A CRIMINALIZAÇÃO DO ASSÉDIO MORAL

Ricardo Antonio Andreucci
Promotor de Justiça Criminal da Capital
Mestre em Direito
Professor de Direito Penal e Processo Penal

Praticamente ignorado no Brasil, o assédio moral é capaz de
resultados mais devastadores que a guerra e que a violência que assola o
cotidiano das grandes cidades.
O assédio moral é capaz de destruir um ser humano sem que haja
uma gota de sangue sequer e sem qualquer gesto brutal contra ele, utilizando
apenas o que se convencionou chamar de violência invisível, aniquilando
moral e psiquicamente suas vítimas.
Essa violência invisível, devastadora, perversa e aparentemente
insignificante se desenvolve através de gestos, palavras, ações ou omissões
que instituem um processo que pode ter lugar na família, nas relações entre
casais, nas empresas privadas e, inclusive, no serviço público, traduzindo
mesquinho mecanismo de manipulação doentia, deixando a vítima incapaz de
reagir e de perceber o alcance da destruição que a atinge.
Mais especificamente tratando das relações de trabalho públicas
(serviço público) e privadas, MARIE-FRANCE HIRIGOYEN (Assédio
Moral: A violência perversa do cotidiano. 5ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil. 2002. p. 65) define o assédio moral como “toda e qualquer conduta
abusiva, manifestando-se sobretudo por comportamentos, palavras, atos,
gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à
integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo seu emprego ou
degradar o ambiente de trabalho.”
O desgaste psicológico causado pelo assédio moral vem sendo
estudado no mundo inteiro, sendo a Suécia, a Alemanha, os Estados Unidos, a
Itália e a Austrália países pioneiros nesse campo, principalmente na área
trabalhista, traduzindo uma verdadeira “guerra psicológica no local de
trabalho”, caracterizada pelo “abuso de poder” e pela “manipulação perversa”.

humilhação e depressão. desqualificar e impor o próprio poder são meios através dos quais o agressor (portador de traços narcísicos de personalidade – egocentrismo. Esses pacientes sentem uma intensa inveja daqueles que parecem possuir coisas que eles não têm. o cinismo. ultrajada. é o abuso de poder (superior hierárquico que esmaga seus subordinados com seu poder). In Borderline Conditions and Pathological Narcissism. ansiedade. o desprezo. dirigindo seu ataque particularmente à integridade narcísica do outro. desgosto). manejar o sarcasmo. mentir. doenças cardiovasculares. a fim de desarmá-lo. evoluindo para as “manobras perversas” até a fase de destruição moral (psicoterror). tentam criar um laço com um segundo indivíduo. geralmente o superior hierárquico . submetida a manobras hostis e degradantes no ambiente de trabalho. que pode desencadear frustração. O ponto de partida do assédio moral.). é sempre atacada. 1996) definiu os perversos narcisistas como “indivíduos que. doenças de pele. intolerância à crítica) desenvolve a “comunicação perversa”. sob influência de seu grandioso eu. usar o paradoxo. desinteresse pelo trabalho. inclusive. cit. apatia. 1975) descreveu a patologia narcísica da seguinte forma: “As principais características dessas personalidades narcísicas são um sentimento de grandeza. necessidade de ser admirado. evoluindo para o suicídio ou tentativa de suicídio.” OTTO KERNBERG (A personalidade narcisista. ter a conivência da empresa (ou do serviço público). que se torna alvo por resistir à autoridade e não deixarse subjugar pelo autoritarismo do chefe. embora sejam eles próprios ávidos de obter admiração e aprovação. “meio de um pequeno chefe valorizar-se”. em casos mais extremados. que pode.” . Paris: Dunod. sendo que qualquer coisa que faça ou qualquer iniciativa que tome é voltada contra ela pelo agente perseguidor. tonturas. Recusar a comunicação direta. segundo leciona MARIEFRANCE HIRIGOYEN (ob. levando-a a uma total confusão.A vítima. ALBERTO EIGUER (Le Pervers narcissique et son complice. culminar em respostas fisiológicas (úlceras de estômago e duodeno. um egocentrismo extremado e uma total falta de empatia pelos outros. New York. e.o chefe. emagrecimento etc) e comportamentais (crises de nervos. ou que simplesmente têm prazer com a própria vida. que nada faz.

