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26 O Triunfo de Angelica

26 O Triunfo de Angelica

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Sections

  • Cantor de Peyrac despede-se da amante e enfrenta os piratas
  • As aparências de um sonho triste — Cantor esgueira-se ao Convento das Ursulinas
  • A mensagem redentora do Arcanjo
  • Cantor em busca de seu glutão, Wolverines
  • CAPÍTULO VI
  • Mariângela do lobo
  • A ressurreição de Ambrosina — Cantor face a face com a diaba
  • O fim da Diaba — Reação devastadora do Mal e a fúria dos elementos
  • Em Wapassu destruído, a espera angustiante de Angélica
  • Imenso abismo de gelo — Um ténue sinal de fumaça
  • O cunhado de Passaconaway — Insólita caridade no wigwam abandonado
  • Os pingentes de Jenny Manigault — A loucuras do silêncio
  • Entre a fome e a tempestade
  • Em meio ao delírio, o cadáver de um mártir
  • Frente a frente com o jesuíta Sebastião d'Orgeval
  • CAPITULO XVII
  • O refúgio volta à vida — Cuidados com o mártir moribundo
  • A caçada ao alce — Angélica e os lobos — Diálogo com um morto
  • A cumplicidade de náufragos desenganados
  • O suplício entre os iroqueses— Um covarde entre os heróis
  • O segundo martírio do jesuíta
  • Amor e ódio no jogo das paixões
  • A fuga das crianças — Esperança de salvação
  • Insinua-se o "mal da terra"
  • Uma partida insensata
  • Um companheiro de miséria — Apenas um corpo em movimento
  • "Eles estão mortos!"
  • A profecia se cumpriu
  • Um comediante nato
  • Um aspecto do espírito de Joffrey de Peyrac — Sonhos de regresso à Europa
  • A face oculta de Deus — Rei e rainha da Criação, anjos entre flores de luz
  • A primeira flor da primavera
  • A chegada dos homens de Gouldsboro — O cheiro da grelha dos iroqueses
  • O perdão de Utakê — O coração do mártir
  • Um último discurso de Utakewata — Notícias de Honorina
  • A odisseia de Cantor e Honorina
  • "Encontramos as crianças! Podemos partir" — Um novo limiar de felicidade
  • Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica:
  • ANNEE SERGE GOLON

Título: O triunfo de Angélica Autor: Anne e Serge Golon Título original: Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1989

Publicação original: Gênero: Romance Histórico Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida Nos quase trezentos anos que se seguiram ao descobrimento da América, os franceses tentaram de todas as formas estabelecer um império colonial em terras do Novo ^ Mundo. Desde o início do séc. XVI, quando a ação isolada de corsários e comerciantes os levou a explorar o litoral americano, até o final do séc. XVIII, quando tiveram de se retirar, cedendo ao avanço do imperialismo inglês, os franceses chegaram mesmo a estender seus domínios por um considerável território — no Brasil, nas Antilhas, na América do Norte. O auge da presença francesa na America registrou-se durante o reinado de Luís XIV, quando o Canadá passou a ser uma colónia oficial, administrada diretamente pela Coroa francesa. O comércio e o povoamento foram incentivados, fundaram-se novas cidades, firmaram-se alianças com os nativos. Mas a terra nunca produziu as imensas riquezas ambicionadas, e a sólida presença inglesa na região acabaria por frustrar seus sonhos coloniais. Depois da Revolução, praticamente findava o poderio francês no Novo Mundo. Angélica e seu amor, o Conde Joffrey de Peyrac, viveram o auge do domínio francês em terras americanas.

"Depois de tudo o que passei", conclui Angélica, "o céu bem que me deve a felicidade!" Num derradeiro gesto de esperança, Angélica correu o olhar pelo vasto horizonte ao longo da fortaleza destruída de Wapassu. Além, muito além das montanhas geladas do Canadá, do outro lado do oceano, o Conde Joffrey de Peyrac a esperava. Numa espécie de vazio causado pela saudade e pela angústia, sua mente rodopiou numa embriaguez vertiginosa. Ilusões! Vivera apenas ilusões! Sonhara com um Novo Mundo. Trabalhara para construí-lo. Amara todos aqueles lugares: Katarunk, Wapassu, Gouldsboro, Salem, Quebec. Todos, um a um, deixados para trás. O futuro que a aguardava era ainda um mistério, mas levaria consigo todas aquelas histórias com que preencher horas inteiras de numerosas vigílias e travessias. Reencontraria os amigos, e poderiam brindar e beber alegremente. Sua vida e sua obra não se apagariam. A lembrança de tantos momentos carregados de significados permaneceria como uma soberba promessa de felicidade. Agora seu desejo era navegar para a Europa num belo navio, numa viagem sem atropelos nem tempestades. Lá encontraria um esposo cheio de expectativas, para em seus braços se lançar, prometendo-se mutuamente uma vez mais: dali por diante, nunca mais iriam separar-se! O triunfo de Angélica Anne e Serge Golon Mais uma vez separada do marido, o Conde Joffrey de Peyrac, que partira para a França com o governador da colónia, o Sr. de Frontenac, Angélica não tinha a quem recorrer. Numa cabana perdida na imensidão gelada do interior do Canadá, diante das ruínas do que fora a fortaleza de Wapassu, destruída pelos canadenses comandados pelo Conde de Loménie-Chambord, ela não sabia o que seria de sua vida e das três crianças que a acompanhavam: seus dois filhos gémeos, os bebés Rodrigo Rogério e Gloriandra, além de Carlos Henrique, o enjeitado filho de Jenny Manigault, que tomara a seus cuidados. Os perigos pareciam brotar de toda parte: até sua filha Honorina fora obrigada a buscar refúgio entre os iroqueses, perseguida pela sanha vingativa da diabólica Duquesa Ambrosina de Maudribourg. A Diaba da Acádia e seu aliado secreto, o Padre Sebastião d'Orgeval, seus piores inimigos, como que ressurgiam das trevas. Quem viria em seu socorro: o Arcanjo da profecia? Como, se seu filho Cantor — identificado com o tal Arcanjo — acompanhava o irmão, Florimond, nas homenagens e divertimentos da corte do Rei-Sol, Luís XIV, em Versalhes, do outro lado do oceano? A VIAGEM DO ARCANJO CAPÍTULO I Cantor de Peyrac despede-se da amante e enfrenta os piratas O arcanjo estava no encalço da Diaba, desde a antecâmara do rei. Um pano de tapeçaria que se desloca, uma porta aberta para uma passagem estreita, dois ou três degraus a galgar. A crónica fala daqueles que conduziam do salão da Sra. de Maintenon à sala de bilhar, aonde o rei se dirigia todas as noites para jogar uma partida.

Um pajem o precedia, para segurar o batente de tapeçaria, damas mergulhavam em seus brocados e uma delas se levantava. Dois olhares, um de ouro, o outro de esmeralda, que se cruzam. E na sombra dos labirintos de um palácio, Versalhes, se engolfa o ar salino de um litoral perdido da América, o odor de podridão do peixe que seca ao sol, uma mulher que urra ajoelhada diante de um corpo trespassado por um arpão: "Zalil! Zalil! Não morra!..." "E Ela, tenho certeza", pensara Cantor de Peyrac. No mesmo instante, enfiara um luís de ouro na palma de um lacaio próximo a ele. — O nome dessa mulher que acaba de cruzar comigo!... O lacaio não sabia, mas, estimulado pela fortuna que acabava cair-lhe do céu, não precisou mais de um minuto para voltar e msinuar-se na assembleia que formava um círculo em torno ao bilhar do rei, e sussurrar ao ouvido do belo pajem, tão generoso: — Sra. de Gorrestat. — Seu esposo? Qual é? Seus títulos? — retorquiu-lhe o pajem, doando-lhe. um segundo óbolo. Dessa vez o lacaio abandonou por uma hora seu posto de porta-tocheiro, calculando que, se aquela deserção arriscava atrair-lhe admoestações, custar-lhe-ia menos do que o que tinha a ganhar a serviço daquele jovem senhor. Antes do final da partida do rei, estava de volta e confiava a Cantor, junto ao seu ouvido, tudo o que conseguira recolher. Aquela senhora era a esposa do senhor governador do Nirvanais, recém-chegado a Versalhes por convocação do rei. Corria o boato de que esperava uma nomeação importante. Sua esposa, pessoa de qualidade, discreta e agradável, agradara à Sra. de Main-tenon, que a recebia entre suas damas, o que para elas constituía a melhor maneira de ficar junto ao Sol. Soube que o casal já se preparava para embarcar no Havre para o Canadá, do qual o Sr. de Gorrestat fora nomeado governador. Já no dia seguinte, soube que se tratava exatamente da "viúva" do velho Parys, que se casara com o Sr. de Gorrestat. Tudo se encaixava. Se queria munir-se prontamente do dinheiro para uma viagem além-mar, Cantor precisaria encontrar um expediente. Ele compreendeu. Não havia mais nem um dia, nem mesmo uma hora, a perder. Correu à casa da Sra. de Chaulnes, sua amante. Encontrou-a inquieta por não ver o seu jovem amante havia quarenta e oito horas. Sem querer dar-lhe as razões de sua brusca decisão, Cantor avisou-a que tinha de embarcar urgentemente para a Nova França e que, com esse intuito, teria necessidade de uma soma de vinte mil libras. A Sra. de Chaulnes pensou que o mundo se fendesse em dois. Deu um grito terrível, cujo eco não podia voltar-lhe aos ouvidos sem que se sentisse petrificada de vergonha, de aflição e de dilacerante concupiscência. Um grito de animal frustrado. — Não!... Não você!... Jamaisl Não me deixei... Ele a olhou com um estupor indignado. — Não sabe então, minha cara, que nada dura eternamente? Eis por que nos é preciso colher o fruto e saboreá-lo quando ele nos é dado... Você o sabia quando me recebeu em seu leito. Não existe nada perene no mundo!... Tenho de partir!... Ela o imaginava sozinho, galopando por caminhos, atacado por bandidos, afogado... — Mas o mar!... — gemeu.

que nem se dava ao trabalho de contar. e derramava na escarcela estendida de Cantor luíses de ouro. — Meu irmão tratará disso. — Não. Ele se lançou aos seus joelhos como da primeira vez... que ela lhe confiava. — Não! Você não pode partir assim. Subitamente veio-me uma ideia. Ele se levantou. Ia esperá-lo. como o único tesouro de toda uma vida.. uma questão de paciência! Sua juventude resplandecente inspirou-lhe o arrependimento de não ter sabido levar as coisas da vida alegremente. Obrigado. abraçando-a.. Num impulso confuso.. seus raros sorrisos. minha cara. Ela gemia. "dia após dia! — Espere. pérolas de um colar.... Ele beijou as mãos generosas que seguravam as suas. Via-o apenas através de um nevoeiro.. cantarolando.. já sem lágrimas. Entregou-os a ele. pelo menos.. — Obrigado.. Será um pouco de mim que perma necerá com você. sem me dizer adeus!... de Chaulnes abria cofres. quando tinha a idade dele. O único que guardaria.. Seu único viático de amor! . Isso não era nada. — E reze! Reze por mim! Corria para a porta. que poderá negociar.. — Você vai encontrá-lo?.. enquanto a Sra. — Doce amiga. Falei com meu irmão para que a reem bolse o mais cedo possível. daquela fronte juvenil contra seu ventre.. — Mas afinal! O que se passa? Sua família lá na América está em perigo?. rememorando seus gestos." — Obrigado — gritou ele.. fez disso um juramento.Ele riu. preocupado. O animalzinho dos bosques?.. — Não é certo que eu o encontre — respondeu. Desvairada de dor. ela soube que ele era um homem. quem vai abater? — O Mal!.. Morreria com esse viático. O mar?. Algumas semanas ruins balançando ao sabor das ondas. — Meu belo sire. — Ele o chamou? — Não sei.. seja bendita!. um homem que teria tanto sonhado encontrar na aurora de sua vida! Com o qual teria sonhado tanto viver. meu querido.. "Minha cara.. Enquanto "ele a beijava. encheu-lhe as palmas das mãos. — Não descontente o rei. Dois diamantes de brincos pingentes. Trocavam algumas palavras. — Não o deixarei partir.. — O dever não se discute.. Cantor voltou e tomou-a nos braços. suas palavras tão sábias.. depois caixinhas.. ligado à sorte da nave que o conduz. não sabe então que nada é eterno?. cobrindo-o de lágrimas.. A vida toda ela conservaria a lembrança daqueles braços jovens enlaçando-lhe os quadris. diga-me. Cantor franziu o sobrolho.. fechou-lhe os dedos sobre as jóias como se ali estivesse seu pobre coração. sonhando. Fique com tudo. E ela se afastou... Uma sombra passou-lhe pelo rosto.. — Pior que isso! Ela deixou cair a cabeça em seu ombro..

provida de uma tripulação restrita. capitão. Cantor voltou-se e descarregou sobre ele a pistola à queimaroupa. que essa intervenção lhe prove a seriedade de minhas palavras. conseguira se libertar dos laços um pouco apressados com que Cantor o paralisara.. Era um patacho. Se eu chegar vivo às praias do. um porto da Normandia. Reflita bem. Cantor ofereceu uma boa quantia para subir a bordo. Indiquei a minha família em que navio embarcaria. pode levar vantagem quanto à velocidade sobre os grandes monumentos de três pontes e vinte e cinco canhões. — E continuou: — Estou em suas mãos. navios de comércio. arremessaram-se sobre a forma ali estendida e. Ocultar-lhe-ei seu nome a fim de que não alimente o projeto de me manter cativo para pedif resgate. — Capitão — disse-lhe —. aplicados na parte traseira de seus crânios. A metade do ouro que trago comigo em troca de minha vida. mas formada por sujeitos que se encontram o mais das vezes no mar. seus dias estarão contados. sua esposa e sua comitiva. — Você matou um de meus homens — disse o capitão. fizeram-nas adormecer de vez. daí em diante. duas silhuetas se insinuaram na despensa onde dormia. Proponho um negócio. pois. não apenas será obrigado a dividir com seus piratas. que sua aparência e seus luíses de ouro exibidos não deixariam de suscitar intenções muito precisas em seus espíritos. Frota e flotilhas de pesca sazonais. como roubá-lo e assassiná-lo. mas não poderá desfrutar os poucos luíses que lhe sobrarão. As primeiras partidas efetuar-se-iam aproximadamente nas mesmas datas. dois socos violentos. Em qualquer canto do mundo aonde você fosse doravante.A perseguição levou Cantor de Peyrac até o Havre-de-Grâce. mas você está também nas minhas. Soube também. Depois Cantor de Peyrac foi despertar o capitão e pediu-lhe que o acompanhasse a fim de verificar os danos que haviam pretendido causar-lhe. encarregados do correio e de passageiros para a Nova França. e cuja única vítima fora o manequim de panos e trapos estirado em seu lugar. Sua experiência das travessias e dos navios ensinara-lhe que uma casca de noz rangente. e você não gozará muito tempo de minha fortuna adquirida. enquanto se ocupavam em lanhá-la a golpes de facão. um dos marinheiros que. já haviam embarcado todos em coro. como se não estivesse muito certo de que estivesse ali estirado a seus pés. no mínimo. retida por reparos indispensáveis de última hora. ou todos os meus bens e minha vida. em manter a boa reputação de seu navio. conhecendo seus homens. Encontrou dificuldades. O navio que levava o governador provisório da Nova França. mas. — Quem não sabe matar não pode viver — replicou seu jovem interlocutor. Acabou por encontrar uma embarcação.veio em socorro do capitão. quero crer que você é um homem honrado e que não tem participação neste complô. Canadá. e ambos fomos instruídos a esse respeito por nosso pai e seu exemplo. Se me matar para ficar com tudo. mas surpreende-me que não se empenhe mais. mais hábil. Por isso. após contemplar o cadáver por algum tempo.. Sem contar que seus bandi- . ao saber que a intenção do capitão era percorrer pelo caminho mais direto o Saint-Laurent. dando a Cantor tempo para conseguir uma passagem para si mesmo. fizera-se ao mar dois dias antes. armado com sua faca. dar-lhe-ei a metade do que contém esta bolsa cheia de ouro. Na segunda noite da viagem. os homens de meu pai o encontrariam e lhe cortariam o pescoço. Enquanto isso. Só restava esperar que a tempestade que acabava de se formar sobre a Mancha os deportasse até o golfo da Gasconha e os atrasasse. pela cara dos marujos. — Eis uma verdade que meu irmão mais velho me repete todas as manhãs.

Cantor segurava-o com uma mão e com a outra continuava a cortar-lhe a respiração com a ponta do punhal. evitava os aguaceiros. piratas e calmarias podres. Nãò havia notícias de pessoas que tivessem descido na escala e que tivessem embarcado para a baía Francesa. Enviaram-lhe um homem de Dieppe chamado Léon. Uma alegre sensação de ter voltado ao país nasceu dentro dele ao aspirar o perfume das fogueiras. Em compensação. às vezes. de acordo com a pena prevista. Duas pistolas. E mais a espada pendente do boldrié. quanto àquele. — Nosso capitão fecha os olhos para esses jogos. sentado contra a amurada. culpado de ter-se ausentado da vigia a fim de praticar seu crime. seja colocado na golilha.. O pobre Muçulmano repelido saiu. — Posso pedir-lhe que os abra. CAPITULO II As aparências de um sonho triste — Cantor esgueira-se ao Convento das Ursulinas Na Terra Nova. — Que quer de mim? — perguntou o jovem loiro. além daquela. E começarei por lhe sugerir que. era repousante. das peles. pena leve. E devia ter uma adaga em cada bota.dos de marinheiros tentarão tirá-la de você. sem água. Em Tadoussac. O patacho. como fora previsto. tudo permaneceu calmo. Mais próximos do grande continente da América que da Europa familiar. Paguei-o para isso. proteja-me contra esses piratas com todo o poder e domínio que detém sobre este navio. O homem de turbante procurou fazer-se entender. porque ficara dez anos cativo em Argel entre os bárbaros e habituara-se a usar turbantes e aproveitar-se de rapazes. Estavam na outra vertente da viagem. Nem sequer conseguira ver a bolsa com os luíses de ouro. Foi uma travessia fácil. pela japona entreaberta do loirinho. confirmou-se que o navio que levava o governador. soprando uma flauta de pastor grego e mergulhando durante horas na contemplação das imagens.. onde a lei dos homens o fez o único mestre a bordo. — Conhece o regulamento de bordo "Faltas-Castigos"? Quais são os termos para aquela que se prepara para pedir-me que cometa com você? Cantor recitou com uma voz monocórdia de aluno: — Falta: sodomia. Desse modo. Portanto. um cutelo e uma machadinha como as dos índios. pena: estrangulamento e lançamento ao mar ou desembarque numa ilha deserta. continuava a tentar os bandidos. Tranqiiilizou-se em relação à família. a seguir.. continuava em Quebec. daquelas que entretém o tédio do marinheiro. com o vigor do vira-lata face aos cães de raça. que quiseram obter suas riquezas por vias menos diretas. vira um verdadeiro arsenal. indo confirmar a seus confrades que não havia nada a fazer. e o do rio. depois de Deus. mais insosso.. O sorriso meigo com que abordou Cantor congelou-se quando ao ajoelhar-se perto dele. deixou o patacho. após tantos dias na . As previsões do jovem navegador mostraram-se corretas. após acertar suas dívidas com o capitão. pés-de-vento. de ficar três dias no porão. sentiu a ponta de uma adaga espetar-lhe as costelas. o Muçulmano. sua esposa e escolta. O jovem loiro. e corria a boa velocidade pelas rotas ordinárias. mais recomendada.

Sua intenção era bater à porta da Srta. as pessoas caminhavam lentamente. Uma neblina antecipando o outono. Seus sentidos alertados dar-lhe-iam uma visão diferente da cidade. salmodiando. Um calafrio percorreu-lhe a espinha até a raiz dos cabelos. Ereta em meio à bruma. o olmo e o pequeno acampamento dos huronianos nos wig&ams de casca de árvores. A casa de Ville-d'Avray ali estava. soube que era a Sra.. a cidade. Mas não passava de um cenário. no . sempre tão ridiculamente afoitos em recolher o menor de seus sorrisos e de suas palavras. sabia já que faria o possível para manter-se incógnito. a maior parte do tempo dormiu com o chapéu enterrado até o nariz. um chapéu camponês que comprara na viagem por causa de suas abas largas. A tabuleta molhada parecia chorar. Vestidas de preto. sua mãe. tinham-no avisado. de selvagens e de grão-senhores. pois sabia. A casa parecia vazia. bastante fresca. enquanto não tivesse sondado o ambiente. sempre com o rosto escondido entre a gola da capa e o barrete. vazio e nostálgico. Os sinos dobraram. ao mesmo tempo. inverno após inverno. Quando chegou à praça da catedral. o cortejo que passava." Mas. A garoa ocultava as copas das árvores e o cimo do campanário e do domo. As cerejeiras silvestres à beira do riacho tinham a cor do sangue. No entanto. escondido num canto. Tudo estava apagado. sabido como Quebec acolhia o governador interino e sua esposa. percebeu. Prestando atenção às palavras dos transeuntes. Distinguiu a criada de Ville-d'Avray —a que não quisera ficar quando soube que não teria seu amo só para ela —. que ia exibir todas as suas graças de Benfeitora para conquistar a capital. Um latido abafado sugeriu-lhe que só estavam ali a' criada cativa inglesa e a cadela cananéia. "Ele vai adivinhar que estou chegando. passou pelo pátio e pendurou-se a uma das janelas da grande sala. mas as persianas estavam fechadas. permitia-lhe manter uma aba da capa sobre o rosto. tão bela com seus sinos e campanários. Aquilo tinha apenas as aparências de um sonho triste. tão bela. tivesse andado com sua corte de crianças. apesar de apreciar as sensações amigáveis da natureza. ouvido os comentários. o lugar perdia sua realidade. A agitação dentro e em torno dela pareceu-lhe fantasmagórica. cheio de mistérios e ameaças. Já era outono. atravessando a praça. enquanto subia a encosta da Montanha. com os dois atlas de bronze na relva. ocupada em esfregar as peças de prata como se. e nas embarcações que tomou emprestadas para subir o Saint-Laurent. Vendo um filete de fumaça diluir-se preguiçosamente no alto da casa do marquês. naquele caminho lamacento. não procurou dar-se a conhecer. Começou a subir a Rue de la Petite-Chapelle. à moda antiga. d'Hourredanne. Parecia inimaginável que.salmoura. Ia por lá. apareceu tocada por um morno encanto como uma cidade submersa. A Taverna do Sol Levante estava fechada. Entretanto. saltou a rampa. muito antes de Quebec. Le Bachoys que ia ser enterrada. que protegeriam melhor tanto do sol e da chuva como dos olhares indiscretos. Os crimes começavam. Diante da ilha de Orléans. por muito tempo a água era ainda salgada. Contudo. onde viu luzir o reflexo de um pequeno fogo ha lareira. que seu glutão viera rondar por ali. Tomou a direita. não estava deserta nem adormecida.

Bateu. a meia-voz. seu nariz — que ela indicava — avisava que. foi naquele instante mais próxima para ele do que todas aquelas que pudera encontrar desde sua partida. nascida no Canadá. Janine Gonfarel. por trás daquela mulher. . — Pense o que quiser. Delfina tinha fugido e. mas nem por isso pensam menos.. pelo que dizem. Longa narrativa. meu rapaz? Veio com toda a família? — Que nada! Mas trago-lhe notícias de seu amo. — Não me surpreende. queridinho. a Sra.dia seguinte. Eu nunca me engano. existe. Descobriu que houvera vários atentados inexplicáveis. soaram duas ou três badaladas.. Lembra-se daqueles senhores que fizeram sortilégios numa pedra preta. Ela o reconheceu imediatamente. que vi muitas vezes em Versalhes. que o exorcista teve de ir procurar com todo o aparato.. Seu mosquete estava carregado. o jovem explorador de bosques e a mulher do Canadá se interromperam e se entreolharam.. fora a instigadora. cocheiros. O senhor governador foi visitá-la e. a proprietária do Ao Navio de França. bastavam para dizer tudo e com precisão. sua generosidade infinita. um dar de ombros. Ainda não terminara a terrina de sopa que ela servira ao jovem viajante esfomeado. — Seria preciso saber o que atormenta Madre Madalena. Nós o encontramos entre nós como em toda parte. Essa mulher. Joana Serein.. ao vê-lo.. sua urbanidade para com todos. e que Joana Serein pontuava com breves observações. que têm às vezes uma carinha bonita. desfiando suas horas nos diferentes sinos e campanários do exterior. — Foi ela que ele viu na pedra preta — disse Cantor. havia algo de feio. Eis por que a Hen riqueta da Sra. de mau. subitamente. de que não lembrava nome ou sobrenome.. na catedral. criadas se calam.. Os aborrecimentos choviam sobre as pessoas honestas como granizo. Sua vida habituara-a a reconhecer as feiticeiras. Que alívio poder falar com franqueza e quase sem empregar muitas palavras! Uma mímica.. — Oh! Você aqui a esta hora. de múltiplos episódios. de Baumont morreu. Criados. de Gorrestat. Por captar a hipocrisia das pessoas importantes e não se deixar iludir por seus trejeitos. A cidade está louca e como que perdida. com os sentidos alertados por mudanças sutis na textura do silêncio noturno. que reconhecera e seguira desde Versalhes. e dos quais aquela mesma mulher. Embora todas aquelas damas se congratulassem com sua vinda. Inclinou-se ainda mais para a frente. inclinada para a frente. a freira desfaleceu de horror.. mas que o Diabo existe.. em casa do rei. naquela casa abandonada. um fungar. que ela ouviu sentada diante dele e. É isso mesmo o que está acontecendo. E começou a fazer-lhe a longa narrativa dos dramas e malefícios que tinham se desenrolado certo verão nas costas da Acá-dia. que os conduziu do fim do dia até a noite.. Cantor confiava nas pessoas simples. a hora noturna do maior repouso e.. se felicitassem por sua piedade. a ela. as verdadeiras.. Nesse momento. como ele. apesar de não ser bem com um mosquete que se acabava com aquelas histórias. mas continuou carrancuda. desaparecera. fossem receber convidados importantes para um lanche ou ceia. com os braços sobre a mesa a fim de falar mais de perto. e já sabia sua opinião sobre a mulher do novo governador. mais grave ainda.

ele. enquanto ao rés-dochão o ruído surdo de punhos batendo sacudia a porta. desceram às adegas. A fiel guardiã da casa de Ville-d'Avray recusara-se a retirar a trava da porta e abrir. de modo que não se podia penetrar na casa sem forçar a passagem. como a uma janela. acompanhado de chamados e de injunções: "Abram!.. do lado de fora. cercado de soldados do prebostado e delegados do novo governador. mesmo se fosse um pobre animal dos bosques!. E já que. "Eles" se aproximam! "Eles" rondam a casa! Com um sinal do queixo. Como outrora. O preposto dos Assuntos Religiosos retirara-se com seus homens. Sem fazer barulho. que ao cair da tarde ela colocara os batentes internos. nos arredores da cidade.Cantor lançou um olhar vivaz para as janelas. pensando em Wolverines. faz mais de uma semana. nos lugares onde supõem estar sua toca. protestantes tentando desembarcar na Nova França. Procuravam um jovem louro que ao chegar não se apresentara no cartório para declarar sua fé católica. sobre os quais tinha de vingar-se. — Isso não são modos. teria sido uma pena não se utilizar daquela rede de toupeiras tão cómoda.. ou ele deu ordens terminantes para procurar seu carcaju e matálo. Ninguém podia. não havia problemas. afirmando porém que poderia voltar. ela subira e. — Ela deu ordens. Tê-lo-ia reconhecido a ele. na antecâmara do rei. o filho daquela que não conseguira vencer? — Meu glutão será mais forte que eles todos — afirmou com fervor. por boa recompensa.. estão dando uma batida. encarregado de observar. Ela baixou de novo a voz. de seu esconderijo. vê-lo sentado àquela mesa." Fingindo-se de mulher arrancada do sono. Cantor de Peyrac. ele ouviu um diálogo veemente que por vezes tomava ares de discussão. aquele manhoso do preposto dos Assuntos Religiosos. ela o intimou a levantar-se. queria encontrar Madre Madalena. Era certamente "ela"! Se subsistira alguma dúvida sobre a identidade da Diaba. verificando. reconhecia aquela ferocidade minuciosa para com todos aqueles que a haviam ofendido.. — Um carcaju. na qual ele se escondeu. Surpreendeu-se de que a numerosa tropa que sentia em volta da casa não tivesse ainda irrompido porta adentro e feito um revista completa. Era. A criada alojava-se a meio caminho da escada de pedra. que era bem alta. cujas . Villed'Avray. que a repudiara outrora. Ambos pensaram ao mesmo tempo. O que lhes deu a uma hora dessas? Contentara-se em abrir a parte de cima da porta lateral e postar-se ali. eventuais clandestinos da religião reformada. é muito mais maligno que um homem! Quanto a sair da casa sem ser visto nem preso. que dava na de Banistere. Bastaria lembrar a adega do Sr. quando a tempestade impedia pôr o nariz fora de casa ou quando se temia o olho do vizinho. o qual tinha um processo com as ursulinas. Admirou a presteza com que ela Vestiu a vasquinha e a touca de-dormir. no momento da chegada dos navios. Homens e selvagens. ali se encontravam ovelhas sonolentas e palha. todos nós sabemos. com alívio. empurrando-a e galgando a parte de baixo da porta. pois bem! O caminho estava livre! Desde o tempo em que costumavam cavar o chão em Quebec e quando isso trazia um monte de problemas e processos monstro. Cantor sentiu-se empalidecer. — Isso nem se discute! Claro! — encorajou-o. antes de mais nada. onde uma grande vela se consumia numa pirâmide inchada.

como que virada do avesso. Madre Madalena. em que se viu uma declaração de guerra. — Minha madre. à noite. Cogitou-se em privá-la da santa comunhão cotidiana. a Sra. Le Bachoys. em desgraça. "Senhor. trabalhar sem descanso. devida talvez ao ciúme. a Diaba! — Basta!. Mas a menina que levara o recado voltou anunciando que a boa senhora fora acometida por uma congestão.. de Frontenac. tremendo sobre um fogareiro.. sem que hoje tenhamos de transformar o novo governador em inimigo. Ouviu o dobre dos sinos. punida.. ficou ali. mas ela chorara tanto. que chegavam do outro lado dos muros do claustro. Enquanto lidava com seus instrumentos durante o dia. Le Bachoys sacrificara-se muito pelo amor. que Ele lhe inspire o arrependimento.. que quis intervir na política que não lhe diz respeito. aquela que eu vi elevando-se das águas. Certamente. que a superiora teve pena dela. Foi assim que. da caridade da Sra. Se pelo menos a pobre religiosa pudesse falar com ela em segredo! Madre Madalena conseguiu fazer enviar-lhe um recado. de Gorrestat. sozinha e sem defesa com seu pesado e aterrador segredo. e que aquilo um dia havia de lhe acontecer. tinham por engano levado a seus entrepostos. onde devia. — Que Deus a ajude. lamentamos pelo Sr. mas isso era sinal de ousadia. "Eles" não acreditavam mais nela. a respeito de uma encomenda de tabernáculo que os burgueses da cidade baixa desejavam oferecer a uma paróquia da costa de Beaupré.. CAPÍTULO III Madre Madalena. E ela. Le Bachoys tivera uma frase chocante. fora relegada ao ateliê de douração. tendo de levantar-se à noite para cuidar da "cola de aparas de luvas" ou do urucu e da goma-guta para fazer o vermelhão. de coragem. feitas sob um terreno pertencente a ele.. mas você não teve habilidade. Isso desde a visita da mulher do novo governador ao Convento das Ursulinas.. Cantor de Peyrac conseguiu se introduzir até o ateliê de douração da religiosa visionária. Só se falava da piedade. e mostrava uma máscara oposta.. Ela estava morta. Madre Madalena ficou esperançosa. Le Bachoys era considerada uma "pecadora". de Fromenac. Seu coração se congelava. da modéstia. Importunada. cuja chama precisava permanecer estável e baixa. ou à fidelidade que muitos mantinham ao Sr. Portanto. sem ter o direito de falar durante o dia com suas companheiras. eu apenas disse a Santa Verdade. a freirinha visionária. e eis por que ela saberia resistir. como a primeira dama da Nova França tinha maneiras suaves. Não recomece com sua mania. A Sra. e que temiam por seus dias... depois de ter passado pelas adegas e ter emergido em meio às reservas de vinhos e de queijos do Convento das Ursulinas. Esse caso já foi resolvido há muito tempo e suas visões nos causaram aborrecimentos suficientes.cavações. Madre Madalena rezava por sua cura.. como penitência. vai me abandonar?" A cidade se transformava. . ela replicara: "A serpente também tem maneiras suaves". Sozinha nesse concerto de elogios. recebe uma visita inesperada "Eles" não acreditavam nela. Reconheça que você quis se tornar interessante. repreendida. Dizia-se que a Sra. diante da Sra. Ela prestava atenção às tagarelices. Tendo alguém observado..

Naquele halo luminoso e amendoado como a auréola de Cristo. — Ninguém. como um rio que regenera uma terra árida. tal como observara desde a primeira vez que vira a Sra. Como não compreendera há tempos que nada havia acontecido ainda? Era isso o que deveria ter dito aos juízes. a mulher nua. não tema nada. É horrível. nem de concluir algo. Juntou as mãos e disse. "Deus. Nada aconteceu ainda! Não sejam tão impacientes nem de ser tranquilizados. Ninguém crê em mim. Por que duvidara? Não sabia que o Bem triunfaria? Ele se aproximou. com um dedo sobre os lábios. de Gorrestat se dirigia ao Canadá. Uma onda de alegria inundou-a. É preciso silenciar. — Não. nem bem arrancado ao paganismo. Era-lhe indiferente morrer. fazendo recuar os espíritos malignos. pois estavam turvos pelas lágrimas. o mesmo que lhe aparecera. o arcanjo vencedor se parecia com ela. e ao qual consagrara sua vocação. E ninguém mais esperava por ele. minha irmã. assaltada pelo demónio súcubo saído das águas. Voltando-se. CAPITULO IV A mensagem redentora do Arcanjo Deus tivera piedade dela. de Peyrac. E aqueles que sabem calam-se ou tremem. se lançava sobre a Diaba e a fazia em pedaços. Ora.. de uma beleza surpreendente. precipitadamente: — Impeça-a de fazer malefícios. Você sabe quem ela é? — Sei. aos confessores. E. Eles decidiram que o caso da visão estava terminado.para enxugá-los. via definir-se a eterna imagem. Temia menos por sua vida. Mas acorri à senhora. A senhora conhece minha mãef Agora ela compreendia. quando a interrogavam e a confrontavam com a Sra. Depois a angústia apunhalou-a novamente. Caiu de joelhos no ateliê deserto. Silêncio! Estou'só. — Minha irmã. Vim para lhe recomendar isso e para que saiba . Bom Deus! O senhor sabe servir-se dos homens para Sua justiça e para socorrer os inocentes! Sua emoção era tanta. a obsessão daqueles anos todos de debates e de confrontações que sofrera. que ele parecia comandar.. Os lábios de Madre Madalena tremiam. que teve de retirar os óculos. do que pelo que ia abater-se sobre o país. não fará nada para nos salvar?" Atrás dela. Não dizer mais nada. eu me chamo Cantor de Peyrac. O Arcanjo da visão ali estava. de Peyrac se encontrava em Quebec. — Então. houve um leve ruído. era agora que ia se desenrolar o drama da Acádia. Ele sacudiu a cabeça. com seus olhos atravessados por sentimentos imundos. quando soube que a Sra. Se a Sra. a outra mulher que se opunha à aparição diabólica. enquanto um monstro de dentes aguçados. embora soubesse que um dia a "outra" voltaria para acabar confèla. estava em perigo. armado com uma espada. percebeu o Arcanjo. senhor. de Peyrac. e tremia dos pés à cabeça. Ela está em seus domínios e meus pais ignoram que voltei à América. "Deus! Piedade!" .O desespero e o terror invadiram o coração da freirinha.

docemente. que não tiveram sequer tempo de se descobrir para exibir sua ameaça de defesa. ... a pequena carcaju.. de focinho curto. mas doravante seria forte. Seu grande corpo peludo. com as garras fechadas. que os assistentes cobiçavam... — Não temo a morte. Alguém gritou ao longe: — Encontraram-no! Cantor apressou-se.que estou a caminho. erguiam-se rígidas e impotentes como braços de boneca... Desobedeça à Santa Regra.. Desceu até o rio Saint-Charles.. — É proibido dar a vitória ao Destruidor — sussurrou ele —. pareceu-lhe menor. sentiu ao mesmo tempo a fraqueza e a embriaguez que vêm a nós na convalescença. chamando umas às outras. "Teria se ressentido com a vida dos bosques?. contrastava com a cabeça pequena.. Wolverines Cantor abriu a porta do jardim das ursulinas..... não soube defender-se?. Pouco habituado à natureza selvagem. através dos pântanos. tinha um aspecto tão meigo. Vou ao encontro dela. dizem que está em Montreal.. após uma longa e perniciosa enfermidade. Onde ela está? — No momento. — Encontraram o carcaju? — Ainda não! Bicho desgraçado!. quando se sabe. Humilhe-se... se preciso for. Continuava a tremer. Humilhe-se.. Não o procuravam por ali.. Ele respondia como se pertencesse ao grupo. que tinha o poder de assustar os índios. contraídos numa triste careta.. pois não o podiam distinguir com o nevoeiro. O sol começava a aparecer e dissipar as brumas... CAPITULO V Cantor em busca de seu glutão. Seja mais forte que suas astúcias. Atravessou o cercado. como você entrou? — Silêncio — repetiu ele. Apesar da máscara negra de bandido. que se diluíram numa chuva fugitiva. o corpo abatidój com à longa curva de pêlos dourados que lhe ensolarava o pelame.. As curtas patas dianteiras.. permitiam vislumbrar as temíveis presas dos dois lados da mandíbula. Desconfiava que os caçadores que perseguiam seu glutão estavam por ali. Minha irmã. "É uma fêmea. pois fora apanhada na armadilha. Desculpe-se. Não incite mais sua vingança.. compreendeu. em torno de seus olhos.. Não é Wolverines. examinou-o. Os lábios.. Senão ela conseguirá matá-la também.. Wolverines." Mas quando se aproximou bem e viu o animal meio virado. — E preciso agir com naturalidade. — O que não a impede de deixar atrás de si um rastro de morte. — Mas. galgou o muro. com o coração batendo e as mãos sobre as armas. com as pálpebras cerradas. De longe. ouviam-se passos pesados e silhuetas indistintas passavam por perto. Seus olhos luziam com um brilho tão meigo e ofuscante que ela se perdia em seu esplandor.. evite encontrar-se em presença de quem quer que lhe peça para vê-la. Acariciou o pêlo sedoso entre as orelhas pequenas e redondas. e a neblina da alvorada era espessa. com a longa cauda soberba." Ajoelhado perto do animal inerte. Ao perceber que ele desaparecera.. mais franzino do que aquele de que se lembrava. Por instantes.

estraçalhá-los. Já desaparecera.. precedendo-o. Pelo resto da manhã avançou pelo sobosque e pelas brenhas quase impenetráveis de uma floresta que as lavras relegaram ao cume das encostas. até conseguir pendurar no alto de um olmo suas cabeças dilaceradas.. venha! Venha comigo. Venha comigo a Montreal.. e um olhar humano à espreita.. naquela mesma linguagem de palavras francesas.. foi de um a outro dos batedores. Mesmo reconhecendo-o. onde os caçadores iam recomeçar a perseguição a Wolverines. Começou então a correr. Mais um crime na série de crimes que vai se espalhar na esteira da Diaba.. entregando a cada um uma gratificação. separadas do corpo por suas garras e presas vingadoras. depois de tê-los vigiado e perseguido a ambos. Afastava-se sem ruído.. mais longe. os bosques de cimos franjados de chuva perolada. Mas vamos vingá-la. E continuou a falar-lhe até que sentiu que os laços estavam reatados. Ou então bem perto. — Despojos? Já os têm — disse ele. — Isso deverá satisfazê-la. onde os terrenos não tinham ainda sido entregues aos arroteadores. Vira tudo. até que pudesse esganá-los. — Ela nos fez prometer que lhe mostraríamos os despojos quando voltasse de Montreal. Nem o crime. em direção à margem do grande rio. deixaria que Cantor se aproximasse dele.. o caminho de água. até ali. Cantor voltou os olhos para os homens que o observavam. vislumbrou uma massa escura^ agachada sob arbustos. "Eles mataram a fêmea dele.. Wolverines. Sem ruído e à sua maneira peremptória. Havia tanta tristeza mas também tanta alegria incrédula naquelas pupilas que luziam sob as groselheiras silvestres. Jamais se esqueceria. Wolverines. Mas eu estou aqui. até liquidá-los.. e havia de persegui-los até derrotá-los. e ele falava incessantemente. A captura e o encarne.. Cantor levantou-se. — É que. siga-me. Não o reconheciam. Finalmente." Ele estava lá longe. mas que encontrava meio de se espraiar e progredir bastante na cidade.. agora. Parecia-lhe que o glutão não estava longe.. — Wolverines. deixando o grupo discutir com veemência sobre quem se apropriaria dos despojos do glutão fêmea. durante longos dias e noites cruéis? Nunca se esqueceria. um daqueles humanos que haviam matado sua companheira. nem aqueles que o cometeram. vamos vingar sua fêmea. seguindo-o. CAPÍTULO VI Na pista de Honorina — O barqueiro Pedro Lemoine . Era a fêmea dele". — Perdoe-me — disse ele mais uma vez. a senhora governadora também nos pagou muito bem para que acabássemos com o carcaju que ronda Quebec há dois invernos e que vem causando muitos estragos — observou-lhe um dos homens. gritando a plenos pulmões: — Siga-me. tanto sofrimento mas também tanta felicidade...E adivinhou: "Sua fêmea!. galopando e saltando sobre os obstáculos do sobosque. inglesas ou índias e de onomatopéias que outrora empregava. Wolverines!. com o pedido de suspender a caçada e limitar-se àquela caça que ali estava. não cheguei a tempo. olhando à sua volta os homens silenciosos e. daí em diante. observando-o. quando se encontrava na orla do valezinho devastado..

decidiu-se pelo Convento de Nossa Senhora. e que se cogitava inclusive que deveria fazer uma viagem à França. Por isso. A Sra. seu coração baqueou. Seu espírito permanecia ocupado por dois pólos: Ambrosina. antes de sua partida de Versalhes. e . e por fim compreendeu que a menina desaparecera. de Peyrac. de Maudribourg. Sem tergiversar mais. e ela lhe desagradou. Obrigou-se. captando o nome da Sra. que se apresentara como uma grande amiga da Sra. a Sra. de ar altivo sob um lenço preto bordado de branco. contudo. E tinha de se lembrar que a tal Sra. Cantor examinou sem condescendência aquela que lhe falava. era pois comovente e encorajador ter podido constatar com que fervor ela pusera todo o país em ação para encontrar a pequena interna fugitiva e a ajuda que trouxera espontaneamente às pobres religiosas de Nossa Senhora em sua preocupação. num tom leve e casmurro. Se continuasse a se expor daquela maneira. Não se enganava. de Gorrestat tentara mandar matá-lo. sem dar a isso muita atenção. por instinto. das ruas de Ville-Marie. apanhar na armadilha. Lembrava-se subitamente de tê-la encontrado. cujas funções estava naquele momento assumindo. Um pressentimento não parava de atormentá-lo. Em resumo. interessava-se pela menina. Se "ela" chegara à ilha de Montreal havia três «emanas. que devia proteger. Mas. hoje mulher do novo governador. Pediu para ver Madre Margarida Bourgeoys. o bispo. far-se-ia notar. que tinham doravante a felicidade de acolher junto àquele que ocupava o mais alto posto da colónia — o que era — explicou num longo parêntese — outro sinal da bênção divina. compreendeu sua imprudência. de Gor-restat misturado às explicações muito confusas que lhe dava sua interlocutora. e prendê-lo em Quebec. Madre Delamare disse que Madre Bourgeoys. pois até então a colónia só tivera em sua direção governadores privados da doce e generosa influência de uma companheira. se ainda houvesse tempo. fora convocada com urgência por monsenhor. pôr a salvo. Conhecia muito bem o ser infernal que jurara destruir dessa vez para sempre. maiores detalhes. pois "era muito desobediente". Isso também sabia Cantor. e se sentia estranho. com esse domínio mais aberto à compreensão e à atividade feminina —. a fim de explicar-se com o arcebispado de Paris.Antes de aparecer diante daquela que vinha perseguindo de tão longe. cuja tradição se perpetuava com a vinda das tribos vizinhas. não devia ter esperado para atacar a filha de Angélica. pois era esse seu objetivo ao empreender aquela viagem aparentemente oficial. Andando para a frente e para trás com hesitação. em Tadoussac e em Quebec. isso sim!". Cantor jamais estivera em Montreal. A cidade ao pé do monte Royal estava ainda marcada pela grande feira de peles do outono. pensou. em Quebec. Sua hesitação em buscar notícias de Honorina era causada pelo medo. de Gorrestat. que devia surpreender. era tocante ver com que dedicação aquela grande dama. sua diretora. não se surpreendeu ao ouvila dizer que Honorina de Peyrac não estava mais ali. tinha movido céus e terra para encontrá-la. apertando os lábios. e que aquela mulher caridosa e alerta parecia ser verdadeiramente uma amiga de sua mãe. Já estavam se voltando à sua passagem. tendo escapado por diversas vezes. Cantor rodou através. e agora se podia augurar que as obras de caridade seriam beneficiadas. e Honorina. quando uma religiosa. o recebeu num parlatório cheirando a cera e maçãs recém-colhidas. Ali as notícias corriam depressa. a exigir. Mas. Ao saber de seu desaparecimento. de Montreal. sem decidir sobre a qual das duas faria sua primeira visita. Medo de saber que chegara tarde demais. "Céus e terra! O inferno.

uma terceira se escondia. usando das prerrogativas de sua posição. Depois a menina desaparecera.. olhando para os lados —. O pesadelo recomeçava. pois esta mandara continuar as buscas. com medo de incorrer em censuras por tentar proteger as crianças. Um sopro deletério envenenava o ar que se respirava.. mandara trazê-la de volta. encontre-a! O que irá dizer Madre Bourgeoys quando voltar? Ela deixou ordem para que a menina pudesse partir com a caravana. Ela deu um grito de horror. a seu bel-prazer. pois essa pessoa. as meninas comiam pão com melaço e o olhavam com curiosidade. O coração de Cantor doía-lhe. confrangido pela angústia. em que se misturavam cólera para com as damas do lugar. contrariava suas ordens. Oh! caro senhor. em virtude dos estatutos de sua ordem de religiosas docentes mas não clausuradas. Pobres mulheres! Podia-se reconhecer ali o vento de desordem que se levantava à passagem da Diaba. terror em relação a Ambrosina. a linha da infinita floresta americana mal se distinguia sob a aproximação de um nevoeiro.também a Roma. pois sei de fonte segura. assim que sua superiora virara as costas. conforme pedido do mensageiro enviado por sua mãe. Chegando à cerca que delimitava o pomar. — E você tem razão. o que era motivo de muitas controvérsias nos meios eclesiásticos. Como Madre Bourgeoys pudera deixar em seu lugar uma pessoa como aquela que o recebera. o que acontecera a Honorina? . Ela era capaz de tudo. entre as santas mulheres. provocando muito barulho com as pesadas saias. — Senhor. Por trás da imagem mais inocente.. que se trata de um demónio. inquietação por Horiorina.. Mas. é o irmão de nossa pequena Honorina. Traçada ao longe. mas alegrei-me de que a menina tenha escapado. Depois voltou atrás. sob macieiras de ouro polido e cerejeiras nuançadas de encarnado. como sobre as almas negras igualmente. o rapaz compreendeu como as coisas haviam ocorrido. no fim da alameda.. me pareceu assustadora. — Não ouso emitir em voz alta minha opinião — sussurrou a freirinha. irmã — desferiu-lhe ele —. pelo que compreendi. Um dia encontrariam um pequeno cadáver mutilado. Ambrosina? Mais urna que se deixara enganar e que subitamente se achava guardiã do Mal. para impregná-las de pecado. Cantor estava furioso. uma sombra sinistra rondava. Havia como que um hálito ruim que embotava as cores e o brilho da vida feliz. Essas freiras eram todas retardadas? Uma abandonava suas responsabilidades por uma viagem que podia durar pelo menos dois anos. O rapaz deixou o lugar num estado de espírito agitado. detivera tudo e acionara a máquina ao contrário. que tinha por fundo a extensão cinzenta do rio confundida com o céu do mesmo azul-acinzentado que as águas. Como nossa irmã Delamare se-deixou enredar a esse ponto?. A força de interrogá-la. voltou-se para a casa baixa e branca. mas aparentemente não caíra nas mãos de Ambrosina. Ambrosina. armada com seu suave e inflexível poder sobre os seres de boa vontade. a outra. de uma fonte eclesiástica. Sentadas na relva. a mulher do novo governador.. que falava extasiada daquele monstro de vícios. um demónio súcubo. tapou a face com as mãos e fugiu soluçando para a casa. enquanto isso. Enquanto subia uma alameda de carvalhos que levava à estrada carroçável e que o ocultava da casa. A menos que fosse apenas um artifício para dissimular seu crime. ouviu alguém correr atrás dele e percebeu uma jovem religiosa que se esforçava por alcançá-lo. Suspendera a partida de Honorina. arauto dos primeiros frios.

Chegou à margem do rio e começou a acompanhar seu curso, sem saber ainda o que fazer. Para abordar a inimiga, a hábil criatura de língua viperina, precisava refazer as energias. Pensava em Honorina e, por trás dás palavras pronunciadas no parlatório: "ela era muito desobediente", "ela desapareceu", "causou uma grande confusão, fugiu", revia a silhueta da garotinha de cabelos ruivos, alta "como três maçãs", com a carinha redonda, desprovida de beleza mas tão cómica, encimando-lhe o lindo pescoço, naquela atitude de desafio e dê dignidade tão característicos... Que força indomável naquela criaturinha! Era por isso que havia uma tendência, a se mostrar duro e injusto para com ela. E ele em primeiro lugar, pensou com remorsos. É verdade que ela era insuportável. Mas continuava a sentir raiva de todas as mulheres, e quando pensou na injustiça que jamais deixara de pesar sobre Honorina, sua cólera estendeu-se àqueles que a tiveram sob sua guarda e que não lhe tiveram amor, portanto, a si mesmo. Todo mundo queria livrar-se "da menina. Ele também, quando estava em Wapas-su, queria que ela fosse punida. Aquela menininha, exigente e suscetível, que monopolizava sua mãe e mesmo seu pai sem qualquer direito, o agastava. De onde vinha aquela menina?... Era melhor não pensar nisso, pois sentia vontade... de desembaraçar-se dela. E agora, era bem feito! Não sabiam nem onde ela estava. Todo mundo quisera isso. Mas era uma coisa horrível, mais pesada que chumbo para se carregar. Pois ela era tão pequena e tão engraçada... Era orgulhosa, teimosa mas indefesa. "O que é uma criança?", diz o iroquês. "Não se pode dar importância a seus atos, pois ela não tem juízo. O que lhe deve o adulto?... Defendê-la enquanto ela se fortalece e cria juízo!... Mas Honorina fora arrancada e lançada ao vento!... Lembrava-se de quando ela lhe levava raminhos de flores, quando lhe engraxava as botas para lhe agradar... Ela sempre o amara. Ele era seu preferido. Por que a repudiara? Não compreendia mais. Era apenas uma criança! Não deveria ter deixado aquele estúpido ciúme corroer seu próprio coração. E agora Honorina estava perdida, por culpa deles todos, por sua culpa... As lágrimas brotavam-lhe dos olhos... Esforçava-se por retê-las. "Seguirei sua pista!... Irei até o fim do mundo. Farei aquela megera confessar. Eu a encontrarei, Honorina... Vou trazê-la de volta." A pequena Honorina em. preces. Fora assim mesmo que ela se anunciara da última vez. Ele havia ido às ursulinas de Quebec para despedir-se dela, antes de embarcar com Florimond. Mas ela mandara dizer pela madre superiora que estava rezando na capela, que tinha tido uma visão... e simplesmente se recusara a vê-lo. Que cabeçadura!..." Enxugou os olhos. "Vou encontrá-la, cabeça-dura!. Sozinho, acompanhava a beira do rio. Estava agora longe da cidade e ultrapassara as últimas casas, dispersas em meio aos jardins e campos. Ouvia apenas o roçar das plantas altas contra as botas e o sussurro dos insetos de fim de verão, cujo número começava a reduzir-se pelas noites frias, agrupados em nuvens vorazes. Maquinalmente dirigia-se para o oeste, tomara a direção oposta à de seu acampamento, um canto sob os chorões que escolhera na extremidade oposta da ilha, num lugar pouco povoado, onde só havia, no alto da colina, um velho moinho abandonado, por que o proprietário do lote nunca trouxera um contingente de pessoas

para povoar essas terras. Os sulpicianos que as haviam cedido estavam em negociações para retomá-las, mas o caso se arrastava, e o lugar, enquanto isso, continuava a ser domínio da caça aquática. . Cantor de Peyrac desembarcara ali pela manhã. Não se aproximara da ilha de Montreal sem precaução, e após uma série de manobras destinadas a confundir sua pista, e a encontrar em cada etapa seu companheiro Wolverines, seguia-o ao longo do rio. Dotado de um instinto que o avisava a distância de suas intenções, o animal esperava-o sob um arbusto no lugar onde o jovem viajante deixava a barca ou o navio em que conseguira passagem por um dia para subir o Saint-Laurent, ou então Cantor, sentado junto à fogueira na noite do litoral, via-o surgir ao cabo de algumas horas, dando grandes saltos cómicos. A canoa servira-lhe para fazer o animal atravessar. E agora, o glutão estava na ilha. Era preciso agir depressa, antes que os cães ou os índios ou habitantes, lavradores, pescadores, caçadores ou casais de namorados o descobrissem e anunciassem sua presença. Cantor de Peyrac tinha dè arquitetar um plano. Mas precisava acalmar dentro de si aquele furacão de inquietação que o submergira. Esforçou-se por se acalmar e encontrou consolo na lembrança de todas as brincadeiras que fizera com Honorina, aquele diabrete de cabelos ruivos. Pois, no fundo, os dois entendiam-se muito bem. Muitas' vezes empoleirava-a nos ombros para fazê-la dançar e saltar "como os índios" em suas danças guerreiras, gritando “iu! iu! iu!", e uma noite enluarada levara-a, às escondidas, para escutar o coro dos jovens lobos, chegando bem perto para vê-los. Uma voz de rapaz cantando sobre a água chegou até ele. "A seis de maio do ano passado, Fui lá para cima... Para fazer por lá uma longa viagem... Ir aos países altos Em meio a todos os selvagens..." Cantor levantou a cabeça e viu que o nevoeiro que vinha de longe recobria o rio. Ele passaria e iria pendurar-se na beirada do monte Royal para o norte. Ou então se dissiparia como por encanto. O outono era uma estação clara e alegre, de cores quentes mas breves. Por trás do nevoeiro, a voz melodios a continuava: "Quando a primavera chega Os ventos de abril sopram em suas velas Para voltar a meu país Na extremidade de Saint-Sulpice Irei saudar minha amiga Que é a mais bonita..." Uma barca despontou, saindo do nevoeiro, conduzida apenas por um rapaz de dezoito a vinte anos, robusto, no qual Cantor reconheceu Pedro Lemoine, terceiro filho de um negociante de Ville-Marie. O mais velho, Carlos de Longueil, servia como tenente no Regimento de Saint-Laurent em Versalhes e fazia parte de sua companhia.

Depois de se olharem, cumprimentaram-se. Pedro Lemoine passara também uma rápida temporada na corte. Apesar da pouca idade, era um marinheiro emérito, que já conduzira navios na travessia do oceano. — Julgava que você estivesse na França. Traz notícias de nosso irmão Carlos? Tivemos notícias dele recentemente por Tiago, meu irmão do meio, que voltou na escolta do Sr. de Gorrestat, o novo governador. Ao ver Cantor franzir o sobrolho, acrescentou: — Isso não quer dizer que estejamos de acordo com ele. Ele é meio louco, o Tiago. Fez parte do conchavo contra o Sr. de Frontenac. Mas tudo isso vai se acalmar com o inverno que se aproxima... E você, teria chegado também com o governador?... — Vim para procurar minha irmãzinha, Honorina de Peyrac. Pedro Lemoine, amarrando o barco numa estaca à margem do rio, saltou para a terra. Estava se dirigindo a Lachine e decidira fazer uma parada, enquanto o nevoeiro se dissipasse. — Sua irmãzinha, você diz? — perguntou, com um ar pensativo. — Imagine que há menos de três semanas ela estava aí, bem no lugar onde você está. Estava aí, sozinha, tão pequena e carregando um grande alforje. Eu a vi. Disse-me que queria ir até o solar do Lobo, à casa dos tios. Levei-a em minha barca e deixei-a não muito longe do solar. — Meu tio De Sancé! — exclamou Cantor, iluminado, pois via ali uma pista para encontrar Honorina. Dera pouca atenção à descoberta de uma parentela no Canadá. Já bastavam todas aquelas que Florimond desencavava em Paris. Subiu por sua vez na barca do jovem canadense. Obteria mais informações lá embaixo. "Ora, vejam, aquela danadinha!", dizia consigo, todo animado, "como soube se arranjar direitinho..." Um vento fresco dissipara as brumas. Cruzaram uma barca carregada de crianças. Os jovens de Montreal passavam a vida sobre a água, manobrando velas. Mosqueadas de branco, as corredeiras se anunciaram a montante. Pedro Lemoine deixou Cantor na extremidade inferior da costa. Disse-lhe que se preparava para partir para o alto Saint-Laurent e que, se quisesse encontrá-lo, estaria em Lachine, onde ia recolher bagagens e mercadorias. CAPITULO VII Mariângela do lobo Um elfo de cabelos loiros descia a campina, ainda verde, correndo e dançando, vindo em sua direção. Tinha um olhar que lhe pareceu familiar. Achou-a imediatamente muito graciosa e, quando ela parou a alguns passos para examiná-lo com ar pensativo, lembrou-se de que uma das filhas daquele tio, reencontrado após um silêncio de quase trinta anos, teria, diziam, os traços semelhantes aos de sua mãe, Angélica de Peyrac, nascida Sancé de Monteloup. O que, na ocasião, lhe parecera impossível. Em seu foro íntimo, devia retratar-se. Não seria mais o único a evocar um rosto que fazia o rei suspirar quando ele aparecia, o que ao mesmo tempo lisonjeava e causava alguma inquietação ao jovem pajem, portador, a contragosto, de sombrias lembranças para Sua Majestade. Esta era uma evidência que acarrateria outra. Os dois jovens pareciam-se de tal forma um com o outro que acabaram por rir.

Não sabia o que vinham fazer ali nem o que esperavam. — Por quê? — Para que escape àquela mulher que quer matá-la. uma manta e um braseiro como os usados nos navios. um pouco trocistas. Mas era a garotinha que estavam esperando. deixe-me prosseguir minha história. — Senhor! — exclamou Cantor. longe dos olhos curiosos que vêem de longe. Dessa vez subiram até o solar. novamente transtornado. Um índio trouxe-me notícias dela. E o problema é que ela não compreendera que daquela vez não fora por eles que tinham voltado. Finalmente alguém que não se deixava iludir.— Prima. no grande prado. no Caminho do Rei. meio granja. Ela o avisou que seus pais estavam ausentes. — Mas o que significa essa-maluquice de viagem e de correr por causa do governador? — gritou Cantor. meio entreposto. Eles voltaram no dia seguinte. — Por quê? — Porque o governador e sobretudo sua esposa estão pondo o país inteiro de pernas para o ar. — As pessoas estão enlouquecendo? — Gom efeito. eu lhe estou dizendo! Mas tenha paciência. Tinham sido chamados a Quebec e tiveram que partir para a capital. minha amiga. — Vi-os de longe. e Sra. uma boa parte da colheita de feno fora-empilhada. Num canto. como periquitos com seus saltos vermelhos. Mas sei o que lhe aconteceu. mas ela o levou para o lado das dependências de serviço. — Por que você se desola tanto por não ver meus pais? — Eles poderiam dar-me notícias de minha irmãzinha Honorina. posso dar-lhe notícias dela. lívido. . — Se é por sua irmã que está preocupado. Ganchos dependurados do teto prendiam lotes de peles. como se a jovem com jeito de fada fosse a única habitante de um domínio adormecido sob efeito de um súbito encantamento. de Frontenac. contava Mariângela. introduzindo-o numa vasta construção. O que não impedira que o tal governador chegasse a Montreal quase imediatamente após a partida do Sr. Esperou que ela o fizesse entrar no solar. Por pouco não a sacudiu. um pente e uma escova colocados sobre uma arca. tão impaciente estava. não demorou muito para acontecer. dos lados da Madeleine. abracemo-nos! Como se chama? — Mariângela. você me agrada — disse ele. Soube que ela tentqu encontrá-los. O pobre Cantor sentiu o peito dilatar-se sob o efeito de um alívio incomensurável. em frente a Lachine. Notou alguns objetos de toucador. esses franceses. Só o soube mais tarde. e foi ali que se sentaram. E você. Ela o mirava com os olhos claros e tranquilos. Ela colocou vivamente a mão no braço do primo. uma almofada. não? Olhava à sua volta e começava a se surpreender por não ver ninguém mais. a fim de acolher o governador que substituía o Sr. — Oh. Depois da partida dos pais. rendas e plumas. Sua carruagem estava parada embaixo. suponho que seja Cantor. passando afetuosamente o braço pelos ombros da adolescente. — Ela escapou-lhes. — Primeiro ela foi escondida entre os iroqueses da missão de Khanawake. "Eles" tinham voltado. — Venha contar-me tudo isso num lugar tranquilo. eu lhe imploro. do Lobo. — Fale. e depois os índios a levaram para mais longe. e foi lá que a pegaram. — Você a viu? — Não.

geralmente. Agora que estava tranquilo sobre a sorte de Honorina. a moça reteve-o.. Mas. Enquanto isso. não será coisa fácil livrar a terra da sua presença ímpia.. O índio batizado me disse que o intinerário devia ficar em segredo para que a menina corresse o menor risco possível. fê-se girar numa ciranda entusiasta. Dizia-se à boca pequena que a Sra. e suas forças também. onde fazem seus estudos. e o mais jovem. em sua primeira infância. — Certo! Eu encontrarei. alojei-me neste armazém. Privilegiadas por seu sexo. — gritou Cantor. num país em que faltavam mulheres. e ele me contou tudo. frios.. sentiu que ela o examinava com os olhos brilhantes de satisfação. — Não o tentaram. Era verdade que se parecia com Angélica. atravessar prados ou casas. subir alegremente uma escada ou uma senda nos bosques. tenho de acabar com o demónio. Que faria se voltasse à cidade e o reconhecessem? Fique até amanhã pelo menos. Enquanto ela se eclipsava.A esposa do governador andava à frente. Alguns dias mais tarde. pois essa parte do rio não é navegável à noite. você tirou de meu coração um peso enorme! Essa caça podre. Honorina fugira com a ajuda de uma de suas irmãs batizadas da tribo dos agniers. desejavam reaproximar-se de sua nação iroquesa. Vou buscar-lhe algo para comer. minha amiga. Agarrando as mãos de Mariângela. e eles a esconderam. E. Ela voltou com grandes fatias de pão. Estendeu os membros doloridos. Perturbou-se um pouco. — Ela continuou: — Encontraram a casa vazia. Mas. Tinha-a ainda quando. todas coisas urgentes.. — Que caminho tomaram os homens de Khanawake para ir ao país das Cinco Nações? — Ignoro. lhe davam ajuda. sentia-se esgotado. os maiores com os senhores de Saint-Sulpice. Antes. como se ele a tivesse conhecido sempre. dava-lhe vontade de correr. julgando agir cor-retamente. quando viram que aquela mulher vinha procurá-la com tanta constância e quê seus padres jesuítas. procurando alguém para entregar sua mensagem. .. Enquanto ele comia. sem se preocupar com a idade ou com a dignidade de sua posição. eu não quis voltar para dentro da casa. essas feras da corte não poderão mais persegui-la no fundo de nossas florestas!. apesar de batizados. Não devia esquecer que essas moças canadenses eram muito audaciosas. em Khanawake. mas mais tarde. e junto dela sentia-se à vontade. Eu disse a meus irmãos: "Vamos sumir daqui! Vamos sair por trás e nos esconder no bosque". — Está salva!. depois de sua passagem. — Anoitece. erguendo-se se atirando o chapéu para o alto. um pichei de sidra. Não tinha mais forças para pensar em nada. permanecendo apenas pasmo com esse encontro com sua prima Mariângela. Será um dia novo. ela se estendeu perto dele no feno-e lhe disse que seu pai lhe propunha partir para França para conhecer a vida de uma jovem nobre francesa. entres eles. Então. — Minha irmã está salva! Priminha. De Gorrestat não conseguia disfarçar seu desprazer diante da inanidade das investigações. O surpreendente era que Mariângela tinha também alguma coisa da alma de Angélica. Mandei meus irmãos instalarem-se na cidade. ela houvesse partilhado suas brincadeiras no Plessis ou em Versalhes. e supunha de bom grado que esta devia ter a mesma vivacidade airosa. incitada por um trabalho a realizar ou uma diretiva a ser dada.. Apoiado ao cotovelo. con-fiaram-na a uma caravana de cidadãos das Cinco Nações que. ficaram muito assustados. Como ele esboçasse um movimento para se despedir. em casa de minha irmã. Chameio. vi o índio que rondava pelas imediações. em sua juventude em Monteloup. casada com o oficial com guarnição no burgo de Saint-Armand. Cantor deixou-se cair para trás no feno. Você teria de ir pela estrada. creia-me.

com os olhos fechados. depois de enterrar o narizinho confiante em seu ombro.. Pouco adiantava maquilar-se com habilidade. Estava diante da penteadeira. conquistando. que. pois o frio do crepúsculo começava a se fazer sentir. Ambrosina de Maudribourg. havia Angélica. não sendo casada e não reconhecendo em si qualquer vocação religiosa. A desaparição da filha de Angélica parecera-lhe um mau presságio. que as esperava. nascidas e criadas como ela na Nova França. Mariângela do Lobo. que vinha solapar sua febre de ação. achava-se numa situação que não tardaria a tornar-se difícil. Os caminhos alambicados do Amor descritos pela Carte du Tendre e as sutilezas das preciosas parisienses eram-lhes desconhecidos. os nascimentos anuais. de fundadores de famílias. nos longínquos censos. do berço ao casamento. Ali estava ela. Ali. Ficou-lhe grato por não lhe fazer outras perguntas e por. Devia ter-se lembrado de que as terras longínquas exalam forças estranhas. Devia ser ao mesmo tempo mais infantil e mais amadurecida que suas companheiras. olhou ao seu redor com mau humor. E saboreara cada minuto de aproximação. como todas as crianças que nascem fora das restrições ou das desigualdades de uma velha sociedade hierarquizada. que lançou sobre os dois. Começou a experimentar o insólito dos lugares onde se encontrava. cada golpe desferido. prontas a assumir a solidão do inverno. mas que. ter-se posto a dormir.. no centro daquela casa de grandes pedras achatadas. não se embaraçavam com os ares reservados. juntando as palmas das mãos sobre o peito e tomando a atitude de um mor. desde que soubera que Angélica fora ali recebida antes dela. sentia-se pouco à vontade. Mas ali era pior. certas cicatrizes que não conseguia apagar inteiramente. a cor . por instantes. os trabalhos dos campos e do estábulo. CAPITULO VIII A ressurreição de Ambrosina — Cantor face a face com a diaba A Sra. Uma mulher tão bela de se olhar. eram afáveis mulheres de colonos. aliás. Mesmo tendo de reconhcer que era muito bem mobiliada.inocentes e naturais. que lhes pareciam sem sentido. quase dezessete. posta à sua disposição pelos anfitriões de Montreal. longe de procurar distraílo. Experimentara o mesmo em Gouldsboro. Em primeiro lugar. estendidos um ao lado do outro. bundo. Os curas de suas paróquias e as religiosas que as ensinavam tinham muita razão em fazê-las passar sem demora da férula da escola àquela do casamento. cresciam estreitamente motivadas por esse destino de mulheres de pioneiros. vivendo. endireitar os cachos junto às têmporas e bochechas. — Em que está pensaiído? — perguntou. devido a inquietação. aos dezesseis anos. os anos de formação mundana não eram levados em conta. já não é tempo de nos tratarmos como parentes íntimos? Levantou-se novamente para ir buscar uma grande coberta. lhe devolvia o reflexo de um rosto ao qual não estava ainda totalmente habituada. pois havia também o tédio. havia certas protuberâncias. — Primo. fazendo sofrer. Nada mais delicioso do que ver obscurecer-se. Era tudo tão entediante ali! Ao passo em que Gouldsboro. — O combate é para amanhã — respondeu. Desde os catorze anos. de Gorrestat.

