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A racionalidade dos empreendimentos de economia solidária

segundo os dados do primeiro Mapeamento Nacional


Luiz Inácio Gaiger

O texto destaca e exemplifica a importância da nova Base de Dados sobre a Economia Solidária
no Brasil, criada através do Primeiro Mapeamento Nacional, concluído em 2006. Inicialmente,
demonstra em que medida os 15 mil empreendimentos cadastrados correspondem à definição da
economia solidária adotada pelo Mapeamento. A seguir, são propostas explorações da Base de
Dados no sentido de aferir se as práticas de gestão e as formas de participação dos
empreendimentos na sociedade evidenciam uma racionalidade econômica e social específica,
distinta da lógica das empresas privadas capitalistas. Essa questão é central no atual debate
teórico e político sobre a natureza alternativa da economia solidária.

Desde 2006, os estudos sobre a economia solidária no Brasil dispõem de uma nova e
importante fonte de informações, oriunda do Primeiro Mapeamento Nacional da Economia
Solidária. Ao agregar informações de 15 mil empreendimentos, nas 27 Unidades da Federação,
sobre a gênese dos empreendimentos, suas estratégias de desenvolvimento e os benefícios que
aportam para seus integrantes e seus entornos sociais, essa base de dados propicia análises a
partir de uma visão ampla do perfil socioeconômico e das práticas de gestão da economia
solidária.
Os estudos acadêmicos sobre a economia solidária multiplicaram-se nos últimos anos. Todavia,
a inexistência de informações abrangentes e sistematizadas a respeito restringiu as pesquisas a
uma abordagem qualitativa, valiosa para o exame dos traços particulares dessas organizações
mas insuficientes para identificar suas tendências predominantes e seus efeitos sobre as
condições de vida dos trabalhadores. O Mapeamento permite uma mudança de escala nas
análises e a rediscussão de teses importantes do debate teórico e político.
Nesse documento, pretende-se exemplificar essas possibilidades, por meio da exploração de
dados que permitam aquilatar qualitativamente essas organizações econômicas, do ponto de
vista das inovações que introduzem no modo de agenciar seus recursos produtivos, humanos e
materiais, para reponderem a seus objetivos e necessidades. Conceitualmente, trata-se de aferir a
presença de uma racionalidade socioeconômica peculiar aos empreendimentos de economia
solidária, derivada de sua natureza associativa e de características tais como a indivisão física
entre capital e trabalho, as práticas de autogestão e o entrelaçamento com as redes
movimentalistas (Doimo, 1995), hoje alinhadas numa ampla mobilização nacional e
internacional (Mendell, 2003), de construção da identidade política e do movimento social da
economia solidária.
A questão da racionalidade solidária é central. Como indicado em outros estudos (Gaiger, 1996;
2004c; 2006), justifica as teses e as expectativas quanto ao caráter alternativo dessas
organizações, à possibilidade de veicularem princípios de uma outra economia (Cattani, 2003)
ou de representarem uma crítica e uma ação substitutiva ao modelo de desenvolvimento:
As formas alternativas de produção e de geração de renda são encaminhadas pelos proponentes
de projetos com uma dupla finalidade: a de se viabilizarem economicamente e a de serem
espaço pedagógico de conscientização e de desenvolvimento da cidadania. Do ponto de vista
econômico, o projeto deve gerar a capacidade de sobrevivência dentro de um sistema vigente,
mas deve também incorporar uma crítica ao modelo de desenvolvimento econômico dominante.
(Scherer-Warren, 1996: 15).
Conforme buscaremos demonstrar, os dados do Mapeamento contêm indicadores importantes
quanto ao modo e ao grau como os empreendimentos de economia solidária respondem a esses
desafios. Tratando-se de uma primeira abordagem, ficará restrita a um plano geral, quase sem
2

fazer referências a exemplos concretos e sem trazer diretamente à discussão a notória


diversidade da economia solidária, quanto aos setores econômicos, às categorias sociais
envolvidas, às atividades coletivas e às formas de organização. Essa diversidade,
indiscutivelmente relevante do ponto de vista sociológico, será de consideração indispensável
em análises subseqüentes, sugeridas adiante através da proposição de tipologias interpretativas.1
Contamos com alguma familiaridade do leitor em relação aos traços gerais da economia
solidária e às suas principais expressões no Brasil, objeto de compilações e de estudos
comparativos (Singer & Souza, 2000; Santos, 2002; Gaiger, 2004c; França Filho et al., 2006).
De outra parte, o retrato da economia solidária revelado pelo Mapeamento teve considerável
difusão, especialmente através do Atlas da Economia Solidária, publicado em abril de 2006
(SENAES/MTE) e das opções de acesso ao Sistema Nacional de Informações da Economia
Solidária – SIES (www.sies.mte.gov.br). Diga-se ao menos que o Mapeamento cobriu 41% dos
municípios brasileiros e levantou dados sobre 14.954 empreendimentos e uma população
estimada de 1.256.000 participantes. Do total, 54,5% são associações, 32,7% funcionam como
grupos informais e 10,7% são cooperativas. As atividades coletivas mais comuns são a produção
(61%), a comercialização (57%) e o uso de equipamentos produtivos (48%). A fisionomia rural
da economia solidária é visível, uma vez que 64% dos empreendimentos mapeados dedicam-se
à agricultura, pecuária, pesca ou extrativismo. Seguem-se os setores de prestação de serviços
(14%), alimentos (produção, beneficiamento e serviços – 13%), têxtil, confeções e calçados
(12%), artesanato (9%), indústria de transformação (6%), coleta e reciclagem (4%) e finanças
(2%).
Antes de sua divulgação, a Base de Dados sofreu um processo de crítica, segundo
procedimentos que resultaram em recategorizações das variáveis, reclassificação de respostas e
criação de novas variáveis, a partir das questões originais. Aplicaram-se testes de consistência
das informações e de adequação dos empreendimentos aos critérios mínimos definidos no
Termo de Referência do Mapeamento. Dentro de níveis razoáveis de confiabilidade, com
algumas exceções a requererem cuidados especiais no uso das informações, a Base de Dados foi
validada.2
A exploração da mesma no escopo desse trabalho será precedida de considerações sobre o
conceito de racionalidade, de modo a elucidar preliminarmente a pertinência e os argumentos
que sustentam a sua abordagem no âmbito da economia solidária. Seu tratamento empírico-
analítico será feito a seguir em etapas sucessivas, em torno de quatro questões: a) em que
medida as propriedades mínimas apresentadas pelos EES nos permitem classificá-los como
iniciativas em geral baseadas em práticas de reciprocidade e na busca de sua viabilidade
econômica? b) Apresentam eles, igualmente, características mais avançadas e articuladas,
constituindo-se como agentes econômicos a título pleno, moldados pelo associativismo e pela
cooperação produtiva? c) Há incidências recíprocas, positivas e orgânicas, entre a dimensão
solidária e a dimensão empreendedora dos EES, de modo a instaurar uma racionalidade singular,
ao mesmo tempo social e econômica? d) Em quais circunstâncias essas características tendem a
acentuar-se e que papel desempenham na estrutura e no desenvolvimento dos empreendimentos?
A tese de uma racionalidade singular dos empreendimentos de economia solidária
Uma das simplificações típicas do senso comum reside em considerar como atividades
econômicas apenas aquelas que se inserem na chamada economia de mercado. Nessa
concepção, as empresas privadas capitalistas, ou empresas de mercado, aparecem
exclusivamente como autênticos e legítimos agentes da economia, o que explica algumas
denominações usuais, como setor produtivo, referente às modernas e capitalizadas empresas de
transformação, ou produtores rurais, que indiretamente tacha de improdutivos outros

1
Objeto do Produto 1.2 – Tipologia dos EES, do convênio UNISINOS/IBASE/SENAES.
2
O tratamento da Base foi realizado conjuntamente pela UNISINOS e pelo IPEA, a pedido da Secretaria Nacional de
Economia Solidária. Os resultados finais estão consignados no Produto 1.2 – Elementos de Diagnóstico, convênio
UNISINOS/IBASE/SENAES.
3

segmentos, como a produção familiar. Atores da economia que não pertencem a esses setores
modernos e competitivos são vistos como sinais de atraso ou ineficiência e ficam relegados a um
papel secundário - para os pobres, uma espécie de economia de sobrevivência – aos quais se
atribuem funções mais sociais, de freio à marginalização, do que propriamente econômicas.3
Naturalmente, essa visão da economia não resiste nem a uma análise histórica, nem a um exame
dos indicadores mais recentes. Uma ampla parcela das atividades econômicas, geradora de
riqueza e de bem-estar, sempre esteve à margem ou numa relação indireta com o mercado
capitalista, isto é, com o regime de intercâmio econômico determinado pela lógica de realização
do lucro e da acumulação privada do capital. Não somente a sobrevivência, mas igualmente a
prosperidade de importantes segmentos da população foi garantida por práticas e estruturas de
produção e de troca orientadas por uma lógica de outro tipo, que Coraggio (1999) denomina de
reprodução ampliada da vida. Uma parte expressiva do PIB nacional provém dessas atividades,
como é patente no caso da pequena produção agrícola, cujo desempenho nos últimos anos
evidencia uma capacidade de modernizar-se e tornar-se mais produtiva, sem perder o seu caráter
familiar. Mesmo os segmentos mais pobres não estão desprovidos de iniciativas e de estratégias
econômicas, de eficiência apreciável (Abramovay, 2004).
O fato é que outras economias, produtivas e orientadas ao intercâmbio de bens, existiam antes
da disseminação das relações capitalistas de produção e de circulação de mercadorias. Desse
ângulo, o capitalismo é que representou a introdução de outra economia, gradativamente
sobreposta a formas econômicas pré-existentes, incorretamente classificadas como pré-
capitalistas, como se fossem um mero preâmbulo da economia superior do capital e estivessem
fadadas ao desaparecimento. Como bem relata Singer (1999), diante do advento das relações
capitalistas, os trabalhadores reagiram de várias formas, combatendo a exploração no interior da
empresa capitalista, criando alternativas próprias de caráter associativo e cooperativo ou,
acrescentamos, defendendo ao máximo os seus sistema de vida autóctones, seu patrimônio
produtivo e seus saberes, contra a ameaça de espoliação e de subordinação do capital.
Outras economias continuaram coexistindo com a forma capitalista progressivamente
dominante. A depender dos critérios de análise, considerar essa última como mais moderna, no
sentido de superior, perde grandemente o seu sentido. Basta que se abra mão do axioma do
crescimento e da máxima rentabilidade, ou do próprio paradigma do desenvolvimento (Santos,
2002), para que as coisas mudem de figura. A tradição de agir coletivamente se manteve e se
renovou entre os trabalhadores, gerando o cooperativismo operário no séc. XIX, o
associativismo e a economia social na passagem ao séc. XX e, agora, a economia solidária, por
razões fundamentais: brindar segurança material, reconhecimento e vida significativa à imensa
maioria de pessoas que sempre viveram primordialmente da sua capacidade de trabalho.
Conforme constatou a primeira pesquisa nacional no Brasil sobre a economia solidária:
Adentrando a natureza dos empreendimentos de economia solidária, a conclusão essencial está
no fato de que eles propiciam, em alguns casos, a existência de relações sociais antagônicas ao
capitalismo e, em muitos casos, preservam ou revitalizam relações sociais não capitalistas,
fundamentais para a vida dos pobres e para os indivíduos que vivem do seu trabalho, atenuando
assim sua sujeição à economia dominante e conjurando o exclusivismo das relações
assalariadas, portanto de subordinação e expropriação, a eles reservadas como via de integração
social (Gaiger, 2004c: 394).
Para esses indivíduos, não fossem as circunstâncias já bem instituídas pelo capital, pouco
sentido haveria em lidar com uma economia exógena e contraposta ao trabalho, muito menos
partilhar o senso comum sobre a sua superioridade. Desde as suas origens modernas, coube à
solidariedade, como princípio organizador das atividades econômicas, cumprir um papel vital de