em 8 de novembro de 2002. de iniciativa da deputada federal Rita Camata (PMDB/ES) e coordenação do deputado estadual Inácio Arruda . portanto. Utilizar as mesmas armas que o adversário é totalmente desaconselhado. A lei é. São Gabriel do Oeste/MS. Em síntese. cit. São José dos Campos/SP. No âmbito estadual. são indivíduos megalômanos. E não vemos bem como isso poderia ser invertido. como bem ressalta MARIE-FRANCE HIRIGOYEN (ob. Porto Alegre/RS. lamentavelmente houve por bem o governador. é grande a tentação. dentre eles Americana/SP. Apresentamse como moralistas.Os perversos narcisistas. Ribeirão Pires/SP. dando lições de probidade aos outros. A fim de defender-se. Na esfera federal. Campinas/SP. projeto de reforma da Lei nº 8. invejando a vida que o outro tem.assediomoral. vários municípios brasileiros já contam com lei contra o assédio moral. de recorrer aos mesmos procedimentos que o agressor. aprovada pela Assembléia Legislativa em 13 de setembro de 2002 (fonte: www.” No campo legislativo. sendo certo que. no estado de São Paulo. Ceará. é por ser o menos perverso dos dois. 186). p. realmente. No âmbito municipal.assediomoral. Natal/RN. Sidrolândia/MS e Vitória/ES (fonte: www. como agentes do assédio moral. quando alguém se encontra na posição de vítima. Rio de Janeiro.112. “ninguém ganha no confronto com um perverso. Guaratinguetá/SP. que enganam exibindo seus irrepreensíveis valores morais.org). Guararema/SP. o único recurso. Curitiba/PR. O máximo que se consegue é aprender algo sobre si mesmo. mas padecem de hipertrofia do ego e psico-rigidez. No entanto. São Gabriel do Sul/RS. Espírito Santo e Rio Grande do Sul já contam com legislação sobre assédio moral. como forma de defesa contra a desintegração psíquica. vetar lei de iniciativa do deputado estadual Antonio Mentor (PT/SP). é bom que se diga. Cascavel/PR.org). Reserva do Iguaçu/RS. já existem previsões administrativas do assédio moral nas relações de trabalho envolvendo o serviço público. Amparo/SP. São Paulo/SP. tipificando o assédio moral. há projetos de reforma do Código Penal de iniciativa do deputado federal Marcos de Jesus (PL/PE) e coordenação do deputado federal Inácio Arruda (PCdoB/CE). para a vítima. Guarulhos/SP. Cruzeiro/SP. Iracemápolis/SP. Jaboticabal/SP. Bahia.

am alguns.assediomoral. Suíça. ainda de coordenação desse último parlamentar. e também projeto de reforma do Decreto-Lei nº 5. Os precisos contornos da tipificação. Professor de Direito Penal e Processo Penal. países como França. a fim de que se não perca o objetivo primordial da criminalização. Mestre em Direito. o assédio moral é capaz de resultados mais devastadores que a guerra e que a violência que assola o cotidiano das grandes cidades. depreciar. Chile. tal como aconteceu com o assédio sexual. a lado de tantos outros que assolam a legislação penal brasileira. entretanto. colocando em risco ou afetando sua saúde física ou psíquica. Portugal. em razão de subordinação hierárquica funcional ou laboral. reiteradamente.452. o desempenho ou a imagem do servidor público ou empregado. Praticamente ignorado no Brasil. uma tendência mundial no sentido de criminalizar o assédio moral. Promotor de Justiça Criminal/SP. Santo André 2015 Autor: Ricardo Antonio Andreucci. entretanto.(PCdoB/CE. Noruega. penalizando aquele que. sem conotação criminal. evitando que um importante instrumento legal de contenção do assédio moral se transforme em excessivo e inaplicável dispositivo legal. ainda que. No exterior.org ). Suécia e Bélgica já contam com legislação e projetos de lei sobre o assédio moral (fonte: www. deverão ser objeto de acurada análise por parte dos legisladores. Percebe-se. Uruguai. . de qualquer modo.