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| Te oe so de Poncid Vicéncio, com milhares de exemplares Ce RS ea ct SOS OSORIO OT a SoC eet SUSUR CORSO Le CRIOEen CT Ree e OEE OL Saat eth OTN COOKE Se ORT O resultado ¢ pungente. Em Becos da meméria, novamente mergulhamos na favela — para a autora, uma encarnaco contemporinea da senzala — € nas historias de sofrimento er SRO at Ec ee ee ORCUTT ne aT DEE ee ere et que a vida Ihes deu: dinheiro, comida, gua, tudo mingua por entre Oe Ue a et urbano para o qual, inexplicavelmente, nio ha Lei de Usucapito. E estio sendo despejados pelos tratores dos pretensos donos, Romance coletivo, marcado por uma pluralidade de sujeitos ¢ dramas, POOR ORO ORM LUCU UORo LUO POS CNN CCM ENC MUTI MUTE OCOD construir subjetividades poderosas, mas perfis rarefeitos que, reunidos em coletividade, ganham em amplitude e apontam para as condigies EM ORR CEM er ae CCU CLL Se M RTT CMe EM My costurando vidas passadas e presentes a partir de um olhar marcado pela ternura que no esmorece perante a adversidade. Como nao poderia deixar de ser, Becos da meméria traz uma das marcas registradas de sua autora e descarla a violéncia gratuita presente, muitas veves, na representacao dos excluidos em nossas letras. Mais do que isto, busca narrar suas raizes. Eduardo de Assis Duarte me CN © 2013, Conceigéo Evaris Série Narativas™ © Coordenasio editorial Zahidé Lupinacci Muzart Comelte editorial ‘audia de Lima Costa (UFSC) Constancia Lima Der (UG) Eliane Vasconcellos (FCRB) Ivia I, D. Alves (UFBA) Joana maria Pedro (UFSC) June Hahner (New York) ‘Nadia Gotlib (USP) Revisdo Gerusa Bondan Capa Graco Bonetti Sobre fotografias de familia, envi Diagramasio Rita Motta Dados Internacionais Leny Hel E92b _Evaristo, Conceigdo Becos da meméria / Conceis smidt; posticio de M: polis: Ed. “Mulheres, 2013. Simone Pereira Sch: Fonseca. - Florian’ 272p. de Catalogagio » lena Brunel CRB 10/442 Norma Telles (PUC- Peggy Sharpe (ashore Rita T Schmidt (UFRGS) susana Bornéo Funck (UFSC) Simone P. Schmidt (UFSC) Tania R.O. Ramos (UFSC) Yonissa Wadi (UNJOESTE) iadas pela autora 1¢ Brasil em 2009. 1a Publicasio ~ CIP io Evaristo; prefacio de laria Nazareth Soares ISBN 978-85-8047-028-4 4. Literatura Nege Brasileiras. 3. Muth« Pereira. II, Fonseca, eres Escritoras. Maria Nazareth Si 1 Brasileira, 2, Escritoras Negras 1, Schmidt, Simone Soares. 111. Titulo. CDU 869.081) REALIZADO 0 DEPOSITO LEGAL Editora Mulheres Rua Joe Collago, 430 88035-200 Floriandpolis, SC Fone/Fax: (048) 3233-2164 e-mail: editoramu iIherest?tloripa.com.br www.editoramulheres.com.br Grafa atualeada segundo 0 Acrdo Ortegrafic da Lines Portuguesa se 1990, aque entrow em vigor CONVERSA COM O LEITOR Da construgao de Becos Novamente entrego Becos da meméria, ago- ra em sua segunda edig¢do, ao ptblico leitor. FE um especial momento. Nessa entrega, um pouco das memérias da construgio de Becos so ativadas. Como ja disse em outras oca- sides, essa narrativa teve nascimento em 1987/88, sendo, pois, anterior 4 escrita dos contos e do romance Poncid Vicéncio. E foi o meu primeiro experimento em construir um texto ficcional con(fundindo) escrita e vida, ou melhor dizendo, escrita e vivéncia. Talvez na escrita de Becos, mesmo que de modo quase que inconsciente, eu ja buscasse construir uma forma de escrevivéncia. Arrisco-me a dizer, também, que a origem da narrativa de Becos da Meméria poderia estar localizada em uma espécie de crénica, que escrevi ainda em 1968. Naquek extopodiaserapreendidaatent, i descrigiio da ambiéncia de uma favela, ts oO pequeno escrito com 0 titulo de ae vela”. E, o que foi apresentado como ur 2 cicio de redagio a Prof* Ione Corre: Lak a cursando ° ae rs a | (en ainda antigo ginasial) extrapolou a sala a aula € os muros do colégio. “Samba Favela”, meses depois, apareceu publicado no Diario Catélico de Belo Horizonte e em uma revista catdlica do Rio Grande do Sul. Hoje, relendo aquele pequeno texto, vejo que Becos da mem6ria, anos ¢ anos depois, retoma e am- plia um desejo ¢ um modo de escrita que se insinuava desde aquela época. A publicagio de Becos da memoria, por varios motivos, s6 vai acontecer depois de ter vindo a publico o romance Poncid Vicéncio. Creio mesmo que a aceitagao do primeiro romance publicado me deu seguranga para desengavetar Becos. Em 1988, 0 livro seria pu- blicado pela Fundagao Palmares/Minc, como parte das comemoragbes do Centenario da Aboligao, projeto que nao foi levado adiante, acredito que por motivos de falta de verbas. Desde entéo Becos da memoria ficou esquecido na gaveta. I fouve, entretanto, um momento, Ja J2 set lida ambien Contin Becos d velas | Outro: mais tarde, preciso ressaltar, em que, em ou- tra gestao, a Fundagao Palmares se colocou a disposig’o para retomar o projeto de publi- cacao da obra. O livro, no entanto, ja havia se acostumado ao abandono e sé quase 20 anos depois de escrito foi que aconteceu a primeira publica¢ao, em 2006. Por isso tudo e por muito mais, o romance Becos da meméria, em sua se- gunda edicAo, marca um momento especial no que tange a luta que constantemente enfren- tamos para publicar. Se nas primeiras buscas de publicagiio de Becos alguns caminhos foram incertos, ao longo dos anos, passagens mais seguras foram se apresentando. Becos da memoria é uma criagio que pode ser lida como ficcdes da memoria ao narrar a ambiéncia de uma favela que nio existe mais. Continuo afirmando que a favela descrita em Becos da meméria acabou e acabou. Hoje, as fa- velas produzem outras memérias, provocam outros testemunhos e inspiram outras ficgses. A forca das palavras, a memoria é da narrativa Srwone Pereira SCHMIDT O romance de Conceigao Evaristo, Becos da meméria, escrito nos anos 80, foi publicado pela primeira vez apenas em 2006. Este sig- nificativo intervalo entre 0 momento de sua escritura € o de sua publicagao € por si sé reve- lador das imensas dificuldades que enfrentam, em geral, aqueles que, vindos de lugares dis- tantes dos centros — sejam eles geogrificos, so- ciais, econdmicos —, lutam para transpor essas barreiras. Felizmente, agora, Becos da meméria ganha nova e merecida edicao, gracas ao reco- nhecimento sempre maior que vem ganhando do piiblico leitor, brasileiro em primeiro lugar, 15 mas também de outros tantos paises em que sua obra vem sendo divulgada. A narrativa deste belo romance que te- mos oportunidade de reencontrar, nesta nova edi¢o, comega por celebrar aqueles que, com suas vidas, constituiram a matéria de que sio povoados os ‘becos’ da memoria viva que aqui se transforma em escrita: “[...] Homens, mu- Jheres, criangas que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram os barracos da minha favela”, Nesta espécie de pértico ao re- lato, a autora nos apresenta aos personagens de forma ampla, como a compor um quadro que se ira detalhar em cores € tragos na con- tinuidade da narrativa. Assim, 0 romance ini- cia deixando claro quem sao os sujeitos que pretende representar. Ao evocar, no texto que abre a narrativa, as “lavadeiras que madruga- vam os varais com roupas ao sol”, o pacto da representagao € assumido pela autora: a es- crita, com afirmou Donna Haraway (1994), é um jogo mortalmente sério, porque o que est4 em questdo é justamente a possibilidade (ou a negagdo) da representacdo. A quem se representa, € como se representa sao, assim, quest6es cruciais para o discurso literdrio, 16 de repres ciais em | Regina | que € set ser bran Pa ‘ota tor mb Pela ‘Bais, Ses Va ; ‘ que Xe visto, aqui, numa imagem que nos remete a Bakhtin (1981), como uma arena onde dispu- tam constantemente as diversas forgas politi- cas em que se constituem os grupos sociais. Especialmente num pais como o Brasil, onde a questiio da representacio se mostra ainda tio problematica. Dar corpo 4 meméria dos moradores da favela, caminhando em senti- do contrério ao dos esteredtipos que se colam a pele dos subalternos em nossa sociedade, é, portanto, uma estratégia de grande impac- to politico e cultural, j4 que permite ao lei- tor brasileiro, desamparado de uma tradigio de representacao das diferengas sociais e ra- ciais em nossa cultura, aprender, como sugere Regina Dalcastagné (2008), “um pouco do que € ser negro no Brasil”, e do que “significa ser branco em uma sociedade racista”. Para a construgao de seu romance, a au- tora tomara como mote a estrutura sinuosa e miltipla dos becos da favela, que, percorridos pela narradora, mostram-se, a um s6 tempo, iguais e diversos, miltiplos, tortuosos, promis- sores, cheios de histérias de vida. A narrati- va que a partir de entao se desdobra é feita de pequenos relatos, breves histérias de vida de muitos pe sonagens avela, Ne posta em pritica homens, mulheres vemos vem MP benjaminiana de historia, que privileyia o fragme a totalidad tro de ur que a histo e criangas da seas histori a perspect nto sobre + talegoria sobre o simbolo, den- compreens wo mais profunda de tradicionalmente divulgad: perspectiva dos vencedo: a pode ser esctita a contrapelo, dando vez a vers fragmentirias de vid ‘sy minimas, comun: nem exemplares, de pequena nem herdicas vidas de perso- nagens em cujos percursos se conjugam der- rotas advindas de sua condigao social, racial e de género. E nesse sentido que 0 t ho das ‘io central na narrativa, sintetizando a atividade incansavel dos corpos das mulheres da favela, em constante esforgo de gerar e garantir a vida, enfrentando pobre- za e violéncia. Corpos que atuam, por vezes, lavadeiras ocupa posi¢: como tinico capital simbélico dos sujeitos negros, como assinalou Stuart Hall, identifi- cando nos mesmos verdadeiras “telas de re- presentacao” de sua experiéncia. Sio todas personagens femininas que atualizam, em suas historias de vida e em seus prdprios corpos, uma relacio repetidamente evocada na narra- tiva: a aproximacao entre senzala e favela. 18 desigualé cendente uma out seus per neste m fio de rr quanto tura qui Senzal, fim histsy a Part; Vsig ; Esta relagio, senzala-favela, no romance de duas formas. Pr memoria da escravidao, freque: na relatada pelos mais-velhos, ern histérias nas quais rememoram sua infancia passada ern? zendas, senzalas, plantagoes € enfrentarnentos com os sinhés. Nurn segundo plano, o mais vivido no romance, a relacéo da senzala corn a favela, atualiza-se na geografia dos becos onde se vivencia a condig’o subalterna dos seus moradores. Através deste fio que une 0 pas~ sado colonial e escravocrata corn as profundas desigualdades vivenciadas na pele pelos des- cendentes dos escravos nas cidades de hoje, uma outra historia da literatura brasileira e de seus personagens, esta, sem diivida, a ser feita neste momento. Atando as duas pontas deste fio de meméria de uma heranga tio silenciada quanto irresolvida em nossa historia, a litera- tura que presentifica esta perturbadora relacio, senzala e favela, permite-nos encontrar, como afirma Eduardo de Assis Duarte (2009), “uma historia de superacdo vinda dos antepassados a partir de uma perspectiva identificada com a visio do mundo e com os valores do Atlantico Negro". No corpo das mulheres negr, historias se destacam na profusag ce Bs i: vas que compdem 0 romance, atualizase on ligagao entre o passado Colonial ¢ 9 Prese; ne Povoado de herangas coloniais por eile Enquanto se desenrolam as historias Ds Petsonagens, a grande tensio que une ea as suas experiéncias € 0 crescente Processo de desfavelamento, que culminars Por expulsé-tos a todos do nico lugar a que pertencem, e que, Supostamente, também Ihes pertencia, A Vio- léncia extrema da destrui¢go da favela za, dentro da narrativa, a reiterada vitéria dos mais fortes em nossa Sociedade, fendmeno due aponta para 0 “enigma da desigualdade” explicitado por Osmundo Pinho (20089), que cntrelasa, de forma continuada em nossa his- tora, os indices que associam pertencimento tacial e de classe, Entretanto, contra 0 destruigao dos trat barracos ¢ seus sinali- poder de morte e ‘tores que avancam sobre os moradotres, €ncontramos a for- ja fav em ira se incumbir de net rela, ria a vida ameagada, ¢ tomara i screve-la. O roman- alegrias di mem eee d dia es A eum a) 7 a tarefa ‘1 ‘o circular Poe cerra, assim, num moviment ce se encestay m chave metanarrativa, © intulr : tora, como percebemos na assistindo na escola a uma que retoma, z to da propria escril passagern em que; 285 aula sobre a “liberta¢ao mie 7 ivro. nase inquieta com o que lé no “ favela, os mais velhos, as personagens de sua favela, — mulheres, as criangas que, em sua maioria, ni vio a escola, “uma histéria viva que nascia das pessoas, do hoje, do agora”. Naquele instante, a menina decide: “quem sabe escreveria esta historia um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado dos escravos”, a meni- Pensa nos no seu corpo, na sua alma, na sua mente?”, A forca das palavras, da meméria e da narrativa sio as armas encontradas por Maria-Nova para seguir sua luta pela vida, mesmo depois da morte de muitos persona- gens e da destruicao da favela. Gragas A sua iniciativa, o fim que aqui se impde pode con- duzi-la, e também a nds, a um outro comego. Becos da Memoria V6 Rita dormia embolada com ela. V6 Rita era boa, gostava muito dela e de todos nds. Talvez ela s6 pudesse contar com 0 amor de V6 Rita, pois de nossa parte, ela s6 contava com 0 nosso medo, com o nosso pavor. Eu me lembro de que ela vivia entre o esconder e 0 aparecer atrds do portao. Era um portao velho de madeira, entre o barraco e o barranco, com algumas tabuas jé soltas, e que abria para um beco escuro. Era um ambiente sempre escuro, até nos dias de maior sol. Para mim, para muito de nés, criangas e adultos, ela era um mistério, menos para V6 Rita. Vo Rita era a tinica que a conhecia toda. Vé Rita dor- mia embolada com ela, Nunca consegui ver plenamente o rosto dela. As vezes adivinhava a metade de sua face. Ficava na espreita, colo- cava a lata na fila da 4gua ou punha a borra- cha na tina e permanecia quieta, como quem nao quisesse nada. Ela aparecia para olhar o mundo. Ver as pessoas, escutar as vozes. E eu, de olhos abertos, olhos), * Pulava eng; _ Ma (565 Os Eunio atinava com - dade, do querer dela em ver Med ee iii ™ Ver o Mund, dos!... Uma bir, achag, Ae pedago de ae era do filho dela. Nj nada al ; © Movimento era ra ‘ i. bem sah seanil Een Me anil, E, Produtos que a cas, a tam. » fora mai em que ela mor 1 uma tomeir Agua sanitari S eram os Em frente d com Vo Rit chaya, este: aca Wa 4° piiblica, A UtO extremo da de baixo”. Tinha ea no torneira ©M pontos de cima”, em y Lagaio a sera melhor, Fornee; amos buse 6 podi to ou lavar rouy quase t possivel se fazer i 0 servigo brincadeir, Era mais perto VAM sempre amor OW pen de 10 boter Me eu pa Ava seMpFE restos de doce a Pp ecceeneeee Quando eu estava para o softer, para 0 misté- ro, buscava a “torneira de cim i orneira, a gua, as Iavadeiras, os barra- coes de zinco, papelbes, madeiras¢ lixo. Roupas dias patroas que quaravam. ao sol. Molambos ossos lavados com o sabio restante, Eu tinha nojo de lavar 0 sangue alheio. E. nem entendia ¢ nem sabia que sangue era aquele. Pensei por longo tempo, que as patroas, as mulheres ri n sangue de vez em quando. na, minha Naquela época, eu men dade ardia diante de tudo, A curiosi- curio dade de ver todo 0 corpo dela, de olha-la todinha, olhe Zu queria poder vasculhar com os su imagem, 1 cla percebia ¢ fagia sempre, Sera que cla, algum dia conseguiu ver o mundo circundante, ali bem escondi- dinha por s do portao? Talvez. Em um st- bado ou domingo em que a tornei mais vazia de lavadeiras, cordagio daquele mundo, me aos olhos, Como éramos pobres Miscriveis talvez! Como a vida acontecia simples ¢ como tudo era ¢ € complicado! Mavia as doces figuras tencbrosas. E ha- via o doce amor de V6 Rita. Quando eu soube, a0 oul a, j a ja Wo dia, grande, depois de que V6 Rita dormia embolyi me voltou este desejo do) I a Vo Rita, que dormia embol, que nunca consepii ver MO ter, Je lc ride d : ese revo como uma homer olada coy Ee fy foi cine Tever, : ICH pi ala conn plenatnente, a8, a08 ralanlros, ae m4 ish dos, as put a8 va nha mesndbtia. Ue, WEIN postutna as layaclesy, FATA O8 VATAIS Conn toupas 8 que habitat os becuse de 1 me a8 ue rade an sol. As peanis Cansathas, sala, re gras, slosradis de porn dey Carp alerto onde acontecian on festivais ee tla dba Sereda, omenayern a abe, a Vian Vora Vaca, 4 velba Iodine, a 1), Avbhia, ao Vin Van, a Vedre ¢ “andida, ay bb Sencnhia, 6 1), Maria, wie: do N ya val, ary Cata hia Via, a Verezinkva da Osearlinda, a Marina, 6 Vowana do Padin, omens, suheres, crianyas que ve snonsvarain dentro de mis, como armontoa- Gas erain os barracos de m v4 favela, homem nito yostaria de ter Quem disse que y dessem at terra? ratzes que 0 pren fotG ri se Conforsnaya Com 6 aCODtECY Jo viela? Por que a i Dens do eéu, seria a seat we eta ras, cresce, sult nares wires rhesina terra, natn snesnHl yar? Sea yente sai por al por este runt freer ee & Ita,o que vale o respeito, a fé toda quand se est distante, no que para Iris fice? Para que a crenga na volta ar gar Verdaite fost onde se enter Vio Vor) andaya inconsolavel, J velhio, tnudar de novo, nur snormento em que seu terva, Ele nao vairia da favela, Ali corpo ped seria sua dltima morada, Ele ollhava o mundo conn o olhar de despedida, Olava sua terceira mulher, seus netos drfios, sua casinha caiada de branco, alyumas galinhas € 0 chiqueito vazio, - Perdias forgas, Maria-Velha, Trabalhei demais, Eu quero agarrar nas coisas, pegar 0 machado, rachar essa lenha... Assento € penso, pra que? Fiz isso a vida inteira.,, Labutei, ca- sei trés vezes, viuvei duas, a terceira mulher é vocé. Tive filhos das duas primeiras. Os filhos também se foram. Partidas tristes, antes do tempo cumprido, antes da hora. Eu, vivido, ja velho, estou aqui. Meu corpo pede terra, C, lugar de minha derradeira mudanga, Quando Tio Tots se entendeu por pen Jc ja estava em Tombos de Carangola, Sq. ‘ova, bia que nao nai ali, como também ali nao m seus pais. Estavam todos na labutg a. Sabia que scus pais cram escravos ¢ que cle jd nascera na “Lei do Ventre Livre”. Que diferenga fazia? Seus la vida e nem ele, dis NAO es- colheram Antonio Joio da Silva tinha uma letra . Dava tra- balho ler. Juntar letra por letra e no final a pa- bonita e sabia soletrar alguma cois lavra, Depois juntar palavra por palavra ¢, no fi ntamento, algum pensamento, algum dizer bonito ou alguma bobagem su a - Tots - apelido a mal, cachorro é ami ; igo mem. Um dia, ele, ¢ : letras ¢ as. de juntar as avras, Jeu isto: Mais vale um cachorro am, : i amigo cachorro, ‘so do que wm ee deu um grito de alegria. er cachorro e amigo do me nunca ser amigo. ‘Quando menino foi chamado de Tots. Por qué Toté ¢ nado Totonho ou Tonico ou até mesmo Joaozinho? Jé homem, So Tots, agora velho, Tio Totd. Era tio de seus sobrinhos € dos sobrinhos dos outros. — Nao, eu jé rodei, 4 vaguei por esse mun~ do velho... Ja comi ¢ bebi poeira das estradas. muita carga no Jombo. Na as palavras, € quase £ mesmo, mais valia s dono, do que ser home: Tenho marcas de ro¢a, as vezes, meu pai contava historias e dizia sempre de uma dor estranha, que nos dias de muito sol, apertava 0 peito dele. Uma dor que era eterna como Deus € como 0 sofrimento. Toto entendia, era menino, mas, de vez em quando sentia aquela punhalada no pei- to. Uma dor aguda, fria, que sem querer fazia com que ele soltasse fundos suspiros. O pai de ‘Toto chamava aquela dor de banzo. A vida passou e passou trazendo dores. Um dia, ainda com a primeira mulher, tivera de deixar a fazenda em que foram cria- dos trabalhando na roga. As terras haviam sido vendidas, os donos estavam em ma situa- G40. Quem quisesse ficar, ficasse, quem nao quisesse, arribar podia. Tot6 juntou a mulher, a Sha ay trapos. Nem ele, nem ela tinham moje vivos. Um surto de tuberculose que comer na casa grande, assolara também os cscravog, Iriam pari, queriam esquecer as historias escravidio, suas © de seus pais. Foram dine ¢ dias sobrevivendo pelo mato. Lembravag histérias mais amenas de campo, de vasti- dio, de homens lives, em terras longinguas, Lembravam-se de deuses negros, reais, con. tantes¢ tao diferentes daquele Deus-Jeaus de que tanto falavam os senhores ¢ os padres, Nesta hora vinha a dor fina como um espi- nho rasgando 0 peito, Havia 0 rio para atravessar, uma canoa improvisada de tronco de arvore. Nao dava Para esperar mais do lado de cd. Jé havia uma oe one tio subindo, mais e mais. 7 ae vate beaten © tio ou fica, Miqui- nt por ficar? A kente atravessa, Tots, Tenho medo mas havemos de atravessar! : O tio, a cheia, 0 vaio da barca impro- visada, o turbilhao, a vida, a morte, tudo indo de roldao. : Tots alcangou sé a outra banda do rio. ‘Uma banda de sua vida havia ficado do lado de la. Cidinha-Cidoca andava muito quieta ulti- mamente. Quem te viu quem te vé!... Alheia pelos cantos do botequim, nem cachaga exi- gia mais. Suja, descabelada, olhar parado no vazio. Se Ihe dessem um trago, bebia. Se no Ihe dessem, nem da secura na boca reclama- va mais. —Bons tempos ja houve, hein, Cidocal... Bonita a mulher, mesmo com aque- les olhos parados ¢ com aquela carapinha de doida! Bonita a mulher! Doida mansa, muito mansa. Antes gostava de andar de branco. Qua- se sempre usava um vestido solto sobre o corpo. A sombra de sua negra nudez era per- cebida sob 0 camisolio alvo. Era tudo muito bonito e tentador. ouro”, Nao havia quem 0 provasse ¢ nio 40 se tornasse frou Thos, mogos ¢ até As mulheres da fy. vel4 odiavam Cidinha-Cidoca. As mais velhas atemiam pelos seus homens, as mocinhas por s mamorados ¢ as mites por seus filhos que cr ¢, que entre 0 vicio da comegavam a cr mito, do aurocatinho, preferiam 0 corpo ma- cio © quente, preferiam 0 “rabo-de-ouro” da Cidinha-Cidoca. Bom que cla estava doida, demente, desmioladal Bom mesmo! Diziam até que era trabalho de uma moga virgem que criara migoa de Cidinha, A menina havia desco- berto que seu namoradinho andava visitando Ciinha-Cidoca Falou com ele. O frangui- oc fi ho em véspera de galo nao gostou, Discutiu, sey panel due era homem. E homem tinha le ir 1a P 3 * Homem nao era igual 4 mulher! Ho- ™em vai ou endoida! Sobe ‘ Pra cabeca! menina nio gostou, — orém bol A ida Porém boba nao! Endoida qu ive abafa de- quer? Muther vive abafando a vontade, os palmente se moga virgem como sejos, pri cu! ~ ela retrucou. ie “© frango em véspera de galo” nao gostou. Achou a virgem saliente, achou @ virgem nao tio virgem assim! : E nao se sabe porque, dai para entao, questo de dias, de quase més, Cidinha-Cidoca comegou a adoecer. : “Frango em véspera de galo” cismou com os prazeres da vida. Disse que nao tocaria em mulher alguma mais nunca. Ia ser santo, ia fandar uma religido s6 para homens. Jamais olharia uma mulher sequer. Os festivais de bola na favela tinham gosto de grandes alegrias. Aconteciam em uma épo- ca certa, era uma vez por ano. Duravam meses, durante os sabados ¢ domingos. O campo era uma rea livre, enorme que ficava entre a fa- vela € 0 bairro rico. Bem rico e bem préximo. No campo, a terra solta, durante os jogos, a cada chute dado, levantava um redemoinho de pé, os jogadores caiam ¢ rolavam na poeira. 37 Em dias de chuva, cafa-se na lama, até se machucava, mas a disputa gu Vezes Juntos estavam os operarios, os ean os marginais em hora de gozoelazen Em volta do campo fincavam-se ba deirinhas armadas em um varal de estacas de bambu. A garrafa de cachaca rolava de mic em mao, algumas cervejas também. Mitidos de porco eram sempre servidos. Muita gen- te criava porquinho no chiqueiro, no fando do barraco. A bebida ficava sempre por con- ta daqueles que no momento tivessem mais. Donos de botequim e de bitaquinha sempre davam alguma, A criangada ganhava balas, Pipocas e pirulitos. Os heréis ali muitas ve- 2: giohavam mulheres. Brigas sempre, s6 ca, tiro, as i i alguna morte Se morte hava ojona ahs no tinhai fate ipeaididenti ee aaetnte ee outros motivos; da mogada. Nos jogos em que 0 Bon cia podia-se saber que alguma coelho’ dade nao apare coisa nao sairia bem. ~ Hoje Bondade nao apareceu, alguma coisa vai acontecer. Ou vai ter sururt, ou Var mos perder! ae ‘Uma vez quase que uma partida foi adiada. O time contrario era bravo, havia a chuva atrapalhando ¢ Bondade ainda nao ha- via chegado. Toca de esperar, depois de muito, chega o préprio. Eis o Bondade trazendo alt- vio para 0 coracao de todos. Trouxe também alguns raios de sol, estiagem passageira, que s6 durou o tempo da partida. O time local saiu feliz. A cachaga descia quente na gocla de todos. Era um dia de frio. — Bondade! Oh; Bondade! Que € isso Maninho, 0 que houve? — Eu estava longe, ld no barraco de Filé Gazogénia. A velha est doente, vomitando, est quase a passar... Bondade fazia jus ao apelido. Nao tinha pouso certo, Morava em lugar algum, a nao ser no coracao de todos. — Para que ter pouso certo? — dizia ele — Homem devia ser que nem passarinho, ter 39 asas para voar. Jé rodei. Jé vivi favela e mai favela, jd vivi debaixo de pontes, viadutos.. jg vivi matos e cidades. Jé vaguei, vaguei... Muj- to tempo estou por aqui nesta favela. Aqui é grande como uma cidade. Hi tanto barraco para entrar, tanta gente para se gostar! O tempo ia passando, Bondade ficando ali. Comia em casa de um, bebia em casa de outro. Era amigo comum de dois ou mais ini- migos. Nao era traidor e nem mediador tam- bem. Quando chegava a casa de um, por mais que indagassem, por mais que futricassem, Bondade nao abria a boca. Desconversava, conversava, € a intriga morria logo. Vivia in~ ‘ensamente cada lugar em que chegava. Cada casa, cada pessoa, cada miséria e grandeza a seu ‘emp Certo, no seu exato momento. Tete 40 juiz. Triunfante, sai do cam, ae aah fesse um jogador que fesse upranse o Primeiro gol. E sé selembra de onde veio ¢ os 10 € 6 lemby boca murcha e tisica de Filg ete sangue na Victam lhe indayar de sua dem, es wenia porque Bondade sofreu muit mento, Ele, Tio Toro, Man sa © destavela- ria-Novae algumar 40 criangas foram talvez os que naquela época traziam 0 cora¢4o mais dolorido. Festival de bola no campo. Festival no cor- po de Cidinha-Cidoca. Tempo de novo ho- mem, de homem estranho chegar ao corpo de Cidinha. As mulheres gostavam, enquanto ela se divertia com os homens do time contrario, os seus estavam resguardados. Havia homem que nem bola direito chutava, s6 pensando em Cidinha-Cidoca. A fama da mulher corria. Era conhecida de corpo e nome naquela e em outras favelas. As vezes, um ou outro jogador mais afoito, do time contrério, arriscava pedir a Cidinha que mudasse de pouso, que fosse com ele. Cidinha tinha mesmo vontade de conhecer outros lugares. Seu peito arfava de desejo por areas desconhecidas. Era uma tentacao. Afinal por que ficar? Ja conhecia quase todos os ho- mens da favela. Iria! O aventureiro se sentia feliz, vitorioso, afinal levaria consigo o melhor troféu, “Cidinha-Cidoca-rabo-de-ouro”. Cor- tia os olhos em volta, sabia que estava sendo 41 observado, Os anti; nos de Cidinha, ¢. stavam com ele ou outro, is Sim, ela podia igio para a favela, mai forte. Que desejo era aquele de partir? scu rosto, em seu corpo. Nem uma marca, nem um sinal. Entretanto, por maior que fosse mi nha curiosidade, cu guardava uma certa dis- tincia. V6 Rita me atrafa, mas cu tinha medo, muito medo... V6 Rita guardava tanto amor no peito! Também tinha mesmo 0 coragio grande ¢ s6 descobriu isto depois de mosa. Um dia passou mal, o patrao era médico, exame para la, exame para cé, ficou explicado por que, as vezes, ela se cansava tanto. Havia dias em que o coragio parecia lhe querer sair pela boca. O médico disse-Ihe que ela viveria pouco. Enganou-se. LA estava ela, velha, mais de 70, de 80 talvez. V6 Rita era imensa. Gorda e alta. Tinha um vozeirio. Todo mundo sabia quando ela es- tava para chegar. Vivia falando. Nunca vi V6 Rita calada. Se nao conversava, cantava. Boca fechada nao entra mosquito, mas nao cabem isos € sorrisos. ~ V6 Rita, como anda o tempo hoje? — Bom, filha! Muito bom! — Vo Rita, mas esta chovendo tanto! —O que é que tem, menina? Chuva é tio bom quanto sol... 43 vio. Era coi ; = no uma tempestade sua) one tinha rios de amor, chy, pe de dentro do Peito. aay Miquilina © Catita? Nao! Nao podia er = gre ca. Nao! Serd que o rio tinha O tio estava bebendo tudo que encon- trava pelo caminho. Pedras, paus, barrancos, casas, bichos, gente € gente e gente... : Pe rand aad a vida, levava tudo de rol- ils ‘Pido, era sé Deus piscar os we oe de visi a gente um tiquinho s6 endo, engolindo tudo. aie a ae continuar a vida sem “que que eu vou fazer? O que fazer agor a do meu co; po, do meu pensa- mento, desse labutar tio sozinho? a corpo A sede do rio? Se eu voltasse, quem sabe, 14 embaixo ou em outro rio qualquer, eu pu- desse encontrar aqueles corpos amigos?” Toté, moo de tantas coragens, mogo de tantas proezas e aventuras, continuou na outra banda do rio. Sao, salvo e sozinho. Continuou ali covarde, sem muita coragem de voltar ao rio € a vida. — Maria-Velha, dizem uns que a vida é um perde e ganha. Eu digo, que a vida é uma perdedeira s6, tamanho é o perder. Perdi Miquilina ¢ Catita. Perdi pai ¢ mae que nun- ca tive direito, dado o trabalho de escravo nos campos. Perdi um lugar, uma terra, que pais de meus pais diziam que era um lugar grande, de mato, bichos. De gente livre ¢ sol forte... E hoje, agora a gente perde um lugar de que eu ja pensava dono. Perder a favela! Bom que meu corpo ja esta pedindo terra. Nao vou mesmo muito além. Se eu tivesse mais mog¢o, come- ava em qualquer lugar novamente. Comecei cheio de dor, mas comecei outra vida quando cheguei sao, salvo e sozinho na outra banda do tio. O tempo foi passando, pensava que estava ganhando alguma coisa. Nada, s6 dor. A dor sempre bate no coracao da gente. Cada dor cai como uma pedra no peito. Pedras Pontia; ¢ foram tantas! A dor d6i fina, firme. ral pedradas. Tantas! E mais aquela quando New Tuina morreu. Contudo Toté era es duro. Nao morria por qualquer coisa, Talver cle nem fosse de morrer. Pedras pontiagudae batiam sobre o scu peito, sangravam seu oe io € Tio Tots ali duro, Sio, salvo e sozinho. Maria-Vetha, mulher dura também, era a terceira mulher de Tio Tots. Quando encon- trou o homem, ela também jé tinha uma larga € longa colecao de pedras. Jé vinha sur de muitasdore € era por isso, talvez, que ela ae eee Podia até estar con- ouvidos fundos”, aaa eit uma gargalhada alta, que a ae a vem logo tristezando atras da : ae sera gente”, a de roca. O pai, antes de endoidecer entre um sumigo ou outro, fora. Vid: completamente, faria alguma coisa com a sua lucidez, Plantava a terra que tinha, vendia a colheita aos fazen- deiros. Fazia, ainda, cruz, banguinhos, mesas ¢ madeira. A mae cuidava um outras coisas de sha um lado esquecido. Tor- pouco da casa, tin rou café, saiu na friagem, pegou vento, diziam. Maria-Velha ¢ Tio Toté ficavam tro- cando hist6rias, permutando as pedras da colegio, Maria-Nova, ali quietinha, sentada no caixotinho, vinha crescendo e escutan- do tudo. As pedras pontiagudas que os dois colecionavam eram expostas 4 Maria-Nova, gue escolhia as mais dilacerantes e as guar- dava no fundo do corasio. Havia uma histéria que Maria-Velha re- petia sempre, um fato passado em sua infancia ¢ que ela recontava € recontava para a menina Maria-Nova: “Um dia, ela, Maria-Velha, ainda nos tempos de sua meninice pulava que nem ca- brita na frente de seu avo. Ele olhava, limpa- va os olhos e fungava sempre. Um dia, Maria descobriu que ele chorava. ~ O que foi, vove, chorando, chorando sim! Pulos acabritados, era a imagen, fi filha sua. Piha que ele perdera de 7 nunca mais vira, Mie-de-leit a cite de uma cri, iang: i escrava aie serchela contra o sinhd. Agarrou o elo pei ; _ tem pelo peito da camisa, sacudiur sacud A e*erava foi posta no tronco, iam sutri-la ate.9 fim. A er nga. filha de leite, chora, prita, ber »volta a si, quase enlouquece — Nao matem, “mama i Nio matem, “mamie Preta”, nio ma- tem “mamie preta”! Os sinhés re solveram entio vender a se soube dela. escrava ¢ nunca m: i‘ on tte, quando era crianga, quan- ben 9 Maria, toda vez que pulava, que ca- tava diante do avd, era como se uma pedra Pontiaguda atingisse o peito do velho fiona eee Era muito bonito. Tudo tomava um tom aver- melhado. A montanha ld longe, 0 mundo, a favela, os barracos. Um sentimento estranho agitava 0 peito de Maria-Nova, Um dia, nao se sabia como, ela haveria de contar tudo aqui- lo ali. Contar as histérias dela e dos outros. Por isso ela ouvia tudo tio atentamente, Nao perdia nada. Duas coisas ela gostava de cole- cionar: selos ¢ as histérias que ouvia. Tinha selos de varios lugares do Brasil ¢ de alguns lugares do mundo. Ganhava, achava, pedia. A igreja do baitro rico ao lado da favela, era de uns padres estrangeiros. Maria-Nova lé ia pedir sclos. Ganhava das patroas de sua mic € de sua tia. Tio Tatio dava os mais lindos. Ele tinha ido a guerra. Tinha histérias tam- bém. Mas, das histérias dele, Maria-Nova nao gostava. Eram historias com gosto de sangue. Historias boas, alegres ¢ tristes eram as de Tio Toté € da tia, Maria-Velha. Aquelas historias ela colecionava na cabega e no fundo do cora~ 40, aquelas ali haveria de repetir ainda. Maria-Nova crescia. Olhava 0 por do sol. Maria-Nova lia. As vezes, vinha uma afli- io, ela chorava, angustiava-se tanto! Queria saber 0 que era a vida, Queria saber o que 49 me leve até a Outra, Posso também j a ferida que 0 Magricela tem ne Bho nojo, mas olho. Posso ir assisrirs Tereza, quem sabe hoje ela dio ataque? Posso Passar devagar, Pé ante pé, Perto do barraco i Tito Puxa-Faca. Gosto de ouvi-lo afiar a lamina. Imagino a dor se ele me retalhar a car- ne. Hoje quero tristeza maior, maior, maior... Hoje quero dormir sentindo dor Maria-Velha parece que adivinhava os desejos de Maria-Nova, E quando a menina “stava para o sofrer,a tia tinha tristes historias Para rememorar. Contava com uma voz en- secortada de solugos. Solucos secos, sem ld Brimas. Sabia-se que ela estava chorando pela Yor rouca e pela boca amarga. da vida, e que nunca pode expandir toda a sua efervescéncia intima. Era um homem de matutar, de imaginar as coisas e as causas. Quando voltava de suas peregrinagées, vinha contando as novidades que ninguém acre- ditava. Era chegar no povoado, abrir a boca, j4 todo mundo dizia: “La vem mais uma do Luisao da Serra”. A primeira vez que Maria-Velha viu seu pai, foi na rua, Fora comprar fumo de rolo para o avé. Entrou na venda da Palhoga e viu um homem igual ao vové,s6 que novo.O homem fitava o além. Maria chegou, pediu béngao ao pai. Ele pediu a Deus que a abencoasse sem contempla-la, jé trazia o olhar distante, vazio. Ji estava quase louco. Maria, nao velha ainda, tinha uns sete anos, talvez. O wo de Maria-Velha sempre chorava quando via a menina cabritar em suas brin- cadeiras infantis de pula-pula. O velho tinha um amontoado de dores. Dos varios filhos que tivera, perdera quase todos. Vivo, s6 tinha Luisoe mesmo assim, louco. Luis fora menino 51 i nteligente, sempre indagador das co; 8 ois, causas. Era um rebelde, odiava os sinh s sin Quando venderam a sua inms a, aS das 6s, ter agarra 6 agarrado 0 sinhé pelo peito da carne Sao! Ic isa, mitava ddio ¢ prometia se vingar, Por fe i: Por fog na casa-grande. Chorou a noite tody. FE teve uma surpresa. Luis falou com ele dase te horas naquela lingua da terra distante "0 Pa pensava que 0 garoto soubesse falar 6 a Qual nada! Surpre- } Luis falava aquela linguagem tio No outro dia Luis sumiu. O avé de linguagem dos branc Maria chegou até a chegou até a pensar que os sinhds nm vendido o rapaz também, Eles ja ti- nham vendido Ther © os outros filhos, ua 1 matado © menino? Sera que tink Anos se pass tebelar, im, © homem sem se a dor, 0 banzo alimentando a » vender tanto fazi indo ov ‘paz, homes Pent © alto, sem- 52 yer nio é preciso nem = Pai, vamos daqui, iessas_andangas da fazenda. Ni HA muito que branco no € Nem vender Iya, a mic, minha irma falar pro sinhO descobri coisas... mais dono de negro. com os filhos, nem vender Ayaba podiam. Tenho algum dinheiro, labutei fora, trabalhei madeira e vendi. O homem velho ¢ 0 homem moso fo- ram acaminho. O velho calado, o mogo mudo. CO homem moo comprou um pedago de terra, passaram a lavrar 0 que era de seus, pai e filho ‘A vida seguia calma, boa. Luis vivia a cismar coisas, a falar sozinho. © pai olhava o filho, © filho olhava o pai, os dois estavam sozinhos. tivesse O pai queria tanto que o filho casasse, mulher ¢ filhos, se multiplicasse, continuas- se a raga. Luisio da Serra cumpriu os dese- jos do pai. Casaria, Uma negra calma haveria de ser a bonanga, a paz, a lucidez de sua lou- cura. Teria filhos: Maria, Tatio, Natividade, Ilidia ¢ Joana. Ele ja velho, ainda haveria mui- to de chorar, vendo Maria, sua neta, ali na sua frente. Naqueles momentos tinha a impressio de ver a vida se repetindo. Maria era igual, era. a imagem pura de sua filha Ayaba. Filha para quem ele escolhera um nome bonito. Os sinhés na i ; naquele dia estavam de bo; le bom coragao talvez e it neon Seu povo significava Rainha Maria era i, aA aby "a, Maria parecia igual 2 i com a Rainha. oe Bondade conhecia todas as misérias ¢ ‘grande- vas da favela. Ele sabia que ha pobres que sio capazes de dividir, de dar © pouco que tém ¢ ne ha pobres mais egoistas em suas misérias ae 8 ricos na fartura deles, Ele conhecia i arraco, cada habitante. Com jeito, ele aa Mm eatrando: no coragao de todos. E quan- o a £6, ja se tinha contado tudo a0 Bon a a a eer como, sem perguntar today, Baht’ Participando do segredo de 2 de homem Pequeno, quase mitido, ce pe Muito espaco, Daj, talvez a sua ca- estar em todos os hy igares. Bondade sai © apelido que merecia Im dia, jé fazia 3 Alina fine fitia anos, Bondade chegou tos € a boca seca de sede € orta em que ele bateu foi na de VO Rita. Passou ali o resto do dia, o rmiu. No outro dia, tirou do saco um chapéu de couro, deu um bejo na testa de V6 Rita saiu a ver 08 OW oe, Nunca mais parou. Todos jé tinham em vee eantinho para o Bondade, assim que cle hegasse. Ali cle forrava a sua cama e dormia. ue ficasse, nao era um Durante o tempo em q estava ajudando sempre. Nao se sabe fade tinha sempre um trocadinho. um remédio ‘Tinha os olhos afl de fome. A primeira Ps comeu € do: ‘0 scu tesouro, parasita, como, Bond: Era um leite que ele comprava, que trazia, um pio que nao se teria hoje. Cortia 0 boato que Bondade era rico, la pelas terras dele, Pernambuco ou Par, nao sei. Diziam que ele tinha dinheiro que rendia ju- 10s. Fato é que Bondade, sempre uma vez por més, safa da favela de manhi e sé chegava com © pér-do-sol. Diziam que ia ao banco buscar dinheiro. Podia ser! No outro dia, as criangas ganhavam doces ¢ ele atendia sempre aos mais necessitados, os que tivessem com uma carén- cia urgente. Comprava também uma garrafa de cachaga ¢ bebia tudinho. Depois se deita- va no canto do barraco onde ele estivesse, € 55 curiosidade em pessoa, Tod V8 0 mistério de Bondade Maria-Nova tinha em Bo, OU triste? Ela quase se amargura. Achava vida de todos, tud Bondade, entao comegou a contar: Maria-Nova, em um barraco desses ha uma menina de sua idade. Quantos anos vocé tem? Treze. Isto mesmo, treze anos, A meni- na sonha. Infantis desejos, guardar na palma das mios estrelas e lua. Armazenar chocolates e magas. Ter patins para dar passos largos... A mie da menina sonha leite, pao, dinheiro. Sonha remédios para o filho doente, emprego para o marido revoltado e bébado. Sonha um futuro menos pobre para a menina. A mae da menina sonha ter nenhuma necessidade. So- nha dinheiro, dinheiro, dinheiro... Para um pouco e recomeg: Outro dia, veio aqui o fornecedor da fi- brica de cigarros, suprir os botequins da favela, © homem, diferente de nés, fala grosso com a mao no bolso. A mae da menina fica a olhar a mao do mogo sempre no bolso. Os dois se olham. Ela jé sabe do vicio do moso. O mogo ja sabe das necessidades da mae da menina.O mo¢o € répido, direto, franco e cruel. “Quan- to vocé quer, mulher?” A mie da menina nio responde. O mogo tira um pacote de notas. A mie chama a menina: Nazinha, acompanhe © mogo!” © homem pega a menina pela mao € segue outros rumos. Nao ma; fabrica, era preciso fugir, pega do patrio. A mae da menina aj is © rumo dg rao dinheiro NTA Os trapos 0 filho doente, 0 marido revoltado e bébate Procura outros caminhos, também era Preci~ so fugir. Maria-Nova na noite em que ouviu a histéria de dor da outra menina dormiu e sonhou com amiguinha. Nazinha sentia dor, Sangue, sangue, sangue... Era como se a vida estivesse Ihe fugindo, a comegar por aquele Ponto entre as pernas. O homem tapou-lhe a hoca ¢ gozou tranqiilo. Deis dias depois, o zunzum se espalhou pela favela. Teté do Mané vendeu a filha. O homem comprou com dinheiro roubado. A Policia estava fazendo a sindicncia, Ninguém sabia para onde ela havia arribado com o filho doente ¢ 0 marido bébado. Este foi o assun- to durante uns bons dias baixo como na torneira , tanto na torneira de de cima, Maria-Nova ja sabi, do. Ela sentia falta, senti; Por sua amiga Nazinha, ‘a antes de todo mun- a a dor, se angustiava <1 numa madrugada chu- os ossos. Era mui- s negras bem ‘rio chego Alirio ch : mae até ‘ Estava molhado — ras ito, tinha as caracter! to bonito, i irio. Ela siete ia-Nova gostou de Negro Aliri faria- era uma menina, mas ne «4 bulia dentro de si. O que faeaniginieee N 10 Alirio foi da boca. Ela fic 7 oe ; la as labios carnudos. A ee ae i ai - : Alirio coincidiu com avenda de aa No s, Maria-Nova confun Nos sonhos noturnos, satires audo, © homem que comprara Navinha ers ro Alirio, Nazinha era ela propria. S6 q\ eee ‘A boca de Negro Alirio a i to. ela nao sofria tan the dava um certo alivio. Acordava suada, em 1c ‘ asem i Uma certeza Maria-Nova tinha: lagrimas. Uma Es ia nunca! Mae Joana nao a venderia nui alguma coisa de mulher mais gostou em Mie Joana era uma mulher triste. ae fee nunca. Conscidéncia ou nao, era ilies le Maria-Velha. Vinha de uma mie que tinha ° Jado direito abobado, adormecido e de um pai doido, demente, maluco. a pu venderia alyurn dj 8, KE] ii = - la comeria 0 pio que o diabo ana” 1, 10a ao i die Le fanit te fundo do inferno, mataria se prec D Tosse, a i: : eo Mex ganas nat daria nem venderia neha °8 filllos, Mae Joan he Joana estava ali feito gali ae 1 feito Tepiada, detectando ‘eper 0. E, Bo. E na sua fragilidad Maria-Nova ¢, apesar de Tio Toté estar se tornando um velho sistematico, ele permitira gue Negro Alirio passasse o resto da noite ali. Mal o dia raiou, Negro Alitio Jevantou-se € saiu. Tio Totd sentiu um certo alivio, Maria- “Velha, indiferenga, Maria~Nova uma espécie de tristeza. Negro Alirio encontrou pouso Jogo perto dali. Baixou a sua tenda na casa, no corpo € no coracao de Dora. Maria-Nova sentiu que Negro Alirio ti- nha um segredo. Percebeu que ele tinha nos olhos o ar de fugitivo. Tempos depois, Bon- dade Ihe contaria uma historia que logo ela adivinharia como sendo a de Negro Alirio. Ela jamais esqueceria aquele homem molhado até os ossos, aquele ar misterioso, aqueles labios carnudos. E aquela imagem, por longos anos se tornou um vicio. Maria- -Nova sempre procurou aquela sensagao pri- meira, aquela impressio deixada por Negro Allirio, no corpo, no jeito dos homens que ela veio a ter um dia. Na favela havia uma familia que tinha um grande comércio, O negécio deles nao era 61 Cia de todos, Vendiam tudo, ane ne Pet, 05 homens compravam ficha ¢ j a € iam Jf se b; se banhar. Dey + Devia ser bom, era banho de chuveiro, co; A famili - ah finlia de Maria-Nova néo fazia uum gasto q ett Tio Tors achava que ser @ mais. Mari, : 7 ria-Velh; ies : a sempre lavay: ‘uscava 4gua em torneiras pil : erimentar 0 banho de chuveiro. A nao era exp : omens que saiam dos quar- ser a alegria dos hi a fnhos de banhos, ainda nus da cintura para cima e com a cabera molhada, nada era inte- sessante por ali. Nada para se ver. Aconteciam coisas, porém. Ali, na porta do armazém esta- vam os homens, alguns bébados, outros vadios ¢ muitos os trabalhadores. Entre eles havia os que bebiam o dinheiro todo e, por isso, as mulheres sempre iam 14 brigar. Algumas bri- gavam também com S6 Ladislau. Esses acon- tecimentos Maria-Nova nao achava graga em observar. Ela preferia mesmo a torneira ptibli- ca. Gostava de ver a agressividade das pessoas nos dias em que a agua estava pouca. Gos- tava de ouvir as histérias que as mulheres, as vezes, contavam baixinho. Gostava de ficar a espreita, olhando fixamente para 0 portio na esperanga de ver a Outra. Era preciso aguar- dar o instante em que ela, as escondidas, viesse admirar o mundo. Uma sombra se movimentou e quando 0 enigmatico corpo percebeu os olhos da menina 63 cm cima de si, se desfe E duro Cnfig nM 0 T das pesso; te 0 olhar das Pessi Ultima nente g f filho ultimamente : ferente. Ela percebi Sera? Até seu filho? vt 7 olhares dos outros. Tinha von mas faltava-Ihe coragem. O fee menina, com seu olhar ae Perado. Aquela busca incessa mente, Maria~Nova nao safa da tempo de férias. Epoca de aula uma parte do dia, : ior era aquelg » cruel, deses- inte. Ultima- torneira. Era cae pelo menos nte lem- brava 'm que ela estar i wa ali. Nas féri . Nas f tormento! Maria-N, eae i ‘ova ficava du; dia lavando roupa o1 ante todo o 64 is de bola, um outro mo- 5 festi in dos fes' , : tht a favela respirava allegtia crt Numa casa ou noutra, s¢ Colhia-se dinheiro de as festas jun fogucira. dar, comprava-se canjica ¢ 8CUS pronto para um ¢n- acendia uma quem pudesse ingredientes ¢ estava tudo voir, para uma festa. Se viesse alguém que nao tivesse participado com dinheiro, nunca the seria negado um prato. Entretanto, havia uma festa ju vela. A festa de Cabo Armindo. Cabo Armindo, antes de tudo era um brasileiro devoto. Em todas as datas civicas, ele, talvez tendo herdado o espirito ¢ as pra- ticas do Quartel, punha na vitrola o Hino Nacional e, com seu servigo de alto-falante, a musica se espalhava pelos quatro cantos da favela. Dia Sete de Setembro, ouvia-se 0 Hino Nacional o dia todo. Dia de Nossa Se- nhora Aparecida, padroeira do Brasil, tam- bém. Neste dia, rezava-se 0 tergo ea ladainha de Nossa Senhora. Depois sempre tinha uma mesa farta de doces ¢ biscoitos. Todo mundo comia. Muitos nem gostavam de rezar, mas iam pelo lanche. nina que se tornara oficial na fa- Soas eram solicitadas Para tirar o t as rezas de casa em casa, TSO, puxar Os santos Visitavam olhos sempre indagad i re “SF ste, aocthada ne we OPS No meio d los ani 66 Brandes Jer tao bem as oragoes do livro. Maria-Nova, muitas vezes Jia em latim a Jadainha de Nos- sa Senhora. Todos sabiam a Jadainha de core sespondiam em coro: “Ora pro nobis”. Maria~ _Nova, emocionada, lia alto ¢ firme: _ Mater creatoris. E todos respondiam: - ora pro nobis Mater salvatoris, ora pro nobis. ‘Mas a oragio de que Maria~Nova mais gostava era Salve-Rainha. Havia partes da ora¢ao em que ela via todo o seu povo, em que ela reconhecia o brado, as tristezas, os softi- mentos contidos nas histérias de Tio Toté, nas de Maria-Velha e nas hist6rias que Bondade contava. Ela conhecia e reconhecia os perso- nagens. A oracao podia ser aplicada a vida de todos ¢ a sua vida: “A vis bradamos os degredados filhos de Eva Por vés suspiramos neste vale de lagri- mas [...]” Ela via ali, em coro, todos os sofredores, todos os atormentados, toda a sua vida e a vida dos seus. Maria-Nova sabia que a favela nao era o paraiso. Sabia que ali estava mais para et mas pec a muito 4 No: Permitisse que que methora cles ac. ; chorar, festajunina Nnaca: Para os adultos, Cabo Os ensaios com Armindo era exigente ava com uma certa an- sempre aos sb tes sabados ¢ do- 408. Quem faltasse aos = Se apresentar no dia, p qu HME Se propunharn a d ter tecedéncia ¢ cram ensaios nio podia ‘oucos faltavam e os langa cria Cae ar queriam mesmo © ativa na festa, Cab n ri- “abo Armindo morava na area : ndo mo a | pp o numa area py Sua casa oe ua casa ficava no centro P enorme, Armava-se wadrilha, Os assists ou do lado vile, a fogucira, entes fica- de fora da cerca fannavanse a q vate ne 1 10 terreiry de modo que as pessoas c4 de cima assistiam a tudo também. Ele bancava toda a festa. Serviam-se canjica, doces, biscoitos, fogueira, hatata-doc quentio, tudo @ vontade. Ninguém pagava nada. Diziam alguns que cle apenas organi- vava a festa ¢ cedia o local, mas quem banca- va tudo eram os ricos que moravam no bairro nobre bem ao Jado da favela. Bancavam para que 0s favelados nao 0s importunassem. Ha- via outros bairros perto de favelas em que as casas eram constantemente arrombadas. Pa- rece que havia mesmo um acordo tacito entre 0s favelados ¢ seus vizinhos ricos. Vocés ban- quem a nossa festa junina, déem-nos as sobras de suas riquezas, oportunidades de trabalho para nossas mulheres ¢ filhas e, antes de tudo, déem-nos 4gua, quando faltar aqui na favela. Respeitem nosso local, nunca venham com plano de desfavelamento, que nés também nao arrombaremos a casa de vocés. Assim, a vida seguia aparentemente tranqiiila. E, dois grupos tao diversos teciam, desta forma, uma politica da boa vizinhanga. Na quadrilha de Cabo Armindo, duas mulheres sobressaiam sempre: Mae Joana ¢ 69 Cidinha-Cidoca, Mie Joana, todo linda € séria, Cidinha-Cidloca, em cc do de caipira sempre branco ¢ cheig 4 da, Mic Joana, linda e séria; Cidinha- Cine bonita e risonha, bonita ¢ faceira, bonita em. sinuante, » CStava ‘U Vesti~ tac in- : Maria-Nova nunca entendeu porque Mic Joana, tio linda, com aquele vestido, eve cha ficava meses fizendo & mio, que fave tio bonito ¢ que todo mundo clogiava tanto, ao se olhar no espelho, ao ver a sua imagem. refletida, nao desse nem um sortiso a si propria. site Mari Now nio entendia a seriedade, a 808 ¢ sorrisos da mie. Mac Joana, Ma na, Mic Joana, sorri ae : la, SOrria Mic Joana! ia um pouco, Ji Tio Tors sempre foraum ho mem de sorrisos fartos. A 1em de risos ¢ gargalhada del oni A le retumbava Ele viera de pais escravos, Views an sozinho da outra banda do rio, de ‘ , dei Aguas, o melhor de 0, salvo ¢ xando nas ‘ s in u. Viera de uma primeiy le uma segunda mulher morta. Viers sie . Viera de 70 Estava no terceiro casamento, de vida com scus noventa ria filhos mortos. cumpria seu tempo até ha bem pouco tempo, ¢ tantos anos. E Seu riso, sua gargalhada gostoso, ria liberto. foi rarcando quando cle Tio Toté custou a se torn: comesou a envelhe- ar um velho. Aos cer. oitenta anos cra uM MOGO- E gostava de repe~ tir; cu nao sou de morte facil, de vida dificil, as suas histérias, a que cle gos sim! De todas ar ¢ repetia sempre, era a da tava mais de cont travessia do rio. Sempr “Cheguei sia, salvo € banda do rio. Gostaria de ter morrido, mas es- c comegava assim: sozinho na outra tou aqui. Mas, um dia, todos comegaram a per ceber que Tio Toté estava envelhe endo. Nao pelos cabelos brancos, porque hi muito que cle jf os tinha. Nao porque andasse meio trO- pego ¢ nem porque ja trouxesse a voz meio rouca. Nao cram essas as marcas da velhice de Tio Tot6. Ele envelhecia porque estava per- dendo as esperangas. Envelhecia porque nem vontade de recomegar de novo tinha. Enve- Ihecia ao fazer um balango de toda a sua vida €s6 ver a morte como unica saida. 1 : ist to de Tio Tots e dese; 2 80 envelh pouco de j lesejava comunica, wu ec juventude. Ela sab tnicar-Ihe z = - Ela compreendi le, mas Perguntava ao Tj ete ae ao 10 Tio Tots; nds, € eu? : Tio Tots insistia: ~ Maria-Nova, pi oo ‘Nowy Para que sitvo? A fave » ie tenho de i — i ir com vocés? Px i. bade Meu corpo pede terra ] ol ac i: : 6 nao entendia que seus noven- tae tant 0s an 10s eram necessérios aos quase quinze de Mariinha ~ Estoy i tando viver hg and» menina! Jé venho ten- lidas, Voce co Sande tempo, venho de duras tra mulher, Ria, sorria, espantar, 5 para deb squecer © aceitar ote! roldio, levadony, © T°! havia ie ee que ex tinha qe, Mae de 72 © melhor de > a me transformar em. em ia ficar amalu- abega no lugar tei, Eu nao queri desesperada € Carecia de por ac mev. Lu ama pessoa cado por isto. e sair vivendo- Deu uma pausa ¢ retornou: w Nas andangas de 14 para c4, consegu do de almanaque, Li todos, foi 0 i. Tinha dor na cabega ando acabei a lei- ido alguma coisa. jA no me dava um punh: tempo em que eu mais e nas vistas de tanto ler. Qu: tura de todos, havia aprend Senti que lia melhor. A leitura tanto trabalho. Eu ja nao precisava mais juntar Jetra por letra, havia palavras que eu lia no pri- meiro olhar... Um dia li em voz alta para mim mesmo e senti que quase ndo gaguejava mais. Passei, entio, a copiar tudo que eu gostava num caderno e veja isto aqui. Estas palavras riscadas embaixo:. Os sonhos dao para 0 almogo, para o jantar, nunca. Mostrou-lhe 0 caderno e continuou a contar: — Fiquei embatucado com aquele dizer. Primeiro pensei que era sonho (doce, daquele ae {Go gostoso que fiquei mMatutando, ve tanto sonho no almogo de mi- cer. TiVe acontecet Nanhai de minha lida, ¢ hoje, 2° vida, aba vido 2 fenho afore, a esesperans.~ jantas Quando Tio "Tots conheceu Nega Tuina, ele anda tina no peito aquela pedra pontiagu- jh causando-Ihe uma profunda dor. Havia até sequecido 0s prazeres que uma mulher Ihe poderia dar. Vinha de umas andangas pelo interior adentro. De fazenda em fazenda que passava, trabalhava e sempre juntava algum dinheiro na mao. Apesar da dor, havia decidi- do que louco nao ficaria, nem abobado. Ten- taria ludibriar o sofrimento ¢, apesar do luto, decidiu se aproximar de Nega Tuina, moga bonita que trabalhava na cozinha da fazenda, enquanto cle estava a labutar na roca de al- godio. Havia uns dois anos e pouco que o rio tinha bebido o melhor de seu. Armando-se de coragem e se agarrando aos sonhos de uma vida melhor, Toté mandou um recado para a cozinha da fazenda. Que- tia falar com Nega Tuina. Queria convidar a moga para ir embora com ele. Nega Tuina 75 art Zo indagou be aa ela nascera is nada. Ela : era mais — ¢ isto acendia um de- de scus homens ce Ihos, principalmente Nega Tuina. Fi s¢jo em i ei i 7 Sohos, ela queria de montdo, um, cinco, ded, oe Alhos. Ela queria treze filhos. Até o dia dh partida, Nega Taina nfo trabalhou ¢ nem Gormiu mais, trangaila. $6 tinha uma imagem wa cabeca, a. do mogo Tots, nu da cintura para Uma, suado, reluzente. O corpo negro sobres- saindo entre as alvas flores de algodao. Dai aalguns dias, assim que 0 Padre Joao passou no povoado, os dois vestiram a roupa domingueira e, na capela, receberam a béngio do casamento. Nega Tuina s6 quis uma coisa, apanhou trés flores de algodio, amarrou com um pedago de palha seca, ¢ este foi o buqué que ela levava na mao. O coracio do mogo ‘Toté batiae ele sorria deixando entrar em si as novas promessas, os sonhos, as doces ilusGes. Nega Tufna no tinha se enganado. Sempre que ela via 0 mogo Toté de risos sortisos tao fartos, ela imaginava que ele se~ ria homem de outras farturas. E era. A vida continuava como um rio em remanso. Vieram caminhando para a capital. 77 Hovia muit. bri © que B tr 01 ria nenhuma para tre Rio . zy atia-No, ta hy is contava empre alow lova, ma, Mar, Ti Maria-yn? Tos bém. A ti - lta con: - tava as dela ¢ as da ‘elha ae ima Joan loay na expressio |i = ce linda e triste da mie. A LOS; 7 aie '@ para que Bondade th, an s iguma ‘atos estavam acon i a sas ela percebia, mas sé — elhor entendimento, ei a » mui consegui: : ia um que ouvia. Ela preci Por meio das narraca entender, E Precisava ouvir o o1 igGes Tr. utr » qui cmende B, quando, nau di Bondale aoe IS Passos mitidos a soleir: 7 rap Corasdo de Maria-Nova ““ lhe om ae oe Pele boca. Olhou com afli nepoua u. do or € omu,Bondade piscou para oo wadis . Cor certeza de i lo-the © corpo todo, ela te 2 mento, ri ina conhecer, na el oe — e storia de Negro Ali iquele_ mo- ‘os do rio. Desvi manso, en: olhar de Bondade. Ele, calm 2 quanto nela, 0 compo t —— ‘odo ardia. Um Ponto se. mai Secreto de seu cor aa Maria-Ni Po queimava-lhe «.Lembrou-se 105° de seus labios carnu- 95808- dos, pensou vida e de Pevizo-~ ig Bondade assim comesou expressio cera bem longe dali. Quan- ‘até um dado momento, UM ‘Um dia aprendera a ler. A The a observacao. E da ob- cayagdo a descoberta, da descoberta A anilise, dh anise & agao. E ele se tornou um sujeito ativo, muito ativo. ‘Nao era um mero observa- amorado das coisas € do mundo. O Homem nas do crianga fora, moleque qualquer. Jeitura veio aguear-| dor, um en: Baz um operirio, um construtor da vida Ja de jovem, adquirira a certeza de que er feita, ¢ no podia muita coisa estava para st esperar, cruzar os bragos, esperar resposta dos outros ¢ do além. Era preciso ir lé, no fundo do poco, era preciso por o dedo na ferida e fa- zor sanggar. Era preciso que a ferida sangras*® o sangue mau, apodrecido, primeiro. Depois, aos poucos, gota por gota, © sangue estancaria € 0 corpo novamente poderia se por de pé e procurar seus caminhos. 79 mente no seu canto de do a sua sabedoria, cada qual sedi sua ignorncia, a sua pobreza, cad nn? fiaco © temendo o corondl Joni ronel Jovelino falende modo eo imitando avoz do patrisemandandan ee ¢ mandando na gen- te como se donos fossem. Sabiamos que algu- ma ooieaestava exrada, que era peed muulaz Ou a gente ou eles. Sabiamos também que os capangas dele eram gente nossa. Tinhamos comprovado que todos eles, antes de serem capangas do Coronel, eram nossos irmaos. Sé ieee sob a protecao e a ordem do 7 a nos desconhecer. O que acontecia? A vor gritada e fria do patrao, do senhor, mudava a voz do empregado? Por que avoz do Zé Meleca, que até ontem era a nossa terra, cada qual reten- $0 Fc Ls szestava mudando tanto? O ‘Zé Meleca seria vor esti par aquela arma do patrao que cle a de Sara, contra algum de nds? Sera? bém se perguntava: “Zé ‘A menina taml do senhor contra seus irmaos?” Mharia-Nova, a0 desenhar em sua ima- ginagdo 0s tiros que se anunciavam na arma do capataz, lembrou-se de Tio Tato. Ele conta- va histérias de guerras. Um dia ele contou um pouco da guerra que havia participado. E nao se sentia heréi por isso. Na época era preciso recrutar mais e mais soldados ¢ s6 por isso cle foi aceito para o servico militar. Quando se alis- tou, nio era alfabetizado ainda. Havia outras questdes, uma delas era o fato dele ser de baixa estatura. Mas todos eram bem-vindos naquele momento: negros, indios, cafuzos, sararés... Nao se exclufa ninguém. Naquelas circunstdncias a patria era de todos. Tio Tatéo ainda narrava @ historia de uma outra guerra. Aquela em que muitos escravos participaram da peleja. Foram com a promessa de que, quando voltassem, ga- nhariam a liberdade. Guerrear foram, havia a EY 2 ae. Pedro da Zic, Ainda tey ‘angiientad: ni tempo de gritar: ‘© NO chio, ~ Iserg ' - Ze pacrivell Capacho de € Meleca guardou a do duro feito z arma ¢ saiu pisan- © patrao, mas 5 Pperto, ou veg em pode ver d ~ 0» quem teve tempo de ver os olh: de 7 10s viu uma nuvem de medo, de res ce re » de remorso talver, oo a burro, sabia que estava numa te ri emprestada. Sabia que estava sendo Sado, sabia que nao era o patrio, Sabia que era um miseravel mesmo. Acabara de matar um homem, um irmao, a mando do Coronel, Por uma questo de terra. Com a morte de Pedro da Zica, a ferida comegava a sangrar, e ainda muito sangraria. © Homem estava ali para fazer a ferida san- grar até onde fosse preciso. Os companheiros cobriram Pedro da Zica com um pedago de pano branco e acen- deram uma vela. Enquanto alguns ficaram ali branco! Porco! outros buscaram forgas li no fundo de suas ansiedades, de suas se sjtas ¢ foram a casa do Coronel Jovelino. Nao havia diividas, Pedro da Zica havia sido aseasinado a mando do Coronel. Hé muito tempo a contenda cxistia. Jé os avés do Co- queriam tomar as terras dos avés de de guarda, de suas fraque ronel Pedro da Zica. Terras tao boas, tio vizinhas da fazenda! O que custava aquela negrada vender as terras ¢ desocupar 0 beco? Mas os Zicas eram teimosos. Nao vendiam, nio sai- am, embora se sentissem cada vez mais acua- dos. Sempre ¢ sempre um elemento ou outro da familia Zica sumia ¢, dias depois, aparecia boiando nas Aguas do rio. Coronel se encar- regava de espalhar a noticia e de lamentar que a familia dos Zicas tivesse a mania de suicidio, de se matar, langando-se as aguas do rio. Os Zicas sabiam que era mentira. Um dia, o Homem, que, na época, era ainda um pouco mais que um menino, ja de noite, tomava banho no rio, quando viu alguns homens chegarem carregando uma pessoa que parecia morta e jogé-la nas aguas do rio. Reconheceu que eram os homens, os capan- gas do Coronel. No outro dia espalhou-se a 82 =i’ cn 83 Sara a ser também do Hom em. ° : Homem, quando ainda menino, ao testemunhar © fato, sentiu que ali havia algum Perigo. Voltou para casa, calado, quieto, obser- vando, vasculhando tudo. Nao conseguiu dor- mir naquela noite, chovia muito. Relampagos furavam o céu. Olhou seus pais que comesa- vam a envelhecer. Pensou que, talvez eles esti- vessem deixando a vida desperdigar, gastar em meio a toda aquela pobreza. Mais um relém- Pago cortou o céu ¢ o pensamento agudo cres- cia em sua cabega. As coisas tinham de mudar, ¢ quem faria a mudanga seriam eles, porque 0 Coronel, os ricos nao mudariam nunca. Na- quela noite, cle nao dormiu, pensou o tempo fatos: um, era aquele que acabara indo langado todo em de de testemunhar - um homem se i - tro, pelos capangas do Coronel ‘ a a ais Ihe contaram : Ele tivera um bisavo que tinha ae il dana perna. A chaga comiarlhe no S® @ bém 0 0850, tornando-se mais um ne, mas tam! sda aioe erfrimento que o acompanhara pela vida sa. Ja-velho, inttil para o trabalho, peso morto, fava sentado, ¢ a ferida exposta aos mosqui- tos, além do cheiro ¢ da dor. Sempre que 0 Sinhd moso passava por ele, fazia questo de chutar a ferida do velho. Ele apenas gemia: “ui, ui, ui,...Sinh6-mogo! Depois, muitos anos depois, uma ferida apareceu na perna de Sinh6-mogo, na mesma perna, no mesmo lugar. De nada valeu todo tratamento, todo cuidado. Nem médicos, nem garrafadas, nem rezas de pretos-velhos. A fe- rida sangrava, fedia e comia a perna do Sinhé- -mogo. Os negros diziam que era castigo de Deus. E ficavam felizes porque tinham um Deus que se vingava por eles e que um dia Ihes daria o reino do céu. ao tio um fato que seus P Ele, ainda pouco mais que um menino, naquela noite pensou: “Deus que tivesse pena dele se aquilo fosse pecado, se aquilo fosse blasfémia, mas eles precisavam de um Deus ae 5 SOMtTano ao seu. E Mesmo que, fosse m, tudo o gu “raum homem ser ogado no tio, angas Pangas de Coronel Jovelino, Os miseriveis preci cles tém Deus ao seu do! Forge Foi isso que o Ho- mem pensou na noite em que viu j a - que viu jogarem um jomem morto no rio. Ni ° ; 10. Noite em que ele nio conseguira dormi S: i ec bae crm pensando no acontecido ambem revivendo a historia de um bisavé que ele nem conhecera. A pera ferida, ¢ a Vida agredida do velho. O mesmo pensamento voltou naquele instante, uns dez anos depois, enquanto caminhava com os outros apres sado € raivosamente para a casa do Coronel Jovelino. Era domingo e todos que passavam para a missa viam 0 corpo de Pedro da Zica estendido no chao. Alguns ficavam parados, 86 morto ou com s sc mo mandou matar. Outros jam adiante. O Homem Seria hoje que cle poria © Ta dos que estavam do lado de ls oi estava sangrando ha muito hoje se confundia com o dia de eria que ser diferente. menino, dedo na ferid A ferida dos seu! tempo.O dia de hoje s ontem, mas 0 amanha Quando cle, ainda quase um scondou, ou melhor, viu 0 dia ¢ as pessoas 2607 darem, quis gritar 0 que vira na noite ane Contemplou scus pais que estavam vestidos com a roupa domingueira. Eram os trapos menos trapos que colocavam sobre 0 Corpo, quando o padre do povoado vizinho aparecia para celebrar a missa. Contou a eles o que havia acontecido. Percebeu nos olhos do pai um ras- gio de temor ¢ levou uma boa surra por ter ido ao rio a noite. A promessa de uma nova surra foi feita, caso contasse aquilo para alguém. Enquanto os pais dele foram a capeli- nha, um pouco distante dali, ele saiu pelas vi- as do povoado. A noticia ja se espalhara. Mais um Zica se havia jogado nas Aguas do Rio das Mortes. Mania estranha dos Zicas! Ele sabia que era mentira, Quantos Zicas j4 haviam —~¥ a 87 aparecido boiando depo} sumico? Uns quatro ao 7 py nhecera. Ele sabia ick acontecia anos ¢ anos ant : um no na Sarganta, bi ae Presenciara. Qual foi a sua nn teas quase lhe bateram també; oat Tam contar i ee E Para os pais dele, 9 que ele estay; azendo. Confessaram que nao gosta i te Coronel. Que nao dariam e nem aaa a terra, mas que nao podiam fazer nada. Que um dia, Deus daria 0 troco. Sé uma pessoa da familia dos Zicas, s6 uma mulher, uma velha, chorava e esbravejava. — Assassinos! Amanha, mesmo que me afoguem também, eu vou ter com o Coronel Jovelino. Dias depois, naquela época, mais dois fatos sangraram a ferida do Homem: a velha apareceu morta nas 4guas do Rio das Mor- tes, ¢, uma professora, a mando do Coronel Jovelino, apareceu em sua casa para ensind-lo a ler. A mesma professora que ensinava os fi- lhos do Coronel. O Coronel sabia que o maior i. uisesse. Este € outros Tet oita de trabalho € oportunidade para estudar 12 capital, como oe 7 ie filhos. O menino nunca mandou ie cimento qualquer. Aproveitou bem os ensins mentos da mestra. Cresceu. : ‘Agora ali, grande, era a primeira vez que jria encontrar com o inimigo benfeitor. Sabia bem porque o Coronel fizera aquilo tudo. A yelha Zica fora a ultima a aparecer afogada nas Aguas do Rio das Mortes. Todo mundo sabia que a pressio continuava, porém, nin- guém mais se suicidara. A ultima investida acabava de acontecer. O Pedro da Zica morto, assassinado aos olhos de varios deles por Zé ‘Meleca, um capanga do Coronel Jovelino. © Homem caminhava meio cego de 6dio, relembrando 0 fato acontecido ha dez anos, € o daquela hora. © ocorride no pas- sado s6 ele testemunhara ¢ fora obrigado a calar. Agora, nao! Nao era mais um indefeso vieram... O oe so ie 7 que quisesse conter a emo- ¢4o, nao conseguia. Hora houve em que ele percebeu e se calou um pouco. Calou-se tam- bém com um né na garganta, pois sabido é que Bondade vivia intensamente cada histéria que narrava e, Maria-Nova, cada histéria que escutava. Ambos esto com o peito sangrando. Ele sente remorsos de ja ter contado tantas tristezas para Maria-Nova. Mas, a menina € do tipo que gosta de por o dedo na ferida, nto mas naquela que ela traz no Ja herdou de Mae Joana, 0 Tot, do Louco Luiséo na ferida alheia, pico. Na frida Qe © ‘Maria-Velha, de Ti Serra, da avé mansa, que tinha todo o lado Steeito do corpo esquecido, do bisavd que te enderem Ayaba, a rainba. nha visto os sinhés v e Maria-Nova, talver, tivesse 0 banzo no peito. Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que cla nunca vivera. Entretanto 0 que dofa mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimi- dos, os miseraveis; em todas as histérias, quase nunca eram os vencedores, ¢ sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cé sempre ardia, dofa e sangrava muito. ‘A menina, apesar da dor, pedia mais ¢ mais aquela historia. Gostava de alguns pon- tos coincidentes entre ela e o Homem. Am- bos, quando pequenos, tinham o desejo de aprender a ler. Pequenina, ainda se entreti- nha horas e horas com revistas ¢ jornais que a mie e a tia lhe traziam. Tio Tatao, por vez ou outra, aparecia com um presente, um livro. Maria-Velha e Mae Joana sabiam ler. Maria- -Velha aprendera com uns missiondrios que 4 oN OO \ an jaria-Nova 4 medi P n a medi- '2 que aprendia se tornava mestra dos irmios menores e das crianas vizinhas. Maria-Nova crescia, lia, crescia. Coronel Jovelino andava para lé e para cé na varanda da sua fazenda, Ele sabia que a terra estava pegando fogo. Que merda havia feito o Zé Meleca! Matar um dos Zicas assim, em plena luz do dia, perto de todos. Agora o meni- no crescera, ele que sempre fora uma pedrinha na sua botina, machucando seu calcanhar des- de o dia em que, garoto ainda, testemunhara nado pelos scus homens ser Mandou jogar a velha, mas TTeve medo de bulir com 0 garoto, mandou ensinar-Ihe as ie Queria wee se conseguia trazé-lo para o lado de cd, voané-lo um dos seus, € nada! Agora cis que cle estava vindo a sua casa, & acompanhado de um bando de gente. Vé sd, ele havia cria- do cobra na rodilha! Algumas vezes, cle o vira de longe, tivera vontade de se aproximar, mas aquele moleque havia virado homem. Era uma espécie de Iider no povoado. Em sua casa de noite, ensinava outros moleques a ler. Diz que tinha até uma mocinha que ia 14 também. Ele ia de vez em quando a cidade ¢ voltava com livros. Trazia noticias sobre o que acon- tecia por 14. Diz que agora estava lendo para 08 outros, estudando com eles um jornal que explicava tim tim por tim tim, o que era sin- dicato, greve, liga camponesa, reforma agraria, Assuntos que s6 agradam a estes vagabundos € que vém tirar o sossego da gente. Era o que faltava! Tanta coisa para resolver e aquele tipo, desde pequeno, era metido a besta! Havia mandado matar 0 Pedro da Zica sim, porém nao ali, Bom tempo era aquele em um Zica, assas angado no Tio. restava 0 menino. 92 7 ea LO cn” 3 Outros coroneis rou fundo € gritou: ~ Cuidado, Coronel! A fome, a misérias cas derrotas que sofremos, apenas ou 0 chao, também vermetho, ¢ fortalecem a gente pata fazer a virada um dia... jueo Coronel tem a dizer sobre a morte do ica? Desta vez no deu tempo de afogar o coitado?! © Coronel também respirou fundo € respondeu: ~ Nao tenho nada a dizer, a questao era dos dois ; do Pedro ¢ do Zé Meleca! ~E chamou bravo 0 capanga, colocando no chamamento o édio que sentia de todos. engoliu em seco ¢ com a pi com a pintura vermelha das paredes do novamente fundo nos olhos do Coronel leu © medo. Olhou os irmios a0 lado, olhou os que ficaram li fora ¢ leu 0 édio. Bastava um gesto seu. ¢ poderiam mandar 0 Coronel ¢ toda sua familia para o inferno. Depois en- trariam na casa ¢ tomariam de volta toda a riqueza que cra de cada um deles, pois tudo - Zé Meleca! aquilo que estava ali fora construide em cima | Zé Meleca veio vindo, lento ¢ assustado. da pobreza, da miséria de cada um. Olhou a ! — Zé Meleca, fala para cles! Vocé matou casa do coronel ¢ leu a riqueza, 2 opuléncia, 0 © Pedro da Zica foi a mando meu? Foi? Fala 94 a Lm 95 eae P . cle Fala o que aconteceu! Bles nz © que aconteceu! Eles no sabem ee ica ae bulindo com a sua mul ia er. new Molec levantou a cabera olh loado para o Coronel. © Hoe Jeu nos olhos, nas feigsese no wore at ne no port nel, os modos de mando. Em 2c nae os modos de obediéncia cega, de a f. O capan; tornou a baixar a renee Penis , € foi como se neste gesto todo o seu corpo abaixasse, respondeu: — Ele bulia com a minha mulher. __O Sdio que sentiam do Coronel trans- feriram para o Zé Meleca, pois sabiam que cle estava mentindo. Ficaram sem saber quem era ‘© mais porco, o Coronel ou ele. Sé 0 Homem entendeu, 5 ele perce- beu, 6 ele leu na atitude de Zé Meleca que, se Cuidado a gente nan toma, até a dignidade de nossa gente os do lado de Ve podem soba. A partis dugucle dia, msi dos sa pronto, O bards corp Ge Pear G2 i _ ge todos. Crian= gual Asua mm cada um para ' ques $6 BAT gue. A idéia da coopera® discutia com os 17" Era cada um sativa, comesou @ £0 de sua vida, Os que estavam doentes Jantar, se mos, cuidando da vida dos outros. ‘ou velhos ¢ que nao dispunbam de nenhi sevtia terra, do alimento para si © Para 0 que nao tinham mais forgas Pare disto cuidar. As colheitas eram vendidas ou trocadas entre os plantadores mesmo € 0 excedente vendido fora. As mulheres que tinham filhos reveza~ vam entre si a tarefa de olhar as criangas ¢ ascim, elas também, alternadamente, jam tra- balhar no cuidado da terra, sem, com isto, sa- crificar os pequenos. As criangas maiores s encarreguvasn de apsdar a oaidar também dos rnenomes © de is ensinando as letras que j4 #4- biam. O Momem sabia que suuita ovisa ain- da extava para ser feita. Scbia também que © agientavam P! a7 E foi OM 0 coragao mais alivi: Homem resolveu sair dah anna: I i um pouco. I: mundo, ive See = » 1a viver ¢ ler outras vidas. Ia buscar : outros, entre os operarios da cidade, um modo de viver como irmao, : ae sabiamos quando V6 Rita estava chegando. Ela vinha cantarolando ou falando sozinha, as vezes, até sozinha sorria, gargalha- va mesmo. E nao era louca, Vé Rita! V6 Rita ito boa. Hoje quando penso em | boa, mu Eas ora at & como 8¢ Pensasse NO mistério € na ‘yo Rita, € com plenitude da vida. ia-Nova escutou de Jonge 2 gargalhada Quis correr para abragé-la, a Outra. Nao! V6 Rita dor- m ela. Parou, entao, com 0 a musica de M forte de V6 Rita. mas s¢ lembrou d: mia embolada co! coragao aos pulos. A voz, 0 som, Vé Rita, foram se aproximando. Maria~Nova sentiu uma dor e uma alegria intensa. Nao sa- bia bem por que, mas todas as histérias The vieram & mente: as que Maria-Velha contava, as do Tio Toté, as de guerra de Tiao Tatio, as do Bondade, as silenciosas que ela aprendera a ler nos olhos tristes de Mae Joana, as que cla testemunhava no dia a dia da favela. Teve a impressao de que tudo € todos caberiam no coragio de V6 Rita ¢ néo no coragao dela, E nao era por ela ser uma menina! Nao era por isso nao! Era porque no coragao de V6 Rita tinha espaco para tudo e para todos. V6 Rita vinha cantarolando, mas escon- diauma preocupacio no peito.A Outra andava 98 ch ee one 99 a LE” eCO escuro, entre ; barranco, lentamente, Parava, escondia-se, olhando 14 Para fora. Ninguém se lembrava dela ¢, se, por descuido, alguém olhasse para o lado do POrtao, temeroso, des- viava o olhar como morte. Séa menina ii nina a buscava tanto, Ainda bem que existia Vé Rita, ainda bem que existia a amizade,o amor de Vo Ries Mesmo que a qualquer hora ela decidisse to- mar aquela dose de veneno, que estava escon- dida no fundo do guarda-rou pa, sabia que nao S€ tivesse visto a Propria insistia em olhar, sé a me- morreria sozinha. Seria ainda V6 Rita que to- maria sua cabeea ¢ poria a vcla em suas mios. Tr ~*~ sos, thou para si mesma esr eo Suas 50" Como o passado havia sido dife sigamente, Come Pp filho! Fora até feliz como entro e, em seco, no quis pen- nha esquecido de rente, Chorou para ae a : i lo. Ja se is no passat Es apie ido. 6 marido fora embora, ¢ ela tudo. : iri bém. dimgue, a qualquer hora, o filho iria tam = ia ques 0 seri melhor, quanto mais cedo ele partis: ceria : Ja. Talver. para eles thor para ele e para ela. Talved Sess alguma salvacao. ree sae ificuldade, da-roupa ¢, com enorme di seat o vonene, Nio podia, e ado era por ela. En por Vé Rita. Morrer daquela forma era trair V6 Rita. Oss tratores da firma construtora estavam oa vando, arando a ponta norte da favela. Ali, a pocira se tornava maior ¢ as angitistias tam- bém. Algumas familias j4 estavam com or- dem de saida ¢ isto precipitava a dor de todos nés. Cada familia que saia, era uma confir- magao de que chegaria a nossa vez. Ofere- ciam duas opgées ao morador: um pouco de material, tabuas e alguns tijolos para que ele construisse outro barracio num Jugar Pouco de dinheire Quem opta: - A iltim: Sse pelo dinhej 7 » NEM Os tijolos, odos sabi : abiam que a favela nio Taiso, mas ni Sees » Mas ninguém queria sai. Ajj f sair. Ali perto es- tava o trabalho, a sobrevivene, . » a sobrevivéncia que fariamos em lugares tao di onde estévamos sendo obrigado. via familias que moravam ali ha século até, ou mais. O que seria ao? Piao? Eram estes pensamentos que agitavam a cabeca de Maria-Nova, enquanto olhava 0 movimento de tratores para ld e para c4. Um tratorista cra loiro ¢ a pocira o deixava ver- melho. Maria-Nova sorriu um pouco. Virias criangas olhavam 0 trabalho dos mocos. Al- guma, mais afoita, chegava mais perto ¢ amie, que ja estava triste, revoltada, ia buscd-la ¢, ali mesmo, cornegava a pancadaria. Aqueles tra~ tores trariam tanta tristeza, trariam desgraca até. E naquela noite aconteccria uma... S60 nada, stantes para sa ir? Ha- anos, meio a lei usoca- abalho, eos que voltavam do traball ae ; junto uecer @ Cansagor parando j i um vadio viver. Quem alha- alandro ou o trabalh avida de ambos dor? Fora 0 perigo C4 policia, ra go da pol ‘a igu s privagoes eram as mesmas. Aigu- era igual. As Al cre pelo menos, estava provada: 0 taba Iho nao enriquece ninguém. barata de morro também nao. O samba, 0 som, 2 alegria i Era preciso cantar! Abriam a boca tao escan= caradamente que sc via as falhas de dentes € 0s ja apodrecidos. © hilito de cachaga vinha quente de dentro de alguns. Havia risos sorrisos bonitos ali. Nao eram dentaduras al- vas, certas e limpas que enfeitavam 0 riso. O sorriso-riso era bonito porque vinha de la de dentro, vinha da inocéncia, da ilusdo de estar sendo feliz. Todos acreditavam que estavam sendo felizes. 86 Ladislau, de dentro do balcao, obser- vava a cena. Quem passasse por ali, quem des- conhecesse o local, pensaria que cra a primeira ‘vez que tudo estava acontecendo, tal o interes- se de todos. O som do pandeiro, da cuica, do O dia acab yoavam alto. a oy \ aes das vozes salam de dentro de todos. SENS Coladas Yenzala-favela, Nesta ¢ one ; Sta época tdos de ginasio, Lee © de era casa-srande Sen, & professora, aa . : viu a que tinha na classe, Olhou ela escutava a li a ava a liso tio alh como se o tema eser: ; com ela, de qu amenina, porém eine ‘avidao nada tivesse a ver entiu certo mal-estar, Num; larenta ¢ cinco alunos, duas alunas negras, ©, mesmo assim, tio di ; antes uma da outra Fechou a boes arnento he tua boca novamente, mas o Ppensamento continuava favel fave . Senzala-favela, senza ; Agora, os que iam levantar-se cedlo para © batente, despediam-se da batucada ¢ et- minhavam solenemente béhados de para o barraco, Os que 86 com a farra, a turma Sago romisso ¢om © nao querer, com 0 nao inham con tos oN Oo! am o ba am cantando, pw inuava wr, conti foyer i alto aru, como se Fosse um que mais 3 - ey Nao cra nao, apenas ntavam fundo am reclamava. A 1a noite, Ning : dos que tinham ard 0 fundo Ja adormecia sob o nina tna tae tac foi da vadiagem des, lo ama aa im compromisso algum que nha que surgiria s gum qu vitorou no Joao da Esmeralda a seguinte idéia favel de menino: — Vamos dar uma volta de trator? ~ F quem sabe dirigir trator? E era preciso saber? Ele tinha ficado 0 dia todo observando, era s6 puxar aqui c li ¢ 0 cho corria pesadao, lento! Assim se foi 0 pequeno bando de ho- vadios-meninos, Estavam tio felizes! met Tam brinear de carrinho no carrinho, Prazer que nao tiveram na infancia, Rindo, gritando, pulando, tomaram lugar nos tratores. Joao da meralda ¢ Z¢ da Binha num, Neca Palito ¢'Tonho da Cufea noutro, A tua iluminava 0 rosto de cada um, Homens feitos, machuca- dos ¢ machucadores da vida, ganhavam a ex 0 temna de crianga em gonho. Os tratores obedeciam wontem, ao mando de ify if it. Bs- pre tavam hébados de alegria, tontos de enehaga. 