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esta do Ferldade de Lares SLINGUAS.ELITERATURAS Porta, XVI, 1999, ype A=5™ A CONCEPGAO DA NATUREZA NA OBRA POETICA DA MARQUESA DE ALORNA So do conhecimento piiblico as vicissitudes da adolescéncia e juven- tude da Marquesa de Alorna, passadas no Convento de Chelas, na companhia da mae ¢ da irma, enquanto seu pai estava preso no forte da Junqueira, por ordens do Marqués de Pombal. Tais circunstincias condicionaram, de certa forma, os seus ideais de liberdade, mas ndo impediram, 0 que, alids, teria sido dificil, que, apés a sua libertagdo, em 1777, aquando da Viradeira, ¢ sobre- tudo depois de 1789 ou durante a politica expansionista de Napoledo, todas as suas simpatias fossem para a contra-revolugdo ¢ para a causa legitimista. A condigao de nobre e a primitiva educagao, apesar das leituras “progressis- tas”, favoreceram esta tomada de posigo e explicam muitas das situagées da sua vida. Nao nos interessa fazer aqui uma reflexdio sobre as suas ideias politi- cas ', mas sim analisar em que medida a linha biogréfica se prende com as opcdes estéticas ou estas reflectem, antes de mais, as condigdes sécio-politi- cas e culturais portuguesas, pouco permedveis, até ao surto liberal de Garrett € Herculano, aos novos sentiments que a Europa ja sentia germinar desde meados do século XVII E interessante verificar que, durante a estadia no convento, as suas leituras incluam, além dos obrigatérios classicos, autores como Young e Rousseau e que, enquanto na Alemanha, com o marido, leia Goethe, Burger ' Cl, Hemani Cidade, «Prefiicion a Marquesa de Aloma, Poesias, Lisboa, Live. Sé dda Costa, 1941, pp. [X-LI ¢ Maria Helena Vilas-Boas e Alvim, «A Marquess de Aloma — de Defensora das Luzes a Agente Contra-Revolucionaria», Coimbra, Revista de Histéria das Ideias, Vol. 10, Faculdade de Letras, 1988, pp. 265-276 e idem, «A Marquesa de Alora eas Cartas do Exilio em Inglaterra», in Estudos Portugueses e Africanos, Univ. Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, n° 17, Jan./Junho 1991, pp. 61-74 47 MARIA DE FATIMA MARINHO. ou Wieland?, Deste gosto pelo conhecimento dos escritores modemos, advém-Ihe a paixdo pelo trabalho de tradugdo, que se estende pelos mais varia~ dos autores, desde os salmos biblicos até aos clissicos como Homero ou Horacio, a autores do século XVIII, como Pope, Goldsmith, Wieland ou Thomson ¢ romanticos como Ossian (Macpherson) ¢ Lamartine. Uma pequena abordagem a estas tradugdes, que frequentemente se apre- sentam como imitagdes livres, revela-nos j4 alguns dados importantes para a Compreenstio de uma poética que, em varios aspectos, se poder considerar quase paradoxal. A escolha dos roménticos ou pré-roménticos indicia um conhecimento alargado da nova estética que a levaré a protagonizar um tute- lar papel em jovens como Herculano. Este, aquando da publicagaio da sua obra completa, em 1844, escreve: «E todavia dos seus contemporéneos quem conheceu tio bem, nao dizemos a literatura grega e romana, em que igualava 0s melhores, mas a moderna de quase todas as nagdes da Europa, no que nenhum dos nossos portugueses porventura a igualou? Como madame de Stael ela fazia voltar a ateng&o da mocidade para a arte da Alemanha, a qual veio dar nova seiva a arte meridional que vegetava na imitago servil das chamadas letras clissicas, ¢ ainda estas estudadas no tramsumpto infiel da literatura francesa da época de Luis XIV. Foi, por isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razo, se Ihe atribuiu o nome de Stéel portuguesa.» 