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Capitulo I A DISCUSSAO, OU TRATAMENTO A discuss&o, ou corpo do discurso, deve ser calcada num plano, ou entéo deixara de ser um discurso. Mesmo nao havendo divisées, nem arranjo formal de qualquer espécie, os pensamentos devem obedecer a uma disposigao que se coadune com as leis naturais do pensamento. Pregadores que confiam em seus poderes de improvisagéo quase abso- Inta, ou que pensam possuir inspiracéo momentanea, em geral vaci- lam e se desviam, tomando varias diregdes, nio seguindo nenhuma li- nha definida de pensamento, e conseguindo muito pouco, a n&o ser, como vimos atrés, quando a comog&o se apresenta e pode ordem nos pensamentos a seu modo. O plano, ou esbégo, dum discurso, no seu sentido mais lato, inclui a introdugio e 2 conclusio; mags como estas so consideradas aqui em separado, por amor 4 conveniéncia podemos falar do plano como in- eluindo apenas a discusséo, ou argumentag&o, ou corpo do discurso, com as suas divisées e subdivisdes. Nao 6 bom chamar ao corpo do discurso de prova, como nome geral, ainda que alguns bons escritores o facam. O tratamento fre- qientemente consiste de prova no todo ou em parte, mas também, a mitido, de explanacio ou de impressionante apresentacéo dum tema sem qualquer série de provas, ou argumentos. Nos sermées exortati- vos, ha uma série de motivos, e fazer que éles apelem & vontade 6 coisa diferente de provas, muito embora 4s vézes se confundam motivos com provas. Excluindo-se a introducéo e a conclusdo, o restante recebe va- Yios nomes, como divisdes, desenvolvimento, argumentagdo, e trata- mento; mas discussdo parece ser de todos o melhor térmo para qua- lificd-lo. O que mais importa no momento, porém, é reconhecer o fa- to de que a discussio deve ter um plano, ou esbégo. I. O PLANO Algumas vézes o plano, ou esbéco, se nos ocorre com o proprio assunto ou com pequena meditac&éo sébre o tema. Noutros casos ape- mas reunimos varios pensamentos em separado. EH’ bom, entao, anota- los 4 medida que nos ocorrem, para torné-los objetivos e podermos separé-los e examiné-los; e, mais cedo ou mais tarde, se nos depara, nto, um plano de tratamento. Esse esféreo para arrumar o plano do discurso nao poucas vézes nos oferece novos pensamentos que doutro modo talvez nunca obteriamos Deve-se busecr um plano, mas nao apenas isso. Devemos buscar sempre o melhor plano. 410 A DISCUSSAO, OU TRATAMENTO “Ha planos, cheios de energia e riqueza, que, examinados a fun- do, levedam téda a massa do assunto; outros ha que escapam as di- visdes mais sensiveis da matéria e que levedam, por assim dizer, ape- nas a uma camada do assunto. EK’ justamente nesse ponto, na con- cepeaio do pleno, que distinguimos os oradores que so capazes do bom daqueles que sao capazes do melhor — désse melhor, para se dizer a verdade, que é a prova decisiva de talento ou de trabalho... Todos se devem esforcar, quanto possivel, para atingir ésse melhor, néo se contentando com o primeiro esbécgo que lhe surja no espirito, a nao ser que, depois de o haver aprofundado, o ache suficiente para o pro- pésito em vista, apropriado para exaurir o assunto, aproveitando-o ao maximo, — e depois de nfo ver mais nada além désse esbéco.”? O plano deve ser simples, nio sémente livre de pontos obscuros, mas também de qualquer preocupagio com efeitos pomb4sticos, de- vendo ser ainda, quanto possivel, fresco e impressionante. Muitos ser- mées seguem uma trilha batida, e assim o auditério pode prever logo tudo quanto vira, e os ouvintes j4 nféo ouvem com muita atencéo. En- tao, ésses oradores levam o ouvinte a ter ganas de lhe dizer, num tris- te lamento: “Digno irmfo, excelente amigo, sera que nfo pode nos levar por uma estrada diferente e nova, mesmo que seja bem menos plana, e mesmo que nfo a conheca bem — porque estamos fartos e cansados de andar por esta!” E é bom observar que é sempre um pla- no novo ec impressionante o que tem a probabilidade de ser lembrado. Urge, também, evitar cuidadosamente planos sensacionais, esquisitos ou elegantes. Um sermao pode suscitar vivo interésse e ser lembra- do muito tempo por essas qualidades, sem ter feito sequer a metade do bem produzido por outro que foi ouvido serenamente e logo esque- cido, mag que deixou uma impressao salutar. Devemos fugir de pla- nos