em Quinté. Ela se perguntava como bebés daquela idade haviam podido realizar tantas proezas em suas curtas vidas. qualquer deslocamento dos seres durante meses na superfície de um continente. que a gente se dispunha a conquistar o mundo para ser digno dele.

Pouco depois. Vou lhe explicar por quê. pondo em polvorosa todos os habitantes da Casa Comprida. enquanto estava dormindo. pululando à sua volta. Depois continuava suas confidências. com seus dez filhos. rememorando fatos que haviam se apagado de sua memória desde que fora acometida pela doença...". na Catedral de Quebec.. No fogo vermelho da febre. uma bandeira com uma flor-de-lis. ir ao rio. Filho do Dr. propícia a todas as emboscadas.. Precedendo o exército. É uma lei. Ela nao pode morrer.. Podia levantar-se. — Quem? — Minha mãe. só via tristes rostos indígenas inclinados sobre ela e que sacudiam a cabeça: "Não. Mas quando voltava a si. levava todos os verões seu dízimo num buque de flores de seu jardim às religiosas da Santa Casa. — Não grite! "Eles" estão em toda parte!. que. Calou-se. enevoada. alquimia.. folhas tímidas. Ela contou que numa noite de inverno. O exército franco-índio — cento e vinte soldadosda metrópole. Os sobos-ques sob o efeito dos primeiros sinais da primavera. — "Eles" estão em toda parte. ofereciam uma aparência esbatida. Negava enfaticamente. quatrocentos regulares canadenses e o mesmo número de índios das missões. os franceses chegaram e se encarregaram das mulheres e das crianças sobreviventes. — Acha que ela esteja morta? — perguntou um dia. Ragueneau. ele fora convocado porque tocava pífaro e tambor. E. Dizia-lhe: "Beba este caldo. e quando despertar sua mãe estará aqui". Um receio se apoderava dela. Desde a mais tenra idade. Ela dizia "minha mãe" num tom possessivo. informando-se sobre a saúde da índia que a adotara. o do jovem Ragueneau. vira Angélica moribunda. mas Cantor não a levou a mal. ele não sonhara. o rufar dos tambores semeava o terror nos corações iroqueses. persuadida de que sua mãe estava ao seu lado. Erguendo os olhos. fenómenos científicos.-e Honorina sabia que sua mãe jamais viera. — Não! Isto não e possível. com o qual havia cantado Meia-noíte cristã na noite de Natal. que está me esperando em Wapassu. como numa operação de transmutação química. Nào. Honorina balançava a cabeça. — Não! — Um bem imprevisto nasce desse mal intenso.As vezes ela parava. várias vezes Angélica fora visitá-la. parcialmente. um rosto adolescente apareceu-lhe entre os ramos. E você sabe o que acontece nesses casos?. Nas proximidades do lago de Saint-Sacrement. e começara a correr. Corriam de uma toca a outra. garantindo o avanço e os guardas . ouvira discutir ao seu redor química.. Talvez fosse um engodo! A floresta estava vazia. Muitas forças malignas se aliaram contra ela. no celeiro molhado -pelas brumas baixas. A velha índia não estaca mais lá. brotos. Jogou-se com-ela atrás de um arbusto. sua mãe não está aqui!" Uma velha índia compreendeu o que era preciso fazer para manter viva a menininha branca. pois morrera. Por sorte. e estava curada.. Cantor sentiu-"os". lutava a fim de poder falar-lhe. nos cantões iroqueses. Uma vez ela acordou. viu flutuar. que começava a recobrir com uma resina esverdeada os renovos pegajosos. atrás de cada árvore!. enroladas como lagartas. urrando: "Minha mãe está morrendo! Oh! façam alguma coisa por ela!.

