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Rovista Critica de Ciéncias Sociaie N. 52/53 Novembro 1998 / Fevereiro 1999 ELISIO ESTANQUE JOSE MANUEL MENDES Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Centro de Estudos Sociais Analise de classes e mob dade social em Portugal: Um breve balanco critico No presente texto séo sumariamente recenseadas as principals publica- g0es da producao sociologica portu- guesa centrada nas teorias das clas- ses e da mobilidade social. Comeca- ~se por revisitar, de forma necessaria- mente resumida, os princjpais contri- butos elaborados a partir da década de setenia, referindo-se o seu signifi cado analitico e algumas conclusoes mais relevantes. Em seguida, apre- senta-se a inovacao conceptual tra- vindos a lume mais recentemente @ tecem-se alguns comentérios ~ expli- citando-se uma ou outra perplexidade =, quer quanto 4 tipologia que tem dominado a andlise des classes em Portugal, quer quanto 4 interpreta- 940 dos resultados om alguns cos estudes sobre mobilidade social Em jeito de concluséo, indicam-se algumas lacunas ca investigagao neste campo, numa_tentativa de situar possiveis caminhos a seguir. 173 ida pelas novas tipologias 9 ostudos € acordo com diversos indicadores e resultados 1. Introdugao estatisticos compilados num periodo recente (Reis, 1994; Barreto, 1996), a sociedade portuguesa tem vindo a revelar nas Ultimas décadas um assinalavel conjunto de transforma- g6es no dominio socio-econémico e cultural, que apontam no sentido da modernizagao do pais e da «abertura» das suas estruturas mais obsoletas, no quadro de um processo de ins- titucionalizagao democratica hoje bastante solidificado. Sem pretender pér em causa a justeza do alguns diagnésticos mais optimistas que tais resultados permitiram — a parte cer- tos entusiasmos excessivos, por vezes de simples pendor impressionista, acerca da evolucao dos costumes em Portugal ~, esta breve reflexao constitui uma tentativa de reequacio- nar o contributo dos estudos sobre as classes e a mobilidade social na interpretagao de tais mudangas. Procurando discutir a pertinéncia dos trabalhos mais relevantes neste campo — ainda que de forma necessariamente incompleta e nao apro- fundada -, concluiremos o artigo enunciando algumas duvi- 174 Elisio Estanque José Manuel Mendes 2. Primeiras abordagens em torno das classes e da estratificacao em Portugal das suscitadas pola roleitura desses trabalhos quanto as novas tendéncias de mudanga na sociedade portuguesa. Como se sabe, alguns dos primeiros estudos efectuados por portugueses e sobre Portugal na area da sociologia situa- ram-se no ambito da tematica das classes e da estratificagao. Foi esse 0 caso das pesquisas levadas a cabo sob influéncia de Adérito Sedas Nunes! (Nunes, 1968a, 1968b; Nunes e Miranda, 1969; Guerra e Nunes, 1969; J. C. F. Almeida, 1970) e também do ensaio de Herminio Martins, Classe ‘Sta- tus’ e Poder, de 1971, recentemente traduzido para portu- gués (Martins, 1998), So bem que teoricamente situados no paradigma da estratificagao social, as referidas andlises diri- gidas por Sedas Nunes — centradas na situagao do ensino universitério e na recomposigao da populagao activa portu- guesa? — fomeceram importantes diagnosticos criticos acerca do panorama de atraso da sociedade portuguesa da época. A natureza elitista da universidade portuguesa ficou claramente demonstrada, apresentando-se a composigao das origens de classe dos estudantes sob a forma de uma nitida inversao da piramide estratificacional (Nunes, 1968a), situagéo que esta em flagrante contraste com o infimo peso das camadas supe- rior e média da populagao activa, um cenério interpretado como reflexo evidente do fraco desenvolvimento econémico do pais e dos poderosos mecanismos do modelo autocratico e coercivo entao vigente, destinado a garantir a seguranca e reprodugao das «classes dominantes» (Nunes e Miranda, 1969). Apesar de apoiadas nas tipologias hierdrquicas tradici onais do sistema de estratificagao — camada superior, camada média, camada inferior-alta e camada interior-baixa — estas abordagens nao deixaram de acolher no seu referen- cial de conceitos alguma influéncia marxista’, apoiando-se nela para enriquocer as suas interpretagdes. Referéncias de * Considerado um pionairo e uma personalidade marcante na instituciona- lizag&o da sociclogia no nosso pais, Adérito Sodas Nunes, foi também funda- dor do Gabinete de Investigacao Social (actual ICS) e da revista Andlise Social (crlada em 1963), tendo sido seu director desde 1973 até pouco antes da morte, em 1991 ? Os autores utiizaram sobretudo os dados do X Recenseamento da Populacac (1960) e do Inquérito CODES (Cooperativa de Estudos e Projectos, de Desenvolvimento Sécio-Econémico) & «situagdo ¢ opiniao do universitario» © tespeitante ao ano lectivo de 1963/64, levantamento que foi encomendado pelas Direcgdes-Gerais da Juventude Universitaria Catélica (Nunes, 1968: 298), Para 08 procedimentos metodolégicos, consultar Miranda (1969). 3 De resto, a influéncia marsista no quadro conceptual de Sedas Nunes idéntico sentido sdo igualmente detectaveis nos textos de José Carlos Ferreira de Almeida (1970) e de Herminio Mar- tins (1998 [1971]). 0 primeiro num registo mais conceptual? e 0 segundo mais compreensivo e devedor da perspectiva de Weber acerca das classes e dos grupos de siatus, enquanto fenémenos associados ao poder 5. Nao obstante a situagdo embrionaria da sociologia portu- guesa neste periodo e as condigdes especiticas da sua emer- géncia no nosso pais, estas abordagens representaram pas- sos significativos para 0 conhecimento sociolégico da estru- tura social portuguesa. No plano teérico, revelaram-se mais devedoras das correntes francesa e britanica (esta, no caso de Martins), mostrando-se alheadas do estrutural-funcio- pode ser deteciada noutras publicagSes suas deste periodo, de que é exemplo © texto «cldssicom (no contexto portugués) Quesides preliminares sobre as Ciéneias Sociais (1971). Além da obra de Marx e Engels, autores como L. Goldman, N. Poulantzas, D. Videl, M. Foucault, L. Althusser, P. Berger, K, Man- nheim, C. Lévi-Strauss, P. Bourdieu, M. Castells, sao referencias que se repe- tem nesse trabalho, 4-0 esforgo de conceptualizagao presente neste texto orienta-se na mesma direcca0 das andlises posteriores da estratificagao, tendo contribuldo para abrir 0 campo analitico dos estudos de mobilidade, em particular pela atencao que deu & importancia das trajectérias sociais © pessoais ~ as nogdes de «expectativa de mobilidade», «socializagao antecipadora» e «grupo de rete- réncia», por exemplo -, bem como ao significado dos efeitos simbdlicos dos movimentos («ascendentes» ou «descendentes») dos agentes, sugerindo que «os dadas referentes a situacdo efectiva Sejam acompanhados de elementos respeitantes a0 sentido atribuido a essa situagao» (Almeida, 1970: 21), uma linha de analise a que os estudos conduzidos por Jodo Ferreira de Almeida ¢ a sua equipa viriam mais tarde a dar continuidade (Almeida, 1981, 1984 e 1986, Almeida et al, 1988, 1990 e 1994; Machado et al, 1989: Costa et al, 1990). A estas tltimas andlises faremos referéncia na parte final do presente artigo. 