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"Dois anos no FC Porto habituaram-me mal"

Por Bruno Prata

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/26-12-2009/dois-anos-no-fc-porto-
habituaramme-mal-18482491.htm

O treinador português desvaloriza as críticas da imprensa italiana ao seu trabalho


no Inter e garante que continuará a dar "o peito às balas"

"Dou o peito às balas e sempre darei. Nasci assim no futebol e vou morrer assim.
Mas também lhe confesso que sabe bem, de vez em quando, ver aparecer alguém
com um colete à prova de balas! Dois anos no FC Porto habituaram-me mal..." A
frase é de José Mourinho e faz parte de uma entrevista que o técnico do Inter de
Milão concedeu ao PÚBLICO por e-mail. O mote principal foram as críticas de que
Mourinho tem sido alvo nos últimos tempos na imprensa italiana, que ainda há dias
o acusava de ter insultado e agredido um jornalista. Mourinho explicou o incidente,
pediu desculpa, mas garante que o seu comportamento tem sempre um objectivo:
"A defesa dos interesses do meu clube, sem nunca me preocupar com o que dele
resulta para a minha imagem". De resto, desvaloriza as informações de que a sua
continuidade à frente do campeão italiano estará dependente da conquista da Liga
dos Campeões. "O meu lugar está sempre em perigo, porque treino sempre clubes
que muitos querem treinar...".
Foi acusado de ter agredido "verbal e fisicamente" o jornalista Andrea
Ramazzotti, do Corriere dello Sport, no final do jogo do Inter de Milão com
a Atalanta, em Bergamo (que viu das bancadas por estar castigado). O que
aconteceu?
Já referi o que se passou. E o que se passou foi consequência de um processo. Mas
explico de novo. Há meses que digo no clube que não quero ver junto à porta do
nosso autocarro um jornalista que espera a chegada dos nossos jogadores. Este
deve ser um espaço reservado, até porque, depois de um jogo, com as emoções
dele resultantes, pode dizer-se qualquer coisa... Depois dos jogos, os jornalistas
têm o seu espaço para trabalhar, na sala de imprensa, na zona mista... Por isso,
disse que não o queria ali e disse-o também ao senhor jornalista, porque era
sempre o mesmo, várias vezes. Mas, pela milésima vez, em vez de lhe dizer "que
faz o senhor aqui?", disse "que faz aqui este fdp...?". Não houve nem agressão
física nem sequer tentativa de agressão. Já admiti que errei e que não devia ter
dito o que disse, mas, apesar disso, para mim, foi uma coisa "simples" e facilmente
solucionável por dois homens. Desde que, claro, nenhum deles quisesse
transformá-la num facto de dimensão mundial.
A Associação de Jornalistas Italianos pediu que o presidente do Inter e a
federação italiana tomassem "medidas enérgicas" contra si. Moratti
sublinhou que a situação não lhe agradava, mas que pretendia primeiro
perceber o que queriam dizer com "medidas enérgicas". Como entendeu
esta declaração do presidente do seu clube?
Digo sempre e repito: presidente é presidente e pode fazer o que quiser e dizer o
que entender. Eu não sou ninguém para comentar os seus actos e declarações.
Mesmo que isso não seja uma novidade na sua carreira, o que é que
explica tantos problemas com os jornalistas? Sente-se perseguido? Não
acha que isso também resulta do seu comportamento?
O meu comportamento tem sempre um objectivo - a defesa dos interesses do meu
clube, sem nunca me preocupar com o que dele resulta para a minha imagem. Será
um defeito ou uma virtude? Pergunte a quem trabalhou comigo no passado.
O La Stampa escreveu o seguinte sobre si: "Quatro expulsões num ano
confirmam a alcunha de Special One: nenhum técnico em Itália o tinha
conseguido"... Há má vontade dos árbitros contra si ou você é que estava
mal habituado?
Quatro expulsões? Olho para o banco do lado e vejo comportamentos que não são
sequer comparáveis aos meus. Chamo é a sua atenção para este facto: na prática,
sou o único treinador estrangeiro a trabalhar na Série A, porque Leonardo será
mais italiano que brasileiro, dado pertencer a um núcleo deste futebol, quer pelos
anos em que nele está inserido e também por ter trabalhado na imprensa italiana
bastante tempo. É vida difícil, sim senhor...
Antes, tinha sido o Corriere dello Sport a garantir que o seu lugar estaria
em perigo se não tivesse ganho ao Rubin Kazan e tivesse falhado o
apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Sentiu isso?
O meu lugar está sempre em perigo, porque treino sempre clubes que muitos
querem treinar, porque deixo sempre equipas montadas para anos futuros, porque
deixo sempre condições de trabalho e estruturais óptimas para quem chega de
novo. Mas se o meu lugar está em perigo depois de ter vencido o campeonato,
estar novamente a liderá-lo e me ter qualificado para a Champions, imagine como
estarão os lugares daqueles que ciclicamente falham objectivos...
Depois de ter sido acusado de arrogante, há agora quem diga que parece
mais um homem amargurado... Isso foi também escrito em Portugal depois
de você ter afirmado o seguinte a um jornalista da RTP: "Até me espanta
ver cá uma televisão portuguesa. Só cá vieram porque vos cheirava a
esturro e cheirava-vos à possibilidade de sangue, mas o Inter continua na
Liga dos Campeões". Fica a ideia de que sente acossado e vê inimigos em
todo o lado...
Não estou nada amargurado, não me sinto acossado nem vejo inimigos em todo o
lado. Mas não é verdade o que eu disse? Ouça os comentários feitos aos jogos do
Inter...
O Inter recorreu recentemente ao black out. Foi uma decisão sua ou dos
responsáveis do clube?
Isso foi antes da nossa ida a Turim. Limitámo-nos a contribuir para que o jogo
decorresse com total tranquilidade
No La Repubblica podia ler-se, nos últimos dias, o seguinte título:
Mourinho e L" Itália, amore finito. É mesmo assim? Amore finito?
Olhe, em primeiro lugar, quero dizer-lhe que o meu amor pela profissão de
treinador não acabará nunca. Em segundo, perguntar como pode ter acabado o
amor com a Itália se nunca houve amor com ela? Finalmente, digo-lhe que gosto
de trabalhar aqui, que gosto dos interistas, que gosto das coisas difíceis. Por isso,
estou bem.
Mas a La Gazzetta dello Sport publicou um artigo a sugerir que você, com
os últimos comportamentos, é que está a forçar de propósito a saída do
Inter. A justificação, podia ainda ler-se, era que teria de pagar uma
indemnização de seis milhões de euros no caso de uma rescisão unilateral.
É verdade?
O clube e eu assinámos um contrato muito objectivo. Até 2012, porque queremos
trabalhar juntos. Mas com uma cláusula de rescisão que o Inter me pagará caso
deseje a minha saída e uma outra que eu pagarei ao Inter caso deseje sair... Tudo
muito fácil e objectivo. Connosco nunca sucederá uma história interminável como
sucedeu no passado com outros. Homens honestos, contratos honestos,
objectividade!
No final de um jogo, você parecia saber menos da lesão de um seu jogador
que o próprio jornalista. O Inter tem uma estrutura e uma organização
deficientes?
O Inter tem um médico excelente que, para além de médico, é um amigo. Ele
cresceu numa cultura de trabalho diferente da minha e está agora a adaptar-se a
ela. Tudo bem... Com os problemas, cresce-se! Eu concebo assim a maturação e
funcionalidade de uma estrutura.
Tal como no Chelsea, é sempre você a dar o peito às balas. Preferia ter a
rodeá-lo dirigentes com uma cultura desportiva mais belicista?
Dou o peito às balas e sempre o darei. Nasci assim no futebol e vou morrer assim.
Mas também lhe confesso que sabe bem, de vez em quando, ver aparecer alguém
com um colete à prova de balas! Dois anos no FC Porto habituaram-me mal...
Concordou com a troca de Ibrahimovic por Eto"o?
Não há um treinador que queira perder "Ibra" e eu não fujo a essa regra lógica,
mas Eto"o é um grande jogador e agarrei-me a ele e a Milito para construir esta
equipa sem "Ibra". E a verdade é que somos líderes e continuamos na Champions.
Em Espanha, Santiago Segurola, na Marca, escreveu que o melhor que
aconteceu ao Barcelona foi Juan Laporta ter escolhido Guardiola em vez de
Mourinho...
Estou totalmente de acordo com Segurola. Pep está muito adaptado ao "Barça" e à
sua cultura. É seguramente o melhor treinador para o "Barça" e, como disse a ele
pessoalmente, espero que seja treinador do "Barça" para sempre.

