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CO SENTIDO DA SAUDE, ANTROPOLOGIA DAS POLITICAS DE vipa." DIDIER FASSIN, Antropdlogo e médico, Professor da Universidade de Paris 13 € Diretor de Estudos na Ecole des Hautes Etudes em Science Sociales, Diretor do IRIS. INTRODUCAO: A antropologia médica’ veio a constituir um espago académico ¢ cientifico que foi se caracterizando, ao longo das duas ultimas décadas, por um duplo movimento: de um lado através da diferenciac3o em miltiplos dominios particulares, como a das chamadas éreas de “etnomedicina” e “etnofarmacologia” até os dominios de conhecimento e pesquisa como as antropologias do corpo, da doenca e do sofrimento. Por outro lado, a apropriacdo e discussao com as grandes questdes da antropologia, transformaram a pretenséo inicial de construir um ‘campo como se fosse uma especialidade auténoma (“antropologia médica”) que de bom grado acabaria por um dominio vulnerdvel medicalizago. O quadro que se desenharia da érea particularmente na Franga, aparece de forma em que se destaca a diversidade tanto das pesquisas de campo como dos seus objetos @ que vem cada vez mais incorporando-a 30 campo propriamente da antropologia enquanto rea disciplinar. Serd a partir do terreno da antropologia da satide que discorreremos nesse texto. Se as problematicas através das quais ele foi construido abordam as dimens6es inéditas do que continuamos a denominar, por conveniéncia, antropologia médica, essas mesmas questdes vem se juntar ou renovar certas interrogagSes que sio feitas, de um modo mais geral, pelos antropélogos que tratam de questdes de ordem politica e moral. Mais do que discorrer sobre ‘um “estado da arte” desse campo nascente, nos esforgaremos em mostrar as linhas de forca, apoiando-nos sobre 0s pressupostos franceses e tracando relagGes com outros cenarios » Compreenderemos assim que para além do campo da saide estaremos compartilanda de uma “antropologia das politicas da vida”, * Capitulo publicado na coleténea coordenada por Francine Saillant e Serge Genest, Anthropologie médicale. Ancrages locaUx, défis globaux. Capitulo 14, pp.383-399. Québec: Les Presses de Université Laval Paris: Anthropos, 2005, 467pp. Collection Societés, cultures et santé. Tradugdo de Rubens de CF Adorno. 20 termo “antropologia médica” & mais comumente utiizado no contexto americano, no Brasil © na ‘América Latina utiliza-se 0 termo antropologia da sade. O autor também destaca a existéncia de uma “aproximagio" demasiada da antropologia médica norte-americana & medicina, Incicando que “enide” como no caso francés acabaria por ser um dos objetos da propria antropologia contempordnea. ( Nota do tradutor) S Gatos do tradutor: “antropologia das politicas da vida" parece ser o termo que 0 autor defender no texto, Cabe destacar que a antropologia, no interior das ciéncias socials corresponde 8 discipline ave teve no decorrer do Sua histéria a discussdo dos “limites” do humano, ou da sua abrangéncia, assim Como coube 8 biologia cldssica 0 trabalho de classificar espécies vivas, a antropologia cléssica trabalhava fom sistemas classificatérios dos diferentes grupos/sociedades humanas. Contemporaneamente 2 Snropologla considera que s6 se pode definir 0 humano a partir de sua diversidade, e da riquera de Sentidos e signficados que repousam nas diferentes socledades e grupos humanos, interbretar esses significados e compreender essa diversidade é a tarefa dos estudos antropolégicos que se desenvolven serartr da etnograia, A compreensSo antropoldgica exige um estranhamento e ums posiglo de Glteridade em relagdo a sujeltos e objetos, assim como em relacdo as praticas humanas. ‘A SAUDE, ENTRE UM REALISMO E UM CONSTRUTIVISMO. A representacio do senso comum olha para o a salide como um simples dado ou estado da natureza, sobre essa concepsio Georges Canguilhem (1966) J4 demonstrou sua limitagdo. A inscrigdo da satide sobre 0 corpo, que a torna visivel em contraste com a doenga Su, de modo mais discutivel, através do bem-estar, parece levar quase que para a evidéncia Ge entendermos salide a partir de um substrato material cua responsabilidade « de drgaose