rebuscados e formalistas. Roberto Hall? num trecho impressionante, critica com muita jus- tiga o rijo e minucioso método de andlise e de exposic&o prevalecente nos dias déle. Sem diivida, muitos dos antigos pregadores ingléses e norte-americanos erraram nesse particular. Houve bastante e sensivel melhora no século presente, mas muitos pregadores ainda pregam com esbogos, ou planos, muito rijos, uniformes, e, por isso, mondétonos. Na feitura do plano, é quase sempre indispensével uma _proposi- cao bem formada e clera. Ainda que nao demarque os caminhos e os cruzamentos do pensamento, fixara os limites, determinando assim uni- dade e proporcéo. E muitas vézes, também, sugerira a propria ordem de apresentagio. E’, portanto, de bom aviso, neste ponto de nosso es- 1 Vinet, op. cit., pgs. 276, 277. 2 Sermio sdbre os motivos de desanimo e o sustento do ministro cristao, Works, Vol. I, pg. 140. ELEMENTOS REGULARES, OU FORMAIS, DO SERMAO mm tudo, rever o tratamento da proposicao e das qualidades da boa dis- posigao.8 0. A QUESTAO DAS DIVISOES quest&o de grande importancia pratica ver se o plano dum dis- curso deve incluir divisdes. Os oradores gregos e romanos, profun- damente empenhados em fazer com que seus discursos féssem uma acabada obra de arte, e muitas vézes ansiosos por ocultar o trabalho que Ihes dera a preparacio déles, mui raro tornavam claras as divi- des de tais discursos. Todavia, em todos os casos seguiam um plano definido e prosseguiam de maneira bem ordenada. Os Pais Cristéos pregavam também assim, em grande parte. Mas os grandes escolasti- eos da Idade Média, aplicando a todos os assuntos de filosofia e reli- gido uma andlise légica assaz minuciosa, criaram u’a moda que logo foi seguida também na prédica. Entéo os pregadores jovens, sendo adestrados, pelos livros que liam e pelo ensino oral nas universidades, em nenhuma outra coisa que nao nessa minuciosa discussao analitica, eairam no érro, que até hoje perdura, de levar para o pulpito os mé- todos usados nas aulas. Assim, a andlise se tornou moda e frenesi. Nada se pensava senfo em térmos de divisdes claras e de concatena- @o légica, e assim em grande extensao ficou sacrificado todo o mo- vimento de oratéria e de harmonia artistica. Grande porg&o da pré- dica dos tempos modernos ficou prejudicada por essa falha. A expo- sigéo analitica de assuntos e a elaborada argumentacio constituiam o interésse mor, negligenciando-se em boa parte a simplicidade e a naturalidade, a animacaéo de movimentos e 0 poder pratico. Pregado- res muitos, notadamente os de maior preparo, chegaram muitas vézes a tomar a instrucfo e a convicciéo como a finalidade de seus esfor- gos, quando sao elas apenas meios de levar os homens a sentir a ver- dade, a tomar uma atitude a seu respeito, e a agir, aceitando-a, aman- do-a e propagando-a. Firmando-se aquela moda, seguida por quase to- dos, simplesmente por ser moda, e seguida também por muitos prega- dores praticos e mui sinceros, pouco faziam éstes por limitar e con- jurar os males daquele método, lutando como podiam. Ha quest&o de dois séculos, quando a excessiva multiplicacio des- sas divisdes e subdivisées formais se tornou quase universal na Fran- a, tanto como na Inglaterra, Fénelon veementemente vociferou con- tra essa moda, indicando o retérno aos métodos dos antigos oradores,* e sdbre tal questo quase todos os escritores que vieram depois toma- ram partido. Todavia, certa formalidade de divisdes e de ordem geral continuou ainda a ser praticada comumente na Franca e na Alemanha, 3 Ver as paginas anteriores déste volume que tratam disso. 4 Fenelon, Dialogues on Hlog., If Dial, 112 A DISCUSSAO, OU TRATAMENTO e também em grande parte na Inglaterra e na América do Norte. Q dr. Arnold, de Rugby, deu exemplo e incitou outros a evitar divisdes e a nao fazerem do sermfo um discurso formalista, e desde essa época muitos pregadores da Igreja Cristi na Inglaterra tém seguido ésse rumo. E’ digno de nota especial o fato de dois dos pregadores mais habeis e mais admirados que a Igreja da Inglaterra nos deu — Robertson e Liddon — regularmente fazerem divisdes e as indicarem de passa- gem, chegando mesmo o primeiro a fregiientemente indicar dentemao as divisGes e a usar numerosas subdivisdes. O dr. Jodo Watson, me- lhor conhecido como Ian Maclaren, diz: “Trés pequenos sermGes, separados, néo fezem um serméo; mas, doutro lado, muitas e muitas observagdes reunidas a um tex- to nao s&o um todo organico. Tudo depende de ver se as divisées progridem, ascendem, se acumulam, ou se séo desconexas, indepen- dentes, ou paralelas.”5 No que respeitava 4 tendéncia do tempo déle na América do Nor- te, Filipe Brooks observou e julgou o seguinte: “Uma idéia que prevalece por ai sébre sermdes, que esté em uso agora como reacaéo provinda dum método velho e desagrada- vel, penso que esta errada. No desejo de se querer fazer que o serm&o pareca livre e espontaneo, prevalece a idéia de nao lhe dar estrutura formal e necessdria, como a um organismo. A enuncia- cao do assunto, a divisio em partes e a recapitulacio no fim — todos os andaimes e a anatomia dum sermao sao mal vistos, e h& mesmo muito boas pilhérias a respeito disso. Posso dizer que passei a temer isso cada vez menos. O fugir disso é tido como qualidade positiva e nfo negativa. A melhor maneira de climinar o esqueleto de nossos sermées néo é abandond-lo e sim cobri-lo de earne. No escrever, a verdadeira liberdade vem pela obediéncia as suas normas, e assim quanto mais completamente se firmarem os esbogos, ou andaimes, da obra, mais livremente fluira o dis- curso, como uma poderosa torrente entre suas barreiras recém- construidas.” Que concluiremos désses princfpios e fatos? (1) Conquanto nfo necessdrias, as divisées distintamente mar- cadas prestam bom servico aclarando o fim do pensamento aos ouvin- tes, e ajudando também ao pregador, e ainda compelindo-o a uma correcéo e completagio légica no preparo do discurso, e facilitando a Jembranga delas na ocasiao do improviso. Em cada sermao, ou classe de sermoes, importa decidir conforme seus préprios méritos; mas co- 5 Cure of Souls (Yale Lectures for 1896), pg. 41 em diante. ELEMENTOS REGULARES, OU FORMAIS, DO SERMAO 13 mumente é melhor fazer divisées.¢ Se devem ser ligeira ou fortemen- te marcadas ag divisdes, e como se deve cuidadosamente passar duma divisio para outra, sera igualmente decidido & luz dos méritos do caso. Quando um assunto especial requerer cxplanacéo e argumentos, ser& melhor nos atermos a divisées claramente marcadas e também fre- qiientemente a subdivisdes. Estas, porém, nfo devem ser muitas, e nem enunciadas de modo a impedir que o discurso prossiga como um todo vivo, nem interrompa seu movimento progressiyo, para o fim pra- tico em vista. (2) Quanto ao nimero de divisGes, devemos consultar a simpli- cidade e, ao mesmo tempo, a vivacidade e a variedede. E’ natural. mente mais simples ter poucas divisdes, e em muitos casos, duas div sdes talvez agradem mais, sendo coisa mais natural. Como método uniforme, todavia, o arranjo duplo mui precdriamente apresenta a va- Fiedade requerida. E’ altamente desejavel, igualmente, que as divi- sdes enunciadas sejam interessantes, tendo aquela vivacidade que pertence a pensamentos concretos e especificos; e isso muitas vézes 86 se consegue com varias divisdes, dado que a redugéo a um niimero menor pode torn4-las abstratas, ou gerais. “Tome-se 0 tépico — Em Que Consiste a Gloria da Pregagdo do Evangelho? Nisto (1) em ser ela ordenada pelo Filho de Deus; (2) em tornar conhecida a vontade de Deus; (3) em assegurar a graca de Deus; (4) em ser rezlizada no poder de Deus; (5) em ser assistida pela béngéo de Deus; e (6) em levar as almas & presenca de Deus. Essa divisio pode ser simplificada em trés: (1) em sua instituigéo; (2) em seu assunto; (3) em sua opera- co e efeitos. Mas € preferivel a primeira divisio por ser mais impressionante.”7 Todavia, quando as divisdes sfio mais de cinco ou seis, devem se- guir cada uma delas em ordem bem natural, pois do contrario o ouvin- te comum nfo ag reteré facilmente na meméria. Por isso é que prega- dores sensatos e habilidosos raramente apresentam discursog com mais de quatro divisdes. Podemos agora compreender por que em regra os sermées de trés divisdes sao muito mais numerosos. Este fato vem sendo observado de hA muito, e tem sido assunto até para comentarios chistosos, como “isso deve ter trés divisdes, como um sermao.” Sem diivida, muitos pregadores hao tentado arrumar quase sempre trés divisdes, mesmo 6 Oman (Concerning the Ministry, pg. 151) apresenta os beneficios das di- visdes, dizendo: