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“Pois o mesmo € Ser e Pensar": Nietzsche e a dinamica da interpretagdo “Because to be and to think is the same": Nietzsche and the dynamics of interpretation Palavras chave: forcas, interpretacao, conhecimento, Keywords: forces, interpretation, knowledge Diogo Bogéa Professor pela UERI, Rio de Janeiro, R, Bras. Doutorando em filosofia pela PUCIRI, Ri de Janeiro, A, Brasil diogobogeaa@hotmaileom Resumo Nietzsche, em seus tltimos anos produtivos (1885-1888), elaborou uma concepgao de mundo que pode ser caracterizada como uma “ontologia da relagdo” Segundo esta concepgao nao ha qualquer ente “em si" dado a priori Todo “ente" vem a ser a partir de uma configuracao relacional de forgas conflitantes atravessadas por um impulso irresistivel de dominio (vontade de poder. Nosso objetivo é investigar de que maneira podemos compreender o “pensar” ¢ 0 “conhecer" a partir desta concepcao de mundo que elimina as nogées de “sujeito” ¢ “objeto” enquanto dados “em si” Nossa investigagao tera como eixo central 0 conceito de interpretacéo, que tem seu sentido sua abrangéncia ampliados ¢ se torna a chave de articulagao entre “ser”, “pensar” e “conhecer’. Abstract Nietzsche, in his last productive years (1885-1888), developed a worldview that can be characterized as an “ontology of relations” According to this conception there is no entity “itself “ given a priori Every “being” comes to be from a relational configuration of conflicting forces crossed by an irresistible domination impulse (wil/ to powed. Our goal is to investigate how we can understand “thinking” and “knowing” from this conception of the world that eliminates the terms “subject” and “object” while given data. Our investigation will have as central axis the concept of interpretation, which has its meaning and its scope expanded and becomes the articulation key between "being", “thinking” and “knowing” 0 processo do pensar€ tradicionalmente compreendido como agao de um sujeito, atividade propria do ser racional e consciente: 0 humano. Aconsciéncia, em geral, se confunde ela mesma com 0 sujeito, tomada como centro de comando, nucleo, morada do “eu”. Ea palavra conhecimento se refere automaticamente a uma relagao entre sujeito ¢ objeto, seja & maneira de Descartes, que concebe 0 objeto como realidade em si investigavel e apreensivel por um sujeito pensante capaz de efetivamente conhecé-lo, seja a maneira de Kant, que, com sua “revolugao copernicana”, inverte os termos desta equacdio, colocando as formas puras da intuicaio sensivel - tempo e espaco (KANT, 1974, p. 40) - e os conceitos puros do entendimento, ou categorias ~ de quantidade, qualidade, relago ou modalidade (KANT, 1974, p. 71) -, como elementos a priori, constitutivos do sujeito, determinantes do objeto observado. “Sea intuigdo devesereqular-se pela natureza dos objetos, no vejo como se poderia saber algo a priori deles; se porém o abjeto (como objeto dos sentidos) se regula pela natureza do nosso poder de intuigdo, posso entao representar-me muito bem essa possbilidade, (KANT, 1974, p. 12] 0 mesmo aconteceu com os primeiros persamentos de Copétmico, aque, depois de nao ter canseguido ir adante com a explicagio dos movimentos celestes ao admitir que todo 0 corpo de astros girava im toro do espectadoy,tentou verse nao seria melhor debar ue 1 espectador se movesse em torno dos seus astros iméveis. (KANT, 1974, p. 12) No caso de Descartes, a legitimidade do conhecimento € dada pelo nivel de clareza ¢ distin¢ao de observacao a que pode chegar o sujeito através da boa utilizagao do método e, garantida pela existéncia de um Deus perfeito, um terceiro termo incluido na relagao, capaz de sustentar a veracidade das observagdes claras ¢ distintas Toda concepeao clara e distinta é, com certeza, alguma coisa de real e de positivo «a8, nao pode se originar do nada, mas deve ter obrigatoriamente Deus como seu autor; Deus, que, sendo perfeto, nao pode ser causa de equivoco algum; e, por conseguinte, é necessario concluir que uma tal cconcepgao ou um tal juizo é verdadeiro (Descartes, 2000, p. 301) No segundo caso, a realidade das coisas é inapreensivel, pois o sujeito, condenado as limitagGes intrinsecas ao seu aparelho de conhecimento, lida somente com fendmenos determinados por estas mesmas limitagdes, adaptados a elas, restando por tras deles a coisa-em-si inacessivel O conhecimento “sd se refere aos fendmenos, deixando ao contrario a coisa em si mesma real para si, mas desconhecida a nds” (Kant, 1974, p. 13). 