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CENTRO DE REFERÊNCIA DA MULHER:

artigo de revisão
violência contra as mulheres e informação

Gisele Rocha Cortes*

RESUMO
A violência é uma violação de Direitos Humanos que
afeta mulheres de todas as idades, de variadas classes
sociais, de diferentes regiões, grupos étnico-raciais,
graus de escolaridade e religiões, em todo o Brasil. Um
dos principais desafios nas estratégias de prevenção e
de dimensionamento do fenômeno no país centra-se no
processamento da informação. Nesse sentido, a pes-
quisa se propôs investigar a violência contra mulheres,
com a interface dos fundamentos teóricos e princípios
da Gestão da Informação, tendo como objetivo principal
criar um banco de dados com o perfil das mulheres a-
tendidas no Centro de Referência da Mulher Fátima
Lopes - Campina Grande/Paraíba. O estudo inseriu-se
numa abordagem quantitativa, com a qual objetivamos
descrever os indicadores e as tendências observáveis
do perfil das mulheres atendidas no equipamento. As
estratégias de ação foram alicerçadas nos princípios e
técnicas da Gestão da Informação para a criação de
um banco de dados no programa Excel. O Centro de
Referência da Mulher Fátima Lopes vem assumindo
papel significativo no atendimento às mulheres em situ-
ação de violência, sendo necessário aperfeiçoar conti-
nuamente a gestão da informação, visando o planeja-
mento de ações e a tomada de decisões condizentes
com as necessidades informacionais das mulheres.

Palavras-chave: Informação. Gestão da Informação. Violência


contra Mulheres. Órgãos de atendimento às
mulheres em situação de violência. Estudos de * Docente UFPB. E-mail: giselero-
Gênero. chacortes@gmail.com

1 INTRODUÇÃO

A violência de gênero afeta aponta que mais de um terço das


mulheres de distintas faixas etárias, mulheres de todo o mundo sofre violência
classes sociais, grupos étnico-raciais, física e sexual (KELLAND, 2013). O
graus de escolaridade, em todo o mundo. fenômeno configura-se como problema de
A Organização Mundial de Saúde – OMS saúde pública, com repercussões

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endêmicas. Nesta perspectiva, os efeitos crimes contra as mulheres não são


da violência física, sexual, psicológica, aleatórios, pelo contrário, são
moral e patrimonial sobre a saúde física e engendrados no contexto de profundas
mental das mulheres são vislumbrados desigualdades, em geral cometidos por
por meio da depressão, ansiedade, homens contra as mulheres, em contexto
síndrome do pânico, gravidez não de relações de intimidade e afeto1.
desejada, distúrbios gastrointestinais, Conforme Brasil (2013, online) “[...] o
dentre outros. feminicídio representa a última etapa de
No Brasil, os estudos sobre o um continuum de violência que leva à
fenômeno têm revelado a complexa e morte. Precedido por outros eventos, tais
cruel realidade vivenciada pelas mulheres. como abusos físicos e psicológicos, que
O país ocupa sétima posição na tentam submeter as mulheres a uma
incidência de homicídios de mulheres, lógica de dominação masculina [...]”.
num ranking de 84 países. De 1980 a Essencial destacar que as
2010, triplicou o número de mortes e desigualdades na produção da violência
foram assassinadas acima de 92 mil de gênero estão entrelaçadas e
mulheres, 43,5 mil só na última década. imbricadas aos marcadores sociais de
Neste universo, o homicídio de mulheres classe, raça, regionalidade, que se
situa a Paraíba na sétima posição, com a mesclam, cruzam e potencializam a
taxa de 6,0 em cada 100 mil mulheres configuração da violência (SAFFIOTI,
(WAISELFIZ, 2012). Supõe-se que os 2004; RUFINO, 2001).
dados estão aquém da realidade, tendo A despeito do expoente avanço das
em vista a subnotificação que permeia a Tecnologias de Informação e
violência contra as mulheres. Comunicação, nas últimas décadas, o
O assassinato de mulheres, diagnóstico preciso da natureza dos
expressão fatal das violências, tem sido crimes praticados contra as mulheres e a
denominado “feminicídio”, tendo em vista produção de estatísticas sistemáticas e
sua intencionalidade e sua vinculação oficiais acerca do tema configura-se como
com uma construção sócio-histórica que
legitima a subordinação das mulheres. É o 1
Tramita no Senado o Projeto de Lei, Nº 292 de 2013, que
propõe a alteração do Código Penal e inserção do feminicídio
assassinato de uma mulher pela condição como circunstância qualificadora do crime de homicídio.
Disponível em: <http://www.senado.gov.br/atividade/materia/
detalhes.asp?p_cod_mate=113728>. Acesso em: 04 nov.
de ser mulher. O termo explicita que os 2014.

