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EABU
LARIÜ
PERNAMBUEAN0
F. A . PEREIRA DA COSTA
COLEÇÃO
Governo do Estado de Pernambuco PERNAMBUCANA
Secretaria de Educação e Cultura

VOCABULÁRIO
PERNAMBUCANO
F. A. PEBERA OA COSTA

COLECÃO
} PER N AM B U C ANA:

PERNAM BUCO SEU DESENVOLVIM ENTO HISTÓRICO; Manoel de


Oliveira Lima

VOCABULÁRIO PERN AM BU C ANO ; F. A . Pereira da Costa

M EM ÓRIA HISTÓRICA E BIOGRÁFICA 00 CLERO PENAM BUCANO;


Padre Lino do M onte Carmello Luna /
DICIONÁRIO TOPOGRÁFICO, ESTATÍSTICO E HISTÓRICO DA PRO­
VÍNCIA DE PERNAM BUCO; Manoel da Costa Honorato
0

PRÓXIM OS LA N Ç AM EN TO S

HISTÓRIA DA GUERRA BRASÍLICA; Francisco de Brito Freyre

TEM PO DOS FLA M EN G O S ; José Antonio Gonsalves de Mello


O poeta Manuel Bandeira, no seu Evocação
do Recife, fala numa cidade onde " . . . a vida
não me chegava pelos jornais nem pelos livros.
Vinha da boca do povo na língua errada do po­
vo. Língua certa do povo. Porque ele é que fala
gostoso o português do Brasil . . ."
E arremata o poeta: "A o passo que nós o
que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada. . / '
Para o em érito pesquisador Luis da Câmara
Cascudo, "o u v ir o Povo é curso universitá­
rio. .
Foi através dos ensinamentos do povo da
outrora Capitania Duartina que Francisco
Augusto Pereira da Costa (1851-1923) conse­
guiu reunir, na segunda década do século X IX ,
elementos para com por o que ele denom inou
de Vocabulário Pernambucano; obra publica­
da post-mortem em 1937 na Revista do In s titu ­
to Arqueológico H istórico e Geográfico Per
nambucano.
Confessa Luis da Câmara Cascudo, na p ri­
meira edição do seu D icionário do Folclore
Brasileiro (1954), ter transcrito vários verbetes
da singular obra de Pereira da Costa; o que bem
caracteriza a im portância de um estudo ainda
hoje atual. 0 Conselho Estadual de Cultura, em
resposta a o fíc io enviado pelo Secretário da

Capa:Detalhe da gravura publicada na primeira


página do Jornal Pequeno (Recife) de 22
de fevereiro de 1909f/segundo programa­
ção visual de Ana Elizabeth Vaz.
Educação e Cultura do Estado, indicou no seu
o fic io n? 9 1 /7 5 a obra de Pereira da Costa en­
tre as de notável im portância para o conheci­
m ento da Cultura de Pernambuco.
D entro do objetivo do seu Programa de Ação
C ultural — "despertar na juventude e na coleti­
vidade o gosto e o amor por sua própria C u ltu ­
ra " — , o Governo de Pernambuco dá c o n tin u i­
dade a Coleção Pernambucana formada de
obras, inéditas ou reedições, destinadas aos es­
tudos pernambucanos.
Valorizada pelas notas introdutórias do Prof.
Mario Souto Maior, autor de vários outros tra ­
balhos no gênero, a segunda edição fac-similar
do Vocabulário Pernambucano tornar-se-á livro
de consulta de estudiosos e deleite para todos
os que se interessam pelos estudos pernambuca­
nos; que vêm sendo cuidados com carinho pelo
Programa de Ação Cultural do Governo do Es­
tado.
Ressalte-se, nisso tudo, o especial interesse
do Governador José Francisco de Moura
Cavalcanti e do seu Secretário da Educação e
C ultura, Prof. José Jorge Vasconcelos Lima, no
sentido de despertar às novas gerações para es­
tudos de im portância para a nossa Cultura e
formação de nossa pernambucanidade.

LEONARDO DANTAS S ILV A

Diretor do Departamento de Cultura


VBGABULÁRIQ
PERNAMBUGAN0
F A PEREIRA DA COSTA
C OL EÇ Ã O P E R N A M B U C A N A

J tr Volume II
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PERNAMBÜEAN0
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F A. PEREIRA DA COSTA

Prefácio de
**51 Mário Souto Maior
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2? Edição

^A* - ,r GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO


°Ç 5 ' SE C R ET A R IA D E EDU CAÇÃ O E CU LTU RA
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R ec ife — 1976
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) W f í r -
Um Vocabulário
Pernambucano

márz\o sou to mcx\orz


c ^ ^ ^ ^ o n t in u a o Departam ento de Cultura de Pernam buco, p or in ter­
m édio de seu mais que dinâm ico D iretor a prestar m agníficos serviços
à cultura pernambucana, ressuscitando, do esquecim ento ingrato a que
estavam condenadas, obras fundam entalm ente indispensáveis ao co­
nhecimento da nossa história, do nosso folclore.
Iniciando a Coleção Pernambucana com Pernam buco, seu Desen­
volv im e n to H is tó rico , de O liveria Lim a, Leonardo Dantas Silva, ani­
mado pela vontada de servir Pernam buco, nos dará, dentro de pouco
tempo, reedições de M em ó ria H is tó rica e B iográ fica do C lero Pern a m ­
bucano de Lino do M onte Carm elo Luna (c o m anotações do M onse­
nhor Severino N o gu eira ), D icio n á rio H is tó ric o e T o p o g rá fic o da P r o ­
víncia de Pern a m b u co de M anuel da Costa H on orato (c o m anotações
de José Antônio Gonsalves de M e llo ), H is tó ria da G uerra B rasílica de
Francisco de Bento F reire (ta m b ém com anotações e com entários de
José Antônio Gonsalves de M e llo ), livros que já se encontram em fase
de com posição alguns e de im pressão, outros.
Agora, tam bém incorporado à Coleção Pernambucana, tem os a
grande alegria de ver reeditado este esgotadíssim o e im portantíssim o
V oca b ulário Pernam bucano, de P ereira da Costa, publicado postum a­
mente, em 1937, na R evista do In s titu to A rq u e o ló g ico H is tó ric o e G eo­
grá fico de Pernam buco.
E quem é P ereira da Costa, autor deste V oca bu lá rio Pern am bu ­
cano? Filh o de M nauel Augusto de Menezes Costa e de M aria Augusta
Pereira da Costa, nasceu Francisco Augusto Pereira da Costa na cidade
do R ecife, no dia 16 de dezem bro de 1851. Fez seus prim ieros estudos
no Colégio de Nossa Senhora do B om Conselho. Cõm a idade de
dezesseis anos, deixou de estudar para ser balconista numa livraria
recifense. Aos vinte e um anos escreveu um artigo intitulado N ú m e ro
Sete, que publicou no D iá rio de Pernam buco. A p artir de então, passou
a divulgar estudos e ensaios sobre figuras e fatos ligados não somente
à h istória pernambucana com o tam bém a de tod o o Nordeste, fir ­

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mando-se, assim, com o estudioso das coisas pernambucanas e da histó­
ria da região onde nasceu e viveu. N o ano de 1884, P ereira da Costa
fo i convidado para exercer as funções de S ecretário do G overno do
Piauí. Com quarenta anos concluiu o curso de Ciências Jurídicas e
Sociais, pela Faculdade de D ireito do Recife. F o i m em bro do Conse­
lho M unicipal do R ecife (1889-1891), deputado estadual e um dos fun­
dadores da Academ ia Pernambucana de Letras. Faleceu no dia 21 de
n ovem bro de 1923.
N ão fo i na política, entretanto, que P ereira da Costa mais se des­
tacou. C om o hom em inteligente que era, claro que sua passagem pelo
Conselho M unicipal do R ecife e pela Câmara Estadual não fo i em vão,
porque seu nom e sem pre esteve ligado a todas as leis que visavam a
higiene, a saúde e o bem-estar dos recifenses e pernambucanos.
P ereira da Costa perm aneceu vivo na história cultural de Pernam ­
buco pela força e pelo valor de seus m agníficos trabalhos, ainda hoje
de grande valia para os que se dedicam ao estudo da história e do
F olclore pernambucanos. Obras com o M osa ico Pernam bucano (c o le ­
ção de excertos históricos, poesias populares, anedotas, curiosidades,
lendas, antiqualhas, usanças, ditos célebres, etc., 1884), A Ilh a de F e r­
nando de N o ro n h a (1888), Enciclopediana B rasileira (1889), F o lc lo re
Pernam bucano (subsídios para a história da poesia popular em P e r­
nambuco, 1909 — que o A rqu ivo Público, sob a direção de Mauro
M ota, reeditou recentem ente), A Naturalidade de Cam arão (1909),
Anais Pernam bucanos (o n d e vam os encontrar registrada, com im pres­
sionante riqueza (.de detalhes, a história de Pernam buco desde sua
fundação até o ano de 1850) e outras, num total de trinta e seis, entre
as quais este V oca b ulário Pernam bucano, trabalho de fôlego, resultado
de, ninguém sabe, quantos anos de pesquisa, num tem po em que a
técnica e os m eios de com unicação não eram os de hoje.
Alguns chegam a pensar que o vocabulário de um Estado seja a
coleção de palavras e de locuções som ente usadas pelo povo daquele
Estado, quando, na verdade, diz respeito às palavras e locuções mais
correntem ente faladas e escritas pelo povo do m esm o Estado, além
das que — m uito poucas, é claro — são próprias da região. E lab o­
rando um trabalho assim, sem os recursos da técnica nem os meios
de com unicação de agora, P ereira da Costa, m unido apenas de sua
paciência bem franciscana, conseguiu, neste seu V oca vu lá rio Pern a m ­
bucano, realizar uma pesquisa que, apesar de feita há quase um século,
continua válida e de grande im portância para o estudo da língua p o r­
tuguesa falada nesta região. Continua válida porque no Vocabulário
Pernam bucano de P ereira da Costa vam os encontrar palavras e locu­
ções ainda h o je correntes na boca do povo, palavras e locuções com o
am oitado (esco n d id o), boia (c o m id a ), cangalha (pernas tortas para
dentro, com o as de um alicate), desencavar (descobrir, encontrar,
achar algum a coisa ou alguém ), em p eitica r (ab orrecer, azucrinar),
fr ito (m e tid o em maus len çóis) gira (am alucado, id io ta ), hora-da-
m o rte (carestia g e ra l), igrejin h a (reun ião de lim itado núm ero de pes­
soas em um dado lugar para certos fin s ), judeu (m a lv a d o ), loca (b u ra ­
co, cova, esco n d erijo ), malassaãa (frita d a de qualquer esp écie), nascer

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(quebrar-se um o b jeto de louça ou de v id ro ), ossada (m u lher muito
magra, esquelética), pá (p a rte superior das costas), quartinha (espécie
de bilha de barro, de m odelos vários para conter e refrescar a água),
roçado (p lan tação de cereais), seda (delicada, am ável), terens (b aga­
gem, tro ç o s), u rso (in divídu o insociável, am igo fa ls o ), vista-gorda
(to le râ n c ia ), xod ó (cham ego, p a ix ã o ) e zambeta (pessoa que tem as
pernas to rta s).
Assim, os verbetes arrolados p or P ereira da Costa neste excelente
trabalho — a m aioria dos quáis enriquecidos com abonações de jo r ­
nais, revistas e livros da época — continuam constando do vocabu­
lário atual do povo pernambucanamente nordestino, até m esm o entre
os que, pecando p or excesso, se situam na chamada Geração-sem-
palavra, com o no caso de m o ita ( o ) , com provando o m ergulho que
as palavras dão no tem po para ressurgirem , depois, com a mesma
significação ou com significação inteiram ente diferente. E este é um
dos m éritos deste V oca b ulário P ern a m b u ca n o: servir de referência
aos que estudam a evolução da língua portuguesa falada em Pernam ­
buco, de um m odo especial e, de um m odo geral, no N ordeste brasileiro.

M A R IO SOUTO M A IO R
Olinda, setem bro, 1976

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Em 1916 a Revista do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico
Pernambucano iniciou a publicação do interessantíssimo trabalho de Pe­
reira da Costa, modestamente intitulado "Apontam entos para um Vocabu­
lário Pernambucano” . Não pôde, entretanto, ir além da letra B.
A morte surpreendeu o operoso e benemérito confrade e como os
originais estavam em seu poder e não em poder do Instituto, não pros­
seguiu a publicação.
Ao tempo se faziam grandes pesquisas de regionalismos para o fu tu ro
"D icionário da Academia Brasileira de Letras", de modo que a publicação
incompleta causou pesar a quantos se interessam por esses estudos.
Felizmente, com a oferta que, os originais, fizeram os herdeiros do
saudoso cronista ao Instituto, foi possível à Revista a publicação integral,
tirando-se-lhe também separata.
Desnecessário entrar no m érito duma colheita dessa natureza. A pos­
teridade saberá fazer justiça à memória de Pereira da Costa que, com
paciência beneditina, dedicou quase toda a sua vida à pesquisa de fatos
da História de Pernambuco e de coisas que lhe são atinentes, deixando
farto acervo para os estudiosos.

Diretor da Revista do instituto Arqufoiógico


A

Abacaxi — Mau dançador, pesado, sem geito. “ A sua m eni­


na, Evaristo, é um a b a c a x i... não sabe dançar.” (A Lanceta n.
100 de 1913). Os escravos que no pcriodo da campanha abolicio­
nista fugiam ou eram mandados para o Ceará, já emancipado
desde 1884. Abacaxi, como se sabe, é o fructo da bella brom elia
do mesmo nome, que segundo o naturalista Richard é o m elhor
conhecido, e já cantado com o nome de ananás, com que
tambem é nomeado, pelo nosso epico Santa Rita Durão no seu
poema O Cafam nru’ (1781), com a consagração destas estro-
phes: “ Das fructas do paiz a mais louvada E ’ o regio ananás,
frucla tão bôa, Que a mesma natureza namorada Quiz como
rei cingil-a de corôa.” O abacaxi fo i introduzido em Pernam ­
buco pelo naturalista Dr. Arruda Camara, que em suas ex­
cursões scientifiCas o trouxe do Maranhão nos prim eiros an-
nos do seculo passado, iniciando a sua cultura em Goyanna, e
dahi a propagação e prodigioso desenvolvim ento da apreciada
planta entre nós. Estudando a origem do vacabulo, encontra­
mos na Chronica da missão dos padres da Companhia de Jesus
no Estado do Maranhão escripta pelo Padre J. I7. Betendorf
em 1699 e só agora vulgarisada, que havia no Xingu’, tratando
das missões do Pará, uma tribu de indios abacaxizes: Estava
destinado o Padre João Carlos para os abacaxizes... Vieram
por aquelle tempo (696) catras do Padre João da Silva missio­
nário dos A b a c a x izes ... Aldeia dos A b a c a x izes ... N o distric-
to da v illa de Borba, no Amazonas, outr’ ora territorio pauaense
há um rib eiro chamado Abacaxis e assim denominado
do nome de uma tribu de indios que residiam em suas
margens, como escreve M illiel de Saint’Adolphe, que é natural-

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mente, o rio Abacaxis, affluente do Amazonas, de que existe
um R elatorio sobre a sua exploração impresso em Manáos em
1853. A planta como se sabe, vem daquellas latitudes, exten-
Uendo-se mesmo até as Guyannas, resultando assim desses p o r­
menores a in terrogação: F o i o fructo que deu o nome aos ín ­
dios ou os indios que deram o nome ao fructo? Quanto a nós
não temos duvida em nos pronunciar, que fo i a planta que
deu o nome aos indios assim cbamados, porquanto, segundo
Macedo Moares concordantemente com T heodoro Sampaio, a
dicção abacaxi, referente ao fructo da brom elia do mesmo no­
me é unta corruptela do tupi ibacaxi, de iba fructa, caxi-cati,
reseendente, cheirosa, ficando destarte firm ada a anteceden-
eia, uma vez que taes expressões nada têm de commum com
aquelles indios.
Abafado — Contrariado, enraivecido, irritado, zangado,
prevenido, embuchado, roendo-se, mas contendo-se em: e x ­
plosões, em desabafos. “ Certas moças que estiveram no Club
Carlos Gomes estão muito abafadas com o repórter, porque,
descobriu os seus namoros.” (Lanterna Magica n. 128 de 1885).
A bafador — Peça de pano, interiorm ente revestida de al­
godão em rama, ou baeta, para cob rir o bulle afim de conser­
var a quentura do chá ou café.
Abafanetico — Cançado, suando, exhausto. — “ Chega em
cisa abafanetico Cornelio da Paciência; Mas nota da esposa a
ausência, Torna de casa a sahir” (A Pimenta n. 29 de 1902),
- Abaixo-assignado — Petição, requerim ento ou outro qual­
quer documento firm ado por alguns ou muitos indivíduos, e
que invariavelm ente começando pela form ula:Os abaixo assig-
nados, origina-se dahi a sua vulgar, denominação, que p o r as­
sim dizer, vem já de longe. “ Eslas noticias sahiram de certa
casa na Europa de um Nós abaixo asisignados nesta capital
(R io de J a n e iro )” . (P arecer das commissões reunidas de Cons­
tituição e Diplom acia da Camara dos Deputados de 18' de
Junho de 1833, transcripto n’ 0 Velho Pernambucano n. 3 do
mesmo atino). “ A importância numérica do partido liberal
pudemos ha pouco apreciar em um Abaixo assignado, que to­
dos leram .” (O Paiz, Recife, n. 43 de 1856).
A.bbadessa — Mulher robusta, de elevada estatura; mulhe-
rona; matrona respeitável. Regente ou p ro p rie la r ii de con-
ventilho. “ As pobres reparigas são m iseravelm ente exploradas
pelas donas de casa ou eonventilho, abbadelssas chamadas ”
(A Pimenta n.° 550 de 1907).
Abecar — Atirar-se contra alguem com disposições hostis:
segurar', prender pelos peitos. “ O Balduino abecou o Arthur
porque disse que mandava matar um redactor desta* fo lh a .”
(A Pimenta n.® 10 de 1908). “ O soldado abecou o inofensivo
homem, desandando a esbordoal-o com um umbigo de boi.*’
(O Estado de Pernambuco n.® 346 de 1914).
Abestalhado — Alvar, tolo, idiota.
Abiscoitar — Arranjar, conseguir, tirar, surripiar, furtar
mesmo. “ Quem é que anda dizendo por ahi que o Capobre
delegado, abiscoitara para si e seus amigos dous terços dos
bicudos p or elle apprehendidos?” (O Clamor Publico n.° 87
de 1846). “ O homem já abiscoitou uma curul estadoal, e agora
quer vêr se o Rosa lhe dá uma fe d e r a l. ” (Lanterna Magica n .
734 de 1903). V v. Excs., devendo ganhar doze contos por anno,
abiscoitam vinte e sete, prorogar.do as sessões.” (Jornal do
R ecife n,: 161 de 1916).
Abodegado Arreliado, irritado, zangado, de máu humor.
“ A companhia agrada; mas nos fem abodegado com repetições
seguidas.” (O A lfin ete n. 9 de 1890). “ E o fona encabulado foi
sahindo abodegado.” (O G rillo n. 2 de 1901). “ Estou hoje mes­
mo abodegado da vida p or m otivo justificável.” (A Pimenta
n.° 577 de 1907). Derivados: Abodegar; Abodegação; abodêgo.
“ A menina attentada, é um abodêgo.” (Lanterna Magica n.°
565 de 1898).
A b o ia f — Cantar dos vaqueiros ou tangerinos na süa m ar­
cha de conducção do gado em boiadas, ou á noitinha, dos
campos de pastagem para os curraes da fazenda. “ Guiam-se as>
boiadas indo uns tangedores diante cantando, para serem des-
la sorte seguidos do gado.” (A n to n il). “ O tangedor faz utn ap-
pello e toda força de seus bronzeos pulmões para aboiar bonito.”
(O sw ald o A raú jo). “ O aboiar dos nossos vaqueiros, aria to­
cante e maviosa com que elles ao por do sol tangem o gado
para o curral, são os nossos ranz sertan ejos.. . Quem tirasse por
solfa esses im provisos musicaes, soltos á brisa veepertina,
houvera composto o mais sublime dos hymnos á saudade.”
(José de A len ca r). Aboiar é um termo sertanejo, pastoril, re­
gional de alguns Estados do norte.
Abcticado — Esle vocábulo é somente empregado para de­
signar uns olhos grandes, disformes, estufados, fóra das or­
bitas; olhos aboticados; zoião. “ Sordado novo de bonete ar-
revirado, Tem o oio aboticado Que só cachorro do m á” .
(Jornal do R ecife n.° 51 de 1914).
Abotoar — O mesmo que abecar. “ O Baldoino abotoou o
Guilherme e fez elle botar as tripas pela bocca.” (A Pim enta n.
10 de 1008).
Abozin ar — F alar im pertinentemente aos gritos; atueanar.
Não me abozine os ouvidos.
Abrazô — Comida africana, constante de pequenos bolos
feitos com farinha de m ilho ou de mandioca, azeite de dendê
pimenta e outros temperos, e fritos no mesmo azeite. “ Hon-
tem jarifei abrazo.” (A Carranca n. 61 de 1846). Algumas
vezes dão-lhe tambem o nome de ambrazô. “ Vem Quinquim,
temos para ti bobó, ambrazó, quingombó, giló e excellente
azeite de dendê.” (A m erica Illustrada n.° 25 de 1883.) Beaure-
paire Rohan seguindo a S ylvio Rom ero consigna a dicção, effec-
tivamente cpmo origin aria de Pernambuco, e com a sua exac­
ta expressão, mas com aquella pouco vulgar variante de am­
brazô crendo assim derivada de ambrosia, pelo sabor prim oro­
so da comida, concluindo, comtudor “ Não sei porem, se os in ­
gredientes que entram na sua composição justificam a sua
comparação com a ambrosia dos deuses” . Quanto a nós, sem
com menlarios, mantemos o nome de abrazô, com que a com i­
da é vulgarm ente conhecida, e assim api'egoada pelas pretas
africanas, em outros tempos, vendendo-a pelas ruas. Com o
desapp are cim ento do elem ento african o entre .nós, dejsap-
pareteu tambem da nossa culinaria o abrazô, como tantas
outras cousas próprias dos usos o costumes daquella gente.
A brilada — Os motins políticos de 12, 13 e 14 de A b ril de
1832, convenientem ente consignados nas nossas chronicas. Ja
anteriorm ente a tussas tumultuosas occurrencias, tiveram o no­
me de abrilada, as prisões nocturnas em a noite de 6 de A b ril de
1818, que fizeram debulhar em lagrim as mais de sessenta fa m í­
lias pernambucanas, vendo-se desamparadas de seus chefes, e
estes ameaçados de atrozes supplicios, como refere o Padre
Dias Martins. “ Tem os visto crises ameaçadoras em Pernam bu­
co, como a Abrilada, Setembrizada e Cabanada.” (O Cometa
n.° 4 de 1843).
Abrir-se — Desabafar, d izer os jseus sentimentos ou p re­
tensões, revelar um segredo, re fe rir uma occurrencia qualquer,
Abugalhar — Corruptela de esbugalhar, e com a sua p ró­
pria expressão figurada de arregalar os olhos. Vem de bu­
galho, vocábulo vernáculo, mas que, popularmente, exprim e o
globo do olho o bugalho do olho- Abugalhar os olhos; olhos
abugalhadob.
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Abuso — Cousa incommoda, im pertinente, ou que produz
desagrado, enfado; aversão, e dalii abusado, para exp rim ir taes
sentimentos “ Casa de palha é palhoça, Se eu fosse fogo, quei­
m ava; Moça feia é meu abuso, Se eu fosse a m orte m atava.”
(T ro va s populares).
Abyssinio “ Pedras no sol que toca ao seu d eclin io; thuri-
bulo em punho para o sol que nasce.” (Lan tern a Magica n.
274 de 1889). “ Apenas chega a demissão de S. Ex.., os Abys-
sinios ,do partido da Praia, esses mesmòs que se arrastavam
em sua presença, o apedrejam e o insultam.” (O Guararapes n.'
21 de 1844).
Acabado — Avelhantado, desfigurado, desfeito p or tra­
balhos, moléstias ou desgostos; mal arranjado, pobremehte
trajado: Andar muito acabado; acabadinho.
Acabanado — Descido, pendente, cahido; orelhas acaba-
nadas; chapéo acabanado, isto é teahido nos olihos, com as
abas descidas, encobrindo parte do rosto disfarce ou não.
“ Um dos assassinos do Dr. Trajano Chacon trajava roupa de
brim listado, chapéo preto acabanado.” (D o respçctivo proces­
so) . “ O cordão do club trajava calça branca, colete preto, ca­
misa branca e chapéo de palha acabanado” (Jornal Pequeno n.°
40 de 1914).
Acaboclado ou acabocolado — Parecido com cabloco p e­
los accidentes da côr, cabellos e typo feicion a l. “ M anoel F ra n ­
cisco era acabocolado, feio, baixo, grosso e r e fo rç a d o .” (F ran -
klin T a v o r a ). “ Indrviduo acaboclado, altura regular, apparen-
taudo ter 35 a n n os.” (Jornal do R ecife n. 306 de 1915).
Acabralhado — T irado, puxado, ao modo de cabra.
Acachapado — Corruptela de acaçado; que não tem a na­
tural e p roporcional altura: um ed ificio acachapado; homem
baixo e grosso, vindo assim o vocábulo, talvez, de caçapo,
como se diz em Portu gal. “ Uma rotundidade de porca no seu
estado interessante; o corpo de anão, baixo e acachapado.”
(O Paiz, R ecife, n. 43 de 1856). “ N ariz enorm e E acachapado.
Tom a-lhe a cara De lado a la d o .” (D a chula O retrato de uma
senhora).
Acachapar — Abater, achatar, supplantar; levar de ven ci­
do: Nessa questão das biblias falsificadas o general Abreu e
Lim a acãchapou o seu contedor.
-Acamaradar-se — P rocu rar camaradagem com alguem, tra­
var .relações de amizade, ter convivência intima.
Acambetado — De pernas eambetas, tortas. “ N ojento typo
besuntão, de cara acachapada e as pernas acambetadas” . (O
Maná n. 19 de 1883).
Acanalhado — De termos, procedim ento e modos de cana­
lha.
Acangulado — Diz-se dos dentes estufados, pronunciada­
mente salientes, como os do cangulo, conhecido peixe. “ Uns
são aleijados, outros cegos, estes caraolhos, aquelles com den­
tes acangulados.” (O Guarda N acional n.° 38 de 1843).
Acará ou A cary — P eix e escamoso, de agua salgada e doce,
endo os desta muito communs nos rios e lagôas e vulgamen
te conhecidos p or Cará. Variedades: Acará-apuá, bola, redon­
do; Acará-assú, grande; Acará-peba, pequeno, meudo, in ­
fe rio r; Acará pitanga, rubro, verm elho; Acará-pixuna ou
Adará-pixuma ou Acarau’na, de agua salgada, preto (Choe-
ledon nigricans, L in e o ); Acaratinga, branco; Acaraya, .do
mar ((MJesoprion A ya C u v.); e Acary, de agua doce, de courc*
e muito abundante, particularmente, no rio S. Francisco, e
bem assim a especie conhecida por A cary roncador (R hinelepis
aspera, S pix).
Acarobado — Mal arranjado, em desalinho, esbagaçado,
esbodegado “ A oitava degenerando. Com vates acarobado. F o i
pouco a pouco acabando P o r versos de pés quebrados.” (B a r­
bosa V ian n a).
Acaseadeira — Mulher que particularm ente se incumbe do
serviço de fazer as casas do vestuário que prendem os botões.
D erivado: Acasear.
Ac-atingado — Terras de catinga. “ Todo o solo deste
município, acatingado a uma parte, é enriquecido de mattas
de frondosas arvores.” (Bom Conselho, inform ações da
Camara Municipal, 1884).
Acauã — A ve sertaneja (F la co cachinans) que os indios
tinham como agoureira; e ainda hoje, como escreveu Fernan­
do D iniz, o seu canto m elancólico, entre os mesmo indios,
annuncia-lhes a chegada de algum hospede. “ Outra ave cha­
mada Aquaham, que lhe não fazem vantagem as mesmas
gallinhas, posto que sejam muito gordas.” (D iálogos das
grandezas do B rasil). Tratando Gonçalves Dias desta ave
escreve: “ Acauán, e também Macauoãn, ave conheci da: mata
cobras, susienta com ellas os filhos, e pendura íhes como tro-
pheo as pelles na a rv or e em que habita. Os indígenas, quan­
do esperam algum hospede, affectam conhecer pelo canto des-

18
tas aves, o tempo em que aquelle deve chegar. Os ovos seccos
e feitos em pó são contraveneno do das cobras. Tem esta ave
a cabeça grande, côr cinzenta barriga peito e pescoço verm e­
lhos, costas pardas, azas e cauda pretas, malhadas de branco.
Acavalladam ente — Ao modo de cavallo. Comer acavalla-
damente.
Accezo — V ivo, esperto, inquieto, travesso. Uma creança
ou rapariga acceza.
Achamurríado — N ariz chato, rombo, como o dos a fric a ­
nos. “ Era um cabra coriboea, de nariz achamurrado.” (O Ra­
bicho da G eralda).
Achamuscadamente — A ’s pressas, negligentemente, sem
cuidado, mal preparado. “ A carta de bacharel anda pela hora
da morte, e a causa de semelhante calamidade é a admissão
ao curso ju rídico de rapazes ou adultos tardiamente e acha-
muscadamente preparados.” <(0 Diabo a quatro n. 34 de 1876).
Achatar — O mesmo que acachapar.
Acochado — Cheio, repleto: O trem ia tão acochado de
gente, que não havia um só lugar vazio.
Acochar — Conchegar, apertar, arrochar, unir, prender;
pedir, rogar instantemente, impertinentemente, p or si p roprio
ou p o r empenhos de terceiros a solução de um negocio ou pre-
tenção qualquer de modo favoravel: O m inistro viu-se tão aco.
chado, que áfinal deu ao João uma bôa collocação.
Acocho — D ifficuldade, embaraço, situação precaria, peri
gosa mesmo. “ Arran car das garras da fom e e do acocho da m i­
séria a um in feliz, recommendam a razão e a humanidade.” (O
P ovo iT 73 de 1856).
Açodam ento — Pressa, previpitação, irre fle x ã o : A g ir num
negocio com açodamento.
Acuado — Corrido, envergonhado, succumbído; encolhido,
retrahido, embaraçado; situação d iffic ií do uma sabida airosa.
Acuar — Acompanhar, perseguir, cercar. Diz-se particular­
mente do cão que persegue a caça, ladrando, e fica como que
de guarda ao enlocar ou subir a uma arvore, até que chegue
o caçador. Parar, não proseguir, em perrar em não andar, como
diz-se do câvallo manhoso, ospaníadiço.
Ac idar — Construir aç 'der. “ Açudar todos, os rios e tor ­
rentes para obter que com ervcni agua cm dous mi tre i»•>..-v« í
de seccas.” (D r. A. Rebouças, As seccas nas províncias do
N o rte l.
Açude — Reservatório, repreza d’agua, natural ou artifi-
almente, feita para abastecimento publico ou serviço de uma
propriedade ag ríco la .o u pastoril.
Acudir — Agradar, servir, con vir, goslar, satisfazer, pare­
cer bem. “ De Adelaide, a côr do jam bo maduro do roslo bei lo,
acode mesmo a meu gosto.” ( A Pim enta n. 54 de 1902).
Adereço — T ern o de brincos, alfin ete de peito c pulseira.
“ Obras do bom tom na rua do Crespo loja do Serafim. Ricos
adereços de ouro com bastante peso e cravojam ento de dia-
m en tes.” (Gazeta Universat n. 83 de 1836).
Adeus de mão fechada — Gesto offensivo, insultuoso, fe i­
to com a mão fechada. “ Em recompensa de tão grande lida,
eu te envio um adeus de mão fechada.” (A Pim enta n. 69 de
1902).
Adeus, v io la ! — Acabou-se, foi um dia, lá se fo i tudo
quanto Martlia fiou. Agora, Adeus, v io la ! Vá chorar na cama
que é lugar quente. Phrases de iguáes expressões; Adeus Ana-
lia! Adeus, minhas encommendas! Adeus A*inita; a trouxa
ahi fica.
Adeusinho — Expressão acompanhando o gesto do adeus,
como uma expansão intima, carinhosa, affectiva. “ Adeusinho,
camaradas. Bôa viagem. O sol já vem de outra banda.” (O
Tam oyo n. 9 de 1890.)
Adivinh ar chuva — Gracejo intim o ou iron ico dirigid o a
uma pessoa que canta: Está adivinhando chuva.
Adjunto — Reunião, conselho, congresso; ajuntamento,
aglom eração de gente para vêr qualquer cousa de extraor­
dinária que occorre. “ N o dia do adjunto juntaram m il e tan­
tos; E ao falar-se no Espacio Ficaram dc beiços brancos.”
(Rom ance d’0 boi E spacio). “ Passando um destes dias pela
rua da Palm a vim os um grande adjunto de moleques a grita­
rem em algazarra: a barcaça virou ; virou ; v ir o u !” (O Vapor
do R io Form oso n. 10 de 1858). O vocábulo é tambem vulgar
em outros lugares com as mesmas expressões que tem entre
nós: “ Cantador como você, Eu queria apanhar muitos, P ’ra
botar no cem iterio, P T a fazer quarto ao defuntos, P ara man-
botar ao inferno, P ’ro cão fazer adjunto.” (C ancion eiro do N o r ­
te). “ Em 30 de Julho de 1808, a Camara fez um adjunto da
nobreza e do clero para pedirem ao príncipe regente que ele­
vasse a Fortaleza á cathegoria de cidade.” (João Brigido,
Ceará).
Adoidarrado — Estouvado, exaltado, pancadório, estrói­
na, tarado mesmo do doido, donde vem a dicção.
Adomar-se — Acostumar, habituar-se, adaptar-se: O
Manoel já está tão adornado no seu serviço, que ninguém o
excede em trabalho. O João adomou-se facilm ente ao novo
meio em que se viu.
Afanádo — Diz-se do individuo que fo i roubado ou fu r­
tado, na giria dós gatunos, como dizém os da Hespanha, e
igualmente os do R io de Janeiro, parecendo assim que a d ic­
ção vem daquelle paiz.
Afan ar — T ira r, subtrahir, furtar, roubar. O riginariam en­
te vem o vocábulo da giria dos gatunos quer daqui quer do
Rio de Janeiro: mas vulgarisado, vai tendo até mesmo entrada
na imprensa. “ Foi preso um gatuno quando afanava de uma
loja na rua Nova, uma camisa.” (Pernam buco n. 185 de 1912).
Afavécos — Muafos, peças de roupa de vestir; preparados
de viagem : Metter-se nos seus afavécos; Arrum ar os afavécos.
A fe rro a r — Apoquentar, pedir com instancia, im pertinen­
te.
Aferventado — In soffrido, alvoroçado, im paciente; comida
de carne ou peixe ligeiram ente cozida com certos legumes e
batatas. “ Um regalo, um aferventado de vacca com quiabos.”
(O Diabo a quatro n. 142 de 1878).
A fiad o — Preparado, prevenido, instruido, armado de ra ­
zões e argumentos, e disposto assim para com vantagem en­
trar em uma discussão, p rovocar uma polem ica, tomar satis­
fações, desabafar-se, insultar, dar uma resposta de mestre:
Esiar afiad o; de lingua afiada.
Afiãm brado — Bem trajado, m ettido em bôa encardenação,
em fatiota nova.
Afigurado ou figurado — Ancho, envaidecido, cheio de si;
heju trajado, elegante. “ Os dous Alfredinhos foram ao pastoril
afigurado® com duas estrellas.” (A Pim enta n. 78 de 1902).
“ Quem é branco e figurado, Tendo cobre e form osura Tem
sorte e dita e ventura, Neste mundo é adorado.” (C ancion eiro
do N o rte ).
Afilhadagem — Protecção, preferencia, fovoritism o escan­
daloso a parentes, afilhados, gente do peito. “ Que para sem­
pre seja proscripto d ’entre nós o p rin cipio de afilh ad agem . ”
(O Capibaribe n. 104 de 1849). “ Manda-se preparar os reme-
dios p or afilhadagem, porque quem parece ser socio nos lu­
cros.” (O P ovo n. 70 de 1856). “ C ollocou nas differentes esta­
ções somente indivíduos de sua afilhadagem .” (O Barco dos

21
Patoleiros n. 14 de 1864) “ O que prevalece presentemente é-a
afilhadagem e a m entira.” (A m erica Illustrada n. 24 de 1877)
“ tíxclusão dos empregados competentes, dos assíduos, dos v e ­
teranos do serviço, quasi sempre preteridos pela afilhadagem
feliz dos poderosos.” D iario de Pernambuco n. 84 de 1913).
A filh ado — Protegido. “ Os jurados absolvem a todos os.
afilhados e capangas dos potentados.” (O Barco dos Patoleiros
n. 34 de 1864). “ O presidente levanta a cesta, para os afilhados
dos nossos lycurgos, mas os afilhados de S. Exc. vão muito
suavemente mettendo a mão na dita.” (O Diabo a quatro n.
118 de 1877). “ Quando os afilhados do poder comem um pedaço
de pão que lhes dá o amo, julgam-se grandes, ficam soberbos” .
(O Desespero n. 18 de 1880). F ilh o de padre ou frade. “ E o
padresinho tem um seu afilhadinho.” (A Derrota n. 15
de 1883). “ Apenas, porem, collado, mandou o vigário
v ir uma comadre de quem já tinha dous afilhados, e sem a
menor cerim onia collocou-os perto de si.” (O Patusco n. 13
de 1886). F re i Caneca, escrevendo do cárcere, ás suas tres
filhas, poucos dias antes da sua execução capital em 1825,
mesmo assim, reservadamente, intimamente, trata-as por
afilhadas, charas, do coração, das suas entranhas, e assigna-sc
por Pradinho, que muito as estima, venera e ama. (Caneca,
Obras Com pletas).
A fio com prido — Deitado de costas, estirado, de papo
p’ ra cima.
Afobádo — Cançado, exhausto, fatigado; p recipitado;
apressado, azafamado: “ Em bora cançado o C orn elio metteu-se
pelas ruas e travessas, e todo afobádo e ás p; essas, dá encon­
trões em quem passa.” (A Pim enta n. 29 ele 1902). “ Homens,
mulheres, crianças, suarentos, afobados, com ares de espanto.”
(Id em n. 549 de 1907). “ Afobado, de cima a baixo, vim os o
homem passar indagando de uns e outros sobre a presença do
subdelegado local.” (Jornal do R ecife n. 224*de 1915). O voca-
bjilo tem tambem curso no Ceará, com as expressões conso­
antes de sem forças, aniquilado, etc.
Agachadeira — Nom e vulgar da narceja, ave pernalta,
ribeirin h a (Scolopax paludosa, S p ix ), assim chamada, como é
corrente, por se agachar ao presentir o caçador para não ser
vista.
Agachados — Curvaturas, subserviencias, excessivos agra­
dos, descambando em servilism o, adulação, 'chaleirismo. D e ri­
vado: Agachamento.