0 fato € que, tanto no conhecimento “objetivo”, quanto no “subjetivo", © que estd em jogo é uma relacao entre sujeito ¢ objeto. que nos interessa aqui é compreender a originalidade da concepedo de Nietzsche quanto ao “conhecer" ¢ ao “pensar”, afastando-se tanto do “objetivismo” cartesiano quanto ao “subjetivismo" kantiano. Em seus Ultimos anos produtivos (1885-1888), Nietzsche constrdi uma concepgao de mundo que poderia ser propriamente designada como uma “ontologia da relacdo” (MONTEBELLO, 2001, p. 22). Trata-se de uma ontologia em que “a rela¢dd' “passa ao primeiro plano” “em detrimento do ser dos metafisicos" (MONTEBELLO, 2001, p. 27). A chave para compreendermos no que consiste essa “ontologia da relacao”, encontra-se no conceito de “vontade de poder” Tendo aparecido em Assim Falava Zaratustra como “vontade de poder” dos homens ¢ dos povos (NIETZSCHE, ZA, p. 58), ou seja, restringindo-se a um horizonte antropoldgico, ainda na mesma obra, no capitulo Da vitdria sobre si préprio (NIETZSCHE, ZA, p. 107), 0 conceito tem seu dmbito de abrangéncia ampliado, referindo-se agora a totalidade do “mundo organico”, ou seja: a vida, isto é, todos os processos organicos, so compreendidos como expresséio de uma vontade de poder. E em Além do Bem e do Malque a “vontade de poder" amplia definitivamente seu Ambito de atuagdo, passando a aplicar-se a “toda forca atuante", a “toda a nossa vida instintiva”, a “todas as fungdes organicas” ea “todo acontecer mecanico" (NIETZSCHE, BM, § 36). Operando uma ousada unificagdo da fisica mecanica, da biologia darwiniana e das “ciéncias do espirito”, Nietzsche compreende todo evento do mundo mecanico, organico ou “espiritual” (instintual, pulsional), como manifestacdo, expressdo e efeito de forcas conflitantes que aspiram ao poder. 0 mundo é compreendido como uma rede dinamica de forcas inseridas em, ou melhor, constituidas por ~ € constitutivas de - relagdes de poder - relagdes de dominagao, de mando ¢ obediéncia - que configuram sistemas hierdrquicos. Segundo esse ponto de vista ndo hé nenhum ente “em si" dado a priori pois todo “ente" ja consiste justamente na organizacao complexa de um sistema hierarquico de forgas. Atravessando todo o processo, como pathos do comando, uma implacavel vontade de poder anima sem cessar 0 jogo conflitante de forcas que constitui o mundo. Segundo essa concepcaio de mundo “sujeito” e “objeto” nao sao dados aprioristicos, nao sdo seres “em si", ndo séo “nticleos", ndo so “coisas”, nem “esséncias", mas sao ja configurados a posteriori como efeito do entrelagamento da rede dinamica de forcas que constitu 0 mundo. Sendoassim, nao ha sujeito, nem objeto e, consequentemente, nem pensar, nem conhecer da maneira como sao tradicionalmente compreendidos. ‘Abandonemos 0 sujeito efetivante, € assim também abandonaremos 0 cbjeto no qual se efetiva, A durago, a igualdade consigo mesmo, o ser nao sto inerentes nem ao que é chamado de sujeto nem de objeto: s20 complexos do acontecer, aparentemente duréveis com relagzo a outros complexos (NIETZSCHE, NF/FP 9191] do outono de 1887) 0 que chamamos sujeito e objeto sdo apenas configuracdes, “complexos do acontecer", provisoriamente estaveis, resultantes da rede de forcas intrinsecamente impulsionadas pela vontade de poder. Assim, como poderia haver o “pensar” enquanto atividade de um sujeito? Aui-em primeito lugar, imagina-se um ato que no acontece absolutamente, “pensar em segundo lugar,imagina-se um sujito-substrato, no qual, ccemnenhuma outra parte, o pensar tem sua origem: isto, tanto fazer quanto 0 que faz sao ficticios. (NIETZSCHE, NF/FP, 11[113] de novembro de 1887 ~ margo de 1888) E como falar em conhecer se ndo ha também “objetos" em si conheciveis? “A maior fabulaco é aquela do conhecimento. Gostar-se-ia de saber como as coisas em sisao constituidas: mas veja, néo ha nenhumas coisas em si!” (NIETZSCHE, NF/FP, 2[154] do outono de 1885 - outono de 1886). Eliminando-se os extremos da relagao - sujeito e objeto -, ficamos apenas com a propria relacéio, ou melhor, com 0 proceso autoprodutivo da rede de relagdes de poder. Este processo conflituoso de dominagao, aniquilacdo, escravizagao, subordinacao e associacdo que produz os diversos arranjos de forcas ¢ as diversas configuracdes provisoriamente estaveis (pessoas, coisas, instituigdes, valores, etc) é o que Nietzsche chama interpretagao. E este € 0 conceito chave que nos permite compreender 0 que pode significar “pensar” e “conhecer" sem a presenga do sujeito. Em primeiro lugar, € preciso que se compreenda que a palavra interpretacao tem seu sentido tradicional ampliado. Nao se trata de, como na compreensdo habitual, imaginar a interpretacdo como atividade de um sujeito, nos termos “alguém interpreta algo” Muito além disso, interpretagéo aqui se refere a propria dinamica do acontecer. Como afirma Marco Antonio Casanova em seu artigo “Interpretagdo enquanto principio de constitui¢ao de mundo”: “Interpretacao ¢ por isto efetivamente um meio mesmo para se assenhorar de algo: ela é0 trago fundamental do movimento de realizagao de vida como vontade de poténcia’, portanto, “o que surge a partir deste assenhoramento nao € outra coisa senao mundo. Interpretagdo € entao ao mesmo tempo principio de constitui¢so do mundo." (CASANOVA, 2001, p. 45). “Contra o positivismo que fica no fendmeno sé ha fatos, cu diria: no, justamente