3, Por vezes, ao traduzir, ou ao imitar, D. Leonor de Almeida inseria modi- ficagdes, adaptando 0 novo texto ao contexto nacional e fazendo, proposi- tadamente, esquecer a fonte. Alguns exemplos de 4 Primavera, almitagio Livre de Thompson», segundo se pode ler, demonstrarZo 0 que acabamos de afirmar, O poema original, Spring, foi publicado em 1728, sendo posterior- mente, em 1730, integrado no conjunto The Seasons. A dedicatéria Condessa de Hartford é substituida por uma a Princesa D. Maria Francisca Benedita, assim como o verso «Ye generous Britons, venerate the plough» 4 se transforma em «Venerai o instrumento das lavouras, / © Lusos gene- rosos!» 5, Esta mudanga de nome do povo é frequente, como também o é a ? CE, Heméni Cidade, pref. cit, pp. XVI, XVII e XXVIL 3 Alexandre Herculano, «D. Leonor de Almeida, Marquesa de Aloma», in Optisculos, org., intr. ¢ notas de Jorge Custédio e José Manuel Garcia, Lisboa, Presenga, 1986, Vo. V, p. 124. * James Thomson, The Seasons and The Castle of Indolence, editado por James Sambrook, Oxford, Clarendon Press, 1989, p. 5. * Obras Poéticas de D. Leonor d’Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marqueza d’Aloma, Condessa d’Assumar, ¢ d’Oeynhausen, conhecida entre os poetas portuguezes ppelo nome de Alcipe, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844, Tomo Ill, p. 6. 48 A CONCEPCAO DA NATUREZA NA OBRA POE: NICA DA MARQUESA DE ALORNA alteragdo de alguns nomes que no correspondiam ao horizonte de expecta- |. A passagem de Thomson, «These are the sacred feelings of thy heart, / Thy heart informed by reason’s purer ray, JO Lyttelton, the friend!» © é traduzida como «Estes sdo os sagrados sent mentos / De tua alma elevada, 6 Pae amado!» 7 De igual forma, alguns acrescentos, que tém a ver com vivéncias pes- soais da autora, so introduzidos no meio do texto, remetendo para momen- tos da sua vida na corte austriaca. Seis versos de Spring sto intercalados por tivas dos portugueses ou dela propri quinze versos na versio lusitana: «At length the finished garden to the view / Its vistas opens and its alleys green. / Snatched through the verdant maze, the hurried eye / Distracted wanders; now the bowery walk / Of covert close, where scarce a speck of day / Falls on the lengthened gloom, protracted sweeps;» §. Na Marquesa de Alora, lemos: «Do completo jardim as perspectivas, As alléas vistosas, nos desviam Do verde labyrintho os olhos ledos. ‘Oh Schombrun! Oh lembranga deleitosa! Alli, junto da fonte que eterniza O augusto lago da immortal Tircéa, Quantas vezes, a Patria memorando, Esqueci que a ventura é s6 presente! Invoquel o futuro, sem cautela, E desprezei a Nayade mimosa, Que nas grutas affavel me acolhia! Tu vivias entdo, Marcia? suave; E as Horas apressadas ja traziam Envolta em sustos a tremenda Parca, Que 0 coragio afflicto presentia. Quem sabe, quando parte, quanto deixa? Quanto vem reclamar & surda Morte? Em vio! Em vo! Oh Marcia incomparavel! © James Thomson, op. cit, p. 27. 7 Marquesa de Aloma, op. cit, Tomo IIf, p. 31 ® James Thomson, op cit, p. 17. ° Sua irma, D. Maria, Condessa de Ribeira Grande. 