5 Em Herminio Martins € de assinalar 0 modo como recorre ao pensa- mento weberiano ~ nomeadamente a classe ¢ 0 grupo de status ~ para discutir fa cituagdo portuguesa nos anos sessenta, nomeadamente os problemas da ‘coesao e do conflito no quadro de uma sociedade, considerada culturalmente homogénea e submetida a uma «ditadura classista» por oposigao as «ditadu- ras do aparelho», segundo a distingao sugerida por S. Andeski (Martins, 1998: 103). Procurando esbogar (dada a escassez e as limitagées das fontes estatis: ticas) alqumas diterencas regionals da estrutura da populagao e do sistema educativo, Martins sublinha 0 papel das instituigdes militares e da légica selec- tiva do ensino como principais fontes de cooptacdo de uma ete politica identifi cada com a «classe alta» e comoreendendo segmentos como: latitundiarios, escaldes superiores das forcas armadas, da fungao ptiblica e da universidade; © episcopado catslico e os quadros superiores das profissdes liberais (Martins, 1998: 10). As tendéncias para a ltoralizagao da sociedade que outros estudos desenvolveram (Freitas, 1973; Freitas et al, 1978; Ferro, 1982). 2 par do fraco peso ¢ da concentragao dos estratos de classe média, sao claramente identiticadas pelo autor: 0 «dualismo» que caracteriza a sociedade portuguesa, com o Portugal «modemo» — da populagao urbana e mais escolarizada, dos trabalhadores especializados o das profissdes liberais do Centro @ do Norte - «contido numa estretta faixa do litoral ocidental [...}, [uma tendéncia que] tende a persistir no tempo e mesmo a aumentar numa primeira fase de industrializa- ‘Gon (Martins, 1998: 115). Andlise de classes e mobilidade social em Portugal 175 176 Elisio Estanque José Manuel Mendes nalismo americano. A influéncia francéfona continuou, alias, a ser marcante nas anélises de classes inspiradas no modelo marxista — Althusser e Poulantzas, sobretudo — que comega- ram a aparecer na revista Andlise Social ainda no periodo marcelista (Freitas, 1973; Sousa e Freitas, 1973)°, e que tive- ram a sua continuidade no pés-25 de Abril (Freitas, et al., 19767; Marques e Bairrada, 1982°). O significado mais interessante destas primeiras analises © Os autores basearam-se no quauro tesrico de Nicos Poulantzas, sobre- tudo na distingdo entre trabalho produtivo e ndo-produtivo, para a determinacao da classe operdria e utiizaram os Recenseamentos da Populagdo de 1940, 1950 e 1960. Esla pesquisa comprovou 0 crescimento global da populagao activa operdria (resultado do processo de industrializaco iniciado nos anos cinquenta) e uma acentuada polarizagao geografica dessa classe, com um polo no «Norte» (distitos de Aveiro, Porto e Braga) e outro no «Centro» (‘eferente a isboa e Setubal), retlexo do processo de industrializagao do pais. A andlise concelhia revelou que 80% dos concelhos possuiam caracteristicas quase intelramente agricolas e rurals. Detectaram-se ainda transformagdes acentua- das nas situagdes de classe, nomeadamente uma polarizacao das relagdes sociais com a consolidacao da burguesia e do operariado. O empolamento da pequena burguesia (isolados ou independentes) seria um aspecto transitério da consolidagao do modo de produgao capitalista. A nivel distrtal, chama-se a tengo para 0 crescimento dos trabalhadores no produtivos no sector dos servigos (que os autores designam por pequena burguesia «modema) em Lis- boa. 7 No estudo sobre as modalidades de ponetragao do capitalismo na agri culture, utiliza-se um quadro tedrico fortemente apoiado em Marx ~ em particu- lar quanto a analise historica da transigao para o modo de produgao capitalista e as relacdes capitaltrabalho no que se refere A submissao real e formal do segundo em relagdo ao primeiro -, mas também em autores como Pierre-Phi- Ippe Ray, sobre a teoria das aliangas de classe. Os autores concluem por uma expansao geral do modo de produgao capitalista de 1950 a 1970, embora com grandes variagdes regionais, sobretudo através da chamada submissdo formal da pequena produgao mercantil (agricultura familiar). Como classes e fracgdes de classe especificas do sector agricola, identificaram as seguintes: proprietd- tios fundigrios absentistas e empresdrios capitalistas (burguesia agraria); cam- pesinato; semiproletariado e proletariado rural ® No estudo de Marques e Bairrada, partiu-se da delinigao de classe de Lenine, mas recorrendo a elementos de Wright (1979) @ Poulantzas (1975). Os autores utlizaram como critérios primarios para a definigéo das classes a rele- a0 salerial, a propriedade econémica e 0 papel na organizacao social do ire~ balho ©, como critérios secundarios, a distingo trabalho produtivo/trabalho improdutivo e ramo de actividade. Definiram as seguintes classes: burguesia (distribuida pelas ‘recedes agraria; industiial, comercial; outras fraccdes); classe trabalhadora (proletariado, que inclui as sub-fracgdes de proletariado rural @ classe operdria; trabalhadores improdutivos); nova classe média; pequena burguesia (campesinato; artesaos; pequena burguesia comercial; outras fraccSes). Os resultados mastraram a reducao do peso demogréfico da burguesia ao longo deste periodo (8% em 1950, 6,2% em 1960 ¢ 3% em 1970); @ estabilizagao da classe trabalhadora na ordem dos 73% (mas com uma descida acentuada da fraccao do proletariado rural, de 30% para 18,5% em 1970, e uma subida da classe operdria, de 28,1% para $4,1% em 1970}; uma ligeira subida da pequena burguesia (20,5% para 23%); e, finalmente, regista-se a nova classe média com valores irrisdrios, embora tenha aumen- tado em termos relativos (0,6% em 1950 © 1960, para 1.3% em 1970) (Mar- ques @ Bairrada, 1982: 1292). A especilicidade da tpologia deste estudo deve-se principalmente ao caracter inovador dos resultados empiricos a que chegaram, para além de terem inaugurado a andlise de classes nas ciéncias sociais portuguesas. Na ver- dade, as abordagens classistas de inspiragéio marxista sem- pro se mostraram mais proficuas quando aplicadas a contex- tos concretos (comunidades ou regides localizadas) ou quando, em didlogo com outros quadros de referéncia ted- rica, conseguiram ultrapassar o estruturalismo metatedrico® em que essa corrente esteve envolvida durante um largo periodo de tempo. As pesquisas de Joao Ferrao (1982, 1985 © 1990), por exemplo, apesar de apoiadas numa tipologia simples inspirada em Poulantzas (1975)'°, aliam ao enqua- dramento estrutural outras preocupagdes quanto a diversi- dade territorial e as diferentes ldgicas de implantacao indus- trial, dando visibilidade a importantes dimensées da recompo- sigéo social ocorrida no pais, tais como a estruturagao dife- rencial da economia portuguesa e as especificidades regio- nais da estrutura de classes, confirmando as tendéncias ja assinaladas de concentragao urbana e de litoralizacao (cujos efeitos mais notérios dizem respeito ao sector tercidrio e as fracgdes de classe da «nova pequena burguesia» a ele vincu- ladas)!1. impede que ela saja comparavel com outras investigagdes. A sua maior vanta- gem 6, talvez, apresentar a evolugao da estrutura de classes por fracgdes. Contudo, a