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Agadanhar — Sorprehender, pegar, prender. “ O Gambeta
fo i agadanhado com uma porção de notas falsas, que andava
passando.” (O Pestilhão n. 22 de 1846). “ O chin frim tomou
proporções collossaes, e p or ultimo a p olicia penetrou no salão
agadanhando uns e outros.” (A Lanceta n. 10 de 1890). A b is­
coitar, tirar, bifar, furtar, “ Isto só pelo diabo!.. Agadanhar
cin to cartas,! (O Cruzeiro n. 162 de 1829). “ Nem ao menos lhe
deixaram agadanhar uma ga llin h a !” (O A rtilh eiro n. 18 de 1844).
“ Muita cousa mesmo tenho ouvido dizer do seu antigo costu­
me d’agadanhár, ou pescar, na linguagem aquatica.” (O João
Pobre n. 1 de 1844). “ Não deixou de ir agadanhando da festan­
ça geral o seu quinhão.” (L aq tern a Magica n. 180 de 1877).
Conseguir, obter, arranjar. “ Agadanhou esse osso m olle da
serventia vitalia de um o fic io de justiça.” (O Mocó n. 2 de
1851). Moraes registra a dicção como term o fam iliar, com as
expressões de agarrar, em polgar; arrebatar, roubar com mão
violenta; mas nos diccionarios modernos figura com accepções
outras, que não aquellas.
Agallinhar-se — Submetter-se, transgir, humilhar-se,
abaixar a cerviz. “ O velho gallo de Monte Cario se agalinhou
uo seu in im igo Pinh eiro, e gallo que se agallinha, é gallo p er­
dido.” (A Republica n. 314 de 1913). “ Agalinhado é o mesmo
que avacalhado, com a differen ça que agalinhado é menos p ar­
lam entar.” (Jorn al do R ecife n. 91 de 1914).
Agaloado — Cheio de galões; um o ffic ia l m ilitar: V ai te
m etter com agaloados e vê depois o que te acontece.
Agasalhar-se — R ecolher-se a d orm ir; metter-se na cama.
“ Já dormia agasalhado todo o povo da cidade” . (A . A. M ilton )
“ E logo depois da ceia nos fom os ag a sa lh a r... Chegadas as
horas de nos agasalharmos, deitou-se o com panheiro a d or­
m i r . . . São horas de nos recolherm os: podeis ir agasalhar -
vos” (N u no Marques P e re ira ).
Agatiado — Ao* modo ou feição de gato. “ Olhos vesgos e
agatiados” . (D a chula Retrato ide uma Sinhásinha).
A gazer — C otar azar; encaiporar.
A geitar — Arranjar, guardar, tirar, subtrahir, furtar. “ O
gatuno Bacuráo, Sem uzar processos novos, Fez um jogo nada
máo Ageitando varios o vo s” . (Jorn al do R ecife n. 103 de 1913).
Aggregado — Indivíduo ao sei viço das fazendas sertane­
jas; trabalhador do campo; empregado de serviço dom estico.
“ As casas dos pobres, dos m iseráveis aggregados são de palha

23
de carnaúba” . (Gustavo B arroso). “ O capitãò-m ór sabia das
relações do C abeljeira com o taberneiro, p or irfform ações
de aggregados e ordenanças” . (F ra n k ü n T a v o ra ).
A g ir — In tervir, praticar, obrar; ingerir-se, mover-se, p ro ­
viden ciar; ter acção sobre alguma cousa. “ A liberdade, o d i­
reito de agir, de praticar qualquer acto, assenta justamente
nisto: o homem póde praticar todos os actos que a le i lhe não
ved a” . (D r. J. I. de Alm eida Am azonas). “ E ’ possivel que des­
ta vez venha a p olicia a agir.” (D iá rio de Pernambuco n. 228
de 1915).
Agoniado — Exaltado, irritável, in soffrid o, violen to, mal-
creado. “ O homem é um bicho turuna, agoniado, escorrega
como enguia” . Pernambuco n. 324 de 1913).
Agoiúnha — A gora mesmo, neste momento, neste instante,
não ha muito tem po. “ Então, seu Ped ro de Lim a não andou
p or estas beiradas ainda a gorin h a ?” (F ra n k lin T a v o ra ). D iz o
conselheiro Lisboa tratando dos dim inuitivos usados na lin ­
guagem castelhana em Venezuela, que de ahora fazem ahirita,
semelhante ao nosso agorinha paulista; mas S ylvio Rom ero,
que registra este conceito, bate-o com vantagem, concluindo
mui seguramente: “ O emprego do agorinha, que o sr. conse­
lh eiro Lisbôa suppunha paulista, é expressão correntissim a em
todo o norte do Brasil, e nós cansamo-nos de ouvil-a na Ba­
hia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Quan,do chegou? Inda
agorinha, lá é muito com m um .”
Agrados curujos — Cavillosos, fingidos, prejudiciaes, com
segunda intenção.
Agreste — Uma das zonas que distinctamente caracterisa
o territo rio do Estado, pela grande hum idade reinante p rin ­
cipalm ente nas eminencias ou chapadas das serras, solo pe­
dregoso, vegetação escassa e de pequeno p orte. “ O agreste
abrange a parte superior do valle do rio U na” . (J. M. da S il­
va Coutinho). “ N o breve transito pelo agreste, a agua e a ca­
ça com eçaram a minguar, e logo veio a idéa de desbravar o
caminho na vegetação enredada, rtesequida e resistente da
catinga v a s ta .” (A líre d o de C a rva lh o).
Agua que passarinho não bebe — Aguardente.
Aguaceiro — O director do presidio de Fernando de N o ­
ronha, na giria dos sentenciados; bebedeira, borracheira.
“ Após a feijoada houve um grande aguaceiro” . (A m erica Illus-
trada n. 5 de 1878). “ Tom ou um aguaceiro enorm e e andou

24
pelas ruas num frém ito medonho de enthusiasmo” . (A Lance­
ta n. 5 de 1889).
Agua de Colonia — Querido, estimado, p referido, dispu­
tado; alguem em evidencia, em ordem do dia, na ponta, nas
palminhas das mãos. Esta locução vem de um antigo e muito
conhecido extracto assim chamado, de origem franceza, que
ao seu apparecim ento entre nós, em caminho de um seculo,
teve grande vóga popular, e que em desuso já desde algum
tempo pela p referen cia das modernas perfumarias, tem apenas
applicações medicinaes pelas suas propriedades tónicas e es­
timulantes. A Agua de Colonia, segundo um parecer da Cama-
ra Syndical da Perfum aria Frartceza, é um producto conheci­
do ha mais de duzentos annos.
Agua do póte — Um medicamento bom de tomar.
Agua morna — Pessoa sem vida, animação, espirito; indif-
ferente, despreoccupada, ingénua mesmo: A Sinhazinha não
é feia ; m as,é uma aigua morna.
Agua panada — Agua quente, em fervura, que se deita a
esfriar para uso de doentes de certas moléstias, porque assim
não faz mal, e mesnjo para matar os m icrobios: Aulete con­
signa a phrase, mas com expressão d ifferen te; Agua panada,
agua em que se deita pão torrado.
Aguado — Com pouco assucar, insipido: Chá ou café
aguado. Sem vida,, expressão, animação, expecie de agua m or­
na . Aquella moça não é fe ia ; mas é tão aguadinha. . .
Aguentar-se no balanço — Preparar-se para encarar os
encargos de um com mettimento superior ás próprias forças;
para s o ffrer as consequências de um acto impensado, máo, e
de graves resultados: V ocê fo i se m etter em camisas de onze
varas, agora, aguente-se no balanço.
Agulha — P eix e de agua salgada (B ellon e timuçu’, Cuv.),
de duas especies, a branca e a preta, e muito abundante, p rin ­
cipalmente nos mares do archipelago de Fernando de N o ro ­
nha. A sua classificação scientifica vem do p rop rio nome de
timucu’ , que tinha entre os indios. “ Agulha, de que o mar todo
se inunda” . (Santa Rita D urão).
Agulhão — P eix e de agua salgada (Fistu IIaria tabacaria,
L in n .), a que os indios chamavam Petimbuaba-petumbo. Tres
especies conhecidas: Agulhão roliço, trom beta e de v ela .
Agulhas —. As carnes das costellas do boi. Carne das agu­
lhas, isto é, das costellas, e dahi o nome de costelleta dado ás
do carneiro e do porco por serem menores.
Aguardenteiro — Indivíduo que é dado ao uso immodera-
do da aguardente. ” Verá muito aguardenteiro perfum ando a
gente com a sua b aforada” . (Lanterna Magica, n. 443, de
1894). D erivado: aguardentado.
A i Jesus — O ente qperido, estimado, a menina dos olhos:
O menino João é o ai Jesus da casa.
Ajou jo — Meio de transporte fluvial composto de duas ou
tres canôas convenientemente unidas, tendo p or cima um las­
tro de tabuas ou páos roliços seguros com alças ou tiras de
co'uro cru’ . Movidos a varas ou remos, servem os ajoujos pa­
ra transporte de passageiros, carga e gado., de uma a outra
margem dos rios, principalm ente o S. Francisco, e fazem
mesmo viagens longas, subindo ou descendo as suas co rren ­
tes. “ Quem houve, que escapasse aos im propérios desse fatal
ajoujo calum nista?” (A Colum neida).
Alambazado — Desregrado, grosseirão, desmanchado, sem
cuidado e esmero em tudo que faz, como nas refeições, servin­
do-se porca e apressadamente, com uma gana de alarve, m a­
nifestando concurrentemente, gestos e modos grosseiros. “ Ca-
mara Coutinho era feio, alambazado, exo tico ” . (A ra rip e Ju­
n io r). “ Um tacanho alambazado, p or todos desprezado” . (A
Marmota Pernambucana n. 14 de 1850). Vocábulo antigo, já
vem registrado p or Bluteau, com as expressões de semelhante
a lambaz, corpulento, e mal feito de corpo; e assim seguido
por Moraes, que accrescenta, roto, trapento, grosseiro* assel-
vajado, dando a dicção como termo plebeo. Aulete porem,
aproveitando em particular, de alguns daquelles qualificativos
ou accepções dadas p or Moraes, accrescenta as de guloso, glu­
tão, como de expressões fam iliares. O vocábulo vem, natural­
mente, de lambaz, da giria portugueza: glutão, com edor que
nunca se sente satisfeito com o muito que come nas suas re ­
feições .
Albacóra — P eixe do mar a que os indios chamavam Ca-
roatá, e muito abundante, principalm ente nos mares do archi-
pelago de Fernando de N oron h a. Passa como carregado, ou
n ocivo. Nom e portuguez de um p eixe muito vulgar no Algarve,
vem dahi, naturalmente, pela sua semelhança com o caraotá,
ser tambem assim chamado.
Albardeino — O que faz o trabalho do seu o ffic io alinhava­
da e porcamente, revelando descuido, negligencia, im perícia;
desmancho, preguiça; um o ffic ia l m ediocre na sua profissão.
D erivados: albardeirice, abardeiramente.

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Alcaid e — Mulher feia, repellente; trastes velhos, desusa­
dos, em máo estado de conservação; cousa avariada, m erca­
doria velha, estragada, sem sahida, artigos fóra da moda.
“ Uma venda com o sortim ento liv re do que se chama alcaide” .
(O Cruzeiro n. 24 de 1829). “ Vendo barato, fica somente o al­
caide, e p o r fim, ou incêndio a casa, ou dou parte de quebra­
d o ” . Lanterna Magica, n. 9 de 1882).
Alçapão — Gaiola com arm adilha para apanhar passaros.
“ Duas gaiolas iguaes, ao lado de um alçapão” . (O V ap or dos
Traficantes n. 183 de 1859). “ Em falta de cousa m elhor, o
chefe de p olicia arma os ^seus alçapões e arapucas a v ê r se
apanha novos passaros” . (Lan tern a M agica n. 238 de 1888).
“ D.eixe-se de historias, seu Campos Salles (fa la o alm irante
Custodio de M ello),, eu não cahi rio alçapão do Floriano, quan­
to mais no seu que não tem x erem ” . Lanterna Magica, n. 660
de 1901).
Alcatra — Na phrase: Andar nas alcatras, que segundo a
expressão vulgar do vocábulo, tratando-se da anatomia b o vi­
na é o mesmo que andar nas ancas, no costado, no espinhaço,
no fio do lom bo; e p or extensão, e segundo o espirito da p ró ­
pria locução, seguir as pisadas de alguem, os passos, andar
atraz, acompanhar p o r toda parte, não p erd er de vista; e bem
assim atormentar, espreitar, perseguir, não poupar, fe r ir mes­
m o; O assassino fugiu; mas pozeram-se-lhe nas- alcatras, e pe­
garam -no. “ Camara Coutinho era feio, alambazado, exotico;
o ridículo parece que andava-lhe nas alcatras” . (A ra rip e Ju­
n io r).

Alcatraz —' A ve palm ípede do genero Podiceps (Pelicanus


sula, L in n eo), preta, de peito -verm elho, e muito abundante
no archipelago de Fernando de N oronha.
A lco viteiro — Pequeno çandieiro de folh a de flandres, com
pavio ou torcida de algodão e alim entado a kerozene, de pen­
durar ou não, e geralm ente usado nas cozinhas. “ O sargento
do P a io l trouxe um desses candieiros, que o povo charria alco­
viteiro e o conservou ao lado do o ffic ia l” . (D r. Vicente F errer.
A execução de Silvino ide M acedo).
A ldeia —. Vocábulo portuguez de povoação rústica, fo i to­
mado lo go em com eço da colonização do paiz para designar a
fàba, o povoado, o arrayal de habitação dos aborígenes, e man­
tido depois, quando se cuidou da sua catechese e civilização,
reunidos em grupos distinctos, sob a direcção de um missiona-
rio, e obedecendo a um regim en convenientem ente estatuído.
“ Velhos caboclost da aldeia, de sobra conhecemos os seus ca­
boclos outros” . (A P ro vín cia n. 71 de 1915). Quando em 1551 o
padre M anoel da Nobrega, p rovin cial dos jesuítas visitou a colo-
nia, vê-se já, da sua noticia, “ que os indios desceram logo de
suas aldeias a dar-lhe a bôa vinda, carregados de caças, legu­
mes, beiju ’ s e farin h as;” e segundo as nossas chronicas, quan­
do em 1560 poz-se em campo uma guerra tremenda para abater
os indios em sublevação geral, e “ tomando Jorge de Albuquer­
que com facilidade uma aldeia após outra, conseguiu p ô r teir-
mo a essa campanha dentro de cinco annos” . Radicado assim
o term o entre nós, com esta accepção particular, yierãm , con-
cürrentemente, os derivados aldeiamentjo e aldeiar, de expres­
sões obvias, mas não registrados nos lexicons portuguezes,
apezar de correntes e vulgarissimos entre nós. “ A ’ margem es­
querda do rio existe um im portante ald eam en to de indios
b ra vio s” . (Beaurepaire Rjohan). “ Seguindo os conselhos de
N obrega, conseguiram os jesuitas aldeiar grande numero de
de indígenas” . (A rth u r O rlan d o).
A legre — Toldado, m eio tonto ou embriagado, com dois
dedos de grammatica. “ V iva S. João! soltavam os sambistas,
alguns apenas alegres, outros inteiram ente entregues ao es­
p irito vertigin oso da canna” . (F ra n k lin T a v o ra ). “ O Corne­
lio via-se já um pouco alegre em virtude do abuso do vin h o ” .
(A Pimenta, n. 46 de 1902).
Alevan te — Motim, rusga, sublevação, e em outros tem­
pos sublevação de escravos; aleive, calumnia, falsidade, accu-
sação; escarcéo, esoarnecimento, ira, furor, p or uma causa insi­
gnificante, uma occurrencia de nonada: F a zer tamanho ale­
vante p o r uma cousa de nada.
A lezado — Amalucado, idiota, toleirão, palerma.
A lfin ete — Èspecie de flo r cultivada nor jardins, e já re­
gistrada p o r Jeronym o V ille la nos seus versos.
Algodãozinho — T ecid o de algodão para toalhas, lençóes,
saccos e outras applicações, e assim chamado, originariam ente,
ao manufaturado na fabrica de tecidos de Gervasio P ires F e r ­
re ira , ^estabelecida no b a irro da Bôa Vista, á rua da Gloria,
pelos annos de 1826. “ O estofo produzido pela fabrica de Ger­
vasio Pires, consistente em cobertores e no chamado algòdão-
sinho era bom e p referid o ao m elhor deste panno am ericano
e ao de oulra qualquer nação” . (Antonin> Joaquim de Mello').
“ Dum nativismo hyperbolico, Cypriano Barata ia ao extrem o
de desdenhar tanto as idéas e os homens como as cousas trans-
m arinas: trajava sempre roupa de algodãpsinho do paiz e a
longa cabelleira cascateava-lhe p o r sob as largas abas do cha­
péo de palha de carnaúba” . (A lfre d o de C arvalh o).
Algu idar — Vaso de barro, vidrado ou não, a especie de
gamellà, de usos domésticos diversos, e já conhecido na cerâ­
mica indigena com o nome de nhaem. Mandar para a contra
costa dos Alguijdares: Despedir, mandar embora, despachar
mesmo pará o outro m undo.
Alhada — Empresa perigosa, negocio de consequências
funestas, cavallarias altas. M etter‘-se em alhadas. “ Desta vez
não se sahiu bem da alhada que forgicou .” (Lanterna Magica
n. 124 de 1885). “ Numa alhada nos iamos de certo co llo ça r” .
(Idem , n. 247 de 1889). “ O p eio r de taes alhadas é saber, das
taes historias contadas, qual a falsa e a verd ád eira” . (Idem ,
n. 751 de 1903).
Alicantina — Descalçadeira, descompostura, verrina, ex-
probação violenta, injuriosa, em manifestações faladas ou es-
criptas. Aulete consigna o term o como fam iliar, mas com ex­
pressões diversas.
A lin h avar — Fazer um trabalho apressadamente, lige ira ­
mente, sem esmero e cuidado, albardeiram ente. “ Eu não faço
versos, mas alinhavo p rosa” . (V a p o r da C alifórn ia n. 6 de
1849). E nviar, assassinar, m atar: Alinhavaram o pobre homem
èm dous tempos, e pozeram-se ao fresco. “ Sou um homem, sa-
beu? Sou bicho bom para quebrar-lhe o focinho e alinhavar
qualquer um” . ( A Pim enta n. 406 de 1906).
Alinhavinho — Costura de pontos miudos, estreitos, sobre
o alinhavo da peça.
Alm a de caboclo — A ve dentirostri (M arlyncus medicallis,
Tem m .)
Alm a de gato — Especie de ave trepadora (P ia ga cayanna,
Less.), a que os indios chamavam Atinguaçú. A gente supersti­
ciosa tem p or máo agouro o canto desta ave.
A lm ocreva r — S erviço de alm ocreve, conducção de carga
em costas de animaes. “ Se hei de andar alm ocrevando com
risco de me tom arem o meu cavallo e fazerem o diabo com i­
go, m elhor é que vá ganhar meu dinh eiro prestando serviços
á n obreza” . (F ra n k lin T a v o ra ). “ N ão conhecia M anoel Gon­
çalves a Lourenço sinão de o v e r uma vez p or outra alm ocre­
vando.” (Idem , O M atuto), Moraes, que viveu entre nós, consi­
gna o vocábulo como (erm o usual, com as expressões de car-
regar, transportar em bestas; mas Aulete, bem como outros le-
xicologistas, não o mencionam.
A lm o r re im a s Corruptela de hem orrhoidas. “ O homem
com parecerá no desembarque, se as malditas almorreimas não
o im possibilitarem ” . (A Lanceta n. 60 de 1890).
A loá — Bebida refrigerante, fermentada, feita de arroz
cozido, agua e assucar. N o Ceará dão o nome de aluá a uma
bebida feita de m ilho torrado, ferm entada com agua e rapa­
dura, ou preparada com a farinha de m ilho torrado e assucat,
e que tambem assim feita em Pernambuco, tem o nome de
quimbembé, como escreve Beaurepaire Rohan, o que ignora­
mos, uma vez que, conhecemos o vocábulo, mas com outras
accepções. Conhecida em outros lugares com denominações
differentes, em alguns porem tem a de aluá, como na Bahia e
R io de Janeiro, nomeadamente; nesta ultima parte porem teve
grande vóga, e até epoca não muito remota, como escreve Cas­
tro Lopes: “ Pelas tardes de verão ninguém jamais ouviu apre­
goar o sorvete de caju’ e abacaxi, mas somente o re frigera n ­
te aluá.” Sobre a etym ologia do vocábulo, aloá ou aluá, v a ­
riam as opiniões, se vem do africano, asiatico ou do tupy.
Moraes, que escreve aloá, diz que é derivado do vocábulo luá,
agua, na lingua dos negros Aussás, da Costa da Mina; e Macedo
Soares, pensando que vem do tupy, acha que o termo aluá, se­
ja corruptela de aruá, cousa agradável, bôa cousa, gostosa,
apreciavel. O que não resta duvida, é que os nossos indios,
do alto S. Francisco, quer os habitantes das ilhas, quer os
do continente, descendentes dos aldeiados dos extinctos nú­
cleos, ainda usam, apaixonadamente, de uma bebida ferm en­
tada e espumante, a que dão o nome de al»á , preparada em
grandes talhas de barro, acaso rem iniscência do velho cauim
dos seus antepassados, especie de vinho de caju’, mandioca ou
milho, e depositados na igaçaba ou no camocim.
Aluado — Estovado, estróina, de máo humor; amalucado,
tarado de idiotismo. Aluado ou lunático, como escreve Ernesto
Renan, era uma enferm idade que os púvos antigos acreditavam
proveniente de qualquer alteração da lua, ou por qualquer in­
fluencia secreta deste astro.
A lu va i! — Dicção interjectiva com as expressões de: Olhe
lá! Entendamo-nos! Veja com quem fala! Cuidado! Tom e te-
nencia! “ Senhor Manoel Caetano, A lu va i! me trate bem ; N o
pilão que eu piso m ilho Pinto não come xerem ” . (C ancion ei­
ro ido N o rte ). “ O luvai! tu’ d’ amanhã p or diante toma cuidado
com aquelles tratantes da rib eira ” . (Lan tern a Magica, n. 214
de 1888).
A lvajado —- Acompanhado, seguido, espionado. “ Consenti
no que me pedia, mas com o mandar alvajado com outro escra­
vo ladino dos da te rra ” . (D ia lo go das grandezas do B ra sil).
A lvaren ga — Especie de lancha, grande, de pouco pontal,
coberta ou não, de fe rro ou de madeira, destinada ao serviço
de carga e descarga dos navios, e transporte de materiaes pe­
sados, e m ovidas a varas p or dous homens ou rebocadas a
vapor ou não. As cobertas tem uma especie de telhado de duas
aguas, em quasi toda a extensão, e com duas portinholas, la ­
teralm ente dispostas das bordas para o alto, para a entrada e
sahida da carga, e que fechadas, ficam as m ercadorias abri­
gadas do sol e chuva. Ignoramos, precisamente, desde quando
vem o nome de alvarenga dado ás embarcações deste genero,
uma vez que prim itivam ente tinhanr o de barca, com o escreve
o historiador F rei Vicente do Salvador (1627) tratando da ca­
pitania-de Pernam buco: “ P elo rio que cinge a leste a povoa­
ção do R ecife, navegam’ com a m aré muitos bateis, e as barcas
que levam as fazendas ao Varadouro da v illa de Olinda, onde
está a alfa n a ega .” Moraes, que viveu entre nós, e no seu E n­
genho N o vo da Muribeca escreveu duas edições do seu D iccio-
nario, a segunda e a terceira, sendo esta ultima im pressa em
1823, um anno antes do seu fallecim ento, não consigna o v o ­
cábulo, que, se já então tivesse curso não lhe era dado desco­
nhecer, muito particularm ente como industrial do p rin cipal ge­
nero de com m ercio da epoca, surgindo porem , poucos annos
depois, como se vê de um annuncio de Escravo fugido publica­
do no p eriodico O Cruzeiro, n. 176 de 1829, concluindo, que
“ o dito negro costumava andar trabalhando no R ecife nas a l­
varengas” ; podendo-se assim fix a r a m edia do apparecim ento
do term o pelos annos de 1825. Vem dahi a sua vulgarisação,
constante de documentos a respeito, e concurrrentem ente, o
apparecim ento de vocábulos derivados, com o os de alvarenga-
gem, alvarengar e alvarengueiro, de expressões obvias, vindo
este ultim o talvez dos annos de 1850, urna vez que encontra­
mos a noticia de um portuguez que em 1848 era dom iciliado
no R ecife, e conhecido p or Cardoso das alvarengas, pelo tr a fi­
co do transporte de m ercadorias em embarcações suas e assim
chamadas. Originariam ente de madeira, appareceram, depois,
concurrentemente, as alvarengas de ferro , sendo as prim eiras
aqui mesmo constuidas, na extincta Fundição d’A u rora de C.
Starr & Cia., como consta de uma estatística dos trabalhos1da-
quelle estabelecimento, que temps presente, e em que se men­
ciona, que de principios de 1847 a 1851 tinham sahido das suas
officin as quatorze alvarengas de fe rro de quarenta toneladas
cada uma” . Alvarenga, como appellido de fam ilia, escreveu
Beaurepaire Rohan, é nome tanto portiiguez com o hespanhol.
Com outra qualquer significação não o encontro em dicciona-
rio algum . Só V ieira o menciona com o sign ificativo que tem
no B rasil. Aulete não trata delle de modo algum . N ão duvido
que fosse algum senhor Alvarenga, que instituísse esse genero
de transporte, e dahi lhe provenha o nome no Pará, Maranhão,
Pernam buco e Bahia” . E ffeetivam ente, o vocábulo, com essa
particular expressão, não vem de Portugal, uma vez que as em ­
barcações do mesmo genero de serviço têm lá os nomes de
gabarra e batellão, como no R io de Janeiro, e mesmo na Ba­
hia, o de saveiro. Investigando a origem do vocábulo, v e r ifi­
camos que vem do nome de algumas localidades portuguezas,
vindo dahi o appellido de fam ilia, como se v ê do seguinte tre ­
cho escripto pelo Visconde de Sanches de Baena tratando da
fam ilia A lvaren ga: “ E ’ solár desta fam ilia o couto de A lva ren ­
ga, na p rovín cia entre D ouro e Minho, do qual fo i senhor Mem
Paes Curvo, e seu filh o Martim P ires de Alvarenga, que fo i o
p rim eiro que se chamou Alvarenga, p o r ser senhor do dito cou­
to e m orar n e lle .” Para fixar, porem , a antiguidade do term o
como nome geographico, basta mencionar, como escreve Pinto
Leal no seu Portugal antigo e moderno* que a y iílá de A lv a ­
renga, que fica nas immediações de Arouca, teve o seu F o ra l
con ferido p o r el i e i D . D in iz no anno de 1298, concluindo,
que esse nome é de origem arabe, corruptela de al-borjon, a
torre, com provando isto as ruinas da torre do solar dos A lva-
Cengas, ainda existentes na localidade. Concluindo, portanto,
de accordo com Beaurepaire Rohan, não ha duvida que o vocá­
bulo, entre nós, vem de algum Senhor A lvaren ga que se in ­
cumbia do servigo de carga e descarga dos navios em embar­
cações próprias, e já corrente em 1829, como vimos, notando-
se de cir'cumstancias idênticas tantos outros termos, com o no­
meadamente, Carrasco, Mauzer, Lloyd , etc.
Am alinado — De caracter mau, agudo, p ern icioso: Febre
umalinada. “ Outr’ora se tinha caítharrão amalignado. P resen ­
temente é grippe ou in flu en za” . (F o n -fo n n. 7 de 1916).
Amalucado — O mesmo que alezado, aluado.
Am antético — Am oroso, apaixonado, sensivel, delicado,
cortez. “ P ro fe re expressões fastidiosamente amantéticas.” (O
Carapuceiro n. 24 de 1839). “ Não lhes parece que o João quer
dar visos de romântico, amantético, ou de desfructavel, que é
o mesmo, segundo o diccionario dos meninos de agora ” (O
Telegrapho n. 3 de 1850). “ Se sois namorado, e se a vossa lin-
dinha lançar p or acaso vistas amantéticas sobre outros homens,
suicidai-vos” . (A Palm eira Pernambucana n. 1 de 1851). “ Es­
tou de veras a p a ix o n a d o ... am antético.” (O Maná n. 18 de
1883). “ Vão v êr a gente amantética da Companhia G arrido” .
(Lanterna Magica n. 800 de 1905).
Am arellas — D ifficuldades, trabalhos, embaraços, perigos:
Vê-se m ettido nas amarellas. “ T e viste nas amarejlas, p or cau­
sa de d in h eiro” ? (O Etna n. 16 de 1882). D inheiro, moeda de
ouro. “ As amarellas, sterlinas lib ras” , (D e um r e c ita tiv o ).
“ Tu não sabes que os saquaremas só querem dos gallegos as
am arellas?” (O Form igão n. 7 de 1850). “ Conta-nos que em
A b ril do proxim o anno, o cujo deve voltar em busca das amar
relias” . (A m erica Illustrada n. 16 de 1884). “ Cincoenta con­
tos de reis! Uma porção de am arellas! uma pitança excellen-
t e !” (O Binoculo n. 21 de 1884). Graças am&rellás; sem es­
p irito, desenxabidas, tolas, sem graça.
Am arellete —. Madeira de marcenaria e construcção civil.
Am arra — Corrente de relogio na giria dos gatunos, p o ­
rém já muito vulgarisado o term o.
Am arração — Festa escolar no dia do santo do nome do
professor, tendo logar na vespera, am arral-o um dos seus dis
cipulos com uma bonita fita de seda.
Am arrado — Seguro, prevenido, pegado, economico, pou­
pado; im prestável, souvina; O P ed ro é tão am arrado que nin­
guém lhe arranca das unhas um vintem sequer. Casado, preso,
unido pelos laços nupciaes: o João e a M aria já estão am arra­
dos, e bem amarrados.
Am arrar — Prender, atar, am arrar no braço ou no p es ­
coço de alguem uma bonita fita de seda dando laço, um c o r­
dão de ouro ou mesmo um lenço, na vespera do dia do santo do
seu nome, correndo ao amarrado a fineza de uma recompensa
qualquer á pessoa que o amarrou.
Am arrar o gato — Tom ar uma carraspana e ficar' aos tom ­
bos, cambaleando, como fica jogando um navio em marcha que
tem a gata amarrada, isto é, a vela de cima da mezena, solta,
a qual enfunada diminue consideravelm ente o seu jogo, vindo
dahi a origem da locução.
Amatutado — A o m odo de matute^ o nosso camponio, isto
é, retrahido, desconfiado, inaccessivel, sem graça e elegancia
no porte, no falar e no trajar.
A meio páo — Alegre, m eio bicado, com uma mão d e cin­
zento, dous dedos de grammatica. “ O velhote deixou-se levar
pelo gosmado de Anastacio, que entendeu botal-o a meio páo” .
(A Pimenta n. 36 de 1902).
Am iga — Caldo preparado com o do feijão, engrossado
com farinha sessada, convenientemente temperado, e com p i­
menta.
Am igalhão — Grande amigo, intimo, dó peito, correspon­
dente de amigalhaço da giria portugueza. “ Ç) V arella confes­
sou aos amigalhões que em verdade tentára fazer certa.lad ro-
eira com as letras de J . ” (O A rtilh eiro n. 56 de 1843).
“ Acuda Senhor C h icn o rio . A seu velh o amigalhão (O
P ro letá rio n. 5 de 1847). “ E se o meu amigalhão, Trahindo-m e,
pregou-me o calo, os outros, de quem não falo, P o r certo o
que fa rã o ” ? (O Cometa n. 7 de 1843).
Am igar-se — V iver em mancebia ou concubinato. “ Uma
senhora casada, solteira ou am igada” . (A Pimenta, n. 13. de
1914). D erivados: Amigação, amigado, amigo.
Am igos ursos — Falsos, fingidos, compromettedores, ex­
ploradores. “ Am igos ursos, especie tem ivel, qute pullula entre
qs p olitico s” . (A Pim enta n. 65 de 1902). “ O gêneral levado
pelos conselhos dos amigos ursos retira o nome do seu amigo
leal e desisteressado” . (Jornal do P o v o , n. 68 de 1916).
Amistade — Relações, conhecimentos, am izade: Onde ar*
ránjou você aquella amistade? “ Presidindo nós o Jury de
Curityba, em 1876, uma testemunha, mulher, natural da p ro ­
víncia, d’onde nunca havia sahido, perguntado aos costumes,
disse: não ter m aior amistade ao ré o ” . (M acedo Soares).
Am istoso — A m ig á v e l,: benigno, affa-vel, concorde, com ­
placente. Segundo Beaurepaire Rohan é um vocábulo de o ri­
gem castelhana. D erivado: Amistosamente.
Am iudar — O cantar do gallo pela madrugada, como qee
anunciando o rom per do dia. “ De longe, a espaço, nos quin-
taes, o gallo am iudava” . ( A Colum neida). “ Sahi da casa do
Mendes, onde dei festa, quando os gallos estavam am iudan­
d o ” . (A ffon so Arinos, Pedro Barquei.ro).
Amocambado — Refugiado em quilom bo: Os escravos
amocambados nas mattas do Gatucá, causaram consideráveis

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damnos ás populações circum visinhas. ü vocábulo vem de
mocambo, que em grande numero levantavam os fugitivos pa­
ra sua habitação. D eriva d o: Ámocambar.
Am oitado — Escondido, occulto; hom isiado: M ettido na
moita.
Am olação — Im pertinência, enfado, maçada, caceteaçãc,
p au lifica n cia . “ Mas tu, se em. paz não me deixas, e a am ola­
ção continua mando-te lógo á tabua” . (O Diabo a quatro n. 66
de 1876). “ Poeta, caceteia a Sinhazinha na sua am olação” .
(O Etna n. 36 d e ,1882). Nam orico, bredo, tijo lo . “ Um lojista
m uito velho, amante da amolação. Tom ou para fica r moço, Do
T e ix e ira uma in jecção” . (O Desespero n. 22 de 1880). “ Veja
lá, tome cuidado, Com esta sua amolação, Que de outro fo i a
moça, Não metta no fogo a m ão” . (O Maná n. 14 de 1883).
“ Alguns annos andou Maria nesse afan de sua amolação de
noite e de d ia” . (Jorn al do D om ingo n. 3 de 1877).
A m olador — Cutileiro ambulante, italiano, munido de um
apparelho p ro p rio para o serviço de am olar facas, tesouras e
navalhas, annunciando-se pelo toque .de uma gaita. “ Minha
gente venha v ê r Cousa de fazer h o rro r; A navalha deu um
talho N a mão do am olador” . (T ro va s populares). “ Tem os car­
camanos, engraxates, amola.dores, mascates” . (A m erica Illus-
trada, de 19 de N ovem bro de 1871). N am orador casquilho, p e­
ralta; impertinente, importuno, massante, insupportavel. “ Vou
p ’ra c a s a ... inda mais esta! Que sujeito a m ola d o r!” (A P i­
menta n. 58 de 1902).
Am olar — Ab orrecer, cacetear, enfadar, maçar, im portu­
nar. “ Com os seus discursos tem o nobre deputado amolado
a paciência do p ro x im o ” . (A Soberania n. 3 dé %1877) • “ A m o­
lai-nos o espirito, amolai-nos a paciência” . (A m erica Ulus-
trada de 30 M arço de 1873). “ O sujeito amolou a paciência da
Sra. D . Maria, e o fez com muito bôa am oladella” . (Id em n.
31 de 1882). “ Os espectadores amolados, gritavam : suba o
p a n o !” (O Etna n. 39 de 1882). Nam orar. “ Am ola a donzella
para se casar; Am ola o peralta que quer desfructar” . (A m erica
Illustrada de 8 de Setembro de 1872). “ N o terceiro andar de­
bruça-se a Julieta para am olar o seu Rom eo. (O Etna n. 39
de 1882). “ Na Capunga fez-se o mez marianno, mas antes se
fizesse o mez am olatorio” . (A m erica Illustrada n. 19 de 1880).
Am olar-se —. Vêr-se em difficuldades, em trabalhos pesa­
dos, enfadonhos; sobrecarregado de onerosos encargos, óbri-

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gado a despezas extraordinárias, excessivas. “ O povo é só quem
se amola com a carga enorm e de im postos” . (Lan tern a Ma­
gica n. 509 de 1896).
Am olecado — A o modo de m oleque; acanalhado,; sem com ­
postura, sisudez, serenidade, gravidade, sensa,tez.
A m olecer — M oer1
, pisar, sovar. “ Se T rajan o em vez de
assassinado fossè am olecido, o tenente M ello estaria no x ilin -
dró ” (Pernam buco n. 256 de 1913).
Amiollegar — Com prim ir, apertar; tornar m olle, brando.
Am oquecado — A commodo, repimpado, encolhido, aga­
salhado, em descanço. À phrase: Estar) de moqueca, isto é,
embrulhado, envolvido, bem agaselhado, é o mesmo que amo­
quecado. “ Na phrase vulgar, estar de moqueca, é estar de pé
dormente, sem se im portar de cousa alguma” . (G onçalves
D ias).
Am oquecar-se — Retrair-se para descançar; estar muito
commodamenté assentado ou deitado. “ Am oquecado na tribu­
na, e toca a queimar o salitroso incenso” . (A Carranca n. 69
de 1847).
Am oras — Na phrase: Ohi! tempo das amoras!, traducção
chula da locução latina : O h! tem poral Oh m ores! São horas
de com er am oras! (D ic ta d o ): a opportunidade, o momento de
fazer qualquer cousa; o com eçar do trabalho. Am oras é o fruc-
to da am oreira, planta indigena da fam ilia das Urticaceas.
A m oré — P eix e de agua doce, especie de mussu’ ou en­
guia, do generp Gobius, em que figuram : o Ám oré-guaçu’,
Am oré-pinim a (M urema occulata, L ich .), Am oré pixuma (G o ­
bius Pisonis- G m .) e Am oré-tinga, descripto p or M aregrav.
“ T alvez tenhas tambem apanhado o teu camaração no puçá ou
fisgado o teu am oré na lóca. ( A Pim enta n. 15 de 1902). “ Toré,
ré, toré, da cá o pé; Eu não como moqueca de amoi<é” (V e r ­
sos de samba).
Am oroletico — Am oroso perdido de amores. “ S. Excia.
p or uma associação de idéas, fo i accom mettido de fortissimas
cócegas amjoroleticas” . (O B rado do P ovo n. 61 de 1855). “ Ac-
ceita am oreletico Tibi-quoque, as caricias e beijocas que te
envia O Jacaré (Idem , n. 77).
Am orudo — O mesmo que amantetico e am oroletico. “ Mui­
to bem, senhor cara de erm itão; o senhor é muitó am orudo” .
(O Vapor dos Traficantes n. 100 de 1856). “ O M iguélzinho é
damnadinho, é dengoso, é am orudo” . (A m erica Illustrada n. 28
de 1878). .
Amufumfoar — Guardar, esconder, occultar. “ Quem não
aguentar o repuxo, se amufumbe em casa” . (A P rovín cia n. 30
de 1913).
Am unhecar — Tir'ar, gadanhar, furtar; cahir de pernas,
tropeçar, ir ao chão; retrahir-se encabulado, envergonhado,
murcho, agarrar, abraçar, fo iç a r, na giria dos gatunos do R io
dè Janeiro. “ Açpii vou rolando e amunhecando o que posso
afim de ter para o futuro uma vida mais descançada” . (O C o­
meta n. 18 de 1843). “ Conhecendo do enjôo que sua pessôa
inspirou ao magistrado, amunhecoü, murcho como uma crean-
ça que recebe um piparote da m amãe” . (O Estimulo, Parahy-
ba do N orte, n. 9 de 1893).
Andador — . Cavallo de bom andar; csquipador: um ca-
v a llo bom andador.
Andandinho — P o r andando, sem novidade, de saude, co­
mo Deus é servido. “ Desvio, senhora Ursula, desvio! Vae-se
p ão! Vae-te andandinho” . (O Barco dos Traficantes n. 11 de
1858).
Andantes — Pernas, gambias, tibias. (G iria dos gatunos).
An dejar — Andar ou caminhar m uito; passeiar, foguetear,
escaramuçar; não parar em casa, sempre na rua, em toda p ar­
te. Caracterisa bem a dicção, que vem de andejo, constante
dos nossos lexicòns, este adagio: Comadre andeja, não vou
em parte alguma que não a veja.
Anelão — A n el de diamante, volumoso, com ornatos de
esmalte azul, de gosto pesado e uso antigo, mas, que não raro,
apparece ainda em pessoas que não obedecem os preceitos da
moda, e geralm ente do in terior. “ Fitas, boiões de banha, vid ri-
lhos e macassá, brincos e anelões, e tanto perendengue, que
mais não o tem qualquer loja da Rua N o v a ” . (O Carapuceiro
n. 13 de 1837).“ N o fim de muito economisar, comprava-se o
anellãosimbo, e eis o ouriveis a trabalhar” . (O Artilheino n.
46 de 1843). “ Pensarás que o teu enorme anelão te dará im ­
portância ou cotação?” (Pernam buco n. 93 de 1914).
A nenhum — Sem dinheiro, apitando, em quebradeira.
“ Achavam-se todos a ne nhum, tratava-se de p rom over uma
cavação” . ( A P ro vín cia n. 81 de 1902). “ Ainda a nenhum, sem
vintem , esse a aue chamas teu b em ” . (A Pim enta n. 53 de
1902).
Angélica brava — Arbusto da ilha de Fernando de N o ro ­
nha, que attinge apenas de 2 a 2,50 m. de altura, cuja madeira
é empregada em obras de carpina.
An gericó — Planta indígena, medicinal.
Angico — Certa especie de peixe registrada p or Jerortymo
V illela nas suas poesias, entre o bom pescado que nos forn e­
cem os nossos mares e rios.
Anginhos — Algemas de ferro, de ab rir e fechar, para
prender os dedos pollegares dos crim inosos conduzidos á p ri­
são, e como em outros tempos se fazia com os recrutas e es­
cravos fugidos. “ A p olicia prendeu os indigitados cúmplices
nor’xassassinato, pondo-os de anginhos” . (Pernam buco n. 318
de 1913).
Angu’ — Especie ;de sopa ou esparregado, preparado com
camarão secco, pisado, quiabos, bredo, semente de embira,
quitoco, azeite de dendê e pimenta, com p eixe de salga ou sec­
co, e servido com uns bolinhos arredondados feitos de fubá
de arroz, que tem o nome particular de bolão de angu’ . “ Mãe
M aria faz angu’ Faz angu’, p ’ ra tu com ê; O’ moleque do afngu’
Fala tu que é fa la d ô ” . (D e uma toada d’Os Congos, folguedo
de origem a fr ic a n a ). R efeição originariam ente africana, a
sua denominação, consoantemente, é uma voz da lingua an-
golense, segundo Martius, e como escreve o Padre Etienne
Brasil, é um dos Ogés, iguarias ou victos sagrados dos africa­
nos. Variedades; angu’ de farinha de mandioca, ou de man­
teiga; angu’ ide m ilho. “ F u i alm oçar angu’ de m ilho e munguzá
no M ercado de S. José” . ( A Pim enta n. 542 de 1907).
Angu’ íou anguzada — Confusão, mescla, mistura de cousas
heterogeneas; embrulhada, m exerico; cousa mal feita, mal ar­
ranjada. “ Appareceu no jorn al um angu’ com o nopie de dis­
curso” . (O Barco dos Patoteiros, n. 3 de 1864).
Anguzê — O mesmo que angu’ , e que segundo Beaurepaire
Rohan, é uma especie de esparregado de hervas, semelhante ao
carurú, que em Pernam buco tem o nome de anguzô. “ Vai-se ao
cem iterio no dia de finados p o r ostentação ou p or folia. Se é
vedadía a entrada do clássico violão, o p eixe frito , a gallinha
assada, o anguzô, o Figu eira e até a popularissim a c a n n a ... es­
ses tem lá fóros de cidade” . (O Diabo a quatro n. 174 de 1878).
“ Tudo faz crer que o rem elexo será gostoso com o anguzô api­
mentado, comida african a” . ( A P rovín cia, n, 49 de 1916).
Aniquim — P eix e de agua salgada (Batrachus porosissimus,
V a i.). Este p eixe a que os indios chamavam Niqui, vindo dahi
p or corruptela o seu nome vulgar, tem na cabeça um pronun­
ciado espinho, que prodüz serios incomm odos a quem fô r gol­
peado pelo m esm o. O povo diz que é envenenado.