3
Essa compreensão estreita e discriminatória provém de três reducionismos operados gradativamente pelo pensamento
dominante, instaurado desde o séc. XIX pela economia neoclássica e seus axiomas utilitaristas: a) a redução de toda
economia à economia de mercado; b) a redução de todo mercado ao mercado auto-regulado; c) a redução de toda
empresa econômica à empresa capitalista (Laville, 2004).
4

alargamento da experiência humana de reprodução da vida, ao contrapor-se às determinações e


às limitações impostas pela racionalidade estrita do capital. Mantiveram-se assim vigentes
outros princípios e outras lógicas de organização do trabalho, de criação de bens e de circulação
da riqueza, ao lado da economia de mercado capitalista, o que nos autoriza a falar de uma
economia plural, como bem apontam os estudos da Nova Sociologia Econômica, na esteira de
Karl Polanyi.4
O cenário atual da economia solidária apresenta desafios consideráveis, posto que o leque de
carências e de aspirações humanas amplia-se, frustrando a esperança de serem atendidas através
da lógica capitalista de produção incessante de mercadorias. Ao mesmo tempo, essa mesma
lógica introduz requisitos cada vez mais exigentes de competências, inovação e desempenho
competitivo, para a viabilidade das empresas capitalista e de eventuais formas alternativas de
produção e de organização socioeconômica. O aporte da economia solidária, para a vida dos
trabalhadores que nela apostam, depende então de sua capacidade simultânea de responder aos
requerimentos de eficiência - não somente econômica, mas sistêmica (Gaiger, 2004a) - e
promover experiências significativas de trabalho, regidas pela eqüidade e por laços sociais de
cooperação e participação.
Essa relação positiva entre os aspectos solidários, de autogestão e de cooperação no trabalho, e
os aspectos empreendedores, de organização dos fatores produtivos e de sua gestão adequada ao
enfrentamento dos obstáculos e à realização das metas econômicas, constitui o que chamamos
de uma racionalidade específica dos empreendimentos de economia solidária (Gaiger, 2004b).
Ela se diferencia das práticas habituais dos trabalhadores individuais, cujos esforços para
manterem-se à tona mal os defende da informalidade e da insegurança, mantendo-os na
dependência de outros agentes econômicos; diferencia-se também da economia popular
tradicional, cujos vínculos de reciprocidade nem sempre refletem princípios igualitários e
democráticos e tampouco a retiram de uma posição subalterna e precária na estrutura
econômica. Naturalmente, essa nova racionalidade igualmente se opõe à índole e às práticas da
empresa capitalista, que não são inclusivas e apenas valorizam o trabalho instrumentalmente, na
justa medida requerida pelas estratégias de acumulação.
O processo de identificação dos empreendimentos, na primeira Fase do Mapeamento, bem como
a fisionomia da economia solidária revelada pelos dados gerais apurados, referendam a
importância de duas condições favoráveis à emergência dessas iniciativas: a) as experiências
populares prévias em práticas associativas, comunitárias ou de organização de classe, nas quais
se criam laços de confiança, uma identidade comum e competências para a defesa coletiva de
seus interesses; b) o grau de compatibilidade entre a economia solidária e a economia popular,
amoldando-se a primeira aos arranjos familiares e semi-coletivos que asseguram a subsistência
dos trabalhadores e inserem-se em sua experiência e nos seus círculos de relação e de influência
(Gaiger, 2004c: 374-5). Com poucas exceções, os empreendimentos solidários não substituem
nem prescrevem essas formas populares de vida econômica, mas as potencializam ao
reorganizarem os fatores produtivos, materiais e humanos, num processo de metamorfose
normalmente incompleto e essencialmente híbrido.
Esse revigoramento orientado dos ativos socioeconômicos do tecido popular corresponde ao que
Razeto, um dos primeiros teóricos da economia solidária, designou de emergência do “Fator C”:
consiste no fato de que um elemento comunitário, de ação e gestão conjunta, cooperativa e
solidária, apresente no interior dessas unidades econômicas efeitos tangíveis e concretos sobre o
resultado da operação econômica. Efeitos concretos e específicos nos quais se possa discernir
uma particular produtividade dada pela presença e crescimento do referido elemento
comunitário, análoga à produtividade que distingue e pela qual se reconhecem os demais fatores
econômicos. (...) Em síntese, o “fator C” significa que a formação de um grupo, associação ou
comunidade, que opera cooperativa e cordialmente, proporciona um conjunto de benefícios a
cada integrante e um melhor rendimento e eficiência à unidade econômica como um todo,
4
Para uma visão panorâmica da Nova Sociologia Econômica, ver Lévesque, Bourque & Forgues, 2001.
5

devido a uma série de economias de escala, economias de associação e externalidades,


implicadas na ação comunal e comunitária. (Razeto, 1993, p. 40-1).
Ao darem-se as mãos, os trabalhadores fortalecem o seu poder de ação e aumentam as chances
de resolverem problemas e realizarem projetos. Sem essa expectativa, da parte dos
empreendedores solidários e das organizações de apoio, a economia solidária seria inexplicável.
Mas sem lograr esse objetivo razoavelmente, a economia solidária não seria senão uma
idealização ilusória, de dias fatalmente contados. Dessa questão depende portanto a resposta a
muitas outras, a respeito do caráter alternativo e do significado histórica da economia solidária.
Por isso, uma análise geral da economia solidária a partir dos dados do Mapeamento, que não
seja meramente descritiva, deve começar indagando-se: empreendedorismo e solidarismo andam
juntos nessas experiências, isto é, estão ambos presentes, reforçando-se mutuamente? Pode-se
efetivamente falar de outra economia, isto é, de um conjunto de princípios e práticas, inspirados
por valores mas, sobretudo e além disso, induzidos pela lógica socioeconômica singular de
funcionamento dos empreendimentos?
Se a resposta for positiva, pode-se a seguir examinar os casos em que essa racionalidade mais se
desenvolve (ou, pelo contrário, encontra-se refreada), além dos fatores que mais contribuem
para isso e as conseqüências mais importantes. Encontrando-se casos típicos, pode-se elaborar
tipologias dos empreendimentos, identificando condições e arranjos dinâmicos específicos,
explicativos de sua emergência, de seu funcionamento e de seus avanços. Tipologias
interpretativas, interessantes por irem além das aparências ou da morfologia externa dos
empreendimentos e apanharem os seus princípios e relações estruturais.5
Para chegar a esse ponto, convém entabularmos nosso percurso analítico pelo seu primeiro
degrau, anunciado na Introdução, relativo ao patamar mínimo de desempenho dos EES inseridos
no Mapeamento.

Mínimos de solidarismo e de empreendedorismo


Informações úteis a respeito dessa primeira questão provêm dos testes, antes referidos, aplicados
à base de dados para efeitos de sua validação. Com esse fim, buscou-se identificar
empreendimentos que fugiam ao Termo de Referência do Mapeamento, isto é, cujas
características, conforme foram declaradas nas entrevistas, os desclassificariam como
empreendimentos solidários. Nesse caso, ou não seriam iniciativas econômicas permanentes e
suprafamiliares ou, mesmo o sendo, não funcionariam de modo minimamente autogestionário
ou no intuito de garantir sua viabilidade econômica. Por conseguinte, não poderiam estar
imbuídos de uma racionalidade empreendedora e solidária. Quanto mais freqüentes esses casos,
mais distante ficaria a hipótese da existência de uma racionalidade baseada na conjunção desses
dois aspectos. Sendo tais casos predominantes, entre as 15 mil experiências mapeadas, o próprio
conceito de economia solidária ficaria sujeito a cair por terra.
Uma das baterias de testes incidiu sobre os traços restritivos dos empreendimentos, registrados
na coleta de dados. Caso esses traços, contrários às definições do Termo de Referência,
ocorressem em grande proporção ou associados a características não aleatórias, estaríamos
diante de debilidades sistêmicas dos empreendimentos. Se, ao contrário, essas hipóteses
negativas fossem rejeitadas, os empreendimentos teriam passado no teste. Portanto, uma
contraprova, no sentido de falsear (ou expor à falsificação) as conclusões tiradas a partir dos

5
Analisar dados oriundos de um levantamento de base populacional, através de sua quantificação, agregação e
extratificação, equivale a montar e desmontar as peças de vários quebra-cabeças (os empreendimentos), buscando
compará-los e descobrir tipos de peças e de encaixes comuns que revelem a figura (ou a estrutura) de fundo. É
possível então empilhar as peças de incontáveis maneiras, da mesma forma que se pode separar os empreendimentos
conforme o ano de início, a zona de atuação, a atividade econômica, o gênero e qualquer outra variável. Esse trabalho
será infindável e ficará limitado ao plano descritivo se não estiver orientado por uma teoria e por hipóteses de análise.
6

dados favoráveis à economia solidária. As hipóteses negativas principais e suas rejeições totais
ou parciais foram as seguintes:6
Relacionadas a situações de baixo empreendedorismo:
• Hipótese 1: EES que funcionam principalmente com base em doações não atendem aos
requisitos de empreendedorismo, eficiência e viabilidade.
o Conclusão: poucos EES são completamente dependentes, mas a carência de infra-estrutura e de
recursos materiais e financeiros próprios constitui um fator importante de dependência externa
das iniciativas de economia solidária.
• Hipótese 2: EES destinados unicamente ao autoconsumo não possuem uma dinâmica
econômica empreendedora.
o Conclusão: o Mapeamento captou uma parcela de empreendimentos de subsistência, cuja
motivação, em 1/3 dos casos, é o acesso ao crédito para unidades produtivas familiares ou
individuais, especialmente no meio rural, por meio da formação de grupos e associações.
• Hipótese 3: a inexistência de salários regulares ou de benefícios sociais para os sócios que
atuam no empreendimento indica EES sem caráter econômico ou de rentabilidade insuficiente
para assegurar sua viabilidade preservando a dignidade do trabalho.
o Conclusão: houve problemas de interpretação quanto ao que significa sócios que trabalham no
empreendimento. Mesmo assim, é uma fragilidade importante de muitos EES, que não
remuneram regularmente os sócios (17,8%) ou não oferecem benefícios sociais mesmo quando
já superaram a fase de implantação (52%). Paradoxalmente, a ausência de benefícios é
ligeiramente maior nos EES de Produção coletiva (60,8%) e menor em EES cujas atividades não
implicam labor coletivo regular, como a Troca de produtos ou serviços (49%), Poupança ou
crédito coletivo (46,5%) e Obtenção de clientes ou serviços para os sócios (52,4%). Nesses dois
últimos, a explicação reside em parte no fato de que se organizam com freqüência como
Cooperativas, nas quais a ausência de benefícios sociais é acentuamente menor (42,4%). De
outra parte, pode-se presumir que os benefícios sociais estejam às vezes garantidos de modo
individual, através da ocupação profissional principal dos sócios, quando o EES destina-se, por
exemplo, a gerar uma renda ou utilidade econômica complementar.7

Relacionadas a situações de baixo solidarismo:


• Hipótese 4: empreendimentos que não adotam formas de organização jurídica explicitamente
associativas ou cooperativas não são autogestionárias.
o Conclusão: os casos existentes (0,7%) ficam na margem de erro e não apresentam um
comportamento atípico nos quesitos de autogestão.
• Hipótese 5: EES criados apenas para acessar recursos para usos individuais não possuem uma
dinâmica coletiva.
o Conclusão: são EES providos de atividades econômicas coletivas em intensidade menor que os
demais, mas isso não significa que sejam inexistentes.
• Hipótese 6: algumas atividades de fraca densidade coletiva, como o uso comum de
equipamentos, quanto desacompanhadas de outras, descaracterizam a dimensão solidária dos
EES.
o Conclusão: o fato aponta empreendimentos com baixo grau de envolvimento na atividade-fim,
como as cooperativas de eletrificação rural, não implicando conforme os dados que estejam
desprovidos de práticas associativas ou de vivência comunitária.