105 Estavam indo, indo, Tio Tots, apesar de muito: 5 nh: 8 al ji ‘a 0 ouvi Nos Vividos, t- ae nee apurado. Acordou ator- : © barulho e chamou Maria-Velha Maria-Nova acordou também © pressentiu que alguma coisa de muito grave tinha acon- tecido. Tio Toté suava e tremia. Deus meu, 0 que teria acontecido? Estariam jogando uma bomba na favela? Se fosse, ele nem se impor- taria, assim seu corpo ficaria por ali mesmo. Tio Toté, cada vez mais, tornava-se in- timo da morte, despojava-se da esperanga. Revivia 0 que passara, coisas tristes, tristes mesmo! Algumas alegres num tempo de es~ perangas. Foi justamente a esperanga que ele Procurou. Procurou a esperanga bem ld no fundo do coragao e s6 escutou a batida seca ¢ dura do érgao. Eta coragao velho! Quando iria terminar tudo aquilo? Seria agora? Quem sabe uma bomba estava sendo jogada na fave- la? Um dia ele escutou falar no radio de uma 106 EDN oom, num lugar ai no estan Brasil, nao acontece dessas coisas) € geiro (no Or 7 uma cidade. Quem escapovs aga brava 20 corpo © 2° ava acontecendo 0 mesmo esmo, sentiria, por Maria-No- ue foi jogada sangue. Sera que esti na favela? Se acontecesse © ™m' vo por ele, mas pelas cFian¢as; F eat “Mentro de si tanta vida. Quem sabe para Maria-Nova tudo seria diferente? ee cou mais um pouco 0 coragao, Jevou a mao ratando localizar a esperanga, apenas © forasio batia no vazio. Relembrou de quando chegou sio, salvo ¢ sozinho, na outra banda do rio e a sensacao era a mesma. Vieram as amar- gas lembrangas. © corasio batia apertado, su- focado, desesperancado dentro do peito. Foram tantas dores: esta, a outra, aqueloutra, aquelain- da, o acabar com a favela. Sentiu a presenga da menina no quarto ao lado. Condoido de si, de Maria-Nova e da vida, chorou. peito te Maria-Vetha escutou os tiltimos sons do es- trondo ecoando pelo ar, acordou apavorada com o chamade choroso de Tio Totd. Othou © velho e viu que as lagrimas corriam. Teve 107 a vida. Ela ta . n - Ela tio nova e ja vi- 'a mesmo. Muita coisa, nada ‘i JA tivesse definido. Sabia, aula i ao dor toda nao era sé sua. Era impossivel —s gar anos ¢ anos tudo aquilo sobre os ombros, Sabia de vidas acontecendo no siléncio. Sa- bia que era preciso pér tudo para fora, porém como, como? Maria-Nova estava sendo forja- da a ferro € fogo. anuncias. Chega ee feliz Amore 7, pode deitar-se belo, ee nha estar preso ‘ada recado, © Sujet a faz. uma festa sonha no meio seus escolhidos, € depois os leva dai? © que os vivos podem viver, padecer, ViVeh viver... no do seu ou dos ‘oeiramente. feet Chora, viver, cantar, Vive® PACES blasfemar, viver, Teza viver, viver ye is ‘A morte havia sido tao sem gtaga, tio putamente sem 87862 prutalmente traigoci ta. Os corpos dos ‘homens-vadios-meninos *& varn despedacados pelo chao ¢ as partes dos dois tratores também. Eles estavam mis- turados a0 p6, 4 pocira. As pessoas chegavam, tentavam olhar, no viam, adivinhavam ape~ nas. Nao dava para reconhecer os corpos, os mortos. Também para que? A gente conhecia a vida de cada um. Veio a policia depois de muita espera, recolheu todos, e em tudo ficou um vazio. Era uma dor intensa. Era mais uma falta que a vida cometia. O dia passou lento ¢ arrastado. Todos empurravam 0 tempo com a barriga. Tinha- mos medo do final da tarde. A noite j4 vinha, vinha... Havia a miséria do homem que ainda Bio se descobriu homem. Do homem que nao se descobriu em si Havia a miséria que nem o amor de pessoas como Vé Rita, como Bondade e como Negro Alitio, que chegou ali bem mais tarde, podia resolver. Havia a miséria das Pessoas que Préprio e nem no outro. fe tra zem 0 cora¢do trancado Para qualquer ato de E essas pessoas acabavam atraindo para 110 Td 0 de todos 08 jemais. uinha era uma i todo: de F di aha muito medo de Fui- em frente a0 barraco Uns diziam que ele que era maldoso, perverse cra Juco, outeoS que A ersava, andavay que nada de ay normalmente. Aparecia no fla, oa adislau, tomava banho ali armazém 0 Meshos em que os homens se B&- Pa Uae goles de pings, falava cate shavam, bebia uns goles de pinga, Traum pouco para alguns, ¢ ia embora. Quem vofria nas mios dele era sua mulher e sua filha Fuizinha. Vivia espancando as duas, espan- cava por tudo ¢ por nada. Os vizinhos mais préximos acordavam altas horas da noite com o grito das duas. Era mau o Fuinha. Diz que cle tirava a roupa das duas e batia até sangrar. Se clas choravam baixinho, batia até que elas gritassem ¢ depois batia até que elas calassem. A Fuizinha crescia temerosa, arredia. Uma vez Maria-Nova parou perto da cerca de arame farpado que havia em volta do barra co e Fuizinha ameacou soltar alguma pala- vra, quase confidéncia de tao baixo que era. Maria-Nova escutou a voz do Fuinha e fugiu. Outra, nunca mais visitou ninguém. Um dia a mae de Fuizinha amanheceu adormecida, morta. Os vizinhos tinham escu- tado a pancadaria na noite anterior. A mulher Britara, gritara, a Fuizinha também, também, Ouviu-se a voz do Fuinha: Agora siléncio. A mulher silenciou de vez. Fuizinha ain- da muito haveria de gritar. Ia crescendo apesar das dores, ia vivendo apesar da morte da mie e da violencia que sofria do pai carrasco, Ele era dono de tudo. Era dono da mulher e da vida. Dispos da vida da mulher até a morte. Agora 1i2 vida da filha. S6 que a filha, ele da sispunt Cr viva, bern ardente. Era 0 éono,0 vs bem viva, bem Fr ee & pata isto mesmo. Mulher nm ee, é a gente bater, mu- aca tudo. Mulher € para Be Zon paca ara apna, mulher € aa gO%aH - inha era tarado, usava @ i wa ele. O Fuinha ¢! » sim pensa’ ria filha. ° Maria-Nova tinha pavor dele. Houve uem tentasse falar com ele e Fuinha cinica- sente respondeu que a filha era dele e que ele i dia em favia com cla o que bem quisesse. No ce que Fuizinha tentou aproximar-se de Maria: “Nova, de noite, os gritos dela foram mais di- pr lacerantes ainda. Desde a morte dos homens-vadios-meninos nao se ouvia mais falar em desfavelamento. Ja haviam se passado quase quatro meses. Os. tratores estavam no mesmo lugar, de pernas para cima. Chovera muito nos tiltimos dias, viera depois o sol. O barro assentara e como 0 terreno era em declive, tinha se tornado uma pista escorregadia. As criancas, por n’o terem brinquedos prontos, acabavam sendo muito 5 113 Ctiativas, Com isso ee au Poleiravam-se em cin, 10 abaixo. Era uma brie. te : ma. O : Pesadio. © rosto, 0 corpo, ono” tli Pata, nee : : » © Menino fis, Morte instanténea, répida, co hen : » Como havja c mens-vadios-meninos oi para o hospital, Rene meses. Voltou sim, to: » calado, morto-vivo, bol » b » bobo, alheio, paralitico, hae i mie pegava o menino, colocava num carrinh st tinho de madeira, pegava os trés menores ¢ safa a pedir-ganhar esmolas. Foi Negro Alirio que juntou 0 pessoal da favela € com eles foi até a firma construtora exigit a retirada dos tratores. Aquilo era um ¢terno perigo. O que aconteceu com Brandi- no poderia acontecer com outro menino qual- quer. O pessoal da favela jé estava chateado 114 ava esteve tiva es seada dos tratores pare™ CO} retital am bravios, Te ‘ Chegar wg ocira. oe $6 se ouvia parulho e¢ sentia PI a cabal sclamento xecomegava, Todos ad a pido as tabuas € tijolos ou 44 tivessem rece! ee de dinheiro oferecida = Firma Construtora deveriam desocupar o beco. ‘As mudangas, trouxas, latas, meninos ¢ grandes, cachorros, desamparo, merda e mer- da, tudo era acomodado desacomodadamen- te em cima do caminh’o (também oferecido pela firma construtora). Os vizinhos proximos observavam a partida, sabendo que dai a uns dias seriam eles. O caminhao levantava poei- ra. Bom era que, com pé caindo nos olhos da gente, se podia chorar como se nada fosse. \ 115 tinha medo de falar alguma caiam. Quis esconder o rosto nas 0s olhos ¢ reclamou da poeira. coisa. As légtimas mios,limpou Olhou em sua frente ¢ lé estava a sua sogra com a biblia na mao. O ventre docu-lhe outra vez, Sentiu sair de si uma golfada de sangue. Iria desmaiar? Abriu bem os olhos ¢ sé viu a poeira. Meu Deus, eu nao posso desmaiar agora! S6 tem cla, eu e as criangas. Nao posso. Agarrou-se as \iltimas forgas que tinha. O sangue borbulhava quente entre suas pernas. Eu preciso agiientar, € preciso viver! A poeira, a biblia, a sogra, as criangas, tudo estava ficando tio apagado, tao distante. O sangue borbulhando quente. Sera que havia sido 0 movimento para subir no caminhio? Olhou para os lados procurando Tonho. Ele havia ficado em algum botequim da favela se despedindo do pessoal. Também, 116 Oventre dela doe Fav Pardo en" cube oe Tonio chegnea pebado a tre dores ¢ 2 vem ligava mais. Conl e : a Tiare cea comnele sett are ae melhor que 0s outros, trabalhava ace - 5 sébados € domingos- Sabado, € 9 Ooo do saia da construgdo, passava ener pagava a con- antes 5 eio- di : pelo armazém de Seu Ladistau, a ta da semana anterior, ¢ fazia outra. que, iho seu, que sempre estava al na ru5s 02 bolinha de gude levava os minguados mant mentos para casa. Tonho bebia 0 cansas jor ¢ o cansago da semana pos stava ali na rua, na semana antert 5 terior. Bebia pelo misero salério. Bebia pelas iinho, compras, 08 quilinhos de arroz ee i eae ° © feijao duro que era preciso por de molho, asticar que era regado durante toda a semana, 17 Pedago a ban; cok eee Pa ay reg Sh Cs ‘OS mel és que ele nao podia oo onh®S #80 pobres mn Alisando a barti iga, Custédia relemby de Tonho chegando bébado, cand roland esbravejando. A sogra gritando: |” — © Custédia, 6 Custédia! vem segurar o Tonho! Ela, barriguda, pesada, Parecendo nove completos, Na confusio, empurroes, © Castédia, de sete meses, segura o homem, ; chutes e murros em sua bartiga. O Tonho caindo, Custédia tam- bem, 4 Sogra em cima dela. Custédia ja tinha tido quatro filhos dele, quatro barrigas ao lado dele. Tonho nunca esbarrara nela sequer, 118 ue grita coin spans ale aod va como se Fste THONG een no se Levan pereebia. No oust iu uma menina morta. cou de don et pegou a biblia ¢ orou. Enter Dont Tanga no fundo do barraco. Lembrow, er aquela Arca os tratores passariam rém, qu porém, q Desenterrou, assim que eles saissem de 14. Dest 2 embrulhou o defuntinho em jornais € saiu. Custédia viu tudo. Tonho roncava, de den- tro dele saia o hilito de cachaga. Tudo isto acontecera tha uma semana somente. Cust6- dia no entendia porque Dona Santina fizera aquilo. Bem que falavam que Dona Santina, apesar da biblia, era muito m4. Toda vez que Custédia ficava de barriga, a sogra tornava-se sua inimiga. Os vizinhos nem notavam. Todo mundo pensava sé no desfavelamento que recomegara. 119 so; eb Va perdendo ae Peteebey, ae - bebe = Ouands soe 72 esta. Até lia gente ora. Bente descerseu Uido gj Dona 5. sto, Mio na baryons btu a bib; 3 arriga de Custédig, "© POUsoug caminhg i de pocira, Gant 24 25 ultimamente! Allids, todos andavam amargu- rados. Nao era Para menos, o desfavelamento recomesara. E recomegara bravo. Os homens exigiam a saida rapidamente dos moradores, Que se ajuntasse logo os trapos! Quem esco- lhia os tijolos e as tabuas, pelo menos, tinha um pouco de material que permitia erguer um barraco em outra favela qualquer. Vo Rita viu © caminhao sumir. Em duas semanas, mais 120 inos, tive! : havia escolhido o dinheiro, onde a situagao estava pior. pensando em Custédia. abatida e com 2 barri- Quis indagar, mas ca- yiu estampada no rosto pede doe ja a Rita ficou |Achou a moga muito ga um pouco menof Jou ante a tFiste78 J osa jé ia para o oitavo a penne passada estava tao grande! Eero seu quinto filho. Ela punha sempre ae barrigo. Os trés primeiros quem amparou foi ela. Quem cortou o umbigo e deu os primei- ros banhos também. Vé Rita era a parteira da favela. Muito marmanjao e marmanjona ha- viam sido neném nas maos de V6 Rita. To- dos gostavam dela. Quantas vezes um fuzué estava armado e, se ouviam a voz de V6 Rita Por perto, cada contendor tomava o seu rumo. Nao era preciso ela dizer nada. Era s6 ouvir a voz de Vé Rita que o valentao ou a valen- tona se desarmava todo. O amor de V6 Rita desarmava qualquer um. Diz. que até o Fui- nha tinha certo respeito por cla, Antes de V6 Rita ir morar com a Outra, s6 ela ¢ 0 Bondade entravam em casa dele. # O que seria de todos? Mari ‘ ‘ Ss? Maria- ‘Velha, Maria-Nova, Mie Joa hos a na € os filhos? re juntos, menos ele. Tantos anos havia qu Viera com nega Tuina, ali tivera Todos estavam semp: itiam junt 08, € j estava ali, 05 filhos e ali 122 ee: \ pelos terrenos ae cupados com poeira-tristeza thos. No local onde estavam os barracos dos que tinham ido pela manha, oe 96 restava UM. grande vazio. Era como ae po que aos pouces Fosse perdendo os pedagos. Sentiu dores. Pensou em Vé Rita. Teve vontade de ir ter com ela, mas nao podia. Voltou para casa, cabisbaixa, afundando o pé na terra solta, na pocira. Cada pé que afundava no macio da terra, sentia no peito o peso de nada. Nao posso chorar. Quero guardar esta dor. La estava Tio Tots, cabega alva e baixa. Tio Toté ouviu passos. Viu pés magros, po- irentos ¢ ageis, debaixo de seus olhos. Adi- vinhou 0 dono. Pediu a Maria-Nova que nao falasse nada. Eu sci, mais alguns se foram! Vou contar para vocé como aqui cheguei. Maria-Nova ae : arti Gi dois.” Matt m desejo, porém, terem chegad gado. Trab; Chopard alhava, ; juntava dinhei id ciro. nho. cidade ¢ compr: sa ‘aria um barraqui- ho. Os filhos viriam entao. Nao ae nao, nega Tuin: Soe c a, Os filhos estao a caminho! ay a algumas coisinhas e certa quan: : u e inheiro guardada numa capanguinha 'a de saco de farinha de trigo e com as pri, if sac inhs = neiras anias de vémito, Nega Tuina e Toté chegaram a cidade. Era um tempo feliz para 124 ~ \ ho todo tao diferente arin fees os » interior havia Carros» © possuiam um, mas Ford & dade, daqucle barb cidade zendas. Ja pelo “ mpre epdeiros quase ser : aes eee jraver um para cada pessoa, na cidade Pare onhos novos brotavam na rans ors, Vina sabendo onde ita fi- cater igo eatava esporando por eles. Tr Que, Se nao trabalhassemos, havia navios a ‘ an Ei ee nossos saldrios seriam Geet’: Ninguém moveu uma palha e a ‘40 continuou por mais uma semana. A Bente ia para o porto ¢ ficava lé fora. Nio en- a estava também. A gente sa- ue nos esperava. Nés sabiamos o que {amos temerosos, eu nao, escritorio. Er bia oq) jria nos acontecer. s : porque o meu compromisso era s6 com a mi- nha sobrevivéncia, mas, dentre nés, a maio- tia tem mulher ¢ filhos. Os companheiros 4 fora também sabiam o que iria nos acontecer. Era isto mesmo, deram-nos alguns minutos de prazo: se dentro de dez minutos, nds € os outros nao voltassemos a trabalhar, seriamos mandados embora sem direito a nada, por- que éramos nés que estévamos liderando o Ievante. Tinhamos alguns minutos para voltar € convencer os companheiros a retomarem 0 trabalho. E Titdo nio seria readmitido mes- mo. Saimos do escritério tristes, revoltados € vencidos. Em sa consciéncia nao querfamos reiniciar 0 trabalho, parar a greve sem termos conseguido a volta de Titao. O que querfamos era continuar a pressdo. Havia companheiros que achavam que a gente estava chovendo no molhado. Que os fortes sio os fortes € os fra- cos sio os fracos. E que a situagio nao muda nunca. Citavam como exemplo o que tinha acontecido com Tito e que poderia acontecer com a gente também. Tinhamos até medo de ouvir estes colegas. Tinhamos medo de que Continuava a arrumagao do quarto, Ne jadebaixo da cama, olhavao teto A procura e oe de aranha. Bonita aquela teia de aranha! ee tecida. Um raio de sol batia nos finos fios cranvados, fazendo-a bilhas que nem 28 aa Ditinha olhava a teia, a aranha e as jéias. Lim- pou a pocira dos armarios, guardou os sapatos na sapateira, esticou cuidadosamente 0 lengol sobre a cama. Foi 4 gaveta, buscou o cobre-lei- to amarelo-ouro e acabou de arrumar a cama. Pensou nas jéias. “Sera que eu gostaria de ter umas jéias dessas? Também se tivesse, nao teria vestidos e sapatos que combinassem. E se eu tivesse vestidos e sapatos que combinas- sem, nao saberia como arrumar meus cabelos”. Olhou-se no espelho e sentiu-se tio feia, mais feia do que normalmente se sentia. “E se eu tivesse vestidos e sapatos e soubesse arrumar os meus cabelos? (Ditinha detestava © cabelo dela). Mesmo assim eu nio assen- taria com essas jéias”. Olhou novamente as joias. Brilhavam, brilhavam. Chegou perto da calxa com as mios para tras. Havia uma pe- dra verde tio bonita, tio suave, que até parecia macia, “Maos para tras”, pensou, “a gente vé, com os olhos, nao com as mios. Também se cu tvesse uma jbia dessas,onde& que ey. So saio para tabalhas ir & missa, as ren? festa de bola eas fetas da fivela ¢ onde eu usaria esas jis? Caro que ge svese jis, eu sera rica como D. Laure, nao seria eu”, riu de si mesma. Quis tocar nae jéias um pouquinho. Teve medo, recuow, Ditinha buscou desviar o olhar das joias e calmamente desfez a teia de aranha. A'ar,. nha tentou corzer pela parede. Ela rapidamen. te varreu a aranha para o chao, e, mais répida ainda, pisou no bichinho com forga, com mui- ta forga, como se 0 inseto fosse um monstro que pudesse ressurgir por debaixo de seus pés. va na aranha mordendo os labios e com os olhos fixos nas jéias. D. Laura entrou no quarto, pegou as jsias, colocou 0 colar no pescogo, Enfiava 0 anel ¢ a pulseira. Experimentava, somente A noite € que seria a festa. Ditinha varren no- Yamente 0 chio, os restos da aranha. Queria ie “ Patroa, que se admirava ¢ ensaiava po- cu Slt dt do espelho, Nao pide, va completa, Al Pegou o lixo, a pa © a vass Porta comegot a limpar gt Sts par © corredor, baixou, Ppuxou a 140 aac ——, oeira 1 2 iam eovidados gostar reparani a estar PrePaTaOT oa #00 dela. Como D. Laura era i Joira, com os olhos da cor bonita! Muito alta, loi Seeneee ee at ee gostava muito do . Laura ¢ D. " hae de Ditinha. Olhando ce a beleza de D. Laura, Ditinha se sentiu mais feia ainda. Baixou os olhos envergonhada de si mesma. E foi com alivio que Ditinha escutou avoz de D. Laura dizer: Pode ir, no falte amanha, porque vocé terd muito que fazer! Nao era grande a distancia entre a man- séo da patroa e o barraco de Ditinha. O bair- to nobre ¢ a favela eram vizinhos. Ditinha, aind: Ditinha olhou P' aprovacao no rosto 'S COmodos, ala onde dormi »Mesmo em cima d; nha a obri Toninha, t la cadeira de rodas, ti- igacao de olhar pelos trés, Su; €ra uma desmiolada, cra menor, a irma, Enquanto ela teve um pouco de autoridade so- casa, otha eet ae ela fcasse dentro de . © as ctiancas © cuidando do pai Mn tnt? due ela, Ditinha, sata para trabelner’ Mas assim que ela fez de: a saber nem de pai nhos. O medo d zoito anos, nao quis snem de irma e nem de sobri- } Ditinha era que das a pouco, 142 Ee ea se mesma situa¢ao dela. Trés cestivesse 1a eat sozinha. otalmen ; nha apanhou a pti letado 15 anos. a miséria © te Quando Di nha ainda comp! do com scu namorado, uma inou muito mal. meira barriga, nao ti Havia-se deita ira apenas c que term " . havia morrido, o pai trabalhava como brincade' 7 ‘A mac, naquela ees i io estava paralitico, ee de ani Fle nao fez alarde algum. ‘Alias, 0 pai nao fazia alarde de nada. Traba- Ihava, comprava 0 que o dinheito dava ¢ bebia no final de semana. Chegava bébedo, dormia ¢ roncava. Quando o ronco estava muito alto, impedindo que cla ¢ Toninha dormissem, Ditinha se levantava, mudava o pai de posi- sa ¢ dormiam os trés, Nada restava a fazer a nio ser dormir. Quando se descobriu gravida, Ditinha tomou o diabo, bebeu cha de limao capeta com vinagre, pulou, dangou, sambou nao abortou. Pensou em V6 Rita, a parteira de confianga da favela. V6 Rita sé trazia criangas ao mundo e por nada, nada mesmo, nem por muito dinheiro, Vé Rita provocava aborto. Diz que uma vez, V6 Rita foi procurada por uma dona rica que pagaria muito dinheiro para que ela fizesse um aborto na filha dela e Vo Rita uma manhi ela co- a a Sangrar. Sangrou tanto que foi parar © hospital. Os médicos queriam que ela dis- Sesse 0 nome da “fazedeira de anjinhos”. Ela ovirio de Ditinha. Ela respirou aliviada, pelo barriga mais nunca, estavam em casa. Mandou jue Ni 4 ‘Ae Nico fosse atrés deles, o menor voltou 344 iio = Estava tao cansada, olhou s olhos vermelhos, chorando e sozinho. j paralitico ¢ viu seu: o pai Pnados de cachaca. © velho pediu cae ‘Ah! Coitado do homem! Tao rane nenhum prazer! ° médico ja dissera que cachaga estava abreviando a vida dele, Ditinha pensou: “E o que valia viver? Se a cachaga abreviava a vida do pai, era melhor que ele bebesse mais e mais até morrer”. Ditinha estava cansada, humilhada. Olhou seu barraco, uma sujeira. As roupas amontoadas pelos cantos. Olhou as paredes, teias de aranha ¢ picumas. Um cheiro forte vi- nha da fossa. Era preciso jogar um pouco de cal virgem sobre as bostas. Esperou as criangas um pouco mais. Nao chegaram. Tirou o pai da cadeira de rodas ¢ 0 colocou na cama. © pai fedia a sujeira e a cachaga. Lembrou da patroa tao limpa e tao linda como as jéias. Pensou que o dia de amanhi seria duro. A casa estaria de pernas pro ar depois da festa, Seriam tantas lougas! Na certa sobrariam doces e bolos. A patroa haveria de dividir com ela, com a co- zinheira e com a babd, Traria para casa e seria a vez dos olhos dos filhos brilharem mais que qualquer jéia. Ela seria um pouquinho feliz. 