Mas era Ambrosina que se entristecia ao lembrar-se disso. inatacável. que acabariam . Ambrosina sempre fora perita. que a ajudara a evadir-se. O navio se distanciara. nem dele.. nos quais o fogo ardente de uma virilidade declinante exige. e mesmo curas complacentes para passar papéis de casamento. sentia a amargura invadi-la ao rememorar o longo purgatório vivido pela Diaba vencida. para se acender. ao simples enunciado de um nome de batismo. nenhuma falha se insinuara em seu plano. diante de seus encantos. em assassinar Henriqueta Maillotin.. Podia felicitarse por não. Quanto a ela. tentava tornar-se amante da Sra. por bons escudos legalmente válidos. em desfigurá-la e entregá-la aos animais selvagens da noite. nos quais. nem dela.. por quem estava tão loucamente apaixonada. ou aquele. Tinha de ser prudente. . "Ele me desprezava. Julgavam que ela se cobria com um véu por viver à sombra de um amante rico. Desde o primeiro instante. Tanto um como o outro-se ativeram aos termos do contrato firmado entre eles numa noite sinistra. de Maudribourg. as defesas masculinas de homens considerados incorruptíveis: eclesiásticos ou altos funcionários devotos. No final das contas.©velho Parys era um bom comparsa e cúmplice. quando lhe insinuava que Joffrey de Peyrac. Ele a queria. como assassina. a tornara prudente. Durante todos esses anos. um homem idoso que voltara das colónias e que a tomara como amante. mas cujo corpo permaneeia-intacto. notários" ou homens de negócios. desfigurada. Ah! quantos anos de fingimento! E sem poder sequer oferecer a si mesmo o sutil e secreto prazer de torturar alguma tola esposa de província roubando-lhe o marido. cada uma de suas perguntas insidiosas tinha por ob-jetivo me desmascarar. Levara anos para compreender. não cedera a seus avanços?. quando retornara ao local escolhido para sua vingança. como um porco no chiqueiro. A França fervilhante permitia ao casal apagar os últimos vestígios. que a entregariam à justiça do rei. dar as cicatrizes do rosto tempo de se apagarem. desde a juventude.por tornar irreconhecível aquela jovem mulher que iria substituí-la no túmulo. de sangue meridional. igualmente imaginários. Fora preciso esperar. Hoje. ter dado qualquer motivo de suspeita. acompanhado de data e lugar de nascimento." Ainda agora. fora uma silhueta discreta deslizando pelas ruas. Queria se espojar sobre ela. mais voluptuoso ainda. um tal de Nicolau Parys. na costa leste de Tidmagouche. Uma amarga e inconcebível experiência.. desconfiou de mim. Precisava desaparecer. rangia os dentes ao pensar nisso.verde de seu olhar. feiticeira e envenenadora. queria ser salva e escapar de seus inimigos. vivida em terras da América. muitos artifícios. se tivesse sobrevivido. O pacto foi concluído. Enquanto acreditava que ele caía em minhas armadilhas. Sempre quisera e continuava querendo aquela mulher ferida. encontram-se> sem dificuldade. Sempre preferira os velhos. No fundo das províncias. Desmascarava todas as minhas mentiras.. de ver cederem. Desaparecer para sempre. Nenhum escrúpulo. Primeiramente. O velho Parys satisfaria sua necessidade carnal com ela. Ele! Ele! Por que aquele homem galante.

comprar alianças ou cumplicidades e. Ambrosina designara-se como nativa da província do Poitou. mas munido de apoio seguros e relações importantes. imposta ademais por um amo que não suportava o fracasso? Não fora tentada. à força de ser tão ajuizada. a própria juventude. não teria acabado por esquecer que só tinha um objetivo em vista: vingar-se deles e. principalmente. O que era excelente. dizia-se. Pois essa identidade falsa lembrava-lhe incessantemente que. aquele homem de pouca inteligência e muita vaidade. de qualquer modo. E pouco depois. pedira. Não era mais tão bela. se encarregavam. que transformara em marido. depois a pleitear um cargo na Nova França. por efeito de alguma poção. Mas essa fantasia criou-lhe problemas depois. por instantes. Sim. notícias da Sra. que começou à recrutar seus "fiéis": senhores arruinados ou criados sem escrúpulos. se fosse preciso. Os véus foram se tornando menos espessos. aquela evocação do Poitou provocava-lhe raiva. reduzir ao silêncio os "estorvos". e por vezes se felicitava por isso. bem pagos. já se podia considerar certa a desgraça de Frontenac. sob sua ordens. encorajara-o a se ocupar dos negócios coloniais. por correspondência entregue por homens da lei. tão jovem. bem recompensados de mil maneiras. de Maudribourg e de sua expedição. nessa questão de origem. Foi apenas depois de desposar. e depois a ressurreição de seu rosto. obrigado a ir a Paris explicar-se com seu soberano. tudo se passara conforme seus planos. Por isso. no final Angélica fora. sob pretexto de parentesco. para ela. a reclusa. houvera duas semanas em Paris onde se introduzira em algumas repartições. longe de diverti-la. dela? E por esquecer. a mais forte. . segundo seus desejos. o que era mais grave que tinha uma missão a cumprir. intendente de província. Ah! quantos anos fingindo. e seu substituto. sem sabê-lo. de fugir para outra cidade e mostrar-se com o rosto descoberto e sob outro nome." Acalentando suas ofensas. despertando seu ódio por "eles". a apagada. se conseguira enganar a rival. Os espelhos lhe anunciavam que podia reaparecer à luz do dia. que a haviam colocado em xeque. sua esposa. Pois. Para Ambrosina. vice-rei por vários anos. pois parecera-lhe que a outra nutrira com sua derrota a própria beleza. o Sr. espreitando no espelho a cura. e eu a mantinha à minha mercê. de Gorrestat? Muito rapidamente e atenta a todas as oportunidades. sua viúva. e que todos admiravam por acompanhá-lo tão corajosamente àqueles longínquos e rudes países. Não era isso o que mais a tocava. em Nevers. Não deixava de ser engraçado reclamar. de Gorrestat. os anos haviam passado para Ambrosina. quando estava doente.E. No pé em que estavam as coisas. e chegou o momento de o velho Parys falecer. almas negras de sua espécie. Havia algum tempo. e isso era culpa de Angélica. que se mandasse esclarecer o caso do La Licorne. para se divertir. apagada e discreta. Certos vestígios jamais se apagariam... longamente urdidos. a esquecer? E então calafrios de terror a sacudiam. que atrelava a sua fortuna e que. o Sr. durante a viagem do governador efetivo. o Sr. Múltiplas intervenções obtiveram para ele sua nomeação como governador interino. de intrigar. dizia consigo.. "Quanto mais eu descia mais ela se tornava deslumbrante. nascida Richemont. que se fazia chamar Armanda. de Frontenac. O primeiro desses servidores não era. A seguir. Não era mais totalmente a mesma. até em Tidmagouche.. para dar prosseguimento a sua vingança.

Nunca tivera a intenção de ficar mofando em Quebec. daqueles colonos-aldeões grosseiros. O acaso entregava-lhe a filha de seus inimigos. indulgente com esses inimigos da França e com os huguenotes franceses renegados. para uma reverência ao rei. Não receava as travessias. que a odiava por ter mandado executar Maria. pelo tempo que for preciso. se fosse preciso. Execute-o para mostrar que não é. conforme soubera. como o governador Frontenac. Prontamente a carruagem dos Gorrestat tomava o caminho do Havre..... que tinha a pretensão de passar por capital. entretanto. conseguira convencer seu esposo. Joffrey e Angélica de Peyrac. que conseguiram penetrar no estuário do Saint-Laurent. o novo governador.. "Traidores inimigos.. Desde os primeiros dias de navegação no Saint-Laurent. o olhar verde de um adolescente fixara-se no seu. cuja antipatiapudera perceber. fizera prontamente justiça. Mas. Junto ao batente de uma porta. antecipadamente. tinham-lhe escapado por entre os dedos. mas os prazeres que antevia nessa captura e nos sofrimentos que infrigiria a pequena vítima compensavam os aborreciamentos daquelas viagens fluviais em meio às homenagens. Por outro lado." Pena que.. sua amiga! "São ingleses!". pendurado às vergas de sua nau capitânia. "Paciência. como exigia seu novo título de mulher de governador. A primeira vez viera como uma benfeitora. não se tivesse podido capturar toda a tripulação do pequeno iate. Uma reverência supérflua. Seu objetivo não era ser incensada por aqueles xucros coloniais. Inquietava-se.. com um súbito clarão. o presente lhe apresentava imagens do passado. seus aliados. Mas. a montante do rio. o que todos eles estavam pensando?. Uma "pequena Versalhes".Depois. aquela tola da Delfina e a gorda proprietária do Ao Navio de França. o bufão. por causa do nevoeiro. da qual começava a duvidar. Por quê? Como?. e Ambrosina rejubilava-se por afastar-se da capital e fazer-se ao mar. Lambia os beiços. que não a notou de modo algum. "Mais tarde. sentindo-se reconhecida e suspeita em certos olhares. Gouldsboro". sentindo vacilar a infalibilidade de suas astúcias. livre para ir aonde quisesse. E Frontenac.. preparando seu sorriso mais gentil. isso não era de todo inútil. Mas sua nova função a obrigava a descer até lá. que navegava arvorando o pavilhão de franquia do Conde de Peyrac! E em Quebec. em Montreal.. E já estavam mortos os que deviam morrer. saber que a filha do Conde e da Condessa de Peyrac — a menina para a qual Angélica apanhava ame-tistas nas praias de Gouldsboro — era interna na instituição das religiosas da Congregação de Nossa Senhora. e pedido a desgraça do Padre Sebastião d'Orgeval. . O anúncio de sua morte a espicaçara. pois pretendia acertar ali alguns contenciosos com aqueles que. desta vez. A ilha de Montreal. o Tenente de Barssem-puy. e armara-se antecipadamente de paciência.. que sentia serem falsas e perigosas. uma cidade dos antípodas gelados. Ah! como se alegrara vendo balançar. Infelizmente. dirigira-se a Versalhes. Considerara uma volta afinal da sorte e da proteção oculta. a ser ali recepcionada e aclamada." Tivera razão. dessa vez. acreditava nisso. ficava longe. a Meiga. dissera a si mesma. que queriam ser chamados de "habitantes" e que se consideravam como senhores pelo simples fato de terem recebido direitos de caça e pesca. haviam apoiado seus piores inimigos.. estava do seu lado. tinha de passar por Que-bec. E pouco lhe importava começar pela província do Canadá. O Diabo. dizia aquele ridículo Ville-d'Avray.

fazendo-a deslizar na outra mão. que se pusera a urrar. E. fazendo que fosse convocada pelo bispo em Quebec. Conseguira afastar Madre Bourgeoys." Quanta paciência e abnegação aparente tivera de demonstrar para apagar a má impressão da cena! Aquelas pessoas do Canadá tinham uma proteção ridícula a adorar suas crianças e a dar-lhes razão em tudo. O que havia afinal naquela família que lhe era tão adverso?. já que lhe anunciavam que não podia ser de outra maneira. novamente. pois era com desprazer que tomava conhecimento de haver naquelas paragens um irmão de Angélica. Espalhou à sua frente. o Sr. sobre a penteadeira. Pegou aquela mecha entre o polegar e o indicador. tudo em vão.. tornarei a encontrá-la! A vingança é um prato que se come frio. uma a uma. por exemplo. Não fora por culpa de um enfraquecimento pessoal de suas faculdades. Angélica. tudo andara muito bem até então... uma fortuna distribuída. E começava a aceitar..Mas quanto mais os detestava mais se rejubilava. e que apaguemos em cada um deles a lembrança do governador anterior. pois teria muitas oportunidades mais tarde de fazê-los pagar por sua arrogância.. ao maltratá-la com raiva. o conteúdo dos dois cofrinhos encontrados no alforje da criança. Mas porque. um dente de ca-chalote gravado. de Frontenac.. e também os tios de Honorina. que Ambrosina. tão desejada. uma cumplicidade natural. possuidora de um incompreensível poder de sedução. durante anos de desterro numa província da França. Você pode esperar. diante daqueles objetos heteróclitos de valor desigual. Ali havia largada uma mecha flocosa dos longos cabelos ruivos que ela mesma arrancara da cabeça da menina. "Mais tarde. conseguira capturá-la de novo. Pior ainda!. Deve-se'desconfiar da coalização oculta dos membros de uma mesma família. a Diaba. "Partamos rapidamente para Montreal". e plumas. Conseguira pois afastar da criança seus protetores importantes. Desvanecia-se. Todas as investigações. "Muito frio!. Gouldsboro. antes que os desse à filha. mas de ondas poderosas. foi procurá-la no convento e.. uma vez mais. alteradas por uma inércia demasiado longa. cria-se entre eles. se via posta em xeque. Até o momento em que se encontrara diante daquela menina enfurecida. conchinhas. torturá-la até a morte e enviar. atacara a "eles". tratando-a de envenenadora: "É a Dama Lombarda! É a Dama Lombarda. um inexplicável revés. E depois. Gouldsboro. tão maldita inimiga. Era-lhe pois preciso concluir que a menina era tão perigosa quanto a mãe.. Sua presa desaparecia. que jamais lhe faltara.. não fora pela perda da proteção satânica. a envenenadora. Angélica. Tudo isso era exatamen-te desagradável. de beleza estonteante." Podia esperar aquele prato de resistência depois de oferecer a si mesma em Montreal o de raptar a pequena Honorina. a rigor. ao saber que fugira. uma estação nos gelos da pequena corte de Quebec. menos fáceis de enganar que os humanos do Velho Mundo. Ambrosina agora via claramente." Sim. dissera ao esposo. melhor dizendo. ." E repetindo interiormente o ditado. explodia num riso estridente. "é preciso que conheçamos todos os nossos administrados antes do inverno.. de uma espécie mal conhecida. adivinhava que alguns deviam ter pertencido a Angélica. as provas do crime a sua tão odiada. não fora sequer pelo fato de os franceses e os índios do Canadá se revelarem menos maleáveis. a mãe daquela criança. uma turquesa. mesmo entre aqueles que pouco se conhecem e não se dão bem.

que se podiam visitar em seus covis. Contava com o Sr. e a Sra. a Marquesa de Brinvilliers. Não era uma coisa injusta? Sempre fugir. de Varange.. quando lhe escapara no momento exato em que fora prender sua amiga íntima. 'Eles' também estão por trás dessa morte. Ambrosina tremia só de lembrá-lo. o policial atingia o cerne da fortaleza dos envene-nadores. morta!" Deu uma gargalhada que finalizava numa cachota macabra e sem eco. Uma suspeita assustadora começou á apoderar-se dela.. por trás daquela prisão.. "Se ela for interrogada. efetivamente. aquela pequena miserável? Como alcançá-la? Causar-lhe infelicidade? "Podem-se fazer muitas coisas com cabelos. de Gorrestat ainda não tinham embarcado quando souberam que La Voisin era acusada de tentativa de envenenamento do rei. quisera consultar a mais famosa das feiticeiras. a Mauvotsiíi. .. Seria preferível não deixar em sua passagem nenhuma pista que pudesse ser farejada. sempre dissimular. sem atrair a atenção da polícia e acarretar. daqueles padres pertencentes à or-de-nx fundada pelo Sr. para a função de mágico. desse desaparecimento". o tenente de polícia do reino.. motivo pelo qual se afastara precipitadamente. consequentemente. "Devia ter providenciado os serviços de um mágico. num refluxo imprevisível das circunstâncias. Entretanto. — A Duquesa de Maudribourg está morta! — disse. suspeitas e investigações? Passando por Paris.. Dessa vez... Por causa daquela personagem. disse consigo. Por que Varange desaparecera no momento em que "eles" chegavam? Como se quisesse ceder-lhes o lugar. Atenaís de Montespan fugia da corte. àquele Desgrez e a seu mestre.Onde estava ela agora. de La Reynie. nomes de adivinhos e adivinhas. em voz alta... "Foi ela que o matou!". escapando. exclamou. Como as notícias correm. com minha cara Brinvilliers.. Dois dias depois. sempre o horroroso policial Francisco Desgrez. e há muito tempo. Sempre esconder-se. Mas ali." Em Paris. de Peyrac tinham feito a Quebec. e aquilo lhe parecera inquietante e insólito. chamada La Voisin. Sr. dará o meu nome." Teria podido fazê-lo. Ao se aproximar de sua casa. uma de suas mais assíduas clientes. e a Sra. teria uma pletora de endereços úteis. Seu desaparecimento coincidira com a visita que o Sr. Paris inteira tomava conhecimento da prisão da adivinha em causa. eis que lhe anunciavam sua morte. Mas que importa que me nomeie? Estou morta". sua partida para o Havre assumira o aspecto de uma fuga. Como da primeira vez. perito na arte de feitiçaria e que a esperava em Quebec.. vira saindo de lá um grupo de "missionários". Desaparecido. E. como da primeira vez —. Ora. Foi outrora. Vicente de Paulo para pregar à gente humilde. ambos cães de fila do rei. Ambrosina sentira-se aliviada por poder fazer-se ao mar. Mas não pôde deixar de olhar em torno. medrosamente. o Sr. refugiar-se no Novo Mundo — onde poderia se manter incógnita com mais facilidade..

Onde? Quando? Por quê? Como adivinhara que o velho debochado era seu cúmplice? Impossível sabê-lo. que trazia em si a dor possível de Angélica. "Ah! como odeio as duas!. "Tornei-me realmente. inspirados pelas evocações lúbricas de seus projetos frustrados.. Parece que La Voisin ou outra comadre as batizava antes de enfiar-lhes a agulha no coração.. Mas fora Angélica quem matara o Conde de Varange. não lhe concederiam sobrevivência." Provas! Não podia acusar Angélica sem apresentar provas! Deteve abruptamente a louca progressão de seu pensamento."Ela vai pagar caro por haver arrancado a Satã sua presa.. Se não o conseguisse desta vez. imoladas nas missas negras. um pescocinho branco e firme. Mesmo esse Garreau d'Entremont. Ah! sim. Graças a Deus!. O medo e o ódio dilataram-lhe o coração. repetia baixinho com unrlongo suspiro. e. Suas mãos se abriam e fechavam no desejo de apertar um pescoço de criança. à acusação. nascido do mais profundo de suas entranhas. Queria muito gozar.. a não ser em voz alta e para enganar.. exigia provas. eu também. Esquecer o que acontecera na Acádia. Cometera um erro por esquecer.. fora de qualquer estratégia. "Que volúpia!"... Como é difícil afinal habitar uma carne tão fraca! E eis que. Hoje. "sem nome e nem mesmo batizadas.. se um pacto interior feito com as forças infernais não lhe proibisse empregar esse vocábulo. à pecha de feitiçaria. subjugado.. com a única finalidade de concluir sua missão. Essa nova polícia. mesmo. rezadas sobre um ventre de prostituta. Só podia ter sido ela. Idiota. em comparação às grandes personagens que pagavam um preço tão alto por sua imolação? "Larvas humanas.. o de Honorina." A frustração e o desejo das visões entrevistas atormentavam-na desvairadamente. teria dito.. Não devia mais fazer projetos. vão me considerar louca. adivinhava que era o medo que lhe apertava a garganta. Senão.Estava tão segura de seu pressentimento que não mais conseguia discernir se estava se deixando levar por divagações obsessivas ou se estava sendo avisada magicamente da realidade. e. Suas entranhas despertavam. O Medo! Era a primeira vez. que o rei pusera em ação. não tinha razão alguma para sobreviver. e seu corpo pareceu-lhe fraco.. Por não tê-lo experimentado nunca. mas não sofrer. indagava-se com terror." Mas pediria provas.".. Antigamente. de Varange. Que visão ridícula e despropositada! Que importância tinham esses bebés sem nomes.. torcendo a boca numa careta de asco.. muito ereto... O Fracasso! A Derrota total! Mas sobrevivera. de sua vingança inacabada. muito belo. queriam provas. E a flor da nobreza da França seria enviada à Bastilha ou ao exílio.. despertando nele espasmos voluptuosos. ignóbeis larvas brancas retorcendo-se e bocejando". muito bem pagas. Ele também sabe que foi ela que matou Varange. repetiu. verdadeiras larvas humanas. à guilhotina. Serei olhada com suspeita. bastava recorrer à delação. "Vou gritar em toda a parte que foi ela quem o matou. Angélica matara o Sr. . uma criatura humana?.. suplantado por forças que ela mesma desencadeara. que só espera uma denúncia nesse sentido. desejava um amplexo amoroso para acalmar ardores quase dolorosos. Sentia medo. por culpa dos cadáveres de crianças recém-nascidas.

. implorando seu perdão. Desde que se sentira reconhecida por ele em Versalhes. Oh! senhora — prosseguiu. que tinha os mesmos olhos da mãe. E quando se tratava de um belo jovem como esse. com efeito. e não me cabe nenhum mérito. Eis por que quisera mandar matá-lo imediatamente.se„trata de me assegurar desse milagre. procurando saber mais coisas a respeito dela. e dera-lhes ordens precisas a seu respeito e do glutão. Nada representam quando. quantas saudades me dilaceraram! Você foi tão maltratada na praia de Tidmagouche. Enquanto esses machos imbecis. Estremeceu-se violentamente. a vitória estava assegurada de antemão.. — Mande-o entrar! Sentiu uma presença no limiar do aposento.A voz de um serviçal informando-lhe que um homem jovem desejava falar-lhe chegou ate ela.. levantando a cabeça com desafio '—. havia também o medo. na an-tecâmera do rei. você me persegue. já que um acaso abençoado me permitia. tratava-se. Aquele que acabava de entrar era uma resposta a suas dúvidas e indecisões. que deixou à sua espera no lugar.. ao meu ardor e à minha paixão. escravos de seus sentidos e de sua vaidade. que o impele a vir aos antípodas para satisfazêla? Está gracejando. — Não acredito em você. Apesar disso. de joelhos tremendo. para mim. sem deixarlhe tempo de perceber nele e nela a falsidade daquelas declarações —. Embarcando talvez em sua perseguição. quantos remorsos me atormentaram. e tão injustamente! A loucura dos homens não tem limites quando o ciúme se apodera deles. — Senhora. Ela podia fazer as mulheres chorar. destroçá-las. Mistura de medo e de satisfação. Você está viva! E. como lhes escapulira novamente? Ele tirou graciosamente õ" chapéu de feltro e saudou profundamente. que importam os mares a atravessar. — Senhora. mas ele. — Eu estava à sua procura. Eis. . Ou mentindo. ao me lançar em seu encalço. exceto algumas. quando todos a julgavam morta há vanos anos. O animal fora morto. a de que ele não permaneceria lá. Preferia o corpo-a-corpo com o adversário.. destruir-lhes a existência.. apaziguar minha consciência. No corpo-a-corpo era a mais forte. uma surda certeza a obsedava. Ridículo! Pois. mas não domá-las. Posso saber por quê? — Reconheci-a. ao sair de Quebec para Montreal.. Descrevera-o a seus homens. belo pajem. não parava de imaginar aquele Cantor de Pey-rac. desde Versalhes. quantas lágrimas derramei. portanto. Entretanto. Ela repetiu: — Viram-no correndo em Quebec. pois. O atentado fracassara. senhor!. então? O receio não cessara de atormentá-la. o que eu tinha a lhe dizer. Acredita nele? Havia nos olhos puxados de Ambrosina clarões frios e fixos. Não é normal ter querido assegurar-me de que meus olhos não me haviam enganado? — Uma curiosidade tão desmedida. embarcara para a Nova França. a alguns passos.. Como era belo esse Cantor de Peyrac! Seu nome e sua beleza faziam ao mesmo tempo rilhar os dentes e subir água à boca. e voltou-se. e por que atravessei os mares. chegando ao Havre com o esposo. era muito fácil levá-los a ceder. Estava tão convencida disso que. está me reconhecendo? — Certamente — disse ela. previra sua vinda. assassinos. senhora. de satisfazer desejos muito diversos de uma simples curiosidade.

que a apreciava muito. Mas não pensei em nada!.. De que modo poderia provar-lhe esses sentimentos senão cometendo a loucura de persegui-la? O que eu procurava nessa corrida insensata? Veja! Julgando tê-la reconhecido. esse estremecimento era o sinal precursor de.. pequeno senhor."sêus receios. um arrefecimento passageiro da luta. mas. Ainda não eliminara totalmente testemunhas perigosas de seu passado. mulher do novo governador. tendo já conquistado os edis da colónia. Pequeno deus. Sra. tendo deixado tudo por ela afirmava ele. de.. por meu pecado". — Então é você realmente — sussurrou. A tal ponto que. de Gorrestat. que estava louca por ele.. entre outros.. então! Ambrosina! Esse nome cheio-de encanto preencheu minhas noites. era sobretudo aquela mulher aventureira do Novo Mundo — como esse papel lhe agradara! — que alguns anos antes passara. Senhor. Não queria ser reconhecida. Avançou imperceptivelmente para ela. Seu ser se desdobrava.. . depois apoderaram-se dele. — Mudei tanto assim? — Sim. — Reagiu a seu nome. mudou. com ansiedade. Sua beleza. mistificá-la!" Foi invadida por um tremor.. Os cantos da boca descaíram-lhe. como na praia de Tidmagouche. deixando-a "arrulhar" seu jovenzinho até não poder mais. em vez de censurá-la e desfazer-se dela.. Tiraria partido disso.. Olhou em torno com terror.. — Era isso o que me agradava — disse ela. ao mesmo tempo para levá-la de volta ao passado e fazê-la temer o presente. Ela era ainda. de Maudribourg.sua rendição? Ele notara suas fraquezas.. perdê-la. "mas. e estabelecido a reputação de dama caritativa e casta. abandonei imediatamente meus cargos na corte. ao contrario. com um sorriso matreiro e cruel. não me lembro de você ter me tratado com justiça. suas possibilidades de sedução. mais próxima de meu sonho. — Por quê?. Pronuncio este nome sem mesmo acreditar. a Sra. — Eu era apenas uma criança. mas com dificuldade. a rainha. Os olhos verdes defrontavam-se com o olhar de âmbar. Havia vários pontos em que não tinha segurança. e essas duas luzes se aniquilavam numa espécie de trégua. que minha carne sirva para issc^L. Quem faria tal gesto senão impelido pelo ardente e sincero sentimento que ouso confessar-lhe? Não reconhecê-lo é lançar-me ao desespero e desconhecer também a força dos ardores que me inspira. Que mistério explica que seja mais bela do que em minha lembrança. em que precisava ser assegurada. mas mesmo assim a reconheci. — lançou. senhora. quando por ali passara. ali estava naquelas plebeias províncias. desde que ele surgira. Ainda me restava uma dúvida. Mas não pudera refreá-lo. por uma odisseia secreta.Em Versalhes. — Tidmagouche!. — Com efeito.. pelo menos. ouvira mexericos a propósito de uma das damas de honra da rainha. Arrisco-me à desgraça junto ao rei. e adivinhou que o trejeito a enfeava. pensou ele. vivamente... — Ambrosina. com amargura. fingindo-se deslumbrado. numa voz estrangulada. ou.. — disse. cuspindo fogo e chamas. "Dane-me. — Está me ferindo.. não o pronuncie. nas praias da Acácia. — Psiu! — fez ela. aturdi-la. investido já de poder e de arrogância.. duvidando de minha lembrança e de meu fervor. — Não me nomeie — intimou-o novamente. concedera-lhe um feriado de amor ilimitado. — Tidmagouche.. cantando incessantemente dentro de mim. Explodiria em insultos. Ah! Sra. cujas peripécias nutriram incessantemente suas lembranças com fantasmagorias.

...... que rivalizava com a dela. da violência que era cometida contra você naquele momento. Nunca mais. sacudia-lhe o corpd. O horror e o asco comprimiam-lhe a garganta. Faço o que quero com eles. E você também. às duas! Quanto a ele. mais criança. eu tentava agradá-lo. "Eu a matarei. Sua mãe! E uma criança. Ah! como as odeio. ao contrário. . Por causa de minha beleza. Depois sorriu. jurou a si mesmo.. As pupilas de Ambrosina brilharam com um clarão venenoso. E. piedade de você. e dediciu acreditar nele. Cantor sentiu que empalidecia. O homem tem o direito de ser o mais forte. Diaba!. tinha daí em diante uma fome e uma sede devoradoras. elas zombaram de mim. Não ousou contrariá-la. Mas elas. Elas me escaparam!. E que me odiava porque eu conseguira seduzir seu pai e atraía o olhar dos outros homens.Ela sentiu junto de si aquela carne rija de um homem muito jovem. um dia ou outro. enojado. maltratando-a em sua fúria. tive. a única capaz de ajudá-lo a dominar sua cólera. numa praia.. mas chocava-se-com a onda contrária de sua desconfiança demoníaca. Reconduzida a uma vida longínqua. Seja como for. com uma soturna intensidade dolorosa.. pobre tolinho. Mulheres. um fio de cobre.. sua meia-irmã!.. a despeito de si mesmo. Mas as mulheres. em que ele fora quase o mesmo diante dela. enquanto ela falava. adivinhava que estava falando de Angélica e de Honorina: Uma candente indignação turvou-Ihe a vista. serenada. disse consigo.. não. em Gouldsboro.. — Todavia você estava com aqueles que se lançaram sobre mim para me massacrar! — Deus me livre disso. ele a via virar e revirar nervosamente em torno do dedo um longo fio de ouro vermelho. — Tive medo.. cintilante. por ter me repudiado. Ah! como odeio às duas." — "Elas" me desafiaram — resmungou Ambrosina. Não. até que compreendeu que eram alguns cabelos de Honorina... assustado com o amor e o domínio da carne.. que a harpia provavelmente arrancara do crânio dela.. não há o que temer deles. ele me renegou e mentiu para satisfazê-la. dessa sólida e segura sensualidade primitiva. — Bem que eu quis iniciá-lo. quero-as apenas como vítimas ou cúmplices! Quanto aos homens.. Apenas elas!. minha cara.. atrás dela. inconsciente de trair com essa atitude uma inquietação quanto à perenidade de sua beleza e de seus poderes. Um pouco afastado. — Não acredito em você — repetiu... "Eu a matarei". — Tinha medo da cólera de sua mãe. apagada. uma criança colocada sob Sua proteção. as mulheres não têm o direito de triunfar sobre mim! As mulheres me pertencem. Felizmente para ele.. perdeu o controle de suas palavras. O homem tem todos os direitos. ouviria mulher alguma murmurar-lhe palavras de encontro e promessas voluptuosas.'Era um homem. — Em seguida. Que Deus me assista e sustente minha espada!. flexível. que me eram desconhecidos. pois se tornara seu meio-irmão mais velho. Não será um pouco tarde agora para vir implorar meu perdão?. Sua necessidade dele devastava tudo. não lhe queria mal.. esquecida.. que atraía o tempo todo seu olhar. Pois é o mais fraco. um pouco mais jovem apenas. — Eu era apenas uma criança. Havia em seu ser um debate incoerente. É inadmissível! Isso exige punição!. pois disso. ela se voltara para o espelho e se examinava. que tinha ciúmes de mim. Creia-me. — Elas!. alguns dos longos cabelos da ruivinha.. — Lembro-me de sua maldade quando.

tomado pelo medo de que pudesse alertá-la pelo quebrantamento de um só de seus "pensamentos. que capitulou. Esse ultimato já dera certo anteriormente. pela extensão do perigo.. "Que minha carne sirva ao menos para isso". que a subjuga.. pretendia.. intimou a si mesmo. Toda a astúcia e sangue-frio de seu pai se reuniam nele. sirva para isso. a jusante do rio. ela esperava.. empresta por vezes ao olhar dos homens.. àquela hora da noite.. na ponta da ilha... ferindo sua sensibilidade infantil. junto ao bosquezinho. surdo às aterradoras palavras que ela pronunciava como que por descuido. rangidos. esvaziando o cérebro de todos os pensamentos.. Fora Florimond quem lhe indicara algumas estratégias e fórmulas que. Deu mais um passo em sua direção. e. O suor molhava as costas do pobre Cantor... cercado de olmos e de faias-pretas.. e ela se surpreendia com um sentimento mesclado de impaciência e de angústia que não lhe era habitual. pesados.. ao menor sinal. essa fixidez ausente. E o nevoeiro se soma à noite para dissimular aqueles que não querem ser vistos. estrangulada. enquanto ele murmurava: — Onde?. que poderia fazê-la suspeitar que ele não lhe era totalmente devotado. quando?. fixos nela. nada além de uma impávida luz. Ali existe um moinho abandonado... Mas ela não conseguiu ler nos olhos claros. CAPITULO IX O fim da Diaba — Reação devastadora do Mal e a fúria dos elementos Oculta sob um manto cinzento. Para a salvação de todos!. Saltos de rãs na água adormecida — de uma campina esponjosa coberta de caniços. eram irresistíveis. pronta a lançãr-se sobre ele." Ela via tão próxima sua boca polpuda. embora também se abrigasse à sombra daquela força e se felicitasse com sua proteção. "Que ela não suspeite nada do que o agita. firme. pensou. a fim de provocar sua ira.. Compreendia agora aquela força de dissimulação do Conde de Pey-rac. "Tome cuidado!". Espera-lo-ei lá. que tomara de empréstimo a uma de suas criadas de quarto. Procurando adivinhar-lhe os pensamentos.. Compreendia que a arma se forja pela virulência do inimigo. Ela estremeceu da cabeça aos pés. e confundindo-se. com a sombra projetada pelo moinho vazio. que uma cobiça ardente. brilho de cólera ou de repugnância.. ofegante: — Esta noite. que a traição só pode ser evitada com uma traição ainda maior. "que minha carne. O desnorteamento ávido que apareceu em seu rosto provocou-lhe náuseas. saltos abafados. A seus pés." E surpreendeu o olhar que ela lhe lançava pelo espelho. Os mil ruidozinhos do lugar davam-lhe arrepios. A menor suspeita do que ele sentia verdadeiramente decidiria sobre seu destino. obsedada. do lado dos bosques... Ela respondeu. o estalejar de asas como . Acorrentado pelo desejo carnal que o cegaria. que tantas vezes o irritara ou decepcionara. Como se ele já fosse uma aquisição indiscutível dela!.Como aquela horrível criatura ousava falar delas naquele tom diante dele?.. tornando-o indiferente a tudo o que não fosse ela.. quase imbecil. coaxos. Tê-la-ia enganado? Gostaria de crer nisso. uma fúria.

dissociação das naturezas inconciliáveis. perdeu a noção de sua própria realidade carnal. Em sua embriaguez de vê-lo. disse consigo. que lhe causava um padecimento tão atroz quanto um esquartejamento. menos renunciar àquele instante". que deveria ter subjugado tão facilmente e que se rira dela? "Tudo. A espiral arrastava-a. de conhecer o vigor de seus braços enlaçando-a. compreendendo demasiado tarde que esse corpo. sempre. esse fogo do sangue vermelho pelo qual "eles" estão prontos a vender sua alma. como o movimento de uma serpente sutil. girava em torno-da cena imunda. Tinha as pupilas fulgurantes. Ouviu os passos de um cavalo. tentando acalmar o glutão enfurecido.. fazendo de sua carne uma espécie de chama devoradora e sublime. apanhava-a em sua armadilha. a fitava com os olhos translúcidos como água límpida. investia. repetiu a si mesma. "Não". de saber tudo sobre ele. de segundo em segundo. Não podia nem mover-se. Era tão simples e era o que precisava ser feito. tomada pelo terror. nas trevas. nem avançar um passo. O fenómeno. — Face de anjo. De onde lhe vinha essa vontade devoradora de desfrutar o corpo do jovem. Mas este não queria afastar-se. A beleza perdida de Lúcifer ficava para o outro. passou a língua pelos lábios. Alguma coisa de si mesma lhe escapava. mas. e as da criatura feminina. como labaredas púrpuras que lhe fossem arrancadas uma a uma. ardendo de um desejo que. montado pelo jovem herói esperado. Por que vinha a cavalo? Ele não pertencia a este mundo. matizado por uma claridade mais para lírio do que para rosa. que batido pela luz. o pavoroso ricto daquele que fora expulso do céu para os infernos. — gritou. O fogo de sua paixão se desprendia de seu ser. de se afogar em suas pupilas límpidas. indagava-se. "Eu o matarei. Lançava-se com ímpeto sobre ela. apeara do cavalo e. voltava sem cessar. de um azul inviolado. como se lhe escorregassem das mãos as rédeas que sempre mantivera firmemente sim. lhe formava uma espécie de auréola. montado no cavalo prateado. pois implicava desobedecerão mestre. sua irmã. e as dores de um arrebatamento. O impacto do animal derrubou-a. depois!" E movida por esse pensamento.. à beira do bosque.. Estava deslumbrada pelo brilho de suas madeixas douradas sob o grande chapéu emplumado. Apesar de sua repugnância e do maldito terror que o invadia. Como fora tola deixando-se tentar por essa escapada! Ele já devia estar morto. que.. que lhe lembravam as de sua rival. lhe pareceu desconhecido e que deslizou para todos os seus membros. ocultou-lhe a visão da bola escura e aveludada fendendo a relva como um projétil. lá longe. E ela se transformou no mesmo instante em sua presa devastada. — Deixe-me chegar perto — dizia Cantor. um cavalo branco apareceu. E arremetia contra ela. Iluminado de frente pelos últimos raios de um crepúsculo que se quisera pálido. onde se abrigavam e despertavam pequenas corujas aveludadas. sibilante ascensão prestigiosa e fatal.de velas moles chocando-se com as ripas do telhado do moinho. que por duas vezes lançaram seu apelo modulado. traje habitual e muito mimado como instrumento dócil. . o que lhe inspirava um terror sem nome. "Era essa a felicidade conhecida pelos humanos?". maldito seja!.

encostando a testa ao tronco de uma árvore. O que sabia Wolverines? Lembrava-se dos cães gigantescos.. Achavam indigno que. Não sobraram senão as paredes de pedra enegrecidas. de Gorrestat mandou enforcar um iroquês chamado Magoniganbauit.. a meia-voz ou em pensamento-. passando em ziguezague ao nível dos telhados de Ville-Marie.. fez com que todas as testemunhas desistissem de prosseguir as investigações sobre a identidade da vítima. puxando o galho ao qual estava preso. a vomitar. como o pequeno gato outrora. pois seu nome significava "amigo do iroquês". o Sr.. Cheio de ambições. que obedeciam os caçadores que o acossaram em volta de Quebec e tinham matado sua fêmea diante de seus olhos?. sobre a qual só se falava bem em voz alta. a capital. Diante dos restos irreconhecíveis que. Simultaneamente. não longe dali. pelo estrangulamento. Mas a pavorosa descoberta. O governador estava aquela noite em casa dos senhores de Saint-Sulpice. caiu sobre as ardósias do solar que fora posto à disposição do senhor governador. encontrado lá pelos lados da ponta do moinho. Tratava-se de um índio batizado. Atabou quebrando-o e fugiu a galope!. um caçador de abetardas acorreu. julgando-a desaparecida no incêndio. recém-chegados da França. mas cujo desaparecimento causou secretamente a muitos um certo alívio. o Sr. tinham já servido de pasto às raposas. que Ambrosina lançara contra ele em Tid-magouche? Adivinhava que era às suas ordens. O cavalo relinchava. se impedisse um condenado de entoar seu canto de morte. de La Reynie. Os serviçais e as criadas salvaram-se a tempo. a fim de assegurar-me de sua morte. atiçando-o daí em diante contra a mulher assassina que ele seria encarregado de exterminar. embebidos em sangue. Esse tipo inédito de execução gelou de espanto todos os índios. de Gorrestat. a ela. como uma bola caprichosa. Foi essa a razão pela qual não se procurou imediatamente a Sra. com a ajuda de uma polícia inspirada nas reformas do tenente de polícia civil e criminal do reino. falando de um cadáver horrivelmente mutilado. baixaram-se rapidamente os restos da desditada mulher do novo governador. onde um Garreau d'Entremont se empenhava em fazer reinar a justiça do rei. É Na ilha de Montreal as investigações criminais não tinham a seriedade que lhes emprestavam ali em Quebec. numa região pioneira. Estavam ali nos postos avançados. encabritando-se. Depois você poderá fazer o que quiser!. Foi o tempo de formar-se uma fila de pessoas até o rio e de se apanharem os baldes. pendurada no galho de um olmo.— Deixe-me chegar perto! Devo fazer isso! Durante a viagem. Cercados de homenagens. Teria subitamente "visto". O horrível espetáculo levou os oficiais e fidalgos. ainda se duvidava. Tenho de enterrar-lhe minha adaga no coração. quando se surpreenderam por não encontrar nenhum vestígio dela. que lhe haviam sido insufladas. dominado pelo pânico.. mas acusavam-no de traição. e da necessidade de agir. tão grandes quanto ursos. A tempestade eclodiu! Uma tempestade sem chuva. a verdade do ser aparecido? — Deixe que eu me aproxime! Tenho de fazê-lo! Eu prometi. Um raio. engolfando-se por uma das chaminés. Eu prometi. de uma cabeça de mulher de cabelos longos e soltos. e já estava tudo consumido. viera falando com o animal domesticado por ele. mistura de carnes e de pedaços de tecido. . e ricocheteou. Foi preciso esperar para poder sondar as ruínas ainda quentes..

que lhes incitava a curiosidade. Soldados vindos da metrópole. Os onondagas comportavam-se. Nesse momento. isto é. acompanhados cada um de uma pequena escolta de guerreiros. encontrar em Montreal. numerosos mas dispersos pelas primeiras caçadas. prendendo-os a cepos que os carpinteiros tinham acrescentado aos preparativos da festa. onde não faltavam mortos a vingar. Convocou seu missionário. nos lagos que em certos lugares não . Seiscentos regulares. sem que ninguém o notasse. Foí um desastre. havia vários anos. As tribos. o mesmo número da milíci'a. subindo o Saint-Laurent para atingir o Forte Frontenac. despertavam sob a neve.~urh pouco menos de abenakis. Seus guerreiros. Ao término do banquete. de Frontenac. como nação pacífica. insuficientemente vestidos. de Gorrestat. Estava seguro de. quando estavam bem adormentados pela boa comida. Muitos foram esmagados pela queda de árvores que.Retomando o projeto que concebera de suplantar em ações gloriosas seus predecessores. Quarenta e cinco chefes iroqueses foram assim capturados e enviados a Ville-Marie. sendo outros tantos embarcados imediatamente para servir nas galeras de Marselha. o Padre de Guérande. nos pântanos invisíveis. Diante disso. o inverno abateu sua pesada pata sobre um outono ainda incipiente e que se anunciava brando. sempre ébrio de raiva e de transportes interiores grandiosos. sucumbiam sob o peso da insólita neve. Quatro companhias. e conseguiu persuadi-los a enviar uma delegação a Cataracuí para homenagear o novo governador. o Padre Raquet. que haviam agido apenas como governadores. trezentos milicianos e o mesmo número de aliados selvagens caíram sobre eles. na margem sudeste do lago Ontário. um dos mais ardorosos chefes da tribo dos agniers. deixaram-se tentar por um convite lisonjeiro. A escolha do território era infeliz. Em poucos dias. Assim que foi avisado de que os quarenta delegados das Cinco Nações tinham sido mandados para as galeras da França. como que possuído. que lamentavam não ter seu encontro habitual de verão para festins e danças com o Sr. congelados no sono. depois a Quebec. não tiveram tempo de se reunir. Numerosos capitães e grandes homens das Cinco Nações. vestidos com suas roupas de verão. também atados. se reuniram e dispuseram-se numa flotilha animada e cantante. Sem raquetes. enquanto ele pretendia agir como vice-rei. os homens se afogavam nos montes de neve. mandou que as tropas os cercassem e lhes amarrassem uma corda ao pescoço e aos braços. que se dirigiu aos cantões com o capelão das tropas. ainda cobertas de folhas. A moderação não beneficiou os onondagas. aproveitou-se do pretexto de vingar a morfe ignominiosa da esposa para reclamar o início imediato de uma campanha de represálias até os confins do vale das Cinco Nações. embora tardio. ou não despertavam. incessante lançados por Utakê. "eles começaram a entoar a plenos pulmões seus cantos de mortos". Haviam sempre resistido aos apelos do massacre geral dos franceses. Em Cataracuí. mandou-as desembarcar o mais próximo possível. tomaram o caminho do lago Ontário. algonquinos ou huronianos. o Sr. seguidores entusiastas nesse projeto. lançou suas tropas sobre os cantões iroqueses. duas de suas mais importantes aldeias foram incendiadas: Cassuets e Tuansho. como se a Natureza se sentisse subitamente importunada pelas loucuras delirantes dos homens.

Entre elas.. Fazia-o recuar logo. Cantor de Peyrac. o Forte de Richelieu e até o Sorel. iriam morrer de fome dali a algumas semanas. mas também de feroz reivindicação contra o Céu e os homens. de todo tipo e de ambos os sexos. Não foi o que se deu. O DESERTO BRANCO CAPITULO X Em Wapassu destruído. inimigos. no grito de derrota. com a intenção de alcançar pelo sul os cantões iroqueses. como se faz retroceder um cavalo empacado. A leste do Ontário. mas conhecendo o país. ao mesmo tempo curta e simbólica. aquilo lhe saltava ao pescoço. recobrindo por longos meses espaços infinitos. censura velada dirigida a nossa própria tolice e que sugere o movimento benfazejo de bater no peito ou de se xingar de imbecil. uma retomada normal da estação. ao norte do rio Hudson. carregando pedaços de gelo.estavam suficientemente gelados. de Gorrestat permaneceu no Forte Frontenac. que durante esse tempo subira o rio Utauais e chegava à baía Georgiana. Esse grito devia ser ouvido. começava a invadi-la sorrateiramente. . Mal-estar que traía a percepção profunda que já possuía da situação. o conjunto de seu desprazer. • Confissão de má sorte. compreendido por quem de direito. denominado Wapassu. privadas de qualquer ajuda. os exércitos bem ou mal reunidos e guiados pelos milicianos canadenses. tudo estava contido naquela palavra. no lago Ontário. o deserto branco se estendia.. franjadas de um mar enegrecido e esverdeado. e contra todos aqueles. palavra que todo francês. a mais convincente e expressiva começava por um m. traidores. constatação de uma situação desastrosa. os fortes Saint-Louis e Sainte-Thérèse. conseguira chegar à grande ilha de Manituline para invernar entre os odjibways. os fortes dos lagos Champlain ou Saint-Sacrement. No início. a espera angustiante de Angélica Uma ansiedade. havia aquelas garras apertando-lhe o pescoço e. parece trazer do berço. e mesmo perdida. um abrandamento. Angélica se sentia melhor. Num ponto dos quais. cujo vocabulário evocava com o Pátio dos Milagres. uma mulher e três crianças pequenas. que ela não queria ver transformada em angústia. Antes mesmo de ter percebido a volta de uma nova manhã. em circunstâncias muito penosas. eles mesmos incomodados pela chegada precoce do frio. Saint-Anne. protesto contra o destino adverso. Depois de tê-la repetido energicamente várias vezes. O Sr. um peso que a impedia de respirar. no peito. detido pelas neves. de ter reconhecido a luz da vida ao sair do sono e do esquecimento misericordioso. e pelos quais entravam. esperava-se uma volta do bom tempo. prisioneiras de um fortim soterrado. na ilha de Lamothe. à custa de injúrias e de palavras violentas. de impotência. escondida num canto da memória e que permite exprimir. Até as margens do. julgando estar atravessando planícies.Atlântico no sul e as do golfo-Saint-Laurent a leste. aos quais responsabilizamos. Assim que abria os olhos. verdade imposta por um subconsciente mais lúcido que seu consciente. fecharam-se nos fortes ou muralhas das missões que os sobreviventes conseguiram alcançar..

Assemelhava-se a uma crónica. com a ajuda de seu temperamento... Ele lhe dissera: "Eu lhe construirei um reino".Lançá-lo pelos cantos aliviava-a e lhe devolvia a coragem. fazendo-lhes.. Estimulava-lhes a memória interessando-se pelas imagens que já haviam acumulado e que. saltar. As felicidades vividas em Wapassu jamais poderiam ser apagadas. sacudia os cabelos. acrescentavam um toque suplementar e às vezes inesperado. nem os atos praticados. as vitórias. as roupas. ou então a caravana chegaria. comentários que com frequência não eram destituídos de sabor. cheios de malícia e de surpresa escandalizada. os revelavam. As crianças gostavam de sair quando o tempo o permitia. — Levantem-se. — Estão falando de Colin. como dizia Iolanda —. a narrativa das façanhas de seus amigos. Vamos tentar encontrar as armadilhas de Lymon White. um ser amado.. As crianças tinham razão. Carlos Henrique era o interprete dos gémeos quando ela não compreendia o que explicavam ou evocavam em sua animação. Havia ainda o que comer por alguns dias. alçar vôo para evocações alegres. pois revia mais intensamente os rostos de cada um. cujo desenrolar também lhe era benéfico. Pequenos Polegares! Está menos frio. As crianças não estavam conscientes dessas duas obsessões que pouco a pouco se instavalam em suas vidas e as comandavam. ter-se-ia encontrado uma solução. endireitava-se. Essas conversas permitiam-lhes evadir-se. Era uma pequena república. os habitantes da pequena república. O termo parecia-lhe impróprio em terras da América. Viu-se olhando de outro modo os arredores devastados. à noite. estão falando do cachorro. como que para espantar-lhes os miasmas da desgraça. Tomava pé novamente com animação. em episódios. e ela percebeu que não era apenas porque podiam foliar ao ar livre.. estão falando de Granadina. Perguntava-lhes: — Quem habita nossa pequena república? E elas faziam um esforço para evocar os rostos das pessoas que haviam amado e que lhes faziam falta. tomando um tom de lenda ao descrevê-los como heróis de romances. Retratos aos quais os comentários das crianças. os definiam. mas porque estavam felizes por reconhecer seu cenário familiar. sentindo-se nelas ainda a chama sempre pronta a se acender para brincar. as apostas. — Lembram-se daquele? Daquela? Ele era gentil? Malvado. repousavam-nos da monotonia das horas escandi-das pelos instantes muito breves das refeições e pela espera dessa outra evasão abençoada. habituara-se a brincar de "a pequena república". por trás de uma face machucada. Algumas vezes. Raimundo Rogério? Falava-lhes daqueles que marcavam sua lembrança ou daqueles de que não se lembravam. por sua escolha. sempre atentos às palavras proibidas e que não tinham perdido nada de seu requisitório contra a injustiça e a "cachorrada" da existência. como se reconhecese. de Carlos Henrique e também dos gémeos — aqueles pequenos "venenosos". era sempre Wapassu. Com as crianças. vocês dizem? O que ele fez que não o agradou. e. Para eles. caía na gargalhada diante dos sorrisos e olhos arregalados. correr ou dedicar-se a essa atividade especificamente infantil que . Com efeito. o sono. e ela se deixava levar a uma visão mais sadia e otímista das coisas. O raciocínio recomeçava a funcionar. Aquelenão era um reino. até lá. de nada adiantava proferir insultos aos quatro ventos..

e depois Gouldsboro. De pé no topo da colina. mas naquelas condições. Quanto a Gouldsboro. Às vezes. Teria desencadeado em vão sua crueldade cega?.. e teriam capturado. da admiração e confiança ao receio e rancor. ou se tivesse capitulado. grande dificuldade em conservar o rifrho de dias normais em sua vida de soterrados. ao longo-do Kennebec. mas Angélica sabia que teria. via claramente que a decisão dele de acompanhar Frontenac. diante das quais se apresentava o inimigo. sucessivamente. parou de erguer a voz e de mover os lábios. Situação que. com ou sem a ajuda de Saint-Castine. Quando pensava nisso. a paisagem. por viverem unidos. apesar das aparências.veitar-se de sua ausência. o que seria insuportável. sem dar um só tiro. Com o correr dos dias. Seus instintos tornaram-se únicos. lançando um olhar de desafio às lonjuras geladas que. Tanto um como outro. Mas fora a melhor estratégia. Chegamos a tempo às seteiras.. Também lhe fazia bem evocar tantos anos felizes vividos ao lado de Joffrey e toda aquela vida fervilhante que'se estabelecera e se desenvolvera à sombra de sua proteção e de sua atividade incansável. estavam formados nesse jogo de defesa inconsciente. pertencentes a Joffrey de Peyrac.. e a encontraram. E. mas os vingadores do Padre d'Orgeval limitaram-se a isso. A medida que se avança em idade e em experiência. uma vez ratificada. porque era isso o que tinha de ser feito. as minas e postos disseminados. como da primeira vez em Katarunk. falava sozinha. teriam prosseguido para o sul. dessa vez. e a tempo pegamos em armas. a discorrer com veemência com seu único interlocutor. voltando-se para um lado e para outro. Na verdade. desde o nascimento. pouco a pouco. prometendo revê-los em breve. a cada dia. a viver em comunidade. "Eu os detive!'' Julgando apro. Isto é. Tinham recebido a graça de chegar a tempo nos pontos sensíveis visados pelo inimigo. numa mistura de sensações interiores que oscilavam do medo à alegria mais exaltada. a que permitira evitar o pior.. de uma . a cada hora. talvez não deixasse de haver troca de tiros. de voltar a Wapassu. pois isso era mais um desgaste de energias. a bandeira do rei da França teria substituído. apesar dos debates e das separações que isso custara. seria mais espinhosa de acertar do que a atual. "É uma lei. bem vazio para crianças habituadas. uma lei lógica da Natureza. "O pior foi evitado". Elas nos favorecerá. "Eu os detive!" Fazia-se essa justiça para manter a coragem. porém. ignorando que ela já se encontra ameaçada. impusera-se naturalmente. Lembrando um por um dos amigos. no torreão do forte. Wapassu incendiara-se. a do escudo prateado do fidalgo independente. O que não queria dizer que se salvaria tudo sem perdas e danos. e a dela. mas adquirir esse sexto sentido que permite chegar a tempo em socorro dos pontos fracos da fortaleza. não tinham. quase sem o saber. como se costuma dizer. o que se exige não é permanecer continuamente alerta. tomavam uma tonalidade ou uma nuança diferente. sem esforço.. deixado que lhes passassem à frente.. Continuava. Se não estivesse ali. cujo último ato — a morte de Loménie-Chambord — lhe pesava no coração. repetia-se. Angélicatomou consciência do papel que a na tragédia recente. povoava seu refúgio. ela e Joffrey.os adultos chamam "fazer tolices". eles tinham vindo. Retornaram na direção do norte.

que permitiam sair da trincheira. e jogar água quente nos gonzos de couro da porta para desprendê-la. fome. ela se reaquecia e se punha novamente em ação. a chegada de socorro. era apenas um abrigo para quatro mineiros. sofrimento.. a Beleza. retirando a neve com a pá e desobstruindo a beirada da soleira e os degraus talhados no gelo. via através delas a imobilidade da Natureza. a cortina da noite abriu-se sobre duas nuvens cor de areia. Esta se tornava mais profunda a cada inverno. edificado contra o talude. Por esse motivo fazia essas surtidas quase todos os dias. aquela madrugada. à renúncia diante de sua força cega. Através daquele espetáculo grandioso passava a corrente de uma confiança que fortificava todo o seu ser. a um casamento.. Aquele dia. com acesso às galerias de minas. a certez -de que dessa vez. Isso constituíra um problema quando invernavam no fortim de Wapassu.. um viático lhe seria dado. gonzos. CAPITULO XI Imenso abismo de gelo — Um ténue sinal de fumaça Naquela manhã. suor do pão de cada dia. a crueldade do destino dos homens e a promessa da grandeza desse destino. para essa aventura da Vida que se anunciava e que seria preciso buscar. que você contemple o sorriso de Deus!. Como elas. se revestissem de gelo. Levantava-se muito cedo e seu primeiro gesto era empunhar o caldeirão. Suas metamorfoses coloridas anunciavam o aparecimento do astro do dia. frio. como se fosse a um encontro de afrior. de pé na pequena protuberância de neve gelada. a leste. Estas. uma flor de esperança. Diante dela. tornando-lhes perceptíveis as verdades salvadoras.certeza de domínio sobre os elementos ao acabrunhamento. o segredo dos tesouros enterrados. frágil. aquela orgia de cores. um verdadeiro covil. esse sangue vermelho e quente que circulava em suas veias. linhas. ao baile. ferragens. Angélica. Ela era a Humanidade tremula às portas do Éden. mesmo que o horizonte permanecesse mudo. pesadas e guardadas pelo anjo de espada chamejante.. ou à borda da trincheira. das consolações do esplendor. No início. Sabia também que. a uma festa. alguma coisa ia mover-se ao longe a aproximação da caravana. era como uma ópera. Alternadamente. Já meio enfiado sob a terra. mas com esse minúsculo e vermelho coração vivo que batia dentro dela. não teria mais forças para mover aquela porta pesada e abrir a passagem para fora. esperava o sol. Naves do espaço. "Através de mim. sua inércia petrificada. dava alguns passos como que para se colocar melhor no centra de uma solidão em que sua presença única de ser humano. colocado sobre as brasas.. Estagnavam imóveis por detrás do monte Kathadin.. Misturava-se a esse prazer um sentimento de espera. a neve só podia enterrá-lo ainda mais. carregadas de ameaças ou. Se tivesse nevado durante â noite. fecharam-se às suas costas. Mas também. alongadas como dunas sépia-escuras orladas de ouro. pois as ampliações e reformas não tinham sido feitas . naquele dia. tomava um significado decisivo. múltiplas formas. o segredo das consolações. Se um belo dia as almofadas de madeira." De pé na plataforma. ao contrário.

Era às vezes o único momento do dia em que podia perceber o sol. as neblinas se destacavam contra um cinza espesso. marcando uma pausa clemente. se nem um nem outro se mostravam muito agressivos. Era a vida. de um branco cintilante. quando a luz do dia começava a se expandir. Não estava mais assustada por estar sozinha ali. que retinar a neve. por trás do monte mais elevado. quando o sol estivesse a pino. Suas formas se alongaram. ou dissessem àqueles que se impressionavam com isso: "O inverno se fechou". pérolas. como um enorme escudo rosa. todos os instrumentos da' orquestra afinados. ao se estirar e se dividir. ilhas. ao alvorecer. nas trevas infinitas do céu e da terra misturadas. ametistas. desvelando aquele deserto branco mudo. De todo modo. um movimento ao qual era sensível naquele instante grandioso. Perdera um pouco a noção das datas e. Daquele jade puro ia surgir o astro dourado. até que. Angélica gostava daquela hora. não queria reconhecer que se havia atingido aquele momento do ano que. instante após instante. nuvenzinhas que haviam surgido. apanhado por uma pesada cortina de nuvens.-içava-se para fora do buraco e dirigia-se. não vinha ali para meditar sobre sua solidão. na fase mais difícil da estação. depois desaparecia. a alguns passos dali. A oeste. Falava. Depois que saía. fazia com que as pessoas de Wapassu pensassem com seus botões. Através de uma bruma translúcida. Nos vales indistintos. por aquele dia. subia à plataforma por um alçapão interno. sob pena de ver aquela abertura logo condenada. Um teatro ordenava-se para ela em todos os pontos do horizonte. a luz que subia já enganchava pontas de rubis. diamantes. Angélica sentia o vento. Agora. pareciam duas baleias escuras escoltadas por baleotes. . e onde nenhuma luz penetrava. nos outros invernos. que parecia prometer o perdão. Quando não se sentia com disposição para os trabalhos de desobstrução. as duas nuvens. surdo e congelado. Este. direito usurpado com frequência pelas nuvens invernais. Se a neve e as rajadas de vento não sopram. através da massa escura e tormentosa das montanhas adormecidas. não se sabia como. estando todas as cortinas erguidas. Havia uma vida. multiplicava os punhados de jóias lançadas ao léu. chamado o Lago de Prata. transmutado em branco e azul. e os ventres. Nos dias de muito frio. parece que o gelo afrouxa seu abraço. Seus dorsos eram escuros. o sol consentia em prosseguir seu caminho para um mundo purificado e. continentes com praias cor de mel. encobrindo-lhes os meandros. O lençol estendia-se de um lugar a outro. ele se levantava. Mas outras vezes o espetáculo se desenrolava com magnificência. a um leve desvio". distendendo-se. pois o talude em que estava encostada a casa ocultava uma parte do lago de Wapassu. Seria um dia em que o sol teria por mais tempo direito de cidadania sobre o mundo. Ao meio-dia. mas de uma maneira menos minuciosa que do outeiro. Dali também se podia abarcar com o olhar o horizonte. numa preguiçosa melancolia. do éter azul.na entrada principal. pois. praias. todas as manhãs. e onde podia observar o horizonte. mas sem pressa.precedem o alvorecer são talvez as menos sofridas. tornando-se. de um cinza pesado de tormenta. à beira de uma água azul levemente verde. A imagem não era idêntica. Mexia-se. formava a seus pés uma grande extensão branca. Tinha. acima dos rios e dos riachos. hà noite mal iluminada. navegando. as horas que. o mesmo e diferente a cada nascer do sol. recoberto de uma leve camada de ne^e naquele momento. sondava o frio e.

poderia deixar as crianças saírem. E como todas as manhas, no momento de deixar a plataforma ou -o belvedere, hesitava,, não se decidia a voltar para dentro; retida pelo encanto, experimentava uma frustração deprimente... Para se decidir a entrar, era preciso que o frio começasse a penetrar em seus ossos, que não sentisse mais nem os pés, nem as mãos entorpecidas, e certa vez teve medo de que o nariz lhe tivesse congelado, como acontecera com Eufrosina Delpeh, a comadre de Quebec, que, a fim de espionar os maus passos da Sra. de Castel-Morgeat, incorrera nesse dano. Voltando para o calor, espreitou, no espelho, com inquietação, seu apêndice nasal, prometendo a si mesma que seria mais prudente no futuro. Se um dia ou outro tivesse de reaparecer em Versalhes, não podia fazê-lo marcada por cicatrizes indeléveis de suas viagens no Novo Mundo. As cicatrizes são gloriosas apenas para os homens. E no entanto, aquela manhã, alguma coisa a detinha. Várias vezes voltou da porta a seu ponto de observação, com a impressão confusa de que um detalhe lhe escapara. Subitamente, com o coração batendo, uma interrogação se esclareceu. Em meio àquelas brumas errantes e longínquas, àquelas névoas exaltadas dos pântanos endurecidos e dos abismos fechados sobre quedas-d'água geladas, seu olhar detivera-se numa mancha ao longe, alternadamente esbranquiçada ou transparente, de formas cambiantes, e que se arredondava por vezes, como que impelida por um sopro do vento, ou, ao contrário, estirava-se verticalmente no ar puro, subitamente calmo, num filete branco. Menos que nada: uma mancha arredondada, depois um filete branco alongando-se, mas que não mudava de lugar. A partir do momento em que reparou nele novamente, não lhe despregou mais os olhos. Prendia até a respiração para poder observá-lo melhor. Estava infinitamente longe e não tinha mais consistência que um sonho. Mas não podia confundir-se nem com as briímas acima dos rios, nem com neblina. Era fumaça. Voltou para casa num transporte de alegria, mas não querendo acreditar naquele frágil indício. Seria fumaça? Muitas vezes durante o dia voltou a sair, a fim de espreitar o sinal, e ele continuava no mesmo lugar. — Você fica saindo o tempo todo! — queixaram-se as crianças. Finalmente, não teve mais dúvida: era fumaça. E, atrás da fumaça, havia homens. Fossem eles quem fossem, representavam a salvação. Ao cair da noite, deu mais uma saída. Voltada para a direção de onde vinham os sinais de fumaça, não conseguiu distinguir nenhum ponto vermelho que, na sombra da noite, teria revelado a localização de uma fogueira. "Por isso mesmo!", tranqúilizou-se. "Eles deixaram o lugar e apagaram o fogo porque continuam 'a caminhar para nós." Ficou observando durante muito tempo; quando, diante da obscuridade crescente, decidiu afinal ir para dentro do fortim, estava tão congelada que mal conseguia mover-se. Apesar da decepção por não ter podido distinguir nenhum ponto vermelho, continuava a ver naqueles diferentes indícios novas razões para esperar. "Eles" vinham, "eles" subiam em sua direção. Aqueles fogos eram de uma parada, antes da última etapa que os traria a Wa-passu, naquela mesma noite.

Algumas horas mais e os homens da mina do Sault-Barré, os da mina do Croissant, talvez os de Gouldsboro, alertados, desabariam na trincheira de neve e bateriam na porta do seu retiro, como daquela primeira vez em que, sob trombas-d'água, tinham se refugiado, após o episódio de Katarunk, e seria um nunca acabar de congratulações: 0'Connell, Lymon White, Colin Paturel... Acendeu o fogo na sala grande. Era o máximo que podia fazer para preparar-lhes uma recepção, fora a aguardente e o vinho... Para fazer as vezes de farol, subiu para fincar na neve uma grande tocha. Preparou os colchões e cobertas, e esperou. Ficou acordada a noite toda, mantendo o fogo aceso, espreitando cada estalo no exterior, julgando ouvir a todo momento ruídos de passos ou de vozes no sopro do vento, e precipitando-se ao seu encontro à soleira~'da porta na noite glacial. Mas pela manhã ninguém tinha aparecido, e o grande silêncio continuava. Entretanto, quando subiu à plataforma, a fumaça ao longe permanecia lá, no mesmo lugar, parecendo divertir-se com sua espera, desdobrando-se de modos diversos, em pequenos topetes ou penachos bem visíveis, tfepois fundindo-se até apagar-se completamente, para tornar a aparecer. Estava sempre lá como um sopro humano falando de vida,Tima respiração humana à superfície da terra. Daí em diante decidiu ir até lá para ver. Pelo menos, tentaria avançar suficientemente ao encontro do fenómeno para formar uma opinião. Se havia pessoas lá, elas representavam socorro, possibilidade que não podia desprezar. A ideia de deixar as três crianças sozinhas, nem que fosse por algumas horas, preocupou-a. Eram tão pequenas! Fez algumas recomendações a Carlos Henrique: entre outras, não se aproximar do fogo; acendera-o com pedaços de turfa, que duravam bastante tempo e não produziam chamas altas. — E se o fogo apagar? — Irão para a cama, sob as cobertas, para se aquecer. Não demorarei muito. Voltarei antes do anoitecer. Enfiou os calções de Lymon White, seu capote de lã grossa, puxou o capuz sobre acabeça, cobrindo-o, além disso, com um de seus gorros de pele, tão apreciados pelos habitantes de Wapassu. Escolheu uma raquete bem leve, pegou uma arma de pederneira, pendurou à cintura um chifre para pólvora e saquinhos com balas. As crianças seguiram-na até a porta, prometendo comportar-se. "E se me acontecer alguma coisa? Um acidente!", pensou, atormentada. "O que seria deles?" Recordou-se de sua angústia, na época de suas cavalgadas no Poitou, naquele dia em que, depois de deixar Honorina, um bebe de dezoito meses de vida, amarrada ao pé de uma árvore, a fim de correr em socorro daqueles homens atacados, recebera um golpe na batalha, perdera a consciência e dera por si na prisão, desconhecendo o que acontecera com a criança, sozinha na floresta. Sem saber o que ia encontrar ao final de sua expedição, voltou ao quarto e escreveu numa folha de papel: "Há três crianças pequenas sozinhas no fortim de Wapassu. Socorrei-as, pelo amor de Deus", e enfiou-a no bolso do capote. Se fosse ferida, se... Era preciso prever tudo e agir "como se..." Mas de fato, estava persuadida de que só se lançava a essa empresa para dissipar uma dúvida insuportável: era ou não fumaça, aquilo?... O que mais receava era estar tendo uma miragem. Encontrou as crianças brincando na sala, onde tinham mais espaço que no quarto.

— Podem brincar um pouco aqui, mais sair, não. — Nem para ir até o lago deslizar um pouco? — perguntou Carlos Henrique, decepcionado. — Deus do céu! Não! Não podem sair, estou dizendo. — Nem para fazer bolas de neve? — Nem para fazer bolas de neve — repetiu. — Por favor, meu homenzinho, você tem de se comportar como um irmão mais velho, como Tomás. Você se lembra de quando ele lhe dizia: "Respeite as instruções". Minha instrução é: "Não saia". Quanto aos gémeos, só lhe restava uma coisa: obedecer a Carlos Henrique. E repetiu-lhe ainda uma vez tudo o que ele devia fazer e não fazer, dirigiu uma última súplica a seus anjos da guarda e saiu para a planície. Avançava sem poder calcular a distância que teria de percorrer. Não sabia se o ponto que visava,e do qual não tirava os olhos, estava próximo ou se situava a horas, ou dias, de caminhada. Aquela fumaça ao longe era um sopro fino, uma mancha ínfima que se diluía, por momentos; perdia-a de vista, depois percebia-a novamente, sem estar certa de não se iludir. Dir-se-ia que era um sopro de agonizante, cuja interrupção significaria para ela, na verdade, quase que a morte. Seria, de qualquer modo, a perda de uma esperança louca. Felizmente, de passo em passo, a fumaça tornou-se mais precisa a seus olhos, lacrimejantes de frio, fatigados de perscrutar a luz para não perder de vista aquele traço azulado, que, finalmente, começou a se desdobrar mais nítido e mais próximo sobre uma cortina de árvores negras. A margem da floresta, homens tinham acendido uma fogueira. Não os via, mas, doravante, sua presença era indubitável. Outros pensamentos a assaltaram. Homens! Amigos? Inimigos? Homens que, vendo-a aproximar-se, uma forma indistinta e desajeitada, mexendo-se na imensidão branca, crendo talvez tratar-se de um animal, poderiam atirar à queimaroupa, como numa caça qualquer. Nesse momento e inesperadamente, um pedaço de bruma amarelada, bastante espessa, arrastou-se para ela pela-esquerda e a envolveu. "Prefiro isso!", pensou. O odor da fumaça a guiaria, pois agora podia percebê-la pelo olfato. Era embriagador. E apesar do perigo possível, Angélica estremecia de impaciência. Subitamente, sob suas raquetes, o solo cedeu. Avançando numa paisagem cujo revelo se esbatia devido à neblina, viu tarde demais a beira de uma falha profunda. Só teve tempo de se agarrar a uma pequena árvore no rebordo. CAPÍTULO XII O cunhado de Passaconaway — Insólita caridade no wigwam abandonado Angélica inclinou-se por cima da ravina. Era daquela falha que a fumaça se erguia em volutas preguiçosas, estendendo-se como um lençol e misturando-se à pesada bruma. Nesse momento, o ramo ao qual se agarrara, e que estava coberto de gelo, quebrou como vidro e ela desabou no buraco, batendo nos rochedos mas sem se machucar, devido à espessura da neve que arrastava consigo.

Viu-se no fundo, quase enterrada pela avalancha, e teve muita dificuldade em livrarse dela, encontrar a arma, que lhe escapara das mãos, e uma das luvas, que lhe fora arrancada. A neve introduzira-se em suas mangas, no pescoço, no capuz. Com movimentos de nadadora, conseguiu atingir um terreno mais firme, encontrando-se junto a um riachinho semigelado. Diante dela erguiam-se as colunatas de gelo de uma queda-d'água, um "salto", como diziam ali. Ao pé de uma cascata, no momento congelada e muda, estagnava-se a fumaça, emanando dos do-mos submersos de dois wigWatns índios, desses abrigos que os nómades armam apressadamente com varinhas flexíveis, sobre as quais jogam pedaços de casca de olmos ou de carvalhos. Através dos interstícios das cascas e sem mesmo derreter completamente a neve, filtrava-se a fumaça, traindo a presença de vida. Ao redor, e apesar da queda da neve fresca da noite anterior, distinguiam-se sinais de um acampamento. Percebeu um trenó e um arreio que emergiam e julgou ter ouvido rosnar um cachorro no interior de um dos dois cogumelos recobertos de branco. Com o dedo no gatilho, ficou à espreita. Ficara tão privada de qualquer presença humana naquelas longas semanas, provavelmente meses, que hesitava e temia o contato. Amigos? Inimigos? índios? Ou exploradores-de bosques canadenses?... A placa de casca que servia de porta afastou-se. Um rosto de mulher índia sob sua tiara de contas mostrou-se a meio, depois apagou-se para dar lugar ao do seu amo e senhor, um índio, o qual, para sair do covil, apontou à frente um alto birote oleoso, ornado de "facões" negros feitos de asas de corvo. Soerguendo a cabeça, observou a intrusa, postada a alguns passos atrás dos arbustos. Pelo perfil arqueado, o queixo curto, os olhinhos faiscantes, ela supôs tratar-se de um abenaki do sul. Assemelhava-se a Pik-sarett. A visão do mosquete não parecia impressioná-lo. Aventurando-se, chamou-o de longe, saudando-o em sua língua. Ele respondeu em francês. — Eu o saúdo. Sou Pengashi, da Federação, dos Wapanogs. De onde saiu, criança? Por sua silhueta, devia tomá-la por um jovem branco. Ela esboçou um gesto para o alto da ravina. — De Wapassu, lá longe. Ele franzia os olhos para vê-la melhor. — Eu pensava que estivessem todos mortos lá. Vi de longe as ruínas do forte e das casas... Deu-se então a conhecer, e ele pareceu agradavelmente surpreso. Ela lhe disse que estava sozinha em Wapassu com três crianças. — Aproxime-se! Entre! — intimou-lhe, afastando-se para abrir-lhe passagem pela estreita entrada. Ela fincou as raquetes diante da soleira, ao lado da cabana, e deslizou para o interior do wigwam. Uma vez fechada a porta, isto é, a placa de casca de árvore recolocada contra a abertura, aquele abrigo estreito, onde só se podia estar sentado, ficou agradável. Estavam imersos numa espessa fumaça, mas Angélica foi sensível sobretudo ao cheiro de mingau, que devia ter sido cozido numa panela colocada sobre as brasas, e do qual duas ou três crianças acabavam de juntar os restos em escudelas de madeira. Eram certamente pessoas muito pobres. Tinha escrúpulos em pedir-lhes comida. Pengashi contava que o inverno os surpreendera quando não havia sequer concluído o comércio de verão nas costas de New Hampshire. Mais que isso, não tivera tempo de caçar e de defumar carne e peixe suficientes para as provisões de inverno.

Desprovido de munições, tendo que abandonar suas peles num esconderijo ao pé de uma árvore, tornara a subir para as montanhas do interior para reunir-se à gente de sua tribo; estavam, porém, quase na mesma situação que ele, e todo mundo se dispersara, a fim de arriscar sua sobrevivência, cada um por seu lado. Seu irmão mais velho encorajara-o a dirigir-se ao norte, a fim de pensar o inverno sob a proteção dos brancos de Wapassu. Mas, após uma longa e penosa viagem, cruzou com alguns grupos dispersos de abenakis e algonquinos, que perambulavam, desorientados, e que o avisaram de que o Forte do Homem do Trovão estava destruído, não havendo vivalma ali. No entanto, não querendo acreditar naquilo, ele prosseguiu, e percebeu de longe as ruínas enegrecidas; resignou-se, mas, como estava quase sem víveres, antes de partir em outra direção procurou um lugar propício para acampar, a tempo de preparar armadilhas. Esperava poder apanhar alguma caça, muito rara devido ao inverno precoce. Tinham erguido suas cabanas havia três dias. No fundo de sua ravina, preocupado apenas com as armadilhas e a caça, antes de pôr-se novamente a caminho, nâo.pensara em examinar mais de perto o sítio de Wapassu e procurar ali sinais de vida, o que explicava que não tivesse notado a fumaça do fortim. Sua intenção era continuar para o norte e pôr a família ao abrigo das missões no Forte de -Richelieu ou no Forte Sainte-Anne. Enquanto falava, fumava seu cachimbo em pequenas baforadas e conservava uma expressão satisfeita, abanando a cabeça com o ar entendido de alguém que tem convicções próprias e que se felicita por ter conduzido tão bem os negócios. — O Forte de Richelieu? O Forte Sainte-Anne? Mas fica muito longe — observoulhe Angélica. — Por que não tentam voltar Pela Chaudiéré em direção a Quebec? Teriam de percorrer uma distância menor. Ele sacudiu a cabeça. Ouvira dizer que o exército do novo governador invernava no Forte de Richelieu e nos dos lagos Saint-Sacrement e Champlain, e que as barcas haviam passado todo o outono levando um abastecimento monumental de Montreal para lá. Não apenas ficaria com os seus, protegido da fome, mas também estaria no local quando chegasse a primavera, para participar da grande campanha guerreira que se preparava contra as Cinco Nações iroqueses. De repente perguntou o nome das crianças que estavam com ela no fortim, e quando ela respondeu, manifestou novamente uma grande satisfação. — Carlos Henrique! Carlos Henrique! — repetiu várias vezes. Depois, inclinando-se para ela, com um ar malicioso, confiou-lhe: — Sou o cunhado de Jenny Manigault. Em resumo, ele era o irmão de Passaconaway, o chefe dos pemacooks, que raptara Jenny, e com quem ela fora se encontrar depois de sua fuga, confiando seu filho Carlos Henrique a Angélica. Pengashi achava que seu irmão mais velho agira mal raptando uma francesa. — Nós dissemos a ele, no começo, nós, seus parentes, amigos. "Meu irmão, tome cuidado", sempre lhe dizíamos. "Você raptou uma francesa, e nossos aliados brancos do Canadá vão criar problemas conosco." Então, ele foi se esconder nas montanhas Verdes, mas, depois, avisou-me que soubera que sua cativa francesa era da mesma religião que os ingleses, daqueles que tinham crucificado Nosso Senhor Jesus Cristo, e que, por essa razão, seus compatriotas franceses a considerariam como prisioneira, se lhes propusesse devolvê-la. E, longe de resgatá-la, os franceses a entregariam a

outros abenakis como butim. Compreendeu então que ninguém viria tomá-la dele, se soubesse precaver-se contra uns e outros. A última vez que Pengashi vira o irmão, o chefe Passaconaway, ele se preparava para "descabanar" com sua família, comnosta de Jenny e da criança que tivera com ela, uma menininha, sua mãe e um jovem primo, que perdera toda a família na guerra do Rei Filipe. O inverno anunciava-se muito rigoroso nas montanhas Verdes. Quis se aproximar do litoral, preocupando-se em não atrair a suspeita dos colonos ingleses que avançavam, cada vez mais numerosos, em direção às montanhas para deslindar a floresta, e que viam por toda parte, assim que a pluma de um selvagem despontava, contingentes guerreiros do norte canadense, franceses e abenakis, vindos para escalpelá-los. Passaconaway não era batizado como Pengashi, que era cristão, assim como sua família, e até seus pais. Passaconaway desconfiava dos homens brancos que podiam vir tomar-lhe Jenny; dos franceses, porque ela era de sua raça, e dos ingleses, porque era de sua religião. Ficaria feliz por poder levar a Jenny notícias do filho. — Se você voltar para o norte, não terá tempo de rever seu irmão nem de transmitir a Jenny notícias de seu filho — disse ela. Mas essa noção de tempo e de distância não impressionava o índio. De qualquer modo, a campanha de guerra contra os iro-queses os conduziria para perto das regiões onde se escondiam Passaconaway e sua pequena tribo. Depois que os iroqueses fossem aniquilados, Pengashi poderia seguir um contingente decidido a recolher as cabeleiras dos ingleses entre os habitantes das fronteiras, o que o colocaria nos limites da hinterlândia do New Hampshire e das montanhas Verdes. Poderia subtrair alguns dias aos combates para encontrar os seus e visitá-los. No wigwam de Pengashi havia duas mulheres. A' mais nova dava de comer a um bebe amarrado a uma pequena prancheta. Era sua filha mais velha, cujo marido morrera esmagado por uma arvore, durante seu êxodo. — As neves chegaram muito cedo. As árvores não tinham ainda perdido as folhas. Com o peso, muitas delas se quebraram. A outra, a esposa, observava Angélica com um olhar pouco ameno. Apesar da estreiteza da cabana, resolvera besuntar os cabelos com gordura de urso líquido. As índias tinham sempre muito cuidado com os cabelos. Aquela, a despeito de sua situação precária, não derrogava seus hábitos. Perguntou a Angélica se não tinha um pente para dar-lhe, de chifre ou de osso, pois o seu, de madeira, se quebrara. Pengashi mandou-a calar-se, com mau humor, e Angélica compreendeu que lhe censurava desperdiçar banha de urso quando suas provisões estavam esgotadas. Sua filha mais velha, a jovem viúva, por sua vez, indagou se a mulher branca podia fornecer-lhe uma faixa para seu-recém-nascido. Acusava também o inverno. Não pudera fazer uma provisão daquela penugem de caniço ou de madeira de pruche socada com que se revestiam as coxas dos bebes, a fim de não sujar as peles. Mais uma vez, o índio mandou a filha calar-se, lembrando que as mulheres tinham usado o pó da madeira de pruche para desengordurar os cabelos, antes de lavá-los, só para tornar a engordurá-los depois. Seus cabelos! Sempre seus cabelos! E não tinham o que comer! Mas logo depois pedia a Angélica, para ele, álcool e também uma coberta, pois não pudera ir à feira buscar nos navios ou no posto do holandês as mercadorias de que precisavam.

Então dei-a como criada para meus pais. Tinham lenha para se aquecer. não podia deixar de olhar cobiçosamente para a tigela com gordura de urso e um resto de mingau de milho. apesar da corrida na floresta. o homem fumava seu cachimbinho de pedra vermelha e a intervalos. depois de muitas encenações. . È por isso que Ganita não gosta dela. deve ter compreendido a linguagem muda de seus olhares. Coloquei-lhe esses mocassinos nos pés. Observando a pequena índia curvada sobre sua tarefa.um homem e uma mulher de tranças grisalhas. Angélica surpreendeu o olhar de curiosidade que ela lhe lançava e viu uma pupila clara numa carinha magra escurecida pelo sol e pela gordura. ordenou com voz rude à pequena criada que atiçasse o fogo. dirigindo-lhe novamente uma de suas piscadelas de conivência. no centro da cabana. as crianças acabaram deixando-o para o cachorro. mostrou um grande bloco gelado de uma matéria avermelhada. menos atenta a suas palavras que aos gestos. sem parar de fumar e sem que um músculo de seu rosto se mexesse.os yennglis nos perseguiam e tivemos de matar quase todos os nossos outros cativos. tinham um reflexo dourado. pois . agachada ao lado do fogão. Esperou que o calor voltasse ao interior da cabana para desenrolar as peles. que um companheiro sobrevivente fora buscar. para que desse algumas baforadas. Coberto com um gorro de pele. Há alguns anos. lançando-se depois avidamente àquela suprema bolinha de pasta. Angélica e seu anfitrião tomaram seus lugares. seguimos a campanha do Toga Negra. pediu-lhe que o acompanhasse ao lado de fora. tirando um volumoso pacote coberto de gelo. Enquanto falava. estendia-o à velha esposa. envolto em peles. Angélica ouvia-o. Dois velhos encontravam-se ali. de um pouco daquele produto de troca. presos na testa por uma tira bordada com miçangas coloridas e cerdas de porco-espinho. Mais uma pequena cativa inglesa. E a neve recobrira completamente o lugar das armadilhas.Angélica lamentou não ter trazido álcool. que desceu ate as proximidades de Portsmouth. Daqui a pouco estará suficientemente grande para tornar-se minha esposa. raspava cuidadosamente uma pele. mas as reservas de alimentos estavam se esgotando. Uma menina de cerca de doze anos. Eles escutavam. mas que deixava vislumbrar manchas de sardas. podia-se perguntar se tinham ouvido alguma coisa do que lhes dizia o filho. Esperava socorro. com um grupo aliado. Raptei esta menina. Pengashi. os cabelos trançados. Arranjei um meio de cortá-los e costurá-los. pelo menos. fazendo-lhe m sinal para que entrasse com ele. Estava sozinha naquele fortim com as três crianças. para jogá-los numa panela colocada sobre os tições. endurecidas pelo gelo. entre as quais Carlos Henrique. dirigiu-se ao segundo wigwam. acabou. — Meu irmão era tão louco por sua cativa branca! Deu-me vontade de ter uma também em meu wigwam. Recomeçou a explicar sua situação. da qual arrancava os últimos fiapos de carne e de nervos. Pengashi explicava aos pais quem era ela e as razões de sua vinda. que esperara pacientemente sua decisão. sentados com muita dignidade no fundo da cabana. Ela era tão pequena e tão loura! Fui eu quem lhe calçou os primeiros mocassinos. Depois de fechar cuidadosamente a abertura. Este não se aborrecia com sua indiferença. Ele penetrara até o fundo do wigwam e soerguera uma placa de casca de árvore que formava a parede. Acabou de fumar seu cachimbo e. Ela já não era uma criança de yenngli. Com certo orgulho. sempre fumando. Pusera-se a caminho tão persuadida de estar indo em direção a uma miragem que não pensara em se munir. E depois. mas até agora não chegara ninguém. que não podiam manter a velocidade. dando-se ao trabalho de respeitar as regras de cortesia devidas aos ancestrais. Com a perspicácia de seus congéneres. por menores que fossem. Apesar da gordura que os untava.

sacudia um pouco o saco. enrolando-o num pedaço de pele. Apesar de batizado. Pegou num canto uma velha lâmina de espada bem afiada e. cortou um grande retâgulo de carne. com tanto cuidado quanto um avarento com suas moedas. Abrindo-a.— Fiz uma boa caça anteontem.Não teria com você algum objeto que eu pudesse entregar-lhe uando tornar a vê-la? Meu irmão mais velho acha que sou mentiroso. Ela logo ia querer fazer uma patuscada. pediu que Angélica estendesse as suas para recolher a preciosa provisão. preferia dirigir-se ao Grande Espírito. Meus pais não dirão nada. Acabou tirando-a meio maquinalmente. após guardar a aliança na sacolinha suspensa ao pescoço que todo índio usa no peito. uma palavra escrita. Não tinha papel. mas não consigo encontrá-lo:. parcelas pretas ou amarronzadas de um produto leve. Mas não contei tudo a minha mulher Ganita. — Pode dar-me também seu fuzil? — pediu o abenaki. Um filhote de gamo. — Deixa esses frutinhos dos bosques incharem dentro de um caldo. do qual retirou duas raízes de rábano e uma colherona encerrada numa bainha de couro corrediça. o que ela fez com rapidez e habilidade. — Tenho direito a um fuzil. Com todo o arsenal armazenado nos flancos do fortim de Wapassu. podia dar-se a esse luxo. do lado de fora. Pengashi rejubilou-se. Chegou a casa antes da noite. se o Grande Espí rito continuar a ser bom comigo. — Eu sou o cunhado de Jenny Manigault — respondeu. Hesitava. --. Enquanto ordenava à pequena criada que costurasse as bordas do embrulho. acrescentava três ou quatro pastilhas de suplemento. entregando-a a Pengashi e explicando-lhe que Jenny reconheceria aquele anel. Para Tenny. — Tenho também um presentinho que Jenny me deu para seu filho. também cuidadosamente cortado. e se corrigia. Mas vou fazê-la confessar. Essa generosidade que demonstrou e que o deixou satisfeito não lhe custou caro. Aposto que foi essa danada da Ganita que o furtou de mim. Quem sabe! Com o fuzil. hesitava novamente. com três ou quatro golpes decisivos. O inverno é um inimigo traiçoeiro e cruel. Eles aprovam que eu seja parcimonioso. depois parecia reconsiderar e arrepender-se de seu gesto. talvez eu consiga um pouco de carne para partilhar com você. e não usava nenhuma jóia. . uma coberta para sua velha mãe e a faixa para o bebe. Angélica procurou alguma coisa que pudesse deixar com o selvagem e que testemunharia a Jenny que ele a encontrara. pois sou batizado. Assim ele poderá ver que falo a verdade. Ela prometeu trazer aguardente. a volta lhe pareceu fácil e rápida. Eles defendem do escorbuto. e nunca é demais precaver-se. Ela se confundiu em agradecimentos. derramando mais um pouco. Quando a mão ficou cheia. Com alegria por levar víveres suplementares para alguns dias. de um outro buraco. quando se tratava de caça. que vira em sua mão. nem pena. puxava. contou na concha da mão. nem tinta consigo. Volta daqui a três dias. cujo valor parecia apreciar tanto quanto o ouro. um saco. Ela não tem miolos. como o parentesco o constrangesse a certas obrigações para com ela. Exceto uma aliança muito larga em seu dedo emagrecido.

por terem sabido esperá-la sem se assustar com sua ausência. mas o vento. Com a passagem constante de névoas e nuvens no horizonte. o que não tinha gravidade. Pengashi erguia suas cabanas na parte mais fundas das ravinas. Aquele Pengashi a enganara com seus projetos de voltar para as montanhas Verdes. em compensação. mas suficiente para que tivesse a possibilidade de saber em que direção estava indo. Finalmente. O céu baixava cada vez mais. No intervalo. e a própria cascata desaparecera. esperou mais-um dia. ameaçava recobri-las dali até a sua volta. Esperou. Com medo de se perder. Dessa vez. . Prosseguiu a caminhada. lamentou não tê-las cortado mais compridas. na mesma precipitação de neve. Apesar das raquetes. confundindo-se com os rochedos submersos. Um trecho do horizonte se descobriu para oeste num espaço restrito. em enormes flocos macios. foi arrastada para o fundo. Os flocos ficaram mais esparsos. e. sabendo que não poderia dar dois passos sem ser derrubada. afundava até os joelhos a cada passo que dava. teria rodopiado. pareciam não ter fim. Fez suas recomendações a Carlos Henrique. compreendeu por que. recoberto por uma carapaça de gelo. como da vez anterior. encontrou. com as folhas despojadas cor de osso. pois ela lhe amortecia a queda. Levaria um quartilho de aguardente. Caía compacta. mole e silenciosa. que transforma uma paisagem já escura numa muralha intransponível. ainda não se levantara e provavelmente não se levantaria. Vento seco mas glacial.Aliviada. caindo como um dilúvio. deixando sob um céu baixo e ameaçador um mundo decapado. um vento desagradável começou a soprar. As árvores estavam transformadas em longos círios gigantes. um pente. Mas. parando pouco a pouco. pobre coitado. os ramos em forma de candelabro. tão pequenas. Agora o vento cessara totalmente. Devido ao adiantado da hora. sem o mínimo galhinho. duas cobertas de lã inglesa de Limburgo para os avós. Precisou de mais tempo para se livrar da neve. apertou contra o peito as crianças. um dia o vento começou a amainar. atingir as missões do norte? Deixou passar alguns dias antes de retomar o caminho de seu acampamento. era impossível tentar localizar os sinais de fumaça do pequeno acampamento perdido. Contra qualquer expectativa. Avançava lentamente. Como da primeira vez. apesar de quase apagados. Na manhã seguinte. chorando suas lágrimas de cera lívida. algumas faixas de pano e. mas as pancadas de neve. naquela estação. não perdera nem a raquete nem as luvas. pois a neve. A ravina assumira um aspecto fantasmagórico. munira-se de um feixe de varinhas para balizar a pista. não percebeu a beirada abrupta do despenhadeiro e. e. a neve recomeçou a cair em grande flocos. apesar de não estar muito bem provida. vestígios de sua antiga pista. içou-se para fora e rumou para a planície. Como eram corajosas. depois outro. teve de esperar pelo dia seguinte para ir ao acampamento dos índios. se quisesse rastejar. Quase imediatamente. mas. sendo varrida de um lado para outro. ao rés-do-châo. que corroía como poeira de aço a superfície da neve. sem uma pitada de neve em suas agulhas. Ela deixou para falar-lhe sobre a mãe mais tarde. não tendo pressentido a tempo o desnível. a neve recomeçou a cair. mais pesadona que um urso. As coníferas estavam negras como tinta. depois de desobstruir mais ou menos os arredores da entrada. Será que conseguiria. durante a noite. turbilhonando com lassidão. guiando-se pelo sulco muito tímido do trajeto anterior. houve uma calmaria. sem se inquietar e sem fazer tolices! — Comemos ê depois dormimos — disse Carlos Henrique.

No momento em que Pengashi e sua família partiam de novo. também salpicado de neve. fixavam-lhe os olhos turvos. "Eles descabanaram. até que viu à sua volta que a neve começava a se depositar sobre suas roupas e que estava petrificada de frio. afastou a casca de árvore da entrada. eles já estavam longe. aproximando-se. com as mãos colocadas sobre os joelhos. Continuavam tão vivos que se continha para não colocar em seus ombros as cobertas que trouxera. como já esperava.Nem sinal dos wigwams. Quando o galho desabara sobre o teto do wigwam. continuando seu caminho pelas planíceis do Grande Espírito. um último fogo aceso diante deles. estava vazia e meio encoberta pela neve. Angélica ficou inerte. estendeu a mão para a panela. Nas mãos abertas de cada uma das duas personagens hieráticas. com seus passos lentos nas raquetes. a filha mais velha. passando-o um para o outro. sublinhando-lhes de branco as dobras das roupas. Seme-lhava-se a um grande cascalho de lama. repousava uma espécie de torrão de alguma coisa indistinta. sem pensamentos. pelos espaços nevados e pelos furacões. e depois. Tinham fumado calmamente o cachimbo da paz. pulverizava os tições do fogão. o homem com seu gorro de peles e a velha com sua tiara bordada enfeitada com uma pena. Com um gesto instintivo. compreendeu que estavam mortos. o ancestral dissera: "Meu filho. Uma fina poeira de neve. Mas. infiltrando-se por um buraco no teto. Não pareciam dar-se conta daquela neve fina que pouco a pouco os recobria e. contendo duas supremas rações da sagamité. Segundo o ritual e a tradição. os filhos." Depois. por aquele espetáculo macabro. eu fico. Levantou a cavilha de madeira. não se cansava de contemplá-los. não teve resposta. após a última baforada. o velho índio colocara o objeto sagrado diante dele. lá onde só existe calor e luz. impassíveis. percebeu a forma redonda de um dos dois abrigos e. com as pernas cruzadas. retida involuntariamente. tal como os deixara. quando notou o cachimbo apagado colocado diante do homem e constatou a invasão da cabana pelo sopro-imperceptível da poeira de neve. Saudou-os. numa direçào tão distante quanto incerta. Pouco a pouco. recolocando cuidadosamente a placa de casca de árvore que servia de porta. Com uma última panela colocada sobre os tições. Depois. Minha pista termina aqui". sentados lado a lado. sem saber por quê. retomou sua marcha para o norte. Sob a luz baça que entrava pela abertura. uma última pitada de tabaco para o cachimbo do pai. da primeira vez. carregando e arrastando os aprestos dos pobres e derradeiros bens. em seu alívio de sabê-los presentes. na obscuridade que pouco a pouco se resfriava. Só depois de um bom tempo. depois. Chamou. Esperaram que o último tição se apagasse repartindo então os últimos bocados de alimento terrestre. um detalhe insólito atraiu-lhe a atenção adormecida. assim como os dois velhos. o bebe e a cativa inglesa. e percebeu os dois velhos no fundo. e no entanto nobre e sereno. Pengashi deixara-lhes o wigwam para abrigá-los. não se preocupou por não ver fumaça. ajoelhada diante das duas dignas múmias. deixaram vir a morte. . à procura das missões e dos postos franceses. e acompanhado pela mulher.

reconhecera nela sua mãe. o que levara vários meses. Dois grandes blocos congelados de mingau de milho. a ruptura não teria deixado nele uma ferida? Evocá-la não iria despertar sua nostalgia e mergulhá-lo na melancolia? Ele aprendera a sorrir em Wapassu. desprendeu os dois pedaços das palmas esquelétricas e hesitou. oscilava. reconheceu uma armadilha de aço para os pequenos animais de pele e se lembrou de que se queixara a Pengashi de não ter encontrado as que o inglês colocara no outono. que poderia lhe oferecer uma última oportunidade. evitar-lhe o máximo tempo possível o ultraje dos animais carniceiros. via brilhar aquelas cruzinhas de ouro feitas e usadas pelos índios batizados do sudeste. A última refeição dos ancestrais. Sua sensibilidade se aguçava. Deveria ver nesse gesto uma suprema oferenda ao Deus da caridade sem limites que os Togas Negras lhes ensinaram a cultuar? O que era uma ração a mais nesta terra. desejando que sua aliança pudesse um dia chegar até a pobre criança. um par de brincos pingentes deslizou na mão de Angélica. ainda que fosse mais fácil distraí-los. Uma coisa de nada tocava-os. que o arrastara duas estações de wigwan a wigwan. — Obrigada! Obrigada! Que Deus os abençoe. Em troca do fuzil. enfiou seu butim na sacola. saiu do wigwam. em que não haviam tocado. pequenas granadas engastadas em prata cinzelada. tinham pensado. chocou-se com um objeto envolto em pele. Angélica contemplou-os com emoção. Ao se retirar. não conservava uma lembrança feliz. também pegou-a. onde estariam saciados para sempre? A mulher branca e as crianças brancas de Wapassu tinham fome. colares de conchinhas. experimentava. Pela forma. olhando uma última vez para os velhos. misturado com pedaços de carne e frutas secas. medalhas. e não se podia saber de que modo repercutiria o menor choque. pois parecia fazer parte da oferenda. Evitava sempre falar a esse respeito e não respondia quando se aludia a ela. Recuando de joelhos. . esforçando-se por tapar a abertura no teto. a fim de. Estremeceu com uma alegria insensata. Transbordante de gratidão. a falar-lhe da mãe. cerdas de porco-espinho. adulta. entre os amuletos de dentes de ursos. por outro lado. Havia também uma sacolinha de couro colocada sobre a porção que a mulher segurava.Mas ao se aproximar percebeu quê era comida. de sua odisseia com a índia. Portanto. A fome tornava a todos frágeis. Se. Sabia que. Trémula. As crianças não eram infensas ao que ela mesma. Eram os brincos que Jenny Manigault de La Rochelle usava no dia em que fora raptada pelos índios. o índio lhe deixava um de seus instrumentos de caça para comércio. receou abalar o bom equilíbrio do menino. quando iam partir para lá. atingia-os. interrogando-os com o olhar: "E para mim? Sabiam que eu ia voltar?" Em seus peitos. CAPITULO XIII Os pingentes de Jenny Manigault — A loucuras do silêncio Quando esvaziou a pequena sacola de couro encontrada perto da avó. entre saquitéis. Ajustou e firmou melhor a porta. Prestes a entregar o presente a Carlos Henrique. que não vira anteriormente. conteve-se.

Ali. aguardente. organizavam com os vizinhos batidas em suas terras. Não se arrependia de ter-lhe deixado a arma. segundo a lei senhorial. com sua mania de se identificar com toda criatura inocente maltratada. ao menino. Mas os San-cé de Monteloup sempre foram pobres demais para pagar os serviços de um couteiro. Disse consigo que fora estúpida. Muitos continuavam a caçar com arco. Mas será que Pengashi voltaria algum dia. por isso Angélica se desinteressara. Seres humanos tinham vindo e. foi preparar a armadilha que lhe deixara Pen-gashi. Mais tarde as entregaria. Ela sonhou com favas no toicinho e feijões de Boston. Despertou dando um grito de decepção. um fidalgote provinciano. tanto pelos brancos como pelos índios. a carne de veação era caçada com fuzil. no entanto. o índio teria alguma possibilidade. na casa de Abigail. a fim de não descontentar os franceses. Colocou-a ao abrigo de uma árvore. com os dedos entorpecidos. na América. Tocada pelo inverno. praguejava contra os camponeses furtivos que lhe pilhavam os coelhos-bravos para poder colocar um coelho na panela. não era tão sensível em relação aos bichos. "que vinham em suas canoas. lâminas de espadas. os índios comeriam o cachorro. Honorina. Como último recurso. mortais as tempestades. ou quando tivessem saído daquele pesadelo e estivessem todos reunidos. tão esfomeados quanto seus aldeões nos anos de má colheita. se degustavam regados com creme e melaço. moeda de câmbio. toda caça desaparecera no céu e na terra. aquela música macabra que pairava perpetuamente nos grandes espaços selvagens. os senhores da vizinhança. facas. Em sua juventude. Pego em flagrante pelo couteiro. a situação lhe pareceu pior que antes. Agarrou-se à ideia de que Pengashi falaria dela. e o barão nunca enforcou ninguém. Saberiam que estava viva. em seguida. Assim que pôde. que. a fim de pegar um veado ou dois. o homem arriscava-se a ser enforcado. A visão daquela pequena família errando através do deserto branco forneceu-lhe a medida do isolamento em que estava encerrada. pois fora a única a consolar sua pequena infância abandonada. panelas. O tráfico de peles era terminantemente recusado em Wapas-su. Com o fuzil. ele também. Não gostava de imaginar aquele estalo perpétuo das armadilhas fechando-se sobre os bichinhos dos bosques. As armadilhas serviam à captura dos animais de pêlo. que assustou as crianças. enquanto se perguntava se era mesmo daquele modo que se procedia e censurando-se por não ter testemunhado maior interesse pelo manejo daqueles engenhos de desgraça. com a malvada mandíbula de aço que era preciso fechar sobre o pulso. mas ele estava se generalizando. quando ele estivesse maior. Chamou Ruth e Noémia em seu socorro. num lugar que lhe pareceu propício à passagem da caça. Tinham-lhe dado uma prorrogação de alguns dias de alimentos. sentados em volta de uma boa mesa. partilhando-o entre eles. à praia dos vivos? Sem fim era a pista. .Recolocou as modestas jóias na sacolinha. e muitos outros objetos dos quais eram ávidos e aos quais nãò podiam renunciar. na primavera os indígenas levavamnos para a feitoria ou entregavam-nos aos viajantes e exploradores de bosques. a alguma distância do posto. a influenciara. Ele gostava dela. As vezes. Pensava vagamente em tudo isso enquanto lutava. mas arrebataram-lhe a esperança. em troca das mercadorias de trato: machados. Armas de caçadores furtivos! Seu pai. reservando-se aos chefes o uso das armas de comércio. em Salem. sacrificou uma bolinha de carne para a isca.

"Você me traiu! Você me traiu". Havíamos feito umcontrato com você. Quando Honorina voltasse.. ensinar-lhe-ia a atirar com o arco. seria ela quem infligiria o golpe de misericórdia naquele homem indómito. não podia fazer isso. o anunciara. Procurarão o caminho das charnecas e dos planaltos. Fora embora antes do incêndioe. adivinhando que era o fim de Wapassu e que era preciso fugir. manter sua atenção desperta. "Você prometeu. se organizarão em rebanhos. Os cavalos!" No outono passado. Tinham sido habituados a viver ao ar livre e. símbolo dos iroqueses. "Os cavalos!. de certa forma. aureolados ao mesmo tempo de esplendores terrestres e ingerências místicas. Os últimos anos tinham sido marcados por um selo de vitalidade cintilante." Mas o Maine era uma região muito difícil. "Honorina. percebera numa visão relâmpago os cavalos que. "Não pense. tão renegado. ao longe. A ele. Os trabalhos dos homens. Pensava em Wallis. que se defrontara com a tartaruga gigante. Irão para os lugares onde há menos neve e muita grama e povoarão a América. mamãe! Eu os vi galopar! Não se deve ficar triste. depois sua própria morte. Não sabia se aquela visão lhe causava mal-estar ou se a tranquilizava. tão só. obrigava-se a falar com as crianças. reencontrarão seu instinto. Se desaparecesse.. CAPITULO XIV Entre a fome e a tempestade Angélica começava a duvidar de que o "pior fora evitado". Livres. minha queridinha! Meu tesouro!" Honorina sobreviveria.. Daria o triunfo a seus inimigos. Joffrey recebendo a notícia. que dissera: "Agora não poderia mais viver sem você".Montanhas de pratos fumegantes. Era a mais forte de todos. — Não chore. sua égua.. enquanto Carlos Henrique se inclinava sobre ela. Era preciso lutar contra a loucura do silêncio. que estava entre os iroqueses. Nós lhe trazíamos cavalos! Trazíamos o teto e o incenso da fumaça dos homens. que se lhe deparavam como na mesa do rei. Imagine antes que estão felizes por ter reencontrado o espaço. inquieta e atormentada como ela.." O pior seria a morte das crianças. alguns se tornavam novamente selvagens e indomáveis. Dizia-lhes que o cão boboca dera provas de grande inteligência.. no momento do ataque dos índios. e o inverno chegara cedo demais.. quando subia à plataforma. enquanto corria para a cabana de Lymon White para se refugiar." As crianças berravam a plenos pulmões. galopavam através das pradarias. que haviam jurado terminar com a alegre força daquele espírito livre. que emprestavam a tudo um sentido diverso daquele que lhe atribuíra outrora. . Seus rostos pálidos iluminavam-se quando se pronunciava o nome de Honorina. E fora encontrar-se com Honorina. de florestas e precipícios. "Eles descerão para o sul.. ele. como que tomados de pânico. no fim do verão. Eles saberão encontrar o caminho. Trazíamos a aliança dos homens de boa vontade. o fogo de seu coração e as chamas de seu génio. censurava ao horizonte mudo. Pensava nos primeiros dias de sua chegada ao Novo Mundo.

.. como Dalila. Eu lhe prometo que sobreviverei".. como o Rei-Sol. mas.." — "Não! Não! Não diga isso. e todos pareceram menos dolentes depois. os bispos... Angélica. você me deixou depois de tirar-me todas as forças... azar. : Ninguém. Será que poderia fazê-lo?..Você me corroeu o coração.". Fazia parte dos fenómenos da fome. dando-o também às crianças. para em seguida desaparecer e me deixar desarmado diante daqueles que juraram minha perda." Bem se vê que tudo isso foi escrito por homens e não por mulheres!... Pegava um pouco de aguardente no côncavo da mão e friccionava as crianças para revigorá-las..Jó queixando-se de sua miséria a Deus: "Tu me engoliste como o leite! Tu me partiste como o queijo. ordenava Angélica a si mesma.. Pôs cinturões e retalhos de couro para ferver e fazer uma gelatina.. Deus lhe devolveu tudo." "Jó!.Ele teria o direito de censurá-la para todo o sempre. Lymon White tinha suas pequenas fraquezas. três dias no máximo. . Não! O pior seria a morte das crianças. dia para as crianças." "Não pense! Não pense!". Já nem tinha coragem. meu amor. e que ela sobrevivesse e reaparecesse diante dele. os ignaros. "Deus que está em toda parte.. . Pois sabia que desgastava inútilmente suas forças. que atingiu o fundo de sua desgraça.. Estava dominada pelo medo das alucinações. os pedantes. O coro dos medíocres. Não poderia naquele dia arrastar-se até a ravina de Pengashi. em todos os lugares!. No fim. com os cabelos de Sansão.. é preciso não esquecê-lo. E todos sabem que esse apelo à ajuda suprema. Mas bebeu com avidez. Depois de preparar o café com o máximo cuidado.. os ciumentos. que lhes dispensaria os corações em farrapos.. sem as crianças!. a mim. Nenhum ser humano!. o coro dos destruidores. quando sua imaginação esmorecia. Carlos Henrique fez uma careta. de insultar o destino. desta vez. o que é repulsivo. ela se privava. bebeu-o como um néctar precioso... Foi um belo dia. quando se manifesta no ser humano. que ruim!.. como da primeira vez.. toda manhã. os medíocres. os tolos. É preciso crer em Deus! Deus permanece. que acompanhava as poucas colheradas de alimento.. — Hum. Partir. Dir-lhe-ia: ".. Tinha de resignar-se a isso.um. Para ganhar . num estado de sonolência. estão vencidos!.". os devotos. composta por um bardo feroz. Ciclo infernal. significa que ele entrevê o fim de suas esperanças terrestres. que não me deixaria capturar nas malhas do Amor. como diz a oração. gritou.. teria alucinações.. De tanto procurar em todos os cantos. A neve caíra sem descanso. história caçoísta recomeçada. mas um tirano de qualquer modo. invocações que lhe emergiam à consciência como as bolhas de seu desespero. sustentava-se com aguardente. ouvia-se murmurar: "Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!. tão convencido de seu poder de sair de todas as dificuldades por seus próprios meios.. encontrou um restinho de pó de café turco numa lata. parcimoniosamente dividido entre eles... clamando com alegria: "Desta vez... que a disputava comigo. os tiranos débeis e os tiranos inspirados. os incapazes... Dois dias. como fizera no início. Pois então. Ao despertar. já não eram as expressões enérgicas do Pátio dos Milagres que lhe voltavam aos lábios. E depois. Andar até os bosques lá embaixo..

Era belo mas inquietante.. acreditaram que o teto ia despencar. contrastando com o encarneiramento das montanhas. Depois subia de novo ao outeiro. sem que se pudesse saber se era dia ou noite. "Tão bela e indiferente?" Também lhe foram recusados aqueles momentos em que. seu distanciamento da casa. ácido. de um azul água-marinha. Se se limitasse àquele único cómodo. aíordou dura de frio. Uma vez. presenciara o sítio de La Rochelle. que poderiam consumir." "Foi meu filho mais velho que se foi em primeiro lugar". desmaiou no caminho. com os filhos ao lado até . No sono. Aquecera seus corpos franzinos com tisanas. encontrando-a sempre vazia. contava ela. extraía forças da impressão de estar fazendo alguma coisa. Não tinha mais coragem de vê-las definhar. onde as crianças repousavam. Mas. perdeu-se. quando se arrastava novamente até lá. Por enquanto. A velha Rebeca que. habituadas todavia a esses uivos das noites de inverno e às sacudidelas dos batentes. já que dispunha de muitas. sacerdotisa de um sacrifício de que era a única celebrante. Apertava as três crianças contra si. surpresas.. o cadáver de um mártir Precisava ao menos reunir suas energias para mover-se através do espaço estreito que lhes permanecia reservado. se esforçava para abrir a porta e subir para ver o nascer do sol. e só conseguiu reencontrar o fortim guiando-se pelo cheiro fugaz da fumaça. CAPÍTULO XV Em meio ao delírio. A frisa malva e cinza das montanhas desenrolava-se contra um céu realmente cor de pêssego. As noites e os dias sucediam-se. entretanto. em meio às rajadas de neve. elevando as mãos com as palmas unidas como para uma invocação. — Eles passam! Eles passam! Estão apenas passando. por ocasião de breves claros no céu." Então Angélica se precipitava à cabeceira das crianças. O poente aquela noite foi de um amarelo agressivo. não saberia dizer até hoje com que forças. procurou-a em vão.Examinava periodicamente a armadilha. de La Rochelle. saindo e se movimentando. "Por que você é tão cruel?". pensei que estivesse dormindo. às quais misturava plantas calmantes. tomava ares de fuga. espreitando-lhes a respiração em seus lábios descorados. Mas estava morto. jovem mãe de três crianças. Mas lembrava-se das histórias da velha Rebeca. o blizzard começou a soprar. arrastou-se para o abrigo. "Certa manhã. gritava à Natureza. Quando. não paravam de passar. Não veio de mansinho. mas com uma violência brutal que acordou as crianças. esqueciam as agonias da fome. Os negros esquadrões de tempestade. de manhã. sob o Cardeal de Richelieu. estavam dormindo. cobrindo-as de beijos e murmurando-lhes palavras reconfortantes. Angélica abençoou o céu por estar o posto tão profundamente ancorado na terra e na rocha. quando tudo o que pode ser comido já o foi? Não se deixa nem a um talo de grama tempo para crescer entre os lajedos. Acabou por retirar a isca. Postava-se diante do horizonte. "O que se haveria de encontrar numa cidade. não poderia levantar-se mais e deslizaria lentamente no sono da morte. A noite. Outra vez.

que não podia satisfazer. Seu olhar seguia a fuga da superfície da neve. era o deserto. Pelo interstício desobstruído. Lançava aos ombros sua manta. agia como um autómato. dosando cada bocado. um frio cruel lhe mordia o rosto. Arrancou com a faca a proteçào de pele. Outra hora. mas decidiu que esses trabalhos lhe revigoravam as forças. Abria a porta do quarto e tomava o corredor com a mesma. Proteção contra o frio! Todos os dias viria despregar um pano da cortina. — Levante-se! Mova-se. repetindo: . família por família. parcimoniosamente. agora. Arrastou um escabelo para junto do respiradouro. Ia poder desse modo determinar o andamento dos dias e das noites. adormecessem também para sempre contra seu corpo de gelo. soergueu-se gritando: — Não quero vê-los morrer!. para o fundo de seu túmulo.. ou os sinais precursores da morte. fugia da visão de seu último sono. lhe restavam ferramentas. seria mais fácil deslizar para fora. percebeu que a porta bloqueada pela neve tornava impraticável a saída. embora lhe notasse a inquietante apatia. Com a condição apenas de que a tempestade não voltasse a enterrar o mundo em sua noite eterna. carne salgada. visitava os acampamentos indígenas mais próximos. quando se sentisse mais forte. percebendo-lhes a avidez. do mesmo modo que é necessário mexer-se e ativar-se quando o entorpecimento do gelo se apodera dos membros e do espírito. e cada dia. prometeu a si mesma. no gesto habitual.resolução com que começava cada estação. Içou-se até o respiradouro. Alimentou as crianças. fixando-as com pregos. talvez mais. Ergueu a gola do manto até os olhos. Despertas. as crianças enroscaram-s*e no entorpecimento. batendo o tacão no assoalho. ocupou-se em tapar o respiradouro com uma proteção de esponja e de peles. tinha obrigação de servir-se delas. cotidiano. a tranquilizava. Endireitava-se. Estava coberta por um suor de fraqueza. até a armadilha.. a fim de seguir a evolução das horas. apenas o sono delas. para três ou quatro dias. Após engolir os últimos bocados. A fome chegaria antes do escorbuto. Ela mesma. se empenharia em abri-la e depois arrastar-se. Poderia orientar-se? Desprender o aparelho da massa de neve? Começou a andar em volta do quarto. como uma água turva mas presente. pelo menos. a única saída pela qual a luz do dia podia ainda escoar-se. Recolocou a pele que servia de cortina. enrolou-as mais nas peles de gato selvagem. untada de óleo. se espalhavam fora dos muros. desesperada. atravessava os pátios. milho. acabou toda a comida. Por ali. parando de dispensar-lhes seu próprio calor e suas forças vitais. Depois. Naquele dia. podia ler muito bem em suas carinhas e corpos o que lhes faltava. inspecionava os estábulos e armazéns. deslizou convulsivamente para fora da passagem que cavara no gelo. da temperatura no exterior. receando a cada dia perceber os sinais precursores do mal terrível. passo a passo. para ouvir o barulho de seus passos. decidindo afinal que era crepúsculo. Ainda restavam muitas provisões: gorgura. transpunha os limites das muralhas. Um muro de gelo bloqueava quase inteiramente a abertura. ganhou novas esperanças ao vê-las sorrir e até rir e pronunciar algumas palavras. Do lado de fora. enrijecia-se. is fazendas vizinhas que. cuidou delas. Deu consigo correndo _ na superfície gelada e cintilante. na soleira da habitação principal de Wapassu. Entretanto. pouco a pouco. Já que.que. na qual uma fonte de luz invisível projetava salpicos de cobre: aurora ou crepúsculo? Permaneceu observando bastante tempo. na grande sala. o escorbuto. mimou-as. Dedicava-se todos os dias a retirar o gelo do respiradouro. talvez.'a serenava.

nunca cessara de estar cercada de inimigos. dirigira-se à sala grande e tentara desobstruir o orifício do respiradouro.." Mais dois ou três dias de alimentação! — Obrigada! Obrigada. irmãozinho!. Com fragmentos da pele do coelho e um pouco dos ossos moídos. De novo ergueuse o espectro da fome. ou uma árvore abatida? Dia ou noite? Já não se podia saber. pouco importa!. mostrando-lhe as etapas de sua vida que a haviam conduzido àquela hora. toda tentativa de sair e distanciar-se deles equivaleria a uma condenação à morte imediata. Percebendo uma calmaria do lado de fora.. Tome-me. submergindo-lhe os pensamentos. atraindo amigos. Com você. Simplesmente inimigos que eram seus inimigos porque não podiam ser seus amigos. Eu lhe prometo. Mas inimigos por natureza. Mas não pôde voltar a ela. irmãozinho! Como és bom! Como és bom por teres vindo! Nunca sentira de forma tão intensa e terna a aliança do homem e do animal. Morte próxima. Víveres esgotados. Seus cálculos avisavam-na de que era noite. Seu cérebro começou também a girar loucamente.. dessa vez. irmãozinho! No dia seguinte. afastando-se da árvore sob a qual morria seu filho Ismael. Viu-se no centro de um inexplicável feixe de hostilidades que a haviam rodeado a vida toda e soube claramente que. Tudo estava tapado. dessa vez. Que aqueles que estavam a caminho para salvá-los chegariam a tempo. jamais houve alguém além de você. "nunca houve ninguém a não ser você. caiu de encontro às mandíbulas da armadilha que emergia do chão. O animal. e que soubessem por que motivo queriam aniquilá-la. Não inimigos ferozes. Recolou a armadilha... Neve. branco no meio de todo aquele branco. Que erro cometera para ser assim condenada? Não soubera se submeter? Deveria ter se submetido? "Mas eu obedeci ao Amor.. O fel que lhe queimava as entranhas tornava-se uma maré de amargura. Apertou-o contra o peito... a saída se tornara impraticável. voltou à armadilha. Iremos à China. Mas de que servia enumerar os dias e as horas? Iam morrer. encontrou os gestos que devia fazer. agora que.. partiremos ainda.. Aquele era o sinal." "Oh! meu amor". Pegou o coelho nos braços. bloqueado. que dissera ao homem: "Eu. Desprendeu-o por milagre.. Ela girava e andava pela grande sala deserta e gélida. eu quero muito. O sinal de que atingiriam o fim do túnel." . protegendo as mãos com o xale' e com o auxílio da faca. Um coelho das neves ali estava preso. preparou uma isca suscetível de trair animais maiores e carniceiros. congelado e tão hirto quanto as mandíbulas de aço. Acalentava contra o peito o animalzinho rígido e com grande orelhas erguidas. por sua culpa. perdemos o Paraíso terrestre"..— Não quero vê-los morrer! — e afastando-se. Não voltaremos mais. sirva-se de mim para sobreviver. Tropeçou. para constatar que.. quase invisível. exclamou. pois a tempestade levantou-se prolongando o aprisionamento dos seres vivos ao fundo de seus abrigos. — Obrigada! Obrigada. como Agar no deserto. "Contarei essa história às crianças. gelo. nascida da fome e da desgraça. — Obrigada! Obrigada. iremos para qualquer lugar.. por condição. em outros termos. Era uma noite lúgubre.

.. Pela primeira vez. e assustados de perdê-las. Deteve-se. Mas Angélica. O que importava não era servir a Deus. aparentemente opostos e incoerentes. E Quebec apagara Wapassu e.'" Esperou... E vinga assim seus ministros desafiados!. um dia. perdida. Naquele espécie de vazio causado pela fome e pela angústia. Rostos desfilavam. submeta-se. O que importava era a forma de consolo ritual com que se decidia servi-lo. Gouldsboro e Salem. e Que-bec. e que a graça do batismo foi-nos dada ao nascermos... O Espírito desaparecera por trás dos quadros rígidos e pontuais. confiança? "Quem me responderá? "Acusadores não me faltam. e que seria agradável. ao fato de que não se pode ter razão contra todos? Contra o mundo inteiro?. fé. Cara Angélica. via o que ocultava sua fachada comum. A cortina fechada diante da qual tripudiara por tanto tempo abrira-se e.. Mas quem virá dizer-me: "Você não se enganou. não era destituído nem de lógica nem de lucidez. E esse santo decidira fazer guerra a três princípios que ele abominava. A morte de um santo veio para lembrar-me isso. A predição se cumpria. cercada de amigos.. do que em agradar ao Todo-Poderoso. seu cérebro rodopiava numa embriaguez vertiginosa.. "Faltou-nos humildade". também ela moribunda. Ela amara Wapassu. em Gouldsboro. Sua agitação se acalmava. Tinham labutado para construí-lo. As perguntas embarálhâvam-se em sua cabeça: "Estávamos errados por não compreender? Por não nos submetermos?.. fraca. Tudo era tão claro e tão nítido daí em diante! Ilusões! Vivera apenas ilusões! Ilusões que viu se cristalizarem na ingénua imagem de Gouldsboro que acalentara o tempo todo. aniquilada. sinto-o.. mas cujo desenrolar de pensamentos precipitados. E sobretudo contra os representantes de Deus?" Loménie a adjurara: "Não temos o direito de esquecer os ensinamentos de nossa infância. mais preocupados em manter suas crenças... os dogmas e práticas que eles idolatravam. aos pouquinhos. voltando o rosto para os quatro cantos da sala. E tudo era silêncio.. Não se luta contra um santo.. Loménie estava certo.. A tocha crepitava como que chorando. não terá razão contra ele". pelo menos. agachados na sombra que a triste tocha acesa mal conseguia dissipar. continuava a se debater: "Que erro imperdoável cometi? Tão grande que tenha de pagar com a morte de meus filhos? Faltou-me humildade? Quem nos virá dizê-lo? Quem nos reconhecerá? Se Deus se cala. Ruth e Noémia seriam enforcadas nos patíbulos de Salem. quando a morte estava ali. numa corrida desabalada que não conseguia deter. estava aliviada por não ter mais que alimentar esperanças sem futuro. Quantas vezes sonhara que um dia. iria sentar-se.. As dificuldades seriam aplainadas. Você me consolou com seu fervor. como se ali estivessem emboscados interlocutores. Tinham sonhado com um Novo Mundo. Não haveria mais distâncias. reiterou.... Tudo era fracasso.. Não traiu a mensagem.' "Pecamos por audácia.Continuava a andar como um animal enjaulado e se sentia animada a decidir sobre sua vida. pois.

inadmissível. caminhou para a porta. caçoando um pouco. ressoando demoradamente. por que é preciso que triunfe dessa forma?" Nesse exato momento. sucedendo a sua exaltação. Eram Tahutaguete e seus mohawks. . Teria forças para abrir aquela porta? Era preciso. porta aberta a todas as heresias. com uma efervescência. mais surda. Utakê! Utakê! Eu sabia que ele não ia me abandonar. Foi breve e súbito.. caiu bruscamente. através das rajadas do blizzard. lhes traziam víveres.. Alguma coisa chocou-se contra a madeira.. Permaneceu rígida. quando a fome os ameaçava. . uma espécie de pancada na porta. enquanto ela estremecia e sustinha a respiração. e quando. Dessa vez. com a Sra. apoiando-se. que. numa mulher. A tempestade soprava lá fora e nenhum socorro podia ser esperado. houve um baque. puxaram a pesada porta revestida de uma carapaça de gelo. "Ele triunfa!" pensou. enquanto sua carne estremecia. a consciência do estado lamentável em que se encontrava a invadia com uma onda sufocante.." Tremia dos pés à cabeça. igual à que produziria um punho vigoroso batendo-na porta ou o choque de um bastão-manejado com as duas mãos ou da coronha de um fuzil. no Illinois. nada mais. enquanto seus companheiros abanavam a cabeça. interrogando ainda o silêncio novamente opaco. E hoje. Ela dissera. "Eu sabia que ele viria. E. sufocar. Seus ombros se abateram. depois a beleza. não haveria um dedo que se erguesse acusador. rival do homem no coração de Deus e perversa por natureza. alguns punhados daqueles grãos transparentes e marrons recolhidos na superfície dos lagos. que a mantinha vibrante como a corda de um arco. um arrepio de seda tal como o dos riachos no momento do degelo. enfim sua liberdade de espírito.. enviados por Utakê e o Conselho das Mães Iroquesas. a mulher. Jonas. Aquela mesma porta ali. mas muito nítido. houve uma segunda pancada._ engrossada com carne-seca desfiada. e.Primeiramente. Logo iria poder dar aos filhos uma sopa de feijões." A tensão. que aos olhos dele não era.. Oh! meus filhos! Como vai ser bom! E depois arroz integral. com desânimo. no silêncio já quase tumular do pequeno posta enfiado na neve. "e nós estamos perdidos. você é um criminoso! E um destruidor! "Ele triunfa". sem se precipitar para se convencer de que não havia sido vítima de uma alucinação. ademais. Era a mesma sensação que a fizera erguer-se uma noite em sua primeira invernada. bem quente. Nenhuma pancada a alertara daquela vez. perceberam silhuetas nuas inclinadas sobre a trincheira de neve. Duas vezes ressoara uma pancada na porta. duvidando de seus sentidos. talvez!? Depois. tinha certeza. disse consigo. que 'eles' viriam. excetuando-se as modulações sibilantes do vento turbi-lhonando incessantemente ao redor. "Oh! por que. nenhuma voz para gritar: "Jesuíta. numa voz átona: "Há alguém lá fora". E. a aveia-louca que se coloca para germinar num pouco de água morna e que cura o escorbuto. de modo algum.. um dom do céu mas uma armadilha de Satã. Dessa vez. a mesma alegria diante do milagre a invadia com tanta violência que receava cair se esboçasse um gesto. O estremecimento de uma alegria incrédula começou a correr-lhe nas veias. sem poder determinar de onde exatamente viera o ruído. fazendo-a desfalecer.. quando toda uma obra gigantesca e benfazeja estava perdida. As duas. Apenas uma sensação poderosa.

couro ou pano áspero.. E se fosse uma alucinação? Não! Não! Não tinha sempre conservado no coração. no momento de afastar o pesado batente. com a cabeça abaixada para escapar às bofetadas da ventania.. A tempestade não tinha a severidade cruel da outra vez. Sua mão apalpou. Sua esperança não queria morrer.. em alguns segundos. duas até. Com o rosto estendido para o rebordo de neve deu um passo adiante. como se lamentassem ter deixado se instaurar por alguns instantes uma sutil trégua. forçandose a suportar o amplexo coercitivo do frio. em que a obscuridade e a claridade se entrelaçavam tumultuosamente. Provisões!.. temendo. Febrilmente.. Então não tinha sonhado!. Após retirar a tranca e girar as chaves. Sentia.. Surpresa e adivinhando a tempestade iminente. "Eles" tinham vindo.. Era um saco enorme. adivinhou as dobras de uma textura inólita. Um movimento humano ocorrera. Finalmente encontrou uma saliência mais dura numa das extremidades e.. Não! Não! Não tinha sonhado! Ouvira uma pancada. A noite deixara de ser deserta. E.. em relevo. Alguma coisa havia mudado. e pouco a pouco conse- . uma dobra que lhe permitisse puxar com força suficiente para abalar e arrastar o volume pelo leve declive que dava acesso à porta... pois ele a esmagaria e ela não sobreviveria... inchado.. até o fundo do buraco onde se encontrava. de joelhos... procurava agarrar uma saliência.Andou até ela com passos duros e arrastados de velha. Mas nada no mundo poderia fazê-la afastar-se de sua presa. mas lua se escondeu com a chegada súbita de espessas nuvens escuras arremessando-se ao assalto do céu. encobrindo bruscamente a lua. quando conseguiu agarrá-la.. Forçava tanto a vista que seus olhos choravam de frio.. e os mantinha prisioneiros. A tempestade desabou. mas nenhuma silhueta humana se perfilava naquele cenário. que o sonho acabasse. Mantinha-a dentro de si como um peso enorme suspenso que não queria deixar cair. Alguma coisa se movera. para abrir aquela porta que dava para a noite como um perigoso abismo cheio de monstros dissimulados.. Sentia que acontecera algo. com os dedos nus esfolados pelo gelo. Abarcou com os braços a massa que. obstruindo a entrada. Teria sonhado?. como que invadida por um pesadelo. se comprimia entre as paredes. levantou os olhos para o cimo da trincheira. Pensou em entrar para pegar as luvas. depois cambaleou e por pouco não caiu sobre um obstáculo... Teve de lutar. sem nada dizer.. a esperança de que o milagre da primeira invernada se repetisse?. que corriam céleres num céu de chumbo derretido.. que um fino pedrisco soprado pelo vento norte" já estava recobrindo de pó: um saco! um saco grande!. Não conseguindo movê-lo mudou de tática.. apoiando-se à madeira. alterando a imutável e impávida solidão que os cercava. A crista branca dos altos entulhos de neve diante da porta resplandecia. Chocara-se contra uma massa dura e escura. Estava muito fraca. ameaçavam soterrar a ela e ao fardo que tentava deslocar. turbilhões de neve que. Víveres!. se o fizesse. Víveres!. o resto sucedeu-se com relativa facilidade. Parecia um bloco de pedra lançado horizontalmente no chão. Percebeu a lua entre nuvens de aço negro esgarçado. Feijões! Milho! Abóboras secas!. hesitou. tornou a avançar. provavelmente lançada do alto da trincheira. Recuava... abaixando o céu ao nível da terra e derramando.

colocar a tranca. já insensíveis à mordida do frio. com um pacote informe. a projètara ao ápice da felicidade. dos lábios ressecados. Seu esforço fora tão grande e tão desesperado.. com pálpebras cerõsas. subitamente horrorizada. Seus sentidos recusavam-se a compreender. conferia-lhe um comprimento desmedido. como numa mortalha. apoiou-se ao batente para não cair. Experimentava apenas um sentimento morno de esgotamento. aproximou-se e ajoelhou-se. colocar os ferrolhos. Hesitante e apunhalada por uma suspeita súbita. A neve derretida em volta da massa estendida revelava um casulo comprido de pele grosseiramente curtida. Retirar a neve. Acalmou-se. adivinhou que era um homem branco. se abandonava à cadência ofegante de sua respiração. ganhou vida. afastou aquele espécie de capuz. enquanto trombas de neve se introduziam às suas costas. que a sensação de alegria e de triunfo vivida ao descobrir aquela encomenda diante da porta se dissipara. Abatida por uma imensa fadiga. depois os abria. Ora. a luz fraca da tocha vacilava. Num canto. parecia-lhe agora sufocante. Permaneceu petrificada. ajustá-la. empurrá-la. contrastando com o negrume do rosto. E teria agora desejado apagar aquela descoberta diante da porta. exausta. Cada movimento lhe era custoso. A luz fraca da tocha. o que lhe emprestava um aspecto macabro. projetando sua sombra. para onde arrastava o saco. achou a forma estranha.. aparentemente queimada. Não era um saco contendo víveres que fora deposto à sua porta.. Mas uma das extremidades"êstava solta. pouco antes. puxar a porta. da cabeça aos pés. o que significava? Que tipo de brincadeira? Que mascarada? Pela palidez das pálpebras abaixadas. fechada quase inteiramene de uma ponta a outra por uma tira de couro trançado. lutando para não desfalecer. da garganta. enquanto. julgou vislumbrar naquela fresta o esboço de um rosto. oprimida por um decepção incomensurável. tornasse a operação impossível. enegrecido. ficar na obscuridade. virar a fechadura.. ele estava todo costurado. aquele saco que encerrava sua salvação e a das crianças. Um explorador de bosques perdido?. aquilo que. ergueu-se. arregaçados sobre o brilho dos dentes. no rosto. que se amontoava. Consciente de estar finalmente abrigada e de que devia evitar. Os lábios eram dois traços delgados carbonizados. entreabrindo-se ligeiramente. O saco continuava ali no chão. entrar na grande sala. no qual as queimaduras do gelo se misturavam à sujeira de uma barba negra e hirsuta. Havia também sangue coagulado. provavelmente um francês. Aproximou a mão temerosamente. que achara fria pouco antes. Na penumbra. Viera-morrer junto à sua porta. A face de um homem apareceu-lhe enegrecida. e ainda de que era urgente voltar a fechar aquela pesada porta antes que a neve. que lhe passava como um fogo através dos pulmões. a todo custo. O silêncio voltou. desde o início. .guiu encontrar a soleira. esgotado? Não! Não o teria confundido. Era um cadáver. A sala. fechava os olhos. Angélica. numa pele virada com o avesso para fora. pálidas e fechadas. Angélica arrastou-se mais uma vez para a abertura. Angélica. Reunindo suas forças. "Que isso não tenha acontecido! Que não seja isso!" O destino não tinha o direito de brincar assim com sua miséria! Aquela cabeça de morto no fundo de um capuz obscuro.

lembrando-lhe que ela sempre soubera também que isso aconteceria um dia.. A pele e a carne daquele homem já deviam estar em putrefação. sem vida. "Eles". Aquele instante em que seu olhar vira brilhar no centro da pequena cruz. sem conhecer. Teria podido dizer consigo: este crucifixo. com os olhos dilatados. Sebastião d'Orgeval... Sua garganta contraiu-se de horror e de piedade.. a certeza de estar vivendo um pesadelo e de estar sendo vítima das alucinações da loucura lutavam dentro dela. um padre!. a seus pés. Angélica perdeu o fôlego. a Mulher que ele.. ao menor toque. seu crucifixo. Sobre o peito o crucifixo se incrustava nas próprias feridas.. Só os iroqueses seriam capazes de uma visita tão cruel e inútil. é outro padre que o está usando. fora de si.. se desfazia. lançando àqueles restos macabros um olhar também" quase extinto." Ele.. Sabia! Este crucifixo pertencia ao mártir que estava estirado ali. Subitamente. Mas seu entendimento recusava-lhe qualquer clemência.. arrastou alguma coisa que estava colada e viu tratar-se de um retalho de pano preto. movidas por um sentimento de fatalidade inelutável. Chegara o instante que devia chegar. O inimigo sem rosto. o irredutível. enfim! O perseguidor!. Utakê mantivera sua promessa: "Irei lançar a seus pés o corpo de seu inimigo!. que. alargando a abertura. diante dele. uma pequena cruz simples de missionário. ao qual aderia um pedaço de carne. em vez de se darem a conhecer. ele. Mas não dizia. Este corpo era o delel Este cadáver era ele! Ele.Então. Mas por quê? Mecanicamente puxou um cordão. Parecia breu.. A incredulidade. E ela. levantou-se de um salto. Era a carne de um homem queimado. CAPÍTULO XVI Frente a frente com o jesuíta Sebastião d'Orgeval Teria desejado dizer-se: é sangue. — O que você fez. alcatrão. ali a seus pés. Quanto tempo ficou imóvel? .. mais de raiva impotente que de medo.. perseguira com seu ódio. A tal ponto que tinha a impressão de já ter vivido várias vezes aquele instante que acabara de viver. o brilho vermelho de um rubi. Morto!. mortificado de cem modos?. "eles" tinham vindo. Utakê?. de pé.. — Pobre infeliz!. como uma gota de sangue.. O que você fez? Continuava trémula. o jesuíta maldito. Não se enganava sobre a inanidade de tal explicação falaciosa. — Uma mártir!.. Quando afastava os pedaços de couro enrijecidos. aquela forma informe em decomposição. "eles" depuseram aquele morto à sua porta. Ele. Angélica. quebrado.. Franceses? índios? Iroqueses? Ãbenakis} Presenças humanas na noite mortal e deserta do inverno... queimado. desvanecendo-se depois como fantasmas. não pensava nada. Sabia.

— . imperativamente. e saboroso!. agachados.. voltava à superfície de si mesma. índios! Vocês me traíram. à realidade. Seu cérebro. • Mais uma vez.Voltem! índios. e levou a mão à boca para reter uma náusea incoercível. nem ódio.. Como um animal teimoso. fazendo-a vacilar. Estariam escutando-a.. mais uma vez.. reconduzia-o à frente do obstáculo. Havia dentro dela apenas um grande vazio que. tão triste e nostálgico como o que às vezes paira sobre Salem ou Gouldsboro. nem triunfo. generosidade e crueldade. forças redobradas para soerguer ainda a pesada tranca. na indignação e na raiva que a sacudiam. — Vocês me traíram. nem revolta. chegava até ela intermitentemente um apelo lamentoso. Misturava palavras francesas e iroquesas.. silvando.. pouco a pouco. nus e selvagens. Não têm o direito!. nem alegria. Não têm o direito de fazer isso!. entretecendo obscuramente sabedoria e loucura. Não tremia mais. atrás de montes de neve endurecida?. Dir-se-ia o lamento de uma criatura humana. Um apelo tão dilacerante que ficou abalada.. O blizzard a acometia com mil serpentes furibundas. voltem! Voltem!. carne. Ou então. obrigava-o a considerá-lo sem anteparos. carne. por mais espantosa que fosse. requerendo suas últimas forças para um novo dilema... vivo? E nesse caso. quando julgava ter tocado o fundo do desespero. se reconhecia que dos lábios negros daquele morto se escapavam queixumes.... Um cozido quente!. Era isso o que ele queria. Se queixumes escapavam dos lábios daquele morto.. vingança e alimento? Um espasmo retorceu-lhe as entranhas. sem falsear a verdade.. na tormenta... enceguecida. Não sofria mais fome ou medo. ela o iptimou a se pronunciar.... Mas continuava a gritar: — Voltem! Voltem! Mohawksl. a seus pés. devia admitir portanto que estava... Começou então lentamente a voltar a si. Estava louca?. A salvação! A vida! Precipitou-se em direção à porta para fugir das imagens atrozes e encontrou. Nem dor. índios iroqueses. por mais demente que parecesse. Sentiu queimar-lhe o estômago torturado. Amarga e estéril vitória! A onda tocava-lhe os lábios. Comida. girar as chaves. aquela forma estendida. de raízes primitivas. Teve de recuar. arrancar o batente à neve e aos gelos. reencontrava o clarão vacilante da tocha nas paredes de madeira desniveladas do fortim de Wapassu e sua solidão tumular.... recusando abandonar-se ao delírio e. plangente como o sopro de uma concha marinha distante. pôs-se velozmente em funcionamento. Ora.. acreditou ter perdido o juízo. Lançou-se para fora. fustigado por um chicote áspero.. estridentes. da revolta e da repulsa. como uma maré cinzenta que se dilata e sobe sem ruído. nas noites de nevoeiro ou de lua..Alguns segundos talvez? Longos minutos? Durante esse tem-Do a natureza misericordiosa concedeu-lhe uma total ausência de sensações e pensamentos. Vocês me mataram! Eu morro por sua causa!.. . puxar os ferrolhos. Zumbindo nos seus ouvidos. sua angústia renascia. da qual percebeu se escapar em certos instantes o gemido lúgubre. e.. isso devia significar que ainda estava vivo?!.. chamando-os com todas as suas forças. foi preenchido por uma infinita tristeza. por que Utakê o jogara à sua porta? Por que 6 devolvera vivo a ela? Para satisfazer a qual de suas leis vingativas ou canibais? Para que ela acabasse com ele? Para que o comesse?. E. segundo sua lógica e sua ética.

. Ficou contemplando as crianças. "Tudo está resolvido". que lhe pareceu deliciosamente morno. o fogo duraria bastante. Estava feliz. O medo de ter-lhes quase causado a morte com seu desmaio era tão grande que nada mais importava." . achando-lhes as bochechas um pouco rosadas. aterrorizada. não a tendo encontrado. disse consigo com um alívio" infinito. como a derradeira refeição. O pensamento das crianças arrancou-a de um estado de languidez semelhante a uma suave embriaguez. "Eles dormem demais. Foi um momento de transição misericordioso. ainda indolor. acordou tremendo. A neve penetrara em turbilhões no interior da sala central. continuava perseguida pela ideia de que haviam. sentia-se loucamente reconhecida para com o céu. Tranquilizada. Todavia. mas isso não tinha importância. apoiou-se ao montante do fogão. de volta ao interior do posto. Levantandp-se. Cambaleando de fadiga. Teve de trabalhar muito para desobstruir a porta. que lhe retirava todas as forças. que as apoiava no pescoço. aqueceu-o sobre as brasas e bebeu demoradamente a mistura bem quente. Adormeceu. Adormeceu.Caiu desmaiada na mortalha profunda e suave da neve amontoada à porta. Mas continuavam a dormir pacificamente. depois refletiria. mas repousado. E preciso despertá-los. "Eles vão se congelar!" Os braços abertos para socorrê-los só encontraram o vazio. arrastou-se até o quarto e viu os três. entre o esquecimento dispensado pelo sono e a apreensão latente por aquilo que a aguardava quando voltasse à^realidade. Os furores do inverno bateriam em vão. retornou à entrada para terminar o que não tivera tempo de fazer: fechar a porta inteiramente.. Seu corpo estava leve. Mais tarde se lembraria de ter-se ali afundado com um infinito alívio. seu primeiro olhar lúcido era para elas e. ergueu-se de um salto. seu coração baqueava com o receio de que a morte as tivesse alcançado enquanto ela dormia. acordado e. Consagrou à tarefa de fechar a porta as últimas reservas de energia.. colocou mais lenha e turfa na lareira e. aquilo fazia bem. Inquietava-se. como a cada vez. enfiou-se sob as cobertas perto das crianças. Abastecido com madeira de olmo. Seu despertar a fazia flanrar. Olhou o que restava no fundo da tigela. e dessa vez soube que fora mesmo vítima de uma alucinação. A lembrança das crianças reanimou-a. mas já não sentia fraqueza. que lhes fizera bem?. e era o que bastava. Julgou ver diante dela três pequenas silhuetas cinzentas no blizzard mortal. "tudo está resolvido". e a neve derreteria ali dentro. O pior fora evitado!. quase inconsciente. chamando-a e. E pareceu-lhe ler naqueles rostinhos emagrecidos um reflexo da beatitude que acabava de experimentar. Sim.. que continuavam a dormir serenamente na cama grande. Um sentimento de culpa a atormentava. Pensou em ir repousar um pouco. Como ousava deixar-se dominar daquela maneira pelos nervos quando era afinal o único amparo daquelas três pequenas vidas?!. Voltando ao quarto bem aquecido. pois seu refúgio estava novamente fechado.. Seria a mistura de liquens e grãos que lhes dera para beber antes de pô-los na cama. Não tinha necessidade de mais nada! Sentada na pedra da lareira. inclinando suas pequenas cabeças para ele. haviam saído à sua procura. formando uma grande montanha.. um gémeo de cada lado de Carlos Henrique. no grande leito.

por aquela ténue luz de alabastro. Gemia alto. reclamariam comida. Mas ele continuava lá.. a mergulhar no misericordioso sono para esquecer. Não. examinou-o de longe. não eram víveres. Dentro e fora do forte. Tinha perdido a cabeça! "O que você fez?" Com gestos lentos. Não constatara que aquele homem estava coberto de chagas?. Sua decepção. alisava maquinalmente as roupas e jogava um casaco aos ombros. havia um saco. o silêncio tumular da grande sala quando ela conseguira reentrar e empurrar os pesados batentes protetores. aterrada. Cada detalhe de sua luta insana contra a neve.. transpassada pela flama de uma lamparina que invadia o aposento. Lembrou-se. estendido. Quisera sair para tentar.. não podia explicar-se o que a impelira a fugir para apagar o horror daquilo que acabava de surgir rompendo a monotonia já horrível dos dias que estava vivendo. no meio da sala. na sala ao lado? perguntou-se. vinha-lhe à memória e lhe deixava amarga a boca. repetia. mas. contra o peso do saco. e eram víveres.. pensou. Caminhou apoiando-se às paredes. sua loucura. a goela negra da noite abocanhando-a em suas presas. 'ele' estava morrendo e você o abandonou!" . ela adivinhava que o sol brilhava num céu purificado. E aquele grande corpo negro no centro." Ela se tranquilizava: "Eu sonhei". inerte. tal como o deixara na noite anterior. ali no chão. uma vez reanimado.. "Eu sonhei. Fraca e lúcida agora. "Que delírio dominou-me? Pensei que era. o fogo mantivera-se sob as cinzas e.Mas. seus gritos. a tempestade amainara. "Na verdade. ao acordar. custasse o que custasse. tocada pelo terror e pela aversão. "Será que sonhei?" Ela olhava suas mãos esfoladas pelo gelo. Apoiou-se à guarda da cama e se lembrou: "Não há mais nada para comer". A neve estava acima das janelas. Reinava uma grande calma. fragmentos do que acontecera na véspera se impuseram: ouvira uma batida na porta. incrédula aingV è alimentando uma secreta esperança de que todos os vestígios daquele pesadelo tivessem desaparecido. "Eu sonhei!" Houvera um cadáver. Esse pensamento lhe deu a noção. sangue. produziu chamas alegres. Por que essa obsessão?" Porque Ruth lhe havia dito: "Eles vão sair do túmulo!!!" Sentiu-se louca e culpada. Estava agora certa de ter visto brilhar um rubi no crucifixo? Talvez fosse apenas sangue. . soltando uivos sinistros. Na lareira. quase devorando-a. e esse cadáver estava vivo. sobre o soalho. O corpo ainda estaria lá. Seu alento flutuou imediatamente em vapor diante dela. O Padre d'Orgeval. Não queria saber a continuação. levantava-se. sua cólera contra Utakê. caçar. tremendo de ansiedade. Tropeçava no acre bafio da decepção que quase a matara. de uma outra presença partilhando aquele abrigo perdido. E se realmente "ele" ainda estivesse lá? "O que você fez?". Em contraste com o quarto bem aquecido.. Emergindo como que das profundezas de um oceano no-turno. a um só tempo assustadora e insólita. contra a porta. Parada à soleira da porta. Estátua jacente negra e imóvel. o corredor e a sala estavam gelados.

por um infinito remorso. Utakê! Não compreendeu quem eu sou!.fez? O infeliz estava moribundo. impelida por uma febre de resgate. agora que ele estava morto? E por sua culpa! Seu olhar desceu até o crucifixo. O rubi! Com os olhos pousados na face martirizada. Não adiantava mais nada chorar. ele ganhou. mas não pôde negar o vestígio do hálito que aflorava. como mármore.Certas tribos primitivas fogem e descabanam se se comete a inabilidade de introduzir em sua aldeia uma encomenda com aquela forma alongada de um cadáver. ela também rígida. e ela não compreendia que espécie de medo ou rancor a agitara ao vê-lo.. as cicatrizes e queimaduras." O pensamento de que o chefe dos mohawks montara aquela horrível mistificação a fim de que ela pudesse se vingar de seu inimigo-acabando com ele e. tal como nas criptas medievais se descobrem. Então ainda estava vivo? Inimaginável! Febrilmente. ela se interrogava. Se conseguisse arrancar aquele homem à morte. chegou-se suavemente e ajoelhou-se junto ao corpo. Pensava: "Perdoe-me. no fundo das cogulas de pedra revolvidas. E agora ele está verdadeiramente morto. talvez. ela fugira. — Perdoe-me. "Você não me conhece. os rostos em lágrimas daqueles "chorões" cujas estátuas velam junto aos túmulos dos reis. o sinal do Céu sobre a Terra." Movida por uma infinita piedade. um jesuíta. um irmão. eles todos estariam salvos. "Mesmo assim. Quem poderia ser esse jesuíta? E por que trazia ao pescoço o crucifixo do Padre d'Orgeval? Um arrepio tomou conta dela. Uma face enegrecida pela barba hirsuta e sangrenta. meu padre. aquela mesma face que.. não tinha o direito de deixá-lo morrer. Era o sinal. comendo-o. Perdoe-me!. dizia consigo." Era um homem branco. aquele selvagem!" Com as entranhas retorcidas. Eu pequei. no vazio da sombra. procurou nos bolsos. afastava tom as duas mãos os pedaços de couro enrijecido do capuz e. O sinal de que sobre eles velava uma força mais justa e misericordiosa que a dos homens. Fustigou-se. O que não a deixava menos terrificada. um cristão. Acabava de discernir um leve vapor flutuando acima do rosto imóvel. E não deveria ter feito aquilo. Era um homem branco. O que ia fazer. A mão lhe tremia. um sentimento de urgência. "Vou cuidar dele! Tenho de salvá-lo!" Apressou-se. Compreendia-os. — Está vivo! Instantaneamente reencontrou força e coragem. entrevira na véspera. sacudiu-a num sobressalto salutar de nojo e de cólera. perscrutando os traços informes e desconhecidos. um moribundo.. pobre homem! As lágrimas a cegavam. um francês. a vista se lhe embaralhava. encontrou seu espelhinho e passou-o diante dos lábios rígidos. ela encontrava ali. impelindo-a a fugir. um padre missionário católico. Perdoe-me. . O sinal da Redenção.. Inclinada. o que é um absurdo. O rubi ali estava e cintilava. "O que você. "O que foi que eu fiz? Mesmo que fosse ele. um mártir.

