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TEMAS EM DEBATE O PRINCIPE QUE VIROU SAPO CONSIDERAGOES A RESPEITO DA DIFICULDADE DE APRENDIZAGEM DAS CRIANCAS NA ALFABE Luiz Carlos Cagliari a UNICAMP—IELISP © presente trabalho pretends partiipar de um debate proposto or Maris Helena Souze Patt, em #0 artigo "A Criance Margi- ralzada bs © publicado na toga. Torna om Debate doe Cadernoe de Pesyuls, ‘omer 61, 9.3°11, nowmbre db 1984, 2 que fol oquigo palo ftigo oe Barbara Freftag "Plagttenos Braslias am Desacordo? CComtibuigdo pare um Debate”, pubtiad no ndmero $3. 33. ‘44, malo do 1065, Pede-ee ao leitor que antes de ler © presente traballo tela oF atigr cima, Por outro ada, sugia 208 litres ‘que Tolor, entre outros, of arigos @ as trabhos relacionados, ‘tmanexo, ne toa Deticieme ou ado? 0¢ Pigetianos Brain INTRODUGA A alfabetizagio ¢ um momento muito impor tante o expacial na vide de uma pessoa, um pasto dec. sivo para uma longa e diffeil caminhada pela estrada do saber institucionalizado. A alfabetizapdo € tambérn um momento muito espacial no vida da escola, um teste de sua compettnela, um momento propicio para se pensar o aprender da vida © o aprender da escola, as formas do conhecimento, as manifestagSes preconcei- 60 totes da soviedade com relario » linquagem e até mesmo pare se rfletir sobre as contradigbes de ciéncia aliante ds magia edo mistéria da vids. Hi uma questo que nos ultimos anos vem sia levanteda e debatide, que € o feito sociocultural sobre © processo de sprendizagem na alfebstizagio, sobre @ relagio linguageen ¢ pensamenta, obra 0 proprio proces: 0 de cognigio @ até sobre as estruturas anstOmices 8 unger neuroligica das erisncas marginalizedas,caren- tes, socialmente desprivilegiadas ete Cad. Pesq., So Paulo (55): 50-62, nov. 1985 Na literatura, hé. um vokume muito grande de con ‘ribuigdes para esse debate, 0 que por um lado tem ajudado a se entender melhor # questdo, ¢ por outro ‘em tomado 0 debate bastante complexo, exigindo ‘uma visio multidiscipliner com conhecimentos especia- lizados @ profundos em varias droas. Esse debate, por- tanto, 36 pode ser feito numa imensa mese-reconda, com Uberdade @ tempo para todas as colocagies e discusses ecessérias, Talvez de todas as dress que precisam parti- cipar desse debate, 2 mais ausente tem sido a Linguistica, fembora alguns encontros importantes jé tenham acon: ‘tacido, como 0 debate de Chomsky com Skinner, com Piaget, © debate de Labov com Bernstein, ¢ outros, sobretudo ern congressos e encontros ciant/ficos. A questo técnica lingiistiea sempre esbarra em foutres questBes intimamente grudadas 3 questo edu- cacional, e sempre se conclu que néo & possfvel resolver ‘uma quest#o sem resolver outras. Dentre o§ muitos aspectos da problemftiea daalfa- betizapio, gostaria de comentar, de um ponto de vista ‘muito pessoal e com consideracées sobretudo de natu- ‘exa lingUstica, a assim chamada “Sindrome de Det ciéncis de Aprendizagem” {SDA} e algumas das causas 9 ola axsociades. Vou tenter sintetizar algumes propos ser e colocagdes que considera probleméticas (infeliz- mente sem poder apresenter todas as raz6es que levaram seus autores a essas conclusbes), para fazer meus comen térios, por partes, abordando, no conjunto, a questéo ‘gue se props acima. AGRIANGA DEFICIENTE A primeira colocago se baseia nos resultados de alguns piagetianos sobre a ontogtnese da cognico, o$ ‘quais afirmam que os distirbios no processo de constru- ‘cdo das estruturas cognitivas e oa represantaggo do real Ho de natureza endégena (Isto é, interna, orginice) © Ho produzidos pela falta ce estimulagdo ambiental (fisiea, social, cultural.) adequads, no momento pro- picio do desenvolvimento ontogendtico (de zero a sete anos..), Esses distirbios supostaments resultam ‘em crianeas que néo organizam suas experineias no meio em que vivern (0 real), que no tém noghes de ‘espaco, tempo e causalidade, que t6m uma representa io caética do mundo, que mostram confundir a real- dade com a sua representorio, que tim dificuldade de estruturar a realidade no sentido Iégico-formal,que nto {alam Vingua nenhuma, etc, Além disso, essas_criangas ‘cavecem ce uma consciéncia de suas realizecies, porque ‘do Ines so oferecidas as condices para que cheguem 8 pensar coerentemente e 2 operar, tendo no méximo uma praxis sem conceitualizapdo. Estas seriam as exoli- ‘copbes porque certas “‘criancas nBo aprendem, nBo se sabe por que”. Hé um mundo de problemas a serem debatidos ras afirmages acimal Vou comentar alguns deles ou Uustlos como pretexto para fazer aigumas ponderagbes ‘que julgo relevantes pera o debate, © mundo nio € simples nem estagnado para inguém, em nenhum lugar do mundo, em tempo ‘algum. Basta um sujeito nascer e terd um grande desa- fio peta frente: 0 de sobreviver. O homem por natu- O princfpe que virou sapo reza um animat racional, Como enimal, ele 6 um desco- bridor de mundo ¢ de vida, ¢ como recionat é um