envernizando-os com resina de abeto balsâmico. — Que está dizendo? . Um dia.. pensava com despeito. Mas os cursos de água tornavam-se navegáveis. — Cansada? Estava surpreso. entre duas nuvens de um dia um pouco invernal. transpuseram. Cantor comprou um barco e os dois remaram. sem animais.de flanco — seguia a habitual pista que conduzia aos mohawks e aos oneidas. onde se reuniam wigwams. atravessaram uma região deserta. que emergia do inverno como sarças ressecadas. Cantor surpreendia-se girando no mesmo lugar entre os galhos de árvores quebradas hesitando entre as pegadas de pistas indígenas. era preciso. descer ao fundo das gargantas. continuando seu giro rumo ao leste. ficou ali por vários dias. com o barco sobre a cabeça. Já ia tão longe o navio. acabava de costurar barcos de casca de árvores à beira de um rio. irmão e irmã desceram o rio. cortada por buracos e despenhadeiros atravessada por inúmeras torrentes. Uma pequena tribo de índios nómades. Wapassu não estava longe. O jovem Ragueneau lançou-lhe aos ombros um dólmã branco rasgado. atravessaram lagos.. Com os índios. os levavam para outros lagos ou vales sulcados de rios. Apesar de sua habilidade e faro. e que não levavam a parte alguma. carne-seca e rações de pão. Os bosquezinhos de Versalhes tinham-no feito perder o senso de direção naqueles cerrados. onde. seja na direção dos ingleses. onde se comia bem. As noites eram gélidas. a perseguição. — Ela me tirou tudo. até o dente de cachalote de casca de castanha e a conchinha que você me tinha dado. Continuando rumo ao leste. mas o sol aquecia durante o dia. inextricável." Para alcançar o norte do Maine. sem trilhas.. pois jamais ela se queixara das longas caminhadas que lhe impunha. misturado à tropa e arrastando o selvagenzinho cego... à procura dos sobreviventes das Cinco Nações. uniforme do célebre regimento de Carignan. muitas vezes desativadas. o golpe de misericórdia. Os índios tinham recolhido a seiva adocicada do ácer e recuperavam as forças bebendo-a. de degrau em degrau. Cantor devia atravessar esse exército em toda a sua extensão como um rio. "Essa pista era tortuosa. perceberam o cimo ainda recoberto de neve do monte Kathadin. Na hora não sabia do que ela estava falando. — Ela me tirou minhas caixinhas de tesouros! — choramingava Honorina.. escalar novamente a falésia abrupta do outro lado. Levavam suas peles e discutiam a direção que deviam tomar para ir ao comércio: seja na direção dos franceses. sem homens. o fim da Diaba! Era como se ela nurtcà tivesse existido! Surpreendia-se até ao pensar que tinha vivido na corte da França. o verdadeiro Maine.. para efetuar qualquer avanço. semelhantes a sobreviventes do frio. aproveitou os bivaques. Ouviu atrás dele gemidos de cachorrinho e voltou-se. interrompida em toda parte. e cativos para se desincumbir de uma perseguição inútil. Assim vestido. encontrar uma passagem na efervescência das torrentes ou das quedasd'água. Penetravam no Maine. Tornara-se novamente um adolescente do Novo Mundo. Depois afastou-se da longa fila guerreira que deslizava inexoravelmente em direção ao sul. várias vezes por dia. proveu a mochila com enguias defumadas. os saltos que. Mais uma ou duas horas de caminhada. com a possibilidade de tropeçar com os primeiros habitantes das fronteiras da Nova Inglaterra e ali recolher escalpo. Era a última etapa numa suave manhã.

