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XV ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DO NORTE E NORDESTE e PRÉ

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ALAS BRASIL, 04 a 07 de setembro de 2012, UFPI, Teresina-PI.

GT04 – Educação, Cultura e Sociedade.

O Elo Possível: Redes Como Elemento Explicativo da Relação Contexto Social
-Trajetória Escolar.

Diogo Reyes da Costa Silva

UFBA

paradoxo@gmail.com

a literatura acerca da desigualdade sócio-espacial demonstra que o contexto influencia diretamente as redes sociais dos atores. Enquanto aquela referente às desigualdades educacionais indica a forte relação entre as redes e o processo de escolarização. considerando o território como um elemento importante do contexto social foi possível constatar que. ou “como” se dá essa dinâmica. que atestam a importância da origem social. Apesar disso. seja através de métodos qualitativos ou quantitativos. por um lado. atestam a importância do contexto social para tal desenvolvimento. A idéia para esse artigo surgiu durante uma pesquisa para a dissertação de mestrado. Cuja abordagem um tanto inovadora colocou em diálogo correntes das sociologias da educação e urbana. essa relação não necessita de demonstração. um “como” chamado de “caixa-preta” da educação. O ponto de partida para tal empreitada foi o território enquanto elemento que materializa a posição social dos indivíduos e grupos. Assim. pois nas últimas décadas muitas teorias e pesquisas. Concentrando nas avaliações positivas de uma escola . Atualmente. uma relação apontada por muitas teorias e pesquisas. Introdução: O objetivo do presente trabalho consiste em elaborar acerca de elementos analíticos na investigação da influência do contexto social sobre a trajetória educativa dos indivíduos. o artigo elabora tal ponto de encontro como uma possibilidade de mecanismo explicativo na investigação da dinâmica educacional. formas e características são pouco investigados. Ao pesquisar essa questão.Resumo: Esse trabalho apresenta uma elaboração acerca de elementos analíticos na investigação da influência do contexto social sobre a trajetória educativa. Entretanto. seus mecanismos. o que muitas vezes é chamado na literatura de “caixa-preta” da educação. as formas e características do processo. permanecem relativamente obscuros os seus mecanismos.

incluindo ai as das famílias. Correlacionando os resultados escolares e o contexto urbano. foi possível chegar à elaboração de que as redes sociais envolvidas. os estudos das desigualdades urbanas apontam como uma das mais importantes influências do contexto territorial sobre vida das pessoas. a que se dá sobre as redes sociais de seus habitantes (de tal forma a compor um dos elementos definidores da situação de desigualdade). se mostraram de grande importância no fenômeno estudado. e nesse caso foi possível constatar que as redes formadas na comunidade. realizam-se pesquisas que buscam conjugar fatores relacionados à organização social do território e seus possíveis efeitos sobre as oportunidades educacionais. Neste cenário interessa especialmente compreender os impactos dos contextos sociais e processos de concentração da pobreza em áreas específicas e pouco assistidas. e por isso mesmo um aspecto interessante a ser analisado quando investigando a influência da origem social sobre a conquista da educação. escola e comunidade em geral. por um lado. Dessa forma complexificando a discussão sobre o tema da produção e reprodução das desigualdades sociais e escolares. para compreender esse processo de transmissão que se . se apresentam como um elemento importante nessa dinâmica de transmissão. Ao juntar essa cadeia conceitual. especialmente nas grandes cidades. a literatura acerca das desigualdades educacionais tradicionalmente indica a extensão e conteúdo das redes de relações sociais envolvidas (especialmente relativas às famílias) como de extrema importância em todos os níveis do processo. Por outro. mas principalmente ao redor da escola. 2008). Ao realizar uma ampla pesquisa bibliográfica nas duas linhas de investigação. sobre a trajetória escolar de seus moradores.pública. na medida em que se incorpora a importância do fator espacial/territorial (Ribeiro e Koslinski. Nesta recente nicho de pesquisa. E dessa forma podemos utilizar a noção de redes sociais com um elemento explicativo. foi possível constatar que. como Gorard e Taylor (2001) e Ainsworth (2002).