exagerada acentuagao da distingdo trabalho produtivo’ trabalho improdutivo reduz a «nova classe média» a uma expressao ainda mais insigni- ficante do quo ola efectivamente possuia nesta altura (compare-se com os valores sobre 0 mesmo perfodo refetidos por Jogo Ferrao, 1982). ® Mesmo reconhecendo a importéncia dos contributes tedricos de pensa- dores como Althusser ¢ Balibar (Althusser et al. 1970; Althusser, 1975 1976), Poulantzas (1971, 1974), Carchedi (1977), Lukdcs (1971), Miliband (1969) € Wright (1979), a classe permaneceu ao longo da década de setenta «um con- ceito essencialmente contestado», reproduzindo as contradi¢ées entre as diversas correntes marxistas. Como reconhece Erik Olin Wright ao justificar a Necessidade de novos avangos conceptuais orlentados para a pesquisa empi- rica, durante esse periodo, «ou a cuidadosa investigacéo empirica efectuada no era directemente orientada para abordagens altemativas da anilise de classes ou se desencadearam debates especulativos e abstractos cujos resul- tados serviam para ilustrar selectivamente os varios argumentos @ nao para avaliar especificamente as diferentos altornativas» (Wright, 1998: 7). *® Burguesia, Nova Pequena Burguesia I, Nova Pequena Burguesia Il, Pequena Burguesia Tradicional, Campesinato, Proletariado Industrial ¢ Proleta- riado Agricola. O artigo do 1990, eposar de abordar os mesmos processos socials, fixa-se na nomenciatura das categorias profissionais. 1" Como grandes tendéncias verifica-se a quebra das.classes e fracces do classe ligadas a agricultura (diminuigao dos pattes e do proletariado agri- cola e aumento do campesinato, este intimamente ligado & pluriactividade e a0 plurirrendimento): evolugao equiibrada das classes ligadas a industna: aumento significativo das fracgdes ligadas ao sector tercidrio (sobretudo a nova Analise de classes e mobilidade social em Portugal 177 178 Elisio Estanque José Manuel Mendes 3. Novos desenvolvi- mentos tedricos € novos programas de pesquisa Para além das conceptualizagdes que presidiram as pes- quisas mencionadas, pode dizer-se que a producao tedrica mais significativa no campo das classes sociais e da estratifi- cago surgiu em Portugal ja no inicio da década de oitenta. Neste contexto, ocupa papel de destaque a equipa ligada a cadeira dedicada a essa tematica, incluida no curso de socio- logia do ISCTE e dirigida por Joao Ferreira de Almeida (inte- grando ainda Anténio Firmino da Costa e Femando Luis Machado). O esfor¢o de clarificagao e operacionalizagao con- ceptual a que estes autores procederam deu lugar a uma tipologia propria — inspirada nos modelos de Poulantzas (1975), Wright (1979 © 1985) e Bourdieu (1979) -, tornando- -se um contributo fundamental para o avanco da pesquisa sobre a sociedade portuguesa em torno destas questées (Almeida, 1981, 1984, 1986; Almeida et al., 1988, 1990 e 1994; Costa, 1987; Costa ef al., 1990; Machado ef al., 1989)12, Na raiz deste programa de pesquisa estiveram, como é bom de ver, as formulagées tedricas de Ferreira de Almeida Pequena burguesia nas suas duas fracgdes, e isto pelo aumento da compiexi- dade e segmentacac do processo de trabalho, pelo processo de urbanizacao € pelo reforgo da interven¢ao do Estado) e sua forte feminizacao. No plano terri- torial, hd que referir a acentuacdo da urbanizagdo e da litoralizacao do pais. Esia abordagem € de certo modo complementada pela efectuada por Jorge Gaspar, onde se analisa, em paralelo a estrutura social, 2 populacdo e 0 povo- amento do territério, a mobilidade geogratica, a estrutura da populagdo activa € as condigoes de vida, assinalando o autor algumas das tendéncias verificadas ao longo da ultima década (Gaspar, 1987). 12 Também a nivel tedrico, refira-se ainda o texto de Juan Mozzicatreddo (1981), que compara e discute as proposias de Poulanizas e Erik Wright, con- indo pela maior solidez e capacidade analitica do quadro tedrico de Poulant- zas, embora sem deixar de reconhecer 0 mérito de Wright 20 avangar com o conceito de lugares contraditérios de classe. Ao refiectir em tomo da nogao de ideologia e da sua ligacdo ao conceito de determinacao estrutural das classes. © autor nao deixa de questionar algumas das ambiguidades subjacentes a0 pensamento poulantziano. E 0 que acontece, por exemplo, quando se interroga sobre se as vertentes ideolégica e politica continuam ou nao a ser concebidas ‘como instancias secundarias onde se projecta o econémico, mas que a ele per- manecem subordinadas, j4 que a relativa autonomia de em Poulanizas aponta para a determinacao «final» do econémico. A partir dessa reflexzo, Mozzicafreddo sustenta que as estruturas e praticas politicas e ideolégicas podem ser pensadas como dimensdes sociais do comportamento humano, no situadas «de fora» das bases que as determinam, mas — enquanto elementos ¢o social (incluindo © econémico) -, participando nas estruturas de «determina. ‘gdo» e, a0 mesmo tempo, tomando parte da sua constituicao ¢ transformagao (Mozzicatreddo, 1981: 40-41). Retira-se também uma publicacao mais recente que dé bastante atencao as tematicas das classes e da mobilidade social, muito embora se trate de uma obra de sintese e divulgago, 0 livro de J. M. Carvalho Ferreira, Joao Peixoto, Anabela Carvaino, Rita Raposo, J. Carlos Graca e Rafael Marques, principalmente os capitulos 11, 12 € 13 (Ferreira et al., 1995). desenvolvidas no quadro da sua tese de doutoramento (Almeida, 1981 e 1986)!%. Esta investigagio — As classes sociais nos campos: camponeses parciais numa regiao do Noroeste — é bastante multifacetada e envolve uma plurali- dade de instrumentos tedricos e metodolégicos, sendo notd- rio 0 esforgo do autor no sentido de sair do «colete estrutura- lista», bem como os interessantes didlogos que estabelece com conceptualizacdes oriundas da estratificac&o social, nomeadamente em torno do conceito de mobilidade social'* A abertura tedrica que resulta dessa orientacdo ira marcar os modelos de andlise das classes e da mobilidade social, como se verd mais adiante. Empiricamente circunsorito a uma fre- guesia do Norte do pais (Fonte Arcada, no concelho de Penatiel)', este estudo foi, a diversos titulos, extremamente inovador: representou um salto qualitativo nos estudos acerca das classes sociais; articulou e complementou de forma consistente diferentes metodologias (quantitativas qualitativas, como a andlise estatistica ¢ documental, o inquérito e a observagao participante), correntes tedricas ¢ aproximagées analiticas dispares (classes, estratificagao, perspectivas demogrdafica, historica, monografica); combinou uma viséo marxista com as dimensGes culturalista, discursiva e simbdlica das praticas sociais em contexto comunitdrio'®. "3 0 estudo foi concluido em 1982 para efeitos de doutoramento, mas sé foi publicado em livro em 1986; alguns textos a ele ligados vieram, no entanto, a lume anteriormente (entre outros, Almeida, 1981). 