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um dos principais desafios nas estratégias Destarte, a pesquisa se propôs a


de prevenção e de monitoramento do investigar a violência contra mulheres,
fenômeno no país e na América Latina. com a interface das discussões a respeito
A deficiência de sistemas da Violência contra as Mulheres e
integrados dos registros de ocorrências na princípios da Gestão da Informação,
rede de enfrentamento à violência (saúde, tendo como objetivo principal, neste
justiça, segurança pública, assistência artigo, apresentar e descrever o perfil das
social, entre outros) e a neutralidade de mulheres atendidas no Centro de
gênero e raça/cor nas práticas estatísticas Referência da Mulher Fátima Lopes –
limitam a realização de pesquisas e Campina Grande/PB3.
resultam em obstáculos para os órgãos de Muitos são os estudos delineando
atendimento traçar metas, reduzir a informação como ação transformadora
incertezas na tomada de decisões e das relações e problemas sociais
intervir na realidade. (GARCIA; TARGINO; DANTAS, 2012;
A propagação e o OLINTO, 2006, ALBUQUERQUE;
compartilhamento da informação crescem NASCIMENTO, 2005), mas ainda são
exponencialmente no mundo, e, no poucas as produções que articulam a
âmbito das organizações, a exemplo do Ciência da Informação com Estudos de
Centro de Referência Fátima Lopes2- Gênero e Violência contra mulheres
CRMFL, uma quantidade considerável de (BRUFEN; NASCIMENTO, 2012;
informação é produzida o tempo todo. ESPÍRITO SANTO, 2008).
Potencializar os processos de produção e
gestão da informação torna-se 2 VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES E
INFORMAÇÃO
fundamental para realizar diagnósticos
sobre a complexa dinâmica da violência
No Brasil, na década de 1970, os
de gênero, visibilizar os crimes cometidos,
movimentos de mulheres e feministas
e, consequentemente, aprofundar as
configuraram-se como protagonistas no
análises e o controle social no tocante à
enfrentamento à violência contra as
violência. 3
A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Projeto “Informação
e Violência contra as Mulheres: Centro de Referência Fátima
Lopes”, vinculada ao Programa de Iniciação Científica da
2
O nome do Centro de Referência foi uma homenagem à Universidade Federal da Paraíba. Está inserida no projeto
Defensora Fátima Lopes, morta em janeiro de 2010 em um Laboratório de Tecnologias Intelectuais - LTI, do Departamento
acidente de trânsito na Avenida Epitácio Pessoa, em João de Ciência da Informação do Centro de Ciências Sociais
Pessoa. Aplicadas da Universidade Federal da Paraíba.

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mulheres, denunciando as violências e Para analisar a delineação das


reivindicando a implantação de órgãos de desigualdades de gênero, Scott (1990)
4
atendimento pelo poder público. utiliza a perspectiva foucaultiana de
Neste trabalho, adotamos a poder, a qual abre espaço para
categoria violência contra as mulheres compreendê-la como uma prática social
conceituada pela Convenção que permeia todas as esferas, em nível
Interamericana para Prevenir, Punir e micro e macro social. O poder, nessa
Erradicar a Violência contra a Mulher vertente, não está engessado em um pólo
(Convenção de Belém do Pará) como “[...] único de soberania. Desta forma, não há
qualquer ato ou conduta baseada no como “adquirir”, “transmitir”, “guardar” o
gênero que cause ou passível de causar poder, uma vez que ele se dilui em
morte, dano ou sofrimento físico, sexual, diversos pontos e “[...] em meio a relações
psicológico à mulher, tanto na esfera desiguais e móveis” (FOUCAULT, 1988,
pública como na esfera privada” (10 p. 90). Não há aqueles que o possuem
ANOS..., 2004). (homens) e aquelas dele desprovidos
Seguindo a conceituação (mulheres), os dois extremos da relação o
metodológica, analítica e histórica de detêm, ainda que seja em doses
Scott (1990, p. 14), “[...] o gênero é um fundamentalmente desiguais e
elemento constitutivo de relações sociais heterogêneas. Historicamente, as
fundadas sobre as diferenças percebidas mulheres sempre resistiram e atuaram
entre os sexos, é um modo primordial de para o enfrentamento das discriminações
dar significado às relações de poder [...]” sofridas em diferentes âmbitos, o que tem
O conceito relações de gênero é utilizado possibilitado a ampliação da participação
por várias correntes de pensamento. As política, dos direitos sexuais e
diversas acepções teóricas foram (são) reprodutivos, o acesso à educação, a
construídas e dinamizadas tendo em vista implantação de políticas públicas
as vertentes conceituais, políticas e específicas, dentre outros. Muitos são os
históricas de quem o (a) utiliza como desafios a serem superados para a
categoria de análise da realidade. promoção e garantia dos direitos das
mulheres, mas, como afirma Foucault
4
(1995, p. 91) “[...] onde há poder, há
Importante ressaltaras primeiras formas de organizações
militantes, de prestação de serviços às mulheres em situação
de violência, a exemplo dos SOS – Mulher (ALMEIDA, 1988).
resistência”.

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Ancoradas nesta linha de reflexão práticas culturais, as representações