145 - O alimen Gaccis Ihe na boca, formava um bolo ¢ nay lesci: agri = cia. Com lagrimas nos olhos, ela era obs; Bada a jogar aquela refeigao tao boa no lixo, ed aha rbars levar para casa, mas tinha vergo. nha. Tinha muita vergonha de D. Laura : Ditinha saiu em direcio a casa d aura, i 2 ye no dia anterior fora ado, estava escorregae “A festa de aniversirio ito boa. Ditinha O chao, q' bagunga toda. Teria ee batho ¢ 0 pensamento nao poderia parat, tral intro de sua cabega. ieragar de piSG wand D. Laura acordou, a casa ests ya toda arrumada, Ela elogiou a esperteza da vroga. E mandou que assim que cla acabasse de lavar as lougas, fosse arrumar 0 quarto € ajeitar os presentes no armério. Ditinha que- ria acabar logo para ver as coisas que patroa ganhara, Entao ela lembrou que, na semana anterior fora o seu aniversario. Ela, Ditinha tinha feito 29 anos. E ninguém lembrou, nem ela, nem o pai, nem os filhos, nem Toni- nha, sua irma, que j4 no aparecia hé um més. Ah! também pouca diferenga fazia lembrar ou nao lembrar... Ditinha entrou no quarto da patroa com © coracao aos pulos. Puxa! Quantos presentes! Até parecia loja. Ela ia guardando tudo. Na prateleira os perfumes que fariam D. Laura ficar mais perfumada ainda. Aqui, as joias, co- lares, brincos, broches. Na outra, as fazendas, ™ yo ~ 147 Esc. 8 4 Caixinha ali, vazia, as Oos atdiam, Nout # face, as mios de Ditinha - Num segundo eterno, Ditinh, todas as jéias : ae no armério.O Obtigacao cumprida, Joias na terceira pratel vamente. Colocou a caixinha de leira; mas, antes, porém, 14s ta, tao suave, ao bor rde, tao. a Era um broche. Diti to. 86 que do Tado o peito, $6 que do lado sob o sutia dra ve janhou a pedra Vere Hi narecia mac ia. 10 broche s Zito, junto aos SciOS, nao era tio macia assim, que até P nha colocou lop de dentro d ; ardido. A pedra ,-lhe 0 peito. enc : estava machucande Fito Gazogénia tossia, tossia. la golfar nova- mente, jé sentia 0 gosto de sangue na pec Mcu Deus, quando iria terminar tudo aqui- lo? Sabia que seu fim estava perto. Um perto- slonge que estava demorando tanto! Estava com sede. Olhou a moringa, ao lado estava a canequinha de lata. Era s6 entender o braso. Sonhou que estava conseguindo fazer este movimento. A boca continuava seca. Filé Gazogénia tossia. Pensou na filha e na neta. Estavam as duas internadas ¢ j4 havia me- ses. Doentes do mesmo jeito dela. Sentiu re- morsos, sentiu-se culpada pela doenca delas. Quem havia adoecido primeiro tinha sido ela. A filha trabalhava fora e a neta cuidava dela, até que um dia as duas adoeceram também. O. Patrao da filha conseguiu internacio para as tentando army, dificil, morretia antes, cnet P®@ ela. by, boca, estava cansada, ultima oes "the 4 ssforso do pensamento podis num 9 cuspit. Sentiu-se s6, era o inicio q. Suentou uma santa! Pensou também em Negro Alitio que chegara ha pouco tempo na favela « que jé conhecia quase todos. Negro Alitio fora virine vezes visita-Ia e sempre levava algum alimen- to. Sentiu falta do Bondade. O Pensamento se voltou para V6 Rita. Havia tempos, anos que ela conhecera Vo Rita. Alias, V6 Rita, Tio Tots, ela e alguns outros davam a impressio de que sempre estiveram ali. De que até nas- Ceram, ou melhor, de que até geraram a fave- 1a. Vo Rita sempre foi sua amiga. Vé Rita era amiga de todos, Diziam que Vo Rita tinha 0 cora¢ao grande. Tinha mesmo! O sangue escorria pela boca de Filo Ga- ‘2ogénia € 0 peito arfava... “Deus meu, eu nao quero ir assim, tao sozinha!” Como estariam a filha © a neta? Filé Gazogénia num esforgo 150 a [Peres -. - venso, ameacou abrir 0s olhos. Pensou, en= one or continuar com eles tretanto, fechados. Abs ci wu nhecia de cor o set e : ada filha, que dormia junto com a neta. No e a cantinho, o fogao de Jenha e a prateleira de madeira onde estavam as latas de mantimentos vazias, as lougas velhas, as canequinhas de latas, eas duas panelas, uma de ferro ¢ outra de barro. Durante toda a doenga, uma das latas vazia, a de “gordura de coco carioca” ficava ali parada, olhando para cla. A cada um que chegava, cla desejava pedir que tirasse a lata dali. Calava, depois pensariam que ela, além de tuberculosa, estivesse doida. De olhos fechados, viu a lata de “gordura de coco carioca” e teve édio, muito édio. Gordura e a vida téo magra! Desviou o pensamento, ndo é bom morrer com édio. A sede queimava-lhe a garganta, apesar do gosto adocicado de sangue na boca. Bondade estava demorando tanto! Filé Gazogénia sentia saudades dos tempos em que vivia. Estava cansada, a falta de ar, um Peso enorme nas costas € no peito. Seriam os pensamentos que estavam fazendo com que cla se cansasse tanto? Fechou os olhos que ja jue seria melhi PZ ‘brit os olhos para que? Ela j& co- barraco. Duas camas: a dela 151 de estava ali olhando i Estava com sede, muita sede, Bondade adi nhou seu ultimo desejo. Foi até 4 mort re até a morin, ae Gncheu a canequinha. E cumprindo o stteal de vida e de morte, lento e solene. susteve a cabeca de Filé Gazogenia, Levou a igus no Pequenos goles 4 boca da muther. Era muite ssforgo, 0 derradeiro que ela fazia. O tltime Bole ela ja nao agtientou engolir,retendo-s na boca, guardando, sentindo o gosto de ter. ra, sabor impregnacle na ¢ gnado na 4; vasilha de barro, et ee 152 > ee Bondade, no tiltimo gesto do ritual, bai- you lentamente a cabeca de Filé Gazogénia. © silencio estava em tudo ¢ em todos. Os vi- vinhos mais préximos, vendo a janela ¢ a porta to escancaradamente abertas, chegavam. Filé Gazogénia nao percebia mais nada. Atraves- sava a ultima porta. O rosto suavizou apesar da dor. Nos labios, talvez um ligeiro sorriso. Maria-Nova assistia pela janela do barraco de Filo Gazogénia a passagem da mulher. Queria sair dali ¢ ndo conseguia. Estava aca- bando de subir o morro, sentiu um aperto no coracao. Sempre que passava por ali, lembrava de Celita, a neta de Filé Gazogénia, que re- gulava idade com ela e que estava doente no hospital, igual a mie ¢ 4 velha. Viu a janela ¢ a porta do quarto abertas ¢ adivinhou a tris- teza. Viu os vizinhos de Fils Gazogénia indo. Maria-Nova foi também e da janela assistiu a tudo. Ficou impressionada com a magreza da velha. Olhou a mao da mulher, conseguiu contar os ossos. Como uma pessoa podia mor- rer assim? Filé Gazogénia sempre trabalhou. 153 Quando estay va boa d Ie sat teabalhar © a vetha fears oo? filha sa : to: neta € ainda lavava roupag i? Cone, s Sempre perto de Maria-V aay fora, Fig, e As tinas das trés moravan, 0S Mae Joan : ‘avam co} Cana, ‘omeira, Havia lavadciras que mean meme na a l€ nem ‘as para Casa, porque voltariam gan c q no i No outro dia, voltariam sem ores lavadeira na oe no estava, as amigas te dela. Fil Gazogénia nio vem hee een o oe suas i a nao viré mais nunca! E preci eae : : o sO manter a ti cheia, as madeiras molhadas, Filé Ganong,” cansou, encheu-se da vida. A morte wiae nn L. 101 i ziando tudo. — Maria-Nova olhava a magreza da velha, a magreza do quarto, a magreza da vida. Sen- ti 6 : ‘uum no na garganta ¢ as lagrimas cairam pa gotas de desesperanga, sentiu um dé . velhos! Lembrou de Tio Toté e de Maria- ~Velha, Pensou que seria velha um dia. O que ‘sel ae sera quando crescesse? Mie Joana, Maria ve- a, Tio Tatio, todos diziam que a vida para ela seria diferente. Seria?! Afinal cla estava estuc ii = ‘dando. Maria-Nova apertou os livros ¢ os : ros contra o peito, ali estava a sua sal- a S40. Ela gostava de aprender, de ir & escola, 154 oe vergonha de tudes dos Despistava, trans- jgonha em corager pre os colegas: lia Tinha med dos professores eerpava o medo € 2 VOT Tinha uma vantagem SODre Comparava ia e comparava as coisas: Gade tudo e sempre chegava alee saath me vey, uma professora de Historia falou alto, wo de todos, que ela era a tinica aluna que chegava as conclus6es. E sempre a professors de portugués elogiava as suas composisses. / desesperanga, a tristeza, continuavant a cair dos olhos de Maria~-Nova turvando-lhe a vi- sao. Ela queria ver tudo! Bondade solenemen= a cabeca de Filé Gazogénia. Se te segurava V6 Rita nao estivesse vivendo com a Outra, seria ela quem estaria ali. Sentiu falta de V6 Rita, Nao! V6 Rita nao morreria nunca! Era velha, mas nao sentiu dé dela. V6 Rita nao lhe passava nunca a impressio de estar sozinha. Olhou a roupa surrada de Bondade, a Jeveza dos gestos dele e pensou que estivesse vivendo um triste sonho. Ele levava a canequinha com Agua 4 boca da velha. Por que Filo Gazogénia morria? Por que as pessoas morriam? Ela ha- veria de morrer um dia também. Tio Tatao di- zia que as pessoas morrem, mas nao morrem, nao. 155 OS su ie, se libertam na vida consegue se realizar A sua vide mer realizar por meio de vocé. Os ee sempre presents. preciso teres oumdan olhos e 0 coracao abertos, — L4 estava Maria-Nova de olhos, ouvidos : coragdo bem abertos, tomando att si os aan movimentos de vida-morte de Filé azogénia, Tinha a impressao de que a velha morria feliz. Feliz por qué? Feliz porque mor- tia?! Maria-Nova nao queria no ae to oe a arrebentar de dor. Deus mee Pils Gazogénia morria! Tantos outros haviam morrido também. Sentiu medo, muito medo. Postamente livres de hoj de cada um de nés, 156 — ) — a favela, as pessoas iam oy pouco a pouco- Aguas iam ¢3° He tristes, outras conversando, tristes tam~ lade OTs Gazogénia era conhecida de todos ¢ be ja fazer amigos. Morte, Todos aque coneeBetavam indo € voltando morreriam te ai cambém, Fils Gazogénia sorria na hora da morte. Por qué? Havia também quem encontra-se na morte @ no desespero da vida, tinica saida. Lembrou-se de um fato ocorrido “Apressou 0 passo, no lugar do 5 outros becos d hha uma semana. barraco ainda havia alguns vestigios de cinzas. Foi pelo fogo que Jorge Balalaika resolveu as dores de sua vida. Jorge Balalaika havia chegado a favela hd um bom tempo. Viera com a mulher Rute e os dois filhos. Trabalhava em um agougue ¢ cra invejado por muitos, pois comia carne todos 08 dias. Os sebos, os nervos, tudo que nao se conseguia vender, ¢ as carnes malcheirosas que sobravam, 0 dono do agougue repartia com os empregados. Se na panela faltassem 0 arroz ¢ 0 feijio, havia a farofa feita com os ’, diziam outros. © coracao de Jorge ferviam. Ele ae 6 tome na alma ¢ no corpo. Saudades, saudades mee, mo de Rute. Jorge Balalaika gostava muito da mulher. Um dia de dor maior, passou pela ven- da de S6 Ladislau. Bebeu, bebeu, cambaleou. Cambaleou c bebeu mais, bebeu. Despediu-se dizendo que ia afoguear a dor. Todos enten- deram que ele ia POr fogo, ia por mais cacha- 6a ainda na gocla € no peito. Chegou a casa, 158 mandou que eles fossem i de primo Joel, que morava dormir om or ito distant dal Fala com 0 nes Joel que eu mando um abrago e que vou por fogo na dor. Quando primo Joe! chegou no Parraco de Jorge Balalaika, o homem tinha jo~ ado alcool no corpo, na casa e ateado fogo. Os becos mais proximos escutaram os solugos, os gritos do homem queimando a sua dor. chamou os filhos, Primo Joel sempre achara Jorge Balalaika meio bobo. Loucura, idiotice de Jorge se ma- tar por Rute. Mas Jorge era assim mesmo, quando se apegava, e pegava uma mulher, ia fundo, desde o tempo de rapazinho. Enquan- to cle, Joel, namorava tudo quanto era mo- cinha da redondeza, Jorge ficava grudado sé em uma, durante tempos e tempos. Por causa disso, tivera poucas mulheres. Era pouco co- nhecedor das manhas, dos dengos, do jogo da vida. Ele nao. Ele, Joel, € que nio dormia com os olhos de ninguém. Dormia com o seu proprio e, quando um estava fechado, 0 outro estava aberto, abertinho. Boba da mulher que 159 ion Pensasse ¢, Estava per > em brincar com ele, cinha n; Ma vem ee do mesmo f, Vivo? Tres gt sei qu debaig, com is; que o Povo fal, co : ies ne ningu guem, ng, cu é = cam é pas amano jue ie i ‘que gostam! cito foi a Bak Pet com ela um di : albina, to. conversa vem, & Conversa va morar a cla pediu se M, in ela pod: co: ; a ger on = Os Com a gente, até ar. im. Arranjou o Acranjou trabalhe 80 quetia dormir no emprego, Ro barraco com agente, Tink, Noltes que Balbina saia Para as rezas de maio, Mundica nao queria in Fiessa : Balbina chegava das rezas e saz maus pensamentos, Mundica dormia fe barraco meu e de Balbina. € foi ficando, cu também, Ss € nao queria fazer Deitava na cama comigo. a liz, satisfeita, calma, com za domada no cémodo ao lado, Tava bom ter as duas. O chato era ser escondido, era Fa orendo, porque a outra tava para chegar. E um di 'm dia a outra chegou, demorei mais cen 160 Rete Balbina chegou. Pronto, pensei, : 1 E qual nada! Espanto ¢ rae inde o meu! Balbina falou s6 isto: 0 tio rane © agora sou eu!” Tempos de- ae ra ultima. A mais Chegou a a Mundica ta formado 0 fuzu sust ; Mundica que a ¢ duas quiseram trazei ¢ havia ficado Ii na roga. : ‘A mocinha, jeito acanhado, em assanhadinha. nova qu nova, muito nova. i so, mas no escuro medroso, mas , nhadinka Lica, bonita, a carne dutinha. Um dia, Balbi na foi para a reza; Mundica, que nunca ia, foi também. Lica dormia no comodo ao lado. As duas ainda estavam atravessando a soleira da porta e Lica me chamou. Os vizinhos falam. E cu com isso? Falo para as trés, s6 nao quero filhos. Vai ser uma confusio dos diabos. Bal- bina sabe preparar garrafadas, aprendeu com um tio que era curandeiro. Todos meses, num dia que nio sei qual, elas tomam aquilo. Ja avi- sei, s6 nao quero filho: Muita gente na favela nem falava com Primo Joel, as mulheres. Os homens nao se importavam, tinham Joel como amigo. E. elo- giavam a coragem dele. Primo Joel ria, ria ,ria. As trés estavam sempre juntas, costu- mavam aparecer nas rezas, Nunca, porém, os santos iam para o barraco delas. Elas nunca 3\ 161 de Filé Gazo- ira da porta. Filo Ga~ ynou para que ela entrasse- V6 Rita 6 Gazogéenia morre- beijo leve na face trou. ,gou ao barraco ge ogenia aCe Ela sabia que Fil Entrou e deu um u tao rapido quanto en! entrou. ria mesmo- da doente. Sait ems O plano de desfavelamento também aborre- cia e confundia a todos. Havia um ano que a coisa estava acontecendo. A favela era grande ¢ haveria de durar muito mais. Dava a impres~ so de que nem eles sabiam direito porque es- tavam erradicando a favela. Diziam que era para construir um hospital ou uma companhia de gis, um grande clube, talvez. As familias estavam mudando ha um ano, mas tempo an- tes, ja havia a ameaga de tudo que iria acon- tecer. De tempos em tempos, apareciam por 14 engenheiros para medir a drea. Nao se sabia se 05 pretensos donos seriam de uma companhia particular ou se gente do governo. Vinha o medo. E quando o plano de desfavelamento aconteceu na pratica € que fomos descobrir que os pretensos donos éramos nds. Eles, sim, ™~ yt \ 2) 163 també, em. As Propagandas, jornai fletos, depo; a is di ie Pols de soletradamente lidos, quand, > lo : 2 haviamos visto ¢ que mos mais, Ptincipalmente se ‘ais bonito. Um dia, apa~ gto. Espalhou também 164 1 ae ro ‘ : a Diziam mesmo que ha a dizer. ecia ser pobre inl homem aria nunca. Par io gan oe beleza, obteve 6s. No concurso de beleza, ol como n65- scos VOEOS- ‘ costumavam voltar Os que nao venciam, em outras ocasiGes com Os ¢ as mesmas promessas. Vol aqueles que haviam ganho. Perguntavam 0 que os outros estavam fazendo por nés. Nada! les mesmos respondiam. Nao queriam nem ‘ouvir as nossas vozes. E voltavam ao lero-lero. “Se eu ganhar, se o tal partido ganhar, a situa- sao de vocés sera diferente”. As vezes ganha- vam, quando isto acontecia, a nossa situacio era a mesma, nés éramos os que nao ganha- mesmos pedidos tavam acusando vam nunca. Quando Tio Tots soube da morte de Filé Gazogénia, teve muita inveja da velha. Quan- ta gente ja tinha morrido. Gente até mais nova que ele. Gente doente e gente sa. Ele 44 estava tao cansado. Seu corpo pedia terra. Ele bem que queria morrer, s6 que sem dor, sem sofrimento para ele € para os outros. Um 165 ™a esperanga, cair novamente, agientaria seria bertando do peso. 4 Unica queda que . aie) do seu préprio coxpo sel_ Vida. 166 Ditinha chegou a casa ¢ er eit a Fils Gazoggnia. © basraco da velha era de puto lado da favela, Chamou os flhos, $6 ‘os dois menores estavam por ali, repartiu oF Joces. Guardou um pouco para 0 filho mais vyelho. Deu um salgadinho para o pai, encheu 9 copo dele de pinga. © velho paralitico to- mou 0 Kiquido de uma vez. s6, pegou um pas- telzinho e ficou brincando com ele na boca. Ditinha provou um brigadciro e sentiu um gostode fel. A pedra sob o sutia machucava-lhe © peito. Saiu calada, ndo comentou nada com © pai sobre a morte de Filé Gazogénia. Ele ja sabia, estava mais bébado do que nos outros dias. Ditinha sentia um medo intenso, tinha calafrios. Nao era por medo da mulher morta € nao era por medo da morte. Era por medo da vida. O que seria dela agora? Que merda fizera, 0 que faria com aquela pedra? Pensou em devolver para Dona Laura. Poderia voltar 14, naquele instante mesmo, contar tudo e pe- dir perdao para a patroa. E a vergonha?! Ela ja nha tanta vergonha de Dona Laura. Julgava a patroa tdo limpa, ela tao suja. E agora, ainda Por cima, ladra, dala que nao se ae go para se agiientar avi : 3 broche a machucar-lhe ‘Quis tiré-lo dali. Pensou: jr aonde?” Estava cansada, tinha cala~ e vyesse com febre. O que fazer > Buscou na lembranga se teria alguém a quem pudesse contar a er da que havia feito. Nao! Nao havia ninguém. Sentiu-se perdida no mundo. Nao tinha uma amiga, alguém a quem ela pudesse contar 0 segredo. Havia andado tanto, havia tempos que nfo cruzava todos os becos da favela. a carne do peito. “you . frios como se esti com aquele broche’ Lembrou-se da rua da casa de Dona Laura. Larga e cheia de arvores. Viu um beco A sua frente. Entrou nele procurando a saida. Saiu em cima de um monturo de lixo. O beco aca- bava ali i i ‘a ali, era preciso voltar. Sentiu novamente © gosto amargo na boca a ponto de fazé-la sa livar. Olhou o lixo, sentiu nojo de si propri comegou a chorar. een Ditinha estava muito cans: corpo moido. cos da favela: : ada, tinha o heel € saira em varios be- ‘eco do Rala-Bunda, Beco da Perr ee dormindo Eyam Vigiando tudo. Pegou a lamparina ¢ Pe tp Matinho. Ali do lado de fora wa a de fésforos. Balangou-a, Foi até 0 quartinho com foro na mao. Dentro do de bosta ¢ mijo subia. Que merda! Que vidal Estava tudo dificil e ela complicou-se mais ainda pegando o