"Em Inglaterra, há quem jogue bem e não ganhe nadinha"

Mourinho não gosta de ouvir e ler que os espectáculos futebolísticos proporcionados


pelo Inter de Milão deixam algo a desejar. Contrapõe com as vitórias e os golos
obtidos pela sua equipa e dá o exemplo de Inglaterra, onde há quem jogue bem e
não ganhe "nadinha". Sobre Quaresma, garante que ele acabará por se impor no
Inter de Milão.
Não teme vir a ficar conhecido como um bom treinador que ganha mas que
não dá espectáculo?
O Inter, como todas as minhas equipas, ganha mais vezes que os outros, marca
mais golos, sofre menos golos, ganha mais títulos, por vezes até goleia e constrói
resultados incríveis como, por exemplo, este ano, as vitórias por quatro e cinco a
zero sobre o AC Milan e o Genova. Joga mal? Olhe para Inglaterra, onde há equipas
que jogam muito bem e não ganham nadinha há já uns anitos.
Porque não se conseguiu impor Quaresma? Vai sair em Dezembro?
Quaresma não se impôs do mesmo modo que não se impuseram Diego, Filipe Melo,
Huntelaar, Julio Baptista e tantos outros. O futebol italiano não é fácil,
principalmente para jogadores ofensivos. É necessário ter forte mentalidade para
aguentar a adaptação e o tempo que esta exige. Mas o Quaresma vai conseguir,
estou seguro disso.
Concorda que o Inter começa a ser demasido dependente de poder contar
ou não com Sneijder?
Dependente de Sjneider? Sem dúvida! É um jogador com um perfil único neste
plantel. Sem ele, somos obrigatoriamente diferentes. É curioso verificar que um
jogador supernuclear para nós tenha sido um dispensado do Real Madrid...
Como tem observado o campeonato português?
Vejo pouco, apenas uns joguinhos, um ou outro resumo, vejo os resultados...
Há jogadores na Liga portuguesa que podem chegar aos clubes europeus
de top? Quais? Quais gostaria de contratar?
Portugal produz sempre bons jogadores e consegue sempre chegar a mercados
acessíveis e a jogadores que, depois, se tornam muito apetecíveis para os
campeonatos onde há dinheiro. Portugal será sempre fonte de interesse para nós.
Mas não falo em nomes.