4 A preocupagao com estabelecer conexdes € complementaridades entre ‘ambes as tradigoes pode observar-se em passos como este: «Se a mobilidade social pode, de facto, ser entendida como um conjunto de fluxes colectivos, de distribuigdes e de redistribuigdes dos agentes sociais pelos lugares de classe ela dave igualmente ser pensada como uma dimensao das trajectérias sociais das classes, das fracgdes, dos grupos. O conceito de trajectéria social permite, com efeito, ‘analisar simukaneamente 0 processo de transformacao histérica dos lugares @ dos agentes que os ocupam (e desocupam)» (Almeida, 1986: 86). + A pesquisa centra-se na andlise das migracdes pendulares da forca de trabalho ai residente, mas a trabalhar no Grande Porto, © nos efeitos dessa dupla vinculagao sobre a estrutura de classes. O trabalho de recolha foi efeciu- ado conjuntamente com José Madureira Pinto, mas as andlises de cada um foram desenvolvidas autonomamente (ci. Pinto, 1985), 18 Ainda no que respeita a reflexao tesrica do mesmo autor, cabe referir 0 texto sobre estiatiticacao social (Almeida, 1984). Nele se procede, por um lado, ao tecenseamento e reflexdo critica da Sociologia funcionalista (Parsons, Mer- ton, Tumin, Barber, Davis ¢ Moore) ¢ sua confrontacao com algumas aborda- gens weberianas mais atentas 2s questoes co pocer (Wesolowski, Stavenha- gen, Bendix e Lipset, Lenski, Wright Mills, alam de Veblen e do préprio Weber), Procurando-se, por outro lado, discutir 0 problema da articuiagdo entre a elabo- Fagao conceptual e a pesquisa empiric, nomeadamente a desenvolvida pela sociologia americana no pds-guerra. A nogao de «fungao», bem como certos contributes de autores funcionalistas, nao sao rejeitados de per si, mas antes Analise de classes e mobilidade social em Portugal 179 180 Elisio Estanque José Manuel Mendes No que toca & construgao da tipologia da estrutura de classes formulada por Ferreira de Almeida, as inspiragdes mais influentes sao, como atras dissemos, as propostas teéri- cas do Erik Wright (1979) (propriedade econémica, qualifica- ges profissionais, recursos organizacionais, lugares contradi- torios de classe) e de Pierre Bourdieu (1979) (volume e com- posigdo do capital, habitus e traject6rias de classe), apoiando- -se ainda em alguns conceitos da teoria da estratificagao (grupo de referéncia, privago relativa, inconsisténcia de sta- tus) (Almeida, 1981, 1984, 1986). Um ponto fundamental desta proposta é a recomendacao de que os estudos das classes sociais deve tomar como unidade basica de andlise © grupo doméstico, j4 que se trata de uma instancia conden- sadora e organizadora de um conjunto de praticas, represen- tagdes © oxpectativas sociais’” diferenciadas e diferenciado- ras, ou seja, a atengZo dedicada ao papel da familia traduz a énfase que o autor coloca nos conceitos de trajectoria e de habitus"®. Foi esse o ponto de partida para a elaboragao posterior de uma matriz mais refinada © aplicdvel a espagos sociais mais vastos (Almeida, Costa e Machado, 1988 e 1990). Os novos estorcos de aperfeigoamento conceptual da matriz de andlise das classes surgem no quadro de novos programas de pesquisa e na sequéncia da crescente complexificagao do quadro tedrico em que se movem estes autores’9. A tipologia criticados pela énfase idealista e individualista que muitas vezes transportam (Sobretudo a corrente parsoniana), procurando o autor enconvar elos de cone- x40 entre os elementos «objectivos» e «subjectivos», bem como entre elemen- tos sestruturais» e «individuais~, tendo enfatizado @ importancia da dimensdo simbdlica @ da subjectividade dos actores para compreender as suas praticas sociais. 17 Por exemplo a metafora da escada rolante, que vai descendo enquanto 0s actores sober os seus degiaus, ajusta-se bem a ideia de que as «iluses» (incluindo a de subida na «escada» da mobilidade social) em um significado coneroto na praxis social, mas, a0 mesmo tempo, pode ajudar-nos a pensar como os efeitos da mudanga estrutural na sociedade, ao padronizar certas posigdes de maior desejabilidade social na hierarquia do siatus, escondem, simultaneamente, os seus processos de desvalorizacao relativa, visto que a escassez ¢ a selectividade no acesso a elas ~ € eos recursos materiais ¢ sim- bélicos que elas disponibilizam — € uma condigao para a sua distingao 18 A tipologia que utiliza na andlise das classes sociais nos campos é a seguinte: familias burguesas; familias proletérias (proletariado agricole ¢ indus- trial; familias pequeno-burquesas (pequena burguesia tradicional e nova pequena burguesia); familias: camponesas; familias de campesinato parcial; categoria residual. Este foi também 0 modelo utilizado noutras andlises da ostru- tura de classes e sua dinamica em espacos rurais (Pinto, 1985; Lourengo, 1991). 18 Vale a pena referir também o interessante trabalho de reflexao teorica ‘em tomo das teorias marxistas des classes sociais olaborado por Firmino da Costa (1987). Alem de um vasto leque de questdes nele abordadas, 0 autor ento proposta (nos finais da década passada) baseia-se no cruzamento entre grupos de categorias socioprofissionais e situag&o na profissdo (varidveis primérias principais), fazendo igualmente uso de critérios como a escolaridade, a posigao hierarquica, dimensao da empresa e ramo de actividade (varidveis primarias secundarias) (Almeida ef al, 1988: 14- -17). Daqui resulta um modelo com trés classes (burguesia, pequena burguesia e operariado) e treze fracgées de classe, que se distinguem da seguinte forma: burguesia (burguesia industrial e proprietaria; burguesia dirigente e@ profissional); pequena burguesia (pequena burguesia técnica e de enqua- dramento, pequena burguesia de execugao, pequena burgue- sia proprietéria e campesinato, campesinato parcial, pequena burguesia assalariada e proprietaria, pequena burguesia par- cial); operariado (operariado industrial, operariado agricola, operariado parcial, operariado industrial e agricola)®°. Alem da caracterizagao da origem social dos estudantes universita- rios, foi possivel verificar a relago entre as origens de classe (fracges de classe) © as identificagdes e orientagdes dos estudantes (Machado et al., 1989), assim como as trajecté- rias de classe, e representagdes da sua situagao actual e futura, e ainda as redes de sociabilidade (Costa et al., 1990). Tal como no primeiro modelo de Ferreira de Almeida, também neste caso se faz a distingo das posigdes das mulheres na constituigo dos lugares de classe dos grupos domésticos2" Um dos problemas desta tipologia deve-se ao facto de procura identiicar algumas linhas de aproximagao entre 0 conceito de explora- a0 de Roemer e a teoria da justica de Rawls, num sentido que aponta para 0 desenvolvimento de uma sociologia da injustica. O realce colocado neste artigo na esireita relagao entre classes / exploragao / justiga social / transformagao historica poe em evidéncia reflexdes de grande actualidade incluidas na teoria neomarxista das classes — mas bastante arredadas da reflexao sociolégica no nosso pais -, inclusivamente as que mais abertamente se revestem de signifi- ado palitico, como acontece, por exemplo, com @ questao das alternativas de organizacao ‘social ao capitalism, um campo que continua a suscitar vivos debates, muitos deles liderados por autores referenciados no artigo de Antonio Fiemino da Costa (veja-se, por exemplo, Elster e Moene, 1989; Wright, 1996; Wright et al, 1992; Roemer, 1994). Cabe ainda sublinhar, a este proposito, que as andlises mais recentes em torno da mobilidade ou das classes sociais, gannariam em forca explicativa e capacidade critica se absorvessem de forma mais explicita algumas das linhas de reflexdo e analise enunciadas no texto de Firmino da Costa noutros jé referidos de Ferreira de Aimoida. 