e concebendo a informação como fonte disponíveis que naturalizam os
de saber e poder, consideramos que o comportamentos de homens e mulheres –
acesso à informação configura-se como e alocam às últimas um menor valor social
elemento fundamental para potencializar – podem ser ressignificados por
a resistência das mulheres frente às mais intermédio da informação.
distintas formas de opressão. A Fadel et al. (2010, p. 16) pontuam
perspectiva teórica de Barreto (1999, que o conjunto de ações implantadas no
online) acerca do conceito de informação, processo de gerenciamento do fluxo
delineado como “conjuntos significantes informacional tenham como pano de
com a competência e a intenção de gerar fundo o ponto de vista político e social, ou
conhecimento no indivíduo, em seu grupo, seja, transformando, por exemplo,
ou a sociedade”, e as concepções de significados e práticas culturais com
Nascimento e Marteletto (2004, online), relação à violência de gênero e,
dinamizando a informação como subsidiando estratégias para que as
elemento“[...] capaz de criar ou ‘informar’ mulheres conheçam o seus direitos e se
novos contextos de significado [...]”, fortaleçam na superação do medo, da
fornecem referenciais para pensá-la como vergonha, do isolamento que perpassam
prática social imprescindível para o a dinâmica da violência.
avanço na democratização das relações No que concerne à informação
de gênero. estatística, destacamos que a Lei nº
Nessa direção, a reflexão sobre o 11.340/2006, Lei Maria da Penha,
fenômeno da violência contra mulheres significativo avanço no enfrentamento à
está indissociavelmente articulada à violência contra as mulheres, preconiza,
análise das ações e práticas culturais em seu artigo 8º, § 2, a importância das
disseminadas nas mais distintas informações estatísticas para a coibição
sociedades. Hall (1997, p. 16) afirma que da violência doméstica e familiar contra as
“[...] toda ação social é “cultural”, que mulheres, pautando a promoção de
todas as práticas sociais expressam ou pesquisas e estudos, estatísticas, com a
comunicam um significado e, neste perspectiva de gênero, raça e etnia,
sentido, são práticas de significação”. Os relativas à frequência, causas e
símbolos culturalmente disponíveis, as

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consequências da violência doméstica e sujeito político ativo no que tange a


5
familiar contra as mulheres. ampliação da cidadania, a afirmação do
racismo como marcador social de
3 CENTROS DE REFERÊNCIA DE desigualdades e na luta pela inclusão de
ATENDIMENTO À MULHER EM
políticas específicas para as mulheres
SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA
negras no âmbito estatal. No Rio de
Para compreender a trajetória de Janeiro, em 1980 foi criado o grupo Luiza
criação dos Centros de Referência de Mahin, segmento do Movimento Negro
Atendimento à Mulher em Situação de Unificado - MNU. Em 1982 e em 1983,
Violência é fundamental resgatar de forma foram criados em São Paulo e no Rio de
breve a atuação dos movimentos Janeiro, respectivamente, o Coletivo de
feministas e de mulheres no contexto Mulheres Negras. Em 1985, o Centro de
político de intensa repressão, por parte do Mulheres da Favela e Periferia do Rio de
regime militar, na medida em que lutaram Janeiro.
pela redemocratização do país e pelo Segundo Carneiro (2003), as
avanço da pauta de gênero na agenda mulheres negras ampliaram o leque de
pública e do Estado. O feminismo análise sobre a situação social das
brasileiro, em sua pluralidade, em suas mulheres, trazendo à tona a
múltiplas frentes, consolidou-se e problematização da perspectiva feminista
revolucionou o espaço da política:[...] em clássica alicerçada numa concepção
torno da afirmação de que o “pessoal é reducionista e universalista da categoria
político”, pensado não apenas como uma mulher, embasada no paradigma da
bandeira de luta mobilizadora, mas como mulher branca ocidental. A autora
um questionamento profundo dos destaca, desta forma, que a interseção
parâmetros conceituais do político das opressões de raça e gênero
(COSTA, 2005, p. 2). potencializa a violência, a exclusão e a
Neste processo, salientamos o desigualdade econômica, política, cultural
movimento de mulheres negras como das mulheres negras.

5
Destaca-se também a Lei 10.778, de 24 de novembro de
2003, que estabelece a notificação compulsória dos casos de [...] Pensar a contribuição do
violência contra as mulheres atendidas nos serviços de saúde feminismo negro na luta anti-
públicos e privados. A Central de Atendimento 180 da racista é trazer à tona as
Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) tem produzido
informações estatísticas sobre o panorama da violência contra implicações do racismo e do
as mulheres no país. sexismo que condenaram as

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mulheres negras a uma situação referência ampliaram o atendimento


perversa e cruel de exclusão e
marginalização sociais. Tal pautado originalmente na ótica da
situação, por seu turno, engendrou
formas de resistência e superação segurança, incorporando perspectiva
[...] (CARNEIRO, 2003, p. 129).
preventiva, multidisciplinar e integrada
(BRASIL, 2011). O primeiro órgão
À luz deste cenário de resistências
implantado no país com essas
e mobilizações, no bojo do processo de
características foi a Casa Eliane de
democratização da sociedade brasileira,
Grammont/SP, criada em 9 de março de
de conquistas obtidas com a Constituição
1990. Em 2002, existiam apenas 17
de 1988 e da ratificação pelo Estado
centros de referência em âmbito nacional
Brasileiro de tratados internacionais,
(SILVEIRA, 2006). Em 2003, eram 36
alguns estados e municípios, sob a forte
implantados, em 2007, o número passou
influência do movimento feminista,
para 110 e, atualmente, 226 serviços
previram em leis orgânicas a criação de
estão em funcionamento no país.6 Em que
Conselhos de Defesa da Mulher,
pesem as análises sobre a insuficiência
Delegacias de Atendimento à Mulher,
dos órgãos, tendo em vista a dimensão da
Centros de Referência e Casas Abrigo
violência contra mulheres no país, é
(SARDEMBERG; COSTA, 2011).
notório que desde 2003, com a criação da
Os centros de referência de
Secretaria de Políticas para as Mulheres -
atendimento à mulher em situação de
SPM, órgão vinculado à Presidência da
violência, foco deste trabalho, constituem
República, com a responsabilidade de
estruturas essenciais do programa de
formular e propor diretrizes de ação
prevenção e enfrentamento à violência
governamental para a promoção dos
contra as mulheres. Por meio de ações
direitos das mulheres, a infraestrutura de
globais e de atendimento interdisciplinar
atendimento às mulheres em situação de
(psicológico, social, jurídico, de orientação
violência e o combate à violência
e informação), visam promover a ruptura
avançaram significativamente no Brasil7.
da violência e a construção da cidadania
para as mulheres em situação de
6
Informação disponível em: https://sistema3.planalto.gov.br//
violência (BRASIL, 2006). spmu/atendimento/atendimento_mulher.php?uf=TD
7
Destacamos a realização da I, II e III Conferência Nacional de
No conjunto das políticas públicas Políticas para as Mulheres, o Pacto Nacional de Enfrentamento
à Violência contra as Mulheres, a Lei Maria da Penha, o
de combate à violência, os centros de Programa Mulher Viver sem Violência, a Central de
Atendimento às Mulheres – Disque 180. Para maiores
informações, acessar: http://www.spm.gov.br/

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A implantação de organismos de situação de violência, composta por nove


políticas para as mulheres (Secretarias, Delegacias de Atendimento à Mulher
Coordenadorias de Políticas para as (DEAMs), e dois Núcleos de Atendimento
Mulheres) em nível federal, estadual e à Mulher em delegacias seccionais, seis
municipal, bem como dos serviços da Centros de Referência de Atendimento à
rede de atendimento às mulheres em Mulher, duas Promotorias da Mulher, duas
situação de violência (centros de Casas Abrigo, dois Juizados de Violência
referência, defensorias da mulher, Doméstica e Familiar, um Núcleo da
promotorias da mulher, juizados mulher na Defensoria Pública,
especializados de violência doméstica e trêsServiços de Perícia e treze Serviços
familiar, dentre outros), deve ser de Atenção à Saúde das Mulheres em
assumida pelos Estados, pois se Situação de Violência Sexual, sendo que
configura como campo estratégico para a três realizam a interrupção voluntária da
ampliação da democracia, a redução das gravidez, nos casos previstos por lei.
assimetrias de gênero e a superação da No tocante aos Centros de
situação de violência. Atendimento à Mulher, o estado da
Paraíba possui seis equipamentos: Centro
Por um lado, a mobilização da de Referência da Mulher Ednalva Bezerra
sociedade e a pressão sobre os
governos exercida pelas organiza- de João Pessoa, implantado em 2007,
ções feministas e de mulheres
fazem com que as demandas por Centro de Referência de Atendimento à
mais direitos, mais políticas e mais
poder cresçam e tenham algum Mulher (CRAM) Suzane Alves da Silva, de
nível de resposta tanto nacional Cajazeiras (2010), Centro de Referência
quanto internacionalmente. Por
outro lado, a criação e o de Atenção à Mulher, Santa Luzia (2010),
fortalecimento dos mecanismos
governamentais de políticas para Centro de Referência de Atendimento à
as mulheres reforçam o debate
sobre os direitos das mulheres e a Mulher Professora Ana Mendes Leite,
implementação de políticas
públicas destinadas a promover a Campina Grande (2012) e Centro de
igualdade (SOARES, 2014, p. 38). Referência de Atendimento à Mulher,
3.1 APRESENTANDO O CENTRO DE Patos, 2014.
REFERÊNCIA DA MULHER FÁTIMA O Centro Estadual de Referência
LOPES
da Mulher Fátima Lopes foi implantado
O Estado da Paraíba possui uma em dezembro de 2012, na cidade de
rede de atendimento às mulheres em Campina Grande. É um equipamento

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Centro de referência da mulher: violência contra as mulheres e informação

público específico para o atendimento estruturação da rede de atendimento às


psicológico, social, de arte-educação, mulheres em situação de violência10.
orientação e encaminhamento jurídico No CRMFL a mulher que procura o
para as mulheres. Funciona de segunda a serviço é acolhida pelas profissionais que,
sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às depois de escutá-la, encaminham-na para
17h, e atende às mulheres da região da o atendimento no próprio CRMFL ou para
Borborema8. Está ligado à Secretaria de serviços da rede de enfrentamento à
Estado da Mulher e da Diversidade violência. Paralelamente, a equipe técnica
Humana - SEMDH, instituída em 2011, realiza ações de intervenção na
que, entre outras ações, articula, formula comunidade e fortalecimento da rede de
e executa políticas públicas para atendimento, por meio de campanhas
mulheres, população negra, comunidades educativas e palestras de prevenção da
tradicionais e lésbicas, gays, bissexuais, violência doméstica.
travestis e transexuais - LGBT, por meio O centro integra a Rede Estadual
da Gerência Executiva de Equidade de de Atenção às Mulheres em Situação de
Gênero, Gerência Executiva LGBT e a Violência. (REAMCAV), responsável por
Gerência Executiva de Equidade Racial. realizar encontros periódicos para a
Importante ressaltar que a SEMDH foi discussão de ações intersetoriais entre as
implantada como desdobramento da instituições, órgãos governamentais, não
atuação de setores organizados de governamentais, objetivando traçar
mulheres na Paraíba9 e tem se constituído estratégias para o enfrentamento à
como um marco no enfrentamento às violência. Coordenada pela SEMDH, a
desigualdades de gênero no Estado e na REAMCAV é composta por Delegacias da
Mulher, Defensoria Pública, Centros de
Referência Especializado de Assistência
Social, serviços de Saúde, Centros de
8
O centro fica localizado à Rua Pedro I, 558, no bairro São Referência da Mulher, entre outros e
José, em Campina Grande.
9
Dentre redes, articulações e organizações da sociedade civil organizações de mulheres da sociedade
articuladas a promoção dos direitos das mulheres, ressalta-se a
Rede de Mulheres em Articulação na Paraíba/Articulação de civil.A integração entre os serviços da
Mulheres Brasileiras; o Fórum de Mulheres da Paraíba; a União
Brasileira de Mulheres da Paraíba; Marcha Mundial de
Mulheres; Cunhã Coletivo Feminista; Centro da Mulher 8 de
10
Março; Bamidelê - Organização de Mulheres Negras na Destacamos a Casa Abrigo Aryane Thais, os aparelhos
Paraíba e a Comissão da Mulher Advogada (OAB) em João celulares do Programa SOS Mulher, que serão utilizados como
Pessoa. O Estado possui um Conselho Estadual de Direitos da ferramenta preventiva para atender mulheres em situação
Mulher e três Conselhos Municipais. extrema de violência ou risco iminente de morte.