49 MARIA DE FATIMA MARINHO Apenas fere um raio luminoso Das latadas dos bergos de folhagem A longa escuridao, a sombra amena:» ! A autora chega até a invocar o proprio Thomson, invocagio que, como € natural, ndo consta da obra original: «Thompson, cujo pincel arrebatado / Com britannica forga e liberdade / Expoz ao Thames o que a lyra agora, / Na Lusitania, melindrosa evita, / Cante de amor as doces agonias, / Essa acerba miseria que recréa» ", Este breve estudo comparativo serviu para tentar demonstrar, no s6 0 conhecimento profundo que ela tinha deste ¢ doutros autores, mas também a liberdade que se permitiu, adaptando ao seu caso pessoal, os escritos de ou- trem. E, curiosamente, € com as varias tradugdes ou imitagdes que ela se re- vela mais préxima do espirito roméntico, dado que na sua obra postica pro- Priamente dita, 0 classicismo impera, sendo raros os momentos onde se poderd notar um ou outro trago diferente. Muitos dos seus poemas tém como causa proxima um fait-divers (um aniversario, uma morte, a prisdo em Chelas, a doenga, propria ou alheia) © outros invocam personagens reais do tempo, como o Infante D. José ou Arthur Wellesley, duque de Wellington («Tambem tu, nobre Arthur, palmas aleangas» '2), em Recreagdes Botdnicas, datado de 1813 Centrando-nos no objecto principal desta pequena andlise, vamos ten- tar estabelecer 0 modo como a Marquesa de Aloma usa a natureza nos seus textos, de molde a estabelecer uma tipologia, que se revelaré muito mais neo classica do que romantica ou pré-romantica, Helena Buescu confina a descrigao clissica & «area do incidentalmente ornamental» '3, opondo «a “beleza impessoal” e universal dos antigos a auséncia de universalidade e a presenga concomitante da subjectividade e do realismo, na arte modema.» "4 Se pensarmos num autor como 0 Padre Teodoro de Almeida, conhecido da Marquesa e de todo 0 publico cultivado do século XVIII, facilmente nos aperceberemos de que a natureza que ele apresenta, por exemplo, em O Feli © Marquesa de Aloma, op. cit, Tomo Il, pp. 24-25. © Idem, p. 33, "2 Idem, Tomo IV, p. 113. Helena Buescu, Incidéncias do Othar: Percepgio e Representagdo, Lisboa, Caminho, 1990, p. 289. 4 Idem, p. 196, 50 A CONCEPCAO DA NATUREZA NA OBRA POETICA DA MARQUESA DE ALORNA Independente, se aproxima da que Helena Buescu define como ornamental ¢ impessoal: «Nao podeis ter melhor occasiio, diz. 0 conde: ¢ ja neste tempo tinhao elles subido a montanha; e Misseno Ihes deo assento debaixo de uma parreira, que formava um bem engragado gabinete. Alli as longas vides, que penditio em roda, fazitio como um docel; ¢ a verde relva servia de aleatifa; formava-se 0 espaldar de uma latada, em que 0s roxos, € enroscados cara- coes, embaragando-se com 0 legacdo cheiroso, trepavao até acima, e deste modo vedavato a entrada ao sol, para que ndo os molestasse. Aqui pois sobre almofadas de mimoso musgo, recebeo Misseno 0s seus honrados hos- pedes.» '5 De igual forma, na obra de D. Leonor de Almeida sto raros os momen- tos onde se notam alguns tragos romanticizantes, na linha de Rousseau, Schlegel, Bernardin de Saint-Pierre ou Chateaubriand. Versos como «Para mim nao ha prado florecente / Tudo murcham meus ais , meus dissabores» !6 ou expressdes do género de «o mocho nocturno» "7, agrestes soliddesn '8, «Ossos mirrados, descarnados membros, / Sombras da morte, lividos semblantes» '°, «O esqueleto da morte carcomida» 7° ¢ «Que pavor / Espalha em todo 0 campo a minha dor» 2!, poderio funcionar como outros tantos ecos dos pré-roménticos europeus, no deixando contudo de constituir uma excepeo na poética da autora AS leituras de Rousseau e de outros ter-Ihe-to deixado a nocdo de uma natureza de acordo com o estado de espirito do sujeito («La campagne, encore verte et riante, mais défeuillée en partie, et déja presque déserte, offrait partout image de la solitude et des approches de I'hiver. II résultait de son aspect un mélange d’impression douce et triste, trop analogue & mon age et & mon sort pour que je ne m’en fisse pas l'application.» 