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26 O Triunfo de Angelica

26 O Triunfo de Angelica

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Sections

  • Cantor de Peyrac despede-se da amante e enfrenta os piratas
  • As aparências de um sonho triste — Cantor esgueira-se ao Convento das Ursulinas
  • A mensagem redentora do Arcanjo
  • Cantor em busca de seu glutão, Wolverines
  • CAPÍTULO VI
  • Mariângela do lobo
  • A ressurreição de Ambrosina — Cantor face a face com a diaba
  • O fim da Diaba — Reação devastadora do Mal e a fúria dos elementos
  • Em Wapassu destruído, a espera angustiante de Angélica
  • Imenso abismo de gelo — Um ténue sinal de fumaça
  • O cunhado de Passaconaway — Insólita caridade no wigwam abandonado
  • Os pingentes de Jenny Manigault — A loucuras do silêncio
  • Entre a fome e a tempestade
  • Em meio ao delírio, o cadáver de um mártir
  • Frente a frente com o jesuíta Sebastião d'Orgeval
  • CAPITULO XVII
  • O refúgio volta à vida — Cuidados com o mártir moribundo
  • A caçada ao alce — Angélica e os lobos — Diálogo com um morto
  • A cumplicidade de náufragos desenganados
  • O suplício entre os iroqueses— Um covarde entre os heróis
  • O segundo martírio do jesuíta
  • Amor e ódio no jogo das paixões
  • A fuga das crianças — Esperança de salvação
  • Insinua-se o "mal da terra"
  • Uma partida insensata
  • Um companheiro de miséria — Apenas um corpo em movimento
  • "Eles estão mortos!"
  • A profecia se cumpriu
  • Um comediante nato
  • Um aspecto do espírito de Joffrey de Peyrac — Sonhos de regresso à Europa
  • A face oculta de Deus — Rei e rainha da Criação, anjos entre flores de luz
  • A primeira flor da primavera
  • A chegada dos homens de Gouldsboro — O cheiro da grelha dos iroqueses
  • O perdão de Utakê — O coração do mártir
  • Um último discurso de Utakewata — Notícias de Honorina
  • A odisseia de Cantor e Honorina
  • "Encontramos as crianças! Podemos partir" — Um novo limiar de felicidade
  • Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica:
  • ANNEE SERGE GOLON

Título: O triunfo de Angélica Autor: Anne e Serge Golon Título original: Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1989

Publicação original: Gênero: Romance Histórico Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida Nos quase trezentos anos que se seguiram ao descobrimento da América, os franceses tentaram de todas as formas estabelecer um império colonial em terras do Novo ^ Mundo. Desde o início do séc. XVI, quando a ação isolada de corsários e comerciantes os levou a explorar o litoral americano, até o final do séc. XVIII, quando tiveram de se retirar, cedendo ao avanço do imperialismo inglês, os franceses chegaram mesmo a estender seus domínios por um considerável território — no Brasil, nas Antilhas, na América do Norte. O auge da presença francesa na America registrou-se durante o reinado de Luís XIV, quando o Canadá passou a ser uma colónia oficial, administrada diretamente pela Coroa francesa. O comércio e o povoamento foram incentivados, fundaram-se novas cidades, firmaram-se alianças com os nativos. Mas a terra nunca produziu as imensas riquezas ambicionadas, e a sólida presença inglesa na região acabaria por frustrar seus sonhos coloniais. Depois da Revolução, praticamente findava o poderio francês no Novo Mundo. Angélica e seu amor, o Conde Joffrey de Peyrac, viveram o auge do domínio francês em terras americanas.

"Depois de tudo o que passei", conclui Angélica, "o céu bem que me deve a felicidade!" Num derradeiro gesto de esperança, Angélica correu o olhar pelo vasto horizonte ao longo da fortaleza destruída de Wapassu. Além, muito além das montanhas geladas do Canadá, do outro lado do oceano, o Conde Joffrey de Peyrac a esperava. Numa espécie de vazio causado pela saudade e pela angústia, sua mente rodopiou numa embriaguez vertiginosa. Ilusões! Vivera apenas ilusões! Sonhara com um Novo Mundo. Trabalhara para construí-lo. Amara todos aqueles lugares: Katarunk, Wapassu, Gouldsboro, Salem, Quebec. Todos, um a um, deixados para trás. O futuro que a aguardava era ainda um mistério, mas levaria consigo todas aquelas histórias com que preencher horas inteiras de numerosas vigílias e travessias. Reencontraria os amigos, e poderiam brindar e beber alegremente. Sua vida e sua obra não se apagariam. A lembrança de tantos momentos carregados de significados permaneceria como uma soberba promessa de felicidade. Agora seu desejo era navegar para a Europa num belo navio, numa viagem sem atropelos nem tempestades. Lá encontraria um esposo cheio de expectativas, para em seus braços se lançar, prometendo-se mutuamente uma vez mais: dali por diante, nunca mais iriam separar-se! O triunfo de Angélica Anne e Serge Golon Mais uma vez separada do marido, o Conde Joffrey de Peyrac, que partira para a França com o governador da colónia, o Sr. de Frontenac, Angélica não tinha a quem recorrer. Numa cabana perdida na imensidão gelada do interior do Canadá, diante das ruínas do que fora a fortaleza de Wapassu, destruída pelos canadenses comandados pelo Conde de Loménie-Chambord, ela não sabia o que seria de sua vida e das três crianças que a acompanhavam: seus dois filhos gémeos, os bebés Rodrigo Rogério e Gloriandra, além de Carlos Henrique, o enjeitado filho de Jenny Manigault, que tomara a seus cuidados. Os perigos pareciam brotar de toda parte: até sua filha Honorina fora obrigada a buscar refúgio entre os iroqueses, perseguida pela sanha vingativa da diabólica Duquesa Ambrosina de Maudribourg. A Diaba da Acádia e seu aliado secreto, o Padre Sebastião d'Orgeval, seus piores inimigos, como que ressurgiam das trevas. Quem viria em seu socorro: o Arcanjo da profecia? Como, se seu filho Cantor — identificado com o tal Arcanjo — acompanhava o irmão, Florimond, nas homenagens e divertimentos da corte do Rei-Sol, Luís XIV, em Versalhes, do outro lado do oceano? A VIAGEM DO ARCANJO CAPÍTULO I Cantor de Peyrac despede-se da amante e enfrenta os piratas O arcanjo estava no encalço da Diaba, desde a antecâmara do rei. Um pano de tapeçaria que se desloca, uma porta aberta para uma passagem estreita, dois ou três degraus a galgar. A crónica fala daqueles que conduziam do salão da Sra. de Maintenon à sala de bilhar, aonde o rei se dirigia todas as noites para jogar uma partida.

Um pajem o precedia, para segurar o batente de tapeçaria, damas mergulhavam em seus brocados e uma delas se levantava. Dois olhares, um de ouro, o outro de esmeralda, que se cruzam. E na sombra dos labirintos de um palácio, Versalhes, se engolfa o ar salino de um litoral perdido da América, o odor de podridão do peixe que seca ao sol, uma mulher que urra ajoelhada diante de um corpo trespassado por um arpão: "Zalil! Zalil! Não morra!..." "E Ela, tenho certeza", pensara Cantor de Peyrac. No mesmo instante, enfiara um luís de ouro na palma de um lacaio próximo a ele. — O nome dessa mulher que acaba de cruzar comigo!... O lacaio não sabia, mas, estimulado pela fortuna que acabava cair-lhe do céu, não precisou mais de um minuto para voltar e msinuar-se na assembleia que formava um círculo em torno ao bilhar do rei, e sussurrar ao ouvido do belo pajem, tão generoso: — Sra. de Gorrestat. — Seu esposo? Qual é? Seus títulos? — retorquiu-lhe o pajem, doando-lhe. um segundo óbolo. Dessa vez o lacaio abandonou por uma hora seu posto de porta-tocheiro, calculando que, se aquela deserção arriscava atrair-lhe admoestações, custar-lhe-ia menos do que o que tinha a ganhar a serviço daquele jovem senhor. Antes do final da partida do rei, estava de volta e confiava a Cantor, junto ao seu ouvido, tudo o que conseguira recolher. Aquela senhora era a esposa do senhor governador do Nirvanais, recém-chegado a Versalhes por convocação do rei. Corria o boato de que esperava uma nomeação importante. Sua esposa, pessoa de qualidade, discreta e agradável, agradara à Sra. de Main-tenon, que a recebia entre suas damas, o que para elas constituía a melhor maneira de ficar junto ao Sol. Soube que o casal já se preparava para embarcar no Havre para o Canadá, do qual o Sr. de Gorrestat fora nomeado governador. Já no dia seguinte, soube que se tratava exatamente da "viúva" do velho Parys, que se casara com o Sr. de Gorrestat. Tudo se encaixava. Se queria munir-se prontamente do dinheiro para uma viagem além-mar, Cantor precisaria encontrar um expediente. Ele compreendeu. Não havia mais nem um dia, nem mesmo uma hora, a perder. Correu à casa da Sra. de Chaulnes, sua amante. Encontrou-a inquieta por não ver o seu jovem amante havia quarenta e oito horas. Sem querer dar-lhe as razões de sua brusca decisão, Cantor avisou-a que tinha de embarcar urgentemente para a Nova França e que, com esse intuito, teria necessidade de uma soma de vinte mil libras. A Sra. de Chaulnes pensou que o mundo se fendesse em dois. Deu um grito terrível, cujo eco não podia voltar-lhe aos ouvidos sem que se sentisse petrificada de vergonha, de aflição e de dilacerante concupiscência. Um grito de animal frustrado. — Não!... Não você!... Jamaisl Não me deixei... Ele a olhou com um estupor indignado. — Não sabe então, minha cara, que nada dura eternamente? Eis por que nos é preciso colher o fruto e saboreá-lo quando ele nos é dado... Você o sabia quando me recebeu em seu leito. Não existe nada perene no mundo!... Tenho de partir!... Ela o imaginava sozinho, galopando por caminhos, atacado por bandidos, afogado... — Mas o mar!... — gemeu.

Seu único viático de amor! . cantarolando. Via-o apenas através de um nevoeiro.. — Pior que isso! Ela deixou cair a cabeça em seu ombro. uma questão de paciência! Sua juventude resplandecente inspirou-lhe o arrependimento de não ter sabido levar as coisas da vida alegremente. Ele se levantou. Ele se lançou aos seus joelhos como da primeira vez. depois caixinhas.. não sabe então que nada é eterno?. meu querido.. que nem se dava ao trabalho de contar.. — O dever não se discute. Ia esperá-lo. — Não descontente o rei. abraçando-a.... pelo menos. — Não é certo que eu o encontre — respondeu.... — E reze! Reze por mim! Corria para a porta.. "Minha cara. Uma sombra passou-lhe pelo rosto. — Não. O animalzinho dos bosques?.. Algumas semanas ruins balançando ao sabor das ondas. fechou-lhe os dedos sobre as jóias como se ali estivesse seu pobre coração. cobrindo-o de lágrimas. Num impulso confuso. fez disso um juramento. Enquanto "ele a beijava.. sem me dizer adeus!.. que ela lhe confiava. e derramava na escarcela estendida de Cantor luíses de ouro... encheu-lhe as palmas das mãos... E ela se afastou. de Chaulnes abria cofres. — Você vai encontrá-lo?.. Obrigado. "dia após dia! — Espere. O mar?.. um homem que teria tanto sonhado encontrar na aurora de sua vida! Com o qual teria sonhado tanto viver. Ele beijou as mãos generosas que seguravam as suas.. Isso não era nada. sonhando. enquanto a Sra. quem vai abater? — O Mal!.. diga-me. seus raros sorrisos... como o único tesouro de toda uma vida. Cantor franziu o sobrolho. seja bendita!.. Falei com meu irmão para que a reem bolse o mais cedo possível. suas palavras tão sábias.. A vida toda ela conservaria a lembrança daqueles braços jovens enlaçando-lhe os quadris. ligado à sorte da nave que o conduz. Cantor voltou e tomou-a nos braços.. preocupado... — Não! Você não pode partir assim. Morreria com esse viático. ela soube que ele era um homem. — Meu belo sire. pérolas de um colar. Será um pouco de mim que perma necerá com você. Fique com tudo. — Ele o chamou? — Não sei. Dois diamantes de brincos pingentes. Trocavam algumas palavras. Ela gemia. — Meu irmão tratará disso. minha cara. Entregou-os a ele. Desvairada de dor. — Obrigado." — Obrigado — gritou ele. O único que guardaria.. — Não o deixarei partir. rememorando seus gestos. já sem lágrimas. que poderá negociar. daquela fronte juvenil contra seu ventre. — Doce amiga. Subitamente veio-me uma ideia. quando tinha a idade dele.....Ele riu. — Mas afinal! O que se passa? Sua família lá na América está em perigo?.

pode levar vantagem quanto à velocidade sobre os grandes monumentos de três pontes e vinte e cinco canhões. ou todos os meus bens e minha vida. Frota e flotilhas de pesca sazonais. pela cara dos marujos.A perseguição levou Cantor de Peyrac até o Havre-de-Grâce. O navio que levava o governador provisório da Nova França. Em qualquer canto do mundo aonde você fosse doravante. mas não poderá desfrutar os poucos luíses que lhe sobrarão. — Eis uma verdade que meu irmão mais velho me repete todas as manhãs. enquanto se ocupavam em lanhá-la a golpes de facão. fizera-se ao mar dois dias antes. Indiquei a minha família em que navio embarcaria. no mínimo.. dando a Cantor tempo para conseguir uma passagem para si mesmo. Na segunda noite da viagem. conseguira se libertar dos laços um pouco apressados com que Cantor o paralisara. dar-lhe-ei a metade do que contém esta bolsa cheia de ouro. e você não gozará muito tempo de minha fortuna adquirida. que essa intervenção lhe prove a seriedade de minhas palavras. dois socos violentos. que sua aparência e seus luíses de ouro exibidos não deixariam de suscitar intenções muito precisas em seus espíritos. — E continuou: — Estou em suas mãos. após contemplar o cadáver por algum tempo. e cuja única vítima fora o manequim de panos e trapos estirado em seu lugar. mais hábil. ao saber que a intenção do capitão era percorrer pelo caminho mais direto o Saint-Laurent. Se me matar para ficar com tudo. sua esposa e sua comitiva. um dos marinheiros que. capitão. Cantor voltou-se e descarregou sobre ele a pistola à queimaroupa. Era um patacho. Depois Cantor de Peyrac foi despertar o capitão e pediu-lhe que o acompanhasse a fim de verificar os danos que haviam pretendido causar-lhe. daí em diante. As primeiras partidas efetuar-se-iam aproximadamente nas mesmas datas. Canadá. duas silhuetas se insinuaram na despensa onde dormia. Sem contar que seus bandi- . retida por reparos indispensáveis de última hora. aplicados na parte traseira de seus crânios. seus dias estarão contados. provida de uma tripulação restrita. Só restava esperar que a tempestade que acabava de se formar sobre a Mancha os deportasse até o golfo da Gasconha e os atrasasse. já haviam embarcado todos em coro. A metade do ouro que trago comigo em troca de minha vida. Se eu chegar vivo às praias do. um porto da Normandia. armado com sua faca. pois. — Capitão — disse-lhe —. conhecendo seus homens. Acabou por encontrar uma embarcação. quero crer que você é um homem honrado e que não tem participação neste complô. como se não estivesse muito certo de que estivesse ali estirado a seus pés. Proponho um negócio.. Reflita bem. — Você matou um de meus homens — disse o capitão. mas formada por sujeitos que se encontram o mais das vezes no mar. e ambos fomos instruídos a esse respeito por nosso pai e seu exemplo. como roubá-lo e assassiná-lo. — Quem não sabe matar não pode viver — replicou seu jovem interlocutor. encarregados do correio e de passageiros para a Nova França. Cantor ofereceu uma boa quantia para subir a bordo. não apenas será obrigado a dividir com seus piratas. fizeram-nas adormecer de vez. Sua experiência das travessias e dos navios ensinara-lhe que uma casca de noz rangente.veio em socorro do capitão. os homens de meu pai o encontrariam e lhe cortariam o pescoço. em manter a boa reputação de seu navio. mas. mas surpreende-me que não se empenhe mais. Encontrou dificuldades. Soube também. navios de comércio. Por isso. Enquanto isso. arremessaram-se sobre a forma ali estendida e. Ocultar-lhe-ei seu nome a fim de que não alimente o projeto de me manter cativo para pedif resgate. mas você está também nas minhas.

onde a lei dos homens o fez o único mestre a bordo.. como fora previsto. mais recomendada. Tranqiiilizou-se em relação à família. O jovem loiro. Estavam na outra vertente da viagem. O pobre Muçulmano repelido saiu. vira um verdadeiro arsenal.. E começarei por lhe sugerir que. a seguir. de ficar três dias no porão. soprando uma flauta de pastor grego e mergulhando durante horas na contemplação das imagens. pena leve. quanto àquele. O homem de turbante procurou fazer-se entender. sentiu a ponta de uma adaga espetar-lhe as costelas. porque ficara dez anos cativo em Argel entre os bárbaros e habituara-se a usar turbantes e aproveitar-se de rapazes. era repousante. sua esposa e escolta. E mais a espada pendente do boldrié. um cutelo e uma machadinha como as dos índios. Em compensação.dos de marinheiros tentarão tirá-la de você.. continuava em Quebec. com o vigor do vira-lata face aos cães de raça. sem água. após acertar suas dívidas com o capitão. pés-de-vento. Em Tadoussac. — Nosso capitão fecha os olhos para esses jogos. E devia ter uma adaga em cada bota. culpado de ter-se ausentado da vigia a fim de praticar seu crime. proteja-me contra esses piratas com todo o poder e domínio que detém sobre este navio. Enviaram-lhe um homem de Dieppe chamado Léon. pela japona entreaberta do loirinho. piratas e calmarias podres. Uma alegre sensação de ter voltado ao país nasceu dentro dele ao aspirar o perfume das fogueiras. pena: estrangulamento e lançamento ao mar ou desembarque numa ilha deserta. Nem sequer conseguira ver a bolsa com os luíses de ouro.. Cantor segurava-o com uma mão e com a outra continuava a cortar-lhe a respiração com a ponta do punhal. mais insosso. seja colocado na golilha. O patacho. além daquela. tudo permaneceu calmo. deixou o patacho. que quiseram obter suas riquezas por vias menos diretas. após tantos dias na . CAPITULO II As aparências de um sonho triste — Cantor esgueira-se ao Convento das Ursulinas Na Terra Nova. o Muçulmano. — Que quer de mim? — perguntou o jovem loiro. Portanto. das peles. Duas pistolas. evitava os aguaceiros. Paguei-o para isso. e corria a boa velocidade pelas rotas ordinárias. continuava a tentar os bandidos. e o do rio. — Posso pedir-lhe que os abra. Foi uma travessia fácil. Desse modo. Mais próximos do grande continente da América que da Europa familiar. depois de Deus. confirmou-se que o navio que levava o governador. Nãò havia notícias de pessoas que tivessem descido na escala e que tivessem embarcado para a baía Francesa. daquelas que entretém o tédio do marinheiro. As previsões do jovem navegador mostraram-se corretas. — Conhece o regulamento de bordo "Faltas-Castigos"? Quais são os termos para aquela que se prepara para pedir-me que cometa com você? Cantor recitou com uma voz monocórdia de aluno: — Falta: sodomia. sentado contra a amurada. indo confirmar a seus confrades que não havia nada a fazer. O sorriso meigo com que abordou Cantor congelou-se quando ao ajoelhar-se perto dele. de acordo com a pena prevista. às vezes.

Vestidas de preto. enquanto não tivesse sondado o ambiente. Uma neblina antecipando o outono. por muito tempo a água era ainda salgada. Vendo um filete de fumaça diluir-se preguiçosamente no alto da casa do marquês." Mas. A tabuleta molhada parecia chorar. não procurou dar-se a conhecer. apesar de apreciar as sensações amigáveis da natureza. ao mesmo tempo. Contudo. muito antes de Quebec. Já era outono. Sua intenção era bater à porta da Srta. Le Bachoys que ia ser enterrada. Quando chegou à praça da catedral. percebeu. Os sinos dobraram. o lugar perdia sua realidade. bastante fresca. A Taverna do Sol Levante estava fechada.salmoura. Entretanto. saltou a rampa. "Ele vai adivinhar que estou chegando. Começou a subir a Rue de la Petite-Chapelle. Ereta em meio à bruma. As cerejeiras silvestres à beira do riacho tinham a cor do sangue. sempre com o rosto escondido entre a gola da capa e o barrete. Mas não passava de um cenário. Aquilo tinha apenas as aparências de um sonho triste. A casa de Ville-d'Avray ali estava. salmodiando. sua mãe. cheio de mistérios e ameaças. sabia já que faria o possível para manter-se incógnito. No entanto. Diante da ilha de Orléans. que ia exibir todas as suas graças de Benfeitora para conquistar a capital. a maior parte do tempo dormiu com o chapéu enterrado até o nariz. ocupada em esfregar as peças de prata como se. soube que era a Sra. permitia-lhe manter uma aba da capa sobre o rosto. A casa parecia vazia. escondido num canto. Seus sentidos alertados dar-lhe-iam uma visão diferente da cidade. ouvido os comentários. o olmo e o pequeno acampamento dos huronianos nos wig&ams de casca de árvores. Ia por lá. Parecia inimaginável que. que protegeriam melhor tanto do sol e da chuva como dos olhares indiscretos. atravessando a praça. Um calafrio percorreu-lhe a espinha até a raiz dos cabelos. pois sabia. Tudo estava apagado. tivesse andado com sua corte de crianças. Um latido abafado sugeriu-lhe que só estavam ali a' criada cativa inglesa e a cadela cananéia. inverno após inverno. A garoa ocultava as copas das árvores e o cimo do campanário e do domo. Prestando atenção às palavras dos transeuntes. o cortejo que passava. a cidade. naquele caminho lamacento. à moda antiga. tão bela com seus sinos e campanários.. apareceu tocada por um morno encanto como uma cidade submersa. no . Distinguiu a criada de Ville-d'Avray —a que não quisera ficar quando soube que não teria seu amo só para ela —. sempre tão ridiculamente afoitos em recolher o menor de seus sorrisos e de suas palavras. vazio e nostálgico. as pessoas caminhavam lentamente. com os dois atlas de bronze na relva. não estava deserta nem adormecida. mas as persianas estavam fechadas. Tomou a direita. e nas embarcações que tomou emprestadas para subir o Saint-Laurent. A agitação dentro e em torno dela pareceu-lhe fantasmagórica. que seu glutão viera rondar por ali. sabido como Quebec acolhia o governador interino e sua esposa. d'Hourredanne. tão bela. tinham-no avisado. enquanto subia a encosta da Montanha. onde viu luzir o reflexo de um pequeno fogo ha lareira. um chapéu camponês que comprara na viagem por causa de suas abas largas. passou pelo pátio e pendurou-se a uma das janelas da grande sala. de selvagens e de grão-senhores. Os crimes começavam.

a meia-voz.. pelo que dizem. subitamente. Sua vida habituara-a a reconhecer as feiticeiras. de mau. a freira desfaleceu de horror. Ela o reconheceu imediatamente.. É isso mesmo o que está acontecendo. Eu nunca me engano. as verdadeiras. existe... na catedral.. com os braços sobre a mesa a fim de falar mais de perto. naquela casa abandonada. cocheiros. se felicitassem por sua piedade. apesar de não ser bem com um mosquete que se acabava com aquelas histórias.dia seguinte. a proprietária do Ao Navio de França.. — Oh! Você aqui a esta hora. fora a instigadora. e já sabia sua opinião sobre a mulher do novo governador. que vi muitas vezes em Versalhes... mais grave ainda. sua urbanidade para com todos.. o jovem explorador de bosques e a mulher do Canadá se interromperam e se entreolharam. a ela. O senhor governador foi visitá-la e. que reconhecera e seguira desde Versalhes. fossem receber convidados importantes para um lanche ou ceia. Essa mulher. de Gorrestat. que ela ouviu sentada diante dele e. Inclinou-se ainda mais para a frente. Joana Serein. — Foi ela que ele viu na pedra preta — disse Cantor. Que alívio poder falar com franqueza e quase sem empregar muitas palavras! Uma mímica. mas continuou carrancuda. e dos quais aquela mesma mulher. em casa do rei. de que não lembrava nome ou sobrenome. soaram duas ou três badaladas. um fungar. Por captar a hipocrisia das pessoas importantes e não se deixar iludir por seus trejeitos. Nesse momento. Janine Gonfarel. desaparecera. Eis por que a Hen riqueta da Sra.. Os aborrecimentos choviam sobre as pessoas honestas como granizo. a hora noturna do maior repouso e. A cidade está louca e como que perdida. Lembra-se daqueles senhores que fizeram sortilégios numa pedra preta. de múltiplos episódios.. com os sentidos alertados por mudanças sutis na textura do silêncio noturno. mas nem por isso pensam menos. Embora todas aquelas damas se congratulassem com sua vinda. Cantor confiava nas pessoas simples. queridinho. desfiando suas horas nos diferentes sinos e campanários do exterior. um dar de ombros. que o exorcista teve de ir procurar com todo o aparato. Nós o encontramos entre nós como em toda parte. seu nariz — que ela indicava — avisava que.. nascida no Canadá. . Seu mosquete estava carregado. meu rapaz? Veio com toda a família? — Que nada! Mas trago-lhe notícias de seu amo.. criadas se calam. Ainda não terminara a terrina de sopa que ela servira ao jovem viajante esfomeado. E começou a fazer-lhe a longa narrativa dos dramas e malefícios que tinham se desenrolado certo verão nas costas da Acá-dia. bastavam para dizer tudo e com precisão. sua generosidade infinita. por trás daquela mulher. Longa narrativa. havia algo de feio. a Sra. e que Joana Serein pontuava com breves observações. inclinada para a frente. como ele. mas que o Diabo existe. que têm às vezes uma carinha bonita. ao vê-lo. Descobriu que houvera vários atentados inexplicáveis. Criados. de Baumont morreu. — Seria preciso saber o que atormenta Madre Madalena. Delfina tinha fugido e. foi naquele instante mais próxima para ele do que todas aquelas que pudera encontrar desde sua partida. Bateu.. que os conduziu do fim do dia até a noite. — Não me surpreende. — Pense o que quiser.

que a repudiara outrora.. Tê-lo-ia reconhecido a ele. Sem fazer barulho. por boa recompensa. é muito mais maligno que um homem! Quanto a sair da casa sem ser visto nem preso. Cantor sentiu-se empalidecer. Bastaria lembrar a adega do Sr. não havia problemas.Cantor lançou um olhar vivaz para as janelas. acompanhado de chamados e de injunções: "Abram!.. o qual tinha um processo com as ursulinas. eventuais clandestinos da religião reformada. antes de mais nada. de modo que não se podia penetrar na casa sem forçar a passagem. encarregado de observar. faz mais de uma semana. desceram às adegas. ele. Procuravam um jovem louro que ao chegar não se apresentara no cartório para declarar sua fé católica. teria sido uma pena não se utilizar daquela rede de toupeiras tão cómoda. protestantes tentando desembarcar na Nova França. no momento da chegada dos navios. cercado de soldados do prebostado e delegados do novo governador. — Um carcaju. nos lugares onde supõem estar sua toca. Ambos pensaram ao mesmo tempo. na antecâmara do rei. A criada alojava-se a meio caminho da escada de pedra. A fiel guardiã da casa de Ville-d'Avray recusara-se a retirar a trava da porta e abrir. Villed'Avray. nos arredores da cidade. quando a tempestade impedia pôr o nariz fora de casa ou quando se temia o olho do vizinho. afirmando porém que poderia voltar. E já que.. com alívio. ali se encontravam ovelhas sonolentas e palha. ou ele deu ordens terminantes para procurar seu carcaju e matálo. queria encontrar Madre Madalena. empurrando-a e galgando a parte de baixo da porta. Cantor de Peyrac. que era bem alta. cujas . na qual ele se escondeu.. O preposto dos Assuntos Religiosos retirara-se com seus homens. vê-lo sentado àquela mesa. reconhecia aquela ferocidade minuciosa para com todos aqueles que a haviam ofendido. Surpreendeu-se de que a numerosa tropa que sentia em volta da casa não tivesse ainda irrompido porta adentro e feito um revista completa. — Ela deu ordens. que ao cair da tarde ela colocara os batentes internos. O que lhes deu a uma hora dessas? Contentara-se em abrir a parte de cima da porta lateral e postar-se ali. estão dando uma batida. do lado de fora. ela o intimou a levantar-se. pois bem! O caminho estava livre! Desde o tempo em que costumavam cavar o chão em Quebec e quando isso trazia um monte de problemas e processos monstro. Era certamente "ela"! Se subsistira alguma dúvida sobre a identidade da Diaba. de seu esconderijo. — Isso nem se discute! Claro! — encorajou-o. Como outrora. "Eles" se aproximam! "Eles" rondam a casa! Com um sinal do queixo. — Isso não são modos. onde uma grande vela se consumia numa pirâmide inchada. ele ouviu um diálogo veemente que por vezes tomava ares de discussão. todos nós sabemos. Ela baixou de novo a voz. enquanto ao rés-dochão o ruído surdo de punhos batendo sacudia a porta. que dava na de Banistere. Homens e selvagens. o filho daquela que não conseguira vencer? — Meu glutão será mais forte que eles todos — afirmou com fervor. verificando. como a uma janela. Era. aquele manhoso do preposto dos Assuntos Religiosos. Ninguém podia. mesmo se fosse um pobre animal dos bosques!. pensando em Wolverines. Admirou a presteza com que ela Vestiu a vasquinha e a touca de-dormir." Fingindo-se de mulher arrancada do sono. sobre os quais tinha de vingar-se. ela subira e.

cavações. a Sra. recebe uma visita inesperada "Eles" não acreditavam nela. devida talvez ao ciúme. Mas a menina que levara o recado voltou anunciando que a boa senhora fora acometida por uma congestão. Le Bachoys. sem ter o direito de falar durante o dia com suas companheiras. A Sra. Cantor de Peyrac conseguiu se introduzir até o ateliê de douração da religiosa visionária.. Dizia-se que a Sra. "Senhor. que Ele lhe inspire o arrependimento. da modéstia. Só se falava da piedade. E ela.. ficou ali. Isso desde a visita da mulher do novo governador ao Convento das Ursulinas. Le Bachoys tivera uma frase chocante. que quis intervir na política que não lhe diz respeito. e que aquilo um dia havia de lhe acontecer. cuja chama precisava permanecer estável e baixa.. feitas sob um terreno pertencente a ele. Foi assim que. Le Bachoys era considerada uma "pecadora". Se pelo menos a pobre religiosa pudesse falar com ela em segredo! Madre Madalena conseguiu fazer enviar-lhe um recado... de Fromenac. tendo de levantar-se à noite para cuidar da "cola de aparas de luvas" ou do urucu e da goma-guta para fazer o vermelhão. punida. Esse caso já foi resolvido há muito tempo e suas visões nos causaram aborrecimentos suficientes. — Que Deus a ajude. Enquanto lidava com seus instrumentos durante o dia. tinham por engano levado a seus entrepostos. mas isso era sinal de ousadia. como penitência. da caridade da Sra. Ela estava morta.... Madre Madalena rezava por sua cura. a respeito de uma encomenda de tabernáculo que os burgueses da cidade baixa desejavam oferecer a uma paróquia da costa de Beaupré. de Frontenac. mas você não teve habilidade.. Le Bachoys sacrificara-se muito pelo amor.. — Minha madre. como a primeira dama da Nova França tinha maneiras suaves. Não recomece com sua mania. repreendida. Reconheça que você quis se tornar interessante. ela replicara: "A serpente também tem maneiras suaves". de Gorrestat.. sem que hoje tenhamos de transformar o novo governador em inimigo. e eis por que ela saberia resistir. depois de ter passado pelas adegas e ter emergido em meio às reservas de vinhos e de queijos do Convento das Ursulinas. aquela que eu vi elevando-se das águas. onde devia. trabalhar sem descanso. ou à fidelidade que muitos mantinham ao Sr. Importunada. vai me abandonar?" A cidade se transformava. que chegavam do outro lado dos muros do claustro. Cogitou-se em privá-la da santa comunhão cotidiana. que a superiora teve pena dela. Sozinha nesse concerto de elogios. Seu coração se congelava. em que se viu uma declaração de guerra. sozinha e sem defesa com seu pesado e aterrador segredo. diante da Sra. e mostrava uma máscara oposta. tremendo sobre um fogareiro. . Madre Madalena ficou esperançosa. a Diaba! — Basta!. Certamente. Madre Madalena. Tendo alguém observado. Ouviu o dobre dos sinos. em desgraça. "Eles" não acreditavam mais nela. Portanto. de coragem. eu apenas disse a Santa Verdade.. como que virada do avesso. fora relegada ao ateliê de douração. a freirinha visionária. e que temiam por seus dias. Ela prestava atenção às tagarelices. lamentamos pelo Sr. mas ela chorara tanto. à noite. CAPÍTULO III Madre Madalena.

tal como observara desde a primeira vez que vira a Sra. "Deus. fazendo recuar os espíritos malignos. — Não. que ele parecia comandar. era agora que ia se desenrolar o drama da Acádia. quando soube que a Sra. a mulher nua. precipitadamente: — Impeça-a de fazer malefícios. que teve de retirar os óculos. E. se lançava sobre a Diaba e a fazia em pedaços.O desespero e o terror invadiram o coração da freirinha. CAPITULO IV A mensagem redentora do Arcanjo Deus tivera piedade dela. enquanto um monstro de dentes aguçados. Mas acorri à senhora. e tremia dos pés à cabeça. Por que duvidara? Não sabia que o Bem triunfaria? Ele se aproximou. Ora. de Peyrac se encontrava em Quebec. pois estavam turvos pelas lágrimas. como um rio que regenera uma terra árida. do que pelo que ia abater-se sobre o país. A senhora conhece minha mãef Agora ela compreendia. E ninguém mais esperava por ele. a outra mulher que se opunha à aparição diabólica. Se a Sra. o mesmo que lhe aparecera. via definir-se a eterna imagem. Uma onda de alegria inundou-a. embora soubesse que um dia a "outra" voltaria para acabar confèla. assaltada pelo demónio súcubo saído das águas. Bom Deus! O senhor sabe servir-se dos homens para Sua justiça e para socorrer os inocentes! Sua emoção era tanta. E aqueles que sabem calam-se ou tremem.. Ninguém crê em mim. Era-lhe indiferente morrer. percebeu o Arcanjo. Silêncio! Estou'só. Depois a angústia apunhalou-a novamente. de Peyrac. aos confessores. de Gorrestat se dirigia ao Canadá. eu me chamo Cantor de Peyrac. Você sabe quem ela é? — Sei. Juntou as mãos e disse. senhor. Ela está em seus domínios e meus pais ignoram que voltei à América. a obsessão daqueles anos todos de debates e de confrontações que sofrera. minha irmã. O Arcanjo da visão ali estava. Não dizer mais nada. o arcanjo vencedor se parecia com ela. houve um leve ruído. com um dedo sobre os lábios. Caiu de joelhos no ateliê deserto. não fará nada para nos salvar?" Atrás dela. Eles decidiram que o caso da visão estava terminado.. — Ninguém. de uma beleza surpreendente. Temia menos por sua vida. armado com uma espada. É preciso silenciar. É horrível. Vim para lhe recomendar isso e para que saiba . nem de concluir algo. — Então. — Minha irmã. Naquele halo luminoso e amendoado como a auréola de Cristo. de Peyrac. quando a interrogavam e a confrontavam com a Sra.para enxugá-los. Voltando-se. "Deus! Piedade!" . não tema nada. Ele sacudiu a cabeça. com seus olhos atravessados por sentimentos imundos. e ao qual consagrara sua vocação. Os lábios de Madre Madalena tremiam. nem bem arrancado ao paganismo. Nada aconteceu ainda! Não sejam tão impacientes nem de ser tranquilizados. estava em perigo. Como não compreendera há tempos que nada havia acontecido ainda? Era isso o que deveria ter dito aos juízes.

.. "Teria se ressentido com a vida dos bosques?. Continuava a tremer.. sentiu ao mesmo tempo a fraqueza e a embriaguez que vêm a nós na convalescença. Onde ela está? — No momento.. Seu grande corpo peludo.. a pequena carcaju. Por instantes." Ajoelhado perto do animal inerte. se preciso for. Seja mais forte que suas astúcias. que tinha o poder de assustar os índios. chamando umas às outras.. como você entrou? — Silêncio — repetiu ele. com as garras fechadas. Senão ela conseguirá matá-la também. — O que não a impede de deixar atrás de si um rastro de morte. mas doravante seria forte.. dizem que está em Montreal.. o corpo abatidój com à longa curva de pêlos dourados que lhe ensolarava o pelame. Desculpe-se..que estou a caminho. pareceu-lhe menor. Pouco habituado à natureza selvagem. docemente. Ele respondia como se pertencesse ao grupo. permitiam vislumbrar as temíveis presas dos dois lados da mandíbula. pois fora apanhada na armadilha... Atravessou o cercado. CAPITULO V Cantor em busca de seu glutão. Não incite mais sua vingança.. Não o procuravam por ali. — Encontraram o carcaju? — Ainda não! Bicho desgraçado!. não soube defender-se?. Vou ao encontro dela. que não tiveram sequer tempo de se descobrir para exibir sua ameaça de defesa. Humilhe-se. Desobedeça à Santa Regra. evite encontrar-se em presença de quem quer que lhe peça para vê-la... tinha um aspecto tão meigo. com a longa cauda soberba. de focinho curto. em torno de seus olhos." Mas quando se aproximou bem e viu o animal meio virado..... Minha irmã. Humilhe-se.. Desconfiava que os caçadores que perseguiam seu glutão estavam por ali. Desceu até o rio Saint-Charles. com o coração batendo e as mãos sobre as armas. que os assistentes cobiçavam. pois não o podiam distinguir com o nevoeiro. que se diluíram numa chuva fugitiva. galgou o muro. contrastava com a cabeça pequena. Apesar da máscara negra de bandido.. erguiam-se rígidas e impotentes como braços de boneca.. através dos pântanos... mais franzino do que aquele de que se lembrava.. examinou-o. De longe. Não é Wolverines. O sol começava a aparecer e dissipar as brumas. e a neblina da alvorada era espessa. compreendeu. — E preciso agir com naturalidade. Os lábios. contraídos numa triste careta.. Alguém gritou ao longe: — Encontraram-no! Cantor apressou-se. após uma longa e perniciosa enfermidade. ouviam-se passos pesados e silhuetas indistintas passavam por perto. quando se sabe. Wolverines. . Acariciou o pêlo sedoso entre as orelhas pequenas e redondas. "É uma fêmea. — É proibido dar a vitória ao Destruidor — sussurrou ele —. — Mas.. — Não temo a morte. Ao perceber que ele desaparecera.. Seus olhos luziam com um brilho tão meigo e ofuscante que ela se perdia em seu esplandor. As curtas patas dianteiras. com as pálpebras cerradas... Wolverines Cantor abriu a porta do jardim das ursulinas..

.. não cheguei a tempo. siga-me. Mesmo reconhecendo-o. em direção à margem do grande rio. separadas do corpo por suas garras e presas vingadoras. tanto sofrimento mas também tanta felicidade. vamos vingar sua fêmea. Ou então bem perto. — Despojos? Já os têm — disse ele. "Eles mataram a fêmea dele. com o pedido de suspender a caçada e limitar-se àquela caça que ali estava. Nem o crime. e ele falava incessantemente.. Parecia-lhe que o glutão não estava longe. daí em diante. inglesas ou índias e de onomatopéias que outrora empregava. — É que. — Wolverines." Ele estava lá longe. olhando à sua volta os homens silenciosos e. Vira tudo... Cantor levantou-se. Wolverines. observando-o. Era a fêmea dele". e um olhar humano à espreita. Pelo resto da manhã avançou pelo sobosque e pelas brenhas quase impenetráveis de uma floresta que as lavras relegaram ao cume das encostas.. Venha comigo a Montreal. vislumbrou uma massa escura^ agachada sob arbustos. — Perdoe-me — disse ele mais uma vez. a senhora governadora também nos pagou muito bem para que acabássemos com o carcaju que ronda Quebec há dois invernos e que vem causando muitos estragos — observou-lhe um dos homens. Mas eu estou aqui. quando se encontrava na orla do valezinho devastado.. Sem ruído e à sua maneira peremptória. Wolverines!. mais longe.. Afastava-se sem ruído. e havia de persegui-los até derrotá-los. deixando o grupo discutir com veemência sobre quem se apropriaria dos despojos do glutão fêmea. Wolverines. E continuou a falar-lhe até que sentiu que os laços estavam reatados. os bosques de cimos franjados de chuva perolada. depois de tê-los vigiado e perseguido a ambos. Já desaparecera. Não o reconheciam. galopando e saltando sobre os obstáculos do sobosque. Mas vamos vingá-la.. nem aqueles que o cometeram. agora. precedendo-o. até liquidá-los. CAPÍTULO VI Na pista de Honorina — O barqueiro Pedro Lemoine . Começou então a correr. — Ela nos fez prometer que lhe mostraríamos os despojos quando voltasse de Montreal. — Isso deverá satisfazê-la. até conseguir pendurar no alto de um olmo suas cabeças dilaceradas. naquela mesma linguagem de palavras francesas.. mas que encontrava meio de se espraiar e progredir bastante na cidade... Finalmente. seguindo-o.E adivinhou: "Sua fêmea!. venha! Venha comigo. gritando a plenos pulmões: — Siga-me. durante longos dias e noites cruéis? Nunca se esqueceria. estraçalhá-los. um daqueles humanos que haviam matado sua companheira.. entregando a cada um uma gratificação.. Cantor voltou os olhos para os homens que o observavam. Jamais se esqueceria. deixaria que Cantor se aproximasse dele. A captura e o encarne. Havia tanta tristeza mas também tanta alegria incrédula naquelas pupilas que luziam sob as groselheiras silvestres. até ali. foi de um a outro dos batedores. Mais um crime na série de crimes que vai se espalhar na esteira da Diaba. onde os terrenos não tinham ainda sido entregues aos arroteadores. até que pudesse esganá-los... onde os caçadores iam recomeçar a perseguição a Wolverines. o caminho de água.

pois era esse seu objetivo ao empreender aquela viagem aparentemente oficial. Sua hesitação em buscar notícias de Honorina era causada pelo medo. em Quebec. apanhar na armadilha. de ar altivo sob um lenço preto bordado de branco. Mas. a Sra. decidiu-se pelo Convento de Nossa Senhora. Em resumo. tinha movido céus e terra para encontrá-la. pois "era muito desobediente". pois até então a colónia só tivera em sua direção governadores privados da doce e generosa influência de uma companheira. a exigir. não se surpreendeu ao ouvila dizer que Honorina de Peyrac não estava mais ali. que devia proteger. de Gor-restat misturado às explicações muito confusas que lhe dava sua interlocutora. pensou. o bispo. cujas funções estava naquele momento assumindo. Não se enganava. hoje mulher do novo governador. sem decidir sobre a qual das duas faria sua primeira visita. Madre Delamare disse que Madre Bourgeoys. Sem tergiversar mais. isso sim!". Por isso. a fim de explicar-se com o arcebispado de Paris. E tinha de se lembrar que a tal Sra. Medo de saber que chegara tarde demais. Cantor examinou sem condescendência aquela que lhe falava. seu coração baqueou. se ainda houvesse tempo. contudo. era tocante ver com que dedicação aquela grande dama. de Gorrestat. Um pressentimento não parava de atormentá-lo. Andando para a frente e para trás com hesitação. e que se cogitava inclusive que deveria fazer uma viagem à França. Pediu para ver Madre Margarida Bourgeoys. e prendê-lo em Quebec. não devia ter esperado para atacar a filha de Angélica. e que aquela mulher caridosa e alerta parecia ser verdadeiramente uma amiga de sua mãe. Lembrava-se subitamente de tê-la encontrado. Cantor rodou através. Se continuasse a se expor daquela maneira. em Tadoussac e em Quebec. Conhecia muito bem o ser infernal que jurara destruir dessa vez para sempre. compreendeu sua imprudência. quando uma religiosa. num tom leve e casmurro. sua diretora. Obrigou-se. que se apresentara como uma grande amiga da Sra. Seu espírito permanecia ocupado por dois pólos: Ambrosina. que devia surpreender. maiores detalhes. que tinham doravante a felicidade de acolher junto àquele que ocupava o mais alto posto da colónia — o que era — explicou num longo parêntese — outro sinal da bênção divina. por instinto. o recebeu num parlatório cheirando a cera e maçãs recém-colhidas. de Montreal. far-se-ia notar. e . A Sra. pôr a salvo. e por fim compreendeu que a menina desaparecera. interessava-se pela menina. Se "ela" chegara à ilha de Montreal havia três «emanas. de Maudribourg. Cantor jamais estivera em Montreal. e se sentia estranho.Antes de aparecer diante daquela que vinha perseguindo de tão longe. das ruas de Ville-Marie. sem dar a isso muita atenção. fora convocada com urgência por monsenhor. A cidade ao pé do monte Royal estava ainda marcada pela grande feira de peles do outono. "Céus e terra! O inferno. e agora se podia augurar que as obras de caridade seriam beneficiadas. Isso também sabia Cantor. Já estavam se voltando à sua passagem. era pois comovente e encorajador ter podido constatar com que fervor ela pusera todo o país em ação para encontrar a pequena interna fugitiva e a ajuda que trouxera espontaneamente às pobres religiosas de Nossa Senhora em sua preocupação. de Peyrac. tendo escapado por diversas vezes. de Gorrestat tentara mandar matá-lo. apertando os lábios. Mas. Ali as notícias corriam depressa. com esse domínio mais aberto à compreensão e à atividade feminina —. e ela lhe desagradou. e Honorina. cuja tradição se perpetuava com a vinda das tribos vizinhas. Ao saber de seu desaparecimento. antes de sua partida de Versalhes. captando o nome da Sra.

Por trás da imagem mais inocente. me pareceu assustadora.. a mulher do novo governador. Ela deu um grito de horror. de uma fonte eclesiástica. entre as santas mulheres.. conforme pedido do mensageiro enviado por sua mãe. Ambrosina? Mais urna que se deixara enganar e que subitamente se achava guardiã do Mal. pelo que compreendi. Depois voltou atrás. Depois a menina desaparecera. assim que sua superiora virara as costas. para impregná-las de pecado. com medo de incorrer em censuras por tentar proteger as crianças. Mas. confrangido pela angústia. uma sombra sinistra rondava. terror em relação a Ambrosina. O coração de Cantor doía-lhe. a outra. o que era motivo de muitas controvérsias nos meios eclesiásticos.. irmã — desferiu-lhe ele —. Pobres mulheres! Podia-se reconhecer ali o vento de desordem que se levantava à passagem da Diaba. O rapaz deixou o lugar num estado de espírito agitado. enquanto isso. a seu bel-prazer. pois esta mandara continuar as buscas. armada com seu suave e inflexível poder sobre os seres de boa vontade. Como nossa irmã Delamare se-deixou enredar a esse ponto?. usando das prerrogativas de sua posição. provocando muito barulho com as pesadas saias. voltou-se para a casa baixa e branca. O pesadelo recomeçava. como sobre as almas negras igualmente. mandara trazê-la de volta. sob macieiras de ouro polido e cerejeiras nuançadas de encarnado. ouviu alguém correr atrás dele e percebeu uma jovem religiosa que se esforçava por alcançá-lo. pois sei de fonte segura. Um dia encontrariam um pequeno cadáver mutilado. em virtude dos estatutos de sua ordem de religiosas docentes mas não clausuradas. Enquanto subia uma alameda de carvalhos que levava à estrada carroçável e que o ocultava da casa. Cantor estava furioso. uma terceira se escondia. detivera tudo e acionara a máquina ao contrário. encontre-a! O que irá dizer Madre Bourgeoys quando voltar? Ela deixou ordem para que a menina pudesse partir com a caravana. — Senhor.. um demónio súcubo. Ela era capaz de tudo. tapou a face com as mãos e fugiu soluçando para a casa. mas alegrei-me de que a menina tenha escapado. Como Madre Bourgeoys pudera deixar em seu lugar uma pessoa como aquela que o recebera. o que acontecera a Honorina? . é o irmão de nossa pequena Honorina. no fim da alameda. A menos que fosse apenas um artifício para dissimular seu crime. o rapaz compreendeu como as coisas haviam ocorrido. arauto dos primeiros frios. Sentadas na relva. Traçada ao longe.também a Roma. as meninas comiam pão com melaço e o olhavam com curiosidade. Suspendera a partida de Honorina. olhando para os lados —.. mas aparentemente não caíra nas mãos de Ambrosina. Chegando à cerca que delimitava o pomar. que se trata de um demónio. A força de interrogá-la.. a linha da infinita floresta americana mal se distinguia sob a aproximação de um nevoeiro. — E você tem razão. contrariava suas ordens. Oh! caro senhor. pois essa pessoa. Havia como que um hálito ruim que embotava as cores e o brilho da vida feliz. em que se misturavam cólera para com as damas do lugar. Ambrosina. Essas freiras eram todas retardadas? Uma abandonava suas responsabilidades por uma viagem que podia durar pelo menos dois anos. inquietação por Horiorina. que falava extasiada daquele monstro de vícios. que tinha por fundo a extensão cinzenta do rio confundida com o céu do mesmo azul-acinzentado que as águas. Um sopro deletério envenenava o ar que se respirava. — Não ouso emitir em voz alta minha opinião — sussurrou a freirinha.

Chegou à margem do rio e começou a acompanhar seu curso, sem saber ainda o que fazer. Para abordar a inimiga, a hábil criatura de língua viperina, precisava refazer as energias. Pensava em Honorina e, por trás dás palavras pronunciadas no parlatório: "ela era muito desobediente", "ela desapareceu", "causou uma grande confusão, fugiu", revia a silhueta da garotinha de cabelos ruivos, alta "como três maçãs", com a carinha redonda, desprovida de beleza mas tão cómica, encimando-lhe o lindo pescoço, naquela atitude de desafio e dê dignidade tão característicos... Que força indomável naquela criaturinha! Era por isso que havia uma tendência, a se mostrar duro e injusto para com ela. E ele em primeiro lugar, pensou com remorsos. É verdade que ela era insuportável. Mas continuava a sentir raiva de todas as mulheres, e quando pensou na injustiça que jamais deixara de pesar sobre Honorina, sua cólera estendeu-se àqueles que a tiveram sob sua guarda e que não lhe tiveram amor, portanto, a si mesmo. Todo mundo queria livrar-se "da menina. Ele também, quando estava em Wapas-su, queria que ela fosse punida. Aquela menininha, exigente e suscetível, que monopolizava sua mãe e mesmo seu pai sem qualquer direito, o agastava. De onde vinha aquela menina?... Era melhor não pensar nisso, pois sentia vontade... de desembaraçar-se dela. E agora, era bem feito! Não sabiam nem onde ela estava. Todo mundo quisera isso. Mas era uma coisa horrível, mais pesada que chumbo para se carregar. Pois ela era tão pequena e tão engraçada... Era orgulhosa, teimosa mas indefesa. "O que é uma criança?", diz o iroquês. "Não se pode dar importância a seus atos, pois ela não tem juízo. O que lhe deve o adulto?... Defendê-la enquanto ela se fortalece e cria juízo!... Mas Honorina fora arrancada e lançada ao vento!... Lembrava-se de quando ela lhe levava raminhos de flores, quando lhe engraxava as botas para lhe agradar... Ela sempre o amara. Ele era seu preferido. Por que a repudiara? Não compreendia mais. Era apenas uma criança! Não deveria ter deixado aquele estúpido ciúme corroer seu próprio coração. E agora Honorina estava perdida, por culpa deles todos, por sua culpa... As lágrimas brotavam-lhe dos olhos... Esforçava-se por retê-las. "Seguirei sua pista!... Irei até o fim do mundo. Farei aquela megera confessar. Eu a encontrarei, Honorina... Vou trazê-la de volta." A pequena Honorina em. preces. Fora assim mesmo que ela se anunciara da última vez. Ele havia ido às ursulinas de Quebec para despedir-se dela, antes de embarcar com Florimond. Mas ela mandara dizer pela madre superiora que estava rezando na capela, que tinha tido uma visão... e simplesmente se recusara a vê-lo. Que cabeçadura!..." Enxugou os olhos. "Vou encontrá-la, cabeça-dura!. Sozinho, acompanhava a beira do rio. Estava agora longe da cidade e ultrapassara as últimas casas, dispersas em meio aos jardins e campos. Ouvia apenas o roçar das plantas altas contra as botas e o sussurro dos insetos de fim de verão, cujo número começava a reduzir-se pelas noites frias, agrupados em nuvens vorazes. Maquinalmente dirigia-se para o oeste, tomara a direção oposta à de seu acampamento, um canto sob os chorões que escolhera na extremidade oposta da ilha, num lugar pouco povoado, onde só havia, no alto da colina, um velho moinho abandonado, por que o proprietário do lote nunca trouxera um contingente de pessoas

para povoar essas terras. Os sulpicianos que as haviam cedido estavam em negociações para retomá-las, mas o caso se arrastava, e o lugar, enquanto isso, continuava a ser domínio da caça aquática. . Cantor de Peyrac desembarcara ali pela manhã. Não se aproximara da ilha de Montreal sem precaução, e após uma série de manobras destinadas a confundir sua pista, e a encontrar em cada etapa seu companheiro Wolverines, seguia-o ao longo do rio. Dotado de um instinto que o avisava a distância de suas intenções, o animal esperava-o sob um arbusto no lugar onde o jovem viajante deixava a barca ou o navio em que conseguira passagem por um dia para subir o Saint-Laurent, ou então Cantor, sentado junto à fogueira na noite do litoral, via-o surgir ao cabo de algumas horas, dando grandes saltos cómicos. A canoa servira-lhe para fazer o animal atravessar. E agora, o glutão estava na ilha. Era preciso agir depressa, antes que os cães ou os índios ou habitantes, lavradores, pescadores, caçadores ou casais de namorados o descobrissem e anunciassem sua presença. Cantor de Peyrac tinha dè arquitetar um plano. Mas precisava acalmar dentro de si aquele furacão de inquietação que o submergira. Esforçou-se por se acalmar e encontrou consolo na lembrança de todas as brincadeiras que fizera com Honorina, aquele diabrete de cabelos ruivos. Pois, no fundo, os dois entendiam-se muito bem. Muitas' vezes empoleirava-a nos ombros para fazê-la dançar e saltar "como os índios" em suas danças guerreiras, gritando “iu! iu! iu!", e uma noite enluarada levara-a, às escondidas, para escutar o coro dos jovens lobos, chegando bem perto para vê-los. Uma voz de rapaz cantando sobre a água chegou até ele. "A seis de maio do ano passado, Fui lá para cima... Para fazer por lá uma longa viagem... Ir aos países altos Em meio a todos os selvagens..." Cantor levantou a cabeça e viu que o nevoeiro que vinha de longe recobria o rio. Ele passaria e iria pendurar-se na beirada do monte Royal para o norte. Ou então se dissiparia como por encanto. O outono era uma estação clara e alegre, de cores quentes mas breves. Por trás do nevoeiro, a voz melodios a continuava: "Quando a primavera chega Os ventos de abril sopram em suas velas Para voltar a meu país Na extremidade de Saint-Sulpice Irei saudar minha amiga Que é a mais bonita..." Uma barca despontou, saindo do nevoeiro, conduzida apenas por um rapaz de dezoito a vinte anos, robusto, no qual Cantor reconheceu Pedro Lemoine, terceiro filho de um negociante de Ville-Marie. O mais velho, Carlos de Longueil, servia como tenente no Regimento de Saint-Laurent em Versalhes e fazia parte de sua companhia.

Depois de se olharem, cumprimentaram-se. Pedro Lemoine passara também uma rápida temporada na corte. Apesar da pouca idade, era um marinheiro emérito, que já conduzira navios na travessia do oceano. — Julgava que você estivesse na França. Traz notícias de nosso irmão Carlos? Tivemos notícias dele recentemente por Tiago, meu irmão do meio, que voltou na escolta do Sr. de Gorrestat, o novo governador. Ao ver Cantor franzir o sobrolho, acrescentou: — Isso não quer dizer que estejamos de acordo com ele. Ele é meio louco, o Tiago. Fez parte do conchavo contra o Sr. de Frontenac. Mas tudo isso vai se acalmar com o inverno que se aproxima... E você, teria chegado também com o governador?... — Vim para procurar minha irmãzinha, Honorina de Peyrac. Pedro Lemoine, amarrando o barco numa estaca à margem do rio, saltou para a terra. Estava se dirigindo a Lachine e decidira fazer uma parada, enquanto o nevoeiro se dissipasse. — Sua irmãzinha, você diz? — perguntou, com um ar pensativo. — Imagine que há menos de três semanas ela estava aí, bem no lugar onde você está. Estava aí, sozinha, tão pequena e carregando um grande alforje. Eu a vi. Disse-me que queria ir até o solar do Lobo, à casa dos tios. Levei-a em minha barca e deixei-a não muito longe do solar. — Meu tio De Sancé! — exclamou Cantor, iluminado, pois via ali uma pista para encontrar Honorina. Dera pouca atenção à descoberta de uma parentela no Canadá. Já bastavam todas aquelas que Florimond desencavava em Paris. Subiu por sua vez na barca do jovem canadense. Obteria mais informações lá embaixo. "Ora, vejam, aquela danadinha!", dizia consigo, todo animado, "como soube se arranjar direitinho..." Um vento fresco dissipara as brumas. Cruzaram uma barca carregada de crianças. Os jovens de Montreal passavam a vida sobre a água, manobrando velas. Mosqueadas de branco, as corredeiras se anunciaram a montante. Pedro Lemoine deixou Cantor na extremidade inferior da costa. Disse-lhe que se preparava para partir para o alto Saint-Laurent e que, se quisesse encontrá-lo, estaria em Lachine, onde ia recolher bagagens e mercadorias. CAPITULO VII Mariângela do lobo Um elfo de cabelos loiros descia a campina, ainda verde, correndo e dançando, vindo em sua direção. Tinha um olhar que lhe pareceu familiar. Achou-a imediatamente muito graciosa e, quando ela parou a alguns passos para examiná-lo com ar pensativo, lembrou-se de que uma das filhas daquele tio, reencontrado após um silêncio de quase trinta anos, teria, diziam, os traços semelhantes aos de sua mãe, Angélica de Peyrac, nascida Sancé de Monteloup. O que, na ocasião, lhe parecera impossível. Em seu foro íntimo, devia retratar-se. Não seria mais o único a evocar um rosto que fazia o rei suspirar quando ele aparecia, o que ao mesmo tempo lisonjeava e causava alguma inquietação ao jovem pajem, portador, a contragosto, de sombrias lembranças para Sua Majestade. Esta era uma evidência que acarrateria outra. Os dois jovens pareciam-se de tal forma um com o outro que acabaram por rir.

— Prima. Depois da partida dos pais. de Frontenac. Mas sei o que lhe aconteceu. mas ela o levou para o lado das dependências de serviço. O que não impedira que o tal governador chegasse a Montreal quase imediatamente após a partida do Sr. lívido. uma almofada. . — Você a viu? — Não. — Senhor! — exclamou Cantor. Soube que ela tentqu encontrá-los. longe dos olhos curiosos que vêem de longe. novamente transtornado. no Caminho do Rei. do Lobo. rendas e plumas. Esperou que ela o fizesse entrar no solar. E o problema é que ela não compreendera que daquela vez não fora por eles que tinham voltado. eu lhe imploro. suponho que seja Cantor. Mas era a garotinha que estavam esperando. introduzindo-o numa vasta construção. eu lhe estou dizendo! Mas tenha paciência. Ela colocou vivamente a mão no braço do primo. Dessa vez subiram até o solar. Eles voltaram no dia seguinte. — Mas o que significa essa-maluquice de viagem e de correr por causa do governador? — gritou Cantor. Tinham sido chamados a Quebec e tiveram que partir para a capital. contava Mariângela. abracemo-nos! Como se chama? — Mariângela. posso dar-lhe notícias dela. — Primeiro ela foi escondida entre os iroqueses da missão de Khanawake. e Sra. um pente e uma escova colocados sobre uma arca. minha amiga. e foi ali que se sentaram. não? Olhava à sua volta e começava a se surpreender por não ver ninguém mais. Ela o avisou que seus pais estavam ausentes. não demorou muito para acontecer. esses franceses. Notou alguns objetos de toucador. Sua carruagem estava parada embaixo. — Venha contar-me tudo isso num lugar tranquilo. como periquitos com seus saltos vermelhos. deixe-me prosseguir minha história. meio granja. como se a jovem com jeito de fada fosse a única habitante de um domínio adormecido sob efeito de um súbito encantamento. Ela o mirava com os olhos claros e tranquilos. Só o soube mais tarde. — As pessoas estão enlouquecendo? — Gom efeito. meio entreposto. uma manta e um braseiro como os usados nos navios. passando afetuosamente o braço pelos ombros da adolescente. tão impaciente estava. e depois os índios a levaram para mais longe. um pouco trocistas. — Por que você se desola tanto por não ver meus pais? — Eles poderiam dar-me notícias de minha irmãzinha Honorina. O pobre Cantor sentiu o peito dilatar-se sob o efeito de um alívio incomensurável. — Por quê? — Porque o governador e sobretudo sua esposa estão pondo o país inteiro de pernas para o ar. e foi lá que a pegaram. — Se é por sua irmã que está preocupado. Um índio trouxe-me notícias dela. Finalmente alguém que não se deixava iludir. Num canto. dos lados da Madeleine. no grande prado. Por pouco não a sacudiu. — Vi-os de longe. — Ela escapou-lhes. uma boa parte da colheita de feno fora-empilhada. a fim de acolher o governador que substituía o Sr. — Por quê? — Para que escape àquela mulher que quer matá-la. Ganchos dependurados do teto prendiam lotes de peles. você me agrada — disse ele. — Fale. E você. em frente a Lachine. — Oh. Não sabia o que vinham fazer ali nem o que esperavam. "Eles" tinham voltado.

os maiores com os senhores de Saint-Sulpice. sem se preocupar com a idade ou com a dignidade de sua posição. num país em que faltavam mulheres. dava-lhe vontade de correr.. entres eles. Que faria se voltasse à cidade e o reconhecessem? Fique até amanhã pelo menos. Vou buscar-lhe algo para comer. essas feras da corte não poderão mais persegui-la no fundo de nossas florestas!. Eu disse a meus irmãos: "Vamos sumir daqui! Vamos sair por trás e nos esconder no bosque". Cantor deixou-se cair para trás no feno. Honorina fugira com a ajuda de uma de suas irmãs batizadas da tribo dos agniers. Alguns dias mais tarde. todas coisas urgentes. Não devia esquecer que essas moças canadenses eram muito audaciosas. e suas forças também. Será um dia novo.. sentiu que ela o examinava com os olhos brilhantes de satisfação. e ele me contou tudo. alojei-me neste armazém. E. julgando agir cor-retamente. incitada por um trabalho a realizar ou uma diretiva a ser dada. creia-me. — Não o tentaram.. onde fazem seus estudos. e eles a esconderam. De Gorrestat não conseguia disfarçar seu desprazer diante da inanidade das investigações.A esposa do governador andava à frente. Estendeu os membros doloridos. e junto dela sentia-se à vontade. Então. geralmente. Mas. quando viram que aquela mulher vinha procurá-la com tanta constância e quê seus padres jesuítas. erguendo-se se atirando o chapéu para o alto. e o mais jovem. Era verdade que se parecia com Angélica. O surpreendente era que Mariângela tinha também alguma coisa da alma de Angélica. subir alegremente uma escada ou uma senda nos bosques. ela se estendeu perto dele no feno-e lhe disse que seu pai lhe propunha partir para França para conhecer a vida de uma jovem nobre francesa. — Minha irmã está salva! Priminha. Chameio. Enquanto ela se eclipsava. minha amiga. e supunha de bom grado que esta devia ter a mesma vivacidade airosa. Antes. Enquanto isso. Perturbou-se um pouco. Ela voltou com grandes fatias de pão. Não tinha mais forças para pensar em nada. a moça reteve-o. desejavam reaproximar-se de sua nação iroquesa. você tirou de meu coração um peso enorme! Essa caça podre. — Está salva!. Enquanto ele comia. depois de sua passagem. em casa de minha irmã. ela houvesse partilhado suas brincadeiras no Plessis ou em Versalhes. fê-se girar numa ciranda entusiasta. mas mais tarde. — gritou Cantor. Agora que estava tranquilo sobre a sorte de Honorina.. tenho de acabar com o demónio. não será coisa fácil livrar a terra da sua presença ímpia. permanecendo apenas pasmo com esse encontro com sua prima Mariângela. Agarrando as mãos de Mariângela. — Certo! Eu encontrarei. Apoiado ao cotovelo. em sua juventude em Monteloup. — Anoitece. — Que caminho tomaram os homens de Khanawake para ir ao país das Cinco Nações? — Ignoro. Mas. Como ele esboçasse um movimento para se despedir. em Khanawake. sentia-se esgotado. frios. pois essa parte do rio não é navegável à noite. Mandei meus irmãos instalarem-se na cidade. como se ele a tivesse conhecido sempre. ficaram muito assustados. — Ela continuou: — Encontraram a casa vazia.. procurando alguém para entregar sua mensagem. Dizia-se à boca pequena que a Sra.. Você teria de ir pela estrada. em sua primeira infância. casada com o oficial com guarnição no burgo de Saint-Armand. O índio batizado me disse que o intinerário devia ficar em segredo para que a menina corresse o menor risco possível. vi o índio que rondava pelas imediações. lhe davam ajuda. con-fiaram-na a uma caravana de cidadãos das Cinco Nações que. apesar de batizados. atravessar prados ou casas. Tinha-a ainda quando. um pichei de sidra. eu não quis voltar para dentro da casa. . Privilegiadas por seu sexo.

