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Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política brasileira em que os militares
governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia,
supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o
regime militar.
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A crise política se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice de Jânio era João
Goulart, que assumiu a presidência num clima político adverso. O governo de João Goulart (1961-
1964) foi marcado pela abertura às organizações sociais. Estudantes, organização populares e
trabalhadores ganharam espaço, causando a preocupação das classes conservadoras como, por
exemplo, os empresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Todos temiam uma
guinada do Brasil para o lado socialista. Vale lembrar, que neste período, o mundo vivia o auge
da Guerra Fria.
Este estilo populista e de esquerda, chegou a gerar até mesmo preocupação nos EUA, que junto com
as classes conservadoras brasileiras, temiam um golpe comunista.c

Os partidos de oposição, como a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático
(PSD), acusavam Jango de estar planejando um golpe de esquerda e de ser o responsável pela carestia
e pelo desabastecimento que o Brasil enfrentava.
No dia 13 de março de 1964, João Goulart realiza um grande comício na Central do Brasil ( Rio de
Janeiro ), onde defende as Reformas de Base. Neste plano, Jango prometia mudanças radicais na
estrutura agrária, econômica e educacional do país.

Seis dias depois, em 19 de março, os conservadores organizam uma manifestação contra as intenções
de João Goulart. Foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu milhares de pessoas
pelas ruas do centro da cidade de São Paulo.

O clima de crise política e as tensões sociais aumentavam a cada dia. No dia 31 de março de 1964,
tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas. Para evitar uma guerra civil, Jango deixa o país
refugiando-se no Uruguai. Os militares tomam o poder. Em 9 de abril, é decretado o Ato Institucional
Número 1 (AI-1). Este, cassa mandatos políticos de opositores ao regime militar e tira a estabilidade
de funcionários públicos.
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Castello Branco, general militar, foi eleito pelo Congresso Nacional presidente da República em 15 de
abril de 1964. Em seu pronunciamento, declarou defender a democracia, porém ao começar seu
governo, assume uma posição autoritária.
Estabeleceu eleições indiretas para presidente, além de dissolver os partidos políticos. Vários
parlamentares federais e estaduais tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos
políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberam intervenção do governo militar.
Em seu governo, foi instituído o bipartidarismo. Só estavam autorizados o funcionamento de dois
partidos: Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA).
Enquanto o primeiro era de oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares.
O governo militar impõe, em janeiro de 1967, uma nova Constituição para o país. Aprovada neste
mesmo ano, a Constituição de 1967 confirma e institucionaliza o regime militar e suas formas de
atuação.
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Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo
Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao
regime militar cresce no país. A UNE (União Nacional dos Estudantes) organiza, no R io de Janeiro, a
Passeata dos Cem Mil.
Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas em protesto ao regime
militar.
A guerrilha urbana começa a se organizar. Formada por jovens idealistas de esquerda, assaltam bancos
e seqüestram embaixadores para obterem fundos para o movimento de oposição armada.
No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5 ( AI-5 ). Este foi o
mais duro do governo militar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do
habeas-corpus e aumentou a repressão militar e policial.

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Doente, Costa e Silva foi substituído por uma junta militar formada pelos ministros Aurélio de Lira
Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica).
Dois grupos de esquerda, O MR-8 e a ALN seqüestram o embaixador dos EUA Charles Elbrick. Os
guerrilheiros exigem a libertação de 15 presos políticos, exigência conseguida com sucesso. Porém,
em 18 de setembro, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional. Esta lei decretava o exílio e a
pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva".
No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São
Paulo.

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Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu Medici. Seu governo
é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como " anos de chumbo ". A repressão à
luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros,
peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos
professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do
país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa
Interna ) atua como centro de investigação e repressão do governo militar.
Ganha força no campo a guerrilha rural, principalmente no Araguaia. A guerrilha do Araguaia é
fortemente reprimida pelas forças militares.c
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Na área econômica o país crescia rapidamente. Este período que vai de 1969 a 1973 ficou conhecido
com a época do Milagre Econômico. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% ao ano,
enquanto a inflação beirava os 18%. Com investimentos internos e empréstimos do exterior, o país
avançou e estruturou uma base de infra-estrutura. Todos estes investimentos geraram milhões de
empregos pelo país. Algumas obras, consideradas faraônicas, foram executadas, como a Rodovia
Transamazônica e a Ponte Rio-Niteroi.
Porém, todo esse crescimento teve um custo altíssimo e a conta deveria ser paga no futuro. Os
empréstimos estrangeiros geraram uma dívida externa elevada para os padrões econômicos do Brasil.
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Em 1974 assume a presidência o general Ernesto Geisel que começa um lento processo de transição
rumo à democracia. Seu governo coincide com o fim do milagre econômico e com a insatisfação
popular em altas taxas. A crise do petróleo e a recessão mundial interferem na economia brasileira, no
momento em que os créditos e empréstimos internacionais diminuem.

Geisel anuncia a abertura política lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço.
Nas eleições de 1974, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados
e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades.
Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, começam a promover
ataques clandestinos aos membros da esquerda. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog á assassinado
nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho
aparece morto em situação semelhante.
Em 1978, Geisel acaba com o AI-5, restaura o habeas-corpus e abre caminho para a volta da
democracia no Brasil.
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A vitória do MDB nas eleições em 1978 começa a acelerar o processo de redemocratização. O general
João Baptista Figueiredo decreta a Lei da Anistia, concedendo o direito de retorno ao Brasil para os
políticos, artistas e demais brasileiros exilados e condenados por crimes políticos. Os militares de linha
dura continuam com a repressão clandestina. Cartas-bomba são colocadas em órgãos da imprensa e da
OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explode durante um
show no centro de convenções do Rio Centro. O atentado fora provavelmente promovido por militares
de linha dura, embora até hoje nada tenha sido provado.
Em 1979, o governo aprova lei que restabelece o pluripartidarismo no país. Os partidos voltam a
funcionar dentro da normalidade. A ARENA muda o nome e passa a ser PDS, enquanto o MDB passa
a ser PMDB. Outros partidos são criados, como: Partido dos Trabalhadores ( PT ) e o Partido
Democrático Trabalhista ( PDT ).
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Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresenta vários problemas. A inflação é alta e a
recessão também. Enquanto isso a oposição ganha terreno com o surgimento de novos partidos e com
o fortalecimento dos sindicatos.
Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de brasileiros participam do
movimento das Diretas Já. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que
garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. Para a decepção do povo, a emenda não foi
aprovada pela Câmara dos Deputados.c
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No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheria o deputado Tancredo Neves, que
concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança
Democrática ± o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal.
Era o fim do regime militar. Porém Tancredo Neves fica doente antes de assumir e acaba falecendo.
Assume o vice-presidente José Sarney. Em 1988 é aprovada uma nova constituição para o Brasil. A
Constituição de 1988 apagou os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no
país.

ABERTURA POLÍTICA BRASILEIRA

Expressão usada para designar o processo de transição do Regime Militar de 1964 para uma ordem democrática, ocorrido
no Brasil entre meados da década de 70 e o ano de 1985.

A partir do governo Ernesto Geisel entre 1974 e 1979, a crise econômica do país e as dificuldades do regime militar
agravam-se. A alta do petróleo e das taxas de juros internacionais desequilibra o balanço brasileiro de pagamentos e
estimula a inflação. Além disso, compromete o crescimento econômico, baseado em financiamentos externos.

Apesar do encarecimento dos empréstimos e da enorme dívida externa, o governo não interrompe o ciclo de expansão
econômica do começo dos anos 70 e mantém os programas oficiais e os incentivos aos projetos privados. Ainda assim, o
desenvolvimento industrial é afetado e o desemprego aumenta.

Nesse quadro de dificuldades, o apoio da sociedade torna-se indispensável. Para consegui-lo, Geisel anuncia uma
"distensão lenta, gradual e segura" do regime autoritário em direção à democracia. O processo de transição democrática é
longo e ocorre com avanços e recuos. Ainda em 1974, o governo permite a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na
TV, e o partido de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), ganha as eleições.

Os militares contrários ao restabelecimento da democracia, conhecidos como "linha-dura", reagem. Aumentam os casos
de tortura nos cárceres militares e, em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzogé morto numa cela do DOI-
Codi, órgão do 2º Exército, em São Paulo. A morte do metalúrgico Manuel Fiel Filho, em 17 de janeiro de 1976, também
no DOI-Codi, leva à destituição do general Ednardo D''Ávila Melo do comando do 2º Exército.

Em 1977, prevendo nova vitória da oposição na eleição seguinte, Geisel fecha o Congresso Nacional, cassa
parlamentares e decreta o "pacote de abril". Ele altera as regras eleitorais para beneficiar a Aliança Renovadora Nacional
(Arena), o partido oficial, e garantir maioria parlamentar para o governo.

No mesmo ano, o general linha-dura Sylvio Frota é exonerado


do Ministério do Exército em função de suas manobras contra a transição democrática. Em 1978 são proibidas greves
em setores considerados estratégicos para a segurança nacional, como o de energia. Em contrapartida acaba a censura
prévia a publicações e espetáculos e são revogados os atos institucionais que criaram a legislação excepcional militar.