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rede de atendimento é essencial para sentido, adotamos a pesquisa-ação.


coibir a denominada rota crítica expressa (THIOLLENT, 1997). O estudo inseriu-se
por Camargo e Aquino (2003, p. 41) como numa abordagem quantitativa, com a qual
“[...] exposição da vítima a novas objetivamos descrever os indicadores e as
agressões, por debilidades dos sistemas tendências observáveis do perfil das
preventivos; isolamento social e mulheres atendidas no equipamento
constantes deslocamentos visando à fuga (MINAYO; SANCHES, 1993). Importante
da perseguição iniciada pelo agressor ressaltar que a equipe do CRMFL
[...]”. entendia a necessidade de organização
Em outubro de 2014, foi lançado o das fichas de atendimento e a produção
Sistema Estadual de Informação às de informação estatística como recurso
Mulheres Vítimas de Violência Doméstica estratégico para incrementar seu trabalho,
e Sexual, que registrará dados de visando promover os direitos das
atendimento de violência doméstica e mulheres. A equipe técnica sistematizava
sexual dos órgãos e organizações que as informações, entretanto, no cotidiano,
atuam na rede de atendimento. Neste a demanda de trabalho e o grande volume
contexto, o mapeamento e a de informação dificultaram a organização
disseminação do perfil das mulheres no sentido de criação de um banco de
atendidas no CRMFL pretende colaborar dados e consequentemente a geração de
para aprimorar o sistema de informação e informação estatística.
subsidiar o desenvolvimento de estudos e Considerando os objetivos
pesquisas sobre violência contra as propostos, o procedimento de coleta de
mulheres. dados foi dinamizado por meio da
pesquisa documental, com foco nas fichas
4 METODOLOGIA de atendimento individual das mulheres
que acessaram o CRMFL no ano de 2013.
A abordagem metodológica do As estratégias de ação foram alicerçadas
estudo foi pautada no caráter interativo nos princípios e técnicas da Gestão da
das pesquisadoras com a comunidade Informação para a criação de um banco
pesquisada, no processo de construção de dados no programa Excell©.
de interfaces de organização e Utilizamos o caminho apontado por Choo
comunicação da informação. Nesse (2003), para o processamento

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Centro de referência da mulher: violência contra as mulheres e informação

informacional na organização: a fins deste artigo, descreveremos as infor-


identificação de necessidades de mações referentes a: faixa etária, situação
informação, aquisição, organização e conjugal, escolaridade, carac-terização
armazenamento, desenvolvimento de étnico-racial, orientação sexual, renda,
produtos, serviços, distribuição e ocupação, relação com o (a) autor(a) da
utilização da informação, com o objetivo violência, local de ocorrência da violência
de gerar conhecimento e fortalecer os e os tipos de violência sofrida.
recursos informacionais da organização. Segundo o levantamento realizado,
Os dados serão apresentados por meio verificamos que as mulheres que
da estatística descritiva. acessaram o CRMFL, no período eram
jovens, onde mais da metade 55% estava
4 RESULTADOS PRELIMINARES: breve na faixa-etária entre 18 a 38 anos
perfil das usuárias
(GRÁFICO 1), e possuíam baixo nível de
escolaridade. Os indicadores mostram
Em 2013, noventa e três mulheres
que 40% não concluíram o ensino
(93) mulheres procuraram o CRMFL.
fundamental. Apenas 11% das usuárias,
Organizamos os documentos, padroniza-
chegaram ao ensino superior, destas 6%
mos o registro de variáveis referentes à
concluíram11 (GRÁFICO 2). Em relação à
dinâmica da violência e criamos catego-
orientação sexual, 76% se definiram como
rias classificatórias para transferên-
heterossexuais e quanto às demais, 24%,
cia/armazenamento ao progra-ma Excel.
não havia a informação sobre orientação
Com este processo de atividades,
sexual na ficha de atendimento12. No
geramos informação estatísti-ca, relativa
tocante à religião, as informações
ao perfil das mulheres atendidas, tais
captadas revelaram que mais da metade,
como: situação conjugal, escolaridade,
42%, eram católicas, 26% evangélicas e
faixa etária, raça, número de filhos(as),
4% declararam não ter religião. As
profissão, ocupação, renda, religião,
mulheres espíritas, testemunhas de Jeová
deficiência, canal pelo qual tomaram
conhecimento do CRMFL, orientação
11
Fundamental Incompleto (Fund. Incompleto). Fundamental
sexual, região de moradia, tipo de Completo (Fund. Completo). Superior completo/Inc. (Superior
Completo e Superior Incompleto).
12
violência sofrida, local da ocorrência e Utilizamos a sigla Não Informada (NI) para as situações em
que não foram localizadas as informações na ficha de
relação com o (a) autor da violência. Para atendimento. No decorrer da pesquisa, profissionais da equipe
técnica recuperaram, com as mulheres, algumas informações
não registradas.