madi ficador do mundo e ds vida. Ninguém nasce © morre sem realizar de algum modo esas duas tarefas bésicas, de descoberta e de transtormacdo da vida ¢ do mundo, Ninguém passa & toa pela vids. Entretanto, ¢ verdade também que ninguém trlha o mesmo céminho pela vida por que patsou uma outra pessoa, por mais esforpo que haja em ze b/tolar alguém. A diferenca é um trago essen- cial da vida sobre a Terra, sobrerudo da vide humana: 3 ‘dade manual 36 revela um pensamento concre‘o, sem concsitualizagSes ¢ formalismos orientadores da ago. ‘A mio faz © que a cabeca manda fazer. Ninguém faz ‘uma eadeira por instinte, mas por conhecimento adquitido. Por outro lado, € facil confundir uma realidede ‘com outra, 0 concrete e © abstrato, o material e o ime ‘terial, 0 formal e sua manifestagSio, w essas coisas todas juntas. No s6 6 fécit confundir assas coisas, como tam- bbém, 3s vezes, 6 conveniente usar essa confusio para se iseriminar pessoas, o que fazem, o que slo, emais uma vex manter os intesestes da diferenciagdo das classes sociais, das capacidades dos individuos @ das aberractes os trabalhos pretensamente ciantificos. Uma cadsira 6 um objeto do mundo, a linguagem € uma represantapéo do mundo, A eserta 6 uma repre- sentaedo de uma representazzo do mundo. Nio 6 porque a escrita € uma tepresentaro de uma representagdo que 8 excrita € mais abstrata ou mals formal ou mais com> plexa ou exige uma capacidade superior. Pelo contrério © apesor dito, 0 esrita 6 multssimo mais simples do ‘que a linguager oral. A excita se estrutura em fungi da finguogom oral, Sem a rablsco sem sentido. A excrta ¢ muito simples quando ccompareda com a linguagem oral, mas quand compara: ie com eutrasethidader é muito mais complexe, porque 4 escrite traz consigo a prépria tinguagem oral embutida, ‘A oscrita exige ainda uma certa anélise da linguager, ‘olka que fala nfo obriga. Do ponto de vista do fazer, escrover ou fazer uma cadeira me perecem muito seme- ihantes, O que difculta a escrit, quando comparada com a montagem de uma cadeia, 6a Tinguagem que ests por dentro da escrita e no por dentro da cadeira, A cadeira pode até ser feita através de tentativas ¢ eros, ‘mas 2 linguagem nuncs. A linguagem tem que ser me: O principe que virou sapo ticulosemente programeda, inciuindo sua manifestayto eserite. Uma pestoa que nasce coga pode aprender a falar ‘¢ através da linquagem teré um bom relacionamento corn o mundo, com as pessoas e consigo mesmo. Jd com tum surdo de nascenga nio se pode dizer © mesmo, por ‘que fica com dificuldade séria de adquirir e user ¢ lingua ‘gem, seu esforga de integragdo na vida é muito grande e pendso. Toda reflexdio sobre « escrite é uma representaed0 (metatingo/stica) de uma representacéo (excrita) de uma renresentardo (linguagem propriamente dite} do mundo. 0 jogo metalingistica que ocorre na escolae em muitos tastes de cognicio, intelighncia, etc. nem sempre tem ‘suas regras claras @ explicitas 0 suticiente pora que o ‘adiversirio slba como reagir. ‘Assim; se constate, por exemplo, que um atuno ‘sabe excrever todas as letras do alfabeto, @ nfo con segue escrever uma palavra. Para escrever “Antinio”, ‘escreve “AptamrRaa”. Um aluno sebe que existe pai/ mie, avb/evd, tioftia, boi/vace, « Bo sabe responder @-uma pergunta que pede 0 feminine de pai, avé, ti, ‘boi, O atuno sabe fazer as continhas © nio sabe resolver ‘um problema, #6 porque as continhas vieram formuladas dlferentemente dos problemas. O aluno sabe bater pal- mas, andar em todas as dirapbes, e quando ¢ instrufdo a fazer isso num teste, fica imével ou faz de qualquer jvito, Pedese a uma erianea para separar objetos iguais dde um conjunto de objetos misturades, ¢ ela nfl sabe; mes nfo confunda ums coisa com outra quando esté brineando! Essa questlo 6 muito sri, O problema no 6 entender o literal das palavras, mas 0 comportament lingGistico, © porqut se faz certas coisas do jeita como se faz, Tenho visto pessoas adultes bem diplomades que diante de uma ieformario muito clara e direta Centre sam bater", “dirjae ao caixa 20 Iedo"), pre- cisem perguntar 0 ébvio para se assegurarem que o que viram @ cuvirem 6 exatamente 0 que pensam,que viram © ouviram. Em situacio de teste © de sala de aula, @ crianga, &s vezes, fica estupetacta porque o que se Ihe pede ¢ algo tBo estranho ¢ no Ihe faz o menor sentido, fembora no parece tal a0 pesquisador @ a0 professor. Esta estupefactacio € muito clara 2 forte no inicio a escoleridade, quendo o aluno entra na exola pela primeire vex, pentando em encontrsr 2 fonte da sabe dorfa e encontra uma professora fazendo perguntas idiotas, por exerplo, mostrando dues caixes, uma de sopato e outra de féstoro e perguntendo & crianca qual clas 6 = maior, Ow fazendo-» ler uma frase como: "Pedro chutou a bola” @ perguntande: “Quem chutou a bola?” Isso 6 palharads de picadeiro de circo e no ‘conteddo programético de uma escola, Existe na hist6rla da lingifstice um exemple