As crianças continuavam a dormir. germe de aveia-louca.. Voltou com um cântaro de bebida tépida. grãos e pedaços de abóboras secas. correndo aos saltos em suas raquetes. ficou surpresa por encontrar espécies de almofadas.. Como da outra vez! Feijões. Com sua "água" benfazeja. e teve de cortá-lo em placas.Dirigiu-se ao outro cómodo para atiçar o fogo sob panelas cheias de água. — Oh! Utakê! Utakê! Deus das Nuvens!. feijões do vale dos'Cinco Lagos!. iroqueses ou abenakis. pelo menos." O estojo enrugado cerrava-se sem cessar.. a alegria de hoje poderia tê-la matado. sempre confiara na promessa contida na denominação latina "aqua vitae". no gelo. retirou o primeiro saco de pele de gamo. — Víveres! As crianças!. a Dama do Lago de Prata. Era um risco. Juntara à bebida que queria fazê-lo engolir uma boa dose de álcool. morriam de fome. adivinhou-lhe o conteúdo. pois o couro malcurtido era tão resistente e liso quanto a madeira 'de um reboque. tudo isso para ir jogá-lo na soleira de um covil onde Angélica. "água da vida". Vendo. Um corpo sacudido por montes e vales nevados. entorpecendo-o como ao animal que hiberna. feijões. um pedaço de corda pendurada. Precisaria cuidar para que não se reaquecesse depressa demais.. os instrumentos de cirurgia.. em sua mortalha de couro.. a mandíbula crispada fechara-se como um estojo. de cujo segredo era depositária. evitando que as feridas se deteriorassem. pois a xícara ficou vazia e ela se persuadiu de que. e. faixas de bandagem. Deslumbrada. o remédio impregnara as papilas ressecadas e que ele ia se insinuar lentamente e reanimar o corpo petrificado. ervilhas. Isso lhe tomou um tempo enorme. abandonadas por todos. e suas crianças pequenas. e ainda milho. Como a decepção na noite anterior. à cabeceira. índios. antes mesmo de ter desamarrado o atilho.. que tinham se quebrado.. por léguas. Entretanto. Seria preciso esperar para tratar das queimaduras do peito. como uma casca de árvore. pelo negror das tempestades sibilantes e das noites. Puxando-o. fazia-os deslizar na palma da mão. atrás daqueles índios seminus. Empenhava-se agora em desprender o corpo em todo o'comprimento do couro espesso e muito duro daquela espécie de casulo no qual ele fora envolto e costurado inteiramente. pois receava ver transbordar da cavidade bucal o precioso líquido. untando as pálpebras grudadas pelo sangue e pelo pus com um bálsamo emoliente. lavou-lhe o rosto. pois sabia que somente o frio o mantivera vivo. tal como um avarento contemplando sumamente extasiado suas moedas de ouro.. "Jamais os compreenderei. arrastando aquele corpo. . que pareciam estar ali para envolver e acolchoar o corpo do mártir. Sob o envelope duro. Mas conseguiu filtrar. caído ou apodrecido. empreendendo uma corrida alucinada pela brancura imaculada dos dias. carne salgada. a bebida através das frestas entre os dentes.. pois retirar os pedaços de tecido negro ali aderidos exigiria um trabalho de muita paciência. Outros sacos e saquinhos continham arroz. Elas serão salvas. inchado e esticado. Desistiu de arrancar o crucifixo de seu estojo de carne. o cofre de remédios. Sob os lábios enegrecidos e ressecados. gota a gota. Aquilo acabaria com ele ou o ressuscitaria. mas um imperceptível reflexo de deglutição deve ter-se produzido. podia imaginar que "eles" o haviam arrastado assim. da cabeça aos pés.

tente mover as pálpebras.. Os olhos pálidos se animavam. Um olhar filtrava-se por elas. mexendo-se no vazio várias vezes. um olhar diluído. Teve de inclinar-se para mais perto a fim de captar as palavras pronunciadas. mas distinta. Sua cabeça girava. desmentindo por sua fraqueza o olhar no qual acabava de se reunir toda a energia do corpo percluso. Essas palavras a ajudaram a compreender que ele estava vivo. Com os olhos presos àquele elhar de cego. incolor.. e o feixe de luz incidia sobre ela. que.. Ele penetrava pelo estreito respiradouro. e teria desejado adiar o momento de transpô-lo. percebeu que as pálpebras do moribundo estavam levantadas. As pálpebras não pestanejavam. Sê me ouve. Sentiu que alguém a fitava em sua expressão de alegria delirante.. "Elas estão salvas! Obrigada. O sol brilhava." Falava bem alto e ria de felicidade.. Sentiu vertigem. E também teria ele ouvido? Compreendido? "Vou preparar a comida para as crianças". errava às portas da morte. meu padre. perguntou: — Quem. meu Deus!.. Sebastião.. senhora. aquele infeliz trouxera-lhes a salvação.. A obscuridade recuara. naquelas pupilas turvas.. d'Orgeval.— Obrigada. permita-me. A vida retomava seu curso. por um momento. muito puro. um som escapou deles e uma voz longínqua e penosa. devolvendolhes a vida com o colorido da íris. Ou seria uma ilusão? O fruto de sua obsessão? Nenhuma força poderia tê-la obrigado a interrogá-lo. Mas se poderia jurar que uma luz azul brilhara. veremos. A mesma voz abafada e frágil elevou-se. Disse. ofegante: — Sou a Condessa de Peyrac. "depois. Estaria morrendo? Foram os lábios que se moveram.. Renasceu a áspera vontade de retirar dos limbos aquele espírito que. Vou cuidar de você. — Per. E era lamentável e quase dilacerante ouvir aquele timbre partido e ver aqueles lábios feridos esforçarem-se por pronunciar as fórmulas de cortesia consagradas pelo uso de uma educação aristocrática.. Ele não se moveu. é você? Ela hesitou. erguia as mãos juntas num gesto de gratidão. depois. O olhar ali estava também. disse consigo.. Vou curálo... E os olhos permaneciam fixos e sem expressão. .." Mas eis que o fenómeno se repetia. que.. Eu me chamo. por sua vez. meu padre?. Decorreu um longo tempo.. Encontrava-se num limiar temível. a lembrar-se daquilo que precedera seu estado de inconsciência. o mesmo brilho azul emergia translúcido. meu Deus! Obrigada.. Por mais estranho que fosse o meio empregado pelo sutil Uta-kê para socorrê-la. mas também trespassado por uma cintilação dura e ferina: o brilho da safira.. rae apresente. e.... havia tantos dias.. respondeu. — Está me ouvindo. Virando a cabeça. faça-me um sinal. de um azul muito ténue. Não receie mais.. meu Deus! Ajoelhada. muito intenso. em voz alta: — Está em segurança. mas um olhar.

como pássaros. A JANGADA DE SOLIDÃO CAPITULO XVII O refúgio volta à vida — Cuidados com o mártir moribundo As ressurreições obtidas por uma terrina de mingau de milho enriquecido com um pouco de carne-seca incluem-se entre aqueles fenómenos que redimem a enfermidade do mundo e confortam as crenças num Deus bom e generoso. minha mãe. emergia de um repouso mais próximo do desfalecimento que do sono. Nada se movia no forte perdido. o vapor prateado de seus fôlegos esgotados fremia entre eles. que. E agora elas despertavam como numa bela manhã de Wapassu outrora. onde colocara punhados de trigo-sarraceno. e deslizavam para fora da cama as perninhas magras. nada parecia vivo. para duas vidas prestes a extinguir-se. impacientes de partir para a descoberta de todas as surpresas que lhes prometia aquele novo dia. Tinham ingerido esse primeiro viático sem abrir os olhos. durante algumas horas. . lascas de abóboras secas que ela preparara e reservara. E Carlos Henqrique. sacos de milho e de feijões. Oh! Caro e santo alimento! Pendurara imediatamente caldeirões na cremalheira. Angélica de Peyrac e o jesuíta Sebastião d'Orgeval olhavam-se frente a frente.O feixe de sol se deslocava com lentidão. Era preciso aparentemente tão pouco e dons da terra tão modestos para conduzir da beira do túmulo aquelas crianças cheias de vida e que a fome estiolava como flores privadas de água! Angélica alimentara-as com pequenas quantidades. e num outro pusera feijões com um pouco de sal natrão para apressar o cozimento. deixando-as adormecer entre cada colherada. dividindo-as em porções cotidianas. mais uma vez. Aquilo não deveria ter acontecido daquele modo. Na véspera — tinha sido na véspera? —. relegando para o fundo do pensamento a lembrança da declaração que lhe fizera aquela voz moribunda: "Eu sou o Padre d'Orgeval". fora tão-somente uma formiga laboriosa transportando tesouros inestimáveis para o quarto comum: saquinhos de carne-seca e arroz integral. condensadas pelo frio. que se vestira com esmero e impusera aos gémeos pelo menos vestir uma casaco por cima das roupas de dormir. Ténue sinal de vida. e tudo isso parecia alucinação. exceto aquelas nuvens evanescentes de duas respirações conjugadas. O próprio Utakê mandara dizer-lhes: "O Padre d'Ofgeval está morto". Era tarde demais! Mas acontecera. E somente depois ela se alimentara. Os três estavam muito mais lúcidos que ela. plantava-se diante de Angélica e lhe dizia: — Posso ajudá-la. a cuidar do "morto"? Tinha ele encontrado um meio de sair do quarto e de explorar a casa? E de descobrir na sala grande aquele corpo estirado no chão? Certamente. O estranho processo que usara Utakê para socorrê-la continuava a mantê-la em estado de incerteza. diluíra a carne-seca em água morna para introduzi-la de surpresa na boca das crianças inertes com os pedaços de abóbora amassados.

um pouco menos. fosse ela a sua ou a dos outros... querido. fatigada. Mas Carlos Henrique. — Não — respondeu mais alto. "Como o abandonei desse modo?!. Mas prefiro que fique aqui cuidando de Raimundo Rogério e Gloriandra. os mesmos atos colocados. Ali. instalá-lo diante da lareira. O que posso fazer?. uma barba inquietante e suà febre de levar. as mesmas personagens irreconciliáveis: de um lado o 'missionário de sotaina preta. Pois não podia ser de outra maneira.. A vida.. Basta um pouco de sopa no estômago para que nos sintamos novamente criaturas dignas de viver. chapéu grande. e sua feroz e inexplicável paixão. manteria sua insensibidade. Pois.. Mas agora. o processo de salvação estava iniciado. como toda criança. Pegou uma escova e começou a escovar-lhes os cabelos. tatuado. emplumado. A seguir seria preciso arrastá-lo para aquele cómodo. Não recomece a pensar. Será que se reaqueceria? Voltaria à vida? Emer-geria de seus limbos? Conseguiria retornar da condição de um cadáver.. o cenário dos lugares de seu nascimento. você é muito gentil. a selvageria que o embalara. nascido em terras da América. um ser humano que se faria conhecer e partilharia sua clausura invernal? Temia mostrar ao menino o estado a que um ser humano podia ser reduzido pela crueldade de seus semelhantes. E o pobre mártir talvez não fosse senão um pobre jesuíta dos Grandes Lagos que enlouquecera com as torturas. como naqueles gestos ou mistérios da velha Europa. dirigindo-se a Carlos Henrique —. ocorrera um milagre. como um código de honra. bálsamos. e depois os seus. Mas quem pode ser ele?" Não acreditava realmente que ele tivesse falado com ela. de lagos com horizontes sem fim e vales desertos. Mais uma vez estou abandonando-o!" Depois. teria talvez suportado esse espetáculo com mais simplicidade do que ela.Mas nada lhe assegurava que fosse Utakê o chefe iroquês mo-hawk que lhe enviava aqueles víveres salvadores. Aí está.. Até ele. Ele está morto! Ele vai morrer!.. tendo chegado ao fundo do desespero e confessado a si mesma: "É o fim". Entretanto. a fim de que não caiam no fogo e não façam tolices. não canse seu cérebro. dizia: "Um pouco mais. Ouviu-se murmurar: "Não aguento mais esses selvagens! Não os suporto mais!. cruz na mão. "Eu sou louca". aceitando sem dificuldade. O frio ali era glacial. e sua declaração: "Eu me chamo Sebastião d'Orgeval". em sua essência.. bandagens. pensou. . apesar de precariedade de sua situação. Há ainda muitos dias pela frente antes do fim da invernada. cada personagem desempenhava seu papel simbólico segundo um ritual imutável. Era agora que acreditava realmente na morte anunciada pelo Padre de Marville. confundia-se em seu espírito com os efeitos de sonhos ou de obsessão. nos estrados montados nos átrios das igrejas e das catedrais. pela morte pela tortura.. de um corpo miserável que ela teria cuidado como de uma criança... o gla-bro índio nu. é isso: alimentação.. em que via uma garantia de que todos eles chegariam com vida ao término daquela longa viagem de inverno. o "comatoso". Caldo também. porque seria preciso alimentá-lo quando ele saísse de seu estado letárgico. as regras do teatro erigido onde. começou a fazer seu plano de ação para cuidar daquele infeliz: tinha ervas. Se ele não o matasse. Faria os curativos no cómodo ao lado. dando-se algum tempo para recuperar as energias. sobre um fundo de florestas e de águas cascateantes.a Deus as almas pagãs. era a gesta dos dois mundos defrontando-se. com a escova na mào. do outro..

Foi preciso cortar-lhe bem ou mal a barba eriçada. estava banhada de suor. a seus olhos. não podia deixar de murmurar. o fio ténue daquela existência. uma morte que todo guerreiro digno desse nome sempre desejava tão lenta quanto terrível. para não partir. colocando compressas de água quente ao redor.-Não amarravam seu inimigo no pilar de torturas com o intuito de humilhá-lo e de aviltá-lo. coberto agora de pomada e ataduras. Finalmente examinou-o. "e nossos huronianos. A dor voltavalhe com a consciência. disciplina cujo pensamento e preparação não cessavam de dominar sua vida. colocou-a num pano branco. Restava uma superfície considerável de carne que fora poupada. Angélica soubera por pessoas do Canadá que os iroqueses eram peritos na administração dos suplícios. Como havia resolvido. afirmara-lhe com certo orgulho um L'Aubigniere ou um Nicolau Perrot. procuravam evitar o derramamento de sangue. um exame intrigado lhe fazia observar a "distribuição" das queimaduras. conseguindo torturar um prisioneiro mais de doze horas. . num gesto desconside-rável ou muito brutal. ainda lhe era possível manter-se vivo. Espreitava as reações no rosto do supliciado. "Pobre infeliz! Pobre infeliz!. e até dois dias. fez essa primeira operação na sala grande. Quando quis retirar o crucifixo. indo de uma ferida a outra e sem compreender como. cheia de nós e pegajosa de sangue seco. essa tradição das tribos iroquesas de fazer peref cer nos suplícios mais bárbaros aqueles que os haviam combatido era uma marca de honra.. Sentia náuseas. retirou peça por peça os farrapos negros de uma sotaina. Sofrer e aplicar bem a tortura constituía um dos mais preciosos ensinamentos que eles recebiam. Quando tentou deslocá-lo. algumas causadas pela aplicação em cheio de machados incandescentes e outras por sovelas incandescentes que atravessavam um músculo. Mas depois de lavar e relavar-lhe o corpo." Dessa vez poder-se-ia dizer que haviam torturado o missionário de modo a permitirlhe sobreviver. Era costume dos iroqueses respeitar a vítima naquilo que ela. os braços. O pior seria arrastá-lo até o quarto. porém.Tinha agora de fazer-lhe curativos dos pés a cabeça. coberto de tantas queimaduras. ele não dava nenhum sinal de vida. Depois de lavá-la piedosamente. incrustada.. transudando sangue entre as carnes enegrecidas. Ao contrário. O primeiro. Ao acaso das conversas. Continuava contudo a respirar. "É uma ciência". do leve vapor acima dos lábios. Segurou a cruz de madeira de buxo. sem que ele morresse ou perdesse a lucidez. A fim de obter esse resultado. algumas das quais exalavam um cheiro pútrido. foi inútil tomar todas as precauções. ele deu um profundo gemido. E notou que o membro viril não sofrera qualquer dano. Precisou cortar o cordão que a sustinha ao pescoço. Não saberia dizer do que o homem estava vestido. Fora. no lugar onde ele jazia desde a sua chegada. as pernas esqueléticas. Mas por muito pouco. desde o nascimento até a morte. mas com um alento tão fraco que ela se perguntava por onde começar sua tarefa. Tendo cortado com certa dificuldade a pele coriácea de um gibão. tinha de mais sagrado. Queimaduras e mais queimaduras. demonstram muita habilidade nessa prática. a marca continuou ali. que são de raça iroquesa. Apesar do frio penetrante que reinava na grande sala. que se sentiriam culpados de reCusar a um adversário valoroso. na qual o olho do minúsculo rubi cintilava.

pois tinha uma prática de muitos anos — na verdade desde a infância —. Naquele dia. malcuidada. vigiar a febre ou a perigosa recaída de fraqueza. cerrando os dentes. — Tem razão. pois cuidar e receber cuidados é uma das mais espontâneas linguagens de paz e de compreensão mútua. e os gemidos da mulher e do menino respondiam aos profundos gemidos do mártir. ele susteve os pés envoltos em curativos. meu menino. como o desditado rei da Espanha que. em suma. ela o içava como podia do outro lado da cama. Com seixos envoltos em peles ou panos grossos. á seu devotamento. Ali está sempre quente. e nele. E. poderia ajudá-lo a se reaquecer. depois de tê-lo instalado na cama. Mas ele soçobrou novamente. seu assassino. os aproximavam. podia morrer com a face assada. doente. Essa solução não a satisfazia. precursor da morte. arriscava-se a se res-íriar. bastava o estado em que se encontrava. — Devemos colocá-lo em nosso leito. que o traria de regresso ao convívio dos vivos. Agora que transpusera esse limiar de hibernação. encontrando o sinal de uma tonsura. sua mãe. e ela suspirou ao vê-lo protegido do chão duro e do frio e na situação de um honrado doente destinado a se encaminhar para a cura ou. não lhe ocorria. O processo de cura. . Carlos Henrique trouxe-lhe a solução que. enquanto. enquanto sua cabeça balançava para todos os lados. você ficará no meio para cuidar de todos. Tratava-se pois realmente de um padre. Foi finalmente deitado em toda a extensão. acreditando cada vez menos nisso. acalmar-lhe os sofrimentos. ficou convencida de que não dera o último suspiro. segurando sob os ombros a comprida e sinistra marionete machucada. seu inimigo. a sua dependência. no chão. e ela. \ Pensara ém instalá-lo numa enxerga diante do fogo. caía para a frente ou tombava para trás. na luta contra o frio. Por um lado.. Poderia à noite.. Vamos pô-lo de um lado e ficaremos do outro. Sobre os travesseiros de crina e de ervas. resolveu cortar-lhe os cabelos. umedecer-lhe os lábios ressecados. De estranho que era tornava-se seu filho. Lutava antecipadamente contra o apego que ia tecer-se coti-dianamente entre eles. como um frango com o pescoço quebrado. para ficar assado. que foi pegar no quarto. quando estivesse ao seu lado. não encontrara ninguém para afastá-lo do braseiro. deu um estertor e tornou-se mais pesado ainda. nela. nos quais se apoiava a cabeça descarnada. mudar as compressas. caso contrário.— Tenho de transportá-lo — explicou-lhe bem alto. além da linha fatal. em sua fadiga. fazê-lo beber alguns goles. reduzir a dolorosa inflamação de uma ferida com alguma pomada. Tiveram de recomeçar várias vezes. não devia mais recair num estado letárgico. se o fogo ficasse muito alto. Só depois que lhe colocou diante dos lábios um espelhinho. pois era preciso evitar que ele perdesse. por outro. em estado de exalar com dignidade o último suspiro. Tentava lembrar-se de que se tratava do Padre d'Orgeval. do estado de coma. quando doente e enfermeira descansaram um pouco. Dessa vez aceitou a ajuda da criança. devia prosseguir incessantemente para uma volta à consciência. Sabia que esses cuidados que lhe dispensava com habilidade. devido. ela colocara um pano branco. pois o preposto encarregado protocolar mente dessa função não pôde ser encontrado. esperando que sua voz o alcançasse onde ele se encontrava. Aplicou-lhe compressas sobre os olhos queimados pela reverberação da neve e ameaçados de cegueira branca. suas últimas forças. Depois friccionou-lhe o crânio e as têmporas com um vinagre medicinal. Com muita energia.

esquecer que "devia à sua vinda as bochechas mais rosadas de seus filhos e a volta à vida no forte. Quando Carlos Henrique quis falar. Húrarite aquele dia. machucado. interrogando-se. concebeu o projeto de -levá-los para fora a fim de tomar ar. Um pouco de sua carícia e as crianças lânguidas recuperavam o apetite. Cobertos como estavam. O sol brilhava. vendo as crianças correrem pela casa com uma necessidade de se expandir. de reencontrar agilidade e forças. Mas ao adivinhá-lo. arrumando os remédios.. e depois de ter por sua vez posto as crianças na cama. eles ficaram ali. Nos primeiros dias. das mãos do aldeão das Cévennes. fazendo-os cair como os passarinhos nos galhos nas florestas. sem se resolver a ir deitar-se junto àquela lastimável múmia. mostrando apenas a ponta do nariz.. petrificante. eczema. com uma mistura de satisfação e de terror. as pálpebras irritadas e avermelhadas pela fumaça.. Voltou para acender um bom fogo na lareira da sala principal e ferver um grande caldeirão de água. mais precioso que o . ao recebê-lo ferido. acordou persuadida de que tinha sonhado aquela intrusão extravagante em sua existência condenada. Cuido dele. fixa êm'sua rigidez mortal.. incapaz de tornar a fechá-la. numa atmosfera confinada.. Mais de uma vez constatara a cura de feridas ulcerosas. — Bem sei que é de você que vem todo milagre. Içou-os pelo alçapão à pequena plataforma que servia de telhado acima de seu antigo quarto e reuniu-se a eles. Joffrey contara-lhe de que modo sua mãe. que o levara do massacre no qual perecera sua ama-de-leite. porém. Em ambos os casos. "O que eu devia fazer? Agi corretamente?.. e refugiou-se no quarto único. pela exposição aos raios solares. Pela manhã.. acima daquele buraco esfumaçado. perdoe-me — disse em voz alta. E desse modo deixei-a continuar a praticar seus crimes. foi tomada por uma necessidade de sentir-lhe a carícia.. as bebidas que poderiam ser necessárias durante a noite e coberto o fogo com cinzas. Angélica apressou-se a fazê-los descer para dentro. A noite foi tranquila. o vigor... onde ele permanecera durante anos.. enterrado sob a neve. o instalara no terraço do palácio de Toulouse. que lhes feria os olhos enfraquecidos pela penumbra. numa luz dourada pálida. a do falso celeiro acima. recuperando sua saúde. Colocara o crucifixo do jesuíta sobre o anteparo da lareira..nosso tempo?. Arranquei-a das mãos dos homens que queriam matá-la. Depois. O sol tinha virtudes terapêuticas divinas. Uma fraude?. atormentada por questões que toldavam sua alegria primeira ao receber os víveres para salvar os filhos. o frio oprimiu-os. Pus minha filha em perigo!. encontrou-o.. que estivera prestes a se transformar em seu túmulo.. Ou na verdade nosso irredutível inimigo?. Qual é o dever do ser humano em. e ele permaneceu de boca aberta. cruel. não tendo um sopro de vida. dar-tros. Enfiou as crianças tal como estavam na cama grande. permaneceu indecisa. fechou o alçapão da plataforma. uma lufada de ar secou-lhe as palavras no fundo da garganta. ela sobressaltou-se várias vezes ao descobrir sua forma imóvel estendida na cama. e. Fê-las engolir uma bebida quente com uma grande colher de mel — aquele mel. Podia-se percebê-lo através dôs interstícios das janelas e das ombreiras que ela tapara cuidadosamente contra o frio de todas as maneiras possíveis. perigo!. Não podia. Mas quem ele é?. Quando anoiteceu. Salvei Ambrosina. era também difícil acreditar que ele fosse real.. ao lado do moribundo. vacilantes. em sua infância. e os clarões abafados das brasas faziam cintilar o rubi. exposto aos raios do deus Febo.Inerte. — O cruz..

imitado imediatamente pela irmã. — Veja. — Estão dizendo que as águas ainda não se retiraram e que não se deve soltar a pomba! Sabe. transportou para o quarto seus caldeirões de água fervente. pássaro. O blizzard. carregando-os rígidos e pálidos como se. O frio era tão intenso que foi uma tempestade seca... pluf. ceifou como uma lâmina gigante afiada o cimo dos bosquezinhos nas ilhas dos lagos. ambos exagerando os detalhes. a paisagem de fim de mundo que haviam entrevisto. cujos anúncios observara. cuja porta. e a tempestade. excitaram-se. Mas ouve tudo. Transportara para o quarto comum uma considerável provisão de madeira. empilhada. janelas. declarou-se. exsudando em seu cestinho de casca —. De pé na tina. carregou aldeias de wigwams inteiras com seus habitantes.. Faz frio demais. Mas dizem que ainda não se deve enviar a pomba para fora. procurando no sono o esquecimento das saturnais externas. preparar as . Olhe como agitam os braços e depois param para mostrar que ela não poderia voar. Readquiriram logo as cores e se animaram. do Labrador ao sudoeste do Maine.. Não teria pois de sair daquele último refúgio interior. encheu uma tina de madeira e. portas. houvesse tido o dom de petrificá-los. Não poderia voar. ocupava a quarta parte do espaço. o que é raríssimo acontecer.. mais terrível ainda que as que trazem a neve. Carlos Henrique voltou-se para a cama e gritou: — Não é. que. que não se pode ainda enviar a pomba?. Depois a temperatura baixou mais ainda. o "nordait" dos canadenses. era sacudida em alguns momentos. desvestiu-os e mergulhou os três. como uma pedra. Angélica só podia compreender algumas palavras" de seu pequeno jargão. — fez Raimundo Rogério. "esse cruel inimigo do homem" vindo do pólo. Angélica só se levantava para cuidar do fogo.. quando o banho ficou pronto. — E ele responde? — Não. mesmo dentro da casa. por mais enfiado que estivesse na terra e na falésia. com uma violência.. que encontrara também entre as vitualhas enviadas. Naquele "ano. passou pela superfície da terra a velocidades incalculáveis. — Pluf. como na Arca de Noé!. reforçar as trancas das ombreiras. e lhe arrancasse o telhado como uma simples panela perdendo sua tampa. morto. mãe. com os olhos brilhantes. Três dias. verificar as aberturas. Oh! mamãe. não deve! não deve! — Mas o que estão dizendo? — informou-se com Carlos Henrique. dizem que ela cairia. Ela não teria onde pousar.. que desenraizou árvores. quatro dias. Contei-lhes que estamos na Arca de Noé. ao mesmo tempo lívida e de um azul pálido translúcido.ouro. uma fúria. tagarelando com loquacidade. para quem essa linguagem não era Jiermética e que seguia sua exposição aprovando com a cabeça. é verdade. que repetiam a todo momento: navio.. deixando-se cair na tina em meio aos salpicos. o inverno que tomou de assalto o Escudo Lau-renciano. Eles gostam muito disso. — Com quem estás falando? — Com o "morto". Angélica temia em alguns momentos que o vento uivante acabasse por enganchar-se no fortim de Wapassu. foi tão terrível que ursos adormecidos morreram de frio em seus covis. mais ainda do que o frio. Falo frequentemente com ele enquanto você está preparando a comida ou quando vai buscar lenha no depósito. permaneceram encolhidos sob as cobertas. o vento do nordeste. Os gémeos contavam uma história com grandes gestos descritivos que faziam respingar a água..

por sons. ao evocar seu confessor. Deixava-o escorrer pelas comissuras dos lábios.. de outro.. a imensa fronte. mas dessa vez era um sono melhor.. Precisava também trocar os curativos do ferido. de um lado. Uma calma surpreendente estabeleceu-se. uma beleza viril e regular. um religioso. A carne tornava-se sadia. padre. Ele permanecia inerte. num lugar onde podia restaurar suas forças. Deus o exige! Abra a boca!.. Em certos certos momentos ela o sentia muito distante. cuja fumaça era soprada para dentro pelas lufadas contrárias. e em outros. era um alimento precioso que não se podia desperdiçar. que aumentava seu esgotamento. os traços das feridas começaram a se apagar. o Padre d'Orgeval. sabendo que o conhecimento pode ser atingido sem que nada se perceba. sempre ameaçador com o fogo. As tempestades da América do Norte haviam embalado suas curtas vidas.Faça um esforço!. Ela notara. sobre a qual caíam mechas de cabelos com reflexos castanho-dourados. o inchaço cedera e formaram-se cascas. Longa e ingrata tarefa. CAPITULO XVIII A caçada ao alce — Angélica e os lobos — Diálogo com um morto Ao cabo de seis dias. As bochechas se encheram. Era preferível tomar tisanas quentes de camomila e de tília para ter um sono tranquilo a enervar-se e assustar-se com os clamores selvagens que corriam lá em cima sobre a terra. Falava-lhe num tom baixo. Esses buracos estavam infectados e envenenados à volta toda. e Angélica punha-se ao mesmo tempo irritada e desesperada. certa noite. As crianças pareciam não se perturbar com aquele ruído do vento. os furores do blizzard começaram a amainar e. fazer todas aquelas bocas avidamente entreabertas engoli-las. Pelo amor de Deus!. dando ao doente um aspecto deplorável. quando as crostas caíram. concedendo-se apenas curtos períodos de repouso.rações de alimento — com a preocupação que recomeçava a despontar. inflexões ou palavras que o despertem e o tirem de sua apatia. Depois de alguns dias.. embora lívida. alerta contra os assaltos lúgubres do exterior. É um dever. Dormiam muito. da primeira vez em que as tratara. Tente engolir. mas chagas estranhas. de que não se esgotassem muito rapidamente —. Como para as crianças. — É preciso viver. Pelo amor à Santa Virgem! Mas essas objurgações piedosas não produziam nenhum efeito. Quanto a ela. Entretanto as feridas do rosto se cicatrizavam.. isso indicava que ele estava começando a perder os reflexos da sobrevivência.. "A beleza de Cristo". e ela viu esboçarem-se traços de um rosto que não era destituído de beleza. Mas. E ele parecia às vezes mais morto do que quando o descobrira em sua mortalha de couro. se desanuviou. permanecia acordada. seu interesse pela existência e encorajá-lo a fazer um esforço a fim de voltar à superfície de seu ser e se alimentar. o estado de insensibilidade no qual ele mergulhava advertia-a da lenta aproximação de uma saída fatal. inconsciente. que não eram queimaduras. o vento parou completamente. causadas aparentemente por instrumentos pontudos ou garras.. que traziam sombrias ameaças: a destruição da habitação sob a ventania ou o incêndio. dar de beber às crianças e ao doente. Insensivelmente ele começou a recusar alimento. suspiravam alguns penitentes um pouco exaltados. procurava o que poderia despertar nele. pois.. alhures.. e. suave e persuasivo. o que ..

No seio da floresta o pequeno castelo era uma ilha cor de mel.. de seu corpo. Angélica soube que naquela manhã. como em todo episódio dramático. — E nossa casa? — interrogou. de sua perna contra ela em sua caminhada. há um pombal. O abutre caíra daquele céu azul-pálido da Ile-de-France?. Ao derredor. lançando notas escuras sobre a seda verde das folhagens. mas tudo era muito real. ela dormia como uma criança feliz. ou talvez de uma floresta.ter sido um parque. nas pálpebras. Mas este é o presente do rei!. ao despertar. rebanhos de corças e javalis. outros campos lavrados.. a mesma floresta o cercava. cheia de árvores de espécies escolhidas e bem ordenadas. O braço de Joffrey enlaçou-lhe os ombros e sua voz dizia: — Construí para você muitos palácios e casas. tendo às suas costas a floresta murmurante. Havia uma volúpia em andar naquele caminho calçada com sapatos tão encantadores. pois era a primeira vez que o descobria. pois seus caminhos e veredas tinham a clara elegância de aléias traçadas. embaixo. vira pousar um pássaro branco cercado de luz: a pomba da Arca. seu sorriso.. Ela perguntou: — Há um pombal aqui? — Sim. suas rochas e águas murmurantes. Fosse por pressentir o fim da tempestade. sua pele suave e morna. . malva e azul de-canteiros à francesa. pois era uma floresta furta-cor e cintilante. nos cabelos. Chegaram à beira de um promontório e postaram-se ali. sabendo instintivamente que podia relaxar a guarda. sua presença. escoltados por pequenos faiais e bosquezinhos de freixos e. um pequeno castelo claro.pulso e ela não conseguiu dar um grito. e viveu esse sonho que lhe pareceu tão verdadeiro que a percorreu com uma impressão subjacente de que tivera um pesadelo horrível na noite anterior. Ficou tão contente que julgou estar vivendo um conto de fadas. Joffrey1 passou um braço por seus ombros e com o outro indicou-lhe.. Apoiava-se ao braço de Joffrey e sentia o calor de seu braço.. estava encerrada com as crianças num buraco sob a terra enquanto uma tempestade furiosa passava acima de suas cabeças. diante do qual se estendia o mosaico vermelho. um pinheiro azul de tronco rosa. carvalhos e castanheiros. e a doçura de seus lábios pousando-lhe no rosto. na boca. Nesse pesadelo. Sentia a adoração de seu olhar. A garra de um abutre pegou-lhe o. Uma floresta que poderia. mas que levava além a outros domínios. numa das encruzilhadas. e ela via pousar na areia_a-ponta de seus sapatos de cetim bordado rosa e prata. dispersos aqui e ali.. que se voltava incessantemente para ela. Que sonho estúpido! Num momento em que fazia um tempo tão boni to naquela primavera e os pássaros cantavam apaixonadamente nas árvores! Estava apoiada ao braço de Joffrey enquanto caminhavam pelas alamedas de um parque.coincidiu para Angélica com o melhor sono de que desfrutou após um longo período e um sonho paradisíaco. na testa. mas era uma floresta humana. de o movimento de terror refluir para enviar os sinais de esperança. uma conífera elegante. com seus recantos de sombra e de luz. atraídos continuamente. nãp conseguindo saciar-se com sua carne viva. Curiosamente. Estaria querendo pegar a pomba? Emergiu do sonho num estado de sofrimento que a deixou emudecida. fosse porque chegara o momento.

. um alce? — Vivi muito tempo prisioneiro dos iroqueses. senhora. olhou para o leito. As crianças morrerão. por causa do alimento do qual sua sorte dependia. de seu entorpecimento. A voz autoritária arrancava-a de seu sonho. como os índios exacerbados pela fome. a vida está la fora. no lugar de seu "morto". pulou para fora da cama..A garra em seu punho era uma mâo.... todavia. Você deve sair. Estava pronta a arriscar-se por uma ilusão. Não se deve deixá-lo afastar-se. Depressa. Depois tirou o mosquete do cabide.. de humano para humano. — Na verdade. — Está delirando. não o deixe escapar. Bruscamente. roídos.. ninguém virá.. encolerizado.. — Não! Eu sei. livrando-se da garra do abutre que a segurava. de vivo para vivo. A notícia penetrou no espírito de Angélica. — E. sem forças para sustentá-lo.. procurou o polvorinho e o saco de balas. desconfiada da loucura que parecia ter-se apoderado daquele semimorto e sem conseguir resistir a ele... uma miragem.. um alce canadense!... expostas ao inverno infernal. Voltando-se subitamente. Discutiam e brigavam por causa da carne.. Terá carne até a primavera. Por onde sair? Conseguiria subir ao telhado? Colocar as raquetes? Avançar na neve profunda? Ela cairia. Acorde. — A mesma voz estranha adjurava-a: — Aproxime-se! Obedece u-lhe. você não acredita em mim — disse ele. Estava inclinada a acreditar nele. — Que está dizendo? Como sabe que há caça lá fora. perguntava a si mesma quem era aquele homem barbudo que estava vendo ali. Um homem que ela não conhecia e de olhos dementes estava inclinado sobre ela. e sei quando o animal está rondando.... Tem de abatê-lo. O que queria dela? . diante dela. Faz muito frio! E estou muito fraca.. — Levante-se! Levante-se! Há um alce lá fora. Ele repetia: — Abata-o. os olhos arregalados. Apresse-se! Que está esperando?. Era a primeira vez que dialogava com ele. fixando no catre aquele desconhecido que lhe falara com uma voz vinda de alhures e que continuava a fitá-la com olhos ardentes. quase lhe tocando o rosto e repetindo: — Há um alce lá fora. como todas as verdadeiras criaturas daquele deserto branco.. que tinham dificuldade em se mover. Deixou o mosquete tombar contra a parede. Ele estava realmente ali: Estava realmente vivo. Começou a enfiar mecanicamente o casaco e as botas. e as duas mãos que a seguravam dobravam sua vontade renitente. morreria sozinha. incerta de que essa ordem emanasse dele. com os dedos mutilados. Era o Padre Sebastião d'OrgeVal.. — Chegue mais perto! Ele estendia para ela dois braços hirtos. Isso lhe dará carne. Com o coração disparado.... carne até a primavera. — Apresse-se! Apresse-se! O que está esperando? — Não posso sair. Então ela pensou que a vida — se estava ainda viva — tomava aspectos fantásticos e burlescos. Ninguém para socorrê-la. Mas cada etapa pareceu-lhe insuperável. Uma mão horrível.. — Aproxime-se. — Se eu cair.

Mas a neve em volta do fortim era um belo tapete branco imaculado que havia muito tempo não era pisado nem por homem nem por animal. Melhor do que qualquer arcabuzeiro.Obrigava-a a ajoelhar-se perto da cama. Atrás dele. prestes a se quebrar sob o efeito do gelo. nas paragens do ioite. sempre com aquela energia de ferro contra a qual sua fraqueza não tinha qualquer poder. alguma. Dizem que você atira muito bem. Mas eis que. Deu a volta na plataforma. Se o animal passara junto. — Você poderá fazê-lo! Sempre ganhou! Com esse alce. e não podia tremer.. Saindo cautelosamente de seu abrigo. Dali. Avançava com passos hesitantes. Tem de abatê-lo. O blizzard arrancara a neve das árvores. Decidira sair pelo sótão. mantendo-a ali apertada. O que lhe picava o rosto eram gotas de suor geladas. — E se eu falhar o tiro? — Não falhará. negros os buques de árvores. e pensou em saltar por cima da muralha. A noite estava mais glacial do que julgara. de Peyrac. tinha tanta sede. Sra. sobre a plataforma. emprestando-lhes silhuetas e volumes tenebrosos. — Dois! São dois! Uma fêmea e seu filhote! Começaria pelo adulto. decepcionada. Aproximou-se da beirada de madeira contra a qual pretendia apoiar-se. Devia ter gestos lentos. as florestas junto às quais impalpáveis rastros de bruma pareciam captar em luzes fugazes os reflexos da claridade lunar. à casa. coisa se moveu. que estava apenas a uma toesa do solo com a acumulação das neves.. Não queria desistir sem antes ter tentado tudo. naquele silêncio petrificado. pequenas e numerosas. mas clara pela magia de uma lua quase redonda. haverá carne até a primavera para você e seus filhos. suavizando o azul aveludado da noite. arreada da cabeça aos pés. Sra. o animal agitou-se e tomou alguma distância. que a esperança a invadira imediatamente. o eco de um passo.. Sob a abóbada celeste. Foi nesse instante que discerniu uma agitação na zona de sombra projetada junto ao pequeno bosque. deveria encontrar suas pegadas. Não quisera acreditar nele.. talvez alertado. Você pode. tudo era branco ou negro. que avançava como uma ilha num mar leitoso. ávida por surpreender. Branca era a planície gelada.. se ela ali estivesse. aspirando o ar. puxava-lhe a cabeça contra seu ombros. semelhante a uma frágil concha de nácar. olhando para todos os pontos do horizonte. Sua silhueta parecia imensa. Dirigiu-se à sala grande. um alce. juncavam o firmamento de rastros pálidos. o animal apareceu. Seu espírito desanuviado permitia-lhe raciocinar. Sua língua estava tão seca. o movimento de uma sombra. Procedeu a um exame do bosque-zinho mais próximo. percebia.. destacando-se contra a neve. movida por uma vontade feroz. e um alce de menor porte surgiu na sua esteira. agora que constatava a inanidade de seu aviso. Nada se mexia. A dor causou-lhe um choque e depois lhe fez bem. E. Seus olhos doíam. para ir desemboscar aquela caça fantasma na floresta. Ouviu-o falar acima dela. Sentia florescer em seus cílios cristaizinhos de gelo. .. mas. viu-se de pé. Olhou em torno de si. de Pey-rac. como ele afirmava.. Depois pensaria em garantir a outra presa. precisos. Você foi chefe de guerra. Ganhe! Ganhe mais uma vez. depois começou a correr. Subitamente. As estrelas. Calculara que àquela distância tinha ainda uma chance de atingi-lo. que agarrou um punhado de neve e o levou à boca. poderia primeiro verificar se havia realmente.

de impaciência e. Angélica. o animal continuava de pé. mulher tola! . Era muito longe. não sabendo com que dedos podia realizar os gestos necessários. compreendeu que o animal se reaproximava e pôs-se prontamente em posição à beira da seteira. Agora não podia mais atirar da plataforma. enfim. uma base larga e preênsil como ventosas.. e apertando com os braços o corpo de seu morto-vivo.. Para lá do corpo do animal morto. um retalho de carne. repetido de maneira infinita até os últimos cimos curvos dos montes Apalaches. Desejava deixar o animal aproximar-se o máximo possível. não compreendeu inicialmente a direção tomada por aquela massa em movimento. uma sombra negra sob o luar. tremula. não quis arriscarse a vê-lo partir numa outra direção e atirou. que tentara seguir a corrida da mãe. Uma espécie de embriaguez de alegria invadiu Angélica.. pois ele parecia impelido como uma bala na direção do posto. — Se tiverem tempo de chegar^não lhe deixarão nada.de ansiedade. A dor nada era naquele momento crucial.. Não se deve abandoná-lo aos lobos!. Decidiu tentar o tiro. escandia a louca decepção de Angélica... você diz?. —Trouxe o animal?. o alce se distanciava como que galopando. pois temia que a cabeça pequena e móvel fosse um alvo menos seguro. Apenas a pressão de seu corpo repartida pelas quatro patas dotadas de cascos flexíveis.. meu caro padre. levantava a arma para mirar novamente. ao abrigo do bosquezinho. virando para a direita e para a esquerda um perfil papudo com um longo focinho caprino. de esgotamento. ao levantá-lo.. e o eco de seus cascos. vendo-o diminuir. pois não os sentia mais. O filhote fugira e se refugiara. atravessou cómodos e corredores quase sem tocar o chão. Subitamente o adulto voltava a galope. Depois desmoronara pesadamente. Quando ombreou a arma e pôs o dedo no gatilho. Em Seu lugar havia um montículo negro sobre a superfície lívida da extensão nevada. de precisão e de instinto. Os lobos! Meu Deus!. Vendo-a aumentar. Estamos salvos! Estamos salvos!"' — Trouxe o animal? Ele a empurrava. O animal caíra fulminado. que se preparava para mudar de lugar para visar melhor o filhote. visara a cernelha para atingir o coração. Não me deixa respirar. sentiu que aquele dedo em repouso aderira à placa de aço e que deixava... em meio ao estrondo dos ecos do tiro. Os lobos... — Consegui! Consegui! Jogou-se ao pé da cama. — Ah!. Reunindo todas as suas faculdades de visão. Mas. obrigada. rindo e soluçando. — Consegui! Consegui! Oh. O menor. tomar fôlego!. Quando olhou.Sobre a neve dura.. a corrida e depois parar e farejar o ar. Tentar ao menos atingir aquele. De revolta. pareceu hesitar e parou.. e ela quase caiu ao pé da cama. Mal percebeu o ferimento. Recarregou apressadamente. Apressese. Ela soltou um grito. o mantivera de pé por alguns segundos após sua morte.. diante do efeito de uma vitória tão completa e cheia de segurança de vida mais embriagadora ainda. era o inverno vencido. Mas quando. diminuindo e abafando-se. de consternação.... Despencou pelos degraus das escadas do sótão. não viu mais o alce.

— Apresse-se.Eles não estão longe.. no qual os iroqueses lhe haviam enviado o Padre d'Orgeval. ocupou-se da tocha. quando estava conseguindo galgá-la. pegue uma tira de pano para amarrar o animal. na noite em que encontrara o "cadáver" na soleira. não aguentava mais! Amanhã iria buscar o animal. — Cuidado com os lobos. e que era imperdoável ter-se deixado levar àquela histeria e ter esquecido a irrupção possível dos lobos num lugar de caça. Essas diferentes possibilidades apresentavam-se ao seu espírito numa velocidade vertiginosa. uma coberta para puxar sua caça sobre a neve.. e para introduzi-lo pelo alçapão pequeno. se se considerasse que uma fervilhante cólera interior pode gerar algumas vezes o sangue-frio distraindo o espírito. Não. Na sala grande. Untara-os com um pouco de geléia de líquen. que mergulhasse novamente naquele frio glacial para mocrer. principal. apresse-se!. içou-se para fora da trincheira. um uivo suave elevou-se aparentemente bem próximo. a tocha. Sobre essa neve. Fora de cogitação içar o alce morto à plataforma... fechaduras. introduzindo-o pela porta. Vá! Vá. dos problemas insuperáveis do momento. teria de cortá-lo antes. Estava furiosa contra ele. deslizaria facilmente.. A trincheira diante do posto estava coberta de uma fina poeira raspada pelo vento na superfície da neve endurecida. Teve apenas de dar algumas pancadas com pás e picaretas de quebrar gelo para abri-la mais. pois elas são muito rígidas. correias para içar a carga. é melhor do que cordas. mas seu uso na neve endurecida era inútil e teria atrasado sua caminhada. se tiver uma preparada. Pegue um trenó selvagem ou um pano grosso.. Pegou uma comprida como um círio e bem embebida e foi acendê-la na lareira do quarto comum. aquele homem. gritando: "Apresse-se. seriam os olhos deles? Não. com uma rapidez inigualável.. Apenas a tocha. ordenou mentalmente. que parecia polida por uma plaina. por causa da sanha com que a empurrara. mulher tola!" Era preciso reconhecer que a maneira como se lançara sobre ele chorando de alegria vazava-se no delírio mais imbecil e mais deliquescente. surtiram seus efeitos. as diferentes fases da operação que se anunciava. pois tinha de decidir sem demora. Ocupada com sua vindita. Com a tocha em punho. que julgara ver à fímbria da floresta. Estava muito calma agora. funcionavam bem. barras de ferro. Perguntara-se algumas vezes se poderia-odiar o jesuíta que os prejudicara tanto. — Vá! Estou lhe dizendo! O tempo está passando! A pistola de dois canos? Não havia nenhuma em condições de funcionamento. pelo menos abri-la... — Não conseguirei. Os gonzos. Reassumira seu autocontrole. Ele simplesmente queria a sua morte. e. eu os ouvi! As luzes. Leve uma tocha. aquele intruso. o que lhe seria impossível fora da casa.. que é a melhor arma. aquela espécie de trenó de couro não curtido. E em primeiro lugar precisava desprender a porta. aberto em toda a sua largura. arrastando atrás de si o trenó emba-raçante. com seu domínio. E uma pistola de dois canos. Senão. munida de um saco cheio de rolos de correias e tiras de pano. — repetia ele. Não tivera tempo de pôr as raquetes. Só tinha uma solução: pôr o alce abatido naquela sala. . Mas agora sabia que o odiava com todas as forças. Por sorte. os esforços que despendera para desprender a porta.

acreditando num dado momento que o gelo lhe soldara o flanco ao solo. Depois recarregou o mosquete. a menos de dez passos. Uma vez a caminho. e desprendeu-o bem depressa. Manejou a faca e o machado freneticamente. os lobos estavam bem perto dela. mais meigos ainda do que os dos cães. Eles retomavam sua corrida em direção à presa entrevista. vendo-o cair perto da mãe. pensou. Angélica correu para pegá-lo e colocá-lo novamente no trenó. Angélica não teve tempo para deter o trenó e precipitar-se para trás para pegá-la. atrelou-se às correias de couro e conseguiu abalar sua curiosa equipagem. ávidos e tristes. de todos os movimentos insólitos. içando por cima mais facilmente o corpo do filhote e fixando a tocha na retaguarda sob o peso dos corpos dos animais. puxava. E ao se inclinar para apanhar a pata do filhote de alce e puxá-lo para ela. Agitou a tocha com frenesi. o bale enervado e mudo dos lobos. tremendo da cabeça aos pés e olhando a sua volta como se todas as saídas estivessem fechadas à sua fuga. O tiro tinha-os imobilizado apenas ligeiramente. Angélica parou e plantou á tocha no solo. Mas a fiel amiga subitamente vacilou. antes que ela caísse na neve. sobreviveremos até a primavera. Andava tão depressa quanto podia. um barulho feito dê marteladas pequenas e continuadas. sacudia sobre o trenó o corpo enorme do alce. Apanhou a tocha e colocou-a na dianteira do alce abatido. gritando: — Para trás! Para trás! Mas ele se recusavam a recuar. pontilhada pelas luzes douradas de seus olhos. quase ao nível dos seus. Enquanto vigiava incessantemente. colocando-o ao alcance da mão. Ainda dava tempo. quase humanos e como que suplicantes. Viu .O alce fêmea continuava ali. meus bons amigos — disse-lhes. com o risco de apagar-se. criando um círculo de luz que manteria a distância as feras esfomeadas. — A carne vai ser minha. do outro lado do animal e prestes a enfiar-lhe as presas. Não se deixou impressionar por sua volta furtiva e rápida. felizmente. mas tropeçou e caiu. quase correndo." Foi então que ouviu como que o sussurro de uma maré avançando. parecendo uma vaga de espuma cinza rolando para ela. Depois endireitava-se. O terror do jovem animal era tal que sua chegada pesada e ruidosa não conseguira fazê-lo afastar-se do cadáver do outro. Incidente que começara na sua primeira fase por provocar o recuo dos lobos. agarrando-o como lhe era possível. adivinhando que os lobos se lançavam em seu encalço. e percebeu os lobos que vinham a galope da orla da floresta. e que lhe pareceram menos fosforescentes do que ao longe nos bosques. mas apenas brilhantes. Quando se levantou. viu. amarrou-o de qualquer jeito com as tiras de bandagem que ele recomendara como preferíveis às cordas. medrosos de todos os ruídos. ela empurrava. retidos todavia pela chama da tocha na retaguarda e pela chuva de fagulhas que chovia sobre eles a cada solavanco. cujas idas e vindas se cruzavam e entre-cuzavam numa hesitação febril. orelhas. o menor girava em passos cautelosos rias longas patas filiformes. Com a tocha nas mãos. que caíra do trenó e que ela percebeu. os olhos dos lobos. para lá da luz. o gelo sobre o qual se deslocavam tornava a tarefa fácil. O que provocara a queda da tocha fora o deslizamento do filhote mal arrimado. a espinha abaixada ao mesmo tempo para a esquiva e para o salto para a frente. — Tarde demais. pelas patas. còm o mosquete atravessado sobre o trenó. Atirou à queima-roupa. "Dois". com as patas agarradas ao solo. caído. que Honorina amava tanto. "Com isso estamos garantidos. E em volta da forma abatida. mas receosas do fogo do homem.

Era ela a mais feroz. havia prendido o mosquete. submetidos como ela à provação infernal que ameaçava suas existências: a fome. irmãos. . a lembrança do lobo de focinho comprido e dos olhos oblíquos e humanos. a tocha. Apenas quando se levantou foi que pôde vê-los aproximarem-se do filhote de alce. Próximo ao final. Angélica atrelou-se aos arreios de couro com uma energia redobrada." Começou a recuar lentamente. fome!. trepidando e raspando ao passar por asperezas com um ruído repercutido que lhe enchia os ouvidos. aquele lobo que talvez não tivesse visto. Estava ali debatendo-se naquele buraco com aquele animal do tamanho de um cavalo que...." Contaria às crianças que o eco dos lugares perdidos de Wapas-su desaparecido cantara: "Nós somos irmãos. E dessa vez eles se sobressaltaram e deram um pulo para trás. pensou. sendo às vezes ultrapassada pelo trenó. de joelhos. Chegara ao trenó e permanecia de joelhos. como no conto de Gargân-tua. surpreendentemente clara e poderosa. ao cair. não querendo deixar nada de sua presa. Ela se lembraria que murmurara com os lábios rachados: "Eu lhe suplico! Eu lhe suplico!.. Era para permanecer ao nível de seus olhos. o que era mais perigoso do que ficar de pé. Fantasmagoria! Muito tempo depois.. Levantando os olhos julgou distinguir um lobo maior. e a porta nada de se abrir. mal-equilibrada. Preferiu hão parar. Não tinham ferocidade. Irmãos. Um leve declive facilitava sua corrida para o forte.. ao ouvir aquela voz humana que se erguia. rolando sobre a neve e apagando-se com crepitação. Empurrava-o mal-emal sobre o trenó e refazia os nós com dedos inexistentes. "Vou deixar-lhes o filhote". derrubou sua carga para baixo e saltou por sua vez.. eles não se moveram. cinco ou seis. e depois se lançarem vorazmente a ele. Isso era uma coisa que os faria rir e bater as mãos. dos olhos tristes." "Fome.. irmãos!. "Deixolhes o filhote. Dificuldades surgiram. duvidando ainda de sua boa esmola. fome. do quaí ela tivesse sido a parteira minúscula. irmãos!" E que a passagem do alce através das portas e do sass obscuro do fortim era exatamente igual a um monstruoso parto. yiria colocar um bálsamo agridoce em seu coração.. caiu. A carga virava.. A sombra do forte mergulhou-a na obscuridade. mais magro e mais velho que os outros. depois de darem cabo prontamente de sua magra ração. — Deixo-lhes o filhote — gritou-lhes. Chegando finalmente à beira da trincheira. devo. não a seguiriam. Outra vez. por seus gestos. repetiram os ecos intermináveis do país do cristal. enquanto ela os fixou com o olhar. sonhadores e todavia cheios de interesse.. Voava.. lançando gritos agudos de vingança e alívio provocados pelo aspecto cómico do trágico. continuando a brandir a tocha para imporlhes respeito pelo tempo que pudesse. e porque somos irmãos. irmãos. E o lobo ali. Perguntava-se incessantemente se os lobos. irmãos. "devo fazê-lo. O animal se deslocava. porque têm fome... e sua carga a aco"mpanhava sem dificuldade. inclinado e apontando o focinho pontudo enquanto ela tentava empurrar a porta para introduzir na sala o corpo do enorme alce. e..como estavam magros e eram pouco numerosos no total.".. no ar gelado. Havia barrancos nos quais caiu. olhando para ela.

dei-lhes o filhote!. Só percebeu a chegada do dia e que já estavam no meio da manhã quando viu Carlos Henrique diante dela propondo-se a ajudá-la.. enquanto os dois pirralhos. até a primavera!" — Dei-o aos lobos — declarou-lhe com ar de desafio —. começavam a chafurdar no meio dos quartos de carne e a se interessar pelas orelhas do. Carne..alce e por seus grandes olhos extintos sob cílios semelhantes a escovas. Pode-se fazer uma boa sopa de cola. como se previsse a revolta de sua lassidão."Meus filhos". . O homem deitado dirigia-lhe um olhar zombeteiro.. num tom impaciente. corte. raspe. diria. como se sua excitação lhe parecesse pueril. muito nutritiva. — É preciso retirar as vísceras. um cutelo. que podem estragar as partes sadias. E vinha perguntar-lhe. — Ele não tem coração — lançou-lhe ela. mas de um macho. Tínhamos carne daí em diante. mas um alce provavelmente novo.. — Não era um filhote. Tem um avental grande. Ela acendera um fogo bem alto na outra sala. Ele lhe dava instruções precisas para retirar o coração. — Pela manhã vão ver se eles deixaram os cascos. o fel. um prato especial. descabelada e com as mãos ensanguentadas: — E agora? Ele dizia: — Pegue uma serra. — Sim.. um machado. Serre. escudelas. como último recurso. O que a surpreendeu muito foi descobrir que não se tratava de uma fêmea. separar os miúdos. que teria dito: "Pobre alce!" — Dar-me-á ao menos algum tempo para cuidar de meus filhos e preparar-lhes um caldo? — gritou a seu atormentador e guia no corte da carne. — Como se explica que não seja uma fêmea? — Porque é um macho — retrucou ele. Nem os lobos. parecia-lhe. Não se deve esperar — disse. dispondo ali todos os seus caldeirões. Não tinham o sentimentalismo de Honorina. — A que distância? — Ao alcance de um tiro. não tinha qualquer consideração pelo estado de fadiga no qual ela se encontrava e que a tornava meio atoleimada. de couro? Ele não parou durante toda a noite de indicar-lhe as etapas do trabalho. cortar a língua. E agora é preciso destrinchar o animal.. Sempre aquele brilho de ironia. — Você queria visar o coração? — Sim. vestidos com roupas limpas que o menino os ajudara a vestir. "o alce finalmente ali estava na sala do forte. — Um filhote o acompanhava. pratos.. — Só uma bala?. As duas portas estavam fechadas. nem ninguém podia vir tirá-lo de nós. Ele era exasperante. sempre com aquela careta que ela julgava ser um sorriso zombeteiro. a bexiga... triture!. — A bala estourou-o.. magro e de menor tamanho que o ancestral.

Eu posso esperar. Oh! Obrigada a você.. entregou-o a ele. Sustentando-lhe a cabeça.. seria preciso renovar-lhe as compressas. ditava-lhe a receita do caldo. Não esperava tanta bondade de sua parte — ironizou ela. ela se perguntava ainda o que fazia ali. bebido um cálice cheio de vinhos capitosos. tantas derrotas. como ele continuassecalado. senhora. construído. egoísmo. Você. Não acontecera nada. Você me concede um pouco de repouso?!. Mesmo assim... reações de pessoa viva e. Ele tinha um olhar muito azul. Bebeu por sua vez. abatido sobre a terra que vai absorvê-lo e enterrá-lo. continuou sua obra de destruição. como fez. Ele se calava Ela pensava que. Ainda não era hora para isso. jesuíta! Caro mensageiro da noite e dos iroqueses. julgando que iria desmaiar de tanto bem-estar. esgotar-me para devolver-lhe a vida. senhora. a você. por minha falta de civilidade. você.. pois era vida que voltava para ela. consentindo finalmente em que interrompesse o trabalho. Já estava na hora de ele ouvir aquelas verdades de sua própria boca. — E lhe informarei em primeiro lugar que tive razão em não me lançar do telhado onde me encontrava empoleirada para trazer para dentro aquele animal enorme.úma a uma. disse-lhe. e o raciocínio. se elevou. Dirigiu-se cambaleante para a lareira. com tantos esforços e sacrifícios aqui! Tomou fôlego e. mas não conseguia refrear suas. você. meu e dessas pobres crianças.. palavras. deixou fluir sua onda de cólera. Ele era destestável. .. A caça passava ao seu alcance. e sua alegria era tanta que se esquecia de seus membros doloridos e das horas de provação. os gestos daqueles que têm com que se aquecer e se alimentar sobre a terra. — Creio dever apresentar-lhe minhas desculpas. Era sinal de que a ceifeira não os alcançara. e Angélica começou a considerá-lo um loucov Ou então era ela que estava ficando louca por ter respirado aquelas exalações de sangue e de entranhas quentes. Duas luzes puras que emergiam daquela cloaca cinza na qual se perdia seu olhar habitual Sua voz. com agressividade. E azar dele se reassumia sua aparência de tronco morto e apodrecido. Não passa de desprezo. os gestos se tornavam seguros. Deu de beber às crianças. A vida voltaria a ser cotidiana. os pedaços que ela devia usar. Não seria você quem poderia me ajudar! Nem nenhuma dessas frágeis crianças! Você não sabe de nada!.. fê-lo beber em pequenos goles. embriagada como se tivesse. Você me repugna. depois de têlo acomodado um pouco. edificado. era a receita de sua "Tia Nenibush". novamente longínqua. — Isso não era motivo para me insultar. Preparou para ele uma tigela do divino e quente néctar e. mesmo morto. Julga que me diverte curar suas feridas. mortes e desastres? E ainda por cima me insulta! Ah! Como você odeia as mulheres! Via-lhe a face" empalidecer e o olhar turvar-se. mas encantada. Era isso mesmo o que ele era. Olhando para o leito. A porta estava fechada. — O menino já me dispensou alguns cuidados. — Realmente. não mais semimorta. que é a causa de nosso estado miserável. fraca e hesitante. a quem injustamente devo tantas desgraças. em vez de caldo de carne. Não poderia nem arrastá-lo até o posto nem subir ao teto e entrar na casa. mas era um boa coisa ser capaz de irritar-se contra alguém. a quem devemos a perda de tudo o que havíamos sonhado. concebido. surpresa com seus gestos. que. Estava ao mesmo tempo enojada e superexcitada. Os segundos eram preciosos. depois do alce. Repouse.Ele perguntou-lhe se ela colocara os pedaços principais de carne envoltos em peles ou em cascas de árvore no gelo. orgulho.

Ficaria novamente sozinha com as crianças. eu lhe devo mil desculpas. que se apagou como a chama de um fogo de palha. Foi para ela um choque supremo. depois de ter abatido o alce... — Não sei o que me deu — reconheceu —. mas que não estávamos ainda preparados para ela...Quando ela se calou. toda a lama que permanecem no fundo dos corações dos homens emergem à superfície naquele que não possui uma alma suficientemente forte para resistir a esse rebaixamento. Tudo foi surpresa. com as pálpebras azuladas e fechadas. Pronunciara uma última palavra: "Perdoeme". que compreendeu que o esforço feito por ele para levar a bom termo a batalha do alce o aniquilara. — Deus sabe que eu não estava pronto para nada do que me dispus a viver. o ar contrafeito. — Ele! — respondeu o menino. Mas não sei se era de alegria. morto. — Quem colocou essa pele sobre mim? — perguntou a Carlos Henrique." Seria preciso novamente ficar sozinha. de reconhecimento.. Ele estava morto. com a testa apoiada à mão do morto. A loucura se apodera de nós quando percebemos que estávamos armados para a vitóra. E depois. — Eu não estava pronta para viver um instante tão sublime — disse ela. Sua voz baixou. "Carne até a primavera.. — Nossos corpos são fracos para as correntes que os atravessam — disse ele.. Fiquei enlouquecida. que estava de pé ao seu lado. apesar de lenta e rouca. Repetiu várias vezes. vindos dele e naquele lugar. Daí nosso desnorteamento. apontando para o homem deitado. e sua voz continuava inteligível. . com o coração pulsando ainda com uma emoção que não conseguia nem controlar nem explicar. Dormira tão bem que não compreendia muito bem onde estava. senhora. Ele reunira suas últimas forças. — Há coisas enterradas que subitamente saem como cóleras ou desesperos de crianças que jamais teriam sido expressos. — Tem razão. senhora. Dessa vez. que apagava a exaltação da vitória. e toda a vilania. Adormecera de joelhos. portanto. mas nem sempre é o que havíamos previsto. da embriaguez de vitória. invadida por uma terrível decepção. Não estava. Tinha sobre os ombros uma coberta de peles. o que a fez apoiar-se à parede. como se desertasse do ser vigoroso e decidido que o habitara por algumas horas. Ele estava morto. num tom de súplica intensa: "Perdoe-me! Perdoe-me!". e calou-se. — Estamos prontos para o que devemos viver — respondeu ele —. calou-se novamente e pareceu apagar-se e desaparecer. Essa súbita humildade fez ceder sua cólera. Essas ressurreições e desaparições tinham algo de esgotante. ele falou entretanto. Foi o balbucio das crianças que a despertou. estava morto de verdade. deixando-à completamente sem forças. expirara. O trato com os bárbaros torna as pessoas grosseiras. Via-o tão pálido. Depois de ter assim falado com uma clareza e uma lucidez que não deixavam de ser estranhos. Perdoe-me.. Pousou a fronte sobre a mão inerte e pôs-se a soluçar. Caiu de joelhos junto à cama. para gritar assim e perder a cabeça.

Acariciou-a várias vezes." Tinha cortado uma alce inteiro. O espectro da gangrena se afastou. — Quando? — Antes de adormecer. dando a Angélica novamente a impressão de que um morto partilhava a moradia. Quando uma coisa como aquela começava. "Não! Não! Isso eu não poderia fazer.se não fora visitada por um "verdadeiro" morto que. levantando a cabeça. seu pior inimigo?. Angélica notava que uma delas estava mais inchada.. Obstinou-se em prodigaJizar-lhe todos os remédios de que dispunha. com a pele esticada. apoiara a cabeça dela contra seu ombro comunicando-lhe sua força. ele. Uma trégua seria possível. parecia morto e em outros voltava a habitar-lhe o corpo. lamuriando-se e virando a cabeça da direita para a esquerda e repetindo: "Oh! que ela se cale!. O passado edificara situações e imagens e tudo isso se esboroava diante da realidade. Ficou muito tempo apoiada. Respondia àquela voz como à de um fantasma. teria desejado rejubilar-se e distender-se. Eles também. Não se reaquecera nem ao calor de sua fronte. pensou rememorando aquele instante em que ele dissera: "Aproxime-se! Venha! Venha mais para perto!" E em que a pegara com mãos que pareciam garras e. "Que força existe nele!".. por instantes. de joelhos. o que lhe era mais difícil de suportar. .permaneceu prostrado. Mas sentiu estremecer a mão que segurava entre as suas. agora que havia carne para muito tempo. em iroquês. examinando-lhe as pernas no dia seguinte pela manhã. ou pelo menos um ser enfraquecido. só havia duas saídas: a morte ou a ablação do membro atingido. Pois. sair e matar o alce. e depois. declarado morto havia dois anos. e balbuciando o tempo todo frases indistintas. à força. CAPÍTULO XIX A cumplicidade de náufragos desenganados Ela reconhecera ser ele Sebastião D'Orgeval.à sua mão. Examinou-a. ' A mão cerúlea era bem a mão de um morto. Mas a febre não baixava. como quando dormira aquele sono reparador. O Padre d'Orgeval estava morto. Ser-lhe-ia preciso esperar para obter resposta às perguntas que colocava a si mesma. não. não poderia! Readquiriu sua força interior. recompondo-se depois com brutalidade.Acabava de se perguntar . — Por que você chorava? — perguntou uma voz. Ela continuava. Era uma mão fina e longa que permanecia aristocrática.. Teve a impressão de que os lábios lhe devolviam o sorriso. A mão permanecia gélida.". — Porque julguei que você havia morrido. mas ter de serrar uma perna de um ser vivo. espreitando-lhe o estremecimento. martirizado pelos iroqueses. . sorriu. um moribundo. Ele se agitava. Muitos sinais haviam sido dados.. e ele exclamou: — Você lamentaria então minha morte!? meu fim? Eu. apesar da deformação dos dedos cortados e das unhas arrancadas. Uma febre muito alta apoderara-se do doente. com a face apoiada. e aquele que ali estava era um impostor.. Convencer-se disso iria exigir-lhe mais tempo. a força para se levantar. Quando a febre baixou. O receio da terrível gangrena invadiu-a. sem o perceber. e. Ele tinha de viver.