Benes. Essa evidencia encontra-se reforcada pelo desenvolvimento de profissées e instituigdes Rit @ Parti de um duplo jogo envolvendo a producao e a legitimacao de saberes, dispde de lume forte autoridade na definico de seus limites. Se afirmarmos que a tuberculose, a AIDS ou 2 encefalopatia espongitorme bovina séo problemas de saude, cada um aparece como consequéncia de bactérias, virus, priées que se transmitem, infecgBes que se desenvoivem e Goentes que sofrem. Se falarmos da mesma maneira sobre consumo de Alcool e drogas, a Wiolencla contra a crianga ou as desordens pés-traumticas, nada parece colocar em diivida Ser a cau# 08 efeitos fisicos ou psiquicos deletérios da dependéncia ou da violéncis A visio de saude que se impSe de maneira ordinria, para o agente saniterio como para o Paciente, para a decislo politica como para o cidadéo, é fundamentalmente uma visio naturalsta ~ mais ainda biomédica como acreditamos quase sempre ~ que es estatisticas de morbidade e de mortalidade vem por finalmente objetivar ( Dozon e Fassin 2001 }.0 ntimero de pessoas doentes ou que vo a dbito atestaria a verdade sobre o problema de satide a partir do qual os poderes puiblicos e a sociedade deveriam todos eles se Conscientizar para lutar por uma methoria. Seriam as coisas assim to simples? Contra o senso comum, a antropologia politica Propée um duplo foco de andlise. A primeira é construtivista; ela mostra como aquilo a que chamamos de saiide € resultado do trabalho individual e coletivo dos agentes a partir de modelos imagens, considerando confltos controvérsias, mobilizando aliancas e desenvolvendo estratégias. A segunda é realista: ela analisa como os fatox atribuidos a uma natureza séo também produtos de estruturas e de agenciamentos, de niveis de diferenga e Processos de desigualdade, da aco piiblica e de iniciativas privadas que tem Por efeito Prevenir ou acelerar a caréncia ou o sofrimento. A satide seria, portanto ao mesmo tempo uma construcSo social, no sentido em que RGN aBentes se traduzam numa linguagem de satide/doenca, e uma produgio da sociedade Las vez que @ “ordem do mundo” se inscreve sobre os corpos. Podemos, portanto, de um lado falar de uma “sanitarizagio do social" e de outro lado, de uma politizagao da saude ( Fassin, 1998). Os dois movimentos operam de maneira dialética, els um ponto essencial De fato, a IMeratura das ciéncias sociais acerca da sauide por vezes adotou, de forme exclusiva ou de forma mais geral, uma ou outra dessas perspectivas:seja a direc tomada por Peter Berger e Thomas Luckman ( 1966) , descrevendo como se constraem os objetos da satide, tais como a ———_ rifo nosso, do tradutor. Os termos utiizados pelo autor nesse pardgrafo s8o fundamentals para a relmeensko do texto : © significado de *sanitarizagio” do social, ou seja questoee que remetem as {lardes socials, desigualdades, herangas histéricas e culturals da soviedade, ete passam a ser “sanitarzades” ou “medicaizadas", o que significa a necessidade de um movimente ccontrério, ou uma andlise ¢ interpretacdo no sentido da “politizacao da sauide" Violéncia contra a crianga ou 0 traumatismo psiquico ( Hacking, 1995,1999) ; seja 2 linha de Merill Singer e Hans Baer ( 1995) como porta vores, que defendem a incidéncia das condigées sécio-econdmicas na produggo da doenca, para destacar as disparidades e as violencias que se svanifestam sobre os corpos ( Farmer, 1992,1999), Na abordagem que defendemos aqui, os dois processos se mesclam e as duas lelturas se inflexionam, ou se informam mutuamente, Tomemos 0 caso do saturnismo infantil na Franga, partindo desse fato: em 1981, uma revisio de todos os casos de intoxicago por chumbo entre as criangas francesas “encontra 10 relatos publicados durante os 25 anos precedentes. Os autores desses trabalhos, pediatras e toxicologistas de Lyon, constatam que, 20 contrario dos Estados Unidos onde essa afecrio “selvagem” grassava de maneira preocupante, 2 Franca parece ter sido poupada Em 3999, uma pericia nacional realizada do Instituto de saiide © pesquisa médica (Inserm) , apoiando-se nos diversos levantamentos epidemiotégicos, conclui que haveria uma populago