a condição social e o território de pertencimento se influenciam mutuamente e tem efeitos diretos e indiretos sobre a trajetória de vida dos indivíduos. 1997. reforça. Como é aceito amplamente na sociologia urbana. e por isso.1. de maneira a reproduzir as vantagens e desvantagens sociais (Bourdieu. Pois as pessoas não estão distribuídas aleatoriamente sobre os bairros e vizinhanças. continuando com as oportunidades educacionais. Ocupando o lugar de um desses mecanismos ocultos na referida “caixa preta”1. as crianças de famílias que vivem em áreas geográficas de pobreza concentrada. Wilson (1987). Apesar da discussão geral ser mais antiga. 1. maiores taxas de desemprego e também na maior dificuldade para obter conquistas educacionais elevadas. intrincando o local de 1 Sem dúvida existem diversos mecanismos que compõe essa influencia. 2008). as práticas. têm menos possibilidades de terem uma educação de qualidade. O isolamento – de recursos. a específica se consolida a partir do trabalho seminal de William J. Entre essas estão às educacionais. Assim. a proposta desse trabalho é centrar-se no que parece ser um deles. de oportunidades e redes sociais dominantes– resulta na vulnerabilidade social dos habitantes dos bairros segregados. Em adição. Território e trajetória de vida. a distribuição desigual da população no espaço urbano repercute em desenvolvimentos diferentes no aproveitamento de diversas oportunidades. as crenças e os hábitos de cada uma. que formam de maneira diferente. 2001. . Flores. acarretando o acirramento da desigualdade social. mas os habitam de acordo com situações prévias de desigualdade e como resultado de características e processos sociais diversos (alguns observáveis.dá do contexto para a escolarização. o isolamento social que leva à segregação espacial das classes sociais. outros não). onde o autor enfatizou o quanto a concentração e isolamento das populações pobres em determinados espaços das cidades exercem uma forte influência sobre a vida desses indivíduos e sobre os ciclos de reprodução da pobreza. legitima e perpetua a distância entre habitus particulares de cada classe. Small e Newman.

considerando que a posse de capitais é essencial na definição na posição social dos agentes. Estes. que por sua vez determina uma posição de classe e de apropriação do espaço. capital cultural e capital social dos indivíduos são de tal forma importante na nossa sociedade que sua correlação determina e é determinada ciclicamente. chegamos ao ponto fundamental de que a apropriação do espaço se dá de acordo com as possibilidades oferecidas pelo acúmulo das diversas formas de capital. à qualidade das instituições e recursos disponíveis e a quantidade de capital social nas redes existentes na região de moradia. ver Small e Newman (2001) e Flores (2008). As propriedades selecionadas para construir esse espaço têm caráter ativo e podem também serem entendidas como o conjunto de relações objetivas de poder que afetam todos que adentram o campo e não são diretamente submetidas às vontades individuais dos agentes. Esses mecanismos se ajustam às características. pela a posição social de indivíduos e grupos. assim sendo significativamente influenciados pelo contexto 2- Para uma revisão desta literatura. são definidos por sua posição relativa na estrutura da sociedade. por sua vez. . resultando em teorias que descrevem como o contexto exerce sobre o indivíduo uma influência que se concretiza através de certos mecanismos que cumprem um papel socializador fundamental. Segundo o autor (1985 e 1992) o acúmulo de capital econômico. Small 2004)2. concentrando suas frações em áreas especificas de acordo com essas possibilidades. Dessa forma.moradia com a trajetória social dos indivíduos e grupos (Bourdieu. Na obra de Bourdieu(2006)temos uma elaboração fundamental para a investigação dessa dinâmica. As frações de classe então se apresentam concentradas em espaços relativamente homogêneos em termos desses capitais e essa apropriação se encaixa na dinâmica de reprodução social como estruturado e estruturante. como tem grande influência sobre ela. pois não só forma parte da trajetória de vida dos indivíduos e grupos. o que ele chama de “espaço social”.1997. Muitos dos trabalhos com essa perspectiva abordam então a relação entre território e a posição social.