Você!— Você é desprezível. Disseram-me que fui eu que acabei por estrangulá-lo em nosso berço comum. que ela julgou vulgar. viu naquele olhar.. hesitante: — Não. Como poderia esquecer essa criatura do Diabo. o intratável. mas também. uma expressão sorrateira. abandonando-se às visões de seu delírio ou do torpor. excomungado. a sotaina do falecido Padre d'Orgeval. — Quem é você? — repetiu. da Companhia de Jesus. Aproximou-se do leito. Depois recomeçou a sorrir com a brusca ironia. . o grande. — Não é o jesuíta santo e mártir. de Zalil. tudo. — Fale-me de sua irmã de leite — disse ela. algum explorador de bosques. após um breve silêncio: — Entretanto. A moléstia que o corroía ia além de seus males físicos. o pensamento de que os índios haviam levado o grande missionário a um tal grau de depauperamento. sua identidade. pelo que me lembro. Esboçava uma espécie de careta zombeteira. Essa força que alguns momentos irrompia nâo parecia pertencer ao mesmo indivíduo que. tinha um pé aleijado. Não pôde impedir-se de lançar-lhe: —Quem é você? A essa pergunta abrupta. Ambrosina? Sua pele terrosa empalideceu. fazê-lo voltar ao que era antes.. Aquele que jazia ali era um impostor. sentiu que ele "a observava de maneira consciente. de expressão ambígua e subitamente angustiada. a mãe de Zalil foi também minha ama-de-leite antes dele. confessando na Acádia... o que lhe pareceu muito desagradável. de embrutecimento. voltando-se em sua direção. em Quebec. Depois respondeu. não era minha irmã de leite. enquanto escovava os cabelos das crianças contando-lhes uma história.. por vezes.. Vou desmascará-lo. Certa manhã. meu verdadeiro irmão de leite. e. em virtude de uma tendência a envesgar que se seguira à febre alta. — Sim. O filho mais velho de Zalil. que para evadir-se pegara o crucifixo. que odiava a Mulher porque só conhecera mulheres infames e as combatia como a encarnação do Mal. Ela insistiu. Roubou seu crucifixo. Não é ele.. —Já lhe disse! Sou Sebastião d'Orgeval.. que sabia tudo. espreitando aquela face estranha. sua irmã de leite. cuja significação não poderia precisar.. aqueles que diziam ter o dom da ubiquidade. Ele pareceu perturbado como uma criança com medo de não encontrar a resposta correta. seu nome começa com A. num tom de conversa. mas.. Sinto-o. o intolerante Padre d'Orgeval. Colocado ao. Estava decidida a preparar-lhe uma armadilha para confundi-lo.. desocupado. _ Não! Não é o Padre d'Orgeval.séu lado. ele queria matar-me.Considerando que talvez fosse realmente o Padre d'Orgeval. desdentado.. que se prostrava em preces ao pé do altar.. E seu olhar vacilou. como o da Diaba. que conduzia suas tropas ao combate brandindo sua bandeira bordada. novamente lúcido. continuando. Teria desejado apagar os vestígios das sevícias que sofrera. parecia estar se deixando deslizar para a morte por covardia. mas também que sofria as traições de seus amigos.. a atormentava. Fixava-a com aquele sorriso sardónico. mas que lhe despertou novamente as dúvidas. Ele era um ser de elite. ele mudou de expressão e pareceu inquieto. Seu: olhar turvou-se e ele virou a cabeça.. articulava mil intrigas e fabricava velas verdes perfumadas com a cera dos frutos da flor-de-cera. nos grandes Lagos. de exaustão. que ela amamentava ao mesmo tempo que a mim. sem desviar-lhe os olhos. Puxou um escabelo e sentou-se à sua cabeceira. bêbado..

Mas talvez você tenha razão. ou não passava de uma roupagem. ele não estaria novamente passando desta para melhor. levou-a aos lábios: — Deus a abençoe! — murmurou. — Sim! Sim! É assim. e arrependeu-se por ter sido tão ríspida. Mas quando se levantava por deixá-lo repousar. mais precisa. Mas que tenha sido feito à sua imagem. era mesmo você?. A personagem que lhe foi atribuída: o missionário. tantos atos vis sejam o caminho de meu destino. mantendo-se rígido e de olhos fechados. não acredito. mais exigente o destino. Seus raciocínios estão fortemente maculados de heresia. E que você deveria parar de se preocupar com o que diz Lutero. tomandolhe a mão entre as suas. desejado por Deus... — Não. Não creio. Não quero aceitar que tantos horrores. Os dogmas! A Letra! Armas que matam.. mas não se deixou impressionar. o conquistador de mundos novos para a glória de Deus e do reino. Quero dizer simplesmente que é preciso lançar sobre sua vida um outro olhar. atenuado. e ela reencontrou o brilho perigoso de suas pupilas. mas peque fortemente!." — Oh! Não me fatigue. por favor.. escravizá-lo. lá longe. — Com que ardor você me defende!. Era na verdade um manto de neve. cuja cor azul se tornava. nas montanhas do Dauphiné". e não sem motivos. como duas lâminas brilhantes de duelistas cruzando-se no início de um combate para avaliar suas forças. Na verdade ignoro tudo a seu respeito. Ele se debateu. Seguir-se-ia um período silencioso.. sob o efeito da contrariedade. por mais jesuíta que seja. com a volta da saúde. mas não destituído de vivacidade e de brilho. Calvino ou São Tomás. Não estou em condições de discutir teologia. talvez. tal como os que dispensam as brasas ardentes de um fogo minando sob um manto de cinzas.. ele se ergueu com um movimento ágil e. por não ter tido mais cuidado. Ele permaneceu estendido por um breve momento e depois lançou o corpo para trás. padre. o guerreiro. considerá-la através de outras verdades.. um disfarce para um período transitório? Não teria se tornado jesuíta apenas para poder mais facilmente tomar seu atalho? — Que me conduziria aonde? — Aonde está chegando. Voltando à realidade. Não falemos de assuntos lúgubres. . lembrando-se das palavras que Ambro-sina gostava de repetir com exaltação e nostalgia: "Éramos três crianças malditas. acredito. Tive uma amostra disso com sua Ambrosina. Fora uma troca de palavras súbita.. — Você foi carregado com um fardo muito grande. Isso a aproxima de Lutero. que dizia: "Peque. Essas últimas palavras fizeram-no estremecer.Angélica estremeceu.. Quanto mais estranho é o nascimento... — Você poderia expor-me os motivos? — Não o conheço suficientemente bem. o padre devotado à salvação das almas.. Pois não está apto a decidir sobre o que é pecado ou não! Ela falara sem refletir. ela protestou energicamente: — Tolices! Quiseram persuadj-lo dessa fábula para assustá-lo. e não me fará mudar de ideia. Angélica perguntou a si mesma se. Que tenha sido cercado em sua infância por mulheres perversas e cruéis.

. Suas rea-ções primeiras haviam se acalmado. Cozinhar. . Em palavras breves e sussurradas teciam-se uma cumplicidade. Mais tarde levantar-se-ia para alimentar outra vez toda a sua gente. e compreendeu que não queria que ele morresse porque se lhe afeiçoara. escovar-lhes os cabelos. No silêncio da noite. se juntasse ainda o de vê-lo sucumbir. que era ali chamado também "moléstia da terra".. Até o dia em que isso também se evaporou. finalmente. do dia seguinte. onde se deixava ficar com um suspiro de bem-estar. era muito curto.. O conforto que experimentava. ou então: "Ah! que ela se cale!. sendo tão ameaçador nas invernadas. podendo enfiar-se novamente sob as cobertas. às vezes. se dispersara. tão escuro e tão pouco diferente da noite. distribuir as refeições. ancorada no fundo de seu ser. em resposta ao grande silêncio que estivera prestes a enterrá-la nos limbos da loucura. pois o dia. permitia-lhe relaxar. a angústia. que era quente e onde se podia distender no repouso. A noite. como se dava conta... esquecer a fome e as angústias. do sono das crianças. que ela se cale!. ele virou a cabeça. que realizava muito lentamente. Sede!. Colocava em pratos revestidos com estopa úmida pequenas porções de arroz. "Sede!.. quando quis introduzir-la nos lábios do "comatoso". Sou uma boca inútil. dividindo-o bem ou mal entre noites. chamando um ao outro nas brumas. de aveia-louca. levou-os ao fundo da sombra. náufragos. Via-o terminar com prazer. Teria visto esse fim como o anúncio inelutável do deles.. Suas sensações aguçadas percebiam tudo a respeito daquela existência que tomara lugar ao lado deles em seu túmulo. em que precisava levantar-se para cuidar do fogo. desfrutando daquela calma em que todas as coisas tranquilizadoras estavam enfim nos devidos lugares. gemeu e depois murmurou: — Dê-o às crianças.. dar banho nas crianças. uma aproximação de cegos procurando-se em sua obscuridade. a todos os fracassos que a ele devia. quando faltavam víveres frescos. A claridade dos carvões abrigados sob as cinzas lançava reflexos róseos e dançantes na vigas baixas do abrigo.. do calor. esses germes representavam uma defesa contra o escorbuto. escutava a respiração de seu morto. o leito. esse leito levou-os de um dia para o outro do inverno mortal. do repouso concedido a seus membros enfraquecidos.". — Sente dores? — Não. quanto nos navios. seria então o momento de ir para trás de sua cortina fazer suas abluções e sentar-se diante do espelho para cuidar por sua vez dos cabelos. O deserto branco afrouxava seu abraço. Dava uma colherada todos os dias às crianças. A presença humana ao seu lado deixara de causar-lhe um mal-estar ambíguo. entrecortada em alguns momentos pelo estertor ou por palavras desconexas. em que se misturavam o medo que se ligava a um nome inimigo e o receio que sentia permanentemente de vê4o morrer. e os trabalhos diurnos.. Por que me salvou? Por que não me comeu?. acordava surpresa por sentir a doçura de momentos em que." Era uma voz humana. únicos sobreviventes na superfície do mar. Tudo havia mudado. trocar os curativos. como uma jangada carregada de homens exangues descendo a corrente de um rio noturno em direção à luz da primavera. — Está dormindo? — Não. Restava apenas a obsessão de que.E Angélica perdeu um pouco a noção do tempo. Censurava-lhe antecipadamente esse último golpe. Mas algumas vezes sentia-se logo exausta de se manter sentada e voltava rapidamente para a cama. para germinar dia após dia.

envolvendo de neve algodoada dias em qué o sono tinha tanta importância. Narrativas. Essas palavras lhe viriam aos lábios quando se voltasse para aquele tempo. "Queria não me esquecer de nada". se deixava dominar pela influência da noite. cortado de remissões ensolaradas.. que nasciam daquela pegajosa intimidade do inverno. não podendo mais agarrar-se senão a vagas claridades que não sabia como interpretar. também. pontuado de momentos de encantos.. noites em que. se o vento ia soprar ou se a geada ia aumentar. Tudo era de uma leveza. se a neve caía ou se o céu estava limpo. de uma simplicidade. confissões. um dos célebres manuais da Inquisição. ensinamentos. Esses assuntos podem alimentar seus pesadelos. pois amiúde não souberam se era dia ou noite. Há muito esqueci o que é viver sem sofrer. dizia. como ele parecia esperar uma resposta ou comentário. — Não é noite. Durmamos. tudo foi trocado entre eles... julgando que estivesse delirando. os silêncios. mistificador como úmTlabirinto. escrito por Bernarel. mais perigosas que as tempestades uivantes. dir-se-ia ela um dia. o sangue não devia verter-se de maneira a acarretar uma morte demasiado rápida. consciente da vacuidade do mundo enfim deserto. um período interminável e muito breve. Eis por que se ativeram a três pontos principais: a roda. E começou a discorrer em seu tom de professor catedrático sobre os princípios expostos na Practica Inquisitionis. Sendo o dia destinado a se ficar de pé e aos trabalhos. . que ajuda os mortais a conduzir a vida. como que dando continuidade a uma conversa anterior. Citou "Faudencia de tormento" como método de tortura utilizado de modo corrente. e em que Angélica sentia o estranhamento de ser conduzida por forças vitais de uma espécie desconhecida. obscuro e opressivo como um subterrâneo por onde se rateja sem esperança de algum dia encontrar a luz solar na outra extremidade. que foi o Grande Inquisidor de Toulouse durante quase vinte anos. confidências. Isso ajudou Angélica a dar à existência uma estrutura mais de acordo com a disciplina. o pensamento se comprazia em eclodir mais livremente. tentação que a ameaçara quando. receando o enfraquecimento da memória. mas. de uma clareza incríveis: os gestos. as semanas. para a purificação. "Como fomos felizes!". os libertava do peso e da impotência que oprimem os humanos. que aquelas pesadas e inesgotáveis quedas de neve. ele sempre sabia se do lado de fora era dia ou noite. o cavalete e o interrogatório pela água. no início do século XII. podia resistir melhor à tentação de se estirar e se refugiar no sono. No início. as palavras e até essas praias cegas do sono. pela duração de sua salvação. Seguir-se-iam pois as horas e os dias. quase os meses do coração do inverno. seu núcleo duro e negro. discussões. Nela. Tudo tinha um sentido. de uma doçura e de uma ternura infinitas. É noite. deixou-o prosseguir seu sinistro discurso. para reuni-los em meses. intimou-o a meia-voz: — Cale-se.Uma vez ele respondeu: — Não sei. Sem se mexer e sem mesmo reabrir os olhos. dizia consigo Angélica. um tempo fora do tempo. O fogo vinha em seguida. de um dia a uma noite e de uma noite a um dia. depois em anos. mas dia." vindas para ajudá-los a atravessar o inverno num estado de graça semelhante ao que se deve experimentar quando se anda sobre as águas e que.

gostaria de ouvir-me falar sobre os alces? — Os alces? Mas Carlos Henrique. mas também sobre o futuro. Dir-se-ia que esta emergia.. replicara: "Alguém um dia lhe dirá". até se tornar aquele soberbo penacho que. seu chamado faz então ressoar as florestas. em que as respostas tinham sido dadas pouco a pouco sobre ele. aumenta a excitação do cio. num esforço supremo.Imaginava-se mais tarde com uma pena na mão. de uma ganga de embrutecimentos. e até aquela pergunta que um dia se colocara: "E eu? Quem sou eu?". numa noite de Epifania. E eis què ele lhe explicava por que. com as quais. que o Padre Massérat e seus companheiros morriam sob a neve. As palavras que lhe escapavam às vezes. a maga de Salem. No início. a propósito de discussões para tornar saborosa a sagamité. e eles só começam a crescer novamente por volta de abril. aos arrancos. mas era uma ótima cozinheira. cujos estupores profundos da alma o haviam ferido. — Que estúpida! Eu sabia tudo isso. no dia seguinte à caça. Como se tivesse se esforçado para reunir dentro de si os pedaços de uma personagem que se esfacelara. e que encontrara em meio aos rastros dos lobos. de preferência no crânio. Daí por que é impossível encontrar. — O alce macho perde os chifres em dezembro. as revoluções dos tempos e dos espíritos. à razão. ocupada em redigir suas "Crónicas da jangada de solidão". sobras do festim. fora buscar. Irritado e perigoso. a alguns passos de sua casa? . um velho e um jovem. arrastando os gémeos para ouvi-lo. os destinos. — Quem era sua Tia Nenibush? — Minha ama iroquesa. o mingau de milho ou de trigo-sarraceno. explicou: — Oh! Minha Tia Nenibush me cobria de pancadas. diante de uma janela ensolarada. e à qual Ruth. hesitante e aplicada. aberta sobre os murmúrios de um parque. segundo seu relato. — Ele não tinha chifres — arguiu Angélica. expulsos de seus territórios pelas intempéries. em que duas vozes subterrâneas. mas estava fora de mim. deviam ser os últimos sobreviventes de um bando disperso pelo frio e pela fome. Conhecia pelo menos oito receitas diferentes para preparar o trigo-sarraceno. seu passado. A fêmea só parirá oito meses depois. misturados a alguns ossos e pedaços de pele. uma fêmea com o filhote. como que por descuido. retraçavam esse calvário. numa certa medida. dialogavam tendo por único eco um balbucio de crianças ou o crepitar do fogo na lareira de seixos.. parece-me. Foi no dia em que Angélica estava fervendo os cascos do filhote de alce que. acrescido do efeito mais material de revoadas de pauladas. Para o jesuíta o desenvolvimento da crónica seguia a evolução lenta e anárquica de sua volta à saúde e. suas voltas à superfície tomavam um aspecto estranho. nessa"estação. com sua voz rouca. no outono. não podia ser uma fêmea com o filhote. abafadas pela noite e pelo peso do inverno. garantia: — Gosto quando ele conta histórias de bichos. — Os dois animais. dizia de repente. naquela época do ano. Por exemplo. A pergunta que ela fez: — Como sabia que havia um alce lá fora? Respondeu irrefletidamente: — E você? Como soube. fora cotidianamente cumulado em seus anos de cativeiro. mamãe. de magister mundano: — Senhora.

— Por que tanta animosidade no que se refere a mim. o Padre de Marville. Por essas explosões de raiva.. num relicário. ainda que isso não prove nada. Jamais me havia visto!. um de seus dedos. Ora. um riso rouco e desencantado. no que se refere a você. a existência daquele jesuíta estivera mesclada à deles.. jamais foram avaros de suas falanges em prol da salvação dos índios. avisando-lhe: "O Padre d'Orgeval está morto". por sua culpa.. há mais de dois anos já? Ele fechou os olhos e deixou passar um tempo antes de responder. E afinal não havia nisso 'nada de tão maravilhoso. com um tom de desprezo: — Os tagarelas gostam de criar lendas. Sebastião d'Orgeval.. padre? Você não me conhecia. — Sim. —É verdade. "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo. sem que ela pudesse saber se se referia a Utakê ou ao Padre de Marville. mas ele ria às gargalhadas. sentiu que não estavam. Nesse ponto. E nos descreveu seus suplícios e seu.. pois os canadenses.Ele sabia muitas coisas sobre ela. murmurando: — Mas foi por culpa sua. no sentido em que o entende.. em breve virá a canonização. O jesuíta soergueu-se na cama. Trata-se de um de seus irmãos de ordem. nem um nem outro. — Padre — disse-lhe um dia —. durante seus anos de América. o chefe dos onondagas. Pouco a pouco. Você está morto. Mas as palavras exatas do wampum eram: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo".. tudo!. Ela recebia pois a confirmação daquilo que até então fora apenas uma suspeita.. além de tudo. o chefe dos mohawks. nas procissões em Quebec costumam levar. solícitos em testemunhar pela tortura diante dos pagãos sua fé cristã e sua dedicação ao rei da França. com os olhos faiscando de cólera. —Ele fez isso! Ele fez isso! — repetiu várias vezes. que confirmava as declarações do Padre de Marville. Como se explica a divulgação de sua morte e. Pareceu-me muito sério e pouco afeito a brincadeiras. Oh! Como isso era verdadeiro!. eu a vi. Viu-o sacudir-se em espasmos e julgou que estivesse sufocando. perdendo as forças. da parte de Utakê. em condições de abordar com franqueza e simplicidade o tema. —O que dizia exatamente esse colar? —Na verdade. fim. e que a atacara pessoalmente.. missionários ou exploradores de bosques. Sua culpa. acreditamos nesse primeiro sentido. sobre eles. um colar de wampum. Adivinhando a que incidente ele aludia. compreendia melhor que estava diante de um homem que vinha perseguindo-os com sua hostilidade havia muito tempo.. — Aquele que levou a notícia não tinha nada que autorizasse a dizer que era um tagarela.. Vi o colar e decifrei-lhe a "mensagem". morto como mártir dos iroqueses. — Ele ousou fazer isso!. começou a esclarecer pontos obscuros.. ele se .." Voltou-se para ela. Verrumou-a com um olhar feroz. Acompanhava-o Tahutaguete. falam de relíquias santas. que levava a meu esposo. Está já na lista das beatificações apresentadas a Roma. Eu sou testemunha". eu mesma o ouvi afirmar: "O Padre d'Orgeval morreu como mártir. se se lembrasse a que ponto. padre. e deixou-se cair sobre o travesseiro. Mas..

D'Orgeval deu um sorriso zombeteiro. Desde muito jovem. Ele falou a esse respeito de boa vontade. Ele pôs na cabeça que eu devia entrar para as ordens. Ela não pensava que você lhe devolveria suas armas: astúcia e impertinência. e que somente ela podia fazê-lo. Foi minha intervenção que decidiu a partida em favor do bispo. a mulher primeira do pecado. Preferia que ambos permanecessem nas explicações superficiais. um dia ou outro. encantadora como um anjinho. ao lado de seu temível pai. Não parecia convencido de que se tratasse da mesma Ambrosina. exceto de seu tempo de noviciado. ao Maligno.. Ela o encorajava. Adivinhava o mergulho que ele seria obrigado a dar. tão perigosa. provavelmente por causa das histórias e da pessoa de Ambrosina. pois . nas zonas proibidas de seu ser. cada uma delas submissa. Como ele evocasse Loménie. Seu espírito parecia detido diante dos primeiros episódios de sua luta. ai de mim! Pois ela tampouco estava morta. Os dois enormes indivíduos lutaram durante dois dias. Ambrosina.. que lhe colocara. tão feroz em descarregar a férula da Igreja sobre suas ovelhas quanto meu pai com sua espada sobre os hereges. Mas quando começou a explicar-lhe com veemência o desenrolar dos últimos acontecimentos. no início da adolescência. Ignoro se. o princípio feminino do Mal. Falava de bom grado sobre sua infância. de que tudo o que eu vivia no domínio paterno não era sadio e acabaria por causar minha perda moral e física. O que acontecera depois que fora para as tribos iroque-sas não lhe interessava. — Eu tinha um tio.chocava contra um obstáculo que o deixava ofegante. Ela voltou para concluir sua obra. em especial no da mentira e crueldade. — Eram todas Liliths. e elá preferia restringir-se àqueles primeiros esboços de confidências. Essa infância parecia familiar a Angélica. esmerava-se em todos os vícios. para ir massacrar os hereges das regiões vizinhas. — Um magnífico combate para duas belas mulheres!. um espadeirão nas mãos. — E foi esse paradigma de vícios que você nos enviou para alcançar seus objetivos de abater seus rivais. bispo ou cónego.. não sei mais. Nascera pois entre mulheres demoníacas. Consciente. Você triunfou! — Não inteiramente. que fora seu amigo dos tempos de colégio. Infância soturna. Foi assim que entrei para o Colégio de Clermont dos Jesuítas em Paris. Voltou com frequência a seus anos de estudos na adolescência. ela se informou sobre os acontecimentos que o tinham levado daquele rude Dauphiné ao convívio dos jesuítas. tanto pelas armas dos argumentos como por ameaças e alguns socos. sem conseguir demovê-lo. como filho caçula. irmão de meu pai. insisti junto a meu tio em acompanhá-lo. que os aproximava pelo conhecimento íntimo e sem ilusões que cada um deles tinha acerca daquela criatura. e meu pai tentou inutilmente demonstrar-lhe que eu era seu único herdeiro. da baía Francesa!.. o eclesiástico queria ficar com uma parte da herança. falando da amizade do jovem Cláudio de Loménie-Chambord. pela graça de Deus. de diferentes formas. abençoado pelo capelão do castelo. dominada pela noite e pelos massacres. ainda muito jovem. Pressentia que era de seu dever ajudá-lo nisso. como que invadido por uma angústia enorme. ele demonstrou indiferença.

nas costas da Acádia... Naquele dia ele se recusou a dizer qualquer outra coisa. à negra infância. gritava-me uma voz na nuvem. reconduzia-o a questões anódinas. que eu viera trazer para cá. Mais tarde. Via estender-se até os confins dessa terra selvagem o reino de Cristo. e em que fora bemsucedido. quando soube que um fidalgo de aventuras. vindo para cá. Dominado pelas fontes e pelo sangue. onde me esperava meu antigo condiscípulo Cláudio de Loménie-Chambord. torceram. a harmonia e ó caos. a luz estivesse à minha espera. eu alimentava ilusões.. Mas eu tivera uma espécie de sonho: "Tudo começa. Com que rapidez a cinza e a areia são lançadas sobre seus sonhos. e que a disciplina da ordem lhe impunha calar. que não conseguia superar com palavras sem desmaiar. a perda daquele estado de inocência quando chega a adolescência. para se aliar a ele. As mulheres escapam com mais facilidade a essas influências. mas para deplorar. A América! Acreditava que. CAPÍTULO XX Uma paixão condenada . se instalava nessa no man's land do Maine. — Quebraram não. esse trazia consigo minha perda. eu continuava esperando encontrá-la. Mas nada em sua vida fora anódino. mas ele se referia a seus mestres-jesuítas. até que o ramo cheio de seiva se tornasse seco e petrificado e incapaz de renascer.. francês. Dessa vez. Conseguem conciliar melhor a' lu"z e a sombra. Quando fingia não se lembrar ou estar confuso.. Uma vez mais. Ao contrário. — As crianças se lembram do inefável. Tomei informações sobre ele. Recomendava-lhe então que tivesse pa ciência. quando eu embarcava para a América. — Para dizer a verdade. fiquei imediatamente de sobreaviso. a assuntos menos penosos. ignorava tudo a seu respeito. alguns anos mais novo que eu. — Eles me quebraram alguma coisa aqui — dizia. Era um flibusteiro das Pequenas Antilhas. Voltava depois à infância.. que não dependia nem do rei da França nem do rei da Inglaterra. — Creio poder assegurar-lhe que meu^esposo. no início. Quanto a mim.. inglês. sempre se mostrou disposto a encontrar todo habitante ou missionário da região. Eu era -urna criança da natureza.. preenchia minha expectativa!. dessa vez. parecia-lhe. E ela julgava que' estivesse falando dos torturadores iroqueses. nem sequer estava presente nas paragens da baía Francesa. Mas havia mais alguma coisa. Se eu via nele um perigo. Os caminhos que fui obrigado a tomar em seguida afastaram-me de sua doçura. pior que isso. escocês. A baía Francesa é um tal cadinho de nações que todos podem ainda encontrar ali o seu lugar..tratava-se de longos anos de iniciação.. — Ele continuou: — Por isso. Julguei reencontrar isso algumas vezes junto ao pequeno Cláudio de Loménie. ao se instalar nas costas do Maine com cartas de gerência do Massachusetts. aquele que ele preparava para mim era de uma espécie desconhecida. Tudo começa".. A obra que eu abraçara. que se tornara Cavaleiro de Malta. ela sabia que nele isso era sinal de uma dor insuportável. apontando o quadril.. O êxtase é algumas vezes concedido somente ao inocente. depois de anos de lutas. não foi o perigo da vinda dele o que me alertou. vedados ao profano.

. "Havia nessa audácia de invadir o centro de uma região até então deserta. foi naquele dia do outono. como lhe acontecia regularmente.. Huronianos e algonquinos... "E foi então que eu A vi. e que eu sentia como um desafio. Minha angústia chegou a tal ponto que. devia investir contra o posto de Katarunk. a certeza de que nenhum daqueles estrangeiros lhe escaparia. Ela. eu a via chamejar a meus olhos. deixou passar um longo momento de silêncio. de passagem por ali. a fim de chegar antes 'deles'.. "Eu começava a andar num estado desdobrado. eu tinha conseguido até então que os diques não se rompessem — declarou de repente. Menos por tolerância que por lassidão. que prometiam -proliferar. A essa altura. com uma voz sufocada. "Ele e eu tínhamos feito um acordo de "arrancar sem demora as raízes do invasor. pensou Angélica. reconhecidamente escaldante. e com Loménie e as tropas que os esperavam para trucidá-los. De minha parte eu me preparava para reunir-me a um segundo contingente de forças armadas vindo de Trois-Rivieres e de Ville-Marie. "A floresta chamejava. numa cálida tarde de verão indígena. . Depois. mas com cavalos. de poder. assim como da região do Richelieu. que ela julgava dentre os mais inalienáveis. banhar-se num dos dez mil lagos da regiãodo Maine americano. tive de me deter. no cimo de um promontório. Ele calou-se. uma tranquila segurança de se mostrar finalmente o mais forte. não apenas com mulheres e crianças. Loménie. Quero dizer.—Seja como for. daqueles que subiam do sul numa caravana. "Pronto!". Mas eu andava como num pesadelo. Pois uma notícia me fora transmitida: 'eles' subiam com cavalos. a fim de retomar fôlego. comandados pelos melhores senhores canadenses que já me haviam acompanhado em minhas campanhas contra os heréticps da Nova Inglaterra: L'Aubigniere. Continuou. ela não procurava romper o silêncio.. a cavaleiro de um lago. Menos por pudor que por estar habituada a esse tipo de debate. Eu o apressara a pôr-se em ação.. apesar do cuidado que tínhamos tido em prepará-la. "O pressentimento associado a meu sonho abalava minha convicção de levar aquela campanha a bom termo. Estava ao mesmo tempo com os estrangeiros e seus cavalos. de que pudesse ser percebida por um estrangeiro-. O vermelho e o dourado das árvores no outono cercavam-me de chamas imóveis. "Não sei por que esse detalhe me atormentava o espírito como uma verruma de artesão penetrando profundamente na madeira e extraindo-lhe a substância. por ordem minha. região por outro lado considerada tão impenetrável que havia poucos riscos. mas não era a primeira vez que meu amigo de infância e eu fazíamos nossos negócios de acordo com nossas próprias ideias. Mas quando ele se calava. "Agíamos sem a aprovação de Frontenac. depois prepararia a emboscada. Cláudio atearia fogo no posto. Pont-Briand. Maudreuil. "Estava indo pois ao seu encontro. dando a impressão de que perdera o fio do pensamento ou que adormecera. e o calor incandescente do dia contribuía para essa miragem. realizando uma façanha sem precedentes. uma afirmação de não se deixar deter por nada. seguro de ter posto tudo em açào para acabar com os indesejáveis. Havia expresso muitas vezes sua defesa quanto a seus direitos. Ela era em toda parte a presença temível. Eu andava na floresta. num âmbito de milhares de milhas ao redor. monocórdia e por instantes trémula: — A primeira vez que os diques se romperam. 'a mulher nua saindo das águas".

"Pior: agindo dessa maneira. como o jovem rico do Evangelho.. de complicações e até guerras. A vontade de reduzir o caso a suas proporções normais ditou-lhe uma reflexão muita chã. mas do mesmo modo que o animal em perigo se camufla. sem sequer a fé num deus qualquer ao qual pudesse oferecer o sacrifício de minha metamorfose.. entreguei-me. deslizou-lhe o braço sob os ombros. as únicas palavras que podiam obrigá-lo a reconhecer que ele se utilizara disso para subjugar os espíritos. melhor. Mas. A palavra é fraca.permanecia. em que se é o único a penetrar. num mundo povoado de inimigos. e que reconhecesse: "Sou um dos seus".. — É verdade. minha condenação. a partir daquele dia. que teriam provavelmente-ocorrido cedo ou tarde. que eu me apresentasse diante de vocês. mas que encontraram um pretexto para eclodir.. fazendo de mim um danado que queimava de um fogo cujo domínio jamais eu suspeitara. E tudo não passou de uma lenta e convulsiva queda de todo o meu ser até o fim. mas também sua amplitude secreta. Ela se levantou e foi encher uma tigela com uma bebida quente. Decidi esconder-me atrás das mentiras. foi o que se encarregaram de fazê-la compreender no decorrer dos anos. Que você queria esconder? — O que me aconteceu. "Quantas confissões tinham me descrito os mesmos sintomas irresistíveis. Único em minha espécie.. se quiser. poderia enganar-se a esse respeito! — É verdade — concordou. tudo foi destruído. "Caí fulminado como por um raio. — Mas afinal o quê? — Como vou sabê-lo. — Fale agora. Isso exigia demais de mim. pois era assim que eu sempre considerara os transportes do amor. aproximando-me de seu objeto. Depois. Encontrei-me só. — Não me diga que julgou ter visto realizar-se a visão da Madre Madalena sobre a Diaba da Acádia que agitava sua grei! Você. Como explicar o sentimento que se apoderou de mim? Mais do que um sentimento. amparando-o enquanto ele bebia. Ao contrário. em que vira apresentar-se ao mesmo tempo toda a artificialidade do fenómeno. jamais tive a menor dúvida de que não fosse você a mulher demoníaca da visão de Madre Madalena de Quebec. Ele gemeu. — Sim! Pois era a negação de toda a minha vida e. adivinhava-o antecipadamente. "Encontrei-me nu. e que deviam ser evitados e combatidos. Um dia eu lhe explicarei tudo. A descoberta de paixões desconhecidas? Você não pode compreender. Eu compreendia. que somos os únicos a viver. pois abrem-nos um paraíso. Depois do que acabava de me acontecer. a dar.. insaciável. indecifrável para todos ou quase todos. prudentemente. Seu peito erguia-se de maneira espasmódica. me sentia presa.Que isso tenha acarretado toda uma série de dramas. não porque lhes desse crédito. O Amor!." — Valia a pena fazer disso um drama tão grande? — disse ela. às penas de uma paixão que só poderia ser corrosiva e mortal.. estrangeiros jurados de destruição. . Mas eu me escondi. Decidi prosseguir meu caminho na direção escolhida.. subitamente. ele exigia que eu abandonasse tudo. o Amor. voltando à sua cabeceira. e dos quais. por isso mesmo. Devia obedecer à iluminação? "Não pude fazê-lo. não tinha outra alternativa. através de delícias e sofrimentos. menos que ninguém. mas que . com uma voz sufocada.

eu já sabia. eu teria retomado a cidade. reconstruído no estreito que ligava o lago Huron ao lago Superior ou Tracy. nem com a importância dos trabalhos aos quais eu dedicava meus dias.. e o medo de ser despojado daquilo que constituía minha força dominadora sobre os outros me atormentava. de onde partiam. e não mesurpreendeu. o povoado de Lachine. — Nem com o que podia acontecer-me. como do Forte Frontenac. cuidadosamente dissimulados aos olhos de seus irmãos de religião. banido e relegado. meu superior. pois nenhuma notícia chegava jamais sobre ele. Fui para muito longe. os outros jesuítas. raros e a semanas de marcha uns dos outros. perseguidos e expulsos de suas tribos por esse fato. Não sem antes fustigar-me com palavras duras. e também iroqueses das Cinco Nações. depois lançou. parecia ter atravessado aqueles anos. e à exceção da passagem de alguns "viajantes" ou exploradores de bosques. como. Continuou. não somente a fim de poder praticar sua nova fé. Mandei buscar na França a súmula do processo de feitiçaria movido outrora contra seu marido. Entretanto. E. selvagens. e vocês não a teriam conquistado. O Sr. me exilou. " "Sentia no fundo de mim a covardia. não recebeu nenhuma notícia de quem quer que fosse. recusando-se a tomar conhecimento de fosse o que fosse que acontecesse no Canadá ou na Acádia. mais ou menos desprovidos de licença. Eu estava vencido de antemão. os do Erie. convertidos. perto de Montreal. nada mais que selvagens. num súbito acesso de cólera: — Sem sua intervenção. sempre estivera. O ponto de ligação dos missionários era esse estabelecimento do Forte Sainte. num clarão. de que estava prisioneiro dos iroqueses. Fora os homens de guarnição dos fortes. Segundo o que dava a entender. Eles deixavam o vale dos Cinco Lagos para vir se reunir à sombra dos franceses e dos jesuítas. de Peyrac ." Falou pouco dos meses passados nos povoados de um largo setor entre o lago Frontenac ou Ontário e o lago Huron. o jesuíta. no fundo. no momento em que me sentia mais desprovido. e de seus ajudantes e servidores franceses. num estado de transes nervosos."Contra você e os seus. As missões agrupavam os índios batizados e os catecúmenos de nações iroquesas. Procurava evitar os exploradores de bosques e os comerciantes canadenses.Mas sua vitória em Quebec suplantou-me em rapidez. à beira de um lago." Deteve-se. para lá das corredeiras.-Marie. naquele último encontro. tentei todos os meus planos.. a fraqueza invadindo-me. e a Sra. sozinho e sem amigos. compreendi que ninguém se preocupava comigo — disse com um muxoxo de amargura. todas as expedições para o alto Saint-Laurent e os Grandes Lagos. que se apresentavam como anos ativos de apostolado. Daí o rumor que se espalhara prematuramente nas cidades.. Ninguém procurou se informar sobre o lugar em que se encontrava nem fazer chegar-lhe às mãos qualquer mensagem. "Meus votos de obediência me obrigavam a me afastar. Maubeuge me exilou. ademais. os andastes. Eu o soubera. mais ou menos dispersas e aniquiladas pelas guerras com seus congéneres pagãos: os neutros. — De fato. "Perdi meus poderes. Quando vocês se aproximaram de Quebec. isolados. o que ele me disse. Situava-se a meses de navegação do último ponto da Nova França habitado. mas também para receber proteção dos militares franceses. censos e senhorias da Nova França. num outro tom de voz: — Maubeuge.

— Nenhum de nós tinha ilusões. tremendo dos pés à cabeça. felicitar-se com minha perda. Estamos andando pelo centro de uma floresta aparentemente deserta. Conhecíamos a sorte que nos estava reservada. 'Ah! que a noite jamais termine. uma silhueta de mulher. haviam mergulhado num sono tranquilo. E a lembrança daquela a quem eu devia minha queda voltou-me ao pensamento. mas na qual os pássaros estão calados. As palavras saíam-me dos lábios como substâncias estranhas. dizia comigo. espreitando as horas. por me ter aparecido! "Mas. em companhia do Padre de Marville e de um jovem "dado"canadense. humanos dementes e cruéis. antes de o ser na Nova França. cativo eu fui. que Ele nos destrua a todos. disse ele.. como um animal forçado que sente a morte e espera o abate. "Fui invadido por uma fria paralisia. A tortura e a morte nos esperavam.: "Não". que não comece um novo dia. enquanto eu. Depois de dois dias de caminhada. O calvário começava.estavam em Que-bec. Não conheceu a felicidade.' "Ah! A agonia de Cristo. Eu mesmo os exortara a essa serenidade. que havia um ano fora para ali devotar-se à conversão dos selvagens. Você não viveu. Eu olhava com inveja meus companheiros Marville e Labour. como estava próxima! Nenhum anjo veio me consolar. e subitamente os troncos das árvores se desdobraram com uma silhueta humana. surgindo desse caos como que para me desafiar. "Subsistiam em meu espírito apenas o medo visceral das torturas e. reconfortados por minhas palavras. Você. "Ora. quando fomos cercados por um contingente de guerreiros iroqueses. Emanuael Labour. E eles." CAPÍTULO XXI O suplício entre os iroqueses— Um covarde entre os heróis —Eis em que circunstâncias fui capturado. eu hauria um sombrio sustento . 'E agora esse corpo. Certa manha de verão. essa morte que. vermes da Criação. que não conheceu o amor. E eis-nos cercados por fantasmas emplumados que se apoderam de nós. Mas apenas depois de minha 'morte'.. colocando a mão sobre a dela. Estava num inferno povoado de demónios. Um rosto. penetrado pelo terror. em meu pensamento.. além de alguns neófitos. vai ser entregue aos bárbaros para suplícios aos quais sua carne se recusa. Você sabe como eles são. "A noite foi longa na cabana onde fomos encerrados. que. O céu era surdo. guerreiros e prisioneiros chegaram às cercanias de uma das primeiras aldeias do vale dos iroqueses. Eu desaparecera. mas que jamais chegue o instante da dor que nos preparam. foi inicialmente anunciada na Nova Inglaterra. Eu não fizera por merecê-lo. via aproximar-se o momento das assustadoras torturas que já conhecera. sempre a mesma. e todos procuravam voltar-se para os vencedores. dizendo-lhes que eles estavam nas mãos do Senhor. Você não tinha nenhuma responsabilidade sobre aquele delírio que me corroía havia tanto tempo. como você disse. "Estava no inferno. dormiam. as razões daquela odiosa fatalidade. "Queriam esquecer-me. rejubilar-se. E era mais simples dizer que eu era cativo dos iroqueses. eu me dirigia a uma aldeia para celebrar a missa. naquele momento. ávidos em se beneficiar com o encontro. "Tudo isso é falso. Que Deus pare a terra. a não ser por existir. Num inferno às portas do qual havia deixado toda e qualquer esperança. depois de terem rezado.

fazendo-me abrir a boca. mas de uma insuportável injustiça. reunidos numa espécie de silêncio solene e preocupado. fruto ela mesma de um monstruoso engano.. Não me bastava ter sido torturado uma vez. e sobretudo. "Diante de mim.. já bem queimados.. como ridícula e perigosa impostura. nossos dentes sadios. Por um interstício das paredes da cabana. com sua aparição. refletindo-se na superfície de um lago. para conservar-lhes a brancura e a saúde. mas com olhares lúcidos ainda. lançavam-se ao rosto uns dos outros as razões que possuíam para se odiar. que me enfrentou com seu olhar brilhante. 'Inveja'. ouvi nossos índios cristãos. como todos os brancos. disse ele. porém. '"Você tão orgulhoso de sua dentadura. também nesse caso. "Ao alvorecer. para lá da palavra. nos quais. uma coisa é tomar consciência de um erro ou de um fracasso. Por essa brecha todas minhãs defesas haviam fugido.. mas por instantes podia-se ouvi-lo vogar pela floresta. "O sol nasceu. que haviam sido colocados numa outra cabana. "Foi então que ele se aproximou de mim. Ouço dizerem: 'Que belos dentes têm esses selvagens!' E eu sei que você procurou descobrir nosso segredo para conservar os seus tão belos e brilhantes quando eram quando chegou a nossas terras. huronianos e iro-queses.num sentimento de rancor e de ódio para com uma personagem símbolo — uma mulher — que. "Minha presença-naqueles lugares. "Disse-lhe uma vez que eu não estava preparado para nada do que empreendera. para ter-se combatido e feito perecer amigos e parentes mútuos. Toga Negra. Outra coisa. £ eu o vi mascar goma misturada com argila fina e suco de su-magre branco. cortado apenas. "Revezando-se junto às vítimas. "Um guerreiro aproximou-se do jovem Emanuel e. nossos índios continuavam a insultar seus torturadores. é perceber sua própria existência. transtornara o curso de minha vida. começou a serrar-lhe uma falange com o gume de uma concha. eu impedia de sair. e todos devemos nos esforçar para enfrentá-lo eventualmente. começarem a cantar seus cantos de morte. "Subia-me aos lábios um grito que. Toga Negra!'. Depois percebi os bafios do cheiro de carne grelhada tão característico que uma-brisa levava até nós: o odor dos suplícios. acima da aldeia. "As náuseas do medo atormentavam minhas entranhas. de seus amigos!. "Desse despertar dava minha perda. e muito mais mortal.' "Pus-me a tremer. conforme o ritual. Ora. sempre espreitando. como nós. nem de ser diminuído diante de seus inimigos. munido de um sílex de gume afiado e de um pequeno malho e. vi a luz do dia invadir um céu puro e suave. . ter perdido meus dedos. não! Duas vezes. Mas Deus me enganara. "Levaram-nos por nossa vez. Um serviço limpo e rápido. com a língua cortada ou queimada. surgiu Utakê. não!' "Eu acreditava ter ganho por meu primeiro suplício direito à serenidade e à predominância. Outros se calavam. quebrou-me dois dentes. Percebi que vinham buscá-los. periodicamente. Até a clareira onde. cuja malícia jamais soubemos discenir. pois o canto se distanciava. Você não gosta de sofrer. "Três pilares nos esperavam. os guerreiros eram numerosos. pegando-lhe a mão. num último sobressalto de dignidade. já longa. por uma litania de insultos e de responsos. 'Duas vezes. entre aqueles demónios prontos a me imolar pàrecia-me não só intolerável.

. escandalizados. Os olhos de Utakê eram duas lâminas cortantes. O que posso dizer-lhe? Como descrever o covarde alívio que eu experimentava por me reencontrar vivo e ver afastar-se o espectro sinistro dos sofrimentos desumanos? Pouco me importava o desprezo com que todos me cumulavam.. com a fronte na poeira. "Um grito! Um grito de pavor soprou em meu peito como um furacão. que se deixava destacar. incrédulos.. Eu a teria comido.. horrorizado!. que havia trazido a toda a Companhia uma vergonha sem precedentes... aquelas pequenas criaturas inocentes de unhas pontudas não eram melhores que seus esposos. acredite-me. se estreitaram.. daqueles que me cercavam. me olhava. os amigos e os inimigos.' gritava-lhe. os vivos e os mortos. o que era reservado aos guerreiros poltrões que davam mostra de pusilanimidade diante da morte e do suplício. Nió pelos sofrimentos e pela morte próxima. 'Graças a Deus'. no pilar de torturas. "Eu ouvira os chefes discutirem sobre entregar-me às mulheres e às crianças. Eu teria beijado a terra viva. que ja haviam derramado seu sangue. O papa me recusará autorização por causa de minhas mutilações.." —Não chore — disse ela. todos aqueles olhares se apagaram. "Levantaram-me brutalmente. suplicando-lhe que me poupasse. se me cortarem outros. disse comigo. e pelas gotas de sangue caindo pesadamente no chão. horrorizado!. nãol-Mais uma vez. Estava abnubilado por aquele dedo branco do jovem adolescente que o índio ia serrando com a concha. enquanto ele arquejava com soluços secos e dilacerantes. nu. farei o que você quiser. adivinhando o veredicto. 'Mais uma vez. e que. "Joguei-me de joelhos diante de Utakê. Rastejava a seus pés. do pequeno 'dado2 canadense. — Eu não ocultava absolutamente. mas o centro de meu espírito tornou-se um turbilhão de revolta. Emanuel.. me olhava. constelada de equimoses e de cicatrizes pérfidas. o olhar azul e cândido daquela criança. daqueles. sem um queixume nem um sinal de medo. Eu ouvia esse grito e não sabia que era eu que bramia. Mas era-lhe preciso prosseguir o alucinante relato. permaneci estendido no chão. "Mas essa situação humilhante foi julgada ainda muito honrosa para mim. "Eu pensava: 'Eles já me tiraram dois dedos. num tom baixo e reconfortante. pois saberá que não sou digno'. meu Padre! Tornaremos a falar de tudo isso um outro dia. Ycalme-se! Acalme-se! — dizia-lhe Angélica. — Acalme-se. e dessa vez ele não passará por cima disso." assistiam a minha ignóbil fraqueza. quando se lutou a vida toda para dominar os demónios do medo — continuou ele. desespero e recusa.. os carrascos e as vítimas.. "Depois. Acariciou-lhe suavemente a fronte. não!. e que. As lágrimas escorriam em pequenos sulcos pela face machucada... tanto dos carrascos quanto de meus infelizes companheiros prometidos ao martírio. estará acabado. semimortos. e. 'Mate-me. Que me poupasse sobre tudo o suplício. Dessa vez. Não poderei mais dizer a missa.' "O que havia de mais horrível nessa cena abjeta era perceber os olhares perdidos. — Faz mal a seus olhos."Tudo se misturava. mas poupe-me da tortura. pais e irmãos para fazê-lo morrer como um covarde sofrendo dores inomináveis.e sofrido sua paixão pela fé cristã. —Há uma certa volúpia em ser covarde. Você pode ficar cego. "Meio desfalecido depois dessa crise. Ela se levantou e foi banhar-lhe as pálpebras. . "Era uma coisa demente e sem lógica. passaram a ser um único olhar.. dentre os neófitos. mas por mim.

. Ele acompanhava o Padre de Marville quando este.. a quem eu havia combatido tanto.. que o honrava. o chefe dos onon-dagas. para ser seu servidor e substituir-lhe o filho. meu esposo e eu. tão repugnante em suas súplicas. Mas para ela essa divisão do tempo não passava de brincadeira. Oh! Como ele tinha razão! "Haveria criatura mais desprezível e mais despojada de todas as possibilidades de prejudicá-la que eu?! Mas eu compreendo a que imperativo obedeceu Marville. não existe antes e depois. e tudo o que implicavam. apoiando-se na certeza. disse-me. — O jovem Emanuel? Os iroqueses não o imolaram? — Não. que representava meu filho?' Eu tentava mostrar-lhe que. pois jamais se vira uma mulher da aldeia servida por um prisioneiro que se houvesse mostrado tão covarde diante da morte. nós o vimos vivo. Angélica ficou durante muito tempo sentada à sua cabeceira. a mim.. e isso era muito vergonhoso para ela. como deseja. Ela abriu bruscamente os olhos. . o terrível segredo que o jovem Emanuel queria confiar-me no jardim. Você nos faz não só duvidar da grandeza de seu Deus. pois vira em sonho que eu era seu filho e que minha atitude diante dos chefes das Cinco Nações a desonrara. escoldado por Tahutaguete. — Agora compreendo. você sabe que os sonhos têm para os índios uma prioridade absoluta sobre a realidade dos fatos.. que ela perdera na guerra. enviou primeiro a você. para si mesma. Era esse. precisamente. e ela era objetivo de zombaria e de brincadeiras perpétuas por parte das companheiras." 'Não espere nada de mim'. 'Como você pôde fazer isso'. entre os índios.. portanto. ainda não lhe fora dado como escravo. e esclareciam em seu espírito. Ela falara a meia-voz. mesmo quando. mas de sua existência. de que eu era seu filho ou a reencarnação dele. tanto mais que eu era muito desastrado. que se estabeleceu pouco a pouco. com as pálpebras fechadas. e me feriu com sua conduta." — murmurou. aniquilado. esse colar que dizia: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-la". — "Inimigos mais terríveis do que eu sou para você. Você é muito vil. Ela confundia seu filho e a mim. de L' Aubigniére. chegou a Salem para levar a notícia dè sua "morte" e.' "Nada mais de seu desprezo me atingia. dizia-me.. — Assim. morrera com muita coragem. Ora. "Minha patroa me moía de pancadas. me atiraram como lixo aos pés de uma mulher velha. — Por que Utakê quis que os ingleses fossem os primeiros a saber? — Não era "os ingleses primeiro". mas nós. no momento daqueles acontecimentos. e queria que fôssemos avisados antes do franceses. E isso não lhe concederei tampouco. de seu martírio.. 'Não lhe concederei o benefício de matá-lo com um golpe de tomabawk. Mas isso não a consolava. "Para certas coisas. Os termos da confissão que acabara de fazerlhe. Você susparia o título de mártir junto a seus irmãos.-Ora." CAPITULO XXII À cabeceira do supliciado Quando ele se calou. Utakê sabia que estávamos na Nova Inglaterra. Essa perda a deixava sem ninguém para levar-lhe caça e realizar as tarefas que a idade avançada não lhe permitia mais efetuar. pouco robusto. 'você. Então eu lhe lembrava que seu filho. torturado durante pelo menos seis horas pelos huronianos do Sr. como se recitasse uma frase que lhe martelava a memória. em seguida. A vergonha recaía sobre ela.

áDama do Lago de Prata. pensou Angélica.. e Angélica. de pavor e de pesar.. subsistia em mim a vontade de clamar minha justificativa.. Sua intuição era portanto correta. Eles não eram meus amigos!. eu gritava em vão. da covardia do maior e do melhor dentre deles.. Vinguem-me!. monstruosa. durante anos de mutismo e de solidão. mas minha obsessão nutrira-se de tantas aberrações. Ela. de respeito que eu acreditava que tivessem por mim.. Eles não me vingariam como eu merecia ser vingado. Sim. eu proferi... sentira vibrar um sofrimento de esfolado vivo.. Podia-se adivinhar o que sentira aquele jesuíta convicto diante da ruína do mestre.. "Eu o sei. receando que fosse acometido por um novo acesso de febre. o objeto responsável por minha ruí-a.. rememorando o luxo de detalhes com que o jesuíta lhes descrevera em Salem a "morte gloriosa" do Padre d'Orgeval. que devo minha p^rda.... que eu tinha sido vítima dos maus espíritos. — Eu falava de minha morte. a mulher cuja visão me arrastara por um processo que eu não odia nem analisar. Tinham dormido durante minha agonia! Horrorizados com minha abjuração.. por desprezo.. A verdadeira morte.. Vinguemme!. avisando-o de que estava na hora de seus "ágapes" cotidianos. por não ter outra solução para ocultar sua vergonha. Eu não era mais nada para eles. concedia-me perdão. que devo minha morte.. A morte do herói que eu havia sido. Através da personalidade orgulhosa do Padre de Marville. eles me rejeitavam. a morte total. a Mulher." Ele se agitava. ponto de me persuadir de estar certo. por exemplo. Em toda aquela cena não deixara de supor o tempo todo uma mentira oculta. isso era levar a hipocrisia muito longe. a morte de mim mesmo. a você especialmente. Soube que nunca me tinham amado. declarando-me morto. não deu atenção . E fora ela que me matara. de dar àqueles que eu escandalizava pelo menos uma explicação que ateuasse o alcance de meu ato. Eles não me vingariam... que eu conseguira persuadir-me de meu enfeitiçamento. um sofrimento verdadeiro.. nem admitir. gritei. teria proferido em seu suplício: "É ela! É por sua culpa que morro!"? — Tudo isso é verdadeiro.. a Dama do Lago de Prata é a causa de minha morte.. de devotamente. — Que seu irmão em religião o tenha feito passar por morto. numa loucura fatalmente con-ária a tudo o que era o caminho reto de minha vida até então. fazê-los acreditar. Minha morte total.a suas palavras... Era uma ideia louca. a seus olhos. ao que parece. — Mas que tenha aproveitado a oportunidade para invocar sobre nós a maldição do céu e nos tornar responsáveis-por seu suplício.." Deu um soluço profundo. No momento em que o chefe Utakê baixava sua mão e.. enquanto ele continuava a falar. "Eu gritava: 'É ela. é a ela. ao denunciar os sortilégios e gritar-lhes: "E ela! E ela que me condena. Era preciso salvar a honra da ordem!" "E certamente não poupou esforço para isso. Soube que. semelhante a um estertor. feito de humilhação. como lhe disse. acusá-la. A ordem dos jesuítas tinha sido marcada com a mais horrível das máculas: a abjuração. que eu sentia desabar sobre mim. deve-se fazer-lhe justiça".. . e só me aparecia ""esse caos.. O que há de verdadeiro nessa acusação que.' "Vi suas faces lívidas e rígidas. que eu quisera ser?. que sonhara ser. Levantou-se para ir preparar e aquecer as rações. com todas as minhas forças essas palavras. minha inimiga de sempre.. de decepção. Eu não existia mais. eu admito — disse ela. Nada subsistia dos sentimentos de afeição.testemunha de meu renegamento.

o caminho a seguir para prosseguir minha luta." Angélica escutava-o. como um segredo ao seu ouvido. Era um ritual imutável. Pelo menos foi como indiquei a Marville. "Para não ser por sua vez destruído. Angélica. Explodira então o vigoroso concerto gemelar e contestador daquelas criaturas que.. Não era hora para amenidades. Então. para despertá-las suavemente. conteve-se. a parturiente. apesar de vontade de descrevê-la a seu hóspede. Beijava-lhe as bochechas frescas.. a sotaina esfarrapada. que acabara de pôr no mundo em Salem. o Padre de Marville. uma após outra. em seu roupão caseiro.. derramava sopa numa escudela e distribuía o alimento em suas boquinhas abertas como as de passarinhos. haviam desaprovado em altos brados a intervenção do Padre de Marville. sua casa. caso não estivessem saciados. Depois de alimentar seus filhotes. em que a vida e o vigor fremiam novamente. adorava sua fragilidade e sua inocência. "Enquanto Tahutaguete o conduzia para a costa. como profeta vingador.— É verdade. meus pequenos Peyrac!.. Fez as crianças se levantarem. parece até que você o aprova!. com o rosto encovado pelas privações.. os cabelos embaraçados e sedosos. "Vocês são a consolação do mundo! São o tesouro de minha vida!". "Vocês já faziam parte da tribo. deu-lhes um pauzinho de ju-juba para enganarlhes a fome. Humilhado como estava diante de minha ruína." Dava a cada uma um pouco de carinho. Pois bem! Agora vejo que não é lenda quando dizem que os jesuítas sempre se apoiam. ou a obscura intuição daquilo que se declarava hostil à sua família. seus pequenos corpos harmoniosos e perfeitos. em sua perplexidade. E o espetáculo se encerrara. Cranmer. mas. não pesavam seis libras. Olhando para os gémeos. Havia recebido um abalo interior mais violento que o da tortura. sua criadagem e tripulantes?. cantarolando-lhes um versinho. à cabeceira . quando as duas "coisinhas". estava sentada nos degraus da escada de Mrs. — Palavra de honra. enquanto passeava de lá para cá. sua mes-nie.. deve ter re-moído sua amargura. eu gritava que era preciso destruir aquela feiticeira. "São a justificativa de nossas lutas ferozes... Teria sido o rumor de vozes desagradáveis ou o fato de se verem subitamente postas de lado por pessoas habitualmente atentas e subitamente transformadas como galinhas no galinheiro pela aparição de um jesuíta no seio da puritana Salem. de nossos combates imbecis!. e depois as fazia sentar-se num banco diante dela. Tomava-as nos braços e ninava-as. baixinho.. e embaixo. intrigada. apontava-a e gritava: "E ela que é a causa dessa morte". pôs a esquentar o caldeirão cheio de água para as abluções e arrastou o escabelo para o outro lado da cama. e sendo seus recursos de transmutação mística limitados. a luz de seus olhos e de seus sorrisos. murmurava. deve ter-se apegado a esse pensamento de combater inimigos. em qualquer circunstância. Ria sem querer daquela lembrança. precisava construir uma versão. juntas. seus dois anos e meio completos e solidamente postados em seu lugar nesta terra. Mas não era o momento de recomeçar o debate. Está bem! Está bem! Ele agiu corretamente. cercada por todas as mulheres inglesas e heréticas da casa... evocou-lhes a primeira cólera." Ou simplesmente as amas-de-leite nervosas e curiosas tinham esquecido a hora da mamada?.

que meus filhos estavam morrendo.. o comesse?. o jovem "dado" que tinha um nome tão belo. Emanuel. apesar de seus cuidados deixavam profundos sulcos na pele.. Não.. Começava a compreender que não tornaria a ver o homem que amo.. Folgo em saber que tenha escapado ao fogo. — Folgo em saber que ele tenha sido poupado — murmurou ele. e julgando-o pela medida de suas experiências e à luz das confidências que acabava de ouvir.. Também pensei nisso... realmente.. Não sei o que ele quis... depois cuspia. para a glória de Deus e o benefício dos homens.. E depois. uma tentação. Se isso me passou pela cabeça. Foi um pensamento fugaz.. enquanto me levaram ao suplício. e tivera uma esperança tão grande. Não sei.. Naqueles momentos irritava-se menos com ele do que quando ele discorria com uma súbita autoridade. seus braços estavam muito fracos para poder segurar a tigela e levar à boca a colher sem derrubá-las. resposta que só podem ser trocadas por aqueles que falam.. perguntas.. uma vida que ele pretendera superior.... e que as feridas cicatrizadas. os fatos se encarregam de avisá-lo disso!" Essa máxima dirigia-se também a si mesma.. julgou o momento inoportuno para revelar-lhe toda a verdade a propósito do pobre Emanuel... — Ele.do ferido.. pôs-se a considerá-lo como um irmão..... — Sim!. — Você teria me comido? — perguntou ele. Sentia-se humilhado por estar entregue à sua mercê. enfraquecidos. Ajudou-o a recostar-se nos travesseiros a fim de poder alimentá-lo mais comodamente. em vez de víveres. também estava morto.. Não sabia nunca se conseguiria fazê-lo comer sem dificuldades. CAPITULO XXIII O segundo martírio do jesuíta Conversavam sobre temas que teriam feito arregalar-se de uma surpresa inquieta os olhos de quem quer que não tivesse vivido na América. Eu estava exausta. um irmão de combate. numa dependência infantil? Suas mãos. seja por desejo de economizar provisões.. — Talvez!.... Não havia nenhum outro recurso. Não.. um cadáver. foi com horror.. o impetuoso e sorrateiro corcel do destino fizera-o perder as estribeiras. E que tenha conservado a vida. na penumbra de uma invernada sem fim. o fim de nossos mundos. que.... — É por isso que você tem essas duas feridas nas costas? Notara que não eram queimaduras. dizendo: "Como sua carne é imunda!" — Quando aconteceu isso? Em que suplício? . em pequenos pedaços que um guerreiro me retirava das omoplatas com uma faca bem afiada.. Foi uma vertigem causada pela fome. Tudo isso é muito louco. — Pois bem! A mim eles comeram — disse — um pouquinho assim. Não se deve pensar nisso. Vendo-o sereno e aceitando com docilidade o alimento que lhe oferecia. sentou-se com a tigela na mão e começou a fazê-lo engolir caldo em pequenas colheradas. E que eu escandalizara tanto. você estava vivo! Não! Não! Utakê.. Seria o fim... certo dia em que ela lhe contava a descoberta na soleira da porta e o desagrado por encontrar.. Ele saberá o que fazer dela... o fim do mundo. Seja por apatia. "Quando não se está preparado. infelizmente. ele demonstrava uma verdadeira repugnância em relação à comida. Será que o mandou para mim para que acabasse com você. Ele me comia.. Via nele um homem que superestimara os próprios talentos para dominar o cavalo fogoso da vida.

Ia. e no fundo éramos bons amigos. acabara de chegar. Não receava nem desejava a morte. Ao chegar ao burgo. o mohawk. como lhe disse. aqui está você! Teria reencontrado a amizade de seu Deus e o caminho de Sua Força?.. e à sua frente. que minha Tia e eu devíamos preparar para o parente caçador. que vinham procurar-me. não apenas mudo. à qual retiravam uma segunda vez seu filho-prisioneiro-escravo.. "Vieram e me disseram a fórmula consagrada e para mim aterradora: 'Meu irmão. mais ainda que os exploradores de bosques comerciantes. As neves começavam cedo aquele ano. Fui imediatamente invadido por uma mortal inquietação. "Estava pois nessa situação quando vieram naquela fria manhã em que estava tingindo peles. ganhamos os prémios do desajeitamento entre os senhores selvagens. perdendo-me nas brenhas. que descontava em mim seus nervos. agarrando-se. "Já lhe disse. Eram pessoas muito jovens.. me acostumara à minha escravidão. encarregados de me levar à aldeia vizinha.. mas num estado de estupor e de abatimento que bambeava tanto as pernas que tiveram de me segurar pelos braços. se quiser. você pode imaginar como. eu me habituara. missionários. "Você é mais desajeitado que os yennglis". Seus gritos gravaram-se em minha memória e me perseguem em meu sono. a meus trapos para não me deixar ir. Não temia mais nem as pancadas nem as fadigas daquela existência. Eu acabara por me acalmar. trata-se mesmo dela!. Eu estava tingindo peles. "Segui-os. a menos que me fosse concedida por um golpe de tomahawk. acompanhando por zombarias das indiazinhas ágeis que também iam buscar os produtos da caça dos pais ou esposos. Eu recolhia e cortava lenha para ela. o que mantinha as forças de minha Tia. -Durante meses. Têm muito tutano. coragem! Chegou o momento de cantar seu canto de morte'. Utakê. ia à floresta buscar um animal que um parente dela lhe caçava.. ao saber da chegada de meu pior inimigo. em que foram me buscar novamente. — Mas eu julgava que Utakê tinha decidido poupá-lo! — Eu também acreditava que já estava resolvido. pobre mulher.. furiosa. "Foi apenas no meio do caminho que os guerreiros conseguiram li-vrar-se dela. nós.. Foi entretanto nesse trajeto que um deles começou a comer minhas costas.. aterradas por meu comportamento. "Creio que nem vi passar as estações. Depois foi aquela outra manha.— No segundo". encontrei alguns guerreiros em volta dos chefes das Cinco Nações. diziam-me. aonde o chefe dos mohawks. Gostam de refletir sobre os destinos humanos. foi ela que se encarregou de me cantar meu canto de morte com o concerto que ofereceu com protestos e uivos. . Eu voltava muito depois delas. Um outono? Dois outonos." — Ouvi quando você repetia: "Ah! que ela se cale! que ela se cale!" — Sem dúvida. Você que é o maior entre os maiores dos Togas Negras. Ouço-a ainda gemendo e maldizendo. talvez três?. Tínhamos conversas interessantes. que são indianizados. e o domínio dos sonhos abrem múltiplos labirintos à sua imaginação.. "Ó Hatskon-Ontsi.. "Não compreendi quando vi diante de mim quatro guerreiros. embaraçaçdos com nossas sotainas. "Quanto a Nenibush. Era evidentemente moído de pancadas da manha à noite. Fez-se um longo discurso. no terceiro. tropeçando nas raízes. Utakê. nem a monotonia daqueles trabalhos humilhantes. minha cara Tia Nenibush.. Nem as contei. As mulheres índias não são nada tolas. Chamavam-me de Mulher Negra e riam de meu desajeitamento para encontrar o caminho e penetrar na floresta. pois. Minha única obsessão era o receio de perecer sob as dores do fogo. entre os jovens corajosos. O inverno era atroz..

os chefes.. agora sei. "Diante disso. mas. que elas me aplicaram aqui e ali.você nos feriu e insultou mais que ninguém. onde havia uma choupana especial para pitar. vidas antigas que sobrecarregavam meu eu.. inteiramente impregnados de fumaça. Eu me desou-rava mais uma vez. rostos. Mas este logo se tornou rarefeito. em que mal cabíamos. na testa. Estávamos vazios. que nascemos no orgulho de nossa morte. "Após deliberarem. que é deixar a criatura nova prosseguir livremente seu destino. O ar estava azul. a seu ver. pois apagou-se quase inteiramente de minha memória. A couraça . eles começaram a morder e mordiscar. "Deveria ter dominado aquele sentimento de repulsa. que nos rejubilamos desde muito cedo com a ideia da morte nas torturas. fora de seu direito. "Ouvi-os pronunciar palavras que tinham mais ou menos o seguinte sentido: 'É preciso no entanto prepará-lo".não me atingiram.' "Eu ferira profundamente Utakê. Minha covardia e minha fuga tinham feito deleita inimigo implacável. aspirado por um fenómeno que me seria difícil descrever. Quando chegou a mim. Como lhe descrever? Também nesse ponto minhas lembranças são caóticas. pequenos roedores que se debatiam. mais do que de dor. "Era uma casa pequena. "Finalmente. O que eu suponho é que. sabia-o. personagens de um tempo passado. unicamente para o líquido. Depois duas delas avançaram e. exibindo uma boca de dentes afiados. Isso durou muito tempo.. seguro por mil punhos miúdos e com garras. O cachimbo da paz começou a circular de boca em boca. Falavam entre eles e me observavam com um ar sombrio e desanimado. reservada unicamente ao exercício de fumar. No início circulou uma cabaça. lanharam-me o rosto com a ponta de caniços cortantes. durante essa 'ausência'. Depois. os anciãos interviram e me retiraram das mãos das mulheres e das crianças. mais complicado que isso. e não ficaria surpreso se tivesse durado dois ou três dias. encontrei minha alma. Nós. de uma maneira. a droga ajudou-me a voltar ao ponto de partida. mais como médicos do que como torturadores. levaram-me para outra aldeia. como os médicos contemplados um caso desesperador. submergindo-o. isto é. a fim de provar a grandeza do homem. 'Elas então irromperam com gritos agudos. que tinham se insinuado no centro de meu ser atual. Ficamos assim fumando sem beber. desonrosa. furioso por ter sido enganado.. pois nos o entregaremos às mulheres'. você nos humilhou em nossas crenças. os anciões. jorrando de cada uma das Casas Compridas como uma torrente rolando as águas mortíferas. nas faces. enquanto as mulheres histéricas riam e repetiam que iam deixá-los atacar meus olhos. vi que seguravam. os diferentes amálgamas de minha alma. Mas era tarde demais. não para beber mas para as necessidades naturais. paralisando-o com as gavinhas de uma vinha inculta. Só Gonsigo rever claramente o momento em que. disse: ' 'Vejo pelo seu rosto que não se emendou e que não merece sofrer a prova dos bravos. Mas não se rejubile tão depressa. pediram-me que tirasse mais baforadas que os outros. sufocando-o. sem nenhum alimento. "Revejo a cena. denso. pois creio que. Sim. arrastando-me para um canto até a sala do Conselho. cuja gravidade ultrapassa sua competência. Meus pulmões queimavam. alguns de seus 'prestidigitadores' e eu. após um longo momento. Entidades embaraçosas e estéries. quando ficaram bem perto. mas pouco me importava. Depois desmaiei completamente. "Pus-me a gritar de pavor. por uma nova razão. com os punhos bem cerrados. E calar-me. as palavras. "Senti náuseas. desembaraçando-se pouco a pouco dessas sombras. só com a cabeça de fora. teria podido suportar a dor em silêncio. Os anciãos continuavam à minha volta. Os cantos salmodia-dos sustentavam o estado de idiotia. Durante essa 'viagem' talvez eu tenha conseguido expulsá-las. calou-se. Não apenas o meu eu.

lembro-me também. deslizando através do céu como velas. que não aproveitava os precisos tesouros e ensinamentos "dispensados pela natureza tutelar. ela percebia-lhe um espírito jovem e brincalhão que apenas sua existência entre os selvagens lhe permitira exprimir.. reencontrar o fio de seu destino porque o Maligno.... Dessa vez. sentia-me mais como alguém que acaba de sofrer uma cirurgia. "Estavam tão convencidos de que não podiam tirar muita coisa de mim que renuciaram a pedir-me para cantar meu canto de morte enquanto me conduziam de novo ao sacrifício.. de minha parte. Ele me diz: .. os brancos eram uma espécie ingrata e inoportuna.. — Tenho ainda uma última lembrança.. Vejo Utakê acima de mim. Ela pensou-que ele tivesse adormecido. escolheram um lugar afastado da aldeia. e creio ter sofrido horrivelmente. "Eu adivinhava seus sentimentos. para torturar uma criatura tão reles.. Os índios das possessões espanholas têm um cogumelo que permite tais regenerações. Eu os cobria de vergonha. melhor dizendo." Angélica ouviu-o dar risadinhas como se revisse o espetáculo. É muito vago. Deixou passar um longo tempo. Deu novamente uma risadinha nervosa e soluçante. mas que estavam podres e eram portanto perigosos. para fazer deles homens dignos desse nome.. o que aconteceu em seguida? — Ignoro-o. pois parece-me que estou estendido no chão. Garagonti. que era preciso ao menos isso! Ajudou a quebrar essa concha petrificada ao redor do núcleo de meu ser. — Ainda assim. — E. e sobretudo as expressões aborrecidas dos carrascos humilhados.. elas salvam o espírito sem prejudicar o corpo. Hiyatgu.. e prepararam os instrumentos para aquecer ao fogo: machados. Tahutaguete... naqueles momentos.. Mas ele repetiu: — Ignoro-o.. ajudando pelo menos a sobreviver sem enlouquecer tudo quando o que é humano se fecha. Somente o futuro diria o benefício que eu iria retirar daquela terapia singular. pois continuavam a me olhar com ar dubitativo. No entanto. ele voltou ao que se seguira à saída da choupana de pitar. depois de refletir por muito tempo. atrás dele há o sol e grandes nuvens brancas dilatando-se. Eu não era um ser honrado. diziam.. a ablação de órgãos importantes. "Usadas eventualmente. Os anciãos não se iludiam. Ela esperava com paciência. Vejo os machados incandescentes que passaram ao longo de minhas coxas e parece-me sentir aquele cheiro infecto de carne queimada sufocando-me. modeladas pela luz.. por suas próprias forças. com caras de nojo de pessoas obrigadas a realizar a mais entediante e insípida das tarefas.. ele é muito grande e ele me domina. Não sei se gritei novamente.era tão dura. se divertiu em embaraçá-lo para perdê-la. Creio ter sofrido o suplício. eu não estava curado. que começou a nomear à meia voz: — Utakê. muitas drogas são úteis quando a alma não pode. Nisso. uma visão. mas. sempre ele.. Depois continuou a rir e. onde havia um velho pilar abandonado. sovelas. E. Para eles.. aumentando a vergonha de meus infelizes carrascos." Passou a falar do mistério dos conhecimentos que o continente ainda inexplorado do Novo Mundo continha. Era preciso pegá-los muito jovens.. Gosadaya.

