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Era uma vez um menino chamado Joãozinho Era uma vez um menino chamado Joãozinho.

O menino Joãozinho podia ter tido o privilégio de ter nascido num daqueles continentes, por exemplo na América do Norte, claro, porque na América do Centro e na América do Sul, os países são pobres - na Europa ou na Ásia - nem em toda a Ásia - onde os países são ricos e há todas as coisas, bons carros, boas casas, boa comida. Têm todas as coisas em abundância, ou mesmo, em superabundância. e todos os meninos quando nascem têm uma casa, que por vezes pode ser quase um palácio, mas todas são casas boas com pelo menos, um ou dois quartos, sala, cozinha e sempre uma casa de banho. Porque há saneamento básico e electricidade. E todos os meninos têm um quarto e uma cama e todos os cuidados, principalmente de higiene , a que toda a criança tem direito. Mas o menino Joãozinho teve o desprivilégio de ter nascido num continente que continua à procura de se encontrar - África - e num país que começa a dar mostras de se querer encontrar - Angola. Ora o menino Joãozinho um dia, mais propriamente no dia 7 de Outubro de 2001, resolveu nascer na cidade de Benguela. No hospital. Tinha uma semana de vida quando a mãe regressou com ele para a sua casa no Bairro da Graça, onde vivia. Este bairro é muito pobre. É um amontoado de pequenas casas feitas de adobe e cobertas com chapas de zinco, com um ou dois pequenos quartos, onde vive toda a família, sem cozinha e menos ainda, casa de banho. Não tem água, nem saneamento básico, nem electricidade. Só a igreja, a casa do sr padre e um ou outro mais afortunado, têm luz eléctrica. A água, vão as mamãs e as manas mais velhas, algumas com 8 e 10 anos, buscá-la longe, em grandes bacias à cabeça. A comida é feita fora em fogareiros a petróleo. A casa de banho é ao ar livre, onde os mais velhos podem encontrar um refúgio onde esconder o seu pudor. As crianças em qualquer parte. É o que se pode chamar o "cagá lá" e o "mijá lá". Por vezes no meio do lixo, juntamente com os porcos. Empregos também não há. Só o comércio livre, que é feito pelas mamãs, elas vão comprar na praça da Kaponte, em Benguela, para vender nas ruas da cidade ou na pracinha do bairro. Os papás, na falta de trabalho, dedicam-se à cerveja. Ora: Sem água em casa e no bairro, as mamãs não podem ter os cuidados de higiene que as crianças necessitam. Daí ficarem com sarna e outros males de pele. Sem electricidade, usa-se o candeeiro de petróleo. Daí acontecerem acidentes com as crianças. Sem redes mosquiteiras para protecção, os mosquitos picam. Daí as crianças contraírem malária. Sem casas de banho com sanitas, as crianças vão ao “cagá lá”. Daí apanharem parasitas. Com papás desempregados não há dinheiro para uma boa alimentação. Daí as crianças ficarem desnutridas e anémicas.

E quando tinha três anos e meio deu entrada. uma semana de vida quando a sua mãe o trouxe para a sua casa no Bairro da Graça. 5 e 7 anos. no abençoado Ospedale (hospital) Sacro. da Divina Providência. foi até lá e apresentou-lhe o problema do menino. e que se apaixonou pelo menino com amor de avó e logo na sua cabeça e no seu coração se instalou o pensamento de um dia conseguir levá-lo a operar a sua deformidade. e que muitas vezes leva a Divina Previdência até aos meninos carenciados. perto da comunidade onde a mamã do Joãozinho trabalha. jardins. ficou uma criança débil. mas com pouca idade. casas. É preciso dizer que este hospital tem vários edifícios. o quarto tinha pouca claridade. com pouco apetite e a precisar de um cuidado permanente na pele do braço. a anemia. avó. Salvaram o Joãozinho de morrer. com a nonna. quase sem vida. que tem um grande hospital em Verona. . pegando fogo ao pano colorido bonito e ao bebé também. embora com uma deficiência. de origem italiana. Era o menino bonito de todos. onde era muito acarinhado. em casa e por todo o hospital. colorido e alegre. E assim aconteceu. Acontece que. E o menino Joãozinho passou a chamar-se Giovanni e a falar italiano. o quiseram ver. Era alegre. eles acenderam o candeeiro de petróleo.Cuore Don Calabria. quando não necessitava de baixar à Pediatria. o menino habitava na Casa Fratelli. E o polegar também dobrado e escondido debaixo dos cotos dos outros dedos. Acontece que o menino Joãozinho ficou mesmo entregue à Divina Providência. aproximaram-se da cama e deixaram cair o candeeiro. Acontece que. E quando esta avozinha teve conhecimento que tinha chegado de Itália um dos responsáveis religiosos daquela Congregação.Mas voltamos ao menino Joãozinho Tinha. Acontece que. E curou a malária. vive uma outra comunidade de religiosos. quer a beneficiar dos serviços que oferece. entrou na vida dele uma avozinha. Acontece que os seus 3 manos mais velhos que ele. E assim foi crescendo. E. E deitou-o na cama muito embrulhadinho naquele pano bonito. pois teriam apenas 3. usa o seu braço com toda a normalidade. os parasitas e operou o braço que deixou de estar colado. quando o Joãozinho teria uns três meses. falador. como todas as mamãs africanas costumam fazer. mas a verdade é que o menino ficou com o braço colado dobrado sem poder mexê-lo. E não se sabe como nem porque razão. a casa da Comunidade Religiosa. Mas a queimadura que sofreu não foi apenas na pele das costas e do braço. quer a trabalhar. portanto. ficando só com o polegar e a primeira falange dos outros quatro dedos. que começou a fazer trabalho voluntário na creche onde ele ficava as manhãs enquanto a sua mamã ia trabalhar. mas ele ficou com a pele das costas e braço esquerdo e mão queimados. e para ver bem o bebé pequenino. o menino ficou com todos os órgãos do seu lado esquerdo também afectados. e muita gente.