capital social e características institucionais. o capital cultural e capital social ver a formulação de Bourdieu (Bourdieu. Isto porque. controle social. para essas populações.4 3 . críticos na definição da condição de pobreza. Ainsworth (2002).de sua localidade. “Trata-se de buscar explicar determinado desfecho social em função da relação de causalidade entre o indivíduo.1999) 4 .3 Assim. mas também como uma exclusão social da posse de determinados capitais não materiais. como Wilson (1987). para os grupos submetidos a um contexto de pobreza e segregação. . Uma concepção de “efeito vizinhança” ou “efeito bairro” que se funda na hipótese da relação de causalidade e entre certos resultados e o contexto social (e sócio-espacial) onde estão inseridos. 2008).” (Idem).Para compreender a correlação de acumulação e conversibilidade entre o capital econômico. Essas formulações partem da idéia de que o local de moradia tem efeito sobre a trajetória de vida dos indivíduos.suas motivações. Assim. segmentação do mercado de trabalho e dificuldade de acesso ao capital cultural dominante (Ribeiro.e os contextos sociais decorrentes da concentração residencial de pessoas com certas propriedades comuns ou semelhantes.Os mesmos mecanismos são apontados por outros autores. 2001). e são elas: Socialização coletiva. 2005). a segregação se caracteriza não apenas pela diferenciação de localização. existe uma tendência de superposição da segregação residencial. Enfim. ao revisar pesquisas feitas sobre o tema. que possibilitariam articulações para fora do ciclo vicioso de reprodução das desigualdades (Small e Newman. comportamentos e situação social. escolhas. o contexto de pobreza tem sido caracterizado pela dificuldade simbólica para tecer laços externos às suas realidades sócio-espaciais. o que alguns chamam de “efeito bairro” (Alves. Franco e Ribeiro. dificultando a apropriação das formas de capital dominante. 1985 e Portes. aponta que é no âmbito da comunidade onde se expressam as expectativas educacionais e de trabalho. O autor descreve os principais mecanismos através dos quais a desigualdade social afeta as conquistas educacionais. acontecem via território.

O autor. tais debates se associaram ao tema da pobreza. o capital social (Kaztman. uma das formas que esse isolamento afeta a trajetória de vida dos indivíduos e grupos é através de sua influência nos diferentes âmbitos de sua socialização. . e é objeto de investigação até a atualidade quando ganha novo fôlego (Marques. A discussão acerca as redes sociais é antiga na produção acadêmica de ciências sociais. Dentre essas novas gerações. dentro de uma dinâmica que ele denomina de a “ecologia dos recursos em bairros pobres”. como Simmel. sua ligação com o espaço geográfico e social. 1999). sendo o mesmo um atributo do tipo indivíduo-contexto. Dessa forma.2-Território e redes sociais. Assim. Kaztman (1999) salienta mais o acesso a recursos. Portes. 1999. aponta que é comum a muitos estudos. 2004. que já apontava um dos resultados mais significativos de viver sob essa condição sócio-espacial como o seu efeito sobre as redes de socialização e modelos de comportamento dos indivíduos e grupos. oportunidades e possibilidade de integração social. e com isso os próprios benefícios e suportes potencialmente disponíveis nessas redes de relação. tratar das redes é interessante contar com sua relação com o território. permitindo a essa discussão incorporar em sua análise conjuntamente elementos mais gerais correspondentes a estrutura social e a ação e sociabilidade cotidiana dos indivíduos (Idem). e que ele mesmo também entende os processos do capital social vinculados ao local de residência e suas características. Small. a variedade de relações sociais vividas por esses atores é afetada diretamente por essa dinâmica sócio-espacial. A preocupação já se fazia presente na obra de clássicos da sociologia.1. um mecanismo da conexão entre os atores e a estrutura. considerando o vinculo da pobreza como a espacialidade. como desde o princípio da teoria do isolamento social proposta por Wilson (1984). Segundo essa linha de pensamento. Dinâmica muitas vezes apontada pelos estudos e formulações acerca do tema. 2009). ao fazer um extenso levantamento bibliográfico sobre o tema.