'"Eu lhe declaro. a você que me enganou e me insultou mais que ninguém no mundo. Ela curava minhas feridas e dava-me de beber. Eu retornaria às áridas e inelutáveis certezas da crueldade do mundo. sofrimento e compaixão. pois dessa vez. encontrava seu significado naquele caminhar. Hatskon-Ontsi.' "Diante do enigma dessa resposta.. a você que foi tão grande. quando seu nome for evocado: aquele que não merece sequer um nome era o inimigo de Utakewata! Você vai partir. como nenhuma mãe.. estaria procurando no silêncio o esquecimento? Ela continuaria a falar-lhe. por minha vez. tornarei encontrá-lo. Não admitirei que deixe em nossas memórias uma lembrança de desprezo e que se ouse dizer. e ele devia ter sonhado com um mundo em que todos os homens se uniriam para rebaixar e reduzir ao silêncio a Eva culpada. "Então." C A PIT U L O X X IV Amor e ódio no jogo das paixões Após esses dois longos e penosos relatos... você sofrerá. mas agora sei que parti para um outro encontro. sua voz se abrandava. eu disse meu nome. Vou enviá-lo para além dos montes. Quão sutil e refinada foi sua vingança! Do mesmo modo que não podia fugir do tição inflamado aproximando-se de minha carne. a fim de manter-lhe o espírito alerta. . Você atraiu maiores inimigos que eu. de que não me lembro. "Eu a reconhecia e nunca pensara vê-la tão próxima. A quem iria entregarme?. Se ele proclamava muito alto que ela era sua principal inimiga. só pude ler em seu rosto tristeza. A gente acredita que parte para as missões da América.. ou dizer: "meu esposo". "Perguntei-lhe: "Por que não acaba comigo?" " 'Não cabe a mim acabar com você. houve uma longa viagem obscura. provocando nele uma irritação mesclada de amargura. nenhuma mulher jamais fizera por mim.'" — Em seguida. extasiado e aterrorizado. pois sabia que. Mas eu o perseguirei. julgo ter conservado a esperança de que um dia eu poderia entrever a face luminosa da mulher. "Quando despertei estava entre seus braços. a quem cabe esse direito. ela adivinhava que Joffrey despertava nele um antagonismo mais confuso. depois de ter-lhe conhecido o lado venenoso.." 'Não creia que vou perdoar-lhe a vergonha. Evitava instintivamente pronunciar-lhe o nome.. A taça da salvação seria afastada de meus lábios. "Da época mais sombria de minha infância. sem sabê-lo. Hatskon-Ontsi. contra a qual não há remédio. então.. até ser digno de que eu devore o coração!.. todas as paixões.. Entretanto. Seus olhos cruéis chamejaram. senti medo novamente. a "traição" vinha do homem. Mortificado em seu orgulho. compreendi o quê Utakê quisera. Minha via. quando. nesta terra.. "Entretanto. mostrava-se prudente quando se sentia tentada a mencionar Joffrey de Peyrac. houve um período de interminável mutismo. não podia furtar-me à derradeira prova: "O sonho ia estourar. eu esperava. Ela se identificou. aquele nome. que havia arrastado Adão e toda a criação ao caos do pecado. todas as dores..

de Peyrac. querendo decifrar em seu rosto a sentença em que se recusava a acreditar. o Reverendo Padre de Vernon. O que lhe aconteceu foi lógico e sem más intenções. até então. que eram uma parte de mim mesmo!" — Como soube que o Cavaleiro de Loménie estava morto? — Morto!? Seu grito explodiu como o de um homem que acaba de ser atingido no coração por um punhal assassino. Sua face estava emaciada. Eu tinha catorze anos e ele. mais do que com qualquer outro. Inclinando para ela. Atacar o Forte de Wapassu em nossa ausência e queimá-lo. "Mas deixemos Pont-Briand. "Com esses dois. Ele cumpriu seu papel. soube melhor não quem ele era. quando dizia: "Eu o perdi". como em Katurunk. "E você mente a si mesmo. graças a essa manobra. não sabendo nada sobre seu fim. — Pont-Briand? Ele se impacientava. — Ele?! Não é possível! Onde? Quando foi isso? — Aqui mesmo. Angélica compreendeuque. — Foi você que o matou? — Sim! Reclinou-se lentamente para trás. — Pont-Briand não era alguém que se pudesse elevar ao nível de amigo. ele não hesitava em se mostrar acerbo. — Eu não disse a ele para vir. ele fitava-a com um olhar alucinado. Uma vez mafs. Nem sombra. a aliança eficaz em tudo. Foi sentar-se ao pé da cama a fim de olhá-lo de frente. que reconhecesse seus erros culposos. e. e ele veio. No outono. onze. — Acontece que foi ele quem ouviu melhor seu apelo: "Vingue-me". e depois do Cavaleiro de Loménie-Chambord. e também a que tipos de provocações podia reagir o Sr. seu amigo e mestre. Era uma missão sagrada. Você era o Homem negro que estava por trás da Diaba da visão. "Fqlo de um de meus colegas de ordem. que voltasse a você. falava do desafeto sentimental do Cavaleiro de Malta em relação a ele. Você o soube sempre. E foi só você aparecer para tudo desmoronar! O meus amigos desaparecidos! Quanta mágoa por tê-los perdido assim!. — Você o induziu a isso de maneira hábil e maquiavélica. O conhecimento mútuo. Um entendimento perfeito. que o levara a pronunciar-se a nosso favor. . tentativa de justificativa à qual não queria renunciar. que o afastaram de você. Dessa vez ele não faltaria com seu de ver. Era apenas um executante. Em nossas missões e em nossos trabalhos. quando recomeçava a falar. e realizaria seus desejos de álém-túmulo. a vocês. — Por sua culpa. pois conhecia-o muito bem. onde ele me sorriu pela primeira vez. como fez em outras oportunidades. Temiamuito por sua vida.Por provocação. Cjueria mantê-lo afastado de minha desgraça. "Ele pretendia renovar a façanha frustrada de Katarunk. e assim se desmascarar? Eu movi para a frente esse peão. mas quem era você. jamais tive qualquer querela. você o enviara para a vingança. perdi meus dois amigos mais queridos. Sempre contou com ele. — Como julgar os seres sem deixá-los fazer uma escolha. — Fui a causa disso? — Você é a causa de todas as desgraças da Acádia. meu irmão dileto desde o colégio de Clermonte. para obter nossa capitulação! Sempre esperou que ele se arrependesse de sua cegueria. "Mas eu estava presente.

Jamais me perdoou por haver fugido dela. é preferível acabar com um ferido a arrastá-lo pelas intermináveis pistas do retorno!." Ele baixava as pálpebras. escolhidos entre corsários ou flibusteiros.. não pensava que viria.. Ali. ferido. espero?. ou reconduzir-me à Nova França. minhas amigas. quem sabe. Segurou-lhe o punho.. no incêndio? Ignoro tudo o que aconteceu a meus amigos. cessaram o debate. . — Eles retiraram o corpo e se foram. Senão.. suas tropas se retiraram. não por falta de acusações para lançar ao rosto um do outro. Eu o abati.. de Belial e das oitenta legiões do Inferno!. reconquistar um território que eu julgava francês. ou entregues cativas. O ciclo infernal estava fechado. não sei se poderia perdoar-lhe o destino dessas mulheres e crianças. concebi a ideia de fazê-la servir a meus desígnios. pelo menos sua lendária habilidade lhe terá poupado uma longa agonia? Pois. mas por falta de energia para continuá-lo. Ela era meu medo. crianças que vi nascer aqui em Wa-passu e que foram arrastadas pelas "pistas intermináveis do retorno". — O Cláudio. não é? — Não sei! — gritou. com aqueles que seus "vingadores" deixaram agonizar na ravina ou. pasmos. mas como prisioneira. Por sua culpa! Por sua culpa! Eles se espreitaram. Gouldsboro.. numa de minhas voltas. O que mais poderia fazer? Render-me? Trair os meus? Meus esposo? Meu amigos? Todos aqueles que haviam confiado em nós? "Privadas de seu chefe. — E devo perdoar a você? Você se preocupa com nossos feridos. encorajando-a a fretar uma expedição cujo objetivo era enviar colonos. como butim. longe de qualquer socorro. Ela sabia que sua paixão me repugnava. Ele estava persuadido de que eu me deixaria convencer.. — Ele morreu imediatamente. após obter a rendição de todos os nossos territórios até Gouldsboro. Diga-me. É melhor assim. Por várias vezes ele se defendeu de ter feito a Sra. jamais a perdoaria. a selvagens fedorentos. — Apesar de tê-la encorajado a trabalhar em meus projetos. discípula de Satã. Isso tinha raízes tão profundas! Jamais me tentou. meu amigo. — Selvagens fedorentos? Por que fala assim dos selvagens? Eu a ouvi felicitar-se por saber que sua filha Honorina estava refugiada com os iroqueses e em segurança. quando eu ali pregava. eu teria sido entregue a Ambrosina. que erguera uma barreira entre ela e meu desejo. Quando soube que estava rica. Depois. Aquele que você havia escolhido. O que não impede que seja um destino terrível ser prisioneiro dos índios.. morrendo talvez de frio e de esgotamento. que caíra nas mãos dos hereges. que tinha influência. Meu medo das mulheres. abespinhados. pálido e sem fôlego. ofegantes como dois lutadores esgotados pelo combate e que olham."Não tinha outra alternativa senão executar-me. de Maudribourg vir para a América.. Ambrosina esteve comigo em Paris. não sem ter antes pilhado e depois incendiado Wapassu. de Lúcifer. Cláudio! — gritou — Meu irmão. vi-o aproximar-se. onde eu estava refugiada. "Do alto deste fortim. — Se tivesse de encarar seus longos sofrimentos e sua agonia. Pelo menos você o matou imediatamente. libertando-se com tanto mais cólera quanto nunca deixara de recear ter tremido demais ao puxar o gatilho. — Com efeito! E preferível o verme e a sujeira das Casas Compridas iroquesas a cair nas mãos de uma Ambrosina. O sofrimento o consumia. correr o sangue. não como triunfadora dessa vez. minhas companheiras..

Não pode censurar-lhe não se ter mostrado um executante hábil e eficaz nas missões que lhe confiou.. E descobria-se uma das maiores envenenadoras da história. Eu era seu confessor. Os armadores mais empedernidos vinham comer em suas mãos.Para me tirar da água. também ele. acabava de ser presa pelo policial Desgrez.. e ela se rejubilava por desempenhar um papel num obra que causaria dramas e derrotas. a Sra. Tomou-a em seus braços — . mas que ela furtou em seguida. Essa carta continha um envelope selado com suas armas e algumas breves linhas.seu esposo. de Brinvilliers.. depois de tramar sua morte. seu "navio e sua tripulação. ele ainda não a havia trazido consigo. — Aquela carta? Então você a leu? — Sim! Eu era seu confessor.. Mas como você sabe de tudo isso? — Recebi dele uma carta enviada da fortaleza de Pentagouet. depois de tê-la deixado reconquistar Gouldsboro."Em Paris. ela e eu. depravada desde a mais tenra idade. mas não é a mulher que me indicou expressamente como tal. . A Diaba está em Gouldsboro. o seguinte: "Sim. — Você está obcecado.. — Bela consciência! — Era uma carta de amor. Frio com gelo! Confundi-o facilmente com um inglês. Era um produto das trevas. "Quando lhe foi dada a oportunidade de desenvolver astúcias e enganos e desempenhar o grande papel de sedutora junto a um número considerável de homens. Naquele momento." — Pensei ter entendido que no momento de partida do La Licorne a polícia estava em seu encalço. — Ela não deveria ter nome. indo: de um ministério a outro. Começava assim: Minha cara criança. o Padre de Vernon! um verdadeiro jesuíta. por minha culpa? Ele continuava a ser-lhe muito dedicado.. de Peyrac caso lhe acontecesse alguma desgraça. Senhor! Que jesuíta! Fazia-me pensar em meu irmão Raimundo. Tive essa carta sob os olhos e lembro-me que ela dizia. Ou seja. a Condessa de Peycrac!!. Denunciou-a numa carta que lhe era destinada. pudemos. Ela recrutou Colin Paturel. "Julga que o fato de o Padre de Vernon tê-la desmascarado seja razão suficiente para que você se queixe de tê-lo perdido. Eu a encorajava a colocar-se como benfeitora para a salvação da Nova França. Quando lhe indiquei sua presença.. — Ambrosina também jamais foi uma criança. ela era minha penitente. enquanto amigo. como o Coronel de Loménie-Chambord. a iniciativa de contrariar minhas ordens e de julgar minhas intenções. minha pequena companheira do VOiseau Blan". Toda vez que a nomeio sinto um calafrio — Ela se chama "legiões". — Estava apaixonado por você. nas quais me solicitava o obséquio de fazer chegar a carta anexada à Sra. — Padre de Vernon suspeitou dela imediatamente. Sua melhor amiga. — Belo confesso! — Essas licenças são autorizadas aos diretores de consciência. Teve tempo para reunir todas as informações a seu respeito. Era muito hábil e ultrapassava de muito as recomendações que eu teria podido fazer-lhe. espionar os novos ingleses ou assegurar-se da mi-nha presença no navio de Clin Paturel. Vi brilharem seus olhos quando lhe falei de. ela deve ter tomado a decisão de fazer parte da expedição. francamente! Ele. Tomando. Os togados caíam como patinhos em suas armadilhas. ela fez' maravilhas. em resumo. meu padre. Estava ainda na casa do Barão de Saint-Castine. um monstro de perversão.. conciliar-nos..

o estabelecimento lhe teria sido entregue.. . Não suportava principalmente a insensibilidade dela. Não é a primeira vez que me fazem essa censura e. aureolado pela luz proveniente da lareira.. escapar a todos os que não o compreendiam mais?. Ele não tem escolha.. o humor de Angélica mudou.. meus filhos. falando de paz.escandalizado com a brutalidade com que ela resumira a cena fatal: "Ele vinha com as mãos nuas. em minhas palavras. recompondo-se — . sua campanha até Gouldsboro. deixá-lo continuar. Contando com a afeição que eu lhe dedicava para render-me mais facilmente.. Sem terçar armas?. Ficara alvoroçado. Eu lhe gritava: 'Não se aproxime! Não se aproxime!. É isso o que ela não lhe pode perdoar.. "É fácil abusar da bondade e do impulso dos corações generosos para causar sua perda.. O que acontecia com ele? Recaíra sob sua égide a ponto de fazer pouco de sua própria honra. implacável." O Amor me protegeu. ou contra ele. não?. deixar-me submeter.. vulnerável. aqueles poucos segundos de hesitação antes de atirar.... aquela boca fina e perfeita que pronunciava tais palavras. a rir tanto que as crianças.. — Se bem entendo. E a mediocridade. ele voltou ao assunto de Loménie-Chambord. que nos mostramos duros e intratáveis. você quer dizer que eu não faço o jogo. O ser humano está no meio. fatalmente espezinhadas e destruídas pela crueldade e traição dos adversários. de um modo ou de outro. O da fraqueza. desastroso — replicou Angélica —. Não conseguia esquecê-lo. onde... do guerreiro. seria tão fácil. "Não somos nós. sem pé nem cabeça. não é? "Fazer o jogo. inclinandose espontaneamente diante do homem. quem sabe?. sobretudo.... não é coisa certa. acordadas. repetiu. prostrando-se."Que jogo?.. Ele mergulhou!.. Haveria mortos. Eu o abati".Subitamente. — Perdoe-me! — disse. são os outros. Sou uma sagitariana.. segui-lo. porque lhe expus todos os conflitos e tormentos que agitaram minha alma e partiram meu coração. teria deixar-meenternecer.. comprazer a sua memória? Ou tentava escapar?. que ficam desolados com isso. Mais tarde. Não pôde deixar que eu fosse afogada. Entre as leis do Céu e as da Terra. meu padre... a imitaram. O meu caro Merwin! Como estou feliz!. sem isso!... "Você me achou brutal. mas a vida é tão maravilhosa! Uma vidente mê disse um dia: "O amor a protege!. Uma questão de justiça. E a vida. Aquele da mulher hereditariamente submissa. — Compreendo agora como você pôde vencer Ambrosina. O Padre de Vernon não pôde deixar a senteça ser execultada. aos pés da força?.' "Mas ele continuava a avançar. Restabelecer o equilíbrio entre o Bem e o Mal. meus partidários. Necessitaria de horas para descrevê-los. Julgam-na uma mulher sensível. Eu o abati ". os desgarrados ou os inecrupulosos. vencida. A fraqueza muitas vezes apenas adia o massacre e multiplica sua amplitude. Mas há mais algumas coisas. para comprazê-lo. os 'ternos'. Sempre me foi insuportável dar a meus inimigos a'satisfação de minha derrota sem fazê-los arrepender-se. e ela começou a rir. que não têm escrúpulos. escapar àquela escolha. Ele também fizera sua escolha. com a ajuda de Saint-Gastine. O da sensibilidade e da generosidade. Foi Sebastião d'Orgeval quem dessa vez voltou lentamente os olhos a fim de observar aquele perfil de mulher ao seu lado. como pretendia. entregando-lhe Wapassu. por pouco que seja. E subitamente você se revela astuta. é a felonia dos outros que nos obriga à escolha.. renegando a aliança que fizera conosco. Era chocante! — Mais chocante para mim.

feito o jogo de reles paixões que. chega um momento em que somos obrigados a fazer uma escolha. durante o qual não puderam fazer nada além de ficar enterrados em seu buraco. "Cláudio de Loménie morreu porque ele fizera sua escolha." Essas duas cenas convulsivas deixaram-nos abalados. felicidade cotidiana. — Hoje você deve tentar sentar-se — disse-lhe ela. Pois eu também o amava. compreendendo a inanidade de suas discussões e a profundidade de um sentimento que vinha de longe e que se parecia com a amizade. paz. com um dos braços em volta de seus ombros. enquanto ela o segurava. . apesar das dores. das queimaduras. a uma alusão. como um polichinelo quebrado. mas conseguindo deslocar os pés algumas polegadas. ou melhor. por boa vontade. Para sobreviver ou para defender a inocência. Os progressos foram lentos. Um dia ele ficou de pé. parecem fúteis. Enquanto retomavam forças. que a paz voltara a reinar. como daquela vez em que ele se erguera para alcançar-lhe a mão e beijá-la. um dia em que temos de pegar em armas. Desde o início. e ele se apoiava com a outra mão no pequeno Carlos Henrique. quer não. os arrependimentos. saída que veria os primeiros passos do "ressuscitado" à luz do dia. a uma palavra. CAPÍTULO XXV A fuga das crianças — Esperança de salvação Imaginavam sempre que tudo fora dito. despertavam-se o rancor. pela cintura. Rancor por ter pago um tributo tão pesado. mas aprendi como ela era inelutável. sempre imperfeitas. E essa obrigação o que mais odeio. quer sonhemos com harmonia. desproporcionais em relação aos desastres que acarretam. E isso evitava o enrijecimento dos membros. ela tomara o cuidado de fazê-lo flexionar as pernas. que se arriscavam a ficar deformados pelas cicatrizes. flutuaram sobre águas pacíficas. desespero diante do irreparável. Acima deles passavam os-eoros do vento e também o dos anjos em cavalgadas fantásticas. estendendo-lhe as mãos para segurá-lo. d'Orgeval. os lutos que engendraram. esquelético. crianças felizes em meio a nossas obras fecundas. uma vez saciadas. pelo menos uma vez na vida. que o faziam gritar. o carregava. a de servir-lhe. esgotados. que me impôs um ato de que nunca me consolarei. marcados contudo por etapas decisivas. desengonçado. Poucos são os que podem evitar enfrentá-la. superadas de uma hora para outra como que por um milagre. Chegava o momento de encorajá-lo a mover-se ainda mais."Quer o queimaremos. Seu antagonismo explodiu mais uma vez. Saiba. Pois ela notara que ele podia executar movimentos que davam mostras de flexibilidade e de vigor. o desespero. entre eles. E depois. arrependimentos por terem se mostrado medrosos. e isso ocorreu todavia de um acontecimento que deveria ser marcado pelo signo da alegria: sua primeira saída do fortim. depois de um longo período inclemente de noites e tempestades. por terem. Sr. imperfeitos. as lágrimas que fizeram correr. estendidos lado a lado.

meias. equipado dos pés à cabeça. haviam proliferado em torno. Nas saídas precedentes. vou envelhecer dez anos — disse-lhe ela. em que alguns ursos se arriscam a uma saída titubeante para em seguida tornar a mergulhar num sono mais benéfico. Quando conseguir transpor a trincheira gelada. mas o sol brilhava sobre a neve recém-caída e fofa. Para as crianças eram sempre dias de alegria. — Com você. passando as breves horas ensolaradas do dia a flanar. injustas e revoltantes. foi amargo. sapatos do guardião da casa — o que teria acontecido cõm o pobre mudo? —. distribuindo salsichas e pães com melaço. perto das quedas Montmorency. não resistiu à malícia de perguntar-lhe se ele não ficava impressionado por estar vestido com os trajes de um inglês puritano congregaciònalista de Massachusetts. que era preciso amealhar. Como ele estava de pé e muito vacilante. cujo caos. A estação atravessava um período de estabilidade. achando-se de pé ali na neve. Estava preocupado em avançar ao longo do corredor. Angélica desprendera a porta. no meio da invernada. depois de ter-lhe tirado os andranjos que o cobriam. presas do frio e da luz. erguiam-se toldos em volta de braseiros. obrigou-se a ter paciência e permaneceu em silêncio. erguia uma bárbara catedral do outro lado da colina. as interpelações dos homens. mas hoje. despertavam nela. Odiou-o por isso. tendo ela e Carlos Henrique dificuldade em sustentá-lo. estremecendo: — Como ousa brincar sobre suas traições? A canalha perniciosa de que se cercaram. A aventura começava mal. recoberto de neve.Como o tempo melhorara. E a época. entre quatro paredes. Angélica e Joffrey subiam ao cimo do torreão e olhavam a animação em volta da bela fortaleza de madeira de Wapassu. sob sua salvaguarda. O que via destacar-se contra o céu azul eram as ruínas de Wapassu. Trouxe-lhe para aquela ocasião calções. todo mundo saía. Saíam para tomar ar e sol como uma panaceia. Nessa época. Ele replicou. Enfraquecida pela contrariedade e pelo rancor que aquelas reflexões mal-intencionadas de seu paciente lhe haviam provocado. Fora um erro não ter renunciado a ela e prosseguir em seu desígnio. sempre evitara voltar-se para aquele lado. o olhar que Angélica lançou sobre a planície branca e resplandecente. que organizava suas partidas de patinação e piqueniques no Pão de Açúcar. passeava-se com as raquetes. que era arrastar todo mundo para fora. sentiu-se mal. Em Wapassu. Mas ele não compreendeu. Os gritos das crianças soavam ao longe. ela vasculhara entre as camisas e coletes de Lymon White para vesti-lo. nos outros invernos. para imitar a sociedade de Quebec. antes que a tempestade os aprisionasse por outras longas semanas. Isso lhe partiu o coração. ia-se ver os índios. por causa das palavras que acabara de ouvir. andava-se de trenó e as crianças deslizavam à beira do lago. experimentava uma perigosa vertigem medindo toda extensão do desastre. A de não levar em conta a emoção que tais palavras. custando-lhe cada passo um grande esforço e provavelmente muita dor. Cometeu uma imprudência. com a fumaça elevando-se dos telhados enterrados das outras casas que. Faziam-se visitas. na . ou. os risos das mulheres. Quando viu o jesuíta. pusera o nariz para fora e percebera a carícia do sol para lá do abraço do gelo. ela decidiu dar uma saída com ele e as crianças. Quando da chegada do Padre d'Orgeval moribundo. além do casaco e do gorro de pele forrados. pois acabara por se esquecer. chamando-se ou encorajando-se em seus trabalhos. Com as crianças. você e seu esposo. O frio continuava intenso. causaram sua perda. em vez de feliz. sob o peso das neves.

urgência das ameaças da fome. em Salem. ele transmutou esse chumbo em . dirigindo-se a forma masculina. Ia falar. Pequenas nuvens de vapor escapavam-lhe da boca. que o traíram. E como Angélica julgasse ter surpreendido no olhar fixo pousado sobre ela um brilho de alívio. inocentada pelas mais altas instâncias da Igreja. ia gritar-me: "Não é verdade! O Padre d'Orgeval não morreu como mártir entre os iroqueses. Mas era incapaz de ordená-las. — Você também acha que está tudo bem assim. Olhai à sua volta. pela fadiga e pelas torturas. Eis o resultado! As palavras violentas lhe saíam da boca. a se afogar voluntariamente. A honra da ordem está salva. sentiu-se enlouquecer de indignação. a você. a Dama do lago de Prata. senão para dissimular sua fraqueza diante das torturas.. ter-me-ia dito chorando... — As últimas palavras de um mártir têm o peso de ordenações! O imperativo de um testamento!.." Ela ofegava. "Eis o que estava prestes a me dizer.. de Peyrac. não é? Você o teria feito? Teria jogado com seus "poderes". — Teria sido preciso tão pouco para que tudo fosse salvo!. Eis o que explicava sua palidez e seu desatino. — Olhe! — gritou. Era preciso salvar a honra da ordem. Pois bem! Aí está. quando julgam necessário. Mesmo assim eles o vingaram bem. Sra. Mas o espetaculo era para ela ainda mais penoso pelo fato de se encontrar diante do homem que quisera aquela derrota e que podia rejubilarse com ela. Ele não aguentava mais sentir-se envolvido nessa felonia.. tão cristão. O Padre de Marville surgiu diante de nós. E nossa obra está aniquilada. Ele foi até o jardim. como diz.do porto o corpo de Emanuel Labour. Ia confiar-me sem dúvida o que vira no vale das Cinco Nações. vocês. Ele falou? — Não teve tempo. Morreu para que ninguém conhecesse a verdade sobre sua ruína. como o Padre de Marville o fez... lançando-as aos quatro ventos do universo gélido. a destruir-se a si mesma. Você ganhou. sublinhavam as palavras irrisórias que ouvia a si mesma pronunciar. espreitando-a com um olhar ansioso. de pé ao seu lado. de seus fiéis. tão corajoso.. Marville soube o que conseguiria colocando-o nos altares. se não soubesse que vocês não hesitam. Ele não a acusou. como se poderia explicar tal gesto. a desencadear certas influências.. mas não enganaria ninguém. desorientada. Pois as últimas adjurações de um santo mártir são ordens sagradas. No dia seguinte recolhiam das águas . encontrar um pretexto para sua fraqueza. Não se lamente mais disso. Tudo não passa de mentiras". enfraquecida pela fome. Sabendo que não poderia jamais apagar a realidade de seu ato.. a você. Repisara-as por muito tempo. para arrastar aquela pobre criança. para que o pobre Emanuel tivesse tido tempo para me falar antes de morrer! — Morrer? Emanuel? Você não me havia dito que ele fora poupado? — Pelos iroqueses. sim! Mas não pelos seus! Ele está morto!. — E?„." O jesuíta tentava acompanhar-lhe as palavras loquazes.. "Você o teria feito.. Intimou o rapaz a calar-se e segui-lo. Dirão que ele se suicidou? Receio que uma vontade estranha o impeliu a isso. teria sacrificado a criança também você. para me fazer revelações. — Eis sua obra! Rejubile-se! Você se queixa de seus amigos.. "mas vejo meus mais veneráveis mestres construírem uma lenda destinada a enganar as almas piedosas". de dar uma coesão ao que lhe queria explicar. carregando seu segredo para o túmulo? Ele.. padres. Não o revi mais.. como tantas vezes fizeram. repetindo-as em voz alta quando ficava sozinha no silêncio do deserto branco.

para lhes servir.. Pela fraternidade de nossos compromissos. Vão voltar por conta própria.. — Estão lá. sua mandíbula caída. que o mundo esquecerá. Seus lábios estavam secos.. dissimulando-o. — Elas vão voltar. eu lhes suplico. Começou a sacudir a cabeça e repetiu várias vezes: — O que foi que eu fiz?!. Mas ele simplesmente se ajoelhara. Glória lhe seja prestada. a mim. Estava errada por falar assim..ouro puro e. a vocês somente. meus irmãos jesuítas do Canadá. Emanuel. a mim. ó. Viu sua boca aberta. à beira do lago. e pela virtude de suas santas chagas. E ela o viu erguer os olhos. verdadeiros sacrificados de Deus. involuntariamente. — Perdoe-me. Padre d'Orgeval. E vocês. Você é o maior. pois sentia o suor escorrendo-lhe pela espinha e congelando-se. Edificam-lhe capelas. orem por meu resgate. muito caros e santos e modestos mártires.. Seu irmão em religião fez mais do que vingá-lo. que "tinha uma visão penetrante.. pensou.. que morreram apenas pelo amor de Cristo e não pela adulação dos homens. a glória e a reverência que lhe são devidas. perdera as crianças de vista. foi que êu fiz?!. Ela estendeu o braço para ampará-lo. viu-se novamente cercada pelo grande silêncio branco e o frio cruel. o mais vil. Perdera a cabeça discutindo com aquele homem. "De que adianta essa diatribe dirigida a um ressuscitado que não se aguenta em pé e que não consegue dar um passo?!" E retomou fôlego. Você os simboliza a todos.... voltando à realidade.. O frio raspava-lhe a garganta. subitamente. Angélica tossia. — Onde estão?— Onde estão? Onde estão as pobres inocentes?. as felonias às quais impeli os meus. a vergonha de nossa santa ordem. de exemplo e não para suscitar sua veneração idólatra. Ele o canonizou. o mais covarde. O meu Deus! — Não se mova — disse ele. Mais uma vez Angélica se encontrava diante de um desconhecido. indigno. A luz que tornava sua face translúcida viria do sol ou da transfiguração interior de seu ser?. vocês. As" crianças haviam sumido. isso de nada mais adiantava e não vingava ninguém... Depois. numa expressão de estupor. o fez servir à maior glória de Deus e do reino. e depois erguendo-os para ele. arrependendo-se de sua explosão e do estado em que se colocara. Recomeçou a bater os dentes de frio e de pânico. vocês. com os olhos fechados. e elas voam como pássaros. Estão se afastando. —Para onde foram? Olhava ao_redor. Acabava de dar-se conta da maquinação que o Padre de Marville armara em torno de seu nome. gritar dessa maneira. — Onde estão as crianças? — gritou. O que. perdoem-me! "Perdoem-me os erros cometidos por minha culpa. E quem iria se arrepender do resultado de uma tão brilhante impostura!. Como alcançá-las?. e multidões lhe dirigem preces e súplicas.Levantara-se e colocara-lhe a mão no ombro. perdoem-me! Perdoem-me por ter usurpado. . "De que adianta a cólera?". conservem-me sua piedade. a mim.. perguntando-se onde ficara o indivíduo ao qual acabava de dirigir seu violento requisitório. Vagarosamente dobrou os joelhos. depois as mãos para o céu. dignem-se assistir-me na hora da minha morte!. Perdoem-me! A mim. mas também de incredulidade. deslizando na neve — disse o Padre d'Orgeval. Mas como é que elas conseguem? Eu mal tenho forças para dar alguns passos. — Acalrne-se! — Não poderei jamais ir tão longe para buscá-las.

Começou a perceber-lhe a aproximação ao notar a palidez e a fatiga da pequena Gloriandra. Essa encantadora boneca. Angélica levou mais tempo para se alertar. e que se haviam habituado a vê-la transpor. o mal já lhe parecia muito adiantado. tão pequenas e desengonça-das estavam em suas roupas. ocultá-la em seu abandono contra o ombro da mãe. fornecendo-lhes reservas de carne até a primavera. acáriciava-lhe o rosto redondo. — Estão voltando? — Sim. Mais eis que despontava a face insidiosa do segundo mais cruel inimigo das invernadas. mas três pontos que aumentavam visivelmente de segundo em segundo. por suas próprias forças e sem prejuízos. garantiria sua sobrevivência até lá. pois faltavam-lhes elementos essenciais à alimentação. que nem sequer eram silhuetas.. como se nascessem do ouro vermelho do inverno. Eles são o nosso perdão! São a nossa salvação! O SOPRO DO ORANDA CAPITULO XXVI Insinua-se o "mal da terra" Ela acreditava que o alce. — Não consigo vê-las. Onde estão? Elas vão desaparecer. Não ralhe com eles.Uma bruma sorrateira de fim de dia começava a despontar ao longe. De todo modo. dando provas de uma vigorosa saúde. que pareciam vesti-la.. Eu lhe suplico. e que seguia. Desaparecer!. fundindo toda a paisagem por trás de um véu de irrealidade. estão vindo. E voeê se vai!. E quando se deu conta. os frês muito satisfeitos com sua expedição.. — Estão vindo? — Sim. não a acostumara à inquietação. que bamboleavam sem pressa ao lado dele. em que as pupilas de um azul cambiante se haviam turvado. Angélica não via mais as crianças e estava inquieta. Estavam vindo. Face horrível.. depois da fome: o escorbuto. Carlos Henrique no meio. — O minha princesinha! O meu tesouro! Não é possível! Sei ainda tão poucas coisas sobre você! Não tive ainda tempo para conhecê-la. de carnes inchadas e gengivas sanguinolentas. Talvez por causa disso... Com a menina no colo. estão voltando. as iniciativas de seus irmãos. Desde as primeiras horas de seu nascimento.. ela sobrenadava como um pequeno peixe valente na correnteza das doenças e provações físicas que se abatiam sobre o irmão. pois teria caído e não poderia levantar-se. apodrecida. Sentia aquele braço nervoso enlaçando-a para sustentá-la e impedi-la de lançar-se à procura das crianças. não lhe era possível detêlo. — Não. dando a mão aos gémeos. enquanto os pequenos lábios inchados se esforçavam em vão para esboçar um sorriso. Não parta! . três pontos redondos. acariciava os longos cabelos negros. sempre alegre. Depois as crianças ressurgiram diante dela.. — Não lhes diga nada. tão belos e incrivelmente longos numa criança tão pequena. dando às florestas azuis um tom pastel. elas vão voltar! Acalme-se... com uma animação tão devotada quanto admirativa.

mas a mais próxima para eles. soberba e ardente. sentiu-se melhor. Aquela mulher adorara seu filho. assa loucura. com um olhar que podia ser tão fulgurante.. Acreditara piamente que estivessem a salvo de tudo. depois. Quando tivesse encontrado o fio de um outro riozinho que serpenteava no verão entre falésias de duzentos pés de altura. Sua bravura devia ter dado à mãe de Joffrey o poder de continuar a velar por ele no além-túmulo. foi inclinar-se sobre a criança e examiná-la com atenção. não. apaixonadamente.. e Angélica compreendia e partilhava esse sentimento. — Essa angústia. Ele se informava sobre sua preocupação. Gloriandra de Peyrac! A princesinha! A pequena maravilha!. fazia esquecer. — E eis que recomeço a recear que me seja tirada. Para este. evocando as vagabundagens de sua juventude aturdida. que. Ia subir para o norte até atingir os canais gelados de Mégantic. Descobria-lhe nos traços transtornados a vulnerabilidade de seu coração.. ornada de todas as graças. não! — murmurou. com voz firme: — Confie. sabia que estaria no caminho mais curto. guardara a sensação de jamais tê-la deixado. não se tem uma reserva de forças. dos abenakis. CAPITULO XXVII Uma partida insensata De manhã. sua mãe. voltou a estirar-se na cama e fechou os olhos com um profundo suspiro. A filha do Conde de Toulose. Ele fez um esforço para sentar-se e sair da cama. de onde traria o suplemento de víveres necessários.. Outra vez. e era a primeira vez que ele a via retendo as lágrimas. Ela mordia os lábios. uma das mais modestas. na região da HauteChaudiere. Que todos ali estivessem mortos ou tivessem ido embora. eram seu primeiro reflexo sob o choque da descoberta. estampada em sua fisionomia. Podia ser que estivesse deserta. para chegar à Missão de São José. que não alcance o fim do inverno. embora não o menos acidentado. às vezes tão imperioso.. O que você receia? — O escorbuto. com pequenos passos de doente de gota. Em seguida. Mas nos primeiros instantes só podia apertar a criança contra o peito. Caso . chegou até ela. sobre a qual ele dizia. e que todos reveriam a primavera com saúde. A voz do jesuíta. Ia encontrar um meio. — Outra vez. Compreende agora o que isso quer dizer. E o segundo golpe que provoca a queda. Pensou nas mulheres de sua linhagem. ao cabo de alguns instantes. "Você não tem o direito de deixar que lhe retomem sua filhinha. Disse-lhe que decidira partir e andar até encontrar um posto ou uma missão." Estipulado o acordo. E na regente da Aquitânia. Pensou em Joffrey. Mas. viu-o de pé junto à cama. que estava deitado. A esse espírito tutelar ela confiou a criança condenada. ao despertar. a ternura comovente que aquele belo rosto. — Minha filhinha. e sem lhe confessar uma lembrança coti-diana. não! — Ah! Você vê?. vestido com o casaco e o gorrinho de Lymon White..Esse terror".. disse.. mesmo no fim do mundo. Como defender-se da horrível doença?. novamente.. eu a julgava salva — murmurou Angélica.

conservados sob a neve. — O sopro do Oranda me sustentará. talvez um servidor leigo. conforme a terrível expressão. sem ponto de referência nas trilhas apagadas. permanecem ali para dar assistência às populações errantes. apertáhdo-o em seus braços. se os padres os cultivassem. Jamais conseguiria chegar até lá! Pereceria no caminho. quem sabe repolhos. todas as coisas que afastam em pouco tempo o escorbuto. Ele ergueu o dedo. para matá-lo em duelo. e ela compreendera muito bem que ninguém podia escapar dele nem penetrar ali antes do degelo. ele "se perderia". apesar da esperança que despertava. não. viva! — disse ele. que condena o isolado perdido sob as rajadas de neve. salvara a tripulação de Car-tier. três brancos. que tentam alcançar Levis e Quebec a fim de buscar socorros e que. farinha. o grupo de Loménie e D'Árreboust. e se uma delas o surpreendesse. no inverno. Havia às vezes alguns que sobreviviam e que voltavam. quando já deram provas de eficácia. cada um querendo deixar ao outro o viático de sua confiança. Angélica não podia habituar-se à ideia. ó mulher bem-amada. mais o projeto lhe parecia o que era: louco. ameixas-pretas. e um coadjuntor temporal. No máximo. com a qual o chefe huroniano. durante a primeira invernada no rio Saint-Charles. Estava de pé diante dele. Mas. repolhos. lembrou-se da vinda de Pont-Briand e de seu índio. Num movimento. a fim de que meu sacrifício não seja inútil! CAPITULO XXVIII . Eu o chamarei. no próprio ar que respiramos. abraçando-a também." Angélica levantara-se. Um professor. Quanto mais pensava nela.é? — Voltarei. A distância era imensa. encontraria em sua farmacopeia aquela famosa casca de árvore. morrem de fome e frio no caminho. — Eu trarei a casca específica para isso — repetiu —. o Padre de Lambert. E você. quando se abandona a cabana isolada infestada finalmente de pernilongos. Ele virá. — O que é o Oranda? — O Espírito" e a força suprema no seio das coisas. sem que todos lhe predissessem morte certa. — Você voltará. E se não pudesse achá-los no caminho. Os loucos do deserto branco. No verão. como que posto em comunicação com um contato invisível. ou frutos secos. "A sabedoria manda que nos fiemos nos remédios dos selvagens. dizimada pelo escorbuto. e também milho. pois aquela era uma região para os insensatos. o lugar é impraticável por causa das cheias da Chaudiere. as façanhas isoladas de intrépidos como o jovem Alexandre ou Pacífico Jusserant.contrário. ainda doente. ela se lançou sobre ele. — Viva. nessa etapa. ferido. As tempestades ameaçavam todos os dias. Depois. ela insistiu: — Você está fraco. — E se os jesuítas o reconhecerem? E se não o deixarem voltar? — Só existem dois jesuítas lá. feijões e grãos de aveia-louca para germinar. procuraria algo para mudar a sempiterna dieta de carne de alce. sob as árvores. sem conseguir acreditar em sua decisão. — Sua filha foi atingida — disse ele. e até daquela louca tripulação de Joffrey. Mal se mantém de pé. insensato e fadado ao fracasso irreparável. que perseguira Pont-Briant até o lago Mégantic. O círculo dos furacões cercava sua ilha deserta. o "dado" do Padre d'Orgeval. lançando um olhar à pequena Gloriandra. Mesmo um homem vigoroso não teria podido pôr-se a caminho naquela época do ano para atravessar a região por uma extensão tão grande. mais milho. Todavia.

Atribuiu-lhes parentescos com os narrangasetts do sul. mas ele os examinava em segredo e desconfiava de sua sutileza. que tinha um rosto de sólido camponês. Os dois jesuítas consideravam-no em silêncio. "esses odores! Um cheiro de incenso. Foi através das rajadas sibilantes que ouviu o carrilhão» O sino da salvação! O sino do ofício noturno. meio enlouquecido pela solidão dos bosques. Era a pista que lhe fazia sinal.. as nuvens portadoras de neve fugiram. Sabia onde transpor as falhas do terreno com um salto. — Fizemos pão — disse-lhé o-missionário que o acolhia. pois as feridas se tinham aberto de novo. Respeitavam o silêncio do hóspede estrangeiro. "Todos esses ruídos de uma missão". atravessar uma longa planície e subir lentamente para a missão. Caiu a noite. como eu te amo!" O cheiro cálido era embriagador. Todavia. primeiro sobre os nómades que acampavam à sua porta. "Como eu te amo. Um cheiro de pão! De velas apagadas. retomando a língua algonquina quando o índio aparecia. e o céu limpou-se. Escutava aquelas vozes de homens falando francês. sentiu que as vestes se lhe colavam na carne em diferentes pontos. Seu dialeto era quase incompreensível para os abenakis da região. mas ele sabia que estava perto e não se perdeu.Um companheiro de miséria — Apenas um corpo em movimento Ele saltava! Galgava o espaço! Quebrava o cristal do frio. Quando se sentou diante da lareira. não se lançou sobre o alimento que lhe apresentavam. O novo governador parecia . lutando pela salvaguarda de uma mulher e de crianças pequenas. Ele sacudiu a cabeça negativamente. Fez um sinal indicando que queria primeiramente apenas aquecer-se e repousar. De missais! Ruídos de irmãos arrumando os terços na sacristia. o medo. Ele seria um homem como os outros. Ingleses sanguinários do sul haviam acabado com sua revolta para sempre. Recusou-se a perceber seu corpo. Não era ele que reconhecia a pista." Os dois homens de batinas pretas voltaram para a sala comum. Salve Regina! Salve Rainha do Céu! Foi o tempo de sair da floresta. Não possuía mais corpo. Ele era apenas um ouvido atento. a fome. Houve algumas borrascas. Depois conversaram sobre acontecimentos da Nova França. Dialogavam uns com os outros. A floresta que se abria diante dele. primo? — perguntou-lhe o irmão coadjuntor. mas o tempo permaneceu limpo. Flocos de neve eriçavam-lhe a barba. Seus lábios enegrecidos pelo gelo e pelo sol esboçaram um sor-nso quando avistou a cruz da capela. esquálido. Os índios tinham uma aparência estranha. signo de amor! Deus crucificado! Escândalo do Universo. atravessava as vibrações douradas do sol. Depois de ter rezado o terço na capela e entoado os cânticos com os fiéis. Onde abordar os montes para atravessá-los. Uma brusca tempestade levantou-se no último dia. Estariam achando estranho que não se identificasse? — Você se perdeu. Sobreviventes da grande confederação dos narragassetts. ele se dizia.. os missionários fechavam as portas da pequena paliçada que cercava a habitação. Depois compreendeu que sua aparência era a de um joão-ninguém. voltava a cabeça para trás. Por instantes. Murmúrios de preces. Ele se inquietou. "Oranda! Oranda!" O Grande Espírito lhe trazia sua desforra.

. que são aliadas dos neutros e dos petuns. tão longe. atrasara seu avanço. mais tivera dificuldades dessa vez de escapar aos sioux. pois "eu sou aquele que veio para lhe dar apoio e ajudá-la a viver até que você possa se encontrar do outro lado do inverno e correr novamente para seja amor. O anúncio da companhia do Sr. Calava-se. meu irmão. Calava-se. que queriam detê-lo. "Você está lá longe". e respondia às perguntas que lhe faziam resmungando." Ficava sentado no canto da lareira. aquela que alimentara outrora. Tinha de responder. e não renasceria de suas cinzas. cujas etapas não haviam podido acompanhar. receando cair nas mãos de seus torturadores no caminho de volta. Seu coração batia. aquelas tribos do extremo oeste dos Lagos. de Loménie pusera fim àquela perigosa vizinhança. apaixonado pelo seu corpo. aquele que habita em seu coração. de Gorrestat contra os iroqueses o encorajara a fazer uma tentativa. Começara uma campanha militar.. mas terei oferecido a você esse presente. conservá-la viva para ele. decidindo-se a retirar o gorro preto e as luvas forradas. com os filhos de seu amor. mesmo que eu seja apenas um companheiro de passagem. tão hostil à Companhia de Jesus. Falou de uma viagem aos andastes e como permanecera em seguida entre os sioux. sofreu nas mãos dos iroqueses. sua força. mal refeito das fadigas e dos esforços que tivera de fazer para escapar à morte branca. mesmo que você não pertença senão ao outra. Não sou nada. um pobre homem que merece piedade. reconhecia sua própria raiva. um companheiro de miséria. Notícias chegadas recentemente tinham informado aqueles dois solitários sobre mudanças de política.decidido a reduzir os iro-queses que trabalhavam para os ingleses.. e não a compreendia mais. pensava. compreendendo que se tratava apenas de um diálogo banal. Wapassu não existia mais. detida pelo inverno. referindo-se à visão de uma mulher e à ternura de seu olhar pousado nele. Quando avançou a mão para pegar o pedaço de pão que lhe estendiam. aquele pelo qual você enlanguesce seu corpo. . Pensava nela. a campanha do Sr. Naquele ardor de destruir Wapassu que sentia em suas palavras. muito rigoroso aquele ano. como se se tratasse de uma cruzada santa. lá embaixo. como os que travam após um dia de trabalho aqueles que se encontram e comentam a situação. — Você também. repetia a si mesmo. um olhar que ela só tinha para ele. um inimigo ao qual você nunca perdoará.. Perguntava-se se não estariam falando para ele. Depois tranqúilizou-se. sinal de uma amizade mais profunda e que nunca transporia seus lábios. A coalizão que Frontenac imprudentemente fizera com o fidalgo francês. encontrando uma doçura e um conforto nesse tratamento ousado. acentuando seu lado um pouco limitado de "viajante" taciturno que se "perdera" no furor do inverno.. que é mais que sua vida. a fim de decidir sobre o dia seguinte. e depois a rudeza do inverno. fora dissolvida. por havê-lo reconhecido. O ninho de piratas ímpios fora queimado. deram-lhe um olhar de piedade e de respeito. O irmão dispôs escudelas sobre a mesa e copinhos de estanho. com os olhos baixos. mas você me pertence se eu o quiser". ou se não adivinhavam de onde ele vinha. amigo? Obedeceu-lhes. seu sorriso. "e me pertence. Receava também trair-se por seu olhar. e ele ficou muito atento. — Você vem partilhar nossa refeição. meio provocante. Ouviu-os felicitar-se pela partida — dizia-se já "pelo chamado" — do Governador Frontenac. aliado dos hereges da Nova Inglaterra. Também falaram de Wapassu. parece-nos. meio indulgente. No outono. Não sou nada perto dele.

invejava-os. Na missão. — Não é tempo de irem descansar? Quanto a mim. dormirei nesta sala. Mas. até a eternidade. Para desviar-lhes a atenção. cuja família está sem notícias há três anos? — perguntou o padre. como o véu da morte. Não era fácil alimentá-los. a pretexto de caçar. Os índios não ouviam com boa vontade a boa palavra. disse o padre. — Nossos dias não nos dão muito tempo para isso. Eles olhavam para o homem. difundia um halo dourado-escuro como o das iluminuras. Em seguida. Apenas para os doentes e feridos. Ficarei feliz por retribuir-lhes a hospitalidade com algum serviço. que causava grandes crimes. Nem sequer fazemos cerveja. admirava-os. assim que o tempo melhora e o frio fica menos intenso. e suas luzes vermelhas e saltitantes refletiam-se nas faces dos três homens sentados à mesa e inclinados uns para os outros numa atitude de confiança. — Faz-se tarde. meus amigos — murmurou. segurando lamparinas chamadas de "bico-de-corvo". para não tentá-los.— Não será você um habitante do cabo da Madeleine. repousem. Você . — Não o reconheço. O fogo diminuía na lareira. — Eu vigiarei — interpôs-se o hóspede. sentia-se seu irmão mais do que nenhuma outro poderia sê-lo e. se me permitirem. Esse ano. que estou vendo ali. mergulhada na gordura de urso. e que não procurava mais simular a postura canhestra e ríspida de um explorador de bosques insubmisso. O Padre de Lambert e o irmão aquiesceram com um sinal de cabeça. tocado de piedade por eles. de pé ali na penumbra o homem com mãos de mártir. Estavam diante da porta. Quantos catequistas? Quantos batismos por ano? Falaram de bom grado sobre seu ministério. ao mesmo tempo. habituado aos índios. — Nós nos levantamos para rezar as matinas — disse o Padre de Lambert. primo! Ia continuar a fazer-lhe perguntas. mas. tornando a subir para Sorel ou Levis para obter provisões de aguardente. em troca das peles. Sebastião d'Orgeval foi o primeiro a tomar consciência de que a noite avançava. como que por uma dura e intransponível cortina. Mas. eles partem em campanha. havia aquelas tribos algonquinas que haviam subido do sul. o hóspede que viera do frio desértico. eles compreendiam que o único refúgio que podiam doravante encontrar era à sombra da cruz católica e a da bandeira do rei da França. sabendo em que fonte santa hauriam sua coragem. tendo perdido tudo para os ingleses. esforçou-se por interrogá-los sobre seus trabalhos. direi a missa.. como que surgido. Chegavam em grupos cada vez mais numerosos. defendê-los-das feitiçarias de seus "prestidigitadores" e da amoralidade de suas mulheres. Mas o irmão coadjutor sacudia a cabeça antes dele. as velas eram reservadas para a capela. cuidar deles. Os dois religiosos levantaram-se silenciosamente. o que cria muitos conflitos. de compaixão pela rudeza de sua existência. que muitas vezes roubam nas armadilhas das tribos locais. — Temos uma reserva pequena de bebidas alcoólicas aqui. Todos os rostos da Nova França lhe pareciam ser perigosamente familiares. aprová-los. de suas rajadas e de seus gritos. Conversaram e ele se deixou ficar a escutá-los. naquele banco de-pedintes. separado deles para sempre. O irmão coadjuntor lembrou-se de que precisava vigiar até o fim o cozimento do pão da segunda fornada. nascido da própria tempestade. cuja mecha. E sobretudo da embriaguez.— Peço-lhes. encorajá-los por breves palavras.

com passos tão leves e gestos tão precisos que nem um índio teria podido supreendê-lo. debruado de luar. suas feridas se fizeram lembrar. comprido e sólido. não haveria sono. e retiraram-se. Não sentia mais nada. Precisava aproveitar esse curto espaço de tempo. voltou à habitação e abriu o forno para pegar os pães que estavam bem crescidos e que se poderiam considerar assados. O aterro de neve. pães de açúcar. "Rápido! Apressemo-nos!" Foi até o forno e. gorros. nem na terra batida dos armazéns e das adegas. sal. potes de conservas de gordura de pato. Procurava ainda um objeto que achou finalmente num cofre-zinho da sala grande e. No inverno guardavam ali reboques e raquetes. Para ele. Deslocava-se com tal serenidade evanescente que parecia não deixar nenhum rastro nem na neve. nem nos assoalhos da habitação. retirou . o pão.estará conosco? — Com alegria. O produto de sua rapina fora solidamente arrumado no reboque. Sorriu. aquecendo-se com seu calor e dizendo consigo que aquele perfume de pão era o mais embriagador da terra para uma pessoa esfomeada. Sua noite seria curta. Depois calçou as raquetes. ficaria feliz por assisti-lo. grãos de aveia-louca. Voltou para o interior da cabana e foi abrir o galpão onde eram guardadas as provisões. Não poderia cuidar delas. Escolheu um reboque grande. caixas de ameixas e de conservas de limões verdes. Do armazém. No ar gelado. colocou algumas cinzas no fogo. Quando tornou a se levantar. Segurava-os junto ao coração com voluptosidade. Fizeram um sinal de cabeça afirmativo. Toda a astúcia corporal do índio estava nele. passou pelos ombros os arreios do reboque e pôs-se a caminho através do pátio. a fim de abafá-lo.retirando também o par de raqueques. Pensou nas mãos suaves de Angélica aplicando compressas nos ferimentos e naquela rugazinha entre suas Sobrancelhas quando se punha examinar com atenção uma chaga. tornando a apertar as fivelas e atilhos. melaço. Os primeiros movimentos que esboçou provocaram-lhe caretas de dor. projetava sua sombra até o limiar. avaliou o tempo que ainda seria preciso para que os pães ficassem assados.. Em último lugar. Pegou-os todos e levou-os um a um para o reboque. Dirirgiu-se à sacristia da capela e pegou alguma coisa numa das prateleiras. os eflúvios se elevavam como uma oferenda sagrada. e um par de raquetes de reserva. pesados casacos de pele ou capotes de lã grossa com capuz. antes de se afastar. Entreabriu a porta da cabana e viu o pátio interno atravancado de neve com um terrapleno desobstruído diante da casa. como se lhe falasse frente a frente e ouvisse suas explicações. Era apenas um corpo em movimento. nem fadiga. Dispôs o reboque do lado de fora. nem dor. Em certo momento receou que aquele incenso generoso do mais nobre alimento do homem. botas e luvas forradas. Cobriu os pães fumegantes com uma coberta de cornércio. Depois entrou num telheiro contíguo que devia servir de cozinha no verão. trouxe sacos de farinha de trigo. pelo cheiro que dele se desprendia. E se não me julgar indigno. feijões. Voltou para a casa. e o brilho claro do luar lhe era indiferente. Agia sem fazer qualquer ruído. já arreado. trigo-sarraceno. com gravidade. Ao chegar à porta da paliçada. abóboras secas e todo tipo de ervas. depois de confessar-me. chegasse às narinas dos religiosos adormecidos.

. começava a desaparecer aos seus olhos. Do outro lado da colina. wapanogs e wonolancets. decepcionados por não ver seu hóspede na missa. se não ele mesmo e seus furtos. Seguiram-na até um pouco além da paliçada e ficaram a olhar para as lonjuras. os dois religiosos foram à sala comum e o convertido abriu a porta do forno. Era para ela que ele se dirigia. como um sonho.. mas eram lágrimas suaves. enterrando-os. A interrogação do dia seguinte como um peso infinito que nunca mais se poderia fazer recuar. No coração da noite. Durante a noite. — Vamos! Vamos! São apenas algumas libras de farinha roubadas! Ele deixou o suficiente para nós. três de milho e a metade de nossa reserva de ameixas — observou o Padre de Lambert. meu irmão? — interrogou o padre professo. rejeitar. O padre não queria contar que notara o desaparecimento de uma sotaina e de um missal. uma barra preta que subia lentamente. já semi-enterrada"sob massas de neve. e prometia ser feroz. velhos tossiam. A pequena cruz do sino continuava a brilhar como filigrana prateada contra o céu azul-escuro e vazio. Era um barulho que mal se ouvia. A neve recobriria as pegadas do ladrão. — Estou chorando porque me lembro de nossa vigília ontem à noite.. sob o brilho da lua ou de uma leve névoa. na noite anterior. a pista do reboque e das raquetes ainda era visível. voltou-se. como a própria vida. dos quais se elevava um lençol estagnante de fumaça. pois. cães latiam. mas era apenas um prelúdio de quedas mais pesadas que não deveriam tardar. para o perigoso sudeste inabitado. Num nível inferior. De madrugada. acima das montanhas iluminadas pela lua. — Vamos ver se não roubou mais nada — disse o irmão. amontoados em covis.. Lágrimas corriam-lhe pelas faces de camponês. a tempestade passara por eles. girou a chave'da forte fechadura que eles haviam colocado para desencorajar os ladrões noturnos e começou a avançar pela planície. a missão. batera à sua porta e pedira hospitalidade. não apenas pelo inverno. No tapete fino e aveludado formado pela neve fresca. uma neve revolta caíra. Mas poucas luzes brilhavam. —Que me importa o furto.habilidosamente as diversas cavilhas. sem que pudesse retê-las. A tempestade continuava a avançar. Olhou na direção do sudeste e viu. quando. havia os wigwams dos índios. Os ruídos eram abafados. — Que mais queria que roubasse?. A tempestade. depois de fazer uma rápida ins-peção no armazém de víveres. Desorientado. não se via brilhar nenhuma estrela. nuvens escuras sobrevoaram a missão. Pouco depois. — Será que sonhamos? Era uma assombração?. Eles nem pensaram em persegui-lo. muito fraco. — Ele pegou o reboque. — Por que chora. Comida é o que ele queria. — Onde foram parar todos os pães da segunda fornada? — gritou o Irmão Adriano. em direção do qual se fora o desconhecido. economizavam lenha. — Não é por isso que estou chorando — disse o convertido. muito pesaroso. mas pela miséria e a angústia da derrota. — Para levar o saque. Crianças choravam. longínquo... ele olhava à sua volta e não discernia nenhum vestígio daquele que. Como nos . — Uma assombração não furta três sacos de farinha de flor de trigo.

Não pensava que ela fosse tão frágil. "Eles estão mortos! Eles estão mortos!" Lançou-se pela encosta lançando gritos e apelos desesperados. impelido pelo ritmos das raquetes batendo na neve e pelo barulho de sua respiração sibilante. quis sua destruição. . Jamais em toda sua vida experimentara um choque tão terrível. Ele parava e torcia as mãos. O atroz estava diante dele.." Fez alto. sonhador. por que me fez nascer entre os demónios? Por que regou minha infância com sangue?. Vou preparar-lhes uma boa sagamité. Aqui estou. e uma serenidade em nós e à nossa volta. Mas nenhum filete de fumaça se elevava acima do telhado meio enfiado sob as neves. "O que eu fiz?". Nada. no fundo do impávido horizonte translúcido e gélido. Ela estava encostada e cedeu... engolindo. "Eu quis sua morte. Seus olhos choravam de dor por trás da máscara de couro. Já devia ter percebido o cheiro de fumaça. E uma apreensão mortal o abatia. investia contra a porta pesada. a cada passo. Depois continuava... por trás das fendas da máscara de couro indígena que fizera para se proteger da reverberação.. minhas crianças!. pois avistava fortim de Wapassu. lembro-me apenas que seus olhos eram azuis como o céu e que nossos corações estavam repletos de alegria. Nenhum movimento. Levantava-se de novo. estou chegando! Estou chegando!. Nem de suas palavras.. por mais ténue que ela fosse. a pista branca. — Aqui estou.sentíamos bem quando ele estava sentado co-nosco. caindo na trincheira com sua carga.diluída do ar gelado. Um pânico que.. — Havia uma espécie de claridade em torno dele. você o notou? — Com efeito — disse o padre. voava por cima dos barrancos.. pensava. retorcendo-lhe as entranhas. tão alegre. sem vê-la. farejando o vento.. Deus. Como se não soubesse que atrás de toda mulher existem crianças! O Senhor. — Não me lembro de mais nada além disso. Através dela eu queria destruir a Mulher. tão meiga! Não pensei nas crianças pequenas. batendo vagarosamente contra o vazio e o silêncio. Quase quebrou o pescoço. nem dos assuntos dé nossas conversas... dizia consigo. estava a Punição!. CAPÍTULO XXIX "Eles estão mortos!" Várias milhas antes ele já retomara seus saltos dementes. partilhando nossa refeição e conversando! Que luz! O padre. se dilatava.. Queimava os olhos para descobrir aquele vestígio de vida na paisagem morta. Tarde demais! Lá embaixo. "Oranda! Oranda!" Havia várias milhas já deveria ter percebido ao longe aquele vestígio de fumaça que olhos exercitados não podem confundir com os rastros de neblina e que o teriam avisado da aproximação de Wapassu. por que deixaste uma loucura dessas apoderarse de mim? Eu queria servi-lo.

Estava tão fatigada. — O Senhor! — murmurou. vertendo-lhe água. minhas crianças — resmungava —. percebendo que ia perder os sentidos. que não encontrara mais forças para os gestos essenciais dos cuidados às crianças.. Estavam geladas.. Ele pousou a fronte em seus joelhos. — O Senhor! Que sofrimento! Mas cheguei a tempo.. ameixas e todo tipo de fruta seca. ou que as crianças resolvessem brincar com ele. novamente estremecendo.. os ganizes no assoalho de madeiras grossas. que não havia retirado. espreitando-lhe o olhar. pensava: "Ela está morta! E as crianças confundem sua imobilidade e seu silêncio com um sono profundo. Pouco a pouco distinguia com estupor as três crianças muito agasalhadas. A claridade de um sol pálido entrando pela pequena bandeira da janela. Tinha saído com as crianças. e Angélica viu entre os cabelos espessos a tonsura... com gravidade. — Por que. diante da qual a neve fora retirada. Em seguida. pois. Ajoelhado na pedra da lareira. podia ficar acordada. que tinha parado à . chegou ao quarto no fundo do corredor e entrou. permanecia na soleira da porta. não se aqueceu deitando sob as cobertas? Ela explicou-lhe que receara ser arrastada pelos delírios da febre. Teria se resfriado ou seria um ataque de malária? — Agora estou aqui. bem quente. estava com febre. — Por que não acendeu o fogo? — gritou.. no meio da sala jogavam cucarne tranquilamente. com airelas. Ela lhe disse que as horas do dia lhe pareceram muito quentes.. E continuaram a fazer soar. se está febril. numa atitude de abandono que traía uma grande fadiga. mas que. Tocou-lhes as mãos. agora estou aqui. e ela se ergueu com um sobressalto de espanto. — Aqui estou. tremendo dos pés à cabeça. Foi um estalejar das chamas que despertou Angélica. Vou prepararlhes uma boa sagamité. Então ela lhe confessou como um pecado que. havia alguns dias. as faces. Viu o viajante de joelhos diante dela. semelhante a uma hóstia branca... evitara acender o fogo. com efeito. — Quase morri de sofrimento quando não vi nenhuma fumaça acima do telhado. amarelecia seu rosto já muito pálido. Ainda ofegante. piscando os olhos feridos.. Trago-lhe também compota de cidra.. ele julgoú-a morta. começou a quebrar gravetos e reunir ramos e cavacos para acender o fogo. Trago-lhes a vida. Ficando sentada. com boa intenção de mantê-lo aceso.. Compreendeu que ela não sabia mais há quantos dias ele partira.Embaraçado pelas raquetes. preferindo deixar o fogo apagar-se para economizar um pouco da provisão de lenha. Estou aqui.. era preciso aproveitar aquele sol. melaço. grãos de aveia-louca. — Onde está sua mãe? — Mamãe está dormindo! — responderam com um gesto em direção ao quarto.. Ela estava sentada diante da lareira apagada e dormia. mas percebeu o leve movimento de sua respiração." Com passos titubeantes. receando cair ou não poder vigiá-lo.. a fim de se habituar à penumbra. Pendurava o caldeirão à cremalheira. mel.

Farinha de flor do trigo. concordou em -que era um dos prazeres da vida abandqnar-se à doença. de modo às vezes excessivo. todavia. foi abundantemente provida. daquele pão que é. Depois vou preparar-lhe uma sopa digna de minha Tia Nenibush. Eu me encarregarei de cuidar de você. o alimento dos franceses. O fortim de Wapassu assinara um novo contrato com a sobrevivência. Que só conseguia manter-se viva repetindo-se incessantemente: "Não adormeça. encolhida sob as cobertas. apesar de suas admoestações. disse ela. Durante a noite. logo seria o dia de Santa Honorina. Pão. . trazia uma provisão de aguardente. havia muito pouco na missão. a justificativa de sua existência. Mas ela virou a cabeça. Pois bem. e apresentam. As mulheres só se sentem em paz com sua consciência quando podem provar sua utilidade. prato vital e rico. não me comprometi a mante-los todos com vida de qualquer maneira? Até a minha volta. E também velas. como uma lâmpada acesa de vigília. Não era de seu temperamento fazer isso. Mas. vinho.. tão cedo não se corrigiria. o combate contra o inverno podia ser retomado. Apenas vinho de missa. Com muitas precauções. confiando apenas em seus atos. com as pálpebras baixadas sobre uma martelante dor descabeça.espera de sua volta. E.. quando se persuadirá que o mais precioso de si mesma é invisível? Você parece desprezar esses "poderes" com que. milagre das searas. — Mulher de pouca fé — disse ele —. Só as acenderiam para as festas.. ele a carregou e colocou na cama. cobrindo-a com cuidado. nascido no entanto de tão poucas coisas. — Agora estou aqui. E quando não houvesse mais pão. de braços cruzados." Ela olhava ao seu redor com desolação. Em compensação. dispostas como rostos bonachões velando por ela. Está um chiqueiro. um pouco de fermento e farinha. Dispôs as rodas de pão nas prateleiras ao longo das paredes do quarto e da sala grande. A menina estava melhor. Deixara-o. Agora que o sopro do Oranda permitira ao jesuíta seu giro de salvação. ela o ouviu delirar. — Vou só chamar à ordem aqueles jogadores inveterados que estão na sala entretidos numa partidinha de cucarne. — Desculpe-me.. no lugar onde guardavam as provisões. Cristo o denunciou quando foi visitar Marta e Maria. produto do grão mais precioso que o ouro. murmurando que não tinha fome. Angélica se resfriara quando fora procurar tripas de rochedo e casca de espinheiros para Gloriandra. água. Podem constituir o último recurso para engrossar a sagamité. conseguiu engolir algumas colheres do mingau. Fariam crescer um bom pão no forno. fora um erro não ter ficado a esperá-lo. Mas ia-economizá-las. Apesar de suas recusas. por excelência. Vinho. e já lhe mostro nossas riquezas. sal. um defeito de dona de casa. poderiam assá-lo. que fica muito quente mas demasiado rala no fim das invernadas. — Faremos um bolo em homenagem a sua grande irmã e rezaremos por ela. Deitou-a. Esse é um defeito feminino. Conseguira encontrá-las e dera-lhe uma tisana. Abriu os olhos e percebeu na parede as rodas de pão da Missão de São José. faz tempo que nem varro nem arrumo a casa. transferindo a outra pessoa todas as responsabilidades.

Surpreendera a notícia nas palavras trocadas pelos dois jesuítas da Missão de São José. Aposto que suas feridas se reabriram e que você nem sequer tomou uma tigela de caldo.. Ainda fraca. Mas. A esposa do novo governador. de Gorretast fora passear à noitinha lá pelos lados do moinho. As opiniões da colónia. só oferecera queixas e nenhuma hospitalidade. Sozinha. sozinha. é verdade — murmurou ele. — Não é a primeira vez que isso acontece. de uma estranha agressão. a não ser. continuariam a fazer a morte recuar. — O que viram? — Nada! Nem ninguém! Não havia vestígios nos arredores. nem de patas. dizem as mas línguas que tinha uni encontro amoroso. dirigindo-se a ponta do Moinho. CAPITULO XXX A profecia se cumpriu Dias depois. Uns falavam de um animal selvagem que a teria feito em pedaços. ele lhe falou da morte daquela que eles continuavam a chamar de Ambrosina de Maudribourg. foi ajé ele e ajoelhou-se ao seu lado. permaneciam. mas sentindo-se melhor. segundo dizem.. outros.. um esqueleto sob a roupagem gelada por seu suor na corrida. Como pudera executar tal façanha.. — E o Arcanjo "estava lá! E o monstro!. de um ataque de um grupo de iroque-ses que rondavam sorrateiramente nesse fim de verão. Ele estava estirado diante da pedra da lareira. Sofrera sua partida como uma morte.divididas a respeito da agressão. Tivera contudo tempo de dizer-lhe que ele parecia um espectro. uma assombração. o nariz azulado. — Venha aquecer-se na cama. revezando-se um ao outro. irritando as feridas. — Sempre a mesma ambiguidade quando se fala dela. e agora úmida. Então ela se afastou. Àquele viajante que acabava de atravessar o Tártaro gelado do Inferno. Mas. Ah! que belo par formamos!. o traço de garra na casca de uma árvore. fora vítima. Se havia . — Você soube detalhes? Não é usual uma dama de prestígio ser atacada por um animal selvagem na ilha de Montreal. nada. em visita oficial a Montreal. muito abalada pelas condições horríveis desse atentado sem precedentes. enrolado numa coberta. Apesar da reputação de piedade e virtude que já havia granjeado... — Ela morreu! Um animal selvagem devorou-a. — Dessa vez. nem de passos. Uns são inocentes e querem acreditar em seu encanto. no outono. Dormia um sono febril e murmurava frases sem nexo. tendo se afastado em seu passeio. outros sabem e se calam e só falam-depois. jamais acreditara que voltasse.. despender tal esforço?! Despertou-o suavemente.. E depois? O companheiro de infância de Ambrosina sorriu sardónico. — A Sra. e isso influíra mais sobre sua saúde que as privações. Parecia quase em pior estado do que quando o encontrara costurado na mortalha de couro. A pele lívida sob a barba hirsuta.. os olhos afundados na sombra do capuz. que é bem povoada. na extremidade oeste da ilha.Então ele voltara? Mas onde estava? Na realidade..