2° © modelo tem vindo a ser testado no ambito do «Observatorio Perma- nente sobre a Juventude Universitaria Portuguesa» (veja-se 0 primeiro texto produzido nese Ambito, onde a roforida tipologia 6 apresentada, Almoida, ot al, 1988) 2! Esta abordagem foi também utlizada no projecto sobre as «Classes médias urbanas em Portugal» (Almeida at al, 1994), utiizando neste caso uma tipologia de cinco categorias de classe ~ resullantes de agregagbes da matiiz Analise de classes e mobilidade social em Portugal 181 182 Elisio Estanque José Manuel Mendes ficar demasiado dependente das categorias profissionais for- mais, ou seja, ao apoiar-se primordialmente em dados oficiais = profisso € situagdo na profisséio —, torna-se impossivel captar os efectivos recursos de autoridade e a real influéncia que os individuos detém no espaco das relagdes laborais. Apesar de a nomencliatura das profissées se apoiar na desi- gualdade de recursos, o vasto leque de situagdes abrangidas (os conjuntos de categorias distribuem-se, grosso modo, pelos niveis dirigente/empresarial, empregados executives ¢ trabalhadores manuais) por cada grupo de profissées nao permite visualizar os verdadeiros obstaculos sociais que separam esses conjuntos — e que podem estruturar diversos segmentos de classe que Ihes sao transversais -, isto é, aqueles tipos de recursos que uns possuem e outros nao ¢ que, por esse motivo, estruturam as relagées entre classes na base da sua interdependéncia (leia-se, relagdes de poder, de propriedade, de explora¢ao). Por outro lado, o pressu- posto do desnivelamento hierdrquico entre categorias nao é suficiente para captar classes, principalmente num sentido marxista. Como mostra mais uma vez Erik Olin Wright na sua obra Class Counts (1997), a andlise de classes neomarxista pode incorporar dimensdes weberianas, desde que a vertente das oportunidades de mercado e expectativas de vida (con- trolo diferencial sobre rendimentos) nao perca de vista a ver- tente dos constrangimentos na esfera da produgao (controlo diferencial sobre 0 esfor¢o produtivo), pois, s6 com a articula- ¢&o entre esses dois campos de relacoes estruturadas se pode ampliar 0 ambito de analise ao mercado sem com isso se perder a centralidade do conceito de exploragao (Wright, 1997: 30-37). Sendo assim — e se considerassomos estrita- mente os critérios de operacionalizagao da referida tipologia —, faria, aparentemente, mais sentido conceber aquela abor- dagem como um modelo de andlise da estrutura de status do que da estrutura de classes. Ha que notar, todavia, que os equipamentos conceptuais ¢ a perspectiva adoptada na and- lise a orientam claramente para o quadro teérico das classes, além do mais acrescentando-Ihe ingredientes enriquecedo- res, como jé apontamos. atrds referida: empresarios e dirigentes; profissionais técnicos e de enquadra- mento; trabalhadores independentes e camponeses; empregados executantes; ‘operarios ¢ asselariados agricolas — a fim de observar os fluxos de mobilidade social, questo que a seguir sera abordada. A recolha de intormagao apoiou-se numa amostra de 2.000 pessoas residentes em centros urbanos com mais de 10,000 habitantes. A mesma tipologia foi também utilizada no projecto «As Cul- luras Pollticas em Portugal» (Heimer, et al., 1990} Assinale-se, para encerrar este ponto, que o estudo por nés desenvolvido sobre as classes sociais em Portugal, apoiado no modelo de Wright (Estanque e Mendes, 1998; Estanque, 1997), no obstante algumas dificuldades operacionais que também levantou, da visibilidade a situagdes de classe con- cebidas directamente a partir dos recursos efectivos dos indi- viduos (propriedade dos meios de produg&o/compra ou venda de forga de trabalho; recursos educacionais; e recur- sos organizacionais/autoridade na esfera laboral) e dai, o facto — do nosso ponto de vista bastante pertinente — de, por exemplo, muitas das posigdes de classe que, segundo o modelo de andlise a que nos vimos reportando, sao incluidas na fracgéo da «pequena burguesia de execugéo» (para dar apenas este exemplo flagrante) aparecerem no nosso estudo a integrar a categoria dos «proletarios»: uma localizaco de classe que representa 46,5% da populagao activa, enquanto, na referida tipologia, o «operariado» ocupa um peso de 29% (Almeida et a/., 1994: 326). E que, para nés, o modelo de Wright, apesar das suas limitagdes, presta-so mais a uma andlise das clivagens e fragmentagées classistas que tem vindo a ocorrer nas sociedades actuais (incluindo a portu- guesa), na medida em que consegue captar as «velhas» e as «novas» situagdes de subordinagdo (e de exploracao) na esfera laboral, sem se ater a tradicional demarcag&o entre o operariado e as restantes categorias assalariadas. Num panorama em que, como sabemos, lado a lado com a expan- 40 do ensino se assiste ao alastrar das situagdes de precari- zaco, flexibilizagéo e segmentagao do emprego a todos os niveis, nao basta possuir um diploma para se ocupar um lugar na «classe média». E preciso que o mesmo tenha algum alcance no respectivo emprego (ou, se quiséssemos usar a velha expressao de Marx, hoje tao esquecida, no lugar que se ocupa nas relagées sociais de produ¢ao), isto é, reto- mando Wright uma vez mais, um taxista licenciado continua a ser um taxista. Do mesmo modo, mas em sentido inverso, poder-se-4 entao questionar se situagdes como a de um con- tinuo, um porteiro ou um empregado de escritorio — sem pro- priedade, sem recursos educacionais e sem qualquer poder organizacional — nao estarao mais préximas da categoria pro- letdria do que da pequena burguesia®2. 22 Supjacente a esia questo, existe toda uma discussao tedrica que, obvi- amente, nao é possivel aprofundar aqui. Desde as velhas discussies entre Poulantzas e Wright em torno dos critérios do «trabalho produtivo-/strabalho Andlise de classes e mobilidade social em Portugal 183 184 Elisio Estanquo José Manuel Mendes 4. Mobilidade social, trajectorias e diferenca sexual Na sua fundamentada revisitagao das teorias da mobili- dade social, Sérgio Gracio (1997) demonstrou a pertinéncia dos estudos ligados a esta corrente tedrica para a compreen- sao das dinamicas sociais e da propria estrutura social. Em diversas comunidades cientificas, sobretudo de base anglo- saxénica?, a questiio da mobilidade social e da sua relagao com a estratificagao e a estrutura de classes foi guiada por permanentes actualizagdes e deu origem a varios debates e Publicagdes. No caso de Portugal, e em boa medida pelas razOes ja invocadas das condicées particulares em que a sociologia nasceu entre nds, a situagao foi até recentemente — € ressalvando o referido texto de José Carlos Ferreira de Almeida (1970) — de total omissao. Porventura devido a pri- mazia dada a abordagem estruturalista