nao ha fatos, s6 interpretacdes. Nao podemos verificar nenhum ‘fato em si" (NIETZSCHE, NF/FP, 7[60] do final de 1886 ~ primavera de 1887). Situar todo e qualquer fato e acontecimento como “interpretacao", nao quer, absolutamente, dizer que “tudo é subjetivo", pois nao ha um sujeito que interpreta: “Tudo & subjetivo", dizeis: mas j4 isso € interpretagio. O "sujeito” néo nada de dado, mas sim algo 2 mais inventado, posto por tras. - € afinal necessiio pdr 0 intxprete por trés da interpretagio? Iso ja € poesia, hipétese (NIETZSCHE, NFP, 7[80] do final de 1886 ~ primavera de 1887) 0 sujeito ja € introduzido como resultado de um processo de interpretacdo: Nao cabe “perguntar: ‘quem interpreta”, mas sim se 0 interpretar mesmo tem existéncia (mas ndo como um “ser”: como um process, um devil) como uma forma da vontade de poder, como afeto” (NIETZSCHE, NF/FP, 2[149}-[150]-[151]- [152] do outono de 1885 - outono de 1886). Interpretar, consequentemente, nao ¢ atividade de um “sujeito” qualquer, mas um processo. Nao se restringe, tampouco, a alguma atividade tedrica, meramente intelectual. E 0 processo de constitui¢do mesmo do mundo. Uma passagem de A genealogia da moralé bem esclarecedora a este respeito: algo existente, que de algum modo chegou a se realizar, € sempre reinterpretalo para novos ins requisitado de mancira nov, transformado, e redirecionado para uma nova uilidade, por um poder que te é superior (-Jtodo acontecimento do mundo organico ¢ um subjugare assenhorear-se, «€ todo subjugar e assenhorear-se é uma nova interpretagio (NIETZSCHE, GM, Il, $12) Nesta passagem Nietzsche ainda fala em “mundo orgénico”, mas, uma vez que, com a introducao da teoria das forcas nao se faz mais necessaria a distingao rigida entre organico ¢ inorganico, podemos aplicar esta mesma ldgica a tudo o que existe enquanto forga em luta. Interpretar é um dominar, um subjugar, € 0 modo especifico de efetivacao da forca, agindo e resistindo sobre todas as outras, buscando expandir seu poder: “cada centro de forca ~ € no somente o homem ~ constrdi a partir de si todo 0 mundo restante, isto é, mede, apalpa, forma pela sua forga...” (NIETZSCHE, NF/FP, 15[118] da primavera de 1888). Ou seja, cada forga, ou cada "centro de forga” desenvolve sua interpretagao particular exercendo seu poder sobre todo o resto das forgas em jogo. E bom lembrar que ndo devemos tomar a formulacao “centro de forca” como alguma espécie de “sujeito”. Nao se trata de um “centro de comando”, ou um nticleo constituido a priori que, isoladamente, a partir de fora, partindo de si mesmo, interpreta o resto do mundo. “Centro de forga” & qualquer configuragao de forgas dominantes, num sistema constituido a posteriori como resultante do entrelagamento conflituoso de incontaveis forgas. Assim, uma célula € um centro de forga, um drgao é um centro de forca, um homem € um centro de forga, ¢ assim por diante, valendo 0 mesmo principio para coisas, plantas, animais, ideas, valores, instituigdes, etc. Cada centro de forca, entdo, jd de saida envolvido no processo interpretativo, desenvolve uma perspectiva prépria, uma medida especifica de avaliacao, ago e reagdo em rela¢do a todo o resto, constréi para si um mundo. “Cada centro de forga tem sua perspectiva para todo 0 resta, isto é, sua valoragao inteiramente determinada, sua espécie de acdo, sua espécie de resisténcia” (NIETZSCHE, NF/FP, 14{184] da primavera de 1888). Hé, entdo, uma incrivel multiplicidade de perspectivas conflitantes, uma incrivel multiplicidade de mundos configurados a partir de cada centro de forga. "O mundo, para nés, voltou a ser ‘infinito’; nao podemos Ihe recusar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretagdes' (NIETZSCHE, GC, § 374) Note que, segundo esta concepcao, nao ha um “objeto” real dado que 0 “sujeito” possa conhecer, nem hd, por outro lado, um mundo real "X" que se esconde por tras das perspectivas particulares, uma “coisa em si" inacessivel. Conceber algo dado “em si", fosse ou ndo propriamente conhecivel, é um contrassenso numa concepedo de mundo em que tudo 0 que ha so relagoes de forca. “A ‘coisa em si’ € um contrassenso. Se deixo de pensar em todas as relagdes, em todas as ‘propriedades', em todas as “atividades' de uma coisa, entdo ndo sobra a coisa” (NIETZSCHE, NF/FP, 10{202] do outono de 1887) © mundo (.) nao existe como mundo "em si", ele é, essencialmente, rmundo-relagdo: tem, segundo as circunstancias,a partir de cada ponto, sua face diferent: Seu ser &essencialmente, em cada ponto, outro: ele pressiona em cada ponto, cada ponto Ihe resist (NIETZSCHE, NFIFP, [61] do outono de 1887) Toda perspectiva é, portanto, necessariamente aparente, ficticia, na medida em que nao pode dizer “a verdade" do mundo, pois nao ha um “mundo verdadeiro”. 