22), assim como 0 gosto pelo '5 Padre Teodoro de Almeida, O Feliz independente do Mundo e da Fortuna ow Arte de Viver Contente em Quaesquer Trabathos da Vida, Nova edigdo, mais correcta que as precedentes, Lisboa, Typographia de José Baptista Morando, 1861 (I."ed., 1779), Tomo I, pb 16 Marquesa de Aloma, opi. Tomo I, p31 Y Idem, pil. 18 Idem, p.28. "9 Idem, p.149, 2 {dem, p.167. 2 Idem, Tomo It, p.193. Jean-lacques Rousseau, «Deuxiéme Promenade», in Les Réveries du Promeneur Solitaire ¢ Les Confessions, Texte tabli et annoté par Louis Martin-Chaulfier, Paris, Bibl. De la Piéiade, 1947 (12 ed., 1782), p. 660. SI ‘MARIA DE FATIMA MARINHO selvagem ¢ pelo nocturno que jé notamos em muitos autores do século XVIII «Les rives du lac de Bienne sont plus sauvages et romantiques que celles du lac de Genéven 5; «Durante a noite, s6 0 rouxinol faz ouvir o seu canto plan- gente e 0s seus suspiros profundos.» 24; «Lorsque la lune éclairait a demi les piliers des arcades, et dessinait leur ombre sur le mur opposé, je m*arrétais & contempler la croix qui marquait le champ de la mort, et les longues herbes qui croissaient entre les pierres des tombes.» 25. Estes tragos so, todavia, diminutos, se tivermos em atengao a globali- dade da obra de D. Leonor, sobretudo se dela excluirmos as tradugdes ou imi- tages, onde como vimos, stio mais nitidas as caracteristicas pré-romanticos, dada a escolha que ela propria efectua, © que normalmente encontramos é a vigosa natureza («alegre prado, selva florecenten 7; «Se deserever ao menos eu pudesse / Os passaros, as flo- res / Se a relva descrevesse / Sobre a qual dormem placidos Amores» 27; «Oh doce Natureza» 8) onde se ouve «Um gorgeio das aves deleitoso» 2? e onde se no aspira a nada mais do que a uma beatifica aurea mediocritas, «Feliz esse mortal que se contenta / Com a herdade dos seus antepassados, / Que livre de tumulto e de cuidados / $6 do pao que seméa se alimenta.» 3°. De acordo com esta concepgdo nitidamente neo-clissica, esta a multidio de Zefiros, Saturnos ¢ outras figuras da mitologia que abundam nos poemas que imprimem 0 tom arcédico: «os Zephiros s’escutam susurrando» 3!, «V6s, 0s Satyros desses arvoredos!» 2, «Da Nympha a quem negou suave abrigon’3, A importancia da natureza é referida por D. Leonor, «Fecunda Natureza, em vao procura / Comtigo competir Arte engenhosa; / Tu és mais agradavel, mais formosa / Do que quanto inventou a Architectura.» *4, apesar de ser uma 2 Jean-Jacques Rousseau, «Cinguiéme Promenade». op. cit, p. 69S, * Friedrich Schlegel, Lucinda, rad. de Alvaro Ribeiro, Lisboa, Guimardes Ed., 1979 (12 ed., 1799), p. 176, 28 Chateaubriand, René, in Atala, René, Le Dernier Abencerage, preféicio de Pieme Moreau, Paris, Folio, 1971 (1: ed., 1805), pp. 147-148, 2 Marquesa de Aloma, op. cit, Tomo I, p. 42. 27 Idem, p. 85 2 Idem, p. 104. ® Idem, p. 256. % Idem, p. 16. 31 Idem, p. 7. 3 Idem, p. 27. 3 Idem, p. 114. Marquesa de Aloma, Tomo I, p. 39. 