e marxista, nao foi aproveitado um conjunto de ferramentas tedricas e metodolo- gicas ja bastante desenvolvidas nos anos setenta, algumas delas referenciadas por Almeida (1984), como se viu. Os tra- balhos de Sérgio Gracio e, em parte, os que ultimamente tam sido conduzidos por Manuel Villaverde Cabral, procuraram colmatar essa lacuna e propor quadros analiticos comple- mentares ou até alternativos. No estudo atr&s mencionado sobre as origens de classe e traject6rias dos estudantes do ensino superior (mas aqui refe- rente a um outro artigo: Costa, et al, 1990), os autores reco- nheceram a dificuldade de caracterizar os estudantes com base na pertenga de classe, dado que a sua insergao socio- profissional esté como que suspensa. Contudo, tomaram como unidade de analise a familia, colmatando assim alguns problemas de operacionalizagao. Comegaram por constatar uma reproducao efectiva das relagoes sociais pela analise das classes de origem dos estudantes, onde a burguesia e a pequena-burguesia (sobretudo a técnica e de enquadra- mento) estavam sobre-representadas. Mas, também assina- laram a presenga de estudantes das classes mais desfavore- cidas; embora os filhos de operarios estivessem francamente em minoria, as suas conclusdes parecem enaltecer mais as Improdutivo» até algumas formulagdes mais recentes sobre 0 «neoproleta- iado» dos servigos nas sociedades ~pés-industtiais» (cf. Esping-Andersen, 1993). #3 Qs textos de John Goldthorme (1984, 1993) e de Erk Olin Wright (1989) foram os mais marcantes neste dominio, nao sé por torom formulado os qua- dros teéricos paradigmaticos em cada uma das correntes (weberiana @ mar- xista), mas também por, no terreno empirico, terem estado na base dos princi- pais programas de investigacao a escala internacional. trajectérias de mobilidade ascendente (48,7%)**. Ora, na nossa opiniao, e devido as baixas taxas de escolarizacao da populacdo portuguesa na faixa de idade dos pais dos estu- dantes em estudo (dos 40 aos 60 anos nas décadas de 80 e 90), 0 que é de espantar 6 a forte reprodugdo social visivel nos dados, o que indiciava, como referiam os autores, o papel crucial das credenciais para a manuten¢ao das posi- goes sociais dos detentores de capital econdmico e esco- lar/cuttural. A andlise @ mobilidade social nos centros urbanos (Almeida et al,, 1994) revela-nos alguns aspectos bastante elucidatives da complexidade das mudangas que tém ocor- rido na sociedade portuguesa. NUmeros curiosos sao, por exemplo, os que indicam 23.4% dos empresarios e dirigentes e 36,5% dos empregados executantes como originarios da classe operdria; ou os cerca de 75% de empresarios e diri- gentes com uma origem social inferior e somente 25% que se mantém na classe de origem. Operarios e trabalhadores independentes, embora com valores importantes nos fluxos intergeracionais, revelam os mais altos indices de auto-repro- dugao de classe (55% e 37%, respectivamente). Por outro lado, as taxas referentes aos movimentos de sentido descen- dente sAo também assinalaveis: cerca de 45% dos operarios originarios de escaloes superiores (exceptuando 0 caso dis- cutivel dos camponeses que integram os 25,5% originarios de «trabalhadores independentes e camponeses») e 18% de empregados executantes com origens sociais nos empresé- rios e dirigentes ou nos profissionais tecnicos. Apesar do sig- nificado da mobilidade ascendente — para isso contribuindo o rapido aumento dos niveis de escolaridade — as taxas de reprodugao intergeracional parecem ser menores dos que 0s autores esperariam uma voz que afirmam «{...] repare-se que, mesmo no caso dos operarios, essa reprodugao interge- racional da condicao de classe sO ocorre em 55% dos casos» (Almeida et al., 1994: 329). Por outro lado, falar de movimentos de «ascensao» ou de «descida» significa colocar a énfase na ideia de hierarquiza- 40 social — no sentido gradual e quantitative -, uma ideia que as correntes hegemonicas atras indicadas (Goldthorpe, 24 A classe social dos estudantes foi atribuida a partir da possivel insercao socioprofissional e do nivel escolar atingido. Tal procedimento implica alguns fiscos derivados da acentuada desvalorizagao dos diplomas, bem como do papel essencial das redes sociais e do capital social e relacional no futuro pro- fissional dos individuos. Anilise de classes @ mobilidade social em Portugal 185 186 Elisio Estanque José Manuel Mendes na linha weberiana, e Erik Wright, na linha marxista), rejeitam abertamente”®. Para estes autores, as posigdes de classe devem ser entendidas numa perspectiva sécio-estrutural, de forma relacional, e os movimentos dos individuos entre cada classe (ou localizag&o de classe) como simples deslocagées topolégicas. Qualquer nogao de hierarquia deve, portanto, ser afastada, por empurrar a andlise para factores de prestigio ou de status e nao atender aos factores estruturais que configu- tam as desigualdades sociais. Dois dos autores referidos voltaram a abordar a questao da mobilidade social alargando a incidéncia dos dados a uma amostra representativa da populagao portuguesa (Machado e Costa, 1998)®°. Depois de procederem a andlise das transfor- magées estruturais a nivel demografico e socioprofissional, acentuam particularmente o crescimento da escolarizagao, sobretudo no ensino superior, e o seu impacto provavel no peso crescente das categorias profissionais mais qualifi- cadas*”. Salientam também a crescente feminizagao da populagao activa e a articulacéo deste fendmeno com o da terciarizagdo. Assim, enquanto o operariado industrial se mantém predominantemente masculino, os empregados exe- cutantes do tercidrio assumem taxas de feminizac&o eleva- das. Uma conclusao importante a que chegam é a da exis- téncia de dois protagonismos sociais principais: um, empre- sarial e dirigente, que se caracteriza por ser pouco escolari- zado © masculino; outro, composto por profissionais alta- mente escolarizados, e que é progressivamente feminino. Estas duas vias institucionais privilegiadas (a empresa e a escola) estao dissociadas, o que permite deduzir que a com- preensdo dos processos de transformagao socioprofissional e de mobilidade social em Portugal tem que atender ao impacto da diferenca sexual e dos trajectos, projectos e estratégias 25 A este propésito, veja-se a explicagao detalhada em Erikson e Gold- thorpe (1993: 29-35). 26 Esta amostra da populacdo portuguesa foi a utilizada para o estudo da literacia em Portugal (cf. Benavente et al, 1996). 