A selecção

"Se algum dia for seleccionador, direi não aos naturalizados"

Como viu a carreira de Portugal no apuramento para o Mundial 2010?


Chegou a desacreditar?
Portugal qualificou-se e ponto final! O objectivo foi conseguido. Tenho de dar os
parabéns a todos quantos contribuíram para ele ser alcançado. Foi menos fácil do
que se esperava? Sim, é certo, foi um sufoco inesperado, mas qualificou-se.
Concorda com a utilização de jogadores naturalizados?
Quem está nos centros de decisão é que tem legitimidade total para decidir. Mas,
se algum dia for seleccionador, direi não aos naturalizados.
O que Portugal pode ambicionar na África do Sul?
Pode ambicionar tudo, porque tem potencial. Mas as dificuldades estão ali e não
chegarmos à fase terminal da prova não pode ser visto como um fracasso. Há
selecções com maior potencial. Deixemos o seleccionador e os jogadores
trabalharem sem pressões e eles farão o melhor possível.
Quem vai ganhar e quem pode ser surpresa no Mundial?
Surpresa? Não sei... Uma equipa africana chegar aos "quartos", a uma meia-final?
Quem vai ganhar? Os mesmos de sempre, que ganham ou cheiram os títulos...
Mais a Espanha de Xavi e Iniesta.

As perguntas a que José Mourinho não respondeu

Pedida há vários meses, a entrevista a José Mourinho foi efectuada por e-mail por
vontade do próprio treinador. Apesar de Mourinho não ter colocado
antecipadamente quaisquer condicionantes aos temas a abordar, o técnico
português optou por não responder a algumas das questões colocadas. Entre elas,
destacam-se as que o confrontavam sobre as notícias, publicadas em Itália, sobre
um eventual mau relacionamento com o presidente Massimo Moratti. A propósito
disso, uma fonte próxima do Mourinho disse posteriormente ao PÚBLICO que as
relações entre o presidente e o treinador "são perfeitamente normais, nem quentes
nem frias". "O Moratti tem a sua forma de estar e de pensar o clube, o Zé tem
outra, mas conversam com regularidade, entendem-se e gradualmente a filosofia
do clube vai-se adaptando", acrescentou ainda a referida fonte. Mourinho preferiu
também não comentar a afirmação de Moratti, segundo o qual o Inter não irá
aproveitar a reabertura do mercado em Janeiro para se reforçar. Mourinho,
confirmou o PÚBLICO, continuará convicto de que pode ser contratado alguém
para, pelo menos, "colmatar a ausência de Eto"o" durante a Taça das Nações
Africanas. Mourinho optou ainda, por exemplo, por não responder se é verdade que
esteve próximo de se tornar treinador tanto do Barcelona como do Real Madrid e se
preferiria Messi ou Cristiano Ronaldo para a sua equipa, caso lhe dessem a
escolher. E também preferiu não responder à pergunta se está arrependido de ter
escolhido Itália para trabalhar.

Treinador campeão

"Parece-me lógico que os adeptos do Porto tenham amor por mim"

Como estão as suas relações com Pinto da Costa? Ainda hoje, os adeptos
do FC Porto parecem manter consigo uma relação de amor e ódio...
Diz-me que os adeptos do FC Porto têm amor por mim. Parece-me lógico, pois fui o
treinador que chegou com a equipa em crise e que, em dois anos e meio, ganhou a
Taça UEFA, a Champions, dois campeonatos, uma Taça de Portugal e uma
Supertaça. Parece-me, portanto, normal que gostem de mim. Quanto ao ódio... Só
se queriam que eu ganhasse também a Taça Intercontinental. Mas isso era fácil,
bastava ganhar a uns colombianos e o FC Porto fê-lo sem mim. Por isso, não vejo
razão para me odiarem. Quanto ao presidente... um grande presidente!

"Chelsea? Vou jogar contra os meus amigos"

Como vai ser voltar a Londres e jogar contra o Chelsea?


Vou regressar a Stamford Bridge antes da Champions para ver um jogo e,
sobretudo, porque não quero regressar pela primeira vez àquele estádio para jogar.
Nesse dia, quero estar "frio", mas sei que não será fácil. Foi uma história bonita de
mais. Vou jogar contra os meus amigos.