Uma mulher tão bela de se olhar. pois o frio do crepúsculo começava a se fazer sentir. E saboreara cada minuto de aproximação. que as esperava. longe de procurar distraílo. Ambrosina de Maudribourg. CAPITULO VIII A ressurreição de Ambrosina — Cantor face a face com a diaba A Sra. não se embaraçavam com os ares reservados. Experimentara o mesmo em Gouldsboro. Ali estava ela. do berço ao casamento. Começou a experimentar o insólito dos lugares onde se encontrava. endireitar os cachos junto às têmporas e bochechas. Devia ter-se lembrado de que as terras longínquas exalam forças estranhas. cresciam estreitamente motivadas por esse destino de mulheres de pioneiros. Pouco adiantava maquilar-se com habilidade. bundo. pois havia também o tédio. havia certas protuberâncias. Em primeiro lugar. os nascimentos anuais. não sendo casada e não reconhecendo em si qualquer vocação religiosa. estendidos um ao lado do outro. devido a inquietação. Os caminhos alambicados do Amor descritos pela Carte du Tendre e as sutilezas das preciosas parisienses eram-lhes desconhecidos. nos longínquos censos. no centro daquela casa de grandes pedras achatadas. desde que soubera que Angélica fora ali recebida antes dela. conquistando. — Em que está pensaiído? — perguntou. A desaparição da filha de Angélica parecera-lhe um mau presságio. que lançou sobre os dois. depois de enterrar o narizinho confiante em seu ombro. os trabalhos dos campos e do estábulo. a cor . vivendo. prontas a assumir a solidão do inverno. Estava diante da penteadeira. Mesmo tendo de reconhcer que era muito bem mobiliada. olhou ao seu redor com mau humor. mas que. quase dezessete. com os olhos fechados. — Primo. certas cicatrizes que não conseguia apagar inteiramente. sentia-se pouco à vontade. Os curas de suas paróquias e as religiosas que as ensinavam tinham muita razão em fazê-las passar sem demora da férula da escola àquela do casamento. posta à sua disposição pelos anfitriões de Montreal. juntando as palmas das mãos sobre o peito e tomando a atitude de um mor. Ali. nascidas e criadas como ela na Nova França. por instantes.inocentes e naturais. Ficou-lhe grato por não lhe fazer outras perguntas e por. de fundadores de famílias. havia Angélica. Mas ali era pior. como todas as crianças que nascem fora das restrições ou das desigualdades de uma velha sociedade hierarquizada. aos dezesseis anos. ter-se posto a dormir.. eram afáveis mulheres de colonos. Mariângela do Lobo. fazendo sofrer. aliás. que vinha solapar sua febre de ação. Nada mais delicioso do que ver obscurecer-se. Devia ser ao mesmo tempo mais infantil e mais amadurecida que suas companheiras. que. que lhes pareciam sem sentido. de Gorrestat.. lhe devolvia o reflexo de um rosto ao qual não estava ainda totalmente habituada. já não é tempo de nos tratarmos como parentes íntimos? Levantou-se novamente para ir buscar uma grande coberta. Era tudo tão entediante ali! Ao passo em que Gouldsboro. os anos de formação mundana não eram levados em conta. Desde os catorze anos. achava-se numa situação que não tardaria a tornar-se difícil. cada golpe desferido. — O combate é para amanhã — respondeu.

de sangue meridional. a tornara prudente. fora uma silhueta discreta deslizando pelas ruas.por tornar irreconhecível aquela jovem mulher que iria substituí-la no túmulo. quando retornara ao local escolhido para sua vingança. Ah! quantos anos de fingimento! E sem poder sequer oferecer a si mesmo o sutil e secreto prazer de torturar alguma tola esposa de província roubando-lhe o marido. as defesas masculinas de homens considerados incorruptíveis: eclesiásticos ou altos funcionários devotos. em assassinar Henriqueta Maillotin. Quanto a ela. ou aquele. nos quais o fogo ardente de uma virilidade declinante exige. de Maudribourg. sentia a amargura invadi-la ao rememorar o longo purgatório vivido pela Diaba vencida. Primeiramente. que a ajudara a evadir-se. quando lhe insinuava que Joffrey de Peyrac. um tal de Nicolau Parys. inatacável. Levara anos para compreender. Precisava desaparecer. um homem idoso que voltara das colónias e que a tomara como amante. A França fervilhante permitia ao casal apagar os últimos vestígios. O pacto foi concluído. Ambrosina sempre fora perita. desconfiou de mim. que acabariam . mais voluptuoso ainda. Tanto um como o outro-se ativeram aos termos do contrato firmado entre eles numa noite sinistra. desfigurada.. Ele! Ele! Por que aquele homem galante. Ele a queria. Julgavam que ela se cobria com um véu por viver à sombra de um amante rico. nem dele. No final das contas. Fora preciso esperar. mas cujo corpo permaneeia-intacto. na costa leste de Tidmagouche. muitos artifícios. ter dado qualquer motivo de suspeita. feiticeira e envenenadora. Durante todos esses anos. que a entregariam à justiça do rei. por quem estava tão loucamente apaixonada. O navio se distanciara. cada uma de suas perguntas insidiosas tinha por ob-jetivo me desmascarar. ao simples enunciado de um nome de batismo. encontram-se> sem dificuldade. Mas era Ambrosina que se entristecia ao lembrar-se disso..©velho Parys era um bom comparsa e cúmplice. O velho Parys satisfaria sua necessidade carnal com ela. e mesmo curas complacentes para passar papéis de casamento. Queria se espojar sobre ela. notários" ou homens de negócios. Tinha de ser prudente. para se acender. acompanhado de data e lugar de nascimento. como assassina. igualmente imaginários. vivida em terras da América. Sempre preferira os velhos. "Ele me desprezava. de ver cederem. Sempre quisera e continuava querendo aquela mulher ferida. Nenhum escrúpulo. Desaparecer para sempre. Desmascarava todas as minhas mentiras. diante de seus encantos.. nos quais. nenhuma falha se insinuara em seu plano. Hoje. Uma amarga e inconcebível experiência. Podia felicitarse por não.. nem dela. queria ser salva e escapar de seus inimigos. se tivesse sobrevivido. não cedera a seus avanços?." Ainda agora. Enquanto acreditava que ele caía em minhas armadilhas. tentava tornar-se amante da Sra. rangia os dentes ao pensar nisso. em desfigurá-la e entregá-la aos animais selvagens da noite. por bons escudos legalmente válidos.. como um porco no chiqueiro. No fundo das províncias.verde de seu olhar. . desde a juventude. dar as cicatrizes do rosto tempo de se apagarem. Desde o primeiro instante.

depois a pleitear um cargo na Nova França. nascida Richemont. . bem pagos. bem recompensados de mil maneiras. notícias da Sra. E pouco depois. pois parecera-lhe que a outra nutrira com sua derrota a própria beleza." Acalentando suas ofensas. a esquecer? E então calafrios de terror a sacudiam. vice-rei por vários anos. aquele homem de pouca inteligência e muita vaidade. o Sr. imposta ademais por um amo que não suportava o fracasso? Não fora tentada. tudo se passara conforme seus planos. Pois. que começou à recrutar seus "fiéis": senhores arruinados ou criados sem escrúpulos. e por vezes se felicitava por isso. de Maudribourg e de sua expedição. intendente de província. apagada e discreta. dizia consigo. e chegou o momento de o velho Parys falecer. tão jovem. a apagada. de Gorrestat? Muito rapidamente e atenta a todas as oportunidades. obrigado a ir a Paris explicar-se com seu soberano. a mais forte. a reclusa. nessa questão de origem. Não era isso o que mais a tocava. de Gorrestat. sob sua ordens. que a haviam colocado em xeque. e eu a mantinha à minha mercê. sob pretexto de parentesco. para dar prosseguimento a sua vingança. e seu substituto. pedira. Os espelhos lhe anunciavam que podia reaparecer à luz do dia. houvera duas semanas em Paris onde se introduzira em algumas repartições. não teria acabado por esquecer que só tinha um objetivo em vista: vingar-se deles e. espreitando no espelho a cura. longamente urdidos. dizia-se. encorajara-o a se ocupar dos negócios coloniais. sua esposa. Pois essa identidade falsa lembrava-lhe incessantemente que. que atrelava a sua fortuna e que. Para Ambrosina. que se fazia chamar Armanda. por correspondência entregue por homens da lei. por instantes. sua viúva. por efeito de alguma poção. Mas essa fantasia criou-lhe problemas depois. Certos vestígios jamais se apagariam. e depois a ressurreição de seu rosto. e isso era culpa de Angélica. Não deixava de ser engraçado reclamar. de fugir para outra cidade e mostrar-se com o rosto descoberto e sob outro nome. Sim. durante a viagem do governador efetivo. o que era mais grave que tinha uma missão a cumprir. sem sabê-lo. de qualquer modo. No pé em que estavam as coisas. O que era excelente. comprar alianças ou cumplicidades e. dela? E por esquecer. O primeiro desses servidores não era. à força de ser tão ajuizada.. e que todos admiravam por acompanhá-lo tão corajosamente àqueles longínquos e rudes países. reduzir ao silêncio os "estorvos". os anos haviam passado para Ambrosina. Por isso. no final Angélica fora. almas negras de sua espécie.. já se podia considerar certa a desgraça de Frontenac.E. a própria juventude. para ela. o Sr. aquela evocação do Poitou provocava-lhe raiva. que se mandasse esclarecer o caso do La Licorne. que transformara em marido. segundo seus desejos. Havia algum tempo. Foi apenas depois de desposar. principalmente. de intrigar. para se divertir. se encarregavam. se fosse preciso.. Não era mais totalmente a mesma. em Nevers. o Sr. se conseguira enganar a rival. Ambrosina designara-se como nativa da província do Poitou. longe de diverti-la. até em Tidmagouche. despertando seu ódio por "eles". Ah! quantos anos fingindo. Múltiplas intervenções obtiveram para ele sua nomeação como governador interino.. A seguir. mas munido de apoio seguros e relações importantes. Não era mais tão bela. Os véus foram se tornando menos espessos. quando estava doente. de Frontenac. "Quanto mais eu descia mais ela se tornava deslumbrante.

haviam apoiado seus piores inimigos.Depois. Uma reverência supérflua. e pedido a desgraça do Padre Sebastião d'Orgeval. Mas sua nova função a obrigava a descer até lá. para uma reverência ao rei. e Ambrosina rejubilava-se por afastar-se da capital e fazer-se ao mar. saber que a filha do Conde e da Condessa de Peyrac — a menina para a qual Angélica apanhava ame-tistas nas praias de Gouldsboro — era interna na instituição das religiosas da Congregação de Nossa Senhora. conforme soubera. como o governador Frontenac. O Diabo. não se tivesse podido capturar toda a tripulação do pequeno iate. indulgente com esses inimigos da França e com os huguenotes franceses renegados. sentindo-se reconhecida e suspeita em certos olhares. conseguira convencer seu esposo. Prontamente a carruagem dos Gorrestat tomava o caminho do Havre. e armara-se antecipadamente de paciência. Nunca tivera a intenção de ficar mofando em Quebec.. antecipadamente. fizera prontamente justiça. cuja antipatiapudera perceber. pelo tempo que for preciso. Ah! como se alegrara vendo balançar.. dessa vez. que tinha a pretensão de passar por capital. mas os prazeres que antevia nessa captura e nos sofrimentos que infrigiria a pequena vítima compensavam os aborreciamentos daquelas viagens fluviais em meio às homenagens. se fosse preciso. livre para ir aonde quisesse.. o presente lhe apresentava imagens do passado. Não receava as travessias." Tivera razão. o novo governador. entretanto. sentindo vacilar a infalibilidade de suas astúcias. Uma "pequena Versalhes". sua amiga! "São ingleses!". . aquela tola da Delfina e a gorda proprietária do Ao Navio de França. que navegava arvorando o pavilhão de franquia do Conde de Peyrac! E em Quebec. o olhar verde de um adolescente fixara-se no seu. que sentia serem falsas e perigosas. o bufão. O anúncio de sua morte a espicaçara. daqueles colonos-aldeões grosseiros.. pendurado às vergas de sua nau capitânia. uma cidade dos antípodas gelados. o que todos eles estavam pensando?.. seus aliados. isso não era de todo inútil. A primeira vez viera como uma benfeitora. acreditava nisso. "Paciência. E pouco lhe importava começar pela província do Canadá. "Mais tarde. Infelizmente. que queriam ser chamados de "habitantes" e que se consideravam como senhores pelo simples fato de terem recebido direitos de caça e pesca.. Seu objetivo não era ser incensada por aqueles xucros coloniais.. Mas. Por quê? Como?. Inquietava-se. como exigia seu novo título de mulher de governador. a Meiga. desta vez. dizia aquele ridículo Ville-d'Avray. ficava longe. o Tenente de Barssem-puy. em Montreal.. Joffrey e Angélica de Peyrac. Junto ao batente de uma porta. A ilha de Montreal. Execute-o para mostrar que não é. E já estavam mortos os que deviam morrer. a ser ali recepcionada e aclamada. Desde os primeiros dias de navegação no Saint-Laurent. tinham-lhe escapado por entre os dedos. Mas. dissera a si mesma. O acaso entregava-lhe a filha de seus inimigos. que a odiava por ter mandado executar Maria. pois pretendia acertar ali alguns contenciosos com aqueles que. da qual começava a duvidar. preparando seu sorriso mais gentil... Por outro lado. E Frontenac. estava do seu lado." Pena que. tinha de passar por Que-bec. por causa do nevoeiro. com um súbito clarão. que não a notou de modo algum. que conseguiram penetrar no estuário do Saint-Laurent. dirigira-se a Versalhes. Lambia os beiços. Considerara uma volta afinal da sorte e da proteção oculta. a montante do rio.. "Traidores inimigos. Gouldsboro"..

Até o momento em que se encontrara diante daquela menina enfurecida.. por exemplo. Pior ainda!. tudo em vão... "é preciso que conheçamos todos os nossos administrados antes do inverno. foi procurá-la no convento e. uma fortuna distribuída. tão maldita inimiga. ao saber que fugira. que se pusera a urrar. Não fora por culpa de um enfraquecimento pessoal de suas faculdades. mas de ondas poderosas. e também os tios de Honorina. que jamais lhe faltara. Pegou aquela mecha entre o polegar e o indicador. Ali havia largada uma mecha flocosa dos longos cabelos ruivos que ela mesma arrancara da cabeça da menina. E depois. as provas do crime a sua tão odiada. e que apaguemos em cada um deles a lembrança do governador anterior. antes que os desse à filha. que Ambrosina. dissera ao esposo. Ambrosina agora via claramente. um inexplicável revés. "Partamos rapidamente para Montreal". diante daqueles objetos heteróclitos de valor desigual. o Sr. Era-lhe pois preciso concluir que a menina era tão perigosa quanto a mãe.Mas quanto mais os detestava mais se rejubilava. E começava a aceitar. Deve-se'desconfiar da coalização oculta dos membros de uma mesma família. pois era com desprazer que tomava conhecimento de haver naquelas paragens um irmão de Angélica. tão desejada.. a rigor. Todas as investigações. E. "Muito frio!. a mãe daquela criança. de Frontenac. uma a uma. um dente de ca-chalote gravado. possuidora de um incompreensível poder de sedução. se via posta em xeque. alteradas por uma inércia demasiado longa. a Diaba. . Desvanecia-se.. não fora pela perda da proteção satânica." Podia esperar aquele prato de resistência depois de oferecer a si mesma em Montreal o de raptar a pequena Honorina. Conseguira afastar Madre Bourgeoys. Mas porque. durante anos de desterro numa província da França. ao maltratá-la com raiva. pois teria muitas oportunidades mais tarde de fazê-los pagar por sua arrogância.. a envenenadora. de uma espécie mal conhecida. uma cumplicidade natural. menos fáceis de enganar que os humanos do Velho Mundo.. uma estação nos gelos da pequena corte de Quebec. O que havia afinal naquela família que lhe era tão adverso?. Angélica. Espalhou à sua frente. conseguira capturá-la de novo. "Mais tarde. Conseguira pois afastar da criança seus protetores importantes.. tratando-a de envenenadora: "É a Dama Lombarda! É a Dama Lombarda. Angélica. Tudo isso era exatamen-te desagradável. conchinhas. atacara a "eles". mesmo entre aqueles que pouco se conhecem e não se dão bem. Gouldsboro. Gouldsboro.. fazendo que fosse convocada pelo bispo em Quebec. cria-se entre eles. e plumas. novamente. torturá-la até a morte e enviar. Você pode esperar. melhor dizendo. Sua presa desaparecia. tornarei a encontrá-la! A vingança é um prato que se come frio.. fazendo-a deslizar na outra mão. já que lhe anunciavam que não podia ser de outra maneira. o conteúdo dos dois cofrinhos encontrados no alforje da criança. de beleza estonteante. uma turquesa. sobre a penteadeira. não fora sequer pelo fato de os franceses e os índios do Canadá se revelarem menos maleáveis. adivinhava que alguns deviam ter pertencido a Angélica. explodia num riso estridente." Sim. tudo andara muito bem até então." Quanta paciência e abnegação aparente tivera de demonstrar para apagar a má impressão da cena! Aquelas pessoas do Canadá tinham uma proteção ridícula a adorar suas crianças e a dar-lhes razão em tudo." E repetindo interiormente o ditado. uma vez mais.

efetivamente. e a Sra. refugiar-se no Novo Mundo — onde poderia se manter incógnita com mais facilidade. sempre o horroroso policial Francisco Desgrez. consequentemente. — A Duquesa de Maudribourg está morta! — disse. sempre dissimular. e a Sra. Como as notícias correm. a Marquesa de Brinvilliers. Contava com o Sr. o tenente de polícia do reino. Vicente de Paulo para pregar à gente humilde.. Ora." Em Paris. dará o meu nome. Desaparecido. Mas que importa que me nomeie? Estou morta". Ao se aproximar de sua casa. para a função de mágico. 'Eles' também estão por trás dessa morte." Teria podido fazê-lo. Por causa daquela personagem. quando lhe escapara no momento exato em que fora prender sua amiga íntima. suspeitas e investigações? Passando por Paris.. Ambrosina sentira-se aliviada por poder fazer-se ao mar. Por que Varange desaparecera no momento em que "eles" chegavam? Como se quisesse ceder-lhes o lugar. por trás daquela prisão. Paris inteira tomava conhecimento da prisão da adivinha em causa... num refluxo imprevisível das circunstâncias. "Foi ela que o matou!". Sempre esconder-se. teria uma pletora de endereços úteis. Mas ali.. nomes de adivinhos e adivinhas. que se podiam visitar em seus covis. o Sr. sua partida para o Havre assumira o aspecto de uma fuga. e aquilo lhe parecera inquietante e insólito. . Sr. Foi outrora. sem atrair a atenção da polícia e acarretar. "Devia ter providenciado os serviços de um mágico.. morta!" Deu uma gargalhada que finalizava numa cachota macabra e sem eco. como da primeira vez —. escapando. ambos cães de fila do rei.. Dois dias depois.. Mas não pôde deixar de olhar em torno... quisera consultar a mais famosa das feiticeiras. àquele Desgrez e a seu mestre. "Se ela for interrogada. desse desaparecimento". uma de suas mais assíduas clientes. de Gorrestat ainda não tinham embarcado quando souberam que La Voisin era acusada de tentativa de envenenamento do rei. exclamou. em voz alta. Entretanto. Seria preferível não deixar em sua passagem nenhuma pista que pudesse ser farejada.. Não era uma coisa injusta? Sempre fugir. medrosamente. de Varange. vira saindo de lá um grupo de "missionários".. Como da primeira vez. Uma suspeita assustadora começou á apoderar-se dela. Ambrosina tremia só de lembrá-lo.Onde estava ela agora. daqueles padres pertencentes à or-de-nx fundada pelo Sr. com minha cara Brinvilliers. chamada La Voisin. perito na arte de feitiçaria e que a esperava em Quebec. aquela pequena miserável? Como alcançá-la? Causar-lhe infelicidade? "Podem-se fazer muitas coisas com cabelos. o policial atingia o cerne da fortaleza dos envene-nadores. Seu desaparecimento coincidira com a visita que o Sr. disse consigo. a Mauvotsiíi. e há muito tempo. E. de Peyrac tinham feito a Quebec. motivo pelo qual se afastara precipitadamente. Atenaís de Montespan fugia da corte. eis que lhe anunciavam sua morte. de La Reynie.. Dessa vez.

desejava um amplexo amoroso para acalmar ardores quase dolorosos. verdadeiras larvas humanas. nascido do mais profundo de suas entranhas. o de Honorina.. e seu corpo pareceu-lhe fraco. indagava-se com terror. Esquecer o que acontecera na Acádia. Suas mãos se abriam e fechavam no desejo de apertar um pescoço de criança. muito belo. uma criatura humana?. Sentia medo. não lhe concederiam sobrevivência. e. Como é difícil afinal habitar uma carne tão fraca! E eis que..". Senão. em comparação às grandes personagens que pagavam um preço tão alto por sua imolação? "Larvas humanas. à guilhotina. com a única finalidade de concluir sua missão. Se não o conseguisse desta vez." Provas! Não podia acusar Angélica sem apresentar provas! Deteve abruptamente a louca progressão de seu pensamento. "Que volúpia!". queriam provas.. fora de qualquer estratégia. e. exigia provas. Parece que La Voisin ou outra comadre as batizava antes de enfiar-lhes a agulha no coração. repetia baixinho com unrlongo suspiro. O Medo! Era a primeira vez. Essa nova polícia.. que só espera uma denúncia nesse sentido. à acusação. não tinha razão alguma para sobreviver. muito bem pagas. Onde? Quando? Por quê? Como adivinhara que o velho debochado era seu cúmplice? Impossível sabê-lo. inspirados pelas evocações lúbricas de seus projetos frustrados. muito ereto.. Graças a Deus!."Ela vai pagar caro por haver arrancado a Satã sua presa. Por não tê-lo experimentado nunca... Antigamente... Hoje. ignóbeis larvas brancas retorcendo-se e bocejando". O medo e o ódio dilataram-lhe o coração.. mas não sofrer. que o rei pusera em ação. Não devia mais fazer projetos. de sua vingança inacabada. Idiota.. Serei olhada com suspeita.Estava tão segura de seu pressentimento que não mais conseguia discernir se estava se deixando levar por divagações obsessivas ou se estava sendo avisada magicamente da realidade. mesmo. por culpa dos cadáveres de crianças recém-nascidas.. "Vou gritar em toda a parte que foi ela quem o matou. repetiu. bastava recorrer à delação. se um pacto interior feito com as forças infernais não lhe proibisse empregar esse vocábulo. suplantado por forças que ela mesma desencadeara. "sem nome e nem mesmo batizadas. que trazia em si a dor possível de Angélica. O Fracasso! A Derrota total! Mas sobrevivera. Cometera um erro por esquecer. .. Ele também sabe que foi ela que matou Varange.. teria dito.. Suas entranhas despertavam. eu também. Mas fora Angélica quem matara o Conde de Varange. adivinhava que era o medo que lhe apertava a garganta. "Tornei-me realmente. imoladas nas missas negras. de Varange. torcendo a boca numa careta de asco. um pescocinho branco e firme... Mesmo esse Garreau d'Entremont. a não ser em voz alta e para enganar.. à pecha de feitiçaria.." A frustração e o desejo das visões entrevistas atormentavam-na desvairadamente. Ah! sim.. "Ah! como odeio as duas!. vão me considerar louca. Queria muito gozar. despertando nele espasmos voluptuosos. Só podia ter sido ela." Mas pediria provas. Angélica matara o Sr. rezadas sobre um ventre de prostituta. E a flor da nobreza da França seria enviada à Bastilha ou ao exílio. Que visão ridícula e despropositada! Que importância tinham esses bebés sem nomes. subjugado.

ao sair de Quebec para Montreal. escravos de seus sentidos e de sua vaidade. Oh! senhora — prosseguiu. Nada representam quando. chegando ao Havre com o esposo. Desde que se sentira reconhecida por ele em Versalhes. Estremeceu-se violentamente. ao meu ardor e à minha paixão. O atentado fracassara. que importam os mares a atravessar.. .A voz de um serviçal informando-lhe que um homem jovem desejava falar-lhe chegou ate ela. a de que ele não permaneceria lá. — Não acredito em você. — Mande-o entrar! Sentiu uma presença no limiar do aposento. e por que atravessei os mares. quantos remorsos me atormentaram. e não me cabe nenhum mérito. exceto algumas. Eis. ao me lançar em seu encalço. — Senhora. portanto.. mas não domá-las. então? O receio não cessara de atormentá-la. Posso saber por quê? — Reconheci-a. Descrevera-o a seus homens. Ela repetiu: — Viram-no correndo em Quebec. havia também o medo.. e voltou-se. de joelhos tremendo. para mim. mas ele. desde Versalhes. tratava-se. E quando se tratava de um belo jovem como esse. Ridículo! Pois. — Eu estava à sua procura. como lhes escapulira novamente? Ele tirou graciosamente õ" chapéu de feltro e saudou profundamente. Não é normal ter querido assegurar-me de que meus olhos não me haviam enganado? — Uma curiosidade tão desmedida.. e dera-lhes ordens precisas a seu respeito e do glutão. Você está viva! E. embarcara para a Nova França. Preferia o corpo-a-corpo com o adversário. senhor!. Entretanto. não parava de imaginar aquele Cantor de Pey-rac. Como era belo esse Cantor de Peyrac! Seu nome e sua beleza faziam ao mesmo tempo rilhar os dentes e subir água à boca. senhora.. pois. com efeito. Estava tão convencida disso que. e tão injustamente! A loucura dos homens não tem limites quando o ciúme se apodera deles. na an-tecâmera do rei. o que eu tinha a lhe dizer. No corpo-a-corpo era a mais forte. você me persegue. uma surda certeza a obsedava. apaziguar minha consciência. quantas lágrimas derramei. Apesar disso. procurando saber mais coisas a respeito dela. Acredita nele? Havia nos olhos puxados de Ambrosina clarões frios e fixos. previra sua vinda. quando todos a julgavam morta há vanos anos. levantando a cabeça com desafio '—. — Senhora. belo pajem. a vitória estava assegurada de antemão. está me reconhecendo? — Certamente — disse ela. que deixou à sua espera no lugar. destroçá-las. Enquanto esses machos imbecis. assassinos.. a alguns passos. sem deixarlhe tempo de perceber nele e nela a falsidade daquelas declarações —. Ela podia fazer as mulheres chorar. de satisfazer desejos muito diversos de uma simples curiosidade. Ou mentindo. que tinha os mesmos olhos da mãe.. era muito fácil levá-los a ceder. já que um acaso abençoado me permitia. destruir-lhes a existência.. Mistura de medo e de satisfação. Embarcando talvez em sua perseguição. Aquele que acabava de entrar era uma resposta a suas dúvidas e indecisões. que o impele a vir aos antípodas para satisfazêla? Está gracejando. implorando seu perdão.se„trata de me assegurar desse milagre. Eis por que quisera mandar matá-lo imediatamente. quantas saudades me dilaceraram! Você foi tão maltratada na praia de Tidmagouche. O animal fora morto.

Pequeno deus.. com um sorriso matreiro e cruel. tendo deixado tudo por ela afirmava ele. Ah! Sra. mistificá-la!" Foi invadida por um tremor. — Não me nomeie — intimou-o novamente. como na praia de Tidmagouche. — Era isso o que me agradava — disse ela. — Mudei tanto assim? — Sim.. depois apoderaram-se dele. Os olhos verdes defrontavam-se com o olhar de âmbar. que estava louca por ele. de. desde que ele surgira. Tiraria partido disso. e adivinhou que o trejeito a enfeava. Havia vários pontos em que não tinha segurança.. não me lembro de você ter me tratado com justiça. Ela era ainda. concedera-lhe um feriado de amor ilimitado. — lançou. um arrefecimento passageiro da luta.. — Ambrosina. ao mesmo tempo para levá-la de volta ao passado e fazê-la temer o presente. fingindo-se deslumbrado. Mas não pensei em nada!. Senhor. por uma odisseia secreta. não o pronuncie. Quem faria tal gesto senão impelido pelo ardente e sincero sentimento que ouso confessar-lhe? Não reconhecê-lo é lançar-me ao desespero e desconhecer também a força dos ardores que me inspira.. mudou. ali estava naquelas plebeias províncias. Os cantos da boca descaíram-lhe.... tendo já conquistado os edis da colónia. a rainha. Ainda não eliminara totalmente testemunhas perigosas de seu passado. Mas não pudera refreá-lo. — Reagiu a seu nome. ouvira mexericos a propósito de uma das damas de honra da rainha. ou. suas possibilidades de sedução. — Tidmagouche. "mas. com ansiedade. deixando-a "arrulhar" seu jovenzinho até não poder mais. que minha carne sirva para issc^L.Em Versalhes. então! Ambrosina! Esse nome cheio-de encanto preencheu minhas noites.. cantando incessantemente dentro de mim. Não queria ser reconhecida. era sobretudo aquela mulher aventureira do Novo Mundo — como esse papel lhe agradara! — que alguns anos antes passara."sêus receios. que a apreciava muito. cujas peripécias nutriram incessantemente suas lembranças com fantasmagorias. — Está me ferindo. Explodiria em insultos. pensou ele. duvidando de minha lembrança e de meu fervor. pelo menos. — Com efeito. mais próxima de meu sonho. Sra. cuspindo fogo e chamas. quando por ali passara. mas. entre outros. aturdi-la. — Então é você realmente — sussurrou.. De que modo poderia provar-lhe esses sentimentos senão cometendo a loucura de persegui-la? O que eu procurava nessa corrida insensata? Veja! Julgando tê-la reconhecido. perdê-la. Seu ser se desdobrava. mas mesmo assim a reconheci. vivamente. ao contrario. de Maudribourg. — Por quê?. em vez de censurá-la e desfazer-se dela. em que precisava ser assegurada. — Eu era apenas uma criança.. com amargura. Que mistério explica que seja mais bela do que em minha lembrança. de Gorrestat. — Tidmagouche!. Avançou imperceptivelmente para ela. Arrisco-me à desgraça junto ao rei.. senhora. A tal ponto que. por meu pecado". Ainda me restava uma dúvida. — disse. Pronuncio este nome sem mesmo acreditar. abandonei imediatamente meus cargos na corte. mas com dificuldade. nas praias da Acácia. a Sra. — Psiu! — fez ela. esse estremecimento era o sinal precursor de. mulher do novo governador. e estabelecido a reputação de dama caritativa e casta.sua rendição? Ele notara suas fraquezas.. Olhou em torno com terror.. pequeno senhor.. .. numa voz estrangulada. investido já de poder e de arrogância.. Sua beleza. e essas duas luzes se aniquilavam numa espécie de trégua. "Dane-me..

Um pouco afastado. pobre tolinho. Depois sorriu. É inadmissível! Isso exige punição!. que me eram desconhecidos. Felizmente para ele. sacudia-lhe o corpd. ele a via virar e revirar nervosamente em torno do dedo um longo fio de ouro vermelho.. não há o que temer deles... dessa sólida e segura sensualidade primitiva. Seja como for. Pois é o mais fraco.. as mulheres não têm o direito de triunfar sobre mim! As mulheres me pertencem. — Lembro-me de sua maldade quando. não. alguns dos longos cabelos da ruivinha. e dediciu acreditar nele. Mas as mulheres.. Que Deus me assista e sustente minha espada!... Diaba!. um pouco mais jovem apenas. Mulheres. Não ousou contrariá-la." — "Elas" me desafiaram — resmungou Ambrosina. perdeu o controle de suas palavras. ao contrário. elas zombaram de mim.Ela sentiu junto de si aquela carne rija de um homem muito jovem. Havia em seu ser um debate incoerente. sua meia-irmã!. Sua necessidade dele devastava tudo. Mas elas. que rivalizava com a dela. Creia-me. disse consigo. Cantor sentiu que empalidecia. em Gouldsboro. Nunca mais.. ela se voltara para o espelho e se examinava. — Bem que eu quis iniciá-lo.. — Não acredito em você — repetiu... tinha daí em diante uma fome e uma sede devoradoras.. ouviria mulher alguma murmurar-lhe palavras de encontro e promessas voluptuosas. Por causa de minha beleza.. mais criança. até que compreendeu que eram alguns cabelos de Honorina.. ele me renegou e mentiu para satisfazê-la. — Tive medo. As pupilas de Ambrosina brilharam com um clarão venenoso. a despeito de si mesmo. Elas me escaparam!. minha cara.. que tinha ciúmes de mim. numa praia. "Eu a matarei. esquecida. um fio de cobre. Não. — Tinha medo da cólera de sua mãe. mas chocava-se-com a onda contrária de sua desconfiança demoníaca.. não lhe queria mal. atrás dela. uma criança colocada sob Sua proteção. E que me odiava porque eu conseguira seduzir seu pai e atraía o olhar dos outros homens. em que ele fora quase o mesmo diante dela.. com uma soturna intensidade dolorosa. a única capaz de ajudá-lo a dominar sua cólera. às duas! Quanto a ele. Faço o que quero com eles. — Todavia você estava com aqueles que se lançaram sobre mim para me massacrar! — Deus me livre disso. enojado.. — Eu era apenas uma criança.. — Elas!. tive. piedade de você. jurou a si mesmo. Ah! como odeio às duas. E. Ah! como as odeio. que atraía o tempo todo seu olhar. O horror e o asco comprimiam-lhe a garganta. "Eu a matarei". um dia ou outro. quero-as apenas como vítimas ou cúmplices! Quanto aos homens. O homem tem todos os direitos. adivinhava que estava falando de Angélica e de Honorina: Uma candente indignação turvou-Ihe a vista. enquanto ela falava. inconsciente de trair com essa atitude uma inquietação quanto à perenidade de sua beleza e de seus poderes. que a harpia provavelmente arrancara do crânio dela. por ter me repudiado. da violência que era cometida contra você naquele momento.. Sua mãe! E uma criança. O homem tem o direito de ser o mais forte.. . Não será um pouco tarde agora para vir implorar meu perdão?. E você também... apagada... — Em seguida. maltratando-a em sua fúria. flexível. pois disso. serenada.. eu tentava agradá-lo. pois se tornara seu meio-irmão mais velho. Apenas elas!.'Era um homem. cintilante. assustado com o amor e o domínio da carne. Reconduzida a uma vida longínqua.

Toda a astúcia e sangue-frio de seu pai se reuniam nele. essa fixidez ausente. tornando-o indiferente a tudo o que não fosse ela. Ali existe um moinho abandonado. coaxos.. A seus pés. Compreendia que a arma se forja pela virulência do inimigo. rangidos. embora também se abrigasse à sombra daquela força e se felicitasse com sua proteção. àquela hora da noite. Acorrentado pelo desejo carnal que o cegaria.. Saltos de rãs na água adormecida — de uma campina esponjosa coberta de caniços. pela extensão do perigo.Como aquela horrível criatura ousava falar delas naquele tom diante dele?. que tomara de empréstimo a uma de suas criadas de quarto. "que minha carne. e confundindo-se.. ela esperava. "Que ela não suspeite nada do que o agita. pesados... A menor suspeita do que ele sentia verdadeiramente decidiria sobre seu destino. pretendia... Para a salvação de todos!.. na ponta da ilha. empresta por vezes ao olhar dos homens. que poderia fazê-la suspeitar que ele não lhe era totalmente devotado. Esse ultimato já dera certo anteriormente.... firme. Ela respondeu. E o nevoeiro se soma à noite para dissimular aqueles que não querem ser vistos. que uma cobiça ardente. quando?. obsedada. quase imbecil. do lado dos bosques. junto ao bosquezinho. Tê-la-ia enganado? Gostaria de crer nisso... com a sombra projetada pelo moinho vazio. Os mil ruidozinhos do lugar davam-lhe arrepios." E surpreendeu o olhar que ela lhe lançava pelo espelho. que a traição só pode ser evitada com uma traição ainda maior.. pronta a lançãr-se sobre ele. e ela se surpreendia com um sentimento mesclado de impaciência e de angústia que não lhe era habitual.. intimou a si mesmo. a fim de provocar sua ira. CAPITULO IX O fim da Diaba — Reação devastadora do Mal e a fúria dos elementos Oculta sob um manto cinzento. uma fúria. eram irresistíveis. tomado pelo medo de que pudesse alertá-la pelo quebrantamento de um só de seus "pensamentos. pensou.. que a subjuga.. Fora Florimond quem lhe indicara algumas estratégias e fórmulas que.. a jusante do rio. que capitulou. cercado de olmos e de faias-pretas. Deu mais um passo em sua direção. Como se ele já fosse uma aquisição indiscutível dela!. que tantas vezes o irritara ou decepcionara. enquanto ele murmurava: — Onde?. Mas ela não conseguiu ler nos olhos claros. ofegante: — Esta noite. Espera-lo-ei lá. O desnorteamento ávido que apareceu em seu rosto provocou-lhe náuseas. nada além de uma impávida luz. Compreendia agora aquela força de dissimulação do Conde de Pey-rac.. estrangulada. surdo às aterradoras palavras que ela pronunciava como que por descuido. ao menor sinal. e.. "Tome cuidado!". Ela estremeceu da cabeça aos pés. "Que minha carne sirva ao menos para isso".. ferindo sua sensibilidade infantil. brilho de cólera ou de repugnância. fixos nela. saltos abafados.." Ela via tão próxima sua boca polpuda. Procurando adivinhar-lhe os pensamentos. esvaziando o cérebro de todos os pensamentos. o estalejar de asas como . O suor molhava as costas do pobre Cantor. sirva para isso.

de um azul inviolado. fazendo de sua carne uma espécie de chama devoradora e sublime. A espiral arrastava-a.. De onde lhe vinha essa vontade devoradora de desfrutar o corpo do jovem. que. repetiu a si mesma. Tinha as pupilas fulgurantes. e as dores de um arrebatamento. "Era essa a felicidade conhecida pelos humanos?". Estava deslumbrada pelo brilho de suas madeixas douradas sob o grande chapéu emplumado. sibilante ascensão prestigiosa e fatal. nem avançar um passo. nas trevas. O fenómeno. Apesar de sua repugnância e do maldito terror que o invadia. tomada pelo terror. e as da criatura feminina. investia. de conhecer o vigor de seus braços enlaçando-a. que por duas vezes lançaram seu apelo modulado. — Deixe-me chegar perto — dizia Cantor. como se lhe escorregassem das mãos as rédeas que sempre mantivera firmemente sim. traje habitual e muito mimado como instrumento dócil. sua irmã. apanhava-a em sua armadilha. que lhe causava um padecimento tão atroz quanto um esquartejamento. de se afogar em suas pupilas límpidas. pois implicava desobedecerão mestre. A beleza perdida de Lúcifer ficava para o outro. ardendo de um desejo que. O impacto do animal derrubou-a.. maldito seja!. esse fogo do sangue vermelho pelo qual "eles" estão prontos a vender sua alma. mas.de velas moles chocando-se com as ripas do telhado do moinho. Iluminado de frente pelos últimos raios de um crepúsculo que se quisera pálido. montado pelo jovem herói esperado. lhe formava uma espécie de auréola. disse consigo. Mas este não queria afastar-se. "Eu o matarei. à beira do bosque. que deveria ter subjugado tão facilmente e que se rira dela? "Tudo. montado no cavalo prateado. apeara do cavalo e. ocultou-lhe a visão da bola escura e aveludada fendendo a relva como um projétil. Em sua embriaguez de vê-lo. Por que vinha a cavalo? Ele não pertencia a este mundo. Alguma coisa de si mesma lhe escapava. depois!" E movida por esse pensamento. de segundo em segundo. E arremetia contra ela. como labaredas púrpuras que lhe fossem arrancadas uma a uma.. um cavalo branco apareceu. Como fora tola deixando-se tentar por essa escapada! Ele já devia estar morto. Não podia nem mover-se. o pavoroso ricto daquele que fora expulso do céu para os infernos. — gritou. indagava-se. que lhe lembravam as de sua rival. "Não". voltava sem cessar. Ouviu os passos de um cavalo. sempre. O fogo de sua paixão se desprendia de seu ser. .. E ela se transformou no mesmo instante em sua presa devastada. de saber tudo sobre ele. girava em torno-da cena imunda. matizado por uma claridade mais para lírio do que para rosa. menos renunciar àquele instante". tentando acalmar o glutão enfurecido. perdeu a noção de sua própria realidade carnal. a fitava com os olhos translúcidos como água límpida. Lançava-se com ímpeto sobre ela. o que lhe inspirava um terror sem nome. Era tão simples e era o que precisava ser feito. que batido pela luz. lhe pareceu desconhecido e que deslizou para todos os seus membros. passou a língua pelos lábios. — Face de anjo. como o movimento de uma serpente sutil. lá longe. dissociação das naturezas inconciliáveis. onde se abrigavam e despertavam pequenas corujas aveludadas. compreendendo demasiado tarde que esse corpo.

mas acusavam-no de traição. de Gorrestat. encabritando-se. Esse tipo inédito de execução gelou de espanto todos os índios. a capital. Cheio de ambições. pendurada no galho de um olmo. O horrível espetáculo levou os oficiais e fidalgos. Tenho de enterrar-lhe minha adaga no coração. . Depois você poderá fazer o que quiser!. quando se surpreenderam por não encontrar nenhum vestígio dela. a meia-voz ou em pensamento-. É Na ilha de Montreal as investigações criminais não tinham a seriedade que lhes emprestavam ali em Quebec. a vomitar. viera falando com o animal domesticado por ele. Cercados de homenagens. recém-chegados da França. Um raio. Mas a pavorosa descoberta. o Sr. que lhe haviam sido insufladas. Diante dos restos irreconhecíveis que.. atiçando-o daí em diante contra a mulher assassina que ele seria encarregado de exterminar. O que sabia Wolverines? Lembrava-se dos cães gigantescos. O cavalo relinchava.. Achavam indigno que. Foi o tempo de formar-se uma fila de pessoas até o rio e de se apanharem os baldes. de Gorrestat mandou enforcar um iroquês chamado Magoniganbauit. fez com que todas as testemunhas desistissem de prosseguir as investigações sobre a identidade da vítima. encostando a testa ao tronco de uma árvore.. dominado pelo pânico. Simultaneamente. tão grandes quanto ursos.. encontrado lá pelos lados da ponta do moinho. que Ambrosina lançara contra ele em Tid-magouche? Adivinhava que era às suas ordens. e da necessidade de agir. onde um Garreau d'Entremont se empenhava em fazer reinar a justiça do rei. A tempestade eclodiu! Uma tempestade sem chuva.. Os serviçais e as criadas salvaram-se a tempo. que obedeciam os caçadores que o acossaram em volta de Quebec e tinham matado sua fêmea diante de seus olhos?. não longe dali. pelo estrangulamento. baixaram-se rapidamente os restos da desditada mulher do novo governador. Tratava-se de um índio batizado. e já estava tudo consumido. de uma cabeça de mulher de cabelos longos e soltos. numa região pioneira. puxando o galho ao qual estava preso. tinham já servido de pasto às raposas. a verdade do ser aparecido? — Deixe que eu me aproxime! Tenho de fazê-lo! Eu prometi. como o pequeno gato outrora. passando em ziguezague ao nível dos telhados de Ville-Marie. pois seu nome significava "amigo do iroquês". ainda se duvidava. Não sobraram senão as paredes de pedra enegrecidas. sobre a qual só se falava bem em voz alta.— Deixe-me chegar perto! Devo fazer isso! Durante a viagem. caiu sobre as ardósias do solar que fora posto à disposição do senhor governador. Eu prometi. embebidos em sangue. de La Reynie. mistura de carnes e de pedaços de tecido. Foi preciso esperar para poder sondar as ruínas ainda quentes. engolfando-se por uma das chaminés. a fim de assegurar-me de sua morte. como uma bola caprichosa. O governador estava aquela noite em casa dos senhores de Saint-Sulpice.. com a ajuda de uma polícia inspirada nas reformas do tenente de polícia civil e criminal do reino. o Sr. Foi essa a razão pela qual não se procurou imediatamente a Sra. julgando-a desaparecida no incêndio. a ela. Atabou quebrando-o e fugiu a galope!. se impedisse um condenado de entoar seu canto de morte. falando de um cadáver horrivelmente mutilado. um caçador de abetardas acorreu. Estavam ali nos postos avançados. mas cujo desaparecimento causou secretamente a muitos um certo alívio. e ricocheteou. Teria subitamente "visto".

Sem raquetes. o mesmo número da milíci'a. embora tardio. o inverno abateu sua pesada pata sobre um outono ainda incipiente e que se anunciava brando. despertavam sob a neve. isto é. nos lagos que em certos lugares não . não tiveram tempo de se reunir. de Gorrestat. incessante lançados por Utakê. "eles começaram a entoar a plenos pulmões seus cantos de mortos". enquanto ele pretendia agir como vice-rei. que se dirigiu aos cantões com o capelão das tropas. depois a Quebec.Retomando o projeto que concebera de suplantar em ações gloriosas seus predecessores. que haviam agido apenas como governadores. onde não faltavam mortos a vingar. insuficientemente vestidos. trezentos milicianos e o mesmo número de aliados selvagens caíram sobre eles. se reuniram e dispuseram-se numa flotilha animada e cantante. ou não despertavam. Nesse momento. Seiscentos regulares. sempre ébrio de raiva e de transportes interiores grandiosos. que lhes incitava a curiosidade. Estava seguro de. Em Cataracuí. tomaram o caminho do lago Ontário. A escolha do território era infeliz. prendendo-os a cepos que os carpinteiros tinham acrescentado aos preparativos da festa. Convocou seu missionário. lançou suas tropas sobre os cantões iroqueses.~urh pouco menos de abenakis. sendo outros tantos embarcados imediatamente para servir nas galeras de Marselha. que lamentavam não ter seu encontro habitual de verão para festins e danças com o Sr. A moderação não beneficiou os onondagas. sucumbiam sob o peso da insólita neve. Foí um desastre. acompanhados cada um de uma pequena escolta de guerreiros. Numerosos capitães e grandes homens das Cinco Nações. também atados. Soldados vindos da metrópole. aproveitou-se do pretexto de vingar a morfe ignominiosa da esposa para reclamar o início imediato de uma campanha de represálias até os confins do vale das Cinco Nações. algonquinos ou huronianos. Haviam sempre resistido aos apelos do massacre geral dos franceses. um dos mais ardorosos chefes da tribo dos agniers. seguidores entusiastas nesse projeto. Seus guerreiros. Em poucos dias. Os onondagas comportavam-se. deixaram-se tentar por um convite lisonjeiro. mandou-as desembarcar o mais próximo possível. e conseguiu persuadi-los a enviar uma delegação a Cataracuí para homenagear o novo governador. como nação pacífica. mandou que as tropas os cercassem e lhes amarrassem uma corda ao pescoço e aos braços. congelados no sono. Muitos foram esmagados pela queda de árvores que. Assim que foi avisado de que os quarenta delegados das Cinco Nações tinham sido mandados para as galeras da França. havia vários anos. como que possuído. subindo o Saint-Laurent para atingir o Forte Frontenac. duas de suas mais importantes aldeias foram incendiadas: Cassuets e Tuansho. o Padre de Guérande. Quarenta e cinco chefes iroqueses foram assim capturados e enviados a Ville-Marie. encontrar em Montreal. Ao término do banquete. Quatro companhias. de Frontenac. o Padre Raquet. As tribos. sem que ninguém o notasse. como se a Natureza se sentisse subitamente importunada pelas loucuras delirantes dos homens. o Sr. nos pântanos invisíveis. os homens se afogavam nos montes de neve. numerosos mas dispersos pelas primeiras caçadas. Diante disso. ainda cobertas de folhas. quando estavam bem adormentados pela boa comida. vestidos com suas roupas de verão. na margem sudeste do lago Ontário.

estavam suficientemente gelados. Esse grito devia ser ouvido. que ela não queria ver transformada em angústia. privadas de qualquer ajuda. ao norte do rio Hudson. A leste do Ontário.. com a intenção de alcançar pelo sul os cantões iroqueses. Num ponto dos quais. aos quais responsabilizamos. carregando pedaços de gelo. mas também de feroz reivindicação contra o Céu e os homens. esperava-se uma volta do bom tempo.. que durante esse tempo subira o rio Utauais e chegava à baía Georgiana. ao mesmo tempo curta e simbólica. Não foi o que se deu. detido pelas neves. tudo estava contido naquela palavra. julgando estar atravessando planícies. de impotência. e contra todos aqueles. uma retomada normal da estação. havia aquelas garras apertando-lhe o pescoço e. mas conhecendo o país. eles mesmos incomodados pela chegada precoce do frio. • Confissão de má sorte. conseguira chegar à grande ilha de Manituline para invernar entre os odjibways. uma mulher e três crianças pequenas. os exércitos bem ou mal reunidos e guiados pelos milicianos canadenses. Angélica se sentia melhor. Até as margens do. o conjunto de seu desprazer. os fortes Saint-Louis e Sainte-Thérèse. o Forte de Richelieu e até o Sorel. No início. verdade imposta por um subconsciente mais lúcido que seu consciente. inimigos. constatação de uma situação desastrosa. no lago Ontário. e mesmo perdida. Depois de tê-la repetido energicamente várias vezes. a espera angustiante de Angélica Uma ansiedade. Fazia-o recuar logo. a mais convincente e expressiva começava por um m. o deserto branco se estendia.Atlântico no sul e as do golfo-Saint-Laurent a leste. protesto contra o destino adverso. começava a invadi-la sorrateiramente. um abrandamento. de todo tipo e de ambos os sexos. em circunstâncias muito penosas. parece trazer do berço. de Gorrestat permaneceu no Forte Frontenac. fecharam-se nos fortes ou muralhas das missões que os sobreviventes conseguiram alcançar.. à custa de injúrias e de palavras violentas. palavra que todo francês. e pelos quais entravam. Antes mesmo de ter percebido a volta de uma nova manhã. prisioneiras de um fortim soterrado. franjadas de um mar enegrecido e esverdeado. compreendido por quem de direito. O Sr. Assim que abria os olhos. um peso que a impedia de respirar. na ilha de Lamothe. como se faz retroceder um cavalo empacado. cujo vocabulário evocava com o Pátio dos Milagres. escondida num canto da memória e que permite exprimir. de ter reconhecido a luz da vida ao sair do sono e do esquecimento misericordioso. Saint-Anne. Cantor de Peyrac. iriam morrer de fome dali a algumas semanas. no grito de derrota. os fortes dos lagos Champlain ou Saint-Sacrement. Entre elas. O DESERTO BRANCO CAPITULO X Em Wapassu destruído. traidores. recobrindo por longos meses espaços infinitos. no peito. Mal-estar que traía a percepção profunda que já possuía da situação. aquilo lhe saltava ao pescoço. . censura velada dirigida a nossa própria tolice e que sugere o movimento benfazejo de bater no peito ou de se xingar de imbecil. denominado Wapassu.

mas porque estavam felizes por reconhecer seu cenário familiar. Era uma pequena república. endireitava-se.. sentindo-se nelas ainda a chama sempre pronta a se acender para brincar.. Tomava pé novamente com animação. O termo parecia-lhe impróprio em terras da América. de nada adiantava proferir insultos aos quatro ventos. os habitantes da pequena república. Com as crianças. e. Retratos aos quais os comentários das crianças. acrescentavam um toque suplementar e às vezes inesperado. Perguntava-lhes: — Quem habita nossa pequena república? E elas faziam um esforço para evocar os rostos das pessoas que haviam amado e que lhes faziam falta. ter-se-ia encontrado uma solução.. à noite. como que para espantar-lhes os miasmas da desgraça. As crianças não estavam conscientes dessas duas obsessões que pouco a pouco se instavalam em suas vidas e as comandavam. Assemelhava-se a uma crónica. cujo desenrolar também lhe era benéfico. habituara-se a brincar de "a pequena república". Com efeito. em episódios. comentários que com frequência não eram destituídos de sabor. repousavam-nos da monotonia das horas escandi-das pelos instantes muito breves das refeições e pela espera dessa outra evasão abençoada. alçar vôo para evocações alegres. até lá. Ele lhe dissera: "Eu lhe construirei um reino". os revelavam. e ela percebeu que não era apenas porque podiam foliar ao ar livre. ou então a caravana chegaria. os definiam. As felicidades vividas em Wapassu jamais poderiam ser apagadas. sempre atentos às palavras proibidas e que não tinham perdido nada de seu requisitório contra a injustiça e a "cachorrada" da existência.. era sempre Wapassu. Pequenos Polegares! Está menos frio. por sua escolha. como dizia Iolanda —. o sono. pois revia mais intensamente os rostos de cada um. as vitórias. caía na gargalhada diante dos sorrisos e olhos arregalados. Carlos Henrique era o interprete dos gémeos quando ela não compreendia o que explicavam ou evocavam em sua animação. um ser amado. a narrativa das façanhas de seus amigos.. e ela se deixava levar a uma visão mais sadia e otímista das coisas. Estimulava-lhes a memória interessando-se pelas imagens que já haviam acumulado e que. tomando um tom de lenda ao descrevê-los como heróis de romances. — Levantem-se. As crianças gostavam de sair quando o tempo o permitia. — Estão falando de Colin. de Carlos Henrique e também dos gémeos — aqueles pequenos "venenosos". Havia ainda o que comer por alguns dias. sacudia os cabelos. Viu-se olhando de outro modo os arredores devastados. as apostas. Algumas vezes. correr ou dedicar-se a essa atividade especificamente infantil que . — Lembram-se daquele? Daquela? Ele era gentil? Malvado. fazendo-lhes. com a ajuda de seu temperamento.. Aquelenão era um reino.Lançá-lo pelos cantos aliviava-a e lhe devolvia a coragem. estão falando de Granadina. cheios de malícia e de surpresa escandalizada. nem os atos praticados. vocês dizem? O que ele fez que não o agradou. por trás de uma face machucada. saltar. as roupas. Raimundo Rogério? Falava-lhes daqueles que marcavam sua lembrança ou daqueles de que não se lembravam. Para eles. estão falando do cachorro. como se reconhecese. Essas conversas permitiam-lhes evadir-se. As crianças tinham razão. O raciocínio recomeçava a funcionar. Vamos tentar encontrar as armadilhas de Lymon White.

diante das quais se apresentava o inimigo. "Eu os detive!" Fazia-se essa justiça para manter a coragem. bem vazio para crianças habituadas. Continuava.. Às vezes. O que não queria dizer que se salvaria tudo sem perdas e danos. Wapassu incendiara-se. ignorando que ela já se encontra ameaçada. pois isso era mais um desgaste de energias. Angélicatomou consciência do papel que a na tragédia recente. Na verdade. mas Angélica sabia que teria. impusera-se naturalmente. Tinham recebido a graça de chegar a tempo nos pontos sensíveis visados pelo inimigo. no torreão do forte. a bandeira do rei da França teria substituído. numa mistura de sensações interiores que oscilavam do medo à alegria mais exaltada. Isto é. A medida que se avança em idade e em experiência. parou de erguer a voz e de mover os lábios. e depois Gouldsboro. uma lei lógica da Natureza. cujo último ato — a morte de Loménie-Chambord — lhe pesava no coração. eles tinham vindo. de voltar a Wapassu. Tanto um como outro. quase sem o saber. o que seria insuportável. a que permitira evitar o pior. deixado que lhes passassem à frente.veitar-se de sua ausência. ela e Joffrey. com ou sem a ajuda de Saint-Castine. a paisagem. Situação que. como se costuma dizer. pouco a pouco. desde o nascimento. seria mais espinhosa de acertar do que a atual. Retornaram na direção do norte. Também lhe fazia bem evocar tantos anos felizes vividos ao lado de Joffrey e toda aquela vida fervilhante que'se estabelecera e se desenvolvera à sombra de sua proteção e de sua atividade incansável. e a tempo pegamos em armas. sem esforço. e a dela. dessa vez.. o que se exige não é permanecer continuamente alerta. tomavam uma tonalidade ou uma nuança diferente. uma vez ratificada. sem dar um só tiro. falava sozinha. mas adquirir esse sexto sentido que permite chegar a tempo em socorro dos pontos fracos da fortaleza. povoava seu refúgio. Se não estivesse ali. Seus instintos tornaram-se únicos. a viver em comunidade. apesar das aparências. a discorrer com veemência com seu único interlocutor. Quanto a Gouldsboro. a do escudo prateado do fidalgo independente. voltando-se para um lado e para outro. Elas nos favorecerá. talvez não deixasse de haver troca de tiros. porque era isso o que tinha de ser feito. pertencentes a Joffrey de Peyrac. a cada hora.. Mas fora a melhor estratégia. ou se tivesse capitulado. e a encontraram. da admiração e confiança ao receio e rancor. e teriam capturado. a cada dia. Lembrando um por um dos amigos. por viverem unidos. porém. "É uma lei. via claramente que a decisão dele de acompanhar Frontenac. Chegamos a tempo às seteiras. Quando pensava nisso. apesar dos debates e das separações que isso custara.. grande dificuldade em conservar o rifrho de dias normais em sua vida de soterrados. sucessivamente.. como da primeira vez em Katarunk. "Eu os detive!'' Julgando apro. mas os vingadores do Padre d'Orgeval limitaram-se a isso. teriam prosseguido para o sul. repetia-se. de uma . De pé no topo da colina. mas naquelas condições. lançando um olhar de desafio às lonjuras geladas que.. as minas e postos disseminados. Com o correr dos dias. "O pior foi evitado".os adultos chamam "fazer tolices". ao longo-do Kennebec. prometendo revê-los em breve. E. não tinham. estavam formados nesse jogo de defesa inconsciente. Teria desencadeado em vão sua crueldade cega?.

mesmo que o horizonte permanecesse mudo. era como uma ópera. esperava o sol. mas com esse minúsculo e vermelho coração vivo que batia dentro dela.. Diante dela. ao contrário. a uma festa. Se um belo dia as almofadas de madeira. Suas metamorfoses coloridas anunciavam o aparecimento do astro do dia. a neve só podia enterrá-lo ainda mais. o segredo das consolações. alongadas como dunas sépia-escuras orladas de ouro. esse sangue vermelho e quente que circulava em suas veias. pois as ampliações e reformas não tinham sido feitas . fecharam-se às suas costas. à renúncia diante de sua força cega. Sabia também que. via através delas a imobilidade da Natureza. a chegada de socorro. Estas. linhas. Através daquele espetáculo grandioso passava a corrente de uma confiança que fortificava todo o seu ser.. Como elas. frio. das consolações do esplendor. a leste. a cortina da noite abriu-se sobre duas nuvens cor de areia. de pé na pequena protuberância de neve gelada. Por esse motivo fazia essas surtidas quase todos os dias. ao baile. Levantava-se muito cedo e seu primeiro gesto era empunhar o caldeirão. Estagnavam imóveis por detrás do monte Kathadin. a certez -de que dessa vez. pesadas e guardadas pelo anjo de espada chamejante. múltiplas formas. dava alguns passos como que para se colocar melhor no centra de uma solidão em que sua presença única de ser humano. Isso constituíra um problema quando invernavam no fortim de Wapassu. Já meio enfiado sob a terra.certeza de domínio sobre os elementos ao acabrunhamento... sua inércia petrificada. colocado sobre as brasas. Se tivesse nevado durante â noite. o segredo dos tesouros enterrados. a um casamento. "Através de mim. suor do pão de cada dia. era apenas um abrigo para quatro mineiros. Aquele dia.. fome. retirando a neve com a pá e desobstruindo a beirada da soleira e os degraus talhados no gelo. CAPITULO XI Imenso abismo de gelo — Um ténue sinal de fumaça Naquela manhã. aquela orgia de cores. não teria mais forças para mover aquela porta pesada e abrir a passagem para fora. sofrimento. uma flor de esperança. com acesso às galerias de minas. aquela madrugada. tornando-lhes perceptíveis as verdades salvadoras. No início. como se fosse a um encontro de afrior. um verdadeiro covil. um viático lhe seria dado. Mas também. a Beleza. que permitiam sair da trincheira. Angélica.. carregadas de ameaças ou. naquele dia. que você contemple o sorriso de Deus!. alguma coisa ia mover-se ao longe a aproximação da caravana. ela se reaquecia e se punha novamente em ação. Esta se tornava mais profunda a cada inverno. Naves do espaço. frágil. Alternadamente. e jogar água quente nos gonzos de couro da porta para desprendê-la." De pé na plataforma. Ela era a Humanidade tremula às portas do Éden. ou à borda da trincheira. se revestissem de gelo. a crueldade do destino dos homens e a promessa da grandeza desse destino. Misturava-se a esse prazer um sentimento de espera. tomava um significado decisivo. edificado contra o talude. para essa aventura da Vida que se anunciava e que seria preciso buscar. gonzos. ferragens.

surdo e congelado. Seria um dia em que o sol teria por mais tempo direito de cidadania sobre o mundo.-içava-se para fora do buraco e dirigia-se. e onde podia observar o horizonte. Ao meio-dia. por trás do monte mais elevado. recoberto de uma leve camada de ne^e naquele momento. pérolas. multiplicava os punhados de jóias lançadas ao léu. parece que o gelo afrouxa seu abraço. Era às vezes o único momento do dia em que podia perceber o sol. o sol consentia em prosseguir seu caminho para um mundo purificado e. Era a vida. pois. Havia uma vida. . não se sabia como. subia à plataforma por um alçapão interno. ele se levantava. Angélica sentia o vento. que parecia prometer o perdão. numa preguiçosa melancolia. Depois que saía. diamantes. Através de uma bruma translúcida. Este. se nem um nem outro se mostravam muito agressivos. a alguns passos dali. tornando-se. quando o sol estivesse a pino. Seus dorsos eram escuros. Mexia-se. mas de uma maneira menos minuciosa que do outeiro. Suas formas se alongaram. nas trevas infinitas do céu e da terra misturadas. que retinar a neve. todas as manhãs. instante após instante. nos outros invernos.na entrada principal. apanhado por uma pesada cortina de nuvens. do éter azul. encobrindo-lhes os meandros. Perdera um pouco a noção das datas e.precedem o alvorecer são talvez as menos sofridas. Nos dias de muito frio. quando a luz do dia começava a se expandir. navegando. e os ventres. ilhas. as neblinas se destacavam contra um cinza espesso. continentes com praias cor de mel. ao alvorecer. estando todas as cortinas erguidas. a luz que subia já enganchava pontas de rubis. como um enorme escudo rosa. Quando não se sentia com disposição para os trabalhos de desobstrução. desvelando aquele deserto branco mudo. Agora. sob pena de ver aquela abertura logo condenada. praias. Falava. A imagem não era idêntica. através da massa escura e tormentosa das montanhas adormecidas. distendendo-se. até que. de um cinza pesado de tormenta. sondava o frio e. acima dos rios e dos riachos. o mesmo e diferente a cada nascer do sol. formava a seus pés uma grande extensão branca. um movimento ao qual era sensível naquele instante grandioso. Daquele jade puro ia surgir o astro dourado. não queria reconhecer que se havia atingido aquele momento do ano que. ou dissessem àqueles que se impressionavam com isso: "O inverno se fechou". Se a neve e as rajadas de vento não sopram. as horas que. Nos vales indistintos. marcando uma pausa clemente. Angélica gostava daquela hora. não vinha ali para meditar sobre sua solidão. Não estava mais assustada por estar sozinha ali. pareciam duas baleias escuras escoltadas por baleotes. fazia com que as pessoas de Wapassu pensassem com seus botões. nuvenzinhas que haviam surgido. Um teatro ordenava-se para ela em todos os pontos do horizonte. A oeste. ametistas. e onde nenhuma luz penetrava. direito usurpado com frequência pelas nuvens invernais. ao se estirar e se dividir. Dali também se podia abarcar com o olhar o horizonte. de um branco cintilante. todos os instrumentos da' orquestra afinados. a um leve desvio". chamado o Lago de Prata. por aquele dia. hà noite mal iluminada. O lençol estendia-se de um lugar a outro. Tinha. à beira de uma água azul levemente verde. na fase mais difícil da estação. as duas nuvens. mas sem pressa. depois desaparecia. Mas outras vezes o espetáculo se desenrolava com magnificência. transmutado em branco e azul. pois o talude em que estava encostada a casa ocultava uma parte do lago de Wapassu. De todo modo.

poderia deixar as crianças saírem. E como todas as manhas, no momento de deixar a plataforma ou -o belvedere, hesitava,, não se decidia a voltar para dentro; retida pelo encanto, experimentava uma frustração deprimente... Para se decidir a entrar, era preciso que o frio começasse a penetrar em seus ossos, que não sentisse mais nem os pés, nem as mãos entorpecidas, e certa vez teve medo de que o nariz lhe tivesse congelado, como acontecera com Eufrosina Delpeh, a comadre de Quebec, que, a fim de espionar os maus passos da Sra. de Castel-Morgeat, incorrera nesse dano. Voltando para o calor, espreitou, no espelho, com inquietação, seu apêndice nasal, prometendo a si mesma que seria mais prudente no futuro. Se um dia ou outro tivesse de reaparecer em Versalhes, não podia fazê-lo marcada por cicatrizes indeléveis de suas viagens no Novo Mundo. As cicatrizes são gloriosas apenas para os homens. E no entanto, aquela manhã, alguma coisa a detinha. Várias vezes voltou da porta a seu ponto de observação, com a impressão confusa de que um detalhe lhe escapara. Subitamente, com o coração batendo, uma interrogação se esclareceu. Em meio àquelas brumas errantes e longínquas, àquelas névoas exaltadas dos pântanos endurecidos e dos abismos fechados sobre quedas-d'água geladas, seu olhar detivera-se numa mancha ao longe, alternadamente esbranquiçada ou transparente, de formas cambiantes, e que se arredondava por vezes, como que impelida por um sopro do vento, ou, ao contrário, estirava-se verticalmente no ar puro, subitamente calmo, num filete branco. Menos que nada: uma mancha arredondada, depois um filete branco alongando-se, mas que não mudava de lugar. A partir do momento em que reparou nele novamente, não lhe despregou mais os olhos. Prendia até a respiração para poder observá-lo melhor. Estava infinitamente longe e não tinha mais consistência que um sonho. Mas não podia confundir-se nem com as briímas acima dos rios, nem com neblina. Era fumaça. Voltou para casa num transporte de alegria, mas não querendo acreditar naquele frágil indício. Seria fumaça? Muitas vezes durante o dia voltou a sair, a fim de espreitar o sinal, e ele continuava no mesmo lugar. — Você fica saindo o tempo todo! — queixaram-se as crianças. Finalmente, não teve mais dúvida: era fumaça. E, atrás da fumaça, havia homens. Fossem eles quem fossem, representavam a salvação. Ao cair da noite, deu mais uma saída. Voltada para a direção de onde vinham os sinais de fumaça, não conseguiu distinguir nenhum ponto vermelho que, na sombra da noite, teria revelado a localização de uma fogueira. "Por isso mesmo!", tranqúilizou-se. "Eles deixaram o lugar e apagaram o fogo porque continuam 'a caminhar para nós." Ficou observando durante muito tempo; quando, diante da obscuridade crescente, decidiu afinal ir para dentro do fortim, estava tão congelada que mal conseguia mover-se. Apesar da decepção por não ter podido distinguir nenhum ponto vermelho, continuava a ver naqueles diferentes indícios novas razões para esperar. "Eles" vinham, "eles" subiam em sua direção. Aqueles fogos eram de uma parada, antes da última etapa que os traria a Wa-passu, naquela mesma noite.

Algumas horas mais e os homens da mina do Sault-Barré, os da mina do Croissant, talvez os de Gouldsboro, alertados, desabariam na trincheira de neve e bateriam na porta do seu retiro, como daquela primeira vez em que, sob trombas-d'água, tinham se refugiado, após o episódio de Katarunk, e seria um nunca acabar de congratulações: 0'Connell, Lymon White, Colin Paturel... Acendeu o fogo na sala grande. Era o máximo que podia fazer para preparar-lhes uma recepção, fora a aguardente e o vinho... Para fazer as vezes de farol, subiu para fincar na neve uma grande tocha. Preparou os colchões e cobertas, e esperou. Ficou acordada a noite toda, mantendo o fogo aceso, espreitando cada estalo no exterior, julgando ouvir a todo momento ruídos de passos ou de vozes no sopro do vento, e precipitando-se ao seu encontro à soleira~'da porta na noite glacial. Mas pela manhã ninguém tinha aparecido, e o grande silêncio continuava. Entretanto, quando subiu à plataforma, a fumaça ao longe permanecia lá, no mesmo lugar, parecendo divertir-se com sua espera, desdobrando-se de modos diversos, em pequenos topetes ou penachos bem visíveis, tfepois fundindo-se até apagar-se completamente, para tornar a aparecer. Estava sempre lá como um sopro humano falando de vida,Tima respiração humana à superfície da terra. Daí em diante decidiu ir até lá para ver. Pelo menos, tentaria avançar suficientemente ao encontro do fenómeno para formar uma opinião. Se havia pessoas lá, elas representavam socorro, possibilidade que não podia desprezar. A ideia de deixar as três crianças sozinhas, nem que fosse por algumas horas, preocupou-a. Eram tão pequenas! Fez algumas recomendações a Carlos Henrique: entre outras, não se aproximar do fogo; acendera-o com pedaços de turfa, que duravam bastante tempo e não produziam chamas altas. — E se o fogo apagar? — Irão para a cama, sob as cobertas, para se aquecer. Não demorarei muito. Voltarei antes do anoitecer. Enfiou os calções de Lymon White, seu capote de lã grossa, puxou o capuz sobre acabeça, cobrindo-o, além disso, com um de seus gorros de pele, tão apreciados pelos habitantes de Wapassu. Escolheu uma raquete bem leve, pegou uma arma de pederneira, pendurou à cintura um chifre para pólvora e saquinhos com balas. As crianças seguiram-na até a porta, prometendo comportar-se. "E se me acontecer alguma coisa? Um acidente!", pensou, atormentada. "O que seria deles?" Recordou-se de sua angústia, na época de suas cavalgadas no Poitou, naquele dia em que, depois de deixar Honorina, um bebe de dezoito meses de vida, amarrada ao pé de uma árvore, a fim de correr em socorro daqueles homens atacados, recebera um golpe na batalha, perdera a consciência e dera por si na prisão, desconhecendo o que acontecera com a criança, sozinha na floresta. Sem saber o que ia encontrar ao final de sua expedição, voltou ao quarto e escreveu numa folha de papel: "Há três crianças pequenas sozinhas no fortim de Wapassu. Socorrei-as, pelo amor de Deus", e enfiou-a no bolso do capote. Se fosse ferida, se... Era preciso prever tudo e agir "como se..." Mas de fato, estava persuadida de que só se lançava a essa empresa para dissipar uma dúvida insuportável: era ou não fumaça, aquilo?... O que mais receava era estar tendo uma miragem. Encontrou as crianças brincando na sala, onde tinham mais espaço que no quarto.

— Podem brincar um pouco aqui, mais sair, não. — Nem para ir até o lago deslizar um pouco? — perguntou Carlos Henrique, decepcionado. — Deus do céu! Não! Não podem sair, estou dizendo. — Nem para fazer bolas de neve? — Nem para fazer bolas de neve — repetiu. — Por favor, meu homenzinho, você tem de se comportar como um irmão mais velho, como Tomás. Você se lembra de quando ele lhe dizia: "Respeite as instruções". Minha instrução é: "Não saia". Quanto aos gémeos, só lhe restava uma coisa: obedecer a Carlos Henrique. E repetiu-lhe ainda uma vez tudo o que ele devia fazer e não fazer, dirigiu uma última súplica a seus anjos da guarda e saiu para a planície. Avançava sem poder calcular a distância que teria de percorrer. Não sabia se o ponto que visava,e do qual não tirava os olhos, estava próximo ou se situava a horas, ou dias, de caminhada. Aquela fumaça ao longe era um sopro fino, uma mancha ínfima que se diluía, por momentos; perdia-a de vista, depois percebia-a novamente, sem estar certa de não se iludir. Dir-se-ia que era um sopro de agonizante, cuja interrupção significaria para ela, na verdade, quase que a morte. Seria, de qualquer modo, a perda de uma esperança louca. Felizmente, de passo em passo, a fumaça tornou-se mais precisa a seus olhos, lacrimejantes de frio, fatigados de perscrutar a luz para não perder de vista aquele traço azulado, que, finalmente, começou a se desdobrar mais nítido e mais próximo sobre uma cortina de árvores negras. A margem da floresta, homens tinham acendido uma fogueira. Não os via, mas, doravante, sua presença era indubitável. Outros pensamentos a assaltaram. Homens! Amigos? Inimigos? Homens que, vendo-a aproximar-se, uma forma indistinta e desajeitada, mexendo-se na imensidão branca, crendo talvez tratar-se de um animal, poderiam atirar à queimaroupa, como numa caça qualquer. Nesse momento e inesperadamente, um pedaço de bruma amarelada, bastante espessa, arrastou-se para ela pela-esquerda e a envolveu. "Prefiro isso!", pensou. O odor da fumaça a guiaria, pois agora podia percebê-la pelo olfato. Era embriagador. E apesar do perigo possível, Angélica estremecia de impaciência. Subitamente, sob suas raquetes, o solo cedeu. Avançando numa paisagem cujo revelo se esbatia devido à neblina, viu tarde demais a beira de uma falha profunda. Só teve tempo de se agarrar a uma pequena árvore no rebordo. CAPÍTULO XII O cunhado de Passaconaway — Insólita caridade no wigwam abandonado Angélica inclinou-se por cima da ravina. Era daquela falha que a fumaça se erguia em volutas preguiçosas, estendendo-se como um lençol e misturando-se à pesada bruma. Nesse momento, o ramo ao qual se agarrara, e que estava coberto de gelo, quebrou como vidro e ela desabou no buraco, batendo nos rochedos mas sem se machucar, devido à espessura da neve que arrastava consigo.

Viu-se no fundo, quase enterrada pela avalancha, e teve muita dificuldade em livrarse dela, encontrar a arma, que lhe escapara das mãos, e uma das luvas, que lhe fora arrancada. A neve introduzira-se em suas mangas, no pescoço, no capuz. Com movimentos de nadadora, conseguiu atingir um terreno mais firme, encontrando-se junto a um riachinho semigelado. Diante dela erguiam-se as colunatas de gelo de uma queda-d'água, um "salto", como diziam ali. Ao pé de uma cascata, no momento congelada e muda, estagnava-se a fumaça, emanando dos do-mos submersos de dois wigWatns índios, desses abrigos que os nómades armam apressadamente com varinhas flexíveis, sobre as quais jogam pedaços de casca de olmos ou de carvalhos. Através dos interstícios das cascas e sem mesmo derreter completamente a neve, filtrava-se a fumaça, traindo a presença de vida. Ao redor, e apesar da queda da neve fresca da noite anterior, distinguiam-se sinais de um acampamento. Percebeu um trenó e um arreio que emergiam e julgou ter ouvido rosnar um cachorro no interior de um dos dois cogumelos recobertos de branco. Com o dedo no gatilho, ficou à espreita. Ficara tão privada de qualquer presença humana naquelas longas semanas, provavelmente meses, que hesitava e temia o contato. Amigos? Inimigos? índios? Ou exploradores-de bosques canadenses?... A placa de casca que servia de porta afastou-se. Um rosto de mulher índia sob sua tiara de contas mostrou-se a meio, depois apagou-se para dar lugar ao do seu amo e senhor, um índio, o qual, para sair do covil, apontou à frente um alto birote oleoso, ornado de "facões" negros feitos de asas de corvo. Soerguendo a cabeça, observou a intrusa, postada a alguns passos atrás dos arbustos. Pelo perfil arqueado, o queixo curto, os olhinhos faiscantes, ela supôs tratar-se de um abenaki do sul. Assemelhava-se a Pik-sarett. A visão do mosquete não parecia impressioná-lo. Aventurando-se, chamou-o de longe, saudando-o em sua língua. Ele respondeu em francês. — Eu o saúdo. Sou Pengashi, da Federação, dos Wapanogs. De onde saiu, criança? Por sua silhueta, devia tomá-la por um jovem branco. Ela esboçou um gesto para o alto da ravina. — De Wapassu, lá longe. Ele franzia os olhos para vê-la melhor. — Eu pensava que estivessem todos mortos lá. Vi de longe as ruínas do forte e das casas... Deu-se então a conhecer, e ele pareceu agradavelmente surpreso. Ela lhe disse que estava sozinha em Wapassu com três crianças. — Aproxime-se! Entre! — intimou-lhe, afastando-se para abrir-lhe passagem pela estreita entrada. Ela fincou as raquetes diante da soleira, ao lado da cabana, e deslizou para o interior do wigwam. Uma vez fechada a porta, isto é, a placa de casca de árvore recolocada contra a abertura, aquele abrigo estreito, onde só se podia estar sentado, ficou agradável. Estavam imersos numa espessa fumaça, mas Angélica foi sensível sobretudo ao cheiro de mingau, que devia ter sido cozido numa panela colocada sobre as brasas, e do qual duas ou três crianças acabavam de juntar os restos em escudelas de madeira. Eram certamente pessoas muito pobres. Tinha escrúpulos em pedir-lhes comida. Pengashi contava que o inverno os surpreendera quando não havia sequer concluído o comércio de verão nas costas de New Hampshire. Mais que isso, não tivera tempo de caçar e de defumar carne e peixe suficientes para as provisões de inverno.

