UM RE TRATO DE PORTUGAL
Á M AIOR PARTE DOS V ISITANTE S procura aspraias arenosas, as costas
l % rochosas e os cuidados campos de golfe do Algarve. Para além
.JL _^. da costa fica o menos explorado recanto da Europa Ocidental:
um país de variadas paisagens, cidades sofisticadas, interiores rurais
e tradições contrastantes.
Portugal parece nào ter razões
geográficas óbvias para a
independência, mas esta
extremidade ocidental da
Península Ibérica man-
t ém fr ont eir as pr at ica-
mente inalteradas desde
há quase 800 anos. Os
seus de x milhões de
habit ant es falam uma
língua própria, seguem
tradições cult ur ais
únicas e têm uma
história cie séculos cie orgulhosa
independência da E spanha, por
quem nutrem alguma desconfiança.
Para um pequeno país, as suas
regiões são imensamente variadas.
As áreas rurais do M inho e de Trás-
-os-M ontes sào as mais tradicionais e
t ulvc- x até at rasadas. Ao longo das
últimas décadas, mui t os habi t ant es
dessas regiões negligenciadas foram
Cavaleiro num festival em Vila
Franca de Xira, Ribatejo
forçados a emigrar em busca de
trabalho.
O Sul do país nào podia ser
mais diferente. O Algarve,
abençoado com belas
praias e por um maravi-
lhoso clima mecliterrâ-
nico du r a nt e t odo o
ano, transformou-se
num destino de férias
para os E ur opeus do
Noite.
Dois grandes rios, o
Tejo e o Douro, nascem na E spanha
e atravessam Portugal em di r ecção
ao Atlântico. É das /ónus superiores
do vale do Douro que provém um
dos mais famosos produtos portu-
gueses: o vinho cio Porto. O Tejo é
lento e inunda frequentemente as
t er r as pla na s c fér t ei s do Riba-
t ej o, onclr past am os cavalos e os
touros.
Praia em Albufeira, no Algarve, muito frequentada na estacão alta
<] Agricultura de minifúndio, perto de Ponte de Lima, Minho
I N T R O D U Ç Ã O A P O R T U G A L
Planície do Alentejo, com a aldeia e o castelo medieval de Teren
Nas embocaduras cio Tejo e do Douro
encontram-se as duas maiores cidades
de Portugal, Lisboa e Poito. Lisboa, a
capit al, é uma metrópole
cosmopolita, com uma rica
vida cult ur al, muitos mu-
seus nacionais e galerias cie
arte. O Porto, a segunda
cidade de Por t ugal e
capital da região nortenha
do país, é um sério rival de
Lisboa, especialmente em
termos de i ndús t r i a e
comércio. Os rest ant es
centros populacionais sào
muit o mai s pequenos e
vão desde as comunidades cie
pescadores da costa atlântica até às
mi nús culas aldeias medievais das
planícies do Alentejo e cio interior
montanhoso das Beiras.
Longe, em pleno At lânt ico, encon-
tram-se dois arquipélagos com go-
vernos autónomos: a quent e e lu-
xur iant e M adeira e a pequena ilha
de Porto Santo, ao largo
da costa de M arrocos, e as
nove cristas vulcânicas e
verdes que constituem os
Açores, a um terço da
distância entre Lisboa e
Nova Iorque.
Mulher a preparar vime
para cestaria
Varandas num bairro do Porto
POLÍ TIC A E E C ONOM IA
A hist ór ia por t uguesa
iniciou uma nova época
no últ i mo qua r t el do
século XX. Submetido à longa ditadura
de Salazar desde finais cios anos 20, o
país estava praticamente isolado da
comunidade internacional. A grande
preocupação da política externa era a
defesa das colónias africanas e
asiáticas. A indústria e o comércio
eram dominados por algumas
famílias ricas, num enquadramento
fiscal muito apertado.
A Revolução cios C ravos,
de 1974, pôs fim a essa
época. O r est abeleci ment o da
democracia foi doloroso mas, a
partir dos anos 80, Portugal adop-
tou uma posição cada vez mais
confiante e europeia. A entrada
para a C omunidade E uropeia, em
U M R K T R A T O D H P O R T l G A L l 5
1986, foi bem recebida a
todos os níveis da socie-
dade e pr opiciou uma
explosão cie obras de
construção como Portugal
nunca vira. Às exportações
t r adicionais - - cor t iça,
resina, têxteis, sardinhas
enlatadas e vinho - junta-
ram-se outras novas, como
a de veículos automóveis e
cimento.
Os subsídios e emprésti-
lates de luxo em Vilamoura, Algarve
mós da UE a j u da r a m à
construção de novas estradas, pontes nome próprio precedido cie Senhor,
e hospitais, e provocaram significativas Senhora ou Dona. No entanto, são
melhorias na agricultura. O Porto foi gregários, comem e bebem em gran-
c a p i t a l da cu lt u r a em 2001 e em dês grupos, em festas ou restaurantes,
Janeiro de 2002 o curo tornou-se a celebr ando um aniver sár io ou um
divisa cie Portugal.