38
^ A n jo — Cadaver de criança: E nterro de um ainjro. Tambeni
anjinho, e muito vulgar, assim consigna Moraes, com as ex­
pressões de menino v iv o ou m orto, p or ser o seu estado o da
innocencia. “ N o Geará ainda se usa, em alguns pontos do cen ­
tro, uma especie de v e lo rio p or m orte de creanças, anginhos.
como chamam” . (S y lv io R om ero ). Anjo de procissão; criança
com vestes de phantasia, alada, que acompanha os préstitos
procissionaes. Anjo papudo; meninote ou raparigota a quem
não cabe mais o qu alificativo de anjo nas accepções de innocen­
cia e pureza. Cara de anjo papudo; cheia, volumosa, boche­
chuda. Anjos bentos!; exclam ação de admiração, duvidas,
h o rro r.
Anta — Pachiderm e de ordem dos Ongulados (T apiru s
americanus, L in .), o m aior quadrupede da nossa fauna, a que
os indios davam o nome de Tapira, alterado em Tapir, e entre
nós o de Tapirete, segundo M arcgrav, que o descreve, e dahi
Tapiira, o b oi ou a vacca, tambem denominados Tapira-cobay-
guara, p or tomarem-nos os selvagens com o uma especie de anta
estrangeira, pelo seu porte e semelhança com o nosso pachider­
m e. Do term o vem os derivados: Tapirahy, rio das antas; Ta-
piraré, vereda das antas; Tapirapuan, a anta roliça ou gorda;
Tapirem a, a manada de antas, nome de um povoado no mu­
n icípio de Goyanna; e Tapirussu’ , anta grande, riacho affluen-
te do Sirinhaém. “ Acham-se p or estas partes do Brasil mui­
tos animaes a que chamam Anta, do tamanho de um boi, que
se cria pelos campos, e se caçam a espingarda ou em fojos,
e tem bôa carne para se c o m e r". ,(D iálogos das grandezas do
B ra zil). Corno reminiscência de,‘ te extineto animal entre nós,
temos os engenhos Antas, nos -municípios de Gam elleira e da
G loria de Goytá, e uma serra próxim a ao sul da cidãde dc
Garahhuns; e Couro d’Anta, um povoado no m unicípio do B re­
jo da Madre, de Deus, e um engenho no de Cimbres.
Antanho — Tem pos idos, de outr’ ora; tempos da amo­
rosa, do r e i velho, dos Affonsinhos.. “ Como uma rem iniscên­
cia dos tempos de antanho, o pessoal do batuque batucou com
gosto a .noite in te ir a .” (Jorn al do R ecife n. 53 de 1914).
“ N ão sei que velh o e experiente m edico de antanho, clinico
no R ecife, chamava os nóvos esculápios aqui chegados pelo
blandicioso ,appellido de b ru m oretos.” (D r , Octavio de F r e i­
tas) . “ N a viola ás Vezes arranho Uns pizzicatos cri-cri Como
nos tempos de antanho.” (Erasm o L o p e s ).
Anum — Passaro de côr preta, da ordem dos trepadores
e da genero Cretophaga, que do seu canto parece pronunciar
a palavra donde lhe vem o nome vulgar, quer o da especie
Anú-guaçú, quer o da Anu’-mirim, com o assim chamavam os
indios. “ O anú é passaro preto, Passarinho de verã o . Quan­
do canta a meia noite, Dá u’a d ôr no coração” . (J . Cesim-
bra Jacques). Passaro insectivo, dá caça ao carrapato que
ataca o gado, e a rez ao sentir pousar no seu dorso estaca o
andar, im m òbilisa a cauda, e entrega-se gostosamente ao bem-
feitor, que cuidadosamente cata cada min dos carrapatos.
Apalasado — T od o o trabalho de costura do calçado, in ­
clusive a dos elásticos e do fo rro , de m odo a fica r a p eça
preparada ifiara unil-a ao solado, a ponto ou a taxa: “ Umas
hotinas de bom apalasado” . O erivados: Apalasador, apalasr,
“ Aquella apalasadeira qiier ter um enthusiasmo. . . ” (A P i­
menta n. 550 de 1907). “ O pessoal do solado do club carna­
valesco dos Apalasadores, passou num rem elexo b a d e jo . .. ”
(Pernam buco n. 52 de 1914). “ Bota meia sola nisso! D eixe­
mos lá de besteiras. Do carnaval o feitiço. Está nas apalasa-
deiras” . (Jorn al do R ecife n. 52 de 1915). “ Mamãe se damna
com os sapatos apalasados pelo M anoel Chagas. ” (A Pim en ­
ta n. 560 de 1907).
,» Apalerm ado — T o lo , im becil, abestalhado; parvo, p aler­
ma, caixa em fim , de que os origin a a dicção.
A p a lh e ta d o —. P és que abrem para fora, e assim p reju ­
dicando um tanto o andar. “ Baixo, grosSo, olhos grandes e
pçs apalhetados. ” (Gazeta U niversal de 9 de M arço de 1836).
“ T em as mãos tortas e os pés apalhetados” . (O Campeão n.
183 de 1863). “ Certo solicitador, que tem .os pés grandes, cha­
tos e apalhetados.” (Lan tern a Magica n. 479 de 1895).
Apalpar — in vestigar astuciosamente, procurar saber - o
que se deseja sem o dar a conhecer, com o escreve A lb erto
Bessa, segundo as expressões que tem o vocábulo na giria
portugueza, que são as mesmas que tem entre nós. V êr, exa­
minar se a gallinha tem ovo. “ Ao rapaz que apalpar gallinha,
nunca nasce babha.” (O Telegrapho n. 4 de 1850). Conso-
antemente, um poeta nosso, em um soneto em que prescreve
o Rem edio para não nascer barba, publicado em 1838 n’0 Ca-
rapuceiro, conclue com o conhecido p receito: “ E basta que
cin pequeno empregue um dedo Rapaz implume em apalpar
gallinhas. ”
Apanhar — Sahir perdendo no jogo ou prejudicado em
um negocio qualquer; victim a de um logro, de uma exp lora­
ção. “ Quasi todo mundo tem apanhado desse poeta que o

40
vulgo académico chama de P au lifican te” . (A Pim enta n. 177
de 1901). “ Que bicho d e u ? ... E os outros? Coitado dos ou­
tros! A pan h aram !” (A Rua n. 2 de 1903).
Aparadeira — V . Assistente.
Apara-facada — Uma peça ordinaria do vestuário, mal
feita, em máo estado. “ Um palitot sacco, calça branca, colle-
te sem relogio, gravata preta, chapéo de apara facad a” . (A
Pim enta n. 8 de 1902). “ Um chapéo de apara facada com ­
pletava a toillette da Ju lieta.” (Id em n. 82).
Apardavascado — Qualidade de pardo, tirado a pardo.
“ Quando lançamos fe rro no ancoradouro, appareceu no caes
um calunga apardavascado.” (O Barco dos Patoteiros n. 12
de 1864).
Apartação — Reunião do gado de diversas fazendas de
criação, em um dado lugar, para separação e entrega aos seus
respectivos donos. “ I)uas vezes por anno juntam-se os v a ­
queiros de differentes fazendas para reunir os animaes, e
tangem-nos para o terreiro de uma delias, onde tem lugar a
apartação, e marcação com o ferro dos seus respectivos do­
n o s .” (H . K o s te r). “ Em um lugar certo e determ inado jun­
tam-se Os vaqueiros e vão reunidos ao campo pegar e juntar
o gado de suas contas, e depois marcham ao curral, onde vão
fazer as apartações” . (Irin e o J o ffily ).
Apatacado — Certos característicos no colorid o do pêlo
do cavallo Um cavallo apatacado. O indivíduo que possue
bens de fortuna, endinheirado ou aquantiado, como se dizia
antigamente, vindo a dicção de pataca, antiga e conhecida
moeda de prata de 320 réis, originaria dos tempos coloniaes.
“ Agora sem saber casei-me, Sou genro de matuto apatacado” .
(A Lanceta n. 19 de 1910). “ Zacharias de Britto, m ercador
apatacado, dava ao diabo a fatalidade que escolhera o seu na­
vio para portador .de tão infausta n o tic ia .” (F ra n k lin T a v o ra ).
“ João P in h eiro era um fazendeiro apatacado, mas m uito ami­
go de güardar o que tinha” . (In g le z de S ou za).
A pedido — Rubrica de artigos de jornaes, de interesse
partieülar: Secção dos a pedido, Publicações a pedido; solicD
tadas; por conta alheia.
Apendoar — M anifestar-se o pendão do m ilh o . (Beaúre-
paire R o h a n ). “ Meu m ilharal começa a apendoar ” (Barão
Homem de M ello). “ O m ilho cresce e apendôa ” (Gustavo
B arroso). Araújo P o rto A legre no seu poema Descoberta da
America, em prega o term o na accepção de embandeirar, com
bandeira ou pendão; “ Baixam dos turcos o lig e iro esquife
E . real escaler àpendoado.”
A p erreio — Injpertinencia, apoquèntação, oppressão, to r­
m ento. “ A p erreios de um m arido, Consumições de um casal.
(E strellas de Junho, R ecife, 1916).
Ap ertar — Comer, fazer uma refeição . “ Os gastronomos
não perderaín vasa de apertar a bôa can gica. ” (A Pim enta
n. 3 de 1901). “ Sahi de casa depois de ter apertado uma su­
pimpa fe ijo a d a .” (Id em n. 13). “ Fui á casa da mana apertar
o funge do almoço, e não encontrei mais signal de b o ia .” (J o r­
nal Pequeno n . 26 de 1915).
Aperuação — Acção de aperuar. “ De outros bons jesui-
tas, e de altezas, a aperuação, descabellada e n g eita .” (A m e ri­
ca Illustrada n. 6 de 1877). “ Avisam os ao Sr. J. B . que se
deixe de uma aperuação que constantemente f a z . ” (A D e r­
rota n. 14 de 1883). “ Em tola aperuação anda sempre o ani­
m al. (C o rre io de Olinda n. 1 de 1901).
Aperuar,^— Assistir e apreciar a uma jogatina; fazer a
còrte a uma >flama; galantear, requ esfrar. “ Mais uma multa
quando tenham de ap eru at” . (A m erica Illustrada n. 1 de
1879). V . P erú .
Apicú ou apicum — T erren o composto de areia fina de
tnixtura com pouca argilla, im prestável para o plantio da can-
na de assucar. Bernardino de Souza registra o term o apicum,
com o do norte do Brazil, significando b rejo de agua salgada,
á borda do mar, accepção esta, não vulgar entre nós. “ Se o
senhor de engenho não conhecer a qualidade das terras, com ­
p rará salões p or massapés, e apicús p or sa lõ es.” (A n to n il).
Cháma-se apicum em Alagoas o algodão que se form a nos
brejos.
A pitar — Estar sem dinheiro, em quebradeira, na pin-
dahyba. “ O estudante apita, quengada no pae ou no corres­
p on d en te.” (A Pim enta n. .2 de 1901). “ Sem arame não se
form a, Só se v iv e a a p ita r.” (idem , n. 29).
A p ito — Remate ou caldo engrossado com farinha ses-
sada. T om ar um apito para esperar a janta. Quebradeira, pin-
dahyba: Estar no apito. “ O apito não passa de uma quengada
de um mestre de quengos, arranjado, para entrar na barriga
dos p a to s .” (A Pim enta n. 2 de 1901).
A polear — Dar tratos de polé, instrumento de tortura dos
tempos coloniaes, cujo local, em que se via levantado, a actual
Praça da Independencia, tinha então e p or tal circumstancia
a denominação de Praça do P o lé . “ Chegando ao conhecim en­
to do govern ador que o seu escravo achava-se gravem ente
espancado, ordena que o soldado que o maltratára fosse preso,

42
e no dia seguinte apoleado.” (J B Fernandes Gam a). V. a res­
peito as suas Memórias Históricas de Pernambuco, T , IV p . 354.
Apoiá-d-ó-d-ó — A p oiad o! Muito bem ! Esta dicção interjec-
tiva, term inando com a soletração da ultima syllaba, um pouco
pausada e accentuadamente pronunciada, dá assim uma expres­
são mais nitida e expansiva á m anifestação de concordância e
assentimento, que exprim e.
Apom bocado — Atoleim ado, apalerm ado; sem acção, ener­
gia, e pundonor mesmo.
Apontam ento — Reparos e melhoramentos dos appare-
Ihos e utensílios dos engenhos de assucar, c trabalhos geraés
de lim peza e conservação do e d ificio da fabrica executados no
tempo em que não funcciona, afim de fica r tudo conveniente­
mente disposto e preparado para a moagem da nova safra: A n ­
dou num dinhel: c o apontamento do meu engenho este anno.
Somente Moraes consigna o vocábulo com está expressão: “ O
preparamento, apparelhação, de alguma cousa, machinas, etc.
que devem s e r v ir .”
Aporrinhado Apoquentado, aperreado, am ofinado, con­
trariado: Andar, estar aporrinhado.
Apparelho — Latrin a. “ Nas escolas do perím etro da c i­
dade servido pela R ecife Draynage, os alumnos vão sendo in ­
toxicados pelos gazes desprendidos desses focos pestíferos de­
nominados apparelhos, sem agua indispensável para fa cilid a ­
de do esgoto.” (Lan tern a Magica n. 797 de 1935). “ N o quintal
havia um lugar p or onde o rapaz se evadisse. Só restava um
um recurso: trancar-se no quarto do apparelho” . (A Pimenta
n. 497 de 1906).
Aprem iaceas — M ovim ento preparatório de qualquer cou­
sa: uma festa p or exem plo.
Apurar saúde — Impertinências, exigeneias, apcrreios, ca­
prichos: Apurar saúde com alguein, on sobre um negocio qual­
quer.
Aquilão — O emplastro diaquilão usado na cura dos fu-
runculos. N o Chile é tambem assim chamado (A q u ilo n ) e como
tal figura nos Chilenismos de Zorobabel R odrigu ez.
Aquilom bado — Refugiado, reunido em quilom bo.
Aquilom bar — Nos tempos da escravidão entre nós tinha
a expressão de reunir em quilom bo escravos fugidos das casas
ou fazendas de seus senhores. “ Aquelle m alvado conseguiu a-
quilom bar grande numero de escravos, e tem praticado com
elles toda a sorte de attentados.” Ocultar-se, refugiar se em
quilom bo. “ Os escravos aquilombaram-se no deserto, alem da
s e rr a .” (B eaurepaire R o h a n ).
A r — Estupor, paralysia: Apanhar o ar, um ramo do ar;
ar de vento; ar encanado; conhecidas moléstias que o vulgo as­
sim as denom ina. “ Os nomes de ar, ramo do ar, ou estupor,
são ordinariam ente empregados para designar a paralysia, isto
é, a consequência da hem orrhagia ou derramamento do san­
g u e .” (D r . Theodoro L a n g a a rd ). “ A r do vento. Hem orrhagia
cerebral; Paralysia facial ou M oléstia de Bell. D esvio da face,
com tortura oris Vê-se na hem orrhagia cerebral e na p araly­
sia facial — a frigo re. Como esta ultima moléstia é devida á
acção do ar frio sobre o nervo facial, o povo não sabendo
distinguir as dur.s affecções confunde-as chamando ar do vento
qualquer desvio facial.” (D r. Arnobio M arques). “ De p rim ei­
ro se apanhava um ar de vento. Morre-se actualmente de con­
gestã o .” (Fon -fon , n. 7 de 1916)..

„ Arabias — Na locução; Das Arabias; Fin orio, espertalhão,


arreliado, estróina, pancadório. “ Quem é esse traficante m ór?
Oh! é das A ra b ia s!” (A Tempestade n. 2 de 1858). “ O pessoal,
que é das Arabias, sahiu em form idável passeata, percorren do
as principaes ruas do arrabalde” . (A P rovin çia n. 50 de 1914).
Aracambuz — “ Cruzeta de madeira entre os bancos da
jangada, encavilhada nas bordas, que serve para descançar o
mastro da mesma, e para prender as linhas e utensílios de
pesca, cabeça com agua, a corda e a poita, .para, no caso de v i­
ra r a jangada, nada se p e r d e r .” (A . A . C a m a ra ). Aracambuz
ou aracambu é vo.cabulo de origem tupi; corruptela de ibirá-
camby, forqu ilh a de pau, cruzetas de pau, gancho. (M acedo
S o a re s ).

A raçary — Encontramos esta dicção como nome de uma


ave na poesia A minha terra natal (Pernam buco) de Jeronym o
V ile lla . Beaurepaire Rohan, porem, consignando-a, manda vêr
arassari, escrevendo então: “ N om e cOmmum a diversas espe-
cies de aves* do genero Pteroglossus da ordem dos Trepadores.
E* vocábulo tupi. Geralmente se escreve A ra ça ri; mas esta or-
thographia tem dado lugar a se escrever Arakary, com o aindá
o faz Au lete.”
Arádo — Esfomeado, faminto, m orto de fom e: Arado de
fom e. Este vocábulo tem curso em outros estados do N orte
com igual expressão. S ylvio Rom ero, porem o consigna com
a de guloso, e dahi a a accepção, desconhecida, entre nós.
Aram e — Moeda, dinheiro, como na giria dos gatunos do
R io de Janeiro. “ As algibeiras tenho ein crise deplorável, cho­
rando e se estorcendo á falta do arame.” (A Pim enta n. 18 de
1901). “ Solteirinho sympathico, mas sem aram e.” (Idem , n. 77
cie 1902). “ N o Restaurant Montenegro se póde, sem demora,
comer, beber gastando pouco aram e.” (Lan tern a Magica n. 791
de 1905). “ Enquanto a qncbracjeira dura e fria Me perseguir,
como um bandido, infame. Deixando-me a algibeira erma, va-
sia, M aldito seja tú, ingrato aram e.” (Jornal do R ecife n. 175 de
1912).
Aranha — Vagaroso no serviço, lento, não apressado, paci­
ente, como o vulgar araclm eido deste nome no seu caminhar e
textura das suas teias.
Aranha caranguejeira — V. Caranguejeira.
Áranhola — Caranguejo, o uça-una dos indios, segundo
MarcBrav. “ No Ceará chamam aos conservadores, carangueijos,
provavelm ente porque estas aranholas andam para traz.” (O
Diabo a quatro n. 134 de 1878).
Aranzel — Discussão acalorada entre muitos indivíduos,
com um barulho in fern al; arenga exaltada, incom m odativa; ba-
te-barbas; qu alificativo de ridiculo dado a um escripto de a-
taque contra outrem.
Arapuca — Pequena armadilha de varinhas para pegar
passaros. Vocábulo de origem tupi, um vez que para caça de
aves tinham os indios, concurrentemente com a Jaçanã, a espar-
rella ou armadilha a que davam o nome de Arapuca, ou que as­
sim ficou chamada, uma vez que é uma corruptela de arapug,
prender batendo, segundo Macedo Soares; mas Theodoro Sam­
paio discordantemente escreve, que antigamente se dizia gui-
rapuca, curruptela de guirá, passaro, e puc, bater, partir, isto
é, a armadilha que bate o passaro ou o acolhe. Enredo, m exeri­
co: Arm ar uma arapuca. Artimanha, engodo, esparrella, ardil
para pegar um incauto. Cahir na arapuca; ser victima de uma
espiculação torpe; Uma arapuca engenhosa para patos apanhar.
“ A tal consiliação Inda por cá não chegou! Isto parece arapu­
ca, Que não sei quem nos arm ou” . (O Barco dos Traficantes
n. 1 de 1858). “ Agora fo i muito manso Deitar abaixo a arapuca,
Prom ettendo d’outra feita Não p ôr a mão na cumbuca.” (A
Lanceta n. 26 de 1890). Apprehensão, captura, prisão. “ O che­
fe de policia arma seus alçapões a arapucas a vêr se apanha
novos passaros.” (Lan tern a Magica n. 238 de 1888). Casa velha
arruinada, que ameaça desabar.” Uina tal arapuca está no ca­
so de ser demolida, quando antes, para evitar-se as desgraças
que devem resuBar do seu desabamento.” (O Campeão n. 21
de 1861).
Araquan — A ve muito vulgar, da ordem dos gallinaceos
(P en elop e araquan, N ie w ), e assim chamada pelos indios. “ A
araquan presada” (Santa Rita- D urão). “ A araquan, com o ou­
tras aves; conform e as estações e a epoca dos seus amores,
m odifica o canto e muda as horas dos seus concertos. Assim,
no tempo estival, ás prim eiras horas da madrugada, rompe o
profundo silencio da selva, com gritos estridentes, em cuja so-
nancia ouve-se o pronunciar do seu nom e” . (Euphrasio
Cunha).
A rara T olo, im becil; maluco id iota. “ Então o Clodoal-
do chocou; hein? Só se elle fosse arara” . (Pernam buco n.
173 de 1913). Eu não sou nenhum a r a r a ... Ja transpuz o .c a ­
bo dos meus vinte e cinco annos. (O Carnaval, 1914). “ Cahe
depressa nesse la ç o .. . Não sejas nenhum arara: Terás por
sogro um ricaço P o r sogra, pessoa cara.” (O Destino dos
am an tes).
Aracánga — Especie de arara, segundo M arcgrav, des­
crevendo-a, e com o assim chamavam-na os indios, vocábulo
este, que a ju izo de Th eodoro Sampaio, é corruptela de arara-
acanga, cabeça de arara.
Aratánha — Vacca de pequena estatura e de chifres re ­
cu rvados; especie de camarão, pequeno, mas de grandes p in ­
ças ou patas dianteiras, vindo o vocábulo do tupi ará, papa­
gaio, e tãi bico, bico de papagaio, adunco, recurvado, e dahi
chamar-se de aratanha ás pernas tortas. Uma parlenda chas-
queando dos pretos, diz que S. Benedicto tem os olhos de
aratanha.
Aratú — Pequeno crustáceo -.ou especie de carangueijo
(G en ero Grapsus), que v ive nos recifes e nos mangues, e fa ­
cilm ente apanhados á luz de fach o. Aratú é um vocábulo in ­
dígena, assim escripto e pronunciado. A o seu pequeno tama­
nho allude esta quadra das nossas trovas populares: “ Caran­
gueijo é doutor, O siri é capitão; Aratú por ser pequeno, In s­
pector de qu arteirão” .
Araúna — Especie de arara, corruptela do tupi Araraúna
nome com que os indios, segundo Gonçalves Dias, chamavam
a arara preta ou azul ferrete. T heodoro Sampaio, porem, diz
que o vocábulo vem de ará-una, papagaio escuro, quasi negro,
especie de arara azul. “ Chô, chô, chô, araúna, Não deixa nin­
guém te pegar, araúna; Tenho dinheiro de prata, arauna Para
gastar com a mulata, arau n a.” (D e um parlenda in fan til com
certa to a d a ): “ Chô araúna! Nunca v i cousa tão sem falta de
g e ito .” (Jornal do R ecife n. 27 de 1916).
A rb o ra rio — Conhecedor pratico das plantas medicinaes

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da flo ra indigena. (D iálogos das grandezas do B r a z il). Moraes
dá A rbolario, arvorario, e manda v êr H erbolario, que define:
Pessôa que cultiva e vende hervas officin áes. “ E rva bem co ­
nhecida dos herbolarios. ” (F r e i João de, C e itá ). Assim encon-
tradamente com Moraes definem o vocábulo os poucos auto­
res que o mencionam, com excepção de Cândido de Figu eiredo
que lhe dá esta defin ição: Aquelle que é conhecedor de plantas
medicinaes.
Arenga de mulher — Chuva miuda, constante, prolongada.
Arenque — Mulher magra, mirrada, feia, repellente. Vem
do nome de um p eixe da Europa, assim chamado, de que se
fazem grandes pescas para salga e secca, e dahi, consoantemen-
te com a nossa expressão, a locução portugueza: M irrado como
um arenque.
A riacó — P eix e de agua salgada, de escamas, verm elho
e pequeno.
A riquá — Abelha grande, preta rezulente. (T rig o n a rufi-
crus, L a t r .) muito abundante e que produz excellente m el.
São porem bravias, muito aggressivas nos seus cortiços ou
ninhos, immensamente populosos, e que, com o as próprias abe­
lhas, têm tambem o nome de A ripu á. “ A gora sim, camarada,
Como lhe quero contá, Queimei a minha camisa T iran d o um
a r ip u á ... Eu v i outro aripuá, D eterm inei-m e a t ir á . .. Assubi
de pau arriba Cum facho acceso na m ã o .” (F o lk -lo re Pern am ­
bucano) . Trata-se de um vocábulo tupi, e concurrentemente
escripto arapoá, irapuá. mel ardente, m edicinal. T h eodoro Sam­
paio consigna Arapuá, corruptela de irá-apuá, m el redondo, ou
ninho de abelhas rêdondo; e Baptista Caetano, Irapuá, c o r­
ruptela de irá-apoã, m el redondo, ou ninho de abelhas arre­
dondado, ou de irá-puá, abelha levantada, ou que faz ninho no
a lto .
Aristim — Elephantiasis, ichtyose das pernas e pés.
Arlequim — Brigão, provocador, m ettido a valentão, gali-
nho de campina; personagem do auto popular do Bumba meu
boi, especie de ajudante de ordens, ou m oço de recados do Ca-
vallo-m arinho, capitão, o chefe do folguedo, typo èsse que vem
do arlechino do antigo theatro italiano em cujas peças contem ­
porâneas do apparecim ento daquelle nosso auto, invariavelm en-
i e figurava, revestid o p orem de um caracter burlesco, apalha­
çado. “ O André apresentou-se vestido de arlequim . ( “ A Lan ­
ceta n . 16 de 1890),
Arm ação — As galhas ou chifres do boi, pu veado. “ Es-
pacio na lingua do sertanejo sign ifica o b o i que tem a arm a­

47
ção aberta e esgalhada. ” (José de A le n c a r ). “ Nas passagens
de alguns rios, um dos que guiam a boiada, pondo uma arm a­
ção de boi na cabeça, e nadando, mostra ás rezes o vau, por
onde hão de pasSar.” (A n ton iD .
Arm ador — Escapula ou gancho de fe rro preso á parede,
com m ovim ento para os lados, com um outro fronteiram ente
disposto, em que se prendem os punhos das redes de dorm ir:
Arm ador de rede.
Arm arinho — “ No Ttio de Janeiro, casa de negocio em que
se vendem miudezas, com o cadarços, linhas, agulhas, sabonetes
e outros objectos de pequeno valor, correspondente ao que na
Bahia chamam Loja de capellistas; em Pernambuco Loja de
miudezas; e em Lisboa Loja de capella.” (Beaurepaire Bohan).
Entre nós porém, apezar de predom inar o citado qu alificativo
de L o ja de miudezas, já de muito que vem apparecendo o de
armarinho, si bem que, não frequentem ente em pregado. “ Na-
quelle tempo tinha elle um armarinho na pm einha do L iv r a ­
m e n to .” (O N o vo Mesquita de capote n. 3 de 1847). “ Fui ao
arm arinho com prar uma camisa e arrastei de lá com estes v o ­
lumes que estavam sobre o b a lc ã o .” (Jornal do R ecife n. 231
de 1915).
Armas de São Francisco — O mesmo que Adeus de mão
fechada. “ Attendendo aos serviços que ha prestado o dono do
engenho São Francisco, perm ittiu-se-lhe o uso das armas e bra-
zões do dito Santo” . (A Lanceta n. 6 de 1889). “ Tantas mun-
gangas fez o padre a ella que, apenas as notou. As armas lhe
mostrou Do seraphico padre São Fran cisco” . (Barbosa Vian-
n a ).
Arm azenario — Aquelle que tem armazein de qualquer ge-
nero de negocio: Arm azenario de assucar. “ Não menos de seis
mi) casas de com m ercio se acham em Pernambuco, e todas el-
las de estrangeiros, assim lojistas, quitandeiros, taberneiros, a r­
mazenar ios, trapicheiros, assucareiros etc. e t c .” (O R egene­
rador B razileiro n. 3 de 1844). “ Dantes este meco era um
arm azenario de meia coronha; hoje é outro cantar! tem muita
lie rv a ” ! (O Vapor dos Traficantes n. 219 de 1860).
A rra ! — Dicção in terjectiva de ira, enfado, contrariedade,
zanga, agastamento, com as mesmas expressões dos plebeismos
1 ortuguezes A rre!, interjeição de ira, de enfado; e Irra!, apre!
com os dem onios! com a breca!
A rraia — P eix e do mar da serie ou secção dos Condrop-
terigios, ou p eixe cartilaginoso (A rraia orhicularia, Schs.),

48
com uma cauda delgada e com prida. Especies: Jabebirete
(T ra yg o n jab era) e N arin ari (Actobatis narinari, M u ll.), a
que os indios davam o nome de Itabebirete, com a sua cauda
longa, descripta e graphicamente representada por Maregra-
vi, com a denominação de Ragoe species. Nos mares de F e r­
nando de Noronha ha uma especie chamada A rraia de corôa,
que não sabemos se é a que Gonçalves Dias consigna com o
nome de Jahybúra, ou se constitue ainda uina outra especie.
A cauda do peixe, secca, fica muito consistente, e serve de
ehicote, e diz o vulgo, que surra de rabo de arraia faz sec-
car. Especie de papagaio de papel, rectangular, com a sua
competente cauda, e que solto ao vento, preso a um cordel,
sobe a grande altura. O nome de arraia vem da sua approxi-
midade apparencia com o peixe deste nome.
Arrancada — ím peto impulsivo, violento, brusco, in espera­
do, de desagrado, malcreação, máo hum or; arrebatamento, fu ­
ror, precipitação; dito ou phrase espirituosa, incisiva, pican­
te, hilariante: O Manoel tem arrancadas do diabo.
A rrancar — Estar ancioso, impaciente, íquieto, para con­
seguir ou fazer uma cousa; querer, pretender, ardentemente
desejar, aspirar. “ O sugeitinho está arrancando para coioiur
certa mocinha da rua do A m p a ro .” (A Pimenta n. 78 de 1902).
Abalar, partir, in vestir. Nos Chilenismos de Zorobabel Ro-
driguez encontramos o vocábulo com as expressões de — huir,
retirar-se apartar-se.exem plifican do: “ Quien 'de atro se retira
Es porque teme. E los hombres no arrancam De las muge-
r e s .”
Arranca-tócos — Valentão, brabo, audaz, provocador,
insolente. “ Dá o commandante uma ordem, algum tuntuqué
ou arranca-tócos, lá porque é protegido, não faz caso, não a
cumpre.” (O Barco dos Patoteiros n. 10 de 1864). “ Palavras
não eram ditas, quando o arranca-tocos desandando a mão,
mimoseou-o com um tiroteio de cascudos.” (Lan tern a Magica
n. 207 de 187). “ Uma cabra de arranca-tocos deu quengada
e muito sôco.” (A Pim enta n. 11 de 1902)).
Arranchar-se — Aboletar-se, hospedar-se, tomar rancho.
“ Os ciganos, form ando bandos numerosos, vinham arranchar-
se junto ás villas e p o v o a d o s.” (João B rigido, A Fortaleza
em 1810).
Arranco — O mesmo que arrancada.
Arranjado — Remediado, que tem com que passar, dis­
pondo de alguns bens de fortuna; ironicam ente, porem, se diz

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do que segue caminho errado em pensar e proceder: 0 Anto-
nio está bem arranjado com a sua vidóca.
Arran jar — Ameaçar, tecer um correctivo, d esforra; de­
sagravo, vindicta, p or um acto máo praticado p o r alguem, ou
o denunciar, accusar, fazer-lh e a cama: Aauelle sujeito não
fica ensòsso pelo que fe z ; eu o arran io. Eu te arranjo, m ar­
manjo, (D ic ta d o ).
Arranjar-se — Illicita e absusivam ente,encher-se,, locuple­
tar-se, tirar bom partido numa empresa, emprego, ou incum­
bência qualquer: O meco arranjou-se naquelle lugarzinho da
Alfandega. “ Os empregos só prestam para arranjar os que os
e x e rc em .” (O Guarda Nacional n. 19 de 1843).
A rran jo —r N egocio illicito , experteza, burla, patota, ex ­
pediente; A rran jo de fa m ilia ; arranjo dh vida. “ Estava um pa-
toteiro com um arranjo entre mãos.” (M ephistopheles n. 18
de 1882). “ Houve tribofe, não é possivel; aqui houve arran­
jo .” (A Lanceta n. 153 de 1913).
Arrasa — Comedor, glutão, insaciavel. Chama-se de
Bernardo arrasa a um individuo assim guloso, vin d o a locu­
ção, naturalmente, de um Bernardo ahi qu alqu er,.de estomago
elástico, d evorador. O term o vem de arrasar, nas accepções
de encher-se, fartar-se. De arrasa; grande, com pleto, de pa­
tente, mas ironicam ente, em tom depreciativo, de troca. “ Mui­
tas vezes se mostra contista, e tem contos soberbos, de arrasa”
(A Semana n . 7 de 1890).
Arrasta-pés -— Dança, reunião fam iliar, serão dançante.
“ Voltou-se do baptisado quando a orchestra apresentou-se pa­
ra entrar o arrasta-pés.” (O G rillo n. 2 de 1902). “ A propo-
sito de tudo uma festa de arrasta-pés regada de ahiá no Cea­
rá e a m elladinha e a cachimbo na Parahyba e P ern am bu co.”
(R odrigu es de C a rva lh o).
Arrasto — Grande rede de pescaria, tecidá de algodão
fiado, de malhas regulares, e que longitudinalm ente dispostas
nos rios ou viveiros, e apertando o espaço, recurvadamente,
em caminho da terra traz em cada lanço, de arrasto grande
quantidade de p eix e. Beaurepaire Rohan trata destas redes,
mas com o nome arrastão, escrevendo; “ E ’ a rede varredoira,
a rede de arrastar, que apanha grande quantidade de peixe.,,
tendo todavia o inconveniente de trazer à praia, de envolta
com o peixe grande, o peixe ainda pequeno, que não se apro­
veita. “ Para obviar este inconveniente temos posturas muui-
cipaes se bem que de letra morta, prohibindo as redes de ma­
lhas estreitas. São essas redes de arrastão, que tem entre nós