27 Os autores mostram claramente 0 crescimento dos estudantes universi- tarios desde a década de 60 até aos anos 90 (Machado e Costa, 1998: 26). Os dados apresentados reportam-se a taxas aparentes de escolarizagdo, 0 que permite uma comparagao efectiva no tempo. Mas as taxas reais de escolariza- {¢40 no ensino superior s4o bastante menores, @ colocam 0 nosso pais ainda distante dos valores dos paises mais desenvolvidos. Por exemplo, para a faixa eléria dos 18 aos 22 a taxa real de escolarizacao no ensino superior era, em 1990-1991, de 11.1% (Barreto,1996: 98). Em 1995, a taxa real de escolariza- ¢o para o ensino universitério era de 13% para os jovens de 19 anos ¢ de 16% para 08 jovens de 20 anos. Estes valores eram, nos Estados Unidos, res- pectivamente de 21 @ 23% (OCDE, 1997). diferenciadas dos dois sexos. Os dados que apresentam para a mobilidade social confirmam a existéncia de trajectérias muito heterogéneas, com fluxos apreciaveis de mobilidade ascendente e de permanéncia nos lugares de classe dos pais. O acesso as posigdes de empresarios € dirigentes e de profissionais técnicos e de enquadramento apresenta-se rela- tivamente aberto, indiciando uma forte mobilidade ascen- dente. Tal confirma também o pouco cruzamento dos dois canais de promogao social atras identificados. Também as trajectorias descendentes e estacionarias nao sao desprezi- veis, mostrando a complexidade dos processos em andlise e a necessidade de atender a um numero elevado de factores e condicionantes. Mas, a partir dos dados das diferentes amostras utilizadas por Machado e Costa, pode concluir-se que existem fluxos consideraveis de mobilidade ascendente a par de taxas de reproducdo também elevadas. O problema desta andlise é que se atém a descrigao das taxas absolutas de mobilidade, as quais, sendo afectadas pelas transformagies estruturais e, portanto, pelos valores das distribuigdes marginais, nao permitem aquilatar da existén- cia ou nao de uma maior abertura relativa da estrutura social (Gracio, 1997: 64-65). Nao conseguimos apreender, pelos dados fornecidos, se estamos perante uma maior igualdade nas oportunidades relativas das diferentes classes sociais. Uma operacionalizagao adequada aos processos de mobili- dade intergeracional tera que anular os efeitos das distribui- des marginais, ou seja, neutralizar os efeitos das transfor- magées estruturais ocorridas. Se é forgoso reconhecer a importancia das taxas brutas de mobilidade para enquadrar as conclusées, tal nao pode, porém, obscurecer o objectivo principal de aferir quanto a aproximac¢ao ou nao das probabili- dades relativas de transigao entre as diferentes localizagdes de classe. A utilizagao de modelos estatisticos log-lineares tom revelado ser um procedimento eficaz para tornear tal pro- blema (Agresti, 1990; Erikson e Goldthorpe, 1993; Goodman, 1984; Hout, 1989, 1983), na medida em que permite medir a probabilidade relativa de um individuo cruzar duas localiza- des, comparando com todas as outras e controlando estatis- ticamente 0 efeito diferenciado das variaveis constrangedoras (a definir pelo analista). Podemos, assim, aquilatar do efeito liquido de um conjunto de factores sobre as deslocagdes ou permanéncias dos individuos na estrutura social. Portanto, os estudos da mobilidade social ou das trajectorias de classe em Portugal terao que complexificar os instrumentos metodolégi- Andlise de classes e mobilidade social em Portugal 187 188 Elisio Estanque José Manuel Mendes cos que permitam avaliar mais minuciosamente os fluxos individuais e as suas tendéncias. Outra questao, mais conceptual, deriva da relativa indis- tingao entre mobilidade escolar e mobilidade social, isto é, da associagao constante que os autores fazem entre essas duas dimensdes. O autor que melhor tem tentado dilucidar a rela- go entre escolarizagao e estrutura socioprofissional é Sérgio Gracio. Partindo do quadro tedrico de Raymond Boudon?8, mostrou que houve uma deslocacao para cima na estrutura social, concomitante com a procura massificada de educa- 0, assistindo-se a uma acentuada desvalorizacéo dos diplomas. Ou soja, para os mesmos lugares na estrutura social, sobretudo os mais valorizados socialmente, sao necessarias mais qualificagoes. As distancias relativas entre as classes sociais no acesso € nas oportunidades escolares e nas oportunidades de emprego mantém-se, podendo falar- se de uma forte mobilidade estrutural e absoluta, mas nao de taxas de mobilidade social relativas elevadas (Gracio, 1986: 139-144; 1992: 228-238 e 1994: 71-75, 87-89)?9. E interessante constatar que esta posi¢ao analitica mais «pessimista», de procura desencantada de graus escolares, como Ihe chama Sérgio Gracio, e de manutengo relativa das distancias sociais, seja defendida e fundamentada por auto- res que se situam explicitamente no campo teérico da estrati- ficacao social e da perspectiva weberiana. Também Manuel Villaverde Cabral (1997a: 52-54), que trabalha tedrica e empi- ricamente com o conceito de status social, ao comparar a classe subjectiva dos inquiridos com o seu estatuto s6cio-econémico objectivo e com a ocupacao profissional dos pais, conclui que a vontade dos portugueses de se situarem como membros da classe média deriva da fraca privacao 2 No seu amigo sobre a mobilidade social (Grdcio, 1997: 62) 0 autor aponta para a confirmagao empirica do modelo de Raymond Boudon em diver- sos estudos, concluindo que «...] A importéncia crescente da educaco esco- lar pode com efeito considerar-se um factor de primeiro plano, sendo mesmo o principal factor, que poderia gerar mais fluidez social nas nossas sociedades. Ora em qualquer arco temporal abarcado [pelos estudos recenseados pelo autor] [...] estéo incluidos fenémenos de expansao escolar que, tal como em Boudon, nao tem as consequéncias esperadas.» 2 Sérgio Gracio concluiu, depois de analisar os resultados de um inquérito de 1993 @ uma amostra representativa dos alunos dos primeiros enos do ensino superior em Lisboa, que as escolhas dos alunos e das familias quanto ao ensino superior dependiam mais de varidveis ligadas ao estatuto social, sobretudo 0 sexo dos inquiridos, e ao aproveitamento escolar do que a varia- veis ligacas ao mercado de trabalho. O que nao implica que estas ultimas nao tenham também a sua importancia, sobretudo na escolha de area nos 10° e 11° anos (1994: 88). relativa sentida pela populagao. Essa medianizagao da socie- dade portuguesa, apesar de ser em parte iluséria, contribui para a integragao social, visto que, segundo o autor, as dis- tancias relativas entre os estratos sécio-econdmicos se man- tiveram idénticas e a redistribuigao da riqueza foi pratica- mente nula®°, a percepcdo subjectiva de mobilidade ascen- dente por parte dos inquiridos nao teria base real de susten- tagao. Comparando as analises de Joao Ferreira de Almeida, Fernando Luis Machado e Antdnio Firmino da Costa com as de Sérgio Gracio e Manuel Villaverde Cabral quanto a mobili- dade social em Portugal, duas imagens contrastantes pode- mos fixar. Os primeiros, apesar de salientarem o peso da reprodugo social e das trajectérias descendentes, apresen- tam uma imagem positiva e de relativa democratizagao. Para os segundos, a mobilidade 6 ilusdria e a imagem que dao é globalmente negativa e de pouca abertura da estrutura social. Resultados tao dispares justificariam, a nosso ver, um maior aprofundamento do didlogo entre ambas as abordagens, no sentido de dai se retirarem as necessarias conclusées cienti- ficas (e, porventura, politicas ¢ ideolégicas). O certo 6 que a tipologia de classes criada por Joao Fer- reira de Almeida e a sua equipa tem sido aplicada pratica- mente a todos os estudos sobre a estrutura social portuguesa e sobre as trajectorias de classe. Contudo, achamos que esta tipologia, e isto especificamente para os estudos sobre as tra- ject6rias de classe e a mobilidade social, se apresenta como demasiado idiossincratica, nao permitindo comparagoes com os resultados existentes para outros paises. Um exemplo das dificuldades que coloca essa tipologia pode ser visto no estudo de Maria Dulce Magalhaes (1994) sobre as classes sociais e as trajectérias intergeracionais da populacao da Area Metropolitana do Porto. Como reconheceu a autora, houve uma grande dificuldade na hierarquizagao das diferen- tes fracgées de classe (Magalhdes, 1994: 191). Por outro lado, a tipologia apoia-se numa grande heterogeneidade de critérios e da lugar a um grande numero de fracgdes de classe*!, obrigando a reducao da andlise da mobilidade as 80 Antes, no artigo citado, 0 autor jé tinha demonstrado a fraca mobilidade geoprofissional da populacao portuguesa, com 36% da populacao sem qual- quer mobilidade (1997a: 48-49). 