6
Parâmetros técnicos: freqüências inferiores a 1,5% (224 empreendimentos) foram desprezadas, por serem
consideradas dentro da margem de erro, isto é, como parte do percentual aceitável de anomalias aleatórias, inevitáveis
em levantamentos de base populacional. Freqüências entre 1,5 e 3% foram objeto de análises pontuais, ponderando-se
no entanto que não comprometem a validade geral dos dados.
7
No formulário do Mapeamento não se perguntou se os sócios ou trabalhadores dos EES dispunham de garantias ou
direitos sociais de modo individual ou anterior ao empreendimento, mas apenas através desse.
7

• Hipótese 7: a inexistência de órgãos colegiados de decisão, ou de instâncias participativas,


descaracteriza a autogestão nos EES.
o Conclusão: houve problemas de entendimento na aplicação do formulário, mas existe uma
parcela de EES pouco democráticos e participativos, inferior a 10%.
• Hipótese 8: a exclusividade ou a predominância de trabalhadores não sócios, atuando no
empreendimento, descaracteriza a natureza associativa e igualitária dos EES.
o Conclusão: apenas 2,7% dos EES possuem apenas trabalhadores não sócios, 1% em caráter
permanente. Uma situação contraditória, mas claramente minoritária.
• Hipótese 9: a existência de trabalhadores não-sócios engajados na produção de modo
permanente indica a compra sistemática de força-de-trabalho, reeditando a separação entre os
trabalhadores e a propriedade dos meios de produção.
o Conclusão: dos EES, apenas 2,5% contratam trabalhadores para a produção em caráter
permanente. Vale a conclusão anterior.
• Hipótese 10: a falta de participação social e política indica inexistência de solidarismo externo.
o Conclusão: as declarações prestadas afirmam haver ao menos um tipo de participação em cerca
de 50% dos EES, sendo a mesma completamente inexistente em 19% dos casos. Não há contudo
relações com outros traços específicos, como a Região ou o tipo de atividade econômica, o que
revela ser esse um limite atual da economia solidária.8

De modo geral, mesmo longe da “perfeição”, os EES mapeados passaram no teste, ao


apresentarem práticas solidárias e empreendedoras geralmente acima de um patamar mínimo.
Para uma avaliação mais abrangente e conclusiva a esse respeito, construímos dois coeficientes,
respectivamente de baixo empreendedorismo e de baixo solidarismo, formados por indicadores
de práticas ou situações negativas, semelhantes àquelas examinadas nas hipóteses acima. O
objetivo foi verificar se essas práticas ou situações são fatos isolados ou vinculados entre si.
Uma espécie de malha fina: quanto maior a pontuação de cada EES, menos empreendedor ou
solidário seria. Quanto mais EES tivessem pontuações elevadas, mais ficaria comprometida a
sua qualidade geral e deveríamos admitir que a economia solidária no Brasil está longe do que
se imagina, isto é, de conter elementos efetivos de outra lógica socioconômica.
Buscando explorar ao máximo as informações contidas no SIES, os indicadores de cada
coeficiente são os seguintes:9
• Coeficiente de baixo empreendedorismo:
1. Insumos, matérias-primas e recursos iniciais doados
2. Sede e equipamentos principais cedidos ou emprestados
3. Produção destinada unicamente ao autoconsumo dos sócios
4. Despreparo para a prática de comercialização
5. Resultados da atividade econômica insuficientes para pagar as despesas do ano
6. Incapacidade de remunerar os sócios que trabalham no empreendimento
7. Inexistência de benefícios, garantias e direitos para os sócios trabalhadores
8
Tudo depende das expectativas: estudos apontam que o contexto e os relacionamentos externos dos EES influenciam
o seu desenvolvimento (Gaiger, 2003; 2004c). Ao mesmo tempo, as questões de organização interna e os problemas
de viabilidade a curto prazo dominam a sua agenda de prioridades e restringem os espaços de militância, pois essa
requer tempo e liberação de quadros produtivos. O fato de que os EES mais engajados nos movimentos sociais,
inclusive nos fóruns de economia solidária, sejam mais visíveis e lembrados, pode criar a impressão de que se trata de
algo habitual para todos os empreendimentos.
9
Conforme se detalha no Anexo 1, em relação aos indicadores de alto desempenho apresentados adiante, os
indicadores construídos através dessa técnica não são necessariamente os melhores do ponto de vista conceitual, pois
precisam adaptar-se aos dados disponíveis. Normalmente, cada indicador não se relaciona apenas à questão do
formulário mais diretamente relacionada a ele, mas a um conjunto de questões e respostas afins, consideradas
simultaneamente ou alternativamente. Não detalharemos aqui cada indicador de baixo desempenho, pois a intenção é
considerar apenas os resultados gerais dessa análise (para uma visão detalhada, consultar o documento relativo ao
Produto 2.1 – convênio UNISINOS/IBASE/SENAES).
8

8. Presença permanente de trabalhadores não sócios, na produção ou outros setores


9. Inexistência de cuidados com os resíduos produzidos pelo empreendimento

• Coeficiente de baixo solidarismo:


1. Empreendimento sem nenhuma atividade coletiva declarada
2. Inexistência de assembléia ou reunião do coletivo de sócios
3. Inexistência de outras instâncias de direção e coordenação de caráter participativo
4. Inexistência de mecanismos de participação dos sócios nas decisões
5. Trabalho no empreendimento restrito a não sócios
6. Ausência de participação em redes ou fóruns de articulação
7. Ausência de relacionamentos ou de participação em movimento sociais e populares
8. Ausência de participação ou de desenvolvimento de ação social ou comunitária
9. Inexistência de iniciativa com vistas à qualidade de vida dos consumidores

O desempenho empreendedor geral dos empreendimentos mostrou-se bastante satisfatório, pois


99,7% dos EES incidem no máximo em 4 indicadores e 97,5%, em 3 indicadores ou menos. Do
total, 64,6% incidem em apenas 1 indicador, ou não incidem em nenhum dos 9 indicadores
utilizados. Apenas 0,3% dos EES incidem em 5 indicadores.10
O desempenho solidário geral dos empreendimentos também revelou-se satisfatório, embora
inferior ao desempenho empreendedor: 91% dos EES incidem em no máximo 4 indicadores e
75%, em no máximo 3 indicadores. Do total, 27% incidem em apenas 1 indicador, ou não
incidem em nenhum dos 9 indicadores utilizados. No outro extremo, 9% dos empreendimentos
incidem em 5 ou mais indicadores, 25% em 4 ou mais indicadores, ou seja, em mais de 1/3 dos
indicadores de baixo solidarismo. Somente 0,9% dos casos incidem em 6 ou 7 indicadores.
Por conseguinte, o desempenho global dos empreendimentos também é satisfatório, no que
tange a não possuírem características ou exercerem práticas indicadoras da ausência de
empreendedorismo ou de solidarismo: 93,7% deles incidem no máximo em 6 indicadores (1/3)
dos 18 utilizados e 0,5% incidem em 9 indicadores (1/2) ou mais. Existem empreendimentos
muito frágeis ou em situações contraditórias com o conceito de economia solidária. Porém,
como todas as frações que se referem a eles, ou seja, a empreendimentos com elevado
coeficiente de baixo empreendedorismo ou de baixo solidarismo, são inferiores a 1,5% (margem
de erro), pode-se dizer que os EES mapeados, salvo tais exceções, correspondem a experiências
classificáveis como de economia solidária. Em que pese a aparente redundância, a conclusão a
tirar é fundamental: o conceito de economia solidária, como um conjunto de práticas orientadas
por uma racionalidade que concilia solidariedade social e viabilidade econômica, possui
fundamentação empírica.
Altos e baixos do desempenho solidário e empreendedor
Vencemos o primeiro degrau mas nossa resposta ainda é parcial. Não basta provar a ausência de
algo para demonstrar que o seu contrário é um fato. É necessário verificar então se os EES não
ficam rentes aos mínimos de empreendedorismo e solidarismo, isto é, se os superam em graus
razoáveis, apresentando várias vezes bons indicadores positivos a respeito. A resposta será ainda
mais convincente se os EES apresentarem um desempenho alto em indicadores mais exigentes,
apropriados a uma concepção avançada de economia solidária.
Essa avaliação foi realizada através de um dispositivo metodológico tecnicamente similar ao
anterior, mas de conteúdo oposto: os EES foram analisados segundo sua pontuação em
coeficientes de alto empreendedorismo e de alto solidarismo, cada um composto também por 9
indicadores, construídos a partir das informações disponíveis na Base de Dados. Como o
adjetivo alto deixa a entender, a pontuação em cada indicador exige que o EES atenda a um
conjunto de requisitos por vezes bem acima das condições esperadas da maioria deles. Para
10
Certas cifras são maiores em alguns Estados, requerendo uma análise mais cuidadosa, que não será objeto desse
texto.
9

pontuar em vários indicadores, o EES necessita apresentar uma considerável desenvoltura em


muitas dessas frentes. Um fato excepcional, como se verá.
Impõe-se aqui um cuidado metodológico importante: os indicadores de alto desempenho, com
raras exceções, não recaem nas mesmas variáveis já utilizadas pelos indicadores de baixo
desempenho, muito menos quando se trata de variáveis do tipo sim/não. Além disso, as variáveis
compreendidas em cada indicador entram em combinações específicas entre si, que nunca se
repetem de modo invertido noutro indicador. Assim, nenhum indicador de alto desempenho
forma um par dicotômico com um indicador oposto de baixo desempenho, evitando-se com isso
que os EES sejam divididos automaticamente em dois pólos contrários, conforme tenham
respondido sim ou não, do contrário a análise seria tautológica. Quando subconjuntos de EES
alinham-se entre si de um certo modo, ao terem respondido de forma similar a certas questões,
diferentes e independentes entre si, isso revela então um padrão de funcionamento, cujas razões
e contornos é o que se buscará descobrir.
Feitas essas ponderações, assim ficaram os coeficientes, seus indicadores e os percentuais dos
EES que os satisfazem:11
• Coeficiente de alto empreendedorismo:
1. Recursos principais à montante (insumos, matérias-primas e recursos iniciais) de propriedade do
empreendimento (12,3%)
2. Sede, equipamentos e espaço principais de comercialização próprios (7,3%)
3. Comercialização principal no mercado estadual, nacional ou internacional (9,1%)
4. Uso de estratégias e ausência de dificuldades de comercialização (17,3%)
5. Obtenção, sem dificuldades, de crédito para investimento (3,9%)
6. Geração de sobra líquida e independência de financiamentos (9,2%)
7. Remuneração e vínculo regulares dos trabalhadores sócios e não sócios (9,3%)
8. Investimento na formação de recursos humanos (2,8%)
9. Férias ou descanso semanal para os sócios que trabalham no empreendimento (4,1%)