O bom desempenho da oposição nas eleições acelera a abertura política. Em 1979, o general João Baptista
Figueiredoassume a Presidência da República até 1985. Sanciona a Lei da Anistia e promove uma reforma política que
restabelece o pluripartidarismo.
Diretas Já ± Entre 1980 e 1981, prisões de líderes sindicais da região do ABC paulista, entre eles Luís Inácio Lula da
Silvapresidente do recém-criado Partido dos Trabalhadores (PT), atentados terroristas na sede da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB) e no centro de convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, revelam as grandes dificuldades da
abertura.

Ao mesmo tempo, começa a se formar um movimento suprapartidário em favor da aprovação da emenda constitucional,
proposta pelo deputado federal mato-grossense Dante de Oliveira, que restabelece a eleição direta para a Presidência da
República. A campanha das Diretas Já espalha-se em grandes comícios, passeatas e manifestações por todo o país.
Apesar disso, em 25 de abril de 1984, a emenda é derrotada no Congresso.

A mobilização popular, no entanto, força uma transição para a democracia, negociada entre a sociedade e o regime
militar. Os entendimentos são articulados pelo governador mineiro Tancredo Neves um dos líderes oposicionistas.

À frente de uma chapa formada pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e pelo Partido da Frente
Liberal (PFL), Tancredo Neves é eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985.
Tancredo adoece, não chega a tomar posse e morre em 21 de abril. Seu vice, José Sarney assume a Presidência.

A última eleição indireta marca o fim do regime militar, mas a transição para a democracia só se completa em 1 988, no
governo de José Sarney, com a promulgação da nova Constituição brasileira.