Apud: Flores. Galster e Killen. Defendendo que as normas dominantes do grupo. O autor considera . os padrões de conduta e as trajetórias de vida esperadas para as crianças e jovens variam segundo o contexto. que contribuem para um ciclo de menores conquistas educacionais e de trabalho.) que são muitas vezes vinculadas ao contexto da moradia (Jencks e Mayer. essa informação se origina. 1995. na medida em que proporcionam informação e estabelecem os parâmetros para a avaliação de tal informação. vizinhos. os quais o autor não considera excludentes entre si. Concordando com essas teorias onde as redes locais também têm um papel fundamental na socialização dos indivíduos. amigos. entre outros recursos. Ainsworth (2002) faz uma revisão da literatura. nas últimas décadas muitas hipóteses interessantes para essa questão tem despontado. e em seu trabalho (onde ele também cita outros estudos acerca dos efeitos do contexto de moradia nas redes de relação) defende que é possível de forma geral identificar dois principais modelos de como a pobreza da vizinhança/bairro produz esse efeito. Tratando do efeito sobre a escolarização. instituições locais formais como clubes. Cutler e Glaeser. das redes sociais locais (família. onde os modelos de sociabilidade explicam como o ambiente do bairro socializa os indivíduos. 1997. grupo de semelhantes. organizações religiosas etc. alguns argumentaram que as vizinhanças empobrecidas resultariam em maior isolamento social. são eles: Mecanismos de socialização: Que descrevem como os bairros socializam aqueles que crescem neles. Dentro dessa perspectiva. 1987. 2008). principalmente. Dentre eles destaca o capital social contido nas redes sociais locais. sistematizando e descrevendo alguns desses mecanismos que transmitem as características do território para trajetória dos atores. Fernandez e Harris. e a partir deste também varia o tipo e qualidade de informação à qual os indivíduos têm acesso. Apud: Small. Small (2004) se debruça sobre essa questão. 1992. alguns trabalhos apresentam uma perspectiva sociológica semelhante. 2004). Segundo esses autores. 1990. os valores. associações. como aqueles providos pelas redes sociais (Wilson. Mecanismos instrumentais: Que descrevem como a agencia individual é limitada pelas condições do território (Idem).

trabalho protegido. atua através do impacto nas oportunidades e recursos em determinado território. E que essas tendem também a ser menores e a ter sociabilidade e recursos pouco variados. oportunidades de trabalho. Nessa perspectiva. mas também que são menos beneficiárias por resultado da posição social dos seus membros e contatos (Idem). oportunidades educacionais. positiva na medida em que for mais heterogêneo e assim maior variedade de recursos possuírem. quanto de socialização. descrevendo que a relação entre território e redes indicou que os indivíduos pobres têm suas relações marcadas por localismo. auxílios educativos.1999). entre outros. ou que podem disponibilizar recursos importantes. que a relação entre o território e as redes sociais é definitiva. 1999 e Putnam. precariedade social e renda. que sofrem a desvantagem de não apenas redes menos extensas. uma influência que não é automática. nem de via única. Podemos pensar então. Outros autores também defendem que o capital social disponível nas redes da comunidade contextualiza alguns dos mecanismos de socialização no território. Alguns ainda dão ênfase em como certos aspectos centrais que ligam as redes ao território estão relacionados à sua composição social.que indivíduos que vivem em bairros não marcados pela desvantagem social têm mais chances de ser expostos a redes sociais proveitosas. 2008. como o trabalho. e assim tornam-se ainda mais importantes em situações de isolamento sócio espacial (Kaztman. Kaztman. mas que ainda assim existem fatores intermediários e condicionais para seus resultados. O inverso acontece para populações em contextos territoriais de pobreza. e que essas diferenças têm consequências em termos de acesso vários benefícios.1999 e Putnam. informação. . Ainda assim. elementos dos mecanismos de socialização citados acima (Flores. Segundo eles essa capitalização explica e mantém a eficácia coletiva. Exercendo influência tanto nos mecanismos instrumentais. o papel de supervisão e o compromisso ativo dos adultos da comunidade com o controle e com a educação das crianças e jovens. Em um excelente e abrangente trabalho empírico de investigação de redes Marques (2009) confirma essas elaborações. 1999). aponta que as redes também variam dentro de cada grupo.