Desprovido de munições, tendo que abandonar suas peles num esconderijo ao pé de uma árvore, tornara a subir para as montanhas do interior para reunir-se à gente de sua tribo; estavam, porém, quase na mesma situação que ele, e todo mundo se dispersara, a fim de arriscar sua sobrevivência, cada um por seu lado. Seu irmão mais velho encorajara-o a dirigir-se ao norte, a fim de pensar o inverno sob a proteção dos brancos de Wapassu. Mas, após uma longa e penosa viagem, cruzou com alguns grupos dispersos de abenakis e algonquinos, que perambulavam, desorientados, e que o avisaram de que o Forte do Homem do Trovão estava destruído, não havendo vivalma ali. No entanto, não querendo acreditar naquilo, ele prosseguiu, e percebeu de longe as ruínas enegrecidas; resignou-se, mas, como estava quase sem víveres, antes de partir em outra direção procurou um lugar propício para acampar, a tempo de preparar armadilhas. Esperava poder apanhar alguma caça, muito rara devido ao inverno precoce. Tinham erguido suas cabanas havia três dias. No fundo de sua ravina, preocupado apenas com as armadilhas e a caça, antes de pôr-se novamente a caminho, nâo.pensara em examinar mais de perto o sítio de Wapassu e procurar ali sinais de vida, o que explicava que não tivesse notado a fumaça do fortim. Sua intenção era continuar para o norte e pôr a família ao abrigo das missões no Forte de -Richelieu ou no Forte Sainte-Anne. Enquanto falava, fumava seu cachimbo em pequenas baforadas e conservava uma expressão satisfeita, abanando a cabeça com o ar entendido de alguém que tem convicções próprias e que se felicita por ter conduzido tão bem os negócios. — O Forte de Richelieu? O Forte Sainte-Anne? Mas fica muito longe — observoulhe Angélica. — Por que não tentam voltar Pela Chaudiéré em direção a Quebec? Teriam de percorrer uma distância menor. Ele sacudiu a cabeça. Ouvira dizer que o exército do novo governador invernava no Forte de Richelieu e nos dos lagos Saint-Sacrement e Champlain, e que as barcas haviam passado todo o outono levando um abastecimento monumental de Montreal para lá. Não apenas ficaria com os seus, protegido da fome, mas também estaria no local quando chegasse a primavera, para participar da grande campanha guerreira que se preparava contra as Cinco Nações iroqueses. De repente perguntou o nome das crianças que estavam com ela no fortim, e quando ela respondeu, manifestou novamente uma grande satisfação. — Carlos Henrique! Carlos Henrique! — repetiu várias vezes. Depois, inclinando-se para ela, com um ar malicioso, confiou-lhe: — Sou o cunhado de Jenny Manigault. Em resumo, ele era o irmão de Passaconaway, o chefe dos pemacooks, que raptara Jenny, e com quem ela fora se encontrar depois de sua fuga, confiando seu filho Carlos Henrique a Angélica. Pengashi achava que seu irmão mais velho agira mal raptando uma francesa. — Nós dissemos a ele, no começo, nós, seus parentes, amigos. "Meu irmão, tome cuidado", sempre lhe dizíamos. "Você raptou uma francesa, e nossos aliados brancos do Canadá vão criar problemas conosco." Então, ele foi se esconder nas montanhas Verdes, mas, depois, avisou-me que soubera que sua cativa francesa era da mesma religião que os ingleses, daqueles que tinham crucificado Nosso Senhor Jesus Cristo, e que, por essa razão, seus compatriotas franceses a considerariam como prisioneira, se lhes propusesse devolvê-la. E, longe de resgatá-la, os franceses a entregariam a

outros abenakis como butim. Compreendeu então que ninguém viria tomá-la dele, se soubesse precaver-se contra uns e outros. A última vez que Pengashi vira o irmão, o chefe Passaconaway, ele se preparava para "descabanar" com sua família, comnosta de Jenny e da criança que tivera com ela, uma menininha, sua mãe e um jovem primo, que perdera toda a família na guerra do Rei Filipe. O inverno anunciava-se muito rigoroso nas montanhas Verdes. Quis se aproximar do litoral, preocupando-se em não atrair a suspeita dos colonos ingleses que avançavam, cada vez mais numerosos, em direção às montanhas para deslindar a floresta, e que viam por toda parte, assim que a pluma de um selvagem despontava, contingentes guerreiros do norte canadense, franceses e abenakis, vindos para escalpelá-los. Passaconaway não era batizado como Pengashi, que era cristão, assim como sua família, e até seus pais. Passaconaway desconfiava dos homens brancos que podiam vir tomar-lhe Jenny; dos franceses, porque ela era de sua raça, e dos ingleses, porque era de sua religião. Ficaria feliz por poder levar a Jenny notícias do filho. — Se você voltar para o norte, não terá tempo de rever seu irmão nem de transmitir a Jenny notícias de seu filho — disse ela. Mas essa noção de tempo e de distância não impressionava o índio. De qualquer modo, a campanha de guerra contra os iro-queses os conduziria para perto das regiões onde se escondiam Passaconaway e sua pequena tribo. Depois que os iroqueses fossem aniquilados, Pengashi poderia seguir um contingente decidido a recolher as cabeleiras dos ingleses entre os habitantes das fronteiras, o que o colocaria nos limites da hinterlândia do New Hampshire e das montanhas Verdes. Poderia subtrair alguns dias aos combates para encontrar os seus e visitá-los. No wigwam de Pengashi havia duas mulheres. A' mais nova dava de comer a um bebe amarrado a uma pequena prancheta. Era sua filha mais velha, cujo marido morrera esmagado por uma arvore, durante seu êxodo. — As neves chegaram muito cedo. As árvores não tinham ainda perdido as folhas. Com o peso, muitas delas se quebraram. A outra, a esposa, observava Angélica com um olhar pouco ameno. Apesar da estreiteza da cabana, resolvera besuntar os cabelos com gordura de urso líquido. As índias tinham sempre muito cuidado com os cabelos. Aquela, a despeito de sua situação precária, não derrogava seus hábitos. Perguntou a Angélica se não tinha um pente para dar-lhe, de chifre ou de osso, pois o seu, de madeira, se quebrara. Pengashi mandou-a calar-se, com mau humor, e Angélica compreendeu que lhe censurava desperdiçar banha de urso quando suas provisões estavam esgotadas. Sua filha mais velha, a jovem viúva, por sua vez, indagou se a mulher branca podia fornecer-lhe uma faixa para seu-recém-nascido. Acusava também o inverno. Não pudera fazer uma provisão daquela penugem de caniço ou de madeira de pruche socada com que se revestiam as coxas dos bebes, a fim de não sujar as peles. Mais uma vez, o índio mandou a filha calar-se, lembrando que as mulheres tinham usado o pó da madeira de pruche para desengordurar os cabelos, antes de lavá-los, só para tornar a engordurá-los depois. Seus cabelos! Sempre seus cabelos! E não tinham o que comer! Mas logo depois pedia a Angélica, para ele, álcool e também uma coberta, pois não pudera ir à feira buscar nos navios ou no posto do holandês as mercadorias de que precisavam.

ordenou com voz rude à pequena criada que atiçasse o fogo. para jogá-los numa panela colocada sobre os tições. raspava cuidadosamente uma pele. Com a perspicácia de seus congéneres. Tinham lenha para se aquecer. pelo menos. . Pusera-se a caminho tão persuadida de estar indo em direção a uma miragem que não pensara em se munir. mas as reservas de alimentos estavam se esgotando. Uma menina de cerca de doze anos. que um companheiro sobrevivente fora buscar. — Meu irmão era tão louco por sua cativa branca! Deu-me vontade de ter uma também em meu wigwam. fazendo-lhe m sinal para que entrasse com ele.os yennglis nos perseguiam e tivemos de matar quase todos os nossos outros cativos. Ela já não era uma criança de yenngli. Mais uma pequena cativa inglesa. Pengashi explicava aos pais quem era ela e as razões de sua vinda. Daqui a pouco estará suficientemente grande para tornar-se minha esposa. Com certo orgulho. sem parar de fumar e sem que um músculo de seu rosto se mexesse. E a neve recobrira completamente o lugar das armadilhas. no centro da cabana. que não podiam manter a velocidade. tinham um reflexo dourado. Angélica ouvia-o. Observando a pequena índia curvada sobre sua tarefa. entre as quais Carlos Henrique. as crianças acabaram deixando-o para o cachorro. deve ter compreendido a linguagem muda de seus olhares.Angélica lamentou não ter trazido álcool. Depois de fechar cuidadosamente a abertura. depois de muitas encenações. o homem fumava seu cachimbinho de pedra vermelha e a intervalos.um homem e uma mulher de tranças grisalhas. Esperou que o calor voltasse ao interior da cabana para desenrolar as peles. Esperava socorro. Coberto com um gorro de pele. Estava sozinha naquele fortim com as três crianças. seguimos a campanha do Toga Negra. da qual arrancava os últimos fiapos de carne e de nervos. mas que deixava vislumbrar manchas de sardas. Acabou de fumar seu cachimbo e. Angélica surpreendeu o olhar de curiosidade que ela lhe lançava e viu uma pupila clara numa carinha magra escurecida pelo sol e pela gordura. podia-se perguntar se tinham ouvido alguma coisa do que lhes dizia o filho. Apesar da gordura que os untava. Ele penetrara até o fundo do wigwam e soerguera uma placa de casca de árvore que formava a parede. de um pouco daquele produto de troca. dirigiu-se ao segundo wigwam. mas até agora não chegara ninguém. Então dei-a como criada para meus pais. Coloquei-lhe esses mocassinos nos pés. os cabelos trançados. acabou. menos atenta a suas palavras que aos gestos. estendia-o à velha esposa. Enquanto falava. pois . Eles escutavam. com um grupo aliado. sempre fumando. Pengashi. sentados com muita dignidade no fundo da cabana. dando-se ao trabalho de respeitar as regras de cortesia devidas aos ancestrais. lançando-se depois avidamente àquela suprema bolinha de pasta. Há alguns anos. Arranjei um meio de cortá-los e costurá-los. que desceu ate as proximidades de Portsmouth. não podia deixar de olhar cobiçosamente para a tigela com gordura de urso e um resto de mingau de milho. presos na testa por uma tira bordada com miçangas coloridas e cerdas de porco-espinho. Angélica e seu anfitrião tomaram seus lugares. Recomeçou a explicar sua situação. dirigindo-lhe novamente uma de suas piscadelas de conivência. envolto em peles. È por isso que Ganita não gosta dela. endurecidas pelo gelo. Ela era tão pequena e tão loura! Fui eu quem lhe calçou os primeiros mocassinos. tirando um volumoso pacote coberto de gelo. E depois. para que desse algumas baforadas. mostrou um grande bloco gelado de uma matéria avermelhada. pediu-lhe que o acompanhasse ao lado de fora. Raptei esta menina. que esperara pacientemente sua decisão. Dois velhos encontravam-se ali. por menores que fossem. apesar da corrida na floresta. Este não se aborrecia com sua indiferença. agachada ao lado do fogão.

O inverno é um inimigo traiçoeiro e cruel. um saco. o que ela fez com rapidez e habilidade. Para Tenny. depois parecia reconsiderar e arrepender-se de seu gesto. contou na concha da mão. uma palavra escrita. pediu que Angélica estendesse as suas para recolher a preciosa provisão. sacudia um pouco o saco. Eles aprovam que eu seja parcimonioso. e nunca é demais precaver-se. . Quem sabe! Com o fuzil. enrolando-o num pedaço de pele. Ela se confundiu em agradecimentos. Um filhote de gamo.— Fiz uma boa caça anteontem. e se corrigia. como o parentesco o constrangesse a certas obrigações para com ela. Ela não tem miolos. preferia dirigir-se ao Grande Espírito. Não tinha papel. derramando mais um pouco. Hesitava. Exceto uma aliança muito larga em seu dedo emagrecido. Ela prometeu trazer aguardente. talvez eu consiga um pouco de carne para partilhar com você. nem pena. se o Grande Espí rito continuar a ser bom comigo. Enquanto ordenava à pequena criada que costurasse as bordas do embrulho. — Tenho também um presentinho que Jenny me deu para seu filho. cortou um grande retâgulo de carne. também cuidadosamente cortado. Pengashi rejubilou-se. Meus pais não dirão nada. Mas não contei tudo a minha mulher Ganita. puxava. entregando-a a Pengashi e explicando-lhe que Jenny reconheceria aquele anel. — Pode dar-me também seu fuzil? — pediu o abenaki. Aposto que foi essa danada da Ganita que o furtou de mim. Pegou num canto uma velha lâmina de espada bem afiada e. e não usava nenhuma jóia. — Tenho direito a um fuzil. Com alegria por levar víveres suplementares para alguns dias. acrescentava três ou quatro pastilhas de suplemento. com tanto cuidado quanto um avarento com suas moedas. — Eu sou o cunhado de Jenny Manigault — respondeu. nem tinta consigo. mas não consigo encontrá-lo:. parcelas pretas ou amarronzadas de um produto leve. Apesar de batizado. Quando a mão ficou cheia. podia dar-se a esse luxo. uma coberta para sua velha mãe e a faixa para o bebe. hesitava novamente.Não teria com você algum objeto que eu pudesse entregar-lhe uando tornar a vê-la? Meu irmão mais velho acha que sou mentiroso. Volta daqui a três dias. Ela logo ia querer fazer uma patuscada. Eles defendem do escorbuto. de um outro buraco. cujo valor parecia apreciar tanto quanto o ouro. Assim ele poderá ver que falo a verdade. a volta lhe pareceu fácil e rápida. quando se tratava de caça. do qual retirou duas raízes de rábano e uma colherona encerrada numa bainha de couro corrediça. Abrindo-a. Essa generosidade que demonstrou e que o deixou satisfeito não lhe custou caro. Com todo o arsenal armazenado nos flancos do fortim de Wapassu. com três ou quatro golpes decisivos. Chegou a casa antes da noite. após guardar a aliança na sacolinha suspensa ao pescoço que todo índio usa no peito. --. — Deixa esses frutinhos dos bosques incharem dentro de um caldo. pois sou batizado. do lado de fora. Mas vou fazê-la confessar. Acabou tirando-a meio maquinalmente. que vira em sua mão. Angélica procurou alguma coisa que pudesse deixar com o selvagem e que testemunharia a Jenny que ele a encontrara.

depois de desobstruir mais ou menos os arredores da entrada. mais pesadona que um urso. Os flocos ficaram mais esparsos. apesar de quase apagados. em enormes flocos macios. Aquele Pengashi a enganara com seus projetos de voltar para as montanhas Verdes. ainda não se levantara e provavelmente não se levantaria. duas cobertas de lã inglesa de Limburgo para os avós.Aliviada. Com a passagem constante de névoas e nuvens no horizonte. era impossível tentar localizar os sinais de fumaça do pequeno acampamento perdido. O céu baixava cada vez mais. sabendo que não poderia dar dois passos sem ser derrubada. não percebeu a beirada abrupta do despenhadeiro e. os ramos em forma de candelabro. em compensação. apertou contra o peito as crianças. . com as folhas despojadas cor de osso. a neve recomeçou a cair. sendo varrida de um lado para outro. não perdera nem a raquete nem as luvas. tão pequenas. teve de esperar pelo dia seguinte para ir ao acampamento dos índios. ameaçava recobri-las dali até a sua volta. o que não tinha gravidade. Agora o vento cessara totalmente. atingir as missões do norte? Deixou passar alguns dias antes de retomar o caminho de seu acampamento. A ravina assumira um aspecto fantasmagórico. esperou mais-um dia. Quase imediatamente. turbilhonando com lassidão. a neve recomeçou a cair em grande flocos. Apesar das raquetes. mole e silenciosa. deixando sob um céu baixo e ameaçador um mundo decapado. um pente. se quisesse rastejar. parando pouco a pouco. naquela estação. pobre coitado. na mesma precipitação de neve. Com medo de se perder. Esperou. um vento desagradável começou a soprar. lamentou não tê-las cortado mais compridas. pois a neve. No intervalo. apesar de não estar muito bem provida. houve uma calmaria. Será que conseguiria. não tendo pressentido a tempo o desnível. encontrou. Como da primeira vez. algumas faixas de pano e. Prosseguiu a caminhada. recoberto por uma carapaça de gelo. Como eram corajosas. mas. Levaria um quartilho de aguardente. confundindo-se com os rochedos submersos. pois ela lhe amortecia a queda. durante a noite. mas as pancadas de neve. que transforma uma paisagem já escura numa muralha intransponível. como da vez anterior. Caía compacta. sem o mínimo galhinho. Contra qualquer expectativa. Na manhã seguinte. depois outro. que corroía como poeira de aço a superfície da neve. vestígios de sua antiga pista. teria rodopiado. mas suficiente para que tivesse a possibilidade de saber em que direção estava indo. pareciam não ter fim. e. Dessa vez. ao rés-do-châo. Precisou de mais tempo para se livrar da neve. Ela deixou para falar-lhe sobre a mãe mais tarde. caindo como um dilúvio. Fez suas recomendações a Carlos Henrique. As árvores estavam transformadas em longos círios gigantes. compreendeu por que. Avançava lentamente. guiando-se pelo sulco muito tímido do trajeto anterior. As coníferas estavam negras como tinta. sem se inquietar e sem fazer tolices! — Comemos ê depois dormimos — disse Carlos Henrique. Mas. sem uma pitada de neve em suas agulhas. afundava até os joelhos a cada passo que dava. içou-se para fora e rumou para a planície. um dia o vento começou a amainar. Devido ao adiantado da hora. Um trecho do horizonte se descobriu para oeste num espaço restrito. munira-se de um feixe de varinhas para balizar a pista. foi arrastada para o fundo. e. e a própria cascata desaparecera. mas o vento. Pengashi erguia suas cabanas na parte mais fundas das ravinas. chorando suas lágrimas de cera lívida. Vento seco mas glacial. Finalmente. por terem sabido esperá-la sem se assustar com sua ausência.

Levantou a cavilha de madeira. "Eles descabanaram. infiltrando-se por um buraco no teto. Nas mãos abertas de cada uma das duas personagens hieráticas. em seu alívio de sabê-los presentes. percebeu a forma redonda de um dos dois abrigos e. eu fico. à procura das missões e dos postos franceses. passando-o um para o outro. e depois. sentados lado a lado. como já esperava. Uma fina poeira de neve. sublinhando-lhes de branco as dobras das roupas. tal como os deixara. e percebeu os dois velhos no fundo. assim como os dois velhos. o velho índio colocara o objeto sagrado diante dele. um detalhe insólito atraiu-lhe a atenção adormecida. eles já estavam longe. impassíveis. Mas. compreendeu que estavam mortos. não teve resposta. os filhos. e acompanhado pela mulher. na obscuridade que pouco a pouco se resfriava. Com um gesto instintivo. pulverizava os tições do fogão. da primeira vez. carregando e arrastando os aprestos dos pobres e derradeiros bens. numa direçào tão distante quanto incerta. Depois." Depois. Pengashi deixara-lhes o wigwam para abrigá-los. Pouco a pouco. com as mãos colocadas sobre os joelhos. . Continuavam tão vivos que se continha para não colocar em seus ombros as cobertas que trouxera. também salpicado de neve. Saudou-os. uma última pitada de tabaco para o cachimbo do pai. repousava uma espécie de torrão de alguma coisa indistinta. até que viu à sua volta que a neve começava a se depositar sobre suas roupas e que estava petrificada de frio. após a última baforada. lá onde só existe calor e luz. Angélica ficou inerte. ajoelhada diante das duas dignas múmias. fixavam-lhe os olhos turvos. por aquele espetáculo macabro. quando notou o cachimbo apagado colocado diante do homem e constatou a invasão da cabana pelo sopro-imperceptível da poeira de neve. estava vazia e meio encoberta pela neve. Chamou. com as pernas cruzadas. Minha pista termina aqui". Sob a luz baça que entrava pela abertura. o bebe e a cativa inglesa. Com uma última panela colocada sobre os tições. deixaram vir a morte. não se preocupou por não ver fumaça. depois. aproximando-se. e no entanto nobre e sereno. o homem com seu gorro de peles e a velha com sua tiara bordada enfeitada com uma pena. continuando seu caminho pelas planíceis do Grande Espírito. retida involuntariamente. afastou a casca de árvore da entrada. contendo duas supremas rações da sagamité. Segundo o ritual e a tradição. estendeu a mão para a panela. Esperaram que o último tição se apagasse repartindo então os últimos bocados de alimento terrestre. com seus passos lentos nas raquetes.Nem sinal dos wigwams. retomou sua marcha para o norte. No momento em que Pengashi e sua família partiam de novo. recolocando cuidadosamente a placa de casca de árvore que servia de porta. um último fogo aceso diante deles. Seme-lhava-se a um grande cascalho de lama. sem saber por quê. pelos espaços nevados e pelos furacões. Não pareciam dar-se conta daquela neve fina que pouco a pouco os recobria e. sem pensamentos. o ancestral dissera: "Meu filho. a filha mais velha. Só depois de um bom tempo. não se cansava de contemplá-los. Tinham fumado calmamente o cachimbo da paz. Quando o galho desabara sobre o teto do wigwam.

pois parecia fazer parte da oferenda. entre saquitéis. também pegou-a. reconheceu uma armadilha de aço para os pequenos animais de pele e se lembrou de que se queixara a Pengashi de não ter encontrado as que o inglês colocara no outono. pequenas granadas engastadas em prata cinzelada. Trémula. Portanto. via brilhar aquelas cruzinhas de ouro feitas e usadas pelos índios batizados do sudeste. Prestes a entregar o presente a Carlos Henrique. desprendeu os dois pedaços das palmas esquelétricas e hesitou. que não vira anteriormente. receou abalar o bom equilíbrio do menino. desejando que sua aliança pudesse um dia chegar até a pobre criança. quando iam partir para lá. entre os amuletos de dentes de ursos. Uma coisa de nada tocava-os. o que levara vários meses. oscilava. esforçando-se por tapar a abertura no teto. medalhas. que o arrastara duas estações de wigwan a wigwan. Recuando de joelhos. Sabia que.Mas ao se aproximar percebeu quê era comida. CAPITULO XIII Os pingentes de Jenny Manigault — A loucuras do silêncio Quando esvaziou a pequena sacola de couro encontrada perto da avó. Ao se retirar. que poderia lhe oferecer uma última oportunidade. Em troca do fuzil. Dois grandes blocos congelados de mingau de milho. Ajustou e firmou melhor a porta. a ruptura não teria deixado nele uma ferida? Evocá-la não iria despertar sua nostalgia e mergulhá-lo na melancolia? Ele aprendera a sorrir em Wapassu. adulta. Se. cerdas de porco-espinho. saiu do wigwam. . Deveria ver nesse gesto uma suprema oferenda ao Deus da caridade sem limites que os Togas Negras lhes ensinaram a cultuar? O que era uma ração a mais nesta terra. a falar-lhe da mãe. atingia-os. Sua sensibilidade se aguçava. reconhecera nela sua mãe. a fim de. Estremeceu com uma alegria insensata. Transbordante de gratidão. A última refeição dos ancestrais. de sua odisseia com a índia. Pela forma. interrogando-os com o olhar: "E para mim? Sabiam que eu ia voltar?" Em seus peitos. e não se podia saber de que modo repercutiria o menor choque. — Obrigada! Obrigada! Que Deus os abençoe. conteve-se. ainda que fosse mais fácil distraí-los. As crianças não eram infensas ao que ela mesma. enfiou seu butim na sacola. não conservava uma lembrança feliz. onde estariam saciados para sempre? A mulher branca e as crianças brancas de Wapassu tinham fome. olhando uma última vez para os velhos. um par de brincos pingentes deslizou na mão de Angélica. Havia também uma sacolinha de couro colocada sobre a porção que a mulher segurava. tinham pensado. Evitava sempre falar a esse respeito e não respondia quando se aludia a ela. Eram os brincos que Jenny Manigault de La Rochelle usava no dia em que fora raptada pelos índios. misturado com pedaços de carne e frutas secas. o índio lhe deixava um de seus instrumentos de caça para comércio. A fome tornava a todos frágeis. experimentava. por outro lado. chocou-se com um objeto envolto em pele. em que não haviam tocado. colares de conchinhas. Angélica contemplou-os com emoção. evitar-lhe o máximo tempo possível o ultraje dos animais carniceiros.

organizavam com os vizinhos batidas em suas terras. Mais tarde as entregaria. Mas será que Pengashi voltaria algum dia. Como último recurso. o homem arriscava-se a ser enforcado. aquela música macabra que pairava perpetuamente nos grandes espaços selvagens. enquanto se perguntava se era mesmo daquele modo que se procedia e censurando-se por não ter testemunhado maior interesse pelo manejo daqueles engenhos de desgraça. ele também. foi preparar a armadilha que lhe deixara Pen-gashi. Muitos continuavam a caçar com arco. Ele gostava dela. os índios comeriam o cachorro. em seguida. com a malvada mandíbula de aço que era preciso fechar sobre o pulso. os senhores da vizinhança. em Salem. toda caça desaparecera no céu e na terra. ao menino. Colocou-a ao abrigo de uma árvore. A visão daquela pequena família errando através do deserto branco forneceu-lhe a medida do isolamento em que estava encerrada. sentados em volta de uma boa mesa. se degustavam regados com creme e melaço. As vezes. com os dedos entorpecidos. reservando-se aos chefes o uso das armas de comércio. Tocada pelo inverno. um fidalgote provinciano. Pensava vagamente em tudo isso enquanto lutava. panelas. aguardente.Recolocou as modestas jóias na sacolinha. Chamou Ruth e Noémia em seu socorro. o índio teria alguma possibilidade. Mas os San-cé de Monteloup sempre foram pobres demais para pagar os serviços de um couteiro. a fim de não descontentar os franceses. Saberiam que estava viva. Ela sonhou com favas no toicinho e feijões de Boston. num lugar que lhe pareceu propício à passagem da caça. e muitos outros objetos dos quais eram ávidos e aos quais nãò podiam renunciar. a alguma distância do posto. quando ele estivesse maior. tanto pelos brancos como pelos índios. O tráfico de peles era terminantemente recusado em Wapas-su. lâminas de espadas. mas ele estava se generalizando. em troca das mercadorias de trato: machados. "que vinham em suas canoas. mas arrebataram-lhe a esperança. na casa de Abigail. a influenciara. Não se arrependia de ter-lhe deixado a arma. moeda de câmbio. Armas de caçadores furtivos! Seu pai. facas. Disse consigo que fora estúpida. sacrificou uma bolinha de carne para a isca. . que. Não gostava de imaginar aquele estalo perpétuo das armadilhas fechando-se sobre os bichinhos dos bosques. tão esfomeados quanto seus aldeões nos anos de má colheita. que assustou as crianças. no entanto. pois fora a única a consolar sua pequena infância abandonada. As armadilhas serviam à captura dos animais de pêlo. na América. com sua mania de se identificar com toda criatura inocente maltratada. Com o fuzil. Honorina. ou quando tivessem saído daquele pesadelo e estivessem todos reunidos. à praia dos vivos? Sem fim era a pista. mortais as tempestades. Agarrou-se à ideia de que Pengashi falaria dela. Em sua juventude. praguejava contra os camponeses furtivos que lhe pilhavam os coelhos-bravos para poder colocar um coelho na panela. e o barão nunca enforcou ninguém. na primavera os indígenas levavamnos para a feitoria ou entregavam-nos aos viajantes e exploradores de bosques. Pego em flagrante pelo couteiro. por isso Angélica se desinteressara. segundo a lei senhorial. Ali. Tinham-lhe dado uma prorrogação de alguns dias de alimentos. a situação lhe pareceu pior que antes. Assim que pôde. a fim de pegar um veado ou dois. não era tão sensível em relação aos bichos. Seres humanos tinham vindo e. partilhando-o entre eles. a carne de veação era caçada com fuzil. Despertou dando um grito de decepção.

adivinhando que era o fim de Wapassu e que era preciso fugir. aureolados ao mesmo tempo de esplendores terrestres e ingerências místicas. Daria o triunfo a seus inimigos. Procurarão o caminho das charnecas e dos planaltos. ele. Imagine antes que estão felizes por ter reencontrado o espaço. Era preciso lutar contra a loucura do silêncio. "Não pense. o fogo de seu coração e as chamas de seu génio. A ele... Quando Honorina voltasse." O pior seria a morte das crianças.. que haviam jurado terminar com a alegre força daquele espírito livre. quando subia à plataforma. minha queridinha! Meu tesouro!" Honorina sobreviveria. que estava entre os iroqueses. enquanto Carlos Henrique se inclinava sobre ela. ensinar-lhe-ia a atirar com o arco.. não podia fazer isso.. percebera numa visão relâmpago os cavalos que. seria ela quem infligiria o golpe de misericórdia naquele homem indómito. que se defrontara com a tartaruga gigante. Não sabia se aquela visão lhe causava mal-estar ou se a tranquilizava. Irão para os lugares onde há menos neve e muita grama e povoarão a América.Montanhas de pratos fumegantes. tão só. Os últimos anos tinham sido marcados por um selo de vitalidade cintilante. E fora encontrar-se com Honorina. Nós lhe trazíamos cavalos! Trazíamos o teto e o incenso da fumaça dos homens. Era a mais forte de todos. de florestas e precipícios. "Eles descerão para o sul. — Não chore. no fim do verão. de certa forma. no momento do ataque dos índios.. ao longe." As crianças berravam a plenos pulmões. Trazíamos a aliança dos homens de boa vontade. Eles saberão encontrar o caminho. que se lhe deparavam como na mesa do rei. manter sua atenção desperta. obrigava-se a falar com as crianças. Tinham sido habituados a viver ao ar livre e. "Você me traiu! Você me traiu". Pensava nos primeiros dias de sua chegada ao Novo Mundo. "Honorina. o anunciara. como que tomados de pânico. Se desaparecesse. Joffrey recebendo a notícia. reencontrarão seu instinto. que dissera: "Agora não poderia mais viver sem você". Os cavalos!" No outono passado. Dizia-lhes que o cão boboca dera provas de grande inteligência. símbolo dos iroqueses. mamãe! Eu os vi galopar! Não se deve ficar triste. Seus rostos pálidos iluminavam-se quando se pronunciava o nome de Honorina.. alguns se tornavam novamente selvagens e indomáveis. enquanto corria para a cabana de Lymon White para se refugiar. sua égua. Havíamos feito umcontrato com você. e o inverno chegara cedo demais. "Você prometeu. Os trabalhos dos homens." Mas o Maine era uma região muito difícil. tão renegado. galopavam através das pradarias. depois sua própria morte.. censurava ao horizonte mudo. inquieta e atormentada como ela. se organizarão em rebanhos. . Fora embora antes do incêndioe. que emprestavam a tudo um sentido diverso daquele que lhe atribuíra outrora. CAPITULO XIV Entre a fome e a tempestade Angélica começava a duvidar de que o "pior fora evitado". Livres. Pensava em Wallis. "Os cavalos!.

Jó queixando-se de sua miséria a Deus: "Tu me engoliste como o leite! Tu me partiste como o queijo. ordenava Angélica a si mesma. você me deixou depois de tirar-me todas as forças. .. que atingiu o fundo de sua desgraça. parcimoniosamente dividido entre eles. três dias no máximo.. já não eram as expressões enérgicas do Pátio dos Milagres que lhe voltavam aos lábios.. o coro dos destruidores. num estado de sonolência. Ciclo infernal. mas. como fizera no início. Eu lhe prometo que sobreviverei". Para ganhar . . dando-o também às crianças. a mim. mas um tirano de qualquer modo. que a disputava comigo. invocações que lhe emergiam à consciência como as bolhas de seu desespero.. O coro dos medíocres. Não poderia naquele dia arrastar-se até a ravina de Pengashi. Mas bebeu com avidez.. significa que ele entrevê o fim de suas esperanças terrestres. sem as crianças!. os bispos. os ignaros.. ouvia-se murmurar: "Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!. Pegava um pouco de aguardente no côncavo da mão e friccionava as crianças para revigorá-las. quando se manifesta no ser humano.. é preciso não esquecê-lo. Partir.. que ruim!. em todos os lugares!. desta vez. azar. Angélica.Você me corroeu o coração.. que lhes dispensaria os corações em farrapos. como Dalila.. composta por um bardo feroz. Pois então. ela se privava... meu amor. os pedantes. dia para as crianças. os ciumentos.. clamando com alegria: "Desta vez. Dir-lhe-ia: ". sustentava-se com aguardente. história caçoísta recomeçada. como da primeira vez.... Andar até os bosques lá embaixo. Deus lhe devolveu tudo. Ao despertar.. os incapazes.. e todos pareceram menos dolentes depois. Fazia parte dos fenómenos da fome. os medíocres. É preciso crer em Deus! Deus permanece. bebeu-o como um néctar precioso. tão convencido de seu poder de sair de todas as dificuldades por seus próprios meios. que não me deixaria capturar nas malhas do Amor. A neve caíra sem descanso.. No fim.. E todos sabem que esse apelo à ajuda suprema. Lymon White tinha suas pequenas fraquezas.. os tiranos débeis e os tiranos inspirados. Será que poderia fazê-lo?. Depois de preparar o café com o máximo cuidado. "Deus que está em toda parte. de insultar o destino. como diz a oração.Ele teria o direito de censurá-la para todo o sempre. Carlos Henrique fez uma careta."... toda manhã." "Não pense! Não pense!". Foi um belo dia. encontrou um restinho de pó de café turco numa lata..". Tinha de resignar-se a isso. — Hum. E depois. como o Rei-Sol. Pôs cinturões e retalhos de couro para ferver e fazer uma gelatina. e que ela sobrevivesse e reaparecesse diante dele. o que é repulsivo. gritou.. quando sua imaginação esmorecia. Dois dias.. teria alucinações." — "Não! Não! Não diga isso. De tanto procurar em todos os cantos. : Ninguém.. Pois sabia que desgastava inútilmente suas forças.um. para em seguida desaparecer e me deixar desarmado diante daqueles que juraram minha perda." Bem se vê que tudo isso foi escrito por homens e não por mulheres!. que acompanhava as poucas colheradas de alimento.. Nenhum ser humano!. com os cabelos de Sansão.. Não! O pior seria a morte das crianças... os devotos. estão vencidos!.. Já nem tinha coragem.. os tolos.. Estava dominada pelo medo das alucinações." "Jó!..

. entretanto. não poderia levantar-se mais e deslizaria lentamente no sono da morte. desmaiou no caminho. surpresas. extraía forças da impressão de estar fazendo alguma coisa. Mas. não paravam de passar. saindo e se movimentando. A frisa malva e cinza das montanhas desenrolava-se contra um céu realmente cor de pêssego. quando tudo o que pode ser comido já o foi? Não se deixa nem a um talo de grama tempo para crescer entre os lajedos. contava ela. já que dispunha de muitas. sob o Cardeal de Richelieu. cobrindo-as de beijos e murmurando-lhes palavras reconfortantes. sacerdotisa de um sacrifício de que era a única celebrante. espreitando-lhes a respiração em seus lábios descorados. acreditaram que o teto ia despencar. esqueciam as agonias da fome. mas com uma violência brutal que acordou as crianças. No sono. seu distanciamento da casa. o blizzard começou a soprar. presenciara o sítio de La Rochelle. se esforçava para abrir a porta e subir para ver o nascer do sol. A noite. pensei que estivesse dormindo. com os filhos ao lado até . "Tão bela e indiferente?" Também lhe foram recusados aqueles momentos em que. gritava à Natureza. Outra vez. Aquecera seus corpos franzinos com tisanas. Acabou por retirar a isca. Quando. ácido. Se se limitasse àquele único cómodo. de manhã. O poente aquela noite foi de um amarelo agressivo. jovem mãe de três crianças. Os negros esquadrões de tempestade. "Certa manhã. Não veio de mansinho. em meio às rajadas de neve. procurou-a em vão. Uma vez. A velha Rebeca que. de um azul água-marinha. não saberia dizer até hoje com que forças. Não tinha mais coragem de vê-las definhar. Era belo mas inquietante. elevando as mãos com as palmas unidas como para uma invocação." Então Angélica se precipitava à cabeceira das crianças. "Por que você é tão cruel?". — Eles passam! Eles passam! Estão apenas passando. às quais misturava plantas calmantes. encontrando-a sempre vazia. Por enquanto. quando se arrastava novamente até lá. tomava ares de fuga. Postava-se diante do horizonte. onde as crianças repousavam. aíordou dura de frio. arrastou-se para o abrigo. Apertava as três crianças contra si. sem que se pudesse saber se era dia ou noite. e só conseguiu reencontrar o fortim guiando-se pelo cheiro fugaz da fumaça. Mas lembrava-se das histórias da velha Rebeca. por ocasião de breves claros no céu." "Foi meu filho mais velho que se foi em primeiro lugar". estavam dormindo.Examinava periodicamente a armadilha. Angélica abençoou o céu por estar o posto tão profundamente ancorado na terra e na rocha. habituadas todavia a esses uivos das noites de inverno e às sacudidelas dos batentes. "O que se haveria de encontrar numa cidade. As noites e os dias sucediam-se. Mas estava morto. o cadáver de um mártir Precisava ao menos reunir suas energias para mover-se através do espaço estreito que lhes permanecia reservado. CAPÍTULO XV Em meio ao delírio. Depois subia de novo ao outeiro. perdeu-se. contrastando com o encarneiramento das montanhas. de La Rochelle.. que poderiam consumir.

untada de óleo. Outra hora. se empenharia em abri-la e depois arrastar-se. Do lado de fora. a tranquilizava.. do mesmo modo que é necessário mexer-se e ativar-se quando o entorpecimento do gelo se apodera dos membros e do espírito. parcimoniosamente. A fome chegaria antes do escorbuto. Lançava aos ombros sua manta. Poderia orientar-se? Desprender o aparelho da massa de neve? Começou a andar em volta do quarto. Abria a porta do quarto e tomava o corredor com a mesma. podia ler muito bem em suas carinhas e corpos o que lhes faltava. — Levante-se! Mova-se. talvez. passo a passo. Proteção contra o frio! Todos os dias viria despregar um pano da cortina. carne salgada. tinha obrigação de servir-se delas. Arrancou com a faca a proteçào de pele. ganhou novas esperanças ao vê-las sorrir e até rir e pronunciar algumas palavras.que. is fazendas vizinhas que. percebendo-lhes a avidez. inspecionava os estábulos e armazéns. se espalhavam fora dos muros. que não podia satisfazer. Deu consigo correndo _ na superfície gelada e cintilante. Ergueu a gola do manto até os olhos. repetindo: . Por ali. até a armadilha. e cada dia. percebeu que a porta bloqueada pela neve tornava impraticável a saída. Alimentou as crianças. receando a cada dia perceber os sinais precursores do mal terrível. talvez mais. batendo o tacão no assoalho. visitava os acampamentos indígenas mais próximos. Já que. Naquele dia. fixando-as com pregos. milho. parando de dispensar-lhes seu próprio calor e suas forças vitais. pouco a pouco. prometeu a si mesma. no gesto habitual. fugia da visão de seu último sono. Estava coberta por um suor de fraqueza. ocupou-se em tapar o respiradouro com uma proteção de esponja e de peles.. Pelo interstício desobstruído. Dedicava-se todos os dias a retirar o gelo do respiradouro. desesperada. lhe restavam ferramentas.'a serenava. dosando cada bocado. Ia poder desse modo determinar o andamento dos dias e das noites. Com a condição apenas de que a tempestade não voltasse a enterrar o mundo em sua noite eterna. embora lhe notasse a inquietante apatia. Despertas. na grande sala. enrijecia-se. para ouvir o barulho de seus passos. Recolocou a pele que servia de cortina. deslizou convulsivamente para fora da passagem que cavara no gelo. como uma água turva mas presente. atravessava os pátios. agia como um autómato. enrolou-as mais nas peles de gato selvagem. para três ou quatro dias. a única saída pela qual a luz do dia podia ainda escoar-se. família por família. mas decidiu que esses trabalhos lhe revigoravam as forças. Endireitava-se. para o fundo de seu túmulo. Ela mesma. cuidou delas. quando se sentisse mais forte. a fim de seguir a evolução das horas. na qual uma fonte de luz invisível projetava salpicos de cobre: aurora ou crepúsculo? Permaneceu observando bastante tempo. Depois. adormecessem também para sempre contra seu corpo de gelo. ou os sinais precursores da morte. da temperatura no exterior. as crianças enroscaram-s*e no entorpecimento. mimou-as. Arrastou um escabelo para junto do respiradouro. apenas o sono delas. Após engolir os últimos bocados. Seu olhar seguia a fuga da superfície da neve. Içou-se até o respiradouro. transpunha os limites das muralhas. Ainda restavam muitas provisões: gorgura. pelo menos. um frio cruel lhe mordia o rosto. acabou toda a comida. agora. decidindo afinal que era crepúsculo. na soleira da habitação principal de Wapassu. cotidiano. soergueu-se gritando: — Não quero vê-los morrer!. Um muro de gelo bloqueava quase inteiramente a abertura. Entretanto. era o deserto. seria mais fácil deslizar para fora.resolução com que começava cada estação. o escorbuto.

a saída se tornara impraticável. encontrou os gestos que devia fazer. O animal.. sirva-se de mim para sobreviver. jamais houve alguém além de você. irmãozinho! Como és bom! Como és bom por teres vindo! Nunca sentira de forma tão intensa e terna a aliança do homem e do animal. caiu de encontro às mandíbulas da armadilha que emergia do chão. preparou uma isca suscetível de trair animais maiores e carniceiros. Que erro cometera para ser assim condenada? Não soubera se submeter? Deveria ter se submetido? "Mas eu obedeci ao Amor. Não inimigos ferozes. gelo. protegendo as mãos com o xale' e com o auxílio da faca. afastando-se da árvore sob a qual morria seu filho Ismael.. para constatar que. Pegou o coelho nos braços. Aquele era o sinal. Um coelho das neves ali estava preso. — Obrigada! Obrigada. nunca cessara de estar cercada de inimigos. O fel que lhe queimava as entranhas tornava-se uma maré de amargura.. que dissera ao homem: "Eu. Tome-me. O sinal de que atingiriam o fim do túnel. atraindo amigos. "nunca houve ninguém a não ser você. Ela girava e andava pela grande sala deserta e gélida. Mas inimigos por natureza.." .. Apertou-o contra o peito. De novo ergueuse o espectro da fome. como Agar no deserto. Recolou a armadilha." Mais dois ou três dias de alimentação! — Obrigada! Obrigada. dessa vez. submergindo-lhe os pensamentos. iremos para qualquer lugar. Com você. mostrando-lhe as etapas de sua vida que a haviam conduzido àquela hora. ou uma árvore abatida? Dia ou noite? Já não se podia saber.. perdemos o Paraíso terrestre"." "Oh! meu amor". "Contarei essa história às crianças. Tudo estava tapado. Acalentava contra o peito o animalzinho rígido e com grande orelhas erguidas. eu quero muito. nascida da fome e da desgraça. em outros termos. congelado e tão hirto quanto as mandíbulas de aço.. Simplesmente inimigos que eram seus inimigos porque não podiam ser seus amigos. voltou à armadilha. Não voltaremos mais. pois a tempestade levantou-se prolongando o aprisionamento dos seres vivos ao fundo de seus abrigos. Mas de que servia enumerar os dias e as horas? Iam morrer. — Obrigada! Obrigada.. Neve.. Percebendo uma calmaria do lado de fora. Seu cérebro começou também a girar loucamente. Eu lhe prometo. irmãozinho!. quase invisível.. bloqueado. toda tentativa de sair e distanciar-se deles equivaleria a uma condenação à morte imediata. Era uma noite lúgubre. Tropeçou. dirigira-se à sala grande e tentara desobstruir o orifício do respiradouro. Mas não pôde voltar a ela. por sua culpa.. partiremos ainda. exclamou. agora que.— Não quero vê-los morrer! — e afastando-se. branco no meio de todo aquele branco... Com fragmentos da pele do coelho e um pouco dos ossos moídos. pouco importa!. dessa vez. Seus cálculos avisavam-na de que era noite. Iremos à China.. irmãozinho! No dia seguinte. Viu-se no centro de um inexplicável feixe de hostilidades que a haviam rodeado a vida toda e soube claramente que. Que aqueles que estavam a caminho para salvá-los chegariam a tempo. por condição. Morte próxima. e que soubessem por que motivo queriam aniquilá-la. Desprendeu-o por milagre. Víveres esgotados.

e que a graça do batismo foi-nos dada ao nascermos.. quando a morte estava ali. A tocha crepitava como que chorando. os dogmas e práticas que eles idolatravam. e Que-bec. As dificuldades seriam aplainadas. Ela amara Wapassu. Não haveria mais distâncias. mas cujo desenrolar de pensamentos precipitados. E esse santo decidira fazer guerra a três princípios que ele abominava.. fé.. cercada de amigos. Mas quem virá dizer-me: "Você não se enganou. A cortina fechada diante da qual tripudiara por tanto tempo abrira-se e. confiança? "Quem me responderá? "Acusadores não me faltam. não terá razão contra ele". ... estava aliviada por não ter mais que alimentar esperanças sem futuro. A predição se cumpria. mais preocupados em manter suas crenças.Continuava a andar como um animal enjaulado e se sentia animada a decidir sobre sua vida. aparentemente opostos e incoerentes.. pois.... O Espírito desaparecera por trás dos quadros rígidos e pontuais. Não traiu a mensagem. Tinham sonhado com um Novo Mundo.. um dia.. seu cérebro rodopiava numa embriaguez vertiginosa. O que importava era a forma de consolo ritual com que se decidia servi-lo. E tudo era silêncio. Tudo era fracasso. Você me consolou com seu fervor. Naquele espécie de vazio causado pela fome e pela angústia. numa corrida desabalada que não conseguia deter. Não se luta contra um santo. E sobretudo contra os representantes de Deus?" Loménie a adjurara: "Não temos o direito de esquecer os ensinamentos de nossa infância. Rostos desfilavam. O que importava não era servir a Deus.. Sua agitação se acalmava. ao fato de que não se pode ter razão contra todos? Contra o mundo inteiro?. pelo menos.' "Pecamos por audácia. como se ali estivessem emboscados interlocutores. continuava a se debater: "Que erro imperdoável cometi? Tão grande que tenha de pagar com a morte de meus filhos? Faltou-me humildade? Quem nos virá dizê-lo? Quem nos reconhecerá? Se Deus se cala. também ela moribunda. Cara Angélica. Deteve-se. agachados na sombra que a triste tocha acesa mal conseguia dissipar. em Gouldsboro. Mas Angélica. reiterou. voltando o rosto para os quatro cantos da sala. aniquilada.. A morte de um santo veio para lembrar-me isso. sinto-o. E vinga assim seus ministros desafiados!. Ruth e Noémia seriam enforcadas nos patíbulos de Salem. Pela primeira vez. e assustados de perdê-las. fraca... e que seria agradável. Gouldsboro e Salem.. Tinham labutado para construí-lo. submeta-se. "Faltou-nos humildade".'" Esperou. Tudo era tão claro e tão nítido daí em diante! Ilusões! Vivera apenas ilusões! Ilusões que viu se cristalizarem na ingénua imagem de Gouldsboro que acalentara o tempo todo.. perdida.. via o que ocultava sua fachada comum. do que em agradar ao Todo-Poderoso.. Loménie estava certo. iria sentar-se. As perguntas embarálhâvam-se em sua cabeça: "Estávamos errados por não compreender? Por não nos submetermos?. não era destituído nem de lógica nem de lucidez.. E Quebec apagara Wapassu e. aos pouquinhos. Quantas vezes sonhara que um dia.

a aveia-louca que se coloca para germinar num pouco de água morna e que cura o escorbuto. Foi breve e súbito.. As duas. no silêncio já quase tumular do pequeno posta enfiado na neve. não haveria um dedo que se erguesse acusador. houve uma segunda pancada. Duas vezes ressoara uma pancada na porta. "Ele triunfa!" pensou. mas muito nítido.. a consciência do estado lamentável em que se encontrava a invadia com uma onda sufocante. Utakê! Utakê! Eu sabia que ele não ia me abandonar. fazendo-a desfalecer.. que aos olhos dele não era.. lhes traziam víveres. Teria forças para abrir aquela porta? Era preciso. nenhuma voz para gritar: "Jesuíta. que a mantinha vibrante como a corda de um arco. a mesma alegria diante do milagre a invadia com tanta violência que receava cair se esboçasse um gesto. e. depois a beleza. "Eu sabia que ele viria. Eram Tahutaguete e seus mohawks. que 'eles' viriam. inadmissível. através das rajadas do blizzard. sem poder determinar de onde exatamente viera o ruído. e quando. que. sufocar. quando toda uma obra gigantesca e benfazeja estava perdida. Permaneceu rígida. enfim sua liberdade de espírito... Alguma coisa chocou-se contra a madeira. numa mulher. enquanto sua carne estremecia. A tempestade soprava lá fora e nenhum socorro podia ser esperado. a mulher. Ela dissera. porta aberta a todas as heresias. com uma efervescência. com a Sra. . caminhou para a porta. bem quente. Apenas uma sensação poderosa. rival do homem no coração de Deus e perversa por natureza. nada mais. talvez!? Depois. um dom do céu mas uma armadilha de Satã. perceberam silhuetas nuas inclinadas sobre a trincheira de neve. E hoje. excetuando-se as modulações sibilantes do vento turbi-lhonando incessantemente ao redor._ engrossada com carne-seca desfiada." Tremia dos pés à cabeça. Nenhuma pancada a alertara daquela vez. você é um criminoso! E um destruidor! "Ele triunfa". Dessa vez. quando a fome os ameaçava. tinha certeza. um arrepio de seda tal como o dos riachos no momento do degelo. Era a mesma sensação que a fizera erguer-se uma noite em sua primeira invernada. O estremecimento de uma alegria incrédula começou a correr-lhe nas veias. uma espécie de pancada na porta. "e nós estamos perdidos. com desânimo. Logo iria poder dar aos filhos uma sopa de feijões. E. igual à que produziria um punho vigoroso batendo-na porta ou o choque de um bastão-manejado com as duas mãos ou da coronha de um fuzil. Aquela mesma porta ali. no Illinois.. caçoando um pouco.. duvidando de seus sentidos. Jonas. sucedendo a sua exaltação. . enviados por Utakê e o Conselho das Mães Iroquesas. Seus ombros se abateram. por que é preciso que triunfe dessa forma?" Nesse exato momento. ademais. disse consigo. sem se precipitar para se convencer de que não havia sido vítima de uma alucinação. de modo algum. "Oh! por que. interrogando ainda o silêncio novamente opaco. mais surda. apoiando-se. enquanto ela estremecia e sustinha a respiração." A tensão. Oh! meus filhos! Como vai ser bom! E depois arroz integral. enquanto seus companheiros abanavam a cabeça. E. puxaram a pesada porta revestida de uma carapaça de gelo. alguns punhados daqueles grãos transparentes e marrons recolhidos na superfície dos lagos. houve um baque. numa voz átona: "Há alguém lá fora". ressoando demoradamente. Dessa vez. caiu bruscamente.Primeiramente.

Provisões!. uma dobra que lhe permitisse puxar com força suficiente para abalar e arrastar o volume pelo leve declive que dava acesso à porta. procurava agarrar uma saliência. Então não tinha sonhado!.. Não! Não! Não tinha sonhado! Ouvira uma pancada. como que invadida por um pesadelo. "Eles" tinham vindo.. Com o rosto estendido para o rebordo de neve deu um passo adiante. A tempestade desabou. Forçava tanto a vista que seus olhos choravam de frio. o resto sucedeu-se com relativa facilidade. Pensou em entrar para pegar as luvas. obstruindo a entrada. Sentia que acontecera algo. Mas nada no mundo poderia fazê-la afastar-se de sua presa. turbilhões de neve que. inchado. Percebeu a lua entre nuvens de aço negro esgarçado.. Sentia. Estava muito fraca. E. provavelmente lançada do alto da trincheira. forçandose a suportar o amplexo coercitivo do frio. Alguma coisa havia mudado... e os mantinha prisioneiros. como se lamentassem ter deixado se instaurar por alguns instantes uma sutil trégua. Sua mão apalpou... E se fosse uma alucinação? Não! Não! Não tinha sempre conservado no coração. em que a obscuridade e a claridade se entrelaçavam tumultuosamente. Feijões! Milho! Abóboras secas!. duas até. tornou a avançar... que o sonho acabasse. adivinhou as dobras de uma textura inólita.. A crista branca dos altos entulhos de neve diante da porta resplandecia. com a cabeça abaixada para escapar às bofetadas da ventania. mas nenhuma silhueta humana se perfilava naquele cenário. levantou os olhos para o cimo da trincheira. se o fizesse. Chocara-se contra uma massa dura e escura.. para abrir aquela porta que dava para a noite como um perigoso abismo cheio de monstros dissimulados. quando conseguiu agarrá-la. abaixando o céu ao nível da terra e derramando. Surpresa e adivinhando a tempestade iminente. depois cambaleou e por pouco não caiu sobre um obstáculo. couro ou pano áspero.. Após retirar a tranca e girar as chaves.. em relevo. encobrindo bruscamente a lua. Abarcou com os braços a massa que. Víveres!. Teria sonhado?. Um movimento humano ocorrera. Era um saco enorme. com os dedos nus esfolados pelo gelo. a esperança de que o milagre da primeira invernada se repetisse?.. Alguma coisa se movera. de joelhos. se comprimia entre as paredes. Não conseguindo movê-lo mudou de tática. até o fundo do buraco onde se encontrava. pois ele a esmagaria e ela não sobreviveria. alterando a imutável e impávida solidão que os cercava.. sem nada dizer. Febrilmente. Finalmente encontrou uma saliência mais dura numa das extremidades e. hesitou.. no momento de afastar o pesado batente. temendo.. Sua esperança não queria morrer. Teve de lutar. que corriam céleres num céu de chumbo derretido.. Víveres!... Mantinha-a dentro de si como um peso enorme suspenso que não queria deixar cair... que um fino pedrisco soprado pelo vento norte" já estava recobrindo de pó: um saco! um saco grande!. mas lua se escondeu com a chegada súbita de espessas nuvens escuras arremessando-se ao assalto do céu.Andou até ela com passos duros e arrastados de velha. ameaçavam soterrar a ela e ao fardo que tentava deslocar.. Parecia um bloco de pedra lançado horizontalmente no chão.. em alguns segundos. A noite deixara de ser deserta. Recuava. apoiando-se à madeira. A tempestade não tinha a severidade cruel da outra vez... e pouco a pouco conse- .

Angélica. com pálpebras cerõsas. adivinhou que era um homem branco. pouco antes. que achara fria pouco antes. puxar a porta. A face de um homem apareceu-lhe enegrecida. "Que isso não tenha acontecido! Que não seja isso!" O destino não tinha o direito de brincar assim com sua miséria! Aquela cabeça de morto no fundo de um capuz obscuro. ele estava todo costurado. conferia-lhe um comprimento desmedido. Seu esforço fora tão grande e tão desesperado. apoiou-se ao batente para não cair. no qual as queimaduras do gelo se misturavam à sujeira de uma barba negra e hirsuta. Angélica arrastou-se mais uma vez para a abertura. O silêncio voltou. parecia-lhe agora sufocante. subitamente horrorizada. que a sensação de alegria e de triunfo vivida ao descobrir aquela encomenda diante da porta se dissipara. que lhe passava como um fogo através dos pulmões. aquele saco que encerrava sua salvação e a das crianças.. depois os abria. colocar a tranca. Na penumbra. entreabrindo-se ligeiramente. a todo custo. Abatida por uma imensa fadiga. colocar os ferrolhos. . fechada quase inteiramene de uma ponta a outra por uma tira de couro trançado. tornasse a operação impossível. esgotado? Não! Não o teria confundido. afastou aquele espécie de capuz. empurrá-la. fechava os olhos. A sala. A neve derretida em volta da massa estendida revelava um casulo comprido de pele grosseiramente curtida. que se amontoava. Seus sentidos recusavam-se a compreender. lutando para não desfalecer.. numa pele virada com o avesso para fora. provavelmente um francês. enquanto trombas de neve se introduziam às suas costas. aquilo que. Não era um saco contendo víveres que fora deposto à sua porta. Reunindo suas forças. aproximou-se e ajoelhou-se. o que lhe emprestava um aspecto macabro. virar a fechadura. aparentemente queimada. com um pacote informe. oprimida por um decepção incomensurável. ficar na obscuridade. dos lábios ressecados. Ora. a luz fraca da tocha vacilava. já insensíveis à mordida do frio. Cada movimento lhe era custoso. Retirar a neve. enegrecido. Experimentava apenas um sentimento morno de esgotamento. A luz fraca da tocha. o que significava? Que tipo de brincadeira? Que mascarada? Pela palidez das pálpebras abaixadas. entrar na grande sala. julgou vislumbrar naquela fresta o esboço de um rosto. Mas uma das extremidades"êstava solta. para onde arrastava o saco. a projètara ao ápice da felicidade.. pálidas e fechadas. no rosto. ajustá-la. da garganta. e ainda de que era urgente voltar a fechar aquela pesada porta antes que a neve. enquanto. achou a forma estranha. como numa mortalha. E teria agora desejado apagar aquela descoberta diante da porta. contrastando com o negrume do rosto. Era um cadáver. Havia também sangue coagulado.guiu encontrar a soleira. O saco continuava ali no chão. Aproximou a mão temerosamente. da cabeça aos pés. Num canto. Acalmou-se. desde o início. se abandonava à cadência ofegante de sua respiração. projetando sua sombra. Viera-morrer junto à sua porta. Permaneceu petrificada. Angélica. Consciente de estar finalmente abrigada e de que devia evitar. ergueu-se.. ganhou vida. Os lábios eram dois traços delgados carbonizados. Hesitante e apunhalada por uma suspeita súbita. Um explorador de bosques perdido?. arregaçados sobre o brilho dos dentes. exausta.

ali a seus pés. sem vida. em vez de se darem a conhecer. levantou-se de um salto. "eles" tinham vindo. arrastou alguma coisa que estava colada e viu tratar-se de um retalho de pano preto. diante dele. como uma gota de sangue. A pele e a carne daquele homem já deviam estar em putrefação.. Mas seu entendimento recusava-lhe qualquer clemência. não pensava nada.. A tal ponto que tinha a impressão de já ter vivido várias vezes aquele instante que acabara de viver. a seus pés. CAPÍTULO XVI Frente a frente com o jesuíta Sebastião d'Orgeval Teria desejado dizer-se: é sangue. queimado.. enfim! O perseguidor!. é outro padre que o está usando. Parecia breu. Angélica. Teria podido dizer consigo: este crucifixo. mortificado de cem modos?. Este corpo era o delel Este cadáver era ele! Ele. Quando afastava os pedaços de couro enrijecidos. E ela. mais de raiva impotente que de medo... Utakê mantivera sua promessa: "Irei lançar a seus pés o corpo de seu inimigo!. Só os iroqueses seriam capazes de uma visita tão cruel e inútil. alcatrão. de pé.. Sabia. Angélica perdeu o fôlego. Mas por quê? Mecanicamente puxou um cordão. aquela forma informe em decomposição.. o irredutível. Aquele instante em que seu olhar vira brilhar no centro da pequena cruz. Ele.. lembrando-lhe que ela sempre soubera também que isso aconteceria um dia.. ele. fora de si. Chegara o instante que devia chegar. Era a carne de um homem queimado. movidas por um sentimento de fatalidade inelutável. com os olhos dilatados. Morto!.. alargando a abertura. quebrado. Não se enganava sobre a inanidade de tal explicação falaciosa. — Pobre infeliz!.. Sua garganta contraiu-se de horror e de piedade.. ao menor toque. Quanto tempo ficou imóvel? . Mas não dizia. O inimigo sem rosto. um padre!. sem conhecer. Franceses? índios? Iroqueses? Ãbenakis} Presenças humanas na noite mortal e deserta do inverno. a Mulher que ele. A incredulidade.. uma pequena cruz simples de missionário. Sebastião d'Orgeval. que.. desvanecendo-se depois como fantasmas. se desfazia... — O que você fez. a certeza de estar vivendo um pesadelo e de estar sendo vítima das alucinações da loucura lutavam dentro dela. "eles" depuseram aquele morto à sua porta. o jesuíta maldito. O que você fez? Continuava trémula. Sobre o peito o crucifixo se incrustava nas próprias feridas." Ele. seu crucifixo. o brilho vermelho de um rubi.. — Uma mártir!. lançando àqueles restos macabros um olhar também" quase extinto. ao qual aderia um pedaço de carne.. "Eles".Então. Sabia! Este crucifixo pertencia ao mártir que estava estirado ali. Subitamente. perseguira com seu ódio. Utakê?.

carne.. generosidade e crueldade. nas noites de nevoeiro ou de lua. Seu cérebro. por mais demente que parecesse. nus e selvagens. por que Utakê o jogara à sua porta? Por que 6 devolvera vivo a ela? Para satisfazer a qual de suas leis vingativas ou canibais? Para que ela acabasse com ele? Para que o comesse?. Não tremia mais.. entretecendo obscuramente sabedoria e loucura. índios! Vocês me traíram. chamando-os com todas as suas forças. plangente como o sopro de uma concha marinha distante. estridentes. aquela forma estendida. na indignação e na raiva que a sacudiam.. devia admitir portanto que estava. — Vocês me traíram. nem triunfo. reconduzia-o à frente do obstáculo... fustigado por um chicote áspero. recusando abandonar-se ao delírio e. Mas continuava a gritar: — Voltem! Voltem! Mohawksl. Um cozido quente!.. voltava à superfície de si mesma. quando julgava ter tocado o fundo do desespero. Ou então.Voltem! índios. Não têm o direito de fazer isso!. da qual percebeu se escapar em certos instantes o gemido lúgubre. à realidade. Havia dentro dela apenas um grande vazio que. atrás de montes de neve endurecida?. chegava até ela intermitentemente um apelo lamentoso. pôs-se velozmente em funcionamento.. por mais espantosa que fosse.. Estariam escutando-a. enceguecida. Amarga e estéril vitória! A onda tocava-lhe os lábios. foi preenchido por uma infinita tristeza. ela o iptimou a se pronunciar.. girar as chaves.. acreditou ter perdido o juízo. .. carne. pouco a pouco.. sem falsear a verdade. E. fazendo-a vacilar. tão triste e nostálgico como o que às vezes paira sobre Salem ou Gouldsboro. na tormenta. nem ódio. e. silvando. Não sofria mais fome ou medo. Começou então lentamente a voltar a si. Era isso o que ele queria. Vocês me mataram! Eu morro por sua causa!.. como uma maré cinzenta que se dilata e sobe sem ruído. Não têm o direito!.. O blizzard a acometia com mil serpentes furibundas. vingança e alimento? Um espasmo retorceu-lhe as entranhas. nem revolta. Dir-se-ia o lamento de uma criatura humana. isso devia significar que ainda estava vivo?!. agachados.. Se queixumes escapavam dos lábios daquele morto. Zumbindo nos seus ouvidos. nem alegria.. forças redobradas para soerguer ainda a pesada tranca.. Misturava palavras francesas e iroquesas. A salvação! A vida! Precipitou-se em direção à porta para fugir das imagens atrozes e encontrou. mais uma vez.. Como um animal teimoso... — . vivo? E nesse caso. Um apelo tão dilacerante que ficou abalada... voltem! Voltem!. • Mais uma vez. Comida. Sentiu queimar-lhe o estômago torturado. de raízes primitivas. Nem dor. segundo sua lógica e sua ética.. Lançou-se para fora. e saboroso!. e levou a mão à boca para reter uma náusea incoercível. reencontrava o clarão vacilante da tocha nas paredes de madeira desniveladas do fortim de Wapassu e sua solidão tumular. Ora. se reconhecia que dos lábios negros daquele morto se escapavam queixumes.. sua angústia renascia.... requerendo suas últimas forças para um novo dilema.. puxar os ferrolhos.Alguns segundos talvez? Longos minutos? Durante esse tem-Do a natureza misericordiosa concedeu-lhe uma total ausência de sensações e pensamentos.. da revolta e da repulsa. a seus pés. Teve de recuar. índios iroqueses. arrancar o batente à neve e aos gelos. Estava louca?. imperativamente. obrigava-o a considerá-lo sem anteparos..

como a derradeira refeição. de volta ao interior do posto. Seu despertar a fazia flanrar. seu coração baqueava com o receio de que a morte as tivesse alcançado enquanto ela dormia. Mais tarde se lembraria de ter-se ali afundado com um infinito alívio. como a cada vez. pois seu refúgio estava novamente fechado. Estava feliz. Ficou contemplando as crianças. que lhe retirava todas as forças. sentia-se loucamente reconhecida para com o céu. E preciso despertá-los. "Eles vão se congelar!" Os braços abertos para socorrê-los só encontraram o vazio. aquilo fazia bem. Não tinha necessidade de mais nada! Sentada na pedra da lareira. entre o esquecimento dispensado pelo sono e a apreensão latente por aquilo que a aguardava quando voltasse à^realidade. o fogo duraria bastante. "Tudo está resolvido". Tranquilizada. colocou mais lenha e turfa na lareira e. aterrorizada. Todavia. um gémeo de cada lado de Carlos Henrique. acordado e. Seria a mistura de liquens e grãos que lhes dera para beber antes de pô-los na cama. Foi um momento de transição misericordioso. Pensou em ir repousar um pouco. e era o que bastava. Consagrou à tarefa de fechar a porta as últimas reservas de energia. E pareceu-lhe ler naqueles rostinhos emagrecidos um reflexo da beatitude que acabava de experimentar. formando uma grande montanha. Adormeceu. Mas continuavam a dormir pacificamente. Teve de trabalhar muito para desobstruir a porta. e dessa vez soube que fora mesmo vítima de uma alucinação. "Eles dormem demais. "tudo está resolvido".. haviam saído à sua procura. Inquietava-se. Cambaleando de fadiga.. apoiou-se ao montante do fogão. Olhou o que restava no fundo da tigela. Levantandp-se. retornou à entrada para terminar o que não tivera tempo de fazer: fechar a porta inteiramente. arrastou-se até o quarto e viu os três.. achando-lhes as bochechas um pouco rosadas. O medo de ter-lhes quase causado a morte com seu desmaio era tão grande que nada mais importava. enfiou-se sob as cobertas perto das crianças. Sim. que as apoiava no pescoço. e a neve derreteria ali dentro. disse consigo com um alívio" infinito. O pior fora evitado!. aqueceu-o sobre as brasas e bebeu demoradamente a mistura bem quente. não a tendo encontrado. Seu corpo estava leve.. chamando-a e. continuava perseguida pela ideia de que haviam.. que lhes fizera bem?. Os furores do inverno bateriam em vão. Julgou ver diante dela três pequenas silhuetas cinzentas no blizzard mortal.Caiu desmaiada na mortalha profunda e suave da neve amontoada à porta. ergueu-se de um salto. A neve penetrara em turbilhões no interior da sala central. que lhe pareceu deliciosamente morno. ainda indolor. O pensamento das crianças arrancou-a de um estado de languidez semelhante a uma suave embriaguez." . seu primeiro olhar lúcido era para elas e. Um sentimento de culpa a atormentava. Voltando ao quarto bem aquecido. inclinando suas pequenas cabeças para ele. Como ousava deixar-se dominar daquela maneira pelos nervos quando era afinal o único amparo daquelas três pequenas vidas?!. que continuavam a dormir serenamente na cama grande. Abastecido com madeira de olmo. mas isso não tinha importância. A lembrança das crianças reanimou-a. quase inconsciente. mas repousado.. acordou tremendo. no grande leito. Adormeceu. depois refletiria. mas já não sentia fraqueza.

fragmentos do que acontecera na véspera se impuseram: ouvira uma batida na porta. "Eu sonhei!" Houvera um cadáver. produziu chamas alegres. tocada pelo terror e pela aversão. estendido. Tropeçava no acre bafio da decepção que quase a matara. o fogo mantivera-se sob as cinzas e. custasse o que custasse. "Na verdade. Seu alento flutuou imediatamente em vapor diante dela. Parada à soleira da porta. havia um saco. seus gritos.. alisava maquinalmente as roupas e jogava um casaco aos ombros. contra a porta. e eram víveres. O Padre d'Orgeval. na sala ao lado? perguntou-se. no meio da sala. Quisera sair para tentar. não eram víveres. vinha-lhe à memória e lhe deixava amarga a boca. Fraca e lúcida agora. . levantava-se. caçar. Mas ele continuava lá. e esse cadáver estava vivo. incrédula aingV è alimentando uma secreta esperança de que todos os vestígios daquele pesadelo tivessem desaparecido. E aquele grande corpo negro no centro. soltando uivos sinistros. sangue. a goela negra da noite abocanhando-a em suas presas. Dentro e fora do forte. Sua decepção. Estátua jacente negra e imóvel. Por que essa obsessão?" Porque Ruth lhe havia dito: "Eles vão sair do túmulo!!!" Sentiu-se louca e culpada.. O corpo ainda estaria lá. aterrada. quase devorando-a. 'ele' estava morrendo e você o abandonou!" . a mergulhar no misericordioso sono para esquecer. tremendo de ansiedade. Esse pensamento lhe deu a noção. Em contraste com o quarto bem aquecido.. A neve estava acima das janelas. por aquela ténue luz de alabastro. ela adivinhava que o sol brilhava num céu purificado. Caminhou apoiando-se às paredes. E se realmente "ele" ainda estivesse lá? "O que você fez?". inerte. Tinha perdido a cabeça! "O que você fez?" Com gestos lentos.. o corredor e a sala estavam gelados. Não queria saber a continuação. Lembrou-se. uma vez reanimado. Apoiou-se à guarda da cama e se lembrou: "Não há mais nada para comer". Estava agora certa de ter visto brilhar um rubi no crucifixo? Talvez fosse apenas sangue. examinou-o de longe. reclamariam comida. Não constatara que aquele homem estava coberto de chagas?. tal como o deixara na noite anterior. Na lareira. mas. o silêncio tumular da grande sala quando ela conseguira reentrar e empurrar os pesados batentes protetores. a um só tempo assustadora e insólita. sua cólera contra Utakê. repetia.. ali no chão. "Será que sonhei?" Ela olhava suas mãos esfoladas pelo gelo. Gemia alto. a tempestade amainara.Mas." Ela se tranquilizava: "Eu sonhei". "Que delírio dominou-me? Pensei que era. ao acordar. Emergindo como que das profundezas de um oceano no-turno. não podia explicar-se o que a impelira a fugir para apagar o horror daquilo que acabava de surgir rompendo a monotonia já horrível dos dias que estava vivendo. sua loucura. "Eu sonhei. Cada detalhe de sua luta insana contra a neve. sobre o soalho. Não. transpassada pela flama de uma lamparina que invadia o aposento. contra o peso do saco. pensou. Reinava uma grande calma. de uma outra presença partilhando aquele abrigo perdido..