50
os nomes de varredoura, de arrastar, e de arrasto, sendo po­
rem este o vulgarmente usado. “ O projecto autorisa o go v er­
no, no caso de sedição ou revolta, a installar commissões m i­
litares. que julguem perem ptoriam ente não só os chefes do
movimento, como a*é os suspeitos, os que seduzirem homens
para esse fim , e todos os adversários do govern o em summa.
Oh! Que rede varred ou ra!” . (O Mocó n. 12 de 1851). “ V en ­
de-se uma rede de arrastar, de 45 braças, e uma de trasma-
Iho, ambas de fio de a lg o d ã o .” (O Cruzeiro n. 4 de 1829).
“ O Snr. Paes Barreto quer naturalmente pescar, e nesse in ­
tuito não se im porta de servir-se do anzol, do jerer , da tar-
rafa ou da rede de arrasto” . (A Lanceta n. 31 de 1890). “ A-
proveitaram as aguas turvas da revolu ção para lançarem a sua
rede de arrasto” . (Idem , n. 43). A locução Rede de arrasto
é extensiva ás mulheres loureiras, que não perdem vasa, nem
engeitam parada, naturalmente adstrictas an p roloqu io popu­
lar de que, tudo que vem Tia rede é p eixe. “ N o trem de O lin­
da, uma cigarreira da Lafayette fez uma rede de arrasto de
ra p a ze s.” (A Pim enta n. 80 de 1902). “ Está uma verdadeira
rede de arrasto a Josepha T im bau b a.” (Idem , n. 1 de 1908).
T razer de arrasto: Conducção dos páos cortados nas mattas,
àrrastados a cordas, até a estrada para dahi seguirem ao seu
destino em carros ou costas de animaes.
Arrebenta-buxo — Planta muito abundante na ilha tie F e r­
nando de Noronha, e de cujo fructo se extrahe uma bonita
tinta preta azulada, própria para escripta, macerando-se o
fructo e deitando-se o liquido no vinagre.
Arrebentado — Quebrado, arruinado, sem recursos, em
condições precarias, paupérrim o. “ Se não vieras tu m elhor se­
ria P T a quem anda na estica, arrebentado” . (A P rovín cia n.
64 de 1916).
A rrebentar — Chegar, vir, apparecer de subito, inespera­
damente: Mal acabavamos de falar no João, quando elle a rre­
benta em casa, surprehendendo a todos.
Arrebim ba o malho — Agradavel, bello, m agn ifico; com
chiste, graça, elegancia. “ Passei um S. P ed ro mesmo de a rre ­
bimba o malho. Gostoso, manhoso, superlapotico.” (A Pim en ­
ta n. 578 de 1907). Variantes: ribim bôm aio, rib im b ôm alh o.
“ Dançamos uma polka de rib im b om alh o.” (A*D uqueza do L in ­
guarudo n. 89 de 1877).
Arrefestelado — A rreliado, zangado, desapontado, irrita ­
do; genista, insupportavel, levado dos diabos: N ão te mettas
com aquelle sugeito que é um arrefestelado do cão; ninguém
sabe quanto está pelos pés ou pela cabeça.
A rreiado — O cavallo preparado com todas as peças..de sel-
laria para m ontar. Adornado, enfeitado, ornam entado! “ D on­
de vindes, mulher minha Que vindes tão arreiada? (Rom ance
de F re i J oan ico). D ’onde vindos, mulher minha, Que assim
vens tão enfeitada? (Rom ance de D . J o ã o ).
A rreia r .— P rep arar o cavallo com todas as peças de a r­
reios para m ontar: Um cavallo bem arreiado.
A rre-lá — D icção in trejectiva com as expressões de ira,
enfado, contrariedade, zanga; agastamento. Yem de longe a dic­
ção uma vez que figura naá velhas parlendas do p ap agaio:
A rre-lá papagaio ridículo. “ A re-lá com voçp; com o sab ido!”
(A Barca de V igia n. 5 de 1847). “ A rre-lá com tal fradinho de
tamanha in con tin ên cia .” (A Carranca n. 23 de 1847). “ Arre-lá,
não me am ofine com tamanha im pertinerícia ” (D e uma conhe­
cida m o d in h a ).
Arrelam pada — Mulher arisca zangada, na giria dos ga­
tunos.
A rrelia — Desordem, barulho, arruaça; distúrbio; conten­
da, disputa. “ Casar com viuva rica e travessa, embora seja uma
Arpia, que viva sempre em arenga, ou na m aior arrelia .”
(A m erica Ilustrada n. 34 de 1880). “ Trava-se uma lembrança
no bond que quasi vira em a r r e lia .” (Lan tern a Magica n. 513
de 1896). “ Não houve arrelia nem piparotadas na folgança,
mas a mocidade sahiu fazendo an avant de xis g o ttic o .” (A
Pimenta n. 20 de 1901). “ Sem que nem p ’ra que fazer uma
arrelia numa noite de festa, diante de tanta gen te!” (L a n te r­
na M agica n. 801 de 1905). “ Entre o Tonho e sua.diva, sem­
pre ha grande a r r e lia .” (A Pim enta n. 21 de 1902). De dia
bebo cachaça, De noite faço a rre lia ” . (T ro va s populares).
A rrelia d o — Malcreado, insolente, grosseiro, insuportá­
vel; desapontado; irritado, vendendo azeite ás canadas. “ E s­
tou damnado, estou queimado, a rre lia d o !” (Lan tern a Magica
n. 530 de 1897). “ Uma sogra arreliada E amante dó m exeri­
c o .” (O Destino dos amantes) “ Uma freira arreliada em
O lin d a .” (Pernam buco n. 346 de 1912).
A rreliar-se — Zangar-se, irritar-se, dar por paus e por pe­
dras. “ N o dia que a tal constembla se arreliar, não fica rá nin­
guém v iv o no R e c ife .” (A Pimenta n. 498 de 1906).
Arrenegado — O diabo.
A rrepiado — Desconfiado, arisco, intractavel, esquivo,

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inaccessivel. “ Venha cá, diga o seu nome, não seja tão a rre­
piada ” (O Tam oyo n. 10 de 1890).
A rrib a r — Desapparecer, fugir, ausentar-se, por-se ao
fresco, dar ás de v illa D iogo. “ Um dia, entendeu que a vjda
em republica não ia bem, e então arribou para um commodo
que lhe alugára a viuva T e r c ia .” (A Pim enta n. 30 de 1901).
“ Um padre pintou os canecos em S. José e term inou arriban ­
do para a Europa.” (A Pim enta n. 652 de .. 1908). “ F o i re-
cholido ao xadrez o indivíduo M anoel Cam illo p or haver a r ­
ribado com um taboleiro da casa da patròa.” (Jorn al Peque­
no n. 77 de 1913)- “ A mulher arribára com um amante por
quem mantinha uma voraz paixão.” (A lves Barbosa, O M i­
randa)-
Arroch ar — Dar, descarregar, desandar; esbordoar, es­
pancar. “ Chico, branco como cêra, arripia a cabelleira, e
Joanna arrocha-lhe o páo. ” (O P ovo n. 110 de 1858). “ O do­
no da casa havia concebido a grande disposição de arrochar-
me o cacête.” (A m erica Illustrada n. 27 de 1883).
A rrolh a r —■ Confundir, leva r de vencida o adversario
numa contenda; fazer calar-se, fica r embatucado, corrid o;
tapar a bocca a alguem p or suborno.
Arrum ação — Em prego, collocação: O Jo^o conseguiu,
uma bôa arrumação numa fabrica de tecidos- Expertesa, a r­
ranjo, traficancia. “ Esta epocha que uns dizem de progresso,
outros de arrumação. ” (Lan tern a Magica n- 471 de 1895).
Arrum ar-se — Encher-se, locupletar-se, tirar bom partido
de um em prego, commissão, ou uma incumbência qualquer:
O sujeitinho arrumou-se no seu em prego d’Alfandega.
Arta — O mesmo que arra!
A rte — Travessura, trela, traquinada; commetter uma fa l­
ta, um acto mdu, dar uma cabeçada: Este menino está mui­
to quieto e desconfiado; com certeza fez alguma arte. “ Que
as artes do smhô Juca São mesmo artes do demonio, Para
liv ra r delias vou rezar a Santo Antonio.” (D a chula Sinhô
Juca). “ A h i está no que deu a arte do moleque. T eve que v o l­
tar para casa com o corpo m oido ” (O Tico-tico n. 447 de 1,914).
A rteiro — Traquinas, treloso, travesso; emprehendedor,
habilidoso, in telligen te; prevenido, sagaz, fino- “ A onça anda­
va sempre a ver se pegava o macaco; mas o macco muito a r­
teiro, sempre escapava delia.” (S ilv io R om ero).
Articulista — Autor de artigo de jornaes; polemista que
sustenta e discute na imprensa uma questão. “ Perdoe-nos o
articulista se n a rra n d o -a ' verdade, lhe causamos algum mal.”
(D ia rio de Pernambuco n. 81 de 1916).
Aruá — Pequeno molusco gasterópode, especie de buzio
ou concha, espiral, ovoide, de um verde escuro quasi preto-
qu e se encontra nos alagadiços de agua doce, contendo uma es­
pecie de m arisco que-se com e guisado. E ’ p ro vá vel que tambem
exista nos rios, porquanto, com o refe re Fernando Halfed,
entre os mariscos, conchas e buzios que encontrou no S.
Francisco, menciona um a que chama de arruá, naturalmente
o p ro p rio aruá, com o se chama entre nós. Lopes Gama no seu
period ico Q Carapuceiro ns. 62 e 74 de 1842, faz referen cias a
um tempo do toque do aruá, e da catinga do aruá, entre nós
e chama-se de bocca de aruá, as que são recurvadas, quasi
sfemi-circulares, com o a do molusco, de movimentação, para
ab rir e fechar- Aruá, concurrenlem ente no Ceará, designa uma
especie de ostra de agua doce, arredondada, que se prende ás
pedras (G lossário cearen se); e nas Alagoas, como escreve
A lfre d o Brandão, entre os crustáceos, apparecem o pitu, o
carangueijo e o aruá, que Theotonio R ib eiro registra como ca-
rangueijo, que se cria ás bordas dos riachos e produz òs vinhos
reseos, que. são muitos inedicinaes. Tam bem entre nós, o
Lam bedor de aruá é muito preconizado com o de virtudes
peitoraes. A dicção vem do tupi, aroim, marisco, carangueijo
ou de aroaiity segundo Martius e assim com o Gonsalves Dias
escreve no seu D icçionario, consignando ainda o vocábulo
aruá concha do R io Branco, que tambem se encontra em ou-
tío s lugarèS) ao norte do paiz. Finalm ente, estudando Macedo
Soares o term o aluá, com, que é conhecida a popular e re fr ig e ­
rante bebida do norte, e que entre nós se chama alôá, como v i­
mos, acha possivel que seja corruptela de aruá, cousa agra-
davel, bôa cousa, gostpsa, apreciavel. E ffectivam ente, o aluá,
tem na Bahia o nome de aruá: “ As pretas africanas, á som­
bra de gam elleiras parasitadas, vendem o aruá fresquissim o.”
(A n ton io GarmeJo).
Âruanã — Especie de tartaruga (C h elon io s) muito abun­
dante nos mares do archipelago de Fernando de Noronha-
A rv e lo z —- Planta que prodigiosam ente vegeta na zona
sertaneja, e qúe produz em abundancia um liqu ido á especie
de leite de grande efficacia para a cura das moléstias cancroi-
des.
Assadeira — Vasilha de m etal ou b arro para assar.
Assanhado.— Inçuieto, desassocegado, boliçoso, sem mo-

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do e compostura, sem termos de gente. “ Mamãe se iTaiu-
na, com umas mocinhas assanhadas, que se postam no sereno
do ensaio da banda musical de Beberlbe.” (A Pim enta n. 615
de 1907). “ Na verdade esta viuva E ’ p or demais assanhada;
Pois tendo a cabeça branca *nda quer ser namorada.” (Id em
n. 641 de 1908). Exaltado, enraivecido, furioso- “ E ’ demais
perigoso excitar as suas iras de cobra assanhada.” (O Lidador
n. 239 de 1847). Cabello não penteado, revolto, em desalinho:
Cabello assanhado. “ Não sei que tem meu cabello Que não se
doma com banha;. Quanto mais banha lhe boto, Muito mais
elle se assanha.” (D o cyclo das nosaa quadras populares)
D erivados: Assanho, Assanhamento. “ Mamãe se damna com
o assanhamento de certa viuvinha na igreja de B eberibe.” (A
Pim enta n. 654 de 1908).
Assassinar — Pessimamente executar uma peça dramatica
ou musical.
Asseiro — Lim pa ou roçagem do matto em volta de uma
coivara, guardando-se uma certa largura, para isolal-a, afim
de que o fogo não se communique aos campos circumvisinhos,
e lavre somente no trecho encoivarado para preparo de um
roçado ou campo de plantação. “ Cabelleira atravessou o assei­
ro e penetrou no canavial.” (F ra n k lin T a v o ra ). D erivado: As-
seirar.
Assentamento — Plataform a de alvenaria nos antigos enr
genhos de assucar. onde estão assentadas as tachas de fe rro
sobre fornalhas cujo fumo sahe p or uma elevada chaminé.
Nessas tachas, commumente em numero de cinco, é onde se
lim pa o caldo da canna e se evapora até a concentração para o
o assucar cristalizar. “ E xprem ida a canna nas moendas, o cal­
do é aparado no p arol e deste segue em bicas para o assenta­
mento, o qual consta, em regra, geral, de cinco tachas, onde vai
se fazendo gradativam ente o cozim ento até a separação das
impurezas e a apuração do m el.” (A lfre d o Brandão)
Assistente — Denominação moderna de parteira, que an­
tigamente tinha o nome de aparadeira, de aparar as crianças
ao nascer, com o tratamento intim o de comadre. Para indicar
então a sua casa de residencia, se via uma cruz preta pintada
no portal. Assistente examinada: a que fez o curso de obste­
trícia no Hospital Ped ro II, ou prestou exame de sufficien-
cia no H ospital. “ A Sra. Jgnez Maria das Virgens continua a
prestar os seus serviços de asistente.” (A m erica Illustrada n.
35 de 1878). “ O pobre homem apressadamente caminhava em
procura de uma assistente para a m ulher.” ((M ephistopheles
n. 39 de 1882). “ Parteira, antigamente, era quasi sempre uma
mulata velha dos peitos grandes,' de saia e timão, e moradora
na rua da Roda, ou no beco tapado do largo da m atriz de San­
to Antonio. Se algüem dicesse que tinha visto uma senhora de
certa ordem exercendo a profissão de assistente, conform e h o­
je se chama, dizia logo: estamos no fim do mundo! Si aquel-
la gente hoje existisse e visse uma senhora respeitável, bem
trajada, andando a carro, e exercendo a profissão de assistente
cóm que pasmo não exclam aria. Coitada! Está feito p a rteira !”
(Lan tern a Magica n. 466 de 1895). E ’ dahi que vem o dictado
depreciativo da filiação de um indivíduo dç quem se <tuer
chasquear: F ilh o de meirinho com parteira.
Assucareiro — Negociante de assucar de exportação. “ Os
assucareiros especuladores, que assucar vendem de diversas
c o r e s .” (O Barco dos Traficantes n. 5 de 1858). “ Os assuca­
reiros se tem associado parà im porem o preço do assucar, e
tem conseguido.” ( A Duqueza do Linguarudo n. 88 de 1877).
Assumptar — Examinar, observar, prestar attenção; in ­
teirar-se das particularidades de uma cousa qualquer, para
descobrir um segredo, fica r senhor do assumpto, e resolver
coin acerto. “ Assumpta bem, e ápanha as tenções delles.” (A f-
fonso A r in o s ). “ Estou assumptando, era outra phrase, que
S ylvio Rom ero muito usava, de accentuado sabor nortista. (A r-
thur G uim arães).
Assungar — Subir, trepar, galgar, elevar-se; levantar p a­
ra cima: Assungar a saia, o vestido; assungar-se numa a rvo ­
re.
Atabaque ou tambaque — Instrumento musico dos africa ­
nos, especie de tambor, muito estrepitoso, e usado nos s us
batuques e bailados.
Atacar — Comprar ou vender por atacado, por completo,
uma partida de qualquer m ercadoria.
Atamancar — Retardar, remanchar, protellar, ganhar tem­
po.
Atarrachar — Apertar a alguem com pedidos instantes e
empenhos valiosos para a obtenção de qualquer cousa: O m i­
nistro viu-se tão atarrachado, que acabou cedendo. Respon­
der com vantagem, dar uma resposta de mestre, de embatucar,
de atarrachar.
Atirado — Audaz, emprehendedor, arrojad o; atrevido, -e-
tu lante.
Atôa — Insignificante, sem im poratncia alguma, desprezi-

56
v e l : G e n t e atôa. M u l h e r atôa, m e r e t r i z . A n d a r a t ôa ou a t oa m
te: mal a r r a n j a d o , de um I r a j a r d e s c u r a d o ; va g a n do , sem o r i ­
e n t a ç ão e r u m o c e r t o : A n d a r p o r ahi a 1'óra a t o a m e n t e .
Àtocalhar — Espreitar, vigiar, fazer espera de alguem em
lugar certo de passar, de transitar. “ Quebrando o namorado
os seus protestos de amisade, a moça perdeu a compostura,
atocalhou o fona e deu-lhe um baile.” (A Pim enta n. 643 de
1908). D erivado o vocábulo do tupi tocaia, vem dahi o verbo
Atocaiar, como escreve Macedo Soares, fazer tocaia ou espe­
rar a alguem; esconder-se para com surpreza atacar a ou­
trem ; assaltar nas trevas ou no erm o; Tocaiar, (Beaurepaire
R ohan) fazer esperar a alguem com o fim de o matar trai­
çoeiramente, e em bom sentido, espreitar a alguem, p or quem
se espera em certo e determ inado lugar; Paulino Nogueira,
igualmente escreve Tocaiar. que quer dizer esperar espreitan­
do alguem para atacal-o quando passar pelo lugar; em fim o
Visconde de P orto Seguro (V arn h agen ), que nos Indios Bran­
cos escreve Tucajár, com iguaes expressões.
Atrapalhoádo — P o r trapalhado, perturbado, confuso, em­
baraçado. “ P o r Baccho! Estou visivelm ente atrapalhoado pa­
ra falar da E m ilia.” (A m erica Illustrada de 19 de março de
1873).
Atravessado — Falar mal uma lingua, incorrectam ente, em-
brulhadam ente. “ Conta-se que no Ceará fizeram esta experien-
cia (a prova de Santa Luzia, para saber-se se o novo anno será
secco ou chuvoso) diante do naturalista George Gardner, mas
o sabio fazendo observações m eteorologicas, e chegando a
tini resultado differen te do attestado pela santa, exclam ou em
seu portuguez atravessado: “ Non, non, Luzia m e n tio .” (S yl-
vio R o m e r o ).
Attentado — O diabo; traquinas, boliçoso, desenvolto, es-
pritado, levado dos diabos. “ Mas a menina atentada, diz
ella, é um a b o d e g o .” (Lanterna Magica n. 565 de 1898).
Atucanar — Pedir, atorm entar impertinentemente, insis­
tir; intrigar, m exericar teimosamente, obstinadamente, p ro ­
curando sempre contar demoradas e maçantes historias; fa ­
lar aos gritos, cantarolar de modo incomm odo: Atucanar os
ouvidos, a paciência alheia. A dicção vem de tucano, conhe­
cida ave trepadora, de bella plumagem e enorme» bico, cur­
vo e dentado, cujo bater frequente sobre os troncos das a rvo ­
res e cantar agudo e estridente são assaz encommodos.
Auatá — Andar, caminhar a esmo, sem destino e orienta­
ção, á toa, á m atroca; e segundo Moraes, que recolheu o vo-
cabulo em Pernambuco, errante pelo campo, fóra de casa, p e r­
dido, exem plificando: Andam os carangueijos, as moças auatá.
A dicção vem do facto muito vulgar de ern certas epochas
deixarem os carangueijos as suas locas, e espalharem-se pelos
mangues e campos circumvisinhos, ou nadando mesmo ao ru­
mo da corrente, sem direcção nem destino, e tão inertes, que
se deixam facilm ente apanhar. O autor dos Diálogos das gran­
dezas do Brazil trata particularmente deste phenomeno, con­
cluindo: “ E dizem os naturaes, quando se acham estes can-
rangueijos por esta maneira, que andam ao atá, que sôa tanto
cómo andar lascivos.” Como que, consoantemente, refere Macedo
Soares, que andam elles assim a tôa, sem direcção, quando es­
tão na desova. No cyclo das nossas modinhas populares ha
uma sob o titulo, O carangueijo, que segundo T heodoro Sam­
paio vem da epocha da Tndepcndencia, e assim com eça: Ca­
rangueijo anda ao atá Procurando a sua entrada, Vem seu mes­
tre titio Faz dos carangueijo cambada.” Com o goyamum, espe­
cie de carangueijo, de um bonito azul, occorre o mesmo phe­
nomeno, dando-se como causa as chuvas ou es trovoadas. E f-
fectivãmente, já em 1(527 escrevia o historiador F r . V icenie
do Salvador: “ Os guaiamús em as prim eiras aguas do in v e r­
no, quando estão mais gordos e as femeas cheias de ovas,
sahom das suas cóvas e andam vagando pelos campos e es­
tradas c mettendo-se pelas casas.” Vêm de longe, portanto, es­
tas crenças sobre o phenomeno. “ Andam como goiamuns em
tempo de trovoada, ao atar, sem saber o que façam ” . (Am e­
rica Illustrada n. 2 de 1885). “ T odo mundo sabe que com a
trovoada os carangueijos andam ao atar, aos pon ta-pés.” (A
Lanceta n. 29 de 1890). A dicção vem do tupi, uatá, andar,
caminhar, vagar, e dahi uatá-bó, caminhando, como escreve
T heodoro Sampaio; Gonçalves Dias consigna o vocábulo oatá,
andar, caminhar e a locução oatá atá nhóte, vagar; c Martius
oatá (goatá) andar. Notam-se em fim, como expressões o rig i­
narias: Uataçara, o viajante, o cam inheiro; Uatacába, a v ia ­
gem, o passeio; e Uatá rame, indo, passeiando.
Au rora — Madeira pouco conhecida e explorada, porem
de préstim o a construcções civis.
Avacalhamento — Não podemos tratar deste m oderno vo
cabulo sem lançar mão de alguns lopicos de um interessan­
te artigo que a respeito do seu npparecimenlo, no R io de Ja­
neiro, escreveu O C orreio da Manhã e logo transcripto no
Pernambuco n. 260 de 1913. São estes os trechos em ques
tão: “ Este neologism o appareceu ha duas semanas, ereado por
um deputado desgostoso com o seu chefe, c todavia, já tem
fóros de cidade. 'Elle serve, principalm ente para d efin ir a
duplicidade dos p olíticos. Assim, nesta esquentada luta das
candidaturas presidenciaes, quando algum tergiversa e opina,
ora por um, ora p or outro candidato, diz-se da pessoa, não que
trahiu, que marombou, que dansou na corda bamba (phrases
antigas e renegadas), mas que se avacalhou. Na Camara, cen­
tro e foco da politica, está mesmo sendo organisado um p ar­
tido m oderno: o dos avacalhados. Como o term o está clara­
mente indicando, avacalhamento quer dizer amor ás vaccas,
amor, por conseguinte, ao que ellas demais p roveito produ­
zem, que é, salvo m elhor juizo, o leite. O avacalhado é o h o­
mem que se colloca sempre na posição de sugar, não p rop ria­
mente leite de vacca, mas o leite do Thesouro, o leite das p ó-
sições, o leite dos orçamentos, o leite do g o v e rn o . . . Não se
podendo desligar do term o avacalhamento a idéa do leite, se­
gue-se, pois, que os avacalhados são os politicos que evitam
o ostracism o.” O termo, que isoladamente appareceu, teve
logo um cortejo de derivados logicos, que reunidamente
entraram em circulação constituindo, assim as dicções do m o­
mento, da moda; e essa moda fo i logo introduzida entre nós,
pela própria imprensa indigena, e espalhada pelo vulgo, e
dahi estes conceitos de um p eriodico illustrado, do R ecife (A
Lanceta n. 158 de 1913): “ A gora anda em vóga o term o nada
parlamentar, que a oratoria apresentou em um momento dc
ogerisa: Avacalhou-se! Os clássicos levam as mãos aos céos,
indignados, mas o termo, pelo momento em que appareceu,
pela surpreza que offereceu e pela onomatopéa sym bolica que
intenta traduzir, vingou completamente e hoje se applica a
torto e a d ireito com o se nos diccionarios nada houvesse de
mais expressivo e co m p leto .” Sobre a expressão do vocábulo
e os seus derivados escreveu então o nosso illu stre conter­
râneo Bastos T igre, sob o pseudonymo de D. Xiquote, na sec­
ção Pingos e Respingos do jorn al fluminense o C orreio da
Manhã, as seguintes e espirituosas sextilhas: “ Eis a palavra
da moda Dos politicos na roda, P o r toda parte se espalha,
E ste paiz hoje em dia E ’ uma grande vaccaria Em que tudo sc
avacalha. Senador que grita forte Seja do sul ou do norte, Ou
deste ou daquelle Estedo, Do chefe sentindo o relho, Curva a
fronte, dobra o joelh o: E eil-o um typo avacalhado Cres­
ce o curral. Dia a dia Correm todos á p orfia A soltar urros de
dôr. A cavallo no terceiro, Vai a tocal-os P inh eiro, Supremo
avacalhador. Da boiada dá-se o estouro. P orem com medo do

59
couro V o lta m , Jodos num m om ento. Atropelam -se na estrada
Os estouros da boiada Depois do ayacalham ento. Mas o dono
da fazenda Sem p ôr o seu gado á venda, V ai ganhar um d i­
nheirão E diz a rir, com deleite: Vou ter o trust do leite Com
esta avacalhação” .
Avança — Introm ettido, mettediço, intruso; o que sem
convite com parece a festaS particulares, entrando cynicamen-
te p e la casa dentro, sein conhecim ento algum do dono, ina-
presentado mesmo, e sem a m enor cerem onia, dança e folga,
toma conta do buffet, e á hora do banquete avança para a
mesa, e com a barriga dando horas com e a fartar, á tripa
fo rra . “ Dir-se-hia mais João Fernandes V ieira o mestre má­
xim o do avança, não do singelo e momentoso avança para o
buffet das festas publicas, ju stificável pela fom e que não raro
punge, em m eio de esplendida prosperidade apparente, 'mas
do calculado, do manhoso avança, estratégico e táctico, feito
de humildade e insolência, do silencio e audacia, de pacivida-
de e arrojo, e cujo objectivo é conseguir um lugar v ita líc io
no banquete da v id a .” (C on de de A ffon so C e lso ). Em 1915
appareceu um period ico sob o titulo: Avança, bi-semanario,
humorístico, critico, noticioso e illustrado.
Avestruz — “ Sujeito que não bebe nada, frequentador
de botequins e gangorras.” (A Pim enta n. 65 de 1902.) “ Para
a casaa de banhos affluem alguns amadores do avestruz, que
saem cambaleantes.” (Id em n. 5 ). i Bancar avestruz: to ­
mar carraspanas; entregar-se ao v icio da embriaguez,
A v itreiro — Curruptela de alcoviteiro, e com as suas p ró ­
prias impressões.
A voadeira — Mulher sacudida, assanhada, de máos modos,
desregrada, de vida fa cil.
Avoado — Estróina, pancadorio, azoado, de cabeça nos
ares.
A voar — Atirar, jogar, lançar, arrem essar: A voar uma pe-
d ra : avoar-se no chão.
A vô-torto — O m arido da avó legitim a, que enviuvando
passa a segundas núpcias, como avó-torta é a mulher do avô
legitim o. O uvir novas da avó-torta: uma descalçadeira tre­
menda. “ Bastante fundamento tinha minha avó-torta, para
dizer-m e depois de uma grande maçada: meu netinho não
ha mal que sempre dure, nem bem que Bfenca fin d e .” (O D ia­
bo a quatro n. 2 de 1875).
A xu liar — Passar uma costura ligeira ao correr dos ex ­

60
t re m o s da f a z e n d a de uma p e ç a d e r o u p a q u al q u e r , d e p o i s de
e m p a n a d a ou uni da, p a r a n ã o se d e s f i a r .
Aza — Braço: Pegar, puxar por uma aza. Andar de aza
cahida; triste, muncho, succumbido. Azas da fam a: fastigio,
gloria, renom e: Andar nas azas da lama. Arrastar as azas: fa ­
zer a côrte a uma dama. “ O Totó mui prazenteiro arrastava a
aza qu ebrada.” (D ia rio de Pernambuco n. 149 de 1916). Aza
branca: especie de rola muito vulgar (Columba leucoptera,
V ie u x ). Aza negra: jettatore, pés frio s; individuo de influencia
m aléfica, perniciosa, de máos olhos. Bater azas e voa r: fugir,
desapparecer m orrer. Cortar as azas: cercear a esphera de at-
tribuições de alguem, rebaixar da sua autoridade.
Azaranzado — Confundido, aílterado, atrapalhado, pertur­
bado; desarranjado, tonto, adoidado m esm o. Macedo Soares
consigna os vocábulos assaranzado, como synonim o de avoado,
e assarranzar-se, dando a este verbo as expressões de atrapa­
lhar-se, fica r tonto, abobado. Azaranzado vem, naturalmente,
de zaranga que, segundo Aulete, se diz das pessoas atabalhoa­
das; doidivanas, que fazem tudo sem tino; cabeça de ven to:
e assim figurando na giria doS gatunos do R io de Janeiro com
as expressões de attonito, confuso, perturbado. Zorobabel R o-
dídguez inscreve nos seus Chilenismos o verbo azarearse 11a-
marse, de azar, de sobresalto, correspondentem ente a descon­
certar-se, desazonar-se, inquietar-se escamar-se.
Azarento — Em m aré de caipora, com a fortuna adversa,
em luta com os contratempos da vida, aos azares da sorte. A n ­
dar azarento: “ Prenderam o vigarista, e fo i incontinenti re-
m ettido para o xadrez do R ecife, onde elle bem deve ter la ­
mentado a sua- azarenta sorte.” (O Estado de Pernambuco n.
16 de 1914). D erivado: Azarado. “ O crim inoso utilizou-se de
uma pequena faca, instrumento de que se servira para a p ró ­
pria defesa, no momento azarado.” (D ia rio de Pernambuco n.
152 de 1916).
A zeite com broxa — Conjuncto de cousas iterogeneas,
discordes, sem nexo, sem harm onia. E ’ tradicional, que a lo ­
cução vem do seguinte facto: H avendo de uma feita grande
falta de azeite no m ercado de certa localidade, e tendo um
vendelhão uma avultada porção de broxas, sem sahida algu­
ma, aproveitou-se da opportunidade para se v er liv re de se­
melhante alcaide, só vendendo o seu azeite, que tinha em p o r ­
ção a quem igualmente ficasse com certa qüantidade de b ro ­
xas, vendo-se assim liv re delias sem preju izo algum.
A zeiteiro — Individuo que procura com insistência, im ­
61
pertinência, mas com certo geito e habilidade insinuar-se no
animo de uma mulher para conquistar os seus affectos; mão
de ãpparelho de um nam orico: e na giria dos gatunos do R io
de Janeiro, ru fiã o; amante do coração; o que v iv e á custa de
uma m ulher. “ Não gosto de v êr um velh o gaiteiro, azeiteiro.”
(A m erica Illustrada de 18 de Outubro de 1874). Mas, como diz
o rifão. Côco velho é que dá azeite. “ Meia duzia de atoleimados
azeiteiros.” (Lan tern a Magica n. 37 de 1883). D erivados: Azei-
tação, azeitar, de expressões obvias, N o carnaval de 1914 f i­
gurou um club sob o titulo, Os azeiteiros da rua Nova, que no
seu canto de marcha figuravam estes versos: “ Os azeiteiros
como uma p rova. Do grande valor sem p a r . .. Da Casa Ingle-
za As caixeirinhas vão azeitar.”
Azeitona — Caganita de cabra, assim chamada pela seme­
lhança na côr e fórm a entre uma er outra cousa, vindo dahi o
conhecido p roloqu io: A cabra apregoa m el e vende azeitonas.
Azoação — Trote, surriada; vaia de moleques com assobios
e gritaria in fern al.
Azogado — Irritad o, agastado, enfadado: genista, colérico,
malcreado, levado dos d i a b o s “ A sogra anda sempre azogada
em sua vidà.V (Lan tern a Magica n. 501 de 1896). “ O capitão
é um typo azogado, que não teme ca reta s.” (Pernam buco n.
330 de 1913).
Azoratado — O mesmo que azaranzado. “ V ai fugindo
azoratado, da m olecal re b o rd o sa .” (D e uns versos politicos
de 1833).
Azucrim — Im portuno, maçante, cacete, am olador. Aos
mais pertinazes e im pertinentes dá-se o nome de Azucrim de
aza branca, “ Os azucrins! São fortes! Olhem que é preciso
ter paciência de Christo, ou de Job, para os s o ffr e r .” (A m e ri­
ca Illustrada de 18 de F e ve re iro de 1872). “ As sogras ricas
são os eternos azucrins dós genros p o b re s .” (Idem , de 10 de
Agosto de 1873). “ Esqueci-me de perguntar ao P aiva se elle
ainda continuaria com a intenção de m etter no xadrez da
p olicia o azucrim, que á força metteu-lhe a sorte ha algibei­
r a . ” (A Pim enta n. 40 de 1902). Esta dicção não é antiga,
e no Çarnaval de 1873, quando estava em muita vóga, appa-
receu o numero unico de um jornalesco hum oristico com o
titulo: O Azucrim, que ainda circulou em 1883. D erivados:
Azucrinação, azucrinado, azucrinar. “ E uma azucrinação A
praga das loterias. Que correm todos os d ia s .” (Barbosa Vian-
na), “ Desde que appareceram as extracções diarias da lo te­
ria nacional, irrom peu neste R ecife uma praga de vendedores
62
de bilbetes, que azucrinam os transeuntes.” (A Pim enta n 40
de 1902).
Azulão — Passaro de bella plumagem e agradavel canto,
(G uiraca canoea, Less) assim chamado da sua côr de um
pronunciado azul ferrete.
Azular — Desapparecer, fugir, pôr-se ao fresco, dar ás de
villa' D iogo. “ A empreza dramatica Palacio, L y ra & C.a está
de malas arrumadas e prompta para azular-” (A Pim enta n. 15
de 1901). “ O aggressor desconhecido azulou, e o aggredido,
bastante 'contundido, fo i para casa tratar-se com panos- de ar-
ic a .” (Pernam buco n. 303 de 1902). ” 0 Chico, afinal, azu-
>u do m inistério da fa zen d a . ” (Idem , n . 156 de 1913) -

63
B
Bababi — Surra, tunda; bordoada, pancadaria velha; páo,
:acete, tabica. “ Tu és muito feio, Cavalcante, e o irm ão da
noça está se armando para te m etter o bababi.” (A Pimenta
1. 25 de 1902). “ O coió se não corre mettia-se em bababi.’
;idem n. 81). “ Meetings e barulhos por causa do sorteio mi-
it a r . .. e a gente estaciona nas immediações da Praça da In-
lependencia, á espera de v êr um bababi de verdade. (L a n te r­
na M agica n. 889 de 1908).
Babado — Folho, no sentido de tiras, em pregas ou não,
eom que se guarnecem saias, vestidos e outras peças de rou­
pa de m^ilher; e usado no diminutivo, babadinho, para indicar
o estreito, de pouca largura. Em outros tempos, porem, ti­
nham os babados mais outras applicações, como, nomeadamen­
te, nas toalhas, fronhas e rodapé das camas de armação, ou de
casal. “ A i! me largue o babado! A i! me largue, diacho! Que
diacho de p a d re!” (D a chula O ladrão do padresinho). “ As
mocinhas, cheias de laços de fitas e de saias de babados, já v i­
vem nas brincadeiras, pintando o s e te .” (A Pim enta n. 536
de 1907). Casusa, babado se usa? — (D ictado p op u la r). V a li­
mento, prestigio, influencia, empenhos de m ulher: O cabra
pegou-se nos babados da mulher do m inistro e conseguiu as­
sim uma bôa collocação. Agarrar, pegar, segurar pelos baba­
dos; abecar, abotoar, in vestir. “ O sapateiro agarrou pelos b a­
bados do preopinante e gritou-lhe; pague prim eiro as botinas,
e frite d ep o is.” '( O Cometa n. 28 de 1844). “ A garrei a velha
pelos babados, atirei-a em cima do bruto e ganhei o m u n d o.”
(A Pim enta n. 540 de 1907).
Babador — O mesmo que babadoiro, como escreve Aulete:

65
panno que se põe sobre o peito das creanças, para se não en­
xovalharem com á baba ou a com ida. O term o porem, já vem
de longe, com o se vê de Bluteau, que escreve: “ Babadouro: O
panno de linho que se põe sobre o peito dos meninos, para
que não sugem os ves tid o s.”
Babaquara — F in orio, expertalhão, sabidorio; um indi-
viduo já maduro, velhaco. “ Mãe que consente um babaquara
velho dentro de sua casa com uma filh a solteira” ! (O P ovo
n. 88 de 1858). “ De bigodes tão com pridos O babaquara sen­
tado. Yê-se naquelle momento Um pouquinho a p errea d o.”
( A Pimenta n 498 de 1906). “ O povin h o reluzente do club
dos babaquaras.” (A Lanceta n . 99 de 1913).
Babáu! — Acabou-se! E ’ tarde! Adeusinho! Está tudo p er­
dido! Não ha mais rem edios!: Babáu, sinhá M iquilina! V á cho­
ra r na cama que é lugar quente. Taes são as expressões desta
dicção in terjectiva na occurrencia de um facto consumado,
de uma pretenção frustrada, de um negocio que fracassou .”
“ Tom em lá esta liçã o . Então, ainda fazem gu efra? Querem
inda o Sete em terra? Babau” ! (de uns versos politicos de 1834
sobre a revolu ção de sete de A b ril de 1831). “ Pois então, meu
amiguinho, outro o fficio , que o de official-m aior, babáu Se­
nhor D o u to r.” (O Postilhão n. 16 de 1846). “ Agora, Doutor,
babau! Perdeu todo o seu la tim !” (A m erica Illustrada n. 35 de
1881). “ Am igo Carlos Alberto, sumiu-se tudo; babáu” ! (A P i­
menta n. 9 de 1890). “ Acabou-se a dictadura, findou-se tudo;
babáu! (A Lanceta n. 53 de 1890). “ O Velodrom o, b a b á u !...
Adeus vidinha adorada; muita gente ha de chorar de lenço na
m ã o . ” (A Pim enta n . 638 de 1908). Esta dicção é brasileira,
ou de origem portuguezia? A este respeito occorre: Bluteau,
autor do mais antigo vocabulário portuguez, não a consigna,
nem Moraes, que o seguiu: mas o continuador do seu D iccio-
nario (quarta edição, 1831) a inscreve, com o se v erifica do
signal in dicativo dos termos accrescentados, porem com esta
expressão: Golpe ou pancada de duas bolas entre si, natural­
mente copiada de Constancio, autor mais antigo, e assim che­
gamos ao D iccionario de Lacerda (1858-1859), que inscreve o
vocábulo pela prim eira vez como uma expressão de que usa o
vulgo para dar a entender que uma cousa se acabou, ou não tem
remedio, vindo dahi a sua repetição pelos modernos autores
como V ieira, Aulete e Cândido de F igu eired o. Ora, verifica d o
que o vocábulo, com as nossas consignadas expressões, já era
corrente e vulgar no B io de Janeiro em 1834, documentamen-