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somaram 3%, e 25% não declararam e No grupo estudado, com relação à


não tiveram a informação registrada na ocupação no mercado de trabalho,
ficha de atendimento. Sobre a cidade de observamos que 23% exerciam trabalho
origem, predominou a pro
proporção de doméstico e 19% eram autônomas.
mulheres oriundas de Campina Grande, Quanto à renda, o gráfico 3 mostra que as
77%; e os municípios de Queimadas, mulheres apresentam baixa taxa de
Fagundes, Lagoa Seca correspondem a rendimento: 48% estavam na faixa de até
6%, 3% e 3%, respectivamente. Outras um salário mínimo (SM), 9%, na
cidades citadas registradas foram Vicente proporção entre um a dois salários-
salários
do Seridó, Barra de Santana, Esperança, mínimos, e uma pequena porcentagem,
Natuba, Bananeiras e Galante. 2%, revelou receber remuneração
remuner entre
dois e cinco salários mínimos. Uma
Gráfico 1 – Faixa Etária
proporção de 5%, enunciou não possuir
Faixa Etária renda. Há que se destacar a elevada
22% 20% porcentagem de mulheres que não
13% 15% 16%
10% declararam ou não tiveram o registro de
2% 2% renda captado (36%).
(3 Esta deficiência
limita a descrição e análise
análi da informação
e será aprofundada, posteriormente, por
meio de entrevistas qualitativas.
Ainda no que tange à renda,
Fonte: Dados da Pesquisa (2014)
observamos a alta proporção de
Gráfico 2 – Escolaridade mulheres, 53%, sem rendimento e com
Escolaridade rendimento de até um salário mínimo,
37% como pode ser observado no gráfico
gráfic 3. Os
25%
dados apresentados pelo IBGE (2010),
10%12% 11%
3% 2% comparando o rendimento de mulheres e
homens na Paraíba e em Campina
Grande, evidenciam as disparidades
nesta questão. A proporção de homens
sem rendimento na Paraíba é de 27,5% e,
Fonte: Dados da Pesquisa (2014) em Campina Grande, 21,40%. Nos
No casos

110 InterScientia, João Pessoa, v.2, n.3,


n. p.99-119, set./dez. 2014
Centro de referência da mulher:
mulher violência contra as mulheres e informação

das mulheres, os dados revelam que, na baixo salário, sem proteções e garantias
Paraíba, 29,40% das mulheres não legais.
possuem rendimento, e em Campina, A elevação da escolaridade
32,20%13. No PNAD, em 2012, no tocante feminina tem ocasionado novas oportuni-
oportuni
à remuneração, o rendimento médio das dades
des de emprego para a população
mulheres ocupadas equivale a 72,9% do feminina e se consolidado nos últimos
que recebem os homens no merc
mercado de anos, mas ainda não apresenta ressonân
ressonân-
trabalho. cias na inserção igualitária das mulheres
no mercado
rcado de trabalho. Persistem
Gráfico 3 – Renda obstáculos de acesso a profissões
Renda valorizadas social e financeiramente, ao
48%
36% mercado formal, a rendimentos igualitários

9%
aos dos homens e à posse da carteira
1% 1% 5%
assinada. A concentração de 42% das
mulheres, que procuraram o CRMFL, no
trabalho doméstico e autônomo corrobora
este cenário. Conforme o Dieese (2013)
Fonte: Dados da Pesquisa (2014) em estudo sobre a caracterização do
trabalho doméstico no Brasil, as empre-
empre
A autonomia econômica e o acesso
gadas domésticas, majoritariamente, pos-
pos
à educação configuram-se
configuram como
suem baixa escolaridade, muitas são
essenciais para a igualdade de gênero e
chefes de família e negras.
para a inclusão social das mulheres, mas
No que tange à caracterização
as informações estatísticas do CRMFL,
étnico-racial
racial das mulheres que acessaram
referentes ao acesso à educação, à renda
o CRMFL, constatou-se
constatou que 30% das
e à categoria profissional, explicitam o
mulheres se autodeclararam brancas;
contexto de vulnerabilidade social das
10%, pretas; 37%, pardas; e um alto
mulheres que acessaram o órgão: baixo
índice de mulheres, 23%, não informou ou
nível de escolaridade, inserção profissio-
profissio
não teve o registro computado na ficha
fich de
nal em profissões com pouca valorização,
atendimento14. Houve, segundo integran
integran-

13 14
Disponível em: http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/?loc=
http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/?loc Utilizamos a categorização do IBGE para classificar os
0,250400,25&cat=118,-1,2,-2,-3,87&ind=8197.348.809
3,87&ind=8197.348.809 dados: Branca, Preta, Parda, Amarela e Indígena.