Durante a refeição. pensava ela. Mas com a chegada do inverno. Entretanto. — O Mal prossegue seu caminho. Era preciso dar ao Sr. que lamentavam não ter estado no pawa do Forte Frontenac em Cataracuí. tão temível. A profecia se cumpriu. O exército. apesar das evidências. de um rigor sem igual. que estava em expedição num lugar distante. construída segundo os modelos da Nova Inglaterra. "Um chefe huroniano foi propor-lhe uma "caldeira". parece. Entrava de mansinho. saía novamente como uma sombra. manifestando o desejo de encontrá-los e oferecer-lhes um festim em suà honra. Tahutaguete. abria-se para quatro fogos diferentes. O novo governador enviou uma convocação aos chefes das Cinco Nações. Ele subia à plataforma para farejar as mudanças de tempo. escaparam. A CONFISSÃO CAPITULO XXXI Um comediante nato Assim que readquiriu forças e ficou em condições de cuidar ele mesmo das feridas das pernas. isto é. o esposo aniquilado. que o inverno afrouxava seu abraço. Dispôs-se a reanimar a casa entorpecida. branco e cinza da neve enjoativa e invasora. tão perto da cidade —. Angélica. pendurada sobre eles como que os envolvendo em seu . para apagar vestígios com tanto talento. Os iroqueses. de onde foram enviados às galeras do rei. O que habilitou em seguida a tese de um ataque de índios. seria preciso ser um espírito ou um frequentador dos bosques. para a grande sala. as tropas tiveram de retroceder. não parava de vigiar os fogos. Angélica não a odiava. não tendo mais com o que se preocupar. instalou-se no quarto de Lymon White. Para justificar essa exibição de navios e barcos carregados de armas partindo para o lago Cham-plain. A lareira do pequeno cómodo correspondia-se com a chaminé central. Retiraram-se para os fortes e feitorias de comércio. "Apenas Utakê. como todos os anos. recorreu-se à astúcia. de que fora antes vítima de um animal feroz — o que também não deixava de parecer inverossímil. que não tivera coragem de olhar o corpo. Desobstruíam com constância a entrada do túnel. de Gor-restat algo para alimentar-lhe o sofrimento e o desejo de represálias. pretendendo continuar a campanha na primavera. Estará ela realmente morta? — Tanto quanto pode . Conseguiram persuadi-lo de que a morte da mulher se devia a um grupo de iroqueses e. A noite. Preferia aquela neve. com algumas baixas. Mas a própria neve era sinal de um abrandamento. segundo os ferimentos. que dava apenas para o universo fechado. enquanto o corpo jazia no chão a alguns passos dali. que. Os dois outros. parecia recuar.estar uma pessoa cuja cabeça foi encontrada na forquilha de uma árvore. "O exército continuou em direção ao Vale dos Cinco Lagos. dormia um sono mais reparador. aceitaram o convite do novo Onôn-cio. Um dava para o antigo quarto dos Jonas. os chefes foram raptados e acorrentados. pois. e as portas e janelas foram novamente bloqueadas. O gelo. e. uma expedição de guerra. os senhores canadenses e os aliados selvagens puseram-se em ação.vestígios foram apagados. e depois levados a Quebec. para provar a si mesmo. arranjou forças para enfrentar sua desdita num ardoroso desejo de vingança. Nevou abundantemente.

mas reconhecera uma vez mais o Padre de Guérande. e através do qual tinham podido amar com paixão e ternura o resto da humanidade. Primeiramente. ele lhe pedia para não se emocionar e não interromper sua tarefa. lavadas previamente em água fervente. por uma silhueta entrevista. Havia somente dois ou três pontos ainda que gostaria de esclarecer. Amor sublimado. com multo cuidado e vigilância. a aparição inopinada de um deles fizera-a estremecer. só podia. conferia-lhe uma silhueta quase feminina. delgado. ele afirmou que isso não punha em questão sua presença entre eles. era o Padre de Vernon. mas que lhes permitira prosseguir com alegria e. nos tempos primeiros. esperando não ter de servir-se deles por um bom tempo. ao círculo sem fim de um universo sem vida ou ao sopro das tempestades. Naquela manhã. essa imagem. Mas forma inacabada. Chegou a hora do combate". à qual juntara um pouco de cinzas. Aquela neve salvara-os no outono. acusador e implacável. Cláudio de Loménie-Chambord. Estava exatamente como o imaginara outrora. E assim. depois: '"Onde arranjou essa sotaina?!" E finalmente. segurando a ponta do crucifixo onde brilhava o rubi. os caminhos árduos de devotamento e sacrifícios de suas vocações. até que pudesse deixá-los entre amigos.regaço. amor do coração aceito. com paz de coração. Simultaneamente ela pensou: "Como é belo!". Fosse na pequena casa de Ville d'Avray. fazendo com que para que cada um deles o outro fosse o símbolo do fogo que queima no coração de todos os seres. pensara: "Desta vez é ele!.. estava sentada ao lado da lareira enrolando as tiras de bandagem. quando era seu inimigo declarado. Quando se lembrava do estado em que fora deposto na soleira da porta aquele que. julgara tê-lo visto aparecer. com a mão colocada sobre o peito. falou de seu amigo mais dileto. apertando-lhe a cintura magra. cada dia marcava um avanço. Como o inverno era longo! Todavia. muitas outras vezes. amor carnal recusado.. à beira de um bosque — mas não era ele. com um ar espanhol. porque interdita pela dura Bíblia. a qual devia. Ele permaneceria ao seu lado até a volta da primavera. Depois adivinhando seu receio. com uma espécie de devoção. Ou então. ao pé da escada. Usara abundantemente aquelas faixas. o largo cinto. e quando receava constantemente vê-lo surgir diante dela. felicitar-se com a marcha do tempo. ele se furtara. frequentemente. e várias vezes. Mas sempre. sempre em Quebec. uma vez que não tiveram outra escolha. oriundo do mesmo lar único do amor essencial. Eosse uma vez Penobscot. podia alinhar os rolinhos de tecido branco e deixá-los de reserva no cofre de farmácia. fino. Lentamente. encantadora e dilacerante. mas. Ao vê-lo ficou estupefada. uma noite em Quebec — e era simplesmente Joffrey. pelo colarinho alto com o avesso branco arredondado. a ajudava agora. evocou sua amizade e aquela forma de amor existente entre eles.vestido com uma sotaina preta. uma silhueta negra. E agora ali estava. com um medo pânico: "Ele vai-se embora!" Mas. Desejava simplesmente falar com ela. daí em diante. na penumbra da casa dos jesuítas. pois. confundindo-o com outras. Subitamente o Padre d'Orgeval surgiu diante dela. . abrigando-se por trás de outros porta-vozes. obsedada por. que voltava tarde da noite vestido com seu capote preto. sutil. sem deixar-lhe tempo de abrir a boca. quase elegante em sua toga preta. dar primazia à procriação. que haviam vivido desde a juventude e durante os longos anos naquela incompletude. à imitação do grande Inácio de Loyola..

e que é tudo para nós.. Quando ele falou do ardor do sentimento que o unira ao Conde de LoménieChambord. tratava-se realmente do Padre Sebastião d'Orgeval ali à sua frente. "Foi assim. o Amor. Pouco a pouco sentiu-se invadida por uma convicção tranquilizadora de que naquela hora podiam dizer um ao outro tudo. a . — Soube então que o Amor era um dom de Deus. "Aquilo que eu entrevira era muito louco. Voltei a mim tomado pela confusão e também pelo terror. Eu era um mestre nisso. Quanto a eles. dizendo que devia voltar àquele dia de outono. ao lago de Moxie. enganar. Nem desencaminhar. deixando em paz meus sentidos. Ela o escutava atentamente. Num mundo destruído. deserto. Estavam sozinhos no mundo. dizendo: 'Ele ficou louco. muito culpado. Consequência da revelação. ninguém podia recolhê-las para distorcê-las e transformá-las em armas mortíferas. "Censurava a meu corpo estar implicado nesta revelação. Mas era demais. Não quis reconhecer a Luz. e reconheço que esse puro e terno amor que eu nutria por meu irmão predileto me preservou do peso da solidão e da aridez do coração e preencheu por muito tempo meu ser afétivo. numa ruptura de todo o ser.. de tê-lo ignorado. Ninguém podia ouvir suas palavras.. Procurava retomar pé em meu universo familiar. A loucura de Babel agitava-se para além das fronteiras visíveis. acabava de compreender que o Amor.— E ainda — disse. que eu confundia com concupiscência. e que eu fora culpado.. que vinha me revelar o inverso oculto de seu mistério e ensinar-me que a força de um tal sentimento podia dar a todo indivíduo a sensação de existir na terra. dando involuntariamente uma suavidade ritual àqueles gestos simples dos afazeres cotidianos que acalentam a vida. Aquele dia em que. Ensinam-nos em nosso noviciado a dominar pela sublimação esses desejos imperiosos. inacessível. pois aprendi que nada é mais criativo e vitorioso que o amor sincero. A ideia da Diaba anunciada atravessou-me o espírito e foi-me difícil refrear um grito de vitória. o Amor. desmantelamento dos quadros que a sustinham. e o amor carnal também. pensou em Ruth e Noémia. ferir. Eu me obstinei. decepcionar. No momento. O desmoronamento de toda a sua vida. Não precisavam recear nem ser compreendidos. Eu desfaleci. noção ignorada e que vinha me tocar com sua luz. estavam sozinhos sem outra testemunha a não ser o Criador.. Tomou novamente a palavra. que não desejam ser envolvidos. podia ser o caminho do sagrado.' A Mulher. Sensações de arroubos e de arrebatamento jamais experimentados. decepcioná-los. Renunciar a meus melhores amigos. fazer inimigos que destruíssem suas vidas e a dos seus entes queridos.. prosseguindo um discurso que devia ter repetido amiúde a si mesmo — eu me pergunto atualmente se não teria sido melhor para a glória de Deus que não nos tivéssemos separado de forma alguma. Talvez porque não visse como materializar a revelação. já que ele o pedira. mas com mais lentidão. No entanto. Apontavam-me com o dedo. Ela me feria em todas as defesas que eu edificara para me preservar contra aquilo que eu odiava e que mais me aterrorizava: o Amor. "Achara minha jogada. e seu coração se rejubilou ao ouvir esse padre de batina preta conceder a seu amor proibido uma espécie de absolvição indireta. abençoei a Deus por isso. enquanto continuava a enrolar as tiras.

"Louco. que eu não era o único a decidir esse duelo.. de cruzadas. como você vê.. não? — tentou protestar Angélica. Teria desejado ver sua soberba diminuir... Não as tenho.. — Não julga que a vida sempre lhe foi fácil.. "Sinto-me criminoso por fêf continuado a viver dando àquilo que realizava aparências de açóes virtuosas. nasciam sob o aguilhão de uma atração à qual eu recusava dar um nome. é então que começa a culpa. Não ria!. Teria desejado que ele desmerecesse esse amor. e seu desfecho. no poder. pois ele começava a conhecer melhor Angélica e sabia que. por uma verdade entrevista. sabia que você estava lá. "Acreditava que era para destruir os inimigos de Deus. uma caravana.. aviltar aquilo que não merecia triunfar. Portanto. destruir. Quando era criança.. Eu acreditava querer abater. seu esposo. que eu chamava de ódio. não quisera matar. Mas ela não foi. era mais sensível quando se tratava daquele a quem adorava... levamos anos para compreender que não passam de espantalhos de palha e de madeira morta. E Piksarett desapareceu com você!. Teria desejado afastá-lo.. naquele lugarejo de puritanos na colina. Eu começava a compreender que o duelo tinha mais importância do que eu lhe queria atribuir. e gritava: 'Tragam-na até aqui!' Estava certo de atingir o objetivo. vencida. "Esse amor.. "E como circunstância agravante. tudo entrava nos eixos. depois de Brunswick Falis. apagar. quebrar sua insolente aptidão para viver. — Ele sabia tudo — atalhou ele —... Meu corpo estava formado. mas tão convencido de servir a Deus e de que Ele me perdoaria esses crimes. Essa confissão era mais difícil.. e estava obsedado por uma única coisa: aproximar-se disso.. o homem que a possuía e que. a ele.. sem nada esperar em troca."para cumprir minha missão.. Vibrava. estava apavorado. em virtude de uma injustiça intolerável. "Todos os projetos de derrotas. seu amor.. O que eu esperava daquele instante em que ela estaria diante de mim.. de captura. Não assegurou-lhe. Deixar tudo. era também amado por ela. o homem a quem ela pertencia.. . e não sabia com que impaciência. partia para massacrar os protestantes com minha grande espada. Era muito tarde para mim. prisioneira?. de vingança. Adivinhara quem era minha aparição. crendo que em seguida reencontraria minha alma.. "Nós nascemos cegos. que na realidade ocultava todas as loucuras de um sentimento amoroso. na guerra.. a fim de justificar a obsessão de meus pensamentos.. "Mas quando se vê claro. forjado no poder sobre os seres. Mas isso não muda nada. procuro desculpas." Falou em seguida sobre o rancor e o ciúme devorador que sentira pelo outro. "Soube-o no dia em que deixei de ter a consciência pura dian-:e dos meus atos. Falava de campanhas de guerra. se conseguia acolher com uma fronte serena o anúncio de que ele quisera sua morte.liberdade da consciência. Podia continuar minha guerra. eu entrevira os cavalos dos homens no sobosque. "Quando subi para o assalto de Newchevanik. a fim de poder encontrar razões para pensar nele. cercados por neblinas. quis sua morte para extirpar aquilo que me corroía.. e eu não conseguia suportar isso.. rígido. assustados por monstros. de perseguições quê fomentava contra vocês. Sim. seu amante.

Eis o que eu queria confessar-lhe para que o passado não deixe subsistir equívocos e amarguras entres nós. nem apegos. arrebatá-la. Era preciso desembaraçar esses acontecimentos do engano das aparências: Eu não combatia por Deus e vocês ?ião eram Seus inimigos. aquele Conde de Peyrac. mas segundo o Plano. Tinha medo de compreendê-lo. Um leve sorriso brincava-lhe no canto dos lábios. ela disse: — Posso fazer-lhe uma pergunta? E como ele aquiecesse com um movimento da cabeça.. Ele foi aquele designado para satisfazê-la. entre os justos. Isso também eu tive de enfrentar. merecia tanto? Eu o maldizia. e tinha havido muitas palavras.. Ateu. e jamais se perturbara com as leis. com efeito. "Aquele fidalgo de aventuras.'mas fora correspondido. aquele homem pelo qual ela estava tão perdidamente apaixonada e que não havia recusado nem a carne. E no entanto..Como era afortunado. — Padre d'Orgeval. Era ele quem tinha razão. E melhor continuar a acreditar que somos um dos eleitos. os novos olhares e onde se preparam as transformações das gerações. Percebeu que a deixara nervosa. nem servidão e vassalagem de qualquer espécie para com ninguém. às vezes me pergunto se seu erro inicial não teria sido entrar para os jesuítas em vez de se apresentar ao grupo do Sr. colocando-as cuidadosamente uma após outra no escabelo ao lado. libertino. apesar de perdido diante dos meus. lá onde se abrem. pensara muitas vezes. "Tudo aconteceu alhures. Pois. ela o olhava. tudo era imponderável. — Por que a vestiu hoje? — Para confissões difíceis às vezes é necessário uma armadura. ele havia coroado essa existência culposa pela descoberta das mais elevadas e embriagadoras alegrias. "E uma coisa terrível descobrir o erro que se cometeu e a amplitude das armadilhas nas quais se caiu. maravilhá-la. "Comecei a invejá-lo por não ter moralidade.. eu o sentia justo. Não é um comediante nato? . Por que ele e não eu?. pisava em todos os preceitos. ensiná-la. Não apenas descobrira o Amor. zombava da Igreja e de suas instituições — seu processo não fora provocado pelas queixas do bispo de Toulouse? — Eu via que. Moliere. É preferível ficar cego a compreender que a luz da Verdade não nos é concedida segundo nossos méritos. Entretanto. o verdadeiro. Mas que ela não falaria. ela disse: — Onde arranjou essa sotaina en perfeito estado? Pensei ter feito em pedaços aquela que você usava quando chegou! — Tomei-a emprestada aos missionários de São José. em contrapartida a tantas transgressões efetuadas com desenvoltura e sem se preocupar com o escândalo.. Tendo obtido a mais bela das mulheres. Com as mãos sobre os joelhos. o que se liga ao êxtase divino.." — E agora. porque andava no caminho de sua verdade. para sempre. após um longo silêncio meditativo. Angélica acabara de enrolar as faixas. nem o amor.. o que pensa a esse respeito? — Que Deus acolhe todas as vias que exaltam Sua grandeza e celebram Sua bondade.. Estou tranquilo e seguro de mim mesmo. tudo e tão lento na terra. fora amado por ela. Mas. Ele que andava pelo Caminho da Verdade." Calou-se. Ele achou-lhe uma graça -infinita e fechou os olhos.

obrigando-os a se encerrar em casa. durante a qual destruiria ludo. a cidade. estertores. um pouco". reunidos novamente no único quarto. num clima de confiança e de familiaridade novas. Mas quando se falava em tepidez. de Nova York a Quebec. Deu-se conta de que nunca tivera oportunidade de falar a respeito dele ede seu amor. quando falavam. Podia falar-lhe de Joffrey. Assobios. de Peyrac é tão hábil quanto os novos ingleses em singrar os mares com seus navios. refúgio dos homens. junto ao único fogo que devia ser mantido com sentimentos mesclados de simpatia e de receio pelo que bramia acima de suas cabeças. que provavelmente também tinha trazido da missão. que são comediantes natos. Oprimidos pelo eterno silêncio. subindo gradualmente para os desencadeamentos ordenados da tempestade.cansativa.— Sempre fui. mesmo com Abigail. isso era muito relativo. que caíam como cataratas ou turbilho-navam com agitação. pois. Os períodos de dias mais tépidos surgiam entre duas tempestades." Velha harmonia. Os homens têm muita razão de construir cidades. guardou cuidadosamente a sotaina "emprestada" e recolocou o crucifixo sobre o batente da lareira do quarto de Angélica. aquele ruído das águas que recomeçam a murmurar nas profundezas dos bosques. Só quem não conheceu o deserto branco do inverno nas re-giãos incivilizadas pode se queixar das cidades. É preciso ter gosto pela declamação e pela tragédia para pregar. estridente do pássaro que nunca se vê. mas que se denomina "o pássaro da primavera" e que teria prefigurado para eles a pomba da Arca.. No colégio fiz todos os grandes papéis dos heróis da Antiguidade. uivos. Durante as breves saídas que se permitiam fazer.. E não seria viver com os índios. em atrelagens conduzidas por um vento único que conhecia seus caminhos e só tinha uma finalidade: devastar a terra até o osso. se discerniam um imperceptível abrandamento nas violências.do furacão. . O frio continuava forte e trazia incessantemente pesadas nuvens fustigadas de neve. — Nem por isso esses deslocamento e essa mudança cortarão os elos que vocês já estabeleceram com o Novo Mundo. Daí em diante. a impassibilidade de uma paisagem onde ainda se lia a morte de todas as coisas. Pois você não ignora que a educação dos jesuítas atribui muita importância ao teatro. como os velhos tiranos loucos. Ele a escutava avidamente. um pouco desgastada.. que iria curar-me disso. e não lhe será difícil conservar um pé em cada porto. Algumas vezes viu-o lendo um missal. sabiam que ainda não estavam a salvo de um despertar de suas forças numa derradeira cnse. falavam das cidades longínquas que reveriam um dia. do mesmo modo que sempre fez em todo o resto do mundo. CAPITULO XXXII Um aspecto do espírito de Joffrey de Peyrac — Sonhos de regresso à Europa A seguir. Seu instinto gregário os impele a pôr em comum todos os bens e serviços de que têm necessidade para sustentar esta mísera vida que uma côdea de pão e um vizinho caridoso podem salvar da morte. como ele dissera. Em vão se voltavam para as árvores mais próximas para ouvir o apelo aflautado. era. Companhia familiar que escutavam. esforçavam-se em vão por perceber aquele ruído ténue. O sr. Sebastião d'Orgeval encorajava-a a fazer projetos no sentido de uma volta à Europa.

era a beleza de Versalhes que lhe aparecia. onde se fazem rega-bofes de patês tão grandes que uma criança disfarçada em Amor pode ali se esconder para surgir sob os aplausos de uma corte coberta de pérolas e fitas. dançam. A corte era uma selva. absolvia Luís XIV. ingleses ou franceses. aos olhos de Angélica. entre . o que é pior. fora do círculo. Se seu esposo não tivesse podido acompanhar o Sr. dá para imaginar — dizia ele —. segurando com as duas mãos enormes e deliciosas frutas. e pode-se agradecer aos céus por isso. tudo seria mais fácil e principalmente mais divertido. onde se deleitam com músicas celestes. Não havia saída. das campanhas de represálias. ou. para com aqueles que. Era o culto que o rei prestava à Beleza. e quem sabe?. "Quanto reconhecimento não devemos ter nós. não deixá-lo sozinho no meio daquela fauna absurda e fútil. de uma selva perigosa. os encantos de Versalhes e o que ali havia de excelente e que tão poucos apreciavam no trato com o soberano. e as guerras que delas decorrem. vivos. de preferência às intrigas sortidas que circulavam nas estranhas do palácio.Em sua opinião. não sem razão. E. sem distinção de vítimas. — E no entanto — disse Angélica — é mais difícil voltar com confiança a um lugar onde se sofreu do que fazer ali suas primeiras armas. ébria de todos os prazeres. se em toda parte só houvesse miséria. a todas as formas de arte. teria desejado estar perto dele. — E a Nova Inglaterra ficará cercada. poderiam desfrutar. fogo. de La Salle não tardará a ir plantar o estandarte do rei da França no Illinois. perdidos em nossa geena. naqueles dias em que toda visão se adorna com um véu de clemência. cuja espécie lhe era tão contrária. um planeta deserto e congelado. Pois o novo governador é um louco. neste momento. ainda que numa única lareira do mundo. que já se tornara infernal. continuam a procurar e a criar todas as formas de Beleza para encantar os olhos e os espíritos! "Pois isso significa que o fogo continua a crepitar. Os espanhóis não reagirão. Agora que Jof-frey entrara em contato com o rei. que existam banquetes onde se podem degustar. Do lado de fora. as intrigas fomentadas contra ele teriam conduzido nosso melhor governador à Bastilha. É preciso fazer ainda mais por ele. É a honra de nossa estrela Terra manter assim sem descanso. A dois. o destino das colónias não se resolveria apenas por aqueles que ali se encontravam. — A bússola está lá — dizia. mas também o Templo do Beleza. o Pai das Águas. ou seus partidários. cumprira sua missão diplomática. dos massacres perpetrados de ambas as partes. como o rei. — Versalhes governa os destinos desses povos até os confins dos vales mais desconhecidos e menos visitados. Receava ainda um último e sorrateiro golpe do destino. Se a vida se extinguisse em toda parte. das guerras. Ela evocou a corte. até no golfo do México. em alguns pontos. riem. índios ou brancos. colhidas nos jardins do rei? — Sim. o peso do silêncio e a rudeza do cenário que reencontrava eram difíceis de superar. se conseguir descer o rio Mississipi. Quando voltava desses desvaneios. — Veja que é de Versalhes que se decidem as partilhas. Miúdas expedições de formigas roem os espaços. paz e riqueza. e quem mais que ela podia saber disso? No entanto. — Dá para imaginar que em algurfia parte existem palácios onde se dança. Ele falara. de Frontenac. E preciso que ele volte ao Canadá. um louco imbecil. Mas ela sentia forças vivas prontas a se erguer. então seria realmente o fim do mundo. até sua embocadura. O Sr. o que. e que há esperança para nós de vir um dia também a sentar-nos. A dois.

e ela sempre se inquietara quando seu interesse. tem também sua força irresistível. Pois sentia que as palavras que ele empregava. era o rei. Ela afirmou-lhe que sempre vira Joffrey consagrar-se a uma tarefa sem se deixar distrair no momento por nada. E com ela que devemos iluminar nossos sonhos e ambições. crimes e torpezas. veludo para vos vestir. Nós nos reencontraremos na paz e falaremos juntos". se se sabe que num só ponto o fogo permanece. e sobretudo por falsos alarmas. Tudo seria conduzido magistralmente. lava incandescente que escapa ao vulcão divino. Cada vez mais ela acreditava ouvi-lo quanto o jesuíta se exprimia. O FIM DO INVERNO CAPÍTULO XXXIII . Tudo é permitido à esperança. Ela pensava baixinho: "Eu o compreendo. nossas alegrias e ardores. a vaga de lama. Em várias oportunidades o Padre d'Orgeval repetiu que desejava que o Sr. O importante era o rei. seda. o Sr. eram exatamente aquelas. carruagens. Se meu esposo desejar meu retorno à Europa e decidir ali esperar-me. móveis. com uma ponta de censura. dentre a multidão de pensamentos que fermentavam no cérebro genial do senhor da Aquitânia. jóias para vos ornamentar. tudo estará pronto e não faltará nada. ausência de preocupações domésticas. objetos jdeestima. Sebastião d'Orgeval estava convencido disso. — Pode estar certo — dizia-lhe ela —. ricas tapeçarias. que Joffrey não teria hesitado em lançar e desenvolver com brilho e ardor nas cortes antigas da Arte de amar. belos quadros. E conquistando-o. meu caro diretor de consciência. que carrega nossos êxtases e arrebatamentos. nenhum adereço. — Talvez até demais — acrescentou. qualquer desconforto! Deve poder aproveitar todos os prazeres que sua fortuna lhe permite e que a capital do reino coloca à' sua disposição. de Peyrac não perdesse suas forças inquietando-se com a sorte de sua família. No momento. eficaz. meu amor. por exemplo. de Peycrac devia também preparar com o maior cuidado sua instalação no reino da França. "Certamente. Ela se divertia quando este insistia em que o Sr. Com a diferença de que ao Trovador do Languedoc. de Peyrac faria mais para o bem dos povos e dos continentes do que tentando lançar-se em socorro dos seus. que nos arrasta. se dirigia ao género feminino. — Estou aqui para velar por vocês. belas parelhas. repugnava expor atualmente em voz alta o fundo de seu pensamento. Nenhum bibelô. Ser-lhe-á preciso uma numerosa criadagem devotada. — Você não pode vir a sofrer. que havia perdido sua voz no átrio de Norte-Dame quando ali o arrastaram com uma corda no pescoço. Seu imenso poder de concentração não deixava de criar nos corações ciumentos uma impressão de abandono. Seu coração ansiava por Joffrey.os que estendem suas mãos a essas chamas revigorantes e partilhar com eles o festim. é poderosa." Dir-se-ia que havia nele um aspecto do espírito de Joffrey. Nas paredes de seus palacetes e de suas residências campestres. Mas o que ele enunciava por sua conduta causara transtornos mais importantes que seus discursos. Mas a vaga de ouro e de pedrarias dos esplendores da vida. as teorias que enunciava. nada que possa devolver-me o gosto pela existência e me ajudar a encontrar o esquecimento daquilo que perdi. Aprendera a calar-se.

. — Por onde eles passarão? — Creio que sei.. até em sua solidão. Inutilmente os perseguirão. penso que deve haver uma explicação material que você vai dar-me. Dela só posso esperar perambu-lações solitárias. Pois era um trecho de deserto impenetrável. Assim que o degelo começasse e os riachos. cavada per lagos. inverno e verão. Um deserto. rios e lagos ficassem livres dos gelos. nesse. — Então. Era uma utopia da parte do Sr. — Para que vida?. inextricável. — Quero dizer que terão se tornado invisíveis.. intrigada. estriada de falhas profundas intransponíveis numa extensão de léguas. de Gorrestat e seu exército retomariam a campanha contra os iroqueses. que só podia se abrir para alguns loucos que saltam as corredeiras. . incivilizável. Utakê escapará uma vez mais. Era preciso ser canadense ou abenaki para arriscar-se nesses lugares. Mas ele apenas sorriu. Dois terços da França. Ele trará consigo todos os sobreviventes. que um dia se coriseguiria unir o norte e o sul. lançava ele. anjos entre flores de luz Surpreendeu-o examinando as armas.. Seja.. envoltas em panos impregnados de óleo. Não me sinto feito para ser ermitão. Pode ser que seja o fim dos iroqueses. Ele conservava a lembrança daquilo que surpreendera na Missão de São José. Mas não dizia mais nada. uma teia de aranha. atravessando-o. também não disseram que você voava pelos ares?!. Bem cuidadas. ou então pertencer a um contingente de guerra iroquês em expedição para o litoral. ter julgado que se poderia um dia abrir estradas nesse lugar. Mai-ne ou Acádia. mergulhado em profundas reflexões.A face oculta de Deus — Rei e rainha da Criação.. Mas eu os conheço. se está persuadido de que vão surgir. Pois eles terão desaparecido da face da terra. com um gesto indicando apagamento. — Eles estão em prontidão no lugar. meu padre. Cercarão os povoados e os queimarão. e que se chamava. O fim do inverno representava a volta dos homens. com zombaria. — O que quer dizer com isso? — Terão desaparecido! — repetiu. Eles reaparecerão.. conforme as bandeiras. Tenho uma opinião sobre isso. Opôs a sua instância um rosto subitamente sombrio. — Não quero dizer que estarão mortos. — Ela já não me interessa. Padre d'Orgeval. de Peyrac.. ele consentiu em dizer algo mais. Os próprios povos nómades não se agrupavam ali. Era uma loucura ter trazido para ali cavalos. empolada de montanhas em vagas sucessivas que lhe barravam o acesso. Assim que seus perseguidores tiverem se retirado. eles ressurgirão na face"da terra e. não haviam sofrido danos. na complicação e no visco de sua teia. uma teia de aranha. Ele conhecia de cor todos os segredos da imensa região de rochedos e de brenhas de florestas selvagens. — Não nego o maravilhoso em muitos fenómenos. de uma linha de cristas a outra. é preciso fugir. sim. ou que conhecem os bloqueios secretos dos precipícios ou os entrançados misteriosos de pistas antigas. O mais isolado anacoreta pertence. Havia abundância de munições. mas. o Sr. Para que existência? Para que obra? — Sua vida. E como ela esperasse a continuação. o Atlântico e o SaintLaurent.. e creio que você tem razão. não longe daqui. e não longe daqui. e que "podia tornar-se invisível? Entretanto..

A França é rica desses lugares de recolhimento. prometi a mim mesmo comer seu coração. que é o Estado católico das possessões inglesas. — Seja. em que os mergulhavam o frio e a obscuridade ainda reinantes. pois nenhuma luz poderia substituir a vocação religiosa que queimara por tanto tempo.. Sentia-se tentado. Mas. medita sobre as mesmas verdades. Existem belos valezinhos que incitam à oração. — Utakê me disse: "Eu voltarei. seus "pobres de Lyon". em seu íntimo. Não existe mais comunidade para mim. seus quacrés. — Oh! eu sei. você verá. mais do que pelas armas. E disseram-me que havia monges procurando refúgio em Maryland.s separam da salvação: a primavera. Mas não são a América. O soberano. abadias. — Assim que a primavera chegar — dizia ele —. quanto trabalho para limpar o lugar! Contando as barreiras quebradas. não é? — Quantos corpos terei"de contar? Terá ficado algum sob os escombros de Wapassu?. a escuta.. Minha América. Seus heréditos de todo género.. então. E o que me trará a primavera. por exemplo." seus lolardos ingleses. ouviram o apelo do deserto. e os corpos. Existem lugares muito bons desse tipo. Por isso. Você deve isso a mim. eles não estão todos mortos. do que por esse medo diante da ideia de cair novamente nas mãos do iroquês. Conheço um deles. . você poderá agir e fazer o bem. você deixará que o salve? Ouvirá meus conselhos. que já governa a metade da Europa e uma parte do Novo Mundo.. Você haverá de encontrá-los e ainda salvá-los. De qualquer maneira. Adivinhando. que professam o gosto da mesma austeridade e sobretudo das mesmas disciplinas místicas. dirige orações ao mesmo Deus. Há cartuxas. minha cara. — Alguns capuchinhos eremitas encontraram um lugar para erguer seu oratório lá pelos lados do rio Saint-Jean ou do istmo de Chignecto. nos dias que passavam. Ele sorria vendo que suas palavras atingiam seu objetivo e que o ardor que já lhe inspirava a perspectiva de se debater pela salvação de seus amigos punha-lhe nas faces uma cor rosada. — Não — afirmou ele. No Dauphiné. estaremos ligados a você. que estou dizendo? O cetro do rei está em suas mãos. Apenas alguns dias no.a uma comunidade escolhida por ele. que teria de enfrentar. os tetos arruinados. Menos pela perspectivas dessa existência. Toga Negra". Tomei consciência disso em nossas palestras. — Nada de mortos. a imitar a corajosa e constante Mãe do género humano.. Ora. tentando sorrir e amenizar as palavras.. sobre os quais você fala com tanta ternura: seus hu-guenotes. Existe uma energia irresistível em recomeçar tudo. e por sua influência. grutas junto a águas murmurantes. esta terra que não se recusava a reflorir da nudez e das devastações do inverno. apesar de tudo vazia. mais ainda que os cátaros. Não o abandonaremos.. que lhe recomendam afastar-se a tempo? O jesuíta desviou os olhos e sacudiu docemente a cabeça. você sabe! — disse ela. encorajavam-se mutuamente a emergir da inércia da morte. onde estiver. os objetos perdidos que a neve levada pelos ares nos devolve.. esses val-denses de que falam como que do Diabo em nossas montanhas.. a pior seita francesa. vendo a terra renascer por sinais invisíveis.. como ele. as sendas cortadas. — Seremos sua comunidade. O rei está a seus pés. você deve superar sua fadiga e sarar.. — Você pode tudo. Aqueles que.. O eremita liga-se a seus irmãos de espécie. que Angélica sabia ainda existir e que o encorajava a partir para outros lugares. Mesmo no fundo dos desertos. o afrouxamento do círculo de gelo do inverno...

nenhuma ideologia. Encontrar-lhe-ei um refúgio. Cruelmente. Ele tinha razão. Ocorreu então a Angélica que era preciso reter aquelas horas. Mas "eles têm olhos e não vêem.. falando sobretudo da sua vida de missionário. seu feixe. insuflado nas maravilhas do mundo. Nenhum povo. Angélica não protestou mais. Não tema nada. — Não posso deixá-la sozinha com as crianças. Não~o sabemos. de suas experiências entre as tribos. e às criaturas frágeis também. A estação das tempestades e das quedas de neve ainda não se encerrou. Escondê-lo-ei num lugar seguro. mas pelo encontro dos elementos mais fortes que existem nelas com o que há de mais forte em nós. Condena aqueles que se recusam a seguir sua torrente imperiosa. Fuja! Vá para a baía Francesa. "Povos desaparecem por ter recusado o avanço. Sare! Sarará mais depressa se não se atormentar nem por mim.que não consome. Nós o encontraremos. como ele lhe recomendava. pode recusá-la. Mais longe. um lento partejar. Duas vezes!. para esse grande fogo. e. — Não! Não! Uma vez!. A noite ainda era profunda. que seriam as horas derradeiras do inverno. Não veio do outro lado do oceano. Utakê sabe o que diz quando me avisa: "Quero comer seu coração".. pois essa força é cega e irresistível. Todos os espíritos são seus depositários. Julgamo-nos senhores dela. mas engendra. Ora.. Ele voltava menos ao passado. reduzindo-os certas vezes a uma cinzenta travessia de algumas horas. uma lenta encarnação do poder divino que se encontra instilado. Saberei avaliar o momento de me afastar tranquilamente. Ela sabe o que faz. que se deixara transportar por sua eloquência e que subitamente se reencontrava em sua pobre cabana —. parar de se atormentar para desfrutar-lhes a riqueza e o encanto. Parta sem demora. às vezes. — Sinto-me melhor agora. nem perder a razão seguindo os meandros de seus pensamentos. Eles fêm ouvidos e não ouvem". jamais à destruição completa antes da hora. por mais humildes'que sejam. nem por ninguém. Os homens podem chegar à destruição. E o completamento da Criação que perseguimos. Por trás desta palavra. A noite de inverno que torna os dias tão curtos. por se igualarem a opiniões tão grandiosas. a Criação é um lento nascimento. Prometo-lhe. a . e recomeçavam a falar casualmente e depois a conversar mais demoradamente. — Não fique o tempo todo pensando em me mandar embora. Depois de realizados os trabalhos do dia. para isso}" Ela protestou com ardor." — Um fogo também o atingirá se pronunciar tais palavras no púlpito — disse Angélica. Já basta! Você pagou seu tributo a sua vocação. algodoada de neve caindo ou zebrada de rajadas fustigantes. "A natureza esmaga aqueles que se opõem à sua marcha. Você mesmo dizia que não se deve tentar compreendê-los.— Loucura! Não se deixe levar pela loucura dos selvagens. Aqueles que não querem ouvir desaparecerão.. Toga Negra. A evolução da Criação é nosso dever. — Elas sobreviverão — dizia ele —. pois sua voz é a própria voz da Criação. — Utakê me disse: "Você deve isso a mim. Não é por mim que receio. o jesuíta sentava-se diante do fogo. elas se prolongarão. sempre mais longe. Angélica ficava na cama com as crianças e seus brinquedos. como essas crianças pequenas. Cada um contribui com seu raminho. — E no entanto todos os ouvidos humanos podem ser abertos para ouvi-las. até nós.

cheios de desenvoltura. ávida de conhecimento. até apagá-lo. Do mesmo modo.. em relação a soberanos que dirigiam o mundo. não o compreenderão. pelo menos. por intermédio de revelações pessoais. a essas curiosas. sobretudo de pensar. com toda a humanidade. podendose dizer que as palavras mais abstratas tinham o poder de mergulhá-las em êxtase.Natureza. o círculo dos olhares-juízes que não cessam de pesar sobre cada membro de uma sociedade. Mas. Elas ficavam imóveis e boquiabertas. mas pouco lhes importam as palavras que lhe caem dos lábios. — Olhe-as — murmurava ele —. é arrastado. inelutável. ela é vasta e vazia e o futurp lhe está aberto. O tom de brincadeira e de comédia que adotavam e os risos que não conseguiam refrear faziam com que as crianças prestassem atenção a suas palavras. não é. Não o verão. força que devia se ligar. Verão seu ídolo. transportá-las para fora de si mesmas. E mesmo a América. Divertiam-se tratando assim com impertinência as personagens bíblicas. de adivinhações pessoais. e já aturdida e indisciplinada por natureza. Se eu posso desdobrar meu corpo e se ele permanece aparentemente mergulhado no sono enquanto meu espírito viaja e vê esse corpo pesado elevá-lo acima da terra e deslocálo. Era como a presença de um anjo. por natureza!. E se eu digo Deus. cortando lenha. Sua força de mulher e de mãe amorosa. O que os cativa são suas pequenas preocupações. não é sequer porque Deus me concede uma graça ou por ter recebido um dom. na qual o acaso o fez nascer. "Entretanto. liberava-lhes o espírito tal como uma leve embriaguez. Levantava-se diante do fogo e olhava a seus pés como se contemplasse do alto do púlpito uma assistência ocupando a nave de uma igreja. não vêem que se oculta a face de Deus. mas porque. falando com as crianças. em cadeiras de palha ou em banquetas de tapeçaria de cetim. Nela se descobrem mais facilmente os segredos enterrados. Abandonados num astro morto. imperativa. dirigindo os grandes olhos para um e para o outro. penetrei no caminho de um segredo natural.. Eis por que eu a amo.. ela é muito vazia e muito vasta para ouvir e compreender o que acontece. não o conceberão a imensa aventura dos mundos à qual cada homem. apesar de tudo. dominadora. Para escorar. as mulheres são mais aptas que os homens a apreender os mistérios ocultos.. Com que cuidado. Viera como um anjo. podiam olhar do alto os poderosos da Terra. submetidos... O severo jejum ao qual estavam. o que vai acontecer. encarregada de manter com vida as crianças pequenas. O desaparecimento da vida em torno deles transformara-os em rei e rainha da Criação. Talvez seja por isso que o Espírito Maligno se preocupou tanto em ocultarlhes a verdade.. render sua força de mulher que enfraquecia. Eles riam. Antes mais audaciosa já e sem temor a Deus. — Eles estão lá.em bancos de madeira. à de . A solidão de seu estado e o excesso de sofrimentos padecidos fizeram recuar. Ouvia-o andando de lá para cá no posto. com que malícia impediu-as de agir. Não se pode abrir-lhes o horizonte.. mas também a pequena Honorina perdida entre os iroqueses. sentados. como são belas! São flores de luz. — Não. nos tronos. Eles não querem saber. Uns falam de milagres e outros falarão de ciências!. sentiam-se. seus pequenos negócios. tratando-as como marionetes no pequeno teatro de seus colóquios. Ele é estreito demais. como que por um fio de prata. eles estão lá." — Foi a punição de Eva. e levantam o nariz para ouvir o pregador. ao domínio do sonho e da visão.

Mesmo Joffrey. a primeira flor!" Teve uma súbita vontade de revê-lo. o defensor. ao longe. o invencível. Ela compreendia o que ele quisera dizer-lhe. quando Marcelina. Onde Joffrey dissesse: "Fiquemos!". seu conhecimento dos homens. Que teto abrigaria tão numerosa família? Que província seria seu feudo? Pouco importava!. Angélica pensava em Cantor. Raimundo Rogério e Gloriandra. E também o pequeno Carlos Henrique e todas as crianças. e. num jarrinho de água. Honorina. quando a apertava nos braços. Somente o Espírito pode multiplicar a força. levemente esverdeada. portanto. perto de Joffrey. onde sua prudente experiência. todos os jovens que tivessem necessidade de ajuda. todos. Querubim. e. A ideia de atravessar o oceano para consegui-lo cessara de parecer-lhe insuperável. de rever os filhos. e depois. acompanhada de lolanda e de Querubim. Ele não passa de um ponto mínimo no universo. Joffrey de Peyrac. Cantor. se soergueu e se adornou com todas as suas cores. Aqui podemos viver em paz ainda um tempo de nossa vida". como estavam naquela época. Sua constância sustentaria a sua. Marcelina certamente estava viva e. o autorizassem à dizer: "Ergamos aqui nossa tenda. CAPITULO XXXIV A primeira flor da primavera Ele entreabriu a porta cautelosamente. Ela abrira caminho na sombra e no gelo. seus meios. o conde-cavaleiro. Tossia. Ela não parara de tossir. refúgio. — Encontrei-a ao virar uma placa de gelo. em palavras febris e apaixonadas. dizia consigo. sob a beira do telhado que está começando a gotejar. era de uma brancura de alface. na última noite na costa Leste. apesar de sua coragem sem limites. Ho-norina se juntaria a eles em Gouldsboro. da trama de suas alianças. sob efeito do calor do dia.desde a última doença.. e isso lhe lembrava o tempo da costa Leste. avaliando como aquele homem estava investido de encargos. tudo ia ordenar-se espontaneamente. Sua força seria a sua. . de reunir todos os seus à sua volta. e depois embarcariam. abrigo. Sua voz sob a janela no fim da invernada.. com o cálice aberto sobre pistilos dourados e ornado por algumas folhinhas em feixes verdeclaros. dizendo: — A primeira flor! Segurava entre o polegar roído e o dedo médio truncado um açafrão rosa. fora cuidar dela.. lolanda também. se encontrava acuado. após alguns instantes em contato com o ar e com o sol. no qual cada um combateria no torreão que devia guardar. e todos se reencontrariam: Florimond. Como a vinda das flores. Uma vez aceito isso. e em quantas partilhas. era preciso reconhecer que as intervenções do céu para sua salvaguarda tomavam as mais irnprevisíveis formas e rostos. teve uma recaída. Mas as forças do homem mais4orte são tão fracas. Deixou a flor junto dela. de socorro para iniciar o périplo de sua existência em meio às emboscadas deste século. que lutava. sob sua asa. como com um sangue novo subindo-lhe ao rosto. o indómito.Joffrey. por eles. "Mãe. ao qual se sucedia o frio glacial das noites. Era apenas um inverno. tão reduzidos! Nem todo o ouro do mundo pode resgatar a impotência na qual o çojocam muitas vezes as escolhas de suas lutas ou de seus mandatos. a Bela. sem dúvida nenhuma. força de todos eles.

Seu companheiro logo chegou com cobertas e peles. Ele tinha hábitos de celibatário. mas também a volta dos homens. logo a primavera vai eclodir. Veriam diminuir. a fim de se certificar de que as chaminés estavam puxando na medida certa. tudo isso anunciava a salvação. Mas isso não significa nada. — A florzinha tinha razão em se conservar sob a neve — sussurrou. Era o gelo. explicou-lhe. encolher-se a superfície de seu manto branco. Mas ouviu as crianças se agitarem e se queixarem em seu sono. Sebastião d'Orgeval mostrou-lhes ao longe a mesma bruma dourada. descobria-se que essa neve que não havia caído pulverizava o fundo já verdejante dos vales. — Ele luta ainda. E para convencê-los ao mesmo tempo da iminência dessa volta e permitir-lhes olhar uma última vez de frente o inimigo que não os tinha vencido. Podiam-se permitir essa orgia de lenha. e desanimada com a recaída. pressentiu-lhe a presença. bruma com uma água de pérola arrastando-se com as aparências desses vapores de calor que se vêem no verão. trouxe seixos enrolados em flanela com que os cercou e fez Angélica tomar uma bebida qilente. no seio de uma paisagem de cristal. Permaneceram imóveis. infiltrando-se como um elemento espesso que tivesse preparado uma temperatura polar. e a superfície opaca do lago que ela percebera como um espelho sem polimento. da qual parecia ter guardado de sua expedição à Missão de São José uma reserva inesgotável e que se renovava incessantemente. de homem que aprendera a se arranjar sozinho. pois aquele era apenas o último assalto do Pai Inverno. e as próprias crianças desistiram de debater-se. Mas. e poderemos nos encontrar!" Gelo. — Ela sabia melhor que nós que o inverno ainda não acabou. cintilante de mil fogos. não quis que renunciassem à saída cotidiana. que haviam recomeçado a respirar. foram imediatamente ajaezadas de gelo até a ponta da última agulha ou raminho. Mas é em vão. essa franja de espuma à beira do telhado. e a neve . daqui a uma semana. colocando-as de lado para secar. Angélica recomendou que se raspassem as raízes. Acendeu o fogo em todas as lareiras do fortim. que deixava escoar lágrimas de alegria. olhando-o mais de perto. sob uma luz translúcida que parecia brotar de todas as direções. esse ruído distante nas florestas proveniente do murmúrio das águas liberadas.stá longe. Isso não nos impedirá. A primavera não e. da qual só se tomaria consciência sob seu efeito paralisante e mortal. Essa flor. Atiçou o fogo. curiosamente inaudível. A colheita das pequenas estrelas de verdura ligava-se a um ritual solene no início da nova estação. pois ele tinha sempre a mesma maneira furtiva de se deslocar como os felinos ou os índios — ir e vir para vigiar as lareiras e subir à plataforma. A neve derreteria depressa. — O Pai Inverno não quer ceder. Um vento forte se ergueu. A primavera sempre volta. como no milagre do óleo santo do templo ou no dos pães e peixes do Evangelho."Joffrey! Joffrey!. e ela o ouviu o resto da noite — ou melhor. Ilusão. com uma dose de aguardente. Colheram dentes-de-leão. As árvores. à noite. Angélica levantou-se tiritando de frio e batendo o queixo. persuadida de que fora acometida por outro acesso de febre. de colher dente-de-leão e comer nossa primeira salada.

Deslizou para o sono com felicidade e. CAPITULO XXXV A chegada dos homens de Gouldsboro — O cheiro da grelha dos iroqueses Antes de abrir os olhos. "Não quero que ele tenha de passar de novo por provações atrozes. Voltou com uma tigela nas mãos. como teria pensado em um de seus filhos ameaçado. — Em Wapassu?! Acabou-se. E agora. pensou. Durma sossegadamente. acabou-se. Vejo que está bem recuperada... Ela repetia: "Fuja! Fuja!". durma e recupere suas forças.. Quero que ele viva. "para onde ela foi!!. quando acordar. ou depois de amanhã. e Colin Paturel estaria provavelmente mais apressado aquele ano para vê-la pôr-se em marcha. Levou-a para o quarto e ajudou-a a deitar-se. Não quero mais que seja ignorado e desprezado. Quando despertar. — Então.. Chegariam de Gouldsboro e conheceriam finalmente a sorte de Wapassu." Pensou nele com ternura. que os ajudarão a pescar enquanto sua caravana não chega. mas logo renascerão e você poderá colhê-las. pés calçados de mo-cassinos já estavam a caminho.." — Você me promete que partirá amanhã?.. tranqúilize-se. que não compreenderiam mais sua linguagem. ou dos índios incivilizados. São as amigas mais fiéis do homem. com uma sensação de verdadeira convalescença. Dessa vez. falaremos de meus pro-jetos.. Feliz! Ele merece viver. "Não tem o direito de me fazer isso. — Haverá de colhê-las na Ile-de-France. Depois do trabalho que tive para curálo. As pequenas flores nos escoltaram até agora e nossas provisões estão terminando. Pagou um preço muito alto. De todo modo. pensou. . pela primeira vez.. você possa descer comigo até o lago. ele poderia partir.desapareceria "sem que se saiba".. Esses preparativos pareceram-lhe de bom augúrio.. como de hábito.. Essas diferentes perspectivas faziam-na oscilar entre a alegria e a angústia. Ou irá colocá-lo novamente ao pescoço?" . O sol se punha. As notícias iam começar a correr. nesse caso. Olhou para a lareira onde estava o crucifixo e viu brilhar o rubi. "Está esperando que 'eles' cheguem". — Beba mais uma tisana! É a última que nos resta. e ela dormira apenas algumas horas. Partirei amanhã. eu o obedeço. que viriam buscá-lo para fazê-lo morrer pelas torturas. enfim repousada. como diziam as crianças espantadas. apesar de não confiar inteiramente neles. com uma mistura de irritação e de mágoa. Eu teria perdido quase todas as colheitas. As flores estão em toda parte." Sobre as superfícies esponjosas liberadas. para informar-se sobre Angélica. — Prometo-lhe que partirei. sem saber se lhe recomendava fugir dos homens civilizados.. — Sim! Sob a condição de que. Vou dormir para adquirir forças. "Vai deixar-me o crucifixo quando se for?. As crianças estão brincando diante da casa. Vou até a beira do lago colher vime para fazer nassas. Por ora. ela pensou: "Quem estão queimando?" O cheiro que lhe invadia o sono apagou-se quando voltou à consciência em seu quarto do fortim de Wapassu. formar-se-ia uma caranava para subir para o alto Kennebec. Sentia-se bem.

tempestuoso. ele também temera pelo filho. depois de ter atravessado tais provações. mais do que nunca. que. — Marcial Berne? Que faz aqui? — Encarregaram-me de velar por seu repouso. Mas achei que não era momento. e só esperavam que ela despertasse para ficar inteiramente tranquilos e festejar esse feliz desfecho de uma provação tão longa e terrível. ficaram aterrados. a fome.. dirigindo-se como pôde aos lugares habitados. O mar gelou na embocadura dos rios Penobs-cot e Kennebec. apoiada aos travesseiros. um jovem de colarinho branco. Ele riu.shranger lhes fora preciosa. cara Dame Angélica. e um frio de rachar árvores. Paturel organizou imediatamente uma caravana de socorro. o inglês mudo chegara. quando Gouldsboro estava ameaçada de um ataque. — E eis que nos encontramos há algumas horas do lugar. Nenhuma notícia chegava até lá. Este parecera reconhecê-lo com alegria. e mais que nunca. Nosso outono foi perturbado.. . o que era preferível à morte e reconfortava um pouco seus amigos. Era melhor conservar todos os braços valentes. levantou-se e dirigiu-se para ela. cada qual vivera em sua fortaleza. se isso já não tivesse acontecido. Já estavam acostumados com o silêncio hibernal. combatendo o inimigo principal: o frio. como cresceram! E estão falando que é uma maravilha! Quem podia imaginar. — Você não havia partido para Boston para seus estudos?. correndo grande perigo de perecer. Quando chegou até eles a notícia. para muitos. Levava a notícia surpreendente de que Angélica e seus filhos estavam vivos em Wapassu. Você dormia tão profundamente ao chegarmos. que aguardavam mais detalhes. todo mundo estava feliz. Depois. na costa. proveniente de vagos rumores de relatos indígenas. Dame Angélica. sentado à sua cabeceira. conduzido por um empregado do posto do holandês de Houssnock. parecendo aliviado por ver que ela o reconhecia e se lembrava dele sem esforço. iriam encontrar os pirralhos com tão boa saúde!.. sorrindo. As crianças! Como estão bonitas! — extasiava-se —. E acrescentou que o pai de Carlos Henrique quisera fazer parte da caravana. Diziam que todos os habitantes haviam sido levados como prisioneiros para Quebec. Na verdade. voltando a cabeça. naquele ano. Dame Angélica. O rapaz começou a falar com loquacidade. tanto mais . que. ele fugiu. ele contou que. quando o frio começou a amainar. — Bom dia. — Que alegria de encontrá-la com vida! Que alívio à nossa angústia. nem desconfiavam do que acontecera em Wapassu. vestido de preto. de que Wapassu fora atacado e queimado no outono. — Tem boa memória. Descartou-se resolutamente a pavorosa perspectiva.que o inverno se mostrou a seguir.Depois. depois de nos asseguramos de que estava com vida.. repetia. Lymon White fora retido como cativo numa aldeia abenaki. ao vê-la acordada. que. as neves e. A neve abateu-se sobre nós. de ir debruçar-me sobre os hieróglifos em país inglês. Sua experiência de bu. a deixamos entregue a seu sono reparador Angélica ergueu-se. percebeu.. para olhá-lo com mais atenção. Enfim. Quando a tribo "descabanou" por causa da fome. Vendo-a ouvi-lo com atenção. O Sr. pois os rios e cursos de água ainda estavam gelados.. que não levara menos de dois meses a se deslocar.

Aqui. e não do interior. no batente da-lareira. — Como a vida é boa! Ao ouvir esses detalhes. E Colin começava a contar o que Marcial já havia exposto. — Quando chegamos à beira do lago. Um verdadeiro milagre! Capaz de incitar os próprios huguenotes a colocar uma vela diante de alguma divindade papista falando de milagre. — Com efeito — continuou Colin. Foi nesse momento que este deixou de ser para Angélica uma aparição ainda incerta..Um pesado passo de botas fez ranger o assoalho do corredor. haviam trazido. roupas de mulher e de crianças. tão sonhado. e a alegria. Depois. eram os seus.. receando que surgissem em seu encalço exércitos vindos do norte.. O momento tão esperado. como parecia estar sozinho.. Não entendia por que ela dizia: "Quem estão queimando?". Eram fogueiras de um acampamento? Não estava mais habituada ao cheiro dos humanos. lançando-se-lhes ao pescoço e cercandoos com os braços. muito penetrante e desagradável para ela.. dois dentre nós se mostraram e o chamaram.chegar àquele coração das montanhas.. sapatos e brinquedos. Insistia em que haviam acreditado no milagre de sua-sobrevi-vência. e. — Com efeito! — reconheceu Colin. Ao ver-nos. Descreveu o medo lancinante que tiveram de não encontrá-los vivos. Tinha o aspecto de um explorador de bosques. Colin pareceu não ouvir ou não compreender o sentido da pergunta estranha. por descobrir no forte as crianças muito vivas e espertas. Seu subconsciente continuava a se sentir indisposto por aquele cheiro de fogo. os homens de Gouldsboro. quero me levantar! Seu olhar caiu sobre o crucifixo. e não: "O que estão queimando?" Era um homem das praias atlânticas. — Eele? — Ele? — O homem que estava conosco. como tiveram de esperar para se pôr a caminho para as regiões inacessíveis do interior. encontraram?. tudo oferecido com a melhor boa vontade pelas damas e crianças de Gouldsboro. O anúncio demasiado tardio do desastre de Wapassu. e na moldura da porta baixa apareceu a forte estatura de Colin Paturel. enquanto Marcial lhe lançava um olhar atento e depois se calava. percebemos na outra margem um homem que estava colocando armadilhas ou nassas. acontecera. compreendendo pelas narrativas — se assim se podia dizer —. Não o viram?. e a prova disso era que. compreendeu que não estava sonhando. e que tantas vezes parecera impossível de se realizar. de incêndio. roupa-branca. e ainda estava aturdido pelcTcombate com as florestas e rochedos que tivera de travar para . em que custaram a acreditar.. quantas vezes tinham sido detidos pelas últimas tempestades de neve e as incomodida-des do degelo. maquinalmente. o renascimento pôs-se a correr-lhe pelas veias com a mesma alegre vivacidade de uma fonte que finalmente quebra sua prisão de gelo. o que era o cúmulo da felicidade e do reconforto. —Quem estão queimando? — murmurou Angélica.do pobre mudo que Angélica e as crianças estavam desprovidas de tudo lá em cima. Seu olhar ansioso se iluminou quando viu Angélica recostada ao travesseiro e parecendo atenta ao que lhe explicava Marcial Berne. — Oh! meus caros homens! — exclamou. — Depressa.. ele . além de víveres. escondemo-nos primeiro. as dificuldades de locomoção. Seres humanos tinham-nos finalmente encontrado em sua solidão e. Quando viu Colin inclinar-se para ela. — Oh! que ideia sublime! — exclamou Angélica. que os acolheram com muita graça.

Enfim. mas temíamos não conseguir encontrá-la viva. Apesar de sua garantia. e não os vimos mais. Continuava a segurar-lhes as mãos. Estão preparando um regra-bofe? Estou com náuseas.. de Saint-Castine. Entretanto. como uma criança medrosa. Fechou os olhos. dizia-me com desprezo quando eu lhe tentava demonstrar que o padre não podia estar em Wapassu. Vigiei melhor por sua estrela do que você o fez. "Ela está viva". — Finalmente! Deus seja louvado! — suspirou ela. e.Sentíamo-nos em brasas. E logo reveria Joffrey. — era um contingente de guerra. subitamente fraca. estávamos perto de você — concluiu Colin. Enfim.. — Utakê? — É o nome dele. Sobre isso também nossas discussões não foram fáceis com esse selvagem. e pouco depois. que estamos habituados aos abenakis batizados do Sr. que se encontrava aqui. receando chegar demasiado tarde. se não me falha a memória. pelo próprio Utakê. uma sensação confusa continuava a atormentá-la.. consentiram em deixar-nos prosseguir. depois para nos fazer reconhecer por eles e persuadi-los de que hão tínhamos intenções hostis. "Você não sabe nada". o Padre d'Orgeval. como nós. avistamos. Parece um acampamento índio. insistíamos em dizer-lhe que estávamos impacientes por vir em seu socorro. Os iro-queses continuaram em nosso encalço ou nos precediam. retorquia-me. —Deus seja louvado! — repetia... eu tentava fazê-lo compreender que tínhamos pressa de chegar ao nosso destino. que cheiro de fogo e de carne grelhada é esse. Esses demónios não são nada fáceis. atrasando-nos um pouco devido ao peso das cargas. ao travesseiro. pois.abandonou precipitadamente o que estava fazendo e fugiu. tão forte?. sempre com um desdém supremo. adormecendo ao ver presenças tranquilizadoras. o chefe desses intratáveis convenceu-se de que não pertencíamos aos "normandos". — Ele fugiu. o que nos fez perder alguns dias preciosos. Por outro lado. Não sei se queria apoderar-se de seu fantasma ou de seu espírito. e nós. A afeição de seus olhares pousados nela a reaquecia. . com a voz subitamente embargada. aumentadas por aquelas abandonadas pelos nossos ajudantes índios. Enfim. — Para onde ele se dirigia? — Para Wapassu. pois sabíamos que estava lá. — Os iroqueses estão lá embaixo! — disse Marcial. primeiro para nos defender de sua emboscada. recostando-se. CAPITULO XXXVI O perdão de Utakê — O coração do mártir — Encontramo-los lá pelos lados de Katarunk. Dizia querer "apoderar-se de um jesuíta.. "Eu sou amigo de Te-conderoga. não sei. esse missionário está morto há dois anos. do alto de uma colina. o antigo posto destruído — emendou logo Colin. normando". Não os deixaria mais.. "Não pense que é mais amigo do que eu e que ele me deva menos que a você. Não sei se utilizaram outros caminhos. pois fora morto. quase entornou o caldo. disse ele. retornar ao convívio dos humanos como quando se retorna a casa. as ruínas de Wapassu.. um dia. pelo que nos foi dito. — Colin. Essa reflexão ou nossa impaciência demasiado evidente. Segurava-os agora. não sabíamos como tratálos. senhora. inimigos deles. Seguíamos o caminho habitual... — Meus caros homens! Ia poder voltar a viver. Os índios malecitas e etchemins que nos acompanhavam se retiraram.

apesar de sermos franceses. apesar de o encanto também existir. Ele me gritou: "Aquele que eu procuro está lá. nesse momento. contornamos o lago. E então.." — E eles o pegaram — murmurou Marcial. pelo oeste. e ele se perguntava de onde lhe viera a ideia de que estava enfraquecida e que talvez lhe seria preciso — reencontrando com doçura e compunção em sua fisionomia as cicatrizes do deserto — carregá-la nas costas no caminho de volta. Temos de partir sem demora. sem ter tempo sequer para levar a mão à coronha da pistola." — E então?. Ela o ouvia olhando-o fixamente. cautelosamente. Ambos são da Gasconha. imóvel como uma aparição. . mas nunca estive tão próximo de ter o crânio rachado. Você o deixou escapar!. se se tratar dos iroqueses. — Pois bem. — Avistamos esse homem na outra margem do lago. percebemos o Toga Negra... nem a energia. Angélica permanecia petrificada. não voltar. ou seja. Mas ele começou a descer para nós num passo tranquilo... Somente lá estará fora de perigo. na acepção mais próxima da palavra "arrebatar". "O jesuíta foi diretamente a Utakê. enquanto ficávamos todos em suspenso. como fizera outrora nas estradas do Magreb. quando se aproximou. mas era evidente que as atravessara e dominara sem querer abandonar nada de sijnesma.. brancos e selvagens igualmente petrificados. Se ele não tivesse parado do mesmo modo brusco a alguns passos de mim. e perguntando-nos que intenções se ocultavam por trás de sua audácia. meus companheiros não puderam nem levar a arma ao ombro. Certamente aquele rosto tão querido trazia a marca de provações indizíveis. dizendo-lhe: 'Eis-me aqui'. já lhe dissemos! — replicou. ao qual empenhou lealdade. Vi o chefe mohawk correr em minha direção desabaladamente.. e chegamos próximo da parte baixa do fortim.Segurou a mão de Angélica. sob a perturbação que o subjugava apesar de todas as rudes e rígidas barreiras que o Governador Colin Paturel quisera erguer entre eles. eu estaria morto. Um jesuíta estava em pé lá no alto. Ela o fitava com aqueles olhos claros que se dilatavam. se tivermos algum problema com as pessoas da Nova França. que não podíambs atravessar. nem a vitalidade de coração. e pelas armas. olhos cujo poder conhecera e que naquele momento analisava dizendose que éleS arrebatavam a alma." Protestei energicamente. "Em seguida. ouvindo decrescer dentro dela o eco daquele gongo solene: "Eles o pegaram". e.. para disfarçar a emoção. estendendo-a a nossos olhos. os iroqueses saíram da floresta. límpida e rara. Infelizmente! Aqui a batalha está perdida. Angélica a você e a seus filhos. Não temos condições de defesa ou de ataque. Mas ele parou. E estendeu o dedo para o alto da colina. . O Barão de Saint-Castine e seus etchemins e malecitas nos defenderão de qualquer adversário que apareça enquanto o Sr. acentuando a cor verde. brandindo o tomahawk. — Vamos levá-la de volta a Gouldsboro. Segurava uma cruz.. Esperávamos que desaparecesse. vi no centro do crucifixo uma pedra vermelha brilhante. Ele nos ajudará a nos defender pela diplomacia. nem segurança. e ele fugiu. mais de "apoderar-se" do que de "encantar". "Erguendo os olhos. de Peyrac. comandados por Utakê. Já é muito que esses terríveis inimigos dos franceses tenham concordado em nos deixar com vida. — E o homem? — repetiu Angélica. — Então. Desviou a cabeça.. Um homem sob esse olhar não tinha escapatória. e prometeram-se assistência mútua..

É apenas um jesuíta. Estava agora descalça sobre o tapete castanho-douradó da relva esmagada.. apoiada a ele. Com veemência. os seguiram de perto. Angélica sobressaltou-se. Colin a sustentava. que a acompanhara durante toda a invernada.. Sentia-se mais leve descalça para correr.. — Eu lhe suplico.. enquanto outros iam se postar nas cercanias do fortim e na plataforma. Atravessou. o jovem huguenote de La Rochelle. por quê. só estarei seguro de sua vida quando a tiver levado para a margem. Ajude-me. Eles o haviam levado. ela vacilava. Dame Angélica?.. enquanto. tinha o aspecto de um fantasma. Depois de fincá1© no chão. Ajude-me a andar. Temos de partir o mais cedo possível. pelo amor de Deus. Um de nossos piores inimigos. Correr.. Com que cara vou me apresentar diante de seu esposo se -você não estiver mais viva? Esse pesadelo me atormenta. contou. "Ah! não me amolem com seus 'piores inimigos'!. Seus costumes são sagrados. pensou ela. vivas?!..". trazendo de lá um pilar de paliçada enegrecido. Era realmente ela. entre os quais o grande Siriki. Vestia sua pobre saia velha.. E ainda que tentássemos. Mas eu posso.. Você decide nossa morte! Pense nele! Ela teve uma breve hesitação. talvez.. esquecendo-se de calçar os sapatos. iria sozinha. Mas não teve forças para lançar-se sua resposta. erguendo-se num salto. transportados por um vento sereno. Angélica! Basta de riscos! Basta de loucuras! Já não obtivemos muito do céu encontrando-a a você e a suas crianças.. mas seu olhar não os enganava. — Vocês. Não suportarei que ele caia novamente em suas mãos. recémliberada do degelo. sem saudálas uma ala de pessoas. para o valezinho. sem vê-las. o que fizeram com ele? O que fizeram com ele? Ele virava a cabeça.... — Leve-me até eles! Colin a segurou.. Será preciso matar todo mundo. Não estamos em condições. e não tinha nada de uma moribunda. Pois ele a conhecia e teria agora desejado que ela tivesse dormido por mais tempo. amarraram o jesuíta. — Deixe-me! Você não pode saber. Todos os que a viram aparecer como que saída de um túmulo a reconheceram. — Angélica. quer que nos massacrem? Sabem como eles são com seus prisioneiros. Se eu pudesse andar.. o odor de fumaça e um rumor incessante de tambores. ocupados. lançou-lhe todas as palavras que lhe giravam pela cabeça desde a sua chegada.. gritar com desespero: — Por quê. — Joffrey faria o mesmo! Subitamente ela se precipitou. Aproveitar que eles estão. estou lhe dizendo! Não podemos intervir. Mas . Leve-me até eles!.. Eles não me metem medo. Ouvia Marcial. mas era ela que o arrastava dirigindo-se ao valezinho onde estava reunida a massa sombria e emplumada dos iroqueses e de onde se elevava. Depois seu chefe subira até as ruínas de Wapassu.. prontos para qualquer eventualidade.. segurando os mosquetes. — Angélica.. Não suportarão que os brancos se intrometam. Mais tarde voltar-Ihe-ia à lembrança o choque que sentira ao distinguir o espaço deserto que permanentemente os cercara preenchido de súbito por presenças humanas.. A um sinal de Colin. vários dos homens de Gouldsboro. tiraram-lhe as roupas e começaram a supliciá-lo.— Colin.

que sucumbisse àquela crise de força sobré-humana. contra um céu pálido com trilhas mais verdes nos vales. e tão feroz e terna que as ruínas enegrecidas de Wapassu. Sua cimeira . Era impossível contarlhe. amarrada ao pilar em meio às danças sincopadas de alguns "prestidigitadores" e à fumaça das brasas a seus pés.. pareciam belas.. e o grupo.. por tê-la sentido tão frágil em seu corpo emagrecido. Pôde avançar novamente.. — Eu lhe suplico. Foi a única coisa que viu inicialmente... rápida. De revolta e de pesar. Uma prece ali estremecia: "Meu Deus. magra e miserável. Vai cair. Mas olhando novamente na direção do supliciado. Uma silhueta de carne nua. impelindo-a para a frente. faça que. e era nessa direção que se inclinava seu esforço.. enquanto facas passavam e tornavam a passar lentamente. — Utakê! Utakewata! Dê-me sua vida! Ela ia sozinha. o deus vermelho. Colin não podia saber. eu não chegue demasiado tarde!.... Não posso deixar que façam isso... Era apenas a força de Colin que a sustinha. O coração dela também ardia.. arrastar Colin. como nos pesadelos. cheia de energia e de esperança. Uma natureza virgem e soberba despertara. do outro lado da grande ravina. até o fim dos tempos.. você está fraca. ficou a olhar de longe.. Seu silêncio não era o da morte... Tudo entrou nos eixos. e teve de parar para reter o grito que lhe subia aos lábios e retomar fôlego. Era muito longo para contar-lhe.. — Duas vezes. faça que. não se destrua — implorava ele. longas e longínquas montanhas dos Apalaches se desenrolavam. viu que ele inha a cabeça erguida e os olhos voltados para o céu. Ele voltou para ela o rosto.. um homem branco cercado pelo bale horrível dos machados incandescentes que faziam chiar a pele de suas coxas. devorando-a para sobreviver.. cortando pequenas tiras sobre seu peito. mas do heroísmo. seu olhar era febril. Ouvia aproximar-se o ruído dos tambores.. Colin — murmurava Angélica. Seu cérebro estava como que vazio. — Veja.ninguém queria voltar para dentro. e. as longas. O cheiro de fogo e de carne queimada se intensificava.. De revolta e de pesar impotentes. com as crianças nos braços. em meio às manchas sarapintadas de suas pinturas de guerra... não!. em que uma força contrária nos prega ao chão. E diante dela.. Tudo se tornou diferente. a cavaleiro do lago na ponta do bosque. Teria desejado correr." Lá embaixo!. — Utakê! Utakê! Dê-me sua vida!. Mas ela não o ouvia. Ela chegava tarde demais!.. o que explicava a sensação de estar no mesmo lugar. Receava agora. Tarde demais!. O coração da América queimando a própria carne.. lançando seu apelo numa voz alta e clara. não tenho mais o wampum. — Você não pode compreender.. não! Três vezes.. o deus tutelar da América. enquanto avançava. sabiamente. Mas precisava chegar lá embaixo. Finalmente chegou! E viu imediatamente.. O wampum. Seus pés mal tocavam a terra.