0 fato da perspectiva ser ficticia, nao quer ainda dizer que deva ser descartada, corrigida, nem que seja mera fantasmagoria ilusoria. Este raciocinio sé faria sentido para a cabeca tradicional, habituada a pensar em termos de pares de opostos, a qual automaticamente, atribuindo valor maior a “realidade", se apressaria em querer descartar ou corrigir a ficgao. No entanto, nao € esse 0 caso. Pelo contrario: como nao ha nenhum “mundo real em si", a Unica “realidade" que pode haver é justamente a perspectiva, a aparéncia, a fiegao. 0 perspective, portanto,confereo carater de “aparéncia! Como se ainda restasse um mundo quando descontassemos 0 perspective! Com isso tet-se-ia descontado a relatividade...(.) (0 “mundo aparente” reduz-se, pois, a uma especie determinada de acéo sobre o mundo, partindo de um centro, Ora, ndo ha nenhuma outra espécie de agéo: € o "mundo" & apenas uma palavra para o jogo conjunto dessas agies. A realidade consiste exatamente nessa aco particular e reagdo particular de cada individuo «em relagao ao todo (NIETZSCHE, NFIFP, 14[184] da primavera de 1888) Determinada pelo impulso da vontade de poder, a formacao de uma perspectiva é resultante de um proceso interpretativo, ou seja, é um ato de apropriagao, dominacao, acdo ¢ reacao. A perspectiva, portanto, no pode ser “neutra", “objetiva”, “desinteressada’. Ela jd é em si mesma uma maneira especifica de expansio de poder a partir de um centro de forga, uma expressdo efetiva da vontade de poder. A grande ingenuidade do egoismo humano é pretender que sua perspectiva seja "A Realidade”, que seja capaz de capturar “A verdade” do mundo com seus sentidos apurados ¢ sua razdo superdesenvolvida. Mas nao ha tais coisas como "ARealidade” ou "A verdadc" do mundo, Trata-se apenas de uma perspectiva necessariamente ficticia impulsionada pela vontade de poder. Na seguinte passagem, extraida de um fragmento pdstumo de 1888, Nietzsche nos inflige uma verdadeira “ferida narcisica"! quanto as nossas pretensdes de conhecer: ‘vontade, nem verdade: tudo fs fie indi Nao se trata de “sujcitoe bet", mas sim de uma determinad espéie de animal que mera somente sob uma certa corregdorelativa, antes de tudo sob a regularidadede suas percepodes (de modo que ela possa capitalizar experiéncia) O conhecimento trabalha como instrumentodo poder. (..) Sentido do "conhecimento": aqui ha de tomar-se o conceito rigorosa € ‘stritamente como antropoligico e biolégico (..). Para que uma determinada tspcie se conserve ~ € espa em seu poder ~ precisa compreender fem sua concepgio de reaidade, uma porgo de caleuivel e invarivel suficiente para que, sobre ela, possa ser construido um esquema de seu proceder. (NIETZSCHE, NF/FP, 14[122] da primavera de 1888.) Nao hé nenhuma instancia de subjetividade pura, em si - nem espirito, nem alma, nem pensar, nem consciéncia, nem razdo, nem vontade individual -, nem uma verdade objetiva do mundo que possa ser captada enquanto tal por nds. Hd apenas produgdo incessante de ficgo, intitil do ponto de vista do valor de “verdade", mas sempre correspondendo a uma exigéncia de utilidade do ponto de vista do aumento de poder de um determinado centro de forga, neste caso a espécie humana - lembrando que quando Nietzsche diz “conservacao", esta falando especificamente da conservagdo como meio para a expansao de poder € ndo como fim em si mesma. “Uma criatura viva quer antes de tudo darvazio a sua forga ~ a propria vida € vontade de poder -: a autoconservagdo é apenas uma das indiretas, mais frequentes consequéncias disso” (NIETZSCHE, BM, § 13). Neste sentido 0 conhecer atua tanto como um efetivo dominat, impor formas, apoderar-se, quanto como instrumento, como ferramenta para o aumento de poder da espécie. E através da ideia de interpretagao que podemos conceber o que possa ser pensar e conhecer num mundo sem sujeito. Quando digo "eu penso nisso”, ou “eu conheco aquilo” trata-se tao somente da apropriagao egoistica de um processo muito maior que “eu, Um processo sem centro de comando e sem sede, que nao controlo nem causo, mas que me constitui enquanto efeito - 0 processo interpretativa A cabega tradicional concebe “pensar” € “conhecer” como atividades proprias de um “sujeito” € como expresscio " Bipresio utilizada por Freud no texto Uma diffculdede no caminho da psicanélis, de 1917. Obras completa, volume XVI 94 de uma telagdo determinada entre “sujeito" € “objeto”. No entanto, se nenhuma das extremidades desta relagdo pode ser um fato externo a rede de forgas, sujeito e objeto se diluem na rede, ¢ ndo encontram qualquer outra definigdo para si que enquanto configuragdes resultantes das interagdes de poder da propria rede, s6 0 que fica € a relagao, j4 nao entre dois termos determinados, mas entre as inumeras € conflituosas interagdes de forgas que configuram a rede. Ora, enquanto processos conflituosos de incessante produgao de relagdes muituas de dominagio, apropriacdo, escravizacao, acdo e reagao, acumulagdo e expansio de poder, o conhecer € o pensar ndo so outta coisa sendo o proprio interpretar. Conhecer e pensar, portanto, neste sentido bem especifico, ou seja, enquanto interpretar, equivalem ao movimento articulatério de auto produgdo da rede de forgas, ao processo mesmo de constituigao da realidade, a propria dinamica do acontecer. “O que pode, todavia, ser conhecimente", pergunta-se Nietzsche. E eis sua resposta: “Interpretagao” (NIETZSCHE, NF/FP, 2[86]-[82] do outono de 1885 - outono de 1886). Conhecimento € 0 proprio processo de interpretagéio. 