InterScientia, João Pessoa, v.2, n.3,


n. p.99-119, set./dez. 2014 111
Gisele Rocha Cortes

tes da equipe, dificuldades para as em média, ganham menos que os


mulheres se autodeclararem e as profis- homens brancos, as mulheres brancas e
sionais identificarem a caracterização os homens negros, morrem mais em
étnico-racial. decorrência da mortalidade materna,
Importante assinalar que as possuem menor acesso à educação, com
informações estatísticas apontadas serão índices reduzidos de participação na
desagregadas por raça/cor e aprofunda- educação superior e na pós-graduação,
das com realização de pesquisa qualita- por exemplo (RUFINO, 2001; SILVA,
tiva, mas é essencial destacar as resso- GOES, 2013; SILVA, 2012).
nâncias do processo histórico das rela-
O que poderia ser considerado
ções raciais no Brasil, nas condições de como história ou reminiscências
do período colonial permanece,
vida das mulheres negras, na forma como entretanto, vivo no imaginário
social e adquire novos contornos e
vivenciam a violência e no acesso aos funções em uma ordem social
recursos para superá-la. supostamente democrática, que
mantém intactas as relações de
A utilização do conceito de raça gênero segundo a cor ou a raça
instituídas no período da
nesta pesquisa alicerça-se em um escravidão. As mulheres negras
tiveram uma experiência histórica
posicionamento político e metodológico diferenciada que o discurso
clássico sobre a opressão da
alinhado à corrente teórica de Stuart Hall mulher não tem reconhecido,
(2003, p. 69): assim como não tem dado conta
da diferença qualitativa que o
Conceitualmente, a categoria efeito da opressão sofrida teve e
‘raça’ não é científica. As ainda tem na identidade feminina
diferenças atribuíveis à ‘raça’ das mulheres negras (CARNEIRO,
numa mesma população são tão 2003, online).
grandes quanto àquelas
encontradas entre populações
racialmente definidas. ‘Raça’ é Gráfico 4 – Raça/Cor
uma construção política e social. É
a categoria discursiva em torno da
qual se organiza um sistema de
poder socioeconômico, de
exploração e exclusão – ou seja, o
racismo (HALL, 2003, p. 69).

Os reflexos negativos da inter-


secção entre as desigualdades de raça e
gênero são visualizados em estudos os
quais denunciam que as mulheres negras, Fonte: Dados da Pesquisa (2014).

112 InterScientia, João Pessoa, v.2, n.3, p.99-119, set./dez. 2014


Centro de referência da mulher:
mulher violência contra as mulheres e informação

Estudos de Almeida e Pereira Gráfico 5 - Situação Conjugal

(2012) explicitam como a intersecionalida- Situação Conjugal

de “[...] ou categoria de articulação entre 26%


22%
diferenciações” (PISCITELLI, 2008, p. 18%
12%
263) possibilita compreender a violência 8%
10%
4%
doméstica e familiar contra mulheres
pretas e pardas. A intersecionalidade traz
contribuições para a reflexão sobre a
forma como a imbricação dos marcadores
sociais de diferenças potencializa as
relações de poder, e também lança luz Fonte: Dados da Pesquisa (2014).
(2014)

sobre as possibilidades das mulheres


Sobre a situação conjugal das
resistirem e re(significarem) a situação de
mulheres pesquisadas, encontramos: 44%
violência. É essencial atenção para a não
casadas, em união estável ou em união
linearidade das expressõ
xpressões do racismo,
consensual, e 18% separadas, divorcia-
divorcia
do sexismo e da classe nas experiências
das ou desquitadas15. A maioria (76%)
das mulheres em situação de violência,
das que afirmaram terem sofrido violência
tendo em vista os aspectos culturais,
psicológica, física, patrimonial, moral e
históricos e subjetivos.
sexual, os tipos de violência com maior

[...] tipos de subjetividade quanto


proporção foram: física e psicológica
como formas da subjetividade são (42%), psicológica (18%), seguida da
marcadas por estruturas
estrutur de
diferença fundadas no gênero, na patrimonial, física e psicológica (14%).
raça, na etnicidade [classe social,
geração, regionalidade, sexuali
sexuali- Verificamos que os autores das
dade] e assim por diante. [...] De
um ponto de vista analítico e agressões, majoritariamente (75%) foram
político, elas devem ser
especificadas no contexto e nunca
(ex) companheiros, maridos e namorados
supostas de antemão. O que é das vítimas, isto é, pessoas com quem as
claro é que essas formas da
diferença estão mutuamente imbriimbri- mulheres mantinham/mantém vínculos de
cadas, e que, embora possamos
falar de prioridades ou determina-
determi afeto. Somente 1% da violência teve
ções entre conjuntos de diferen-
diferen
ças, devemos estar cientes de que como autores pessoas desconhecidas.
desconheci No
elas nunca poderão ser cabal cabal-
mente separadas entre si
que se refere ao local da violência,
(MOORE, 20002000, p. 16).
15
Sep/Div/Desq. (Separada, Divorciada ou Desquita)

InterScientia, João Pessoa, v.2, n.3,


n. p.99-119, set./dez. 2014 113
Gisele Rocha Cortes

predominou o domicílio, com 53% dos Gráfico 6 – Relação autor da violência

registros. Relação Autor/ da Violência

Diversos estudos, tanto interna-


interna
NI 9%
cionais como nacionais ((WAISELFIZ 3%
(Ex)namorado
2012; OMS, 2013; PRADO, 2014)
2014 Parente 12%
Pessoa conhecida 3%
mostraram que as agressões e
Pessoa desconhecida 1%
feminicídios são praticados, em geral, nas
n (Ex)marido 8%
relações de intimidade e o domicílio é um Marido 19%
(Ex)companheiro 23%
dos locais mais perigosos para as
Companheiro 22%
mulheres. Conforme o Mapa da Violência
Fonte: Dados da Pesquisa (2014).
(2014)
(2012), 41% das mortes femininas
ocorreram na casa da vítima. Gráfico 7 – Tipos de Violência
Vio