— Estamos chegando! Logo veremos... no entanto. que.... — O que foi. lhe era tão familiar. . recobertas de vegetação nova. sob a comoção de uma impaciência infantil. pensou imediatamente. Mas não mais. que em sua exultação continha a mesma vasta impressão de vitória. de alargamento infinito que acabava de experimentar no momento em que murmurou estas palavras: "Estamos chegando!". — Talvez tenha sido isso o que a enfraqueceu — murmurou. E.. levando pela mão sua irmã selvagenzinha. ela ficou como que paralisada. ravinas drenadas. os pequenos gémeos! Os Jonas. Descreveram-lhe pastagens cobertas de rebanhos. e em que sentiu que englobava todos os seus num movimento novo. Onde estão todos?" Continuou a andar. "Estamos chegando!. Tudo era imenso e luminoso. encostado ao pico rochoso. e já contemplava com um olhar desconcertado e vagamente ansioso o sítio de Wapassu. pois ali passara uma invernada. sonhador. a casa." No instante seguinte. compreendeu? E depois disso. Tinham-lhe feito em cartas muito relatos detalhados. voltara a ser um jovem explorador de bosques. mais bem construído. "Para tanta felicidade. Honorina. e fora bem feito!. nesse pensamento. — Nada — respondeu. e. os Malapra-de.. de perfeição.A doença deixara-lhe uma fraqueza na garganta. cuja aproximação de Wa-passu devia ter-lhe despertado as lembranças. que. Seu pai. Eram pulsações tão dolorosas que não conseguia pensar além destas duas perguntas torturantes que lhe soavam na cabeça a cada batida: "O que aconteceu? Onde estão todos? O que aconteceu?. sua mãe. em todo caso. campos lavrados. Compreendeu? Ela sacudiu gravemente a cabeça. que não reconheceu imediatamente. Ele reconhecia o quadro e só via extensões desertas. felicitando-se de que ela não pudesse distinguir esse espetáculo de desolação. Pouco a pouco. daquele belvedere. o antigo fortim.. Eles tinham mordido a Envenenadora. e mais animado. Honorina encontraria consolo para a perda de-seus tesouros. Avançou mais e descobriu as ruínas enegrecidas.".. — O que está havendo? Onde estão todos?.. sua voz ficava ininteligível. um dia cantarei numa abadia Sua glória. Estava de tal modo aflito. e um novo trecho de paisagem descòrtinou-se a seus olhos. quando ela choramingava. os artesãos. e. preparadas para os cavalos. mas desertas. — Até o anel de meu pai e a carta de minha mãe — continuava. não apenas sobre a construção e reformas do grande forte. como anteriormente. pensou ele.. os soldados! Seu coração pulsava fortemente no peito. A porta se abria e eles penetravam todos juntos por ela. notou o movimento de silhuetas humanas em torno.. mas sobre ás habitações cercadas de jardins que haviam proliferado para além da paliçada. Cantor? — perguntou ela. deveria ter-lhe parecido mais povoado. Crispou inadvertidamente a mão em torno da de Honorina. Foi a vez de Honorina tentar compreender e interrogá-lo. com o olhar tão emba-ralhado. num tom de homilia. — O que está dizendo? — O anel de seu pai e a carta de sua mãe devem ter-lhe saltado ao rosto.

instalados no fortim. familiarizado com Wapassu.. disse consigo. Se fossem fiar-se nos sonhos dos selvagens. — Está nos sorrindo. Honorina. Ambos permaneceram imóveis lá no alto. E desta vez posso vê-lo! Oh! Cantor! Como estou feliz! A vida é bela!. Cantor? — Sim. Estavam lá em cima. — E você não está completamente cega! Hurra! Hurra! Agora. Propunham ficar no lugar. Colocou-a escanchada nas costas e desceu saltando de rochedo em rochedo rumo a Wapassu. mais embaixo.. — Cantor! Estou vendo-o! Estou vendo-o.. ainda invisíveis aos olhos daqueles que."Até que há bastante gente. preparando-se para tomar o caminho do sul e deixar o lugar. diziam as pessoas das orlas. não caia — gritou ele.... segurou-lhe a mão. e. — Cuidado.. eu o vejo — respondeu ele. Honorina não encontraria o lugar deserto. Quatro dias. e o pai de Carlos Henrique.. Lymon White. A pequena Honorina não surgira dos bosques. Sua mãe! Sim! Era ela! Recomeçou a respirar. como predissera aquele louco do Utakê. Se as predições do iroquês por acaso se realizassem.. Partir!. seis dias de prorrogação!.... . na ponta do rochedo. venha. acompanhada ou não de um anjo. Angélica acabara por conseguilos. mas contra os quais não teriam condições de lutar... Apesar dessa nova decisão. mas estava com as pernas bambas pelo medo que sentira. Velho da Montanha! Aqui estou. Um vestido de mulher. o irmão e sua jovem irmã. sob inspiração de um pro-jeto