66
te sabido, e aqui em Pernambuco em 1846, igualmente, como
vimos e que somente em 1855-59 teve assim, pela prim eira vez,
codificação lexicologica p or Lacerda, parece que é de origem
brasileira, a menos que não appareçam documentos que des­
truam estas nossas considerações provando o contrario.
Babóca — Barranco, cóva, depressão de terren o. “ O
acompanharemos até ás babócas da matta do Bezouro em 1835,
onde o deixarem os por um p o u co .” (O Lib eral Afogadense n.
2 de 1845).
Babuzeira — Trapalhada, confuzão, desordem ; parvoice,
asneira, tolice. “ Encher um pote de asneiras, com babuzeiras
de espan tar.” (A m erica illustrada n. 2 de 1877). “ Já tarda­
va que nas repartições de fazenda não apparecessem também
babuzeiras.” (Idem , n. 37 de 1879). “ Os actos dos homens de
hoje só exprim em babuzéira extravagan te.” (Lan tern a Magica
n. 210 de 1888). “ Os socios do Club de Esgrim a foram abo­
licionistas <je mãos cheias, tão cheias como os seus annuncios
de festas estiveram cheios de banalidades e babuseiras.” (O
Tam oyo n. 4 de 1890). “ E m fim chegou o dia da forrobodan-
cia, e fo i aquella babuseira na expressão da p a la v ra .” (A P i­
menta n . 36 de 1902).
Babylonia — P red io grande, espaçoso, com muitas accom-
modações: Esta casa é uma Babylonia!
Bacafusada — Embrulhada, confusão, misturada; desor­
dem, alteração, barulhada. “ Grande bacafuzada fez a rapazeada
no th e a tro .” (Lan tern a Magica n. 10 de 1882).
Bacalháo — Azorrague de couro crú, trançado ou re to r­
cido, <Je duas ou mais pernas. “ Instrumento de açoitar cap-
tiv o s .” (D ia rio de Pernambuco n. 223 de 1829). “ O carras­
co com um bacalháo, isto é, com um açoute de quatro pernas
de couro crú retorcido e presas só no cabo, açoutou a victim a
quatro v e z e s .” (A . J. de M ello ). “ A Antonio Rodrigues, h o­
mem pardo, mandaram os vencedores (os mascates) açoitar
com bacalháos.” (G uerra dos Mascates, 1710). “ O subdelega­
do mandou am arrar o homem em um carro no m eio da p o­
voação, e descendo-lhe as calças mandou descarregar-lhe tre ­
zentos açoites com um bacalháo.” (O Echo Pernambucano n.
4 de 1847). Bacalháo de porta de venda: Mulher demasiada­
mente magra, escaveirada, em allusão ao conhecidissim o p eixe
daquelle nome, que salgado e secco vem da T erra N ova, em b a r­
ricas, ou ein caixas, da N oru ega. M etter o bacalháo: D etractar;
diffam ar, bordoada de lingua. “ Quando vires tal burro fazer
echo, M ettendo o bacalháo na vida alheia. N ão perguntes que
67
é. é F e fe c o . ” (J. Barbosa Cordeiro, 1824). P 'r a quem é baca-
lháo basta: Qualquer cousa serve; não vale a pena encommo-
dar-se.
Bacalhoada — Certa com ida feita de bacalháo. Açoite,
golpe, pancada com o azorrague bacalháo. “ N o Caixa d ’oculos,
uma dose de capacidade, e nos mais seis bacalhoadas.” (O
Barco dos Patoteiros n. 24 de 1864).
Bacamarte — M ulher alta, robusta, de typo va ro n il; cou­
sa atoa, despresivel, que não presta; cavallo ordinário, pesa­
do, máo corred or. “ Nos prados não ha bacamarte alguem que
não tenha chamado para as algibeiras dos trib ofeiros o chum-
binho a lh e io .” (O Tam oyo n. 6 de 1890). “ Houve t r ib o fe ...
sempre os bacamartes na p o n ta .” (A Lanceta n. 153 de 1913).
Bacáno — Pessôa rica, sugeito endinheirado, em condi­
ções de ser roubado. (G iria dos gatunos).
Bacatéla — P reço ou custo baixo, insignificante, baratis-
simo, de uma cousa qualquer que se com pra. “ Tu qu e.és um
burro de marca, Só mereces uma sella; E isto te offertam os
Porque custa bacatéla.” (O Diabo n. 10 de 1883).
Bacóra ^— Chapéo de feltro, duro, de cópa arredondada e
baixa. “ Bastião fo i a Olinda. Passeiou na praia e viu toda
aquella gente alegre que banhava. T eve impetos de cahir
n‘agua e, de frack e bacóra atirou-se ao m a r ... Form igão usa
frak preto, bacóra da mesma côr, e bengala de v o lt a .” (Jornal
do R ecife n. 35 de 1915).
Bacorinha — Chapéo alto, cartola. “ Tem relogio, parado,
mais inglez, cadeia de double chaine de platina, e uma baco­
rinha nova e fin a .” (O Etna n. 28 de 1882). “ O que não as­
senta bem em cabeça de fidalgo janota é aquella bacorinha,
jaca, ou cousa que m elhor nome h a ja .” (O Diabo a quatro n. !.'8
de 1877). “ Esse fona quasi velho, usa de chapéo b a corin h a .”
(A Pim enta n. 64 de 1902).
Bacorinho — P orco novo, pequeno, cevado “ F ilh o de vac-
ca é bezerro, e de porco bacorinho.” (T ro v a s populares). “ A n i­
mal suino, bacorinho, cevado, ou p o r c o .” (O Sete de Setem­
bro n. 37 de 1864). “ Na cerca da ceva o bacorinho coinchava
atolado na la m a .” (C oelh o N e tto ). O vocábulo vem do portu-
tuguez bacoro, de iguaes expressões.
Bacuráo — A ve nocturna (C aprim ulgus), cujo nome vem
do seu p ro p rio canto que parece expressal-o: Baco, baco, ba­
curáo, repetidam ente. “ Bacalháo é p eixe secco, M oleque joga
pião. O bacuráo canta á noite. M eirinhg faz c ita ç ã o .” (A M ar­
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mota Pernambucana n . 23 de 1850). In divídu o que só sahe á
noite. “ Quem sahe de noite ás escuras faz vezes de b acu rá o.”
(Id em n. 44) . Phrases depreciativas ou de tro ç a : Bacuráo de
gaiola; bacuráo de igreja.
Badejo — Enthusiasta, animado, delicioso. “ F o i um a r­
rasta-pés badejo, hontem, no Club das Pás.” (Jornal do R e ­
cife n. 91 de 1914), “ O pessoal do solado do club carnavales­
co dos Apalasadores, passou num rem elexo badejo.” (P ern a m ­
buco n. 52 de 1914). O vocábulo tem curso nas Alagoas com
a expressão de mui grande. “ Que p eixe badejo” (T h eoton io R i­
b e iro ). Badejo é o nome de um p eixe da fam ilia dos gadidas,
semelhantes ao bacalháo, vulgar em Portugal e em Santa Ca-
tharína, onde ha mesmo uma ilhota, assim chamada (T es-
phauer), e assim ignoram os donde vem o vocábulo entre nós
com aquellas expressões.
Baêta — Este vocábulo vem nas phrases de sentido equi­
voco : Eita baeta, quem não sabe não se metta; Quem matou o
cão fo i o.B aeta; e nesta: Rom per as baetas, que quer d izer: E x ­
ceder-se com alguem, ex p lo d ir'e m desabafos, rom per, cortar as
relações: O Antonio rompeu as baetas com a M aria.
Bafàfá — Azafama, confuzão, agitação, reb o liço . “ N in ­
guém mais receios tenha de haver grande bafafá.” (Lan tern a
Magica n. 459 de 1895). “ Com a m orte do caixeiro andava
o b oticário num bafafá desesperador. ” (A Pim enta n. 30 de
1902), “ A orcbestra executou o signal para uma quadrilha.
F o i um bafafá dè todos os diab os. ” (Idem , n . 57).
Bagaçada — Cousa insignificante, sem valor, in util; re ­
botalho, com o o bagaço que fica da canna de assucar depois
de exprem ida na moenda e tirado o succo ou caldo, d’ oncíe
vem a dicção.
Bagaceira — Deposito do bagaço da canna nos engenhos e,
usinas de assucar. “ As escravas de que necessita a moenda
são sete ou oito, e outras finalm ente para botar fóra o b a ­
gaço, ou no rio ou na bagaceira, para se queim ar a seu tem ­
p o . ” (A . J. A n to n il). Boi de bagaceira: rouceiro, m arralhei-
ro, vagaroso, pachorrento, preguiçoso mesmo.
Bàgageiro — Cargueiro, alm ocreve; praça de serviço ou á
disposição de um o ffic ia l; gente que se contracta mediante sa
lario para acompanhar e conduzir a bagagem das tropas em
diligencia ou em iipobilisação de campanha. (A lv a rá de. P r iv i­
legio dos Auxiliaresj de 24 de N ovem bro de 1645). “ O bagageiro
que me acompanhava, declarou-se, ao v êr que desejava visitar

69
a gruta, que nem por todo <> f inheiro do mundo se avizinharia
daquelle lugar m aldicto.” (A lfre d o B randão). Vagaroso, ron cei­
ro, em perrado, re ta rd a ta rio . “ Menina que acorda tarde, Vai
ao banho e é bagageira Para ter um certo encontro. S’ tá c o r­
tada, é tr ib o fe ir a .” (O C orreio de Olinda n. 1 de 1891). Ca-
vallo bagageiro: máo corredor, bacamarte, sem cotação nos
prados de corridas.
Bagagem — Nas locuções: Andar ou estar na bagagem, en-
caiporado, atrazado, esquecido: Ficar na bagagem, atraz, re ­
tardado, marcando passo: Chegar na bagagem, tardiamente, p or
ultimo, fó r a de tempo. “ 0 Jornal do R ecife póde chegar na ba­
gagem, mas não quiz ainda entrar no trib ofe com o D iario
de Pernam buco.” ( A Lanceta n. 59 de 1890).
Bagaróte — D inheiro, a fracção de m il réis. “ Fique com
os duzentos bagarotes na algibeira, e viva a paz de M a ria .”
(O Barco dos Patoteiros n 29 de 1864). “ Cinco bagarotes
para a boneca já estão separados das econ om ias.” (P ern a m ­
buco n. 46 de 1914).
Bago — O mesmo que bagarote. “ Cincoenta bagos p or mez
para descompor a Deus e ao m u ndo!” ÍO Guarda N acional n.
132 de 1844). “ A natureza do n e go cio então mudou, e o re ­
sultado seria perder os bellos bagos.” (O Clamor Publico a .
82 de 1846). “ E xige muitos afagos, E outros quesitos varios,
P o r cento e cincoenta bagos, Sem haver e xtra o rd in á rio s.”
(Settas, Jornal do R ecife, 1910).
Bagre — P eix e de agua salgada, (Silurus carinatus, Le-
c e p .) de que M aregravi descreve cinco especies, em que f i ­
guram o Nhandia e o Guiraguçú, e Gonçalves Dias e Guiry-tin-
ga, bagre branco.
Bahia — Nom e que os vendedores ambulaptes dão á ma-
caxêra (M anihot a ip i); e assim, ou ouvil-os apregoar: Bahia!
Bahia!, já se sabe o que é.
Bahiano — Dança rasgada, lasciva, movimentada, ao (som
de canto proprio, com letras, e acompanhamento a viola e
pandeiro, e origin aria dos africanos, transform ação das suas
danças nacionaes como o maracatú e o batuque. D o bahiano,
muito em vóga ainda, principalm ente nos divertim entos e fo l­
ganças rustico-campestres, vem a musica assim chamado pelo
tom abahianado que a caracterisa. “ O bahiano é um pro-
ducto do mestiço, é uma transform ação do maracatú africa­
no, das danças selvagens e do fado p ortu gu ez.” (S y lv io Ro-
m ero ). “ Toca bem esta viola N o bahiano gemedô, Que o Ma-

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theus e o Fid elis São dois cabras dançado.” (D o auto popular
do Bumba meu b oi.) “ 0 tocador da viola Chama-se F elician o;
0 ’ que bello mulatinho Para dançar o bahiano.” (T ro va s
p op u la res).
Bahú — Confidente, depositário de um segredo. Aulete
consigna a phrase Sêr bahú de alguem como fam iliar, e com
aquellas expressões, não dando porem a negativa, na occur-
rencia da revelação de um facto qualquer, ou de um segredo
confiado: Não ser bahú de ninguém. Entre nós occorre ain­
da: Bahú grande, a casa; Bahu de quatro pontas, trouxa de
roupa de uso: Aquélle sugeito quando chegou aqui veio ape­
nas com a roupa do corpo e um bahú de quatro pontas, com
os seus muafos, enfiado no braço.
Baiacú — P eix e de agua salgada, da ordem dos Plectogna-
tas, das especies vulgarm ente conhecidas p or Baiacú-caixão
(O stracion quedricorais et bicadautus) e baiacú de espinhos,
havendo mais uma de nome desconhecido. Entre os indios ti­
nham as tres especies os nomes de Guamaiacú-apé, Guamai-
acúatinga (D id on punctatus C u y .) e Guamaiacúguará. F re i
V icente do Salvador descreve os peixes desta especie com o
nome de Majacús, concluindo: “ Tanto que os tiram fó ra d’a-
gua incham tanto, que de com pridos que eram ficam redon ­
dos como uma bexiga cheia de vento, e assim se lhe dão um
couce rebentam e soam como um m osquete.” Vem dahi, cha­
mar-se de baiacú a um sujeito inchado, gordo, e a um preteu-
cioso, cheio de ventos* de fumaças. “ Quando o typo se senta
num vagon parece um baiacú: estoura, não estou ra.” (A P i­
menta n. 66 de 1902). Baiacú ou maiacú, é uma corruptela
do tupi mbaê-acú, cousa quente, bicho quente. (T h eo d o ro
Sam paio).
Baié — Especie de porco que não cresce muito, de pés
curtos e que. prodigiosam ente engorda. “ Você com essas bo­
chechas de porco baié é capaz de illu d ir a m eio m u n d o.”
(O Barco dos Patoteiros n. 20 de 1864). “ O besta do gallego,
bebado com o uma cabra, ferrou no somno e roncava com um
porco b a ié .” (A Pim enta n. 36 de 1902).
Baile — Descompostura rasa, em plena rua, ou de porta
a porta, e geralm ente entre mulheres de má vid a . “ Des­
compostura grossa. Arm a branca das mundanas.” (J o rn al do
R ecife n. 91 de 1914). Dar, levar, tomar um baile. “ Olhe que
perdoamos, porque na occasião em que davam-nos aquelle
baile de elogios, de descompostura, ■exhalava tanto alcool que

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nos encommodou o orgão resp ira tó rio . ” A D errota n . 8 de
1883). “ Um dia, p or questões de ciumes, a bella coquette deu
um baile na irm ã da amasia do d ele g a d o .” (A Pim enta n. 12
de 1912).
Baita — O mesmo que badejo. “ Estupendo. Nunca visto.
M aravilhoso. F o i um successo baita.” (Jorn al do R ecife n. 91
de 1914). “ E o Pás não pesa pouco: é o mesmo um peso
baita.” (A P ro vín cia n. 52 de 1914).
Baixa — Campo de cultura do capim de planta para fo r ­
ragem dos animaes, em terrenos planos, baixos, húmidos, ou
á margem dos rios para fa cilita r a sua irrigação, e dahi a
denominação vulgar de baixa de capim, até mesmo o fficia l,
para a cobrança dos respectivo imposto m unicipal. “ Vende-
se dous sitios em S. José do Manguinho com grandes baixas
plantadas de capim.” (D ia rio de Pernambuco n. 95 de 1829).
“ José M anoel é proprietário de uma grande baixa de capim
em B e b e rib e .” (O Rebate n. 3 de 1883).
Baixada — T erren o baixo, plano, ou um valle pequeno,
ao. pé de uma lomba, ou entre montanhas. Aulete registra o
vocábulo com o particularm ente do Brasil. “ V ictorin o ficara
cahido na baixada, estorcendo-se nas convulsões da m o r te ...
Se quizer canna, vá cortal-a na baixada.” (F ra n k lin T a v o r a ).
Baixo — Andar curto, passeiro, do cavallo, e assim, de
vagaroso caminhar, e dahi cavallo b aixeiro.
Balabrega — Um typo ahi qualquer, in significan te; pan-
tom ineiro, charlatão, porcalhão. “ Os balabregas não foram
felizes nas suas m agicas.” (Lan tern a Magica n. 234 de 1888).
Balaço — Bala, corruptela talvez de balazio, que A u le­
te consigna como- term o fam iliar com as expressões de gran­
de bala, golpe de bala. Passar um balaço, desfechar um tiro .
“ Quando a gente menos espera, o balaço de um m alvado faz
do fe liz d esgraçado.” (O G rillo n. 2 de 1902).
Balaeiro — Vendedor ambulante de fructas, ovos e ou­
tros generos, em balaios presos p or cordéis ás extrem idades
de um pau ou calão, que carrega aos hom bros. “ O fio do
telephone que se quebrou na rua D ireita, alcançou o in d iv í­
duo José de tal, balaeiro, m orador no J iq u iá .” (Jornal do
R ecife n . 158 de 1914). “ N a casa, vivia m maritalmente, ha
annos, o balaeiro Manoel Jorge e a mulher Josepha de t a l. . .
Brincando E m ilia com um balaeiro que passava fo i pelo mes­
mo fe r id a .” (Idem , ns. 58 e 60 de 1915).

Balaio — Especie- de cesto feito de timbó, da casca da


folha do dendezeiro ou de outra qualquer substancia vegetal,
de tamanhos c form as diversas, e para differentes usos. Ba­
laio de costura, de compras no m ercado; um baiaio de ovos,
laranjas, etc. Tão bom é o balaio como a tampadôra. (P ro lo -
quio popular). “ Meu balaio de costura Tem um segredo no fun­
do; Queirer-me bem, quem despreso Querar-me mal todo mun­
d o . . . Balaio, meu bem, balaio, Balaio do coração. Quem ti­
ver o seu balaio Não saia com elle não, Que os rapazes são
travessos botam o balaio no c h ã o .” (F o lk -lo re Pernambuca­
n o) .
Balanceiro — In d ivíd u o encarregado do serviço de p e­
sar. “ Até o Baptista, balanceiro da Alfandega deu o seu fo r ­
robodó em Santo A m a ro .” (Lanterna Magica n. 430 de 1894),
Balandrau — Peça de roupa, comprida, a sobre-casaca
ou croisé, em allusão á opa ou balandrau dos irmãos da San­
ta Casa de M isericórdia. “ Uma carta pedindo que toquemos
fogo no balandrau do Sr. Austerliano. ” (Am erica Ulustrada
n. 34 de 1879).
Balde — Vaso de folha de ílandres á especie de cuba para
o serviço de conducção d’agua. “ O pobre olindense que com ­
prava um balde d ’agua por um vintem, vae com pral-o agora
por d ou s.” (Annaes da Assembléa Provin cial, 1877) “ Quan­
do o carregador punha o balde d ’agua á cabeça, succedeu o
mesmo c a h ir .” (D iariq de Pernambuco n. 76 de 1915).
Baldo — Especie de dique, ou barragem de terra, barro
ou alvenaria, que fórm a as paredes dos açudes para reprezar
as aguas e evitar o seu espraiamento nas eppchas em que
augmentam de volum e. “ O açude do L im oeiro ficou com o
baldo destruído, de modo a tornar necessaria a sua reconstruc-
ção” . (R ela torio das Obras Publicas, 1869). “ Um baldo ou re-
preza de terra, com cerca de 300 metros de extensão, susten­
ta as aguas do açude de V illa B e lla .” (Idem , 1880). Este v o ­
cábulo tem concurrentemente a variante Balde, si bem que,
menos corrente. “ O povoado do Campo Grande estava quasi
que sem communicação com a cidade, porque tanto im porta
a difficuldade que havia, não se querendo passar por dentro
das propriedades particulares ou pela eambôa da Tacaruna e
haldes dos v iv e ir o s .” (Idem , 1867).
Baleia — Mulher alta, gorda, pesada, vagorosa, indolente,
assim chamada em allusão ao conhecido cetáceo deste nome,
o m aior dos animaes. Os indios, porém, chamavam-nos Pyra-
ocú, Paraná-ocú póra, peixe grande, que vive no mar largo,
isto é, a baleia. (Gonçalves D ia s).
B alieira — Pequeno barco de quilha, com toldo, e m ovido
a remos, do serviço de repartições m arítim as. B alieira da A l ­
fândega, do C orreio, etc. O term o vem das embarcações des­
tinadas á peSca da baleia.
Balisa — Mala de mão, na giria dos gatunos; indivíduo
que vae á frente dos clubs ou troças carnavalescas, em ca­
briolas, empunhando uma especie de maça dourada, rem i­
niscências dos balisas dos antigos regimentos.
Bambá — “ Dança dos negros africanos, em circulo de
homens e mulheres, que cantam uma toada com o estribilho:
Bambá, sinha! Bamba querê!, ao som de palmas cadenciadas
em aplauso a um ou dous dos dançadores que, no centro da
roda, executam varios passos e figuras.’’ (M acedo Soares).
Vem da letra daquelle estribilho a denominação do bailado,
bem como o de Bambaquerê, com que tambem é conhecido,
segundo aquelle escriptor, desde a Bahia até Matto Grosso.
Aqui, em Pernambuco, não conhecemos dança alguma africana
com um ou outro nome; mas, que effectivãm ente existiu, em
outros tempos, apesar de apagadas as suas reminiscências,
com provam estes versos, estribilho de uma dança abahiana-
da, com toada própria, e que talvez assim mesmo desfigura­
dos, tragam a origem , entre nós, dos proprios dos Bambás a-
frican os: ô Bambá de lêlê, ê bambá de quero: Tanta moça bo-
bita, ô bambá, Mas não é p ’ra você.
Bambear — A ffrou xar, esmorecer, dim inuir em forças,
actividade, influencia, ardor, intensidade. O vocábulo vem,
naturalmente, de Bambar, tornar bambo, afroixar, que Au-
lete consigna com a nota de poucò usado.
Bambo — F azer uma bola, acertar ou caram bolar no jo ­
go de bilhar, mas sem as suas regras, e somente p or um aca­
so feliz, p or um Bamburrio, de que talvez venha o termo.
Bam boleio — Meneios, secudidelas, saracoteios no m axixe
e em outras danças lascivas. “ Aguenta, mulato, que o teu
bam boleio é gostoso com o o d ia b o .” (Jornal do R ecife n. 91 de
1914).
Bamburral — Gurruptela de bambual, floresta de bambus,
a taquaruçú dos indios, taquara grande, grpssa, a graminea
guada, que na phrase de Alm eida Pinto, poàe chamar-se o g i­
gante das gramineas. De bamburral veio o nome de um anti­
go engenho situado no m unicípio de Am aragy, onde hoje cam­
peia a usina do mesmo nome. “ O vaqueiro segue o gado no
disparo, e logo após elle rom pe os mais densos bamburraes.”
(José de A le n ca r). “ Lourenço tinha o espirito preso a certa

74
ordem de ideas que o envolvia como em cipoal, mais inestrica-
vel do que o enredo do bamburral por onde i a . ” (F ra n k lin
T a v o ra ). Moraes consigna Bamburral, lugar lenteiro, o r ha
herva de pasto; e Couto Magalhães dando o vocabu co­
mo de origem tupica, diz que quer dizer, matto ralo.
Banana — In divíduo m olleirão, palerma, p oltrão; gesto
o ffen sivo feito com a mão fechada.. “ Sinto certos entalos se
der-lhe banana ou fig a .” (A Pim enta n. 8 de 1902) .“ Recuando
um passo largo hom érico, dei-lhe p or despedida um adeus ba-
nánico.” (Id em n. 93).
Bananeira — Mulher, que só tem um filh o, como a bella
musacea deste nome que só dá um cacho. Bananeira que já deu
cacho, o p olitico ou um indivíduo qualquer, decahido, encos­
tado, sem im portância e prestigio algum. “ P erd id o o penna-
cho, sou agora bananeira que de ha muito já deu o cacho.”
(Lan tern a Magica n. 22 de 1888). “ Arreda, afasta, abandona,
E ’s bananeira de um cacho; Podes dar couces á roda Meu dou­
tor de b a rb ica ch o .” (Pernam buco n. 93 de 1914).
Bananeiral — Plantação de bananeiras (Musa paradisiaca)
dispostas em touceiras, a que os indios davam o nome de paco-
tyba, de onde, p or corruptela vem pacotuba, para designar a
pacoval, bananal bananeiral.
Banca bahiana — V . Bozó.
Bancar bicho — V ender pules do jogo assim chamado, e
pagar o prem io do bicho que bater, ou que der, de accordo
com a sorte grande da loteria fed era l. “ Em 1896, quando
iniciou-se o m aldito jogo do bicho, todo mundo queria ban­
car.” (A Pim enta n. 8 de 1901). “ Vendendo bicho no Cabo, T é
em Prazeres bancando, Se dá o c u jo ... de rabo, Mette quen-
gada, arribando. (Idem , n. 24).
Banda — Corrente do galé, na giria dos presidiários de
Fernando de N oronha. Não ter banda com ninguém; não res­
peitar, considerar, leva r em conta a pessôa alguma.
Bandalheira — Acção de bandalho, baixeza, infam ia; ar­
ranjo, patota, lad roeira. “ Toda a bandalheira está no Nabuco,
mais no M ad u reira.” (O Guarda N acional n. 131 de 1844).
Bandão — Porção, abundancia, quantidade avultada, gran­
de numero; Um bandão e um rumão de cousas bôas. “ A que­
bra do O liveirinha, de rapina fo i bandão.” (O Campeão n. 86
de 1862). “ De irmandades e sociedades recreativas, tem elle
um bandão de diplomas e cartas paten tes.” (A Pim enta n. 53
de 1903). “ Uma procissão com um bandão de gente tão gran-
de com o a dos Passos aqui no R e c ife .” (A Lanceta n. 110 de
1913).
Bandeira — Adulação, lisonja, engrossamento, muitas v e ­
zes descambando em baixeza e servilism o. “ A imprensa mais
sensata ás vezes deita bandeira.” (A Lanceta n. 46 de 1890).
“ O bom rapaz ficou cheio de vento, inchado com a bandeira.”
( A Pim enta n. 3 de 1902). D erivados: embandeiramento, em ­
bandeirar. Procissão religiosa, com ruidóso apparato, geral­
mente á noite, para o hastepmento da bandeira de um santo nas
proxim idades da celebração da sua festa. “ Eu já v i um certo
arraial uma bandeira destas, e julguei estar observando uma
dessas saturnaes dos antigos rom anos. ” (Lopes Gama, 1838).
“ Uma vez hasteada a bandeira, teve in icio a p rim eira n o ve n a .”
{J o rn a l do R ecife n.' 110 de 1915).
Bandeira da M isericórdia — “ A pessôa que faz os bons of-
ficios de medianeira, que, busca estabelecer a paz em qualquer
decidencia, já desculpando, já intercedendo, já im p lo ra n d o.”
(D r. Castro L a p e s ).
Bandeira ingleza — (Estar de) A mulher na epocha do
fluxo menstrual. Essa bandeira ingleza é a de com m ercio, que
é verm elha, e não a nacional ou real, que é branca.
Bando precatório — Cortejo civico, que percorre a cidade
solicitando donativos pecuniários destinados, em geral, ás vic-
timas de uma catastrophe ou calamidade qualquer. “ Assim em
1885 se chamou o que esmolou em b en eficio das victim as do
terrem oto na H espan h a.” (C . T esch au er). “ São d o b a n d o
precatorjo, Têm andado em p e d ito rio .” (Barbosa Y ia n n a ).
“ Façam igrejas mas com o seu dinheiro e o seu trabalho; fa ­
çam bandos precatórios, festas, bazares, carreguem pedras e ti-
jollos e demonstrem assim, a fortaleza de sua f é . ” (A rch iv o
Maçonico n. 86 de 1913).
Banga — V oz que não tem expressão própria, mas que é
empregada como que para accentuar uma phrase negativa ou
de desdem, de pouco caso: Já disse que não faço isto. Banga!
Que me im porta que faça ou aconteça? Banga! A dicção porem
figura nas locuções: Banga lê lê, de expressão equivoca; Banga
las cambangas (estar ou andar d e), desoccupado, sem o que
fazer, vadiando, na pelintragem ; é Banga la fumenga, in dica­
tiva de uma pessôa ou cousa de nenhuma im portância e va lo r:
uma festa, um poeta de banga la fum enga; um typo ordinário,
sem cotação, desclassificado. “ Na passeiata do D r. José Má-
riano, o que mais attrahiu a attenção publica, fo i um carro

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conduzindo uns banga-la-fumengas.” (O Binoculo n. 4 de
1881). “ Tem muita graça um Banga la fumenga, Que diz que
fo i agora allumiado, De cara feia, provocando arenga, P o r não
ser sempre coronel cham ado. ” (Lan tern a Magica n . 813 de
1905).
Banguê — M ovei grande, pesado, antigo, sem gosto e artfe;
os antigos engenhos de assucar, pelo p rim itivo processo, ao
ar livre, para os distinguir das modernas usinas, onde ha o re ­
curso ao vacuo, cujos productos tem mesmo no m ercado o qua­
lific a tivo de assucar de banguê. “ Os usineiros vão receber mais
de cem contos de réis, e nós bangüês, só vamos receber 500
réis p o r sacco de assucar.” (Lan tern a Magica n. 672 de 1901).
“ Os importantes engenhos X inxaim e Jaguaré, ambos com
bangüês bem m on tados.” ( A P ro vín c ia n. 178 de 1913). Ou-
tr ’ora, tumba, esquife, padiola de conduzir cãdaveres. “ Um
banguê a um canto, coberto com uma baeta preta, e apenas
alumiado p or üm bico de vela num ça stiça l.” (O Campeão n.
43 de 1862). “ Você tem barriga grande do tamanho de banguê;
Menina que historia é essa, Menina que tem v o c ê .” (A M ar­
mota Pernambucana n. 49 de 1850). São aquellas as accepções
do vocábulo entre nós, de quantas são conhecidas em lo ca li­
dades diversas. Agora, algumas particularidades a respeito.
E m m eiados do seculo X V III, como escreve L o reto Couto, ha­
via no R ecife um padre chamado o C lérigo do banguê, que ti­
nha p or missão acompanhar á sepultura os pretos defuntos,
africanos, negros novos, ou mesmo os crioulos, que não eram
irm ãos do Rosário, uma vez que estes tinham esquife proprio,
cqnduzidos pela. con fraria encorporada, de cruz alçada, e acom­
panhado do seu respectivo capellão. De uso geral, e bem as­
sim o vocábulo da sua designação, encontramos referencias a
respeito, na Bahia, em uma velha cantiga que com eça: N egro
Gege quando m orre V ai p ;ra tumba do banguê;” na cidade de
Januaria, em Minas Geraes, nestes versos-de uma chula corren ­
te: “ N egro mina quando m orre Vai na tumba de banguê; Os
fradinhos vão dizendo Aribú tem qui fa z ê .” Em fim , numa c i­
dade do in terior do Ceará, a Granja, nesta quadrinha popular
do tempo dà Balaiada, em 1840: “ O chimango quando m orre V ai
dentro de um banguê; Os urubú vão dizendo L á vai o nosso
cu m ê.” Tratando Varnhagén no seu F lo rilé g io das nossas m o­
dinhas antigas, refere-se á bahiana: Banguê que será de ti?
glosada p or G regorio de Mattos, por onde se vê que a dicção é

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antiga e remonta-se mesmo ao seculo X V II, uma vezi que aquel-
le poeta falleceu no R ecife em 1696. E ffectivam ente, nas suas
obras, !vem a glosa em questão sobre o titulo: D ialogo entre o
demonio e a alma, e Uá qual escreve, a não ser p or uma ficção
poética, que Banguê fôra um indivíduo que m orreu na flo r dos
annos, e a cujo espirito aconselha o dem onio: “ Canta, baila,
folg a e ri, Porque os que não se alegram . Dous infernos m ili-
ta ra m .” Quanto á origem do vocábulo, a nós como a muita
gente, nomeadamente S ylvio Rom ero, afigurava-se que ban­
guê era uma dicção exótica, de origem africana, introduzida,
com o tantas outras, pelos escravos im portados daquellas re ­
giões, e ainda em face do seguinte, que escreve Gonçalves V i-
anna, com a indicação da fonte origin aria da citação abonato-
r ia : “ Chambo é o mesmo que banguê, canhamo, na A fric a o ri­
ental. Fumam com delicia e soffreguidão o chambo, a que no
sul se dá o nome de banguê.” A lfre d o de Carvalho, porem, veio
dissipar todas as duvidas estudando o vocábulo na sua in te­
ressante monographia, Phrases e palavras, ficando assim ave­
riguado que é de origem asiatica, em face do seguinte trecho,
colhido da obra muito conhecida do capitão R ich ard F . Bur-
ton, The H ighlands o f the B rasil: “ Notando em S. João d ’El-
R ei, em Minas Geraes, a presença de uma liteira conduzida por
duas mulheres, e a lli chamada banguê, ensina o illustre philo-
logo e viajante que esta palavra deriva, ligeiram ente altera-
rada da industanica banghi, usada nas margens dò Ganges p ara
designar idêntico m eio de transporte. Que esta fo i a p rim ei­
ra accepção de banguê entre nós, não padece duvida; que o
vehiculo fo i directamente im portado da ín dia nos assegura
Varnhagen. O term o é pois asiatico e não a fric a n o .” F in a l­
mente assim se pronuncia Aulete, dizzendo que banguê é liteira
rasa, coche de coice, na ín d ia .
Banguéla ou banguélo — Desdentado na frente, “ Não póde,
leva r arrocho Leão do N orte banguelò e coxo.” (Lan tern a M a­
gica n. 511 de 1897). “ Ao Euclides, banguelo, dou com bate.”
( A Pim enta n. 58 de 1902). “ Quebaram-se-te os dentes na in ­
vestida, E hoje, triste, apanhado, confundido, N ão passas de
uma vib ora banguela.” (O Estado de Pernambuco n. 96 de
1914). O vocábulo vem do costume que tinham os escravos
africanos oriundos do rein o de Banguela, situado na A frica
Occidental, de arrancar os dentes in cisivos das crianças, em
tenra idade, como igualmente fazem os australianos, ficando
assim desdentados, e conhecidos p or banguelas, não somente

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por tal circumstancia" como pela sua procedência: um negro
banguela.
Banha de cheiro — O mesmo que Agoa de colonia.
Banha de soldado — Agua.
Banheiro — Barraca tosca, de madeira ou palha de co­
queiro, á margem dos rios ou do mar para uso de banhos.
“ Hontem tivemos barracas, mas que lá no meu R ecife eu clas­
sifico de banheiros para banhos salgados.” (A Pim enta n. 1 de
1902). “ Desappareceu de um banheiro em Apipucos uma cruz
de ouro com uma volta grossa .” (O Cruzeiro n. 183 de 1829).
“ Vamos p’ ra casa prim inho, Diz apressada a vestir-se: Neste
banheiro visinho Tem gente que está a r ir -s e .” (O s banhos de
C a x a n g á ).
Banhista — O que dá banhos em uma estação balnearia,
no litoral, como conhecedor, da localidade e bom nadador
e assim inspirando confiança aos que se entregam ao seu servi­
ço. C yrillo Alves da Silva popular banhista, das praias de
Olinda, quem retirou do mar o corpo do m allogrado D r. Ben­
to A m érico” (Jornal Pequeno n. 249 de 1915).
Banho — Carão, reprimenda, admoestação severa: Dar,
levar, tomar um banho. Banho de Assento; semicupio; Banho
de santo; lavar o corpo com uma toalha m olhada; Banho p er­
dido tomado de pé, despejando agua sobre a cabeça; Banho sec-
co; aspirar por algum tempo o ar salino do m ar; Banhos de
igreja; casamento, de grandes virtudes para a cura do hyste-
rismo das moças. “ Antigamente receitavam para as hystericas
banhos de igreja; agora a salvação está nos banhos do m ar.”
(Lan tern a Magica n. 208 de 1887). “ Para evitar-lhe o desvario
D iz o bom velho vigá rio : Dê-lhe banhos de igreja.” (A Pimenta
n. 3 de 1902). “ Não sejas com o eu tão resgu ardada... Olha,
o banho ‘das igrejas é cousa bem cobiçada.” (Lanterna Magica
n. 703 de 1902). A locução vem de banhos, proclamas de casa­
mento. Banho de chuvisco: o que se toma recebendo a agua
por um crivo ; Banho de passarinho, ligeiro, curto, breve, en­
trar nagua e sair.
Banja — Basca, partilha, machadinha, quota parte que ca­
be a cada indivíduo numa partilha de lucros. “ Certo sub-de-
legado vai na banja dos bagos que o carcereiro manjuba.” ,0
Postilhão n. 8 de 184(3). “ O P ixote cai na banja, Que não íc
fora desdouro.” (O Papa-angú n. 3 de 1846).
Banqueiro — O perário dos antigos engenhos de assucar,
immediato do mestre da fabrica. “ O mestre do assucar ganha

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todos os djas 640 réis e o banqueiro 320 r é is .” (L o re to Couto).
Individuo que banca nos jogos de parada e de bicho. “ Nesta
quadrinha te espicho, Para te v er colocado Como banqueiro de
b ich o” . (E strellas de Junho, R ecife, 1916).
Banzar — Estar pensativo, preoccupado, andar á toa,
desatenciosamente, sem destino certo, desorientadamente. D ic­
ção de origem africana, vem do verbo Cubanza da lingua bun­
da ou angolense, que sign ifica pensar, segundo Capello e Ivens,
citados p or Beaurepaire Rohan, que accrescenta; Parâ quem
conhece bem a expressão deste veFbo, é elie mui expressivo,
e não lhe reconheço equivalente na lingua portugueza.” Ma­
cedo Soares, porém, diz que vem dò congo banza, pensar,
considerar, e talvez scismar. Seja como for, o vocábulo já ti­
nha curso entre nós no século X V II, com o se vê, deste versos
de GreSorio de Mattos: “ Inda assim eu não soubera O como
tens trastejado Na banza dos meus sentidos.” “ E banzando
e pateta, e todo m olle.” (A Carfança n. 56 de 1846). “ Gemo,
suspiro e dou ais, Banzo, cuido é entresteço.” (F o lk -lo re p er­
nambucano). “ O Barretto andou banzando pelas ruas e pelos
campos.” (C lodoaldo de F reita s).
Banzé — Discussão acalorada, alteração, bate-barbas; a r­
relia, barulho. Banzé de cuia, que acaba trovejan do o pau.
Banzeiro — M olleirão, indolente, inactivo, descuidado; sem
vida, energia, acção. “ Banzeiro como. orelhas de c a c h o rro .”
(O Papa-angú n. 2 de 1846). “ Uma administração banzeira e
frouxa ia levando a nossa bella p rovin cia de Pernam buco ás
portas do abysmo.” (O Vapor do R io Form oso n. 17 de 1857),
“ Semana destemperada, sem pimenta e sem limão, vai correndo
banzeira.” (O G rillo n. 2 de 1901). “ A semana fo i pacata, m ol­
le, banzeira.” (A Pim enta ii. 549 de 1907).
Banzo — M olle, triste, pensativo, pasmado. Teschauer re ­
gistra este termo com o propriam ente pernambucano, com a-
quellas expressões, e o rigin ário do Kim bundo.
Banquára — O mesmo que babaquara. Rohan consigna
este vocábulo como o rigin ário de Pernambuco, e com a expres­
são de experto, diligente, sabido: José é um baquara que se
sahe bem de tudo aquillo que emprehende; concuindo: Não
encontro este vocábulo no DiccioTnario portuguez-brasiliano; e
nada posso aventurar sobre a sua origem . Em guarani Baquá,
synonim o de Cabaquá, tem diversas significações, todas ellas
no sentido de activid ad e. Assim é que uma phrase em que figura
este vocábulo é traduzida do seguinte m odo: con sus porfias
alcanço de mi lo que quiso (M on toya), o que está tle accor-
do cora o. sentido que lhe dão. em Pernam bu co.
Barata — Mulher devota, beata, papa-missa, que não sae das
igrejas, e em geral, velhas mal arranjadas, cavillosas, repel-
lentes. “ Velha de lenço é barata.” (O A lfin ete n. 10 de 1890).
“ Na ordenação de tres ou quatro form igões na igreja de S.
Pedro, houve uma profusão enorme de baratas.” (O Diabo
a quatro n. 90 de 1877). “ A festa que houve na igreja do Rosá­
rio fo i uma exposição de baratas, quasi em sua totalidade.”
(A m erica Illustrada n. 29 de 1882).
Barávo — P o r bravo, com a mesma expressão de applau-
so, enthusiasmo, concordância, assentimento; assim pronuncia­
do, ou com a variante bravô. Ora barávo! Quem tem cabello
pichaim cheira a jasmin; quem não tem cheira tambem; Bara-
vo china! Quem não sabe lêr não se assigna. (D ictad os). “ O
p ovo do ora baravo larga-se para a sala das audiências, e a lli
qualquer dos juizes de d ireito arranja o eu recebo a vós.”
(Lan tern a Magica n. 468 de 1895). “ Ahi, Maricas, meu anjo!
B aravos! que perna grossa!” (Id em n. 492 de 1896). “ In teira ­
mente espiritualisado, poz-se a dizer palavras, e que pala­
vrões! Ora Ora b aravos!” (Idem , n. 4 de 1882).
Barbatão — O boi bravio, amontado) e ainda não marcado
com o fe rro da fazenda. “ O gado barbatão nascido no matto,
ou amontado, ou fugido das fazendas.” ( José de A len ca r).
“ Tenho corrido muito gado N ovilh ote e barbatão Nos carras­
cos e r e s tin g a s .... Fui bezerro, fui garrote, Capado em b ar­
batão Garrote de ponta lim pa Se trata p or barbatão.” (V e r ­
sos sertanejos). “ Não atino com a etyinologia deste vocábu­
lo, escreve Alencar, que se não genuinamente cearense, veio
provavelm ente da ribeira de São Francisco (P ern a m b u co ). N e­
nhuma analogia tem elle com o termo baguá que no sul desig­
na cavallo, e não sei se tambem o boi amontuado. Póde ser
que barbatão não passe do augmentativo de barbato, para sig­
n ificar o longo e denso pello do gado criado no matto. Não
seria desarrasoado tambem deriva-lo de brabo, variante rús­
tica de bravo. Neste caso o augmentativo se afastaria da fo r ­
mação gram m atical; mas destes solecissimos ha muitos exem ­
plos no dialecto popular.”
Barbudo — P eix e de agua salgada, de escamas,.
Barca — Grande embarcação de pasageiros c carga do al­
to S. Francisco, movidas a varas ou remos, e conduzidas por
pilotos práticos e perfeitos conhecedores do rio, seus can-
naes, cachoeiras e pedras que difficultam a navegação. Va-
riain estas embarcações de 60 a 100 palmos de extenção s o ­
bre 12 a 16 de largura, com fundo de prato, tendo algumas dei-
las um toldo na pôpa, coberto de palha ou capim, ou mesrúo
de madeira, com janellas e portas envidraçadas, para alojamen­
to dos passageiros. Fernando H afeld, que dá uma minuciosa
noticia descriptiva destas embarcações, menciona uma deno­
minada Nossa Senhora da Conceição da Praia, com 112 palmos
de com prim ento, largura proporcional e 8 de fundo, consigna
esta curiosa particularidade: Cada embarcação leva comsigo
uma boziaa de chifre, concha grande marilima, ou feita de
folh a de Flandres, não só para annuciar a chegada quando
aproximam-se a qualquer porto, mas tambem para se cum pri­
mentarem entre si na occasião de encontro, sendo estabelecido
e observado com todo o rigo r certa superioridade, de sorte
que as canôas e ajoujos devem salvar as barcas, porem estas
soberbamente passam por ellas e não respondem; as barcas
entre si se salvam reciprocam ente, bem como as canôas e ajou­
jos entre si observam a mesma cerim onia; em fim é uma a l ­
gazarra que os barqueiros acham mui agradavel.” Trata em­
fim da barca de passagem do Joazeiro, em Petrolina, uma barca
grande de vela, para pasageiros, carga e tranporte de gado. D e­
rivad o: Barqueiro: a gente de tripulação e serviço das barcas
do rio de S. Francisco. “ Ingrato barqueiro, Não sejas asism;
Vem cá nesta barca Tem pena de m im.” (O Diabo a quatro
n. 117 de 1878).
Barcaça — Pequeno barco de navegação costeira, de trans­
porte de generos diversos entre os portos do estado e outros
dos visinhos, com um ou dous mastros, fundo de prato, ar­
mação de cavernas, camorotes internos na prôa e pôpa, com
escotilhas de descidas, para alojamento da tripulação, cober­
tura, e embonos lateraes, de páo de jangada, para manter o
seu equ ilib rio em marcha. M ovida a velas no mar, e a varas
á entrada e sahida dos portos, constitue um genero de embar­
cação só conhecida desde o Ceará até uma certa parte do lit-
tora l da Bahia. A noticia mais remota da barcaça entre nós,
consta do ataque do forte do Cabedello, na Parahyba, em 1634,
accommettido por uma esquadrilha de sete navios e seis bar­
caças, expedida do porto do R ecife para semelhante fim. “ A3
barcaças em Pernambuco, escreve Alves Camara, tambem
concorreram como as jangadas do Ceará, se bem que diversa­
mente, para a emancipação do elemento servil. Ellas deram
pasagem daquella para esta província a centenas, ou milhares
de escravos fugidos, escondendo-os no porão p or entre a car­
ga para assim livral-os, da acção da policia, tornando-se des-
taform a uma ponte fluctuante entre as duas províncias, por
onde se estabeleceu uma corrente de em igração. P ara isso mui­
to concorreu o Club Abolicionista Cupim, nome este que tam­
bém serviu para baptisar uma pequena barcaça, que fo i apres-
sentada como sym bolo da redempção nas festas, que houve
p or occasião da libertação dos escravos do b airro do R ec ife .”
D erivado: R arcaceiro: mestre ou dono de barcaça.
Baroneza — Especie de alga, planta aquatica, dicotyledo-
nia, da fam ilia das Nympheaceas, de bellissim a flo r ro^o-
purpura, que na estação invernosa cobre os alagados, e des­
ce ás enchentes dos rios, form ando no seu transito extensos
lençós de um bellissim o verde-purpura. “ A aguas do Capiba-
rib e passavam velozes, muito turvas, arrastando baroneza.” (O
Estado de Pernambuco n. 28 de 1914). “ A cascavel apparece
pelas grandes enchentes conduzidas nos bancos de baroneza ou
agua-pés, planta aquatica que, como ilhas fluctuantes, o rio
arrasta nas suas aguas revoltas.” (A lfre d o Brandão).