Utakê! Não compreendeu quem eu sou!. "O que foi que eu fiz? Mesmo que fosse ele. ela se interrogava. ela fugira. pobre homem! As lágrimas a cegavam. Era o sinal. Acabava de discernir um leve vapor flutuando acima do rosto imóvel. Inclinada.. aquela mesma face que. Se conseguisse arrancar aquele homem à morte. por um infinito remorso. mas não pôde negar o vestígio do hálito que aflorava. um padre missionário católico. Perdoe-me. O rubi ali estava e cintilava. dizia consigo. não tinha o direito de deixá-lo morrer. "Mesmo assim. entrevira na véspera. "O que você. ela também rígida. agora que ele estava morto? E por sua culpa! Seu olhar desceu até o crucifixo. E não deveria ter feito aquilo. chegou-se suavemente e ajoelhou-se junto ao corpo. no vazio da sombra. O sinal da Redenção. "Você não me conhece. . Perdoe-me!. tal como nas criptas medievais se descobrem. os rostos em lágrimas daqueles "chorões" cujas estátuas velam junto aos túmulos dos reis. a vista se lhe embaralhava. como mármore. — Está vivo! Instantaneamente reencontrou força e coragem. Eu pequei. O rubi! Com os olhos pousados na face martirizada. Não adiantava mais nada chorar. no fundo das cogulas de pedra revolvidas. Fustigou-se. O sinal de que sobre eles velava uma força mais justa e misericordiosa que a dos homens. Uma face enegrecida pela barba hirsuta e sangrenta. O que ia fazer. Era um homem branco. procurou nos bolsos. um moribundo." Movida por uma infinita piedade. o sinal do Céu sobre a Terra. encontrou seu espelhinho e passou-o diante dos lábios rígidos. comendo-o. afastava tom as duas mãos os pedaços de couro enrijecido do capuz e.fez? O infeliz estava moribundo. ele ganhou. meu padre. um francês.Certas tribos primitivas fogem e descabanam se se comete a inabilidade de introduzir em sua aldeia uma encomenda com aquela forma alongada de um cadáver. E agora ele está verdadeiramente morto. eles todos estariam salvos. as cicatrizes e queimaduras. sacudiu-a num sobressalto salutar de nojo e de cólera. um sentimento de urgência. "Vou cuidar dele! Tenho de salvá-lo!" Apressou-se. aquele selvagem!" Com as entranhas retorcidas. impelida por uma febre de resgate." Era um homem branco. um mártir.." O pensamento de que o chefe dos mohawks montara aquela horrível mistificação a fim de que ela pudesse se vingar de seu inimigo-acabando com ele e. O que não a deixava menos terrificada. — Perdoe-me. um irmão. e ela não compreendia que espécie de medo ou rancor a agitara ao vê-lo. ela encontrava ali. Compreendia-os. um jesuíta. impelindo-a a fugir. talvez. A mão lhe tremia. Quem poderia ser esse jesuíta? E por que trazia ao pescoço o crucifixo do Padre d'Orgeval? Um arrepio tomou conta dela.. Então ainda estava vivo? Inimaginável! Febrilmente. um cristão. Pensava: "Perdoe-me. o que é um absurdo.. perscrutando os traços informes e desconhecidos.

untando as pálpebras grudadas pelo sangue e pelo pus com um bálsamo emoliente.. antes mesmo de ter desamarrado o atilho. tudo isso para ir jogá-lo na soleira de um covil onde Angélica. adivinhou-lhe o conteúdo. ficou surpresa por encontrar espécies de almofadas. lavou-lhe o rosto.. índios. e ainda milho. como uma casca de árvore. os instrumentos de cirurgia. Um corpo sacudido por montes e vales nevados. inchado e esticado. ervilhas. no gelo. Juntara à bebida que queria fazê-lo engolir uma boa dose de álcool. Vendo. à cabeceira. — Oh! Utakê! Utakê! Deus das Nuvens!. morriam de fome. entorpecendo-o como ao animal que hiberna. a mandíbula crispada fechara-se como um estojo. carne salgada. tal como um avarento contemplando sumamente extasiado suas moedas de ouro. em sua mortalha de couro. o remédio impregnara as papilas ressecadas e que ele ia se insinuar lentamente e reanimar o corpo petrificado. faixas de bandagem. empreendendo uma corrida alucinada pela brancura imaculada dos dias. "água da vida". e teve de cortá-lo em placas. feijões. pois o couro malcurtido era tão resistente e liso quanto a madeira 'de um reboque. Deslumbrada. pois retirar os pedaços de tecido negro ali aderidos exigiria um trabalho de muita paciência. mas um imperceptível reflexo de deglutição deve ter-se produzido. que pareciam estar ali para envolver e acolchoar o corpo do mártir. por léguas. abandonadas por todos. "Jamais os compreenderei.. pois a xícara ficou vazia e ela se persuadiu de que. evitando que as feridas se deteriorassem. . pelo negror das tempestades sibilantes e das noites.." O estojo enrugado cerrava-se sem cessar. Como a decepção na noite anterior. fazia-os deslizar na palma da mão. Seria preciso esperar para tratar das queimaduras do peito.. Outros sacos e saquinhos continham arroz. Mas conseguiu filtrar.. Elas serão salvas. e suas crianças pequenas. Precisaria cuidar para que não se reaquecesse depressa demais. — Víveres! As crianças!. Empenhava-se agora em desprender o corpo em todo o'comprimento do couro espesso e muito duro daquela espécie de casulo no qual ele fora envolto e costurado inteiramente. caído ou apodrecido. germe de aveia-louca. sempre confiara na promessa contida na denominação latina "aqua vitae". Com sua "água" benfazeja. Desistiu de arrancar o crucifixo de seu estojo de carne.. iroqueses ou abenakis. um pedaço de corda pendurada. grãos e pedaços de abóboras secas. a alegria de hoje poderia tê-la matado.Dirigiu-se ao outro cómodo para atiçar o fogo sob panelas cheias de água. Sob o envelope duro. de cujo segredo era depositária.. Isso lhe tomou um tempo enorme. o cofre de remédios. pois receava ver transbordar da cavidade bucal o precioso líquido. As crianças continuavam a dormir.. podia imaginar que "eles" o haviam arrastado assim. arrastando aquele corpo. Voltou com um cântaro de bebida tépida. que tinham se quebrado. atrás daqueles índios seminus. e. Puxando-o. a Dama do Lago de Prata. feijões do vale dos'Cinco Lagos!. correndo aos saltos em suas raquetes.. Aquilo acabaria com ele ou o ressuscitaria. gota a gota. a bebida através das frestas entre os dentes. Como da outra vez! Feijões. pois sabia que somente o frio o mantivera vivo. da cabeça aos pés. Entretanto. pelo menos. Sob os lábios enegrecidos e ressecados. retirou o primeiro saco de pele de gamo. Era um risco.

aquele infeliz trouxera-lhes a salvação... Sentiu vertigem. mas também trespassado por uma cintilação dura e ferina: o brilho da safira.. "Elas estão salvas! Obrigada. Essas palavras a ajudaram a compreender que ele estava vivo. Sua cabeça girava." Mas eis que o fenómeno se repetia. E também teria ele ouvido? Compreendido? "Vou preparar a comida para as crianças". Um olhar filtrava-se por elas. Com os olhos presos àquele elhar de cego. A mesma voz abafada e frágil elevou-se. Por mais estranho que fosse o meio empregado pelo sutil Uta-kê para socorrê-la. Sebastião. a lembrar-se daquilo que precedera seu estado de inconsciência. e o feixe de luz incidia sobre ela. um olhar diluído. . meu padre. E os olhos permaneciam fixos e sem expressão.. naquelas pupilas turvas.. mas um olhar. veremos. rae apresente. permita-me. A vida retomava seu curso. em voz alta: — Está em segurança. Eu me chamo. Encontrava-se num limiar temível. — Per. O olhar ali estava também.... por um momento. Os olhos pálidos se animavam.. Virando a cabeça. de um azul muito ténue. Ou seria uma ilusão? O fruto de sua obsessão? Nenhuma força poderia tê-la obrigado a interrogá-lo. muito intenso. incolor. Teve de inclinar-se para mais perto a fim de captar as palavras pronunciadas. Vou cuidar de você..— Obrigada. meu Deus! Obrigada. Vou curálo.. — Está me ouvindo. Não receie mais. desmentindo por sua fraqueza o olhar no qual acabava de se reunir toda a energia do corpo percluso. errava às portas da morte. Estaria morrendo? Foram os lábios que se moveram. respondeu.. meu padre?. Mas se poderia jurar que uma luz azul brilhara. Sentiu que alguém a fitava em sua expressão de alegria delirante. erguia as mãos juntas num gesto de gratidão.. Disse. Decorreu um longo tempo. disse consigo... depois. Ele penetrava pelo estreito respiradouro. meu Deus! Ajoelhada. senhora. é você? Ela hesitou.. mexendo-se no vazio várias vezes.. por sua vez. O sol brilhava. ofegante: — Sou a Condessa de Peyrac. Sê me ouve. que. tente mover as pálpebras. "depois. faça-me um sinal. E era lamentável e quase dilacerante ouvir aquele timbre partido e ver aqueles lábios feridos esforçarem-se por pronunciar as fórmulas de cortesia consagradas pelo uso de uma educação aristocrática. A obscuridade recuara.. perguntou: — Quem.. e teria desejado adiar o momento de transpô-lo. o mesmo brilho azul emergia translúcido. muito puro. d'Orgeval.. e. mas distinta. devolvendolhes a vida com o colorido da íris. percebeu que as pálpebras do moribundo estavam levantadas. que.." Falava bem alto e ria de felicidade. Renasceu a áspera vontade de retirar dos limbos aquele espírito que.. Ele não se moveu. As pálpebras não pestanejavam... meu Deus!. havia tantos dias. um som escapou deles e uma voz longínqua e penosa.

e deslizavam para fora da cama as perninhas magras. Os três estavam muito mais lúcidos que ela. que. O próprio Utakê mandara dizer-lhes: "O Padre d'Ofgeval está morto". exceto aquelas nuvens evanescentes de duas respirações conjugadas.O feixe de sol se deslocava com lentidão. E agora elas despertavam como numa bela manhã de Wapassu outrora. relegando para o fundo do pensamento a lembrança da declaração que lhe fizera aquela voz moribunda: "Eu sou o Padre d'Orgeval". E Carlos Henqrique. como pássaros. deixando-as adormecer entre cada colherada. O estranho processo que usara Utakê para socorrê-la continuava a mantê-la em estado de incerteza. E somente depois ela se alimentara. que se vestira com esmero e impusera aos gémeos pelo menos vestir uma casaco por cima das roupas de dormir. e tudo isso parecia alucinação. diluíra a carne-seca em água morna para introduzi-la de surpresa na boca das crianças inertes com os pedaços de abóbora amassados. emergia de um repouso mais próximo do desfalecimento que do sono. fora tão-somente uma formiga laboriosa transportando tesouros inestimáveis para o quarto comum: saquinhos de carne-seca e arroz integral. onde colocara punhados de trigo-sarraceno. Nada se movia no forte perdido. Ténue sinal de vida. Oh! Caro e santo alimento! Pendurara imediatamente caldeirões na cremalheira. Tinham ingerido esse primeiro viático sem abrir os olhos. sacos de milho e de feijões. plantava-se diante de Angélica e lhe dizia: — Posso ajudá-la. . para duas vidas prestes a extinguir-se. nada parecia vivo. mais uma vez. condensadas pelo frio. Angélica de Peyrac e o jesuíta Sebastião d'Orgeval olhavam-se frente a frente. o vapor prateado de seus fôlegos esgotados fremia entre eles. e num outro pusera feijões com um pouco de sal natrão para apressar o cozimento. a cuidar do "morto"? Tinha ele encontrado um meio de sair do quarto e de explorar a casa? E de descobrir na sala grande aquele corpo estirado no chão? Certamente. dividindo-as em porções cotidianas. lascas de abóboras secas que ela preparara e reservara. minha mãe. impacientes de partir para a descoberta de todas as surpresas que lhes prometia aquele novo dia. A JANGADA DE SOLIDÃO CAPITULO XVII O refúgio volta à vida — Cuidados com o mártir moribundo As ressurreições obtidas por uma terrina de mingau de milho enriquecido com um pouco de carne-seca incluem-se entre aqueles fenómenos que redimem a enfermidade do mundo e confortam as crenças num Deus bom e generoso. Na véspera — tinha sido na véspera? —. Aquilo não deveria ter acontecido daquele modo. Era preciso aparentemente tão pouco e dons da terra tão modestos para conduzir da beira do túmulo aquelas crianças cheias de vida e que a fome estiolava como flores privadas de água! Angélica alimentara-as com pequenas quantidades. durante algumas horas. Era tarde demais! Mas acontecera.

porque seria preciso alimentá-lo quando ele saísse de seu estado letárgico. fatigada. a fim de que não caiam no fogo e não façam tolices.. — Não — respondeu mais alto.. como toda criança. bálsamos. dizia: "Um pouco mais. "Como o abandonei desse modo?!. querido.. A seguir seria preciso arrastá-lo para aquele cómodo. de lagos com horizontes sem fim e vales desertos. Entretanto. você é muito gentil. Será que se reaqueceria? Voltaria à vida? Emer-geria de seus limbos? Conseguiria retornar da condição de um cadáver. pensou. apesar de precariedade de sua situação. o gla-bro índio nu. bandagens. dirigindo-se a Carlos Henrique —. Mais uma vez estou abandonando-o!" Depois.. chapéu grande. um ser humano que se faria conhecer e partilharia sua clausura invernal? Temia mostrar ao menino o estado a que um ser humano podia ser reduzido pela crueldade de seus semelhantes. Até ele.. E o pobre mártir talvez não fosse senão um pobre jesuíta dos Grandes Lagos que enlouquecera com as torturas. teria talvez suportado esse espetáculo com mais simplicidade do que ela. em que via uma garantia de que todos eles chegariam com vida ao término daquela longa viagem de inverno. os mesmos atos colocados. Ouviu-se murmurar: "Não aguento mais esses selvagens! Não os suporto mais!. nos estrados montados nos átrios das igrejas e das catedrais. cruz na mão.. pela morte pela tortura. é isso: alimentação.. o processo de salvação estava iniciado. sobre um fundo de florestas e de águas cascateantes. Ele está morto! Ele vai morrer!. Pegou uma escova e começou a escovar-lhes os cabelos. era a gesta dos dois mundos defrontando-se. O que posso fazer?. como um código de honra. O frio ali era glacial. cada personagem desempenhava seu papel simbólico segundo um ritual imutável. emplumado.. não canse seu cérebro. Basta um pouco de sopa no estômago para que nos sintamos novamente criaturas dignas de viver. e sua feroz e inexplicável paixão. confundia-se em seu espírito com os efeitos de sonhos ou de obsessão. aceitando sem dificuldade.. Caldo também. um pouco menos. fosse ela a sua ou a dos outros. Se ele não o matasse. nascido em terras da América. as mesmas personagens irreconciliáveis: de um lado o 'missionário de sotaina preta. o "comatoso". Mas quem pode ser ele?" Não acreditava realmente que ele tivesse falado com ela. . A vida. Há ainda muitos dias pela frente antes do fim da invernada. manteria sua insensibidade. Pois não podia ser de outra maneira. e depois os seus. e sua declaração: "Eu me chamo Sebastião d'Orgeval". dando-se algum tempo para recuperar as energias... Não recomece a pensar. instalá-lo diante da lareira. com a escova na mào. Aí está. de um corpo miserável que ela teria cuidado como de uma criança. Ali. em sua essência. Mas Carlos Henrique.. uma barba inquietante e suà febre de levar. a selvageria que o embalara. as regras do teatro erigido onde. Era agora que acreditava realmente na morte anunciada pelo Padre de Marville. o cenário dos lugares de seu nascimento.Mas nada lhe assegurava que fosse Utakê o chefe iroquês mo-hawk que lhe enviava aqueles víveres salvadores. ocorrera um milagre.. "Eu sou louca". Mas agora. começou a fazer seu plano de ação para cuidar daquele infeliz: tinha ervas. do outro. como naqueles gestos ou mistérios da velha Europa. tatuado.. Faria os curativos no cómodo ao lado.a Deus as almas pagãs. Mas prefiro que fique aqui cuidando de Raimundo Rogério e Gloriandra. Pois. tendo chegado ao fundo do desespero e confessado a si mesma: "É o fim".

cheia de nós e pegajosa de sangue seco. algumas causadas pela aplicação em cheio de machados incandescentes e outras por sovelas incandescentes que atravessavam um músculo. para não partir. . Tendo cortado com certa dificuldade a pele coriácea de um gibão. as pernas esqueléticas. no lugar onde ele jazia desde a sua chegada. procuravam evitar o derramamento de sangue. a seus olhos. que são de raça iroquesa. demonstram muita habilidade nessa prática. Finalmente examinou-o. num gesto desconside-rável ou muito brutal. "Pobre infeliz! Pobre infeliz!. coberto agora de pomada e ataduras. na qual o olho do minúsculo rubi cintilava. Angélica soubera por pessoas do Canadá que os iroqueses eram peritos na administração dos suplícios. porém. Mas por muito pouco. do leve vapor acima dos lábios. Não saberia dizer do que o homem estava vestido. desde o nascimento até a morte. a marca continuou ali. disciplina cujo pensamento e preparação não cessavam de dominar sua vida. Fora.Tinha agora de fazer-lhe curativos dos pés a cabeça. que se sentiriam culpados de reCusar a um adversário valoroso. Sentia náuseas. incrustada. coberto de tantas queimaduras. tinha de mais sagrado. uma morte que todo guerreiro digno desse nome sempre desejava tão lenta quanto terrível. os braços. E notou que o membro viril não sofrera qualquer dano. afirmara-lhe com certo orgulho um L'Aubigniere ou um Nicolau Perrot. fez essa primeira operação na sala grande. Segurou a cruz de madeira de buxo. O primeiro. colocando compressas de água quente ao redor. Quando quis retirar o crucifixo. Ao contrário. ainda lhe era possível manter-se vivo. O pior seria arrastá-lo até o quarto. Foi preciso cortar-lhe bem ou mal a barba eriçada. Sofrer e aplicar bem a tortura constituía um dos mais preciosos ensinamentos que eles recebiam. transudando sangue entre as carnes enegrecidas. o fio ténue daquela existência. estava banhada de suor. foi inútil tomar todas as precauções. sem que ele morresse ou perdesse a lucidez. "É uma ciência". algumas das quais exalavam um cheiro pútrido. Continuava contudo a respirar.. não podia deixar de murmurar. Espreitava as reações no rosto do supliciado. colocou-a num pano branco. "e nossos huronianos. Queimaduras e mais queimaduras. Era costume dos iroqueses respeitar a vítima naquilo que ela. Quando tentou deslocá-lo. retirou peça por peça os farrapos negros de uma sotaina. ele não dava nenhum sinal de vida. A fim de obter esse resultado. Apesar do frio penetrante que reinava na grande sala. e até dois dias. Precisou cortar o cordão que a sustinha ao pescoço. A dor voltavalhe com a consciência. conseguindo torturar um prisioneiro mais de doze horas. Como havia resolvido. mas com um alento tão fraco que ela se perguntava por onde começar sua tarefa.. um exame intrigado lhe fazia observar a "distribuição" das queimaduras. indo de uma ferida a outra e sem compreender como. Restava uma superfície considerável de carne que fora poupada. Depois de lavá-la piedosamente. ele deu um profundo gemido. essa tradição das tribos iroquesas de fazer peref cer nos suplícios mais bárbaros aqueles que os haviam combatido era uma marca de honra. Ao acaso das conversas." Dessa vez poder-se-ia dizer que haviam torturado o missionário de modo a permitirlhe sobreviver. Mas depois de lavar e relavar-lhe o corpo.-Não amarravam seu inimigo no pilar de torturas com o intuito de humilhá-lo e de aviltá-lo.

como o desditado rei da Espanha que. pois o preposto encarregado protocolar mente dessa função não pôde ser encontrado.. arriscava-se a se res-íriar. para ficar assado. reduzir a dolorosa inflamação de uma ferida com alguma pomada. e ela. no chão. acreditando cada vez menos nisso. na luta contra o frio. resolveu cortar-lhe os cabelos. do estado de coma. Poderia à noite. seu assassino. ela o içava como podia do outro lado da cama. encontrando o sinal de uma tonsura. meu menino. não lhe ocorria. E. pois era preciso evitar que ele perdesse. Sabia que esses cuidados que lhe dispensava com habilidade. ele susteve os pés envoltos em curativos. segurando sob os ombros a comprida e sinistra marionete machucada. bastava o estado em que se encontrava. Lutava antecipadamente contra o apego que ia tecer-se coti-dianamente entre eles. e nele. enquanto sua cabeça balançava para todos os lados. não encontrara ninguém para afastá-lo do braseiro. em suma. podia morrer com a face assada. devido. quando estivesse ao seu lado. Aplicou-lhe compressas sobre os olhos queimados pela reverberação da neve e ameaçados de cegueira branca. não devia mais recair num estado letárgico. á seu devotamento. Tratava-se pois realmente de um padre. se o fogo ficasse muito alto. \ Pensara ém instalá-lo numa enxerga diante do fogo. que foi pegar no quarto. a sua dependência. malcuidada. em estado de exalar com dignidade o último suspiro. pois cuidar e receber cuidados é uma das mais espontâneas linguagens de paz e de compreensão mútua. por outro. Agora que transpusera esse limiar de hibernação.. além da linha fatal. em sua fadiga. Essa solução não a satisfazia. como um frango com o pescoço quebrado. Sobre os travesseiros de crina e de ervas. poderia ajudá-lo a se reaquecer. caía para a frente ou tombava para trás. Tentava lembrar-se de que se tratava do Padre d'Orgeval. pois tinha uma prática de muitos anos — na verdade desde a infância —. De estranho que era tornava-se seu filho. — Tem razão. precursor da morte. e ela suspirou ao vê-lo protegido do chão duro e do frio e na situação de um honrado doente destinado a se encaminhar para a cura ou. esperando que sua voz o alcançasse onde ele se encontrava. enquanto. nos quais se apoiava a cabeça descarnada. Ali está sempre quente. umedecer-lhe os lábios ressecados. Tiveram de recomeçar várias vezes. Depois friccionou-lhe o crânio e as têmporas com um vinagre medicinal. Vamos pô-lo de um lado e ficaremos do outro. nela.— Tenho de transportá-lo — explicou-lhe bem alto. Naquele dia. os aproximavam. Por um lado. deu um estertor e tornou-se mais pesado ainda. sua mãe. ela colocara um pano branco. Mas ele soçobrou novamente. quando doente e enfermeira descansaram um pouco. Com seixos envoltos em peles ou panos grossos. ficou convencida de que não dera o último suspiro. fazê-lo beber alguns goles. você ficará no meio para cuidar de todos. O processo de cura. seu inimigo. vigiar a febre ou a perigosa recaída de fraqueza. — Devemos colocá-lo em nosso leito. cerrando os dentes. caso contrário. mudar as compressas. depois de tê-lo instalado na cama. Com muita energia. Carlos Henrique trouxe-lhe a solução que. devia prosseguir incessantemente para uma volta à consciência. doente. Só depois que lhe colocou diante dos lábios um espelhinho. que o traria de regresso ao convívio dos vivos. Foi finalmente deitado em toda a extensão. . suas últimas forças. acalmar-lhe os sofrimentos. Dessa vez aceitou a ajuda da criança. e os gemidos da mulher e do menino respondiam aos profundos gemidos do mártir.

e. e ele permaneceu de boca aberta. E desse modo deixei-a continuar a praticar seus crimes. perdoe-me — disse em voz alta. Içou-os pelo alçapão à pequena plataforma que servia de telhado acima de seu antigo quarto e reuniu-se a eles.. recuperando sua saúde. Angélica apressou-se a fazê-los descer para dentro. arrumando os remédios. Fê-las engolir uma bebida quente com uma grande colher de mel — aquele mel.. Nos primeiros dias. Podia-se percebê-lo através dôs interstícios das janelas e das ombreiras que ela tapara cuidadosamente contra o frio de todas as maneiras possíveis. numa atmosfera confinada. cruel. A noite foi tranquila.. Quando anoiteceu. Uma fraude?. — O cruz. machucado. mostrando apenas a ponta do nariz. Voltou para acender um bom fogo na lareira da sala principal e ferver um grande caldeirão de água. fechou o alçapão da plataforma. Arranquei-a das mãos dos homens que queriam matá-la. permaneceu indecisa.. sem se resolver a ir deitar-se junto àquela lastimável múmia. Quando Carlos Henrique quis falar.. pela exposição aos raios solares... "O que eu devia fazer? Agi corretamente?. dar-tros. interrogando-se. vendo as crianças correrem pela casa com uma necessidade de se expandir. Depois. Húrarite aquele dia. acima daquele buraco esfumaçado. concebeu o projeto de -levá-los para fora a fim de tomar ar. em sua infância.nosso tempo?. era também difícil acreditar que ele fosse real. O sol tinha virtudes terapêuticas divinas. ao lado do moribundo. vacilantes. Qual é o dever do ser humano em. exposto aos raios do deus Febo. Salvei Ambrosina. que estivera prestes a se transformar em seu túmulo. Mas quem ele é?. Colocara o crucifixo do jesuíta sobre o anteparo da lareira.. mais precioso que o . atormentada por questões que toldavam sua alegria primeira ao receber os víveres para salvar os filhos. — Bem sei que é de você que vem todo milagre. Joffrey contara-lhe de que modo sua mãe. das mãos do aldeão das Cévennes. Enfiou as crianças tal como estavam na cama grande. encontrou-o. perigo!. Mais de uma vez constatara a cura de feridas ulcerosas. não tendo um sopro de vida. e depois de ter por sua vez posto as crianças na cama. a do falso celeiro acima. ela sobressaltou-se várias vezes ao descobrir sua forma imóvel estendida na cama.. Um pouco de sua carícia e as crianças lânguidas recuperavam o apetite.Inerte. e os clarões abafados das brasas faziam cintilar o rubi. eles ficaram ali. fixa êm'sua rigidez mortal. ao recebê-lo ferido. foi tomada por uma necessidade de sentir-lhe a carícia. numa luz dourada pálida. petrificante. as pálpebras irritadas e avermelhadas pela fumaça. e refugiou-se no quarto único. acordou persuadida de que tinha sonhado aquela intrusão extravagante em sua existência condenada.. fazendo-os cair como os passarinhos nos galhos nas florestas. eczema. o vigor. Em ambos os casos. Não podia. de reencontrar agilidade e forças. Pus minha filha em perigo!. Cobertos como estavam.. o frio oprimiu-os. porém. incapaz de tornar a fechá-la. o instalara no terraço do palácio de Toulouse.... O sol brilhava. Cuido dele. onde ele permanecera durante anos. que o levara do massacre no qual perecera sua ama-de-leite. com uma mistura de satisfação e de terror. as bebidas que poderiam ser necessárias durante a noite e coberto o fogo com cinzas.. enterrado sob a neve. Pela manhã. que lhes feria os olhos enfraquecidos pela penumbra. uma lufada de ar secou-lhe as palavras no fundo da garganta.. Mas ao adivinhá-lo. Ou na verdade nosso irredutível inimigo?. esquecer que "devia à sua vinda as bochechas mais rosadas de seus filhos e a volta à vida no forte.

verificar as aberturas. mesmo dentro da casa. Naquele "ano. O blizzard. desvestiu-os e mergulhou os três. exsudando em seu cestinho de casca —.. excitaram-se. como uma pedra.. Contei-lhes que estamos na Arca de Noé. Depois a temperatura baixou mais ainda. quatro dias. Angélica só podia compreender algumas palavras" de seu pequeno jargão. Mas ouve tudo.. Transportara para o quarto comum uma considerável provisão de madeira. empilhada.. Oh! mamãe. por mais enfiado que estivesse na terra e na falésia.. preparar as . ambos exagerando os detalhes. procurando no sono o esquecimento das saturnais externas. Três dias. transportou para o quarto seus caldeirões de água fervente. que repetiam a todo momento: navio.ouro. houvesse tido o dom de petrificá-los. Olhe como agitam os braços e depois param para mostrar que ela não poderia voar. Mas dizem que ainda não se deve enviar a pomba para fora. Readquiriram logo as cores e se animaram. — Estão dizendo que as águas ainda não se retiraram e que não se deve soltar a pomba! Sabe. mais ainda do que o frio. era sacudida em alguns momentos. O frio era tão intenso que foi uma tempestade seca. Os gémeos contavam uma história com grandes gestos descritivos que faziam respingar a água. Angélica só se levantava para cuidar do fogo. reforçar as trancas das ombreiras.. — Pluf. ocupava a quarta parte do espaço. permaneceram encolhidos sob as cobertas. com uma violência. carregando-os rígidos e pálidos como se. portas. a paisagem de fim de mundo que haviam entrevisto. passou pela superfície da terra a velocidades incalculáveis. tagarelando com loquacidade. quando o banho ficou pronto... Carlos Henrique voltou-se para a cama e gritou: — Não é. — Veja. — fez Raimundo Rogério. pluf. que não se pode ainda enviar a pomba?.. morto. não deve! não deve! — Mas o que estão dizendo? — informou-se com Carlos Henrique. imitado imediatamente pela irmã. o vento do nordeste. Não teria pois de sair daquele último refúgio interior. como na Arca de Noé!. Ela não teria onde pousar. uma fúria. do Labrador ao sudoeste do Maine. janelas. com os olhos brilhantes. encheu uma tina de madeira e. "esse cruel inimigo do homem" vindo do pólo. — Com quem estás falando? — Com o "morto". deixando-se cair na tina em meio aos salpicos. ceifou como uma lâmina gigante afiada o cimo dos bosquezinhos nas ilhas dos lagos. que desenraizou árvores. carregou aldeias de wigwams inteiras com seus habitantes.. o "nordait" dos canadenses. Angélica temia em alguns momentos que o vento uivante acabasse por enganchar-se no fortim de Wapassu. ao mesmo tempo lívida e de um azul pálido translúcido. o inverno que tomou de assalto o Escudo Lau-renciano. mais terrível ainda que as que trazem a neve. Não poderia voar. para quem essa linguagem não era Jiermética e que seguia sua exposição aprovando com a cabeça. cuja porta. dizem que ela cairia. declarou-se. cujos anúncios observara. Eles gostam muito disso. pássaro. é verdade. Faz frio demais. e a tempestade. De pé na tina. o que é raríssimo acontecer. que. Falo frequentemente com ele enquanto você está preparando a comida ou quando vai buscar lenha no depósito. que encontrara também entre as vitualhas enviadas. mãe. — E ele responde? — Não. foi tão terrível que ursos adormecidos morreram de frio em seus covis. e lhe arrancasse o telhado como uma simples panela perdendo sua tampa.

procurava o que poderia despertar nele. sobre a qual caíam mechas de cabelos com reflexos castanho-dourados.. Dormiam muito.. Mas. causadas aparentemente por instrumentos pontudos ou garras. Pelo amor de Deus!. — É preciso viver. Entretanto as feridas do rosto se cicatrizavam. de outro. uma beleza viril e regular. Deus o exige! Abra a boca!. padre. o vento parou completamente. As bochechas se encheram. Em certos certos momentos ela o sentia muito distante. se desanuviou. ao evocar seu confessor. Era preferível tomar tisanas quentes de camomila e de tília para ter um sono tranquilo a enervar-se e assustar-se com os clamores selvagens que corriam lá em cima sobre a terra. o que .. de um lado. Esses buracos estavam infectados e envenenados à volta toda. Precisava também trocar os curativos do ferido.. permanecia acordada. Quanto a ela. E ele parecia às vezes mais morto do que quando o descobrira em sua mortalha de couro. da primeira vez em que as tratara. os furores do blizzard começaram a amainar e... cuja fumaça era soprada para dentro pelas lufadas contrárias.. CAPITULO XVIII A caçada ao alce — Angélica e os lobos — Diálogo com um morto Ao cabo de seis dias. era um alimento precioso que não se podia desperdiçar. Longa e ingrata tarefa. o estado de insensibilidade no qual ele mergulhava advertia-a da lenta aproximação de uma saída fatal. um religioso. dando ao doente um aspecto deplorável. os traços das feridas começaram a se apagar. As crianças pareciam não se perturbar com aquele ruído do vento.rações de alimento — com a preocupação que recomeçava a despontar. A carne tornava-se sadia. Ela notara. mas chagas estranhas. embora lívida. certa noite. Depois de alguns dias. Tente engolir. Falava-lhe num tom baixo. inconsciente. Insensivelmente ele começou a recusar alimento. e ela viu esboçarem-se traços de um rosto que não era destituído de beleza. dar de beber às crianças e ao doente. sabendo que o conhecimento pode ser atingido sem que nada se perceba. e em outros.. inflexões ou palavras que o despertem e o tirem de sua apatia. mas dessa vez era um sono melhor. suave e persuasivo. que traziam sombrias ameaças: a destruição da habitação sob a ventania ou o incêndio. por sons.. que aumentava seu esgotamento. e Angélica punha-se ao mesmo tempo irritada e desesperada. suspiravam alguns penitentes um pouco exaltados. "A beleza de Cristo". quando as crostas caíram. pois. seu interesse pela existência e encorajá-lo a fazer um esforço a fim de voltar à superfície de seu ser e se alimentar. que não eram queimaduras.Faça um esforço!. fazer todas aquelas bocas avidamente entreabertas engoli-las. o Padre d'Orgeval. Uma calma surpreendente estabeleceu-se. sempre ameaçador com o fogo. concedendo-se apenas curtos períodos de repouso. num lugar onde podia restaurar suas forças. isso indicava que ele estava começando a perder os reflexos da sobrevivência. alhures. É um dever. a imensa fronte. Como para as crianças. Pelo amor à Santa Virgem! Mas essas objurgações piedosas não produziam nenhum efeito.. Ele permanecia inerte. de que não se esgotassem muito rapidamente —. e. Deixava-o escorrer pelas comissuras dos lábios.. o inchaço cedera e formaram-se cascas. As tempestades da América do Norte haviam embalado suas curtas vidas. alerta contra os assaltos lúgubres do exterior.

numa das encruzilhadas. a mesma floresta o cercava. Que sonho estúpido! Num momento em que fazia um tempo tão boni to naquela primavera e os pássaros cantavam apaixonadamente nas árvores! Estava apoiada ao braço de Joffrey enquanto caminhavam pelas alamedas de um parque. — E nossa casa? — interrogou. Curiosamente.coincidiu para Angélica com o melhor sono de que desfrutou após um longo período e um sonho paradisíaco. Havia uma volúpia em andar naquele caminho calçada com sapatos tão encantadores. lançando notas escuras sobre a seda verde das folhagens. um pinheiro azul de tronco rosa. de seu corpo. estava encerrada com as crianças num buraco sob a terra enquanto uma tempestade furiosa passava acima de suas cabeças. com seus recantos de sombra e de luz. ou talvez de uma floresta. No seio da floresta o pequeno castelo era uma ilha cor de mel. mas era uma floresta humana. cheia de árvores de espécies escolhidas e bem ordenadas. e viveu esse sonho que lhe pareceu tão verdadeiro que a percorreu com uma impressão subjacente de que tivera um pesadelo horrível na noite anterior. Ao derredor. Ela perguntou: — Há um pombal aqui? — Sim. ela dormia como uma criança feliz. mas que levava além a outros domínios. Sentia a adoração de seu olhar. como em todo episódio dramático. Mas este é o presente do rei!. sua pele suave e morna. Fosse por pressentir o fim da tempestade. e a doçura de seus lábios pousando-lhe no rosto. sabendo instintivamente que podia relaxar a guarda. ao despertar. na testa. um pequeno castelo claro. que se voltava incessantemente para ela. malva e azul de-canteiros à francesa. Chegaram à beira de um promontório e postaram-se ali. Ficou tão contente que julgou estar vivendo um conto de fadas. dispersos aqui e ali. e ela via pousar na areia_a-ponta de seus sapatos de cetim bordado rosa e prata. Uma floresta que poderia. de o movimento de terror refluir para enviar os sinais de esperança.ter sido um parque. pois seus caminhos e veredas tinham a clara elegância de aléias traçadas. O braço de Joffrey enlaçou-lhe os ombros e sua voz dizia: — Construí para você muitos palácios e casas. vira pousar um pássaro branco cercado de luz: a pomba da Arca.. A garra de um abutre pegou-lhe o. Angélica soube que naquela manhã. Estaria querendo pegar a pomba? Emergiu do sonho num estado de sofrimento que a deixou emudecida. outros campos lavrados. de sua perna contra ela em sua caminhada.. nãp conseguindo saciar-se com sua carne viva.. há um pombal.pulso e ela não conseguiu dar um grito. tendo às suas costas a floresta murmurante. fosse porque chegara o momento. rebanhos de corças e javalis. Joffrey1 passou um braço por seus ombros e com o outro indicou-lhe. nos cabelos. Apoiava-se ao braço de Joffrey e sentia o calor de seu braço. seu sorriso. uma conífera elegante. carvalhos e castanheiros. mas tudo era muito real. na boca. . O abutre caíra daquele céu azul-pálido da Ile-de-France?. pois era a primeira vez que o descobria. sua presença. embaixo. Nesse pesadelo. nas pálpebras. suas rochas e águas murmurantes. escoltados por pequenos faiais e bosquezinhos de freixos e.. pois era uma floresta furta-cor e cintilante. diante do qual se estendia o mosaico vermelho.. atraídos continuamente..

. você não acredita em mim — disse ele. de seu entorpecimento. Acorde. com os dedos mutilados. Tem de abatê-lo.A garra em seu punho era uma mâo.. — Não! Eu sei. Bruscamente.... — Se eu cair. Depois tirou o mosquete do cabide.. por causa do alimento do qual sua sorte dependia. olhou para o leito... roídos. Discutiam e brigavam por causa da carne.. Estava pronta a arriscar-se por uma ilusão. expostas ao inverno infernal. — Chegue mais perto! Ele estendia para ela dois braços hirtos. Isso lhe dará carne. — Levante-se! Levante-se! Há um alce lá fora. quase lhe tocando o rosto e repetindo: — Há um alce lá fora. As crianças morrerão. Ele repetia: — Abata-o. Apresse-se! Que está esperando?... Você deve sair. Era o Padre Sebastião d'OrgeVal.. procurou o polvorinho e o saco de balas. livrando-se da garra do abutre que a segurava. Uma mão horrível. os olhos arregalados. sem forças para sustentá-lo.. ninguém virá. como todas as verdadeiras criaturas daquele deserto branco. e sei quando o animal está rondando. a vida está la fora. morreria sozinha. Não se deve deixá-lo afastar-se. — A mesma voz estranha adjurava-a: — Aproxime-se! Obedece u-lhe. que tinham dificuldade em se mover. um alce canadense!.. Faz muito frio! E estou muito fraca. Ninguém para socorrê-la.. todavia. Estava inclinada a acreditar nele. encolerizado. pulou para fora da cama. carne até a primavera. Depressa. perguntava a si mesma quem era aquele homem barbudo que estava vendo ali. um alce? — Vivi muito tempo prisioneiro dos iroqueses. — Está delirando. desconfiada da loucura que parecia ter-se apoderado daquele semimorto e sem conseguir resistir a ele.. A notícia penetrou no espírito de Angélica. como os índios exacerbados pela fome. e as duas mãos que a seguravam dobravam sua vontade renitente. Era a primeira vez que dialogava com ele. A voz autoritária arrancava-a de seu sonho. Voltando-se subitamente. Ele estava realmente ali: Estava realmente vivo. — Aproxime-se. — Na verdade. Com o coração disparado. Terá carne até a primavera. Então ela pensou que a vida — se estava ainda viva — tomava aspectos fantásticos e burlescos.. incerta de que essa ordem emanasse dele.. senhora. Deixou o mosquete tombar contra a parede. diante dela. no lugar de seu "morto". uma miragem. não o deixe escapar. Um homem que ela não conhecia e de olhos dementes estava inclinado sobre ela. O que queria dela? . — Que está dizendo? Como sabe que há caça lá fora.. Por onde sair? Conseguiria subir ao telhado? Colocar as raquetes? Avançar na neve profunda? Ela cairia. — E. de humano para humano. — Apresse-se! Apresse-se! O que está esperando? — Não posso sair... Começou a enfiar mecanicamente o casaco e as botas... Mas cada etapa pareceu-lhe insuperável.. de vivo para vivo... fixando no catre aquele desconhecido que lhe falara com uma voz vinda de alhures e que continuava a fitá-la com olhos ardentes.

Deu a volta na plataforma. mas clara pela magia de uma lua quase redonda. de Peyrac. um alce. as florestas junto às quais impalpáveis rastros de bruma pareciam captar em luzes fugazes os reflexos da claridade lunar. Olhou em torno de si. Procedeu a um exame do bosque-zinho mais próximo. Se o animal passara junto. negros os buques de árvores. viu-se de pé. Atrás dele.. emprestando-lhes silhuetas e volumes tenebrosos. tinha tanta sede. olhando para todos os pontos do horizonte. sobre a plataforma. Avançava com passos hesitantes... Decidira sair pelo sótão. Aproximou-se da beirada de madeira contra a qual pretendia apoiar-se. e não podia tremer. Dali. Ouviu-o falar acima dela. Devia ter gestos lentos. Calculara que àquela distância tinha ainda uma chance de atingi-lo. alguma. Tem de abatê-lo. Seu espírito desanuviado permitia-lhe raciocinar. pequenas e numerosas. nas paragens do ioite. e pensou em saltar por cima da muralha. — Dois! São dois! Uma fêmea e seu filhote! Começaria pelo adulto. de Pey-rac. puxava-lhe a cabeça contra seu ombros.. Dizem que você atira muito bem. Seus olhos doíam. destacando-se contra a neve. juncavam o firmamento de rastros pálidos.. E.Obrigava-a a ajoelhar-se perto da cama. Dirigiu-se à sala grande. agora que constatava a inanidade de seu aviso. arreada da cabeça aos pés. semelhante a uma frágil concha de nácar. à casa. Foi nesse instante que discerniu uma agitação na zona de sombra projetada junto ao pequeno bosque. Nada se mexia. para ir desemboscar aquela caça fantasma na floresta. que avançava como uma ilha num mar leitoso. tudo era branco ou negro. que a esperança a invadira imediatamente. — E se eu falhar o tiro? — Não falhará. Não queria desistir sem antes ter tentado tudo. Sob a abóbada celeste. decepcionada.. A noite estava mais glacial do que julgara. Sra. que estava apenas a uma toesa do solo com a acumulação das neves. Você pode. sempre com aquela energia de ferro contra a qual sua fraqueza não tinha qualquer poder. Sua língua estava tão seca. mantendo-a ali apertada. poderia primeiro verificar se havia realmente. Sentia florescer em seus cílios cristaizinhos de gelo. movida por uma vontade feroz. O blizzard arrancara a neve das árvores. suavizando o azul aveludado da noite. talvez alertado. prestes a se quebrar sob o efeito do gelo. que agarrou um punhado de neve e o levou à boca. — Você poderá fazê-lo! Sempre ganhou! Com esse alce. As estrelas. Sra. Ganhe! Ganhe mais uma vez. . se ela ali estivesse. Subitamente. Depois pensaria em garantir a outra presa. e um alce de menor porte surgiu na sua esteira.. depois começou a correr. mas. deveria encontrar suas pegadas. o animal apareceu. o animal agitou-se e tomou alguma distância. precisos. O que lhe picava o rosto eram gotas de suor geladas. aspirando o ar. percebia. o movimento de uma sombra. naquele silêncio petrificado.. Sua silhueta parecia imensa. Mas eis que. ávida por surpreender. Melhor do que qualquer arcabuzeiro. como ele afirmava. haverá carne até a primavera para você e seus filhos. coisa se moveu. Saindo cautelosamente de seu abrigo. Branca era a planície gelada. o eco de um passo. Você foi chefe de guerra. Não quisera acreditar nele. A dor causou-lhe um choque e depois lhe fez bem. Mas a neve em volta do fortim era um belo tapete branco imaculado que havia muito tempo não era pisado nem por homem nem por animal.

visara a cernelha para atingir o coração.. Mas quando. De revolta. O filhote fugira e se refugiara. ao levantá-lo. — Se tiverem tempo de chegar^não lhe deixarão nada. vendo-o diminuir. sentiu que aquele dedo em repouso aderira à placa de aço e que deixava. Quando olhou. de impaciência e. que se preparava para mudar de lugar para visar melhor o filhote. era o inverno vencido. Era muito longe. pois ele parecia impelido como uma bala na direção do posto. de consternação. virando para a direita e para a esquerda um perfil papudo com um longo focinho caprino. Depois desmoronara pesadamente. Os lobos! Meu Deus!..Sobre a neve dura... uma sombra negra sob o luar. pois temia que a cabeça pequena e móvel fosse um alvo menos seguro. e apertando com os braços o corpo de seu morto-vivo. o mantivera de pé por alguns segundos após sua morte. Os lobos. Vendo-a aumentar.de ansiedade.. pois não os sentia mais. ao abrigo do bosquezinho. Em Seu lugar havia um montículo negro sobre a superfície lívida da extensão nevada. Uma espécie de embriaguez de alegria invadiu Angélica.. em meio ao estrondo dos ecos do tiro.. uma base larga e preênsil como ventosas.. — Ah!. e o eco de seus cascos. enfim. Subitamente o adulto voltava a galope. Não me deixa respirar. Tentar ao menos atingir aquele. você diz?.. meu caro padre. Estamos salvos! Estamos salvos!"' — Trouxe o animal? Ele a empurrava. Quando ombreou a arma e pôs o dedo no gatilho. Decidiu tentar o tiro. repetido de maneira infinita até os últimos cimos curvos dos montes Apalaches. Mas.. atravessou cómodos e corredores quase sem tocar o chão. Ela soltou um grito. — Consegui! Consegui! Oh.. de precisão e de instinto. não sabendo com que dedos podia realizar os gestos necessários.. — Consegui! Consegui! Jogou-se ao pé da cama. A dor nada era naquele momento crucial. Não se deve abandoná-lo aos lobos!. Para lá do corpo do animal morto. Apressese. não viu mais o alce.. pareceu hesitar e parou. não quis arriscarse a vê-lo partir numa outra direção e atirou. O menor. de esgotamento. Recarregou apressadamente. compreendeu que o animal se reaproximava e pôs-se prontamente em posição à beira da seteira. um retalho de carne. —Trouxe o animal?. e ela quase caiu ao pé da cama. tremula. que tentara seguir a corrida da mãe. Agora não podia mais atirar da plataforma. escandia a louca decepção de Angélica. obrigada. a corrida e depois parar e farejar o ar.. mulher tola! ... o alce se distanciava como que galopando. diminuindo e abafando-se.. Mal percebeu o ferimento. rindo e soluçando. Reunindo todas as suas faculdades de visão. Desejava deixar o animal aproximar-se o máximo possível. Apenas a pressão de seu corpo repartida pelas quatro patas dotadas de cascos flexíveis. diante do efeito de uma vitória tão completa e cheia de segurança de vida mais embriagadora ainda. Angélica. O animal caíra fulminado. tomar fôlego!.. não compreendeu inicialmente a direção tomada por aquela massa em movimento. levantava a arma para mirar novamente. Despencou pelos degraus das escadas do sótão. o animal continuava de pé.

teria de cortá-lo antes. — Apresse-se. fechaduras. Fora de cogitação içar o alce morto à plataforma. Por sorte. pelo menos abri-la. e que era imperdoável ter-se deixado levar àquela histeria e ter esquecido a irrupção possível dos lobos num lugar de caça. Reassumira seu autocontrole. com seu domínio.. na noite em que encontrara o "cadáver" na soleira.. Na sala grande.. que mergulhasse novamente naquele frio glacial para mocrer. aquela espécie de trenó de couro não curtido..Eles não estão longe.. os esforços que despendera para desprender a porta. ordenou mentalmente. quando estava conseguindo galgá-la. munida de um saco cheio de rolos de correias e tiras de pano. Mas agora sabia que o odiava com todas as forças. não aguentava mais! Amanhã iria buscar o animal. Não tivera tempo de pôr as raquetes. que é a melhor arma. aquele homem. gritando: "Apresse-se. por causa da sanha com que a empurrara. Estava furiosa contra ele. barras de ferro. Senão. Não. funcionavam bem. Apenas a tocha. as diferentes fases da operação que se anunciava. Estava muito calma agora. — Cuidado com os lobos. Teve apenas de dar algumas pancadas com pás e picaretas de quebrar gelo para abri-la mais. pois tinha de decidir sem demora.. que parecia polida por uma plaina. no qual os iroqueses lhe haviam enviado o Padre d'Orgeval. introduzindo-o pela porta.. — Vá! Estou lhe dizendo! O tempo está passando! A pistola de dois canos? Não havia nenhuma em condições de funcionamento. pois elas são muito rígidas. aberto em toda a sua largura. apresse-se!. eu os ouvi! As luzes. a tocha. arrastando atrás de si o trenó emba-raçante. é melhor do que cordas. uma coberta para puxar sua caça sobre a neve. e. correias para içar a carga. deslizaria facilmente. Com a tocha em punho. pegue uma tira de pano para amarrar o animal. um uivo suave elevou-se aparentemente bem próximo. Os gonzos. se tiver uma preparada. içou-se para fora da trincheira. Essas diferentes possibilidades apresentavam-se ao seu espírito numa velocidade vertiginosa. aquele intruso. e para introduzi-lo pelo alçapão pequeno. seriam os olhos deles? Não. Sobre essa neve. Ele simplesmente queria a sua morte. que julgara ver à fímbria da floresta. mas seu uso na neve endurecida era inútil e teria atrasado sua caminhada. — Não conseguirei. E em primeiro lugar precisava desprender a porta. Untara-os com um pouco de geléia de líquen. se se considerasse que uma fervilhante cólera interior pode gerar algumas vezes o sangue-frio distraindo o espírito. A trincheira diante do posto estava coberta de uma fina poeira raspada pelo vento na superfície da neve endurecida. com uma rapidez inigualável. Vá! Vá. o que lhe seria impossível fora da casa. mulher tola!" Era preciso reconhecer que a maneira como se lançara sobre ele chorando de alegria vazava-se no delírio mais imbecil e mais deliquescente. Ocupada com sua vindita. Leve uma tocha. ocupou-se da tocha.. principal. Pegue um trenó selvagem ou um pano grosso.. . Pegou uma comprida como um círio e bem embebida e foi acendê-la na lareira do quarto comum. Só tinha uma solução: pôr o alce abatido naquela sala. dos problemas insuperáveis do momento. Perguntara-se algumas vezes se poderia-odiar o jesuíta que os prejudicara tanto. E uma pistola de dois canos. surtiram seus efeitos. — repetia ele..

felizmente. de todos os movimentos insólitos. mas tropeçou e caiu. pensou. Angélica parou e plantou á tocha no solo. Quando se levantou. parecendo uma vaga de espuma cinza rolando para ela. O que provocara a queda da tocha fora o deslizamento do filhote mal arrimado. E ao se inclinar para apanhar a pata do filhote de alce e puxá-lo para ela. "Dois". e percebeu os lobos que vinham a galope da orla da floresta. ela empurrava. "Com isso estamos garantidos. antes que ela caísse na neve. Depois endireitava-se. e que lhe pareceram menos fosforescentes do que ao longe nos bosques. amarrou-o de qualquer jeito com as tiras de bandagem que ele recomendara como preferíveis às cordas. a menos de dez passos. Mas a fiel amiga subitamente vacilou. meus bons amigos — disse-lhes. medrosos de todos os ruídos. os lobos estavam bem perto dela. Andava tão depressa quanto podia. Agitou a tocha com frenesi. orelhas. acreditando num dado momento que o gelo lhe soldara o flanco ao solo. Uma vez a caminho. cujas idas e vindas se cruzavam e entre-cuzavam numa hesitação febril. sacudia sobre o trenó o corpo enorme do alce. O tiro tinha-os imobilizado apenas ligeiramente. mas receosas do fogo do homem. vendo-o cair perto da mãe. Apanhou a tocha e colocou-a na dianteira do alce abatido. quase correndo. içando por cima mais facilmente o corpo do filhote e fixando a tocha na retaguarda sob o peso dos corpos dos animais. criando um círculo de luz que manteria a distância as feras esfomeadas. pontilhada pelas luzes douradas de seus olhos. Manejou a faca e o machado freneticamente. gritando: — Para trás! Para trás! Mas ele se recusavam a recuar. Incidente que começara na sua primeira fase por provocar o recuo dos lobos. ávidos e tristes. Eles retomavam sua corrida em direção à presa entrevista. O terror do jovem animal era tal que sua chegada pesada e ruidosa não conseguira fazê-lo afastar-se do cadáver do outro. tremendo da cabeça aos pés e olhando a sua volta como se todas as saídas estivessem fechadas à sua fuga. Depois recarregou o mosquete. e desprendeu-o bem depressa. colocando-o ao alcance da mão. còm o mosquete atravessado sobre o trenó. com o risco de apagar-se. — Tarde demais. adivinhando que os lobos se lançavam em seu encalço. mas apenas brilhantes." Foi então que ouviu como que o sussurro de uma maré avançando. — A carne vai ser minha.O alce fêmea continuava ali. o bale enervado e mudo dos lobos. E em volta da forma abatida. Enquanto vigiava incessantemente. Ainda dava tempo. sobreviveremos até a primavera. do outro lado do animal e prestes a enfiar-lhe as presas. os olhos dos lobos. quase humanos e como que suplicantes. a espinha abaixada ao mesmo tempo para a esquiva e para o salto para a frente. que caíra do trenó e que ela percebeu. Viu . caído. Atirou à queima-roupa. o gelo sobre o qual se deslocavam tornava a tarefa fácil. o menor girava em passos cautelosos rias longas patas filiformes. quase ao nível dos seus. que Honorina amava tanto. para lá da luz. Com a tocha nas mãos. pelas patas. Angélica não teve tempo para deter o trenó e precipitar-se para trás para pegá-la. com as patas agarradas ao solo. retidos todavia pela chama da tocha na retaguarda e pela chuva de fagulhas que chovia sobre eles a cada solavanco. um barulho feito dê marteladas pequenas e continuadas. viu. Não se deixou impressionar por sua volta furtiva e rápida. atrelou-se às correias de couro e conseguiu abalar sua curiosa equipagem. agarrando-o como lhe era possível. mais meigos ainda do que os dos cães. puxava. Angélica correu para pegá-lo e colocá-lo novamente no trenó.

ao cair.." Começou a recuar lentamente. rolando sobre a neve e apagando-se com crepitação. irmãos!" E que a passagem do alce através das portas e do sass obscuro do fortim era exatamente igual a um monstruoso parto." Contaria às crianças que o eco dos lugares perdidos de Wapas-su desaparecido cantara: "Nós somos irmãos.. no ar gelado. Voava. A sombra do forte mergulhou-a na obscuridade. Apenas quando se levantou foi que pôde vê-los aproximarem-se do filhote de alce. inclinado e apontando o focinho pontudo enquanto ela tentava empurrar a porta para introduzir na sala o corpo do enorme alce. derrubou sua carga para baixo e saltou por sua vez. irmãos. olhando para ela. e sua carga a aco"mpanhava sem dificuldade. "Deixolhes o filhote. sendo às vezes ultrapassada pelo trenó. Outra vez.. a lembrança do lobo de focinho comprido e dos olhos oblíquos e humanos. sonhadores e todavia cheios de interesse. e porque somos irmãos. por seus gestos. Fantasmagoria! Muito tempo depois. duvidando ainda de sua boa esmola. irmãos. Ela se lembraria que murmurara com os lábios rachados: "Eu lhe suplico! Eu lhe suplico!.. e depois se lançarem vorazmente a ele. do quaí ela tivesse sido a parteira minúscula.".. eles não se moveram. Perguntava-se incessantemente se os lobos. mais magro e mais velho que os outros. devo. Próximo ao final. "devo fazê-lo. caiu. mal-equilibrada. e. .. aquele lobo que talvez não tivesse visto. Chegara ao trenó e permanecia de joelhos. pensou.. a tocha. lançando gritos agudos de vingança e alívio provocados pelo aspecto cómico do trágico. continuando a brandir a tocha para imporlhes respeito pelo tempo que pudesse. fome!.como estavam magros e eram pouco numerosos no total. E dessa vez eles se sobressaltaram e deram um pulo para trás. "Vou deixar-lhes o filhote". fome. Estava ali debatendo-se naquele buraco com aquele animal do tamanho de um cavalo que. O animal se deslocava. Levantando os olhos julgou distinguir um lobo maior. depois de darem cabo prontamente de sua magra ração. de joelhos. trepidando e raspando ao passar por asperezas com um ruído repercutido que lhe enchia os ouvidos. Empurrava-o mal-emal sobre o trenó e refazia os nós com dedos inexistentes. repetiram os ecos intermináveis do país do cristal. não querendo deixar nada de sua presa. irmãos. surpreendentemente clara e poderosa. como no conto de Gargân-tua. dos olhos tristes. não a seguiriam. e a porta nada de se abrir. o que era mais perigoso do que ficar de pé.. Havia barrancos nos quais caiu. porque têm fome. Um leve declive facilitava sua corrida para o forte.... A carga virava. irmãos!. ao ouvir aquela voz humana que se erguia.. — Deixo-lhes o filhote — gritou-lhes. Dificuldades surgiram. submetidos como ela à provação infernal que ameaçava suas existências: a fome. Não tinham ferocidade.. Preferiu hão parar. Chegando finalmente à beira da trincheira. Era para permanecer ao nível de seus olhos. Era ela a mais feroz." "Fome. enquanto ela os fixou com o olhar. Angélica atrelou-se aos arreios de couro com uma energia redobrada. Irmãos. Isso era uma coisa que os faria rir e bater as mãos. havia prendido o mosquete. yiria colocar um bálsamo agridoce em seu coração.... cinco ou seis. E o lobo ali.

Serre. cortar a língua. sempre com aquela careta que ela julgava ser um sorriso zombeteiro. Nem os lobos. como último recurso. escudelas.. Ele lhe dava instruções precisas para retirar o coração. E agora é preciso destrinchar o animal. nem ninguém podia vir tirá-lo de nós. como se previsse a revolta de sua lassidão. "o alce finalmente ali estava na sala do forte. dispondo ali todos os seus caldeirões. um machado. de couro? Ele não parou durante toda a noite de indicar-lhe as etapas do trabalho. pratos. um prato especial. num tom impaciente. mas de um macho. Não se deve esperar — disse.."Meus filhos". Pode-se fazer uma boa sopa de cola. E vinha perguntar-lhe.. enquanto os dois pirralhos.. — Como se explica que não seja uma fêmea? — Porque é um macho — retrucou ele. Só percebeu a chegada do dia e que já estavam no meio da manhã quando viu Carlos Henrique diante dela propondo-se a ajudá-la. diria. corte. muito nutritiva. dei-lhes o filhote!. . vestidos com roupas limpas que o menino os ajudara a vestir. — É preciso retirar as vísceras. triture!. Tínhamos carne daí em diante.. — Não era um filhote.. Ela acendera um fogo bem alto na outra sala. Sempre aquele brilho de ironia. — Pela manhã vão ver se eles deixaram os cascos. um cutelo.. raspe. separar os miúdos. a bexiga. O que a surpreendeu muito foi descobrir que não se tratava de uma fêmea. — A que distância? — Ao alcance de um tiro.. — Ele não tem coração — lançou-lhe ela. Carne. não tinha qualquer consideração pelo estado de fadiga no qual ela se encontrava e que a tornava meio atoleimada. o fel. como se sua excitação lhe parecesse pueril.. que podem estragar as partes sadias. descabelada e com as mãos ensanguentadas: — E agora? Ele dizia: — Pegue uma serra. começavam a chafurdar no meio dos quartos de carne e a se interessar pelas orelhas do. — Você queria visar o coração? — Sim. — A bala estourou-o.alce e por seus grandes olhos extintos sob cílios semelhantes a escovas. Ele era exasperante. parecia-lhe. O homem deitado dirigia-lhe um olhar zombeteiro. até a primavera!" — Dei-o aos lobos — declarou-lhe com ar de desafio —. Tem um avental grande. que teria dito: "Pobre alce!" — Dar-me-á ao menos algum tempo para cuidar de meus filhos e preparar-lhes um caldo? — gritou a seu atormentador e guia no corte da carne. mas um alce provavelmente novo. As duas portas estavam fechadas. — Só uma bala?. — Sim.. Não tinham o sentimentalismo de Honorina. magro e de menor tamanho que o ancestral. — Um filhote o acompanhava.

entregou-o a ele. fê-lo beber em pequenos goles. você. egoísmo. Preparou para ele uma tigela do divino e quente néctar e. Duas luzes puras que emergiam daquela cloaca cinza na qual se perdia seu olhar habitual Sua voz. Estava ao mesmo tempo enojada e superexcitada. que. como ele continuassecalado. e o raciocínio. Não passa de desprezo. Repouse. mas não conseguia refrear suas.Ele perguntou-lhe se ela colocara os pedaços principais de carne envoltos em peles ou em cascas de árvore no gelo. senhora. Era isso mesmo o que ele era. abatido sobre a terra que vai absorvê-lo e enterrá-lo. se elevou. e Angélica começou a considerá-lo um loucov Ou então era ela que estava ficando louca por ter respirado aquelas exalações de sangue e de entranhas quentes.. era a receita de sua "Tia Nenibush". mortes e desastres? E ainda por cima me insulta! Ah! Como você odeia as mulheres! Via-lhe a face" empalidecer e o olhar turvar-se. Eu posso esperar. A vida voltaria a ser cotidiana. Sustentando-lhe a cabeça. a quem injustamente devo tantas desgraças. ditava-lhe a receita do caldo.. — Isso não era motivo para me insultar. depois de têlo acomodado um pouco. jesuíta! Caro mensageiro da noite e dos iroqueses. E azar dele se reassumia sua aparência de tronco morto e apodrecido. Os segundos eram preciosos. Não seria você quem poderia me ajudar! Nem nenhuma dessas frágeis crianças! Você não sabe de nada!. Já estava na hora de ele ouvir aquelas verdades de sua própria boca. fraca e hesitante. os gestos daqueles que têm com que se aquecer e se alimentar sobre a terra. Era sinal de que a ceifeira não os alcançara. pois era vida que voltava para ela. e sua alegria era tanta que se esquecia de seus membros doloridos e das horas de provação. não mais semimorta. Ele se calava Ela pensava que. — O menino já me dispensou alguns cuidados. tantas derrotas. — Creio dever apresentar-lhe minhas desculpas. os pedaços que ela devia usar. com tantos esforços e sacrifícios aqui! Tomou fôlego e. bebido um cálice cheio de vinhos capitosos. novamente longínqua.. edificado. esgotar-me para devolver-lhe a vida.. que é a causa de nosso estado miserável. você. meu e dessas pobres crianças. consentindo finalmente em que interrompesse o trabalho. surpresa com seus gestos. depois do alce. julgando que iria desmaiar de tanto bem-estar. em vez de caldo de carne. concebido. por minha falta de civilidade. — Realmente. — E lhe informarei em primeiro lugar que tive razão em não me lançar do telhado onde me encontrava empoleirada para trazer para dentro aquele animal enorme. com agressividade.. Julga que me diverte curar suas feridas. seria preciso renovar-lhe as compressas. embriagada como se tivesse. construído. mesmo morto. a quem devemos a perda de tudo o que havíamos sonhado. reações de pessoa viva e. Ele tinha um olhar muito azul. Ainda não era hora para isso.úma a uma. Não esperava tanta bondade de sua parte — ironizou ela. Olhando para o leito. ela se perguntava ainda o que fazia ali. Mesmo assim. mas encantada. Oh! Obrigada a você. mas era um boa coisa ser capaz de irritar-se contra alguém. Não acontecera nada. como fez. a você. deixou fluir sua onda de cólera.. senhora.. Você me repugna.. palavras. os gestos se tornavam seguros. disse-lhe. orgulho. Você. . Bebeu por sua vez. Não poderia nem arrastá-lo até o posto nem subir ao teto e entrar na casa. Dirigiu-se cambaleante para a lareira. continuou sua obra de destruição. Deu de beber às crianças. A porta estava fechada. Você me concede um pouco de repouso?!. A caça passava ao seu alcance. Ele era destestável.

de reconhecimento. — Estamos prontos para o que devemos viver — respondeu ele —.. Pronunciara uma última palavra: "Perdoeme". que estava de pé ao seu lado. o ar contrafeito. com a testa apoiada à mão do morto. expirara. — Eu não estava pronta para viver um instante tão sublime — disse ela. vindos dele e naquele lugar. — Ele! — respondeu o menino. invadida por uma terrível decepção. como se desertasse do ser vigoroso e decidido que o habitara por algumas horas. eu lhe devo mil desculpas. ele falou entretanto. Não estava. Caiu de joelhos junto à cama. senhora.. estava morto de verdade. — Tem razão. O trato com os bárbaros torna as pessoas grosseiras. Mas não sei se era de alegria. Foi o balbucio das crianças que a despertou. e toda a vilania. A loucura se apodera de nós quando percebemos que estávamos armados para a vitóra.. e calou-se. da embriaguez de vitória. Ele reunira suas últimas forças. portanto. Pousou a fronte sobre a mão inerte e pôs-se a soluçar. o que a fez apoiar-se à parede. depois de ter abatido o alce.. — Nossos corpos são fracos para as correntes que os atravessam — disse ele. com o coração pulsando ainda com uma emoção que não conseguia nem controlar nem explicar. senhora. Foi para ela um choque supremo. Via-o tão pálido. que compreendeu que o esforço feito por ele para levar a bom termo a batalha do alce o aniquilara. Perdoe-me. Adormecera de joelhos. toda a lama que permanecem no fundo dos corações dos homens emergem à superfície naquele que não possui uma alma suficientemente forte para resistir a esse rebaixamento. E depois. mas nem sempre é o que havíamos previsto. Sua voz baixou. Repetiu várias vezes. — Deus sabe que eu não estava pronto para nada do que me dispus a viver. Tudo foi surpresa. "Carne até a primavera.Quando ela se calou. para gritar assim e perder a cabeça. Depois de ter assim falado com uma clareza e uma lucidez que não deixavam de ser estranhos. Ele estava morto. — Não sei o que me deu — reconheceu —. Fiquei enlouquecida.. deixando-à completamente sem forças. e sua voz continuava inteligível.. — Há coisas enterradas que subitamente saem como cóleras ou desesperos de crianças que jamais teriam sido expressos." Seria preciso novamente ficar sozinha. Ficaria novamente sozinha com as crianças. Ele estava morto. calou-se novamente e pareceu apagar-se e desaparecer. Daí nosso desnorteamento. mas que não estávamos ainda preparados para ela.. que apagava a exaltação da vitória. — Quem colocou essa pele sobre mim? — perguntou a Carlos Henrique. com as pálpebras azuladas e fechadas. Essas ressurreições e desaparições tinham algo de esgotante.. Tinha sobre os ombros uma coberta de peles. Essa súbita humildade fez ceder sua cólera. que se apagou como a chama de um fogo de palha. num tom de súplica intensa: "Perdoe-me! Perdoe-me!". Dormira tão bem que não compreendia muito bem onde estava. . morto. apesar de lenta e rouca. Dessa vez. apontando para o homem deitado.

não poderia! Readquiriu sua força interior. Quando uma coisa como aquela começava. recompondo-se depois com brutalidade. de joelhos. A mão permanecia gélida. Eles também. ele. e. com a pele esticada. Ele tinha de viver. Era uma mão fina e longa que permanecia aristocrática. Uma febre muito alta apoderara-se do doente. O espectro da gangrena se afastou. Respondia àquela voz como à de um fantasma. O Padre d'Orgeval estava morto. lamuriando-se e virando a cabeça da direita para a esquerda e repetindo: "Oh! que ela se cale!. dando a Angélica novamente a impressão de que um morto partilhava a moradia." Tinha cortado uma alce inteiro. espreitando-lhe o estremecimento. Ela continuava.". Angélica notava que uma delas estava mais inchada.. Não se reaquecera nem ao calor de sua fronte. Obstinou-se em prodigaJizar-lhe todos os remédios de que dispunha. Teve a impressão de que os lábios lhe devolviam o sorriso. sair e matar o alce. e depois. e aquele que ali estava era um impostor. Convencer-se disso iria exigir-lhe mais tempo. seu pior inimigo?. a força para se levantar. CAPÍTULO XIX A cumplicidade de náufragos desenganados Ela reconhecera ser ele Sebastião D'Orgeval. Pois..permaneceu prostrado..Acabava de se perguntar .se não fora visitada por um "verdadeiro" morto que. — Quando? — Antes de adormecer. martirizado pelos iroqueses. agora que havia carne para muito tempo. mas ter de serrar uma perna de um ser vivo. — Por que você chorava? — perguntou uma voz. examinando-lhe as pernas no dia seguinte pela manhã. com a face apoiada. Mas a febre não baixava.. Muitos sinais haviam sido dados.à sua mão. sorriu. Uma trégua seria possível. ou pelo menos um ser enfraquecido. em iroquês. levantando a cabeça. Quando a febre baixou. Ser-lhe-ia preciso esperar para obter resposta às perguntas que colocava a si mesma. teria desejado rejubilar-se e distender-se. "Que força existe nele!".. o que lhe era mais difícil de suportar. Mas sentiu estremecer a mão que segurava entre as suas. um moribundo. O receio da terrível gangrena invadiu-a. Acariciou-a várias vezes. parecia morto e em outros voltava a habitar-lhe o corpo. declarado morto havia dois anos. Ficou muito tempo apoiada. apoiara a cabeça dela contra seu ombro comunicando-lhe sua força. O passado edificara situações e imagens e tudo isso se esboroava diante da realidade. por instantes. só havia duas saídas: a morte ou a ablação do membro atingido. "Não! Não! Isso eu não poderia fazer. . Ele se agitava. e balbuciando o tempo todo frases indistintas. pensou rememorando aquele instante em que ele dissera: "Aproxime-se! Venha! Venha mais para perto!" E em que a pegara com mãos que pareciam garras e. e ele exclamou: — Você lamentaria então minha morte!? meu fim? Eu. — Porque julguei que você havia morrido. . apesar da deformação dos dedos cortados e das unhas arrancadas. como quando dormira aquele sono reparador. Examinou-a. à força. ' A mão cerúlea era bem a mão de um morto. não. sem o perceber.