que permitiria conciliar tudo. o inglês mudo. Angélica não podia aceitar a sentença. Eu voltei. apavorado. Mas o cômico iroquesinho com o rosto bexiguento iluminado de alegria... Mas os últimos adiamentos se esgotavam. ansiosas por se afastar antes que aparecessem contingentes de guerra de não se sabe que nação.. Partir sem voltar a cabeça! Abandonar tudo! Jamais tornaria a ver Wapassu.. Os dois homens se encarregariam dela e a levariam até Gouldsboro. pois bem. as sombras e as luzes esculpiam o relevo de uma face augusta e pacífica. foram buscar Angélica e Colin Paturel. CHEGADA DE CANTOR E HONORINA A WAPASSU CAPITULO XXXIX "Encontramos as crianças! Podemos partir" — Um novo limiar de felicidade — É preciso partir. — Também o vê. explorador de bosques tarimbado.. minha amiga — dizia Colin. Honorina arrancou a mão da sua e precipitou-se. — Quem você está vendo?.na falésia rochosa batida obliquamente pelos raios do sol. Vamos fazerlhes uma surpresa daquelas. Olá... se ocupavam em reunir os elementos da caravana. — Está olhando para nós dois. — O velho da Montanha! Eu o vejo! Hoje posso vê-lo! Pegou-a na beira do precipício.. erguia os braços para o sol. pensando bem". cinco dias.

Esperando essa morte." Deixara-o sangrar em seus braços.. você que ode ser tão súbita e tão breve! Colin. Depois saíra. A maldita! A magnífica!. tão suave. Às vezes irritava-se com eles por suas palavras sensatas. como quando se põe de lado uma roupa. se apagasse como por encantamento um tempo de morte que parecera que jamais terminaria. colocara o cinto e enfiara o cordão do crucifixo no pescoço.. Vestira sobre o corpo descarnado a Toga Negra. A primavera subia como o mar!. quando se deitava.. De que se queixas?.. "Eu deveria ter cuidado dele. mesmo escalpelado. sentado pacientemente à sua cabeceira. cinco.. o ruído das vozes.um dia! Esperemos mais um dia — suplicava Angélica. aquele movimento de silhuetas em torno dela. Esperando essa morte. E passando junto às crianças. sempre se lembrava daquele momento que ele vivera e que ela não vira. Ah! longa.. Isso já acontecera vaias vezes em sua vida. lhe houvesse gritado: "Morto. censurando-se. seis dias de prorrogação.. não tentava convencê-la.. Estava mudada. Desperta. se evaporasse. ancoravam-na outra vez à terra.. perguntara-se se não teria podido tentar cuidar dele.porque estava dormindo. ao vê-lo. — Olhem para as crianças! Elas sabem que não voltarão mais.. e não era preciso mais que isso para que. ainda que ela procurasse retê-lo sob o aguilhão do apego e do remorso.. das alterações.. contentando-se em murmurar-lhe palavras de conforto e agasalhá-la quando ela acordava em prantos.. aonde você vai?" Andara pela ravina e apresentara-se diante dos homens vindos para fazê-lo perecer. Era preciso que ele morresse. em que por isso a colocassem totalmente entre eles.. é pouco! E no entanto aqueles dias estavam investidos de um poder de esquecimento e de renascimento que valia por anos.. mas nunca com aquela impressão de ruptura. Seu sono daí em diante tornou-se tranquilo e profundo. as previsões lógicas. ele abandonara suas nassas de pesca e correra em direção ao fortim pela última vez. os projetos materiais e sólidos referentes à partida sobretudo por não poder explicar-se e comunicar-se realmente om nenhum deles. Irritava-se com sua pressa em deixar o lugar. seis dias. Aquele momento em que. mas pode ser facilmente estancado. Não sabia ainda em quê. seu . o jesuíta. quando sua saúde melhorou. com a mesma celeridade com que a primavera começava a invadir de verdor os vales. dissipando-se a visão que a obsedava e que não conseguia deixar de reviver ponto por ponto.. tão cheia de flores e de cantos de pássaros. Ela se agitava no sorto... Fora até o quarto de Lymon White... cinco. Pois. tendo percebido os primeiros homens aparecendo do outro lado do lago. aniquilada. — Mais . Eu deveria.. Quatro. lançara-lhes: "Fiquem bemcomportados! Não se mexam! Eu voltarei". derretesse. a inquietação por Hono-rina suplantou a do drama recente. como às vezes demora a vir. Depois.. Quatro. mesmo com Colin. em seguida. Ele também desaparecia.. de despojamento. Nas primeiras noites. Jamais parecera tão bela. E talvez o pequeno Carlos Henrique. Seu espírito.O Wapassu! É proibido conhecer o Éden na terra? Mas você o conheceu. O sangramento de feridas na cabeça é abundante. Abotoara-a de alto a baixo com os dedos enfermos.. longa morte.