32 A CONCEPCAO DA NATUREZA NA OBRA POETICA DA MARQUESA DE ALORNA natureza estatica («Relva que o chao alcatifa, / Troncos que aos Ceos se lev- ) onde © homem, 0 sujeito poético, se coloca, tal como preconizava Saint- Lambert («Il faut done pla homme champétre, ses moeurs, ses travaux, ses peines et ses plaisirs.» antam, / Aves que 0s ares cortando / Com seus gorgeios me encantam» er dans les paysages et dans les intervalles, 36, A intromissao do sujeito no poema acentua, por vezes, a necessidade de particularizagdes (de lugares, de tios, etc.) para que 0 efeito produzido seja maior 37. Dai que seja comum 0 aperecimento de topénimos como o Tejo ¢ ‘outros, «Do que oiga 0 Tejo a voz do meu tormento» 38, © emprego de epitetos, cuja moda remonta & Antiguidade, deveria, segundo Hugh Blair, professor de literatura e de retorica, acrescentar uma ideia nova a palavra que qualificam, sem o qual seriam dispensdveis ¢ fasti- diosos 3°, Na obra em causa, nem sempre a autora consegue fugir a lugares- -comuns, como «a fresca relva» *, «agreste serranian, «sombrio valle» 4!, «os rochedos cavernosos» #2, «selvas tristes» #3, avento irado» “4, «selvas som- brias» 45 ou «mar salgado» 4°, caindo em quase todas as qualificagdes usadas € abusadas pelos clissicos, sem conseguir, ou s6 conseguindo esporadica- mente, empregar os atributos préprios da nova escola que conheceu e de que chegou a traduzir alguns autores. 35 Idem, Tomo Il, p. 311 3 Jean-Frangois de Saint-Lambert, «Discours Prétiminaire» a Les Saisons, in La Description Littéraire, ~ De UAntiquité 4 Roland Barthes: une Anthologie, org. de Philippe Hamon, Paris, Ed. Macula, 1991, p. 70 97 Cf, Hugh Blair, «Legons de Rhétorigue et de Belles-Lettes» (1783), in La Description Littéraire, p.74: «he riviére, une montagne, ou un lac, font plus deffet sur Trimagination, lorsqu’on spéeifie tel lac ou telle rivigre, que lorsqu'll n'est question que un lac ou dune rivigre en général» 38 Marquesa de Alora, Tomo 1, p. 196. °° Cf. Hugh Blair, arti, p. 75: «Lépithéte doit ajouter une idée au mot qu'elle {qualifie, ou au moins augmenter I’énergic de sa signification ordinaire. Parmi les épithétes, sénérales, ily en a qui semblent avoir cette demigre propriété mais, & force d'etre rebattues, cllessont devenues insipides; elles sont la discorde funeste, lodicuse envic, les guerres sanglantes, les sctnes affreuses, et tant d’autres de la méme espice.» + Marquesa de Alora, Tomo I, p. § “1 Idem, p. 24 Idem, p. 25. 8 Idem, p. 91 Idem, p. 148 4 Idem, p. 198, 4 Idem, p. 282. 33 MARIA DE FATIMA MARINHO Os primeiros teéricos roménticos ou pré-romanticos, que se debruga- ram sobre a representagio da natureza, criticaram e até ridicularizaram esta forma de apropriagao da realidade exterior. Chateaubriand, em Génie du Christianisme (1801), advoga a grandeza da religito crista e a suprema beleza da natureza liberta da legido de falsas divindades: «Libres de ce troupeau de dieux ridicules qui les boraient de toutes parts, les bois se sont remplis d’une divinité immense. (...) II faut plaindre les anciens, qui n’avaient trouvé dans Océan que le palais de Neptune et la grotte de Protée; il était dur de ne voir ‘des dans cette immensité des mers, qui semble nous donner une mesure confuse de la grandeur de notre ame» 4”. Joseph Michaud, no prefiicio a Le Printemps d'un Proscrit (1803), intitulado «Quelques Observations sur la Poésie Descriptive, ataca a poesia de Thomson, dizendo que «La plupart de leurs tableaux champétres sont moins que les aventures des tritons et des né des poémes que des