broche de Dona Laura, O Pato insistia pelas fendas. Riscou logo o fig. foro, acendendo a lamparina or 0 tiltimo palito, a lamparina € 0 fs- quartinho, o cheiro a luz tremulava 170 a no chao. Suspen- rina ou a lampa . ; sion emente a blusa, Abriu 0 sutid ulher negaceando ho- firme. C deu ¢ tirou Jentame’ garinho como m\ ac : ee “Tirou 0 sutia segurando ito ardia. em. O pei i 7 fame a pedra. Levantou a lamparina ¢ olh me ; ; vo. Ali onde a pedra estivera, 0 peito esta oscio. m carne viva. Da carne machucada uma vae cad: ferida viva sangrava assustando mais ainda o temor de Ditinha sentia naquele momento. Ditinha nao era mulher de muitos me~ dos. Nem a morte temia. Conviveu com a morte no seu ventre na ocasiao de sua tiltima gravidez. O aborto mal feito quase Ihe tira ra a vida. No hospital, em meio de hemorra- gias, lembrou-se do pai paralitico, dos filhos e da irma, Pensou: “se cu morrer, a vida deles continua’, Via o pai na cadeira de rodas. A decadéncia, a morte préxima dele era visivel © nao se assustava também. Um dia, o filho do meio foi atacado de pneumonia e desen- ganado pelos médicos. Ditinha sofreu, mas se a morte é inevitavel, que seja breve entio, O menino escapou e ela ficou feliz. Nao cra mulher de muitos medos, mas agora, olhando © seio machucado, o broche na mao, a chama da lamparina em sombra numa brincadeira 171 quer movimento peradamente (rane No dia seguinte, sentia-se mais en cio inchara. O gosto de fel n& Continuou na cama. Beto acor~ Ja estava sentindo ¢ cla O menino olhou cati- vrosamente para a mae. Levantourse © CoOu © café, Ditinha se sentiu mais amparada, bebeu ciboreando vagarosamente a bebida na cane~ quinha, Seu filho haveria de ter vida de gen= te! Como? Estava quase corajosa novamente. Sentiu uma fisgada no seio. Lembrou da pedra verde, tao suave, que até parecia macia, afun- dando nas bostas.., Deitou e fechou os olhos. Pensou, se € para vir a policia, que venha logo! ed apareceu mais em Dona Laura. A patroa eee ren oe ea eee tico e bébado, per- lcra a no¢ao do tempo. Ja quase desligado d: vida, nao percebia as coisas rotinei ae menos as mud: iciras ¢ muitas wdangas. Os filh te cla no itia mats trabslhac Inc Gta uns dias. “Quero aj . Iria, sim, daf a cece Dare apenas descansar um pouco”, quinto dia a bomba explodiu. A dor, a ver » a vergonha i tro ¢ fora do peito de Dighe “rm ser da policia quald ensava fora. O dia passou deses qiiilo. da ainda ¢ © boca insistia. dou indagando © que ¢ feclamou do cansago- — Merda! M a ! Merda! Eu joguei merdajé que querem saber. a c interrogatério recomegou pior ainda. ae merda, que merda, mulher! ee calou-se € nada que eles fize cagaram fa : ipem fazer teve a forca de fazé-la 174 stem da toda oe indo ne estat estarnos a7 ena fossa. A jéia ja © | falsa doméstica é0 jo Ne alguém. Ladray @, Trabalho qua dar o é se um ano na casa sue vor’ ee Gaquela senhora, Para golpe dep Ditinha estava acuada. Nao, mogo, falsa domestica eu N80 homens da policia tendo um lengo ca- sou nao! E durante trés dias, com pas, no nariz, protegendo-se contra o cheiro, ee am, cavavarn a fossa a procura da j6ia- A ima, a0 lado. Do beco bosta era langada para ci onde morava Ditinha, exalava um odor que ia se espalhando para os becos vizinhos. Di- inha, ali de pé, era obrigada a assistir a ope- ragdo cata-jéia, As lagrimas corriam dos olhos da mulher. Os filhos, temerosos, trancavam-se dentro de casa. A irma nao aparecera ainda. O pai paralitico chamava por ela, choramingan- do e pedindo cachaga. A fossa foi toda revira- da. Do lado de fora varios monturos de bosta. Desistiram. Nao se soube se acharam a joia subiram 0 morro 175 i atordoado D4 © ci Pa ¢ comegou devolver a tirado. Fazi. com tudo, pegou a i \ fossa © que haviam a0 oficio silenciosamente. Era vee sate Depois deitaria cal virgem 'm tudo. 6 delirava choram ria pinga. Beto, a canequinha, I ingando, que- a exemplo da mic, encheu-lhe Chon seth Limpou rapidamente o barrao fen ee L280 fazer a comida. Os dois meno- re enciosamente obedeciam ¢ juntos foram pond ordem em tudo. Todos que conheciam Ditinha sentiam muito. O que dera nela? Di- tinha podia ser até saliente, mui to trabalhadeira, : Falsa doméstica, mas sempre mui- Alguma coisa estava errada. Veja 0 que disseram dela. Sera 176 ay : a joia? Por ina mes n pé diante dos Po > Mesmo que Di- “Gia, uma coisa era jsto cla ndo era. cabia muito de vorrer o pai de Ditinha le fechou o barracao mazém de SO trocou preciso soc dela. Bondad foi até o ar anhou-se dos pés 4 cabesa, ‘ou nova ajuda. Beto gostou, igo se sentitt tao sozinho. Juntos, banharam © vajho, lavaram as coisas ¢ roupas. A vida ten- tava continuar num ambiente mais limpo. Os policiais foram e voltaram varias ve- es. Beto tinha medo ¢ édio. Sondavam o me~ nino, Via-se, nos gestos e modos deles, o dese- jo de leva-lo. Os vizinhos, entao, acercavam-se ‘calados c sorrateiros. Aparecia sempre alguém com uma desculpa qualquer: — “Beto, Nico ja chegou da escola? ; Beto, fala com 0 Zé que a gente tem um negécio para ele!; Beto, vim da banho no seu pai!”. Os policiais engoliam em seco, alisa~ vam as armas ¢ safam. No coragio de todos, a beleza cedia espago para o ddio que florescia peleza. Era ¢ 08 filhos de Filo Gazogénia, Ladislau, de roupa ¢ inicis contra os policiais. junto com o » ja havia burburinho de 4 10 de 4 A ; a Bente pa Torneira de Cima. Quem tives: mai couPa Para lavar ou mais tambores para encher, i 'cher, era preciso se antecipar aos demais O- vida em mais um dia. H tia-Nova andava em dias de grande anzo. Tristeza por tudo, is por fatos recentes e Passados. Tristeza Por fat ‘0s que ela testemu- 7 : ara © por fatos que ouvira. O peito, o co. Fagdo da menina estava inchado de dor. Era Preciso segurar a lagrima e ensaiar o riso, Safa a> 178 dos. Como smi ué um jo? Por qué um jesesperada © stava dos olhos uilo ty jda tao ze > A favela ja est0¥8 a rac0es, areas sem a id ; lo. cae desapareci : com va eee ; a a fazia na disput do li iram Mlor e 0 desespero, que Uniram vezes nao falava' sentavam lado rare’ quido, ‘os dois nada. Punham @ ie ietos, mudos. lado, quietos, * radragada, enquanto esperavamn . cejerem a lata, enquanto © sol ndo an endl 7 i secia juminando o rosto dos dois, que Beto, i ae boca baixa, contou para Maria~Nova 0 sear do da mie. Ela havia apanhado sim a pedra verde-suave que até parecia macia. ‘mas foi a : meninos. Muitas ta na fila, ha- E foi numa manha m a vez de Os tratores continuavam firmes o trabalho na favela. O dia inteiro era um infernal baru- Iho. Um sobe-desce, um vai ¢ ver do mons- tro pesado. Os terrenos em declive, os bu- Tacos, os restos de barracos eram soterrados rapidamente. hare OVENS € sos subjia : oo se Pie Desciam Toon enchiamas Rages mortdores mais primes dos nant © Buracio de ixo.O Buracdo fi un oe ae © Ultimo local da favela a F ‘uracao desafiava o mundo. Tio Tors deans eseutava os barulhos dos tratores gecando ensurdecer. Aos poucos foi ran as is é Pare ‘as ao armazém de S6 Ladislau. Para 180 : Zo tu morte, S40 n ‘ é tudo meio sem jeito- Ha ¢ tudo, que 4 tes de viver? tas coisas 1: ae info entende. Serd que, MEST T Be pcer, cud ja escritino, pronto P ‘Tots eotava cansado da vida jé prontty em tle nao podia modificar nada, Nunca foi ho- mem de desanimar, sempre tapeow 5 dores. Sempre as reteve no escondido do peito- Nun- ca deixou que elas emergissem até aos olhos € depois caissem pela face abaixo. Tio Tots, até entdo, nunca havia chorado. Nem quando era menino, Aprendera ¢ acreditara desde cedo que “homem nfo chora’. Nem quando o rio Ievou de roldao o melhor de seu, nem quando se sentiu mais uma vez sao, salvo e sozinho, na passagem de Nega Tusna, sua segunda mulher, nem quando anos, muitos anos depois, perdeu a filha ¢ depois o filho, dor alguma molhou a que 181 js onde po sinha mai da cabesa 205 andava amp’ onseguiu nem se} dela, deita de uma fotografia que vi a boca enor- Ela j4 nao se eal ” rando-se nas paredes. Um tar na cama. Olhei da ela parecia uma pés. mais, dia, nao ¢ a barriga ha. Lembrei montanha com um: bem alto, ¢ dali safa fogo- ramava por montanl ‘um dia. Uma me, bem no meio, “famaga. Um caldo quente espar todos os lados. Vendo Tuina sem forga para levantar € suster 0 proprio corpo corri a chamar V6 Rita, naquele tempo ela ainda fazia partos. Quando cla entrou no quarto, antes de ver o resto do corpo de Nega Tuina, viu a montanha-barriga edeu de rir. Ria com o seu vozeirao, gargalha- va alto! Corri ao ventre de Nega Tuina, tive a impresso que 0 filho havia mexido. A garga- Ihada de V6 Rita tinha atravessado tempo e © espago caindo nos ouvidos dos nenéns que estavam ali dentro. fe oi ae oe Vo Rita, alisan- ise ga Tuina, disse-me muito — Sao dois. % 183 184 melhor medo nao tinha. Toto cuidaria oo a ter casado © ja er: Thos. O que ela queria dos flhow Jom o mogo Tots. Ele era farto de casou bel farturas também. Que risOS, sorrisos € outra’ 7 va eer filhos. Treze. Sabia que nao teria tan- ni NDemorou ficar de barriga, € verdade, mas agora ia parir dois. E se morresse, ia morrer mesmo, sabia. Bem que gostaria de ficar para criar os filhos, mas também nao tinha muita importincia. Tot arranjaria logo uma mulher que gostasse dele e dos filhos também. Estava tudo decidido, para o hospital nao iria mesmo. Deitou-se novamente, a montanha buliu mais uma vez. Nega Tuina pegou minha mao, aper- tou e falou que eu era muito bom para ela. Em seguida com a voz de que tem certeza do que quer, pediu para que eu fosse acender o fogo, \ 185 stavil ausa. OS ni com fome Cy alor da mac. acontecer. Jé nites, meses a‘t sertava me peeparande pars aquilo. Ela estava Imma, Parccia alguém que ja Ue muito cal i ntia calma, 2 ‘vido tudo. Eu que stava {tio 8 esse ese norme aperto no peito- Quando V6 Rita chegou com a ambu- incia, a vida de Nega’Tuina nao precisava de mais nada, Tot6, Tita e Zuim € que de tudo jsavam de tao sozinhos que estavam. ‘Tio Toté experimentou mais uma vez 0 gosto amargo, a falta de jeito, 0 estar sdo, salvo e sozinho. um cl preci ‘Tia Maria Domingas nao tinha muito ou nio tinha nada o que fazer com a vida. Estava com quase sessenta anos, vitiva e recebia uma miseravel pensdozinha que o marido pedreiro Ihe deixara. Um barracdo de dois comodos na favcla, tudo pobre e limpinho. Lavava ainda ) .. 187 mae-av6 de filhos que Coracao adotou Tita e nunca tivera, E o sey Zuim. Maxia-Nova, a0 ouvir 4 Passage de Nega §a em dores. Fra como Tio Tots Narrando Tuina, tinha a cabe- bentar dentro dela. Othor cee a su Tio Tots '6 € sentiu a te a morte. Era triste vé-lo sentado eden “he madeira, a cabega baixa, ali no tambore™ dos perdidos no chao, 0 ¢2~ he ee to da boca. A menina chimbo aPa8 jou profundamente 0 velho, ¢ Sinan aos fin ae estava parado e denso. ° sol dourava oepontanhas distantes. Tio Tot6, cabisbaixo, tornava-se mais velho ainda. : Maria Nova sentia que era preciso mo~ dificar a vida, mas como? Saiu desesperada~ mente calma a andar pela favela. Conhecia de cor, de olhos fechados muitos becos, porém alguns ainda eram-lhe estranhos. Mae Joana nunca gostou que seus filhos fossem muito além da area em que moravam.Tinha medo, muito medo que eles se perdessem, quando estivessem distantes de casa. Maria~Nova, entretanto, furava 0 cerco. Amava a mae, mas era impossivel nao ix ao mundo. Passou pela area onde trabalhavam os tratores e lA esta- vam eles, pesaddes, agarrados ao chiio, espe- rando a labuta do dia seguinte. Observou que cretion los que moravam ali. Tan- ‘as ¢ tantas familias j4 haviam ido. Estariam 189 Negro Alirio tomou Para sio trabalho de Io- calizar a irma de Ditinha, Pergunta aqui, i daga 14, e na favela mesmo conseguiu iy ee masio de que a moga estava fazendo vida na a Era preciso encontra-la. Desde a Prisio i sears © pai parali ‘ico ficara sem receber ap so. Negro Alirio, como Bondade e V8 4, eram incansaveis. Acreditavam e diziam a 4 vida de cada um e de todos Podia ser a rent Que tudo aquilo estava acontecen- , 2 coisa poderia mudar. E quem 190 : 10 sufocado st 4g modos de Negr ae as a afli- on afligao desesperada, masa BO ae ene aestrada adiante € longa caminhat. a ite o lento cam: ida nao permit ' faa ados, ou melhor, confrontado eee apesar dos barracdes caidos, 196 ™ a (> fava, as coisas re tudo Mor do mofo 4 do frio, Entretanto, 205 pouquinhos a chu- ea gente “7. Antes, chovia todos 08 dias ¢ 0 Sain codendo. Antes, bovis corn a 65 dia todo. Agora in familias, cujos Nos dias de aragem, as a — ido, desciam do morro & barracos haviam caido, oo Mrocara de algumma coisa que servisse PAVS © mmuer novamente. Surgiam outros to vee precrios que os anteriores. F, geragoes intciras nasciam e cumpriam tempo de vida vrostumadas A miséria, fazendo muitas da mi- séria razao de vida. O menino Brandino, que por acidente no trator ficara inerte, paralitico, servia para pedir-ganhar esmola para a fam{- lia. Com as esmolas ganhas passaram a um melhor viver. Negro Alirio, contudo, teimava em dizer que aquilo nao era vida. Que os grandes, os fortes, os que estavam do lado de 14, queriam que todos os do lado de ca fossem realmente fracos, bébados ¢ famintos. E 0 pior, eles que- Flam dirigit © nosso ddio contra nés mesmos, queriam que fossemos inimigos. : A chuva parou e © sol voltou como uma a ma ameaga. A firma construtora responsivel pelo desfavelamento, por de representantes, 197 vindo antes, lho perdido? de seu avé ch acabritados e tudo realmente havia sido traba- Mas nao podia ser! Relembrou orando enquanto ela dava pulos los motivos da dor do velho. A 198 Ayaba. que ti- de sua filha ¢ ele dizia te saudade a uu sua mae ‘Nas Jembrangas> ido ¢ seu pai © pha vm Jado do corpo esquec gq) co Luisto da Serra Lembrou-se da pequey jouco Lt fi ido, Serra do im que havia na localidade em Vr da retorcida em dores, vg, e viu a sua vida toda re cee “jo cip6. Olhou Tots, seu comoum emaranhado cipo- ; companheiro, cada vez mais desesperangado r isso mais € mais envelhecido. Nao, ela tregar os pontos. Era preciso io a vida. Havia as criangas, as das irmas ¢ as outras. Nao! A vida nao podia ser assim sempre, uma repetigao doida! Quem sabe, sair da favela, ir para outros lugares. Ou- tra favela, talvez? Quem sabe, a vida tivesse € guardasse algum sentido?... e po nao queria en seguir segurand: Quando Maria-Velha chegou a favela, os barracos eram vizinhos, mas esparsos um do outro, Ela chegara com algum dinheiro, que, com Joana e Tatao, conseguira economizar la na roga, Compraram um quartinho ¢ puseram : tocar a vida. Tatao era quase menino ainda, cou ora de biscate, de moleque de recado, de d Para e bed ° re fez da arte pO Ag, Buera Vezes ¢, ae, tralh. ™M m, ty Adoras. py Tey, que Mary © cont, = Joana ¢ Nova n deg Ca: MCOntraram ni es Sas de paty, aig. pte Poucos fo,, ‘Oas, aig’ Sas da gj am s gn eag Ci Cidade. Senti ie cana ips e a dos cipés a s bichos. N. cra do mente! Maria ri =. 4a roy dentro rig, Pate de ape Mari Rem pan mai aria Velha, ti los, testemunhou a do 0s ire tu discretamente oe odos. Assis. contros, ‘ at filhos que Joa i > ses Os Pod: noses gimbém entregé-las ao Juizado de Me. 7 Seria dificil para Mae Joana trabalh i . ‘widar das criancas. Maria-Velha e Mae Joana nao sao cachorros i filhos z : giriam 930° im”, dizia Mae Joan dads op flhos. Faleava comic ta -onche- afta fe nunca faltou 9 2€08C° conforto, Mtde-Joana, € era ali que cl ole. rie“ hando Tio Tots e perce defe- bendo como ele havia se tornado eeu sal com o passar dos anos ¢ com 0 a¢ fe vofimentos, lembrou-se de quando o cor ‘ tera, hd uns trinta ¢ tantos anos. Tote ja tinha ‘mais de meia-idade, entretanto era 4gil em tudo. Tinha ainda um sorriso farto ¢ bonito. A gargalhada dele vinha 14 do fundo, la do es- condido do peito, e desabrochava na boca. Um som no corpo alegrando tudo. Tots tinha um casal de filhos. Tita e Zuim, que nem tempo de softimento por auséncia de mae tiveram, pois Tia Maria Domingas, a mie~avé, conse- guira dar conta dos filhos. © casal de géme- 0s cresceu em casa de Tia Maria Domingas. Gostava do pai Toté, que a cles dava alimen- tos, 0 exemplo de trabalho, o amor, o xingo, a surra. Amavam Tia Maria Domingas que era a mie por tudo. E quando Tio Toté ¢ Maria- Velha se casaram, Tita e Zuim nao trocaram cama, confor go do coragio aninhava a sua Maria-Velha, 200 i ow ~ ) 7 1 TOT sentiu um vam bi is Os meni em, isto estava resolvido, Maria-Velha senti ouvir as historias jas tinha 'ias dele, m: & Sensacao de que sempre acabava deixando-o 202 ga y judar jimitada para 4 ragem de falar- este senti- curta, tinha co} Tord. Nao P js dentro dela, ¢ diluindo. Sentiarse odia e nem mento da construgao onde arranjara dreiro, olhava © mundo. Era © patrao pedira os docu- mentos e ele fora obrigado a dizer que perdera ‘edo, Tinha certo receio de Ihe dar a carteira te taabalho. © patrao descobriria que cle era excempregado do porto, alias, nem baixa sua carteira tinha. Como explicar tudo? Abandono de emprego, por que? O movimento, a greve, © levante dos operarios do porto havia sido noticiados por todo o Brasil. Se o novo patrao descobrisse, além de perder o trabalho, seria to- mado como subversivo. Nao que tivesse tanto medo da priséo! Nunca fora preso.. Sabia de companheiros que foram presos. Alguns ha- ot erie Nao podia ser preso, queria aqui na dura lida. _Ao abrir a marmita, 0 cheito da comida Purificou o ar. Negro Alirio sorriu pensando Negro Alitio, servigo como Pe hora do almogo. 