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Passado o movimento pelas diretas, as atenções se voltaram para as definições pré-colégio eleitoral. O PDS apresentava
quatro pré-candidatos Marco Maciel, Paulo Maluf,e o então vice-presidente, Mario Andreazza. Para resolver a situação, o
presidente do PDS, José Sarney, com o apoio do presidente Figueiredo, propõe que antes da convenção, sejam feitas
eleições primárias em todos os diretórios do PDS, visando indicar para a convenção o candidato mais popular no partido.
Paulo Maluf reage a isso e se manifsta contrário às prévias, dizendo que seria mero casuísmo de seus adversários no
partido. Figueiredo então apóia Maluf e a proposta é derrotada na reunião do partido convocada para deliberar sobre as
prévias. Sarney então se desliga da presidência do PDS e forma, com outros descontentes, a Frente Liberal. Enquanto
Tancredo buscava acordo com Aureliano Chaves, que se via sem chances, Sarney se reunia com o deputado Ulysses
Guimarães e o então senador Fernando Henrique Cardoso e deu mostras de que seu grupo poderia apoiar um candidato
da oposição.
No dia 29 de junho os governadores do PMDB reuniram-se em Brasília e lançaram Tancredo Neves como pré-candidato.
No dia 3 de julho a bancada do PDS ligada a Sarney rompeu com o governo e passa a atuar no congresso como bloco
parlamentar de oposição. Aureliano Chaves e Marco Maciel desistem, então de disputar a vaga de candidato do PDS na
convenção do partido.
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No dia 14 de julho foi realizada uma reunião no palácio Jaburu, sede da vice-presidência da República, entre
representantes do PMDB e da Frente Liberal do PDS, em que ficou acertada a composição da chapa Aliança
Democrática para enfrentar o PDS no colégio eleitoral. No dia 7 de agosto, nova reunião definiu que caberia à Frente
Liberal indicar o vice-presidente na chapa. José Sarney foi o escolhido. Ulysses Guimarães ficou com a coordenação da
campanha.
No dia 10 de agosto, policiais da 1ª Delegacia Policial de Brasília prenderam quatro pessoas por colar cartezes do PC do
B, então ilegal, apoiando Tancredo. De madrugada, foi à delegacia o tenente-coronel Arídio Mário de Sousa Filho para
exigir a libertação dos detentos, que na verdade eram um major, um capitão e dois sargentos do Centro de Informações
do Exército.
No dia 11 de agosto, o PDS realizou sua convenção e Paulo Maluf derrotou Mario Andreazza. No dia seguinte, o PMDB
homologou a chapa Tancredo/Sarney. Sarney havia se filiado ao PMDB por exigência da lei eleitoral, pois a Frente
Liberal não era um partido. No dia 14, Tancredo renunciou ao cargo de governador de Minas Gerais, entrando no seu
lugar o vice Hélio Garcia, que politicamente reformou o secretariado, incluindo membros da Frente Liberal.
No dia 21 de setembro, os altos comandos das forças armadas se reuniram para analisar a corrida presidencial. Exército e
Aeronáutica lançaram notas oficiais alertando para possíveis riscos de radicalização e consequente ruptura do processo
democrático, enquanto a Marinha simplesmente reafirmava sua posiçao de cumprimento de suas atribuições
constitucionais.
No dia 21 de outubro, uma explosão ocorreu em um comitê da Aliança Democrática, em Porto Alegre. Tancredo
minimizou o fato e não quis buscar culpados. O mesmo ocorreu com um comitê em Brasília, em 26 de novembro.
Novamente, Tancredo amenizou.
No dia 21 de novembro a direção do PDS se reuniu e decidiu pela fidelidade partidária, ou seja, todos os seus membros
deveriam votar no candidato do PDS. O PMDB reocrreu ao TSE no dia 23 e no dia 4 de dezembro, o TSE decidiu nao
registrar a ata da reunião do PDS, o que desobrihou seus membros de seguirem as determinações.
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No dia 15 de janeiro de 1985, Tancredo foi eleito com 480 votos contra 180 de Paulo Maluf, com 17 abstenções e 9
ausências. Tancredo recebeu os votos do PMDB, da Frente Liberal, do PDT e de dissidentes do PDS e do PT. O PT não
participava da aliança e se recusou a legitimar o colégio eleitoral.
No dia 14 de março, véspera da posse, Tancredo Neves foi internado ás pressas, sob o diagnóstico de apendicite.
Tancredo foi operado no Hospital de Base de Brasília pelos médicos Renault Matos Ribeiro e Pinheiro da R ocha aos 37
minutos do dia 15. O diagnóstico passou a ser diverticulite. Discutiu -se se deveria assumir Sarney, o vice, ou o presidente
da câmara, Ulysses Guimarães. O próprio Ulysses defendeu que Sarney deveria assumir, o que de fato aconteceu. José
Sarney assumiu o cargo interinamente. Figueiredo, desafeto de Sarney, se recusou a passar a faixa presidencial.
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No dia 20 de março Tancredo foi operado pela segunda vez. Houve desentendimentos entre os médicos sobre os
resultados da cirurgia. Tancredo foi conduzido ao Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo, onde, em
26 de março, sofreu a terceira cirurgia, realizada pela equipe do doutor Henrique Pinotti.
O país todo ficou acompanhando o quadro médico de Tancredo, dia a dia. Os boletins médicos eram lidos pelo jornalista
Antônio Brito, porta-voz da presidência.
Novo diagnóstico: infecção hospitalar contraída durante a internação no Hospital de Base de Brasília. Para combater,
usaram um antibiótico não comercializado, por ser novo. No dia 2 de abril Tancredo sofreu sua quarta cirurgia, para
corrigir uma "hérnia inguinal encarcerada no lado esquerdo do abdome". A quitnta operação foi realizada no mesmo dia.
No dia 9, uma sexta operação, uma traqueostomia. No dia 12, a sétima cirurgia. Os médicos anunciaram que Tancredo
estava com quadro grave, sobrevivendo com aparelhos.
Os políticos do PMDB e da Frente Liberal começaram então a se reunir para organizar em caráter definitivo o governo
Sarney e sustentar a transição democrática.
Convocou-se o especialista norte-americano Warren Mayron, que no dia 20 de abril diagnosticou que não havia mais
nada a fazer.
Finalmente, no dia 21 de abril a morte de Tancredo foi anunciada. No dia 22 de abril o Congresso Nacional se reuniu e
anunciou a vacância da presidência e seu preenchimento automático pelo vice-presidente José Sarney. Sarney falou em
rede de rádio e tv e decretou feriado nacional e luto oficial por 8 dias.
Até hoje se discute a real causa da morte de Tancredo. Há quem fale em assassinato e golpe. Todos os acontecimentos
são considerados muito estranhos e diversas versões para os fatos são apresentadas.
A ditadura, curiosamente terminava, mas quem estava no poder era José Sarney e seus aliados, todos do PDS, antiga
ARENA, partido oficial do governo
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Nos anos 80, com fortes oscilações, a taxa média anual de crescimento do PIB é de 3%, um pouco superior à taxa de
incremento demográfico, da ordem de 2%, mas em marcante contraste com a taxa média anual dos 70, que foi de 8,7%, e
a média histórica de 7% desde os anos 40. A dívida externa, que era de 62 bilhões de dólares ao fim da década
precedente, quase duplicou, alcançando 113 bilhões em 1989, e o seu serviço nos piores anos chegou a representar 5% do
valor total do PIB. Em função disso e de acordo à política ditada pelo FMI, o país mais que dobrou suas exportações, ao
mesmo tempo que restringia as importações, para ²revertendo a tendência dos 70s² obter grandes saldos comerciais,
próximos aos 20 bilhões de dólares anuais, valor transferido quase integralmente ao exterior, a título de pagamento de
juros, junto às saídas provocadas pelas remessas de lucros e dividendos e pelo pagamento de regalias. Essas
transferências são uma das causas fundamentais do processo inflacionário que, para 1989, chega a 1700% ao ano.
É neste quadro que vai ter lugar a transição democrática. Em 1979, designado por Geisel e eleito indiretamente por um
colégio eleitoral, assume o quinto presidente militar, general João Baptista Figueiredo. Chefe dos serviços de inteligência
do governo precedente, mas típico militar de caserna, que ameaçava "prender e arrebentar" quem se opusesse à
democratização, coube-lhe promover as medidas básicas para este fim. Em seus dois primeiros anos de governo, junto a
ações repressivas contra os sindicatos, sobretudo durante a greve de 1980 no ABC paulista, Figueiredo decretou uma
anistia política ampla, que permitiu o retorno ao país dos principais políticos de oposição, principalmente Leonel Brizola,
herdeiro do trabalhismo de Vargas e Goulart, e Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro;
flexibilizou a legislação sindical, abrindo espaço para a formação da Central Unica de Trabalhadores (CUT) e da Central
Geral de Trabalhadores (CGT); restabeleceu as eleições diretas para os governos estaduais; extinguiu os partidos creados
pela ditadura e promulgou lei que favoreceu a criação de novos partidos.
Surgiu assim o Partido Democrático Social (PDS), que agrupou a maior parte dos membros do antigo partido oficial,
enquanto o MDB dava lugar ao PMDB, onde ficou o grosso do contingente opositor, flanqueado, à direita, pelo Partido
Popular (PP) e, à esquerda, pelo Partido dos Trabalhadores ²expressão da vanguarda operária de Sao Paulo, setores
católicos progressistas e intelectuais de esquerda² e pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), com Brizola à frente,
além de outros agrupamentos de menor expressão. O bom posicionamento da oposição nas pesquisas de opinião levou o
governo a emitir, em 1981, uma lei eleitoral proibindo as coligações e estabelecendo o voto por lista partidária. Ante
essas limitações, prejudiciais aos pequenos partidos, o PP fundiu-se com o PMDB.
A 15 de novembro de 1982, quase 59 milhões de eleitores foram chamados a participar da primeira disputa
multipartidária em vinte anos e compareceram com um índice de abstenção de apenas 17,3%. Resultaram eleitos onze
governadores do PMDB e um do PDT, subtraindo ao regime militar o controle governamental dos principais estados da
Federação (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) e estabelecendo uma clara diferença no voto do sul desenvolvido,
que preferiu a oposição, e as regiões retardatárias, principalmente o nordeste. O PDS manteve a maioria no Senado, mas
perdeu a que tinha na Câmara de Deputados. E, efeito da complexa engenharia de formação do Colégio Eleitoral, que
elegeria novo presidente en 1984, o PDS estabeleceu uma vantagem de 17 votos nesse órgão. Nessas condições, a
democratizacão teria que seguir seu caminho sob o signo da ambiguidade.
Houve, é certo, um momento em que o movimento popular tentou mudar esse quadro. Irrompendo no cenário político,
reservado ao jogo das elites e às manobras palacianas, a Campanha pelas Diretas-Já, que exigia eleições diretas imediatas
para a presidência da República, promoveu manifestações multitudinárias em todo o país, forçou a adesão dos dirigentes
da oposição e dos meios de comunicação de massa, semeou a incerteza e introduziu a divisão nos círculos oficiais, para
culminar com a tensa votação de uma emenda constitucional pelo Congresso, a que faltaram apenas 52 votos para chegar
aos dois terços requeridos. Papel decisivo nessa derrota coube ao PMDB, que tornou pública antes da votação sua
decisão de participar na eleição indireta a ser realizada pelo Colégio Eleitoral, fosse qual fosse o resultado, afastando o
perigo de uma crise institucional. O episódio mostrou que a elite política, optando pela frustração da mobilização cívica,
preferia a prática das negociações de cúpula.
Por aí se desenvolveram efetivamente os acontecimentos. Ante a vitória do ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf, na
convenção do PDS que designou candidato à sucessão presidencial, esse partido inicia um processo de cisão, que leva à
formação do que viria a ser o Partido da Frente Liberal (PFL). A união deste com o PMDB, na efêmera Aliança
Democrática, permitiu a eleição do candidato peemedebista, Tancredo Neves, em novembro de 1984. Parecia garantida a
passagem da chefatura do Estado às mãos da oposicão civil.
Mas as coisas seguiram outro rumo. Eleito Tancredo, mas não empossado ²devido à súbita enfermidade que,
acometendo-o no dia de sua posse, levou-o meses depois à morte² assumiu a presidência o vice-presidente José Sarney,
ex-líder do PDS, agora no PFL. Apesar de pomposamente batizado de Nova República, o seu período de governo (1985-
90) reforçou o caráter ambíguo da transição. O peso da oposição antiditatorial, encarnado principalmente pelo PMDB,
era ali inquestionável, mas o era também seu condicionamento pelas forças que haviam sustentado a ditadura militar.
O primeiro ano de Sarney transcorreu em um contexto de empate entre as duas forças partidárias hegemônicas e os
setores da burguesia que elas representavam, ao que se acrescentava o questionamento da legitimidade do governo,
chefiado pelo vice-presidente de um presidente que não tomara posse. Gerou-se, assim, uma sensação de vazio de poder,
que estimulava a ação das oposições, principalmente de Brizola, e a exacerbação das reivindicaçoes fracionais e
corporativas. Essa era, de fato, a forma que assumia a luta de classes, em circunstâncias nas quais os acordos de cúpula
impediam a busca de alternativas econômicas e políticas capazes de exprimir os anseios das grandes maiorias.
O surdo descontentamento que grassava no país ameaçava assumir perfil mais definido, como mostraram as eleições
municipais de 1985. Seu resultado não poderia ser mais decepcionante para o governo e o PMDB: enquanto os partidos
de oposição, como PT e PDT, obtinham significativas vitórias em seu próprio campo e avançavam no resto do país, a
coalizão governante retrocedia no plano nacional e amargava humilhante revés na principal fortaleza peemedebista, São
Paulo. O debilitamento do PMDB propiciou ao PFL, apesar de seu fraco desempenho eleitoral, a conquista de novas
posições no governo e a Sarney uma crescente autonomização, graças principalmente à sua estreita ligação com os
militares.
É nesse contexto que, em 1986, o governo assume duas iniciativas marcantes: a integração econômica do Cone Sul e o
Plano Cruzado. A aproximação com a Argentina, facilitada pela restauração do poder civil nos dois países, iniciara-se em
1985, através da firma de um acordo destinado a equilibrar o intercâmbio comercial entre os dois países e que
contemplava a criação de uma comissão mista de alto nível, para estudar a integração das duas economias. Em julho de
1986, Sarney e o presidente Raúl Alfonsín firmaram, em Buenos Aires, a Ata para a Integração Brasil-Argentina, com
doze protocolos, referidos a questões comerciais, à formação de empresas binacionais, criação de mecanismos de
financiamento recíproco e fundos de investimento e cooperação científica e tecnológica, entre outros assuntos.
Atraindo o Uruguai e, depois, o Paraguai, essa política orientou-se em direção à formação de um mercado comum dos
quatro países. Com isso, tratou-se de estabelecer um contrapeso à retomada da influência norte-americana na região, que
havia forçado já o Brasil a moderar suas pretensões no plano internacional. Além disso, o Mercosul revertia a tendência
histórica à rivalidade que, desde o século XIX, caracterizara as relações entre os dois maiores países sul -americanos.
Por sua vez, o Plano Cruzado, conjunto de medidas heterodoxas, semelhantes às que adotara a Argentina no ano
precedente, sacudiu o marasmo em que se debatia o governo. Concebido e conduzido pelo ministro da Fazenda, Dilson
Funaro, industrial paulista ligado ao PMDB, seu objetivo foi o de legitimar o governo de Sarney, restabelecer o controle
burguês, via PMDB, sobre o movimento de masas e devolver a iniciativa à burguesia industrial. A grande sacrificada foi,
inicialmente, a burguesia comercial vinculada ao mercado interno, elo fraco do bloco burguês, mas as reformas
pretendidas, principalmente a bancaria, deveriam impactar também a fração financeira. Na medida em que esta impediu
sua concretização, o Plano não foi muito além do congelamento de preços e salários e acabou por beneficiá-la, asim
como ao setor agrário exportador. Entretanto, as expectativas que criou e a liquidação de poupança a que procedeu a
classe média estimularam a demanda e mantiveram em patamar elevado as taxas de crescimento econômico.
A meados do ano, a euforia provocada pelo Plano começou a ceder. Por um lado, o aumento artificial da demanda
provocou o desabastecimento de bens, que desaguou no mercado negro; por outro, a equivocada política cambial
conduziu ao crescimento das importações e à queda em flecha das exportações. A conseqüência foi a liquidação das
magras reservas em divisas do país e a incapacidade deste para fazer frente aos compromissos externos, que levariam à
moratoria de 1987. Mas o resultado político foi apreciável: o PMDB acabou sendo o grande vencedor das eleições
parlamentares e para governos e assembléias estaduais de 1986. O governo e o partido comemoraram essa vitória pondo
fim ao Plano Cruzado, mediante a suspensão do congelamento de preços.
Em março de 1987, ao assumir os cargos que as urnas lhe haviam conferido, o bloco governante nao contava já com
respaldo popular. Isso não impediu, porém, que o novo Congresso se arvorasse em Assembléia Constituinte, como estava
previsto. Fato incômodo nessa metamorfose foi a presença dos senadores "biônicos", designados anteriormente pelo
governo militar, cujo mandato só expiraria em 1990; ele foi contornado mediante a decisão da Constituinte congressual
de considerá-los como membros plenos.
A nova Constituição, promulgada a 5 de outubro de 1988, é, em linhas gerais, liberal, democrática e nacionalista.
Mantém a república e a federação, assim como o regime presidencialista, concede ampla liberdade de organização
partidária, proclama o direito de greve sem restrições, suprime a censura prévia, qualifica como crimes de extrema
gravidade o racismo e a tortura. Paralelamente, cria mecanismos de democracia direta, como o plebiscito e o referendum,
além de admitir ²restrita à legislação ordinária² a iniciativa popular em matéria de projetos de lei; finalmente, reserva
às empresas nacionais a exploração dos recursos do solo e do subsolo e lhes outorga tratamento privilegiado por parte do
Estado. Em relação à questão agrária, ela retrocede em certos pontos com referência à legislaç ão anterior, particularmente
no que diz respeito à desapropriação de terras.
O texto constitucional foi produto de enfrentamentos e transações, em um processo no qual os partidos de esquerda,
embora minoritários, assumiram no começo a iniciativa, o que deixou marcas no resultado final. Partidos como o PMDB
e o PFL, assim como agrupações afins, mostraram-se vacilantes e incapazes de um comportamento disciplinado e
coerente. Isto levou as organizações patronais e as Forças Armadas a exercerem de fora pressões sobre a Constituinte.
Essas pressões motivaram a formação de uma aglomeração provisória de caráter conservador, o chamado "Centrão", que
respondeu pela regulamentação final das questões que interessavam mais diretamente a essas forças.
c 4 c c
O processo constituinte pôs em evidencia a fragilidade dos grandes partidos, que constituiam a representação da classe
dominante brasileira, situação que se agravou, a fins de 1988, com a cisão do PMDB que deu origem ao Partido Social
Democrático Brasileiro (PSDB), agrupação de centro-esquerda com assento principal em São Paulo. Não surpreende,
pois, que os grandes eleitores do país ²organizações patronais, grupos econômicos e meios de comunicação de massa²
se mostrassem divididos entre os cinco candidatos que disputaram sua preferência, no primeiro turno das eleições
presidenciais de 1989. Eram eles Paulo Maluf (PDS), Ulysses Guimarães (PMDB), Aureliano Chaves (PFL), Mario
Covas (PSDB) e Fernando Collor de Mello, jovem político sem maior ,,, que concorreu por uma formação
desconhecida, o Partido de Renovação Nacional (PRN). Somente ao perceber que os candidatos de esquerda, Luís
Ignácio da Silva - Lula (PT), a quem coube o segundo lugar, e Leonel Brizola (PDT), reuniam mais de 24 milhões de
votos, contra os 17 milhões de Collor de Mello, primeiro colocado, é que a classe dominante uniu forças para garantir a
este a vitória no segundo turno.
Essas eleições representaram o último ato da longa transição à democracia e abriram uma nova etapa na vida brasileira.
Nela, o primeiro desafio consiste em superar a estagflação em que o país mergulhou nos anos 80 e ajustá-lo às condições
criadas pela nova economia mundial, que emergiu na segunda metade dessa década. Apostando no neo-liberalismo, o
governo Collor adotou uma estratégia que contempla a estabilização monetária, a renegociação da dívida externa, a
redução da presença estatal na economia e a abertura comercial ao exterior.
Em seu primeiro ano de implementação, essa estratégia exibiu resultados insuficientes e precários. Seu efeito mais
sentido foi o de romper a unidade do bloco dominante, fragilmente construída no segundo turno da eleição presidencial,
ao contrapor os interesses da grande burguesia industrial (centrada na indústria automobilística, siderúrgica, elétrica e
metal-mecânica), de clara vocação protecionista, aos dos setores industriais mais recentes (assentados principalmente na
indústria de informática, telecomunicações, aeronáutica e aero-espacial, assim como nos serviços conexos), que tendem a
uma integração mais dinâmica à economia mundial. Simultaneamente, o governo entrou em rota de colisão com os
sindicatos operários, em especial com a CUT, e com os trabalhadores das empresas estatais, que se opõem à política
recessiva e privatizante que ele pratica.
É sobre esse pano de fundo que a sociedade civil enfrenta o segundo desafio do período, ou seja, o de construir uma nova
democracia. A atual ordem constitucional, fruto de acordos de cúpula contratados pela elite dominante, que prescindiu
por isso da concertação de um pacto social, caracteriza-se por sua precariedade. Tanto é assim que a própria Constituição
de 1988 estabeleceu o prazo de cinco anos para sua revisão, a qual nao exclui siquer a possibilidade de alterar a forma de
Estado e o sistema de governo. Enquanto prevalece esse clima de incerteza e se aprofundam as contradições e conflitos
sociais, o presidente da República acentua o seu estilo personalista de governar e, ao mesmo tempo que apela às massas
desorganizadas, apoia-se nas Forças Armadas.
A década de 1990 apresenta-se, assim, para o Brasil como um momento de definição tanto em relação ao papel que lhe
cabe na nova ordem internacional, como com respeito às normas e estruturas econômicas e políticas que ele deve se dar.
As agudas desigualdades sociais, que permitem a 10% da população concentrar praticamente metade da renda nacional e
que mantêm abaixo da pobreza 60% da população ocupada, e as não menos gritantes desigualdades nacionais, que se
expressam em um índice de mortalidade infantil de 125 por mil crianças nascidas vivas, no nordeste, contra 61 por mil,
no sul, não antecipam soluções fáceis nem tranquilas. Mas é a partir do reconhecimento dessa situação que os brasileiros
terão que se forjar um projeto de nação, que se mostre capaz de abrir-lhes o caminho do futuro.
Em 1984, após 20 anos de Ditadura, iniciou-se a transição democrática no Governo brasileiro, onde o primeiro presidente
civil, pelo processo de eleições indiretas, assumiu o cargo. E, desde então, a questão enfatizada por Tocqueville (só há
Democracia onde a liberdade política convive com a igualdade social) tem sido almejada e discutida abertamente por
políticos e pensadores brasileiros.
Quando a Constituição de 1988 foi promulgada, o então presidente da Assembléia Nacional Constituinte, Ulysses
Guimarães, afirmou: ³þ  
         