• Coeficiente de alto solidarismo:


1. Coletivização da produção, do trabalho ou da prestação de serviços (16,6%)
2. Decisões coletivas tomadas pelo conjunto de sócios (21,6%)
3. Gestão de contas transparente e fiscalizada pelos sócios (35,3%)
4. Participação cotidiana na gestão do empreendimento (20,2%)
5. Matérias-primas ou insumos principais de origem solidária (22,4%)
6. Comercialização solidária e preocupação com os consumidores (6,4%)
7. Participação em movimentos sociais e em ações sociais ou comunitárias (44%)
8. Participação em redes políticas ou econômicas solidárias (3,8%)
9. Ações de preservação do ambiente natural (29,8%)

Esses indicadores, se ligeiramente abrandados, contemplariam por vezes um percentual bem


mais elevado de EES12. Calculados sem tais concessões, eles têm a faculdade de apontar os
atuais pontos de estrangulamento da economia solidária. A saber, no quesito empreendedorismo:
investimento na formação de recursos humanos (2,8%), obtenção sem dificuldades de crédito
para investimento (3,9%), concessão de férias ou descanso semanal para os sócios que
trabalham no empreendimento (4,1%) e sede, equipamentos e espaço principais de
comercialização próprios (7,3%). Deficiências relacionadas não tanto ao funcionamento diário
do empreendimento, mas a debilidades estruturais que perduram, afetando o seu
reconhecimento pelo mercado e reduzindo sua capacidade de gerar excedentes que garantam
autonomia econômica, retribuições aos trabalhadores, coesão do quadro de sócios e qualificação
11
A descrição detalhada de cada indicador, além de considerações específicas, encontra-se no Anexo 1.
12
Por exemplo, contabilizar a segunda estratégia de comercialização, além da principal, elevaria o atendimento ao
terceiro indicador de empreendedorismo de 9,1% para 17,3%.
10

produtiva a longo prazo. No quesito solidarismo: participação em redes políticas ou econômicas


de natureza solidária (3,8%) e comercialização solidária com fornecedores e consumidores
(6,4%). Aqui, trata-se de limites nos relacionamentos externos, impostos pela fragilidade das
redes de articulação e pela inexistência de cadeias produtivas solidárias, capazes de estender-se e
romper o isolamento dos EES.13
Os percentuais de EES que atendem aos demais indicadores, afora esses nós górgios, são
melhores, entre 9% e 44%. Ademais, como vimos, poucos EES situam-se abaixo dos patamares
mínimos. Deduz-se então que a maioria dos empreendimentos apresenta um perfil geral médio,
por vezes considerável, de empreendedorismo e de solidarismo, mas aquém de um alto
desempenho. Essa tendência central significa, em outros termos, que não há muitos EES
pontuando nos coeficientes de alto empreendedorismo e de alto solidarismo, muito menos de
forma expressiva.
Freqüê Freqüên Percentu
ncia cia al
absolut percentu Percentu acumula
a al al válido do
P ,00
ont 7323 49,0 49,0 49,0
os
1,00 5028 33,6 33,6 82,6
2,00 1847 12,4 12,4 94,9
3,00 555 3,7 3,7 98,7
4,00 143 1,0 1,0 99,6
5,00 53 ,4 ,4 100,0
6,00 4 ,0 ,0 100,0
7,00 1 ,0 ,0 100,0
Tota
14954 100,0 100,0
l
Perfil do Coeficiente de Alto Empreendedorismo

Os indicadores de alto empreendedorismo são atingidos em média por 8,7% dos EES. Quase a
metade dos empreendimentos não preenche nenhum indicador. Um terço atende apenas a um
indicador. Somente 5% atendem a três indicadores ou mais. Os dados são consistentes com os
percentuais individuais dos indicadores e com o fato de 3 deles apresentarem cifras inferiores a
5%. Os pontos mais débeis, já mencionados, correspondem à infra-estrutura, a crédito e
investimentos, à capacitação dos recursos humanos e aos direitos sociais do trabalho.

Coeficiente de alto empreendedorismo


,00 1,00 2,00 3,00 4,00 5,00 6,00 7,00 Total
Coeficiente de ,00
baixo 1483 1153 560 199 60 27 4 1 3487
empreendedorismo
1,00 2889 2106 843 248 71 24 0 0 6181
2,00 1921 1278 338 93 11 2 0 0 3643
3,00 787 391 82 15 1 0 0 0 1276
4,00 212 92 18 0 0 0 0 0 322
5,00 28 8 6 0 0 0 0 0 42
6,00 3 0 0 0 0 0 0 0 3
Total 7323 5028 1847 555 143 53 4 1 14954
Cruzamento dos coeficientes de baixo e de alto empreendedorismo

13
A tese de que tais cadeias poderiam um dia substituir as relações com o mercado convencional, além de discutível
(Gaiger, 2004c), mostra-se aqui muito distante da realidade.
11

Para efeitos de contraste, o cruzamento entre os coeficientes de alto e de baixo


empreendedorismo comprova a consistência do instrumento, pois apenas 228 empreendimentos
(1,5%) pontuam simultaneamente em 2 indicadores num dos coeficientes e em mais de 2 no
outro. A área em destaque na tabela acima indica os 53 casos (0,3%) que, além disso, perfazem
ao menos 6 pontos, isto é, 1/3 da pontuação simultânea máxima. Os perfis de baixo e de alto
empreendedorismo excluem-se.

Freqüê Freqüê Percentua


ncia ncia l
absolut percent Percentu acumulad
a ual al válido o
,00 2122 14,2 14,6 14,6
1,00 3763 25,2 25,8 40,4
2,00 3933 26,3 27,0 67,3
3,00 2591 17,3 17,8 85,1
4,00 1381 9,2 9,5 94,6
5,00 528 3,5 3,6 98,2
6,00 204 1,4 1,4 99,6
7,00 46 ,3 ,3 99,9
8,00 9 ,1 ,1 100,0
9,00 1 ,0 ,0 100,0
Tota
14578 97,5 100,0
l
Miss Syst
376 2,5
ing em
Total 14954 100,0
Perfil do coeficiente de alto solidarismo

No tocante ao alto solidarismo, os percentuais individuais mais elevados dos indicadores, com 3
deles acima de 25% e uma média de 22,2%, refletem-se no desempenho global superior dos
empreendimentos. Apenas 15% não pontuam em nenhum indicador; 31,8% pontuam em 3 ou
mais indicadores; 5,3% pontuam em 5 ou mais indicadores (quando eram apenas 0,4% no alto
empreendedorismo). As ausências maiores situam-se na comercialização solidária e na
participação em redes econômicas e políticas solidárias.

Coeficiente de alto solidarismo


,00 1,00 2,00 3,00 4,00 5,00 6,00 7,00 8,00 9,
Coeficiente ,00 0 48 166 269 253 169 111 29 8
de baixo 1,00 24 398 808 782 542 225 70 15 1
solidarismo 2,00 241 954 1199 819 396 103 21 2 0
3,00 601 1060 987 446 142 28 2 0 0
4,00 708 822 537 226 40 3 0 0 0
5,00 479 431 223 47 7 0 0 0 0
6,00 58 45 12 2 1 0 0 0 0
7,00 11 5 1 0 0 0 0 0 0
Total 2122 3763 3933 2591 1381 528 204 46 9
Cruzamento dos coeficientes de baixo e de alto solidarismo

Da mesma forma, o cruzamento com o coeficiente de baixo solidarismo atesta a consistência do


instrumento, embora as concomitâncias sejam mais freqüentes: 4.045 empreendimentos (27%)
pontuam simultaneamente em 2 indicadores num dos coeficientes e em mais de 2 no outro. A
área em destaque indica os 944 casos (6,3%) em que os empreendimentos pontuam
12

simultâneamente em ao menos 3 indicadores em cada coeficiente. Em apenas 15 casos, a


pontuação chega a 9, isto é, a 50% da pontuação máxima em ambos os coeficientes.
Em conclusão, os empreendimentos não estão rentes ao chão, próximos aos patamares mínimos,
mas tampouco concentrados no topo. A sua grande maioria nem apresenta características
negativas, contrárias ao empreendedorismo solidário, nem se destaca por características de alto
desempenho. À luz do instrumento de análise aqui utilizado, eles estão acima do ponto crítico e
abaixo do ponto ótimo: distribuem-se pelo gradiente existente entre esse dois níveis, com
práticas variáveis mas efetivas de economia solidária.
Conjugando os resultados dos indicadores de baixo e de alto desempenho, chega-se a uma
síntese dos pontos fortes e fracos da economia solidária retratada pelo Mapeamento:14
• Pontos fortes:
oInsumos, matérias-primas e recursos iniciais próprios ou de origem solidária
oProdução destinada ao mercado, com estratégias de comercialização
oCuidados com a destinação dos resíduos e a preservação do ambiente natural
oTrabalho exercido predominantemente pelos sócios do empreendimento
oParticipação dos sócios nas decisões, via assembléias ou reuniões gerais
oGestão transparente e fiscalizada pelos sócios
oParticipação social e comunitária

• Pontos fracos:
oIncapacidade de obtenção de crédito e de recursos para investimento
oInsuficiência de remuneração regular, benefícios e direitos sociais vinculados ao trabalho
oFalta de investimentos na formação de recursos humanos
oInfreqüência de instâncias participativas além da assembléia ou reunião geral
oTroca ou comercialização escassa entre empreendimentos solidários
oLimitada participação em fóruns de articulação e em redes de comércio solidário15

Compassos entre cooperação e desempenho econômico


A tese de uma nova racionalidade socioeconômica, capaz de superar os limites intrínsecos à
separação entre o capital e o trabalho que caracteriza o funcionamento das empresas capitalistas,
implica que as práticas de natureza sociopolítica e as práticas de natureza econômica dos
empreendimentos de economia solidária, negando aquela disjuntiva, evoluam
complementarmente. De acordo com o método empregado até aqui, caberia examinar se as
variações observadas nos coeficientes de alto empreendedorismo e de alto solidarismo são
concomitantes ou de algum modo correlacionadas. A tarefa consiste em analisar os coeficientes
de forma integrada.