quer ficar com a avó.“nunca se calava”. neste hospital e arredores que não conhecesse e acarinhasse o pequeno Giovanni. para tratamento. grita. E não havia ninguém. para um outro mundo cuja vivência já esquecera. um. como gostaria de o fazer. Era a sua família a quem deveria ser entregue. iria ser uma das crianças que não chegaria aos cinco anos de idade. feliz. principalmente no Baptista que tinha deixado bebé. com os seus caprichos de menino muito mimado. E foi para Portugal com a avó. pelo menos por agora. A avó também é angolana mas tem uma costela portuguesa e tem família. passa mal as noites. o menino não esqueceu a família biológica. aquando da carta de chamada. frequentou um infantário. E chegou a hora de regressar ao seu país. o dos pais com a única cama. de continuar nesta terra e terá de regressar muito brevemente a Portugal. no pai João. o menino ficou curado. porque ser avó do coração não dá direito legal a levá-lo para o exterior do país. o menino. e passados apenas 15 dias da sua chegada. e outro. feita fora em fogareiro de carvão. até porque quando saiu quase que apenas comia a papa e a sopa da creche. agora em outro bairro e com dois quartos. . se foram prolongando. nos irmãos. à comida. segundo estatística da taxa de mortalidade infantil de Angola. se ele ali continuasse. em esteiras. e teve de deixar a Itália. Regressou à sua casa. uma vez curado. falava sempre na mamã Minga. à sua família. e continuou a ser acarinhado por toda a família da avó e pessoas amigas E continuou a ser um menino feliz. segundo os médicos italianos que o trataram. durante este tempo todo. Mas também não pode levar o Joãozinho consigo. o menino Joãozinho deu um salto brutal dum mundo e de um modo de vivência que o fizeram conhecer. E o tempo foi passando. Acontece que esta avó não tem possibilidade de o ter consigo. Com cinco anos e meio. em Portugal. Precisa de ajuda para o conseguir. nem tem possibilidade. Acontece que os 6 meses previstos pelo hospital. Assim ficou combinado. ao “cagá-lá”. filhos e netos. e casa para habitar. tem dor de cabeça permanente. uma sala mas onde dormem os irmãos no chão. a avó apenas levara um termo de responsabilidade passado pelos pais que autorizava o filho a ausentar-se a viajar para o exterior do país. Ali. não quer ir para casa. Mas é preciso dizer que. e o pior de tudo. além da dor de cabeça tinha também febre. e onde. na altura. o pirão de que ele já não se lembra do sabor. e passaram … dois anos. Chora. prevista pela Unesco. teve o seu quarto. que voltou a ser Joãozinho.

aos 26 de Março de 2007 Esta “estoria” faz parte do livro de literatura infantil. todas as histórias têm um final. e consegue. principalmente os seus irmãos. a cagá-lá.Feliz ou infeliz. vencer o possível paludismo que há-de chegar e outras doenças? a ter vontade de estudar e vir a ser um verdadeiro Homem. se adapta ao modo de viver da região. a dormir na esteira. a publicar. onde poderá ter acompanhamento médico e os cuidados que uma criança nas suas condições necessita. mas a “estória” do menino Joãozinho não pode ainda ter esse final. Um Menino Chamado Joãozinho E três outras pequenas estórias: O Segredo da Minha Mancha Porque Me Chamo Clarinha Um Conto de Natal . quer dizer. Porque apenas poderá ter um dos dois possíveis finais: UM: será que o menino Joãozinho fica em Angola. forte. débil como é. conseguir o seu “lugar ao sol”. de MALU. como tantos? Ou a não passar da 1ªinfância? Ou DOIS: será que o menino Joãozinho consegue regressar a Portugal e à Itália. e com preparação para ajudar a sua família. a comer o pirão. a vencer esta inércia que não os deixa procurar o seu “lugar ao sol”? Será que o menino Joãozinho continua debaixo da protecção da Divina Providência? Será que o menino Joãozinho deixou de estar debaixo da protecção da Divina Providência? Talvez o viremos a saber numa possível 2ª parte da “estória” Benguela. poder sair desta pobreza em que vivem os seus pais e os outros habitantes da maior parte do país? ou a perder-se. para regressar ao seu país. pelo menos enquanto não ultrapassa a 1ª infância? Onde poderá ter uma educação mais cuidada e vir a ser esse verdadeiro Homem.

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