Como poderia esquecer essa criatura do Diabo. de exaustão. e. articulava mil intrigas e fabricava velas verdes perfumadas com a cera dos frutos da flor-de-cera.. da Companhia de Jesus. — Sim. Roubou seu crucifixo. Aquele que jazia ali era um impostor. Ambrosina? Sua pele terrosa empalideceu.séu lado. excomungado. mas. Disseram-me que fui eu que acabei por estrangulá-lo em nosso berço comum... — Não é o jesuíta santo e mártir. sua irmã de leite. ele mudou de expressão e pareceu inquieto. sentiu que ele "a observava de maneira consciente. parecia estar se deixando deslizar para a morte por covardia. Estava decidida a preparar-lhe uma armadilha para confundi-lo. Sinto-o. Fixava-a com aquele sorriso sardónico.. — Fale-me de sua irmã de leite — disse ela. ele queria matar-me. uma expressão sorrateira. de embrutecimento. que odiava a Mulher porque só conhecera mulheres infames e as combatia como a encarnação do Mal. por vezes. seu nome começa com A. Não é ele. pelo que me lembro. mas que lhe despertou novamente as dúvidas. novamente lúcido. a mãe de Zalil foi também minha ama-de-leite antes dele. meu verdadeiro irmão de leite. viu naquele olhar... Depois recomeçou a sorrir com a brusca ironia. não era minha irmã de leite. espreitando aquela face estranha. enquanto escovava os cabelos das crianças contando-lhes uma história. continuando. Você!— Você é desprezível.Considerando que talvez fosse realmente o Padre d'Orgeval. voltando-se em sua direção. a sotaina do falecido Padre d'Orgeval. o intratável. tinha um pé aleijado. a atormentava. Seu: olhar turvou-se e ele virou a cabeça.... bêbado. E seu olhar vacilou. que ela amamentava ao mesmo tempo que a mim. mas também que sofria as traições de seus amigos. Ele era um ser de elite. nos grandes Lagos. de expressão ambígua e subitamente angustiada. — Quem é você? — repetiu. Vou desmascará-lo. em virtude de uma tendência a envesgar que se seguira à febre alta.. num tom de conversa. como o da Diaba. que sabia tudo. mas também. confessando na Acádia. Esboçava uma espécie de careta zombeteira. O filho mais velho de Zalil. em Quebec.. Ela insistiu. Aproximou-se do leito.. desocupado. o grande. que ela julgou vulgar. que para evadir-se pegara o crucifixo. Essa força que alguns momentos irrompia nâo parecia pertencer ao mesmo indivíduo que. . Colocado ao. _ Não! Não é o Padre d'Orgeval. cuja significação não poderia precisar. Teria desejado apagar os vestígios das sevícias que sofrera. aqueles que diziam ter o dom da ubiquidade. algum explorador de bosques. o intolerante Padre d'Orgeval. Ele pareceu perturbado como uma criança com medo de não encontrar a resposta correta. após um breve silêncio: — Entretanto. o pensamento de que os índios haviam levado o grande missionário a um tal grau de depauperamento. A moléstia que o corroía ia além de seus males físicos. Não pôde impedir-se de lançar-lhe: —Quem é você? A essa pergunta abrupta.. abandonando-se às visões de seu delírio ou do torpor. tudo. que se prostrava em preces ao pé do altar. o que lhe pareceu muito desagradável. desdentado. fazê-lo voltar ao que era antes. hesitante: — Não. sua identidade. Puxou um escabelo e sentou-se à sua cabeceira. —Já lhe disse! Sou Sebastião d'Orgeval.. Certa manhã. de Zalil. Depois respondeu... sem desviar-lhe os olhos. que conduzia suas tropas ao combate brandindo sua bandeira bordada.

Era na verdade um manto de neve. Seguir-se-ia um período silencioso.. talvez. Não quero aceitar que tantos horrores. Não falemos de assuntos lúgubres. mais precisa. ou não passava de uma roupagem. e não sem motivos. mantendo-se rígido e de olhos fechados. que dizia: "Peque. E que você deveria parar de se preocupar com o que diz Lutero. Seus raciocínios estão fortemente maculados de heresia. atenuado.. era mesmo você?.. Pois não está apto a decidir sobre o que é pecado ou não! Ela falara sem refletir. Quanto mais estranho é o nascimento. Angélica perguntou a si mesma se. Isso a aproxima de Lutero.. por favor. — Você foi carregado com um fardo muito grande. o guerreiro. um disfarce para um período transitório? Não teria se tornado jesuíta apenas para poder mais facilmente tomar seu atalho? — Que me conduziria aonde? — Aonde está chegando. tantos atos vis sejam o caminho de meu destino. levou-a aos lábios: — Deus a abençoe! — murmurou. Essas últimas palavras fizeram-no estremecer. Mas talvez você tenha razão.. Ele se debateu. mas peque fortemente!. o padre devotado à salvação das almas. considerá-la através de outras verdades.. escravizá-lo. por não ter tido mais cuidado.. Voltando à realidade. Ele permaneceu estendido por um breve momento e depois lançou o corpo para trás. ele se ergueu com um movimento ágil e.. por mais jesuíta que seja. padre. — Sim! Sim! É assim. Fora uma troca de palavras súbita. e arrependeu-se por ter sido tão ríspida. nas montanhas do Dauphiné". e ela reencontrou o brilho perigoso de suas pupilas. mas não destituído de vivacidade e de brilho. e não me fará mudar de ideia. sob o efeito da contrariedade.." — Oh! Não me fatigue. — Não. mais exigente o destino. lá longe. como duas lâminas brilhantes de duelistas cruzando-se no início de um combate para avaliar suas forças. ele não estaria novamente passando desta para melhor. A personagem que lhe foi atribuída: o missionário. ela protestou energicamente: — Tolices! Quiseram persuadj-lo dessa fábula para assustá-lo. Não creio. — Você poderia expor-me os motivos? — Não o conheço suficientemente bem. tomandolhe a mão entre as suas. Mas quando se levantava por deixá-lo repousar. Calvino ou São Tomás. Na verdade ignoro tudo a seu respeito. Tive uma amostra disso com sua Ambrosina. Mas que tenha sido feito à sua imagem.. — Com que ardor você me defende!. acredito. o conquistador de mundos novos para a glória de Deus e do reino.Angélica estremeceu.. Não estou em condições de discutir teologia. com a volta da saúde. Que tenha sido cercado em sua infância por mulheres perversas e cruéis. lembrando-se das palavras que Ambro-sina gostava de repetir com exaltação e nostalgia: "Éramos três crianças malditas. tal como os que dispensam as brasas ardentes de um fogo minando sob um manto de cinzas. desejado por Deus. .. mas não se deixou impressionar. Os dogmas! A Letra! Armas que matam. não acredito. Quero dizer simplesmente que é preciso lançar sobre sua vida um outro olhar. cuja cor azul se tornava.

únicos sobreviventes na superfície do mar. em resposta ao grande silêncio que estivera prestes a enterrá-la nos limbos da loucura. "Sede!. A presença humana ao seu lado deixara de causar-lhe um mal-estar ambíguo... ele virou a cabeça. Tudo havia mudado. tão escuro e tão pouco diferente da noite. e os trabalhos diurnos. esse leito levou-os de um dia para o outro do inverno mortal. Cozinhar. do dia seguinte. se juntasse ainda o de vê-lo sucumbir. era muito curto. . como se dava conta. Sede!. que era ali chamado também "moléstia da terra". às vezes. para germinar dia após dia. de aveia-louca.. escutava a respiração de seu morto. que era quente e onde se podia distender no repouso.". gemeu e depois murmurou: — Dê-o às crianças. Teria visto esse fim como o anúncio inelutável do deles. quando faltavam víveres frescos. do sono das crianças. em que precisava levantar-se para cuidar do fogo. dividindo-o bem ou mal entre noites. entrecortada em alguns momentos pelo estertor ou por palavras desconexas. do calor. Censurava-lhe antecipadamente esse último golpe. Suas rea-ções primeiras haviam se acalmado. que ela se cale!. levou-os ao fundo da sombra.. ancorada no fundo de seu ser. Mas algumas vezes sentia-se logo exausta de se manter sentada e voltava rapidamente para a cama. A noite.. — Está dormindo? — Não. em que se misturavam o medo que se ligava a um nome inimigo e o receio que sentia permanentemente de vê4o morrer. pois o dia. do repouso concedido a seus membros enfraquecidos. seria então o momento de ir para trás de sua cortina fazer suas abluções e sentar-se diante do espelho para cuidar por sua vez dos cabelos. quando quis introduzir-la nos lábios do "comatoso". finalmente. Até o dia em que isso também se evaporou. acordava surpresa por sentir a doçura de momentos em que. escovar-lhes os cabelos.. Sou uma boca inútil. O deserto branco afrouxava seu abraço. A claridade dos carvões abrigados sob as cinzas lançava reflexos róseos e dançantes na vigas baixas do abrigo.. se dispersara. O conforto que experimentava. ou então: "Ah! que ela se cale!. Suas sensações aguçadas percebiam tudo a respeito daquela existência que tomara lugar ao lado deles em seu túmulo. trocar os curativos. esses germes representavam uma defesa contra o escorbuto. esquecer a fome e as angústias. podendo enfiar-se novamente sob as cobertas. — Sente dores? — Não. quanto nos navios. e compreendeu que não queria que ele morresse porque se lhe afeiçoara. náufragos.. a todos os fracassos que a ele devia. Mais tarde levantar-se-ia para alimentar outra vez toda a sua gente." Era uma voz humana. sendo tão ameaçador nas invernadas. Dava uma colherada todos os dias às crianças. desfrutando daquela calma em que todas as coisas tranquilizadoras estavam enfim nos devidos lugares. Via-o terminar com prazer. permitia-lhe relaxar. onde se deixava ficar com um suspiro de bem-estar.E Angélica perdeu um pouco a noção do tempo. distribuir as refeições. como uma jangada carregada de homens exangues descendo a corrente de um rio noturno em direção à luz da primavera.. a angústia. uma aproximação de cegos procurando-se em sua obscuridade. chamando um ao outro nas brumas. Restava apenas a obsessão de que.. dar banho nas crianças. que realizava muito lentamente. Em palavras breves e sussurradas teciam-se uma cumplicidade. Colocava em pratos revestidos com estopa úmida pequenas porções de arroz. o leito. Por que me salvou? Por que não me comeu?. No silêncio da noite.

"Como fomos felizes!". mais perigosas que as tempestades uivantes. "Queria não me esquecer de nada". quase os meses do coração do inverno. um tempo fora do tempo. tudo foi trocado entre eles. seu núcleo duro e negro. — Não é noite. deixou-o prosseguir seu sinistro discurso. os silêncios. receando o enfraquecimento da memória. No início. o pensamento se comprazia em eclodir mais livremente.. mas dia. como ele parecia esperar uma resposta ou comentário. Narrativas. que nasciam daquela pegajosa intimidade do inverno. E começou a discorrer em seu tom de professor catedrático sobre os princípios expostos na Practica Inquisitionis. se deixava dominar pela influência da noite. se o vento ia soprar ou se a geada ia aumentar. dizia. confissões. É noite. de uma clareza incríveis: os gestos. ensinamentos. que ajuda os mortais a conduzir a vida. de uma doçura e de uma ternura infinitas. o sangue não devia verter-se de maneira a acarretar uma morte demasiado rápida. Há muito esqueci o que é viver sem sofrer. Tudo era de uma leveza. discussões. ele sempre sabia se do lado de fora era dia ou noite. um período interminável e muito breve. também. Eis por que se ativeram a três pontos principais: a roda. mas. se a neve caía ou se o céu estava limpo. depois em anos. . escrito por Bernarel. intimou-o a meia-voz: — Cale-se. Tudo tinha um sentido. o cavalete e o interrogatório pela água. Essas palavras lhe viriam aos lábios quando se voltasse para aquele tempo. tentação que a ameaçara quando. dir-se-ia ela um dia. as semanas. não podendo mais agarrar-se senão a vagas claridades que não sabia como interpretar. pontuado de momentos de encantos. de uma simplicidade. Durmamos. cortado de remissões ensolaradas. mistificador como úmTlabirinto. envolvendo de neve algodoada dias em qué o sono tinha tanta importância. consciente da vacuidade do mundo enfim deserto. podia resistir melhor à tentação de se estirar e se refugiar no sono. de um dia a uma noite e de uma noite a um dia. julgando que estivesse delirando.Uma vez ele respondeu: — Não sei. pois amiúde não souberam se era dia ou noite. obscuro e opressivo como um subterrâneo por onde se rateja sem esperança de algum dia encontrar a luz solar na outra extremidade. confidências. as palavras e até essas praias cegas do sono. no início do século XII. para reuni-los em meses. Sem se mexer e sem mesmo reabrir os olhos. Citou "Faudencia de tormento" como método de tortura utilizado de modo corrente. que aquelas pesadas e inesgotáveis quedas de neve. Nela. Isso ajudou Angélica a dar à existência uma estrutura mais de acordo com a disciplina. dizia consigo Angélica. um dos célebres manuais da Inquisição. os libertava do peso e da impotência que oprimem os humanos. para a purificação.. pela duração de sua salvação. noites em que." vindas para ajudá-los a atravessar o inverno num estado de graça semelhante ao que se deve experimentar quando se anda sobre as águas e que. que foi o Grande Inquisidor de Toulouse durante quase vinte anos. Sendo o dia destinado a se ficar de pé e aos trabalhos. e em que Angélica sentia o estranhamento de ser conduzida por forças vitais de uma espécie desconhecida. Esses assuntos podem alimentar seus pesadelos. Seguir-se-iam pois as horas e os dias.. O fogo vinha em seguida.. como que dando continuidade a uma conversa anterior.

deviam ser os últimos sobreviventes de um bando disperso pelo frio e pela fome. A fêmea só parirá oito meses depois. abafadas pela noite e pelo peso do inverno. a maga de Salem. em que as respostas tinham sido dadas pouco a pouco sobre ele. dizia de repente.Imaginava-se mais tarde com uma pena na mão. As palavras que lhe escapavam às vezes. A pergunta que ela fez: — Como sabia que havia um alce lá fora? Respondeu irrefletidamente: — E você? Como soube. com sua voz rouca. fora cotidianamente cumulado em seus anos de cativeiro. acrescido do efeito mais material de revoadas de pauladas. uma fêmea com o filhote. como que por descuido. numa noite de Epifania. cujos estupores profundos da alma o haviam ferido. de magister mundano: — Senhora. garantia: — Gosto quando ele conta histórias de bichos. aberta sobre os murmúrios de um parque. No início. seu passado. que o Padre Massérat e seus companheiros morriam sob a neve. Daí por que é impossível encontrar. mas também sobre o futuro. E eis què ele lhe explicava por que. Para o jesuíta o desenvolvimento da crónica seguia a evolução lenta e anárquica de sua volta à saúde e. e até aquela pergunta que um dia se colocara: "E eu? Quem sou eu?". numa certa medida. Por exemplo. de preferência no crânio. expulsos de seus territórios pelas intempéries. Conhecia pelo menos oito receitas diferentes para preparar o trigo-sarraceno. as revoluções dos tempos e dos espíritos. Irritado e perigoso. e eles só começam a crescer novamente por volta de abril. — O alce macho perde os chifres em dezembro. — Que estúpida! Eu sabia tudo isso. replicara: "Alguém um dia lhe dirá". no dia seguinte à caça. e à qual Ruth. de uma ganga de embrutecimentos. mas era uma ótima cozinheira. misturados a alguns ossos e pedaços de pele. dialogavam tendo por único eco um balbucio de crianças ou o crepitar do fogo na lareira de seixos. retraçavam esse calvário. suas voltas à superfície tomavam um aspecto estranho. o mingau de milho ou de trigo-sarraceno. aos arrancos. fora buscar. não podia ser uma fêmea com o filhote. Foi no dia em que Angélica estava fervendo os cascos do filhote de alce que. ocupada em redigir suas "Crónicas da jangada de solidão". aumenta a excitação do cio. segundo seu relato. — Quem era sua Tia Nenibush? — Minha ama iroquesa. — Os dois animais. mamãe. os destinos. a alguns passos de sua casa? . e que encontrara em meio aos rastros dos lobos. em que duas vozes subterrâneas. diante de uma janela ensolarada. gostaria de ouvir-me falar sobre os alces? — Os alces? Mas Carlos Henrique. num esforço supremo. hesitante e aplicada. no outono. sobras do festim.. à razão. arrastando os gémeos para ouvi-lo. Como se tivesse se esforçado para reunir dentro de si os pedaços de uma personagem que se esfacelara. nessa"estação. com as quais. — Ele não tinha chifres — arguiu Angélica. a propósito de discussões para tornar saborosa a sagamité. até se tornar aquele soberbo penacho que. mas estava fora de mim. Dir-se-ia que esta emergia. explicou: — Oh! Minha Tia Nenibush me cobria de pancadas. seu chamado faz então ressoar as florestas. um velho e um jovem. parece-me.. naquela época do ano.

o chefe dos mohawks. Oh! Como isso era verdadeiro!. Viu-o sacudir-se em espasmos e julgou que estivesse sufocando. Mas. com os olhos faiscando de cólera. Você está morto. nem um nem outro. acreditamos nesse primeiro sentido.. sem que ela pudesse saber se se referia a Utakê ou ao Padre de Marville. murmurando: — Mas foi por culpa sua. no sentido em que o entende." Voltou-se para ela. eu a vi.. — Aquele que levou a notícia não tinha nada que autorizasse a dizer que era um tagarela. E afinal não havia nisso 'nada de tão maravilhoso. missionários ou exploradores de bosques. perdendo as forças.. Verrumou-a com um olhar feroz. mas ele ria às gargalhadas. — Ele ousou fazer isso!. morto como mártir dos iroqueses. jamais foram avaros de suas falanges em prol da salvação dos índios.. —É verdade. sentiu que não estavam. "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo... num relicário. Pareceu-me muito sério e pouco afeito a brincadeiras. eu mesma o ouvi afirmar: "O Padre d'Orgeval morreu como mártir.. Eu sou testemunha". o chefe dos onondagas. — Padre — disse-lhe um dia —. Como se explica a divulgação de sua morte e. — Por que tanta animosidade no que se refere a mim. Ora. Sebastião d'Orgeval. há mais de dois anos já? Ele fechou os olhos e deixou passar um tempo antes de responder. Sua culpa. Jamais me havia visto!. —Ele fez isso! Ele fez isso! — repetiu várias vezes. um colar de wampum.. que levava a meu esposo. solícitos em testemunhar pela tortura diante dos pagãos sua fé cristã e sua dedicação ao rei da França.. que confirmava as declarações do Padre de Marville. a existência daquele jesuíta estivera mesclada à deles. Mas as palavras exatas do wampum eram: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo". com um tom de desprezo: — Os tagarelas gostam de criar lendas. nas procissões em Quebec costumam levar. avisando-lhe: "O Padre d'Orgeval está morto". o Padre de Marville.. um de seus dedos.. um riso rouco e desencantado. durante seus anos de América. se se lembrasse a que ponto. começou a esclarecer pontos obscuros. além de tudo. sobre eles. compreendia melhor que estava diante de um homem que vinha perseguindo-os com sua hostilidade havia muito tempo. da parte de Utakê. —O que dizia exatamente esse colar? —Na verdade. em breve virá a canonização. Acompanhava-o Tahutaguete. Por essas explosões de raiva. — Sim. e que a atacara pessoalmente. Nesse ponto. pois os canadenses. Trata-se de um de seus irmãos de ordem. por sua culpa.Ele sabia muitas coisas sobre ela.. Adivinhando a que incidente ele aludia. O jesuíta soergueu-se na cama. em condições de abordar com franqueza e simplicidade o tema. padre. Pouco a pouco. Vi o colar e decifrei-lhe a "mensagem". fim. tudo!. ele se . e deixou-se cair sobre o travesseiro. ainda que isso não prove nada. no que se refere a você. E nos descreveu seus suplícios e seu. padre? Você não me conhecia. falam de relíquias santas... Ela recebia pois a confirmação daquilo que até então fora apenas uma suspeita. Está já na lista das beatificações apresentadas a Roma.

O que acontecera depois que fora para as tribos iroque-sas não lhe interessava. de que tudo o que eu vivia no domínio paterno não era sadio e acabaria por causar minha perda moral e física. bispo ou cónego. Consciente. insisti junto a meu tio em acompanhá-lo. e meu pai tentou inutilmente demonstrar-lhe que eu era seu único herdeiro. Ele pôs na cabeça que eu devia entrar para as ordens. — Um magnífico combate para duas belas mulheres!. cada uma delas submissa. D'Orgeval deu um sorriso zombeteiro. — Eu tinha um tio. Desde muito jovem. provavelmente por causa das histórias e da pessoa de Ambrosina. Não parecia convencido de que se tratasse da mesma Ambrosina. Como ele evocasse Loménie. Seu espírito parecia detido diante dos primeiros episódios de sua luta. Ele falou a esse respeito de boa vontade. Essa infância parecia familiar a Angélica. como que invadido por uma angústia enorme. em especial no da mentira e crueldade. Ela não pensava que você lhe devolveria suas armas: astúcia e impertinência. Foi minha intervenção que decidiu a partida em favor do bispo. no início da adolescência. que os aproximava pelo conhecimento íntimo e sem ilusões que cada um deles tinha acerca daquela criatura. o princípio feminino do Mal.. um dia ou outro. ai de mim! Pois ela tampouco estava morta.. pela graça de Deus. Pressentia que era de seu dever ajudá-lo nisso. Voltou com frequência a seus anos de estudos na adolescência.. a mulher primeira do pecado. falando da amizade do jovem Cláudio de Loménie-Chambord. Ela voltou para concluir sua obra. Falava de bom grado sobre sua infância. ela se informou sobre os acontecimentos que o tinham levado daquele rude Dauphiné ao convívio dos jesuítas. — Eram todas Liliths. sem conseguir demovê-lo. encantadora como um anjinho. Foi assim que entrei para o Colégio de Clermont dos Jesuítas em Paris. pois . e elá preferia restringir-se àqueles primeiros esboços de confidências. que lhe colocara. Adivinhava o mergulho que ele seria obrigado a dar. tanto pelas armas dos argumentos como por ameaças e alguns socos. Mas quando começou a explicar-lhe com veemência o desenrolar dos últimos acontecimentos. não sei mais. para ir massacrar os hereges das regiões vizinhas. Você triunfou! — Não inteiramente. da baía Francesa!. — E foi esse paradigma de vícios que você nos enviou para alcançar seus objetivos de abater seus rivais.chocava contra um obstáculo que o deixava ofegante. Ignoro se. esmerava-se em todos os vícios.. Nascera pois entre mulheres demoníacas. exceto de seu tempo de noviciado. tão feroz em descarregar a férula da Igreja sobre suas ovelhas quanto meu pai com sua espada sobre os hereges. dominada pela noite e pelos massacres. o eclesiástico queria ficar com uma parte da herança. Os dois enormes indivíduos lutaram durante dois dias. de diferentes formas. um espadeirão nas mãos. que fora seu amigo dos tempos de colégio. e que somente ela podia fazê-lo. nas zonas proibidas de seu ser. como filho caçula. irmão de meu pai. Preferia que ambos permanecessem nas explicações superficiais. ao Maligno. Ela o encorajava. ao lado de seu temível pai. Ambrosina. Infância soturna. tão perigosa. ainda muito jovem. abençoado pelo capelão do castelo. ele demonstrou indiferença.

As mulheres escapam com mais facilidade a essas influências. — Eles me quebraram alguma coisa aqui — dizia.. reconduzia-o a questões anódinas. a perda daquele estado de inocência quando chega a adolescência. — As crianças se lembram do inefável. mas para deplorar. Voltava depois à infância. mas ele se referia a seus mestres-jesuítas. Julguei reencontrar isso algumas vezes junto ao pequeno Cláudio de Loménie. não foi o perigo da vinda dele o que me alertou.. gritava-me uma voz na nuvem. apontando o quadril. que eu viera trazer para cá. Eu era -urna criança da natureza. que se tornara Cavaleiro de Malta. inglês.. dessa vez.. A América! Acreditava que. Quando fingia não se lembrar ou estar confuso. — Quebraram não..tratava-se de longos anos de iniciação. escocês. Era um flibusteiro das Pequenas Antilhas. ela sabia que nele isso era sinal de uma dor insuportável. — Para dizer a verdade. preenchia minha expectativa!. Uma vez mais. nas costas da Acádia.. sempre se mostrou disposto a encontrar todo habitante ou missionário da região.. Se eu via nele um perigo. Naquele dia ele se recusou a dizer qualquer outra coisa. Dominado pelas fontes e pelo sangue. parecia-lhe. depois de anos de lutas. eu alimentava ilusões. vindo para cá. Quanto a mim. Mas nada em sua vida fora anódino. à negra infância. O êxtase é algumas vezes concedido somente ao inocente. ao se instalar nas costas do Maine com cartas de gerência do Massachusetts. Conseguem conciliar melhor a' lu"z e a sombra. aquele que ele preparava para mim era de uma espécie desconhecida. a assuntos menos penosos. para se aliar a ele. fiquei imediatamente de sobreaviso. alguns anos mais novo que eu.. Mas eu tivera uma espécie de sonho: "Tudo começa.. esse trazia consigo minha perda. A obra que eu abraçara. A baía Francesa é um tal cadinho de nações que todos podem ainda encontrar ali o seu lugar. e que a disciplina da ordem lhe impunha calar.. Mais tarde. se instalava nessa no man's land do Maine.. CAPÍTULO XX Uma paixão condenada . vedados ao profano. e em que fora bemsucedido. Com que rapidez a cinza e a areia são lançadas sobre seus sonhos. torceram. — Creio poder assegurar-lhe que meu^esposo. eu continuava esperando encontrá-la. Os caminhos que fui obrigado a tomar em seguida afastaram-me de sua doçura. pior que isso. Recomendava-lhe então que tivesse pa ciência. até que o ramo cheio de seiva se tornasse seco e petrificado e incapaz de renascer. onde me esperava meu antigo condiscípulo Cláudio de Loménie-Chambord. Via estender-se até os confins dessa terra selvagem o reino de Cristo. quando soube que um fidalgo de aventuras. francês. Tudo começa". que não conseguia superar com palavras sem desmaiar. no início.. ignorava tudo a seu respeito. Dessa vez. nem sequer estava presente nas paragens da baía Francesa. Mas havia mais alguma coisa. E ela julgava que' estivesse falando dos torturadores iroqueses. a harmonia e ó caos. quando eu embarcava para a América. Tomei informações sobre ele. Ao contrário. a luz estivesse à minha espera. — Ele continuou: — Por isso. que não dependia nem do rei da França nem do rei da Inglaterra.

'a mulher nua saindo das águas". mas com cavalos. apesar do cuidado que tínhamos tido em prepará-la. tive de me deter. assim como da região do Richelieu.. Ele calou-se. de passagem por ali. a fim de retomar fôlego. Cláudio atearia fogo no posto.. Eu o apressara a pôr-se em ação. deixou passar um longo momento de silêncio. "Estava indo pois ao seu encontro. banhar-se num dos dez mil lagos da regiãodo Maine americano. "Havia nessa audácia de invadir o centro de uma região até então deserta.—Seja como for. "O pressentimento associado a meu sonho abalava minha convicção de levar aquela campanha a bom termo. Menos por tolerância que por lassidão. com uma voz sufocada. mas não era a primeira vez que meu amigo de infância e eu fazíamos nossos negócios de acordo com nossas próprias ideias. ela não procurava romper o silêncio. Pois uma notícia me fora transmitida: 'eles' subiam com cavalos. Depois. seguro de ter posto tudo em açào para acabar com os indesejáveis.. a fim de chegar antes 'deles'. Eu andava na floresta.. e com Loménie e as tropas que os esperavam para trucidá-los. que ela julgava dentre os mais inalienáveis. de que pudesse ser percebida por um estrangeiro-. Minha angústia chegou a tal ponto que. Pont-Briand. "Agíamos sem a aprovação de Frontenac. no cimo de um promontório. e o calor incandescente do dia contribuía para essa miragem. foi naquele dia do outono. daqueles que subiam do sul numa caravana. não apenas com mulheres e crianças.. . uma afirmação de não se deixar deter por nada. "Eu começava a andar num estado desdobrado. Continuou. Maudreuil. eu a via chamejar a meus olhos. e que eu sentia como um desafio. numa cálida tarde de verão indígena. eu tinha conseguido até então que os diques não se rompessem — declarou de repente. Havia expresso muitas vezes sua defesa quanto a seus direitos. pensou Angélica. De minha parte eu me preparava para reunir-me a um segundo contingente de forças armadas vindo de Trois-Rivieres e de Ville-Marie. reconhecidamente escaldante. "Não sei por que esse detalhe me atormentava o espírito como uma verruma de artesão penetrando profundamente na madeira e extraindo-lhe a substância. Loménie. "Pronto!". Menos por pudor que por estar habituada a esse tipo de debate. Ela. como lhe acontecia regularmente. que prometiam -proliferar. depois prepararia a emboscada. a certeza de que nenhum daqueles estrangeiros lhe escaparia. num âmbito de milhares de milhas ao redor. Huronianos e algonquinos. dando a impressão de que perdera o fio do pensamento ou que adormecera. por ordem minha. monocórdia e por instantes trémula: — A primeira vez que os diques se romperam. uma tranquila segurança de se mostrar finalmente o mais forte. O vermelho e o dourado das árvores no outono cercavam-me de chamas imóveis. realizando uma façanha sem precedentes. a cavaleiro de um lago. Estava ao mesmo tempo com os estrangeiros e seus cavalos. Mas quando ele se calava.. A essa altura.. Mas eu andava como num pesadelo. Quero dizer. comandados pelos melhores senhores canadenses que já me haviam acompanhado em minhas campanhas contra os heréticps da Nova Inglaterra: L'Aubigniere. "Ele e eu tínhamos feito um acordo de "arrancar sem demora as raízes do invasor. de poder. "E foi então que eu A vi. "A floresta chamejava. devia investir contra o posto de Katarunk. região por outro lado considerada tão impenetrável que havia poucos riscos. Ela era em toda parte a presença temível.

"Pior: agindo dessa maneira. mas que . Mas. Decidi prosseguir meu caminho na direção escolhida. estrangeiros jurados de destruição. Isso exigia demais de mim. voltando à sua cabeceira." — Valia a pena fazer disso um drama tão grande? — disse ela. Eu compreendia.. por isso mesmo. O Amor!. num mundo povoado de inimigos. Ele gemeu. "Caí fulminado como por um raio. Decidi esconder-me atrás das mentiras. Devia obedecer à iluminação? "Não pude fazê-lo. Encontrei-me só. em que vira apresentar-se ao mesmo tempo toda a artificialidade do fenómeno. me sentia presa. menos que ninguém. aproximando-me de seu objeto. Único em minha espécie. pois abrem-nos um paraíso. que teriam provavelmente-ocorrido cedo ou tarde. Depois do que acabava de me acontecer. jamais tive a menor dúvida de que não fosse você a mulher demoníaca da visão de Madre Madalena de Quebec. subitamente. deslizou-lhe o braço sob os ombros.. sem sequer a fé num deus qualquer ao qual pudesse oferecer o sacrifício de minha metamorfose. E tudo não passou de uma lenta e convulsiva queda de todo o meu ser até o fim. Que você queria esconder? — O que me aconteceu. Depois. que somos os únicos a viver. "Encontrei-me nu. as únicas palavras que podiam obrigá-lo a reconhecer que ele se utilizara disso para subjugar os espíritos. mas que encontraram um pretexto para eclodir. tudo foi destruído. Mas eu me escondi. e que reconhecesse: "Sou um dos seus". pois era assim que eu sempre considerara os transportes do amor.. Ela se levantou e foi encher uma tigela com uma bebida quente. não porque lhes desse crédito. e que deviam ser evitados e combatidos. com uma voz sufocada. melhor. amparando-o enquanto ele bebia. — Sim! Pois era a negação de toda a minha vida e.. poderia enganar-se a esse respeito! — É verdade — concordou. de complicações e até guerras. não tinha outra alternativa. adivinhava-o antecipadamente. — Mas afinal o quê? — Como vou sabê-lo. ele exigia que eu abandonasse tudo.. — Fale agora.Que isso tenha acarretado toda uma série de dramas. foi o que se encarregaram de fazê-la compreender no decorrer dos anos.. . em que se é o único a penetrar. "Quantas confissões tinham me descrito os mesmos sintomas irresistíveis. o Amor.. A vontade de reduzir o caso a suas proporções normais ditou-lhe uma reflexão muita chã. que eu me apresentasse diante de vocês. Seu peito erguia-se de maneira espasmódica. — É verdade. Um dia eu lhe explicarei tudo. se quiser. a partir daquele dia. A palavra é fraca. como o jovem rico do Evangelho. mas do mesmo modo que o animal em perigo se camufla. minha condenação. e dos quais. entreguei-me. através de delícias e sofrimentos. a dar. mas também sua amplitude secreta. A descoberta de paixões desconhecidas? Você não pode compreender. às penas de uma paixão que só poderia ser corrosiva e mortal. indecifrável para todos ou quase todos.. fazendo de mim um danado que queimava de um fogo cujo domínio jamais eu suspeitara. Como explicar o sentimento que se apoderou de mim? Mais do que um sentimento. Ao contrário. — Não me diga que julgou ter visto realizar-se a visão da Madre Madalena sobre a Diaba da Acádia que agitava sua grei! Você. insaciável.permanecia. prudentemente.

como. Maubeuge me exilou. num outro tom de voz: — Maubeuge. o que ele me disse. sozinho e sem amigos. e também iroqueses das Cinco Nações. Entretanto. Quando vocês se aproximaram de Quebec."Contra você e os seus. os outros jesuítas. Não sem antes fustigar-me com palavras duras. O Sr. Continuou. " "Sentia no fundo de mim a covardia. eu teria retomado a cidade. compreendi que ninguém se preocupava comigo — disse com um muxoxo de amargura. raros e a semanas de marcha uns dos outros. mais ou menos dispersas e aniquiladas pelas guerras com seus congéneres pagãos: os neutros. mais ou menos desprovidos de licença.. todas as expedições para o alto Saint-Laurent e os Grandes Lagos. "Meus votos de obediência me obrigavam a me afastar. convertidos. de que estava prisioneiro dos iroqueses. recusando-se a tomar conhecimento de fosse o que fosse que acontecesse no Canadá ou na Acádia. que se apresentavam como anos ativos de apostolado. e à exceção da passagem de alguns "viajantes" ou exploradores de bosques. — Nem com o que podia acontecer-me. não recebeu nenhuma notícia de quem quer que fosse. tentei todos os meus planos. Situava-se a meses de navegação do último ponto da Nova França habitado. à beira de um lago. Eu o soubera. perto de Montreal. "Perdi meus poderes. parecia ter atravessado aqueles anos. ademais. reconstruído no estreito que ligava o lago Huron ao lago Superior ou Tracy. e de seus ajudantes e servidores franceses. Eu estava vencido de antemão. no fundo. isolados. num estado de transes nervosos." Falou pouco dos meses passados nos povoados de um largo setor entre o lago Frontenac ou Ontário e o lago Huron. não somente a fim de poder praticar sua nova fé. Fui para muito longe.-Marie. me exilou. E.. perseguidos e expulsos de suas tribos por esse fato. Eles deixavam o vale dos Cinco Lagos para vir se reunir à sombra dos franceses e dos jesuítas. num clarão. Segundo o que dava a entender. os do Erie. O ponto de ligação dos missionários era esse estabelecimento do Forte Sainte. Fora os homens de guarnição dos fortes. Ninguém procurou se informar sobre o lugar em que se encontrava nem fazer chegar-lhe às mãos qualquer mensagem. censos e senhorias da Nova França. Daí o rumor que se espalhara prematuramente nas cidades. naquele último encontro. cuidadosamente dissimulados aos olhos de seus irmãos de religião." Deteve-se. Procurava evitar os exploradores de bosques e os comerciantes canadenses. banido e relegado. Mandei buscar na França a súmula do processo de feitiçaria movido outrora contra seu marido.. e vocês não a teriam conquistado. depois lançou. — De fato. e a Sra. num súbito acesso de cólera: — Sem sua intervenção. nada mais que selvagens. para lá das corredeiras. meu superior. os andastes. eu já sabia. selvagens. no momento em que me sentia mais desprovido. como do Forte Frontenac. As missões agrupavam os índios batizados e os catecúmenos de nações iroquesas. nem com a importância dos trabalhos aos quais eu dedicava meus dias. o jesuíta.Mas sua vitória em Quebec suplantou-me em rapidez. pois nenhuma notícia chegava jamais sobre ele. e não mesurpreendeu. a fraqueza invadindo-me. sempre estivera. mas também para receber proteção dos militares franceses. o povoado de Lachine. de onde partiam. de Peyrac . e o medo de ser despojado daquilo que constituía minha força dominadora sobre os outros me atormentava.

. Você sabe como eles são. 'E agora esse corpo. naquele momento. que havia um ano fora para ali devotar-se à conversão dos selvagens. Que Deus pare a terra. e todos procuravam voltar-se para os vencedores. eu me dirigia a uma aldeia para celebrar a missa. E era mais simples dizer que eu era cativo dos iroqueses. A tortura e a morte nos esperavam. penetrado pelo terror. — Nenhum de nós tinha ilusões. por me ter aparecido! "Mas. Você não tinha nenhuma responsabilidade sobre aquele delírio que me corroía havia tanto tempo. via aproximar-se o momento das assustadoras torturas que já conhecera. uma silhueta de mulher. que. depois de terem rezado. mas que jamais chegue o instante da dor que nos preparam. colocando a mão sobre a dela. além de alguns neófitos. "Tudo isso é falso. Mas apenas depois de minha 'morte'.' "Ah! A agonia de Cristo. ávidos em se beneficiar com o encontro. como estava próxima! Nenhum anjo veio me consolar. eu hauria um sombrio sustento . guerreiros e prisioneiros chegaram às cercanias de uma das primeiras aldeias do vale dos iroqueses. Emanuael Labour. as razões daquela odiosa fatalidade. mas na qual os pássaros estão calados. a não ser por existir. dizia comigo.estavam em Que-bec. "Ora. "Fui invadido por uma fria paralisia. que não conheceu o amor. humanos dementes e cruéis.: "Não". vermes da Criação. rejubilar-se. antes de o ser na Nova França. Não conheceu a felicidade. Depois de dois dias de caminhada. E eis-nos cercados por fantasmas emplumados que se apoderam de nós. Eu mesmo os exortara a essa serenidade. reconfortados por minhas palavras. "Estava no inferno. E eles. Conhecíamos a sorte que nos estava reservada. Eu não fizera por merecê-lo. Num inferno às portas do qual havia deixado toda e qualquer esperança. haviam mergulhado num sono tranquilo. essa morte que. e subitamente os troncos das árvores se desdobraram com uma silhueta humana. Eu olhava com inveja meus companheiros Marville e Labour. surgindo desse caos como que para me desafiar. Estamos andando pelo centro de uma floresta aparentemente deserta. em meu pensamento. "A noite foi longa na cabana onde fomos encerrados. enquanto eu. que Ele nos destrua a todos. espreitando as horas." CAPÍTULO XXI O suplício entre os iroqueses— Um covarde entre os heróis —Eis em que circunstâncias fui capturado. que não comece um novo dia. sempre a mesma. E a lembrança daquela a quem eu devia minha queda voltou-me ao pensamento. felicitar-se com minha perda. vai ser entregue aos bárbaros para suplícios aos quais sua carne se recusa. dormiam. As palavras saíam-me dos lábios como substâncias estranhas. dizendo-lhes que eles estavam nas mãos do Senhor. Um rosto. disse ele. Eu desaparecera. Você não viveu. "Queriam esquecer-me. como um animal forçado que sente a morte e espera o abate. 'Ah! que a noite jamais termine. Certa manha de verão. Você. O céu era surdo.. foi inicialmente anunciada na Nova Inglaterra. quando fomos cercados por um contingente de guerreiros iroqueses. em companhia do Padre de Marville e de um jovem "dado"canadense. como você disse. tremendo dos pés à cabeça. cativo eu fui. O calvário começava.. "Subsistiam em meu espírito apenas o medo visceral das torturas e. Estava num inferno povoado de demónios.

como todos os brancos. cortado apenas.. . Toga Negra!'. num último sobressalto de dignidade. para ter-se combatido e feito perecer amigos e parentes mútuos. acima da aldeia. mas de uma insuportável injustiça. Depois percebi os bafios do cheiro de carne grelhada tão característico que uma-brisa levava até nós: o odor dos suplícios. Outra coisa. os guerreiros eram numerosos. que haviam sido colocados numa outra cabana. "O sol nasceu. mas por instantes podia-se ouvi-lo vogar pela floresta. por uma litania de insultos e de responsos. "Minha presença-naqueles lugares. lançavam-se ao rosto uns dos outros as razões que possuíam para se odiar. "Um guerreiro aproximou-se do jovem Emanuel e. disse ele. com sua aparição. já longa. para lá da palavra. começarem a cantar seus cantos de morte. cuja malícia jamais soubemos discenir. nos quais. nossos dentes sadios. nem de ser diminuído diante de seus inimigos. uma coisa é tomar consciência de um erro ou de um fracasso. pois o canto se distanciava. que me enfrentou com seu olhar brilhante. Toga Negra. pegando-lhe a mão. huronianos e iro-queses.. Você não gosta de sofrer. eu impedia de sair. é perceber sua própria existência. "Levaram-nos por nossa vez. fruto ela mesma de um monstruoso engano. ouvi nossos índios cristãos. "Foi então que ele se aproximou de mim. já bem queimados. Por um interstício das paredes da cabana. munido de um sílex de gume afiado e de um pequeno malho e. transtornara o curso de minha vida. Percebi que vinham buscá-los. Por essa brecha todas minhãs defesas haviam fugido. também nesse caso. "Desse despertar dava minha perda. entre aqueles demónios prontos a me imolar pàrecia-me não só intolerável. como nós. refletindo-se na superfície de um lago. conforme o ritual. "Disse-lhe uma vez que eu não estava preparado para nada do que empreendera. não!' "Eu acreditava ter ganho por meu primeiro suplício direito à serenidade e à predominância. e todos devemos nos esforçar para enfrentá-lo eventualmente. Não me bastava ter sido torturado uma vez. mas com olhares lúcidos ainda. não! Duas vezes. Um serviço limpo e rápido. quebrou-me dois dentes. como ridícula e perigosa impostura. 'Inveja'. Ouço dizerem: 'Que belos dentes têm esses selvagens!' E eu sei que você procurou descobrir nosso segredo para conservar os seus tão belos e brilhantes quando eram quando chegou a nossas terras. Outros se calavam. Mas Deus me enganara. "Três pilares nos esperavam. "Ao alvorecer. com a língua cortada ou queimada. "Subia-me aos lábios um grito que.. começou a serrar-lhe uma falange com o gume de uma concha. "Diante de mim.. vi a luz do dia invadir um céu puro e suave. 'Duas vezes. e muito mais mortal. periodicamente. Até a clareira onde. de seus amigos!. "As náuseas do medo atormentavam minhas entranhas. nossos índios continuavam a insultar seus torturadores. Ora. fazendo-me abrir a boca.' "Pus-me a tremer. para conservar-lhes a brancura e a saúde. reunidos numa espécie de silêncio solene e preocupado. e sobretudo. porém. £ eu o vi mascar goma misturada com argila fina e suco de su-magre branco. '"Você tão orgulhoso de sua dentadura. sempre espreitando. ter perdido meus dedos. surgiu Utakê.num sentimento de rancor e de ódio para com uma personagem símbolo — uma mulher — que. "Revezando-se junto às vítimas.

e sofrido sua paixão pela fé cristã. todos aqueles olhares se apagaram. O papa me recusará autorização por causa de minhas mutilações.. com a fronte na poeira. os amigos e os inimigos.. daqueles que me cercavam. disse comigo. nãol-Mais uma vez.. — Eu não ocultava absolutamente. 'Mais uma vez. acredite-me. pois saberá que não sou digno'. Eu teria beijado a terra viva. Ela se levantou e foi banhar-lhe as pálpebras... pais e irmãos para fazê-lo morrer como um covarde sofrendo dores inomináveis. me olhava. que se deixava destacar. semimortos. Ycalme-se! Acalme-se! — dizia-lhe Angélica. e dessa vez ele não passará por cima disso. incrédulos.. Os olhos de Utakê eram duas lâminas cortantes. adivinhando o veredicto.' gritava-lhe. se me cortarem outros. — Faz mal a seus olhos.. Rastejava a seus pés. tanto dos carrascos quanto de meus infelizes companheiros prometidos ao martírio. nu." assistiam a minha ignóbil fraqueza. e que.' "O que havia de mais horrível nessa cena abjeta era perceber os olhares perdidos. no pilar de torturas.. os vivos e os mortos. Nió pelos sofrimentos e pela morte próxima. constelada de equimoses e de cicatrizes pérfidas.. suplicando-lhe que me poupasse. os carrascos e as vítimas. desespero e recusa. horrorizado!. daqueles.. mas o centro de meu espírito tornou-se um turbilhão de revolta. Que me poupasse sobre tudo o suplício. — Acalme-se. farei o que você quiser." —Não chore — disse ela. Emanuel. me olhava. estará acabado. mas poupe-me da tortura. escandalizados. sem um queixume nem um sinal de medo. "Era uma coisa demente e sem lógica. e pelas gotas de sangue caindo pesadamente no chão. As lágrimas escorriam em pequenos sulcos pela face machucada. e. Você pode ficar cego. "Levantaram-me brutalmente. do pequeno 'dado2 canadense. "Joguei-me de joelhos diante de Utakê. o que era reservado aos guerreiros poltrões que davam mostra de pusilanimidade diante da morte e do suplício. Dessa vez. "Meio desfalecido depois dessa crise. Mas era-lhe preciso prosseguir o alucinante relato.. aquelas pequenas criaturas inocentes de unhas pontudas não eram melhores que seus esposos. se estreitaram."Tudo se misturava. dentre os neófitos. "Depois. Estava abnubilado por aquele dedo branco do jovem adolescente que o índio ia serrando com a concha. "Mas essa situação humilhante foi julgada ainda muito honrosa para mim. num tom baixo e reconfortante. "Um grito! Um grito de pavor soprou em meu peito como um furacão. Eu a teria comido. horrorizado!. passaram a ser um único olhar. quando se lutou a vida toda para dominar os demónios do medo — continuou ele. permaneci estendido no chão. meu Padre! Tornaremos a falar de tudo isso um outro dia. que havia trazido a toda a Companhia uma vergonha sem precedentes. O que posso dizer-lhe? Como descrever o covarde alívio que eu experimentava por me reencontrar vivo e ver afastar-se o espectro sinistro dos sofrimentos desumanos? Pouco me importava o desprezo com que todos me cumulavam. "Eu pensava: 'Eles já me tiraram dois dedos. Não poderei mais dizer a missa. mas por mim. não!.. que ja haviam derramado seu sangue.. enquanto ele arquejava com soluços secos e dilacerantes. 'Mate-me. e que.. —Há uma certa volúpia em ser covarde. o olhar azul e cândido daquela criança. Acariciou-lhe suavemente a fronte. Eu ouvia esse grito e não sabia que era eu que bramia. "Eu ouvira os chefes discutirem sobre entregar-me às mulheres e às crianças. 'Graças a Deus'. .

como se recitasse uma frase que lhe martelava a memória. de que eu era seu filho ou a reencarnação dele.. e isso era muito vergonhoso para ela.. que representava meu filho?' Eu tentava mostrar-lhe que. você sabe que os sonhos têm para os índios uma prioridade absoluta sobre a realidade dos fatos. dizia-me. Então eu lhe lembrava que seu filho. 'Como você pôde fazer isso'. no momento daqueles acontecimentos. aniquilado. que se estabeleceu pouco a pouco. precisamente. como deseja. o terrível segredo que o jovem Emanuel queria confiar-me no jardim. enviou primeiro a você.. Ela confundia seu filho e a mim. — Assim. tanto mais que eu era muito desastrado." 'Não espere nada de mim'. em seguida. não existe antes e depois. escoldado por Tahutaguete. e esclareciam em seu espírito. 'você. pouco robusto. com as pálpebras fechadas. esse colar que dizia: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-la". meu esposo e eu. de L' Aubigniére. torturado durante pelo menos seis horas pelos huronianos do Sr... — Agora compreendo. Ela abriu bruscamente os olhos. apoiando-se na certeza. 'Não lhe concederei o benefício de matá-lo com um golpe de tomabawk. Você susparia o título de mártir junto a seus irmãos. . ainda não lhe fora dado como escravo. que ela perdera na guerra. — Por que Utakê quis que os ingleses fossem os primeiros a saber? — Não era "os ingleses primeiro". pois vira em sonho que eu era seu filho e que minha atitude diante dos chefes das Cinco Nações a desonrara. Ele acompanhava o Padre de Marville quando este. Os termos da confissão que acabara de fazerlhe. mesmo quando." — murmurou. me atiraram como lixo aos pés de uma mulher velha." CAPITULO XXII À cabeceira do supliciado Quando ele se calou.. Mas para ela essa divisão do tempo não passava de brincadeira. a quem eu havia combatido tanto. A vergonha recaía sobre ela. — "Inimigos mais terríveis do que eu sou para você. e queria que fôssemos avisados antes do franceses. Mas isso não a consolava. o chefe dos onon-dagas. e ela era objetivo de zombaria e de brincadeiras perpétuas por parte das companheiras. mas de sua existência. Essa perda a deixava sem ninguém para levar-lhe caça e realizar as tarefas que a idade avançada não lhe permitia mais efetuar. Ora. mas nós. pois jamais se vira uma mulher da aldeia servida por um prisioneiro que se houvesse mostrado tão covarde diante da morte. a mim. E isso não lhe concederei tampouco. Você nos faz não só duvidar da grandeza de seu Deus. Utakê sabia que estávamos na Nova Inglaterra. Ela falara a meia-voz. Oh! Como ele tinha razão! "Haveria criatura mais desprezível e mais despojada de todas as possibilidades de prejudicá-la que eu?! Mas eu compreendo a que imperativo obedeceu Marville. morrera com muita coragem. nós o vimos vivo. e tudo o que implicavam. e me feriu com sua conduta. de seu martírio. disse-me. "Para certas coisas. Era esse. chegou a Salem para levar a notícia dè sua "morte" e. para si mesma. para ser seu servidor e substituir-lhe o filho. — O jovem Emanuel? Os iroqueses não o imolaram? — Não.' "Nada mais de seu desprezo me atingia.. tão repugnante em suas súplicas. portanto.-Ora. "Minha patroa me moía de pancadas. Angélica ficou durante muito tempo sentada à sua cabeceira. que o honrava. Você é muito vil. entre os índios..

e só me aparecia ""esse caos. a mulher cuja visão me arrastara por um processo que eu não odia nem analisar.. "Eu o sei. que devo minha morte.. concedia-me perdão. a seus olhos.. é a ela. "Eu gritava: 'É ela. enquanto ele continuava a falar. isso era levar a hipocrisia muito longe. de pavor e de pesar. acusá-la. Levantou-se para ir preparar e aquecer as rações. Através da personalidade orgulhosa do Padre de Marville..testemunha de meu renegamento. mas minha obsessão nutrira-se de tantas aberrações. o objeto responsável por minha ruí-a. e Angélica. Eles não me vingariam.. que devo minha p^rda.. que eu sentia desabar sobre mim. de respeito que eu acreditava que tivessem por mim. nem admitir. eu gritava em vão... — Mas que tenha aproveitado a oportunidade para invocar sobre nós a maldição do céu e nos tornar responsáveis-por seu suplício. rememorando o luxo de detalhes com que o jesuíta lhes descrevera em Salem a "morte gloriosa" do Padre d'Orgeval.. a morte de mim mesmo. sentira vibrar um sofrimento de esfolado vivo.. Soube que nunca me tinham amado. a morte total. A ordem dos jesuítas tinha sido marcada com a mais horrível das máculas: a abjuração. que eu conseguira persuadir-me de meu enfeitiçamento. A verdadeira morte. gritei. monstruosa. Vinguemme!. um sofrimento verdadeiro." Ele se agitava. declarando-me morto. Tinham dormido durante minha agonia! Horrorizados com minha abjuração. que sonhara ser.. avisando-o de que estava na hora de seus "ágapes" cotidianos. ao denunciar os sortilégios e gritar-lhes: "E ela! E ela que me condena. Vinguem-me!.. Eu não existia mais.. Soube que. ponto de me persuadir de estar certo. pensou Angélica. Eles não me vingariam como eu merecia ser vingado. por desprezo. a Mulher. — Que seu irmão em religião o tenha feito passar por morto.. que eu quisera ser?. não deu atenção . subsistia em mim a vontade de clamar minha justificativa... de dar àqueles que eu escandalizava pelo menos uma explicação que ateuasse o alcance de meu ato. teria proferido em seu suplício: "É ela! É por sua culpa que morro!"? — Tudo isso é verdadeiro. No momento em que o chefe Utakê baixava sua mão e.. da covardia do maior e do melhor dentre deles. feito de humilhação. E fora ela que me matara.. fazê-los acreditar. por não ter outra solução para ocultar sua vergonha. Podia-se adivinhar o que sentira aquele jesuíta convicto diante da ruína do mestre. Eu não era mais nada para eles. durante anos de mutismo e de solidão.. semelhante a um estertor. minha inimiga de sempre. Sim. . como lhe disse. ao que parece." Deu um soluço profundo.' "Vi suas faces lívidas e rígidas.. com todas as minhas forças essas palavras. que eu tinha sido vítima dos maus espíritos... de devotamente. numa loucura fatalmente con-ária a tudo o que era o caminho reto de minha vida até então.. a você especialmente. Eles não eram meus amigos!.. O que há de verdadeiro nessa acusação que.. — Eu falava de minha morte. Ela.. Em toda aquela cena não deixara de supor o tempo todo uma mentira oculta. eles me rejeitavam. Minha morte total.a suas palavras.. Sua intuição era portanto correta. deve-se fazer-lhe justiça". Nada subsistia dos sentimentos de afeição. receando que fosse acometido por um novo acesso de febre. eu proferi. de decepção. por exemplo. Era preciso salvar a honra da ordem!" "E certamente não poupou esforço para isso. A morte do herói que eu havia sido. a Dama do Lago de Prata é a causa de minha morte. eu admito — disse ela. Era uma ideia louca... áDama do Lago de Prata.

Humilhado como estava diante de minha ruína. ou a obscura intuição daquilo que se declarava hostil à sua família. deve ter re-moído sua amargura." Dava a cada uma um pouco de carinho. à cabeceira . adorava sua fragilidade e sua inocência. Era um ritual imutável.. evocou-lhes a primeira cólera. parece até que você o aprova!. como um segredo ao seu ouvido. "Vocês já faziam parte da tribo. pôs a esquentar o caldeirão cheio de água para as abluções e arrastou o escabelo para o outro lado da cama. Olhando para os gémeos. Cranmer. Tomava-as nos braços e ninava-as. e depois as fazia sentar-se num banco diante dela. com o rosto encovado pelas privações. derramava sopa numa escudela e distribuía o alimento em suas boquinhas abertas como as de passarinhos. o caminho a seguir para prosseguir minha luta. deve ter-se apegado a esse pensamento de combater inimigos. a luz de seus olhos e de seus sorrisos. apontava-a e gritava: "E ela que é a causa dessa morte". a parturiente. para despertá-las suavemente. cantarolando-lhes um versinho. Mas não era o momento de recomeçar o debate. Depois de alimentar seus filhotes. Então. sua casa.. baixinho. — Palavra de honra. caso não estivessem saciados. conteve-se. "Vocês são a consolação do mundo! São o tesouro de minha vida!".. em seu roupão caseiro. a sotaina esfarrapada. Angélica.. haviam desaprovado em altos brados a intervenção do Padre de Marville. Teria sido o rumor de vozes desagradáveis ou o fato de se verem subitamente postas de lado por pessoas habitualmente atentas e subitamente transformadas como galinhas no galinheiro pela aparição de um jesuíta no seio da puritana Salem.. os cabelos embaraçados e sedosos." Ou simplesmente as amas-de-leite nervosas e curiosas tinham esquecido a hora da mamada?. "São a justificativa de nossas lutas ferozes.. mas. intrigada.. E o espetáculo se encerrara.— É verdade." Angélica escutava-o. "Enquanto Tahutaguete o conduzia para a costa. de nossos combates imbecis!. enquanto passeava de lá para cá. quando as duas "coisinhas". não pesavam seis libras. estava sentada nos degraus da escada de Mrs. precisava construir uma versão. deu-lhes um pauzinho de ju-juba para enganarlhes a fome. Fez as crianças se levantarem.. "Para não ser por sua vez destruído. o Padre de Marville. e sendo seus recursos de transmutação mística limitados. sua criadagem e tripulantes?. Não era hora para amenidades. em sua perplexidade. apesar de vontade de descrevê-la a seu hóspede.. Está bem! Está bem! Ele agiu corretamente. como profeta vingador. cercada por todas as mulheres inglesas e heréticas da casa. sua mes-nie. seus pequenos corpos harmoniosos e perfeitos. seus dois anos e meio completos e solidamente postados em seu lugar nesta terra. meus pequenos Peyrac!. Pelo menos foi como indiquei a Marville. murmurava. em qualquer circunstância. Explodira então o vigoroso concerto gemelar e contestador daquelas criaturas que. juntas. e embaixo. que acabara de pôr no mundo em Salem.. Havia recebido um abalo interior mais violento que o da tortura. uma após outra. em que a vida e o vigor fremiam novamente. Beijava-lhe as bochechas frescas. eu gritava que era preciso destruir aquela feiticeira.. Pois bem! Agora vejo que não é lenda quando dizem que os jesuítas sempre se apoiam. Ria sem querer daquela lembrança.

Eu estava exausta. — É por isso que você tem essas duas feridas nas costas? Notara que não eram queimaduras... foi com horror. Tudo isso é muito louco. "Quando não se está preparado. o fim do mundo. Sentia-se humilhado por estar entregue à sua mercê.... você estava vivo! Não! Não! Utakê. Seria o fim.. CAPITULO XXIII O segundo martírio do jesuíta Conversavam sobre temas que teriam feito arregalar-se de uma surpresa inquieta os olhos de quem quer que não tivesse vivido na América.. sentou-se com a tigela na mão e começou a fazê-lo engolir caldo em pequenas colheradas. Ajudou-o a recostar-se nos travesseiros a fim de poder alimentá-lo mais comodamente.. Não havia nenhum outro recurso. Foi um pensamento fugaz. resposta que só podem ser trocadas por aqueles que falam. os fatos se encarregam de avisá-lo disso!" Essa máxima dirigia-se também a si mesma.. seus braços estavam muito fracos para poder segurar a tigela e levar à boca a colher sem derrubá-las.. na penumbra de uma invernada sem fim. — Ele. — Folgo em saber que ele tenha sido poupado — murmurou ele. Começava a compreender que não tornaria a ver o homem que amo.. — Talvez!. o fim de nossos mundos. o jovem "dado" que tinha um nome tão belo.. E que eu escandalizara tanto. o comesse?. realmente.. Naqueles momentos irritava-se menos com ele do que quando ele discorria com uma súbita autoridade. enquanto me levaram ao suplício. certo dia em que ela lhe contava a descoberta na soleira da porta e o desagrado por encontrar. Foi uma vertigem causada pela fome... Não. Será que o mandou para mim para que acabasse com você... que. um irmão de combate.. infelizmente.. Seja por apatia. uma tentação. em vez de víveres. Não. uma vida que ele pretendera superior..do ferido. Via nele um homem que superestimara os próprios talentos para dominar o cavalo fogoso da vida... — Você teria me comido? — perguntou ele. dizendo: "Como sua carne é imunda!" — Quando aconteceu isso? Em que suplício? .... Folgo em saber que tenha escapado ao fogo.. enfraquecidos. seja por desejo de economizar provisões. e julgando-o pela medida de suas experiências e à luz das confidências que acabava de ouvir. depois cuspia. Não sabia nunca se conseguiria fazê-lo comer sem dificuldades.. Também pensei nisso.. julgou o momento inoportuno para revelar-lhe toda a verdade a propósito do pobre Emanuel. Ele me comia.. que meus filhos estavam morrendo. e que as feridas cicatrizadas. — Pois bem! A mim eles comeram — disse — um pouquinho assim. Não sei o que ele quis. o impetuoso e sorrateiro corcel do destino fizera-o perder as estribeiras. pôs-se a considerá-lo como um irmão. numa dependência infantil? Suas mãos.... Não sei. — Sim!.. Emanuel.. Se isso me passou pela cabeça... Vendo-o sereno e aceitando com docilidade o alimento que lhe oferecia. ele demonstrava uma verdadeira repugnância em relação à comida. para a glória de Deus e o benefício dos homens... um cadáver. e tivera uma esperança tão grande. apesar de seus cuidados deixavam profundos sulcos na pele.. E que tenha conservado a vida.... também estava morto. perguntas... em pequenos pedaços que um guerreiro me retirava das omoplatas com uma faca bem afiada. Não se deve pensar nisso. E depois. Ele saberá o que fazer dela.

. "Foi apenas no meio do caminho que os guerreiros conseguiram li-vrar-se dela. ao saber da chegada de meu pior inimigo. em que foram me buscar novamente. "Creio que nem vi passar as estações. "Quanto a Nenibush. Não temia mais nem as pancadas nem as fadigas daquela existência. nós. As mulheres índias não são nada tolas.. "Estava pois nessa situação quando vieram naquela fria manhã em que estava tingindo peles. Eram pessoas muito jovens. a meus trapos para não me deixar ir. Gostam de refletir sobre os destinos humanos. entre os jovens corajosos. tropeçando nas raízes. As neves começavam cedo aquele ano.. o que mantinha as forças de minha Tia. Ouço-a ainda gemendo e maldizendo. eu me habituara. ganhamos os prémios do desajeitamento entre os senhores selvagens. "Segui-os. se quiser. mais ainda que os exploradores de bosques comerciantes.. não apenas mudo. "Não compreendi quando vi diante de mim quatro guerreiros. Chamavam-me de Mulher Negra e riam de meu desajeitamento para encontrar o caminho e penetrar na floresta. minha cara Tia Nenibush. que descontava em mim seus nervos.. Eu voltava muito depois delas. Foi entretanto nesse trajeto que um deles começou a comer minhas costas. encarregados de me levar à aldeia vizinha. aterradas por meu comportamento. o mohawk. pois. a menos que me fosse concedida por um golpe de tomahawk. Fui imediatamente invadido por uma mortal inquietação. Seus gritos gravaram-se em minha memória e me perseguem em meu sono. acompanhando por zombarias das indiazinhas ágeis que também iam buscar os produtos da caça dos pais ou esposos. Utakê. "Você é mais desajeitado que os yennglis".. "Já lhe disse. Eu acabara por me acalmar. — Mas eu julgava que Utakê tinha decidido poupá-lo! — Eu também acreditava que já estava resolvido. trata-se mesmo dela!.. e o domínio dos sonhos abrem múltiplos labirintos à sua imaginação. aonde o chefe dos mohawks.. Era evidentemente moído de pancadas da manha à noite. Não receava nem desejava a morte. Eu recolhia e cortava lenha para ela. e no fundo éramos bons amigos. que são indianizados. agarrando-se. que minha Tia e eu devíamos preparar para o parente caçador. Depois foi aquela outra manha. mas num estado de estupor e de abatimento que bambeava tanto as pernas que tiveram de me segurar pelos braços. me acostumara à minha escravidão. Utakê.. Têm muito tutano.— No segundo". acabara de chegar. O inverno era atroz. pobre mulher. Fez-se um longo discurso. missionários. Ia. "Ó Hatskon-Ontsi. furiosa.. Eu estava tingindo peles. Nem as contei. Ao chegar ao burgo. como lhe disse. à qual retiravam uma segunda vez seu filho-prisioneiro-escravo. "Vieram e me disseram a fórmula consagrada e para mim aterradora: 'Meu irmão. diziam-me. . Tínhamos conversas interessantes. encontrei alguns guerreiros em volta dos chefes das Cinco Nações. aqui está você! Teria reencontrado a amizade de seu Deus e o caminho de Sua Força?. Um outono? Dois outonos. e à sua frente. Você que é o maior entre os maiores dos Togas Negras." — Ouvi quando você repetia: "Ah! que ela se cale! que ela se cale!" — Sem dúvida. talvez três?. ia à floresta buscar um animal que um parente dela lhe caçava. -Durante meses.. nem a monotonia daqueles trabalhos humilhantes. coragem! Chegou o momento de cantar seu canto de morte'. foi ela que se encarregou de me cantar meu canto de morte com o concerto que ofereceu com protestos e uivos. no terceiro. que vinham procurar-me. você pode imaginar como.. perdendo-me nas brenhas. embaraçaçdos com nossas sotainas. Minha única obsessão era o receio de perecer sob as dores do fogo.

arrastando-me para um canto até a sala do Conselho. Os cantos salmodia-dos sustentavam o estado de idiotia. só com a cabeça de fora.' "Eu ferira profundamente Utakê. pois creio que. Depois desmaiei completamente. rostos. não para beber mas para as necessidades naturais. a droga ajudou-me a voltar ao ponto de partida. que tinham se insinuado no centro de meu ser atual. Nós. você nos humilhou em nossas crenças. mais do que de dor. os anciãos interviram e me retiraram das mãos das mulheres e das crianças.. "Pus-me a gritar de pavor. desembaraçando-se pouco a pouco dessas sombras. cuja gravidade ultrapassa sua competência. levaram-me para outra aldeia. nas faces. personagens de um tempo passado. Ficamos assim fumando sem beber. No início circulou uma cabaça. Isso durou muito tempo. E calar-me.você nos feriu e insultou mais que ninguém. 'Elas então irromperam com gritos agudos. "Diante disso. os anciões. Depois duas delas avançaram e. Não apenas o meu eu. sabia-o. quando ficaram bem perto. A couraça . que elas me aplicaram aqui e ali. "Senti náuseas. jorrando de cada uma das Casas Compridas como uma torrente rolando as águas mortíferas. Meus pulmões queimavam. submergindo-o. pois nos o entregaremos às mulheres'. mais como médicos do que como torturadores. Mas não se rejubile tão depressa. Mas este logo se tornou rarefeito. Sim. paralisando-o com as gavinhas de uma vinha inculta. disse: ' 'Vejo pelo seu rosto que não se emendou e que não merece sofrer a prova dos bravos. após um longo momento. mas pouco me importava. teria podido suportar a dor em silêncio. aspirado por um fenómeno que me seria difícil descrever. vidas antigas que sobrecarregavam meu eu. Estávamos vazios.. O que eu suponho é que. desonrosa.. pediram-me que tirasse mais baforadas que os outros. calou-se. a fim de provar a grandeza do homem. como os médicos contemplados um caso desesperador. com os punhos bem cerrados. denso. agora sei. Os anciãos continuavam à minha volta. eles começaram a morder e mordiscar. Durante essa 'viagem' talvez eu tenha conseguido expulsá-las. pequenos roedores que se debatiam. os diferentes amálgamas de minha alma.. Eu me desou-rava mais uma vez. Quando chegou a mim. sufocando-o. Depois. fora de seu direito. alguns de seus 'prestidigitadores' e eu. durante essa 'ausência'. furioso por ter sido enganado. Entidades embaraçosas e estéries. onde havia uma choupana especial para pitar. reservada unicamente ao exercício de fumar. que nascemos no orgulho de nossa morte. "Após deliberarem. vi que seguravam. mas. lanharam-me o rosto com a ponta de caniços cortantes. mais complicado que isso. O cachimbo da paz começou a circular de boca em boca. pois apagou-se quase inteiramente de minha memória. Minha covardia e minha fuga tinham feito deleita inimigo implacável. "Era uma casa pequena. Mas era tarde demais.não me atingiram. por uma nova razão. as palavras. os chefes. isto é. "Revejo a cena. exibindo uma boca de dentes afiados. "Ouvi-os pronunciar palavras que tinham mais ou menos o seguinte sentido: 'É preciso no entanto prepará-lo". que é deixar a criatura nova prosseguir livremente seu destino. inteiramente impregnados de fumaça. de uma maneira. unicamente para o líquido. encontrei minha alma. na testa. e não ficaria surpreso se tivesse durado dois ou três dias. Como lhe descrever? Também nesse ponto minhas lembranças são caóticas. a seu ver. enquanto as mulheres histéricas riam e repetiam que iam deixá-los atacar meus olhos. Falavam entre eles e me observavam com um ar sombrio e desanimado. que nos rejubilamos desde muito cedo com a ideia da morte nas torturas. sem nenhum alimento. Só Gonsigo rever claramente o momento em que. em que mal cabíamos. "Deveria ter dominado aquele sentimento de repulsa. seguro por mil punhos miúdos e com garras. "Finalmente. O ar estava azul.

No entanto.. Não sei se gritei novamente. muitas drogas são úteis quando a alma não pode. com caras de nojo de pessoas obrigadas a realizar a mais entediante e insípida das tarefas. "Eu adivinhava seus sentimentos. Creio ter sofrido o suplício.. escolheram um lugar afastado da aldeia.. por suas próprias forças. ele voltou ao que se seguira à saída da choupana de pitar. a ablação de órgãos importantes. Somente o futuro diria o benefício que eu iria retirar daquela terapia singular. modeladas pela luz.. Hiyatgu. mas que estavam podres e eram portanto perigosos. Depois continuou a rir e. onde havia um velho pilar abandonado. o que aconteceu em seguida? — Ignoro-o.. — E. Vejo Utakê acima de mim. Os anciãos não se iludiam. Eu não era um ser honrado. sempre ele. — Tenho ainda uma última lembrança. Gosadaya. para torturar uma criatura tão reles. mas. se divertiu em embaraçá-lo para perdê-la.. — Ainda assim. elas salvam o espírito sem prejudicar o corpo.. atrás dele há o sol e grandes nuvens brancas dilatando-se. os brancos eram uma espécie ingrata e inoportuna. naqueles momentos.. que começou a nomear à meia voz: — Utakê... pois continuavam a me olhar com ar dubitativo. Deixou passar um longo tempo.. que não aproveitava os precisos tesouros e ensinamentos "dispensados pela natureza tutelar. Vejo os machados incandescentes que passaram ao longo de minhas coxas e parece-me sentir aquele cheiro infecto de carne queimada sufocando-me. e creio ter sofrido horrivelmente. Era preciso pegá-los muito jovens. uma visão.. melhor dizendo. Ela esperava com paciência. Ele me diz: .. Ela pensou-que ele tivesse adormecido. diziam. E. Para eles. Mas ele repetiu: — Ignoro-o.. eu não estava curado. ajudando pelo menos a sobreviver sem enlouquecer tudo quando o que é humano se fecha. e prepararam os instrumentos para aquecer ao fogo: machados.. para fazer deles homens dignos desse nome. e sobretudo as expressões aborrecidas dos carrascos humilhados... pois parece-me que estou estendido no chão. sovelas." Angélica ouviu-o dar risadinhas como se revisse o espetáculo. ele é muito grande e ele me domina.. depois de refletir por muito tempo. Nisso. "Estavam tão convencidos de que não podiam tirar muita coisa de mim que renuciaram a pedir-me para cantar meu canto de morte enquanto me conduziam de novo ao sacrifício..era tão dura. ela percebia-lhe um espírito jovem e brincalhão que apenas sua existência entre os selvagens lhe permitira exprimir. deslizando através do céu como velas. que era preciso ao menos isso! Ajudou a quebrar essa concha petrificada ao redor do núcleo de meu ser.. sentia-me mais como alguém que acaba de sofrer uma cirurgia. reencontrar o fio de seu destino porque o Maligno. Deu novamente uma risadinha nervosa e soluçante. "Usadas eventualmente." Passou a falar do mistério dos conhecimentos que o continente ainda inexplorado do Novo Mundo continha. Os índios das possessões espanholas têm um cogumelo que permite tais regenerações. Eu os cobria de vergonha.. Dessa vez.. lembro-me também. aumentando a vergonha de meus infelizes carrascos. É muito vago. Tahutaguete. Garagonti. de minha parte.