0 mesmo ocorre com o pensar: “Persar, tal como 0s tedrcos do conhecimento supdem, nao acontece absolutamente: & uma fiego atbitrria,aleangada pelo destaque de um clemento do process a subtracio de todosos estates; uma preparagio artificial para fins de inteligibilidade (NIETZSCHE, NFIFP, 11{113] de novembro. de 1887 - marco de 1888) Na formutacdo simplista “eu penso nisso", destaca-se um elemento do proceso interpretativo - 0 “cu” € 0 “isso” ~ ¢ subtrai-se todos os outros, todas as outras relagdes de forga nele envolvidas. Nesta outra passagem, Nietzsche enfatiza a dominagdo € a apropriagdo como principais elementos envolvidos no pensar: “Pensar’, no estado primitivo (pré-organico), & impor formas como nos cristais - Em nosso pensar, 0 essencial € 0 organizar do material novo em antigos esquemas (=leito de Procusto), 0 tornar igual o novo’ (NIETZSCHE, NF/FP, 41[11] de agosto-setembro de 1885). Procusto é um personagem da mitologia grega. Um bandido que, vivendo na estrada entre Mégara ¢ Atenas, dispunha de duas camas para acomodar os viajantes que por ali passavam: uma enorme e outra bem pequena, sendo que, fazia caber seus hdspedes na primeira esticando-os € na segunda cortando-Ihes os pés. Trata-se, portanto, de um processo de dominacdo, violento, agressivo, de expansao de poder sobre as outras forgas construindo uma perspectiva propria Mas ha um outro detalhe neste fragmento que ¢ ainda mais interessante para a concepgao que estamos formulando: a ideia de que o pensar esta presente mesmo no mundo “pré-organico", mesmo em configurages tao menos complexas como é o caso do cristal. Vemos, ento, que “pensar” nao é uma atividade do sujeito, como j4 demonstramos, e nem sequer & uma atividade puramente intelectual, espiritual, restrita a "substancia pensante’, E um proceso de expansdio de poder que esta em jogo no prdprio desenvolvimento da rede de relagdes de forca que constitui tudo o que existe. Mesmo em nosso caso particular, aquilo que habitualmente chamamos de “pensar” é um processo no qual tomam parte as incontaveis forgas que nos constituem. “Nossas necessidades so quem interpreta 0 mundo’, diz Nietzsche, ¢ “cada pulsao é uma espécie de ambicao despotica, cada uma tem a sua perspectiva, perspectiva que a pulséo gostaria de impor como norma para todas as outras pulsdes" (NIETZSCHE, NF/FP, 7[60] do final de 1886 - primavera de 1887). Se tomarmos essas “pulses” que interpretam como sendo as intimeras forgas que nos constituem, podemos ter uma nogdo da abrangéncia do proceso do pensar. Ora, quando o cientista vai para 0 laboratério ou quando nos propomos a realizar nossos trabalhos académicos, ou seja, quando imaginamos que estamos, enquanto sujeitos pensantes, prontos para realizar a atividade puramente espiritual do pensar, estdo em jogo ali os inimeros fatores relacionados 4 nossa constituigao fisica, as condigdes do clima, um determinado contexto politico e sociocultural que legitima ou estimula direta ou indiretamente nossa prépria area de atuacdo, estdo em jogo também certamente todas as pequenas aventuras e desventuras emocionais da nossa vida dita “pessoal” que pretendemos deixar de lado nessa hora, enfim, tudo isso e muito mais participa ativamente do proceso. As resultantes parciais desta combinacao mais ou menos cabtica de forgas, que se apresentam sob a forma de ideias, formulas, objetos ou textos, acrescentamos nossa assinatura - ou seja, desenhamos 0 nome que nos foi dado tao logo aparecemos no mundo © que passa a nos designar até o fim de nossas vidas como se féssemos sempre um tinico “eu” ~ € nos apropriamos egoisticamente como autores de um processo sem dono do qual somos 0 efeito ¢ nao a causa. “L' effet c’es moi!" (NIETZSCHE, BM, § 19) ‘Aquela pequena parcela do processo que nos vem a consciéneia ¢ que imaginamos ser a realizagao efetiva da atividade puramente intelectual do pensar, é na verdade a ponta do iceberg, uma série de resultantes parciais de um jogo de forgas incomparavelmente mais extenso. Sao inimeras as passagens em que Nietzsche insiste na superficialidade da consciéncia Mantenho a fenomenalidade também no mundo interior tudo 0 que se nos torna conscientes é, completamente, primeiro preparado, simplificado, ‘squematizado, interpretado ~ 0 proceso real da "percepeio" interna, a unidade causal entre pensamentos, sentimentos, desejos, como aquela entre sujeitoe objet, € completamente oculta para nos -« tlvezseja ‘uma pura iluséo. (..) Entre dois pensamentos entram em jogo todos os afetos possiveis mas os mavimentos so muito répidos, por isso os desconhecemas, os