    
           
  ´ (Weffort, 1992).

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O Brasil pode ser qualificado como um país democrático no que se refere às seguintes conquistas:
ac Liberdade de expressão e de associação;
ac Direito de voto e de informação alternativa;
ac Direito dos líderes políticos de competirem por apoio;
ac Elegibilidade para cargos públicos;
ac Eleições livres.
No entanto, a respeito da igualdade social em nosso país, estamos distantes de atingí -la. Segundo o professor e sociólogo
Hélio Jaguaribe (1985), a Democracia social seria uma ³‘     
        
    '  (             
       )*
+    ,           +  ,         
 * ´.
Em 1995, o Brasil, teoricamente, caminharia para uma social democracia com a eleição de Fernando Henrique Cardoso.
Porém o que presenciamos durante seus dois mandatos consecutivos foi uma continuação de políticas neoliberais do seu
antecessor, Fernando Collor de Mello (que assumiu em 1990, mas, após processo de    , renunciou e assim foi
substituído por seu vice, Itamar Franco, o qual deu seqüência à suas práticas políticas). Tais políticas constituíam uma
espécie de ³ - dos tempos modernos´, com a autonomia do mercado frente à União, privatização de empresas
Estatais e abandono do Estado de Bem-Estar Social.
         * '     .
 *  (  / -(    
     