. por minha vez. quando seu nome for evocado: aquele que não merece sequer um nome era o inimigo de Utakewata! Você vai partir. a "traição" vinha do homem. quando. nenhuma mulher jamais fizera por mim. Vou enviá-lo para além dos montes. todas as paixões. extasiado e aterrorizado. "Então. compreendi o quê Utakê quisera. Mortificado em seu orgulho. sua voz se abrandava. Hatskon-Ontsi.'" — Em seguida. nesta terra." 'Não creia que vou perdoar-lhe a vergonha. A quem iria entregarme?. Entretanto. tornarei encontrá-lo. houve um período de interminável mutismo. A gente acredita que parte para as missões da América.. então. aquele nome. ela adivinhava que Joffrey despertava nele um antagonismo mais confuso. Se ele proclamava muito alto que ela era sua principal inimiga. todas as dores.. senti medo novamente.. a você que me enganou e me insultou mais que ninguém no mundo. eu esperava. eu disse meu nome... Ela se identificou. Não admitirei que deixe em nossas memórias uma lembrança de desprezo e que se ouse dizer. até ser digno de que eu devore o coração!. estaria procurando no silêncio o esquecimento? Ela continuaria a falar-lhe. contra a qual não há remédio. '"Eu lhe declaro. mostrava-se prudente quando se sentia tentada a mencionar Joffrey de Peyrac." C A PIT U L O X X IV Amor e ódio no jogo das paixões Após esses dois longos e penosos relatos.. mas agora sei que parti para um outro encontro.' "Diante do enigma dessa resposta. Quão sutil e refinada foi sua vingança! Do mesmo modo que não podia fugir do tição inflamado aproximando-se de minha carne. "Da época mais sombria de minha infância. e ele devia ter sonhado com um mundo em que todos os homens se uniriam para rebaixar e reduzir ao silêncio a Eva culpada. a quem cabe esse direito. Você atraiu maiores inimigos que eu. . Ela curava minhas feridas e dava-me de beber. Seus olhos cruéis chamejaram. sofrimento e compaixão. não podia furtar-me à derradeira prova: "O sonho ia estourar. Hatskon-Ontsi.. A taça da salvação seria afastada de meus lábios. só pude ler em seu rosto tristeza. a fim de manter-lhe o espírito alerta. Mas eu o perseguirei... a você que foi tão grande. pois dessa vez. ou dizer: "meu esposo". pois sabia que. "Entretanto. que havia arrastado Adão e toda a criação ao caos do pecado. encontrava seu significado naquele caminhar. sem sabê-lo.. houve uma longa viagem obscura. de que não me lembro. "Quando despertei estava entre seus braços. Minha via. "Eu a reconhecia e nunca pensara vê-la tão próxima. provocando nele uma irritação mesclada de amargura. você sofrerá. depois de ter-lhe conhecido o lado venenoso.. como nenhuma mãe. julgo ter conservado a esperança de que um dia eu poderia entrever a face luminosa da mulher. Evitava instintivamente pronunciar-lhe o nome. Eu retornaria às áridas e inelutáveis certezas da crueldade do mundo. "Perguntei-lhe: "Por que não acaba comigo?" " 'Não cabe a mim acabar com você.

O que lhe aconteceu foi lógico e sem más intenções. — Como julgar os seres sem deixá-los fazer uma escolha. Sua face estava emaciada. soube melhor não quem ele era. seu amigo e mestre. No outono. e. quando dizia: "Eu o perdi". ele não hesitava em se mostrar acerbo. "Ele pretendia renovar a façanha frustrada de Katarunk. Sempre contou com ele. Eu tinha catorze anos e ele. como fez em outras oportunidades. jamais tive qualquer querela. mas quem era você. a aliança eficaz em tudo. Cjueria mantê-lo afastado de minha desgraça. Nem sombra. e depois do Cavaleiro de Loménie-Chambord. Você era o Homem negro que estava por trás da Diaba da visão. Angélica compreendeuque. Atacar o Forte de Wapassu em nossa ausência e queimá-lo. — Fui a causa disso? — Você é a causa de todas as desgraças da Acádia. — Você o induziu a isso de maneira hábil e maquiavélica. e assim se desmascarar? Eu movi para a frente esse peão. o Reverendo Padre de Vernon. e também a que tipos de provocações podia reagir o Sr. que eram uma parte de mim mesmo!" — Como soube que o Cavaleiro de Loménie estava morto? — Morto!? Seu grito explodiu como o de um homem que acaba de ser atingido no coração por um punhal assassino. querendo decifrar em seu rosto a sentença em que se recusava a acreditar. onde ele me sorriu pela primeira vez. Ele cumpriu seu papel. — Foi você que o matou? — Sim! Reclinou-se lentamente para trás. Você o soube sempre. Em nossas missões e em nossos trabalhos. — Por sua culpa. falava do desafeto sentimental do Cavaleiro de Malta em relação a ele. tentativa de justificativa à qual não queria renunciar. — Acontece que foi ele quem ouviu melhor seu apelo: "Vingue-me". onze. que voltasse a você. pois conhecia-o muito bem. Uma vez mafs. Foi sentar-se ao pé da cama a fim de olhá-lo de frente. meu irmão dileto desde o colégio de Clermonte. mais do que com qualquer outro. "E você mente a si mesmo. quando recomeçava a falar.Por provocação. você o enviara para a vingança. que o levara a pronunciar-se a nosso favor. . até então. Era apenas um executante. a vocês. "Com esses dois. não sabendo nada sobre seu fim. "Mas eu estava presente. E foi só você aparecer para tudo desmoronar! O meus amigos desaparecidos! Quanta mágoa por tê-los perdido assim!. e ele veio. — Pont-Briand? Ele se impacientava. — Eu não disse a ele para vir. Um entendimento perfeito. O conhecimento mútuo. — Ele?! Não é possível! Onde? Quando foi isso? — Aqui mesmo. Era uma missão sagrada. — Pont-Briand não era alguém que se pudesse elevar ao nível de amigo. para obter nossa capitulação! Sempre esperou que ele se arrependesse de sua cegueria. "Fqlo de um de meus colegas de ordem. Inclinando para ela. Temiamuito por sua vida. de Peyrac. graças a essa manobra. Dessa vez ele não faltaria com seu de ver. "Mas deixemos Pont-Briand. perdi meus dois amigos mais queridos. como em Katurunk. e realizaria seus desejos de álém-túmulo. que reconhecesse seus erros culposos. ele fitava-a com um olhar alucinado. que o afastaram de você.

escolhidos entre corsários ou flibusteiros. Segurou-lhe o punho.. Aquele que você havia escolhido. minhas companheiras. Cláudio! — gritou — Meu irmão. não sei se poderia perdoar-lhe o destino dessas mulheres e crianças. eu teria sido entregue a Ambrosina. Por sua culpa! Por sua culpa! Eles se espreitaram. Eu o abati. Ele estava persuadido de que eu me deixaria convencer. quando eu ali pregava. meu amigo. correr o sangue. libertando-se com tanto mais cólera quanto nunca deixara de recear ter tremido demais ao puxar o gatilho. que erguera uma barreira entre ela e meu desejo. que tinha influência. É melhor assim. que caíra nas mãos dos hereges. abespinhados.. vi-o aproximar-se. encorajando-a a fretar uma expedição cujo objetivo era enviar colonos. Por várias vezes ele se defendeu de ter feito a Sra. Ambrosina esteve comigo em Paris.. — Ele morreu imediatamente. numa de minhas voltas. de Belial e das oitenta legiões do Inferno!. morrendo talvez de frio e de esgotamento."Não tinha outra alternativa senão executar-me.. é preferível acabar com um ferido a arrastá-lo pelas intermináveis pistas do retorno!. Ali. não como triunfadora dessa vez. pasmos. mas como prisioneira. — Com efeito! E preferível o verme e a sujeira das Casas Compridas iroquesas a cair nas mãos de uma Ambrosina. onde eu estava refugiada. Quando soube que estava rica. mas por falta de energia para continuá-lo. ofegantes como dois lutadores esgotados pelo combate e que olham. "Do alto deste fortim. a selvagens fedorentos. não sem ter antes pilhado e depois incendiado Wapassu. não pensava que viria. — O Cláudio. — Eles retiraram o corpo e se foram. Ela sabia que sua paixão me repugnava. Diga-me. ferido. suas tropas se retiraram.. no incêndio? Ignoro tudo o que aconteceu a meus amigos. Depois. cessaram o debate. jamais a perdoaria. — E devo perdoar a você? Você se preocupa com nossos feridos.. reconquistar um território que eu julgava francês. discípula de Satã. Senão. quem sabe. pálido e sem fôlego. de Lúcifer." Ele baixava as pálpebras. não por falta de acusações para lançar ao rosto um do outro. — Selvagens fedorentos? Por que fala assim dos selvagens? Eu a ouvi felicitar-se por saber que sua filha Honorina estava refugiada com os iroqueses e em segurança. ou reconduzir-me à Nova França. longe de qualquer socorro. — Apesar de tê-la encorajado a trabalhar em meus projetos. pelo menos sua lendária habilidade lhe terá poupado uma longa agonia? Pois. O que mais poderia fazer? Render-me? Trair os meus? Meus esposo? Meu amigos? Todos aqueles que haviam confiado em nós? "Privadas de seu chefe. — Se tivesse de encarar seus longos sofrimentos e sua agonia. O ciclo infernal estava fechado. Ela era meu medo. Gouldsboro. após obter a rendição de todos os nossos territórios até Gouldsboro. minhas amigas.. não é? — Não sei! — gritou.. espero?. de Maudribourg vir para a América. concebi a ideia de fazê-la servir a meus desígnios. Pelo menos você o matou imediatamente. com aqueles que seus "vingadores" deixaram agonizar na ravina ou. O que não impede que seja um destino terrível ser prisioneiro dos índios. Isso tinha raízes tão profundas! Jamais me tentou.. O sofrimento o consumia. Jamais me perdoou por haver fugido dela. crianças que vi nascer aqui em Wa-passu e que foram arrastadas pelas "pistas intermináveis do retorno". ou entregues cativas. . como butim. Meu medo das mulheres..

meu padre. Naquele momento. também ele. — Aquela carta? Então você a leu? — Sim! Eu era seu confessor. ele ainda não a havia trazido consigo. — Ambrosina também jamais foi uma criança.. e ela se rejubilava por desempenhar um papel num obra que causaria dramas e derrotas. A Diaba está em Gouldsboro. a iniciativa de contrariar minhas ordens e de julgar minhas intenções. Ela recrutou Colin Paturel. — Estava apaixonado por você. — Ela não deveria ter nome."Em Paris. espionar os novos ingleses ou assegurar-se da mi-nha presença no navio de Clin Paturel. francamente! Ele. Senhor! Que jesuíta! Fazia-me pensar em meu irmão Raimundo. o Padre de Vernon! um verdadeiro jesuíta. depois de tramar sua morte. um monstro de perversão." — Pensei ter entendido que no momento de partida do La Licorne a polícia estava em seu encalço. E descobria-se uma das maiores envenenadoras da história. seu "navio e sua tripulação. Começava assim: Minha cara criança. Era um produto das trevas. o seguinte: "Sim. Mas como você sabe de tudo isso? — Recebi dele uma carta enviada da fortaleza de Pentagouet. de Brinvilliers. Quando lhe indiquei sua presença. Sua melhor amiga. nas quais me solicitava o obséquio de fazer chegar a carta anexada à Sra. Não pode censurar-lhe não se ter mostrado um executante hábil e eficaz nas missões que lhe confiou. enquanto amigo. Essa carta continha um envelope selado com suas armas e algumas breves linhas. em resumo.. Eu era seu confessor. "Julga que o fato de o Padre de Vernon tê-la desmascarado seja razão suficiente para que você se queixe de tê-lo perdido. depravada desde a mais tenra idade.. Os togados caíam como patinhos em suas armadilhas. Ou seja. — Bela consciência! — Era uma carta de amor. pudemos.. acabava de ser presa pelo policial Desgrez. Estava ainda na casa do Barão de Saint-Castine.Para me tirar da água. Era muito hábil e ultrapassava de muito as recomendações que eu teria podido fazer-lhe. Tomou-a em seus braços — .. indo: de um ministério a outro.. ela era minha penitente. Tomando. — Padre de Vernon suspeitou dela imediatamente. . como o Coronel de Loménie-Chambord. Tive essa carta sob os olhos e lembro-me que ela dizia. a Condessa de Peycrac!!. de Peyrac caso lhe acontecesse alguma desgraça. ela deve ter tomado a decisão de fazer parte da expedição. minha pequena companheira do VOiseau Blan". depois de tê-la deixado reconquistar Gouldsboro.. Eu a encorajava a colocar-se como benfeitora para a salvação da Nova França. mas que ela furtou em seguida. "Quando lhe foi dada a oportunidade de desenvolver astúcias e enganos e desempenhar o grande papel de sedutora junto a um número considerável de homens. Toda vez que a nomeio sinto um calafrio — Ela se chama "legiões". Teve tempo para reunir todas as informações a seu respeito.seu esposo. ela fez' maravilhas. Denunciou-a numa carta que lhe era destinada. conciliar-nos. — Você está obcecado. ela e eu.. Os armadores mais empedernidos vinham comer em suas mãos.. Frio com gelo! Confundi-o facilmente com um inglês. Vi brilharem seus olhos quando lhe falei de. a Sra. mas não é a mulher que me indicou expressamente como tal. — Belo confesso! — Essas licenças são autorizadas aos diretores de consciência. por minha culpa? Ele continuava a ser-lhe muito dedicado.

. ou contra ele. não?.." O Amor me protegeu.Subitamente. Mas há mais algumas coisas. os desgarrados ou os inecrupulosos. repetiu. E subitamente você se revela astuta. o humor de Angélica mudou. desastroso — replicou Angélica —. o estabelecimento lhe teria sido entregue. não é coisa certa. Foi Sebastião d'Orgeval quem dessa vez voltou lentamente os olhos a fim de observar aquele perfil de mulher ao seu lado. inclinandose espontaneamente diante do homem. meu padre. por pouco que seja. Haveria mortos. vulnerável. Ficara alvoroçado. O Padre de Vernon não pôde deixar a senteça ser execultada. segui-lo. Sempre me foi insuportável dar a meus inimigos a'satisfação de minha derrota sem fazê-los arrepender-se. Restabelecer o equilíbrio entre o Bem e o Mal. renegando a aliança que fizera conosco. aquela boca fina e perfeita que pronunciava tais palavras.. Aquele da mulher hereditariamente submissa. implacável.. escapar a todos os que não o compreendiam mais?. aqueles poucos segundos de hesitação antes de atirar. falando de paz.. Uma questão de justiça. Entre as leis do Céu e as da Terra. aureolado pela luz proveniente da lareira. Ele mergulhou!. É isso o que ela não lhe pode perdoar. aos pés da força?... deixar-me submeter. escapar àquela escolha. a rir tanto que as crianças. Sem terçar armas?. acordadas. Eu o abati ". .. E a vida.. — Perdoe-me! — disse.' "Mas ele continuava a avançar. Julgam-na uma mulher sensível. em minhas palavras.. O da fraqueza. Sou uma sagitariana. O ser humano está no meio. sobretudo.. Eu lhe gritava: 'Não se aproxime! Não se aproxime!. Não conseguia esquecê-lo. meus filhos. O que acontecia com ele? Recaíra sob sua égide a ponto de fazer pouco de sua própria honra. Era chocante! — Mais chocante para mim. sua campanha até Gouldsboro. A fraqueza muitas vezes apenas adia o massacre e multiplica sua amplitude.. são os outros.. porque lhe expus todos os conflitos e tormentos que agitaram minha alma e partiram meu coração. com a ajuda de Saint-Gastine. Não suportava principalmente a insensibilidade dela. sem pé nem cabeça. comprazer a sua memória? Ou tentava escapar?. mas a vida é tão maravilhosa! Uma vidente mê disse um dia: "O amor a protege!. é a felonia dos outros que nos obriga à escolha. ele voltou ao assunto de Loménie-Chambord. os 'ternos'. Ele também fizera sua escolha. O da sensibilidade e da generosidade.. que ficam desolados com isso. meus partidários.. — Compreendo agora como você pôde vencer Ambrosina. Não pôde deixar que eu fosse afogada. do guerreiro. você quer dizer que eu não faço o jogo. teria deixar-meenternecer. Contando com a afeição que eu lhe dedicava para render-me mais facilmente."Que jogo?. vencida. E a mediocridade. Ele não tem escolha.. Necessitaria de horas para descrevê-los. para comprazê-lo. quem sabe?. Mais tarde. "Você me achou brutal. prostrando-se. a imitaram. Eu o abati". onde. e ela começou a rir. recompondo-se — ... fatalmente espezinhadas e destruídas pela crueldade e traição dos adversários.. não é? "Fazer o jogo. "É fácil abusar da bondade e do impulso dos corações generosos para causar sua perda. seria tão fácil. que não têm escrúpulos. deixá-lo continuar... sem isso!. de um modo ou de outro.. "Não somos nós. que nos mostramos duros e intratáveis...escandalizado com a brutalidade com que ela resumira a cena fatal: "Ele vinha com as mãos nuas. entregando-lhe Wapassu.. Não é a primeira vez que me fazem essa censura e.. O meu caro Merwin! Como estou feliz!. como pretendia. — Se bem entendo.

que o faziam gritar. que me impôs um ato de que nunca me consolarei. quer sonhemos com harmonia. ou melhor. desespero diante do irreparável. Um dia ele ficou de pé. desengonçado. e isso ocorreu todavia de um acontecimento que deveria ser marcado pelo signo da alegria: sua primeira saída do fortim. felicidade cotidiana. estendidos lado a lado. — Hoje você deve tentar sentar-se — disse-lhe ela."Quer o queimaremos. E depois. marcados contudo por etapas decisivas. chega um momento em que somos obrigados a fazer uma escolha. um dia em que temos de pegar em armas. mas conseguindo deslocar os pés algumas polegadas. Seu antagonismo explodiu mais uma vez. ela tomara o cuidado de fazê-lo flexionar as pernas. a de servir-lhe. superadas de uma hora para outra como que por um milagre. e ele se apoiava com a outra mão no pequeno Carlos Henrique. Acima deles passavam os-eoros do vento e também o dos anjos em cavalgadas fantásticas. desproporcionais em relação aos desastres que acarretam." Essas duas cenas convulsivas deixaram-nos abalados. pela cintura. crianças felizes em meio a nossas obras fecundas. Saiba. parecem fúteis. . Desde o início. E essa obrigação o que mais odeio. que a paz voltara a reinar. as lágrimas que fizeram correr. CAPÍTULO XXV A fuga das crianças — Esperança de salvação Imaginavam sempre que tudo fora dito. Rancor por ter pago um tributo tão pesado. por boa vontade. pelo menos uma vez na vida. paz. imperfeitos. Para sobreviver ou para defender a inocência. feito o jogo de reles paixões que. uma vez saciadas. o carregava. entre eles. Sr. durante o qual não puderam fazer nada além de ficar enterrados em seu buraco. Pois eu também o amava. apesar das dores. mas aprendi como ela era inelutável. flutuaram sobre águas pacíficas. depois de um longo período inclemente de noites e tempestades. como um polichinelo quebrado. Poucos são os que podem evitar enfrentá-la. E isso evitava o enrijecimento dos membros. estendendo-lhe as mãos para segurá-lo. esgotados. Pois ela notara que ele podia executar movimentos que davam mostras de flexibilidade e de vigor. quer não. como daquela vez em que ele se erguera para alcançar-lhe a mão e beijá-la. os lutos que engendraram. sempre imperfeitas. Os progressos foram lentos. o desespero. saída que veria os primeiros passos do "ressuscitado" à luz do dia. "Cláudio de Loménie morreu porque ele fizera sua escolha. os arrependimentos. por terem. Enquanto retomavam forças. das queimaduras. Chegava o momento de encorajá-lo a mover-se ainda mais. com um dos braços em volta de seus ombros. a uma palavra. despertavam-se o rancor. compreendendo a inanidade de suas discussões e a profundidade de um sentimento que vinha de longe e que se parecia com a amizade. d'Orgeval. esquelético. enquanto ela o segurava. que se arriscavam a ficar deformados pelas cicatrizes. a uma alusão. arrependimentos por terem se mostrado medrosos.

você e seu esposo. para imitar a sociedade de Quebec. Ele replicou. cujo caos. Quando conseguir transpor a trincheira gelada. meias. pusera o nariz para fora e percebera a carícia do sol para lá do abraço do gelo. experimentava uma perigosa vertigem medindo toda extensão do desastre. haviam proliferado em torno. A aventura começava mal. que era arrastar todo mundo para fora. ou. recoberto de neve. Nas saídas precedentes. Trouxe-lhe para aquela ocasião calções. além do casaco e do gorro de pele forrados. Com as crianças. despertavam nela. todo mundo saía. O que via destacar-se contra o céu azul eram as ruínas de Wapassu.Como o tempo melhorara. Quando da chegada do Padre d'Orgeval moribundo. mas hoje. erguia uma bárbara catedral do outro lado da colina. sob sua salvaguarda. equipado dos pés à cabeça. andava-se de trenó e as crianças deslizavam à beira do lago. Os gritos das crianças soavam ao longe. não resistiu à malícia de perguntar-lhe se ele não ficava impressionado por estar vestido com os trajes de um inglês puritano congregaciònalista de Massachusetts. Isso lhe partiu o coração. chamando-se ou encorajando-se em seus trabalhos. causaram sua perda. depois de ter-lhe tirado os andranjos que o cobriam. Faziam-se visitas. sempre evitara voltar-se para aquele lado. obrigou-se a ter paciência e permaneceu em silêncio. A estação atravessava um período de estabilidade. passeava-se com as raquetes. Angélica e Joffrey subiam ao cimo do torreão e olhavam a animação em volta da bela fortaleza de madeira de Wapassu. estremecendo: — Como ousa brincar sobre suas traições? A canalha perniciosa de que se cercaram. foi amargo. Nessa época. A de não levar em conta a emoção que tais palavras. Como ele estava de pé e muito vacilante. custando-lhe cada passo um grande esforço e provavelmente muita dor. Quando viu o jesuíta. Odiou-o por isso. presas do frio e da luz. o olhar que Angélica lançou sobre a planície branca e resplandecente. sob o peso das neves. erguiam-se toldos em volta de braseiros. os risos das mulheres. mas o sol brilhava sobre a neve recém-caída e fofa. tendo ela e Carlos Henrique dificuldade em sustentá-lo. Enfraquecida pela contrariedade e pelo rancor que aquelas reflexões mal-intencionadas de seu paciente lhe haviam provocado. sapatos do guardião da casa — o que teria acontecido cõm o pobre mudo? —. Mas ele não compreendeu. perto das quedas Montmorency. Em Wapassu. passando as breves horas ensolaradas do dia a flanar. ela decidiu dar uma saída com ele e as crianças. — Com você. por causa das palavras que acabara de ouvir. que organizava suas partidas de patinação e piqueniques no Pão de Açúcar. vou envelhecer dez anos — disse-lhe ela. injustas e revoltantes. em que alguns ursos se arriscam a uma saída titubeante para em seguida tornar a mergulhar num sono mais benéfico. Angélica desprendera a porta. Para as crianças eram sempre dias de alegria. que era preciso amealhar. entre quatro paredes. Estava preocupado em avançar ao longo do corredor. distribuindo salsichas e pães com melaço. antes que a tempestade os aprisionasse por outras longas semanas. pois acabara por se esquecer. as interpelações dos homens. em vez de feliz. no meio da invernada. Saíam para tomar ar e sol como uma panaceia. com a fumaça elevando-se dos telhados enterrados das outras casas que. O frio continuava intenso. na . achando-se de pé ali na neve. ia-se ver os índios. sentiu-se mal. ela vasculhara entre as camisas e coletes de Lymon White para vesti-lo. Cometeu uma imprudência. Fora um erro não ter renunciado a ela e prosseguir em seu desígnio. nos outros invernos. E a época.

de seus fiéis. de dar uma coesão ao que lhe queria explicar... a destruir-se a si mesma. E como Angélica julgasse ter surpreendido no olhar fixo pousado sobre ela um brilho de alívio. como o Padre de Marville o fez. carregando seu segredo para o túmulo? Ele. — E?„. Você ganhou.. teria sacrificado a criança também você. Olhai à sua volta. de pé ao seu lado. pela fadiga e pelas torturas. a se afogar voluntariamente. a desencadear certas influências. Ele foi até o jardim.. ter-me-ia dito chorando. como diz. Dirão que ele se suicidou? Receio que uma vontade estranha o impeliu a isso. Ia confiar-me sem dúvida o que vira no vale das Cinco Nações.. inocentada pelas mais altas instâncias da Igreja. como se poderia explicar tal gesto. Ele não a acusou. se não soubesse que vocês não hesitam.. "mas vejo meus mais veneráveis mestres construírem uma lenda destinada a enganar as almas piedosas". a Dama do lago de Prata. sentiu-se enlouquecer de indignação. tão corajoso. — Eis sua obra! Rejubile-se! Você se queixa de seus amigos. Não o revi mais. lançando-as aos quatro ventos do universo gélido. No dia seguinte recolhiam das águas . — Teria sido preciso tão pouco para que tudo fosse salvo!. Não se lamente mais disso. quando julgam necessário. de Peyrac. não é? Você o teria feito? Teria jogado com seus "poderes". dirigindo-se a forma masculina. ele transmutou esse chumbo em . que o traíram.. senão para dissimular sua fraqueza diante das torturas.do porto o corpo de Emanuel Labour. Ia falar. ia gritar-me: "Não é verdade! O Padre d'Orgeval não morreu como mártir entre os iroqueses. Mas o espetaculo era para ela ainda mais penoso pelo fato de se encontrar diante do homem que quisera aquela derrota e que podia rejubilarse com ela. Sra. a você. repetindo-as em voz alta quando ficava sozinha no silêncio do deserto branco. — As últimas palavras de um mártir têm o peso de ordenações! O imperativo de um testamento!. O Padre de Marville surgiu diante de nós. desorientada. "Você o teria feito. sim! Mas não pelos seus! Ele está morto!... Eis o que explicava sua palidez e seu desatino. Ele falou? — Não teve tempo. a você.. Repisara-as por muito tempo. tão cristão. "Eis o que estava prestes a me dizer. Intimou o rapaz a calar-se e segui-lo. espreitando-a com um olhar ansioso. Mas era incapaz de ordená-las.. enfraquecida pela fome. Sabendo que não poderia jamais apagar a realidade de seu ato. Eis o resultado! As palavras violentas lhe saíam da boca.. Tudo não passa de mentiras". padres. — Você também acha que está tudo bem assim. E nossa obra está aniquilada. A honra da ordem está salva. para arrastar aquela pobre criança. sublinhavam as palavras irrisórias que ouvia a si mesma pronunciar. Morreu para que ninguém conhecesse a verdade sobre sua ruína. Pois as últimas adjurações de um santo mártir são ordens sagradas. Marville soube o que conseguiria colocando-o nos altares.. — Olhe! — gritou. como tantas vezes fizeram. Era preciso salvar a honra da ordem. encontrar um pretexto para sua fraqueza. em Salem. para que o pobre Emanuel tivesse tido tempo para me falar antes de morrer! — Morrer? Emanuel? Você não me havia dito que ele fora poupado? — Pelos iroqueses.urgência das ameaças da fome. vocês." O jesuíta tentava acompanhar-lhe as palavras loquazes.. Pois bem! Aí está. Pequenas nuvens de vapor escapavam-lhe da boca... Mesmo assim eles o vingaram bem." Ela ofegava. Ele não aguentava mais sentir-se envolvido nessa felonia. para me fazer revelações. mas não enganaria ninguém.

à beira do lago. Vão voltar por conta própria. Começou a sacudir a cabeça e repetiu várias vezes: — O que foi que eu fiz?!.. perguntando-se onde ficara o indivíduo ao qual acabava de dirigir seu violento requisitório.. E vocês. e pela virtude de suas santas chagas. a glória e a reverência que lhe são devidas. a mim. perdoem-me! "Perdoem-me os erros cometidos por minha culpa. Acabava de dar-se conta da maquinação que o Padre de Marville armara em torno de seu nome. Estão se afastando. Depois. viu-se novamente cercada pelo grande silêncio branco e o frio cruel. Ela estendeu o braço para ampará-lo. o mais vil. indigno. que morreram apenas pelo amor de Cristo e não pela adulação dos homens. Emanuel. vocês. mas também de incredulidade... O frio raspava-lhe a garganta. Glória lhe seja prestada. deslizando na neve — disse o Padre d'Orgeval. para lhes servir. muito caros e santos e modestos mártires. Vagarosamente dobrou os joelhos.. a vocês somente.. Edificam-lhe capelas. — Estão lá. as felonias às quais impeli os meus. E ela o viu erguer os olhos. — Perdoe-me.. O meu Deus! — Não se mova — disse ele. gritar dessa maneira.. com os olhos fechados. a mim. perdoem-me! Perdoem-me por ter usurpado.. "De que adianta a cólera?". e multidões lhe dirigem preces e súplicas. a mim. —Para onde foram? Olhava ao_redor. dignem-se assistir-me na hora da minha morte!. — Elas vão voltar.. Como alcançá-las?. Ele o canonizou. foi que êu fiz?!. meus irmãos jesuítas do Canadá. pois sentia o suor escorrendo-lhe pela espinha e congelando-se. Angélica tossia. As" crianças haviam sumido. Perdera a cabeça discutindo com aquele homem. Viu sua boca aberta. que "tinha uma visão penetrante. — Onde estão?— Onde estão? Onde estão as pobres inocentes?. Você é o maior. subitamente.. orem por meu resgate. perdera as crianças de vista. Estava errada por falar assim. voltando à realidade. numa expressão de estupor.Levantara-se e colocara-lhe a mão no ombro. sua mandíbula caída. A luz que tornava sua face translúcida viria do sol ou da transfiguração interior de seu ser?. E quem iria se arrepender do resultado de uma tão brilhante impostura!.. vocês. O que. . dissimulando-o. arrependendo-se de sua explosão e do estado em que se colocara. de exemplo e não para suscitar sua veneração idólatra. conservem-me sua piedade.. a vergonha de nossa santa ordem. ó. e depois erguendo-os para ele. — Acalrne-se! — Não poderei jamais ir tão longe para buscá-las. "De que adianta essa diatribe dirigida a um ressuscitado que não se aguenta em pé e que não consegue dar um passo?!" E retomou fôlego. — Onde estão as crianças? — gritou. involuntariamente. Seu irmão em religião fez mais do que vingá-lo. Seus lábios estavam secos. o fez servir à maior glória de Deus e do reino. que o mundo esquecerá. o mais covarde. Mas como é que elas conseguem? Eu mal tenho forças para dar alguns passos.ouro puro e. verdadeiros sacrificados de Deus. eu lhes suplico. depois as mãos para o céu. Mais uma vez Angélica se encontrava diante de um desconhecido. Perdoem-me! A mim. Mas ele simplesmente se ajoelhara.. isso de nada mais adiantava e não vingava ninguém. Você os simboliza a todos. Padre d'Orgeval. Recomeçou a bater os dentes de frio e de pânico. Pela fraternidade de nossos compromissos. pensou. e elas voam como pássaros.

dando às florestas azuis um tom pastel. acáriciava-lhe o rosto redondo. Não parta! . — Não consigo vê-las. em que as pupilas de um azul cambiante se haviam turvado. tão pequenas e desengonça-das estavam em suas roupas. mas três pontos que aumentavam visivelmente de segundo em segundo. enquanto os pequenos lábios inchados se esforçavam em vão para esboçar um sorriso. estão vindo. não lhe era possível detêlo. De todo modo. Face horrível. Angélica não via mais as crianças e estava inquieta. Começou a perceber-lhe a aproximação ao notar a palidez e a fatiga da pequena Gloriandra. E quando se deu conta. os frês muito satisfeitos com sua expedição.. Sentia aquele braço nervoso enlaçando-a para sustentá-la e impedi-la de lançar-se à procura das crianças. fornecendo-lhes reservas de carne até a primavera.. ela sobrenadava como um pequeno peixe valente na correnteza das doenças e provações físicas que se abatiam sobre o irmão. por suas próprias forças e sem prejuízos. Depois as crianças ressurgiram diante dela.. E voeê se vai!. Eu lhe suplico. — Não. Onde estão? Elas vão desaparecer. o mal já lhe parecia muito adiantado. que nem sequer eram silhuetas.. dando a mão aos gémeos. Não ralhe com eles.. não a acostumara à inquietação. como se nascessem do ouro vermelho do inverno. dando provas de uma vigorosa saúde.. Talvez por causa disso. pois faltavam-lhes elementos essenciais à alimentação. garantiria sua sobrevivência até lá. de carnes inchadas e gengivas sanguinolentas. sempre alegre. Desde as primeiras horas de seu nascimento. Mais eis que despontava a face insidiosa do segundo mais cruel inimigo das invernadas. — Estão vindo? — Sim. acariciava os longos cabelos negros. que bamboleavam sem pressa ao lado dele. tão belos e incrivelmente longos numa criança tão pequena. Com a menina no colo. — O minha princesinha! O meu tesouro! Não é possível! Sei ainda tão poucas coisas sobre você! Não tive ainda tempo para conhecê-la. Estavam vindo. as iniciativas de seus irmãos.. e que se haviam habituado a vê-la transpor... e que seguia. três pontos redondos. Desaparecer!. Angélica levou mais tempo para se alertar. pois teria caído e não poderia levantar-se. Carlos Henrique no meio. estão voltando. — Estão voltando? — Sim. Essa encantadora boneca.. ocultá-la em seu abandono contra o ombro da mãe. apodrecida. com uma animação tão devotada quanto admirativa. fundindo toda a paisagem por trás de um véu de irrealidade.Uma bruma sorrateira de fim de dia começava a despontar ao longe. Eles são o nosso perdão! São a nossa salvação! O SOPRO DO ORANDA CAPITULO XXVI Insinua-se o "mal da terra" Ela acreditava que o alce. — Não lhes diga nada. depois da fome: o escorbuto. elas vão voltar! Acalme-se. que pareciam vesti-la.

— Minha filhinha. fazia esquecer. eu a julgava salva — murmurou Angélica.. uma das mais modestas. Aquela mulher adorara seu filho. A voz do jesuíta. mesmo no fim do mundo. Caso . evocando as vagabundagens de sua juventude aturdida. às vezes tão imperioso. eram seu primeiro reflexo sob o choque da descoberta.. Acreditara piamente que estivessem a salvo de tudo. Mas nos primeiros instantes só podia apertar a criança contra o peito. E na regente da Aquitânia. Gloriandra de Peyrac! A princesinha! A pequena maravilha!.. que. E o segundo golpe que provoca a queda. disse. depois. assa loucura. sua mãe. voltou a estirar-se na cama e fechou os olhos com um profundo suspiro. Podia ser que estivesse deserta. — Essa angústia.. "Você não tem o direito de deixar que lhe retomem sua filhinha. não. Mas. e sem lhe confessar uma lembrança coti-diana. Descobria-lhe nos traços transtornados a vulnerabilidade de seu coração. não! — murmurou. A esse espírito tutelar ela confiou a criança condenada. ornada de todas as graças. não! — Ah! Você vê?. Ela mordia os lábios. soberba e ardente. embora não o menos acidentado.. para chegar à Missão de São José.Esse terror". Como defender-se da horrível doença?. Sua bravura devia ter dado à mãe de Joffrey o poder de continuar a velar por ele no além-túmulo... Ele fez um esforço para sentar-se e sair da cama.. Outra vez. sabia que estaria no caminho mais curto. O que você receia? — O escorbuto. Disse-lhe que decidira partir e andar até encontrar um posto ou uma missão. sobre a qual ele dizia. ao despertar. Ia subir para o norte até atingir os canais gelados de Mégantic. com pequenos passos de doente de gota. chegou até ela. com voz firme: — Confie. Em seguida. e Angélica compreendia e partilhava esse sentimento. Para este. não se tem uma reserva de forças." Estipulado o acordo. foi inclinar-se sobre a criança e examiná-la com atenção. que não alcance o fim do inverno. viu-o de pé junto à cama. Pensou nas mulheres de sua linhagem. e que todos reveriam a primavera com saúde. guardara a sensação de jamais tê-la deixado. a ternura comovente que aquele belo rosto. na região da HauteChaudiere. novamente. sentiu-se melhor. Compreende agora o que isso quer dizer. que estava deitado. Quando tivesse encontrado o fio de um outro riozinho que serpenteava no verão entre falésias de duzentos pés de altura. — E eis que recomeço a recear que me seja tirada.. ao cabo de alguns instantes. Ele se informava sobre sua preocupação. com um olhar que podia ser tão fulgurante. Ia encontrar um meio. de onde traria o suplemento de víveres necessários. A filha do Conde de Toulose. apaixonadamente. — Outra vez. vestido com o casaco e o gorrinho de Lymon White. Que todos ali estivessem mortos ou tivessem ido embora. Pensou em Joffrey. mas a mais próxima para eles. CAPITULO XXVII Uma partida insensata De manhã. e era a primeira vez que ele a via retendo as lágrimas. dos abenakis. estampada em sua fisionomia.

e até daquela louca tripulação de Joffrey. como que posto em comunicação com um contato invisível. procuraria algo para mudar a sempiterna dieta de carne de alce. que tentam alcançar Levis e Quebec a fim de buscar socorros e que. nessa etapa. A distância era imensa. "A sabedoria manda que nos fiemos nos remédios dos selvagens. Eu o chamarei. — O que é o Oranda? — O Espírito" e a força suprema no seio das coisas. repolhos. não. permanecem ali para dar assistência às populações errantes. dizimada pelo escorbuto. Jamais conseguiria chegar até lá! Pereceria no caminho. — Sua filha foi atingida — disse ele.contrário. Todavia. sob as árvores. — O sopro do Oranda me sustentará. apesar da esperança que despertava. Havia às vezes alguns que sobreviviam e que voltavam. E você. e também milho. o "dado" do Padre d'Orgeval. sem conseguir acreditar em sua decisão. cada um querendo deixar ao outro o viático de sua confiança. durante a primeira invernada no rio Saint-Charles. Angélica não podia habituar-se à ideia. Um professor. O círculo dos furacões cercava sua ilha deserta. — Você voltará. abraçando-a também. o grupo de Loménie e D'Árreboust. quando já deram provas de eficácia. farinha. — E se os jesuítas o reconhecerem? E se não o deixarem voltar? — Só existem dois jesuítas lá. para matá-lo em duelo. lançando um olhar à pequena Gloriandra.é? — Voltarei. ameixas-pretas. mais milho. ainda doente. salvara a tripulação de Car-tier. se os padres os cultivassem. apertáhdo-o em seus braços. viva! — disse ele. ou frutos secos. que condena o isolado perdido sob as rajadas de neve. todas as coisas que afastam em pouco tempo o escorbuto. no próprio ar que respiramos. No verão. as façanhas isoladas de intrépidos como o jovem Alexandre ou Pacífico Jusserant. no inverno. conforme a terrível expressão. pois aquela era uma região para os insensatos. três brancos. e se uma delas o surpreendesse. ela se lançou sobre ele. lembrou-se da vinda de Pont-Briand e de seu índio. Os loucos do deserto branco. mais o projeto lhe parecia o que era: louco. Ele ergueu o dedo. ferido. — Eu trarei a casca específica para isso — repetiu —. Mas. Mesmo um homem vigoroso não teria podido pôr-se a caminho naquela época do ano para atravessar a região por uma extensão tão grande. — Viva. a fim de que meu sacrifício não seja inútil! CAPITULO XXVIII . talvez um servidor leigo. com a qual o chefe huroniano. feijões e grãos de aveia-louca para germinar. ó mulher bem-amada. As tempestades ameaçavam todos os dias. sem ponto de referência nas trilhas apagadas. quando se abandona a cabana isolada infestada finalmente de pernilongos. Ele virá. Quanto mais pensava nela. insensato e fadado ao fracasso irreparável. e ela compreendera muito bem que ninguém podia escapar dele nem penetrar ali antes do degelo. sem que todos lhe predissessem morte certa. ele "se perderia". No máximo. Num movimento. Estava de pé diante dele. encontraria em sua farmacopeia aquela famosa casca de árvore. morrem de fome e frio no caminho. que perseguira Pont-Briant até o lago Mégantic. e um coadjuntor temporal. E se não pudesse achá-los no caminho. conservados sob a neve. Depois." Angélica levantara-se. Mal se mantém de pé. ela insistiu: — Você está fraco. o lugar é impraticável por causa das cheias da Chaudiere. o Padre de Lambert. quem sabe repolhos.

Sobreviventes da grande confederação dos narragassetts. Depois de ter rezado o terço na capela e entoado os cânticos com os fiéis. Ele seria um homem como os outros. "Oranda! Oranda!" O Grande Espírito lhe trazia sua desforra.Um companheiro de miséria — Apenas um corpo em movimento Ele saltava! Galgava o espaço! Quebrava o cristal do frio. pois as feridas se tinham aberto de novo. Seus lábios enegrecidos pelo gelo e pelo sol esboçaram um sor-nso quando avistou a cruz da capela. o medo. primo? — perguntou-lhe o irmão coadjuntor. não se lançou sobre o alimento que lhe apresentavam. "Como eu te amo. Flocos de neve eriçavam-lhe a barba. e o céu limpou-se. Era a pista que lhe fazia sinal. Por instantes. Onde abordar os montes para atravessá-los. Fez um sinal indicando que queria primeiramente apenas aquecer-se e repousar. ele se dizia. Estariam achando estranho que não se identificasse? — Você se perdeu. signo de amor! Deus crucificado! Escândalo do Universo. "Todos esses ruídos de uma missão". Todavia. Dialogavam uns com os outros. sentiu que as vestes se lhe colavam na carne em diferentes pontos. O novo governador parecia . Depois compreendeu que sua aparência era a de um joão-ninguém. Caiu a noite. Não era ele que reconhecia a pista. Ingleses sanguinários do sul haviam acabado com sua revolta para sempre. Quando se sentou diante da lareira. Ele sacudiu a cabeça negativamente. Salve Regina! Salve Rainha do Céu! Foi o tempo de sair da floresta. Murmúrios de preces. voltava a cabeça para trás. A floresta que se abria diante dele. como eu te amo!" O cheiro cálido era embriagador. Escutava aquelas vozes de homens falando francês. mas ele sabia que estava perto e não se perdeu. Ele se inquietou. Houve algumas borrascas. Não possuía mais corpo.. Respeitavam o silêncio do hóspede estrangeiro. — Fizemos pão — disse-lhé o-missionário que o acolhia. Recusou-se a perceber seu corpo. Os índios tinham uma aparência estranha. Uma brusca tempestade levantou-se no último dia. meio enlouquecido pela solidão dos bosques. retomando a língua algonquina quando o índio aparecia. Ele era apenas um ouvido atento. os missionários fechavam as portas da pequena paliçada que cercava a habitação.. as nuvens portadoras de neve fugiram. Seu dialeto era quase incompreensível para os abenakis da região. Foi através das rajadas sibilantes que ouviu o carrilhão» O sino da salvação! O sino do ofício noturno. De missais! Ruídos de irmãos arrumando os terços na sacristia. mas ele os examinava em segredo e desconfiava de sua sutileza. esquálido. atravessar uma longa planície e subir lentamente para a missão." Os dois homens de batinas pretas voltaram para a sala comum. Sabia onde transpor as falhas do terreno com um salto. Depois conversaram sobre acontecimentos da Nova França. mas o tempo permaneceu limpo. a fome. "esses odores! Um cheiro de incenso. Um cheiro de pão! De velas apagadas. lutando pela salvaguarda de uma mulher e de crianças pequenas. primeiro sobre os nómades que acampavam à sua porta. Os dois jesuítas consideravam-no em silêncio. atravessava as vibrações douradas do sol. Atribuiu-lhes parentescos com os narrangasetts do sul. que tinha um rosto de sólido camponês.

de Loménie pusera fim àquela perigosa vizinhança. mas você me pertence se eu o quiser". — Você também. Calava-se.. mais tivera dificuldades dessa vez de escapar aos sioux. parece-nos. — Você vem partilhar nossa refeição. Calava-se. Falou de uma viagem aos andastes e como permanecera em seguida entre os sioux. e não renasceria de suas cinzas. apaixonado pelo seu corpo. tão hostil à Companhia de Jesus. que é mais que sua vida. e não a compreendia mais. detida pelo inverno. Ouviu-os felicitar-se pela partida — dizia-se já "pelo chamado" — do Governador Frontenac. aquele pelo qual você enlanguesce seu corpo. por havê-lo reconhecido. Naquele ardor de destruir Wapassu que sentia em suas palavras. Depois tranqúilizou-se. O anúncio da companhia do Sr. Notícias chegadas recentemente tinham informado aqueles dois solitários sobre mudanças de política. lá embaixo. e ele ficou muito atento. Quando avançou a mão para pegar o pedaço de pão que lhe estendiam. aquelas tribos do extremo oeste dos Lagos. com os filhos de seu amor. e depois a rudeza do inverno. Começara uma campanha militar. que queriam detê-lo. decidindo-se a retirar o gorro preto e as luvas forradas. "Você está lá longe". No outono. que são aliadas dos neutros e dos petuns. Wapassu não existia mais. Tinha de responder. amigo? Obedeceu-lhes. um inimigo ao qual você nunca perdoará. um olhar que ela só tinha para ele. conservá-la viva para ele. Seu coração batia. reconhecia sua própria raiva. como os que travam após um dia de trabalho aqueles que se encontram e comentam a situação. um companheiro de miséria. ou se não adivinhavam de onde ele vinha. mal refeito das fadigas e dos esforços que tivera de fazer para escapar à morte branca. Pensava nela. Perguntava-se se não estariam falando para ele. Também falaram de Wapassu. meio indulgente. como se se tratasse de uma cruzada santa. O irmão dispôs escudelas sobre a mesa e copinhos de estanho. tão longe. receando cair nas mãos de seus torturadores no caminho de volta. mesmo que você não pertença senão ao outra. . aquela que alimentara outrora. Não sou nada perto dele. A coalizão que Frontenac imprudentemente fizera com o fidalgo francês. e respondia às perguntas que lhe faziam resmungando." Ficava sentado no canto da lareira. fora dissolvida. "e me pertence. encontrando uma doçura e um conforto nesse tratamento ousado. seu sorriso. um pobre homem que merece piedade. de Gorrestat contra os iroqueses o encorajara a fazer uma tentativa. referindo-se à visão de uma mulher e à ternura de seu olhar pousado nele. com os olhos baixos. acentuando seu lado um pouco limitado de "viajante" taciturno que se "perdera" no furor do inverno. atrasara seu avanço. meu irmão. cujas etapas não haviam podido acompanhar. repetia a si mesmo.decidido a reduzir os iro-queses que trabalhavam para os ingleses.. aquele que habita em seu coração. Não sou nada. sua força. compreendendo que se tratava apenas de um diálogo banal.. deram-lhe um olhar de piedade e de respeito. muito rigoroso aquele ano.. O ninho de piratas ímpios fora queimado. sofreu nas mãos dos iroqueses. a fim de decidir sobre o dia seguinte. meio provocante. pois "eu sou aquele que veio para lhe dar apoio e ajudá-la a viver até que você possa se encontrar do outro lado do inverno e correr novamente para seja amor. sinal de uma amizade mais profunda e que nunca transporia seus lábios. pensava.. aliado dos hereges da Nova Inglaterra. mesmo que eu seja apenas um companheiro de passagem. Receava também trair-se por seu olhar. a campanha do Sr. mas terei oferecido a você esse presente.

Não era fácil alimentá-los. para não tentá-los. Conversaram e ele se deixou ficar a escutá-los. Sebastião d'Orgeval foi o primeiro a tomar consciência de que a noite avançava. sentia-se seu irmão mais do que nenhuma outro poderia sê-lo e. nascido da própria tempestade. o que cria muitos conflitos. disse o padre. o hóspede que viera do frio desértico. Eles olhavam para o homem. — Eu vigiarei — interpôs-se o hóspede. mas.— Não será você um habitante do cabo da Madeleine. defendê-los-das feitiçarias de seus "prestidigitadores" e da amoralidade de suas mulheres. de pé ali na penumbra o homem com mãos de mártir.. Mas o irmão coadjutor sacudia a cabeça antes dele. habituado aos índios. Para desviar-lhes a atenção. meus amigos — murmurou. como que por uma dura e intransponível cortina. Os dois religiosos levantaram-se silenciosamente. sabendo em que fonte santa hauriam sua coragem. as velas eram reservadas para a capela. O Padre de Lambert e o irmão aquiesceram com um sinal de cabeça. Mas. Todos os rostos da Nova França lhe pareciam ser perigosamente familiares. eles partem em campanha. cuja família está sem notícias há três anos? — perguntou o padre. — Temos uma reserva pequena de bebidas alcoólicas aqui. Ficarei feliz por retribuir-lhes a hospitalidade com algum serviço. naquele banco de-pedintes. — Não é tempo de irem descansar? Quanto a mim. até a eternidade. — Não o reconheço. O fogo diminuía na lareira. O irmão coadjuntor lembrou-se de que precisava vigiar até o fim o cozimento do pão da segunda fornada. encorajá-los por breves palavras. a pretexto de caçar.— Peço-lhes. mergulhada na gordura de urso. como o véu da morte. tornando a subir para Sorel ou Levis para obter provisões de aguardente. Apenas para os doentes e feridos. cuja mecha. que causava grandes crimes. — Faz-se tarde. Na missão. — Nós nos levantamos para rezar as matinas — disse o Padre de Lambert. aprová-los. repousem. e que não procurava mais simular a postura canhestra e ríspida de um explorador de bosques insubmisso. que muitas vezes roubam nas armadilhas das tribos locais. tocado de piedade por eles. se me permitirem. Mas. ao mesmo tempo. admirava-os. E sobretudo da embriaguez. difundia um halo dourado-escuro como o das iluminuras. de suas rajadas e de seus gritos. invejava-os. Estavam diante da porta. assim que o tempo melhora e o frio fica menos intenso. de compaixão pela rudeza de sua existência. segurando lamparinas chamadas de "bico-de-corvo". Em seguida. esforçou-se por interrogá-los sobre seus trabalhos. eles compreendiam que o único refúgio que podiam doravante encontrar era à sombra da cruz católica e a da bandeira do rei da França. — Nossos dias não nos dão muito tempo para isso. Nem sequer fazemos cerveja. Os índios não ouviam com boa vontade a boa palavra. Você . direi a missa. tendo perdido tudo para os ingleses. em troca das peles. como que surgido. primo! Ia continuar a fazer-lhe perguntas. que estou vendo ali. dormirei nesta sala. separado deles para sempre. havia aquelas tribos algonquinas que haviam subido do sul. cuidar deles. Quantos catequistas? Quantos batismos por ano? Falaram de bom grado sobre seu ministério. e suas luzes vermelhas e saltitantes refletiam-se nas faces dos três homens sentados à mesa e inclinados uns para os outros numa atitude de confiança. Esse ano. Chegavam em grupos cada vez mais numerosos.

depois de confessar-me. e o brilho claro do luar lhe era indiferente. nem fadiga. colocou algumas cinzas no fogo.estará conosco? — Com alegria. feijões. Do armazém. Depois calçou as raquetes. Em certo momento receou que aquele incenso generoso do mais nobre alimento do homem. "Rápido! Apressemo-nos!" Foi até o forno e. botas e luvas forradas. chegasse às narinas dos religiosos adormecidos. com gravidade. No inverno guardavam ali reboques e raquetes. trouxe sacos de farinha de trigo. a fim de abafá-lo.retirando também o par de raqueques. Ao chegar à porta da paliçada. aquecendo-se com seu calor e dizendo consigo que aquele perfume de pão era o mais embriagador da terra para uma pessoa esfomeada. Voltou para a casa. voltou à habitação e abriu o forno para pegar os pães que estavam bem crescidos e que se poderiam considerar assados. Voltou para o interior da cabana e foi abrir o galpão onde eram guardadas as provisões. tornando a apertar as fivelas e atilhos. antes de se afastar. nem nos assoalhos da habitação. pães de açúcar. Procurava ainda um objeto que achou finalmente num cofre-zinho da sala grande e. Depois entrou num telheiro contíguo que devia servir de cozinha no verão. Fizeram um sinal de cabeça afirmativo. ficaria feliz por assisti-lo. Dispôs o reboque do lado de fora. Precisava aproveitar esse curto espaço de tempo. com passos tão leves e gestos tão precisos que nem um índio teria podido supreendê-lo. e um par de raquetes de reserva. Em último lugar. caixas de ameixas e de conservas de limões verdes. projetava sua sombra até o limiar. Deslocava-se com tal serenidade evanescente que parecia não deixar nenhum rastro nem na neve. comprido e sólido. como se lhe falasse frente a frente e ouvisse suas explicações. retirou . No ar gelado. gorros. Para ele. pesados casacos de pele ou capotes de lã grossa com capuz. O aterro de neve. Agia sem fazer qualquer ruído. nem na terra batida dos armazéns e das adegas. não haveria sono. potes de conservas de gordura de pato. abóboras secas e todo tipo de ervas. pelo cheiro que dele se desprendia. passou pelos ombros os arreios do reboque e pôs-se a caminho através do pátio. O produto de sua rapina fora solidamente arrumado no reboque. sal. já arreado. Sorriu. Não sentia mais nada. Os primeiros movimentos que esboçou provocaram-lhe caretas de dor. Dirirgiu-se à sacristia da capela e pegou alguma coisa numa das prateleiras. Toda a astúcia corporal do índio estava nele. Segurava-os junto ao coração com voluptosidade. Pensou nas mãos suaves de Angélica aplicando compressas nos ferimentos e naquela rugazinha entre suas Sobrancelhas quando se punha examinar com atenção uma chaga. avaliou o tempo que ainda seria preciso para que os pães ficassem assados. suas feridas se fizeram lembrar. debruado de luar.. nem dor. os eflúvios se elevavam como uma oferenda sagrada. Entreabriu a porta da cabana e viu o pátio interno atravancado de neve com um terrapleno desobstruído diante da casa. Não poderia cuidar delas. o pão. melaço. grãos de aveia-louca. Escolheu um reboque grande. trigo-sarraceno. Sua noite seria curta. Pegou-os todos e levou-os um a um para o reboque. Quando tornou a se levantar. Cobriu os pães fumegantes com uma coberta de cornércio. Era apenas um corpo em movimento. e retiraram-se. E se não me julgar indigno.

cães latiam. Pouco depois. — Por que chora. não apenas pelo inverno. sob o brilho da lua ou de uma leve névoa. Num nível inferior. Como nos . uma neve revolta caíra. para o perigoso sudeste inabitado. Era um barulho que mal se ouvia. mas pela miséria e a angústia da derrota. Olhou na direção do sudeste e viu. Os ruídos eram abafados. se não ele mesmo e seus furtos. em direção do qual se fora o desconhecido. — Uma assombração não furta três sacos de farinha de flor de trigo. dos quais se elevava um lençol estagnante de fumaça. havia os wigwams dos índios. já semi-enterrada"sob massas de neve. — Vamos ver se não roubou mais nada — disse o irmão. — Vamos! Vamos! São apenas algumas libras de farinha roubadas! Ele deixou o suficiente para nós.. depois de fazer uma rápida ins-peção no armazém de víveres. nuvens escuras sobrevoaram a missão. economizavam lenha. A pequena cruz do sino continuava a brilhar como filigrana prateada contra o céu azul-escuro e vazio. como a própria vida. três de milho e a metade de nossa reserva de ameixas — observou o Padre de Lambert. velhos tossiam.habilidosamente as diversas cavilhas. — Onde foram parar todos os pães da segunda fornada? — gritou o Irmão Adriano. a pista do reboque e das raquetes ainda era visível. meu irmão? — interrogou o padre professo. Era para ela que ele se dirigia. Crianças choravam. Mas poucas luzes brilhavam. Eles nem pensaram em persegui-lo. Do outro lado da colina. começava a desaparecer aos seus olhos. — Será que sonhamos? Era uma assombração?. A neve recobriria as pegadas do ladrão. mas eram lágrimas suaves. muito fraco. A interrogação do dia seguinte como um peso infinito que nunca mais se poderia fazer recuar. sem que pudesse retê-las. Durante a noite. —Que me importa o furto. longínquo. — Para levar o saque. — Que mais queria que roubasse?. voltou-se.. De madrugada. mas era apenas um prelúdio de quedas mais pesadas que não deveriam tardar. enterrando-os. A tempestade continuava a avançar. — Não é por isso que estou chorando — disse o convertido.. muito pesaroso. a tempestade passara por eles. ele olhava à sua volta e não discernia nenhum vestígio daquele que. Lágrimas corriam-lhe pelas faces de camponês. — Ele pegou o reboque. Comida é o que ele queria. No tapete fino e aveludado formado pela neve fresca.. — Estou chorando porque me lembro de nossa vigília ontem à noite. rejeitar. não se via brilhar nenhuma estrela. a missão. na noite anterior.. Desorientado.. uma barra preta que subia lentamente. batera à sua porta e pedira hospitalidade. O padre não queria contar que notara o desaparecimento de uma sotaina e de um missal. wapanogs e wonolancets. A tempestade. acima das montanhas iluminadas pela lua. como um sonho. girou a chave'da forte fechadura que eles haviam colocado para desencorajar os ladrões noturnos e começou a avançar pela planície. e prometia ser feroz. decepcionados por não ver seu hóspede na missa. os dois religiosos foram à sala comum e o convertido abriu a porta do forno. Seguiram-na até um pouco além da paliçada e ficaram a olhar para as lonjuras. amontoados em covis. pois. No coração da noite. quando.

. Seus olhos choravam de dor por trás da máscara de couro. no fundo do impávido horizonte translúcido e gélido. a pista branca.. — Aqui estou. Deus. Levantava-se de novo.. você o notou? — Com efeito — disse o padre. "O que eu fiz?". Queimava os olhos para descobrir aquele vestígio de vida na paisagem morta.. investia contra a porta pesada.. Um pânico que. O atroz estava diante dele. minhas crianças!. e uma serenidade em nós e à nossa volta.. lembro-me apenas que seus olhos eram azuis como o céu e que nossos corações estavam repletos de alegria. tão meiga! Não pensei nas crianças pequenas. engolindo.. pensava. Aqui estou. E uma apreensão mortal o abatia. "Eles estão mortos! Eles estão mortos!" Lançou-se pela encosta lançando gritos e apelos desesperados. sonhador. CAPÍTULO XXIX "Eles estão mortos!" Várias milhas antes ele já retomara seus saltos dementes. pois avistava fortim de Wapassu.. quis sua destruição.sentíamos bem quando ele estava sentado co-nosco. — Havia uma espécie de claridade em torno dele. batendo vagarosamente contra o vazio e o silêncio. Como se não soubesse que atrás de toda mulher existem crianças! O Senhor. Não pensava que ela fosse tão frágil. Tarde demais! Lá embaixo. Ela estava encostada e cedeu. partilhando nossa refeição e conversando! Que luz! O padre.. voava por cima dos barrancos.diluída do ar gelado. estava a Punição!. Nenhum movimento. Quase quebrou o pescoço. nem dos assuntos dé nossas conversas." Fez alto. "Oranda! Oranda!" Havia várias milhas já deveria ter percebido ao longe aquele vestígio de fumaça que olhos exercitados não podem confundir com os rastros de neblina e que o teriam avisado da aproximação de Wapassu. estou chegando! Estou chegando!. — Não me lembro de mais nada além disso. Ele parava e torcia as mãos. Nada.. por que deixaste uma loucura dessas apoderarse de mim? Eu queria servi-lo. impelido pelo ritmos das raquetes batendo na neve e pelo barulho de sua respiração sibilante. . Vou preparar-lhes uma boa sagamité.. a cada passo. tão alegre. Já devia ter percebido o cheiro de fumaça. retorcendo-lhe as entranhas. Mas nenhum filete de fumaça se elevava acima do telhado meio enfiado sob as neves. Jamais em toda sua vida experimentara um choque tão terrível. caindo na trincheira com sua carga. se dilatava. por mais ténue que ela fosse. por que me fez nascer entre os demónios? Por que regou minha infância com sangue?. farejando o vento. por trás das fendas da máscara de couro indígena que fizera para se proteger da reverberação.. "Eu quis sua morte.. dizia consigo. Depois continuava. Nem de suas palavras. sem vê-la. Através dela eu queria destruir a Mulher.

ameixas e todo tipo de fruta seca. evitara acender o fogo. os ganizes no assoalho de madeiras grossas. minhas crianças — resmungava —. se está febril. estava com febre. Compreendeu que ela não sabia mais há quantos dias ele partira. melaço. — Quase morri de sofrimento quando não vi nenhuma fumaça acima do telhado. podia ficar acordada.. agora estou aqui. Ajoelhado na pedra da lareira. vertendo-lhe água. tremendo dos pés à cabeça. Então ela lhe confessou como um pecado que. mas que. Teria se resfriado ou seria um ataque de malária? — Agora estou aqui. Trago-lhes a vida. amarelecia seu rosto já muito pálido. — O Senhor! Que sofrimento! Mas cheguei a tempo. chegou ao quarto no fundo do corredor e entrou. que tinha parado à . com airelas. que não encontrara mais forças para os gestos essenciais dos cuidados às crianças. receando cair ou não poder vigiá-lo.. mel. a fim de se habituar à penumbra. no meio da sala jogavam cucarne tranquilamente. ou que as crianças resolvessem brincar com ele. semelhante a uma hóstia branca. Ainda ofegante. Tocou-lhes as mãos. mas percebeu o leve movimento de sua respiração. havia alguns dias. — Por que não acendeu o fogo? — gritou.. diante da qual a neve fora retirada. Ficando sentada. Pouco a pouco distinguia com estupor as três crianças muito agasalhadas.. Viu o viajante de joelhos diante dela. E continuaram a fazer soar. com boa intenção de mantê-lo aceso. Em seguida. — Onde está sua mãe? — Mamãe está dormindo! — responderam com um gesto em direção ao quarto. Foi um estalejar das chamas que despertou Angélica. grãos de aveia-louca. Estava tão fatigada.. Ela estava sentada diante da lareira apagada e dormia... — Aqui estou. A claridade de um sol pálido entrando pela pequena bandeira da janela. — Por que.. preferindo deixar o fogo apagar-se para economizar um pouco da provisão de lenha. espreitando-lhe o olhar. Ele pousou a fronte em seus joelhos.... com efeito. Estou aqui. com gravidade. que não havia retirado.. era preciso aproveitar aquele sol.. piscando os olhos feridos. as faces. ele julgoú-a morta. Tinha saído com as crianças. novamente estremecendo. pensava: "Ela está morta! E as crianças confundem sua imobilidade e seu silêncio com um sono profundo. percebendo que ia perder os sentidos. Trago-lhe também compota de cidra. começou a quebrar gravetos e reunir ramos e cavacos para acender o fogo. e Angélica viu entre os cabelos espessos a tonsura. permanecia na soleira da porta. Ela lhe disse que as horas do dia lhe pareceram muito quentes. numa atitude de abandono que traía uma grande fadiga. pois. — O Senhor! — murmurou. Pendurava o caldeirão à cremalheira. Estavam geladas. bem quente. e ela se ergueu com um sobressalto de espanto.." Com passos titubeantes. não se aqueceu deitando sob as cobertas? Ela explicou-lhe que receara ser arrastada pelos delírios da febre. Vou prepararlhes uma boa sagamité.Embaraçado pelas raquetes...

Abriu os olhos e percebeu na parede as rodas de pão da Missão de São José. foi abundantemente provida. Em compensação.. Pois bem. e apresentam. produto do grão mais precioso que o ouro. prato vital e rico. todavia. um pouco de fermento e farinha. Vinho. Não era de seu temperamento fazer isso.. — Vou só chamar à ordem aqueles jogadores inveterados que estão na sala entretidos numa partidinha de cucarne. transferindo a outra pessoa todas as responsabilidades. disse ela. . e já lhe mostro nossas riquezas. O fortim de Wapassu assinara um novo contrato com a sobrevivência. que fica muito quente mas demasiado rala no fim das invernadas. ela o ouviu delirar. Deitou-a. Farinha de flor do trigo. Que só conseguia manter-se viva repetindo-se incessantemente: "Não adormeça. quando se persuadirá que o mais precioso de si mesma é invisível? Você parece desprezar esses "poderes" com que. Podem constituir o último recurso para engrossar a sagamité. Está um chiqueiro. — Desculpe-me. Depois vou preparar-lhe uma sopa digna de minha Tia Nenibush. de modo às vezes excessivo. água. no lugar onde guardavam as provisões. de braços cruzados.. a justificativa de sua existência. — Faremos um bolo em homenagem a sua grande irmã e rezaremos por ela. Esse é um defeito feminino. murmurando que não tinha fome. E também velas. o combate contra o inverno podia ser retomado. o alimento dos franceses. vinho. Com muitas precauções. faz tempo que nem varro nem arrumo a casa. fora um erro não ter ficado a esperá-lo." Ela olhava ao seu redor com desolação. logo seria o dia de Santa Honorina. Dispôs as rodas de pão nas prateleiras ao longo das paredes do quarto e da sala grande. com as pálpebras baixadas sobre uma martelante dor descabeça. — Agora estou aqui. Só as acenderiam para as festas. daquele pão que é. conseguiu engolir algumas colheres do mingau. Apenas vinho de missa. Mas ia-economizá-las. Mas. Cristo o denunciou quando foi visitar Marta e Maria. poderiam assá-lo. E. concordou em -que era um dos prazeres da vida abandqnar-se à doença. Apesar de suas recusas. Fariam crescer um bom pão no forno. A menina estava melhor. Agora que o sopro do Oranda permitira ao jesuíta seu giro de salvação. Eu me encarregarei de cuidar de você. E quando não houvesse mais pão.. dispostas como rostos bonachões velando por ela. Mas ela virou a cabeça. tão cedo não se corrigiria. Angélica se resfriara quando fora procurar tripas de rochedo e casca de espinheiros para Gloriandra. como uma lâmpada acesa de vigília. ele a carregou e colocou na cama. — Mulher de pouca fé — disse ele —. sal. As mulheres só se sentem em paz com sua consciência quando podem provar sua utilidade. um defeito de dona de casa. por excelência. confiando apenas em seus atos. não me comprometi a mante-los todos com vida de qualquer maneira? Até a minha volta. encolhida sob as cobertas. cobrindo-a com cuidado. trazia uma provisão de aguardente. Deixara-o. Durante a noite. Conseguira encontrá-las e dera-lhe uma tisana. nascido no entanto de tão poucas coisas. milagre das searas. apesar de suas admoestações. havia muito pouco na missão. Pão.espera de sua volta.

Se havia . Mas. E depois? O companheiro de infância de Ambrosina sorriu sardónico. enrolado numa coberta. em visita oficial a Montreal.. — Ela morreu! Um animal selvagem devorou-a. Tivera contudo tempo de dizer-lhe que ele parecia um espectro. Mas. Aposto que suas feridas se reabriram e que você nem sequer tomou uma tigela de caldo. continuariam a fazer a morte recuar. nada. irritando as feridas. sozinha.divididas a respeito da agressão... uma assombração.. Àquele viajante que acabava de atravessar o Tártaro gelado do Inferno. dizem as mas línguas que tinha uni encontro amoroso. — Dessa vez. Sofrera sua partida como uma morte. despender tal esforço?! Despertou-o suavemente. os olhos afundados na sombra do capuz. As opiniões da colónia. Uns falavam de um animal selvagem que a teria feito em pedaços. de uma estranha agressão. de um ataque de um grupo de iroque-ses que rondavam sorrateiramente nesse fim de verão. — E o Arcanjo "estava lá! E o monstro!... Surpreendera a notícia nas palavras trocadas pelos dois jesuítas da Missão de São José.. o nariz azulado. dirigindo-se a ponta do Moinho. permaneciam. o traço de garra na casca de uma árvore. fora vítima. Uns são inocentes e querem acreditar em seu encanto.. de Gorretast fora passear à noitinha lá pelos lados do moinho. ele lhe falou da morte daquela que eles continuavam a chamar de Ambrosina de Maudribourg.. Dormia um sono febril e murmurava frases sem nexo. outros sabem e se calam e só falam-depois. Apesar da reputação de piedade e virtude que já havia granjeado. um esqueleto sob a roupagem gelada por seu suor na corrida. segundo dizem. CAPITULO XXX A profecia se cumpriu Dias depois. que é bem povoada. nem de passos. a não ser. jamais acreditara que voltasse. — Venha aquecer-se na cama. Então ela se afastou. A pele lívida sob a barba hirsuta. muito abalada pelas condições horríveis desse atentado sem precedentes. outros. tendo se afastado em seu passeio. e isso influíra mais sobre sua saúde que as privações. — Não é a primeira vez que isso acontece. Ainda fraca. — Sempre a mesma ambiguidade quando se fala dela. Parecia quase em pior estado do que quando o encontrara costurado na mortalha de couro. nem de patas. no outono. mas sentindo-se melhor. Ele estava estirado diante da pedra da lareira.. A esposa do novo governador. Ah! que belo par formamos!. é verdade — murmurou ele. Como pudera executar tal façanha. na extremidade oeste da ilha.Então ele voltara? Mas onde estava? Na realidade. Sozinha. foi ajé ele e ajoelhou-se ao seu lado. só oferecera queixas e nenhuma hospitalidade. e agora úmida. revezando-se um ao outro. — Você soube detalhes? Não é usual uma dama de prestígio ser atacada por um animal selvagem na ilha de Montreal. — O que viram? — Nada! Nem ninguém! Não havia vestígios nos arredores. — A Sra.