O M ODO DE V IDA
PORTUGUÊ S
Os t ur i st as deparam
com um povo de
brandos costumes e
descontraído, com um
sentido inato da boa edu-
cação, qu a li da de que
Recolha de algas para
fertili/ante, na ria de Aveiro
casamento. E xcepto as gerações
ma i s a nt i g a s , os Por t u-
gueses têm em geral
alguns conhecimen-
tos de inglês. Têm
um carinho especial
pelas cr ianças, que
são bem recebidas em
todo o lado. Os visitantes
com crianças encontrarão
imediat ament e um bom
t ambém r es pei t a m nos
outros. Os Portugueses tendem a ser relacionamento com os anfitriões. No
formais quando se dirigem aos outros, entanto, por detrás dos sorrisos e do
Tr at am os recém-conhecidos pelo bom humor há um muito enraizado
Vista da aldeia de Monsanto, perto da fronteira espanhola
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Camponeses a almoçar nos campos do Alentejo
aspecto da psique nacional que os
próprios Por t ugueses deno mi na m
saudade, uma espécie de melancolia
etérea que parece ansiar por algo per-
dido ou inatingível.
Há duas outras características por-
tuguesas que podem ser irrit ant es. A
primeira é a descontracção perante
as horas. Os vi si t ant es nào devem
encarar a falt a de pont ualidade como
uma ofensa. A segunda é o facto de
perderem toda a sua cortesia quando
estão ao volante de um carro. Con-
du z i r de uma ma nei r a perigosa e
seguir encostado ao carro da frente a
a
l
ta
velocidade são passa-
tempos nacionais.
A famí lia é o centro da
vida portuguesa. Apesar
de os velhos costumes
estarem a mudar, em parti-
cular nas cidades, é fre-
quente verem-se três gera-
ções sob um mesmo tecto,
e normalmente homens e
mulher es co nt i nu a m a
viver com a família depois
de se casar em. H ouve
uma mudança radical na
dimensão da família. Há uma geração,
as famílias com dez ou mais filhos
eram vulgares, em especial nas áreas
rurais. Hoje, o normal são um ou dois
filhos, muitas vezes cuidados por uma
avó enquanto os pais vão trabalhar. O
catolicismo está
no coração da
vida portuguesa,
em particular no
Nor t e, onde
quase t odas as
casas, cafés ou
barbearias exi-
bem um santo
ou um crucifixo.
Fachada em Alcochete, pequena
cidade no estuário do Tejo
Porta de Óbidos com uma capela de Nossa Senhora
da Piedade, revestida a a/.ulejos do século XVI I I
Os casamentos e a primeira comunhão
são acontecimentos profundament e
religiosos. Apesar de a frequência cias
igrejas estar em declínio, a devoção a
Nossa Senhora de Fátima mantém-se
firme, tal como as romarias a locais
santos, especialmente no Norte.
LÍ NGUA E C ULTURA
Sugerir que a língua portuguesa é um
mero dialecto do espanhol constitui
uma das piores ofensas para os Portu-
gueses, que têm um grande orgulho
na sua língua e na sua literatura. Os
Lusíadas, poema épico de Camões,
poeta do século XV I. são estudados
com reverência, embora muit os portu-
gueses se deli ci em t ambém com o
imparcial retraio irónico deles próprios
Procissão na Vidigueira, Alentejo
nos romances cio século XIX cie E ça
de Queirós. Também se orgulham do
fado, uma t radição musical que
expressa a noção de saudade. Nas
áreas r ur ai s , em pa r t i cula r no
M inho, há ainda um grande
entusiasmo pelas danças fol-
clóricas. Portugal tem vários e
excelentes jornais, mas o diá-
rio mais vendido é Â Bola
dedicado int eirament e ao des-
porto. O futebol é uma paixão
nacional. As touradas também
têm os seus aderentes, mas sem
a paixão que encontramos nos
E spanhóis.
Os Portugueses são ávidos especta-
dores da televisão e começaram a pro-
l l o l l HI I I
montado num
burro, Beira Alta
Esplanada na Praça da Figueira, Lisboa
duzir telenovelas, filmes e documentá-
rios. Até há poucos anos, tuclo isso era
import ado. Ult imament e, o país
virou-se para o fut ur o, mas
muito do seu património pro-
vém dos tempos dos Descobri-
mentos. Os monumentos mais
apreciados são os construídos
nesse período, num estilo
arquitectónico exclusivamente
por t uguês, o M a nu eli no . São
muitos os azulejos, outra tradição
nacional, que glor ificam o
grande passado marít imo do
país. E m 1986, quando os Por-
tugueses se juntaram \ \ C omuni-
dade E uropeia o então presidente Jac-
cjues Delors avisou-os de que deviam
pensar neles próprios
"primeiro como port u-
gueses e só depois como
europeus". Os Portugue-
ses foram demasiado
educados para se rirem
em voz alta. Como pode-
riam deitar fora séculos
de uma cultura tão feroz-
ment e defendida? Isso
nunca lhes passaria pela
cabeça.