Freqüê Freqüê Percentua


ncia ncia l
absolut percent Percentu acumulad
a ual al válido o
,00 1263 8,4 8,7 8,7
1,00 2546 17,0 17,5 26,1
2,00 3356 22,4 23,0 49,1
3,00 2977 19,9 20,4 69,6
4,00 2088 14,0 14,3 83,9
5,00 1206 8,1 8,3 92,2

14
Esse perfil varia entre as Unidades da Federação, conforme se apresenta no Anexo 2, havendo situações merecedoras
de estudos e esclarecimentos específicos.
15
A distinguir da participação social e comunitária em sentido amplo, bem mais freqüente.
13

6,00 648 4,3 4,4 96,6


7,00 282 1,9 1,9 98,5
8,00 133 ,9 ,9 99,5
9,00 56 ,4 ,4 99,8
10,0
17 ,1 ,1 100,0
0
11,0
6 ,0 ,0 100,0
0
Tota
14578 97,5 100,0
l
Miss Syst
376 2,5
ing em
Total 14954 100,0
Perfil do coeficiente integrado de alto empreendedorismo e solidarismo

Quando se observa a pontuação dos EES somada nos dois coeficientes, os números (tabela
acima) refletem globalmente as situações já evidenciadas separadamente em cada coeficiente. A
grande maioria dos empreendimentos apresenta pontuação modesta: 92% deles pontua no
máximo em 5 indicadores; atingindo ou superando 50% da pontuação máxima (9/18 ptos.),
existem apenas 79 empreendimentos, o equivalente a 0,5% do total mapeado.
Olhando por outro ângulo, na primeira linha da tabela, 8,7% dos EES não pontuam em nenhum
indicador. No coeficiente de alto solidarismo, isoladamente, isso ocorre como vimos em 14,6%
dos EES, de modo que 60% dos mesmos não pontuam no coeficiente de alto
empreendedorismo, contra os outros 40% com alguma pontuação. Da parcela de 48,6% de EES
que não pontuam no coeficiente de alto empreendedorismo, 18% tampouco pontuam no
coeficiente de alto solidarismo, enquanto os 82% restantes registram alguma pontuação.
Subindo ligeiramente de faixa, 25,8% dos EES apresentam 1 ponto em alto solidarismo e
33,6%, 1 ponto em alto empreendedorismo. No coeficiente integrado, essa situação aparece
simultaneamente (1+0, 0+1, 1+1) em percentuais menores, pois 40,5% dos EES totalizam 1 ou 2
pontos, ao que se deveria acrescentar os EES com 2 pontos num coeficiente (27% e 12,4%), sem
pontuação no outro. Entre os os EES de menor desempenho, não se pode dizer que a
concomitância entre as pontuações no alto solidarismo e no alto empreendedorismo seja regra.
Um caso poder ocorrer sem o outro.
Não obstante essa conclusão, a tabela abaixo propicia uma visão mais geral, embora
aproximativa, sugerindo que o conjunto de EES obedece a uma relação positiva entre maior
solidarismo e maior empreendedorismo. Lê-se na primeira coluna que os 48,6% de EES com
pontuação nula em alto empreendedorismo contribuem mais para as faixas de baixa pontuação
de alto solidarismo do que para as de alta, decaindo essa contribuição de 59,5% (EES com
nenhum ponto em alto solidarismo) para 26,1% (EES com 7 pontos em alto solidarismo).16 Na
coluna seguinte, essa tendência inverte-se, crescendo até a faixa dos EES com 5 pontos em alto
solidarismo, diminuindo ligeiramente em seguida. Na terceira coluna, de EES com 2 pontos em
alto empreendedorismo, sua menor contribuição está na faixa dos EES com nenhuma pontuação
em alto solidarismo, com 9%, crescendo até 28,3% nos EES com 7 pontos em alto solidarismo.
O mesmo vale para as colunas seguintes: a cada grau de empreendedorismo, corresponde um
grau proporcionalmente maior de solidarismo.17 Os casos de desenvolvimento unilateral, em
apenas uma dessas dimensões, seriam minoritários, conclusão convergente com estudos

16
Um valor ainda elevado, o que evidencia as contradições apontadas entre os EES com baixa pontuação. O caso mais
gritante é o do único EES com 9 pontos em alto solidarismo, que pontua apenas uma vez em empreendedorismo.
17
A leitura da tabela na horizontal mostraria o mesmo resultado: o número de EES com baixa pontuação em
solidarismo (linhas superiores) decresce à medida que aumenta a sua pontuação em empreendedorismo, numa
proporção mais acentuada do que a própria redução geral desses. O inverso ocorre com os EES de 4 a 8 pontos em
solidarismo: sua presença é proporcionalmente maior nas faixas de melhor pontuação em empreendedorismo.
14

qualitativos (Gaiger, 2006), segundo os quais o desenvolvimento da dimensão empreendedora


não inibe forçosamente a autogestão e o engajamento social dos empreendimentos, antes é
suscetível de estimulá-los ou mesmo de pressupô-los.

Coeficiente de alto empreendedorismo Total


,00 1,00 2,00 3,00 4,00 5,00 6,00 7,00
Coeficiente ,00 59,5% 28,6% 9,0% 2,2% ,5% ,2% 100,0%
de 1,00 51,5% 34,0% 10,5% 2,9% ,8% ,2% ,0% 100,0%
alto 2,00 47,9% 34,4% 13,0% 3,5% ,8% ,3% 100,0%
solidarismo
3,00 45,6% 34,9% 13,0% 4,9% 1,0% ,5% ,0% 100,0%
4,00 40,0% 36,4% 16,0% 4,6% 1,9% ,9% ,2% 100,0%
5,00 36,6% 37,3% 17,8% 6,1% 1,9% ,4% 100,0%
6,00 30,4% 36,3% 22,1% 8,3% 2,0% 1,0% 100,0%
7,00 26,1% 37,0% 28,3% 8,7% 100,0%
8,00 33,3% 22,2% 44,4% 100,0%
9,00 100,0% 100,0%
Total 48,6% 33,9% 12,4% 3,7% 1,0% ,4% ,0% ,0% 100,0%
Cruzamento dos coeficientes de alto empreendedorismo e de alto solidarismo

Poderíamos indagar se essa correspondência geral decorre em maior medida de alguma situação
específica. Nesse caso, alguns indicadores, numa dimensão, exerceriam uma força de indução
sobre indicadores da outra dimensão. O atendimento aos primeiros, por parte dos EES,
representaria uma condição favorável ao atendimento dos segundos, sinalizando então que a
dimensão empreendedora e solidária encontram-se ali integradas. Tais indicadores funcionariam
como elos de ligação, como nódulos de entrelaçamento entre solidarismo e empreendedorismo,
teoricamente o cerne da racionalidade singular das iniciativas de economia solidária.
Uma técnica estatística apropriada a essa questão consiste em mensurar as correlações
simultâneas entre todos os indicadores, verificando quais tendem a andar juntos, a se repelirem
ou a manterem-se neutros, sem relações significativas.18 Os resultados de sua aplicação ao nosso
estudo mostram que as atrações mais importantes ocorrem sempre entre os indicadores da
mesma dimensão: práticas ou características de alto solidarismo, por exemplo, relacionam-se
mais fortemente entre si do que com as práticas ou características de empreendedorismo. É
possível que existam elos consideráveis vinculando os dois aspectos, porém não de forma
genérica, para todos os empreendimentos. Isto é compreensível, dada a já aludida diversidade da
economia solidária.
Uma resposta mais satisfatória à questão exigiria um estudo particular de cada segmento, com
hipóteses específicas correspondentes. Ainda assim, ressai da análise geral feita que algumas
práticas avançadas de empreendedorismo se fazem acompanhar de bons indicadores de
solidarismo, sinalizando uma dinâmica ao mesmo tempo econômica, social e política: de um
lado, no campo do fortalecimento econômico interno do EES, através do desenvolvimento da
capacidade de contração de crédito e de investimento, conjugada ao seu fortalecimento externo,
mediante inserção em redes de comercialização solidária; de outro lado, no campo da
observância dos direitos sociais do trabalho – fator de coesão interna - e do cuidado com a
preservação do ambiente natural – fator de desenvolvimento a longo prazo.
Quando se considera um coeficiente de cada vez, examinando-se a estrutura dos seus
indicadores, os resultados são interessantes. As práticas de alto empreendedorismo aparecem
divididas em dois blocos, evidenciando que os EES de maior pontuação apresentam matizes
diferenciados. De um lado, aqueles que adquirem as condições econômicas e optam por manter
um quadro regular de sócios trabalhadores, concedendo-lhes direitos sociais e investindo na sua
18
A técnica chama-se Análise de Correspondências Múltiplas. O uso de variáveis dicotômicas, desprovidas de
graduações, como são os nossos indicadores, infelizmente limita o seu alcance nesse momento. Outra restrição é a
freqüência em geral modesta dos indicadores (média geral de 15,45%), em alguns casos diminuta.
15

formação e qualificação (setas na zona superior do diagrama abaixo). De outro lado, os EES que
apresentam estratégias e relativa facilidade de comercialização, acesso creditício ou recursos
para investimentos e, como provável causa e conseqüência disso, auto-suficiência econômica e
financeira, fatores bastante vinculados (zona inferior do diagrama). Essas duas situações não são
excludentes, mas constituem dois perfis relativamente independentes.

Diagramme joint des points de modalité

cae1: Recursos à
montante (insumos,
matérias-primas e
recursos iniciais) de
propriedade do
empreendimento (ordem
1)
cae2: Sede, equipamentos
Dimension 2

cae9 cae7 cae1 e espaço de


1,0 cae3 comercialização próprios
cae8 cae3: Penetração ampla
no mercado (ordem 1)
0,5
NS NS cae4: Estratégia e
NS facilidade de
NS NS comercialização (ordem 1)
0,0 NS
NS cae5: Capacidade de
NS NS obtenção de crédito e
investimento
-0,5 cae2
cae6: Auto-suficiência
econômice e financeira
cae7: Remuneração e
-1,0 vínculo regular dos
cae4 trabalhadores
cae6 cae8: Investimentos na
-1,5 formação dos recursos
cae5 humanos
cae9: Férias ou descanso
-2,0 semanal para os sócios
-3 -2 -1 0 que trabalham no
empreendimento
Dimension 1
Normalisation principale de la variable.

Gráfico das correspondências entre os indicadores de alto empreendedorismo

Os indicadores de alto solidarismo apresentam igualmente dois tipos de correlação mais fortes:
em primeiro lugar, entre as práticas de decisão coletiva e de transparência administrativa,
vértices do modelo de gestão democrática. Em segundo lugar, entre as práticas de inserção mais
ampla, em ações comunitárias ou movimentos sociais, e os cuidados com a preservação
ambiental, a denotar um possível envolvimento com as questões locais de desenvolvimento.
Nesse caso, contudo, não seria apropriado falar de dois perfis, pois os primeiros indicadores, de
democracia interna ou de autogestão, logo se vinculam aos segundos, de externalização da
identidade econômica e política dos empreendimentos. Ademais, ambos relacionam-se
secundariamente a outras práticas mais específicas, como a comercialização solidária e a
participação cotidiana dos sócios na gestão do empreendimento, figurando ainda,
favoravelmente àquelas práticas, as situações de coletivização do trabalho ou da produção. Há
portanto uma correlação entre solidarismo interno e externo.
O estudo mais amiúde dos indicadores, por meio de sua inclusão judiciosa em testes sucessivos
de correspondências, permite discernir as vias de convergências que progressivamente se
estabelecem entre eles. A partir da conquista de um patamar de gestão democrática, os EES
lançam-se no papel de atores sociais da economia solidária, mediante engajamento comunitário
e práticas de articulação política e econômica, ou, numa segunda via, investem prioritariamente
em políticas de valorização do trabalho, mediante remuneração regular, benefícios sociais e
formação. Ambos os caminhos mostram-se relativamente independentes dos avanços
propriamente econômicos, como acesso a crédito, capacidade de investimento, facilidades de
comercialização e penetração ampla no mercado.19 O alto desempenho econômico pode ser
19
A rigor, o indicador Penetração ampla no mercado denota certa correlação com aqueles de valorização do trabalho.
16

alcançado por EES situados em quaisquer das estratégias de desenvolvimento. Portanto, essas
devem-se não a imposições da realidade econômica em si, mas a fatores singulares que afetam
os diferentes EES em seu processo histórico. Pode-se dizer que representam, de certo modo,
uma questão de política dos EES, isto é, de escolhas igualmente orientadas por sua identidade e
por seu projeto.
Essa linha de entendimento explicaria a neutralidade de alguns indicadores relevantes do ponto
de vista das condições de atuação dos EES, como a existência de Recursos à montante de
propriedade do empreendimento, de Sede, equipamentos e espaços de comercialização próprios
ou ainda, de Matéria-prima ou insumo de origem solidária. Essas características dependeriam
de circunstâncias extrínsecas ao desenvolvimento do solidarismo ou do empreendedorismo,
estando relacionadas ao tipo de atividade econômica, à zona de atuação e fatores dessa ordem -
os empreendimentos rurais, por exemplo, pontuam mais no primeiro e no terceiro indicadores
citados. Uma presença no geral discreta diz respeito ainda ao indicador Participação cotidiana
na gestão do empreendimento: ele não estaria vinculado somente à índole democrática dos EES,
mas à pragmática de sua organização, como indica o fato de ser bem mais pontuado nos
empreendimentos de pequeno porte (33%) do que naqueles com mais de 20 membros (15%).