Na sociologia da educação as investigações sobre os efeitos da origem social no processo educativo e igualdades de oportunidades educacionais como forma de garantir maior igualdade social vem já a partir da II Guerra Mundial.E.1995:22) . 2009). Consistindo numa importante análise de fluxos. 2004). De tal forma que decorrer dos anos 1960-70. utilizando na maioria das vezes uma metodologia de análise que partia do acompanhamento longitudinal (e em grande escala) de coortes de alunos.Contexto social e trajetória escolar: A caixa preta.1 . 2. Afetando a crença de que a expansão do sistema de ensino e facilitação ao acesso (bem como a difusão de ideais “meritocráticos”) seriam elementos suficientes para uma real democratização da educação. Nesse momento as investigações se voltavam somente para as macrorrelações entre o sistema escolar e a origem social. original de 1970) que descrevem como os arbítrios 5 . mas que deixavam de considerar a dimensão individual das biografias escolares (Nogueira.C. de forma a influenciar e moldar nas suas diferentes escalas e campos de construção. mesmo variando em termos de amostras e metodologias. entre outras. os estudiosos passaram a se interessar pelas relações entre os percursos dos indivíduos no âmbito do sistema de ensino e seu meio social. com o objetivo de observar a distribuição das oportunidades escolares.N. impulsionados pela difusão de valores igualitários e pelos crescentes conflitos sociais do período (Ribeiro e Koslinski. . Nessa perspectiva é importante para o trabalho.D.E. relatório Coleman.Mas uma relação fundamental e não arbitrária. surgem muitas pesquisas importantes que. Tais estudos foram importantes inclusive para posteriores pesquisas que procuravam propostas mais “explicativas” para esses fenômenos (Idem).Como as pesquisas feitas por institutos como o I.D e o O. Nessa primeira geração. a análise de Bourdieu e Passeron (2008. apresentam em comum o estabelecimento da desigualdade de acesso a educação entre os distintos grupos sociais como um “fato estatístico maciçamente irrecusável” 5 (Forquin.

a educação é apropriada de forma desigual pelos grupos em condições desiguais de poder e posse de outras formas de capital. Assim. Ou seja. porque se interessa pelas histórias de vida de indivíduos concretos e pelos processos objetiva e subjetivamente vividos e interpretados por eles. e por sua vez se empenharam na tarefa de determinar quais fatores escolares poderiam levar a um maior ou menor desempenho escolar. o “insignificante estatístico” vai tornar-se “sociologicamente significativo” (Baudelot. Nogueira e Nogueira. diferente das camadas populares (Bourdieu e Passeron. uma geração posterior visou à abertura da “caixa preta” das escolas. Mas principalmente por sua origem social. Tais pesquisas defendiam o lema de que a “escola faz diferença” e que podia exercer efeito sobre as oportunidades educacionais. Autores destacam o fundamento pragmático dessa linha. em suma. porque desenvolve um interesse sociológico pela diversidade (mesmo que relativa) dos destinos e das práticas escolares no interior de um mesmo meio social. quaisquer características biológica ou psicológica individuais. inesperadas. somente a partir da década de 1980 que se viu emergir um novo enfoque que se afasta duplamente da generalidade do primeiro modelo. Por outro. que tinham como objetivo disponibilizar elementos para auxiliar políticas educacionais a alcançarem maior eficácia e eqüidade de resultados (Ribeiro e Koslinski. Mais do que isso. aquelas que fogem às regularidades estatísticas que haviam sido descobertas nos anos de 1950/60. 1999. Ainda assim. Assim. já que representa para as classes superiores algo extremamente familiar e próximo. que os colocaria em condições mais ou menos favoráveis diante das exigências escolares. 2008. a partir da década de 1990. Apud: Nogueira. é importante a . de acordo as possibilidades e capitais especificas. surge uma nova abordagem inaugurada por pesquisadores que se interessam pelas trajetórias atípicas. De certa forma em resposta a estes estudos. 2004). Nessa dinâmica. 2002). o grau variado de sucesso alcançado pelos alunos em suas trajetórias escolares não poderia ser somente explicado por seus dons pessoais. Por um lado. excepcionais. 2009).pedagógicos são recebidos pelas diferentes classes (ou frações).

que em sua . Assim. como um núcleo de “laços fortes”. Nesse aspecto Coleman (1990) aparece como um dos seus clássicos defensores. ao se conectar com os elementos materiais e imateriais disponíveis para esses núcleos familiares. de tal forma que todos os desenvolvedores “clássicos” sublinharam esta relação. ajudando a prevenir e superar dificuldades e. O que. 2002). principalmente o abandono escolar. O autor aponta essa relação como fundamental. e concorda com uma grande parte da literatura que argumenta especialmente sobre as dificuldades de se viver em áreas em que se tem déficit dessa forma de capitalização. bem como mediando acesso a recursos e ativos. relacionada ao que alguns autores chamam de fator “atitude”. tem influência direta na conformação das práticas.relação de participação da família na educação dos filhos.1-Redes sociais e trajetória educacional: De fato a noção do capital presente nas redes está desde suas primeiras formulações. vinculada ao estudo da educação e seus processos. 1997 ou no Brasil Viana. Outro aspecto interessante é exatamente apontar que o as redes exercem um benefício facilitador sobre o engajamento e intervenção dos pais na educação dos filhos. e especialmente no caso daqueles com carência de ativos e outros capitais (Kaztman. 2. pois se dedicou especialmente ao capital no âmbito das redes familiares. no caso da educação. mas também na família. mediadora para outras redes e muitas vezes gerenciadora dos ativos. e suas influências sobre a educação. o capital social se apresenta como um fator de suma importância para a educação. Como também apontado por Putnam (1999). Em ambos os casos destaca-se no interior dessa dinâmica o papel da família. Abarcando muitos aspectos da socialização e moldando profundamente o desenvolvimento das crianças e jovens. Uma vez que esse poderia agir como uma rede de proteção. traduzidos na agência dos sujeitos em determinados aspectos da trajetória de vida (como Lahire. também apontada em estudos mais recentes. por sua vez. não apenas no âmbito da escola. 1999).