No último momento. Mas eles lhe perdoavam tudo. naquela manhã. pois não encontravam as três crianças. não deviam estar longe. levantavam os pitis de peles sobre varas cruzadas ou os wigwams arredondados como cascos de tartaruga. Isso a punha nervosa. — Honorina! Ergueu a forma frágil. resumindo todos os transportes. os latidos dos cães e os gritos das crianças recriavam a trama familiar que anunciava os trabalhos de verão. Os olhos de Angélica percorreram o horizonte de Wapassu. — Perdoem-me — repetia incessantemente. Uma criança índia corria em sua direção. o pão. depois.. julgou morrer de felicidade. readqui-riam flexibilidade e brilho. nesse período transitório que a levava da doença à saúde. com os braços abertos. a caravana estava formada diante do fortim. deixar-se tomar pelo peso da terra era-lhe proibido Os índios. seus cabelos. A palidez diáfana tingia-se de rosa nos pômulos. os lábios descoloridos ganhavam vida. feitos de cascas de árvores sobre arcos flexíveis. como não eram testemunhas suas agitações interiores.coração. tropeçando.. Aqueles montes. por vê-la readquirir o espírito combativo e bastante vigor para scutir e opor-se-lhes quando a instavam a partir.. Na verdade maravilhavam-se com a rapidez com que reassumia a vitalidade: Ao sol. aqueles bosques haviam lhe confiado um segredo inefável. recusando a realidade. que observavam de longe os brancos. a sombra cavada sob os olhos já não era senão um círculo azulado sabiamente esbatido. como que sob as mãos hábeis de um mestre cabeleireiro que os nutrisse com óleos revigofantes. Tinham tomado gosto pelas explorações pessoais. o que se censu-ava. Angélica estava tão ressentida com Colin que nem lhe respondia quando ele lhe dirigia a palavra.. paixões e esperanças de seu ser.e não compreendiam: onde estavam o posto. o sinal de partida foi atrasado. só podiam rejubilar-se. Angélica sentiu perpassar-lhe o mesmo sopro luminoso que transfigurava todo sofrimento. e. Entretanto. A fumaça lenta das fogueiras. apresentava essa beleza perturbadora. Foi como o cimo de uma vaga de amor arrebentando. apertando-a nos braços. . O último dia consentido havia terminado. que tinham aproveitado os preparativos para escapar de uma vigilância demasiado constrangedora. e. tão leve. debatiam-se como pássa-os contra as grades de uma gaiola demasiado estreita. inclusive Colin. subitamente também se animaram e se dirigiram para eles em massa. . Subitamente não se sentiu mais triste. sua alma. de modo que. — Fui um pouco ríspida. com exclamações afetuosas. Enquanto se lançavam à sua procura. Contemplavam o sítio transformado do Wapassu que estavam habituados a frequentar. Os índios nómades começavam a chegar em pequenas famílias. Esquecê-lo. correndo também com os braços estendidos. facilmente impaciente. e não soube que presciência a fez lançar-se para ela. e.. os copos cheios de continhas coloridas?.. os carregadores recolocaram no chão as cargas que já tinham içado aos ombros. resultante dos artifícios das mulheres que se aprontam para um baile.