Atuação na sociedade

Articulação em redes
solidárias (3,8%)
Participação social e
comunitária (44%)

Decisões coletivas tomadas Comercialização solidária


pelo conjunto de sócios (6,4%)
(21,6%)

Gestão transparente e
fiscalizada pelos sócios
(35,3%) Remuneração e vínculo
regular dos trabalhadores
sócios (9,3%)

Férias ou descanso semanal


(4,1%)

Gestão democrática
Investimento na formação de
recursos humanos (2,8%)

Valorização do
trabalho

Variantes de desenvolvimento dos EES

Nosso percurso analítico leva a concluir, conforme o diagrama acima, que as práticas
características dos EES mais sobressalentes, do ponto de vista da expressão de sua singular
racionalidade social e econômica, medida pelo que chamamos alto desempenho empreendedor e
solidário, bifurcam-se em duas vias. Uma compreensão mais profunda dessas variantes, a partir
das aquisições iniciais proporcionadas por esse estudo da racionalidade dos empreendimentos
em geral, requer adentrar os diversos segmentos da economia solidária isto é, os subconjuntos
de empreendimentos que partilham uma história comum e possuem uma morfologia geral
similar, a exemplo das associações de produtores familiares, das cooperativas industriais ou das
unidades coletivas de reciclagem. Cada segmento pode ter seu desempenho solidário e
17

empreendedor apurado e comparado com os índices gerais, o que destacaria suas singularidades
e apontaria prováveis explicações. Outra possibilidade, de acordo com o método aqui utilizado,
consistiria em comparar os EES que apresentam um perfil solidário e empreendedor semelhante,
a despeito de sua heterogeneidade morfológica, o que permitiria cruzar tipologias de
desempenho qualitativo dos empreendimentos com tipologias de conteúdo histórico-social.

Outra racionalidade faz diferença?


O caminho para essas abordagens tipológicas ficará melhor preparado com a resposta a uma
última questão, abordável a partir dos dados gerais do Mapeamento: quais as características
típicas dos EES com melhor desempenho empreendedor e solidário, do ponto de vista de sua
formação, de seu desenvolvimento posterior e de seus resultados mais recentes?
Empreendimentos antigos, escolados por anos de dura concorrência no mercado, refluem em
suas práticas solidárias ou as mantêm? O que dizer dos empreendimentos de porte, cujo maior
quadro de sócios acarreta empecilhos à democracia direta? À luz dos nossos indicadores,
aqueles EES que demonstram maior solidez econômica, com volumes de produção
consideráveis, sacrificam os seus aspectos sociais e adotam uma lógica empreendedora
convencional? Conforme as respostas a tais perguntas, poderá ficar mais claro se a presença dos
traços da nova racionalidade socioeconômica, mesmo parcial e variável, não é somente um
aspecto singularizante dessas iniciativas, mas um do seus elementos estruturantes e, por
conseguinte, fundamental.
A tabela abaixo elucida o primeiro problema, relativo aos motivos principais da criação dos
EES20. Observa-se que a justificativa mais usual, de busca de alternativa ao desemprego (31%), 21
refere-se a empreendimentos cujo desempenho fica abaixo da média (última linha), o que
respalda a idéia de que não bastam fatores de pressão externa e negativa sobre os trabalhadores
(Gaiger, 2004c) para que o resultado seja mais uma boa iniciativa de economia solidária. No
mesma posição ficam os EES cuja finalidade inicial tinha um cunho pragmático (acesso a
financiamentos e apoios) ou refletiam uma dinâmica mais ampla, talvez sem suficiente foco nas
iniciativas econômicas (desenvolvimento comunitário). Ganham destaque na outra ponta, com
índices acima da média, os EES formados com o objetivo deliberado de socializar a atividade
econômica (desenvolver atividade onde todos são donos), sendo o coeficiente de alto
solidarismo ali o mais elevado, e os casos de luta coletiva pela reconversão de empresas
privadas em falência, nos quais o coeficiente de alto empreendedorismo é quase três vezes
superior à média. Seja principalmente por opção refletida, ou pela força maior das
circunstâncias, a motivação inicial faz diferença quando focaliza, precisamente, a dupla
dimensão social e econômica dos empreendimentos. Por isso mesmo, provavelmente, os
coeficientes de empreendedorismo e de solidarismo evoluem nesses casos lado a lado.

Coeficient Coeficient
e de alto e Coeficient
Motivo da criação do
empreen- de alto e
empreendimento
dedorism solidaris integrado
o mo
Uma alternativa ao
0,7505 1,8750 2,6316
desemprego
Obter maiores ganhos em
um empreendimento 0,8013 2,0039 2,8067
associativo

20
Como a pontuação da totalidade dos EES mapeados é baixa nos indicadores de alto empreendedorismo e
solidarismo, não existem variações expressivas em números absolutos. Focalizaremos as diferenças relativas nas
pontuações médias dos subconjuntos de EES delimitados pelos critérios em análise, na medida que sejam congruentes
para a interpretação e apontem tendências de interesse.
21
A questão era de respostas múltiplas, sendo considerado aqui o motivo declarado como prioritário.
18

Uma fonte complementar


de renda para os 0,8057 2,0953 2,9073
associados/as
Desenvolver uma atividade
0,8582 2,4166 3,2788
onde todos são donos
Condição exigida para ter
acesso a financiamentos e 0,5623 1,9692 2,5350
outros apoios
Recuperação por
trabalhadores de empresa 2,1111 2,3857 4,5143
em falência
Motivação social,
0,7974 1,9934 2,7881
filantrópica ou religiosa
Desenvolvimento
comunitário de
0,7356 1,7864 2,5194
capacidades e
potencialidades
Alternativa organizativa e
0,7271 2,1945 2,9291
de qualificação

Total dos EES 0,7531 2,0024 2,7595

Desempenho dos EES segundo o motivo principal de sua criação


[Pontuações médias e destaques]

Uma vez estabelecidos, os empreendimentos passam pela prova do tempo. Ao menos aqueles
que sobreviveram até o Mapeamento não parecem descaracterizar-se. O grupo de EES cuja
fundação ocorreu antes de 1980 exibe o melhor desempenho global, com um bom índice de alto
solidarismo e o maior índice de alto empreendedorismo. No outro lado, os EES fundados há
menos de uma década, compreensivelmente mais frágeis se muito recentes, apresentam os níveis
de alto empreendedorismo mais modestos, mas também índices de alto solidarismo
tendencialmente abaixo da média.22 O melhor perfil nesse quesito corresponde aos EES ao redor
de 15 anos, não àqueles do grande surto registrado ao final dos anos 90. Por razões melhor
esclarecidas adiante, o tempo faz bem aos empreendimentos: se seleciona inevitavelmente
aqueles com melhor saúde econômica, em resultado de suas estratégias de viabilidade, também
preserva as iniciativas com melhores práticas de participação e de gestão compartilhada. A esse
propósito, nota-se ainda que os EES submetidos a uma redução recente no número de sócios
também apresentam um desempenho menor que os demais, depreendendo-se então que os
eventos de adesão e evasão de trabalhadores não estão descolados das possibilidades de
conciliar as exigências econômicas e sociais dessas organizações.
A longevidade dos EES de certo modo está ligada à forma de organização que adotam. É
comum, especialmente durante a eclosão de novas experiências nos últimos anos, que os
empreendimentos no início se organizem como grupos informais. Registram-se posteriormente
como associações ou cooperativas, podendo obviamente já nascer com esse estatuto ou jamais
adotá-lo. As cooperativas são em média mais antigas que as associações e os grupos informais,
representando às vezes um estágio mais avançado desses empreendimentos. Por esse motivo e
pelas exigências contidas na transição para o formato cooperativo, quanto à viabilidade
econômica e a regras formais de gestão democrática, entende-se por que as cooperativas
mapeadas (10,7% dos EES) apresentam índices bastante superiores aos demais, ao passo que os
grupos informais ficam em último lugar nesse comparativo, com deficiências mais visíveis –
detalhe importante – no coeficiente de alto solidarismo.

22
O mesmo se dá mais incisivamente com os EES em processo de implantação durante o Mapeamento, cujos índices
gerais são bastante inferiores aos EES em operação ou funcionamento normal.
19

As cooperativas são geralmente empreendimentos maiores. Desse ponto de vista, os dados


relevam grande consistência: quanto maior o quadro de sócios, melhor o desempenho geral dos
EES, com destaque para a faixa superior a 50 membros, em ambos os coeficientes. As
deficiências dos grupos informais aparecem agora por outro prisma: segundo os indicadores,
empreendimentos com até dez integrantes são em média menos solidários que os de médio e
grande porte, ao contrário do que provavelmente se imagina.23 Não obstante as dificuldades
inerentes à condução de organizações autogestionárias de grande porte, a economia solidária não
se revela aqui uma alternativa típica ou cativa de pequenos empreendimentos, sem dar-lhes
chances de crescer. Os EES que declararam ter admitido novos sócios antes do Mapeamento,
por sinal, possuem índices de desempenho superiores àqueles de quadro estável ou em
diminuição.
Os dados sobre o predomínio de homens e mulheres no quadro social são dignos de interesse
para análises de gênero. Quando o total de homens sócios cresce, atingindo as mesmas faixas
acima calculadas – o que significa empreendimentos ainda maiores, pois a presença exclusiva
do sexo masculino foge à regra – o desempenho geral também eleva-se, contribuindo para isso
em especial o coeficiente de empreendedorismo. Esse desempenho geral no entanto é inferior ao
das mulheres, isto é, dos empreendimentos maiores contabilizando-se unicamente o número de
sócias. Desta feita, há um equilíbrio maior entre os coeficientes de alto empreendedorismo e de
alto solidarismo.
A vantagem dos empreendimentos mais robustos estende-se ao volume das atividades
econômicas. A tabela abaixo destaca as cifras nitidamente maiores dos EES que se singularizam
nesse aspecto, nos itens de produção, crédito, investimento e remuneração dos sócios
trabalhadores. Por seu turno, os EES com valor da produção não declarado, sem acesso ao
crédito, desprovidos de investimentos e com as menores faixas de remuneração, apresentam os
menores quocientes de alto empreendedorismo e alto solidarismo. Salvo uma exceção, afeta
justamente aos EES com maior remuneração, na faixa superior a cinco salários-mínimos (vide
tabela), o índice de alto solidarismo sempre acompanha o crescimento da atividade econômica.
A pontuação no coeficiente integrado aumenta, pela ordem, com o nível de faturamento,
investimento, crédito e remuneração.