Baronista — P artido politico, que pelos anos de 1840 se­


guia a orientação do seu chefe o Barão da Bôa Vista, vindo
dahi a sua denominação. A lv o das chacotas dos adversários,
e assim, cantado em prosa e verso, è dessa epocha um lundú
que com eça: “ Mandei fazer um balaio Das barbas de um ba­
ronista, Para enbarcar no balaio, Meu bem, Daqui para a Bôa
V ista.” Pelos annos de 1846 teve o partido a denominação de
Saquarema, até que os liberaes, em represalia de os chamarem
de Praeiros, deram-lhe o qu alificativo de Guabirú, que p re­
dominou. com o do Conservador, até o seu desaparecimento
e m . .. 1889, com advento da republica.
Barra — Brioso, audaz, destemido, respeitado: Chegou a
b arrai A dicção é tambem, equivalentem ente conhecida na gi-
ria portugueza. T h eoph ilo Braga escreve a respeito; “ Homem
valente, na linguagem p rovin cial, acha-se empregada p or Luci-
lio na form a de bárra no sentido de homem g ro s s e iro .” Peça
de fazenda, larga ou estreita, que guarnece em volta o extre­
mo da saia do vestido, do mesmo tecido, ou õ iffe ren te. “ M eni­
na de saia branca Sapateia no tijo lo ;; A barra do seu vestido E ’
prata, parece ouro.” (T ro va s populares).
Barraca — Tapar, encher de barro a armação, construc-
ções de madeira e panno, levantadas nos pateos das igrejas de
arraial na epocha das suas festividades religiosas, e onde se
vende bebidas, bolinhos, sorvetes, quinquilharias e outros ge-
neros: As barracas ou barraquinhas de Santo Am aro. “ A b ar­
raca Independeneia tem de bom o mamulengo.” (Lan tern a Ma­
gica n. 515 de 1897). Especie tenda, tambem assim ligeiram en ­
te construida e levantada nas estradas ruas e praças dos su­
búrbios, de uma pequena m ercancia de bebidas, café, pão, c i­
garros e outros generos. “ A victim a para manter-se, tem ar­
mada, num sitio p roxim o á ponte do Maduro, uma barraca,
onde vende café e comidas fr ia s .” (Jorn al Pequeno n. 139 de
1915). Vem dahi o nome de barraqueiro dado ao dono de taes
barracas. Eu me avacalho com as besteiras dõ João P atricio
barraqueiro na E n cru zilh ad a.” ( A Pim enta n. 16 de 1914).
Tenda, ou vistoso pavilhão levantado nos campos de corridas
de Cavalhadas, os nossos tradicionaes torneios hyppicos, e on­
de, terminadas as justas, se recolhem os cavalleiros, os juizes
e o u tra s. pessoas em ruidoso rep a sto. O vencedor do p relio
ganha a barraca, e é o barraqueiro, isto é, o am phitryão da
festa.
B a rra c ã o '— Casa de negocio de generos diversos, p rin ci­
palmente molhados e fazendas, de ligeira construcção, de m o­
do a ser facilm ente desarmada e levantada de novo, acompa­
nhando assim ao serviço de construcção de uma estrada de
ferro, fabrica, exploração e trabalhos outros, proporcionando
deste modo ao pessoal de operários todos os recursos neces­
sários. “ Comia, mooó, préa, Sem dever no barracão.” (C a n ­
cion eiro do N o rte ). De um destes barracões, levantado em
Santo Am aro das Salinas, quando se construía o caminho de
ferro, originariam ente de R ecife a Nazareth, é que vem o nome
do povoado Barracão, alli situado.
Barrado — Enganado, errado, illu d id o: V ocê p ’ra mim
vem barrado. “ Eu que contava refrescar o frade, sahi barrado,
porque Salomão metteu-me o pau pelas costas.” (A Pim enta n.
540 de 1907). “ Tendo-se barrado o experto retiro u -se.” (J o r­
nal Pequeno n. 214 de 1914).
Barragem — O mesmo que baldo. “ O baldó ou barragem do
açude será de barro, assentado em terreno solido que a lli se
encontra pouco abaixo do n ivel do solo.” (Açude de Alagôa
de Baixo. Annexo ao R elatorio das Obras Publicas, 1880). “ O
açude de Garanhuns consiste em uma pequena bacia form ada
por uma baragem de terra.” (Idem , 1871). “ A barragem do

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açude de Caruarú é de alvenaria de pedras, nada havendo a
temer das cheia^ (Idem , 1880).
Barranca — Górte ou quebrada escarpada á margem dos
rios, guarnecendo assim uma grande ou pequena extensão da
corrente.
Barrão — P orco inteiro, de lançamento; reproductor ou
pae do lote nos campos ou fazendas de criação de gado suino;
homem concupiscente, lascivo, voluptuoso, fem ieiro. Moraes
registra o term o barrão e apezar de o dar como vulgar e mais
usual entre nós que o de varrão, de que é corruptela, manda
a este vêr, que define: P orco não capado, para fecundar as p o r­
cas de criação, como assim vem em outros lexicons.
Barrear — Tapar, encher de barro a armação de m adei­
ra de uma casa de taipa; revestir ou rebocar de barro lima
parede.
B arreira — Córte alto, escarpado ou não, á margem dos
rios ou riachos, de mais ou menos extensão: Barreiras grandes,
á .margem septentrional do rio Goyanna. “ O meu riacho só
enche Com aguas na cabeceira; Cada neblina que cai, Dá de
b arreira em b arreira.” (V ersos de d esafio). Sopé das colinas de
argilla, escalvado e caprichosamente cortado, ferid o, pelas
aguas que descem do alto: as Barreiras de S. João, em Olinda.
Posto de cobrança do imposto de pedágio. O art. 25 da L e i
P ro vin c ia l n. 9 de 1835, determ inou o estabelecim ento de b ar­
reiras nas estradas publicas para a cobrança de passagem ou
trânsitos, destinado ao melhoram ento e conservação das mes­
mas estradas, pontes e aberturas de cannaes, o qual fo i assim
mandado executar pela le i orçam entaria de 1839: T axa das
pontes da Magdalena e dos Carvalho, e das que para o futuro
forem estabelecendo, pagando vinte réis cada cavalleiro, e o
mesmo cada boi ou cavallo; e oitenta réis cada sege, carro ou
carroça. “ O cobrador da B arreira ou Manguinho não deixou
passar o vigário, que acompanhado do seu acolito conduzia o
V iatico a um enferm o sem pagar a im portância do pedágio dos
respectivos c a v a llo s .” (O Barco dos Traficantes n. 31 de
1858).
Barreiro — Lugar de onde se tira o barro para o fab rico de
tijolos e telhas, obras de ceramica, de pedreiro, e usos diversos.
“ Subindo o rio fica o engenho chamado Barreiros, que quer
dizer sitio onde ha muito barro, e ahi se costuma cozer mui­
tos vasos e telhas para a coberta de casas.” (E lias Herckman,
1639). P oço de agua potável, sem o revestim ento de paredes,

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como as cacimbas. “ Em alguns pontos viam-se fundas cóvas,
algumas das quaes se converteram em barreiros onde as chu­
vas deixavam aguas estagnadas.” (F ra n k lin T a v o ra ). “ Com
as ultimas chuvas o barreiro tran sb ord ou .” (D ia rio de P e r ­
nambuco n. 161 de 1916).
Barretada — Homenagem manifestação de agrado, obsé­
quio, gentileza e distinções a alguem, para assim, lisonjeada
e captivamente conquistar a sua consideração e bôas graças.
Dar uma barretada. Mas, se nisto entram elementos estra­
nhos de que abusivamente se lança mão, vem dahi dizer-se
Dar uma barretada com o chapéo alheio, ou concurrentemen-
te. Fazer cortezia com o chapéo alh eio. Um cumprimento
intimo, expressivo, affectuoso, rasgadamente expansivo fe i­
to. com *o chapéo, distinguindo-se assim de um cortejo cere-
monioso, respeitoso. “ Oh! que zumbaias, que barretadas, que
cortezias, que os eleitores recebem nos dias proxim os ás e lei­
çõ e s !” (A Carranca n. 42 de 1842). A dicção vem do antigo
uso do barrete, simples, de estofos ordinários, ou luxuosos,
como os de velludo ou sêda, e até mesmo publicamente usados
pelos ecclesiasticos emquanto não tiveram prohibição d ioce­
sana 'em 1734; e dahi, nos tempos coloniaes, e de caracter
geral, as chamadas E leições de barrete, para vereadores e ju i­
zes ordinários dos termos ou municípios porque cédulas da
votação eram recolhidas em um barrete, e das quaes, ainda em
1822 faz Caneca mensão nos seus e scrip to s.” 2 de Julho de
1746. Eleição de barrete para um vereador de Fortaléza sa-
hindo p or mais votado o capitão-mòr Francisco da Silva Coe­
lh o . ” (C hronica do C ea rá ).
B arriga — Interesse, insaciavel ganancia, deshonestidade;
falta de escrupulos, b rio e caracter; o sacrifício de tudo pelo
bem-estar e conveniências próprias, segundo os princípios de
que — Os meios justificam os fin s; Tudo é licito, comtanto
que se consigam os fin s. Elevada a Barriga á altura de um
principio, e divinisada mesmo, escrevia assim um period ico do
R ecife, em tempos idos, os seguintes conceitos em uns versos
hum orísticos: “ Viva, viva o Deos-Barriga Venerado no B ra­
s i l . . . O seu culto é tripa c h e ia !... Quem adora o D eos-Barri­
ga, Lam be o chão, porem não p e c c a ... V ive alegre, o mundo
é seu .” (A Carranca n. 15 de 1847). E um outro p eriod ico se­
cundava depois: “ Jurára pelo D eos-Barriga acabar com a guer­
r a . . . porque nesta bòa terra do progresso barrigudo os la ­
drões tem p r iv ile g io .” (O Barco dos Patoteiros n. 84 de 1886).

86
“ H averá p or ahi quem duvide que o nosso mundo p olítico é
governado pelas necessidades da b a r r ig a ? ... A p olitica da
barriga é uma grande realidade, e a mais sabia, proficua e se­
gura de todas as p o litica s . . . A alma de todos os ganhadores
politicos está na barriga.’* (O Campeão ns. 22, 25 e 26 de 1861).
“ Entre a patria e a barriga Colloquei minha am bição:
A patria que leve o diabo, Mas a barriga, isto n ã o .” (L a n te r­
na Magica n. 508 de 1896). “ B arriga: Fonte do p a triotism o.”
(Idem , n. 52 de 1897). De tudo isto vem q conhecido Patriota
de barriga, de obvia expressão. Gravidez, parto: A p orqu i­
nha teve oito bacorinhos nesta barriga. “ Vende-se uma escra­
va, parida, da prim eira barriga, p roprià para criar. (D ia rio
de Pernambuco n. 120 de 1829). Bôa barriga: a m u lher de côr
que tem filh os alvos e de bons cabellos. Barriga de ítimtim:
volumosa, inchada. Ditados populares: D or de barriga não
dá uma só vez; B arriga inchada não é fartura, p elle de carne
não é gordura; Barriga cheia pé dormente, vou p ’ra cama
que estou doente: Estar com a barriga dando horas: com f o ­
me; Estar com a barriga pegada no espinhaço: muito m agro;
Estar com a barriga á, bocca: perto do parto.
Barrigada — Nas phrases: Dar barrigada, fraquejar, es­
m orecer; fazer feio, asneiras e tolices; mostra-se pusilânime,
recuar, correr. “ Ora Sr. Nabuco; os seus correligion ários es­
tão dando barrigada.” (O Guarda N acional n . 132 de 1844).
“ Nunca dei barrigada, como estão dando os moços d’a g o r a .”
(O Carapuceiro n. 21 de 1847). “ Ora Sr. K e lly ! para que
Vm c. veio dar barrigada em Pernam bu co?” (O Guarda N a cio ­
nal n. 23 de 848) . “ Os tutús que metteram na cabeça do p re­
sidente da província, fizeram -no dar grandes barrigadas. ”
(O Patuléa n. 10 de 1850). Não sêr de barrigada: de se não
leva r em conta, caçoar, zombar, não se respeitar e tem er.
“ Eu que não sou de barrigada, persegui-o atrozm en te.” (O
Vapor dos Traficantes n. 227 de 1860). Tom ar barrigada: de­
bicar galhofar, encarnecer, troçar. “ O Bôa Vista desta vez
tomou muita b a rrig a d a .” (O Guarda N acional n. 131 de
1844). “ Andavam de cabeça levantada, tomaram barrigada,
mas agora andam de crista cah ida. ” (Lan tern a M agica n. 233
de 1888).
Barrigudo — O mesmo que barriga. “ Berna ven tu radoQ S
barrigudos, porque delles é o rein o da p apan ça.” (A m erica
Illustrada de 15 de Junho de 1873).
B arriqu eiro — O perário que faz o serviço de refa zer as
barricas de farinha de trigo, ou do reino, como é vulgar, Ti-
cando assim um pouco menores, e em geral, destinadas á ex­
portação de assucar branco: Uma officin a de barriqueiros. “ O
barriqueiro Julio de Andrade quando trabalhava nos misteres
de sua profissão, feriu-se num dos p é s .” (Jornal do R ecife n.
306 de 1915).
Barroca — Pequena cavidade na parle in ferio r do quei­
xo, ou nas faces, sendo estas permanentes, ou formadas por
occasião do riso. As barroquinhas na mulher constituem um
predicado de belleaa e graça. Em um dos cânticos dos nossos
presepios ou pastoris retratando o Deus-menino, figuram estes
versos: “ Barroca na barba, E nas bocliechinhas, Que ao riso
se abrem T ão engraçadinhas.”
Batatão — Perna grossa, bonita, bem contornada.
Batatas — Na phrase despreeiativa de Mandar plantar ba­
tatas, como expressões de desdem, enfado, aborrecim ento, des-
preso; e nesta locução in terjectiva: Bôas batatas!, na occur-
rencia de uma toleima, asneira, descahida, ou absurdo, e ex-
travagancia de uma idéa 011 conceito. “ Ora que sempre te
conheci com bôas batatas!” (A Sentinella da Liberdade n. 1
de 1847).
Bate-barbas — Disputa, contenda, altercação; discussão
acalorada, exaltada. “ O Tunda-Chumbe chegará ao ponto onde
se dera o vehemente bate-barbas.” (F ra n k lin T a v o r a ).
Bate-bate — O mesmo que bate-barbas. “ Elles se enten­
dem no seu bate-bate de ajuste de contas. (Lanterna Magica
n. 195 de 1887). “ Fiquei um pouco espantado com o bate-bate,
e depois do susto passado fui dar um p asseio.” (A Pim enta n.
405 de 1906). Bebidada feita do succo do maracujá, aguarden­
te e mel de abelhas.
Bate-bocca — O mesmo que bate-barbas e bate-bate. “ A
propaganda eleitorál continua a fazer 0 prato do dia lá pelo
Congresso N acional. E ’ o que na linguagem popular se po­
deria chamar 11111 verdadeiro bate-bocca. ” (Lan tern a Magica
n. 736 de 1903). “ Ora que bate-bocca por causa do orçam en­
t o !” (Idem , n."*764 de 1904). “ N o inquérito littera rio houve
uma bôa parte - consagrada aos bate-boccas e falatoriòs. ”
(Idem , n . 802 de 1905).
Bater a bota — M orrer.
B ater a linda plumagem — Fugir, azular, desapparecer,
pôr-se ao fresco. “ Bateram a linda plumagem as ciganas da
rua das T rin c h e ira s .” (A Pimenta n. 487 de 1906).
Bater-bandeira — Capitular, render-se dar-se p or ven ci­
do, submetter-se. “ O Club botando a procissão na rua fez
uma chacina, e o governo que tem medo de sangue, vae a ba-
ter-bandeira.” ( A Lanceta n. 20 de 1890).
Bater o pinho — T ocar viola . “ Em menos de um quarto
de hora bateu o pinho e rompeu o sam ba.” (F ra n k lin T a v o ra ).
“ Num compasso bem medido Estão no pinho a bater.” (R o-
dolpho T h e o p h H o ).
Baticum — Barulho, ruido, sussurro; falatorio, vozeria,
conversa animada, discussão acalorada. “ O’ de casa? Apenas
estas palavras resoaram dentro, os m oradores fizeram uma
pausa e o baticum cessou.” (F ra n k lin T a v o r a ).
Batida — Pegadas, pisada, rasto: Seguir a batida.
Batocada — Calote, espiga, facada; máo negocio, prejui-
so: Tom ar ou levar uma batocada. “ Receioso de alguma bato­
cada, quero pôr-m e em salvagu arda.” (O Barco dos Patotei-
ros n. 4 de 1864).
Batucar — Ralhar, atucanar, azucrinar; im pertinentem en­
te insistir num pedido, numa pretenção; m artellar, barulhar,
fazer bulha; gritar, cantar aos berros, tocar mal um instru­
m ento; dançar o batuque. A visinha leva todo o santo dia a
batucar no piano, “ Como uma rem iniscência dos tempos de
antanho, o pessoal do batuque batucou com gosto a noite in ­
te ir a .” (Jornal do R ecife n. 53 de 1914).
Batuque — Sussurro, vozeria, altercação; berreiro, bulha,
barulho, e dahi a locução Batuque de cuia, que já vem de lon ­
ge, como a encontramos, servindo de titulo a um artigo pu­
blicado no p eriodico A Sentinella da Liberdade no seu n. 16
de 1848. Dança africana ao estrepito de instrumentos de p e r­
cussão. O pessoal do batuque batucou com gosto a noite in ­
t e ir a .” (Jornal do R ecife n. 53 de 1914).
Bêba — Bebedeira, carraspana: Tom ar uma bêba; Debaixo
de uma bêba medonha.
Bebaça ou bebaço — Individuo que bebe muito, beberrão,
ou que habitualmente se entrega ao v ic io da embriaguez. “ A
alegria em mim será insana vendo a meu lado todos os be-
b aças.” ( A Pim enta n. 29 de 1901). “ Estou, le ito r amigo, que
não valho da bolça de um bebaça nem um tu sta.” (Idem , n.
43 de 1902). Oh! meu Deus! Livrae-nos deste maluco, bebaço.”
(O Paladim n. 20 de 1851).
Beber — Diz-se do cavallo que pode livrem ente appare-
cer em qualquer parte, p or não ser furtado. A ’ o fferta de ven ­
da de um cavallo por pessôa desconhecida, e que se tem du-
vidas da legitim idade da sua propriedade pergunta-se: Este
animal bebe em qualquer parte? “ Chamo papa-capim, porque
é essa a gira dos que furtam cavallos. Bebe no norte, bebe no
sul, quando o passarinho pode ir livrem ep te a estas p aragen s.”
( A Duqueza do Linguarudo n. 79 de 1877).
Beber-fum o — Fumar, cachim bar. Locução antiga, p ri­
m itivam ente usada na accepção generica de fumar, encontra­
mo-la já empregada, com o mais rem oto ponto de partida, em
uma carta que o govern ador geral do Brasil D . Duarte da Cos­
ta dirigiu ao rei em 8 de A b ril de 1555, na qual, fazendo gra­
ves ' accusações ao bispo D . P ed ro Fernandes Sardinha, men­
ciona entre outros factos, que escummungara elle em P e r ­
nambuco ao donatário da capitania do Espirito Santo, Vasco
Fernandes Coutinho, “ de mistura com homens baixos, por
beber fu m o ;” e que na Bahia, p or achar que um pobre homem
bebia fumo, mandou pol-o nú da cintura para cima, com os fu ­
mos ao pescoço. Naquelles tempos, com o ainda p or dilatados
annos depois, o fumar constituía um v icio .horrendo, e cau­
sava grande escandalo, principalm entê pela sua origem gen­
tílica, e o bispo do Brasil não tolerava que as suas ovelhas o
praticasse. N o seculo X V II, o Padre Antonio V ieira, seguin­
do os princípios de tolerancia da p olitica dos jesuitas, não
condemnava francam ente o uso do fumo, mas aconselhava
em um dos seus sermões, tento no fumo que se fuma, que se
bebe. Para com pleto desabono e ruina dos rapazes, escreve
um chronista nosso referindo-se a esses tempos idos, era bas­
tante affirm ar-se que o in fe liz fumava, para estar irrem issi-
velm ente perdido, embora as tias, a avó e muitas vezes a p ró ­
pria mãe tivessem a bocca torta pelo uso do cachim bo. A o que
parece, a phrase beber fum o era geral, uma vez que uma can­
ção flam enga do seculo X V I, e que no seguinte, ao tempo da
sua dominação em Pernambuco, teve curso entre nós diz, que
o beber fum o é um excellente rejnedio, e que mais vale não
beber de mais. “ O tabaco fraco só presta para se beber no ca­
c h im b o ... Já ouvi dizer que o fumo do cachim bo bebido pela
manhan em jejum, moderadamente, desseca as humidades do
estom ago.” (A n ton il, 1711). Ainda ein nossos dias era vulgar
a phrase como se vê desta quadrinha do cyclo das nossas tro ­
vas populares: “ Sinh’Anninha bebe fum o N o seu cachimbo de
prata; Cada fumaça que bota E ’ um suspiro que m a ta .”
Bebida — Nom e que dão, na zona sertaneja, a certos e
determ inados mananciaés ou depositos de aguas pluviaes, on-
de costumam beber os animaes, quer domésticos, quer silves­
tres. Na estação da secca, quando é geral a falta d ’agua, são
as bebidas lugares idoneos para as caçadas, pela multidão de
aves e outros animaes, que alli se reunem. Tom am assim tam­
bem a denominação de bebidas, os depositos naturaes e cava
dos na rocha, de mais ou menos profundidade, conhecidos
por tanques ou caldeirões. Bcaurepaire Rohan, que registra o
vocábulo, diz que é vulgar não somente em Pernambuco, como
em outras partes do norte. “ Bebendo numa bebida, Comendo
tudo num rasto, D orm indo numa m alh ada.” (C ancion eiro do
N o r te ). “ A rez que se procurava, ou era esperada na bebida,
ou caçada no m a tto .” (Irin e o J o ffily ).
Bêbo — P o r bebedo ou bebado, como vulgalmente se diz,
para indicar um individuo embriagado, ou que se entrega ao
im m oderado uso de bebidas alcoolicas, predilectam ente a ca­
chaça. Vocábulo só usado pelo populacho, vem dahi esta lo ­
cução in terjectiva! Quem está bêbo ahi?, e a sua figuração nas
extravagentes cantigas do mesmo populacho, como nestes v e r­
sos do estribilho de uma delias, com o seu particular modo de
expressão: Vai bêbê, V ai te embêbedá, V ai fazé baruio Pra-o
sordado te pegá. “ Está bêbo, negro, s’tá bêbo cão, Fala c’os
outros, com migo n ão ?” (C ancion eiro do N o r t e ). A dicção é
tambem usada no dim inuitivo, Bebinho, e assim fam iliar e vu l­
garmente mesmo, com as expressões de tonto, a dorm ir, c o ­
chilando, cahindo de somno; sem se poder suster: O menino
está bebinho de somno. Moraes assim a consigna com as par­
ticulares expressões de bebado moderado, pouco bebado. “ A
Synesia, embriagada, andou assim p or todo o m ercado. C oi­
tada tão m o ç a ... tão bebin ha!” (A Pim enta n. 611 de 1907).
Bêco — Nas locuções: Barulho no bêco, novidades conten­
das, arrelias. “ V ai haver barulho no beco, frevos, o diabo de
saias e outras cousas m a is .” (D ia rio de Pernambuco n. 49 de
1916). Beco sem sahida, homem casado. Desoccupar o beco,
deixar um lugar alheio. Quebrar beco ou quebrar o beco, afas­
tar-se de alguem com quem não se quer falar.
Beduino — Desconhecido, ingrato; o que só conhece o
am igo na prosperidade e o abandona e despresa na adversi­
dade, como o beduino, que adora o sol ao nascer, e o apedreja
no occaso. Já vimos, amadissimos leitores, quaes foram os
troncos deste famoso b ed u in o .” (O Foguete n. 9 de 1845).
Beicinho — C e r t o p r o n u n c i a m e n t o dos l abi o s c o m e x p r e s ­
são de- e n f a do , de s de m, despreso; r e cusa contrariedade, zan­
ga. “ Com que consciência farão beicinho para despender uns
trinta e dous vin tén s?” ( A Misselania P eriod iqu eira n. 2 de
1833). Empenhada a D elphina no seu namoro, quando os seus
olhares se chocavam com outros, puxava um beicinho de en­
fado, porque então procurava m order o p a to .” (A Pim enta n.
63 de 1902).
B eiçola — Beiços volumosos, grossos, molles, cahidos, de
um feio aspecto. Uns tantos tem a particular designação de
beiço de algu id ar.

Beiçoláda — Golpe violento, de mão aberta, sobre os bei­


ços, e dahi o term o: Dar, levar umas beiçoládas.
B eija-flor — C olibri (T ro ch ilu s supersiliosus, V ie ill. ) de
v a ria s>especies, do mesmo porte, feição e delicadeza, mas p ar­
ticularmente distincta pela coloração viva, brilhante, bel-
lissima plumagem de cada uma delias. M arcgravi descreve v a ­
rias especies desta pequenina ave, estudadas entre nós, com
o nome indigena, vulgar, de guainumby, guainam by. “ E o beija
flo r no campo p or entre as flores adeja.” (Jeronim o V ile lla ).
Moraes o registra com o nome de P ica -flor, dando porem como
concurrentes os de beija-flor e chupa mel, porque se nutre de
m el das flores; e consoantemente Gonçalves Dias, registran­
do o term o tupi Oaincumby, com a expressão de p ica -flo r.
Esta denominação de b eija -flor dada entre nós ao trochilus, é
a unica vulgar, corrente, sendo assim desconhecidas aquellas
duas outras mencionadas p or Moraes, que se tiveram curso no
seu tempo, desappareceram p or com pleto. Entretanto, trata-se
de um term o antigo, e documentadamente, já vulgar na Bahia
em começos do seculo X V III, com o se v ê destes versos de
um Romance sobre os passarinhos consignados p or Nuno M ar­
ques P ereira no seu liv ro , de vulgarização contem porânea: “ E
logo p or esses ares Remontando o B eija flo r Tocando hia
nas azas Com donaire um b ello s o m .” Particularm ente entre
nós confirm am o facto o nome de B eija-flor de antigos enge­
nhos situados nos municípios de Agua Preta, V ictoria e Ama-
ragy, e de um riacho neste ultim o; e contemporaneamente,
pelo de varios periodicos litterarios, tendo apparecido o p ri­
m eiro em 1849. N o Ceará tem tambem a mimosa avesinha o
nome vulgar de b eija -flor com o se vê destes versos lo c a e s .”
Um beija-flor já vi m orto A o pé de verde roseira. Deu-lhe a
m orte agudo espinho De uma rosa tra ç o e ira . . . A rosa cheia
de espanto Disse um dia ao b eija -flo r: Para que me beijas tan­
to? Ter-me-ás, acaso, am or?”
Beijoca — Na giria portugueza, ou como voz burlesca, se­
gundo Aulete, tem a expressão de beijo em que os labios se
abrem fazendo estalido. Entre-nós, porem, tem sua differença,
como definiu um period ico desta capital, com a b rejeirice p ró ­
p ria dos seus conceitos: “ E lla indaga docemente. Si entre
b eijo e beijoca Ha alguma d iffe r e n ç a ... O beijo é dado de
leve E deve ser muito breve P ’ra não causar sensação! A
beijoca é d ifferen te: P ara que seja bem dada D eve sêr forte,
frem ente. E alem disso chupada.” (A Pim enta n. 15 de 1901).
“ Uma beijoca de bahiana, oh! tem o sabor de cangica de m ilho
v e r d e .” (A m erica Illustrada de 14 de Dezem bro de 1873). “ E
depois choravas o teu amor extyicto, as cócegas e beijoquinhas
que presonhavas.” ( A Lanceta n. 155 de 1913).
Beijos — Bolinhos esphericos, ou bombons, mettidos em
pequenos pedaços de papel de seda, de cores diversas, com as
extrem idades recortadas, oü enfeitados com pequenos chro-
mos. “ Os beijos são uma especie de bolinhos de polvilh o, com
bastante assucar. . . N ão ha quem não goste dessa gulodice
fabricada pelas moças b o n ita s ... Fazem estalar a lingua c
am ortecer de goso o~s o lh o s . . . Sabem bem, abrem o appetite,
mas não alim entam n a d a ... antes pelo co n tra rio !” (Fon -fon ,
Outubro de 1915).
Beijú — Especie de bolo de gomma, ou massa de m andio­
ca, com côco,e e assado ao forn o en volvid o em. folhas de ba­
naneira, tendo este ultimo, concurrentemente, o nome de ma-
casado; ou em fórm a de discos, finós, chatos, da mesma gom ­
ma ou massa, com igual preparo, e torrado em vasinha apro­
p ria d a .” Com dous páos de mandioca no caco faz um b e ijú ,”
(Juvenal G a len o ). “ E como ninho d’ am ores. T em todo lugar
as trocas. Tam bem ella lhe mandava Seus beijús e ta p io ca s.”
(O Carapuceiro n. 65 de 1842). O beijú é de origem indígena.
Da mandioca, escreve Th eodoro Sampaio, faziam os indios bo­
los torrados a que denominavam mbyú donde vem o nome
beijú, vulgar no Brasil, significando enroscado, enrolado. A
esses beijús, allude já a narrativa de uma visita que o Padre
da N obrega fez a Pernam buco em 1551, dizendo que á sua
chegada os indios desceram logo de suas aldeias a dar-lhe a
bôa vinda, carregados de caças, legumes, beiju’ s e farinhas.
Depois, faz Anchieta referen cia aos beijús de mandioca da
Bahia; e Gabriel Soares, contemporaneamente, descrevendo-os,
d iz que são feitos de massa de mandioca estendida em um
alguidar sobre o fogo, de maneira que ficam tão delgados e
iguaes como obreias, e assim muito seccos e torrados. A esta
especie, accrescenta o nosso autor dos Diálogos das grandezas
do Brasil uma outra, escrevendo: “ Tam bem se faz da m andio­
ca depois de relado em fresco umas como obreias, a que cha­
mam beijús, e p or outro nome tapioca, das quaes se servem
em lugar de p ã o .” M arcgravi emfim, que esteve entre nós
na p rim eira metade do seculo X V II, diz tambem: “ E x farina
siccata form ant placentas, mispendo cum aqua sim plici in
massam, et coquendo super prumas vocant que nomine brasi-
)ien si b e jú .”
Beirada — Margem, beira, extrem idade de um terren o; si­
tuada baixa que ladeia um rio, riacho ou lagôa. “ Se eu não
descobrir neste mattão ou p or estas beiradas de rio o Cabel-
leira, hei de saber noticias delle seja onde f ô r . . . E ra agora
occasião de apparecer quem andava p or estas beiradas arro-
tanto tanta v a le n tia .” (F ra n k lin T a v o r a ).
Bejupirá — Saboroso p eixe do m ar. Tratando o autor dos
D iálogos das grandezas do Brasil do pescado da terra, men­
ciona em prim eiro lugar o “ regalado vejupirá, porque creio
delle que, entre os demais peixes de posta, pode leva r a palma
a todós em bondade, e que fica muito superior ao presado
solho da nossa H espan h a.” De vejupirá, originariam ente, e
berupirá como posteriorm ente o registra Santa R ita Durão
lio seu poema, vem dahi o nosso bejupirá, cujo termo, de qual­
quer form a, é de origem tupi.
B elch ior — A lfarrabista; casa de vender objectos usados.
Beletrista — E scriptor, litterato, homem de letras.
Belga — In dividuo que não tem o que fazer, desoccupado,
ocioso, que anda enchendo as ruas de pernas. “ Muitas pessoas,
talvez, ignoram a razão porque chamam belga ao individuo,
que não tem occupação. Em m il oitocentos e cincoenta e tan­
tos p o r aqui appareceu uma força de belgas, que quasi todos
se em pregaram no serviço da empreZa de illum inação a gaz
carbonico, então em andamento. Não sabemos se esses es­
trangeiros foram mandados v ir engajados, ou p or qualquer
fórm a, para o dito serviço. Mas, se não nos falha a memória,
eram elles em numero muito superior a cem . Foram os belgas
os estrangeiros que peior tratamento receberam do nosso c li­
ma. N ão sabemos, porem, si o que lhes succedeu fo i devido
ao mesmo clima, ou si á crapula, a que se entregaram . T a l­
vez a natureza do trabalho, o serviço ao ar livre, da canalisa-
ção subterrânea, contribuísse para o mal daquelles europeus.
Em pouco tempo tornaram-se magros, amarellos, com os pés
cheios de bichos, e trocaram a pá pela cachaça e o trabalho
braçal pela vida de m endigos. Era deplorável o estado de um
b e lg a . . . O nosso povo, porem, que não perue occasião de bem
applicar um epitheto, começou a chamar a todo sugeito vadio
e vagabundo, belga, e assim diziam : Fulano é um belga; Si­
crano anda belgando; isto é: anda enchendo as ruas de pernas
o substantivo belga e o verbo belgar, que talvez ainda venha a
p or não ter o que fazer, a moda dos belgas. E assim crearam
fazer parte dos nossos futuros d iccio n a rio s.” (Lan tern a Ma­
gica n. 201 de 1887). A o que vimos de transcrever, temos ape­
nas que accrescentar o adjectivo belgança, de expressão obvia,
e que concurrentemente, appareceu. “ Bacharel que anda b el­
gando p or ahi p or essas ru a s.” (A m erica Illustrada n. 25 de
1872). “ Muitos belgas da justiça querem mamar na teta da v a ­
qu in h a .” (Idem , n. 19 de 1877). “ Os belgas nos ensinaram a
curar as consumições na rua do Im perador, ou a distrahir os
cuidados á sombra das arvores na L in gu eta .” (Idem , n. 2!i
de 1880).
Beliscão de frad e — O que é dado com os nós dos dedos
indicador e medio, convenientemente encolhidos.
Beltrano — Nom e usado em linguagem commum para de­
signar um indivíduo indeterm inado ou pessôa que sé não co­
nhece ou cujo nome não se recorda, não se sabe, ou se não
quer declinar. “ Um tabellionato em fa vor de Fulano, um car­
go de inspector de alfandega para Sicrano, uma sinecura em
qualquer m inistério para Beltrano.” (A P rovín cia n. 85 de
1915). Aulete registra Beltrão, com estas mesmas expressões,
naturalmente p or que assim é corrente em Portugal, mantendo
a sua originalidade, mas entre nós degenerado em Beltrano.
B em tivi — canora (D e n tiro stri). de bella plumagem, e es­
pecies differentes, duas das quaes tinham entre os indios os
nomes particulares de Pitanguá-araponga, e Pitanguá-guaçú. O
seu nome" vulgar porem, vem do seu p rop rio canto, que asisrn
o parece pronunciar, canto esse, que nas proxim idades das ha­
bitações, como diz o vulgo, indica visita, ou chegada p ró x i­
ma de uma estimada pessôa ausente. Passaro insectívoro, dá
caça, como o anura, ao carrapato que ataca o gado. Bem tivi
de igreja: um casquilho que a frequenta assiduamente, mas
sem o menor espirito religioso.
Bendegó — Certo penteado de mulher, e ao seu appareci-
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mento, mesmo de homem. “ M orta a gaforina, resuscitou com
o nome de beitdegó; e actualmente, um m oço para ser correcto
é preciso a indispensável gaforin a transform ada em bendegó.”
(Lan tern a Magica, 11. 455 de 1895). Tanta tolice que fede, tanta
asneira que faz dó, gaforina de moleque já se chama bendegó.”
(Idem , n. 467). “ Oh! visinha! p ’ra onde se bota, assim tão b o ­
nita hoje, de b en d egó?” (A Pim enta n. 49 de 1902). “ Madamc
Dasofia De fita no bendegó, P o r cinia tanta faro fia P o r baixo
canella só.” (A Lanterna n. 104 de 1913). Bendegó vem do cele­
bre aerolitho deste nome, o rigin ário da localidade em que ca-
hiu, no in terior da Bahia, e que transportado para o R io de
Janeiro em 1888, com muito trabalho e difficuldades pelo seu
avultado peso e volume, se vê hoje no Museu N acianol. Ben­
degó, segundo T heodoro Sampaio, é um nome barbaro, de o r i­
gem tapuia.
Bentas — Sedula falsa. “ Pedindo um cabalista eleitoral
a um pardo arm ador para votar na sua chapa, deu-lhe uma das
sedulas bentas de 5^600.” ( 0 P ro letário n. 9 de 1847). “ E as­
sim está o homem, como muitos outros, senhor de muitas p ro ­
priedades e com bastante riqueza adquiridas por m ilagre das
bentas portuenses.” (O Vapor dos Traficantes n. 106 de 1859).
“ Soprou-lhe o vento em popa po.r m ilagre das bentas que r e ­
cebia de Portu gal.” (O Barco dos Patoteiros 11. 7 de 1864).
“ Chegou ao cumulo da felicidade pela venturosa passagem das
bentas.” (Idem , 11. 26). As bentas começaram a apparecer em
circulação no govern o do Barão da Bôa Vista (1841-1844). co­
mo marisco, á fartar, e se passaram sem cuidados, sem risco a l­
gum. (O Artista 11. 2 de 1847); vindo esta denominação do no­
me Bento de um com m erciante portuguez vulgamente conhe­
cido p or Bento Nevalhão, que os jornaes da epocha aponta­
vam como o im perador e passador de sedulas falsas, e dahi cha-
m al-o o citado period ico em um artigo publicado no seu n. 8,
o Bento das bentas, consoantemente com o que escreviam ou­
tros. “ Enriqueceram á custa de contrabandos e das bentinhas
sedulas navalháes.” (A V oz do Brasil n. 37 de 1848).
Benzer — Usar pela p rim eira vez um objecto, uma cousa
qualquer que se com pra. Insinuar-se alguem no animo de ou­
trem, captar a sua confiança, exercer uma absoluta in flu en ­
cia sobre a sua pessôa, dominando-a mesmo, e assim conseguir
tudo quanto queira ditado p or seus interesses, muito embora
resultem com prom ettim entos e prejuisos: O João benzeu o An-
tonio p or tal modo, que consegue e faz delle tido quanto quer.