Retiraram-se para os fortes e feitorias de comércio. Ele subia à plataforma para farejar as mudanças de tempo. Os iroqueses. recorreu-se à astúcia. Desobstruíam com constância a entrada do túnel. como todos os anos. O novo governador enviou uma convocação aos chefes das Cinco Nações. tão perto da cidade —. Os dois outros. que. que não tivera coragem de olhar o corpo.estar uma pessoa cuja cabeça foi encontrada na forquilha de uma árvore. Durante a refeição. enquanto o corpo jazia no chão a alguns passos dali. Mas com a chegada do inverno. manifestando o desejo de encontrá-los e oferecer-lhes um festim em suà honra. não parava de vigiar os fogos. as tropas tiveram de retroceder. os chefes foram raptados e acorrentados. dormia um sono mais reparador. A lareira do pequeno cómodo correspondia-se com a chaminé central. Dispôs-se a reanimar a casa entorpecida. O que habilitou em seguida a tese de um ataque de índios. de um rigor sem igual.vestígios foram apagados. que lamentavam não ter estado no pawa do Forte Frontenac em Cataracuí. aceitaram o convite do novo Onôn-cio. construída segundo os modelos da Nova Inglaterra. pensava ela. — O Mal prossegue seu caminho. e depois levados a Quebec. para apagar vestígios com tanto talento. que estava em expedição num lugar distante. Preferia aquela neve. saía novamente como uma sombra. isto é. abria-se para quatro fogos diferentes. "O exército continuou em direção ao Vale dos Cinco Lagos. seria preciso ser um espírito ou um frequentador dos bosques. Tahutaguete. branco e cinza da neve enjoativa e invasora. pendurada sobre eles como que os envolvendo em seu . e as portas e janelas foram novamente bloqueadas. tão temível. instalou-se no quarto de Lymon White. escaparam. o esposo aniquilado. Para justificar essa exibição de navios e barcos carregados de armas partindo para o lago Cham-plain. apesar das evidências. Entretanto. segundo os ferimentos. de onde foram enviados às galeras do rei. que o inverno afrouxava seu abraço. os senhores canadenses e os aliados selvagens puseram-se em ação. A noite. Mas a própria neve era sinal de um abrandamento. Um dava para o antigo quarto dos Jonas. de que fora antes vítima de um animal feroz — o que também não deixava de parecer inverossímil. pretendendo continuar a campanha na primavera. não tendo mais com o que se preocupar. A profecia se cumpriu. O exército. O gelo. arranjou forças para enfrentar sua desdita num ardoroso desejo de vingança. parece. "Apenas Utakê. Angélica não a odiava. Era preciso dar ao Sr. Angélica. A CONFISSÃO CAPITULO XXXI Um comediante nato Assim que readquiriu forças e ficou em condições de cuidar ele mesmo das feridas das pernas. que dava apenas para o universo fechado. para a grande sala. Conseguiram persuadi-lo de que a morte da mulher se devia a um grupo de iroqueses e. Estará ela realmente morta? — Tanto quanto pode . uma expedição de guerra. "Um chefe huroniano foi propor-lhe uma "caldeira". e. para provar a si mesmo. de Gor-restat algo para alimentar-lhe o sofrimento e o desejo de represálias. com algumas baixas. Entrava de mansinho. parecia recuar. Nevou abundantemente. pois.

pelo colarinho alto com o avesso branco arredondado. Chegou a hora do combate". era o Padre de Vernon. estava sentada ao lado da lareira enrolando as tiras de bandagem. daí em diante. com um medo pânico: "Ele vai-se embora!" Mas. Como o inverno era longo! Todavia. Aquela neve salvara-os no outono. E agora ali estava. . mas reconhecera uma vez mais o Padre de Guérande. ao círculo sem fim de um universo sem vida ou ao sopro das tempestades. Amor sublimado. Estava exatamente como o imaginara outrora.regaço. mas. felicitar-se com a marcha do tempo.vestido com uma sotaina preta. mas que lhes permitira prosseguir com alegria e.. evocou sua amizade e aquela forma de amor existente entre eles. que voltava tarde da noite vestido com seu capote preto.. apertando-lhe a cintura magra. amor carnal recusado. e quando receava constantemente vê-lo surgir diante dela. encantadora e dilacerante. com multo cuidado e vigilância. falou de seu amigo mais dileto. Ao vê-lo ficou estupefada. julgara tê-lo visto aparecer. uma vez que não tiveram outra escolha. a qual devia. à imitação do grande Inácio de Loyola. Usara abundantemente aquelas faixas. a aparição inopinada de um deles fizera-a estremecer. amor do coração aceito. sempre em Quebec. Subitamente o Padre d'Orgeval surgiu diante dela. pois. muitas outras vezes. segurando a ponta do crucifixo onde brilhava o rubi. à qual juntara um pouco de cinzas. o largo cinto. ao pé da escada. Mas sempre. Naquela manhã. com a mão colocada sobre o peito. cada dia marcava um avanço. ele lhe pedia para não se emocionar e não interromper sua tarefa. que haviam vivido desde a juventude e durante os longos anos naquela incompletude. por uma silhueta entrevista. Lentamente. Ele permaneceria ao seu lado até a volta da primavera. até que pudesse deixá-los entre amigos. fino. só podia. nos tempos primeiros. E assim. Desejava simplesmente falar com ela. quase elegante em sua toga preta. conferia-lhe uma silhueta quase feminina. abrigando-se por trás de outros porta-vozes. esperando não ter de servir-se deles por um bom tempo. Fosse na pequena casa de Ville d'Avray. Simultaneamente ela pensou: "Como é belo!". e através do qual tinham podido amar com paixão e ternura o resto da humanidade. na penumbra da casa dos jesuítas. fazendo com que para que cada um deles o outro fosse o símbolo do fogo que queima no coração de todos os seres. Havia somente dois ou três pontos ainda que gostaria de esclarecer. sutil. Depois adivinhando seu receio. frequentemente. pensara: "Desta vez é ele!. com um ar espanhol. podia alinhar os rolinhos de tecido branco e deixá-los de reserva no cofre de farmácia. lavadas previamente em água fervente. Ou então. Eosse uma vez Penobscot.. acusador e implacável. Cláudio de Loménie-Chambord. ele se furtara. confundindo-o com outras. dar primazia à procriação. sem deixar-lhe tempo de abrir a boca. Quando se lembrava do estado em que fora deposto na soleira da porta aquele que. com uma espécie de devoção. e várias vezes. porque interdita pela dura Bíblia. quando era seu inimigo declarado. Mas forma inacabada. os caminhos árduos de devotamento e sacrifícios de suas vocações. oriundo do mesmo lar único do amor essencial. obsedada por. Primeiramente. a ajudava agora. uma silhueta negra. uma noite em Quebec — e era simplesmente Joffrey. com paz de coração. delgado. essa imagem. ele afirmou que isso não punha em questão sua presença entre eles. depois: '"Onde arranjou essa sotaina?!" E finalmente. à beira de um bosque — mas não era ele.

. deserto. Pouco a pouco sentiu-se invadida por uma convicção tranquilizadora de que naquela hora podiam dizer um ao outro tudo. e seu coração se rejubilou ao ouvir esse padre de batina preta conceder a seu amor proibido uma espécie de absolvição indireta. pensou em Ruth e Noémia. Ela me feria em todas as defesas que eu edificara para me preservar contra aquilo que eu odiava e que mais me aterrorizava: o Amor. Sensações de arroubos e de arrebatamento jamais experimentados.. deixando em paz meus sentidos. que não desejam ser envolvidos. estavam sozinhos sem outra testemunha a não ser o Criador. Nem desencaminhar. pois aprendi que nada é mais criativo e vitorioso que o amor sincero. e que é tudo para nós. — Soube então que o Amor era um dom de Deus. Quando ele falou do ardor do sentimento que o unira ao Conde de LoménieChambord. enganar. abençoei a Deus por isso.— E ainda — disse. "Foi assim. numa ruptura de todo o ser. dizendo: 'Ele ficou louco.. A loucura de Babel agitava-se para além das fronteiras visíveis.. No momento. O desmoronamento de toda a sua vida. Renunciar a meus melhores amigos. o Amor. Estavam sozinhos no mundo. tratava-se realmente do Padre Sebastião d'Orgeval ali à sua frente. Aquele dia em que. Ela o escutava atentamente.. acabava de compreender que o Amor. ao lago de Moxie. No entanto. de tê-lo ignorado. o Amor. Ensinam-nos em nosso noviciado a dominar pela sublimação esses desejos imperiosos. e reconheço que esse puro e terno amor que eu nutria por meu irmão predileto me preservou do peso da solidão e da aridez do coração e preencheu por muito tempo meu ser afétivo. Mas era demais. Eu me obstinei. decepcioná-los. ferir. "Achara minha jogada.. muito culpado. A ideia da Diaba anunciada atravessou-me o espírito e foi-me difícil refrear um grito de vitória. que eu confundia com concupiscência. Consequência da revelação. Num mundo destruído. ninguém podia recolhê-las para distorcê-las e transformá-las em armas mortíferas. prosseguindo um discurso que devia ter repetido amiúde a si mesmo — eu me pergunto atualmente se não teria sido melhor para a glória de Deus que não nos tivéssemos separado de forma alguma. fazer inimigos que destruíssem suas vidas e a dos seus entes queridos. podia ser o caminho do sagrado. "Aquilo que eu entrevira era muito louco. Eu desfaleci. e que eu fora culpado. dando involuntariamente uma suavidade ritual àqueles gestos simples dos afazeres cotidianos que acalentam a vida. Não precisavam recear nem ser compreendidos.' A Mulher. já que ele o pedira. decepcionar. Procurava retomar pé em meu universo familiar. dizendo que devia voltar àquele dia de outono. Talvez porque não visse como materializar a revelação. Voltei a mim tomado pela confusão e também pelo terror. Ninguém podia ouvir suas palavras. Eu era um mestre nisso. e o amor carnal também. Tomou novamente a palavra. noção ignorada e que vinha me tocar com sua luz. que vinha me revelar o inverso oculto de seu mistério e ensinar-me que a força de um tal sentimento podia dar a todo indivíduo a sensação de existir na terra. mas com mais lentidão. enquanto continuava a enrolar as tiras. "Censurava a meu corpo estar implicado nesta revelação. a . inacessível. desmantelamento dos quadros que a sustinham. Não quis reconhecer a Luz. Apontavam-me com o dedo. Quanto a eles.

o homem a quem ela pertencia. a fim de poder encontrar razões para pensar nele. uma caravana.. por uma verdade entrevista.... em virtude de uma injustiça intolerável. assustados por monstros.. sem nada esperar em troca. O que eu esperava daquele instante em que ela estaria diante de mim.. estava apavorado. quis sua morte para extirpar aquilo que me corroía. eu entrevira os cavalos dos homens no sobosque.. Não assegurou-lhe.. "Soube-o no dia em que deixei de ter a consciência pura dian-:e dos meus atos. Não ria!. na guerra.." Falou em seguida sobre o rancor e o ciúme devorador que sentira pelo outro. "Esse amor. Essa confissão era mais difícil. de perseguições quê fomentava contra vocês. Teria desejado que ele desmerecesse esse amor.. pois ele começava a conhecer melhor Angélica e sabia que.. de vingança. naquele lugarejo de puritanos na colina. de captura. não quisera matar. que eu não era o único a decidir esse duelo. Mas ela não foi.. Adivinhara quem era minha aparição. é então que começa a culpa. a ele. e gritava: 'Tragam-na até aqui!' Estava certo de atingir o objetivo.liberdade da consciência. que eu chamava de ódio.. tudo entrava nos eixos. Mas isso não muda nada. "Mas quando se vê claro. a fim de justificar a obsessão de meus pensamentos. quebrar sua insolente aptidão para viver. aviltar aquilo que não merecia triunfar. "Acreditava que era para destruir os inimigos de Deus. Vibrava.. era mais sensível quando se tratava daquele a quem adorava. destruir. . se conseguia acolher com uma fronte serena o anúncio de que ele quisera sua morte. Era muito tarde para mim. cercados por neblinas. — Ele sabia tudo — atalhou ele —. rígido.. procuro desculpas.."para cumprir minha missão. Quando era criança. Não as tenho. nasciam sob o aguilhão de uma atração à qual eu recusava dar um nome. "Sinto-me criminoso por fêf continuado a viver dando àquilo que realizava aparências de açóes virtuosas. não? — tentou protestar Angélica. de cruzadas.. Falava de campanhas de guerra. levamos anos para compreender que não passam de espantalhos de palha e de madeira morta. mas tão convencido de servir a Deus e de que Ele me perdoaria esses crimes.. Meu corpo estava formado. Eu acreditava querer abater. sabia que você estava lá. Teria desejado afastá-lo. Deixar tudo. e não sabia com que impaciência. seu amor. apagar.. no poder. era também amado por ela.. "Nós nascemos cegos. "Todos os projetos de derrotas. seu amante. e estava obsedado por uma única coisa: aproximar-se disso. seu esposo. "Louco. Podia continuar minha guerra. o homem que a possuía e que.. vencida.. E Piksarett desapareceu com você!. Eu começava a compreender que o duelo tinha mais importância do que eu lhe queria atribuir.. "Quando subi para o assalto de Newchevanik. Portanto. Teria desejado ver sua soberba diminuir.. "E como circunstância agravante. partia para massacrar os protestantes com minha grande espada. que na realidade ocultava todas as loucuras de um sentimento amoroso. forjado no poder sobre os seres. prisioneira?. Sim. e eu não conseguia suportar isso. como você vê.. crendo que em seguida reencontraria minha alma. depois de Brunswick Falis. — Não julga que a vida sempre lhe foi fácil.. e seu desfecho.

E no entanto. Ele achou-lhe uma graça -infinita e fechou os olhos." Calou-se. "Comecei a invejá-lo por não ter moralidade. Era preciso desembaraçar esses acontecimentos do engano das aparências: Eu não combatia por Deus e vocês ?ião eram Seus inimigos. Tinha medo de compreendê-lo. mas segundo o Plano. "E uma coisa terrível descobrir o erro que se cometeu e a amplitude das armadilhas nas quais se caiu. Percebeu que a deixara nervosa. — Padre d'Orgeval. Ele que andava pelo Caminho da Verdade. Entretanto. Com as mãos sobre os joelhos. arrebatá-la. — Por que a vestiu hoje? — Para confissões difíceis às vezes é necessário uma armadura. os novos olhares e onde se preparam as transformações das gerações. o que se liga ao êxtase divino... Ateu. maravilhá-la. ela o olhava. ela disse: — Onde arranjou essa sotaina en perfeito estado? Pensei ter feito em pedaços aquela que você usava quando chegou! — Tomei-a emprestada aos missionários de São José. colocando-as cuidadosamente uma após outra no escabelo ao lado. Estou tranquilo e seguro de mim mesmo. após um longo silêncio meditativo. o que pensa a esse respeito? — Que Deus acolhe todas as vias que exaltam Sua grandeza e celebram Sua bondade. aquele Conde de Peyrac. tudo e tão lento na terra. "Tudo aconteceu alhures. Ele foi aquele designado para satisfazê-la. libertino. lá onde se abrem. pensara muitas vezes. e jamais se perturbara com as leis. para sempre.Como era afortunado. E melhor continuar a acreditar que somos um dos eleitos. tudo era imponderável. eu o sentia justo... fora amado por ela. o verdadeiro. pisava em todos os preceitos. Mas que ela não falaria. ela disse: — Posso fazer-lhe uma pergunta? E como ele aquiecesse com um movimento da cabeça. nem servidão e vassalagem de qualquer espécie para com ninguém. Não apenas descobrira o Amor. ensiná-la. entre os justos. nem o amor. zombava da Igreja e de suas instituições — seu processo não fora provocado pelas queixas do bispo de Toulouse? — Eu via que. Isso também eu tive de enfrentar. Tendo obtido a mais bela das mulheres." — E agora. "Aquele fidalgo de aventuras.. Mas. e tinha havido muitas palavras.. Não é um comediante nato? . Eis o que eu queria confessar-lhe para que o passado não deixe subsistir equívocos e amarguras entres nós.. com efeito. Um leve sorriso brincava-lhe no canto dos lábios. aquele homem pelo qual ela estava tão perdidamente apaixonada e que não havia recusado nem a carne. Por que ele e não eu?. merecia tanto? Eu o maldizia. Moliere. Angélica acabara de enrolar as faixas. ele havia coroado essa existência culposa pela descoberta das mais elevadas e embriagadoras alegrias. Pois. em contrapartida a tantas transgressões efetuadas com desenvoltura e sem se preocupar com o escândalo. às vezes me pergunto se seu erro inicial não teria sido entrar para os jesuítas em vez de se apresentar ao grupo do Sr.'mas fora correspondido. apesar de perdido diante dos meus. porque andava no caminho de sua verdade.. nem apegos. Era ele quem tinha razão. É preferível ficar cego a compreender que a luz da Verdade não nos é concedida segundo nossos méritos.

como os velhos tiranos loucos. num clima de confiança e de familiaridade novas. isso era muito relativo.. a cidade. E não seria viver com os índios.do furacão. Seu instinto gregário os impele a pôr em comum todos os bens e serviços de que têm necessidade para sustentar esta mísera vida que uma côdea de pão e um vizinho caridoso podem salvar da morte. refúgio dos homens. Oprimidos pelo eterno silêncio.. estertores. que provavelmente também tinha trazido da missão. como ele dissera. e não lhe será difícil conservar um pé em cada porto. esforçavam-se em vão por perceber aquele ruído ténue. era. — Nem por isso esses deslocamento e essa mudança cortarão os elos que vocês já estabeleceram com o Novo Mundo. Em vão se voltavam para as árvores mais próximas para ouvir o apelo aflautado. Os períodos de dias mais tépidos surgiam entre duas tempestades.cansativa. Pois você não ignora que a educação dos jesuítas atribui muita importância ao teatro. pois. aquele ruído das águas que recomeçam a murmurar nas profundezas dos bosques. Só quem não conheceu o deserto branco do inverno nas re-giãos incivilizadas pode se queixar das cidades. obrigando-os a se encerrar em casa. que são comediantes natos. Os homens têm muita razão de construir cidades. que iria curar-me disso.. Sebastião d'Orgeval encorajava-a a fazer projetos no sentido de uma volta à Europa. É preciso ter gosto pela declamação e pela tragédia para pregar. mas que se denomina "o pássaro da primavera" e que teria prefigurado para eles a pomba da Arca. Durante as breves saídas que se permitiam fazer. mesmo com Abigail. . Mas quando se falava em tepidez. CAPITULO XXXII Um aspecto do espírito de Joffrey de Peyrac — Sonhos de regresso à Europa A seguir. Podia falar-lhe de Joffrey. quando falavam. Deu-se conta de que nunca tivera oportunidade de falar a respeito dele ede seu amor. O frio continuava forte e trazia incessantemente pesadas nuvens fustigadas de neve. em atrelagens conduzidas por um vento único que conhecia seus caminhos e só tinha uma finalidade: devastar a terra até o osso. reunidos novamente no único quarto. O sr. de Nova York a Quebec. subindo gradualmente para os desencadeamentos ordenados da tempestade. sabiam que ainda não estavam a salvo de um despertar de suas forças numa derradeira cnse. Algumas vezes viu-o lendo um missal. de Peyrac é tão hábil quanto os novos ingleses em singrar os mares com seus navios. falavam das cidades longínquas que reveriam um dia. se discerniam um imperceptível abrandamento nas violências.— Sempre fui. No colégio fiz todos os grandes papéis dos heróis da Antiguidade. Ele a escutava avidamente. estridente do pássaro que nunca se vê. durante a qual destruiria ludo. um pouco"." Velha harmonia. que caíam como cataratas ou turbilho-navam com agitação. Daí em diante. a impassibilidade de uma paisagem onde ainda se lia a morte de todas as coisas. uivos. junto ao único fogo que devia ser mantido com sentimentos mesclados de simpatia e de receio pelo que bramia acima de suas cabeças. um pouco desgastada. Assobios. Companhia familiar que escutavam. do mesmo modo que sempre fez em todo o resto do mundo. guardou cuidadosamente a sotaina "emprestada" e recolocou o crucifixo sobre o batente da lareira do quarto de Angélica.

e pode-se agradecer aos céus por isso. cuja espécie lhe era tão contrária. fora do círculo. "Quanto reconhecimento não devemos ter nós. tudo seria mais fácil e principalmente mais divertido. não deixá-lo sozinho no meio daquela fauna absurda e fútil. ainda que numa única lareira do mundo. riem. Receava ainda um último e sorrateiro golpe do destino. era a beleza de Versalhes que lhe aparecia. É a honra de nossa estrela Terra manter assim sem descanso. Agora que Jof-frey entrara em contato com o rei. Se seu esposo não tivesse podido acompanhar o Sr. Ela evocou a corte. — Dá para imaginar que em algurfia parte existem palácios onde se dança. das guerras. perdidos em nossa geena. o que é pior. Do lado de fora. os encantos de Versalhes e o que ali havia de excelente e que tão poucos apreciavam no trato com o soberano. colhidas nos jardins do rei? — Sim. segurando com as duas mãos enormes e deliciosas frutas. A dois. em alguns pontos. como o rei. o destino das colónias não se resolveria apenas por aqueles que ali se encontravam. um planeta deserto e congelado. paz e riqueza. naqueles dias em que toda visão se adorna com um véu de clemência. se conseguir descer o rio Mississipi. dá para imaginar — dizia ele —. ébria de todos os prazeres. que existam banquetes onde se podem degustar. É preciso fazer ainda mais por ele. então seria realmente o fim do mundo. poderiam desfrutar. continuam a procurar e a criar todas as formas de Beleza para encantar os olhos e os espíritos! "Pois isso significa que o fogo continua a crepitar. neste momento. E preciso que ele volte ao Canadá. Não havia saída. ou. e quem sabe?. O Sr. a todas as formas de arte. aos olhos de Angélica. de La Salle não tardará a ir plantar o estandarte do rei da França no Illinois. dançam. Se a vida se extinguisse em toda parte. ingleses ou franceses. e as guerras que delas decorrem. e quem mais que ela podia saber disso? No entanto. — A bússola está lá — dizia. Pois o novo governador é um louco. ou seus partidários. — E no entanto — disse Angélica — é mais difícil voltar com confiança a um lugar onde se sofreu do que fazer ali suas primeiras armas. — Versalhes governa os destinos desses povos até os confins dos vales mais desconhecidos e menos visitados. até no golfo do México. se em toda parte só houvesse miséria. até sua embocadura. — Veja que é de Versalhes que se decidem as partilhas. não sem razão. Os espanhóis não reagirão. E. de preferência às intrigas sortidas que circulavam nas estranhas do palácio. absolvia Luís XIV. onde se deleitam com músicas celestes. para com aqueles que. um louco imbecil. Quando voltava desses desvaneios. as intrigas fomentadas contra ele teriam conduzido nosso melhor governador à Bastilha. vivos.Em sua opinião. — E a Nova Inglaterra ficará cercada. de uma selva perigosa. entre . dos massacres perpetrados de ambas as partes. o que. e que há esperança para nós de vir um dia também a sentar-nos. Miúdas expedições de formigas roem os espaços. Era o culto que o rei prestava à Beleza. Ele falara. que já se tornara infernal. de Frontenac. cumprira sua missão diplomática. Mas ela sentia forças vivas prontas a se erguer. mas também o Templo do Beleza. onde se fazem rega-bofes de patês tão grandes que uma criança disfarçada em Amor pode ali se esconder para surgir sob os aplausos de uma corte coberta de pérolas e fitas. o Pai das Águas. o peso do silêncio e a rudeza do cenário que reencontrava eram difíceis de superar. fogo. teria desejado estar perto dele. sem distinção de vítimas. índios ou brancos. A corte era uma selva. A dois. das campanhas de represálias.

móveis. Nós nos reencontraremos na paz e falaremos juntos". lava incandescente que escapa ao vulcão divino. nossas alegrias e ardores. carruagens. — Talvez até demais — acrescentou. meu amor. "Certamente. de Peyrac não perdesse suas forças inquietando-se com a sorte de sua família. belas parelhas. Cada vez mais ela acreditava ouvi-lo quanto o jesuíta se exprimia. tudo estará pronto e não faltará nada. repugnava expor atualmente em voz alta o fundo de seu pensamento. meu caro diretor de consciência. seda. dentre a multidão de pensamentos que fermentavam no cérebro genial do senhor da Aquitânia. que havia perdido sua voz no átrio de Norte-Dame quando ali o arrastaram com uma corda no pescoço. — Pode estar certo — dizia-lhe ela —. Tudo seria conduzido magistralmente. de Peyrac faria mais para o bem dos povos e dos continentes do que tentando lançar-se em socorro dos seus. o Sr. E conquistando-o. que carrega nossos êxtases e arrebatamentos. E com ela que devemos iluminar nossos sonhos e ambições. crimes e torpezas. Com a diferença de que ao Trovador do Languedoc. Mas a vaga de ouro e de pedrarias dos esplendores da vida. Seu imenso poder de concentração não deixava de criar nos corações ciumentos uma impressão de abandono. é poderosa. as teorias que enunciava. Ser-lhe-á preciso uma numerosa criadagem devotada. Sebastião d'Orgeval estava convencido disso. que Joffrey não teria hesitado em lançar e desenvolver com brilho e ardor nas cortes antigas da Arte de amar. belos quadros. de Peycrac devia também preparar com o maior cuidado sua instalação no reino da França. — Você não pode vir a sofrer. eram exatamente aquelas.os que estendem suas mãos a essas chamas revigorantes e partilhar com eles o festim. Mas o que ele enunciava por sua conduta causara transtornos mais importantes que seus discursos. Em várias oportunidades o Padre d'Orgeval repetiu que desejava que o Sr. Ela se divertia quando este insistia em que o Sr. que nos arrasta. nenhum adereço. com uma ponta de censura. nada que possa devolver-me o gosto pela existência e me ajudar a encontrar o esquecimento daquilo que perdi. por exemplo. a vaga de lama. O importante era o rei. Aprendera a calar-se. Ela afirmou-lhe que sempre vira Joffrey consagrar-se a uma tarefa sem se deixar distrair no momento por nada. e sobretudo por falsos alarmas. No momento. ricas tapeçarias. Se meu esposo desejar meu retorno à Europa e decidir ali esperar-me. era o rei. Pois sentia que as palavras que ele empregava. Tudo é permitido à esperança. ausência de preocupações domésticas. se dirigia ao género feminino. Ela pensava baixinho: "Eu o compreendo. — Estou aqui para velar por vocês." Dir-se-ia que havia nele um aspecto do espírito de Joffrey. O FIM DO INVERNO CAPÍTULO XXXIII . eficaz. veludo para vos vestir. objetos jdeestima. e ela sempre se inquietara quando seu interesse. Seu coração ansiava por Joffrey. tem também sua força irresistível. qualquer desconforto! Deve poder aproveitar todos os prazeres que sua fortuna lhe permite e que a capital do reino coloca à' sua disposição. se se sabe que num só ponto o fogo permanece. Nenhum bibelô. Nas paredes de seus palacetes e de suas residências campestres. jóias para vos ornamentar.

A face oculta de Deus — Rei e rainha da Criação. inverno e verão. de uma linha de cristas a outra. Havia abundância de munições. ou então pertencer a um contingente de guerra iroquês em expedição para o litoral. o Atlântico e o SaintLaurent. estriada de falhas profundas intransponíveis numa extensão de léguas.. de Gorrestat e seu exército retomariam a campanha contra os iroqueses. Ele trará consigo todos os sobreviventes. Cercarão os povoados e os queimarão. — Ela já não me interessa. Ele conhecia de cor todos os segredos da imensa região de rochedos e de brenhas de florestas selvagens. com zombaria. Eles reaparecerão. não haviam sofrido danos. Mas não dizia mais nada. Os próprios povos nómades não se agrupavam ali. . Opôs a sua instância um rosto subitamente sombrio. atravessando-o. ou que conhecem os bloqueios secretos dos precipícios ou os entrançados misteriosos de pistas antigas.. na complicação e no visco de sua teia. Seja.. com um gesto indicando apagamento. Assim que seus perseguidores tiverem se retirado. mergulhado em profundas reflexões. — Por onde eles passarão? — Creio que sei. — Quero dizer que terão se tornado invisíveis.. intrigada. sim. rios e lagos ficassem livres dos gelos. não longe daqui. Assim que o degelo começasse e os riachos. Pois eles terão desaparecido da face da terra. uma teia de aranha. O mais isolado anacoreta pertence. Um deserto. Mas ele apenas sorriu. penso que deve haver uma explicação material que você vai dar-me. uma teia de aranha. Utakê escapará uma vez mais.. Pode ser que seja o fim dos iroqueses.. de Peyrac. Bem cuidadas. envoltas em panos impregnados de óleo. E como ela esperasse a continuação. ele consentiu em dizer algo mais. Não me sinto feito para ser ermitão. eles ressurgirão na face"da terra e. — Não nego o maravilhoso em muitos fenómenos. e creio que você tem razão. Ele conservava a lembrança daquilo que surpreendera na Missão de São José. Era uma loucura ter trazido para ali cavalos. — Para que vida?. e que "podia tornar-se invisível? Entretanto. Era uma utopia da parte do Sr. o Sr.. que um dia se coriseguiria unir o norte e o sul.. O fim do inverno representava a volta dos homens. Mai-ne ou Acádia. também não disseram que você voava pelos ares?!. mas. incivilizável. meu padre. até em sua solidão. empolada de montanhas em vagas sucessivas que lhe barravam o acesso. ter julgado que se poderia um dia abrir estradas nesse lugar. cavada per lagos. Padre d'Orgeval. Inutilmente os perseguirão. que só podia se abrir para alguns loucos que saltam as corredeiras. nesse. — Eles estão em prontidão no lugar. lançava ele. conforme as bandeiras.. — O que quer dizer com isso? — Terão desaparecido! — repetiu.. anjos entre flores de luz Surpreendeu-o examinando as armas. Mas eu os conheço. e não longe daqui. Dois terços da França. Pois era um trecho de deserto impenetrável. Tenho uma opinião sobre isso. é preciso fugir. Para que existência? Para que obra? — Sua vida. — Não quero dizer que estarão mortos. inextricável. se está persuadido de que vão surgir. — Então. Era preciso ser canadense ou abenaki para arriscar-se nesses lugares. Dela só posso esperar perambu-lações solitárias. e que se chamava.

— Não — afirmou ele. — Utakê me disse: "Eu voltarei. — Seja. — Alguns capuchinhos eremitas encontraram um lugar para erguer seu oratório lá pelos lados do rio Saint-Jean ou do istmo de Chignecto. Conheço um deles. E o que me trará a primavera.. tentando sorrir e amenizar as palavras. seus quacrés. Mas. e por sua influência. — Assim que a primavera chegar — dizia ele —. que teria de enfrentar. Há cartuxas. mais ainda que os cátaros.. em seu íntimo.. esta terra que não se recusava a reflorir da nudez e das devastações do inverno. Existe uma energia irresistível em recomeçar tudo. Ora. Minha América. seus "pobres de Lyon". que já governa a metade da Europa e uma parte do Novo Mundo. O rei está a seus pés. a pior seita francesa. Por isso. as sendas cortadas. minha cara. Sentia-se tentado. No Dauphiné. os tetos arruinados. Apenas alguns dias no. estaremos ligados a você. quanto trabalho para limpar o lugar! Contando as barreiras quebradas.. Mesmo no fundo dos desertos. você sabe! — disse ela.. os objetos perdidos que a neve levada pelos ares nos devolve. você deixará que o salve? Ouvirá meus conselhos. eles não estão todos mortos. que lhe recomendam afastar-se a tempo? O jesuíta desviou os olhos e sacudiu docemente a cabeça. esses val-denses de que falam como que do Diabo em nossas montanhas. Não o abandonaremos. Menos pela perspectivas dessa existência.. Você haverá de encontrá-los e ainda salvá-los. pois nenhuma luz poderia substituir a vocação religiosa que queimara por tanto tempo. vendo a terra renascer por sinais invisíveis. Seus heréditos de todo género. O eremita liga-se a seus irmãos de espécie. em que os mergulhavam o frio e a obscuridade ainda reinantes. Não existe mais comunidade para mim. Mas não são a América.. apesar de tudo vazia. . onde estiver. Você deve isso a mim. e os corpos. Ele sorria vendo que suas palavras atingiam seu objetivo e que o ardor que já lhe inspirava a perspectiva de se debater pela salvação de seus amigos punha-lhe nas faces uma cor rosada. então. você poderá agir e fazer o bem. grutas junto a águas murmurantes. você verá.. Aqueles que. encorajavam-se mutuamente a emergir da inércia da morte. que é o Estado católico das possessões inglesas. medita sobre as mesmas verdades. abadias. não é? — Quantos corpos terei"de contar? Terá ficado algum sob os escombros de Wapassu?. Existem belos valezinhos que incitam à oração. por exemplo.. prometi a mim mesmo comer seu coração. mais do que pelas armas.. ouviram o apelo do deserto. que estou dizendo? O cetro do rei está em suas mãos. Adivinhando. nos dias que passavam. que professam o gosto da mesma austeridade e sobretudo das mesmas disciplinas místicas. Toga Negra". do que por esse medo diante da ideia de cair novamente nas mãos do iroquês.." seus lolardos ingleses. O soberano. como ele.. Existem lugares muito bons desse tipo. E disseram-me que havia monges procurando refúgio em Maryland. dirige orações ao mesmo Deus. a escuta. o afrouxamento do círculo de gelo do inverno. sobre os quais você fala com tanta ternura: seus hu-guenotes. Tomei consciência disso em nossas palestras. — Oh! eu sei. A França é rica desses lugares de recolhimento. — Nada de mortos. — Você pode tudo.s separam da salvação: a primavera.a uma comunidade escolhida por ele. De qualquer maneira.. a imitar a corajosa e constante Mãe do género humano.. você deve superar sua fadiga e sarar. que Angélica sabia ainda existir e que o encorajava a partir para outros lugares. — Seremos sua comunidade.

. Ocorreu então a Angélica que era preciso reter aquelas horas. parar de se atormentar para desfrutar-lhes a riqueza e o encanto. e às criaturas frágeis também. que seriam as horas derradeiras do inverno. Não tema nada. nem por ninguém. — Elas sobreviverão — dizia ele —. seu feixe. — Não fique o tempo todo pensando em me mandar embora. Duas vezes!. — Sinto-me melhor agora. Toga Negra. Mais longe. às vezes. de suas experiências entre as tribos. Utakê sabe o que diz quando me avisa: "Quero comer seu coração". Fuja! Vá para a baía Francesa. Condena aqueles que se recusam a seguir sua torrente imperiosa. Mas "eles têm olhos e não vêem. mas pelo encontro dos elementos mais fortes que existem nelas com o que há de mais forte em nós. pois sua voz é a própria voz da Criação. Escondê-lo-ei num lugar seguro. por mais humildes'que sejam. um lento partejar. Todos os espíritos são seus depositários. Sare! Sarará mais depressa se não se atormentar nem por mim. A noite ainda era profunda. Prometo-lhe. como ele lhe recomendava. Encontrar-lhe-ei um refúgio. pode recusá-la. Você mesmo dizia que não se deve tentar compreendê-los. Depois de realizados os trabalhos do dia. Ele tinha razão. e recomeçavam a falar casualmente e depois a conversar mais demoradamente. sempre mais longe. Por trás desta palavra. falando sobretudo da sua vida de missionário. Ela sabe o que faz. nenhuma ideologia. Nós o encontraremos. até nós. Aqueles que não querem ouvir desaparecerão. "Povos desaparecem por ter recusado o avanço. elas se prolongarão...que não consome. A estação das tempestades e das quedas de neve ainda não se encerrou. Cada um contribui com seu raminho. o jesuíta sentava-se diante do fogo. Ele voltava menos ao passado. uma lenta encarnação do poder divino que se encontra instilado. Cruelmente. pois essa força é cega e irresistível. e. — Não! Não! Uma vez!. a Criação é um lento nascimento. algodoada de neve caindo ou zebrada de rajadas fustigantes. Não~o sabemos.. por se igualarem a opiniões tão grandiosas. Nenhum povo. Os homens podem chegar à destruição. — E no entanto todos os ouvidos humanos podem ser abertos para ouvi-las. Não veio do outro lado do oceano. insuflado nas maravilhas do mundo. como essas crianças pequenas. para esse grande fogo. Já basta! Você pagou seu tributo a sua vocação. — Não posso deixá-la sozinha com as crianças. A noite de inverno que torna os dias tão curtos. que se deixara transportar por sua eloquência e que subitamente se reencontrava em sua pobre cabana —. Angélica ficava na cama com as crianças e seus brinquedos. nem perder a razão seguindo os meandros de seus pensamentos. Não é por mim que receio. reduzindo-os certas vezes a uma cinzenta travessia de algumas horas. a . jamais à destruição completa antes da hora. "A natureza esmaga aqueles que se opõem à sua marcha. Ora.— Loucura! Não se deixe levar pela loucura dos selvagens. mas engendra. — Utakê me disse: "Você deve isso a mim. Parta sem demora. Eles fêm ouvidos e não ouvem". Saberei avaliar o momento de me afastar tranquilamente. Julgamo-nos senhores dela." — Um fogo também o atingirá se pronunciar tais palavras no púlpito — disse Angélica. A evolução da Criação é nosso dever. Angélica não protestou mais. E o completamento da Criação que perseguimos. para isso}" Ela protestou com ardor.

por natureza!. ao domínio do sonho e da visão. Sua força de mulher e de mãe amorosa. Eles riam.. transportá-las para fora de si mesmas. Ouvia-o andando de lá para cá no posto. não vêem que se oculta a face de Deus. Para escorar.. Viera como um anjo. mas porque. Levantava-se diante do fogo e olhava a seus pés como se contemplasse do alto do púlpito uma assistência ocupando a nave de uma igreja. o círculo dos olhares-juízes que não cessam de pesar sobre cada membro de uma sociedade. render sua força de mulher que enfraquecia. O desaparecimento da vida em torno deles transformara-os em rei e rainha da Criação. cheios de desenvoltura.. A solidão de seu estado e o excesso de sofrimentos padecidos fizeram recuar. Eis por que eu a amo. Eles não querem saber. O severo jejum ao qual estavam. é arrastado. E se eu digo Deus. imperativa. O tom de brincadeira e de comédia que adotavam e os risos que não conseguiam refrear faziam com que as crianças prestassem atenção a suas palavras. mas pouco lhes importam as palavras que lhe caem dos lábios. dirigindo os grandes olhos para um e para o outro. Com que cuidado. em relação a soberanos que dirigiam o mundo. força que devia se ligar. e levantam o nariz para ouvir o pregador. Talvez seja por isso que o Espírito Maligno se preocupou tanto em ocultarlhes a verdade. — Olhe-as — murmurava ele —. encarregada de manter com vida as crianças pequenas. Abandonados num astro morto. pelo menos. na qual o acaso o fez nascer. sentados. ela é vasta e vazia e o futurp lhe está aberto. Elas ficavam imóveis e boquiabertas. não é. dominadora. Não se pode abrir-lhes o horizonte. — Não. "Entretanto. sobretudo de pensar. não o conceberão a imensa aventura dos mundos à qual cada homem. por intermédio de revelações pessoais. — Eles estão lá. O que os cativa são suas pequenas preocupações. até apagá-lo.em bancos de madeira. tratando-as como marionetes no pequeno teatro de seus colóquios. penetrei no caminho de um segredo natural. mas também a pequena Honorina perdida entre os iroqueses. Ele é estreito demais. a essas curiosas. Mas. como são belas! São flores de luz. não é sequer porque Deus me concede uma graça ou por ter recebido um dom.. o que vai acontecer. de adivinhações pessoais. liberava-lhes o espírito tal como uma leve embriaguez. nos tronos. Não o verão. apesar de tudo. sentiam-se. Divertiam-se tratando assim com impertinência as personagens bíblicas. com toda a humanidade. falando com as crianças. cortando lenha. Antes mais audaciosa já e sem temor a Deus. Nela se descobrem mais facilmente os segredos enterrados. Era como a presença de um anjo.. não o compreenderão." — Foi a punição de Eva. seus pequenos negócios. as mulheres são mais aptas que os homens a apreender os mistérios ocultos. Verão seu ídolo. e já aturdida e indisciplinada por natureza. podendose dizer que as palavras mais abstratas tinham o poder de mergulhá-las em êxtase.. Do mesmo modo. como que por um fio de prata... ela é muito vazia e muito vasta para ouvir e compreender o que acontece. E mesmo a América. podiam olhar do alto os poderosos da Terra.Natureza. Uns falam de milagres e outros falarão de ciências!. submetidos. eles estão lá. à de . inelutável. com que malícia impediu-as de agir. Se eu posso desdobrar meu corpo e se ele permanece aparentemente mergulhado no sono enquanto meu espírito viaja e vê esse corpo pesado elevá-lo acima da terra e deslocálo. ávida de conhecimento. em cadeiras de palha ou em banquetas de tapeçaria de cetim.

A ideia de atravessar o oceano para consegui-lo cessara de parecer-lhe insuperável. ao qual se sucedia o frio glacial das noites. e. Marcelina certamente estava viva e. sob a beira do telhado que está começando a gotejar. fora cuidar dela. Sua força seria a sua. o autorizassem à dizer: "Ergamos aqui nossa tenda. na última noite na costa Leste. como estavam naquela época. que lutava.. Que teto abrigaria tão numerosa família? Que província seria seu feudo? Pouco importava!. Querubim. e depois embarcariam. seu conhecimento dos homens. a Bela. E também o pequeno Carlos Henrique e todas as crianças. e em quantas partilhas. se soergueu e se adornou com todas as suas cores. tão reduzidos! Nem todo o ouro do mundo pode resgatar a impotência na qual o çojocam muitas vezes as escolhas de suas lutas ou de seus mandatos. refúgio. o conde-cavaleiro. acompanhada de lolanda e de Querubim. como com um sangue novo subindo-lhe ao rosto. dizendo: — A primeira flor! Segurava entre o polegar roído e o dedo médio truncado um açafrão rosa. sob efeito do calor do dia. em palavras febris e apaixonadas. Cantor. o invencível. Aqui podemos viver em paz ainda um tempo de nossa vida". Honorina.. sem dúvida nenhuma. e isso lhe lembrava o tempo da costa Leste. Angélica pensava em Cantor. apesar de sua coragem sem limites. tudo ia ordenar-se espontaneamente. se encontrava acuado. Ela abrira caminho na sombra e no gelo. seus meios. por eles. Sua constância sustentaria a sua. de rever os filhos. de reunir todos os seus à sua volta. avaliando como aquele homem estava investido de encargos. Somente o Espírito pode multiplicar a força. Tossia. Deixou a flor junto dela. todos. era preciso reconhecer que as intervenções do céu para sua salvaguarda tomavam as mais irnprevisíveis formas e rostos. "Mãe. e. Ho-norina se juntaria a eles em Gouldsboro. Ela compreendia o que ele quisera dizer-lhe. perto de Joffrey. abrigo. todos os jovens que tivessem necessidade de ajuda. teve uma recaída. força de todos eles. . Joffrey de Peyrac. num jarrinho de água.. — Encontrei-a ao virar uma placa de gelo. CAPITULO XXXIV A primeira flor da primavera Ele entreabriu a porta cautelosamente. quando Marcelina. de socorro para iniciar o périplo de sua existência em meio às emboscadas deste século. Onde Joffrey dissesse: "Fiquemos!". Ele não passa de um ponto mínimo no universo. levemente esverdeada. lolanda também. Ela não parara de tossir. com o cálice aberto sobre pistilos dourados e ornado por algumas folhinhas em feixes verdeclaros. Uma vez aceito isso. o defensor. quando a apertava nos braços. sob sua asa. e depois. após alguns instantes em contato com o ar e com o sol. e todos se reencontrariam: Florimond. a primeira flor!" Teve uma súbita vontade de revê-lo. Sua voz sob a janela no fim da invernada. o indómito.desde a última doença. ao longe. onde sua prudente experiência. Como a vinda das flores. no qual cada um combateria no torreão que devia guardar. da trama de suas alianças. Raimundo Rogério e Gloriandra.Joffrey. era de uma brancura de alface. portanto. dizia consigo. Mas as forças do homem mais4orte são tão fracas. Mesmo Joffrey. Era apenas um inverno.

Um vento forte se ergueu. bruma com uma água de pérola arrastando-se com as aparências desses vapores de calor que se vêem no verão. Mas é em vão. Veriam diminuir. Mas. sob uma luz translúcida que parecia brotar de todas as direções. descobria-se que essa neve que não havia caído pulverizava o fundo já verdejante dos vales. A primavera sempre volta. como no milagre do óleo santo do templo ou no dos pães e peixes do Evangelho. mas também a volta dos homens. Mas ouviu as crianças se agitarem e se queixarem em seu sono. cintilante de mil fogos. Sebastião d'Orgeval mostrou-lhes ao longe a mesma bruma dourada. e poderemos nos encontrar!" Gelo. infiltrando-se como um elemento espesso que tivesse preparado uma temperatura polar. — Ela sabia melhor que nós que o inverno ainda não acabou. A neve derreteria depressa."Joffrey! Joffrey!. Acendeu o fogo em todas as lareiras do fortim. pois ele tinha sempre a mesma maneira furtiva de se deslocar como os felinos ou os índios — ir e vir para vigiar as lareiras e subir à plataforma. de colher dente-de-leão e comer nossa primeira salada. e a superfície opaca do lago que ela percebera como um espelho sem polimento. esse ruído distante nas florestas proveniente do murmúrio das águas liberadas. Isso não nos impedirá. a fim de se certificar de que as chaminés estavam puxando na medida certa. Ilusão. trouxe seixos enrolados em flanela com que os cercou e fez Angélica tomar uma bebida qilente. da qual parecia ter guardado de sua expedição à Missão de São José uma reserva inesgotável e que se renovava incessantemente. Essa flor. Ele tinha hábitos de celibatário. explicou-lhe. no seio de uma paisagem de cristal. que deixava escoar lágrimas de alegria.stá longe. — Ele luta ainda. não quis que renunciassem à saída cotidiana. — O Pai Inverno não quer ceder. Mas isso não significa nada. Permaneceram imóveis. Colheram dentes-de-leão. essa franja de espuma à beira do telhado. e ela o ouviu o resto da noite — ou melhor. colocando-as de lado para secar. Angélica recomendou que se raspassem as raízes. e as próprias crianças desistiram de debater-se. da qual só se tomaria consciência sob seu efeito paralisante e mortal. que haviam recomeçado a respirar. daqui a uma semana. Podiam-se permitir essa orgia de lenha. tudo isso anunciava a salvação. pressentiu-lhe a presença. pois aquele era apenas o último assalto do Pai Inverno. curiosamente inaudível. persuadida de que fora acometida por outro acesso de febre. foram imediatamente ajaezadas de gelo até a ponta da última agulha ou raminho. encolher-se a superfície de seu manto branco. e a neve . Angélica levantou-se tiritando de frio e batendo o queixo. de homem que aprendera a se arranjar sozinho. olhando-o mais de perto. e desanimada com a recaída. A colheita das pequenas estrelas de verdura ligava-se a um ritual solene no início da nova estação. Era o gelo. logo a primavera vai eclodir. à noite. — A florzinha tinha razão em se conservar sob a neve — sussurrou. As árvores. Atiçou o fogo. com uma dose de aguardente. Seu companheiro logo chegou com cobertas e peles. A primavera não e. E para convencê-los ao mesmo tempo da iminência dessa volta e permitir-lhes olhar uma última vez de frente o inimigo que não os tinha vencido.

"Está esperando que 'eles' cheguem". eu o obedeço. Ou irá colocá-lo novamente ao pescoço?" . Dessa vez. mas logo renascerão e você poderá colhê-las. como diziam as crianças espantadas.. durma e recupere suas forças. Eu teria perdido quase todas as colheitas. Vejo que está bem recuperada. Feliz! Ele merece viver. pensou. Depois do trabalho que tive para curálo. Chegariam de Gouldsboro e conheceriam finalmente a sorte de Wapassu. — Em Wapassu?! Acabou-se. tranqúilize-se. As crianças estão brincando diante da casa. Levou-a para o quarto e ajudou-a a deitar-se. como de hábito. "Vai deixar-me o crucifixo quando se for?. As pequenas flores nos escoltaram até agora e nossas provisões estão terminando.. pela primeira vez. ele poderia partir. Olhou para a lareira onde estava o crucifixo e viu brilhar o rubi. nesse caso. As notícias iam começar a correr. Quando despertar. Não quero mais que seja ignorado e desprezado... — Haverá de colhê-las na Ile-de-France. apesar de não confiar inteiramente neles. acabou-se. O sol se punha. com uma sensação de verdadeira convalescença. você possa descer comigo até o lago. formar-se-ia uma caranava para subir para o alto Kennebec.. "para onde ela foi!!. As flores estão em toda parte.desapareceria "sem que se saiba".. Vou dormir para adquirir forças.. — Então. ou dos índios incivilizados. que não compreenderiam mais sua linguagem. Quero que ele viva. — Prometo-lhe que partirei. Voltou com uma tigela nas mãos. Durma sossegadamente.. Partirei amanhã. sem saber se lhe recomendava fugir dos homens civilizados. ela pensou: "Quem estão queimando?" O cheiro que lhe invadia o sono apagou-se quando voltou à consciência em seu quarto do fortim de Wapassu. Pagou um preço muito alto.. . — Sim! Sob a condição de que. que viriam buscá-lo para fazê-lo morrer pelas torturas. que os ajudarão a pescar enquanto sua caravana não chega. quando acordar.. falaremos de meus pro-jetos. para informar-se sobre Angélica. E agora.." — Você me promete que partirá amanhã?. Deslizou para o sono com felicidade e. e ela dormira apenas algumas horas. Esses preparativos pareceram-lhe de bom augúrio. como teria pensado em um de seus filhos ameaçado. "Não tem o direito de me fazer isso. São as amigas mais fiéis do homem. ou depois de amanhã. CAPITULO XXXV A chegada dos homens de Gouldsboro — O cheiro da grelha dos iroqueses Antes de abrir os olhos. Por ora. Ela repetia: "Fuja! Fuja!"." Pensou nele com ternura. com uma mistura de irritação e de mágoa. — Beba mais uma tisana! É a última que nos resta. Sentia-se bem. "Não quero que ele tenha de passar de novo por provações atrozes. e Colin Paturel estaria provavelmente mais apressado aquele ano para vê-la pôr-se em marcha. Essas diferentes perspectivas faziam-na oscilar entre a alegria e a angústia.." Sobre as superfícies esponjosas liberadas. pés calçados de mo-cassinos já estavam a caminho. pensou. Vou até a beira do lago colher vime para fazer nassas. enfim repousada. De todo modo.

o que era preferível à morte e reconfortava um pouco seus amigos. Diziam que todos os habitantes haviam sido levados como prisioneiros para Quebec. cara Dame Angélica.. e um frio de rachar árvores. Já estavam acostumados com o silêncio hibernal. naquele ano. Sua experiência de bu. vestido de preto. O rapaz começou a falar com loquacidade. para olhá-lo com mais atenção. combatendo o inimigo principal: o frio. conduzido por um empregado do posto do holandês de Houssnock. Lymon White fora retido como cativo numa aldeia abenaki. de ir debruçar-me sobre os hieróglifos em país inglês. as neves e. de que Wapassu fora atacado e queimado no outono. como cresceram! E estão falando que é uma maravilha! Quem podia imaginar. dirigindo-se como pôde aos lugares habitados. a deixamos entregue a seu sono reparador Angélica ergueu-se.. ao vê-la acordada. nem desconfiavam do que acontecera em Wapassu. O Sr. para muitos.Depois. ele também temera pelo filho. todo mundo estava feliz. tempestuoso. Nenhuma notícia chegava até lá. Ele riu. depois de nos asseguramos de que estava com vida. Vendo-a ouvi-lo com atenção. — Você não havia partido para Boston para seus estudos?. que aguardavam mais detalhes. Paturel organizou imediatamente uma caravana de socorro. quando Gouldsboro estava ameaçada de um ataque. Quando a tribo "descabanou" por causa da fome. — Marcial Berne? Que faz aqui? — Encarregaram-me de velar por seu repouso. levantou-se e dirigiu-se para ela. E acrescentou que o pai de Carlos Henrique quisera fazer parte da caravana. ficaram aterrados. Nosso outono foi perturbado. a fome.. parecendo aliviado por ver que ela o reconhecia e se lembrava dele sem esforço. que. Você dormia tão profundamente ao chegarmos. As crianças! Como estão bonitas! — extasiava-se —. correndo grande perigo de perecer. iriam encontrar os pirralhos com tão boa saúde!. se isso já não tivesse acontecido. Era melhor conservar todos os braços valentes. — Tem boa memória.. tanto mais . voltando a cabeça. percebeu. quando o frio começou a amainar. O mar gelou na embocadura dos rios Penobs-cot e Kennebec. sentado à sua cabeceira. Mas achei que não era momento. Quando chegou até eles a notícia. proveniente de vagos rumores de relatos indígenas.shranger lhes fora preciosa. que. na costa. depois de ter atravessado tais provações. A neve abateu-se sobre nós. ele fugiu. Dame Angélica. pois os rios e cursos de água ainda estavam gelados. ele contou que.. mais do que nunca. cada qual vivera em sua fortaleza. Enfim. Este parecera reconhecê-lo com alegria. apoiada aos travesseiros. — Bom dia. Na verdade.. sorrindo. que não levara menos de dois meses a se deslocar. e só esperavam que ela despertasse para ficar inteiramente tranquilos e festejar esse feliz desfecho de uma provação tão longa e terrível. o inglês mudo chegara. — Que alegria de encontrá-la com vida! Que alívio à nossa angústia. Depois. . Descartou-se resolutamente a pavorosa perspectiva. Levava a notícia surpreendente de que Angélica e seus filhos estavam vivos em Wapassu. — E eis que nos encontramos há algumas horas do lugar. que. e mais que nunca. repetia. Dame Angélica. um jovem de colarinho branco.que o inverno se mostrou a seguir.

em que custaram a acreditar. Ao ver-nos. tão sonhado. roupa-branca. e na moldura da porta baixa apareceu a forte estatura de Colin Paturel. — Depressa. Insistia em que haviam acreditado no milagre de sua-sobrevi-vência. e não: "O que estão queimando?" Era um homem das praias atlânticas. E Colin começava a contar o que Marcial já havia exposto. Foi nesse momento que este deixou de ser para Angélica uma aparição ainda incerta. por descobrir no forte as crianças muito vivas e espertas. que os acolheram com muita graça. ele . Descreveu o medo lancinante que tiveram de não encontrá-los vivos. encontraram?. percebemos na outra margem um homem que estava colocando armadilhas ou nassas.. o renascimento pôs-se a correr-lhe pelas veias com a mesma alegre vivacidade de uma fonte que finalmente quebra sua prisão de gelo. — Oh! que ideia sublime! — exclamou Angélica. maquinalmente. haviam trazido. compreendeu que não estava sonhando. o que era o cúmulo da felicidade e do reconforto. Depois. dois dentre nós se mostraram e o chamaram. Quando viu Colin inclinar-se para ela. e que tantas vezes parecera impossível de se realizar. e ainda estava aturdido pelcTcombate com as florestas e rochedos que tivera de travar para . quero me levantar! Seu olhar caiu sobre o crucifixo. como tiveram de esperar para se pôr a caminho para as regiões inacessíveis do interior. receando que surgissem em seu encalço exércitos vindos do norte. — Quando chegamos à beira do lago. escondemo-nos primeiro.Um pesado passo de botas fez ranger o assoalho do corredor. Não o viram?. no batente da-lareira. — Eele? — Ele? — O homem que estava conosco. enquanto Marcial lhe lançava um olhar atento e depois se calava. Tinha o aspecto de um explorador de bosques. compreendendo pelas narrativas — se assim se podia dizer —... —Quem estão queimando? — murmurou Angélica. sapatos e brinquedos. de incêndio. além de víveres. tudo oferecido com a melhor boa vontade pelas damas e crianças de Gouldsboro. acontecera. Seu olhar ansioso se iluminou quando viu Angélica recostada ao travesseiro e parecendo atenta ao que lhe explicava Marcial Berne. Não entendia por que ela dizia: "Quem estão queimando?". Aqui. — Oh! meus caros homens! — exclamou. Colin pareceu não ouvir ou não compreender o sentido da pergunta estranha. quantas vezes tinham sido detidos pelas últimas tempestades de neve e as incomodida-des do degelo. as dificuldades de locomoção. e a prova disso era que.do pobre mudo que Angélica e as crianças estavam desprovidas de tudo lá em cima. — Como a vida é boa! Ao ouvir esses detalhes. — Com efeito! — reconheceu Colin. e não do interior. Um verdadeiro milagre! Capaz de incitar os próprios huguenotes a colocar uma vela diante de alguma divindade papista falando de milagre. eram os seus. Eram fogueiras de um acampamento? Não estava mais habituada ao cheiro dos humanos.. Seu subconsciente continuava a se sentir indisposto por aquele cheiro de fogo. lançando-se-lhes ao pescoço e cercandoos com os braços.. como parecia estar sozinho. muito penetrante e desagradável para ela. e a alegria. os homens de Gouldsboro. roupas de mulher e de crianças. Seres humanos tinham-nos finalmente encontrado em sua solidão e... e. O momento tão esperado.chegar àquele coração das montanhas. O anúncio demasiado tardio do desastre de Wapassu.. — Com efeito — continuou Colin.

subitamente fraca. E logo reveria Joffrey. Enfim. uma sensação confusa continuava a atormentá-la. do alto de uma colina. quase entornou o caldo. — Meus caros homens! Ia poder voltar a viver. — era um contingente de guerra.. mas temíamos não conseguir encontrá-la viva. primeiro para nos defender de sua emboscada. Essa reflexão ou nossa impaciência demasiado evidente.. — Colin. Dizia querer "apoderar-se de um jesuíta. disse ele. — Para onde ele se dirigia? — Para Wapassu. receando chegar demasiado tarde. Sobre isso também nossas discussões não foram fáceis com esse selvagem. sempre com um desdém supremo. atrasando-nos um pouco devido ao peso das cargas. ao travesseiro. pelo que nos foi dito. que cheiro de fogo e de carne grelhada é esse. se não me falha a memória. Enfim. — Ele fugiu. pelo próprio Utakê. o que nos fez perder alguns dias preciosos.. não sei. normando". o Padre d'Orgeval. retorquia-me. recostando-se. retornar ao convívio dos humanos como quando se retorna a casa...abandonou precipitadamente o que estava fazendo e fugiu.. que estamos habituados aos abenakis batizados do Sr. Parece um acampamento índio. Estão preparando um regra-bofe? Estou com náuseas. com a voz subitamente embargada. como nós. eu tentava fazê-lo compreender que tínhamos pressa de chegar ao nosso destino. Os índios malecitas e etchemins que nos acompanhavam se retiraram. o antigo posto destruído — emendou logo Colin. A afeição de seus olhares pousados nela a reaquecia. e. e não os vimos mais. "Eu sou amigo de Te-conderoga. Enfim. um dia. e pouco depois.. "Ela está viva". . senhora. —Deus seja louvado! — repetia. tão forte?. Apesar de sua garantia.. — Finalmente! Deus seja louvado! — suspirou ela. dizia-me com desprezo quando eu lhe tentava demonstrar que o padre não podia estar em Wapassu. insistíamos em dizer-lhe que estávamos impacientes por vir em seu socorro. Segurava-os agora. — Os iroqueses estão lá embaixo! — disse Marcial. Continuava a segurar-lhes as mãos. pois. avistamos. e nós. Por outro lado. as ruínas de Wapassu. depois para nos fazer reconhecer por eles e persuadi-los de que hão tínhamos intenções hostis. pois fora morto. CAPITULO XXXVI O perdão de Utakê — O coração do mártir — Encontramo-los lá pelos lados de Katarunk.Sentíamo-nos em brasas. estávamos perto de você — concluiu Colin. que se encontrava aqui. de Saint-Castine. Esses demónios não são nada fáceis. Não os deixaria mais. consentiram em deixar-nos prosseguir. Seguíamos o caminho habitual. o chefe desses intratáveis convenceu-se de que não pertencíamos aos "normandos". "Não pense que é mais amigo do que eu e que ele me deva menos que a você. aumentadas por aquelas abandonadas pelos nossos ajudantes índios. "Você não sabe nada". Fechou os olhos.. como uma criança medrosa. não sabíamos como tratálos. esse missionário está morto há dois anos. inimigos deles. adormecendo ao ver presenças tranquilizadoras. Vigiei melhor por sua estrela do que você o fez. Entretanto. pois sabíamos que estava lá. Não sei se utilizaram outros caminhos. Não sei se queria apoderar-se de seu fantasma ou de seu espírito. Os iro-queses continuaram em nosso encalço ou nos precediam.. — Utakê? — É o nome dele.

" Protestei energicamente. nesse momento.. e ele se perguntava de onde lhe viera a ideia de que estava enfraquecida e que talvez lhe seria preciso — reencontrando com doçura e compunção em sua fisionomia as cicatrizes do deserto — carregá-la nas costas no caminho de volta. para disfarçar a emoção. — Então. "O jesuíta foi diretamente a Utakê. e ele fugiu. percebemos o Toga Negra. não voltar.. Segurava uma cruz. e prometeram-se assistência mútua. ouvindo decrescer dentro dela o eco daquele gongo solene: "Eles o pegaram". Desviou a cabeça. quando se aproximou. sob a perturbação que o subjugava apesar de todas as rudes e rígidas barreiras que o Governador Colin Paturel quisera erguer entre eles. apesar de o encanto também existir." — E eles o pegaram — murmurou Marcial.. nem a energia. mas nunca estive tão próximo de ter o crânio rachado. . — Avistamos esse homem na outra margem do lago. Temos de partir sem demora. e... apesar de sermos franceses. ao qual empenhou lealdade. e pelas armas. vi no centro do crucifixo uma pedra vermelha brilhante. Infelizmente! Aqui a batalha está perdida." — E então?. — Pois bem. olhos cujo poder conhecera e que naquele momento analisava dizendose que éleS arrebatavam a alma. mas era evidente que as atravessara e dominara sem querer abandonar nada de sijnesma. e chegamos próximo da parte baixa do fortim. Somente lá estará fora de perigo. Um homem sob esse olhar não tinha escapatória.. "Erguendo os olhos. já lhe dissemos! — replicou.. Ambos são da Gasconha. mais de "apoderar-se" do que de "encantar". meus companheiros não puderam nem levar a arma ao ombro. Certamente aquele rosto tão querido trazia a marca de provações indizíveis.. se se tratar dos iroqueses. E estendeu o dedo para o alto da colina. nem a vitalidade de coração. Não temos condições de defesa ou de ataque. pelo oeste. brandindo o tomahawk. Angélica permanecia petrificada. ou seja. E então. Ela o fitava com aqueles olhos claros que se dilatavam. na acepção mais próxima da palavra "arrebatar". Ele nos ajudará a nos defender pela diplomacia. sem ter tempo sequer para levar a mão à coronha da pistola. Você o deixou escapar!.. O Barão de Saint-Castine e seus etchemins e malecitas nos defenderão de qualquer adversário que apareça enquanto o Sr. — E o homem? — repetiu Angélica. cautelosamente. Se ele não tivesse parado do mesmo modo brusco a alguns passos de mim. comandados por Utakê. — Vamos levá-la de volta a Gouldsboro. . imóvel como uma aparição. os iroqueses saíram da floresta. contornamos o lago. Esperávamos que desaparecesse. "Em seguida. Um jesuíta estava em pé lá no alto. Já é muito que esses terríveis inimigos dos franceses tenham concordado em nos deixar com vida.. brancos e selvagens igualmente petrificados. Ela o ouvia olhando-o fixamente.. Mas ele começou a descer para nós num passo tranquilo. eu estaria morto. nem segurança. de Peyrac. enquanto ficávamos todos em suspenso. e perguntando-nos que intenções se ocultavam por trás de sua audácia. se tivermos algum problema com as pessoas da Nova França. Ele me gritou: "Aquele que eu procuro está lá. como fizera outrora nas estradas do Magreb. estendendo-a a nossos olhos. que não podíambs atravessar.Segurou a mão de Angélica. Mas ele parou. Angélica a você e a seus filhos. dizendo-lhe: 'Eis-me aqui'. límpida e rara. acentuando a cor verde. Vi o chefe mohawk correr em minha direção desabaladamente.

Mas eu posso.. Atravessou. mas era ela que o arrastava dirigindo-se ao valezinho onde estava reunida a massa sombria e emplumada dos iroqueses e de onde se elevava. apoiada a ele. Vestia sua pobre saia velha.. Não suportarão que os brancos se intrometam. esquecendo-se de calçar os sapatos. Ajude-me.. Dame Angélica?.. que a acompanhara durante toda a invernada.. pensou ela. Pois ele a conhecia e teria agora desejado que ela tivesse dormido por mais tempo. lançou-lhe todas as palavras que lhe giravam pela cabeça desde a sua chegada. Com veemência.. — Vocês. mas seu olhar não os enganava. — Eu lhe suplico. É apenas um jesuíta. Estava agora descalça sobre o tapete castanho-douradó da relva esmagada. Angélica sobressaltou-se.. — Deixe-me! Você não pode saber. sem vê-las. vários dos homens de Gouldsboro. o jovem huguenote de La Rochelle.. Sentia-se mais leve descalça para correr. Não estamos em condições. Angélica! Basta de riscos! Basta de loucuras! Já não obtivemos muito do céu encontrando-a a você e a suas crianças. tinha o aspecto de um fantasma. ela vacilava.. Um de nossos piores inimigos. Mas . amarraram o jesuíta. segurando os mosquetes. quer que nos massacrem? Sabem como eles são com seus prisioneiros.. e não tinha nada de uma moribunda. Depois de fincá1© no chão.. Aproveitar que eles estão. — Angélica. por quê. Seus costumes são sagrados. erguendo-se num salto. Mais tarde voltar-Ihe-ia à lembrança o choque que sentira ao distinguir o espaço deserto que permanentemente os cercara preenchido de súbito por presenças humanas. os seguiram de perto. iria sozinha.. Será preciso matar todo mundo. Mas não teve forças para lançar-se sua resposta. Ouvia Marcial. estou lhe dizendo! Não podemos intervir. Temos de partir o mais cedo possível. trazendo de lá um pilar de paliçada enegrecido. pelo amor de Deus. gritar com desespero: — Por quê.. E ainda que tentássemos. Você decide nossa morte! Pense nele! Ela teve uma breve hesitação. "Ah! não me amolem com seus 'piores inimigos'!. Leve-me até eles!. o que fizeram com ele? O que fizeram com ele? Ele virava a cabeça. talvez. para o valezinho. vivas?!. Correr. A um sinal de Colin. Ajude-me a andar. enquanto outros iam se postar nas cercanias do fortim e na plataforma. Com que cara vou me apresentar diante de seu esposo se -você não estiver mais viva? Esse pesadelo me atormenta.. transportados por um vento sereno.— Colin. tiraram-lhe as roupas e começaram a supliciá-lo.".... enquanto. Todos os que a viram aparecer como que saída de um túmulo a reconheceram.. Não suportarei que ele caia novamente em suas mãos. — Angélica. sem saudálas uma ala de pessoas. Eles o haviam levado. Depois seu chefe subira até as ruínas de Wapassu.. o odor de fumaça e um rumor incessante de tambores. prontos para qualquer eventualidade. Era realmente ela. recémliberada do degelo. contou. Colin a sustentava.. Eles não me metem medo. Se eu pudesse andar.. só estarei seguro de sua vida quando a tiver levado para a margem. entre os quais o grande Siriki. ocupados. — Leve-me até eles! Colin a segurou. — Joffrey faria o mesmo! Subitamente ela se precipitou..

. Colin — murmurava Angélica. cheia de energia e de esperança.. em meio às manchas sarapintadas de suas pinturas de guerra. Uma silhueta de carne nua. — Utakê! Utakewata! Dê-me sua vida! Ela ia sozinha. cortando pequenas tiras sobre seu peito. Tarde demais!.. longas e longínquas montanhas dos Apalaches se desenrolavam. lançando seu apelo numa voz alta e clara. e tão feroz e terna que as ruínas enegrecidas de Wapassu." Lá embaixo!. Receava agora. Tudo se tornou diferente. não se destrua — implorava ele. Finalmente chegou! E viu imediatamente.. Era impossível contarlhe. — Veja. Ela chegava tarde demais!. que sucumbisse àquela crise de força sobré-humana. Seus pés mal tocavam a terra. De revolta e de pesar. — Você não pode compreender.. rápida. O coração da América queimando a própria carne. Vai cair. — Eu lhe suplico.... Seu cérebro estava como que vazio. Mas precisava chegar lá embaixo. em que uma força contrária nos prega ao chão. um homem branco cercado pelo bale horrível dos machados incandescentes que faziam chiar a pele de suas coxas. e. Sua cimeira ..ninguém queria voltar para dentro. enquanto facas passavam e tornavam a passar lentamente. o deus tutelar da América. — Duas vezes... do outro lado da grande ravina.. — Utakê! Utakê! Dê-me sua vida!. como nos pesadelos. Era apenas a força de Colin que a sustinha.. Seu silêncio não era o da morte.. Ouvia aproximar-se o ruído dos tambores. Mas olhando novamente na direção do supliciado. Pôde avançar novamente... enquanto avançava.. eu não chegue demasiado tarde!. pareciam belas. e o grupo. faça que. seu olhar era febril... Não posso deixar que façam isso.. faça que. o deus vermelho. De revolta e de pesar impotentes. não! Três vezes. amarrada ao pilar em meio às danças sincopadas de alguns "prestidigitadores" e à fumaça das brasas a seus pés. mas do heroísmo. não!.. ficou a olhar de longe. O wampum.. viu que ele inha a cabeça erguida e os olhos voltados para o céu. as longas. magra e miserável. sabiamente. O cheiro de fogo e de carne queimada se intensificava.. impelindo-a para a frente. Tudo entrou nos eixos. Foi a única coisa que viu inicialmente. com as crianças nos braços. e era nessa direção que se inclinava seu esforço. Era muito longo para contar-lhe. Ele voltou para ela o rosto. devorando-a para sobreviver. Colin não podia saber. Uma natureza virgem e soberba despertara. por tê-la sentido tão frágil em seu corpo emagrecido. O coração dela também ardia.... você está fraca. Uma prece ali estremecia: "Meu Deus. arrastar Colin.. contra um céu pálido com trilhas mais verdes nos vales. Mas ela não o ouvia.. E diante dela. a cavaleiro do lago na ponta do bosque. e teve de parar para reter o grito que lhe subia aos lábios e retomar fôlego. não tenho mais o wampum. o que explicava a sensação de estar no mesmo lugar. até o fim dos tempos. Teria desejado correr...