Ela sentiu-lhe a força determinada. sua obra não estava apagada.. As imagens se precipitavam. Ignorava que o Conde de Pey-rac fora para a Franca. mas fazendo um pequeno desvio por Quebec. Era um homem. Montreal e Ontário. seria preciso aproveitar o desaparecimento das neves para ir aos postos e minas inacessíveis informar-se sobre os sobreviventes do inverno. bastante contentes consigo mesmo mas prontos para a partida. Mas. Estava agora num novo limiar. os valões e os lolardos ingleses. O futuro desconhecido já se preenchia. de onde você vem?. mas foi ele quem a tomou nos braços. o gesto que realizara. nova e quase desconhecida.. mas está viva.Nem o aspecto repelente do rosto e dos trajes. — De Versalhes — respondeu Cantor. No alarido que se seguiu. Vítimas inocentes. E. Sua vida não estava arruinada... os Malaprade e seus filhos.-mma voz gritou: — Senhor Deus! Ela teve varíola! Uma outra voz.. vejam que maravilha. Teria reconhecido. Angélica compreendeu que... E ela ria. a chama dos olhinhos de Honorina... dois ou três homens devotados. A perda dos bens não era nada. Queria isso. — Um guerreiro iroquês!. com Honorina junto a ela e. em sua marcha de volta rumo ao sul.. Nesse momento... os três pirralhos. lambuzados de fuligem por terem tentado explorar as ruínas e segurando os primeros buques de flores colhidas. — Ele foi me buscar entre os iroqueses — disse Honorina orgulhosa. E todo mundo caiu na risada. desafogando a necessidade de distender-se.... em primeiro lugar. — Viu seu pai? Cantor arregalou os olhos.Era assim. A única coisa que não aceitaria era que houvesse outras vítimas. voltaram gritando: — Encontramos as crianças! Podemos partir. que sentira um choque gelado ao ouvir a terrível palavra: "a varíola"!. a perseguição que fizera.. sob qualquer máscara. se o futuro que os esperava estava carregado de mistério. . feroz.. Wa-passu permaneceria uma rica e soberba messe de lembranças e de felicidades.. ou dos ataques do outono. um guerreiro iroquês! Venham todos. e nossa mãe vai curá-la. Adivinhou tudo. os suíços. à sua frente. Angélica colocou-a nó chão para estender a mão para o rosto de Cantor. pelo que vejo.. que não estavam a par de nada... estava-o igualmente de um montão de histórias a serem contadas uns aos outros e que preencheriam as horas de numerosas vigílias ou travessias. — Cantor!. Podiam partir. não é?!. Cantor!. O você!. replicou: — Sim. realizou seus sonhos. girando loucamente com a criança junto ao coração. indomável. Não haveria vítimas. Exigia que não houvesse mais vítimas. muito mundano —.. nem o disfarce de menino.. — Eu sabia que você viria..... que teriam sido imoladas à malignidade de uma Ambrosina. nem a cimeira de cabelos vermelhos viscosos de resina tinham-na enganado.. os espanhóis. Reencontrariam os Jonas. Seus navios haviam se cruzado no oceano. Um guerreiro iroquês voltou para nós!. O encontro que o levara a embarcar.. Essa voz e essas palavras desviaram a atenção de Angélica.