negamos... (NIETZSCHE, NF/FP, 11[113] de novembro de 1887 ~ margo de 1888) ‘A maior parte do pensar ¢ inconsciente - Ieia-se por “inconsciente” toda a dindmica das forcas que participam ativamente em nosso modo de agir, ser € pensar, ou numa palavra, em nosso interpretar. Entre um “pensamento” ¢ outro, esté em jogo uma incrivel multiplicidade de forgas. “Na imensa multiplicidade do acontecer no interior de um organismo, a parte que se nos torna consciente € um mero cantinho" (NIETZSCHE, NF/FP, 11[83] de novembro de 1887 - marco de 1888). “Tudo o que se torna consciente é uma manifestagao final, uma conclusao” (NIETZSCHE, NF/FP, 14[152] da primavera de 1888). Aconsciéncia é superestimada por nds como morada do espirito, como fonte de tudo aquilo que ha de mais elevado, superior, a grande marca distintiva do homem. Vejamos alguns dos “erros monstruosos” enumerados por Nietzsche no que diz respeito a esta “absurda superestimacao da consciéncia! “a partir dela foi feita uma unidade, um ser: ‘0 espirito’, ‘a alma’, algo que sente, pensa, quer"; "a consciéncia como a suprema forma alcangavel, como espécie superior de ser, como ‘Deus"; “o ‘mundo verdadeiro’ como mundo espiritual, como acessivel pelos fatos-de-consciéncia’; “o conhecimento entendido de maneira absoluta como capacidade da conseiéncia, na qual em geral ha conhecimento” (NIETZSCHE, NF/FP, 14[146] da primavera de 1888). No entanto, a consciéncia é apenas uma ferramenta de apropriagao do mundo nossa maneira, ou melhor, de uma maneira que nos seja Util, que aumente nosso poder. Ela € resultado da sofisticago dos meios de percepcdo, agdo € reagdo que constituem um centro de forga. Habitualmente, toma-se a consciéncia mesma como sensorium-gerale instancia superior: todavia, ela € apenas um meio de comunicagaa ela desenvolveu-se nas relagdes ¢ com respeito a interesses de relagées. “Relagdes’ sio aqui entendidas também como as impressdes do mundo extemo ede nossa parte, as reagdes necesirias no caso, (NIETZSCHE, NF/FP, 11{145] de novernbro de 1887 ~ margo de 1888) 0 material consciente esté ainda submetido ao fendmeno da “inversdo cronolégica, de modo que a causa venha & consciéncia mais tarde do que o efeito” (NIETZSCHE, NF/FP, 15{90] da primavera de 1888). Os efeitos nos atingem primeiro - os estimulos, perturbagdes, estados de espirito - posteriormente imaginamos para eles uma causa. Assim organizamos a multiplicidade cadtica de sensagdes numa cadeia de causas imagindrias. "Q’mundo interior’ é cheio de miragens e fogos-fituos” (NIETZSCHE, Cl, VLS 2), afirma Nietzsche. Procuramos na consciéncia "todos os antecedentiade uma ago, suas causas” ¢ julgamos encontrar seus “motivos’. No entanto, © que chamamos de “motivo” é "apenas um fendmeno superficial da consciéncia, um acess6rio do ato, que antes encobre osantecedentiade um ato do que os representa’ (NIETZSCHE, Cl, VI, § 3). Um adorno acrescentado posteriormente ao ato a fim de tornd-lo representavel e explicdvel para és. 0 curioso é que tudo sucede de modo que *o ulterior, a motivagdo, é vivenciado primeiramente’ (NIETZSCHE, Cl, VI, 4) As ideias produzidas por uma certa condigéo foram mal-entendidas ccomo causasdela.(..) A maioria de nossos sentiments gerais~ todo tipo de inibigdo, pressio, tensio, explosio no jogo dos drgaos, assim como, particularmente, 0 estado do nerwus sympathicus~ excita nosso impulso causal: queremos uma razio para nos acharmos assim ou assim ~ para ros acharmos bem ou nos acharmos mal, Nunca nos basta simplesmente constatat 0 fato de que nos achamos assim ou assim: s6 admitimos esse fato — dele nos tornamos conseientes-, a0 the darmos algum tipo de rmotivagio, (NIETZSCHE, Cl, VS 4) As causas que se atribuem ao ato ou a um “estado de espirito” qualquer so necessariamente ficticias. Estas causas imaginarias, armazenadas na meméria vao se encadeando ¢ se arrumando numa narrativa ficticia que tomamos como a “histéria real” de nds mesmos. A meméria, de maneira inconsciente, criavicios, habitos de encadeamentos de causas imaginarias 8 fixadas, caminhos explicativos que tendem a ser novamente percorridos em situagdes futuras: Arecordagao, que nesses casos entra em atividade sem que o sabamos, faz ‘emergi estados anteriores da mesma espécie easinterpretagées causaisa eles ligadas - nda sua causalidade, Sem divida, a crenga de que asideias, (0s concomitantes processos conscientes tenham sido as causas é também trazida a tona pela recordagao, Desse mado nos tomamos habituados @ uma certa interpretagio causal que, na verdad, inibe e até exclu uma 97 Jnvestigagéoda causa. (NIETZSCHE, C,VI.§ 4) Trata-se em cada caso de apropriar-se do desconhecido, traduzindo-o numa linguagem familiar. 