que as mudanças mais convencionais na educação (apesar destas serem indiscutivelmente importantes. oportunidades e escolhas das famílias. e tem efeitos positivos nos auxílios acadêmicos domésticos (Sammons et al.pesquisa além de apresentar evidências de tal relação por seus cálculos estatísticos. e as normas de reciprocidade e confiança que suscitam. al.. 1988). mesmo controlando as outras características das famílias e comunidades. em pesquisas realizadas em contextos distintos. menos gravidez na adolescência. nos âmbitos da família. Putnam (1999) apresenta cálculos comparando estados americanos. 1999). Apud: Reynolds e Teddle. escola. tem grandes efeitos no comportamento. são os mesmos com menor mortalidade infantil. mortalidade juvenil (suicídio ou homicídio) e melhores resultados escolares. grupos de pares e a comunidade de forma mais ampla. Nesse sentido. na qual. o capital social teve mais uma maior influência nos resultados escolares. Essa conexão pode se manifestar na participação dos pais nas atividades “abertas” da escola (Mortimore et. E assim de forma especial na escolarização das crianças do núcleo. as potencialidades para a geração e uso de recursos são diretamente afetadas pelas disponibilidades de capitais cultural e . 1996.. de vínculo entre os atores e a forma de organização social afetam os intercâmbios de recursos e possibilidades de acessá-los e alcançar suas metas. ao nível das famílias. desenvolvimento. Já Reynolds e Teddle (2000) analisam vários trabalhos de que investigam os componentes das relações que influenciam o desempenho escolar. Outros descrevem ainda que. o capital social se apresenta nos vínculos entre os membros. 1995) ou alfabetização e aquisição de habilidades básicas (Slavin. segundo ele mesmo). descreve que muitos trabalhos desde a década de 1950 vêm mostrando que as redes. E apontam que de forma geral esses estudos concluem que as redes de relação social surtem efeitos positivos na escolarização através desse efeito difusor sobre as práticas voltadas a escolarização. Seus dados demonstram que estados com índices altos desta forma de capital. 2000). e pelo relacionamento do grupo familiar com outros grupos ou a comunidade (Kaztman. E de forma geral os tipos de relações.

como na formulação proposta por Ainsworth (2002). Por outro lado. conectando todos os mecanismos. muitas vezes a literatura centrada nas desigualdades educacionais demonstra a importante relação entre esta forma de capital e o processo de escolarização. 3-Redes como elemento de ligação entre contexto e educação: Como foi possível ver. que autores também defendem que as redes da comunidade contextualizam alguns dos mecanismos de socialização no território (Flores. por um lado. a literatura acerca da desigualdade urbana. quanto às trajetórias de vida dos indivíduos. ou amortecidas em situações onde esse isolamento possa ser contornado.social que contam as famílias. E também que muitos estudos apontam que importantes ativos no processo de escolarização podem vir das variadas . como elemento estruturante e estruturado. norteiam a própria elaboração que os indivíduos usam para avaliar a pertinência e a relevância das oportunidades. as redes e o capital social assumem uma grande importância. Lin (2001). Segundo o autor as características do capital social de uma comunidade afetam a maneira em que se dão esses mecanismos de socialização que. Ambas indicam que o papel conformador das redes afeta tanto as origens e posicionamento na estrutura social. Ainda. Small (2004) e Marques (2009). Kaztman. 1999 e Putnam. Assim. como indicam Kaztman (1999). em uma relação cíclica. 2008. demonstra uma ligação significativa entre o território (enquanto contexto sócio-espacial) e as redes sociais. Nesse sentido as redes influenciam e são influenciadas pela posição social relativa dos indivíduos. situações de fragilidade e vulnerabilidade podem ser agravadas pela falta de vínculos e isolamento social. 1999). atuando de forma similar ao que Bourdieu chama de “estruturado e estruturante” (2006). Sendo um conceito interessante para lidar com a dinâmica entre estrutura e ação. sendo que a magnitude em que os afeta é mais elevado em contextos de segregação/isolamento social. por sua vez.

escalas e formas de redes de relação social. Mais especificamente. Em sua investigação no Uruguai. Ainsworth. 2002). Exigindo das famílias de classes populares. Alves. com menos ativos. e assim sua eficácia coletiva (Jencks & Mayer. mas de volume total de recursos disponíveis nas suas redes. Importante lembrar que acontece uma diferença não apenas na questão de onde as distintas classes sociais os distribuem. através de contatos nos diferentes campos (Coleman. bem como para seu efeito sobre a escolarização. territórios podem afetar a qualidade da escola pela incapacidade de manter bons professores. Por exemplo. destacando que os alunos de famílias em contextos de pobreza e segregação de quarta e oitava séries. Franco e Ribeiro (2008). quando comparadas com as redes de classe média. 1990. as redes pessoais de indivíduos pobres tendem a ser menores. 1999). o elo fraco dos professores com e escola também pode agir restringindo os laços da comunidade com a escola. por exemplo. mais locais e menos variadas em termos de sociabilidade e recursos. também apontam no sentido da importância das redes e do capital social para definição da condição de isolamento. Relocando seus ativos para maximizar. a porosidade a esses mecanismos se torna maior (Kaztman. 1999. e aponta que. considerável esforço e mobilização para um eventual uso do capital social no sentido de investir em acesso a esse “mercado dominante”. demonstram a relação entre o contexto social e o desempenho escolar. Em sua interessante e abrangente pesquisa Marques (2009) faz um estudo comparado das redes sociais de mais de duzentos indivíduos de diversos grupos sociais. o processo de escolarização. . correm um risco significativamente maior de defasagem escolar. e de forma importante o comportamento educativo das famílias e das crianças nas escolas. 1990). quanto mais precária vizinhança. Putnam. No contexto brasileiro. Kaztman conclui que os dados analisados corroboram pra a noção de que o local de moradia afeta a vida e comportamento das pessoas. E através de uma análise estatística.