203 > We rey tudo, Ficou almente xera Pensando yg “itha UM novo na “Me, mas das criangas, que com : © desfavelamento, perderam as vagas nas escolas ao se mudarem no interval correu a escola, que atendin ar rian ee vela. Era preciso um documento que garantis- se a matricula das criancas em outras escolas, Esta era a preocupasio maior de Negro Alirio, Para ele, a leitura havia concorrido para 2 204 gereditava quer a cs" Ele stav' o que ¢s! i cue sso Muito mundo. ia ler ro sabia um pas ¢ nao estavay dava um P - : a sara sua ibertagao- 1 Era preciso im! petia sempre- = todos. Sempre atento- "A forsa do pensar, do do construir. Dentro a Dora, 0 sonho, © caminhar, ~ era o que cle re Ja estava ele junto a Dentro dele cabia tudo. erian do mmadar, do Tutas, de de Negro Alirio cabia ain: mor, cabia agora, cabia © porvit.. iso ir cera preciso Dora acordou naquela manha com uma pre- guica gostosa no corpo. Abritt os olhos € con- tinuou mole na cama. Estava feliz. Pensou em Negro Alirio. Nunca tivera um homem tao carinhoso na ¢ fora da cama. Nem com 0 es- panhol ela fora tio feliz. Lembrou-se do ou- tro homem com quem tivera um filho, havia perdido o contato com ele. O menino deveria estar com uns 6 ou 7 anos talvez. Nunca mais quis ver a crianca, perdeu todo o contato com © homem e nunca havia se arrependido. Ago- ra estava gostando muito de Negro Alitio e alguns anos atras. diferenca fazia. Pior seria Tio Toto, Maria-Vetha, Filo Gazogénia ainda be Havia os Crispins, } entretanto, pouca Para V6 Rita, para Mie Joana ¢ 05 filhos, eM que morrera antes. os Amés, os B Jorges, os Zeferinos, os Bigodes Daal os dos Santos, 4 - 05 Arcanjos, o¢ dos 0s Nascimentos e tantas outras las que haviam inaugurado a favela. Para onde eles iriam? E ela para onde iria? Se antes isto ndo tinha significado algum, pois ~~deria 206 a ‘ {~ alquer agora com quald a aly - quer ee ade ganhava ow al sc para av! ic Pompe dese passe ido. Estava £05 jo € queria cam a companhia de ‘Ass chuvas pararam mesmo. O sol se a ono do céu. O bicho pesadao vol fou bravo, com fome e sede de barracos, bar- rancos, buracos. Passava certeiro, derrubando ado, Os emissérios da firma construtora che- garam trazendo a carta de bota-fora para mais Cingiienta e trés famslias. Que fizessem logo a escolha: as tibuas ou o dinheiro e que juntas- sem os trapos logo também. Alguns morado- res j4 estavam aflitos para sair. Quem morava na area onde o bicho pesadao rondava, comia pé e pocira o dia inteiro. Se era para ir, se nao havia jeito mesmo, era melhor ir logo, melhor abreviar a dor. Mudavam apenas de lugar, a vida seria a mesma ou até pior. Mais duas ou trés torneiras foram retiradas. Era preciso, pressionar ¢ encurralar © pessoal. Colocé-los numa situagdo de maior desconforto ainda. ‘novamente d ~ 207 > 3 ee © presente. As dores que Para trds, estavam ali, vi- Pele dos dois como bagos Pensavam ter ficado vas, porejando na de sangue. Maria-Nova foi para a escola naquela ma- com mé vontade a rondar-the o corpo ¢ a mente. Cada vez que tinha de se ausentar da od Escravos - em Historias Maria-Nova escutou ign ore tas ada com as pergun acostumada C : a fatagaes da menina. ESperow: Fla ao : wieta c arredia. Amestra perguntou-l he qui seco motivo de tamanho alheamento naqucle dia, Maria-Nova levantou-se dizendo que, So bre escravos ¢ libertacao, ela teria para contar muitas vidas. Que tomaria a aula toda ¢ nao sabia se era bem isso que a professora que- « palavras da pro A professora jt estava © com as Cons ria. Tinha para contar sobre uma senzala que, hoje, seus moradores nao estavam libertos, pois nfo tinham nenhuma condigio de vida. ‘A professora pediu que ela explicasse melhor, que contasse em mais detalhes. Maria-Nova fitou a professora, fitou seus colegas, havia tantos, aliés, alguns eram até amigos. Fitou a nica colega negra da sala ld estava a Maria Esmeralda entregue @ apatia. Tentou falar. Eram muitas as histérias, nascidas de uma a partir do momento da favela. Pensou em va € outra Histéria, Maria-Nova olhou novamente a profes: Soracaturma, Erauma Histéria muito ide! 3 1a Historia mm ui Uma histéria ed ee Aue nascia das pessoas do wo, Rare att Bra diferente de ler aquele ex oo © Pela primeira vez, veio-the hice acsamento: quem sabe etcreveria esta um dia? Quem sabe passaria para o 210 ito, cravado ¢ gravado escr: ue estava na sua mente. papel od na sua alma, no se CTP An- mais feroz ainda. jos 20 barracos pendurad 0 menor. O Buracéo parecia ele tinha boca parecia um pouco m desaparecidos ¢€ tes, quando redor, a sua 4 havial barracos j4 L eae também. O bicho Baers aplainado toda a area a0 redor do Buraczo. As yezes, vinha tao proximo que dava a impres- sao de que despencaria pelo precipicio abaixo. Rogrivamos praga ¢ desejavamos sinceramen- te que isso acontecesse. Mesmo se morresse 6 tratorista, tamanha era a nossa raiva, a nos- sa decepg’o, 0 nosso despcito por sairmos da favela. Precisivamos nos encontrar frente a frente com alguém em quem pudéssemos despejar 0 nosso édio. Sabiamos, porém, que aquele mogo nao representava nada, Nao cra ele que nos tirava dali, ‘Todos estavam totalmente desestrutura- dos. Havia briga por tudo ¢, por nada. As c sas mais corriquciras serviam como ponto de discérdia. Era a galinha de um que espalhava Par: i : ‘&@ Muitos, para todos, talv ini. migo era aquel gupnit oe quele que estivesse mais préximo, Odio, ; cay 4 amargura, o desamparo que existia » todos, tinham como valvula de escape 0 i eae Proprio irmdo. Nao reconheciamos que esté- vamos no mesmo barco, no mesmo oceano de miséria. Ali nao havia comandante, o barco e todos nés estavamos 4 deriva. __ Ocerco apertava e Negro Alirio tentava orientar a todos. Nao, eles ndo podiam fazer, ou, melhor, nés nao podiamos deixar que fi- zessem assim com a gente. Ainda havia muitas 212 7 tava «, As torneiras ie as. Restavam tre di fs nte arranca . “Torneira sumariamen'® "9 “Torneirio” € 4 Tornei de baixo + Negro i injetar es- Alirio insistia em nos injetar : 4tica, crente a. Nao uma esperanga apatica, eae desse acontecer, mas uma f que o milagre pu ; esperanga que se concretizava na luta. Desde S| d. Guando ele chegou a favela, logo depois que ‘ay penou tenda no barraco e no corpo de Dor saiu para conhecer a area. Aos poucos foi co" nhecendo todos ¢ tudo. Na época todos nds £8 falavamnos no desfavelamento. Alguns até choravam pouco. Os que mais sentiam eram os velhos € as criangas. Negro Alirio falou da Lei Usucapiao. Alguns sabiam da Lei, um velho argumentou que quem fazia a lei eram os fortes. — Nio se iluda mogo, eu sé acredito em Deus. “Eles precisavam acreditar que tinha Deus ao lado deles,” pensou Negro Alirio. Ele cria em Deus, mas acreditava na forca, na a¢ao do homem. / =} 213 \ / t6rio da fin ‘ma construtora, , responsa desfavelamento, pentivel pelo = Para reclamar da falta que Ten tendo as tornciras que haviam sido € desespero de uma ida a Firma Construto- wy n{sPonsivel pelo desfavelamento, para re- Clamar da falta que estavam fazendo as ou- tras tornciras, e nem atendido foi. As pessoas 214 oas voltavam ca~ mas. Carrega- ¢ serem, paixas. As poss! de si mes exo de culpa po ° > no mcio de to- Negro ve ado, porém Kicido, certo, ocupado, ybres- tho Po ava num solo que dos, vin Fes que pis: io. fi Era 0 ao de tempo- firme. Er8 © Nrera s6 uma questo di 7 sabia ser SEU Um oderia ser hoje ou dia, poderia 5 5 ne 08 homens teriam os mesmos direitos. Tempo es P chegaria em que os homens todos se procla~ mariam ¢ viveriam como irmaos. Vo Rita tinha as mos vazias de bens que thes coubessem. Estava vencendo o tempo de amargo sofrimento e usara uma tinica arma, o amor. Ela sabia que a sua vida nao tinha sido jogada fora. Nao tinha bens que pudesse contar, enumerar, guardar em bancos, em bolsas, em vasilhas, em armarios. Todos os seus bens estavam guardados, retidos no peito. E foram tantos, tantos que sairam de suas mAos. Ela testemunhara o nascer de tanta vida. Era duro viver, mas valia a pena. Viu tanta mu- lher parir em dores, Assistiu a tanta dor, mas / i) 215 \ te ye menhoy al iu o, gti Vivere, : filhos Lee ii “Sper ™, apes © dog. sas 4, SsPeranca oe I tudg, ops gt TaNca para 0. Ty; Cteseq Preciso g go." © Para ha andy : a Snuar em ssPero, A vid 2 pits ag Seu cor ee lugar, e : Maver de. ee PO poderia até 72 oUtras Pes Son. A Outra levantou com olhou para V6 Rita. certa dificuldade e Quis dizer alguma coi: 1a coi- Sa mas calou. Ultimamente evi fi aguentava ouvir a propria voz. V6 Rita é que tava falar, nao falava, falava sem re. El i Saas pre. Ela respondia por mo- mas tinha um prazer intenso, A 216 ‘tida aos chegava nitt the do mundo. Raq Ihe levava ouvidos- ia até 0 beco AVE n= “Jo, atras dele, CO ndo. Como sea ainda a0 porto: templava ral te pessoas esta ie vern n: nntado © va) me) mo bocas escancar: The uma sensa¢ao disfargadame m tristes! a torneira. adas, esperan- de sede. tas vazias CO ausava~ oa dgua, causal na sensaga im a ria-Nova andava muito triste também. Baa Um dia a menina estava tao distraida ave chegou @ dar-lhe a impressao_ de que, ee Sh saisse dali de tras do portao, fosse até i fora, dangasse, gritasse, pulasse, nem as- sim seria vista. Todos tinham um s6 medo, um s6 desespero, iam embora. E ela iria para onde? Com V6 Rita para algum lugar. O filho nao falava e nem olhava mais para ela. Ela o evitava também. Um dia ela per- cebeu medo no olhar dele e depois, algum tempo depois, percebeu édio. E a partir de entdo, ele nunca mais lhe falara. Bom, se falasse, talvez fosse pior, ele no suportaria ouvir a voz dela. Ela sabia que a saida da fa- vela seria a salvacao dele. Seria desligar-se totalmente dela, Seria enterré-la bem longe, ~ amanhecer, estavamos *xtenuados. Ninguém cr, esti 1gUC oe mais. Acreditévamos que nada mais ‘avia Para se fazer. As tré, ‘as torneiras a aver. As trés tinicas to, Publicas que ainda ex: istiam pasar; au ma Pt é. ae comegaram como & porque: javadeit™® a nao Sabian alcool, 0 7 ¢ resistiam Pavia na favela © No jog° qu é entao, agct. NO Ae om ado ef © PE ae paralho- > cata fundo artO, 0 sto “truque” sala 7 a cartas, 0 grif0 ang mpre um bébado ou ens. SC | gantas dos hom hilariantes, tornava-se suas yernas i = outro ,com suas FT ae seu habito. Um vi cio, porém, foi mantido escondido durante do es durat 0, : na favela. Suspeitavarse Prin muito Pg flhos de Ana do Jacinto. Eles se papa”. Rapazes de lambretas subiam € cE caen 0 morro. E tudo aflorou entao. Pas saram a famar normalmente pelos bequinhos. ‘A qualquer hora do dia ou da noite, um cheiro adocicado esparramava-se no ar. Numa noite, a policia arrombou a porta do barraco de Ana do Jacinto. Levaram os filhos dela. Os rapa- zes de lambreta ficaram muitos dias sem su- bir 0 morro. Um dia voltaram, Ana do Jacinto 34 Gnlsa mudado, Ninguém mais, nen Negro Alivio consepuiu saber que tumos 0s filhos de es desciamos © morro, la gres, bem vestidos, brin- cay, - conversavam ao sol. Eram tidos como a fouca-mansa Cidinha- nhoca € outros. Cidinha-~ Chg, falava ultimamente 1. tee POUCO Ou nada ent cra uma resolacn pooveH falar. E sua fil iia moma, eft! de morte. Ela dizia que lorrer com. ~ ia que 10, pébado, u™ m,uma qu orte nunca eda no Buracao, havia tido 4 é ingo fan desa falta de pinguém. Era um doming! s fortes desceram A homens mai: de manha. Os = : 7 até a0 fundo. Vimos que eles traziam alguém do talvez. E a certa distincia, avam quase chegando c4 em ‘cima, reconhecemos € entendemos tudo. Era a Cidinha-Cidoca-Maria-Minhoca. Seria o morrer de nao viver?. ‘A morte de Cidinha-~Cidoca no Bura- céo era inexplicavel para todos. Nunca nin- guém tinha morrido ali por queda. O fundo do Buracio era amaciado pela lama e mato. um Bobage ou nao. Mi no colo, desmaias ja quando eles esti Externamente ela nado apresentava nenhuma 221 de todos, idoca foi embora estivesse im de $6 Ladislau, pelos becos da fave- com o seu siléncio, com o seu mutismo e scu olhar de doida mansa desconsertando a todos. Continuava bonita, a cabeleira encara- pinhada, suja ¢ sem trato. depois o acostumar-se. Cidinha-C virando histéria do pasado, ali tio presente no botequi no botequim de Cema, la, © corpo esguio, o camisolao sujo, imundo, antes branco. Todos olhavam Cidinha-Cidoca. As mulheres ¢ as criangas pareciam no ter medo. Os homens, aqueles que tinham conhecido o corpo quente de Cidinha, pareciam assustados com a eterna inércia que havia tomado conta dela. Haviam 222 a impressionada_com Maria-Nova ficara Poy on ay Gidinha-Cidoca havia avisac eee morte Cid rrer de nao viver”. ee al alavras, que i Ther que seria en sando na mulher q ; nina ficou pen ee i ente. terrada como indig See mesma miséria, o que eram se a Reconstituiu a sua vida € a dos outros. brou da fome que passara desde 0 momen: em que nascera. A mae sempre contava que a mamadeira dela era 4gua e fub4, muitas vezes sem agticar, Vingou, cresceu apesar de tudo. Muitas vezes saia para a escola sem comer nada, Muitas vezes se alimentava das sobras ) 223 malandros, os ladroes,. mas e diferenga havia. A con, nes a indigéncia em gray Para todos. ™M a Ciddinha-Cie Sines ae 8 aga de ‘Oca pairou por alguns instantes ™ cabega de Maria~Nova, Ela comegou por lesmanchar as mil te desmanchaase anu morte eon TO pensamen- to. O coragio arfava no peito, Maria-Nova olhou-se no pedago de espelho. Sentiu-se bo- nita e triste como a mie. Fez um carinho no Proprio rosto. Nao, ela jamais deixaria a vida Passar daquela forma tao disforme. Era pre- ciso crer. V6 Rita, Bondade, Negro Alirio no desesperavam nunca. Nao pensaria mais na 224 7 wPZe a favela. Tir s, parect- Era magra- Vinba : se tivesse olhou a arca Parou, res seus olhos © ja tinha do vazio. Quanta gente ja tinl : 2 da Deus! Sera que seu parraco ae inda estavam por all! que} tinha si ceram diante ido, meu ist 4 1s SeUS al existia? Sera que o: : det © que faria ela agora da vida? Em que tr \haria? Como estaria 0 pai, a irma ¢ os filhost Sera que 0 pai... Como enfrentaria a todos? ‘A mulher andou um pouco mais ¢ fez mengao de recuar. Nao podia, tinha de ir adiante. Es- tava ali, era preciso chegar, teve oportunidade de fugir de tudo e de todos e nao fez. Afundou \ 225 Cidinha-Cidoca ne — na cabe: alu Por alguns ii we cabesa de Maria-Nova. Ela comemnnn smanchar as mil ranged et s ¢ desmanchasse aquele mo: to. O coracao arfava olhou-: rtifero pensamen- i oe pa Peito, Maria-Nova oe x spelho. Sentiu-se bo- ae como a mie. Fez um carinho no Proprio rosto. Nao, ela jamais deixaria a vid: passar daquela forma tao disforme. Era : ciso crer. V6 Rita, Bondade, Negro ‘Aliso no desesperavam nunca. Nao pensaria mais na 224 Era preciso viver- Cidinha-CH" 5, podia se gastar puscou 14 He si o que POGCHA FT dentro do pi como amento veio rapido ¢ claro iri fr. jo. Um dia ela ira tudo escreve ‘Una mulher acabava de chegar 4 favela. 7 nha os cabelos curtos, muito CUrtOSs Paes dos com os de um homem. Era magra. anne andando devagar, cabisbaixa, como se fivesse sobre si um grande peso. Parou, olhou a drea que jé tinha sido desfavelada e seus olhos cres- ceram diante do vazio. Quanta gente ja tinha ido, meu Deus! Sera que seu barraco ainda existia? Sera que os seus ainda estavam por ali? O que faria cla agora da vida? Em que traba- Tharia? Como estaria 0 pai, a irma ¢ os filhos? Sera que o pai?... Como enfrentaria a todos? ‘A mulher andou um pouco mais e fez mengao de recuar. Nao podia, tinha de ir adiante. Es- tava ali, era preciso chegar, teve oportunidade de fugir de tudo e de todos € nao fez. Afundou = 225 de culpa perturbou-Ihe a ment Cc nino estava envelhecido! Perdera toda oe eileen cido! Perdera todas as fei- Meee ga. Estava adulto, muito adulto, ce » © menino parece que ganhara : sn de vide Ela também, a prisio, a cadsis cra um inferno, Pior que tudo. Os trés - levantaram e se jogaram sobre a ic num desesperado e feliz reencontro. | | do de novo- tu eus ¢ comegar ; endida, ali parada atonita, arTeP » {ucle desejo. Comesar como® ‘Agora estava ©} Estava livre, solta, mas no quase vazia da Comegar © qu‘ era bem isso. ‘A mulher continuo casa. Tinha vergonha de tud Queria fazer alguma coisa ¢ 40 sabia como. Liberou 0 Beto dos afazeres, mas 0 menino, quando nio estava apanhando 4gua para casa ou para os outros, estava sempre por perto 2 rondar os sentimentos da mae. Ditinha preci- sava urgente de algum trabalho, de algum lou- co fazer. Antes, trabalhava feito desesperada, agora precisava de mais trabalho ainda. Nao a presa dentro de lo ¢ de todos. 226 . | = 0. Poder nascer? Oy ¢ é Sao os dois? do isto. Nao sal cn fendas que estava que lhe apertassem ° abertas, mesmo tempos de arco. A tina Jembrava OS ultimos : FEstava também seca- E foi Filo Gazogenia. neste momento que Beto cochichou no oUF vido de Maria-Nova bem paixinho, quase em pensamento. Era segredo: — Mamie chegou! ‘A noticia bateu seca ¢ violenta no peito de Maria-Nova. Ditinha voltou! wand j Qe ea lo Dora jogou os bolinhos de batata na ‘a. quente, o cheiro invadiu todo barr: aco. 229 ‘o. Les : o Ihe havia pergunt’ i tr cece © pal ee Oe eeacare: Ne ful da a. Pie cle e os outros estavam cons- prédio em que Pruindo juntos. Muitos deles ali moravam na favela, Olhou o prédio ¢ pensou no barraco de todos. Alguns dos barracos, sem diivida, ja cram de tijolos, mas isto levava anos até, para se conseguir. Uma parede hoje, a outra quan- do puder. Um prédio se erguia da noite para o dia... Eles mesmos construiam. Andou mais rapido. A marmita quente esquentava-lhe a mao, Havia a luta. Havia o amor de Dora. Agora i; = = uma semente sua plantada no terra da mulher. Ele nao tinha remorsos 231 — ee AS, para buscarem 4, ©™M grupo, € este O me i edo do invisi invisivel se apo- ‘eza de mais S assombra~ is Nosso outro ss0as Nossas quer: ; s ‘idas que ti lecido ha tanto tempo, eee serviam para extravas derou de nés. Na ‘ou de nés, Nao tinhamos cert Comegaram a surgir entio a: §G¢s vistas © vindas do fando d medo. Pe: 7 ou mais recentemente, jar NOSsos temor, a bs ; res. Era medo que talvez viesse de situages mais 232 Fe 80 ee orge Balalaiky eS ‘16 énia, ca, ate Fi oe Cidinha-Cidoce deram ise atravessar © CAPO ie stivais de i audosos fes alizados OS §' a 4 estavam OS MOSSES mortos onde eram fundos medos nossos- favela ¢ | la da oe at do os ja pro! amedrontan! Beto arrumou as coisas junto da mie. Lem- prow da jéia que ia ficar ¢ que j4 bavia sumido no mcio da merda. Limpou © avo paralitico © teve medo que cle passasse mal na mu- danga. Tinha guardado todos os brinquedos dos irmaos, Ditinha tinha arrumado 0 resto. Junto com Negro Alirio, na madrugada ante- rior, tinham destelhado 0 barraco. Tudo que se podia aproveitar ia. A mac estava deitada junto as trouxas, enrolada e encolhida. Tremia de medo de ser vista. Queria sair no primeiro 233 ia esquecido 9 fato. Ditinha recusava, F cm casa trazendo algum daha? BM veo ra com on Fado alum dinheiro que pant Ditinna eomeRS: © sentiment de eulpy de cat a eeseeu fundo, Sem othas, sem ae : quando mudassem da 234 i ores As crial trazcndo nos olhos ¢ n° r expectativa, Sera que estomago 4 ive h je tem pao? Os menores, os nenéns brig: ; hoje ? ie the com a vida, dando socos no ar exigindo adcira completada o peito da mac ou a mam: com mais agua sempre. ‘Algumas criangas leva yam o rumo da escola. Poucos, muito poucos, m todos os dias. A escola os inibia. Bom, na ola, era a merenda que a gente comia. ntavam ¢ toma ~ He Novs aquele dia levantou ainda mais ce a cedo do que © costume. Nao se arrumou para ir Preci escola. Precisava despedir-se de Beto, da ™~ 235 mesmo indo reco mes " e nao F Jém de 1 = Maria-Nova nao anhat, n ne arriscar na espreita. saido da escola ha ovo do que se importavay ae Ee serventes sempre es muit : . jangas Ptimeira série ai. fo tem; ey yuitas CT ainda, depoi 1PO, na Eram mm ae ei » is de uns tre, distribuigao. de preciria freqiiencia, —— an : revezavam jeram A cabega da Nanci: Um dia ele comen- Essas lembrangas vieram * (café ; lova que nao sabia como ely menina enquanto ela tomava um go Sora, os colegas, as ligdes. Bom da nha pao naquela manha, porém cla nso °* escola era sé a merenda! Nem 0 recreio era m fome. Estava aflita. Como colocariam © tao bom assim! As vezes, tinha brincadeiras ae no caminhao? Como Ditinha sairia de que ele nao conhecia ¢ os colegas nao tinhams casa? O café desceu quente ¢ rapido pela sua Paciéncia de ensinar. tou com Maria-; garganta, era preciso abreviar. Maria-Nova adorava a merenda da esco- Quando chegou ao beco onde morava | d a desde o tempo em que ela era do primétio. Ditinha, a mudanga dela e dos outros vizi- O que ela mais gostava era de macarronada, nhos estavam sendo colocadas nos caminhées. porque tinha até queijo ralado em cima. Gos- Quem nao estava mudando ajudava também. tava também quando era piozinho com doce d | As vezes, era confuso. As mudangas eram 236 ‘ \ ~ ~ \ 237 £0 saiu de 14 mais aflito do que antes. Olho Para todos como se Procurasse sigstonc Baten com os olhos em Maria-Nova e fez um nal. A menina veio se abracaram chorando, os grandes disfarcaram a emogio. Os dois 238 ‘Todos conti ; i a curiosidade, havia Jados. Dali a um uros, congelados. Dall 2 100 9 minuto seguinte, sairam 0S ¢ : 5 so uma mulher que vinl jo pela trvtdo sobre si toda a vergonha ae ‘As vozes € as emogoes «iberaram. Ditinha! Era Ditinhal A m- wr, pavia voltado! Ela cobriu: 0 Fosto com as maos. Parou! Grandes e criangas que nem estavam acostumados a grandes demonstra- | Goes de carinho correram para cla ea pegaram ho colo, Andaram com ela ali em volta feito canto em andor. Gritando, chorando, rindo. Que bom, Ditinha havia voltado! Ditinha ha- via voltado! Depois solenemente colocaram a mulher no caminhao como se colocassem um, santo no altar.’Todos choravam. O motorista do caminhao enxugou uma lagrima no canto | dos olhos. Ditinha, que se mantivera o tempo todo com o rosto entre as maos, olhou para todos e sorriu. Era o primeiro sorriso desde aquele dia em que escondera no seio a pedra | verde-bonita-suave que até parecia macia. ke > 239