31 Por exempio, a pequena-burguesia engloba tanto simples empregados executantes como camponeses e trabalnadores por conta-prdpria, protissionals, liperais e técnicos de enquadramento. Que mavimentes, de quais e para quais Andlise de classes e mobilidade social em Portugal 189 190 Elisio Estanque José Manuel Mendes trés classes tradicionais (burguesia, pequena-burguesia, ope- rariado)52. Mas, 0 que surpreende em todos os estudos referidos atras é a invisibilidade analitica dos efeitos da diferenga sexual na mobilidade social. A utilizac&o da familia como unidade de andlise, no caso da tipologia criada por Joao Ferreira de Almeida e sua equipa, esconde as trajectorias individuais, sobretudo as das mulheres. Contudo, é nas correntes webe- rianas que 6 mais habitual 0 «esquecimento» das mulheres Nos estudos de mobilidade’°. Mesmo um autor como Manuel Villaverde Cabral, quando confrontado com dados inespera- dos no seu estudo sobre as atitudes dos portugueses em rela- ¢&0 ao desenvolvimento, sentiu necessidade de analisar os resultados para as mulheres de forma auténoma (Cabral, 1997b), mas quanto a mobilidade social nao distingue os pro- cessos € trajectorias de homens e mulheres. Esta invisibili- dade analitica nao é compreensivel, pois, como bem salientam Antonio Firmino da Costa e Fernando Luis Machado (1997), as transformagées mais notaveis da estrutura socioprofissional em Portugal esto associadas a crescente feminizagao da populacao activa, a qual se inscreve também na terciarizagao da economia e na — esta sim crescentemente esmagadora — feminizagdo do ensino superior. Alias, a bibliografia sobre a posiggio socioeconémica da mulher em Portugal é jd bastante extensa e relevante tanto a nivel tedrico como empirico™. fracg6es de classe, sdo mobilidade ascendente ou descendente? Numa mesma classe esto fracg5es com prodomindncia de capital escolar, outras ‘com predominancia de capital econémico. *2 Tais problemas nao impedem a autora citada de concluir por uma maior permeabilidade da estrutura social portuguesa € pela concretizagao de projec- {os socials ascendentes, sobreludo através de dues vias: a escola e @ empresa (Magalhaes, 1994: 214-215). A autora adverte, contudo, que 0 efeito da escola 1ndo 6 directo e imediato. O conceito que utiliza, por vezes de forma demasi damente automética, é 0 de habitus, para justificar possiveis imobilismos e cris- talizagoes de habitos. Veja-se 0 aceso debate na Gra-Bretanha a este propésito que originou © texto de John Goldthorpe em justificagdo dessa opgao metodolégica (1983; 1984). Para as criticas que se seguiram, ci. Heath e Britten,1984; Walby, 1988; Crompton, 1989. 3 Nao pretendendo ser exaustivos, podemos indicar as seguintes referén- cias: para a posigao ca mulher portuguesa no contexto da Uniao Europela, Silva e Perista, 1995); sobre a situacao da mulher em Portugal, com grande nimero de indicadores, CIDM, 1995; sobre as mulheres no ensino superior, Morals ¢ Carvaino, 1993; para um levantamento alargado dos problemas e dos estudos sobre mulheres em Portugal, Vicente, 1998; para os estudos da rela- ¢0 das mulheres com o mercado de trabalho e o emprego, Molt et al., 1997 ¢ Lopes e Perisia, 1996; para uma andlise critica e perspicaz sobre as mulheres em Portugal, Ferreira, 1998); para o enquadramento intemacional da situagao Contudo, existem algumas boas monografias que nos resti- tuem a complexidade das redes, trajectérias e processos de relacionamento dos dois sexos, nomeadamente a de Maria das Dores Guerreiro sobre as familias na actividade empresa- rial (1996) e a de Ana Nunes de Almeida sobre familias opera- rias do Barreiro (1993). Ambas as autoras concluem pela pre- senca de trajectorias predominantes de reproducao social, mas com articulagdes € percursos complexos. Interessante é que, quando analisam as trajectérias e procuram dar conta da maior ou menor mobilidade dos individuos inquiridos, fazem- no de forma agregada, nao reflectindo as diferengas conso- ante 0 sexo. S6 nos quadros que caracterizam as familias de origem € que sao apresentados dados separados para os pais e maes dos inquiridos®> A obrigatoriedade tedrica e metodolégica de ter em conta © efsito da diferenca sexual na estruturagaio de processos de mobilidade social ficou patente no estudo por nés efectuado sobre uma amostra representativa da popula¢ao activa portu- guesa (Estanque e Mendes, 1998, sobretudo capitulo 5, e Mendes, 1997). Com efeito, os dados agregados para os dois sexos quanto a mobilidade liquida, isto 6, controlando para os efeitos de estrutura, mostravam uma grande impermeabili- dade aos movimentos dos individuos na dimensao das cre- denciais, uma permeabilidade relativa na dimensao da autori- dade € uma abertura quase total na dimenséo da proprie- dade. Estes dados jé contrariavam a frequente acentuagao do papel da escolarizagdo no aumento das probabilidades individuais de mobilidade social®°. das mulheres portuguesas quanto 4 mobilidade @ & cidadania, ver 0 conjunto de textos reunidos em Ferreira et al, 1998. * Essa atencéo cada sobretudo aos homens @ a nao desagregacao sexual dos dados sobre mobilidade poderd relacionar-se com 0 facto de as autoras terem estudado populagées fortemente masculinizadas. Para um estudo mais recente sobre 0s novos empresarios, em que se detectou uma forte mobilidade social mas com percursos matrimoniais homogdmicos, ver Almeida et al(1997). Também estes tltimos autores ndo especificam a mobil dade social de homens e mulheres. %© Interessente é referir as diferengas geracionais detectadas para os dados agregades pelos dois sexos. Nos inquiridos com mais de 45 anos, nenhuma das dimensGes definidas — propriedade, autoridade e credencials - constituia obstaculos a mobilidade dos individuos. Nos que tinham entre 35 € 45 anos, a propriedade e a autoridade mostravam-se com graus significativos de impermeabilidade @ como factores obstacularizadores da mobilidade dos individuos. Nos que tinham menos de 35 anos, so as credenciais emergiram como factor significative para a destocago dos inquiridos na estrutura social. Para estes uiltimos, 0 feito da desvalorizagao dos diplomas tomou-se bastante importante. Analise de classes e mobilidade social em Portugal 191