O resultado de tal postura foi uma catástrofe generalizada, com a perda do poder aquisitivo salarial e o abandono das
necessidades dos cidadãos brasileiros. Após oito anos de governo, constatou-se que o pais continuava com a maioria de
sua população semi-analfabeta, subnutrida e miserável, alem da invasão do capital estrangeiro especulativo nas finanças
públicas.
O atual governo de Luís Inácio Lula da Silva mantém, desde a campanha presidencial, a bandeira do combate à
desigualdade social. O governo busca, ao mesmo tempo, a retomada do crescimento econômico e a redistribuição de
renda. No entanto, o que o país vem presenciando é uma continuação da política neoliberal de FHC, vide a Reforma da
Previdência.
Segundo Weffort (1992), uma Democracia social pressupõe uma classe trabalhadora muito bem organizada, um alto grau
de consenso a respeito das questões decisivas para o desenvolvimento social e econômico do país e uma sociedade com
capacidade de planejamento. Além disso, um regime social democrata pressupõe uma sociedade integrada, na qual
existem as possibilidades de políticas redistributivas beneficiarem os que estão dentro, integrados. Neste regime não
existem políticas redistributivas para marginalizados. No entanto, como já foi dito, cerca da metade da população
brasileira é marginalizada, e atualmente, o Estado não é capaz de distribuir nem mesmo para os que já estão integrados.
Francisco Weffort, em 1992, classificou a Democracia brasileira como uma Democracia de conflito, com uma sociedade
muito desorganizada e dividida entre integrados e marginalizados. Na época, enfatizou que, para consolidar a
Democracia, era preciso fazê-la a partir das bases populares, promovendo a capacidade de organização democrática e luta
social, particularmente entre os segmentos mais pobres. Quanto maior a participação popular, menor a distancia entre
liberdade política e igualdade social.
Após mais de vinte anos, é evidente que ainda estamos numa Democracia de conflito, e, assim como apontava
Tocqueville, o caminho para uma sociedade igualitária esteja mesmo nas associações civis, populares, onde cada
conjunto consiga experienciar uma Democracia.
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c c cc8c ,,c c 2c

A palavra "partido" tem origem latina (pars, partis = rachado, dividido, desunido). Dentro da política, partido é um grupo
organizado formal e legalmente, com base em formas voluntárias de participação, em uma associação orientada para
influenciar ou ocupar o poder político. Em entrevista ao , a socióloga Lúcia Rangel, traçou um
panorama da origem dos partidos políticos no Brasil e a transição do Regime Militar para a democracia, pela qual o país
passou.

A primeira vez que se usou este termo no país foi por ocasião da Independência do Brasil, em que se falava em Partido
Português e Partido Brasileiro. Mas os primeiros partidos políticos brasileiros que tiveram existência legal foram o
Partido Conservador e o Partido Liberal, no segundo reinado (1840-1889). Na República Velha (1889-1930), os partidos
políticos eram organizações regionais, existindo um Partido Republicano em cada estado, cada um tendo estatutos e
direções próprias.

Durante o regime militar instaurado pela Revolução de 1964, vigorou o bipartidarismo, quando na prática, devido às
muitas exigências legais para se criarem partidos políticos, existiram só a ARENA e o MDB: "Quando os militares
assumiram o poder, em 1964, através de um golpe de estado, uma das primeiras preocupações era eliminar o enorme
número que nós tínhamos de partidos políticos e formar somente 2 partidos. Com dois partidos ficaria muito mais fácil de
controlar o país. Esta era a preocupação dos militares naquele momento. Na verdade, quando os militares assumiram, a
idéia era que eles permaneceram durante pouco tempo. Eles acabaram permanecendo no poder por 20 anos", disse Lúcia.

A socióloga explica que o partido político representa a ideologia da população. Segundo ela, desde a Revolução
Francesa, no século XVIII, o mundo ocidental foi dividido. "De um lado você tem aqueles que tendem mais à direita, e
aqueles que tendem mais à esquerda. A ideologia política está aí neste leque que vai da extrema esquerda, à extrema
direita. Então, nós temos hoje, os partidos políticos", assinalou.

2c %3

"Na década de 80 começam os movimentos de rua, as pessoas começam a ir às ruas, às praças, exigir eleições diretas
para presidente da República. Já estávamos no 5º general a ocupar a presidência. Tínhamos problemas econômicos, a
inflação voltava, o país não ia bem. Vivíamos sob um discurso ufanista dos militares que afirmava que o Brasil µestava
indo para frente¶´. Assim a socióloga relembra as "Diretas Já".

As Diretas Já alavancaram uma "Abertura política", um processo de transição do Regime Militar de 1964 para uma
ordem democrática.

A campanha das Diretas Já espalhou-se em grandes comícios, passeatas e manifestações por todo o país. Em 25 de
janeiro de 1984, 300 mil pessoas gritavam por "Diretas já!" na Praça da Sé em São Paulo. Em dia 16 de abril do mesmo
ano, pouco antes da votação das diretas, realizou-se um último comício em São Paulo, desta vez, no vale do Anhangabaú,
que recebeu uma multidão estimada em mais de 1,5 milhão de pessoas. Foi a maior manifestação política jamais vista no
país.

Apesar disso, em 25 de abril de 1984, a emenda é derrotada no Congresso. ³Mas o movimento todo não foi em vão, o
movimento todo popular teve um peso muito grande, e aí os militares perceberam que eles não tinham mais clima
político para permanecer no poder´, assegura Lúcia. A mobilização popular forçou uma transição para a democracia,
negociada entre a oposição política e o regime militar. A primeira eleição, entretanto, só aconteceu em 1989.

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Mas, afinal, antes de votar, deve-se observar o partido ou o candidato? Lúcia assinala que do ponto de vista político, é
mais importante observar o partido. "Entretanto, no Brasil, a gente tem uma situação diferente porque não temos um
compromisso com as idéias políticas do partido. Você vê partidos que eram de esquerda, de repente, manifestarem
comportamentos de direita e vice-versa", diz.

"O século XX foi marcado por vários períodos, longos períodos de ditaduras civis, no caso de Getúlio Vargas, de 1930 a
1945, depois, a ditadura militar, de 1964 a 1985. Estes fatores, associado aos golpes, como o '5 de julho', e às revoluções,
como as 'Tenentistas', tornaram o Brasil um país com aprendizado político precário. A especialista argumenta que o
eleitor, geralmente, não percebe que votar impacta em sua vida. "Ele acha que sua vida não vai ser alterada pelo
candidato que assumiu o poder, por exemplo, na sua prefeitura", fala.

Lúcia critica a educação: "Temos tido uma escola muito frágil, na escola as crianças não estão aprendendo praticamente
nada no que se refere a comportamento político. Nossa educação deixa muito a desejar. Será que as escolas estão
discutindo sobre as eleições? Mas cabe aos pais, à imprensa, este trabalho de conscientização".

Mesmo com tantos problemas, Lúcia reconhece que houve grande progresso no pais que, há 20 anos, vivenciou a censura
e o regime militar.
c9c:c 60
c"c ;

Podemos dizer que é um processo econômico e social que estabelece uma integração entre os países e as
pessoas do mundo todo. Através deste processo, as pessoas, os governos e as empresas trocam idéias,
realizam transações financeiras e comerciais e espalham aspectos culturais pelos quatro cantos do
planeta.
O conceito de Aldeia Global se encaixa neste contexto, pois está relacionado com a criação de uma rede
de conexões, que deixam as distâncias cada vez mais curtas, facilitando as relações culturais e
econômicas de forma rápida e eficiente.
 2cc 60
cc22c,<2,2
Muitos historiadores afirmam que este processo teve início nos séculos XV e XVI com as Grandes
Navegações e Descobertas Marítimas. Neste contexto histórico, o homem europeu entrou em contato
com povos de outros continentes, estabelecendo relações comerciais e culturais. Porém, a globalização
efetivou-se no final do século XX, logo após a queda do socialismo no leste europeu e na União
Soviética. O neoliberalismo, que ganhou força na década de 1970, impulsionou o processo de
globalização econômica.
Com os mercados internos saturados, muitas empresas multinacionais buscaram conquistar novos
mercados consumidores, principalmente dos países recém saídos do socialismo. A concorrência fez com
que as empresas utilizassem cada vez mais recursos tecnológicos para baratear os preços e também para
estabelecerem contatos comerciais e financeiros de forma rápida e eficiente. Neste contexto, entra a
utilização da Internet, das redes de computadores, dos meios de comunicação via satélite etc.
Uma outra característica importante da globalização é a busca pelo barateamento do processo produtivo
pelas indústrias. Muitas delas, produzem suas mercadorias em vários países com o objetivo de reduzir os
custos. Optam por países onde a mão-de-obra, a matéria-prima e a energia são mais baratas. Um tênis,
por exemplo, pode ser projetado nos Estados Unidos, produzido na China, com matéria-prima do Brasil,
e comercializado em diversos países do mundo.