Sou eu que a cumulo de benefícios. Eu lhe enviei o jesuíta para que acabasse com ele. — Queria saber se você era de fato isto: a estrela fixa.. estrela fixa. Você não se desvia de seu caminho. Então..e subitamente. lançaram estranhos fulgores. .erguida e os pingentes das orelhas fremiam.. Com um gesto lento e hierático estendeu para Angélica o braço.. Uma mulher tão louca quanto seu deus. Você me deu sua vida uma vez. que ele falava muito bem apesar do sotaque agudo resultante de uma pronúncia gutural.. numa mistura de dialeto mohawk e de francês. O chefe dos mohawks permitiu-se uma breve risada. — Até quando você me pedirá vidas? — lançou-lhe enfim. Utakê. — Sim!.. Enviei-o para que acabasse com ele — insistiu. — Vocês a ouviram?. — Não! Você sabia que eu não acabaria com ele... Não basta?. agrupadas na encosta relvada. Utakê. na noite de nossos corações.. Pode muito bem dá-la uma segunda. e é ela quem me dita ordens. animando-se — com suas unhas à moda das mulheres. — Portanto. Venho de outro país.. — Eu não o desnorteio. Você me enganou. retesando-s. Estabeleceu-se um longo silêncio. pelo menos. e o que podemos nós contra a estrela que está colocada no centro do céu. e sobretudo dos brancos. Kawa. dirigindo-se com ênfase às tropas iroquesas. Até quando você se obstinará em salvar aqueles que a rejeitam ou aqueles que querem sua perda? O que importa esse jesuíta? Por que quer salvar-lhe a vida? Ele era seu inimigo. você. O rosto pintado pareceu transmudar-se em pedra.. Sua pose mudou um pouco. que atravessou o oceano. Você desobedeceu às leis da justiça.... Eu a desprezo. lhe disse: "Voltarei para buscá-lo e devorarei seu coração". Continuou a se agitar com uma mímica que significava que estava sufocando de indignação e com gestos derrisórios que exprimiam que toda a sua razão era suplantada pela inconsciência dos seres. — Não preciso obedecer as suas leis. Depois. — Olhem! Eis aqui uma mulher louca a serviço de um deus louco. que permaneceu hirto como o de uma estátua. que disse esta frase insensata: "Perdoem seus inimigos". e tenho outro Deus para me julgar. pare de usar artimanhas comigo. Enviei-o a você para que acabasse com ele. — Deilhe a sua e a de seus filhos. você é bem isso. Utakê começou a andar para lá e para cá. os olhos de jade.. Aproximou-se alguns passos. sabia que eu o pouparia. quase sem movimento de lábios. E vem gritar: "Devolvalhe a vida! Devolva-lhe a vida!. Deus-das Nuvens. antes de enviá-lo. Segui-la! Na noite de nossas almas. E você não o fez. Ah! você brilha e no entanto nos desnorteia. mal-humorado.. enquanto ela parava. imóveis nas órbitas dilatadas. os movimentos de seu braço tornaram-se ao mesmo tempo acusadores e líricos. E isso tem seu valor. Ela. tem o coração reto e segue seu caminho sem se desviar. Você o sabe muito bem... As palavras que lhes caíram da boca tiveram uma espécie de ressonância eterna. sua expressão mudou e adquiriu uma gravidade solene.. Ela é louca mas é fiel a seu deus.. mas sua expressão continuava ameaçadora. — Sim. o pirata francês abatido e o Toga Negra moribundo.. Salvou o inglês doente e o iroquês ferido. Não parecia surpreso por vê-la ali. e sobretudo das mulheres!. ei-la.. apontando sempre para a mesma direção?... A prova é que.

Deviam devolver-lhe a vida para que viesse destruí-los novamente? Sua tirada veemente provocou uma aprovação geral por parte dos iroqueses presentes. Um deles. tão profundo e prolongado que poderia fazer acreditar na aproximação da tempestade se o céu não estivesse tão puro e azul. interpelou Utakê de modo mais direto. Não tem o direito de nos tirar a caça. inimigos hereditários e que não tardariam também a pagar por todos esses crimes. Um outro ronco se elevou. agora que o perigo foi afastado. mal havia começado o suplício. multiplicada. O Conselho colocou-me à frente daquilo que restava de nossos povos. graças a minhas astúcias e minhas injunções. : — Seja! Devolva-o — gritou-lhe com raiva. dos guerreiros. cuja sombra encobriria para sempre o espírito de Hiyatgu ao se lembrar dos filhos. — Não é uma caça. Hiyatgu não se deixou iludir. um jovem guerreiro avançou e cortou as cordas que amarravam o prisioneiro. tarefa para a qual ele. adivinhando que tinha o controle da situação. imerecida e prematura. precipitou-se para a'arena. tão atroz. Mas. era difícil de acompanhar. que encontrava finalmente o objeto em que saciar esse ardente sentimento de desforra. traduzida por um surdo ronco. apesar das cordas cortadas. ele permaneceu de pé. imóvel. já lhe retiravam das mãos —. como um animal feroz. Se houvesse. A isso se acrescentava a da vingança. Hiyatgu. Utakê. Cpmo seus associados presentes. as galeras do rei da França. Ainda veria aqueles que se agitavam à sua volta nesta terra? Todavia. quando fui raptado e levado para o outro lado do oceano para remar nos grandes barcos. nós também participamos da caçada. não admitia ver-se privado de uma nobre e difícil tarefa. a dor causada por seus ensinamentos fanáticos. Não comece a esquecê-lo. haviam causado a partida dos seus. desde minha volta. pronunciado em seu dialeto loquaz. seus apelos à guerra contra o iroquês. Sem extingui-lo completamente. para as terras de caça do Grande Espírito. sabia que a aprovação se dirigia às palavras de Utakê. Eles também. instalados em torno da fogueira.O chefe das Cinco Nações recomeçou a andar de um lado para outro. pois. colocaria um bálsamo nos mais vivos ressentimentos. da mulher. a de fazer morrer lentamente um inimigo abominável — que. — Mas não será dito que não obtive nada! . sabendo que ofereceria aos manes dos desaparecidos. orgulho e satisfação. mas. dessa vez. e não entre os mohawks. E. era reconhecidamente muito hábil e cuja execução lhe proporcionava intensas sensações. — Somente eu sofri com ele em minha juventude. Você infringiu os princípios da Liga Iroque-sa. a ordem de Utakê de libertá-lo e sua subsequente execução provocaram a cólera daqueles que participavam do suplício e que. Hiyatgu. chamado Hiyatgu. Seu discurso. por suas ordens. sempre os defendi de suas emboscadas. A um sinal deje. — Não existe chefe supremo entre nós. conhecendo seu adversário. mas meu inimigo — retorquiu Utakê. ele seria escolhido entre os onondagas. preparavam suas ferramentas de tortura com a aplicação e a seriedade de trabalhadores conscienciosos. sem se perturbar. mortos nas muralhas de sua cidade de Onondaga ou nas chamas daquelas Casas Compridas incendiadas. — Pois bem! Eu lhe darei sua vida! Não quero que escarneçam de você por ter respeitado os preceitos loucos de seu Deus louco — declarou. dos quais faço parte. nem apagar o luto. acolhidos com tão boa vontade por aqueles traidores huronia-nos e aqueles malditos algonquinos. mas seu furor era visível e os gestos exagerados o tornavam explícito.

Num salto. mulher longínqua e terrestre. pegando-o pelos braços. Quando dois homens. triunfante. inclinando-se até envolvê-lo com os braços e aproximar o rosto do dele. Insensível à indignação e à cólera que provocava. brandindo o machado e o tomahawk. pulou sobre o prisioneiro. E eles comerão seu coração. E. ele não caía. aspergia a relva de sangue ao seu redor. cortou com uma lâmina aguçada o alto da testa e puxou. O jesuíta permanecia de pé. o sangue corria-lhe pelo rosto em mil regatos enceguecedores. encostado ao pilar do suplício. A vida apagara-se na face sangrenta. Ela compreenderia? Mas ela compreendia tudo.. girando um em volta do outro. eu lhe prometo — disse a meia-voz e ainda que essa decisão lhe fizesse mal —. cego por uma súbita chuva de sangue. Ela se ajoelhou. tiras de carne que ali se grudaram... e sua palavra traída pelo . eu o entregarei aos iroqueses.. ajoelhada num chão duro sujo de sangue. mas. Foi aquele corpo sangrando que arrastaram e lançaram aos pés de Angélica. Não voltaria mais dentre os mortos. eu o entregarei a eles.. louco de raiva por ter visto sua supremacia e seu direito de clemência questionado. desprenderam-se. Chamou a meia-voz: — Padre! Padre d'Orgeval! Meu amigo! A voz dela. na última hora. De seu crânio escalpelado. Empunhando-lhe a cabeleira. Ele a via mas distanciava-se como num navio rumo às margens ida alegria eterna. Leu ainda nele uma súplica ardente. podia alcançá-lo nas zonas do inferno. Um guereiro puxou-o para a frente pelo ombro. Um grito saído de todas as bocas sublinhou seu ato imprevisto e cruel. os dois chefes haviam prosseguido sua querela. Estava tão próxima dele! Tinham seguido juntos trilhas pouco comuns. haviam explorado o dédalo dos mistérios do Amor e das múltiplas aparências sob as quais se dissimula sua chama. E você permanecerá entre eles. Durante essa cena. e ela sentiu que permanecia.. aspirava ao mérito. pesada. para sempre. mas que. o ardente desejo de um coração que viera para a Nova França para a salvação dos selvagens e que os amara tanto. Seu olhar ainda azul iluminou-se com uma centelha de alegria. Indagava-lhe suplicante quem iria dispor de seu cadáver. Utakê. ou do paraíso onde seu espírito já vagava? Desejava ouvi-la? Ele levantou as pálpebras. pois as pálpebras haviam se fechado sobre o olhar ainda brilhante. Viva para que meu sacrifício não tenha sido em vão"... balançando seu trofeu como um incensório ou um hissope. pôs-se a emitir urros alucinados. — Sim. cortados por imitações de cânticos cristãos. apesar disso. Seu olhar turvou-se. e ela julgou ouvir a adjuração que ele lhe repetira com tanta frequência: "Viva! Viva! Por seu triunfo e por nossa luz. Dessa vez ele acabara. afastou-Sé. o arrancaram do pilar.Sua manobra foi demasiado rápida. depois uma expressão grave e imperiosa. continuando a se desafiar. na obscuridade da terra. triste e quase humilde de um homem que não se julgava digno. A última exigência de sua vocação. Houve então um brilho zombeteiro. Angélica desamarrou o lenço de pescoço e tentou suavemente estancar-lhe o sangue. Hiyatgu. da espinha até os rins. primeiramente pelo insulto depois entregando-se ao bale da luta. sempre de pé.

O dia já ia muito alto para que se pudesse organizar a partida. Este coração é puro. Finalmente. e a luta entre esses últimos sobreviventes das Cinco Nações estava prestes a estourar e se transformar em batalha. — Mas ele está envenenado — retorquia o outro. e que não conseguiram ser atingidos por golpes suficientemente mortais para colocar este ou aquele fora de combate. imaterial! A pressa de arrancá-la às loucuras mortais que campeavam naquelas paragens apoderou-se dele. aquele coração tão discutido. Vamos alimentar-nos deste coração purificado. e nos guiará para saber o que devemos esperar deles. confrangidos ao mesmo tempo por uma dor e uma esperança imensas. Ele nos inspirará. partilharam e devoraram o coração de seu inimigo Hatskon-Ontsi. O céu tornava-se vermelho no poente. com passes e cambalhotas magistrais e que concluiu resolutamente pela vitória.. Este coração está purificado. Assim que os chefes iroqueses pegaram das mãos de Angélica o corpo do Padre d'Orgeval. ao devolvê-lo a nós. Dessa vez Utakê foi o mais rápido. Utakê levantou.como um punhal oscilava no céu de um azul primaveril. a paz para nossos cantões que renascerão. dos dois chefes. — Não! Não é assim. O mais rápido a abrir o peito do morto e arrancar-lhe o coração. quando a lua de cornos pontiagudos . deve ser assado. Temos de comê-lo palpitante ainda.' Seria preciso ficar até o dia seguinte.gesto do rival. Enterro o machado de guerra ao mesmo tempo que devoro este coração. Ela era tão leve. . A mulher branca fezrse fiadora dele ao reclamá-lo. Então. os outros fizeram silêncio. perolado de sangue. este. A discussão alteou-se a graus de veemência elevadíssimos. na ponta dos dedos. ficou decidido que Utakê e o outro se bateriam num duelo iroquês. — Eu sou filho da Paz. por assim dizer. lembrando-lhe incessantemente que as sentenças que estatuíam o destino de um prisioneiro deviam ser tomadas no Conselho. O coração de Hatskon-Ontsi não tem mais veneno. o jesuíta duas vezes morto e várias vezes mártir.. Na luz púrpura. mas a questão foi acertada pela eloquência de Utakê. O dia acabava. com o machado e o tomahawk. Ele nos trará o conhecimento desses franceses indomáveis que nos confundem o espírito e enganam nossos corações. a disputa se reacendeu quando se colocou o problema de saber se o coração do jesuíta seria comido assado ou cru. Foi portanto um combate muito curto e cerrado. porque ele deve nos comunicar sua força sobre-humana e sagrada. Poderemos marchar em busca da paz. essa querela em palavras e ameaças foi sangrenta. pouco usada por aqueles chefes. e que o chefe dos onondagas tinha prioridade sobre o dos mohawks. os chefes das Cinco Nações Iroquesas sobreviventes. receberemos os conselhos deste coração que nos trouxe o ódio e que nos amava. A paz para nossas aldeias. sem muita dificuldade. a confiança que devemos concederlhes para sua sobrevivência e a nossa. Colin Paturel levantou a jovem mulher nos braços e a levou até o forte. pois não fomos todos exterminados. — Para não Se tomar seu veneno ao mesmolempo que sua força. Mais tarde. Embriagados mais por uma mágoa que não conseguiam definir do que pela aguardente. tão fortes um quanto o outro. Tocados pelo respeito. — Ei-lo.

Essas palavras não chegavam até ela. Podia acreditar que nada acontecera. Oh! realmente. Por que dormi? Continuou a chorar. 'Os homens haviam surgido.. o relógio do tempo soara. com seus mineiros.Como era autoritário!. de Peyrac está adormecida. As portas de gelo se romperam. dizia ele. Ou poucas coisas. tesouros que era preciso agora levar com vida para as praias.. . era maníaco como uma mulher!. Alguns meses de inverno para atravessar.Com as ventanias noturnas aproximava-se uma noite gelada. veladas por pares de olhos zelosos e enternecidos. apenas o som de uma voz diferente que rompera a noite eterna dos dias de inverno. saciadas de guloseimas. tenha a bondade de recolocar este santo objeto no batente da lareira.. que não as perdiam de vista um só instante. sob a guarda de sentinelas que se fenderiam a cada duas horas e que vigiariam permanentemente os bosques. dizia algumas palavras que aludiam à paz que encontraria entre eles em Gouldsboro. e. quando via a onda de soluços se acalmar. As crianças.. familiar. Nada a não ser alguma coisa muito simples e muito natural na vida dos homens. afinal. Ela tem estado muito doente. que não deveria tardar. — . Via Colin sentado ao seu lado.. Mas'quando os selvagens o pegaram eleretirou-o e deu-o para mim: Disse-me de modo muito cortês.. artesãos. quando o arrastavam: "Suba depressa para o forte. à volta próxima do conde. — Colin. mas muito firme: "Senhor. as lonjuras. sempre ali.. As crianças' estão sozinhas!. Dormiam apertando nos braços os brinquedos trazidos para elas de Gouldsboro.. Uma pancada. no quarto em que neste momento a Sra. atento. por favor. os arredores e mais assiduamente o valezinho onde faiscavam as fogueiras dos iroqueses e de onde chegava. o ronco lúgubre dos cantos e dos tambores. Recriava-se o alegre ambiente que haviam conhecido os homens de Peyrac na primeira invernada. "Tudo tem fim!.. Bens preciosos que se julgavam perdidos. mãos diligentes haviam acendido fogos em todas as lareiras... Um fantasma acompanhando-a com sua força para ajudá-la a chegar ao fim do túnel: Teria podido acreditar que ele não existira. mas ei-la fora de perigo. Acampariam no velho abrigo aquela noite. e a inquietação e a ternura daquele olhar claro. e no fortim. ele teria tido tempo de fugir. se não houvesse esse crucifixo.. Subitamente. tudo recomeça". E foi o fim dos dias sem fim. Quero que ao despertar veja este crucifixo em seu lugar habitual". você não me disse que o jesuíta levava ao pescoço um crucifixo. soldados. trabalhadores.. e que caminhava estendendo-o a você? — Isso mesmo. que ela percebia com sua pequena cintilação Vermelha refletindo as luzes do fogo.." Angélica começou a rir em meio a suas lágrimas. estrangeiros de todas as nações e aventureiros de todo tipo. Angélica pediu que a deixassem chorar sozinha. em lufadas. Mas Colin ficou junto dela. — Por que dormi? Por que dormi tanto tempo? Se eu tivesse acordado no momento em que vocês chegavam acompanhados dos iroqueses. Gritou-me de longe. já haviam comido e dormiam no antigo quarto dos Jonas. — Não creio que quisesse isso — disse Colin. Era um maníaco!. Ela erguia as pálpebras doloridas e via-se sozinha na jangada da sobrevida. mas mais suavemente. Teria podido acreditar que havia sonhado. para esses detalhes.

esqueci-me de pedir-lhe informações. um pouco antes da aurora... Não havia necessidade de . com uma piscadela cúmplice. olhando-a recair no sono como que sob o efeito de um desmaio. meu cordeiro — murmurou-lhe. Abigail pensara em tudo. pensava. A segunda fase de seu repouso. se tornou preciso. Como ela estava fraca. mas são eles. Colin Paturel ajoelhou-se junto dela e colocou os lábios sobre a mão abandonada. — Obrigado! Obrigado. como para lembrar-lhe um segredo entre eles. pelo menos alguns dentre eles. e julgava lembrarse de que a menina estava interna no colégio das religiosas em Montreal. Ela lhe explicou que era preciso ir ao encontro deles ou convocá-los imediatamente.. pelo odor dos longos meses passados nas trevas. afirmou-lhe que ficariam em Wapassu o tempo que fosse preciso para esperar Honorina.. pois apenas por eles podia esperar obter notícias de Honorina.. e que ainda tinham uma obra comum a resolver. Seus olhos eram azuis e não havia nenhuma brecha negra no sorriso dos.CAPITULO XXXVII Um último discurso de Utakewata — Notícias de Honorina Mais tarde retirou as roupas sujas de sangue do mártir e impregnadas pelo cheiro de fumaça. — Graças a Deus!. ouvindo o mar bater nas praias de Gouldsboro.. Levahte-se". Logo estaria junto à doce amiga. — Tenho de esperar Honorina.. Se ela passou o inverno numa de suas nações. nervosa e diáfana!.. Zangada consigo mesma. Desejava chorar mais. prometendo interiormente convencê-la no dia seguinte. — Os iroqueses ainda estão por aí? — Sim! Muito ruidosos e desagradáveis.. que não tivera tempo de tratar. mas ao ver-se vestida com roupas limpas e pouco usadas e reconhecer nas pregas da saia. com todas as energias reanimadas. pelo odor do inverno. mas num quarto ensolarado. Era preciso dormir. perseguindo um pensamento que lhe fugia mas que. apesar da chegada do dia. deixando-se rodear por suas atenções.. vendo Angélica agitar-se. Soube que dormia quando o rosto de jesuíta veio inclinar-se sobre o seu.. atirou-se para fora da cama. Por ora. Estava sozinha dessa vez. a noite ainda era profunda. Deslizou para o sono tranquilamente. Haviam-na deixado dormir. — E verdade! Honorina!. continuam a parlamentar e a querelar no fundo do valezinho.. Colin Paturel ignorava tudo a respeito da odisseia de Honori-na. foi para Angélica mais turbulenta. repetia. "Os iroqueses. que podiam me dar notícias de Honorina. enquanto esperava que surgissem as velas do navio que traria Joffrey de volta.. ao final. do blusão e do lenço o perfume discreto de sua amiga Abigail. Colin pôde satisfazer-lhe a vontade logo. Sem tentar distraí-la de sua ideia fixa. "Os iroqueses! Os iroqueses!". para nossa infelicidade. —Obrigado por ter salvo a felicidade de nossas vidas suplantando sua morte. Ela não sabe que Wapassu foi incendiado e tentará encontrar-nos aqui. insistiu." Acordou gritando: "Os iroqueses". Julgou que fosse dizerlhe: "Há um alce lá fora!.belos dentes. que continuava à sua cabeceira.. uma euforia benfazeja a conquistou. Eu sei por que não quero deixar wapassu — disse a Colin. Mas. Mas ele contentou-se em sussurrar-lhe: "E Honorina?". mas sempre indomável. Inclusive juntara ao que mandara um saquinho de cascas de quina trazidas por Shapleigh.

lembrando-lhe sua presença com uma voz gentil. Uma pequena mão colocou-se sobre a sua. que haviam andado pelos bosques à procura de peles. e cujos contingentes de guerra vinham de muito longe semear o pânico entre os algonquinos do leste. anos antes. Ao longe. Com ele.. Seus dois rebentos. Angélica percebeu a grande poltrona de madeira que fora levada para fora. a multidão castanha dos iroqueses se agitava. esquecido de que sobre sua planície branca ela correra. no fundo daquele covil. e principalmente os ferozes iroqueses.convocá-los. — Se eles subirem sem armas. . Utakê fizera-se anunciar com os seus para dali a uma hora. pousada no braço da poltrona. epidemias e fome. distinguia uma parte do Lago de Prata. Conserve sua mão na minha e fique bem ereto como o orgulhoso soldado que é. — Sim. e que lhe devolveria a esperança. que suscitou murmúrios de desaprovação ao seu redor. Temia apenas perder a paciência. Pediu aos dois rapazes encarregados de vigiar Raimundo Rogério e Gloriandra que viessem colocar-se ao seu lado com as crianças.. Ou ser vencida pela impaciência durante o discurso. — O mensageiro do mohawk recomendou que lhe fosse preparada uma cadeira para que você possa escutar. provando-lhes que não inspiravam receio e que eram recebidos como amigos da família. e seus gestos de idas e vindas pareciam indicar que estavam se preparando para partir. Angélica tomou assento na poltrona preparada para ela. sua arenga. Estavam vindo até eles. em sua espera de receber algumas notícias sobre a filha. e que será longa. você também. na curva verdejante do valezinho. arrastando um cadáver de alce. estava persuadida. não deixariam de se interessar por aquele espetáculo multicolorido de uma delegação iroquesa. quando haviam chegado em caravana para encontrar. percebido. Deveria pois esperar sem nervosismo o final da arenga. Dele talvez obtivesse uma indicação. De sua parte. você é meu filho. podia-se esperar qualquer coisa. ou-que tinham tido a oportunidade de viver nas aldeias fronteiriças. — Eu também estou aqui — disse-lhe Carlos Henrique. alguém que a tivesse visto. que lhe pareceu mais deserto ainda que nos primeiros dias. muito temidos. a maior parte daqueles que tinham vindo das margens para socorrê-los nutria uma forte desconfiança em relação-aos índios do interior. Fora alguns. Angélica permanecia calma. apesar das guerras. mas não era por isso que tomava essas medidas. será preciso que nossas sentinelas dissimulem as suas — recomendou Angélica a Colin. Vai ficar de pé ao meu lado e me ajudar a receber o chefe das Cinco Nações. A esquerda. O que mais lhe iria pedir Utakê? O impossível. mais ainda em relação aos iroqueses. "Esses índios." Na esplanada. Tinha pressa de interrogar Utakê. não temia nada. quem sabe falado com a menina. que ele pretende dirigir-nos antes de despedir-se. jamais os compreenderei!. sacudindo a cabeça com resignação. seu olhar abarcava a perspectiva de Wapassu. Saindo. os quatro mineiros que já haviam começado a trabalhar ali.. perseguida pelos lobos. reverberando ao sol.. sem fadiga. Angélica abraçou-o e apertou-o contra o peito. Ela explicou àqueles que se inquietavam que a visão das crianças lisonjeava os índios. meu valente compa-nheirinho. garantindo-lhe que estava viva. ou talvez nada. homens do grupo.

Cada palavra puxava outra e ia mais longe. — Mas Teconderoga não está mais aqui. Apesar do penacho de plumas e de peles. nós dois. É a lei. e de uma força tão grande! Foi o que disse o Toga Negra: 'Unidos não se pode abatê-los. Porque na realidade não há inimigo e não há guerra. Quanto a ela. as palavras adequadas. "Você. Provavelmente.ocativo ao chefe dos onondagas.preciso separá-los'. ladeada pelo pequeno Carlos Henrique. mas pode conduzir à ponte. Um sol pálido.. ele começou falando com toda a simplicidade sobre sua querela com Hiyatgu. se não quiser perder tudo. como de meu combate com Hiyatgu. em seu francês castigado. leve e invisível para me agarrar. foi de curta duração.. arcado sob o peso da ciência. o que é um sofrimento e um perigo. Mais tarde. Utakê talvez o tivesse ouvido em sonho. Ele se mantinha na terra. você corria para a frente. Ele obrigou minha razão a pensar um pouco ao lado de seu caminho habitual. quando. você é o espírito flutuante de Teconderoga. e quase sem rancor. assegure-me que aquele que morreu ontem não voltará . e você.. num percurso de várias léguas. Soube disso quando os vi em Kátarunk. jamais. Mas a cláusula é secreta e é preciso esconder-s.. Todavia. não houve vencedor nem vencido. Kawa. para que se escondessem atrás da casa ou nas brenhas ao redor. de pé atrás dela. Assegure-me. Levavam na cintura as machadinhas de combate e os tomahawks de pedra vermelha ou branca. e você vai partir. que se mantinham com a mecha pronta para o ataque. os meandros das grutas e rios subterrâneos. depois do fogo. — Tenho ainda necessidade de ouvir uma palavra apenas de sua boca. Foi um combate que nada decidiu. Dois e unidos. eles estavam magros. lembrar-se-ia dela como uma mão aflorando as cordas de uma harpa. e Angélica fez sinal aos portadores de mosquetes. e cujos sons chegassem até ela amplificados pelo eco. E eis por que Hiyatgu está vivo. Ignorava que haviam vivido escondidos longos dias nas trevas da terra. um sol ainda frio de inverno os iluminava. cerdas de porco-espinho nos cabelos levantados. colares de dentes de urso. contrariamente ao aviso que havia dado. Mas. Eis-me obrigado a andar ainda um pouco ao lado de meu caminho. foi um discurso difícil de compreender. Tinham deixado os mosquetes no vale. e que lhe pareceu mais tenso e menos à vontade que se tivesse de tomar de assalto toda uma frota de piratas das Antilhas. atravessando. E eis-nos aqui diante de você com vida. Kawa: de seu último combate. braceletes de penugens tingidas de vermelho. Sua carne pareceulhe pálida sob a retícula azulada das tatuagens. Eis por que eu o poupei — disse.e daqueles que não vêem a ponte e que não compreendem por que nós a atravessamos. Sebastião d'Orgeval-explicara isso ao chefe das Cinco Nações?. lançando um olhar prov. O que significa. seguidos de uma massa de guerreiros reunidos.— Eis nossos teatrais que avançavam — disse a Colin." Onde. "Teconderoga me fez fazer coisas bem estranhas desde que o vi. Apenas um precipício e uma ponte que faltava para passá-lo. Os chefes das Cinco Nações pararam a alguns passos da poltrona.. e pelo eco do eco. quase tão magros quanto lobos esfomeados. Ele torcia meu ser por dentro como uma pele ria água do rio. tal como as linhas superpostas das montanhas.. — Um de nós deveria estar morto. É. A homilia de Utakê. olhava-os vir sem receio. ainda que tivesse escolhido com cuidado.

e este. — Ofereço-íhe este colar de porcelanas — disse ele. mas precisava responder-lhe'e devolver-lhe a confiança. pretas e malva. Não estava em condições de lançar sobre o futuro um olhar otimista. ficando surpresa por ver o chefe das Cinco Nações inclinado diante dela e apresentando-lhe nas duas palmas uma fina tira de couro com contas de koris brancas.. Talvez se pudesse encontrá-lo nos escombros. pela apresentação e refutação dos argumentos de sua defesa e de seus ataques. Do mesmo modo que Teconderoga me fortalecia. Eu sei que você principalmente o sentirá presente para ajudá-lo na sua tarefa e combater ao seu lado. Digo-lhe isso porque foi o que ele me disse e porque é o que sinto também. — A fome e a derrota enfraqueceram a clareza de minhas pres-ciências. uma resistência que poderia levá-los até a noite. Assim são os sinais. e sobretudo seu interlocutor. — Não irá ele aplicar-se em ajudar seus irmãos de raça. mesmo feridos ou ameaçados como estavam presentemente.. mas sabia que. surpresa de ler em seus traços impassíveis uma ansiedade real. — Ele desapareceu no incêndio de Wapassu. Angélica fechou os olhos. tomando fôlego por um longo período. julgara que ia desfalecer. a fim de continuar uma discussão "de valor". mostrando. — Você fala no passado. . iroqueses das Cinco Nações. Utakê. Hatskon-Ontsi perturbava e enfraquecia meus julgamentos. Daqui a algum tempo ele se infiltrará entre você. — É tudo o que me resta do tesouro de guerra dos mohawks. que comeu seu coração. Nesse breve instante em que fechara os olhos para refletir. de tal modo estava fatigada. Reabriu-as corajosamente.. os selvagens. os franceses. que os franceses chamam de "agniers".. a América que deixavam para trás parecia-lhe como um campo de ruínas. Você. uma terra queimada. não o perca. As pálpebras de Angélica fecharam-se novamente. sabe agora como ele os amava. Não há vencido nem vencedor. A imagem de Wapassu destruído. — Você é avisado dessas coisas melhor que eu mesma. você dizia. Dá a si mesmo a resposta. cujas pupilas negras refletiam uma centelha de alegria e triunfo. e foi por vocês que ele veio. — Você crê realmente? — recomeçou Utakê.para nos destruir. mas erguendo as pálpebras com dificuldade. e o wampum que teceram com suas próprias mãos está enterrado sob as cinzas. porque nunca houve inimigo. uma terra que se devoraria a si mesma até que os renovos de raízes mais robustas conseguissem firmar-se e dominar o caos." — Cpmo você pode duvidar? — disse ela. não? — As mães que o enviaram a você estão mortas — disse Utakê com uma voz cava —. — Ele terá descoberto que você mereceu tê-lo ao seu lado para apoiá-lo e aconselhálo até o fim de seus dias — respondeu com firmeza. — Mas eu não perdi o wampum das Mães das Cinco Nações que você me enviou em nossa primeira invernada aqui — protestou Angélica. contra nós? — Não! Os franceses não precisam dele da mesma forma que vocês. — Quer dizer que ele terá descoberto a justiça de nossa causa e a horrível traição com que nos oprimem nossos inimigos? — interrogou o mohawk. eram capazes de adiar sua partida e minimizar o perigo que os espreitava. Veio para ficar entre vocês. ou pelo menos adormecer. Guarde-o como símbolo de minha aliança eterna.

Ele recuou alguns passos, deixando o fio de conchinhas enfiadas sobre os joelhos de Angélica. — E agora tenho de dar-te notícias de sua filha, cujo nome é impronunciável,« que nós, iroqueses, chamamos de Nuvem Vermelha — disse, num,tom voluntariamente neutro e comedido. Mas seu olhar faiscou de malícia, rejubilando-se antecipadamente com o que ia suscitar com essas palavras numa francesa tão impulsiva quanto aquela que estava à sua frente e que, ainda que se esforçasse por respeitar as maneiras ponderadas dos índios, continuava submetida ao sangue fervilhante e anárquico da raça dos caraspálidas sem educação. Não podia falhar. Angélica soltou uma exclamação de alegria, e sua expressão dolente deu lugar à mais desperta excitação do mundo. — Honorina! Minha filha Honorina! Você sabe alguma coisa sobre ela?... Sabe onde ela está? Ah! diabo de mohawk! Por que se calava? Por que não.o disse logo? — Porque em seguida você não teria escutado coisa alguma dos discursos que eu tinha de fazer-lhe. Não teria dado a menor atenção às palavras muito importantes que tinha a lhe comunicar antes de deixá-la, para talvez nunca mais rever, e eu fazia questão de me dirigir a uma pessoa atenta. Você não teria sequer notado, eu a conheço — disse com um grande gesto desiludido —, que eu lhe oferecia meu único ramo de porcelanas em sinal de aliança eterna, ó Mãe que você é! ó Mulher! Mulher! Mulher que você é, pois você é três vezes mulher, pela lua e pelas estrelas. Há mulheres que podem se lembrar do homem que foram num outro ciclo, e encontrar as palavras ou atitudes que não chocam absolutamente a dignidade daquele que a ela se dirige, mas você sempre foi demasiado mulher para se preocupar com isso... — Fale! — exclamou Angélica, agarrando-se com ambas as mãos nos braços da poltrona. Se estivesse lidando com Piksarett, ter-se-ia levantado para sacudi-lo por suas tranças de honra. — Fale! Eu lhe suplico, Utakê! Diga-me tudo o que sabe sobre ela e não me faça esmorecer, ou prometo que vou me lembrar que fui também um guerreiro que manejava o cutelo melhor que você mesmo, e que o fez compreender isso uma noite junto à fonte, e isso não aconteceu numa vida anterior. Utakê deu uma gargalhada, imitada por seus companheiros, que não compreendiam inteiramente a alusão, mas apreciavam a animação da cena. Depois, acalmando-se: — Seja! Dir-lhe-ei tudo o que sei sobre ela. Vou primeiro dizer o que sei com certeza. — Onde ela está? Está viva? Você a encontrou?... O mohawk fez uma expressão melindrada. — Se eu a encontrei? Que está dizendo? Se ela partilhou todos os meses de inverno a vida de uma família na Casa Comprida do ohtara do Chevreuil aux Oneiouts, e, todos os dias, eu, que me dirigia ao Conselho da Federação como chefe das Cinco Nações, via-a e conversava com ela, até o dia em que, maldito seja, o novo Onôncio de Quebec conduziu novamente suas tropas até nosso vale dos Cinco Lagos e queimou o provoado de Tuansho, apesar de suas fortes paliçadas, após um combate assustador. "É por isso que não posso responder com certeza à primeira pergunta: 'Onde está ela?...' Nem à segunda: 'Ela está viva?...' Pois, talvez você o ignore, quase toda a população desse povoado pereceu, exceto alguns poucos miseráveis que consegui

arrastar comigo e subtrair por minha habilidade ao furor vingador dos franceses e de seus danados huronianos, e desses cachorros de abenakis. Tudo o que posso dizer com certeza é que ela não estava entre nós." Ele repreendeu com um gesto o movimento desesperado de Angélica. "Sei que algumas mulheres e crianças iroqueses, disseram-me, foram levadas pelos franceses até as missões de São José ou de Quinté, perto do Forte Frontenac, mas não posso dizer-lhe seguramente se ela estava entre elas." Cobrindo o rosto com as mãos para dissimular seus traços, Angélica recusava-se a encarar que a criança tivesse perecido nas chamas das aldeias incendiadas. Era impossível. Era-lhe pois preciso desejar que Honorina estivesse em poder do.s franceses, seus compatriotas, que eles a tivessem levado de volta a Madre Bourgeoys ou a seu tio e sua tia do Lobo. Utakê levantou os braços com solenidade como para reclamar do céu a inspiração e, das pessoas presentes, a mais escrupulosa atenção. — E agora vou lhe dizer o que sei dela, Nuvem Vermelha, por vidência. Fechou os olhos e começou a sorrir. — Ela chega! — murmurou. — Ela vem para você! Nao se apresse em deixar estes lugares, Kawa, pois sua filha se dirige para o Lago de Prata para aqui encontrá-la. Ela está acompanhada... por um anjo!... Novamente deu uma sonora gargalhada como se tivesse sido testemunha de uma brincadeira. — Ah! Você me escuta neste momento, e desta vez sem dormir!... Ria cada vez mais, sustentado pela hilaridade de seus guerreiros. E com essas explosões de uma alegria franca, suscitada mais uma vez pelas expressões aturdidas dos brancos, e por suas dificuldades em dar fé às revelações tão seguras dos sonhos, os iro-queses se afastaram e se separaram daquela que provavelmente jamais tornariam a ver. Atordoada pelo que Utakê acabara de dizer-lhe, Angélica compreendeu demasiado tarde que eles se haviam eclipsado. E quando quis pelo menos fazer voltar Utakê para pedir-lhe mais informações e despedir-se melhor dele, não se encontrou mais nem sinal do chefe mohawk nem de seus companheiros. — Por favor, alcancem-no — suplicou ela. Utakê não dissera sobre Honorina: "Eu a via todos os dias?..." Queria interrogá-lo sobre a menina perdida no coração da vasta América. E depois deu-se conta de que em nenhum momento pensara em agradecer-lhe pelos sacos de alimento que ele lhe mandara por intermédio do jesuíta. — Alcancem-nos! Mas não conseguiram encontrar os iroqueses, que haviam partido à procura dos fragmentos errantes de suas tribos, a fim de reconduzi-los ao vale dos Ancestrais, e à procura de seus inimigos para exterminá-los. Tinham-se diluído na vasta paisagem de montes, bosques e abismos, nas pistas invisíveis e não-traçadas. E, para dizer a verdade, ninguém se sentia realmente muito ansioso por alcançá-los. CAPITULO XXXVIII A odisseia de Cantor e Honorina Cantor puxou o barco para a pequena praia, num recanto do rio, e depois, içando-o sobre a cabeça, carregou-o até um abrigo de rochedos, onde o escondeu sob os galhos.

— Não iremos mais muito longe pela água — disse. — Temos de ir a pé. Mas se andarmos bastante, poderemos estar em Wapassu um pouco depois do meio-dia. A criança índia que o acompanhava opinou com seu penacho vermelho de cabelos eriçados, e pôs-se a andar docilmente atrás dele. Cantor segurava-a por uma corda presa ao pulso, pois a criança estava meio cega, e, no início de sua viagem, por várias vezes, quase a perdera ao atravessar florestas muito cerradas. — Onde arranjou esse selvagenzinho? — perguntara-lhe o boticário do Forte Orange, naquela noite em que, depois de atravessar mil perigos, puderam dormir ao abrigo das muralhas da cidadezinha anglo-flamenga, no alto Hudson. Respondera que era um órfão iroquês, que recolhera entre os sobreviventes dos massacres, e epidemias que haviam dizimado o vale dos mohawks. Era difícil confessar ao bravo holandês, que, muito caridoso, fora buscar uma pomada para cuidar dos olhos do pequeno ma-quas, que o bugrinho era sua meia irmã Honorina de Peyrac. Honorina fora enfim encontrada por ele num campo de refugiados do lago Ontário, entre as mulheres e crianças iroquesas reunidas pelos franceses sob a ptoteção dos sulpicianos de Quinte. O Sr. de Gorrestat, o intratável e limitado governador com que fora brindada a Nova França — provisoriamente, dizia-se, mas que parecia um pesadelo —, não esperara o degelo completo das neves para lançar novamente seus exércitos contra os cantões iroqueses. Foi assim que Cantor, que, ele também, desde os primeiros sinais de degelo, se pusera a caminho, não sem incorrer no risco de enfrentar as últimas e temíveis tempestades do rigoroso inverno, só encontrara, quando se aproximou das regiões onde queria procurar sua jovem irmã, povoados devastados pelos combates, fumegantes ainda dos incêndios. Desnorteou-se perguntando-se se não estaria morta, onde deveria investigar. Diziam que os iroqueses tinham "desaparecido da face da terra... Um contingente dos mais valentes e dos principais "capitães" daquelas nações, entre os quais o incansável Utakê, evaporara-se no momento de uma batalha decisiva, e os viajantes e exploradores de bosques supunham-nos escondidos da perseguição dos franceses e de seus aliados índios sob os labirintos subterrâneos de grutas, cuja longa rede se desenrolava invisível através de várias dezenas de milhas. Mas nenhum branco jamais penetrara ali. E corria uma lenda de que a obscuridade era ali tão profunda que uma permanência muito prolongada naquelas trevas fazia perder a visão. Cantor ocupava-se com os sobreviventes, sobretudo com as mulheres e as crianças, entre as quais lhe restava uma esperança de obter alguma informação sobre a pequena Honorina. Jamais esqueceria sua alegria, mesclada de terror e de compaixão, quando finalmente a encontrara, uma noite, à luz das fogueiras, quando a segurara nos braços, uma pequena caça gordurosa, magra de fazer medo. Terror porque por pouco não a reconhecera sob seus trajes de menino, repudiando-a inicialmente; então ela escapara e ele tivera de percorrer todo o campo lançando seu chamado de antigamente: "HonnL. HonnL." Compaixão, descobrindo-á desfigurada pelas marcas da varíola, cuja epidemia começara por dizimar as populações iroquesas já durante o inverno. Não diziam até que fora o Sr. de Gorrestat que tivera a ideia de mandar introduzir cobertas de comércio que haviam abrigado variolosos entre os inimigos, cuja perda pretendia?... Mas diziam tantas coisas! Os flagelos abatiam-se sobre aquelas regiões selvagens como o furacão. Dir-se-ia que as intenções tinham possibilidades de materialização e

de rapidez anormais. e. receber-lhe a aprovação. não puderam voltar para os odjibways sem "se perder". Tinha vontade de dizer-lhe que ela se parecia com um porco-espinho sem touca. a casa deles. subiriam novamente para Goulds-boro. cuja pista maltraçada os levava a Wapassu. os espanhóis. Ele se voltava e olhava-a andar atrás dele "com um profundo sentimento de felicidade. a travessia das aldeias irOquesas incendiadas. Em Quinté. por outro lado. Era bem feito para essas mulheres idiotas que queriam que eu fosse buscar lenha ou apanhar o animal morto pelo caçador. os Jonas. caía. que a gente se dispunha a conquistar o mundo para ser digno dele. Cantor se interrogara. num passo estugado. eram seus amigos.Que importa! Está viva! Nossa mãe a curará!" Sua única oportunidade. mas dos quais Honorina não parava de falar-lhe. De voltar o mais depressa possível para a casa dele. "Maldito inverno!". enfrentando os barrancos do degelo. pensara: ". O périplo teria exigido vários meses. Tivera de carregá-la nas costas e acabara por prendê-la com uma cordinha. carregando-a nos braços. o perigo dos lagos e dos rios. seguia a linha da crista dos montes eriçados. Só o conseguiram graças a uma fogueira que Cantor acendera para eles. tão cúmplice. perdia-se. a casa deles. agora esbarrava em tudo.pobrezinha! Ela. tão estimulante. seus braços abertos. sua alegria de vê-los. Era o rosto e os olhos de sua mãe. eram o irmãozinho e a irmãzinha que ele não conhecia. Maldito inverno! Muito precoce. Ela estava abusando. não havia razão para impedir-me de me vestir de menino. longe de qualquer abrigo. pois eu atirava bem com o arco. Mas teria podido fazê-lo? Pois o inverno é implacável e os teria apanhado a ambos em qualquer lugar inexoravelmente. Depois. Estava tão orgulhosa por estar vestida como um menino iroquês! — Utakê disse que eu era digna de ser um guerreiro.. no no man's land do deserto branco. Ele era como a irmã. mas continha-se. raro mas tão caloroso. . Por pouco os dois irmãos Lemoyne. de escala em escala. que já não era muito hábil. readquirindo já as rabugices de irmão mais velho. a imobilidade da morte também tinha o poder incomensurável de congelar subitamente todo sinal de vida por centenas e milhares de lugares. que eles não paravam de imaginar. Se o Hudson fora desobstruído dos gelos. o sorriso dele. teria achado mais seguro continuar a viagem descendo em direção a Nova York. onde se concederam uma noite de repouso sob o conforto dos colchões de penas dos holandeses. E a casa. que quiseram prosseguir seu caminho em direção à grande missão dos jesuítas em Sault-Sainte-Marie. pensava Cantor enquanto. entre duas tempestades. empreendiam a longa viagem de volta para Wapassu. pilhadas e cobertas de cadáveres. e. E. talvez. sob pretexto de que eu era uma menina. pois o domínio do frio impedia qualquer movimento. no lugar em que os surpreendia? E pobre daquele que procurasse enfrentá-lo. Sentia a impaciência de voltar para casa. Ela se perguntava como bebés daquela idade haviam podido realizar tantas proezas em suas curtas vidas. qualquer deslocamento dos seres durante meses na superfície de um continente. Era melhor continuar em direção ao leste. era a presença do pai. cujo gelo cedia sob °s pés. Elas se realizavam mais depressa que o pensamento. já que havia meninos aos quais permitiam vestir-se de mulher quando não sentiam gosto pelas armas.. Em Orange. enquanto. que não lhe permitira salvar a tempo Honorina.. podia-se conceber o poder do deus feroz do inverno que os petrificava a todos. dissera consigo. ficava em Wapassu. longo e rigoroso. pela selvageria das florestas. Na Europa..

ele fora convocado porque tocava pífaro e tambor. E você sabe o que acontece nesses casos?. pululando à sua volta.. garantindo o avanço e os guardas .As vezes ela parava. Honorina balançava a cabeça. E. — Quem? — Minha mãe. Ragueneau. — Não grite! "Eles" estão em toda parte!. viu flutuar. persuadida de que sua mãe estava ao seu lado. É uma lei. uma bandeira com uma flor-de-lis. Ela nao pode morrer. com seus dez filhos. enquanto estava dormindo. na Catedral de Quebec. Depois continuava suas confidências. vira Angélica moribunda. Uma vez ela acordou. Os sobos-ques sob o efeito dos primeiros sinais da primavera. Dizia-lhe: "Beba este caldo. Ela contou que numa noite de inverno. que. Um receio se apoderava dela. enroladas como lagartas. que começava a recobrir com uma resina esverdeada os renovos pegajosos. e começara a correr. folhas tímidas. A velha índia não estaca mais lá. levava todos os verões seu dízimo num buque de flores de seu jardim às religiosas da Santa Casa. os franceses chegaram e se encarregaram das mulheres e das crianças sobreviventes. ouvira discutir ao seu redor química. Corriam de uma toca a outra. brotos. ofereciam uma aparência esbatida. Jogou-se com-ela atrás de um arbusto. — "Eles" estão em toda parte. Nào. nos cantões iroqueses. ele não sonhara. fenómenos científicos. Calou-se. O exército franco-índio — cento e vinte soldadosda metrópole. com o qual havia cantado Meia-noíte cristã na noite de Natal. enevoada.-e Honorina sabia que sua mãe jamais viera. Vou lhe explicar por quê. Filho do Dr. — Não! — Um bem imprevisto nasce desse mal intenso. Desde a mais tenra idade. quatrocentos regulares canadenses e o mesmo número de índios das missões. Pouco depois. ir ao rio. no celeiro molhado -pelas brumas baixas. atrás de cada árvore!. que está me esperando em Wapassu. Nas proximidades do lago de Saint-Sacrement. um rosto adolescente apareceu-lhe entre os ramos. Cantor sentiu-"os".. urrando: "Minha mãe está morrendo! Oh! façam alguma coisa por ela!. propícia a todas as emboscadas.. alquimia. o do jovem Ragueneau.. várias vezes Angélica fora visitá-la.". o rufar dos tambores semeava o terror nos corações iroqueses. mas Cantor não a levou a mal.. Negava enfaticamente. e estava curada.. informando-se sobre a saúde da índia que a adotara. rememorando fatos que haviam se apagado de sua memória desde que fora acometida pela doença. Mas quando voltava a si. como numa operação de transmutação química. sua mãe não está aqui!" Uma velha índia compreendeu o que era preciso fazer para manter viva a menininha branca. e quando despertar sua mãe estará aqui". Talvez fosse um engodo! A floresta estava vazia. só via tristes rostos indígenas inclinados sobre ela e que sacudiam a cabeça: "Não. lutava a fim de poder falar-lhe. parcialmente. Precedendo o exército. No fogo vermelho da febre. — Não! Isto não e possível. Ela dizia "minha mãe" num tom possessivo. Por sorte. pois morrera. — Acha que ela esteja morta? — perguntou um dia. pondo em polvorosa todos os habitantes da Casa Comprida. Erguendo os olhos. Muitas forças malignas se aliaram contra ela.. Podia levantar-se..

Os bosquezinhos de Versalhes tinham-no feito perder o senso de direção naqueles cerrados. de degrau em degrau." Para alcançar o norte do Maine. Um dia. "Essa pista era tortuosa. Levavam suas peles e discutiam a direção que deviam tomar para ir ao comércio: seja na direção dos franceses. Tornara-se novamente um adolescente do Novo Mundo. onde se comia bem. As noites eram gélidas. escalar novamente a falésia abrupta do outro lado. muitas vezes desativadas. Cantor comprou um barco e os dois remaram. Apesar de sua habilidade e faro. semelhantes a sobreviventes do frio. Cantor surpreendia-se girando no mesmo lugar entre os galhos de árvores quebradas hesitando entre as pegadas de pistas indígenas. o golpe de misericórdia. pensava com despeito. cortada por buracos e despenhadeiros atravessada por inúmeras torrentes. O jovem Ragueneau lançou-lhe aos ombros um dólmã branco rasgado. interrompida em toda parte. acabava de costurar barcos de casca de árvores à beira de um rio. — Ela me tirou tudo. que emergia do inverno como sarças ressecadas. pois jamais ela se queixara das longas caminhadas que lhe impunha. Mas os cursos de água tornavam-se navegáveis. onde se reuniam wigwams. encontrar uma passagem na efervescência das torrentes ou das quedasd'água. atravessaram uma região deserta. o fim da Diaba! Era como se ela nurtcà tivesse existido! Surpreendia-se até ao pensar que tinha vivido na corte da França. com o barco sobre a cabeça. Com os índios... ficou ali por vários dias. Wapassu não estava longe. era preciso. Na hora não sabia do que ela estava falando. entre duas nuvens de um dia um pouco invernal.de flanco — seguia a habitual pista que conduzia aos mohawks e aos oneidas. perceberam o cimo ainda recoberto de neve do monte Kathadin. Assim vestido. Ouviu atrás dele gemidos de cachorrinho e voltou-se.. para efetuar qualquer avanço.. sem animais. proveu a mochila com enguias defumadas. sem trilhas. atravessaram lagos. irmão e irmã desceram o rio.. com a possibilidade de tropeçar com os primeiros habitantes das fronteiras da Nova Inglaterra e ali recolher escalpo. os saltos que. envernizando-os com resina de abeto balsâmico. sem homens. Era a última etapa numa suave manhã. inextricável. — Ela me tirou minhas caixinhas de tesouros! — choramingava Honorina. Uma pequena tribo de índios nómades. Penetravam no Maine. e que não levavam a parte alguma. mas o sol aquecia durante o dia. aproveitou os bivaques. e cativos para se desincumbir de uma perseguição inútil. Os índios tinham recolhido a seiva adocicada do ácer e recuperavam as forças bebendo-a. onde. o verdadeiro Maine. descer ao fundo das gargantas. Já ia tão longe o navio. — Cansada? Estava surpreso. — Que está dizendo? . Mais uma ou duas horas de caminhada. misturado à tropa e arrastando o selvagenzinho cego.. à procura dos sobreviventes das Cinco Nações. uniforme do célebre regimento de Carignan. até o dente de cachalote de casca de castanha e a conchinha que você me tinha dado. seja na direção dos ingleses. a perseguição. transpuseram. continuando seu giro rumo ao leste.. Continuando rumo ao leste. Cantor devia atravessar esse exército em toda a sua extensão como um rio. os levavam para outros lagos ou vales sulcados de rios. carne-seca e rações de pão. Depois afastou-se da longa fila guerreira que deslizava inexoravelmente em direção ao sul. várias vezes por dia.

Cantor? — perguntou ela. a casa. notou o movimento de silhuetas humanas em torno. Estava de tal modo aflito. — O que foi. A porta se abria e eles penetravam todos juntos por ela. mais bem construído. os soldados! Seu coração pulsava fortemente no peito. sua mãe. Avançou mais e descobriu as ruínas enegrecidas. pensou ele. cuja aproximação de Wa-passu devia ter-lhe despertado as lembranças. Pouco a pouco. ravinas drenadas. que não reconheceu imediatamente. e mais animado. pensou imediatamente. Eram pulsações tão dolorosas que não conseguia pensar além destas duas perguntas torturantes que lhe soavam na cabeça a cada batida: "O que aconteceu? Onde estão todos? O que aconteceu?. Seu pai.. nesse pensamento. — Estamos chegando! Logo veremos.. preparadas para os cavalos. com o olhar tão emba-ralhado. lhe era tão familiar.. e já contemplava com um olhar desconcertado e vagamente ansioso o sítio de Wapassu. deveria ter-lhe parecido mais povoado. não apenas sobre a construção e reformas do grande forte. Crispou inadvertidamente a mão em torno da de Honorina. de perfeição. felicitando-se de que ela não pudesse distinguir esse espetáculo de desolação. — Até o anel de meu pai e a carta de minha mãe — continuava. quando ela choramingava.. que. os artesãos.. em todo caso. os pequenos gémeos! Os Jonas.. Eles tinham mordido a Envenenadora. um dia cantarei numa abadia Sua glória. Compreendeu? Ela sacudiu gravemente a cabeça. que.. e. mas desertas. e. — O que está havendo? Onde estão todos?. Honorina encontraria consolo para a perda de-seus tesouros. de alargamento infinito que acabava de experimentar no momento em que murmurou estas palavras: "Estamos chegando!". compreendeu? E depois disso. no entanto. "Estamos chegando!. — Nada — respondeu.".. campos lavrados. Ele reconhecia o quadro e só via extensões desertas." No instante seguinte. — Talvez tenha sido isso o que a enfraqueceu — murmurou. sob a comoção de uma impaciência infantil. Foi a vez de Honorina tentar compreender e interrogá-lo. — O que está dizendo? — O anel de seu pai e a carta de sua mãe devem ter-lhe saltado ao rosto. . os Malapra-de. num tom de homilia.A doença deixara-lhe uma fraqueza na garganta. como anteriormente. E. Honorina. levando pela mão sua irmã selvagenzinha. Mas não mais.. "Para tanta felicidade. sua voz ficava ininteligível. e em que sentiu que englobava todos os seus num movimento novo. ela ficou como que paralisada. recobertas de vegetação nova. sonhador. daquele belvedere. Tinham-lhe feito em cartas muito relatos detalhados. Tudo era imenso e luminoso. o antigo fortim. encostado ao pico rochoso. Onde estão todos?" Continuou a andar. pois ali passara uma invernada.. e fora bem feito!. que em sua exultação continha a mesma vasta impressão de vitória. e um novo trecho de paisagem descòrtinou-se a seus olhos... mas sobre ás habitações cercadas de jardins que haviam proliferado para além da paliçada. Descreveram-lhe pastagens cobertas de rebanhos. voltara a ser um jovem explorador de bosques.

instalados no fortim. Lymon White.. Mas os últimos adiamentos se esgotavam.. mas estava com as pernas bambas pelo medo que sentira. Eu voltei. as sombras e as luzes esculpiam o relevo de uma face augusta e pacífica. — Está olhando para nós dois. Honorina não encontraria o lugar deserto.. Mas o cômico iroquesinho com o rosto bexiguento iluminado de alegria. Os dois homens se encarregariam dela e a levariam até Gouldsboro. segurou-lhe a mão. pois bem... Colocou-a escanchada nas costas e desceu saltando de rochedo em rochedo rumo a Wapassu. A pequena Honorina não surgira dos bosques. disse consigo. mais embaixo. Angélica acabara por conseguilos. não caia — gritou ele.. preparando-se para tomar o caminho do sul e deixar o lugar. Um vestido de mulher.. — O velho da Montanha! Eu o vejo! Hoje posso vê-lo! Pegou-a na beira do precipício. erguia os braços para o sol. e o pai de Carlos Henrique. CHEGADA DE CANTOR E HONORINA A WAPASSU CAPITULO XXXIX "Encontramos as crianças! Podemos partir" — Um novo limiar de felicidade — É preciso partir. familiarizado com Wapassu. — Também o vê. — Cantor! Estou vendo-o! Estou vendo-o. e.na falésia rochosa batida obliquamente pelos raios do sol. minha amiga — dizia Colin.. Quatro dias. Honorina arrancou a mão da sua e precipitou-se. — E você não está completamente cega! Hurra! Hurra! Agora. Apesar dessa nova decisão. ainda invisíveis aos olhos daqueles que. o inglês mudo. Honorina. Propunham ficar no lugar.. Velho da Montanha! Aqui estou. Estavam lá em cima. Se as predições do iroquês por acaso se realizassem. diziam as pessoas das orlas. apavorado. acompanhada ou não de um anjo. Olá. Partir!. se ocupavam em reunir os elementos da caravana.. cinco dias. Vamos fazerlhes uma surpresa daquelas. Sua mãe! Sim! Era ela! Recomeçou a respirar. ansiosas por se afastar antes que aparecessem contingentes de guerra de não se sabe que nação. explorador de bosques tarimbado... eu o vejo — respondeu ele.. — Cuidado. Angélica não podia aceitar a sentença. E desta vez posso vê-lo! Oh! Cantor! Como estou feliz! A vida é bela!.. Se fossem fiar-se nos sonhos dos selvagens. mas contra os quais não teriam condições de lutar.. . — Quem você está vendo?. pensando bem". sob inspiração de um pro-jeto que permitiria conciliar tudo.. Ambos permaneceram imóveis lá no alto."Até que há bastante gente.. foram buscar Angélica e Colin Paturel. seis dias de prorrogação!.. venha. o irmão e sua jovem irmã. Partir sem voltar a cabeça! Abandonar tudo! Jamais tornaria a ver Wapassu.. como predissera aquele louco do Utakê. — Está nos sorrindo.. Cantor? — Sim. na ponta do rochedo...

. Esperando essa morte... — Olhem para as crianças! Elas sabem que não voltarão mais. Ah! longa. quando sua saúde melhorou. lhe houvesse gritado: "Morto. contentando-se em murmurar-lhe palavras de conforto e agasalhá-la quando ela acordava em prantos. ele abandonara suas nassas de pesca e correra em direção ao fortim pela última vez." Deixara-o sangrar em seus braços. Às vezes irritava-se com eles por suas palavras sensatas. tendo percebido os primeiros homens aparecendo do outro lado do lago. derretesse. mesmo com Colin. Jamais parecera tão bela. Estava mudada. A maldita! A magnífica!. Abotoara-a de alto a baixo com os dedos enfermos.O Wapassu! É proibido conhecer o Éden na terra? Mas você o conheceu. perguntara-se se não teria podido tentar cuidar dele. Seu sono daí em diante tornou-se tranquilo e profundo. tão suave. como às vezes demora a vir. O sangramento de feridas na cabeça é abundante. seis dias de prorrogação. Quatro.um dia! Esperemos mais um dia — suplicava Angélica.. Ele também desaparecia. Depois saíra. mas pode ser facilmente estancado.. Irritava-se com sua pressa em deixar o lugar. seu . seis dias. das alterações.. Desperta. Não sabia ainda em quê. Nas primeiras noites. Aquele momento em que. E passando junto às crianças.. aonde você vai?" Andara pela ravina e apresentara-se diante dos homens vindos para fazê-lo perecer. os projetos materiais e sólidos referentes à partida sobretudo por não poder explicar-se e comunicar-se realmente om nenhum deles. censurando-se. não tentava convencê-la. De que se queixas?.. em que por isso a colocassem totalmente entre eles. quando se deitava.. o ruído das vozes. a inquietação por Hono-rina suplantou a do drama recente.. como quando se põe de lado uma roupa. Depois. longa morte. aniquilada. Eu deveria. e não era preciso mais que isso para que. é pouco! E no entanto aqueles dias estavam investidos de um poder de esquecimento e de renascimento que valia por anos. dissipando-se a visão que a obsedava e que não conseguia deixar de reviver ponto por ponto... Isso já acontecera vaias vezes em sua vida.porque estava dormindo. tão cheia de flores e de cantos de pássaros.. sempre se lembrava daquele momento que ele vivera e que ela não vira... Ela se agitava no sorto. Vestira sobre o corpo descarnado a Toga Negra. ainda que ela procurasse retê-lo sob o aguilhão do apego e do remorso. o jesuíta. Pois.. Esperando essa morte. se evaporasse. Quatro. mas nunca com aquela impressão de ruptura. ao vê-lo. ancoravam-na outra vez à terra.. — Mais .. lançara-lhes: "Fiquem bemcomportados! Não se mexam! Eu voltarei".. sentado pacientemente à sua cabeceira. colocara o cinto e enfiara o cordão do crucifixo no pescoço. Seu espírito. se apagasse como por encantamento um tempo de morte que parecera que jamais terminaria... cinco.. "Eu deveria ter cuidado dele.. cinco. E talvez o pequeno Carlos Henrique. mesmo escalpelado. em seguida. de despojamento. Era preciso que ele morresse. você que ode ser tão súbita e tão breve! Colin. as previsões lógicas. Fora até o quarto de Lymon White. A primavera subia como o mar!. aquele movimento de silhuetas em torno dela. com a mesma celeridade com que a primavera começava a invadir de verdor os vales..

. não deviam estar longe. os lábios descoloridos ganhavam vida. O último dia consentido havia terminado. No último momento.e não compreendiam: onde estavam o posto. Isso a punha nervosa. por vê-la readquirir o espírito combativo e bastante vigor para scutir e opor-se-lhes quando a instavam a partir. — Honorina! Ergueu a forma frágil. levantavam os pitis de peles sobre varas cruzadas ou os wigwams arredondados como cascos de tartaruga. A palidez diáfana tingia-se de rosa nos pômulos. tropeçando. que tinham aproveitado os preparativos para escapar de uma vigilância demasiado constrangedora. os carregadores recolocaram no chão as cargas que já tinham içado aos ombros.. feitos de cascas de árvores sobre arcos flexíveis. Subitamente não se sentiu mais triste. Angélica sentiu perpassar-lhe o mesmo sopro luminoso que transfigurava todo sofrimento. subitamente também se animaram e se dirigiram para eles em massa. apresentava essa beleza perturbadora. resumindo todos os transportes. a sombra cavada sob os olhos já não era senão um círculo azulado sabiamente esbatido.. Os olhos de Angélica percorreram o horizonte de Wapassu.. Os índios nómades começavam a chegar em pequenas famílias. debatiam-se como pássa-os contra as grades de uma gaiola demasiado estreita. . naquela manhã. — Fui um pouco ríspida. Uma criança índia corria em sua direção.. pois não encontravam as três crianças. Tinham tomado gosto pelas explorações pessoais. Na verdade maravilhavam-se com a rapidez com que reassumia a vitalidade: Ao sol. Enquanto se lançavam à sua procura. que observavam de longe os brancos. e. e. Foi como o cimo de uma vaga de amor arrebentando. com os braços abertos. Entretanto. como que sob as mãos hábeis de um mestre cabeleireiro que os nutrisse com óleos revigofantes. o sinal de partida foi atrasado. o que se censu-ava. sua alma. Mas eles lhe perdoavam tudo. os latidos dos cães e os gritos das crianças recriavam a trama familiar que anunciava os trabalhos de verão. A fumaça lenta das fogueiras. de modo que. Contemplavam o sítio transformado do Wapassu que estavam habituados a frequentar. resultante dos artifícios das mulheres que se aprontam para um baile. inclusive Colin. o pão. nesse período transitório que a levava da doença à saúde. e.. a caravana estava formada diante do fortim. os copos cheios de continhas coloridas?. depois. readqui-riam flexibilidade e brilho. paixões e esperanças de seu ser. só podiam rejubilar-se.. Angélica estava tão ressentida com Colin que nem lhe respondia quando ele lhe dirigia a palavra. recusando a realidade. tão leve. aqueles bosques haviam lhe confiado um segredo inefável. com exclamações afetuosas. facilmente impaciente. correndo também com os braços estendidos. Aqueles montes. julgou morrer de felicidade. Esquecê-lo. como não eram testemunhas suas agitações interiores. e não soube que presciência a fez lançar-se para ela. apertando-a nos braços. deixar-se tomar pelo peso da terra era-lhe proibido Os índios. — Perdoem-me — repetia incessantemente.coração. seus cabelos.

. os suíços.. — De Versalhes — respondeu Cantor. desafogando a necessidade de distender-se. Cantor!. os espanhóis. seria preciso aproveitar o desaparecimento das neves para ir aos postos e minas inacessíveis informar-se sobre os sobreviventes do inverno.. Adivinhou tudo... — Cantor!. mas foi ele quem a tomou nos braços. que não estavam a par de nada. com Honorina junto a ela e... E. A única coisa que não aceitaria era que houvesse outras vítimas. os três pirralhos. um guerreiro iroquês! Venham todos.. de onde você vem?. Wa-passu permaneceria uma rica e soberba messe de lembranças e de felicidades. nova e quase desconhecida.. Ela sentiu-lhe a força determinada. ou dos ataques do outono.. indomável. mas está viva. Queria isso. O futuro desconhecido já se preenchia. O encontro que o levara a embarcar. Mas. Era um homem.. Angélica compreendeu que. — Um guerreiro iroquês!. . Estava agora num novo limiar. A perda dos bens não era nada. bastante contentes consigo mesmo mas prontos para a partida.. Montreal e Ontário.. No alarido que se seguiu. mas fazendo um pequeno desvio por Quebec. nem o disfarce de menino. realizou seus sonhos. Angélica colocou-a nó chão para estender a mão para o rosto de Cantor.. sob qualquer máscara. feroz. muito mundano —. Sua vida não estava arruinada. Teria reconhecido. O você!. E todo mundo caiu na risada. a chama dos olhinhos de Honorina. estava-o igualmente de um montão de histórias a serem contadas uns aos outros e que preencheriam as horas de numerosas vigílias ou travessias... e nossa mãe vai curá-la. não é?!. replicou: — Sim..Era assim. voltaram gritando: — Encontramos as crianças! Podemos partir. sua obra não estava apagada. em primeiro lugar. pelo que vejo. Essa voz e essas palavras desviaram a atenção de Angélica.. Vítimas inocentes. à sua frente. Podiam partir. Um guerreiro iroquês voltou para nós!.. dois ou três homens devotados. — Eu sabia que você viria.... vejam que maravilha.-mma voz gritou: — Senhor Deus! Ela teve varíola! Uma outra voz. o gesto que realizara.. se o futuro que os esperava estava carregado de mistério.. que sentira um choque gelado ao ouvir a terrível palavra: "a varíola"!. Exigia que não houvesse mais vítimas. E ela ria..Nem o aspecto repelente do rosto e dos trajes. girando loucamente com a criança junto ao coração. Não haveria vítimas. — Viu seu pai? Cantor arregalou os olhos. em sua marcha de volta rumo ao sul.. a perseguição que fizera. Reencontrariam os Jonas.. — Ele foi me buscar entre os iroqueses — disse Honorina orgulhosa. os Malaprade e seus filhos. Seus navios haviam se cruzado no oceano. Ignorava que o Conde de Pey-rac fora para a Franca. Nesse momento. os valões e os lolardos ingleses. que teriam sido imoladas à malignidade de uma Ambrosina.. lambuzados de fuligem por terem tentado explorar as ruínas e segurando os primeros buques de flores colhidas. nem a cimeira de cabelos vermelhos viscosos de resina tinham-na enganado.. As imagens se precipitavam.

. 7. Assumiu a responsabilidade de cuidar das pálpebras. à saúde de todos. a pele fina de criança crivada de cicatrizes? Levaria mais tempo! Ou talvez pouco tempo!?.. E você. e mais uma vez.. . 5. para um rei ponderado. 16. "Depois de tudo!"." Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica: 1. Rainha de Quebec O Inesquecível Natal de Angélica Angélica e o Perdão do Rei Angélica e as Feiticeiras de Salem O Fascínio de Angélica . Pegou-a no colo para ver-lhe o rosto de perto e examiná-lo. "Eu irei..E poderiam beber e brindar alegremente. impacientes por revê-la. pensou. 2.. 4. antes de singrar para a Europa num belo navio. mais uma vez. nunca mais separar-se dele. Os Amores de Angélica O Suplício de Angélica Angélica e o Príncipe das Trevas A Vingança de Angélica Angélica e as Insídias da Corte Angélica... Não faltavam forças miraculosas no mundo: mãos curadoras. lugares consagrados. amigos fiéis... aumentando depois a acuidade da visão atingida pela horrível doença. Maldita Angélica no Barco do Amor Angélica no Fim do Arco-íris Angélica na Floresta em Chamas Angélica e a Caçada Mortal Angélica e Seu Amor Proibido Angélica Ultrajada Angélica e a Duquesa Diabólica A Satânica Rival de Angélica Angélica e o Çomplô das Sombras Angélica. taumaturgos. "Não haverá mais vítimas! Será assim! Sinto-o! Encontraremos todos os nossos amigos perdidos!. Sua vista ameaçada? Ainda estava em tempo. nos braços do qual se lançaria prometendo a si mesma. De uma coisa estava certa: conseguiria que os sinais de sofrimento e da maldição que tinham se abatido sobre ela desde o nascimento se apagassem do rosto da criança bem-amada." Abraçou-a apaixonadamente. conseguiria. Cativa no Harém Angélica. 24. percorrerei o mundo se for preciso. ainda uma vez. O céu bem que me deve isso!. 20. 3.. Clandestina. 19. 15. 10. numa viagem que não conheceria tempestades. um esposo cheio de expectativa. 8. você será bela! E será feliz!. 9.. como se apertasse contra si sua vida nova. a Favorita do Rei Angélica e o Pirata Angélica.. fontes de rios sagrados depositários da corrente divina. com o prestígio assegurado. você será salva. 14... A pele do rosto.. "Depois de tudo!. desafiando com as pupilas verdes a luz da primavera.. 21. 11. Dependia dos meios que empregasse. 17. Rebelde Guerreira Angélica. nas praias de Gouldsboro... minha criança. Ela os encontraria. 23. tocados por Seu poder. 22. Quanto a Honorina?. 6. 13. 12. 18.

fez e sofreu intrigas. Marquesa dos Anjos. em 1952. traduzidos para vários idiomas e transpostos para o cinema. estaremos reiniciando o lançamento dos títulos dessa série.25. mineralogia e química. já casados. Não perca a oportunidade de sugerir a amigos. fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo. a Marquesa dos Anjos. Foi um grande êxito de vendas. num verdadeiro turbilhão de emoções. Angélica e a Estrela Mágica O Triunfo de Angélica Caro leitor. ou completar sua coleção: na próxima quinzena sai o no 1 e. foi temida ou adorada. Angélica amou. a inesquecível Marquesa dos Anjos. viajara como jornalista. Atraída por sua fama. presentear. para onde Anne. sustentado por uma narrativa de excelente qualidade literária. em 1928. 26. a partir da próxima quinzena. De volta à França. Nos 26 volumes que apresentamos. Serge era uma . sairão as edições seguintes de Angélica. dos haréns da África à intimidade de piratas. encerramos a publicação de todos os livros escritos por Anne e Serge Golon. Estes. Tanto assim que. tiveram a ideia de escrever unia novela histórica ambientada no século XVII: Serge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado já na infância. O sucesso de Angélica. Angélica protagonizou a maravilhosa trama que a conduziu da corte resplandecente do Rei-Sol às sarjetas de Paris. a cada quinze dias. Çonheeeram-se e casaram-se na Africa. lançado em 1959. Neste volume. com as aventuras de Angélica. animando os autores a produzirem novos volumes. em Toulon (Franca). celebridade na época: formado em geologia. acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). com o dinheiro de um prémio literário. . um sucesso da Nova Cultural. odiou. foi imediato. O Editor OS AUTORES: ANNEE SERGE GOLON Serge Golonbikoff nasceu em -Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Changeuse. cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes. Anne resolveu entrevistá-lo.

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