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Faculdade de Psicologia e Ciências da

Educação Universidade de Coimbra
Unidade Curricular de Ética, Deontologia e
Relações Profissionais
Mariana Linharelhos Fernandes // 2013138426
Maio 2016

É estranho pensar que enquanto eu estou sentada a escrever e faltam oito horas para
terminar o prazo limite para a entrega desta reflexão – cuja elaboração tardia eu posso
persistentemente justificar com a minha teimosia em querer reflectir até ao último
minuto e ser o mais abrangente possível mas que na verdade se deve a um caso severo
de problemas de primeiro mundo – existem pessoas nas mais diversas partes do mundo
a fazer as mais diversas coisas. É estranho. E assustador. A dimensão do susto e da
estranheza da situação só aumenta considerando que existe todo um campo da filosofia
que se debate desde há milénios com a forma de conciliar o que é certo e bom e
moralmente correcto para todos nós; para mim, para as raparigas no países árabes
conservadores, para as crianças-soldado nos países africanos em guerra, para os idosos
alentejanos com ideação suicida e para os homens de meia idade a lidar com o
desemprego nos países ocidentais, para todas as pessoas. O tamanho da ética é esse,
assustador.
A ética é definida como o estudo fundamentado dos valores universais que orientam o
comportamento humano em sociedade e, como tal, torna-se indissociável da psicologia,
o estudo do comportamento humano no geral. Em primeiro lugar, cabe-me distinguir a
ética enquanto campo de produção de conhecimento de carácter universal da
deontologia fundada por Bentham que, enquanto vertente normativa da ética que
procura definir a boa prática, distinguindo-a da má prática e da prática necessária,
encontra correspondência na actividade profissional do psicólogo nas situações de
discussão e regulamentação do modo de intervir do mesmo nos mais diversos contextos
de actuação. Em segundo lugar, enquanto ponto de partida para um exercício de
reflexão, cabe a cada um de nós trabalhar de acordo com o Código Deontológico, com a
liberdade para, de acordo com o já mencionado, se aventurar fora das linhas de
orientação nele propostas, dado que existe espaço para o seu desenvolvimento posterior,
tal como é sugerido no seu preâmbulo.

não apenas enquanto psicóloga. perdia a sua pertinência no caso de quem dela foi dispondo no exercício de se descobrir enquanto psicólogo. Fora da faculdade. Tal deve-se não apenas ao carácter sensibilizador das intervenções dos colegas ao longo do semestre mas também ao espaço que é criado no “tempo académico” do qual dispomos para nos dedicarmos exclusivamente a estas questões. profissionais que melhor se adaptam às suas funções serão melhores profissionais e assim se contribui para o desenvolvimento de um exercício sucessiva e qualitativamente melhor da psicologia. A pertinência de o fazer nesta fase da formação poderá encontrar fundamentação no facto de o terceiro ano ser o último antes da escolha da especialização de mestrado. competências e interesses de cada aluno – desta forma. com isto se quer dizer que a altura em que nos deparamos com esta unidade é crítica na medida em que. o fechar de um círculo sempre servirá de analogia para o final deste ciclo de estudos. mais do que nos informarmos e porque a informação é abundante nos dias que correm. Além disso. futuros psicólogos e num prolongamento das práticas supramencionadas. e poderá contribuir ao nível da orientação vocacional para a escolha de especializações que melhor se adequem ao perfil de personalidade. esta unidade curricular contribuiu positivamente para o meu desenvolvimento enquanto pessoa. melhor conhecendo os seus limites e potencialidades. não disporíamos do conhecimento das mais diversas áreas da psicologia da mesma forma como hoje o temos e. caso fosse leccionada posteriormente. Na minha perspectiva. porque enquanto o conhecimento cai em desuso. o seu aspecto mais positivo.Assim. em momentos anteriores a este. existe emergência na necessidade de dar sentido a tudo o que sabemos e tal poderá ser feito por via da reflexão. a confrontação com problemáticas e contextos de actuação diversos leva cada um a equacionar a sua própria capacidade de intervir em cada cenário apresentado. Enquanto estudantes de psicologia. procuro sempre informar-me e definir a minha posição nas mais diversas situações e relativamente a um . é nossa responsabilidade questionar a nossa posição relativamente aos vários assuntos que foram abordados ao longo do semestre bem como outros que não foram e vão sendo notícia na actualidade. na minha opinião. a competência não. o contributo desta unidade curricular remeterá sempre mais para a aquisição de competências do que para a aquisição de conhecimentos e esse é.

cada tentativa não é senão falível. Assim.vasto conjunto de assuntos. para quem o Homem livre é o que é capaz de avaliar as consequências das suas acções. ao Código Deontológico que assume a natureza aspiracional dos seus princípios servirá de mote a conceptualização de Hobbes na medida em que o Homem livre seria por analogia o que não é limitado pela condição humana e. mas constituirá sempre uma progressiva aproximação do que é certo e todas as melhorias valerão tanto quanto a primeira ou a derradeira. Pessoalmente. discutir temáticas relevantes para a psicologia. não acredito numa vida bem sucedida sem um código. se há verdade acerca da condição humana é que enquanto a culpa é um elefante que precisa de colo e fomos amaldiçoados com a nossa certeza de falhar. desde os estádios cognitivos de Erikson (integridade vs. não precisamos de ser ladrões para termos honra mas em última instância. em última instância. fora daqui. . o dever pelo dever (Kant) ou da consequência (Mill). mas são poucas as oportunidades que existem para. desespero) à formulação de liberdade na obra de Hobbes. o reverso da moeda é esta tentativa incansável de fazer o que está certo. quer seja em função da intenção – o bem pelo bem. simultaneamente. serve o presente exemplo da oposição entre a culpa e a honra para ilustrar cada pedaço de ciência alguma vez criado no que à moral diz respeito. não seria homem nenhum para além do seu exercício de racionalidade dada a impossibilidade de confundir a dialéctica do conhecimento com a dialética do comportamento.