96
A prim eira venda do dia, seja qual fô r o negocio e na qual a-
bsolutamenle não se admitte o fiado, para não o encaiporar.
A pessoa que tem bôas mãos e benze o negocio comprando qual­
quer cousa, corre o dia p ropicio para o seu dono; e geralm ente
as mulheres, segunido os preceitos de tradicional supersti­
ção ao receber o dinheiro dessa prim eira venda, benze-se com
elle, devotamente fazendo o signal da cruz e pronunciando as
palavras rituaes.
Beocio — Sim plorio, ingênuo, toleirão, facil, papalvo. “ Es­
ses senhores que desembacam da Beócia, só entre beocios
podem vender a sua pomada.” (A m erica Illustrada n. 20 de
1877). “ Só beocios acreditam no immenso poder dos reis.” ,(4t
Duqueza do Linguarudo n. 97 de 1877). “ Os partidários da comi-
panhia lyrica tem se tornado uns verdadeiros beocios.” (O Bino-
çulo n. 23 de 1882). “ P ois eu, murmura um beocio Com voz
firm e e collosal. Dçsejo apnas ser socio Da fazenda federal
(Jorn al do R ecife n; 286 de 1915).
Beque — As ventas, um ;na'riz enorm e: Quebrar o beque
de prôa. “ Um beque tal, que haveria duvida, se fosse preciso,
dar-se a vinte que o não tivesse.” (O Telegraph o n. 6 de 1850).
“ Quem é você, que está ahi de beque erguido, e com fumaças
de alterosa p ro a ? ” (O Barco dos Patoteiros n. 4 de 1864). “ E n­
trou na loja, a cavalgar o beque pequeno e lindo pincenez d oi­
rado ” (O João Fernandes n. 11 de 1886).
B ereberé — Um troca tintas ahi qualquer, um João nin-
gum; uma cousa insignificante, de ponco valor. Um presente
bereberé
Berim bello — Pequena peça, com movimento, que prende
de uma outra m aior, com o o pingente, ou antes o p ro p rio p in ­
gente assim chamado.Os berim bellos de uns brincos ou rosetas.
Castello de Martim B erim b ello: indicação chula de uma casa
de habitação. Dona B erim bella: Nom e com que intimamente se
designa uma senhora quando não se sabe com o se chama, ou
sabendo-se, não se o quer declinar p or certos m otivos: Aquel-
la D. Berim bella, sabe, passou hontem p or aqui.
Bernarda — A lvoroto, motim, revolta, levantamento, sedi­
ção. Sobre a origem deste vocábulo correm varias versões,
cada qual mais desencontrada; mas, destacando uma delias
p or se achar codificada ém uma obra que conta já duas edi­
ções, as Frazes feitas, do illustre e fecundo publicista João R i­
beiro, a consignamos, e discutindo-a, daremos depois o que de
real e verdadeiro podemos apurar sobre a questão ficando,
ao que nos parece convenientemente resolvida. “ A expressão
Bernarda tem um antigo etimo e significa motim revolta á mão
armada, e fo i tomada ás bravatas do famoso Bernardo dei Car-
pio, o invisavel cavalleiro, como resa o seu romance de in ve­
rosímeis façanhas. “ Bernardo dei Calpio pelo que podemos
colher das licções da H istoria, e não do romance, fo i um va­
lente cabo de guerra, que floresceu no seculo nono. E ra f i ­
lho do- Conde de Saldanha e da infanta D. Ximena, irm ã de
Affon so I I re i das Asturias, cognominado o Casto, e contra
quem se revoltou, porfim , vindo dahi, principalm ente, a lenda
das suas façanhas. Tom ou elle parte em muitas batalhas, no­
tando-se entre ellas a de Roncesvalles, na passagem dos P y ri-
neos para a França, contra o im peràdor Carlos. Magno, ven ­
cendo os celebres Pares de França, de tão notáveis destaques
nas legendas carlovingianas, Bernardo dei Carpio combateu
sempre em campo franco, em guerra aberta, em campanhas
legitim as; era um m ilitar arregimentado, disciplinado, um
chefe de exercito, um homem de responsabilidade,, em fim ; e
assim não é licito encaral-o como um arruaceiro, agitador, ca­
beça de motins, um chefe de apaniguados bandoleiros a p ro ­
vocar desordens e revoltas, levantes e sedições. “ H eroe hes-
panhol do seculo IX, como escreve P in h eiro Chagas no seu
D iccionario Popular, illustrou-se immensamente p or façanhas
magnificas contra os m o u ros.” A gora as nossas objecções.
O vocábulo é moderno, originariam ente brasileiro, e se assim
não fosse, e viesse das bravatas de Bernardo dei Calpio, seria
•originariamente da Hespanha, patria sua, c conhecido desde
tempos remotos uma vez que floresceu elle no seculo nono.
e concurrcntemente em Portugal, cujo idiom a possue grande
numero de termos originários do castelhano, o que não acon­
tece, verificando-se mesmo, que somente depois de creado,
vulgarisado e correndo 110 Brasil, é que teve codificação nos
lexicons portuguezes. Term o geral, - corrente, e portanto já
com fóros de cidade, surgiu para designar os motins e rus­
gas populares que occorriam no periodo de exaltação política
nacional, que tiveram como ponto geral de partida os pro--
nunciamentos que irrom peram em 1820 em p ról do procla­
mado systema constitucional, naquelle mesmo anno, e na p ró ­
pria m etropole pelo triumphantc revolução do P orto . E m -1824
já o term o era corrente no R io de Janeiro com o se vê de um
D ialogo politico, e instructivo, entre os dous homens da roça,
André Rapozo, e seu compadre Belonio Sim plicio, á cerca da
Bernarda do R io de Janeiro e novidade da mesma, alli pu-

98
blicado na Imprensa Regia, em 1821; em 1822 houve em S.
Paulo um m ovimento insurreccional conhecido, originariam en­
te, com o nome de Bernarda de Francisco Ign acio; e concur-
rentemente entre nós, pelas referencias de Caneca nas suas
obras, houve uma Bernarda no R ecife em 1822. Assim vulgari-
rizado o moderno term o excluma um period ico corcunda des­
ta capital dirigindo-se a uni patriota exaltado; “ 0 flagelo da
numanidade, director das B ernardas!” (O Cruzeiro n. 175
de 1829. Até aqui, em ligeiros traços, a genesis do vocábulo,
e agora a sua origem , a sua procedência histórica, externada
em uocumento de fé e autoridade, e alem de tudo, contem po­
râneo, o p eriodico bahiano, O Semanario Civico, no seu n. 35
de 25 de Outubro de 1821, nestes termos precisos e claros: “ Co­
mo muito de nossos lentores não saibam o que quer dizer —
— Bernadinha, — vamos explicar-lhe. 0 ex-m inistro V illa N o ­
va de odiosa memória, querendo dizer que era uma estrava-
gancia, ou Bernadice, a revolução de Portugal, chamava a
Constituição a ,Bernarda. Daqui vem dar-se no R io de Janeiro
o mesmo nome a todas as revoluções que tem havido por
aquella causa: dizendo-se que a de 2G de F e vereiro fo i o p r i­
m eiro parto da Bernarda de 22 de A b ril, o segundo, o m otim de
5 de Junho, o terceiro, etc.” A esses partos da Bernada
fazia ainda depois referencias um p eriodico do R ecife nuns
versos hum oristicos: “ Ha uma só contingência Quando a B e r­
narda é parada; E ’ furar-nos a barriga Alguma bala perdida.”
(O A rtilh eiro n. G1 de 1843). Moraes, que viveu e m orreu em
Pernam buco em 11 de A b ril de 1824, não teve tempo de con­
signar o vocábulo na terceira edição do seu D iccionario im ­
presso em 1823, e nem os lexicographos que posteriorm ente ap-
pareceram, como Constancio, Lacerda e Faria, quando aliás,
já era conhecido e vulgar; até que emfim, já em nossos dias,
Y ie ira o contemplou como um nome chulo que o povo dá ás
revoltas, insurreições ou levantes, mas sem dizer que este povo
era o do Brasil, uma vez que escrevia em Portugal, e dahi a
vulgarização do termo pela sua codificação nos lexicons m o­
dernos. Assim demonstrada, e documentadamente com prova­
da, a origem do vocábulo Bernarda, em nada a prejudica o que
á respeito escreveu o illustre autor das Frazes feitas, em face
do seu p rop rio subtítulo: Estudo conjectural de locuções T ra ­
ta-se de uma conjectura, portanto.
Beroncio — Sugeito de poucas falas, retrahido, desconfia­
do. “ O descurado beroncio se achava desde pela manhã pe-

99
ilJtHtbl r Wl": • T ,:!| f*l
r « t i c * s t * l i.u • « • *. o

gado à janêllã da sua d iv a .” (A Pim enta n. 71 de 1902).


Berrante — R evolver, na giria dos gatunos do R ecife, liem
com o no argot da malandragem do R io de Janeiro, em que
tem tambem o nome de João meia duzia. naturalmente em
allusão aó numero de balas que contem,
Besouragem — In triga, enredo, aleivosia surda. “ Manda­
ram-nos d izer tão extravagantes cousas daquellas duas crea-
turas, que só p or falar temmemos um raio. B esou ragen s... be-
souragens.” (A Pim enta n . 56 de 1902). Cochicho, falas oc-
cultas còm segredo e reservas, conversas, insistente, ao ouvido,
á meia voz, como o zumbido roufenho do besouro, d ’onde vem
a d icç ã o . “ As besouragens do Cam illo são cousos que enca­
bu lam .” (Idem , n. 57).
Besta — Adm irado, pasjno, sorpreso: Ficar besta, de boe-
ca aberta, de queixo cahido. “ F iqu ei be3ta, enlouquecido, por
tua causa, crea n ça. ” (A Pim enta n . 64 de 1902). Explorado,
sobrecarregado de pesados encargos, fatigantes trabalhos, ex­
cessivas despesas, Besta de carga. O novo eterno besta.
Queiroz de todos os tempos. (Jornal do R ecife n. 135 de 1916) .
T olo, ignorante, estúpido; papalvo, sim plorio: Besta encorpa­
da; besta quadrada; com er por besta. “ Podendo andar a bon­
de, sem ser conhecido, não vou andar a pé, que eu não sou
b esta .” (A, Pim enta n. 381 de 1905). “ Mamãe se damna com o
enthusiasmo de certos typos bestas.” (Idem , n. 549 de 1907).
D ictados: Cavallo grande, besta de pau; Quem tem besta não
com pra besta; Quem é besta, pede a Deus que o mate e ao dia­
bo que o carregue; Quanto mais besta, mais peixe. “ Se fores
ao mar pescar. E a fortuna te não deixe, Faze-te besta, bem
besta, Quanto mais besta mais peixe.” (T ro va s p op u u lares).
Bestar — Andar á toa, sem destino e orientação certa; preo-
ccupado com qualquer cousa: Andar bestando pelas ruas.
Bestalhão — Muito besta: Bestalhão encorpado. “ Tanta la­
ranja madura, Tanto lim ão pelo chão, Tanta menipa bonita,
Tanto rapaz bestalhão.” < Quadras populares). “ Essa gen­
te não toma mais juízo nem vergon h a! Ora andem “ bestalhões!,!
(O Clamor Publico n. 1 de 1845). “ V in de bestalhões, p ôr em
prova a vossa san d ice.” (A m erica Illustrada n. 8 de 1882).
“ Gastar o seu dinheiro em jogo de bicho, é preciso ser um tolo
um bestalhão.” (Idem , n. 522 de 1897). “ T od o besta, quer ser
sabio quando encontra um bestalhão.” (A Pim enta n. 631 de
1908). Moraes consigna o vocábulo, quem manda v êr bestarrão,
que da com o chulo, e augmentativo de besta.

100
Besteira — T olice, parvoice, sandice; “ inépcia, dicto, ac­
ção ou obra que revela ignorancia, falta de senso ou tino,” co­
mo escreve Aulete sobre o termo fam iliar asneira, que corres
ponde á besteira da nossa giria. Besteira do compadre T e i­
xeira embrulhado numa esteira. (D ictado fa m ilia r). “ 0 tal ba­
rão dos traques e das besteiras barão.” (A m erica Illustrada de
28 de Setembro de 1873). “ Um brinde eu quero erguer! V a ­
mos saudar á b esteira!” (A Derrota n. 4 de 1883). “ Não se con­
cebe tão grande asneira. Não se imagina tanta tolice; não se
perdoa tanta besteira, Não sé commenta tanta sandice.” (A P i­
menta n. 13 de 1902). O termo tem também curso no Ceará
com as mesmas accepções: “ Venha cá minha senhora, Deixe
^de tanta besteira ” (D e uma Sarabanda lo c a l).
. .Bestialisado — Como besta, reduzido á besta. “ Depois do
15 de N ovem bro o povo tem assistido bestialisado a todas es­
sas coiisas em que entra como Pilatos no Credo.” (Lantern
Magica n. 555 de 18898).
. .Bestiologia — A sciencia ou arte de ser besta. “ P rovou
em bestiologia ser um form oso estudante lá do Brum na aca­
demia.” (A m erica Illustrada de 21 de Dezem bro de 1873). “ Ma­
mãe se damna com as besteologias do José Antonio.” (A Pim en ­
ta n. 493 de 1906).
. .Bestialogico — T olo, asneirão, ignorante, desfructavel;-dis­
curso ou escripto consoantes. “ Ao povo não se d irige serões
bestiologicos. (A m erica Illustrada de 12 de Maio de 1872). “ O
homem tem dado thema para algumas prelecçõec bestialogi-
cas ao vate suino.” (O Diabo a quatro n. 155 de 1878). “ Ter-
se desenvolvido ultimamente a pilhéria de se escrever bestia-
logicos e mandal-os para a typographia com o nome de p es­
soas illustres.” (A m erica Illustrada n. 47 de 1880). “ Está para
v ir á luz um liv ro importante, que terá titulo: Cousas bestia-
logicas.” (Idem , n. 35 de 881). “ Asneiras, desastres, foram o
conteúdo da grande e bestialogica peça oratoria.” (Jornal P e ­
queno n. 35 de 1916).
Bestidade — Acção, cousa de besta. “ Uns camellões que vi
vem azucrinando os ouvidos desta pobre humanidade com as
suas bestidades.” (A m erica Illustrada n. 23 de 1882). “ Disse o
vigá rio ser essa historia de casamento c iv il uma bestidade.”
(A Pim enta n. 45 de 1902). “ Fazer versos é tolice, fazer prosa
é bestidade.” (Idem , n. 577 de 1907).
Bêtas — D ifficuldade, trabalhos, riscos, situações criticas,
perigosas mesmo; e dahi a phrase: Vêr-se mettido em bêtas,
para im prim ir a contibencia de taes situações. “ T u ’, pelo que
tenho sabido, tens te visto em bêtas. (O Campeão n. 104 de . . .
1862). “ O Canuto viu-se em bêtas, numa trança brutal, muito
çncrencado.” (Pernam buco n. 298 de 1913).
Eéte — Planta medicinal, mencionada por Jeronym o V i
lella. E ’ a piperacea Betys, estudada por Alm eida Pinto.
Beú — A mulher de V erónica e as suas duas companheiras
que figuram em algumas procisões da quaresma, e particu lar­
mente na do enterro do Senhor entoado a da Verónica, á cur­
tos intervallos, um cântico de musica terna, cuja letra é esta,
extrahida dos Threnos ou Lamentações do P rofeta Jeremias
(Cap. I Vers. 12): “ O’ vos ones, qui transites per viam, atten-
dite, et videti si est dolor sicut dolor meus.” Este cântico tem
p or estribilho repetido pelas duas outras mulheres esta letra
de. instituição ecclesiastica: Heu! H eu! D om ine! E ’ d’ esta d ic­
ção interjectiva, Heu!, que em obediencia á musica pronunciam
ellas Heu, que vem a corruptela de Béu dada a essas tres figu
ras das citadas procisões: Maria Béu; as beús. “ Todas cobertas
de fumo, são behús estas caiporas?” (Lan tern a Magica n. 253
de 1889). “ Traz da Angelina vinha a sua com panheira Celes­
tina vestida de Maria beú.” (A Pimenta n. 74 de 1902).
Bexiga — Canudo, logro, máo negocio: Levar tomar uma
bexiga.
Bexigada — Estopada massada, cousa encommoda, en fad o ­
nha. “ Mas fo i uma bexicagada a tal cousa do sermão.” (O Etna
n. 13 de 1882).
Bexiga lixa — Variola confluente. “ Vaccina-te, pois te arris­
cas a m orrer de bexiga lix a .” (Z izin a & Esm eralda) N o sul
porem, tem o nome de P elle de lixa, como se vê de Langaard.
Biába — Bordoada, pancadaria grossa, na giria dos gatunos.
Bibóca — Barranco, grota, escavação, ou como m elhor ex ­
prim e o vocábulo em sua origem , do tupi, Ybibóca, corruptela
de iby, terra, e bog, rachada fen d id a :'ca m in h o cheio de b ibo­
cas, isto é, depressões, buracos causados pelas enxurradas, se­
gundo ficou a estrada cheia de bibocas.” (Beaurepaire Rohan).
Em Fern an do de Noronha ha um m orro chamado Bibóca, em
cuja fralda Occidental nasce o riacho Maceió.
Bicáda — Um trago de cachaça, uma bordoada: Dar, tomat
uma bicada. “ T iv e vontade de dar uma bicadinha, pois esta­
va inteiram ente secco.” (O Diabo n. 6 de 1883). “ Quando lhe
aperta a lua e toma alguma bicadinha, insulta aos visinhos. '
(A D errota n. 13 de 1883). “ Segundo dizem os bicadores, a b i­
cada é o unico preservativo contra o cholera.” (Lan tern a Ma-

102
gica n. 93 de 1884). “ Sou amante da branquinha, Do cajú sou
camarada, Sou amigo do copinho Quando sorvo uma bicada.'’
(A Pimenta n. 640 de 1908).
Bicado — O mesmo que alegre. “ Tú, bicado, na marqueza,
Não deste por tal fineza.” (A Pimenta n. 10 de 1902). D eriva­
dos :Bicador, bicar, de expressões obvias.
Bicháno — Nom e fam iliar do gato. “ O amor da titia é b i­
chano a miar no postigo.” (Lan tern a Magica n. 18 de 1882).
“ Era manso, bem manso o meu bichano, iun gatinho de pello
avelludado.” (A Pimenta n. 13 de 1902). “ Eu quizera, Sinhá,
ser o g a tin h o ... T er de ti tanto affecto e tanta estima Quanto
ao bichano fazes de carinho.” (L e o v ig ild o Sam uel). “ O bicha­
no é symbolo da felicidade, sendo preto.” (D r. Lins e S ilva )
Moraes registra Bichano, e manda ver Bexáno, que dá como
termo fam iliar, na accepção de gato novo. (V . Pich an o)
Bichão — Homem de superior m erecim ento; de grande im ­
portância, prestigio e influencia; valentão, sabidorio, experto.
“ Vmes. fechem os olhos, e peguem num, que é um bichão.'’
(O Vapor da C alifórnia n. 11 de 1849). “ P o r isso nas letras pa-
trias sou tido como bichão.” (O P olich in ello n. 1 de 1895). “ O
Mello, eu conheço; é um poeta bichão.” (A Pimenta n.4 d e ..
1902). “ Sou advogado bichão Em traquejos federaes: Quem me
entrega uma questão Não perde, nunca jamais, Tenha ou não
tenha razão.” (Idem , n. 7) “ A lto lá, seu v igá rio ! Sou bichão!
(O Sachristão, n. 1 de 1903).
Bichar — Encher-se de bicho. “ O feijão bichou: m ilho
bichado” . (T h eoton io R ib e iro ).
Bicheira — Ferid a com bichos que infesta os animaes bo­
vinos e cavallares, preferentem ente na região um bilical. Taes
bichos, segundo Beaurepaire Rohan, são as larvas de certos
insectos que depositam seus ovos nas feridas; mas como es­
creve Langaard, taes larvas são produzidas pela mosca vare­
jeira, e depositadas já vivas, mui pequenas, nas feridas, apre­
sentando porem, em pouco tempo, um grande desenvolvim en­
to . Para a cura da bicheira, a superstição popular tenr ensal-
rnos proprios, que dispensam o m ercúrio ou outro qualquer
m edicam ento. “ Ha novellas, que á semelhança do L e Roy, até
para cura da bicheira s erve” . (O Car,apuceiro n. 25 de 1839).
B icheiro — Individuo que v iv e do jogo do bicho, bancan­
do ou vendendo. “ Os bicheiros são talentosos e saberão dis­
farçar o jogo que hoje a policia tanto persegue” . (Lanterna

103
Magica n. 528 de 189.7). “ A policia deu forte caça aos bich ei­
ro s ” . (Idem , n. 574 de 1898). “ Quem não paga é caloteiro,
quem vende bicho é b ich eiro ” . (A Pimenta q. 21 de 1901).
Bichento — Que tem bichos. (P u le x penetrans) nos pés.
“ Pés de moleque bichentos, com os dedos arrebitados” . (L a n ­
terna M agica) n. 172 de 1886).

Bicho — Q ualificativo de desdem ou despreso. “ Mas o b i­


cho, coitadinho! tambem anda doentinho” . (Lan tern a Magica
n. 762 de 1904). “ Aquelle bicho tem um andar de mosca ton­
ta” . (Idem , n. 441 de 1894). Papão ou tatu’ para fazer medo
aos meninos: Não faças isto, não vás a lli; olha que o bicho te
come, te pega. Indivíduos cacete, pau, cuja presença enfada,
desagrada: L á vem o b ich o; de certa habilidade ou predica­
dos: “ Zé b oi é bicho bom no p in h o” . (Jorn al do R ecife n. 91
de 1914). N o dim inuitivo, porem, é um term o affectivo, cari­
nhoso, dado ás crianças: Vem cá, meu bichinho.
Bicho cacáo — O mesmo que bichão. “ Zé Grande dá ca­
beçada, P o r ser um bicho cacáo” . ( A Pfm enta n. 20 de 1901).
O dictado occorre tambem com este qu alificativo com plemen­
tar: da folh a miuda.
Bicho-carêta — Um troca-tintas, ou valdevinos ahi qual­
quer. “ Ouço dizer a qualquer bichp-casrêta, que os senadores
e deputados são mandatarios do p o v o ” . (O Carapuceiro n. 17
de 1837). “ Os eleitores não devem cerrar os olhos e votar ce­
gamente em qualquer bicho-carêta.” (O Diabo n. 6 de 1883).
“ Esquecidas as nobres acções, todo bicho-carêta é agraciado” .
(Lan tern a Magica n. 236 de 1888).
Bi,cho,-carpinteiro — O que ataca, principalm ente ás crian ­
ças, como diz o vulSo de modo a ser inquietas, não parar em
lugar nenhum, andar sempre em m ovim ento, e não pod er es­
tar assentadas p or muito tempo.
Bicho de sete .cabeças — Uma cousa insignificante, de no-
nada, cavillosa e aleivosam ente encarecida, commentada, re ­
provada e punida mesmo, como de muita im portância e gra­
vidade: P o r uma cousa de nada faz-se um bicho de sete cabe­
ças! A locução vem dá l^abula, e tomada na hydra ou serpente
da lagôa de Lerm a, que tinha sete cabeças, que renasciam ao
passo que se lhe cortavam , até que H ercqles conseguiu matal-
a, term inando assim o te rro r e os damnos que causava o h or­
rendo bicho de sete cabeças.
Bicho do matto — Individuo inaccessivel, desconfiado, re-
trahido, grosseirão.
Bicho dos pés — Nigoa, pequeno insecto da ordem dos di-
pteros (P u lex penetrans, L in n .) sobre o qual, Pisonis, que
principalm ente o estudou, em Pernambuco, escreve: Minu-
trissimos verm icolos lusitanis Bicho, brasiliensis Tunga hoec
terra nutrit” . R egistrando Aulete o term o Nigoa, diz que o
pequeno insecto deste nome, é origin ário da A fric a e da A m e­
rica m eridional onde tambem é chamado tunga ou bicho dos
pés, consoantemente assim com aquella denominação indigena
citada p o r Pisonis. Segundo Langaard, é a fem ea dessa peque­
na pulga muito frequente no Brasil, que se introduz debaixo e
ent red or das unhas ou em qualquer outra parte dos pés, fo r ­
mando depois um sacco cheio de ovos, que cumpre extrahiv
todo, pondo um pouco de cal de parede no buraco. “ Olhei-lhe
p ’ ra os pés, Benzi-me de m edo; P ’ra mais de cem bichos T i ­
nha em cada d e d o ... O negro é bicho de pé, E ’ peste, é sujo,
é m orrin h a” . (F o lk -lo re Pernam bucano). “ Os belgas em pou­
co tempo tornaram-se magros, amarellos, com os pés cheios
de bichos.” (L an tern a Magica n. 201 de 1877).
Bicho papã|0 — Monstro horrendo, im aginario, com que
se faz medo ás crianças para as conter ou adorm ecer.
Bico — Guarnição ou peça de desenho variado, larga ou
estreita, terminando ao c orrer da extrem idade in fe rio r em
bicos ou pontas angulares ou semiculares, harmonicamen-
te dispostos, para enfeite de toalhas, lenços, fronhas, roupa de
crianças e mulheres e outras peças de tecidos. F eito de linhá
branca, com bilros, sobre um pique ou m odelo em papel en­
corpado colorid o de amareUo á gengibre, e preso a almofada,
vem desses recortes ou bicos da peça a sua denominação entre
nós, como a de bicão na Bahia. “ Emquanto houver boceteiras
vendedeíras de bicos e rendas, o deus frech eiro não ha de pa­
decer falta de bons procu radores” . (O Carapuceiro n. 69 de
1837). “ A borreço as velhas que usam de calças com rendas e
b icos” . (Lan tern a Magica n. 10 de 1882) . “ Vistosos cabeções
de que pendem, não sem acertadas, combinações, bicos e ren ­
das bem feitas e elegantes” . (F ra n k lin T a v o r a ). D inheiro, a
fracção de m il reis: cinco bicos, dez bicos, etc. “ Esses sim, é
que hão de salvar o Brasil depois de pagos os bicos que d eve” .
(O Patusco n. 4 de 1886). “ Custando um bico só, a Serpentina
(L iv ro s deSortes) se vende em toda a p arte” . (A Pim enta n.
33 de 1902). “ Levem uma pelega de um bico e terão a respe­
ctiva garrafa da sympathica brazileira, (Jornal do R ecife n.
49 de 1914).

105
Bico ide tesoura — A ve sertaneja, muito vulgar.
Bicos — Arranjos, negocios, encommendas; cousas in si­
gn ificantes: T e r ainda que vêr, arranjar, ou satisfazer uns
bicos, ou mesmo biquinhos, como concurrente e mais frequen­
temente se d iz.
Bicuda — P eix e de agua salgada (Isiophorus americanus,
C u v .), a que os indios chamavam Quebuçu’, e mudado em bi-
>
cuida, pelo bico ou aguilhão agudo e duro, com que pronuncia­
damente term ina a cabeça. Faca de ponta. “ O capitão fo i
preso publicamente, com uma fàca de ponta, mas logo que
chegou á casa do Aragão, fo i immediatamente solto e entre­
gue a bicuda” . (O Clam or Publico p. 66 de 1845). “ E p o r se­
gurança Me puz afastado Tem endo as bicudas Que vem do Pas­
m ado” . (O Viapor dos Traficantes n. 260 de 1860). “ Oh! pa­
tife ! espera que já te arranjamos, disseram;, e descascam as
bicudas de Pasm ado” . (A m erica Illustrada n. 14 de 1883). V.
Pasmado.
Bicudada — Facada. “ Bateu a mão a um faquéo, e cor­
reu-lhe uma bicudada, que não o alcançou” . (O V ap or dos
Traficantes n. 198 de 1860).
Bicudo — Passaro canoro, de um bello canto, forte, es­
tridente, porem muito harm onioso, sonoro e agradavel, e por
isto tido em grande apreço; é de bico grosso e adunco, vera
dahi o seu nome vulgar. “ Como m elros são negros os bicudos,
Mais destros e agradaveis no seu c a n to ... Bello e querido
Bicudo, Stás tam mudo! Porque não queres can tar?” (Jerony-
mo V ile lla ). Dous bicudos não se beijam. (D ictad o p o p u la r ).
E scravo clandestinamente im portado da A fric a depois da L e i
da repressão do trafico, que baixou em 7 de N ovem bro de
1831, regulamentada p or decreto de 12 de A b ril de 1832 e re*
mettida ao govern o de Pernam buco para os devidos fins por
A viso de 17 daquelle mez e anno. “ Chegou ao norte de Goy-
anna um lanchão da costa d’A frica, trazendo uns cem bicudo?
que foram apprehendidos pelas autoridades policiaes daquel-
la cidade” . O Clam or Publico n. 42 de 1845). “ E ’ verdade
que desembarcaram 300 bicudos e, que só 50 foram remèttidos
ao chefe de p olicia; mas o que querem ? A maldita peste lam ­
beu os outros” . (Id em n. 87 de 1846). “ A i dos trezentos b i­
cudos que tenho lá na B ah ia!” (O Patuléa n, 18 de 1850). “ Des-
ía eleição depende a bôa chegada e desembarque de um carre­
gamento de 800 bicudos” . (O Gallego n. 7 de 1850).

106
Bidé — Pequeno m ovei de quarto de dorm ir, collocado
junto á cama, para a guarda do vaso, em uma peça in ferior,
com portinhola; e na superior, com tampo de m adeira ou m ár­
more, para a palm atória ou castiçal e a caixa de phosphoros.
B ife —. O inglez. Codificado o vocábulo nos nossos lexi-
cons mas com as expressões particulares que tem na culinaria,
é um corruptela da palavra ingleza beef, boi, e dahi a sua appii-
cação depreciativa aos filh os da velha Albion, p or serem
grandes com edores de bifes. “ O F letch er é um c h e fe ... A h !
bife de uma fig a ! Se um dia te pegamos de geito tu has de
aprender a tratar com sinceridade” . (Lan tern a Magica n.
875 de 1907). “ O bife que desorganisa a Companhia de Olinda,
é um homem teim oso” . (A Lanceta n. 60 de 1912).
Bigode — P a ' n in h o de canto regular, mas de pouca vida
na gaiola. Tem cabeça branca com uma pequena lista p re­
ta, recurvada, sobre um lado e outro do bico, á laia de bigode,
vindo dahi o seu nome vulgar.
Bilhete — Cascudo, peteleco na çabeça: Dar, levar, tomar
uns bilhetes.
B ilh eteiro — t) que vende bilhetes de loterias. O b ilh e­
teiro fulano vendeu o numero tal, que tirou a sorte grande” .
(Lan tern a M agica n. 178 de 1887). “ O Yianna, bilheteiro da
loteria de Sergipe, compareceu de calças arregaçadas” . (A P i­
menta n. 39 de 1902). “ As bilheteiras! Genuinos m eirinhos de
saias, embrulhadas em chales, cabellos de cocó á moda boei-
r o ” . (Lan tern a M agica n. 813 de 1905).
B ilheteria — Saleta nos vestibulos dos theatros e casas
de diversões onde se vendem os bilhetes de ingresso.
Bilo-bilo — M ovim ento do dedo indicador sobre os labios
das creanças para as agradar e fazer sorrir, pronunciando-se
o bilo-bilo, repetidam ente. “ O Sr. Osorio com um dedo nos
labios fazia o bilo-bilo. (O Di,abo a quatro n. 150 de 1878).
Bilontra — Bohemio, um desoccupado gamenho, industrio­
so, que v ive de expedientes, sangrandõ á humanidade, mas
com certa encadernação e ares de homem serio, e assim en­
chendo as ruas de pernas, ou estacionando nos cafés e Restau­
rants. “ Essa igrejin h a de bilont,ra da im prensa” . (O João
Fernandes n. 43 de 1887). “ Ja não ha quem indague da vida
deste b ilon tra” . (A Pim enta n. 1 de 1902). “ O caminho da glo ­
ria, na expressão de um bilontra nosso camarada, é semeiado
ide cacos de ga rra fa ” . ( A Illustração n. 3 de 1895). “ Bohemio,
descuidado, hoje chamariam a G regorio de M a tto s'd e bilon-

107
tra ” . (A ra rip e Junior). Este vocábulo vem do R io de Janeiro,
dos annos de 1885, tendo por ereador o popular e original ty-
po de rua vulgarmente conhecido por Castro Urso, que na-
quella epoca, descuidosa e despreoccupadamente ali passava
vida folgada e milagrosa, e sobre o que Carlos de Laet e s c re ­
veu o seguinte, em um folhetim publicado no Jornal do Com-
mercio, em 9 de Março de 1886: “ O Urso metteu uma palavra
no diccionario. Para variar chamavam-no Lon tra: e elle re ­
torquia antepondo com agudeza p hilologica o p refix o b is ...
Oh Lon tra! oh Lon tra! berrava a molecagem. E vocês são Bi-
lontras!, respondia o philologo. F o i assim que nasceu o termo
de accordo com as prescripções glottologicas” . Naquelle mes­
mo anno appareceu na côrte a peça O Bilontra, revista de 1885,
que fez as delicias das platéas dos seus theatros, e assim vul-
garisado o r..ivo termo, teve immediatamente curso entre nós,
de sorte que, e ainda em 1886, deu-se o nome de Bilontra ao
orçamento p rovin cial em discussão na Assembléa Legislativa:
e a imprensa opposicionista e os periodicos illustrados acom­
panhando a corrente, no mesmo tom se pronunciava. “ 0 ob­
jecto que presentemente mais desafia a curiosidade publica é
o orçamento B ilon tra” . (Lan tern a Magica n. 161 de 1886).
Emfim , encerrada a Assembléa, e uin outro p eriodico (O João
Fernandes n. 3), noticiando o facto, exclam a: “ Surgiu num
laborioso parto um monstro, um bilontra, um zero, um sangue-
suga, o O rçam ento!” Assim vulgarisado o termo em todo o
paiz, Beaurepaire Rohan c Macedo Soares o inscrevem nos
seus Vocabulários, e transpondo mesmo as suas raias, fo i ter
voga em Portugal, e codificado p or A lberto Bessa no seu liv ro
A giria portugueza como termo popular, o mesmo que p elin ­
tra, indivíduo sem importância, e emfim por Cândido de Fi-
gueredo no seu Diccionario, como voz portugueza com as ex­
pressões de velhaco, espertalhão, e como brasileira com as de
homem despresivel, que frequenta lupanares e más compa­
nhias. E assini se escreve a h istoria!. ..
Bilrada — Cacetada, paulada: Dar, tomar umas bilradas.
“ Em poucos minutos choveu cacete, que for serviço. Tom ei
bilradas a valer.” (Jornal Pequeno n. ‘26 de 1915).
B ilro — Cacete curto, grosso: Metter o bilro. “ T alvez os
seus 2.000 homens de que fala o Pedro II, e talvez armados de
bilros, não lhe appareccssem” . (A Ponte daí Boa Vista n. 6 de
1836).
Binga — Chifre de b oi usado pelos pedreiros para servi­

108
rem-se d ’agua nos trabalhos do seu o ffic io ; tabaqueiro òu cor-
nimboque, no alto S. F ran cisco. O vocábulo é tomado da
lingua bunda ou angolense, e com a p rópria expressão de chi­
fre, como, em geral.
Biquara — P eixe do mar, de escamas, tão vulgar entre
m s como nos mares do archipelago de. Fernando de Noronha.
Biquinho — D im inuitivo de bico, para distinguir o largo
do estreito; certo pronunciamento dos labios como expressão
de enfado ou desdem, ou em contrações, como prenúncios de
choro: Fazer biquinho.
Biquinhos — Umas tantas cousas miúdas, de pouca m on­
ta, que restam fazer para a conclusão de um trabalho ou ser­
viço qualquer; pequenos aprestos ou preparativos com plem en­
tares á qualquer cousa; pequenas encômmendas ou com pro­
missos a satisfazer. “ Mandou preparar a casa da Relação, pa-
ramental-a de m obília e mais alguns biquinhos, com enormes
gastos” . (O Guarda N acional n. 7 de 1843). “ A pedra funda­
mental do Hospital Pedro II, custou ao thesouro provincial,
com mais alguns biquinhos, como canôas de areia, de cal, de
Ujollos, etc. etc., 4:000*000” . (A Carranca n. 4 de 1847). “ O
Vasco andava oecupado em arran jar dinheiro para satisfazer
uns biquinhos de que ainda estava em d ivid a ” . (O Consérvador
Verm elho n. 29 de 1863.
Birrada — Uma cousa qualquer, que occorre, de causar
encommodo, contrariedade, p reju izo: Esta fo i mesmo uma
birrada! Cousa excellente, supimpa, vistosa, de crescer os
olhos: Um forrobod ó, uma rapaziada de b irrada! “ Mesa chi­
que, de birrada, para fazer "eleições a supapo e cannelões” .
(A m erica Illustrada n. 17 de 1880). “ Contracto de bocorio,
que um certo fin orio, camarista de birrada, sob palavra f i ­
ze ra ” . (Idem , n. 13 de 1881). Variante chula de bilrada, e
com as sua próprias expressões. “ O F igu eiró leva um mar-
m elleiro para desancar o Sr. L eclerc com algumas birradas
para acalm ar-lhe as com ixões da lingua” . (A Lanceta n. 51
de 1890). “ F o i uma birrada só, no alto da cabeça, e o cabra
fo i espernear na lama do b ecco” . ( A Pim enta n. 487 de 1906).
B irro — O mesmo que b ilro. M anejei o b irro, contei pon­
to. fiz um riseado, e 'a rru m e i outra porrada na caixa do ca-
tharrc* do camarada” . (A Pim enta n. 487 de 1906).
Bisaco — Em bornal, sacco, muchila. “ Bati a mão no
bisaco E logo o fumo lhe d ei” . (Cancioneirjo do N o rte ).
Bisca — Individuo de caracter equivoco, de má fé, trapà-