Para facilitar as relações econômicas, as instituições financeiras (bancos,


casas de câmbio, financeiras) criaram um sistema rápido e eficiente para
favorecer a transferência de capital e comercialização de ações em nível
mundial..
Investimentos, pagamentos e transferências bancárias, podem ser feitos
em questões de segundos através da Internet ou de telefone celular.
Bolsa de valores: tecnologia e
negociações em nível mundial.
Os tigres asiáticos (Hong Kong, Taiwan, Cingapura e Coréia do Sul) são países que souberam usufruir
dos benefícios da globalização. Investiram muito em tecnologia e educação nas décadas de 1980 e 1990.
Como resultado, conseguiram baratear custos de produção e agregar tecnologias aos produtos.
Atualmente, são grandes exportadores e apresentam ótimos índices de desenvolvimento econômico e
social.
 , 2c, -, 2cc 60

Dentro deste processo econômico, muitos países se juntaram e formaram blocos econômicos, cujo
objetivo principal é aumentar as relações comerciais entre os membros. Neste contexto, surgiram
a União Européia, o Mercosul, a Comecom, o NAFTA, o Pacto Andino e a Apec. Estes blocos se
fortalecem cada vez mais e já se relacionam entre si. Desta forma, cada país, ao fazer parte de um bloco
econômico, consegue mais força nas relações comerciais internacionais.
=cc 6ccc< c 2
Como dissemos, a globalização extrapola as relações comerciais e financeiras. As pessoas estão cada
vez mais descobrindo na Internet uma maneira rápida e eficiente de entrar em contato com pessoas de
outros países ou, até mesmo, de conhecer aspectos culturais e sociais de várias partes do planeta. Junto
com a televisão, a rede mundial de computadores quebra barreiras e vai, cada vez mais, ligando as
pessoas e espalhando as idéias, formando assim uma grande Aldeia Global. Saber ler, falar e entender a
língua inglesa torna-se fundamental dentro deste contexto, pois é o idioma universal e o instrumento
pelo qual as pessoas podem se comunicar.
 60
=c cc1 >
 

A expressão "globalização" tem sido utilizada mais recentemente num sentido marcadamente ideológico, no qual assiste-
se no mundo inteiro a um processo de integração econômica sob a égide do neoliberalismo, caraterizado pelo predomínio
dos interesses financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas estatais, e pelo
abandono do estado de bem-estar social. Esta é uma das razões dos críticos acusarem-na, a globalização, de ser
responsável pela intensificação da exclusão social (com o aumento do número de pobres e de desempregados) e de
provocar crises econômicas sucessivas, arruinando milhares de poupadores e de pequenos empreendimentos.

No texto que se segue não trataremos deste fenômeno no sentido ideológico mas sim no seu significado histórico.
Demonstramos que o processo de globalização ( aqui entendido como integração e interdependência econômica) deita
suas raizes há muito tempo atrás, no mínimo há 5 séculos, passando desde então por etapas diversas. Aqui o termo é
empregado para fins específicos de uma síntese histórica, bem distante das manipulações ideológicas que possam ele
sofrer. Portanto, para nós, ele tem um significado mais profundo e não apenas pr2c ,  2"' c 2c 2c
2, 62
Antes de ter início a primeira fase da globalização, os Continentes encontravam-se separados por intransponíveis
extensões acidentadas de terra e de águas, de oceanos e mares, que faziam com que a maioria dos povos e das culturas
soubessem da existência uma das outras apenas por meio de lendas, com a do Preste João, ou imprecisos e imaginários
relatos de viajantes, como o de Marco Polo. Cada povo viva isolado dos demais, cada cultura era auto-suficiente. Nascia,
vivia e morria no mesmo lugar, sem tomar conhecimento da existência dos outros.

Até o século 15 identificamos 5 economias-mundo (é uma expressão de Fernand Braudel), totalmente autonomas,
espalhadas pela Terra e que viviam separadas entre elas. A primeira delas, a da Europa, era composta pelas cidades
italianas de Gênova, Veneza, Milão e Florença, que mantinham laços comerciais e financeiros com o Mediterrâneo e o
Levante onde possuiam importantes feitorias e bairros comerciais. Bem mais ao norte, na França setentrional, vamos
encontrar outra área comercial significativa na região de Flandres, formada pelas cidades de Lille, Bruges e Antuérpia,
vocacionadas para os negócios com o Mar do Norte. No Mar Báltico entrava-se a Liga de Hansa, uma cooperativa de
mais de 200 cidades mercantes lideradas por Lübeck e Hamburgo, que mantinham um eixo comercial que ia de
Novgorod, na Rússia, até Londres na Inglaterra.

No sudeste europeu, por então, agoniza o comércio bizantino (que atuava no mar Egeu e no mar Negro), pressionado pela
expansão dos turcos que terminaram por ocupar a grande cidade em 1453, enquanto que a Rússia via-se limitada pelos
Canatos Mongóis que ocupavam boa parte do leste do país.

Outra economia-mundo era formada pela China e regiões tributárias como a península coreana, a Indochina e a Malásia,
e que só se ligava com a Ásia Central e o Ocidente através da rota da seda. O seu maior dinamismo econômico
encontrava-se nas cidades do sul como Cantão e do leste como Xangai, grande portos que faziam a função de vasos
comunicantes com os arquipélagos do Mar da China.

A Índia, por sua vez, graças a sua posição geográfica, traficava num raio econômico mais amplo. No noroeste, pelo
Oceano Índico e pelo Mar Vermelho, estabelecia relações com mercadores árabes que tinham feitorias em Bombaim e
outros portos da Índia ocidental, enquanto que comerciantes malaios eram acolhidos do outro lado, em Calcutá. Seu
imenso mercado de especiarias e tecidos finos era afamado, mas só pouca coisa chegava ao Ocidente graças ao comércio
com o Levante. Foi a celebração das suas riquezas que mais atraiu a cobiça dos aventureiros europeus como o lusitano
Vasco da Gama.

Subdividida pelo deserto do Saara numa África árabe ao Norte, que ocupa uma faixa de terra a beira do Mediterrâneo e
Vale do rio Nilo, com relações comerciais mais ou menos intensas com os portos europeus e, ao Sul, numa outra África,
a África negra, isolada do mundo pelo deserto e pela floresta tropical, formava um outro planeta econômico totalmente a
parte, voltado para si mesmo.

Por último, mas desconhecida das demais, encontrava-se aquela formada pelas civilizações pré-colombianas, a Azteca no
México, a dos Maias no Yucatan e no istmo, e a Inca no Peru , organizadas ao redor do cultivo do milho e na elaboração
de tecidos, sendo elas auto-suficientes e sem interligações entre si, nem terrestres nem oceânicas.

Durante milhares de anos elas desconheceram-se e nem imaginavam que algum dia poderiam estabelecer relações
significativas. Se é certo que em suas bordas haviam escambo ou comércio, eles eram insignificantes. Portanto, numa
longa perspectiva, pode-se dizer que a internacionalização do comércio e a aproximação das culturas é um fenômeno
recentíssimo, datando dos últimos cinco séculos, apenas 10% do tempo da história até agora conhecida.
opagandístico.
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  *   2 - Luís de Camões - Os Lusíadas, Canto I, 1572.

Há, como em quase tudo que diz respeito à história, grande controvérsia em estabelecer-se uma periodização para estes
cinco séculos de integração econômica e cultural, que chamamos de globalização, iniciados pela descoberta de uma rota
marítima para as Índias e pelas terras do Novo Mundo. Frédéric Mauro, por exemplo, prefere separá-lo em dois
momentos, um que vai de 1492 até 1792 (data quando, segundo ele, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial
fazem com que a Europa, que liderou o processo inicial da globalização, voltou-se para resolver suas disputas e
rivalidades), só retomando a expansão depois de 1870, quando amadureceram as novas técnicas de transporte e
navegação como a estrada-de-ferro e o navio à vapor.

No critério por nós adotado, consideramos que o processo de globalização ou de economia-mundo capitalista como
preferiu Immanuel Wallerstein, nunca se interrompeu. Se ocorreram momentos de menor intensidade, de contração, ela
nunca chegou a cessar totalmente. De certo modo até as grandes guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45, e antes delas
a Guerra dos 7 anos (de 1756-1763), provocaram a intensificação da globalização quando adotaram-se macro-estratégias
militares para acossar os adversários, num mundo quase inteiramente transformado em campo de batalha. Basta recordar
que soldados europeus, nas duas maiores guerras do século 20, lutavam entre si no Oriente Médio e na África, enquanto
que tropas colônias desembarcavam na Europa e marchavam para os campos de batalha nas planícies francesas enquanto
que as marinhas européias, americanas e japonesas se engalfinhavam em quase todos os mares do mundo.