22. "Depois de tudo!".. percorrerei o mundo se for preciso. Rainha de Quebec O Inesquecível Natal de Angélica Angélica e o Perdão do Rei Angélica e as Feiticeiras de Salem O Fascínio de Angélica . lugares consagrados. a pele fina de criança crivada de cicatrizes? Levaria mais tempo! Ou talvez pouco tempo!?. "Não haverá mais vítimas! Será assim! Sinto-o! Encontraremos todos os nossos amigos perdidos!. conseguiria.. 11. antes de singrar para a Europa num belo navio. 14. "Eu irei... à saúde de todos. De uma coisa estava certa: conseguiria que os sinais de sofrimento e da maldição que tinham se abatido sobre ela desde o nascimento se apagassem do rosto da criança bem-amada. 19. fontes de rios sagrados depositários da corrente divina.. Ela os encontraria. 4. 7. tocados por Seu poder.. minha criança. E você. Pegou-a no colo para ver-lhe o rosto de perto e examiná-lo.. Cativa no Harém Angélica.. 18. O céu bem que me deve isso!. e mais uma vez. impacientes por revê-la. com o prestígio assegurado. 2. Não faltavam forças miraculosas no mundo: mãos curadoras. você será salva. para um rei ponderado. 8.. 23. 16. numa viagem que não conheceria tempestades. 3... 20. nunca mais separar-se dele. 10. pensou. "Depois de tudo!. Maldita Angélica no Barco do Amor Angélica no Fim do Arco-íris Angélica na Floresta em Chamas Angélica e a Caçada Mortal Angélica e Seu Amor Proibido Angélica Ultrajada Angélica e a Duquesa Diabólica A Satânica Rival de Angélica Angélica e o Çomplô das Sombras Angélica. amigos fiéis. nas praias de Gouldsboro. 13. 17. como se apertasse contra si sua vida nova. 6.E poderiam beber e brindar alegremente. um esposo cheio de expectativa. 15. aumentando depois a acuidade da visão atingida pela horrível doença. 12.. nos braços do qual se lançaria prometendo a si mesma. 24. Quanto a Honorina?. Assumiu a responsabilidade de cuidar das pálpebras. mais uma vez. Os Amores de Angélica O Suplício de Angélica Angélica e o Príncipe das Trevas A Vingança de Angélica Angélica e as Insídias da Corte Angélica." Abraçou-a apaixonadamente.." Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica: 1. 9. Clandestina... .. desafiando com as pupilas verdes a luz da primavera. 21. ainda uma vez. você será bela! E será feliz!. Rebelde Guerreira Angélica. Dependia dos meios que empregasse. a Favorita do Rei Angélica e o Pirata Angélica.. 5. taumaturgos. Sua vista ameaçada? Ainda estava em tempo.. A pele do rosto.

fez e sofreu intrigas. Foi um grande êxito de vendas. traduzidos para vários idiomas e transpostos para o cinema. a inesquecível Marquesa dos Anjos. com o dinheiro de um prémio literário. fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo. viajara como jornalista. um sucesso da Nova Cultural. Nos 26 volumes que apresentamos. O Editor OS AUTORES: ANNEE SERGE GOLON Serge Golonbikoff nasceu em -Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Changeuse. Angélica amou. em 1952. Çonheeeram-se e casaram-se na Africa. Angélica protagonizou a maravilhosa trama que a conduziu da corte resplandecente do Rei-Sol às sarjetas de Paris. 26. estaremos reiniciando o lançamento dos títulos dessa série. acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). ou completar sua coleção: na próxima quinzena sai o no 1 e. num verdadeiro turbilhão de emoções. com as aventuras de Angélica. lançado em 1959. O sucesso de Angélica. Tanto assim que. Não perca a oportunidade de sugerir a amigos. odiou. Angélica e a Estrela Mágica O Triunfo de Angélica Caro leitor. encerramos a publicação de todos os livros escritos por Anne e Serge Golon. cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes. presentear. dos haréns da África à intimidade de piratas. Serge era uma . Neste volume. foi temida ou adorada. foi imediato. Anne resolveu entrevistá-lo. a partir da próxima quinzena. em 1928. a Marquesa dos Anjos. tiveram a ideia de escrever unia novela histórica ambientada no século XVII: Serge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado já na infância. celebridade na época: formado em geologia. Estes. já casados. Atraída por sua fama. em Toulon (Franca). para onde Anne. animando os autores a produzirem novos volumes. Marquesa dos Anjos.25. sairão as edições seguintes de Angélica. a cada quinze dias. De volta à França. mineralogia e química. . sustentado por uma narrativa de excelente qualidade literária.

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