herbiers, ou des nomenclatures d’histoire naturelle» #8 ‘A Marquesa de Alorna, em 1813, quando escreve Recreagdes Botdnicas, parece continuar longe do novo espirito, deixando-se influenciar pelos clis- sicos e por toda uma tradi refere Lufs de Pina, num artigo, publicado em 1953, «A Botinica na Poesia da Marquesa de Alora» ”, A linha didactica fazia parte dos postulados das Luzes, tal como se pode verificar ao ler Louis J. Marie Daubenton ou Jean-Francois de Saint-Lambert primeiro escreve que «Quelque perfection que l'on puisse donner une description, ce n'est qu'une peinture vaine et le sujet d’une curiosité frivole, si on ne se propose un objet plus rée! pour l’avancement de nos vraies con- naissances en Histoire naturelle.» ®°, enquanto 0 segundo, no discurso pre= liminar a Les Saisons, imitadas de Thomson, de 1748, defende que «Si la Pogsie doit émouvoir, elle doit instruire.» 5'. E precisamente este o propésito io com fortes preocupagdes didacticas, tal como *7 Frangois-René de Chateaubriand, Génie du Christianisme, Paris, Gabriel Roux, Libraire-Editeur, Amauld de Vresse, Libraire-Editeur, 1857, Tome Il, pp. 76-77, * Joseph Michaud, «Quelques Observations sur la Poésic Descriptive», Description Littéraire, p. 91. * Luis de Pina, «A Botinica na Poesia da Marquesa de Aloma», in Studium Generale ~ Boletim do Centro de Estudos Humanisticos Anexo & Universidade do Porto, ‘Ano I, N° 1-2, Porto, 1953, pp. 7-51 5 Louis J. Marie Daubenton, La Description Littéraire, p. 43. $1 Jean-Frangois de Saint-Lambert, «Discours Préliminaire» a Les Saisons, in La Description Littéraire, p. 71. in La 34 A CONCEPCAO DA NATUREZA NA OBRA POETICA DA MARQUESA DE ALORNA de D. Leonor, que logo na «Epistola Dedicatoria és minhas Patricias», explica que 05 seus versos so fundamentalmente um modo de estudar a Natureza: As nuvens pardas, que ouro ardente entornam, Que lampejam rubins, e os ares toldam: Os mogerins, as rosas, as papoulas, Que festejam a Luz, quando aparece: Espectaculo so que a alma namora, Que convida a estudar a Natureza.» 52 ‘Ao longo dos seis cantos que constituem 0 poema, podemos apreciar alusdes aos diversos tipos de plantas, as suas varias propriedades ¢ forma de reprodugio, aos estudiosos como Lineu e até as fabulas que Ihes andam asso- ciadas. Nao falta também a apologia incondicional do campo («Foge, Henriqueta, foge das cidades, / Onde oppressivas leis da Moda absurda / Agrilhoam ingenho, apagam a alma. / Tudo ¢ ruido alli, tudo € tumulto. / La sem riqueza é nulla a intelligencia: / E sem a intelligencia, a pompa, 0 luxo / Sao crespo fumo que dissipa o vento.» 3), 4 boa maneira de Samuel Richardson, em Pamela (1740) ou Rousseau, em La Nouvelle Héloise (1760). ‘A pormenorizagao, por vezes excessiva, quer na descrigio das plantas quer na enumeragao das suas propriedades obedece aos ditames de Georges- -Louis de Buffon, na sua Histoire Naturelle, de 1794: «La description exacte et Vhistoire fidéle de chaque chose est, comme nous T’avons dit, le seul but qu’on doive se proposer d’abord. Dans la description l’on doit faire entrer la forme, la grandeur, le poids, les couleurs, les situations de repos et de mou- vements, la position des parties, leurs rapports, leur figure, leur action et toutes les fonctions extérieures.» 