Assim sendo, nos definimos pelas seguintes etapas: primeira fase da globalização, ou primeira globalização, dominada
pela expansão mercantilista (de 1450 a 1850) da economia-mundo européia, a segunda fase, ou segunda globalização,
que vai de 1850 a 1950 caracterizada pelo expansionismo industrial-imperialista e colonialista e, por última, a
globalização propriamente dita, ou globalização recente, acelerada a partir do colapso da URSS e a queda do muro de
Berlim, de 1989 até o presente.
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Data Período Caracterização
1450-1850 Primeira fase Expansionismo mercantilista
1850-1950 Segunda fase Industrial-imperialista-colonialista
pós-1989 Globalização recente Cibernética-tecnológica-associativa

A primeira globalização, resultado da procura de uma rota marítima para as Índias, assegurou o estabelecimento das
primeiras feitorias comerciais européias na Índia, China e Japão, e, pri ncipalmente, abriu aos conquistadores europeus as
terras do Novo Mundo. Feitos estes que Adam Smith, em sua visão eurocêntrica, considerou os maiores em toda a
história da humanidade. Enquanto as especiarias eram embarcadas para os portos de Lisboa e de Sevilha, de Roterdã e
Londres, milhares de imigrantes iberos, ingleses e holandeses, e, um bem menor número de franceses, atravessaram o
Atlântico para vir ocupar a América. Aqui formaram colônias de exploração, no sul da América do Norte, no Caribe e no
Brasil, baseadas geralmente num só produto (açúcar, tabaco, café, minério, etc..) utilizando-se de mão de obra escrava
vinda da África ou mesmo indígena; ou colônias de povoamento, estabelecidas majoritariamente na América do Norte,
baseadas na média propriedade de exploração familiar. Para atender as primeiras, as colônias de exploração, é que o
brutal tráfico negreiro tornou-se rotina, fazendo com que 11 milhões de africanos (40% deles destinados ao Brasil)
fossem transportados pelo Atlântico para labutar nas lavouras e nas minas.

Igualmente não deve-se omitir que ela promoveu uma espantosa expropriação das terras indígenas e no sufocamento ou
destruição da sua cultura. Em quase toda a América ocorreu uma catástrofe demográfica, devido aos maus tratos que a
população nativa sofreu e as doenças e epidemias que os devastram, devido ao contato com os colonizadores europeus.
Nesta primeira fase estrutura-se um sólido comércio triangular entre a Europa (fornecedora de manufaturas) África (que
vende seus escravos) e América (que exporta produtos coloniais). A imensa expansão deste mercado favorece os artesãos
e os industriais emergentes da Europa que passam a contar com consumidores num raio bem mais vasto do que aquele
abrigado nas suas cidades, enquanto que a importação de produtos coloniais faz ampliar as relações inter-européias.
Exemplo disso ocorre com o açúcar cuja produção é confiada aos senhores de engenho brasileiros, mas que é
transportado pelos lusos para os portos holandeses, onde lá se encarregam do seu refino e distribuição.

Os principais portos europeus, americanos e africanos desta primeira globalização encontram-se em Lisboa, Sevilha,
Cádiz, Londres, Liverpool, Bristol, Roterdã, Amsterdã, Le Havre, Toulouse, Salvador, Rio de Janeiro, Lima, Buenos
Aires, Vera Cruz, Porto Belo, Havana, São Domingo, Lagos, Benin, Guiné, Luanda e Cidade do Cabo.

Politicamente, a primeira fase da globalização se fez quase toda ela sob a égide das monarquias absolutistas que
concentram enorme poder e mobilizam os recursos econômicos, militares e burocráticos, para manterem e expandirem
seus impérios coloniais. Os principais desafios que enfrentam advinham das rivalidades entre elas, seja pelas disputas
dinásticas-territoriais ou pela posse de novas colônias no além mar, sem esquecer-se do enorme estragos que os corsários
e piratas faziam, especialmente nos séculos 16 e 17, contra os navios carregados de ouro e prata e produtos coloniais.

A doutrina econômica desta primeira fase foi o mercantilismo, adotado pela maioria das monarquias européias para
estimular o desenvolvimento da economia dos reinos. Ele compreendia numa complexa legislação que recorria a medidas
protecionistas, incentivos fiscais e doação de monopólios, para promover a prosperidade geral. A produção e distribuição
do comércio internacional era feita por mercadores privados e por grandes companhias comerciais (as Cias. inglesas e
holandesas das Índias Orientais e Ocidentais) e, em geral, eram controladas localmente por corporações de ofício.

Todo o universo econômico destinava-se a um só fim, entesourar, acumular riqueza. O poder de um reino era aferid o pela
quantidade de metal precioso (ouro, prata e jóias preciosas) existente nos cofres reais. Para assegurar seu aumento o
estado exercia um sério controle das importações e do comércio com as colônias, sobre as quais exerciam o oligopólio
bilateral. (*)Esta política levou a que cada reino europeu terminasse por se transformar num império comercial, tendo
colônias e feitorias espalhadas pelo mundo todo ( os principais impérios coloniais foram o inglês, o espanhol, o
português, o holandês e o francês). Um dos símbolos desta época, a bolsa de valores de Amberes, consciente do que
representava, tinha como justo lema a frase latina ³Ad usum mercatorum cujusque gentis ac linguae´, que ela servia aos
mercadores de todas as línguas da terra.

!?$ o oligopólio bilateral é uma expressão que serve para descrever a situação de subordinação em que as colônias se
encontravam perante as metrópoles. Além de estarem impedidas de negociarem com outros países, elas eram obrigadas a
adquirir suas necessidades apenas com negociantes e mercadores metropolitanos bem como somente vender a eles o que
produziam, desta forma a metrópole ganhava ao vender e ao comprar.
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   -     5    6 *        ×- Karl Marx -
Manifesto Comunista, 1848

Os principais acontecimentos que marcam a transição da primeira fase da globalização para a segunda dão-se nos
campos da técnica e da política. A partir do século 18, a Inglaterra industrializa-se aceleradamente e, depois dela, a
França, a Bélgica, a Alemanha e a Itália. A máquina à vapor é introduzida nos transportes terrestres (estradas -de-ferro) e
marítimos (barcos à vapor) Conseqüentemente esta nova época será regida pelos interesses da indústria e das finanças,
sua associada e, por vezes amplamenente dominante, e não mais das motivações dinásticas-mercantís. Será a grande
burguesia industrial e bancária, e não mais os administradores das corporações mercantis e os funcionários reais quem
liderará o processo. Esta interpenetração dos bancos com a indústria, com tendências ao monopólio ou ao oligopólio, fez
com que o economista austríaco Rudolf Hilferding a denominasse de ³O Capital Financeiro´ (Das Finanz kapital, titulo
da sua obra publicado em 1910), considerando-a um fenômeno novo da economia-politica moderna. Lenin definiu-a
como a etapa final do capitalismo, a etapa do imperialismo.

Luta ele - o capital financeiro - pela ampliação dos mercados e pela obtenção de novas e diversas fontes de matérias
primas. A doutrina econômica em que se baseia é a do capitalismo laissez-faire, um liberalismo radical inspirado nos
fisiocratas franceses e apoiado pelos economistas ingleses Adam Smith e David Ricardo que advogavam a superação do
Mercantilismo com suas políticas arcaicas. Defendem o livre-cambismo na relações externas, mas em defesa das suas
indústrias internas continuam em geral protecionistas, como é o caso da política Hamiltoniana nos Estados Unidos e a da
Alemanha Imperial e a do Japão(*).

A escravidão que havia sido o grande esteio da primeira globalização, tornou-se um impedimento ao progresso do
consumo e, somada à crescente indignação que ela provoca, termina por ser abolida, primeiro em 1789 e definitivamente
em 1848 ( no Brasil ela ainda irá sobreviver até 1888). Este segundo momento - segundo a orientação do que Hobson
chamou de ³a politica de uma minoria sem escrúpulos´ -, irá se caracterizar pela ocupação territorial de certas partes da
África e da Ásia, além de estimular o povoamento das terras semi-desocupadas da Austrália e da Nova Zelândia.

No campo da política a revolução americana de 1776 e a francesa de 1789, irão liberar enorme energia fazendo com que
a busca da realização pessoal termine por promover uma grande ascensão social das massas. Logo depois, como
resultado das Guerras Napoleônicas e da generalizada abolição da servidão e outros impedimentos feudais, milhões de
europeus ( calcula-se em 60 milhões num século) abandonam seus lares nacionais e emigram em massa para os Estados
Unidos, Canadá, e para a América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Uruguai).

A posse de novas colônias torna-se um ornamento na política das potências ( só a Grã-Bretanha possui mais de 50,
ocupando inclusive áreas antieconômicas). O cobiçado mercado chinês finalmente é aberto pelo Tratado de Nanquim de
1842 e o Japão também é forçado a abandonar a política de isolamento da época Tokugawa ao assinar um tratado com os
americanos em 1853-4.

Cada uma das potências européias rivaliza-se com as demais na luta pela hegemonia do mundo, ou como disse John
Strachey: ³lançaram-se unanimemente, numa rivalidade feroz...para anexar o resto do mundo´. O resultado é um
acirramento da corrida imperialista e da política belicista que levará os europeus à duas guerras mundiais, a de 1914 -18 e
a de 1939-45. Entrementes outros aspectos técnicos ajudam a globalização: o trem e o barco à vapor encurtam as
distâncias, o telégrafo e , em seguida, o telefone, aproximam os continentes e os interesses ainda mais. E, principalmente
depois do vôo transatlântico de Charles Lindbergh em 1927, a aviação passa a ser mais um elemento que permite o
mundo tornar-se menor.