De acordo com Saffioti e Almeida Tipos de Violência

(1995),
), a violência de gênero é rotinizada, 42%

cometida por “parceiro” ou ex-“parceiro”,


ex
seguindo uma escalada, englobando uma
18%
série de “pequenos assassinatos” diários 14%
da mulher. São cenas de violências 8% 6%
5%
3%
1% 2% 1%
cotidianas, ameaças, chantagens,
perseguições, lesões, entre outras cruéis
e refinadas violências. Em concordância
com estas premissas, Bandeira e Almeida
(2006) enunciam que as condicionantes
de gênero, referentes a certas
classificações e compreensões de
violência, levam ao não reconhecimento Fonte: Dados da Pesquisa (2014).
(2014)
da violência produzida na intimidade e na
rotina de uma relação
ação conjugal e, à Estas informações explicitam que

consequente aprovação dos atos foram as mulheres em situação de grande

abusivos cometidos pelos homens na vulnerabilidade social que acessaram o

posição de senhores e donos de suas CRMFL. Destarte, o equipamento confi-


confi

mulheres (BANDEIRA; ALMEIDA, 2006)


2006). gura-se
se como política pública imprescindí-
imprescindí

114 InterScientia, João Pessoa, v.2, n.


n.3, p.99-119, set./dez. 2014
Centro de referência da mulher: violência contra as mulheres e informação

vel para o enfrentamento à violência, as técnicas que convirjam no sentido de


situações de desigualdade e pobreza que garantir acessibilidade da informação e a
afetam a vida das mulheres. Essencial geração de conhecimento. A articulação
destacar que a violência não está dos Estudos de Gênero com a Gestão da
exclusivamente atrelada a mulheres de Informação é fundamental na produção de
classes sociais desfavorecidas, contudo, o conhecimento científico, na visibilidade da
que se pode inferir é que o Centro de violência contra as mulheres e na sua
Referência da Mulher Fátima Lopes, no coibição.
ano de 2013, foi acessado, principal- As variáveis aqui apresentadas
mente, pelas mulheres mais excluídas fazem parte de um universo maior de
socialmente. informações, que aprofundaremos teorica-
Tal situação reforça a compre- mente num momento posterior, para que
ensão acerca da imprescindível articula- possamos compreender a dinâmica da
ção entre os governos, organizações não violência vivenciada pelas mulheres que
governamentais, universidades, movimen- acessam a organização.
tos sociais, serviços de segurança, justiça, Imprescindível frisar que o Centro
saúde, assistência social, geração de de Referência Fátima Lopes vem
trabalho e renda, educação visando assumindo ação significativa no atendi-
elaborar estratégias coletivas para vencer mento às mulheres em situação de
os desafios com relação à violência. violência, promovendo também uma
mudança nas dimensões simbólica e
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS cultural, na medida em que se situa como
unidade informacional privilegiada de
A informação é um insumo produção e disseminação de conteúdos
estratégico para o desenvolvimento social, informacionais que delineiam caminhos
tecnológico, científico, econômico, políti- para a garantia dos direitos humanos das
co, cultural das organizações. No mundo mulheres.
atual, onde cada vez mais as organiza- Por fim, almejamos que as infor-
ções dependem da informação que mações disponibilizadas neste quadro
produzem de forma rápida e eficiente, introdutório possam estimular e subsidiar
torna-se premente a Gestão da o desenvolvimento de novas pesquisas, o
Informação para a implementação de cruzamento com outros registros do Cen-

InterScientia, João Pessoa, v.2, n.3, p.99-119, set./dez. 2014 115


Gisele Rocha Cortes

tro de Referência e demais órgãos da re- AGRADECIMENTOS


de de atendimento para possibilitar o di-
Registramos nossos agradecimen-
agnóstico da realidade local e o avanço tos especiais às equipes do Centro de
Referência da Mulher “Fátima Lopes” e da
no desenvolvimento de ações integradas
Secretaria de Estado da Mulher e da Di-
para a garantia da autonomia das mulhe- versidade Humana do Estado da Paraíba,
pela parceria na realização da pesquisa.
res.

WOMANOFREFERENCECENTERFATIMALOPES:
violence against womenand information

ABSTRACT
Violence is a violation of Human Rights that affects women of all ages,
from varied social classes, from different regions, ethnic and racial groups,
educational levels and religions in Brazil as a whole. One of the main chal-
lenges in the strategies of prevention and dimensioning of the phenome-
non in the country is centered on the information processing. In this sense,
the research is proposed to investigate the violence against women, with
the interface of the theoretical foundation and principles of Information
Management. The main objective is to create a database with the profile of
women who are attended in the Reference Center for Women Fátima
Lopes, which is situated in Campina Grande, Paraíba. The study is in-
serted in a quantitative approach, in which it is aimed to describe the indi-
cators and observable tendencies of the profile of women who are at-
tended in the equipment. The results appoint that The Reference Center
for Women Fátima Lopes has assuming a significant role in the atten-
dance of women in violence situation, being necessary to improve, in a
continuous way, the information management, aiming the planning of ac-
tions and the decision making in accordance to the informational needs of
these women.

Keywords: Information. Information Management. Violence against Women. Places of


Attendance to women in violence situation. Gender Studies.

Recebido em: 15/10/2014 Aceito em: 28/11/2014

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