Coeficie
nte de Coeficie
Coeficie
alto nte
Indicadores do porte nte
empree de alto
da atividade econômica integrad
n- solidari
o
dedoris smo
mo
Valor mensal do principal produto ou
serviço
- acima de R$ 10 mil e até R$ 1 milhão 1,2191 2,2649 3,4831
- acima de R$ 1 milhão 2,7838 3,1667 5,9444
Crédito obtido nos últimos 12 meses
- acima de R$ 10 mil e até R$ 100 mil 0,9202 2,5700 3,4887
- acima de R$ 100 mil 1,2214 2,6369 3,8726
Investimento realizado nos últimos 12
meses
- acima de R$ 10 mil e até R$ 100 mil 1,1498 2,5111 3,6636
- acima de R$ 100 mil 1,4888 2,4986 3,9710
Remuneração dos sócio(as)
trabalhadores
- acima de ½ s. m. até 5 s. m. 1,7459 2,3081 4,0455
- acima de 5 s. m. 1,8250 2,0833 3,9167
Total dos EES 0,7526 2,0025 2,7601

23
Em compensação, ficam em segundo lugar no quesito empreendedorismo, atrás apenas dos empreendimentos
maiores, o que tampouco parecer ser senso comum.
20

Desempenho dos EES com atividades econômicas de grande porte


[Pontuações médias e destaques]

Finalizando, é pertinente ainda dimensionar o impacto das ações externas de promoção e apoio
aos empreendimentos, visto serem uma característica marcante da economia solidária. Um
primeiro dado revela que os EES declarantes de apoios recebidos, sob forma de assessoria,
assistência ou capacitação, apresentam índices superiores aos não declarantes, exceto no caso de
apoio de órgãos governamentais, de longe o mais freqüentemente citado (41,3%). Assim, os
apoios externos, se nem sempre muito ajudam, tampouco mostram-se inúteis ou prejudiciais.
A tabela a seguir discrimina esses apoios e oferece pistas para a avaliação do seu grau de
eficácia. Percebe-se que formas a princípio mais convencionais e padronizadas (Qualificação
profissional, técnica ou gerencial) ou voltadas a um objetivo momentâneo (Assessoria na
constituição e legalização) não surtem maiores efeitos. Já as assessorias educativas (Formação
sociopolítica) e as incidentes sobre gargalos conhecidos dos empreendimentos (Assistência
jurídica, marketing e comercialização) provocam os melhores resultados. Quanto à origem dos
apoios, segundo os dados o diferencial positivo é causado, de maior a menor, por cooperativas
de técnicos, instâncias do movimento sindical, universidades, entidades civis e braços do
“Sistema S”. O conhecimento técnico parece assim ter vigor apenas quando associado à cultura
cooperativa e ao ambiente social e político da economia solidária.

Coefici
ente de
Coeficien
alto Coeficient
Principal apoio recebido te de alto
empre e
pelo empreendimento solidaris
en- integrado
mo
dedori
smo
Assistência técnica ou
0,7652 2,2497 3,0230
gerencial
Qualificação profissional,
0,7687 2,0158 2,7863
técnica ou gerencial

Formação sociopolítica 0,8426 2,3927 3,2355

Assistência jurídica 1,0483 2,0990 3,1386

Assessoria em marketing e
1,0291 1,9602 3,0050
na comercialização

Diagnóstico e planejamento 0,8732 2,1236 3,0116

Assessoria na constituição,
0,6392 2,0577 2,7000
formalização ou registro

Total dos EES 0,7814 2,1421 2,9278

Desempenho dos EES segundo o principal apoio externo recebido


[Pontuações médias e destaques]

Como arremate, dados mais específicos indicam que esse enquadramento estaria funcionando
muito bem quando os empreendimentos resolvem internalizar os conhecimentos técnicos
necessários, com a incorporação ao seu quadro de profissionais especializados, via contrato de
trabalho. A presença desses trabalhadores, ao lado dos sócios, sempre está em correlação
positiva com melhores perfis de desempenho. No caso mais nítido, relativo à gerência,
21

assessoria e consultoria, os efeitos mais uma vez são perceptíveis em compasso, no coeficiente
de alto empreendedorismo e de alto solidarismo.
***
Dessa longa relação de fatores que impulsionam os empreendimentos de economia solidária,
conclui-se não se tratarem de circunstâncias aleatórias ou casuísticas, mas de fatos integrados à
trajetória dos EES; não à contra-corrente de suas práticas empreendedoras e solidárias, mas
justamente por serem as mesmas exercidas. Em outras palavras, tais práticas, cujas conexões
sustentam a tese de uma racionalidade peculiar dessas organizações, são-lhes estruturantes. O
efeito apreciável provocado por situações à primeira vista sem maiores conseqüências, como o
predomínio das mulheres no quadro social, avaliza a idéia de que se conduzir segundo as pautas
de outra economia faz uma considerável diferença. Os reflexos positivos da maior parte dos
apoios externos, representando assim o interesse e o amparo da sociedade para a economia
solidária, justificam que ela seja entendida como um sistema, a requerer novas regulações da
economia e da vida social.
Nada parecido a um caminho conhecido e seguro. De todo o modo, nossos esforços de
compreensão não deveriam perder de vista que o sentido da economia solidária, em sua
instância primordial, depende do que ela representa para a vida dos trabalhadores, diante das
demais alternativas de trabalho, renda e inserção social com que podem contar, considerando-se
suas aspirações a uma vida com valor e dignidade. Reside, ademais, nos novos protagonismos
que essas iniciativas ensejam, na esfera econômica e nos espaços públicos, em cujos embates
forjam-se repetidamente, desde as lutas democráticas dos anos 80, os atores populares da
cidadania.

Referências

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22

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SINGER, Paul & SOUZA, André (Orgs.) (2000). A Economia solidária no Brasil; a autogestão como
resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto.
ANEXO 1
Indicadores de Alto Desempenho
dos Empreendimentos Econômicos Solidários
Os indicadores abaixo, agrupados em Coeficientes de Alto Empreendedorismo e Alto
Solidarismo, buscam explorar ao máximo as informações contidas na Base de Dados, a fim de
propiciar razoável segurança no juízo analítico sobre esses dois aspectos, não sendo porém
necessariamente os melhores do ponto de vista conceitual, pois devem ser aplicáveis aos dados
disponíveis na Base. Normalmente, cada indicador não se relaciona apenas à questão do
formulário do Mapeamento diretamente relacionada a ele, mas a um conjunto de questões e
respostas afins, consideradas simultaneamente (conetivo &) ou alternativamente (conetivo or).
Na linguagem do programa estatístico SPSS, gera-se assim uma sintaxe de Seleção de Casos.
Por outro lado, alguns indicadores por sua natureza não se aplicam à totalidade dos EES, a
exemplo do indicador 9 de Alto Solidarismo. Salvo raras exceções, estima-se que a maior parte
dos indicadores seja pertinente aos EES, o que possibilita aferir e comparar os seus respectivos
desempenhos.
Para dar consistência e confiabilidade aos indicadores, incluíram-se simultaneamente requisitos
complementares que confirmam a posição dos EES a respeito das características em análise. É o
caso, por exemplo, do indicador 8 de Alto Empreendedorismo. Outras vezes, visando não
restringir demasiadamente o percentual de EES que atendem ao indicador, admitem-se
diferentes alternativas de satisfação dos requisitos, como se vê no indicador 6 de Alto
Solidarismo. Quando o indicador refere-se a uma questão que permitia escolher 3 respostas, em
ordem descrescente de importância, normalmente considera-se apenas a primeira alternativa
escolhida (ordem 1). Com essas ressalvas, a cada EES sempre é atribuído 1 ponto (valor sim),
quando preenche os critérios definidos em cada indicador, segundo sua sintaxe específica.
A especificação dos indicadores abaixo segue a notação do programa SPSS 24. Esse dispositivo
foi aplicado à Base de Dados gerada nesse formato pela UNISINOS (versão maio/2007), sendo
necessário ter à mão o Dicionário correspondente para um acompanhamento passo a passo de
cada indicador.25 Como o número das variáveis mencionadas coincide com o das questões
originais do formulário de coleta de dados, a consulta ao mesmo é útil supletivamente para que
se entenda o teor geral de cada indicador. Após cada indicador, por vezes são feitos comentários
originados do cruzamento dos indicadores com outras variáveis julgadas preliminarmente de
interesse. Ao final, apresenta-se um quadro-síntese do percentual de satisfação de cada indicador
pelos EES mapeados.
• CAE: coeficiente de alto empreendedorismo (9 indicadores):

1. Recursos principais à montante (insumos, matérias-primas e recursos iniciais) de


propriedade do empreendimento (ordem 1) - 12,3%
[ori20a = 3 & rec31a = 1]
O fornecimento pelos próprios associados do EES (critério ori20a = 3) privilegia os
empreendimentos com atividade rural (25,7%), provavelmente em razão das características da
produção primária, deixando em segundo lugar os empreendimentos rural-urbanos (19,7%) e,
abaixo, os urbanos (8,2%).

2. Sede, equipamentos e espaço de comercialização próprios (ordem 1) - 7,3%


[sed21 = 1 & eqp22a = 1 & esp26a = 1]
A utilização de espaços próprios como forma principal de comercialização é o critério mais
restritivo: 16,5%

3. Comercialização principal no mercado estadual, nacional ou internacional (ordem 1) -


9,1%
24
Além dos conetivos & e or, considerar que o símbolo =~ significa diferente de.
25
A Base de Dados e o Dicionário integram o Produto 2.1 do Convênio UNISINOS/IBASE/SENAES.
24
[mer25a = 4 or 5 or 6]
Apenas 2,2% têm o mercado nacional como principal, 0,7% o mercado exportador. A inclusão
da ordem 2 (mer25b) elevaria o percentual do indicador para 17,7%.

4. Uso de estratégias e ausência de dificuldades de comercialização - 17,3%


[div29 = 1 & dif27 = 2]
A inexistência de dificuldades de comercialização é o critério individualmente mais restritivo:
28,6%.

5. Obtenção sem dificuldades de crédito para investimento – 3,9%


[dif42 = 2 & cre36 = 2 or 3 & inv34classes =~ 0]
50,8% declaram-se sem dificuldades para obtenção de financiamento ou crédito (dif42); 8,7%
utilizaram crédito para investimento e 4,4% para custeio ou capital de giro e investimento
(cre36), sendo esse o critério mais restritivo; 41,1% mencionam algum valor investido nos
últimos 12 meses (inv34classes). A maioria (85,8%) daqueles que não declaram ter dificuldades
de obtenção de financiamento ou crédito não os buscou ou não os recebeu, ao passo que a
maioria (58,9%) dos que obtiveram financiamento ou crédito afirmam ter tido dificuldades.
Essas se apresentam para quem busca crédito ou financiamento. Apenas 7,2% obtiveram crédito
ou financiamento sem dificuldades.

6. Geração de sobra líquida e independência de financiamentos – 9,2%


[fin40 = 2 & eco50 = 1]
A necessidade de financiamento predomina (77,5%), crescendo ligeiramente dos
empreendimentos que conseguiram gerar excedentes (75%), para aqueles que apenas pagaram
despesas (79%) e para aqueles que não conseguiram pagar as despesas (86%).