.erguida e os pingentes das orelhas fremiam. Ah! você brilha e no entanto nos desnorteia. Utakê começou a andar para lá e para cá. O rosto pintado pareceu transmudar-se em pedra. que disse esta frase insensata: "Perdoem seus inimigos".. ei-la.. que permaneceu hirto como o de uma estátua. E isso tem seu valor. Com um gesto lento e hierático estendeu para Angélica o braço. Depois. lhe disse: "Voltarei para buscá-lo e devorarei seu coração".. apontando sempre para a mesma direção?. Eu a desprezo. Continuou a se agitar com uma mímica que significava que estava sufocando de indignação e com gestos derrisórios que exprimiam que toda a sua razão era suplantada pela inconsciência dos seres. retesando-s. Venho de outro país. Enviei-o para que acabasse com ele — insistiu. — Olhem! Eis aqui uma mulher louca a serviço de um deus louco. — Deilhe a sua e a de seus filhos. Eu lhe enviei o jesuíta para que acabasse com ele... E vem gritar: "Devolvalhe a vida! Devolva-lhe a vida!. Segui-la! Na noite de nossas almas... você é bem isso.. Você desobedeceu às leis da justiça.. Estabeleceu-se um longo silêncio. . pelo menos. animando-se — com suas unhas à moda das mulheres. Não basta?. sua expressão mudou e adquiriu uma gravidade solene. — Queria saber se você era de fato isto: a estrela fixa. — Até quando você me pedirá vidas? — lançou-lhe enfim.. antes de enviá-lo. tem o coração reto e segue seu caminho sem se desviar.. na noite de nossos corações. e o que podemos nós contra a estrela que está colocada no centro do céu. você. E você não o fez.. mas sua expressão continuava ameaçadora. — Não preciso obedecer as suas leis. sabia que eu o pouparia... os movimentos de seu braço tornaram-se ao mesmo tempo acusadores e líricos. — Não! Você sabia que eu não acabaria com ele. — Vocês a ouviram?. Ela. estrela fixa. A prova é que. que atravessou o oceano. Utakê. os olhos de jade.. Sua pose mudou um pouco. e sobretudo dos brancos. Pode muito bem dá-la uma segunda. Então. enquanto ela parava. Utakê..e subitamente. Enviei-o a você para que acabasse com ele.. As palavras que lhes caíram da boca tiveram uma espécie de ressonância eterna. Não parecia surpreso por vê-la ali. — Eu não o desnorteio. dirigindo-se com ênfase às tropas iroquesas.. Uma mulher tão louca quanto seu deus. numa mistura de dialeto mohawk e de francês.. agrupadas na encosta relvada. — Portanto. — Sim!. e é ela quem me dita ordens. Até quando você se obstinará em salvar aqueles que a rejeitam ou aqueles que querem sua perda? O que importa esse jesuíta? Por que quer salvar-lhe a vida? Ele era seu inimigo. — Sim. Aproximou-se alguns passos. mal-humorado. lançaram estranhos fulgores. o pirata francês abatido e o Toga Negra moribundo. Deus-das Nuvens. quase sem movimento de lábios. Você não se desvia de seu caminho. Você me enganou.. que ele falava muito bem apesar do sotaque agudo resultante de uma pronúncia gutural. Salvou o inglês doente e o iroquês ferido. e sobretudo das mulheres!. Kawa.. pare de usar artimanhas comigo.. Ela é louca mas é fiel a seu deus. Sou eu que a cumulo de benefícios. imóveis nas órbitas dilatadas. Você o sabe muito bem. O chefe dos mohawks permitiu-se uma breve risada. e tenho outro Deus para me julgar. Você me deu sua vida uma vez..

ele permaneceu de pé. tão profundo e prolongado que poderia fazer acreditar na aproximação da tempestade se o céu não estivesse tão puro e azul. multiplicada. colocaria um bálsamo nos mais vivos ressentimentos. — Pois bem! Eu lhe darei sua vida! Não quero que escarneçam de você por ter respeitado os preceitos loucos de seu Deus louco — declarou. a ordem de Utakê de libertá-lo e sua subsequente execução provocaram a cólera daqueles que participavam do suplício e que. mas seu furor era visível e os gestos exagerados o tornavam explícito. Hiyatgu. acolhidos com tão boa vontade por aqueles traidores huronia-nos e aqueles malditos algonquinos. sem se perturbar. pois. Um outro ronco se elevou. por suas ordens. dos quais faço parte. sempre os defendi de suas emboscadas. já lhe retiravam das mãos —. não admitia ver-se privado de uma nobre e difícil tarefa. Hiyatgu. precipitou-se para a'arena. Deviam devolver-lhe a vida para que viesse destruí-los novamente? Sua tirada veemente provocou uma aprovação geral por parte dos iroqueses presentes. — Somente eu sofri com ele em minha juventude. : — Seja! Devolva-o — gritou-lhe com raiva. apesar das cordas cortadas. dessa vez. um jovem guerreiro avançou e cortou as cordas que amarravam o prisioneiro. a dor causada por seus ensinamentos fanáticos. haviam causado a partida dos seus. imerecida e prematura. A um sinal deje. Mas. Não tem o direito de nos tirar a caça. para as terras de caça do Grande Espírito. Eles também. tão atroz. Cpmo seus associados presentes. Sem extingui-lo completamente. pronunciado em seu dialeto loquaz. instalados em torno da fogueira. tarefa para a qual ele. e não entre os mohawks. O Conselho colocou-me à frente daquilo que restava de nossos povos. Um deles. mal havia começado o suplício. Você infringiu os princípios da Liga Iroque-sa. a de fazer morrer lentamente um inimigo abominável — que. A isso se acrescentava a da vingança. — Não é uma caça. que encontrava finalmente o objeto em que saciar esse ardente sentimento de desforra. como um animal feroz. dos guerreiros. seus apelos à guerra contra o iroquês. orgulho e satisfação. interpelou Utakê de modo mais direto. sabendo que ofereceria aos manes dos desaparecidos. da mulher. agora que o perigo foi afastado. mortos nas muralhas de sua cidade de Onondaga ou nas chamas daquelas Casas Compridas incendiadas. cuja sombra encobriria para sempre o espírito de Hiyatgu ao se lembrar dos filhos. nós também participamos da caçada. Não comece a esquecê-lo. chamado Hiyatgu. Hiyatgu não se deixou iludir. era difícil de acompanhar. imóvel. preparavam suas ferramentas de tortura com a aplicação e a seriedade de trabalhadores conscienciosos. graças a minhas astúcias e minhas injunções. — Não existe chefe supremo entre nós. Se houvesse. quando fui raptado e levado para o outro lado do oceano para remar nos grandes barcos. traduzida por um surdo ronco. adivinhando que tinha o controle da situação. ele seria escolhido entre os onondagas. desde minha volta. as galeras do rei da França. mas meu inimigo — retorquiu Utakê. inimigos hereditários e que não tardariam também a pagar por todos esses crimes.O chefe das Cinco Nações recomeçou a andar de um lado para outro. conhecendo seu adversário. Ainda veria aqueles que se agitavam à sua volta nesta terra? Todavia. E. Utakê. sabia que a aprovação se dirigia às palavras de Utakê. mas. — Mas não será dito que não obtive nada! . Seu discurso. nem apagar o luto. era reconhecidamente muito hábil e cuja execução lhe proporcionava intensas sensações.

e sua palavra traída pelo . Foi aquele corpo sangrando que arrastaram e lançaram aos pés de Angélica. primeiramente pelo insulto depois entregando-se ao bale da luta.. Estava tão próxima dele! Tinham seguido juntos trilhas pouco comuns. os dois chefes haviam prosseguido sua querela. girando um em volta do outro. na obscuridade da terra. ele não caía. sempre de pé. pegando-o pelos braços. balançando seu trofeu como um incensório ou um hissope. o sangue corria-lhe pelo rosto em mil regatos enceguecedores. ou do paraíso onde seu espírito já vagava? Desejava ouvi-la? Ele levantou as pálpebras. Leu ainda nele uma súplica ardente. da espinha até os rins. Ele a via mas distanciava-se como num navio rumo às margens ida alegria eterna. E você permanecerá entre eles. podia alcançá-lo nas zonas do inferno. Um grito saído de todas as bocas sublinhou seu ato imprevisto e cruel. ajoelhada num chão duro sujo de sangue.. Indagava-lhe suplicante quem iria dispor de seu cadáver. pois as pálpebras haviam se fechado sobre o olhar ainda brilhante. encostado ao pilar do suplício. triste e quase humilde de um homem que não se julgava digno. Quando dois homens. mas que.Sua manobra foi demasiado rápida.. E eles comerão seu coração. mulher longínqua e terrestre. Num salto. triunfante. De seu crânio escalpelado. Angélica desamarrou o lenço de pescoço e tentou suavemente estancar-lhe o sangue. pôs-se a emitir urros alucinados. E.. o ardente desejo de um coração que viera para a Nova França para a salvação dos selvagens e que os amara tanto. eu o entregarei a eles. tiras de carne que ali se grudaram. Empunhando-lhe a cabeleira. o arrancaram do pilar. Durante essa cena. continuando a se desafiar. aspergia a relva de sangue ao seu redor. cortou com uma lâmina aguçada o alto da testa e puxou. Um guereiro puxou-o para a frente pelo ombro. Seu olhar turvou-se. Houve então um brilho zombeteiro. louco de raiva por ter visto sua supremacia e seu direito de clemência questionado. O jesuíta permanecia de pé. Seu olhar ainda azul iluminou-se com uma centelha de alegria. e ela sentiu que permanecia. inclinando-se até envolvê-lo com os braços e aproximar o rosto do dele. Viva para que meu sacrifício não tenha sido em vão". haviam explorado o dédalo dos mistérios do Amor e das múltiplas aparências sob as quais se dissimula sua chama. afastou-Sé. Dessa vez ele acabara. Ela compreenderia? Mas ela compreendia tudo. pulou sobre o prisioneiro. mas.. para sempre.. depois uma expressão grave e imperiosa. Chamou a meia-voz: — Padre! Padre d'Orgeval! Meu amigo! A voz dela. na última hora. e ela julgou ouvir a adjuração que ele lhe repetira com tanta frequência: "Viva! Viva! Por seu triunfo e por nossa luz. brandindo o machado e o tomahawk. eu lhe prometo — disse a meia-voz e ainda que essa decisão lhe fizesse mal —. cego por uma súbita chuva de sangue. Não voltaria mais dentre os mortos. Hiyatgu. aspirava ao mérito. apesar disso. A última exigência de sua vocação. Ela se ajoelhou. eu o entregarei aos iroqueses. Insensível à indignação e à cólera que provocava. Utakê.. pesada. A vida apagara-se na face sangrenta.. desprenderam-se. cortados por imitações de cânticos cristãos. — Sim.

O céu tornava-se vermelho no poente. O dia acabava. Este coração é puro. e que não conseguiram ser atingidos por golpes suficientemente mortais para colocar este ou aquele fora de combate. os outros fizeram silêncio. mas a questão foi acertada pela eloquência de Utakê. Poderemos marchar em busca da paz.. a disputa se reacendeu quando se colocou o problema de saber se o coração do jesuíta seria comido assado ou cru. confrangidos ao mesmo tempo por uma dor e uma esperança imensas. porque ele deve nos comunicar sua força sobre-humana e sagrada. imaterial! A pressa de arrancá-la às loucuras mortais que campeavam naquelas paragens apoderou-se dele. essa querela em palavras e ameaças foi sangrenta. Assim que os chefes iroqueses pegaram das mãos de Angélica o corpo do Padre d'Orgeval. na ponta dos dedos. A paz para nossas aldeias. Embriagados mais por uma mágoa que não conseguiam definir do que pela aguardente. e a luta entre esses últimos sobreviventes das Cinco Nações estava prestes a estourar e se transformar em batalha. por assim dizer. Este coração está purificado. Utakê levantou. Ela era tão leve. os chefes das Cinco Nações Iroquesas sobreviventes. Tocados pelo respeito. a paz para nossos cantões que renascerão. tão fortes um quanto o outro. receberemos os conselhos deste coração que nos trouxe o ódio e que nos amava. aquele coração tão discutido. Vamos alimentar-nos deste coração purificado. deve ser assado. A mulher branca fezrse fiadora dele ao reclamá-lo. O mais rápido a abrir o peito do morto e arrancar-lhe o coração. com passes e cambalhotas magistrais e que concluiu resolutamente pela vitória. A discussão alteou-se a graus de veemência elevadíssimos. a confiança que devemos concederlhes para sua sobrevivência e a nossa.como um punhal oscilava no céu de um azul primaveril. Colin Paturel levantou a jovem mulher nos braços e a levou até o forte. ao devolvê-lo a nós. e que o chefe dos onondagas tinha prioridade sobre o dos mohawks. este. — Mas ele está envenenado — retorquia o outro. Enterro o machado de guerra ao mesmo tempo que devoro este coração. partilharam e devoraram o coração de seu inimigo Hatskon-Ontsi. O dia já ia muito alto para que se pudesse organizar a partida. .' Seria preciso ficar até o dia seguinte. dos dois chefes. quando a lua de cornos pontiagudos . e nos guiará para saber o que devemos esperar deles. perolado de sangue. Temos de comê-lo palpitante ainda. o jesuíta duas vezes morto e várias vezes mártir. — Eu sou filho da Paz. O coração de Hatskon-Ontsi não tem mais veneno. Ele nos inspirará. Dessa vez Utakê foi o mais rápido. Foi portanto um combate muito curto e cerrado. pois não fomos todos exterminados. sem muita dificuldade. com o machado e o tomahawk. Ele nos trará o conhecimento desses franceses indomáveis que nos confundem o espírito e enganam nossos corações. — Não! Não é assim.. Mais tarde. Na luz púrpura. — Ei-lo.gesto do rival. Então. ficou decidido que Utakê e o outro se bateriam num duelo iroquês. lembrando-lhe incessantemente que as sentenças que estatuíam o destino de um prisioneiro deviam ser tomadas no Conselho. — Para não Se tomar seu veneno ao mesmolempo que sua força. Finalmente. pouco usada por aqueles chefes.

mãos diligentes haviam acendido fogos em todas as lareiras. Ela tem estado muito doente. Subitamente. quando o arrastavam: "Suba depressa para o forte.. as lonjuras.Como era autoritário!. e a inquietação e a ternura daquele olhar claro. Angélica pediu que a deixassem chorar sozinha. mas muito firme: "Senhor. Podia acreditar que nada acontecera. Uma pancada.. Ela erguia as pálpebras doloridas e via-se sozinha na jangada da sobrevida. no quarto em que neste momento a Sra. Ou poucas coisas.. era maníaco como uma mulher!. que ela percebia com sua pequena cintilação Vermelha refletindo as luzes do fogo. quando via a onda de soluços se acalmar. ele teria tido tempo de fugir... Mas'quando os selvagens o pegaram eleretirou-o e deu-o para mim: Disse-me de modo muito cortês. por favor. Oh! realmente. se não houvesse esse crucifixo. — Por que dormi? Por que dormi tanto tempo? Se eu tivesse acordado no momento em que vocês chegavam acompanhados dos iroqueses. de Peyrac está adormecida. apenas o som de uma voz diferente que rompera a noite eterna dos dias de inverno... Essas palavras não chegavam até ela. e que caminhava estendendo-o a você? — Isso mesmo. Nada a não ser alguma coisa muito simples e muito natural na vida dos homens. — Colin.Com as ventanias noturnas aproximava-se uma noite gelada.. familiar. que não as perdiam de vista um só instante. Alguns meses de inverno para atravessar. Recriava-se o alegre ambiente que haviam conhecido os homens de Peyrac na primeira invernada. Acampariam no velho abrigo aquela noite. e no fortim. "Tudo tem fim!. As crianças. afinal. à volta próxima do conde. Gritou-me de longe. tenha a bondade de recolocar este santo objeto no batente da lareira. artesãos. soldados. estrangeiros de todas as nações e aventureiros de todo tipo. Dormiam apertando nos braços os brinquedos trazidos para elas de Gouldsboro. — . As portas de gelo se romperam. Por que dormi? Continuou a chorar." Angélica começou a rir em meio a suas lágrimas. Era um maníaco!. Teria podido acreditar que havia sonhado. saciadas de guloseimas. com seus mineiros. 'Os homens haviam surgido. você não me disse que o jesuíta levava ao pescoço um crucifixo. sob a guarda de sentinelas que se fenderiam a cada duas horas e que vigiariam permanentemente os bosques.. em lufadas. já haviam comido e dormiam no antigo quarto dos Jonas. Mas Colin ficou junto dela. o ronco lúgubre dos cantos e dos tambores.. Um fantasma acompanhando-a com sua força para ajudá-la a chegar ao fim do túnel: Teria podido acreditar que ele não existira. dizia ele.. mas ei-la fora de perigo. para esses detalhes. Bens preciosos que se julgavam perdidos. Via Colin sentado ao seu lado. tesouros que era preciso agora levar com vida para as praias. As crianças' estão sozinhas!. veladas por pares de olhos zelosos e enternecidos. . os arredores e mais assiduamente o valezinho onde faiscavam as fogueiras dos iroqueses e de onde chegava... dizia algumas palavras que aludiam à paz que encontraria entre eles em Gouldsboro. e.. mas mais suavemente. sempre ali. trabalhadores. o relógio do tempo soara. que não deveria tardar. — Não creio que quisesse isso — disse Colin. Quero que ao despertar veja este crucifixo em seu lugar habitual". atento. tudo recomeça". E foi o fim dos dias sem fim.

— Tenho de esperar Honorina. — E verdade! Honorina!. ao final. Colin Paturel ajoelhou-se junto dela e colocou os lábios sobre a mão abandonada. pensava." Acordou gritando: "Os iroqueses". vendo Angélica agitar-se. pois apenas por eles podia esperar obter notícias de Honorina. com todas as energias reanimadas.. e julgava lembrarse de que a menina estava interna no colégio das religiosas em Montreal. Seus olhos eram azuis e não havia nenhuma brecha negra no sorriso dos. Colin Paturel ignorava tudo a respeito da odisseia de Honori-na. para nossa infelicidade. mas ao ver-se vestida com roupas limpas e pouco usadas e reconhecer nas pregas da saia.. A segunda fase de seu repouso. perseguindo um pensamento que lhe fugia mas que.. se tornou preciso. insistiu. atirou-se para fora da cama. Levahte-se". prometendo interiormente convencê-la no dia seguinte. meu cordeiro — murmurou-lhe. mas num quarto ensolarado. mas são eles..belos dentes. Como ela estava fraca. Mas ele contentou-se em sussurrar-lhe: "E Honorina?".. Era preciso dormir. "Os iroqueses. enquanto esperava que surgissem as velas do navio que traria Joffrey de volta. —Obrigado por ter salvo a felicidade de nossas vidas suplantando sua morte. Ela lhe explicou que era preciso ir ao encontro deles ou convocá-los imediatamente. "Os iroqueses! Os iroqueses!".CAPITULO XXXVII Um último discurso de Utakewata — Notícias de Honorina Mais tarde retirou as roupas sujas de sangue do mártir e impregnadas pelo cheiro de fumaça. como para lembrar-lhe um segredo entre eles.. Eu sei por que não quero deixar wapassu — disse a Colin. repetia. que não tivera tempo de tratar. Sem tentar distraí-la de sua ideia fixa. esqueci-me de pedir-lhe informações. uma euforia benfazeja a conquistou. — Obrigado! Obrigado. apesar da chegada do dia. Abigail pensara em tudo... Logo estaria junto à doce amiga. pelo menos alguns dentre eles. pelo odor dos longos meses passados nas trevas. e que ainda tinham uma obra comum a resolver.. com uma piscadela cúmplice. Haviam-na deixado dormir. afirmou-lhe que ficariam em Wapassu o tempo que fosse preciso para esperar Honorina. Estava sozinha dessa vez.. Deslizou para o sono tranquilamente. a noite ainda era profunda. um pouco antes da aurora. que continuava à sua cabeceira. continuam a parlamentar e a querelar no fundo do valezinho. Julgou que fosse dizerlhe: "Há um alce lá fora!. Colin pôde satisfazer-lhe a vontade logo. deixando-se rodear por suas atenções. do blusão e do lenço o perfume discreto de sua amiga Abigail. — Graças a Deus!. pelo odor do inverno.. Zangada consigo mesma. Se ela passou o inverno numa de suas nações. mas sempre indomável. que podiam me dar notícias de Honorina. Por ora. Soube que dormia quando o rosto de jesuíta veio inclinar-se sobre o seu. Mas. Ela não sabe que Wapassu foi incendiado e tentará encontrar-nos aqui. olhando-a recair no sono como que sob o efeito de um desmaio. Inclusive juntara ao que mandara um saquinho de cascas de quina trazidas por Shapleigh.. Desejava chorar mais. Não havia necessidade de .. — Os iroqueses ainda estão por aí? — Sim! Muito ruidosos e desagradáveis. nervosa e diáfana!. foi para Angélica mais turbulenta.. ouvindo o mar bater nas praias de Gouldsboro.

que lhe pareceu mais deserto ainda que nos primeiros dias. Tinha pressa de interrogar Utakê. sem fadiga. provando-lhes que não inspiravam receio e que eram recebidos como amigos da família. na curva verdejante do valezinho. Deveria pois esperar sem nervosismo o final da arenga.convocá-los. seu olhar abarcava a perspectiva de Wapassu. — Eu também estou aqui — disse-lhe Carlos Henrique. Seus dois rebentos. Conserve sua mão na minha e fique bem ereto como o orgulhoso soldado que é. e seus gestos de idas e vindas pareciam indicar que estavam se preparando para partir. Ela explicou àqueles que se inquietavam que a visão das crianças lisonjeava os índios. estava persuadida. você é meu filho. no fundo daquele covil. Angélica percebeu a grande poltrona de madeira que fora levada para fora.. e principalmente os ferozes iroqueses. Ou ser vencida pela impaciência durante o discurso. você também. mas não era por isso que tomava essas medidas. Pediu aos dois rapazes encarregados de vigiar Raimundo Rogério e Gloriandra que viessem colocar-se ao seu lado com as crianças. Temia apenas perder a paciência. mais ainda em relação aos iroqueses. a multidão castanha dos iroqueses se agitava. ou-que tinham tido a oportunidade de viver nas aldeias fronteiriças." Na esplanada. percebido. Estavam vindo até eles. Angélica permanecia calma. sua arenga. Saindo. reverberando ao sol. alguém que a tivesse visto. perseguida pelos lobos. quem sabe falado com a menina. em sua espera de receber algumas notícias sobre a filha. apesar das guerras. O que mais lhe iria pedir Utakê? O impossível. a maior parte daqueles que tinham vindo das margens para socorrê-los nutria uma forte desconfiança em relação-aos índios do interior. Dele talvez obtivesse uma indicação. podia-se esperar qualquer coisa. quando haviam chegado em caravana para encontrar. — O mensageiro do mohawk recomendou que lhe fosse preparada uma cadeira para que você possa escutar. Utakê fizera-se anunciar com os seus para dali a uma hora. Fora alguns. A esquerda. e que lhe devolveria a esperança.. Uma pequena mão colocou-se sobre a sua. não temia nada. — Sim. será preciso que nossas sentinelas dissimulem as suas — recomendou Angélica a Colin. e cujos contingentes de guerra vinham de muito longe semear o pânico entre os algonquinos do leste.. De sua parte. pousada no braço da poltrona. anos antes. Angélica tomou assento na poltrona preparada para ela.. Ao longe. epidemias e fome. homens do grupo. não deixariam de se interessar por aquele espetáculo multicolorido de uma delegação iroquesa. muito temidos. ou talvez nada. Angélica abraçou-o e apertou-o contra o peito. . distinguia uma parte do Lago de Prata. Vai ficar de pé ao meu lado e me ajudar a receber o chefe das Cinco Nações. — Se eles subirem sem armas. que ele pretende dirigir-nos antes de despedir-se. arrastando um cadáver de alce. que suscitou murmúrios de desaprovação ao seu redor. sacudindo a cabeça com resignação. Com ele. que haviam andado pelos bosques à procura de peles. os quatro mineiros que já haviam começado a trabalhar ali. garantindo-lhe que estava viva. e que será longa. "Esses índios. lembrando-lhe sua presença com uma voz gentil. esquecido de que sobre sua planície branca ela correra. jamais os compreenderei!. meu valente compa-nheirinho.

Sebastião d'Orgeval-explicara isso ao chefe das Cinco Nações?. ainda que tivesse escolhido com cuidado. Tinham deixado os mosquetes no vale. Apenas um precipício e uma ponte que faltava para passá-lo. um sol ainda frio de inverno os iluminava. os meandros das grutas e rios subterrâneos.. — Tenho ainda necessidade de ouvir uma palavra apenas de sua boca. Um sol pálido. — Mas Teconderoga não está mais aqui.preciso separá-los'. Mais tarde. Ignorava que haviam vivido escondidos longos dias nas trevas da terra. leve e invisível para me agarrar. Ele torcia meu ser por dentro como uma pele ria água do rio.. E eis-nos aqui diante de você com vida. eles estavam magros.— Eis nossos teatrais que avançavam — disse a Colin. foi de curta duração. Eis-me obrigado a andar ainda um pouco ao lado de meu caminho. nós dois.. num percurso de várias léguas. E eis por que Hiyatgu está vivo. Todavia. as palavras adequadas. Levavam na cintura as machadinhas de combate e os tomahawks de pedra vermelha ou branca. lançando um olhar prov. de pé atrás dela.. Apesar do penacho de plumas e de peles. e que lhe pareceu mais tenso e menos à vontade que se tivesse de tomar de assalto toda uma frota de piratas das Antilhas. — Um de nós deveria estar morto. você é o espírito flutuante de Teconderoga. e de uma força tão grande! Foi o que disse o Toga Negra: 'Unidos não se pode abatê-los. e pelo eco do eco. Porque na realidade não há inimigo e não há guerra. quando. seguidos de uma massa de guerreiros reunidos. o que é um sofrimento e um perigo. Mas. quase tão magros quanto lobos esfomeados. ele começou falando com toda a simplicidade sobre sua querela com Hiyatgu. depois do fogo. Foi um combate que nada decidiu. que se mantinham com a mecha pronta para o ataque. braceletes de penugens tingidas de vermelho. Kawa. Sua carne pareceulhe pálida sob a retícula azulada das tatuagens. para que se escondessem atrás da casa ou nas brenhas ao redor. Soube disso quando os vi em Kátarunk. Mas a cláusula é secreta e é preciso esconder-s. Ele obrigou minha razão a pensar um pouco ao lado de seu caminho habitual. Kawa: de seu último combate. se não quiser perder tudo. Quanto a ela. Cada palavra puxava outra e ia mais longe. atravessando. É. Ele se mantinha na terra. O que significa. como de meu combate com Hiyatgu. jamais.e daqueles que não vêem a ponte e que não compreendem por que nós a atravessamos. A homilia de Utakê. cerdas de porco-espinho nos cabelos levantados. Provavelmente. "Teconderoga me fez fazer coisas bem estranhas desde que o vi. e quase sem rancor. olhava-os vir sem receio." Onde. colares de dentes de urso. foi um discurso difícil de compreender. Utakê talvez o tivesse ouvido em sonho. ladeada pelo pequeno Carlos Henrique. "Você. mas pode conduzir à ponte. não houve vencedor nem vencido.ocativo ao chefe dos onondagas.. e Angélica fez sinal aos portadores de mosquetes. e cujos sons chegassem até ela amplificados pelo eco. É a lei. Os chefes das Cinco Nações pararam a alguns passos da poltrona. arcado sob o peso da ciência. contrariamente ao aviso que havia dado. tal como as linhas superpostas das montanhas. lembrar-se-ia dela como uma mão aflorando as cordas de uma harpa. você corria para a frente. e você.. Dois e unidos. assegure-me que aquele que morreu ontem não voltará . em seu francês castigado. e você vai partir. Eis por que eu o poupei — disse. Assegure-me.

e este. e sobretudo seu interlocutor. — Quer dizer que ele terá descoberto a justiça de nossa causa e a horrível traição com que nos oprimem nossos inimigos? — interrogou o mohawk. — Ofereço-íhe este colar de porcelanas — disse ele. Guarde-o como símbolo de minha aliança eterna. e o wampum que teceram com suas próprias mãos está enterrado sob as cinzas. Não estava em condições de lançar sobre o futuro um olhar otimista. — Você é avisado dessas coisas melhor que eu mesma. Veio para ficar entre vocês. Dá a si mesmo a resposta. A imagem de Wapassu destruído. iroqueses das Cinco Nações. mas precisava responder-lhe'e devolver-lhe a confiança. a América que deixavam para trás parecia-lhe como um campo de ruínas. surpresa de ler em seus traços impassíveis uma ansiedade real. que comeu seu coração. Você. mostrando. Assim são os sinais. Utakê. julgara que ia desfalecer. e foi por vocês que ele veio. Reabriu-as corajosamente. — Ele desapareceu no incêndio de Wapassu. Hatskon-Ontsi perturbava e enfraquecia meus julgamentos. — A fome e a derrota enfraqueceram a clareza de minhas pres-ciências. Não há vencido nem vencedor. — Ele terá descoberto que você mereceu tê-lo ao seu lado para apoiá-lo e aconselhálo até o fim de seus dias — respondeu com firmeza.. ficando surpresa por ver o chefe das Cinco Nações inclinado diante dela e apresentando-lhe nas duas palmas uma fina tira de couro com contas de koris brancas.para nos destruir. Daqui a algum tempo ele se infiltrará entre você. uma terra que se devoraria a si mesma até que os renovos de raízes mais robustas conseguissem firmar-se e dominar o caos. mesmo feridos ou ameaçados como estavam presentemente. Do mesmo modo que Teconderoga me fortalecia. As pálpebras de Angélica fecharam-se novamente. porque nunca houve inimigo. você dizia. de tal modo estava fatigada. uma terra queimada. pela apresentação e refutação dos argumentos de sua defesa e de seus ataques." — Cpmo você pode duvidar? — disse ela. contra nós? — Não! Os franceses não precisam dele da mesma forma que vocês. que os franceses chamam de "agniers". — É tudo o que me resta do tesouro de guerra dos mohawks. pretas e malva. . os franceses. Angélica fechou os olhos. Eu sei que você principalmente o sentirá presente para ajudá-lo na sua tarefa e combater ao seu lado. Talvez se pudesse encontrá-lo nos escombros. tomando fôlego por um longo período. os selvagens. uma resistência que poderia levá-los até a noite.. a fim de continuar uma discussão "de valor". Nesse breve instante em que fechara os olhos para refletir. — Você fala no passado. — Você crê realmente? — recomeçou Utakê. — Não irá ele aplicar-se em ajudar seus irmãos de raça. não o perca. mas sabia que. sabe agora como ele os amava. eram capazes de adiar sua partida e minimizar o perigo que os espreitava. cujas pupilas negras refletiam uma centelha de alegria e triunfo. Digo-lhe isso porque foi o que ele me disse e porque é o que sinto também. mas erguendo as pálpebras com dificuldade. não? — As mães que o enviaram a você estão mortas — disse Utakê com uma voz cava —. — Mas eu não perdi o wampum das Mães das Cinco Nações que você me enviou em nossa primeira invernada aqui — protestou Angélica. ou pelo menos adormecer...

Ele recuou alguns passos, deixando o fio de conchinhas enfiadas sobre os joelhos de Angélica. — E agora tenho de dar-te notícias de sua filha, cujo nome é impronunciável,« que nós, iroqueses, chamamos de Nuvem Vermelha — disse, num,tom voluntariamente neutro e comedido. Mas seu olhar faiscou de malícia, rejubilando-se antecipadamente com o que ia suscitar com essas palavras numa francesa tão impulsiva quanto aquela que estava à sua frente e que, ainda que se esforçasse por respeitar as maneiras ponderadas dos índios, continuava submetida ao sangue fervilhante e anárquico da raça dos caraspálidas sem educação. Não podia falhar. Angélica soltou uma exclamação de alegria, e sua expressão dolente deu lugar à mais desperta excitação do mundo. — Honorina! Minha filha Honorina! Você sabe alguma coisa sobre ela?... Sabe onde ela está? Ah! diabo de mohawk! Por que se calava? Por que não.o disse logo? — Porque em seguida você não teria escutado coisa alguma dos discursos que eu tinha de fazer-lhe. Não teria dado a menor atenção às palavras muito importantes que tinha a lhe comunicar antes de deixá-la, para talvez nunca mais rever, e eu fazia questão de me dirigir a uma pessoa atenta. Você não teria sequer notado, eu a conheço — disse com um grande gesto desiludido —, que eu lhe oferecia meu único ramo de porcelanas em sinal de aliança eterna, ó Mãe que você é! ó Mulher! Mulher! Mulher que você é, pois você é três vezes mulher, pela lua e pelas estrelas. Há mulheres que podem se lembrar do homem que foram num outro ciclo, e encontrar as palavras ou atitudes que não chocam absolutamente a dignidade daquele que a ela se dirige, mas você sempre foi demasiado mulher para se preocupar com isso... — Fale! — exclamou Angélica, agarrando-se com ambas as mãos nos braços da poltrona. Se estivesse lidando com Piksarett, ter-se-ia levantado para sacudi-lo por suas tranças de honra. — Fale! Eu lhe suplico, Utakê! Diga-me tudo o que sabe sobre ela e não me faça esmorecer, ou prometo que vou me lembrar que fui também um guerreiro que manejava o cutelo melhor que você mesmo, e que o fez compreender isso uma noite junto à fonte, e isso não aconteceu numa vida anterior. Utakê deu uma gargalhada, imitada por seus companheiros, que não compreendiam inteiramente a alusão, mas apreciavam a animação da cena. Depois, acalmando-se: — Seja! Dir-lhe-ei tudo o que sei sobre ela. Vou primeiro dizer o que sei com certeza. — Onde ela está? Está viva? Você a encontrou?... O mohawk fez uma expressão melindrada. — Se eu a encontrei? Que está dizendo? Se ela partilhou todos os meses de inverno a vida de uma família na Casa Comprida do ohtara do Chevreuil aux Oneiouts, e, todos os dias, eu, que me dirigia ao Conselho da Federação como chefe das Cinco Nações, via-a e conversava com ela, até o dia em que, maldito seja, o novo Onôncio de Quebec conduziu novamente suas tropas até nosso vale dos Cinco Lagos e queimou o provoado de Tuansho, apesar de suas fortes paliçadas, após um combate assustador. "É por isso que não posso responder com certeza à primeira pergunta: 'Onde está ela?...' Nem à segunda: 'Ela está viva?...' Pois, talvez você o ignore, quase toda a população desse povoado pereceu, exceto alguns poucos miseráveis que consegui

arrastar comigo e subtrair por minha habilidade ao furor vingador dos franceses e de seus danados huronianos, e desses cachorros de abenakis. Tudo o que posso dizer com certeza é que ela não estava entre nós." Ele repreendeu com um gesto o movimento desesperado de Angélica. "Sei que algumas mulheres e crianças iroqueses, disseram-me, foram levadas pelos franceses até as missões de São José ou de Quinté, perto do Forte Frontenac, mas não posso dizer-lhe seguramente se ela estava entre elas." Cobrindo o rosto com as mãos para dissimular seus traços, Angélica recusava-se a encarar que a criança tivesse perecido nas chamas das aldeias incendiadas. Era impossível. Era-lhe pois preciso desejar que Honorina estivesse em poder do.s franceses, seus compatriotas, que eles a tivessem levado de volta a Madre Bourgeoys ou a seu tio e sua tia do Lobo. Utakê levantou os braços com solenidade como para reclamar do céu a inspiração e, das pessoas presentes, a mais escrupulosa atenção. — E agora vou lhe dizer o que sei dela, Nuvem Vermelha, por vidência. Fechou os olhos e começou a sorrir. — Ela chega! — murmurou. — Ela vem para você! Nao se apresse em deixar estes lugares, Kawa, pois sua filha se dirige para o Lago de Prata para aqui encontrá-la. Ela está acompanhada... por um anjo!... Novamente deu uma sonora gargalhada como se tivesse sido testemunha de uma brincadeira. — Ah! Você me escuta neste momento, e desta vez sem dormir!... Ria cada vez mais, sustentado pela hilaridade de seus guerreiros. E com essas explosões de uma alegria franca, suscitada mais uma vez pelas expressões aturdidas dos brancos, e por suas dificuldades em dar fé às revelações tão seguras dos sonhos, os iro-queses se afastaram e se separaram daquela que provavelmente jamais tornariam a ver. Atordoada pelo que Utakê acabara de dizer-lhe, Angélica compreendeu demasiado tarde que eles se haviam eclipsado. E quando quis pelo menos fazer voltar Utakê para pedir-lhe mais informações e despedir-se melhor dele, não se encontrou mais nem sinal do chefe mohawk nem de seus companheiros. — Por favor, alcancem-no — suplicou ela. Utakê não dissera sobre Honorina: "Eu a via todos os dias?..." Queria interrogá-lo sobre a menina perdida no coração da vasta América. E depois deu-se conta de que em nenhum momento pensara em agradecer-lhe pelos sacos de alimento que ele lhe mandara por intermédio do jesuíta. — Alcancem-nos! Mas não conseguiram encontrar os iroqueses, que haviam partido à procura dos fragmentos errantes de suas tribos, a fim de reconduzi-los ao vale dos Ancestrais, e à procura de seus inimigos para exterminá-los. Tinham-se diluído na vasta paisagem de montes, bosques e abismos, nas pistas invisíveis e não-traçadas. E, para dizer a verdade, ninguém se sentia realmente muito ansioso por alcançá-los. CAPITULO XXXVIII A odisseia de Cantor e Honorina Cantor puxou o barco para a pequena praia, num recanto do rio, e depois, içando-o sobre a cabeça, carregou-o até um abrigo de rochedos, onde o escondeu sob os galhos.

— Não iremos mais muito longe pela água — disse. — Temos de ir a pé. Mas se andarmos bastante, poderemos estar em Wapassu um pouco depois do meio-dia. A criança índia que o acompanhava opinou com seu penacho vermelho de cabelos eriçados, e pôs-se a andar docilmente atrás dele. Cantor segurava-a por uma corda presa ao pulso, pois a criança estava meio cega, e, no início de sua viagem, por várias vezes, quase a perdera ao atravessar florestas muito cerradas. — Onde arranjou esse selvagenzinho? — perguntara-lhe o boticário do Forte Orange, naquela noite em que, depois de atravessar mil perigos, puderam dormir ao abrigo das muralhas da cidadezinha anglo-flamenga, no alto Hudson. Respondera que era um órfão iroquês, que recolhera entre os sobreviventes dos massacres, e epidemias que haviam dizimado o vale dos mohawks. Era difícil confessar ao bravo holandês, que, muito caridoso, fora buscar uma pomada para cuidar dos olhos do pequeno ma-quas, que o bugrinho era sua meia irmã Honorina de Peyrac. Honorina fora enfim encontrada por ele num campo de refugiados do lago Ontário, entre as mulheres e crianças iroquesas reunidas pelos franceses sob a ptoteção dos sulpicianos de Quinte. O Sr. de Gorrestat, o intratável e limitado governador com que fora brindada a Nova França — provisoriamente, dizia-se, mas que parecia um pesadelo —, não esperara o degelo completo das neves para lançar novamente seus exércitos contra os cantões iroqueses. Foi assim que Cantor, que, ele também, desde os primeiros sinais de degelo, se pusera a caminho, não sem incorrer no risco de enfrentar as últimas e temíveis tempestades do rigoroso inverno, só encontrara, quando se aproximou das regiões onde queria procurar sua jovem irmã, povoados devastados pelos combates, fumegantes ainda dos incêndios. Desnorteou-se perguntando-se se não estaria morta, onde deveria investigar. Diziam que os iroqueses tinham "desaparecido da face da terra... Um contingente dos mais valentes e dos principais "capitães" daquelas nações, entre os quais o incansável Utakê, evaporara-se no momento de uma batalha decisiva, e os viajantes e exploradores de bosques supunham-nos escondidos da perseguição dos franceses e de seus aliados índios sob os labirintos subterrâneos de grutas, cuja longa rede se desenrolava invisível através de várias dezenas de milhas. Mas nenhum branco jamais penetrara ali. E corria uma lenda de que a obscuridade era ali tão profunda que uma permanência muito prolongada naquelas trevas fazia perder a visão. Cantor ocupava-se com os sobreviventes, sobretudo com as mulheres e as crianças, entre as quais lhe restava uma esperança de obter alguma informação sobre a pequena Honorina. Jamais esqueceria sua alegria, mesclada de terror e de compaixão, quando finalmente a encontrara, uma noite, à luz das fogueiras, quando a segurara nos braços, uma pequena caça gordurosa, magra de fazer medo. Terror porque por pouco não a reconhecera sob seus trajes de menino, repudiando-a inicialmente; então ela escapara e ele tivera de percorrer todo o campo lançando seu chamado de antigamente: "HonnL. HonnL." Compaixão, descobrindo-á desfigurada pelas marcas da varíola, cuja epidemia começara por dizimar as populações iroquesas já durante o inverno. Não diziam até que fora o Sr. de Gorrestat que tivera a ideia de mandar introduzir cobertas de comércio que haviam abrigado variolosos entre os inimigos, cuja perda pretendia?... Mas diziam tantas coisas! Os flagelos abatiam-se sobre aquelas regiões selvagens como o furacão. Dir-se-ia que as intenções tinham possibilidades de materialização e

dissera consigo. pensara: ". Por pouco os dois irmãos Lemoyne. O périplo teria exigido vários meses. Tivera de carregá-la nas costas e acabara por prendê-la com uma cordinha. pilhadas e cobertas de cadáveres. De voltar o mais depressa possível para a casa dele. agora esbarrava em tudo.pobrezinha! Ela.de rapidez anormais. que quiseram prosseguir seu caminho em direção à grande missão dos jesuítas em Sault-Sainte-Marie. sua alegria de vê-los. que a gente se dispunha a conquistar o mundo para ser digno dele. podia-se conceber o poder do deus feroz do inverno que os petrificava a todos. raro mas tão caloroso. a casa deles. pensava Cantor enquanto. "Maldito inverno!". Era bem feito para essas mulheres idiotas que queriam que eu fosse buscar lenha ou apanhar o animal morto pelo caçador. caía. entre duas tempestades. . Sentia a impaciência de voltar para casa. Estava tão orgulhosa por estar vestida como um menino iroquês! — Utakê disse que eu era digna de ser um guerreiro. readquirindo já as rabugices de irmão mais velho. mas continha-se. num passo estugado. tão cúmplice. Depois. Cantor se interrogara. eram seus amigos. ficava em Wapassu. seguia a linha da crista dos montes eriçados. subiriam novamente para Goulds-boro. o perigo dos lagos e dos rios. a travessia das aldeias irOquesas incendiadas. seus braços abertos. Em Orange. no lugar em que os surpreendia? E pobre daquele que procurasse enfrentá-lo. pois o domínio do frio impedia qualquer movimento.Que importa! Está viva! Nossa mãe a curará!" Sua única oportunidade. onde se concederam uma noite de repouso sob o conforto dos colchões de penas dos holandeses. Mas teria podido fazê-lo? Pois o inverno é implacável e os teria apanhado a ambos em qualquer lugar inexoravelmente. e. Na Europa. Ela se perguntava como bebés daquela idade haviam podido realizar tantas proezas em suas curtas vidas. Maldito inverno! Muito precoce. enquanto. era a presença do pai. E. Elas se realizavam mais depressa que o pensamento. Em Quinté. Só o conseguiram graças a uma fogueira que Cantor acendera para eles. Ele se voltava e olhava-a andar atrás dele "com um profundo sentimento de felicidade. qualquer deslocamento dos seres durante meses na superfície de um continente. já que havia meninos aos quais permitiam vestir-se de mulher quando não sentiam gosto pelas armas. talvez. cujo gelo cedia sob °s pés. Se o Hudson fora desobstruído dos gelos. os Jonas. E a casa.. que eles não paravam de imaginar.. enfrentando os barrancos do degelo. o sorriso dele. pela selvageria das florestas. Era o rosto e os olhos de sua mãe. não havia razão para impedir-me de me vestir de menino. a imobilidade da morte também tinha o poder incomensurável de congelar subitamente todo sinal de vida por centenas e milhares de lugares. Tinha vontade de dizer-lhe que ela se parecia com um porco-espinho sem touca. empreendiam a longa viagem de volta para Wapassu. longo e rigoroso. pois eu atirava bem com o arco. cuja pista maltraçada os levava a Wapassu. que não lhe permitira salvar a tempo Honorina. Era melhor continuar em direção ao leste. longe de qualquer abrigo. carregando-a nos braços. mas dos quais Honorina não parava de falar-lhe. que já não era muito hábil. e. Ela estava abusando. perdia-se. a casa deles. tão estimulante. não puderam voltar para os odjibways sem "se perder". por outro lado. no no man's land do deserto branco.. Ele era como a irmã.. os espanhóis. teria achado mais seguro continuar a viagem descendo em direção a Nova York. eram o irmãozinho e a irmãzinha que ele não conhecia. receber-lhe a aprovação. sob pretexto de que eu era uma menina. de escala em escala.

lutava a fim de poder falar-lhe. O exército franco-índio — cento e vinte soldadosda metrópole. Erguendo os olhos. que. mas Cantor não a levou a mal. Pouco depois. — Quem? — Minha mãe. pois morrera. Desde a mais tenra idade. persuadida de que sua mãe estava ao seu lado. parcialmente. Por sorte. Ela contou que numa noite de inverno.. no celeiro molhado -pelas brumas baixas. Ela dizia "minha mãe" num tom possessivo. uma bandeira com uma flor-de-lis. e começara a correr. Um receio se apoderava dela. Jogou-se com-ela atrás de um arbusto.. Muitas forças malignas se aliaram contra ela. propícia a todas as emboscadas.As vezes ela parava. e quando despertar sua mãe estará aqui". Cantor sentiu-"os". Vou lhe explicar por quê. Ela nao pode morrer. nos cantões iroqueses. Negava enfaticamente. informando-se sobre a saúde da índia que a adotara. — "Eles" estão em toda parte. um rosto adolescente apareceu-lhe entre os ramos. Corriam de uma toca a outra. ouvira discutir ao seu redor química. folhas tímidas. enroladas como lagartas. — Acha que ela esteja morta? — perguntou um dia.. na Catedral de Quebec. enevoada. o rufar dos tambores semeava o terror nos corações iroqueses. A velha índia não estaca mais lá. os franceses chegaram e se encarregaram das mulheres e das crianças sobreviventes. vira Angélica moribunda. No fogo vermelho da febre. sua mãe não está aqui!" Uma velha índia compreendeu o que era preciso fazer para manter viva a menininha branca. que começava a recobrir com uma resina esverdeada os renovos pegajosos. Calou-se.. Os sobos-ques sob o efeito dos primeiros sinais da primavera. Filho do Dr.". com o qual havia cantado Meia-noíte cristã na noite de Natal. e estava curada. — Não grite! "Eles" estão em toda parte!. viu flutuar. ofereciam uma aparência esbatida.. Ragueneau. Podia levantar-se. urrando: "Minha mãe está morrendo! Oh! façam alguma coisa por ela!. Dizia-lhe: "Beba este caldo. que está me esperando em Wapassu. ele fora convocado porque tocava pífaro e tambor. atrás de cada árvore!. várias vezes Angélica fora visitá-la. com seus dez filhos. Talvez fosse um engodo! A floresta estava vazia. Nas proximidades do lago de Saint-Sacrement. ir ao rio. como numa operação de transmutação química.-e Honorina sabia que sua mãe jamais viera.. Uma vez ela acordou. ele não sonhara. pululando à sua volta. enquanto estava dormindo. Precedendo o exército. Depois continuava suas confidências. E você sabe o que acontece nesses casos?. só via tristes rostos indígenas inclinados sobre ela e que sacudiam a cabeça: "Não. quatrocentos regulares canadenses e o mesmo número de índios das missões. alquimia. o do jovem Ragueneau. — Não! Isto não e possível.. Mas quando voltava a si.. — Não! — Um bem imprevisto nasce desse mal intenso. rememorando fatos que haviam se apagado de sua memória desde que fora acometida pela doença. Honorina balançava a cabeça. brotos. pondo em polvorosa todos os habitantes da Casa Comprida. É uma lei. levava todos os verões seu dízimo num buque de flores de seu jardim às religiosas da Santa Casa. Nào. fenómenos científicos. E. garantindo o avanço e os guardas .

onde. carne-seca e rações de pão. atravessaram uma região deserta. descer ao fundo das gargantas. onde se reuniam wigwams. perceberam o cimo ainda recoberto de neve do monte Kathadin. Wapassu não estava longe. sem animais. Apesar de sua habilidade e faro.. ficou ali por vários dias. envernizando-os com resina de abeto balsâmico. — Ela me tirou tudo. seja na direção dos ingleses. pensava com despeito. Continuando rumo ao leste." Para alcançar o norte do Maine. Um dia. Tornara-se novamente um adolescente do Novo Mundo. acabava de costurar barcos de casca de árvores à beira de um rio. transpuseram. muitas vezes desativadas. Os índios tinham recolhido a seiva adocicada do ácer e recuperavam as forças bebendo-a. semelhantes a sobreviventes do frio. era preciso. inextricável. Mas os cursos de água tornavam-se navegáveis.. — Ela me tirou minhas caixinhas de tesouros! — choramingava Honorina. várias vezes por dia. cortada por buracos e despenhadeiros atravessada por inúmeras torrentes. com o barco sobre a cabeça. Já ia tão longe o navio. Mais uma ou duas horas de caminhada. sem homens. "Essa pista era tortuosa. — Que está dizendo? . O jovem Ragueneau lançou-lhe aos ombros um dólmã branco rasgado. sem trilhas. onde se comia bem. mas o sol aquecia durante o dia. escalar novamente a falésia abrupta do outro lado.. até o dente de cachalote de casca de castanha e a conchinha que você me tinha dado. a perseguição. encontrar uma passagem na efervescência das torrentes ou das quedasd'água... Na hora não sabia do que ela estava falando. uniforme do célebre regimento de Carignan. Cantor devia atravessar esse exército em toda a sua extensão como um rio. As noites eram gélidas. para efetuar qualquer avanço. os levavam para outros lagos ou vales sulcados de rios. de degrau em degrau. e que não levavam a parte alguma.de flanco — seguia a habitual pista que conduzia aos mohawks e aos oneidas. Levavam suas peles e discutiam a direção que deviam tomar para ir ao comércio: seja na direção dos franceses. atravessaram lagos. Era a última etapa numa suave manhã. Cantor surpreendia-se girando no mesmo lugar entre os galhos de árvores quebradas hesitando entre as pegadas de pistas indígenas. entre duas nuvens de um dia um pouco invernal. interrompida em toda parte. Com os índios. aproveitou os bivaques. Assim vestido. à procura dos sobreviventes das Cinco Nações. Penetravam no Maine. Os bosquezinhos de Versalhes tinham-no feito perder o senso de direção naqueles cerrados. — Cansada? Estava surpreso. Uma pequena tribo de índios nómades.. Depois afastou-se da longa fila guerreira que deslizava inexoravelmente em direção ao sul. misturado à tropa e arrastando o selvagenzinho cego. o golpe de misericórdia.. Cantor comprou um barco e os dois remaram. o fim da Diaba! Era como se ela nurtcà tivesse existido! Surpreendia-se até ao pensar que tinha vivido na corte da França. continuando seu giro rumo ao leste. e cativos para se desincumbir de uma perseguição inútil. com a possibilidade de tropeçar com os primeiros habitantes das fronteiras da Nova Inglaterra e ali recolher escalpo. irmão e irmã desceram o rio. Ouviu atrás dele gemidos de cachorrinho e voltou-se. o verdadeiro Maine. que emergia do inverno como sarças ressecadas. proveu a mochila com enguias defumadas. os saltos que. pois jamais ela se queixara das longas caminhadas que lhe impunha.

como anteriormente. pensou ele. de perfeição. daquele belvedere. pois ali passara uma invernada. cuja aproximação de Wa-passu devia ter-lhe despertado as lembranças. Tinham-lhe feito em cartas muito relatos detalhados. Descreveram-lhe pastagens cobertas de rebanhos. Cantor? — perguntou ela. não apenas sobre a construção e reformas do grande forte. que em sua exultação continha a mesma vasta impressão de vitória. que não reconheceu imediatamente. Foi a vez de Honorina tentar compreender e interrogá-lo. mas desertas. encostado ao pico rochoso. mas sobre ás habitações cercadas de jardins que haviam proliferado para além da paliçada. que. felicitando-se de que ela não pudesse distinguir esse espetáculo de desolação. quando ela choramingava. — Estamos chegando! Logo veremos. "Estamos chegando!. Avançou mais e descobriu as ruínas enegrecidas. "Para tanta felicidade.. o antigo fortim. Estava de tal modo aflito... e já contemplava com um olhar desconcertado e vagamente ansioso o sítio de Wapassu. preparadas para os cavalos. voltara a ser um jovem explorador de bosques." No instante seguinte. Ele reconhecia o quadro e só via extensões desertas. em todo caso. e. ravinas drenadas. os Malapra-de. Onde estão todos?" Continuou a andar. ela ficou como que paralisada. sua voz ficava ininteligível. num tom de homilia. de alargamento infinito que acabava de experimentar no momento em que murmurou estas palavras: "Estamos chegando!".. os soldados! Seu coração pulsava fortemente no peito. um dia cantarei numa abadia Sua glória.. Crispou inadvertidamente a mão em torno da de Honorina.. sonhador. e. a casa. que.A doença deixara-lhe uma fraqueza na garganta. — O que está dizendo? — O anel de seu pai e a carta de sua mãe devem ter-lhe saltado ao rosto. lhe era tão familiar. nesse pensamento. Tudo era imenso e luminoso. e fora bem feito!. — Talvez tenha sido isso o que a enfraqueceu — murmurou. mais bem construído. Honorina encontraria consolo para a perda de-seus tesouros.. Seu pai.. e mais animado. E. sob a comoção de uma impaciência infantil. os artesãos. notou o movimento de silhuetas humanas em torno. e um novo trecho de paisagem descòrtinou-se a seus olhos. pensou imediatamente. Pouco a pouco. Eram pulsações tão dolorosas que não conseguia pensar além destas duas perguntas torturantes que lhe soavam na cabeça a cada batida: "O que aconteceu? Onde estão todos? O que aconteceu?. .. no entanto. Eles tinham mordido a Envenenadora. sua mãe. — Nada — respondeu. com o olhar tão emba-ralhado. os pequenos gémeos! Os Jonas. — Até o anel de meu pai e a carta de minha mãe — continuava.. e em que sentiu que englobava todos os seus num movimento novo. — O que está havendo? Onde estão todos?. campos lavrados. compreendeu? E depois disso. deveria ter-lhe parecido mais povoado. Honorina. levando pela mão sua irmã selvagenzinha..".. — O que foi. Mas não mais. recobertas de vegetação nova. Compreendeu? Ela sacudiu gravemente a cabeça. A porta se abria e eles penetravam todos juntos por ela.

e. não caia — gritou ele. acompanhada ou não de um anjo.. — O velho da Montanha! Eu o vejo! Hoje posso vê-lo! Pegou-a na beira do precipício. A pequena Honorina não surgira dos bosques. e o pai de Carlos Henrique. .. Cantor? — Sim. Sua mãe! Sim! Era ela! Recomeçou a respirar. Quatro dias. mais embaixo.. as sombras e as luzes esculpiam o relevo de uma face augusta e pacífica. CHEGADA DE CANTOR E HONORINA A WAPASSU CAPITULO XXXIX "Encontramos as crianças! Podemos partir" — Um novo limiar de felicidade — É preciso partir. Os dois homens se encarregariam dela e a levariam até Gouldsboro. venha... Estavam lá em cima. Propunham ficar no lugar... Angélica não podia aceitar a sentença. foram buscar Angélica e Colin Paturel. cinco dias. apavorado.. Um vestido de mulher. segurou-lhe a mão. Vamos fazerlhes uma surpresa daquelas.. se ocupavam em reunir os elementos da caravana. — Está olhando para nós dois.. — E você não está completamente cega! Hurra! Hurra! Agora. — Também o vê. — Cuidado. Mas o cômico iroquesinho com o rosto bexiguento iluminado de alegria. instalados no fortim. Honorina não encontraria o lugar deserto. ansiosas por se afastar antes que aparecessem contingentes de guerra de não se sabe que nação.. mas contra os quais não teriam condições de lutar. — Está nos sorrindo. mas estava com as pernas bambas pelo medo que sentira.. — Cantor! Estou vendo-o! Estou vendo-o.. Olá. Se as predições do iroquês por acaso se realizassem.na falésia rochosa batida obliquamente pelos raios do sol. Angélica acabara por conseguilos. preparando-se para tomar o caminho do sul e deixar o lugar.. Ambos permaneceram imóveis lá no alto. minha amiga — dizia Colin. E desta vez posso vê-lo! Oh! Cantor! Como estou feliz! A vida é bela!. disse consigo. explorador de bosques tarimbado. o irmão e sua jovem irmã. seis dias de prorrogação!. Partir!. Apesar dessa nova decisão.. Colocou-a escanchada nas costas e desceu saltando de rochedo em rochedo rumo a Wapassu. pois bem. o inglês mudo. Se fossem fiar-se nos sonhos dos selvagens."Até que há bastante gente.. Lymon White. Honorina. Velho da Montanha! Aqui estou. sob inspiração de um pro-jeto que permitiria conciliar tudo. diziam as pessoas das orlas... na ponta do rochedo. Eu voltei. — Quem você está vendo?. Partir sem voltar a cabeça! Abandonar tudo! Jamais tornaria a ver Wapassu.. Honorina arrancou a mão da sua e precipitou-se. erguia os braços para o sol. familiarizado com Wapassu.. pensando bem". ainda invisíveis aos olhos daqueles que.. Mas os últimos adiamentos se esgotavam.. eu o vejo — respondeu ele. como predissera aquele louco do Utakê.

. Isso já acontecera vaias vezes em sua vida.. longa morte.. as previsões lógicas.O Wapassu! É proibido conhecer o Éden na terra? Mas você o conheceu.. quando se deitava. mas nunca com aquela impressão de ruptura. Ah! longa. como quando se põe de lado uma roupa.. Desperta. Seu espírito. não tentava convencê-la. ancoravam-na outra vez à terra.. Quatro.. Jamais parecera tão bela. "Eu deveria ter cuidado dele.. Ele também desaparecia. mesmo escalpelado. A maldita! A magnífica!. — Olhem para as crianças! Elas sabem que não voltarão mais. ao vê-lo. Fora até o quarto de Lymon White.. como às vezes demora a vir. com a mesma celeridade com que a primavera começava a invadir de verdor os vales. é pouco! E no entanto aqueles dias estavam investidos de um poder de esquecimento e de renascimento que valia por anos. cinco." Deixara-o sangrar em seus braços. Abotoara-a de alto a baixo com os dedos enfermos. o ruído das vozes. Era preciso que ele morresse. Eu deveria. seis dias. o jesuíta.. lhe houvesse gritado: "Morto. das alterações. De que se queixas?. aniquilada.. quando sua saúde melhorou... ele abandonara suas nassas de pesca e correra em direção ao fortim pela última vez.. tendo percebido os primeiros homens aparecendo do outro lado do lago.um dia! Esperemos mais um dia — suplicava Angélica. Depois. dissipando-se a visão que a obsedava e que não conseguia deixar de reviver ponto por ponto... seis dias de prorrogação. e não era preciso mais que isso para que. O sangramento de feridas na cabeça é abundante. ainda que ela procurasse retê-lo sob o aguilhão do apego e do remorso. em seguida. contentando-se em murmurar-lhe palavras de conforto e agasalhá-la quando ela acordava em prantos. seu . se evaporasse. Estava mudada. a inquietação por Hono-rina suplantou a do drama recente.. os projetos materiais e sólidos referentes à partida sobretudo por não poder explicar-se e comunicar-se realmente om nenhum deles.. sentado pacientemente à sua cabeceira. se apagasse como por encantamento um tempo de morte que parecera que jamais terminaria.. Nas primeiras noites. Não sabia ainda em quê. mas pode ser facilmente estancado... em que por isso a colocassem totalmente entre eles. Aquele momento em que.. Quatro. A primavera subia como o mar!. Pois. Esperando essa morte. Esperando essa morte. — Mais . perguntara-se se não teria podido tentar cuidar dele.. Às vezes irritava-se com eles por suas palavras sensatas. E passando junto às crianças. Depois saíra. colocara o cinto e enfiara o cordão do crucifixo no pescoço. de despojamento. aonde você vai?" Andara pela ravina e apresentara-se diante dos homens vindos para fazê-lo perecer. censurando-se. Seu sono daí em diante tornou-se tranquilo e profundo. aquele movimento de silhuetas em torno dela.porque estava dormindo. lançara-lhes: "Fiquem bemcomportados! Não se mexam! Eu voltarei". tão suave. mesmo com Colin. tão cheia de flores e de cantos de pássaros.. Irritava-se com sua pressa em deixar o lugar. Ela se agitava no sorto. sempre se lembrava daquele momento que ele vivera e que ela não vira. E talvez o pequeno Carlos Henrique. derretesse. cinco. você que ode ser tão súbita e tão breve! Colin. Vestira sobre o corpo descarnado a Toga Negra.

correndo também com os braços estendidos. Os índios nómades começavam a chegar em pequenas famílias. A fumaça lenta das fogueiras. recusando a realidade. Os olhos de Angélica percorreram o horizonte de Wapassu. — Perdoem-me — repetia incessantemente. que tinham aproveitado os preparativos para escapar de uma vigilância demasiado constrangedora. Angélica estava tão ressentida com Colin que nem lhe respondia quando ele lhe dirigia a palavra. os lábios descoloridos ganhavam vida. como que sob as mãos hábeis de um mestre cabeleireiro que os nutrisse com óleos revigofantes. o pão. os carregadores recolocaram no chão as cargas que já tinham içado aos ombros. Isso a punha nervosa. subitamente também se animaram e se dirigiram para eles em massa.coração. seus cabelos.. e. Entretanto. aqueles bosques haviam lhe confiado um segredo inefável. a sombra cavada sob os olhos já não era senão um círculo azulado sabiamente esbatido. debatiam-se como pássa-os contra as grades de uma gaiola demasiado estreita. com os braços abertos. Na verdade maravilhavam-se com a rapidez com que reassumia a vitalidade: Ao sol.. Uma criança índia corria em sua direção. No último momento. Enquanto se lançavam à sua procura. e não soube que presciência a fez lançar-se para ela. Foi como o cimo de uma vaga de amor arrebentando. Esquecê-lo. Contemplavam o sítio transformado do Wapassu que estavam habituados a frequentar. só podiam rejubilar-se. . Aqueles montes. e. pois não encontravam as três crianças. o sinal de partida foi atrasado. A palidez diáfana tingia-se de rosa nos pômulos. resultante dos artifícios das mulheres que se aprontam para um baile. julgou morrer de felicidade. paixões e esperanças de seu ser. feitos de cascas de árvores sobre arcos flexíveis. deixar-se tomar pelo peso da terra era-lhe proibido Os índios. Mas eles lhe perdoavam tudo. de modo que. e.. Subitamente não se sentiu mais triste. . naquela manhã... a caravana estava formada diante do fortim. tão leve. por vê-la readquirir o espírito combativo e bastante vigor para scutir e opor-se-lhes quando a instavam a partir. — Honorina! Ergueu a forma frágil. inclusive Colin. O último dia consentido havia terminado. depois. apertando-a nos braços. facilmente impaciente. como não eram testemunhas suas agitações interiores. tropeçando. com exclamações afetuosas. Tinham tomado gosto pelas explorações pessoais. resumindo todos os transportes. os copos cheios de continhas coloridas?. nesse período transitório que a levava da doença à saúde. sua alma. que observavam de longe os brancos. — Fui um pouco ríspida. os latidos dos cães e os gritos das crianças recriavam a trama familiar que anunciava os trabalhos de verão. levantavam os pitis de peles sobre varas cruzadas ou os wigwams arredondados como cascos de tartaruga. o que se censu-ava. apresentava essa beleza perturbadora..e não compreendiam: onde estavam o posto. readqui-riam flexibilidade e brilho. Angélica sentiu perpassar-lhe o mesmo sopro luminoso que transfigurava todo sofrimento. não deviam estar longe.

a perseguição que fizera. nem o disfarce de menino. O você!. As imagens se precipitavam. com Honorina junto a ela e.Nem o aspecto repelente do rosto e dos trajes..-mma voz gritou: — Senhor Deus! Ela teve varíola! Uma outra voz. — Um guerreiro iroquês!... Era um homem. Seus navios haviam se cruzado no oceano. se o futuro que os esperava estava carregado de mistério. voltaram gritando: — Encontramos as crianças! Podemos partir. — Eu sabia que você viria. — Ele foi me buscar entre os iroqueses — disse Honorina orgulhosa. O futuro desconhecido já se preenchia.. Teria reconhecido. o gesto que realizara. girando loucamente com a criança junto ao coração. seria preciso aproveitar o desaparecimento das neves para ir aos postos e minas inacessíveis informar-se sobre os sobreviventes do inverno.. estava-o igualmente de um montão de histórias a serem contadas uns aos outros e que preencheriam as horas de numerosas vigílias ou travessias.. Ela sentiu-lhe a força determinada. — Cantor!. E todo mundo caiu na risada. os três pirralhos. Sua vida não estava arruinada.. A única coisa que não aceitaria era que houvesse outras vítimas. os suíços. os espanhóis. vejam que maravilha. não é?!. Wa-passu permaneceria uma rica e soberba messe de lembranças e de felicidades. indomável. nem a cimeira de cabelos vermelhos viscosos de resina tinham-na enganado. lambuzados de fuligem por terem tentado explorar as ruínas e segurando os primeros buques de flores colhidas. Reencontrariam os Jonas.... Angélica compreendeu que.. Mas. a chama dos olhinhos de Honorina. Queria isso. que sentira um choque gelado ao ouvir a terrível palavra: "a varíola"!. replicou: — Sim. Angélica colocou-a nó chão para estender a mão para o rosto de Cantor. em sua marcha de volta rumo ao sul.. — Viu seu pai? Cantor arregalou os olhos. à sua frente.Era assim. — De Versalhes — respondeu Cantor. sob qualquer máscara. Montreal e Ontário. Essa voz e essas palavras desviaram a atenção de Angélica. bastante contentes consigo mesmo mas prontos para a partida... mas fazendo um pequeno desvio por Quebec. nova e quase desconhecida.... pelo que vejo.. um guerreiro iroquês! Venham todos.... Adivinhou tudo.. Cantor!.. E ela ria. Podiam partir. A perda dos bens não era nada. . ou dos ataques do outono. mas está viva. Estava agora num novo limiar. que teriam sido imoladas à malignidade de uma Ambrosina.. os Malaprade e seus filhos. que não estavam a par de nada..... desafogando a necessidade de distender-se. Não haveria vítimas. de onde você vem?. feroz. O encontro que o levara a embarcar. dois ou três homens devotados. No alarido que se seguiu. Nesse momento. e nossa mãe vai curá-la. Vítimas inocentes. Ignorava que o Conde de Pey-rac fora para a Franca. em primeiro lugar. Um guerreiro iroquês voltou para nós!. E. os valões e os lolardos ingleses. mas foi ele quem a tomou nos braços. Exigia que não houvesse mais vítimas. sua obra não estava apagada. muito mundano —.. realizou seus sonhos.

. Cativa no Harém Angélica. Rebelde Guerreira Angélica. 21. 2.. A pele do rosto. 22. 13. numa viagem que não conheceria tempestades. conseguiria.. 20. à saúde de todos. 9. 19. 7. minha criança. 5.. 15. lugares consagrados. "Depois de tudo!. antes de singrar para a Europa num belo navio." Abraçou-a apaixonadamente. nas praias de Gouldsboro. "Não haverá mais vítimas! Será assim! Sinto-o! Encontraremos todos os nossos amigos perdidos!.. Rainha de Quebec O Inesquecível Natal de Angélica Angélica e o Perdão do Rei Angélica e as Feiticeiras de Salem O Fascínio de Angélica . desafiando com as pupilas verdes a luz da primavera. E você. aumentando depois a acuidade da visão atingida pela horrível doença. 8.. 12. a pele fina de criança crivada de cicatrizes? Levaria mais tempo! Ou talvez pouco tempo!?. Maldita Angélica no Barco do Amor Angélica no Fim do Arco-íris Angélica na Floresta em Chamas Angélica e a Caçada Mortal Angélica e Seu Amor Proibido Angélica Ultrajada Angélica e a Duquesa Diabólica A Satânica Rival de Angélica Angélica e o Çomplô das Sombras Angélica. e mais uma vez. você será salva.E poderiam beber e brindar alegremente. pensou. Assumiu a responsabilidade de cuidar das pálpebras... taumaturgos. Ela os encontraria. 23. Dependia dos meios que empregasse.. . Clandestina. 24... 6.. De uma coisa estava certa: conseguiria que os sinais de sofrimento e da maldição que tinham se abatido sobre ela desde o nascimento se apagassem do rosto da criança bem-amada. nunca mais separar-se dele. um esposo cheio de expectativa. você será bela! E será feliz!. tocados por Seu poder. Não faltavam forças miraculosas no mundo: mãos curadoras.." Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica: 1. Quanto a Honorina?.. 4. Os Amores de Angélica O Suplício de Angélica Angélica e o Príncipe das Trevas A Vingança de Angélica Angélica e as Insídias da Corte Angélica. fontes de rios sagrados depositários da corrente divina. nos braços do qual se lançaria prometendo a si mesma. Sua vista ameaçada? Ainda estava em tempo... impacientes por revê-la. amigos fiéis. "Eu irei. 16. 18. ainda uma vez. para um rei ponderado. 14. "Depois de tudo!". 11. a Favorita do Rei Angélica e o Pirata Angélica. 17. 3. com o prestígio assegurado. percorrerei o mundo se for preciso. Pegou-a no colo para ver-lhe o rosto de perto e examiná-lo. O céu bem que me deve isso!. como se apertasse contra si sua vida nova. 10.. mais uma vez..

Angélica protagonizou a maravilhosa trama que a conduziu da corte resplandecente do Rei-Sol às sarjetas de Paris. viajara como jornalista. já casados. estaremos reiniciando o lançamento dos títulos dessa série. animando os autores a produzirem novos volumes. foi imediato. dos haréns da África à intimidade de piratas. foi temida ou adorada. Angélica amou. com o dinheiro de um prémio literário. acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). O sucesso de Angélica. presentear. um sucesso da Nova Cultural. Estes. fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo. Nos 26 volumes que apresentamos. em Toulon (Franca). O Editor OS AUTORES: ANNEE SERGE GOLON Serge Golonbikoff nasceu em -Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Changeuse. celebridade na época: formado em geologia. lançado em 1959. em 1952. Çonheeeram-se e casaram-se na Africa. traduzidos para vários idiomas e transpostos para o cinema. Neste volume. com as aventuras de Angélica. Anne resolveu entrevistá-lo. a Marquesa dos Anjos. a partir da próxima quinzena. sustentado por uma narrativa de excelente qualidade literária. em 1928. . a inesquecível Marquesa dos Anjos. Serge era uma .25. sairão as edições seguintes de Angélica. Tanto assim que. a cada quinze dias. mineralogia e química. fez e sofreu intrigas. Marquesa dos Anjos. para onde Anne. Foi um grande êxito de vendas. 26. Atraída por sua fama. ou completar sua coleção: na próxima quinzena sai o no 1 e. odiou. Angélica e a Estrela Mágica O Triunfo de Angélica Caro leitor. Não perca a oportunidade de sugerir a amigos. tiveram a ideia de escrever unia novela histórica ambientada no século XVII: Serge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado já na infância. num verdadeiro turbilhão de emoções. cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes. De volta à França. encerramos a publicação de todos os livros escritos por Anne e Serge Golon.

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