Dentre os principais efeitos de condicionantes socioeconômicos sobre as redes encontrados por ele. mas como coexistentes. entendo ser interessante não considerar essas possibilidades de mecanismos como excludentes. quando se trata de dar conta das variações na trajetória escolar dos jovens. comportamento de seus companheiros de bairro e escola e qualidade do estabelecimento que freqüenta. Assim. Seguindo desses exemplos de pesquisa e retornando as formulações mais teóricas. afasta tanto de análises excessivamente estruturalistas quanto holistas da desigualdade social. e ainda possibilita a construção de um . na investigação que exigiu essa revisão bibliográfica a importância das redes na configuração do fenômeno estudado foi uma das conclusões mais evidentes. que atribui um papel importante ao ambiente escolar na construção de vínculos sociais diversificados. exemplos dos vizinhos. mesmo entre os mais pobres. Ao elaborarmos a respeito da dualidade entre explicações estruturais e culturais dos fenômenos sociais. Enquanto o isolamento em uma vizinhança homogeneamente pobre dificultaria essa apropriação. de forma que complementam e reforçam umas as outras. reforçando a idéia. tendem a ter redes mais ricas e menos locais em termos de vínculos. 2010). com conseqüências importantes não apenas para a pobreza. mas também para a desigualdade social”. parece sensato investigar a estrutura composta pela trilogia família-bairro-escola (Small e Newman. presente na literatura internacional. Podemos pensar como provável que uma criança habitante de um bairro heterogêneo deve se influenciar tanto pelo marco normativo dominante. Mostrando-se como uma possibilidade concreta de investigação empírica e explicação de um fenômeno educacional especifico pensando as redes sociais com um dos seus elementos fundamentais (Da Costa Silva. Segundo Marques (2009) considerar a influência dos padrões de relação sobre as situações sociais. 2001). Indivíduos com escolaridade mais elevada. Finalmente. em combinação com instituições com menos qualidade e eficiência. Para o autor a existência dessas duas dinâmicas conjuntas implica em consideráveis “efeitos de circularidade na perpetuação da situação social e relacional dos mais pobres.

Embora a Influência circular das redes complexifique e torne essas investigações ainda mais desafiadoras. inserindo essa dimensão nos processos sociais que o cercam. Assim. implicando em uma nova luz para a discussão. Uma vez sendo a sociedade nosso meio e campo de existência. suas relações assumem uma obvia posição de importância para a configuração de situações sociais. podemos conjugar um aparato teórico que permite um maior entendimento dos processos de educação inseridos nos diferentes contextos. se destaca a compreensão de como o posicionamento dos indivíduos no espaço social pode influenciar suas relações sociais e dessa forma as possibilidades advindas dessas redes tecidas continuamente de limitar ou potencializar a ação. . Ao conectar essas diferentes correntes da sociologia. para a sociologia. Os processos de educação encontram-se também inclusos nessa dinâmica.ponto de partida não apenas econômico para o estudo da pobreza. entendo que sua inclusão traz possibilidades de uma compreensão também mais complexa.

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