Nestes cem anos da segunda fase da globalização (1850-1950) os antigos impérios dinásticos desabaram (o dos Bourbons
em 1789 e, definitivamente, em 1830, o dos Habsburgos e dos Hohenzollers em 1914, o dos Romanov em 1917) Das
diversas potências que existiam em 1914 (O Império britânico, o francês, o alemão, o austro-húngaro, o italiano, o russo
e o turco otomano) só restam depois da 2ª Guerra, as superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética.

Feridas pelas guerras as metrópoles deram para desabar, obrigando-se a aceitar a libertação dos povos coloniais que
formaram novas nações. Mesmo assim, umas independentes e outras neocolonizadas, continuaram ligadas ao sistema
internacional. Somam-se, no pós-1945, os países do Terceiro Mundo recém independente (a Índia é a primeira a obtê-la
em 1947) às nações latino-americanas que conseguiram sua autonomia política entre 1810-25, ainda no final da primeira
fase da globalização. No entanto nem a descolonização nem as revoluções comunistas, a da Rússia de 1917 e a da China
de 1949, servirão de entrave para que a mais longo prazo o processo de globalização seja retomado.

!?$ Os países industrializados defendem o livre-cambismo ( o preço melhor vence) quando se sentem fortes, como foi o
caso da Inglaterra nos séculos 18 e 19 e hoje é a posição dominante dos E.U.A. Mas para aqueles que precisam criar sua
própria indústria ou proteger a que está ainda se afirmando, precisam recorrer à política protecionista com suas elevadas
barreiras alfandegárias para evitar sua quebra.

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  (   *  -         -     2 - I.Kant - A paz perpétua,
1795

No decorrer do século 20 três grandes projetos de liderança da globalização conflitaram-se entre si: o comunista,
inaugurado com a Revolução bolchevique de 1917 e reforçado pela revolução maoista na China em 1949; o da contra-
revolução nazi-fascista que, em grande parte, foi uma poderosa reação direitista ao projeto comunista, surgido nos anos
de 1919, na Itália e na Alemanha, extendendo-se ao Japão, que foi esmagado no final da 2ª Guerra Mundial, em 1945; e,
finalmente, o projeto liberal-capitalista liderado pelos países anglo-saxãos, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

Num primeiro momento ocorreu a aliança entre o liberalismo e o comunismo (em 1941-45) para a auto-defesa e, depois,
a destruição do nazi-fascismo. Num segundo momento os vencedores, os EUA e a URSS, se desentenderam gerando a
guerra fria (1947-1989), onde o liberalismo norte-americano rivalizou-se com o comunismo soviético numa guerra
ideológica mundial e numa competição armamentista e tecnológica que quase levou a humanidade a uma catástrofe (a
crise dos mísseis de 1962).

Com a política da glasnost, adotada por Mikhail Gorbachov na URSS desde 1986, a guerra fria encerrou-se e os Estados
Unidos proclamaram-se vencedores. O momento símbolo disto foi a derrubada do Muro de Berlim ocorrida em
novembro de 1989, acompanhada da retirada das tropas soviéticas da Alemanha reunificada e seguida da dissolução da
URSS em 1991. A China comunista, por sua vez, que desde os anos 70 adotara as reformas visando sua modernização,
abriu-se em várias zonas especiais para a implantação de indústrias multinacionais. A política de Deng Xiaoping de
conciliar o investimento capitalista com o monopólio do poder do partido comunista, esvaziou o regime do seu conteúdo
ideológico anterior. Desde então só restou hegemônica no moderno sistema mundial a economia-mundo capitalista, não
havendo nenhuma outra barreira a antepor-se à globalização.

Chegamos desta forma a situação presente onde sobreviveu uma só superpotência mundial: os Estados Unidos. É a única
que tem condições operacionais de realizar intervenções militares em qualquer canto do planeta (Kuwait em 1991, Haiti
em 1994, Somália em 1996, Bosnia em 1997, etc..). Enquanto na segunda fase da globalização vivia-se na esfera da libra
esterlina, agora é a era do dólar, enquanto que o idioma inglês tornou-se a língua universal por excelência. Pode-se até
afirmar que a globalização recente nada mais é do que a americanização do mundo.
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O processo produtivo mundial é formado por um conjunto de umas 400-450 grandes corporações (a maioria delas
produtora de automóveis e ligada ao petróleo e às comunicações) que têm seus investimentos espalhados pelos 5
continentes. A nacionalidade delas é majoritariamente americana, japonesa, alemã, inglesa, francesa, suíça, italiana e
holandesa. Portanto, pode-se afirmar sem erro que os países que assumiram o controle da primeira fase da globalização (a
de 1450-1850), apesar da descolonização e dos desgastes das duas guerras mundiais, ainda continuam obtendo os frutos
do que conquistaram no passado. A razão disso é que detêm o monopólio da tecnologia e seus orçamentos, estatais e
privados, dedicam imensas verbas para a ciência pura e aplicada.

Politicamente a globalização recente caracteriza-se pela crescente adoção de regimes democráticos. Um levantamento
indicou que 112 países integrantes da ONU, entre 182, podem ser apontados como seguidores (ainda que com várias
restrições) de práticas democráticas, ou pelo menos, não são tiranias ou ditaduras. A título de exemplo lembramos que na
América do Sul, na década dos 70, somente a Venezuela e a Colômbia mantinham regimes civis eleitos. Todos os demais
países eram dominados por militares ( personalistas como no Chile, ou corporativos como no Brasil e Argentina).
Enquanto que agora , nos finais dos noventa, não temos nenhuma ditadura na América do Sul. Neste processo de
universalização da democracia as barreiras discriminatórias ruíram uma a uma (fim da exclusão motivada por sexo, raça,
religião ou ideologia), acompanhado por uma sempre ascendente padronização cultural e de consumo.

A ONU que deveria ser o embrião de um governo mundial foi tolhida e paralisada pelos interesses e vetos das
superpotências durante a guerra fria. Em conseqüência dessa debilidade, formou-se uma espécie de estado-maior
informal composto pelos dirigentes do G-7 (os EUA, a GB, a Alemanha, a França, o Canadá, a Itália e o Japão), por
vezes alargado para dez ou vinte e cinco, cujos encontros freqüentes têm mais efeitos sobre a política e a economia do
mundo em geral do que as assembléias da ONU.

Enquanto que no passado os instrumentos da integração foram a caravela, o galeão, o barco à vela, o barco a vapor e o
trem, seguidos do telégrafo e do telefone, a globalização recente se faz pelos satélites e pelos computadores ligados na
Internet. Se antes ela martirizou africanos e indígenas e explorou a classe operária fabril, hoje utiliza-se do satélite, do
robô e da informática, abandonando a antiga dependência do braço em favor do cérebro, elevando o padrão de vida para
patamares de saúde, educação e cultura até então desconhecidos pela humanidade.

O domínio da tecnologia por um seleto grupo de países ricos, porém, abriu um fosso com os demais, talvez o mais
profundo em toda a história conhecida. Roma, quando império universal, era superior aos outros povos apenas na arte
militar, na engenharia e no direito. Hoje os países-núcleos da globalização (os integrantes do G-7), distam, em qualquer
campo do conhecimento, anos-luz dos países do Terceiro Mundo (*).

Ninguém tem a resposta nem a solução para atenuar este abismo entre os ricos do Norte e os pobres do Sul que só se
ampliou. No entanto, é bom que se reconheça que tais diferenças não resultam de um novo processo de espoliação como
os praticados anteriormente pelo colonialismo e pelo imperialismo, pois não implicaram numa dominação política,
havendo, bem ao contrário, uma aproximação e busca de intercâmbio e cooperação.

!?$ Quanto à exportação de produtos da vanguarda tecnológica (microeletrônica, computadores, aeroespaciais,


equipamento de telecomunicações, máquinas e robôs, equipamento científico de precisão, medicina e biologia e químicos
orgânicos), Os EUA são responsáveis por 20,7%; a Alemanha por 13,3%; o Japão por 12,6%; o Reino Unido por 6,2%, e
a França por 3,0% , etc..logo apenas estes 5 países detêm 55,8% da exportação mundial delas.

Imagina-se que a Globalização, seguindo o seu curso natural, irá enfraquecer cada vez mais os estados-nacionais surgidos
há cinco séculos atrás, ou dar-lhes novas formas e funções, fazendo com que novas instituições supranacionais
gradativamente os substituam. Com a formação dos mercados regionais ou intercontinentais (Nafta, Unidade Européia,
Comunidade Econômica Independente [a ex-URSS], o Mercosul e o Japão com os tigres asiáticos), e com a conseqüente
interdependência entre eles, assentam-se as bases para os futuros governos transnacionais que, provavelmente, servirão
como unidades federativas de uma administração mundial a ser constituída. É bem provável que ao findar o século 21,
talvez até antes, a humanidade conhecerá por fim um governo universal, atingindo-se assim o sonho dos filósofos
estóicos do homem cosmopolita, aquele que se sentirá em casa em qualquer parte da Terra.