84 E assim que podemos encontrar estrofes como as seguintes, que, se pouco valor literdrio possuem, nfo deixam de ser exemplos de uma preocu- pag&o didadctica, descritiva e, em ultima analise, cientifica: «Eis naquelles vallados uma althéa Que os enigmas explica desta Classe. Um calix imbrincado e permanente; As petalas so cinco, ¢ cordiformes; 5 Marquesa de Aloma, Tomo IY, p. 8. 53 Idem, p. 25. Henriqueta é uma das filhas da Marquesa. 5 Georges-Louis de Buffon, in La Description Littéraire, pp. 40-42. 35 ‘MARIA DE FATIMA MARINHO No fundo os filamentos juntos nascem, E gradualmente encurtam os que distam Dos que no centro soltos se levantam. ‘No meio o receptaculo s'eleva; No tope deste os germes o circulam, Que em capsulas, e outras tantas casas Quantos pistilos tem a flor, se tomam, Nellas moram reconditos os fructos Que arilha cautelosa cobre e guarda» 55 «Um germe oblongo, cujo a flor domina, Sem calix com espatha encontraremos: Cinco pétalas tortas; duas cobrem, Qual arco ou casco, a tenue flor no tope: O labio inferior forma o nectari O style as bordas deste ao stigma pega; Mas tudo enrodilhado se confunde. Em cella estreita, aberta pelo fundo, Alli, reclusos, filamentos moram...» 5° Buffon aconselha ida 0 uso de comparagdes ou a narragio de equenos factos que favoregam uma maior atengao ou tomem a descrigo menos fastidiosa *”. E assim que se compreendem a intromissdo da lenda de Viriato ligada ao geranio, a alustio as barbas empenhadas de D. Joao de Castro, ou a referéncia a fabula do girassol. De igual forma, a ligagdo do nome das plantas com as pessoas desperta mais interesse na leitura: «Tu, Nogueira, que tens luzes sobejas, / Desdenha a competencia c’o Carvalho: / Adoga esse rigor, ‘essa aspereza / Que o seu systema estragador plantava.» %, Como podemos constatar, até nas Recreagdes Botdnicas, D. Leonor nao escapa ao circunstancialismo de grande parte dos seus textos, visando um $$ Marquesa de Alorna, Tomo IY, p. 70 $ Idem, p. 96. °” Cf, Buffon, artcit, p. 42: «de méme pour rendre les descriptions moins séches, ¥ méler quelques fais, quelques comparaisons, quelques réflexions sur les usages des diff Tenles parties, en un mot, faire en sorte qu'on puisse lire sans ennui aussi bien que sans contention.» ** Marquesa de Aloma, Tomo IV, p. 101. Segundo nota da autora, Nogueira & «Ricardo Raymundo Nogucira, um dos membros da Regencia», Carvalho é, evidentemente, (© Marqués de Pombal, seu primeiro inimigo. 56 A CONCEPCAO DA NATUREZA NA OBRA POETICA DA MARQUESA DE ALORNA piiblico contempordneo que facilmente identificava as alusdes e que se recre- ava ainda numa mentalidade de ancien régime. Conhecedora da nova cor- rente, a0 ponto de traduzir alguns dos seus textos e de a dar a conhecer a ovens talentos, como Herculano, a verdade ¢ que na sua produgdo postica so raros os tragos inovadores, como tivemos ocasido de demonstrar. O ‘Testamento poético que dirige a uma de suas filhas ¢ disso prova evidente ~ 6 ainda a pastora da éclogas que fala, € ainda Satumo quem a pode influen- ciar: «da me vio tremendo as mos Quando as aureas cordas firo, E em logar de um som cadente Resoa um triste suspiro. Cercado de dissabores, Vai-me satumo apagando As idéas luminosas Que n’alma estavam pulando. Toma, Lize, a minha flauta, E vai nos valles cantar; Teu canto suave péde Minhas magoas applacar. Aqui tens a lyra d’oiro, Na tripode toma assento; Vai-te encontrar co’as estrellas Nas azas do pensamento. E voando co’as idéas Que se avista a Divindade; $6 quem do vulgo se aparta Entende a voz da Verdade.» Maria de Fétima Marino Marquesa de Alora, Tomo Il, p.303, 7