0 desconhecido assusta, ameaca, aguca os instintos defensivos, perturba. A maneira propria do homem, enquanto centro de forca, reagir a este estado ameacador é explicar, formular uma narrativa que domine o desconhecido exprimindo-o de uma maneira ja conhecida. Fazer emontar alg desconhecid a algo conheidoalva, tranquil, satisfz ¢, alm disso, proporciona um sentiment de poder. Com o desconhecido Ido perigo, 0 desassossegn a preocupagio ~ noso primeiro instinto€ climinaressesestados penosos Primero princii: alguma explicagio € melhor que nenhuma, (NIETZSCHE, Cl, VI, § 5) Assim, a veracidade, ou mesmo a complexidade ¢ a capacidade de articulagao de explicagdio nao sio levadas em conta, desde que ela sirva para apaziguar, proporcionar uma sensagzio de aumento de poder através da dominagio do desconhecido. Estas narrativas construidas pelo encadeamento de causas ficticias, armazenadas na meméria, acabam se cristalizando e formando habitos, vicios de compreensao, de explicacao ¢, consequentemente, de aco € reagao. Um tipo de eclocagio de causes prepondera cada vez mis concentrastem forma de sistema eenfim aparece eomo dominane to, smplesmente excluindo outrascausas e explicagdes. - 0 banqueiro pensa de imediato no “negécio",o cristo, no “pecado", a garota, em seu amor. (NIETZSCHE, VL, §5) Este fragmento postumo € bastante esclarecedor e sintetiza 0 que acabamos de demonstrat: Tada a experincia interior” descansa sobre ofato de que para um estilo dos centro nervoscsproura-se represents uma causa que rimero ‘enna dconsiénca a eausaachada: quanto a isso, haveros de dizer que ‘sta causa simplesmente nao é adequada 4 causa real, - trata-se de um tatear pelo motivo de “experineas interiors” de outror ~ to é, da mmeméria, A meméria,porém, conserva também os habitos das antges representagBe, isto é, de suas eausaldades edness. de modo que a de todas as causalidades-ficgdes de outrora;(..) [A “experiéncia interior” nos vem consciéncia s6 depois de ter achado ‘uma linguagem que o individuo entende. isto é, uma tradugao de um estado em estados mais conhecidospara ele entender" quer dizer, simples e ingenuamente: poder exprimir algo novo na linguagem de algo antigo, conhecido (NIETZSCHE, NFIFP, 15{90] da primavera de 1888) 0 mesmo principio que atua na produgdo das causas imaginérias atua também em nosso processo de percepedo. Todo o aparelho sensorial ¢ intelectual do humano trabalha simplificando, organizando, impondo formas, ordenando 0 mundo a sua maneira. Cristalizando em unidades simples - coisas, entes, sujeitos, objetos - as complexidades de forcas configuradas. Reduzindo 0 desconhecido ao familiar, produzimos os principios lagicos de identidade c lidamos com 0 mundo como se este fosse composto por “coisas”, “entes’, “niicleos” fixos “em si" que estabelecem relagdes uns com os outros, sem nos darmos conta de que s6 0 que ha sio as relagdes entre forgas e que estas supostas unidades ja so configuracdes resultantes destas relagdes. Esta € nossa forma propria de apropriagao ¢ dominagao do mundo. Sao inémeras as passagens das obras de Nietzsche que insistem nesta hipdtese. Encontramos uma bem ilustrativa em Além do bem e do Mal: Para o nosso olho & mais cémodo, nunta dada ocasiéo, reproduzic uma imagem com frequéncia jé produzida, do que fixar 0 que ha de novo ¢ diferente numa impressio.(.) Ouvir algo novo é dificil e penoso para 0 ‘ouvido; ouvimos mal a misica estranha. Quando ouvimos uma lingua ‘strangeira,tentamos involuntariamente modelar ossons em palavras que soem familiares e préximas.(..} Também os nossos sentidos sio hostis e relutantes para com o novo; ej nos processos mais simples” da sensuaidade predominam afetos como o medo, amor e édio, sem esquecer os afetos passivas da indoléncia,— Assim como atualmente um litor néoIé todas as palavras (e muito menos as sitabas) de uma pagina - em vinte palavras ele ‘scolhe umas cinco 20 acaso, “adivinhando" o sentido que provavelmente Ines corresponde -, tampouco enxergamos uma arvore de modo exato € completo, com seus galhos folhas, core figura; € bem mais facil para nés imaginar aproximadamente uma drvore, (NIETZSCHE, BM, § 182} Sao inumeros também os fragmentos postumos a este respeito: “Nao ‘eonhecer’, mas sim esquematizar, impor ao caos tanta regularidade e formas quantas sejam suficientes 4 nossa necessidade pratica” (NIETZSCHE, NF/FP, 14[152] da primavera de 1888); Ha uma coercio de preparar para nés um mundo no qual nassaexisténciase ‘tome possivel -criamos com isso um mundo que é computavel,simplificado, inteligivel etc, para ns, kssa mesma coergio existe na atividade dos sentidos que sustenta 0 entendimento ~ esse simplificar, tomar grossero, sublinhar e inventar sobre 0 qual repousa todo “reconhecer', todo poder tornar para si compreensivel, Nossas necessidades precisaram de tal modo os nossos sentidos que “o mesmo mundo fenomenico” sempre retorna, 0 qual, com isso, recebeu a aparéncia de realdade (..) Fomos nés que criamos a “coisa”, a “coisa igual”, o sujeito, a predicado, o fazer, 0 objeto, a substancia, a forma, depois de termos empreendido durante muito tempo 0 equalizaz, 0 tornar grosseiro e simplificado. (NIETZSCHE, NFIFP, 9[144] do outono de 1887) Nosso “aparetho de conhecimento", ou seja, nosso cérebro, nossos sentidos, a consciéncia, ndo foram feitos para “conhecer”. Desenvolveram-se através da complexificacao dos mecanismos de acumulacdo e expansao de poder de um determinado tipo de centro de forca. "Todos os nossos érgaos € sentidos do conhecimento sé se desenvolvem com referéncia as condicdes de conservagdo e crescimento’. (NIETZSCHE, NF/FP, 9[38] do outono de 1887). Nao servem, portanto, para “conhecer” 0 mundo tal como ele é, conforme estamos acostumados a pensar, mas sim para interpretar, apropriar, dominar, criando para nés um mundo. "Nosso aparato de conhecimento ndo é disposto para ‘conhecimento™ (NIETZSCHE, NF/FP, 26[127] do verdo-outono de 1884). “Todo 0 aparelho do conhecimento é um aparelho de abstragdo e simplificacdo - nao voltado para 0 conhecimento, mas sim para o apoderar-sedas coisas.” (NIETZSCHE, NF/FP, 26[61] do verdo-outono de 1884). sso problematiza definitivamente a suposta "vontade de verdade” dos “sabios insignes" citados por Zaratustra. Nossa "vontade de conhecer” ndo passaria de uma manifestagdo da vontade de poder. "0 sentido de verdade'’ (..) legitima-se como meio para a conservacdo do homem, como vontade de poder" (NIETZSCHE, NF/FP, 25470] da primavera de 1884) Nao ha, portanto, em nés, nenhuma necessidade de buscar a verdade. A verdad nao é um fim legitimo por si mesmo, como estamos acostumados a pensar. Nem muito menos ¢ um fim atingivel. Verdade é uma falsificagdo til do mundo, um meio para a expansdo de poder. "O criterio da verdade esta no incremento do sentimento de poder" (NIETZSCHE, NF/FP, 34[264] KGW VII 4/2, p. 71). "A ‘vontade de verdade’, portanto, 6 seria examinavel psicologicamente: ela ndo é nenhum poder moral, mas sim uma forma da vontade de poder” (NIETZSCHE, NF/FP,14[103] da primavera de 1888). Cada forga - nao esquecendo que a forca ja é efeito de uma multiplicidade -, atuando sobre todas outras, resiste também a pressao que todas as outras exercem sobre ela. Intrinsecamente impulsionadas pela vontade de poder, as forgas guerreiam entre si estabelecem relagdes muituas de dominagao, articulam-se, entrelagam-se em rede formando diversos tipos de arranjos e configuragdes de forcas. Este processo conflituoso de articulacdo das forcas em rede € 0 proprio processo de constituigao do mundo, é o que determina a dinamica propria do acontecer, ¢ é também © processo de interpretagao. Conhecer e pensar enquanto interpretar, correspondem, portanto, & propria dinamica da rede de forgas. Como todas, as forgas querem expandir seu poder ao maximo, cada uma encontra nas aspiragées das outras os limites das suas proprias. Assim, cada centro de forca vai até o limite em cada instante. Nao havendo distancia entre a forca e sua efetivacao, cada centro de forga atinge efetivamente, em cada instante, o maximo de poder possivel. E como se houvesse um eéleulo do maximo de poder possivel a cada instante que determina até que ponto um centro de forga vai. Como nao ha um ser por tras do agit, este cdlculo que determina o agir de um centro de forca, determina também, a cada vez, ¢ sempre a posteriori, seu ser, 0 que ele & E este mesmo calculo é uma espécie de inteligéncia intrinseca da rede de forcas, uma forma de pensar, de conhecer enquanto interpretar, enquanto modo especifico de agdo e reagdo a partir de um centro de forga. S6 que este modo especifico de agir ¢ reagir € o que efetivamente determina o que um centro de forga é. Nao hd, portanto, qualquer distancia entre ser € agir, nem entre ser € pensar ou conhecer enquanto interpretar Tudo se resume a dindmica propria de articulagdo da rede de forcas intrinsecamente impulsionadas pela vontade de poder, que € tudo o que ha Bibliografia CASANOVA, M. A. Interpretagao enquanto principio de constituigao de mundo. \n: cadernos Nietzsche 10, p. 27-47, 2001 DESCARTES, R. Meditacdes Metatisicas (Colecao Os Pensadores). Trad Enrico Corvisieri. S40 Paulo: Nova Cultural, 2000 FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicandlise. Obras completas (XVII) Rio de Janeiro: Imago, 1987 KANT, |. Critica da Razdo Pura (Colegdo Os Pensadores). Trad: Valério Rohden. Sao Paulo: Abril Cultural, 1974 MONTEBELLO, Pierre. Nietzsche. La volonté de puissance. Paris: PUF, 2001 NIETZSCHE, F, Samtliche Werke. Kritische Studienausgabe Organizada por Giogio Colli e Mazzino Montinari. Berlin, New York: Walter de Gruyter, 1967-77. Edigdo francesa: Oeuvres Philosophiques Completes. Ecrits Posthumes. (Tomes | ~ XIV). Paris: Editions Gallimard, 1977. (NF/FP) . Além do Bem e do Mal. Trad: Paulo César de Souza. Sao Paulo: Cia das Letras, 2005 (BM) A Genealogia da Moral. Trad: Paulo César de Souza. Sao Paulo: Cia Das Letras, 2009 (6M) . Creptisculo dos Idolos. Trad: Paulo César de Souza. Sao Paulo: Cia das Letras, 2006 (Cl) . Assim falava Zaratustra. Trad: Ciro Mioranza. S40 Paulo: Escala, s/d (ZA) ‘Artigo recebido em 13/08/2015 Artigo aceito em 15/09/2015