7. Remuneração e vínculo regulares dos trabalhadores sócios e não sócios – 9,3%


[(rem54a = 1 ou rem54b = 1 ou rem54c = 1) & (vin61a = 1 ou vin61b = 1 ou vin61c = 1)]
O indicador aplica-se apenas a empreendimentos que possuam trabalhadores sócios e não
sócios. O percentual afasta-se da média apenas entre empreendimentos com atuação coletiva em
poupança ou crédito (6,46%) e nos de obtenção de clientes e serviços para os sócios (13%). A
existência de trabalhadores não sócios (17%) é ligeiramente menor nos empreendimentos de
produção e de troca de produtos ou serviços (16,3%), oscilando até 21% nos demais casos.

8. Investimento na formação de recursos humanos – 2,8%


[(inv33a = 6 or inv33b = 6 or inv33c = 6 or exc51c = 1) & ben56d =1]
Não há concomitância entre as práticas dos últimos 12 meses (inv33 e exc51) e a existência
genérica de benefícios direcionados à qualificação social e profissional (ben56): 80,3% não
atendem a nenhum critério; 6,4% indicam investimentos na capacitação de mão-de-obra ou em
fundo de assistência técnica e educacional (nesse segundo caso, 7% entre as cooperativas, contra
0,6% no restante), mas sem indicarem a qualificação social e profissional com um benefício
para os sócios (ben56); 10,5% declaram o inverso: há esse benefício mas não houve aqueles
investimentos no último ano.

9. Férias ou descanso semanal para os sócios que trabalham no empreendimento - 4,1%


[ben56b = 1 or ben56c = 1]
Destacam-se acima da média as cooperativas (19,3%); os empreendimentos de prestação de
serviços ou trabalho coletivo (6,6%); os empreendimentos com atuação rural e urbana (6,7%).
Abaixo, ficam os empreendimentos com atuação rural (2,3%).

• CAS: coeficiente de alto solidarismo (9 indicadores):


25

1. Coletivização do trabalho, da produção e da prestação de serviços – 16,6%


[col16a = 1 & col16b = 1]
O percentual descresce dos empreendimentos com atuação urbana (21%), para os de atuação
rural e urbana (18%) e para os de atuação rural (13%).

2. Decisões coletivas tomadas pelo conjunto de sócios - 21,6%


[dir47a = 1 & part48b = 1 & part48c = 1 & part48f = 1]
O percentual teria um ligeiro aumento com a utilização do valor corrigido da variável dir47a,
estimado através dos Testes de Consistência (cf. Produto 2.1 do convênio
UNISINOS/IBASE/SENAES)

3. Gestão de contas transparente e fiscalizada pelos sócios - 35,3%


[dir47e = 1 & part48a = 1 & part48d = 1]

4. Participação cotidiana na gestão do empreendimento – 20,2%


[dir47g = 1 & part48g = 1]
Os percentuais diminuem conforme aumenta o número total de sócios do empreendimento: 33%
(1 a 10), 21,5% (11 a 20) e 15% (mais de 20).

5. Matérias-primas ou insumos principais de origem solidária (ordem 1) – 22,4%


[ori20a = 1 or ori20a = 3]
O percentual é mais alto nos empreendimentos rurais (29%), seguido dos rurais e urbanos (23%)
e dos urbanos (11%). Quando se considera apenas a aquisição de outros empreendimentos
(ori20a = 1), todas as áreas de atuação se equivalem, com percentuais em torno de 3,3%. As
diferenças devem-se ao fornecimento de matérias-primas e insumos pelos associados, mais
freqüente nos empreendimentos rurais.
Chama a atenção que o indicador tenha um percentual menor entre os empreendimentos
dedicados à Aquisição de matérias-primas e insumos de forma coletiva (17%), comparado com
aqueles de Comercialização e venda coletiva (21%), Produção coletiva (22,6%) e Troca coletiva
de produtos ou serviços (26%). O fato é atribuível ao desprovimento de tais recursos entre os
associados, que criam então o empreendimento para esse fim.

6. Comercialização solidária e preocupação com os consumidores – 6,4%


[(com24a = 4 or com24a = 5 or com24b = 4 or com24b = 5 or com24c = 4 or com24c = 5) &
qdv69 = 1]
A comercialização com outros empreendimentos solidários é menos infreqüente entre os
urbanos (8,5%) e rurais e urbanos (6,9%), que entre os rurais (5%). Isto em parte se explica
porque a Comercialização ou venda coletiva é mais comum entre os urbanos (69,8%), que entre
os rurais e urbanos (62%) e os rurais (46,6%). O mesmo vale parcialmente para a Aquisição de
matérias-primas ou insumos, onde os rurais (25,3%) perdem para os urbanos (32,9%) e para os
rurais e urbanos (34,6%).
A comercialização solidária é mais comum entre os empreendimentos dedicados à Troca
coletiva de produtos e serviços (14%) que entre aqueles dedicados à Aquisição de matérias-
primas ou insumos (8,9%), Comercialização ou venda coletiva (8,7%) e Produção coletiva
(7,8%). No caso da Troca coletiva de produtos e serviços, ganham ligeiramente os
empreendimentos rurais (13,2%), dos rurais e urbanos (12,7%) e dos urbanos (9,4%).
Essa prática é menos infreqüente entre as Sociedades Mercantis (13,3%), seguidas dos Informais
(9,4%), Cooperativas (6%) e Associações (4,6%).
Há diferenças entre as regiões: SUL (11,5%), CO (8,6%), SE (7,6%), NO (5,2%) e NE (3,8%).

7. Participação em movimentos sociais e em ações sociais ou comunitárias – 44%


26
[mov65 = 1 & aca67 = 1]
A maior diferença entre as Regiões está entre o NE (48%) e o CO (35,7%).

8. Participação em redes econômicas ou políticas solidárias - 3,8%


[red64e = 1 & (red64b = 1 or red64c = 1 or red64g = 1 or red64h =1 or red64i = 1 or mov66b =
1)]
Entre as Regiões, a maior diferença está entre a SUL (7,6%) e a CO (2%), ficando as demais
abaixo de 4%.
As variações quanto à área de atuação indicam ligeira vantagem para os rurais e urbanos (4,4%),
seguidos dos rurais (4%) e urbanos (3%).
Há uma vantagem das cooperativas (10%), oscilando as demais formas de organização entre
2,3% e 3,3%.

9. Ações de preservação do ambiente natural - 29,8%


[res72a = 2 or 3 or 4]
O indicador aplica-se apenas aos 58,7% de EES que geram algum tipo de resíduo a partir da
atividade produtiva ou da prestação de serviços. Aplicado a esse subtotal, corresponderia a
50,7% atendimento.

Quadro comparativo dos indicadores

Indicadores CAE CAS


- + - +
1- Recursos à montante 12,3%
(insumos, matérias-primas e
recursos iniciais) de
propriedade do
empreendimento
2- Sede, equipamentos e 7,3%
espaço de comercialização
próprios
3 - Penetração ampla no 9,1%
mercado
4 - Estratégia e facilidade de 17,3%
comercialização
5 - Capacidade de obtenção de 3,9%
crédito e investimento
6 - Auto-suficiência econômica 9,2%
e financeira
7 - Remuneração e vínculo 9,3%
regular dos trabalhadores
8 - Investimentos na formação 2,8%
dos recursos humanos
9 - Férias ou descanso semanal 4,1%
para os sócios que trabalham
no empreendimento
1 - Produção econômica e 16,6%
trabalho coletivos
2- Decisões coletivas tomadas 21,6%
pelo conjunto de sócios
3 - Gestão transparente e 35,3%
fiscalizada pelos sócios
4 - Participação cotidiana na 20,2%
gestão do empreendimento
27
5 – Matéria-prima ou insumos 22,4%
de origem solidária
6 - Comercialização solidária 6,4%
7 - Participação social e 44%
comunitária
8 - Articulação em redes 3,8%
econômicas ou políticas
solidárias
9 – Ações de preservação do 29,8%
ambiente natural

ANEXO 2
Perfil dos Indicadores de Alto Desempenho
por Unidades da Federação
Alguns indicadores de alto desempenho apresentam comportamentos distantes da média
nacional em certas Unidades da Federação. O fato pode explicar-se por singularidades regionais
da economia solidária ou por idiossincrasias e dificuldades ocorridas durante o processo de
Mapeamento. Embora o exame desses problemas localizados escape aos objetivos desse
documento, as tabelas abaixo os assinalam, destacando as situações nitidamente abaixo (em
vermelho) ou acima (em verde) das médias nacionais. Confrontar esses dados com o relatório
detalhado do Mapeamento, elaborado pela SENAES em 2006, pode trazer esclarecimentos a
alguns casos e indicar aquelas situações, entre as abaixo sugeridas, que justificam uma análise
pormenorizada, para fins de relativização dos dados correspondentes e para evitar a repetição
desses problemas em futuras atualizações do SIES.
I – Indicadores de Alto Empreendedorismo em destaque:

INDIC. 1 2 3 4 5 6 7 8 9
UF 12,3 7 9 17,3 3 9 9 2 4,1%
% ,3% ,1% % ,9% ,2% ,3% ,8%
RO 35,8 0,8 1,3
AC 6,9 1 1,5
AM 19,4 23,7 3,3 6,6
RR 2,7 16,4 0 1,4 0
PA 17,2 1,7 8,3
AP 1 22,3 1
TO 4 3,3
MA 33,3 4,4 3,5 2,5 0,7 0,7
PI 1,9 6 0,9 0,8
CE 1 1,4
RN 2,6 7,8
PB
PE 5,6 3,6 3 1,1
AL 4,9 17,6 3,4 1
SE
BA
MG 3,8 2,7
ES 20,5 1,5 18,1
RJ 5,3 3,9 6,5
SP 18,7 8,3
28
PR 28,1 20,1 16,3 6,5 7,2
SC 5,8 6,3 17,4 13,7
RS 10,5 16,7 9,9
MS 0,4 26,1 3,4 31,6 18,8 6,8
MT 32 7,4 1,8 3,3 0,6
GO 19,6 20,8 0,6
DF 11,4 33,4 17,6 \

• Destaques positivos: SP / PR / SC / MS / RS / RO
• Desempenhos anômalos: RO / PA / MA / AL / ES / MS / MT / GO
• Destaques negativos: RR / AP / PI

II - Indicadores de Alto Solidarismo em destaque:

INDIC. 1 2 3 4 5 6 7 8 9
UF 16,6 21,6 35,3 20,2 22,4 6 44% 3 29,8%
% % % % % ,4% ,8%
RO 5,4
AC 5,2 7,7 6,5 0,7
AM 3,3 1,6
RR 8,2 11,1 1,4 1,4
PA 6,6 6,6 9,7 0,3
AP 1,9
TO 7 43 72,5 5,8 8
MA 53,4 1,2
PI
CE 34,5 2,6
RN 61,7 12,6 2,2 64,5 1,6
PB 12,7 1,3
PE 57,1 42,2
AL 2,4 6,8 6,8 12,2 1,5
SE 1,6
BA 60 40,8
MG 27,4 12,4
ES 30,5 59,1 12,7
RJ 36,9 8,6 10,1
SP
PR 12,7 6,6
SC 46,9 7,4
RS 14,5 8
MS 60,3 5,1 8,5 3 23,9 0,4
MT 6,3 41,9 1,7
GO 36,7
DF 37,5 11,4 39,9 14,4

• Destaques positivos: BA / PE / SC / RS
• Desempenhos anômalos: TO / RN / MS / MT / DF
29
• Destaques negativos: AC / RR / PA / AL / MS