109
ceiro: A qu illo é uma bôa bisca. “ H averá nesta cidade quem
não conheça esta bisca? E ’ uma joia de preço; a seu tempo
será em palhado” . (O Diabo a quatro n. 45 de 1876). “ A pe-
quena naturalmente não sabe com que bisca está tratando” .
(A Pimenta n. 553 de 1907). Experteza, astúcia, sagacidade,
trapaça. “ Deixe-m e embarcar esta bisca, com a qual estou
empenhado, para que não venha o az apanhal-a” . O Barco
dos Patoteiros n. 11 de 1864) .
Biscate — Mulher moça, atoa, avoadeira. “ Vou atraz de
biscate, um biscate qualquer, muito barato” . (A Pimenta n.
1 de 1901). “ Ha bois, ha sambas, ha grandes pastoris, muitos
biscates bellos da m ilic ia . ” (Idem , n . 28) .
Biscoitar — O mesmo que abiscoitar. “ Muitas branqui­
nhas tem feito, sendo p mais notável a que ultimamente p ra ­
ticou com cs inglezes, a quem biscoitou uns poucos de contos
de re is ” . ( A Tentativa; F eliz n. 4 de 1849). “ A ’s quintas feiras
lá vão para palacio biscoitar o chá de S. Excia. (O Clarim
n. 11 de 1878).
Biscouteira — Vaso p ro p iio de guardar biscoutos.
Bisnaga — Pequeno tubo de fina lamina de chumbo, fle ­
x ível, contendo tinta para pintura e aquarella; e maior, de
tamanhos diversos e -grossuras proporcionaes, contendo agua
perfumada, que seringa de um pequeno o rific io apertando-se
o tubo, usada nos jogos de entrudo, pelo carnaval. “ Bisna­
ga é uma pequena seringa inventada por John Gosnell con­
tendo liquido cheiroso, de que se costuma fazer muito uso
pelo ca*rnaval” . (O Clarim n. 13 de 1878). “ Que S. S. em­
punhe, em vez da questionada vara, uma bisnaga” . (O Diabo
a quatro n. 34 de 1876) . “ Nas vitrines de varias lojas figu­
ravam expostas as mais finas bisnagas, a la mode de P a ris ” .
(O Binoculo li. 7 de 1882). Pelo carnaval de 1890, e outros
posteriores circulou um jornalzinho humorístico sob o titu­
l o : A Bisnaga.
Bisnagar — Molhar, brincar, jo ga r com b&sjiagas pelo
carnaval. “ O inspector da Alfandega, de bisnaga em punho
a bisnagar a quem passava” . (Lanterna Magica n. 5 de 1882).
"Encom m odar, satyri&ar, massar, d ep rim ir. “ Fra D iavolo
não pode concluir neste numero as suas bisnagadas” . (O D ia­
bo a quatro n. 7 de 1875). “ Bisnagamos os nossos leitores
com algumas charadas” . (Idem . n. 31 de 1876).
Bispar — Observar, espiar, espreitar; olhar com atten-
ção, com interesse; surprehender, ver qualquer cousa que se

110
faz sem ser suspeitado ou com preh en dido. Term o muito v u l­
gar entre nós com semtelhantes accepções, vem, poreni, da gi-
ria portugueza, e já corrente em meiados do seculo X Y l l t e ­
mo assim contemporaneamente escreve D . Francisco Mano­
el: “ Bem encaixava sobre as ordens aqui agora o bispar, que
é palavra da giria a respeito de Ver” . Moraes registra o ter­
mo, como fam iliar, como as expressões de ver de longe, lo ­
brigar, e dahi successivamente, até Aulete, com a mesma in ­
dicação, e correspondentes accepções, um pouco destoantes
das nossas.
Bitacula — Cara, rosto; o nariz, as ventas. “ 0 seu anta­
gonista, zaz, foi-lhe ás bitaculas” . (A m erica Illustrada de 26
de Janeiro de 1873). Sorrias sempre que eu passava, e hoje
viras-m e áa bitacula” . ( A Pim enta n. 14 de 1902). “ A mulati-
nhá sahiu á procura do meco, e encontrando-o deu-lhe um
baile especial, ameaçando ir-lhe á bitacula” . (Idem . n. 86 ue
1902). “ Levantei-lhe pela bitacula o pé da bota, e me esca
puli ” (Id em n. 571 de 1907).
Blusa — Especie de camisola ou paletó, de lã ou linho,
frouxo, largo, de apertar na cintura, usado p or soldados e
operários; corpete de um tecido qualquer, não muito aperta­
do, afoBado, de mangas curtas ou compridas, para vestir, ge-
realmente, com saia de outra fazenda de cor d ifferen te. “ As
blusas variam infinitam ente. Cada m odelo apresenta um as­
pecto particu lar. A renda, o filó , a musselina de seda se al-
liam ao velludo, ao tafetá, ao setim ” . (Jornal Pequeno n. 51
de 1916). “ M m e ... Bem confeccionada saia de flan ella cre­
me, e fin a bluza branca, bordada” . (Jormal do R ecife n. 315
de 1913).
Boa hora — . Parto, delivrance, com o se diz m odernam en­
te, ou como nos tempos de antanho, livram ento, bom succes-
so e dahi estas invocações da V irgem M aria ditadas pela p ie­
dade christã, e bem assim, a da Boa Hora., “ Immensos lo u vo ­
res Demos á Senhora, a denominada Mãe da Bôa H o ra ” . (V e r ­
sos de um n o v e n a r io ). Deus lhe dê uma bôa h ora: Votos de
um parto feliz, p ro p icio .
Bobage ou Bobagem — Asneira, tolice, palhaçada; cousa
sem im portância, insignificante, atoa, que< pouco ou nada v a ­
le, de interesse secudario: Desgraça pouca é bobage, e muita
é calungage. (Dictaido popular). “ Não gasto meu dinheiro
em bobages” . (A m erica Illustrada n. 34 de 1879). “ Astrono-
m o de bobagem, aconselhára o dia da lua cheià pará a rega-

111
ta, visto ter chovido na lua n ova” . (Lanterna Magica n. 125
de 1885).
Bobéa — O mesmo que Bobagem. “ Fala-se p or ahi que o
Sr. Barão quer fazer bobéa, afim de v e r se encarta o seu m i­
moso no numero dos treze deputados” . (O Guarda Nacional
n. 127 de 1844). “ Theatro em Santo Am aro. Empreza de bo­
béa” . (A m erica Illustrada de 28 de Julho de 1872). “ Ourives
da rafaméa, douradores de bobéa” . (Idem , de 7 de Dezem bro
de 1873).
Bobó — Certa especie de peixe mencionada p or Jerony-
mo V ile lla ; comida muito vulgar, de origem africana, como
indica o seu nome, feita de feijão preto ou mulatinho, liem
cozido, e form ando uma especie de massa ou papa pouco con ­
sistente, coberta com azeite de dendê, e com certa dose de
pimenta em p ó. “ Criado pela Mariquinhas, em fraldas de ca­
misa, rufando na cuia, e comendo bobó na ribeira da Bôa
V ista” . (O Azorrague n. 7 de 1845). “ Não temeis arrebentar
a panella do b o b ó ?” (O V apor dos Traficantes n. 210 de
1860).
Bobóca — O mesmo que Bibóca.
Babozeira — O mesmo que Babuzeira. “ Aquelle coronel
não nasceu para estas babozeiras” . (A m erica Illustrada n. 6
de 1879). “ Nós queremos que O Estado varie alguma cousa,
dê-nos noticias politicas, mortes, tiros, facadas, bonds des-
carrilhados, pintos de quatro pernas e outras bobozeiras
iguaes” . (O M ajor Leal n. 1 de 1890) .
Boçal — Assim se chamava ao negro novo que chegava
da A frica escravisado, emquanto não aprendia alguma cousa
do portuguez, dos prim eiros preceitos da religião, e ficava
pratico no serviço que lhe era destinado, conseguido o que,
d ecorrido certo tempo de aprendizagem e pratica, dava-se-
lhe o-nom e de ladino. “ O negro ladino e creoulo olhava com
desdem o parceiro bocal, alheio á lingua do senhor” . (Ca-
pistrano de A b reu ). Este qu alificativo porem, concurrente-
mente com o de negro novo, já vinha da segunda metade do
seculo X V II, quando a elle se refere G regorio de Mattos, di­
zendo ein uma das suas Satyras: “ N egro ladino é c r io u lo ...
Porque io d o s entendaes, Os ladinos e os boçaes.”
Bocca de lôbo — Sargeta, “ Aqui, as ruas alçadas são bem
servidas de boccas de lô b o ” . (Jornal do R ecife n. 157 de 191G.
Bocca de sino — Bacamarte de cano curto e grosso, que
na extrem idade superior abre um pouco, ficando assim a

112
bocca com um diâmetro superior, coin a feição de um sino,
vindo dahi r. denominação vulgar da arma, não somente cor­
rente entre nós, como em alguns outros Estados do norte.
“ Vicente Lopos tomou o seu bocca de sino, a que dava o no­
me de canario, e quando em acção, ao disparar o prim eiro
tiro, recitava sempre em altas vozes esta quadra: Quando o
canario abre o bico, Turba-se o tempo, meu bem ; Chore
quem tem de chorar, Que não sou pae de ninguém” . (R e v is ­
ta do Instituto do Ceará, T . X X IX , 1915).
Boccado — Alim ento, comida, refeição : T ira r o boccado
da bocca; tirar a alguem os meios de subsistência. “ O ra­
paz, mal engole o boccado, monta logo a cavallo” . (O Vapor
dos Traficantes n. 111 de 1859). “ Eu estava de fome, De fo ­
me traspassado: Mulher de minh’alma Dá-me um boccado” .
(F o lk -Io re Pernam bucano). “ A i! que desgosto profu ndo! Co­
m o ganhar o boccad o!” (A Pim enta n. 20 de 1901).
Boccal — Bigode. Vem lahi a plirase Boccas e ponteira,
alluriva a pêra e bigode.
Bocca-moIIe — P eixe de agua salgada, a que os indios
davam o nome de Pirá-jurum em beca.
Boccas — Pessoas que constituem uma fam ilia habitan­
do o mesmo lar; O João tem uma carga muito pesada; sus­
tenta dez boccas.
B occorio! — Voz in terjectiva para im por silencio, corres­
pondente a vulgar de caluda!, ou empregada quando não se
quer falar ou dar opinião sobre uma cousa qualquer p or da­
dos m otivos. De boccorio: dizer, prom ettendo fazer alguma
cousa, mas por com prazer, simples form alidade e fa'nfarrice,
para se mostrar, sem o animo de verdade, firm eza e delibe­
ração de cumprimento da palavra: Cousas de boccorio; de
bocca; dos dentes p’ra fó ra . “ P oz -o meco nos cornos da lua,
e abonando-o, de boccorio, já se sabe” . (O vapor dos T r a fi­
cantes n.° 97 de 1859). “ Mas qual! Era tudo patriotagem de
boccorio” . (Lan tern a Magica n.° 46 de 1883).
Boceta — Nom e antigo e generico de ttix a , da papelão,
madeira ou folha, para usos diversos. (Boceta de folh a com
balas cada uma de vinte libras, noventa e sete” . (In ven tario
das armas e petrechos deixados pelos hollandezes, 1654).
Caixa de rapé, de formas diversaá, feita de tartaruga, ch ifre ou
chumbo, e em tempos que o rapé fez epochas, ou que teve
a sua epocha, de ouro ou prata, artisticamente trabalhadas.

113
“ Sou um dos prim eiros tabaquistas do mundo, disse elle, sa­
cando do bolso uma boceta” . (O Paiz n.° 59 de 1856). “ Uma
boceta cara, repleta de bom rapé” . (A Pim enta n.° 28 de
1902). “ Menina me dai tabaco. Nessa vòssa bocetinha, Que
a minha ficou em casa, Fechada na gavetinba” . (T ro va s p o ­
pulares) .
Boceteira — Mulher que se em pregava no pequeno com-
m ercio, ambulante, de miudezas e réndas, accoimhodadas em
caixas ovaes ou cylindricas, de madeira fina, com tampa, e
vistosamente pintadas, e que tinham o nome vulgar de boce­
tas. As boceteiras pagavam um imposto municipal, que v i­
nha da lei orçam entaria de 1837-38, e ainda figurava, nom ea­
damente na de 1855, sob esta rubrica: Taxa de 2$000 paga
annualmente pelas licenças que obtiverem os mascates e bo-
céteiras, que venderem no niunicipio. “ Vende-se uma negra
boceteira, moça, bôa figura, no becco da Lingueta casa n. 1.”
(O Cruzeiro n.° 24 de 1829). “ Emquanto houver boceteiras
vendedeiras de bicos e rendas, o deus frech eiro não ha de
padecer falta de bons procuradores” . (O Carapuceiro n.° 69
de 1837).
Bocó — Im becil, tolo, papalvo. “ Não julgue que o sor-
veteiro é algum bocó; moleque firio, estradeiro, dá tinta em
muito doutor” . (A Pim enta n.° 637 de 1908).
Bóde — Mulato, mestiço. (M acedo S o ares). “ A o tales*
tiço deu-se o nome de cabra, bode, e outros titulos malsinan-
te s .” (S y lv io R o m ero ). A especie porem, é muito vasta; e
como escreve Luiz Gama, autoridade insuspeita, na sua p oe­
sia, A Bodarrada, “ Bodes ha de toda a c a s ta ... Uns plebeus,
e outros nobres, Bodes ricos, Bodes sabios, importantes. E
tambem alguns tr a ta n te s ...” E até mesmo. “ Onde habita a
Divindade, Bodes ha santificados Que p or nós são adorados.”
“ Bode de cabello grande M erece ser penteado Com pente de
cinco pernas Para não ser c o n fia d o .” (Quadras p op u lares).
“ Quanto as minhas qualidades physicas, é fraqueza, sou mo­
reno na lingua daquelles que julgam que r.ão me conheço
neste ponto; na linguagem o ffic ia l sou' pardo; e na minha
sou bode ou cabra; mas fiquem tambem sabendo que tenho o
sangue v e rm e lh o .” (D e uma correspondência do M onitor Sul
M ineiro, de 1884, citada por Macedo o S a re s ). “ Nos lundu’ s
e nas modinhas São cantadas as b od in h as.” (L u iz G am a).
Bòde quando não berra salta; Olhou p ’ra num, olhou p ’ra um
bode, com a minha vida ninguém póde; V iva quem tem bigode;
quem tem cavanhaque é bode. (D ictados) . P ara indirecta-

114
mente se chamar de bode a um individuo que pouco demonstra
a sua origem mestiça, diz-se, que, em pequeno, coçou a ore­
lha com o pé. D erivados: Bodengo, com igual expressão de­
preciativa e Bodejar, de sentido obvio. Segundo Teschauer,
chama-se bode ao mulato, p or causa da catinga comparada
com o bodum dos cabritos. Denominação das figuras do ba­
ralho em certos jogos e com valores particulares em cada um
delles. “ Tenho um sete; se vier um bode estou garantido” ,
(Jornal do R ecife n. 91 de 1914).
Bodes — D inheiro, a unidade de mil réis. “ Deu-me cin-
coenta bodes que me serviram bastante.” (A Tempestade n.
12 de 1585). “ Queira Ym c. mandar pagar os vinte bodes, que
ha perto de um anno, pediu para certo a rra n jo .” (Am erica
Illustrada de 30 de N ovem bro de 1873). “ Pelo trabalho quero
cem bodes, e mais as custas.” (Lanterna Magica n. 839 de
1906).
Bodião — Palrador ou escrevinhador incorrectp, asnei-
rão, imbecil, mas atirado, presumido, audaz, exhibicionista, in ­
consciente do triste papel que representa. “ Os bodiões vão
surgindo lentamente, e a grande invenção de Guttemberg vai
gendo sevandijada. ” (O Etna n. 29 de 1882). “ Formam to ­
dos reunidos um grupo de bodiões.” (Lan tern a Magica n. 123
de 1885). “ N o talento é sem igual! Só vejo em si Bodião.” (A
Peia n. 9 de 1904). O vocábulo vem do appellido Bodião de
escama, de um popularissimo typo de rua, loquaz e palrador,
mas ignorante e asneirão, e sempre debaixo de um aguacei­
ro medonho, mas equilibrando, palrando sempre, fazendo dis­
cursos bestiologicos, e definindo a seu modo quanta pergun­
ta se lhe fazia, provocando o riso, pelos seus destemperos.
Nessa vida de bohemio, nesa sua bilontragem, estacionando
nos cafés e restaurants, e preferentem ente na Academia de
D ireito, andando p or toda a parte, em fim , e quasi, esmpre a-
companhado de um cortejo de estudantes, fartava-se o B o­
dião á custa alheia, e recolh ia sempre o necessário para os
encargos da fa m ilia ,. que, honra lhe seja feita, nada soffria
com os desmandos do chpfe. “ FrancisGo Duarte da Silva, p or
antonomasia Bodião de escama, bebe aguardente e faz cigar­
r o s . ” (A m erica /Ilustrada de 7 d e-m a rço de 1875). Tratan ­
d o o period ico illustrado, O Diabo a quatro, no seu n. 65 de
1876, de um meeting em que houve grande sarrabulhada, es­
creve: “ Bodião de escama fecha brilhantemente a historia do
dia com um de seus bellissimos im provisos, A soberania ap-
plaude-o freneticamente, num sem icírculo de amisades, como
se exprim iu o o ra d o r.” Encontrando-se elle com um conhecido
trajando rigoroso luto, e sabendo que rnorrera-lhe o pae, ex ­
clama: “ O sr. seu. pae teve a honra de m orrer? A terra lhe
seja b rilh a n te .” Agora, apenas duas de suas originaes d e fi­
nições: A mulher é uma escarradeira de amor;. A vida é um
rascunho de saudades O appellido ou alcunha de Bodião de
escama, vem, não sabemos porque, de Bodião, vulgar e co­
nhecido peixe do mar, aliás de couro e não de escamas D e ri­
vados de expressões obvias: Bodionada: “ Concedemos que r e ­
cite uma Bodionada qualquer a ’ un a rtis ta .” (A m erica Illus-
trada n. 5 de 1882. “ Os professores de^prim eiras letras hoje
mettem o nariz em tudo; quem quizer uma bodionada fale com
uns c e rto s .” (O Tam oyo n. 18 de 1891). Bodionice: “ Acho eu,
portanto, que o teu pastellão só pode ter esta classificação, lit-
teralmente fallado: Bodionices.” (M ephistopheles n. 7 de 1883).
Bodionico: “ Só o Sr. Lucena seria capaz de p rovocar seme-
lhants arrojos de uma cabeça judiciaria e de um tem pera­
mento bodionico.” (O Diabo a quatro n. 84 de 1877). “ O m o­
ço além de ser bodionico, é um pensador p ro fu n d o .” (L a n ­
terna Magica, n. 4 de 1882). “ T u ’ m orrerás assim tão moço
de uma bodionica congestão. ” (O Etna n. 32 de 1882).
Boeiro — Chaminé. “ A casa do engenho é construida de
tacaniças e pilares. O boeiro alto e esguio assignala-a em dis­
ta n cia .” (A lfre d o Brandão). “ O boeiro da fabrica de tecidos
da T orre, a dar signal aos operários da hora de en trad a.”
(Jornal Pequeno n. 15 de 1916). Cano d’agua, com o define
M oraes; o mesmo que bomba. “ As aguas que passam vão se
aocumular atraz da grande estrada de Caxangá, que lhe serve
de dique, com onze boeiros construídos de distancia a dis­
ta n cia .” (R ela to rio das Obras Publicas, 1876). O term o nesta
accepção vem já de longe, com o se vê de um o ffic io do go ­
vernador L u iz do R ego tlirig ico ao m inistro T . A . de V illa
N ova Portugal em 31 de maio de 1818 dando conta dos traba­
lhos da estrada de Olinda, que em prehendera: e descrevendo
e que estava feito até então, diz que “ tem um grande boeiro
para dar sahidas as aguas da campanha con tigu a .”
Bofetão — Furto de dinheiro ou de outra qualquer cou­
sa. “ O sugeitinho vae p ôr na gaita o patrão acostumado a
gaveta todo dia ao bofetão.” (A m erica Illustrada n. 25 de
1882). Dar, passar: um prato á mesa, p or exemplo, em re ­
pasto intim o, expansivo: D ê um bofetão nessa fritada p ’ra
cá.
Boi — Feio, muito feio, mesmo: A qu illo é um b o i; feio

116
como um boi. Flu xo menstrual: Estar de b o i; chegar o Í j o í .
Abreviatura de Bumba meu boi, o conhecido e tradicional fo l­
guedo popular; um boi bem ensaiado; um boi de luxo. “ Be-
beribe sem boi ou presepe, é matta sem coelh o” ) (A m erica
/Ilustrada n. 1 de 1879). “ Ha bois, ha sambas, ha grandes
p a s to ris .” (A Pim enta n. 28 de 1901). “ Já de alguns dias para
cá funccionam em São José dois bois.” (D ia rio de Pernam bu­
co n. 261 de 1915). O vocábulo tem tambem assim curso no
Ceará. “ Pelas oito horas da noite sahiu o boi do b airro mais
canalha da v illa . ” (R odolph o T h e o p h ilo ). Boi de bagaceira:
R on ceiro, vagaroso, remanchão, encostado no trabalho. B oi de
botas: Indivíduo que não tem p or habito andar calçado, e que
fazendo-o, sente-se embaraçado, caminhando m al. Boi de
carro ou de correia : os de serviço dos carros de carga dos
engenhos ou usinas; quando porem são puxados p or tres
juntas, têm estas os nomes de junta do cambão, do m eio e
do coice. Boi de lo te: O de boiada. “ Tatu’ peba de capote
Com seu chapéo avoador Inda mette mais pavor Do que mesmo
boi de lo t e .” (T ro va s p op u lares). Boi e s p ic io : Segundo Syl-
v io Rom ero, quer dizer boi de pontas largas; e como escreve
José de Alencar, “ significa, na lingua do sertanejo, o b oi que
tem armação aberta e esgalhada, concluído: “ Os nossos rús­
ticos fizeram este adjectivo pelo mesmo processo que os sá­
bios em pregaram para de Olympo, tirarem Olym pio, de rosa,
roseo, etc. E ’ a disinencia ius muito frequente no latim . Es-
pacio representa, portanto, a form a passiva de espaçado.”
“ Eu tinha o meu Boi espacio, Muito preto, carauna,” (D o r o ­
mance pastoril Boi E sp a cio ). Boi m ocam beiro: D o serviço
de uma propriedade ru ral: o gado mocambeiro do engenho.
Sapo-boi: reptil, o maior da especie dos batrachios. (Cera-
tophrys dorsatus, N ie u w ). Tens uns olhos de sapo-boi E p er­
nas de ta q u a ry.” (Z izin a e E sm eralda). Dictados e proloquios
populares: Andar o carro adeante dos bois; Apanhar como
boi ladrão; A uns morrem -lhe as vaccas, a outros parem-lhe
os bois; Boi aperreado dá em arrem etter; Boi não berra por
b ezerro; Boi mocho não dá chifrada; Boi morto, vacca é; Boi
olhando p ’ra palacio; Boi solto, lambe-se todo; Boi velho,
vacca nova; Camarada é boi de carga; Carro não anda sem
bois; Comer como um boi; Dar um boi para não entrar e uma
boiada para não sahir; De boi manso me guarde Deus, que
do brabo me guardarei; Engulir um boi e engasgar-se com
um mosquito; Ficar sem boi nem vacca; O boi brabo na terra
alheia se faz manso O b^i pelos cornos, o homem pela pala­
vra; 0 boi protestou tirar a camisa a fluem lhe tirasse o cou­
ro ; Onde se mata o boi, ahi se esfola; P é de boi é m ocotó;
P or onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavallo; Sa­
ber dar o nome aos bois; Um boi voar; Vá dar no b oi que tem
o couro grosso. O boi fo i um dos prim eiros animaes introdu­
zidos na colonia, e por assim dizer, logo em começos de sua
fundação; e como os indios, tomaram-nas como uma especie
de anta estrangeira, deram-lhe o nome de Tapira-cobayguára.
Bóia — Assados, difficuldades, trabalhos, situação p e r i­
gosa; encommodos, maçadas: V er boia. “ O homem viu boia
na viagem, não obstante ser curto o trajecto.” (A za N egra n.
7 de 1882) . O que fica da vendagem de qualquer coisa. “ A
boia do jornal regulava mais ou menos á tiragem .” (Pernam buco
n. 308 de 1913). “ Compre esta b oia! P or Deus tenha dó de
mim por amor dos filhos seus!” (O Carnaval. 1914). Comida
de presos; rancho de soldado nos quartéis. “ Eu gosto da fa r ­
da e sinto as minhas inclinações pela boia do govern o.” (L a n ­
terna Magica n. 502 de 1890). “ O gatuno Bacuráo Ageitando
varios óvos, Pensava numa fritada; Mas triste desillusão!
Achou a boia guardada Na Casa de Detenção.” (Jornal do
R ecife n. 103, de 1913). R efeição em g e r a l.” “ P or ser pob re­
tão, comia triste boia de máo, feijã o .” (Lanterna Magica n.
156 de 1886). “ Boia intragavel, a da preta Joanna, nossa
ama.” (A Pimenta n. 30 de 1901). “ Fui a casa da mana apertar
o funge do alm oço, e não havia mais signal de boia.” (J o r­
nal Pequeno n. 26 de 1915). Boia, na acepção de rancho de ca­
deia ou quartel, vem do feijão servido, que p or mal cosido,
fica boiando.
Boiada — O gado do serviço de um engenho ou fazenda;
certa porção de bois reunidos em marcha; o gado acompanha a
bagagem de uma força em m obilisação ou acampada, destina­
do ao rancho. “ Do outro lado, seis tangerinos, tocavam para
dentro de agua uma boiada, passante talvez de cem cabeças.”
(F ra n k lin T a v o ra ) “ Eram tangerinos, vinham de cima, dos al-
'tos sertões, conduzindo boiadas.” (A lfre d o B ra n d ã o). D a í
um boi para não entrar e uma boiada para não sahir. (P ro -
loquio p o p u la re s). Espanta boiada. (V .)
Boiadeiro — Tangerino, eonductor ou tocador de boiâ-
da. “ O povo vota a maneira do gado, conduzido p or um
boiadeiro.” (O Guarda Nacional n. 37 de 1843). “ O que ca-
racterisava, dava tom a paysagem do sertão, eram a boiada
e o boiadeiro.” (Arth ur O rla n d o ). “ Thim oteo com prava por
dez réis de mel coado objectos de valor e vendia depois pela
hora da morte aos boiadeiros e alm ocreves.” (F ra n k lin Ta-
v o r a ).
Boiado ■— 0 que está parado no seu negocio, em maré
de caipora, sem apparecer compradores para o que está ven ­
dendo: Estar na boia; boiado.
Boiar — Estar na boia. “ O homem conseguiu vender . . .
8$000 de bilhetes, e boiando o resto, entrou contrariado em
uma taverna e bebeu certa quantidade de aguardente.” (P e r ­
nambuco n. 121 de 1913).
Boióte — D im inuitivo de b oi; garrote, boi novo. “ C or­
re, corre boiotinho; Tenho visto tanto boi, Quanto mais um
garrotinho.” (D o romance pastoril O Boi L i s o ) .
Bola — Gordo, nedio, robusto: O menino está, que é uma
b ola! Tom a figa ; benza-o Deus. Attractivo, engodo, suborno:
Comer bola. Pastilha envenenada para matar cães. “ Naquel-
la furia, p or caridade! a bola de strich yn in a. (O Diabo a
quatro n. 36 de 1876) . Pequena pelota de assucar refinado,
em ponto vitreo envolta em papel, ou mettidas em um cartu­
cho: bola de cheiro, de goiaba e outras fructas; bola queim a­
da; queim adinlia. “ Ligado ás descomposturas, e mentindo
como quem come bolas queimadas.” (Gaspar Gomes, Cartas,
1846). “ Um cartucho de bolas offerece ao m o n ito r.” (Am erica
Illustrada de 14 de A b ril de 1872). “ Mamãe se damna com
a negra das bolas dizer que só se casa com rapaz b ra n c o .”
(A Pimenta, n. 557 de 907).
Bolachinha — A rotu la,-isto é, o pequeno osso curto e
discoide sito no joelh o na parte dianteira da articulação do
fem ur com a tibia.
Bolada — Logro, embaçadela, brocada, preju izo: Dar, to­
mar uma bolada.
Bolandeira — Apparelho para descaroçar o algodão, e
assim tambem chamadas as casas que funccionam os mesmos
apparelhos, situados nas zonas algodoeiras do in terior do Es­
tado. À denominação de bolandeira foi originariam ente dada
a uma das peças do machinismo dos nossos antigos engenhos
de assucar, com o os descreve L o reto Couto, e bem assim Du­
rão, no seu poema, referindo-se ás que serviam para ralar
a mandioca para o fab rico da farinha. (Canto V II estr.
X X V III e nota re s p e c tiv a ).
Bolandim — Madeira de construcção c iv il. E ’ talvez a
gu ittifera Gulandim, descripta por Alm eida Pinto.
Bolão — Pequena porção de qualquer cousa; Bolão de
pirão, da Avinha de m andioca; bolão de angu’, fei^o de fubá
de arroz, e d“ form a arredondada, à especie de pequenos.bo­
los. “ Não ha angu’ sem bolão.” (A Marmota Pernambucana n.
22 de 1850). “ Mette-se num pouco de pirão um grão de m i­
lho e fazem-se tres bolões, para se advinhar onde está. (O
Diabo a quatro n. 52 de 1876).
Bolas — Uin typo ahi qualquer sem im portância e cota­
ção alguma: Aquelle sujeito é um bolas!, não vale uma cachim­
bada. “ O tal sargento encarregado do detalhe, é um bolas.”
(A m erica Illustrada n. 29 de 1879). Dicção interjectiva, de des-
dem, enfado, aborrecim ento: Ora bolas!
B ôleiro — O que exerce a pequena industria do preparo
de bôlos nas suas differentes especies, e o que faz a sua ven ­
da ambulante, em taboleiros apropriados. "E ssa constembla
anda a pegar todos os boieiros e geladeiros para conduzir ao
seu immundo p ard ieiro.” ( A Pim enta n. 649 de 1908).
Boléa — Especie de plataform a, com um ou dous assentos,
na dianteira dos carros de certos systemas, inclusive os fúne­
bres, e em certas ordens de carroças, onde vai o conductor ou
boleeiro que dirige os animaes do vehiculo. Estes vocábulos
boléa boleeiro, e ainda bolear, são vernáculos, mas de expres­
são outras que não as que tem entre nós.
Bolinar — Imprudente e propositadamente encommodar a
uma senhora que vai de passagem em um bonde, mexendo, to ­
cando nella. “ O habito que tens de bolinar, é a prova De que
breve terás de presente: uma sova.” (Z izin a & Esm eralda).
D erivados: Bolina, bolinagem. Alb erto Bessa registra o term o
bolina, que entre nós é o individuo que tem o habito de bolinar,
como brasileiro, com as expressões de perseguidor de mulheres,
conquistador de o fficio . “ O Domingos é um Lovelace elegante,
bolina chapado." (A Pimenta n. 65 de 1902). Bolinagem, de ex ­
pressão obvia. “ Os caboges andam numa actividade medonha; e
a bolinagem vae num crescendo assustador.” (Id em n. 6 de
1914).
Bolo — Palmatoada, pancada com a palm atória na palmo
da mão.” “ Os meus bolos darei com tanto ponto, Que o mun­
do ficará d’ouvir-me tonto.” Epigraphe do period ico Palm atória
dos Toleirões, 1833). “ Levados os presos á cadeia, ao desce­
rem para a enxovia são passados a bolo e a chicote.” (O Cla­
mor Publico n. 78 de 1846). “ Sovava com duas ou tres duzias
de bolos as pobres crianças a quem ensinava a mastigar la ­
tim .” (O Diabo a Quatro n. 49 de 1876). “ Chegue as mãos á

120
palm atória; ande, tome b olo.” ( A Duqueza do Linguarudo n.°
122 de 1878). Logro, calote, seixo. “ 0 O vidio, mestre da vida,
conseguiu passar um bolo na M ercearia Com bate” . (A P i­
menta n. 86 de 1902). “ Miss Oni fugiu para a Parahyba, dan-
de um bolo no hotel de duzentos e tantos páos.” (Id em n. 10).
T ypos misturados: uma composição em bolo. “ Vim os filas de
caixas typographicas, empastelladas, uma aluvião de bolos.”
f Jornal do R ecife n. 66 de 1916). D inheiro de mesa de ioso
das entradas de càda partida e de passagens, que o tira quem
a ganha: T ira r o bolo.
B olote — Bolinha, ou pequena porção de qualquer cou­
sa, e ainda mais expressivamente, bolotinho.
Bolso — Especie de abcesso nas gengivas, que se avolu­
ma pelo pus, causando grandes dores, em quanto não estoura
0 b o ls o .
Bomba — B oeiro ou cano subterrâneo para vazão d ’aguu
de um lado a outro de uma estrada ou rüa, e ás vezes com
çerta elevação superior ao leito, quando este é baixo, com ­
patível com a largura e altura do arco da bomba, de alvena­
ria ou pedra. “ T rep ei na bomba, Comi pitomba, Sacudi os ca­
roços Na machambomba. (F o lk -lo re Pernam bucano), “ Davam
seis horas da tarde, e já. o p rin cip io da estrada nova até a
bomba estava apinhada de gente.” (O Cometa n. 21 de 1844).
Levam os ao conhecim ento do a r. P re fe ito a, noticia do esta­
d o d eplorável em que se encontra a bomba do Taquary, em
T ig ip ió .” (Jorn al Pequeno n. 20 de 1916). Beco da Bomba, no
R ecife, o que vai do pateó do Carmo para a rua do Fogo, tira
o seu nome de uma que ali havia para escoamento das aguas.
Reprovação em exam e: Levar, tomar uma bomba. “ M edido
na Academia, tem levado muitas bombas, que o faz andar as
■trombas.” ( A D errota n. 22 de 1883). “ Começou na f a c u l­
dade a examinar-se. o direito, muita bomba tem havido em
quem não é p ro te g id o .” (Lan tern a Magica n. 68 de 1883).
“ Quando o estudante vae fazer exame na escola, por uma
bola chupa ás vezes uma bom ba.” (A Pim enta n. 38 de 1902).
Trabalho albardeiro, obra m alfeita, im prestável, e dahi bom-
boeiro, um máo artista. Palavrão, termos ou phrases em pola­
das, de e ffeito occasional, mas, as vezes, sem nexo, harm o­
nia e procedência. “ Ha em quasi todos os seus cantos, um
systema das palavras empoladas, últimos rebentos do regim en
da bom ba.” (J. Z . Rangel de S. P a y o ).
Bombada — 0 mesmo que bolada: Tom ar uma bom-
bada.
121
Bomba real — Foguetão de uma só bomba, de forte es­
tampido ao estourar no alto, para salvas festivas: Uma sal­
va de vinte e um tiros de bombas reaes.
Bombear — Espreitar, observar, v ig ia r; seguir a pista,
o encalço. Segundo Beaurepaire Rohan, a dicção deriva-se
de bom beiro, no sentido de espião, e não é mais do que uma
corruptela de pom beiro.
Bom copo — Individuo que b e b e muito, e de tudo, desses,
que, na phrase do dieta do, De espiritos, só não bebe o E spi­
rito S an to.
Bom estomago — O natural de bom genio, tolerante, pu­
silânim e; estar p or tudo, e não saber reagir contra um insul­
to, nem convenientem ente rep ellir uma p ilhéria grosseira, p i­
cante .
Bom garfo — Pessoa que come bem, sempre com disposi­
ção e bom apettite. “ E ’ bom garfo, gostou sempre da raiz da
m an d ioca.” ( A Lanceta n. 7 de 1890). “ O prelado ás‘ vezes,
tambem toma parte nos festins, come e bebe regularmente,
porque a verdade é que, se elle é excellente pastor, tambem
,é bom ga rfo .” (A rch iv o Maçonico n. 86 de 1913).
Bom na brocha — Sabidorio, expertalhão, fin orio, ira-
tante, velh aco.
Bonde — Vehiculo de viação ferro-carril, do systema a-
m ericano, e de tracção animal ou electrica, para o transpurte
de passageiros, e assim denominado à exem plo do K io de Ja ­
neiro, tendo O term o esta origem , que assim encontramos nar­
rada: “ Quando em 1868 o Visconde de Itaborahy, m inistro da
Fazenda, emittiu o emprestimo nacional de juros pagaveis ero
ouro, operação financeira que attrahiu a attenção geral na
côrte, com a entrega dos bonds oii cautelas das apólices do
emprestimo, coincidiu o estabelecim ento de viação urbana da
Botanical Garden R ail Road Company, cujo serviço se inau­
gurou dois mezes d ep ois. O p ovo applicou aos novos vehicu-
;los, elegantes, commodos e velozes o nome das cautelas do
emprestimo; e a palavra, que os jornalistas a prin cip io m edro­
samente escreviam em gryph o e com a form a ingleza de bond,
pouco a pouco se foi nacionalisando até tomar a feição b ra­
sileira, que está quasi firm ada, de bonde.”
Boneca — Mulher de poucas falas, sem vida e sem acção,
pequena porção de algodão embrulhado em panno para en ver­
nizar, encerar ou brunir. “ A boneca de cêra trabalha. P ’ra
brunir essas cousas de c o u ro .” (D e uma canção m ilita r). A
espiga do m ilho em flor, ou ainda sem os cabellos (estam es)
presos aos grãos.
Bonecar — Começo de fructificação do milho, com o ap-
parecimeruo das espigas, a boneca. “ Ao dar o m ilho as p r i­
m eiras bonecas, espigas tenras, envoltas em fios dourados, diz
o matuto que bonecou.” (Gustavo B arroso)
Boneco — (V . Falar b on eco ).
Bonitão — Um tanto bonito, fom oso; de aspecto agrada-
vel, sym pathiço.” A Laurinda, peixão de bòa idade, bastante
bonitona.” (Lan tern a Magica n. 768 de 1904) .
Bonito — P eix e de agua salgada (Caranx macarellus, Cov>,
a que os indios davam o nome de Cutuatá-ninima.
Carrapetão — Mentira, falsidade. “ Que i .entira descarada!
Carrapetão fu rib u n d o!” (A m erica Illustrada de 8 de M arço de
Boni-t-ó-tó — O mesmo que apoiá-d-ó-dó.
Boqueirão — Córte ou solução de continuidade em um.i
serra ou montanha, de largura variada, dando assim passa­
gem directa, plana, de um a outro lado; baixa ou valle p ro ­
fundo, como escreve S ylvio Rom ero, e segundo Ayres do Ca­
sal, a quebrada de uma serra, onde, não raro, passa um rio .
Ha boqueirões de córte tão adm iravelm ente praticados, que
em sua toda extensão descem as paredes a uma grande p ro ­
fundidade em linha perfeitam ente vertica l. Esses boqueirões
ou bocainas, como são assim chamados em outras localida­
des, fnão são, como conjectura I. J o ffily, senão o resultado
de um terrem oto, ou m otivados pela acção das aguas dos rios
minando á sua passagem atravez de uma serra. Dentre os
boqueirões que avultam no territo rio do Estado, de variadas
extensões, largura e altitude, mencionamos, pelas suas tra­
dições históricas, dos montes Guararapes, que na phrase do
historiador Southey, é uma situação notavelménte semelhante
ao passo das T e rm o p y la s ). “ V entan ia' e V elloso Tom aram
p r’o boqueirão, L ogo ao en trar -da garganta Encontraram P e ­
dro P r e g u iç a ... Sou cabra do boqueirão, Onça, tigre de fon -
c ar” . (F o lk -lo re Pernam bucano).
Boquilha — Peça, extrem a dos instrumentos musioaes,
de madeira, e alguns de metal, p or onde se sopra.
Boquinha — Beijinho. “ Beijo de inoça é boquinha” . (A
Marmota Pernambucana n, 31 de 1850). Calango fo i a Jurema
C’um com boio de farinha Lagatixa pulou na frente E pediu-
lhe uma boquinha.” (Versos sertanejos). L ige ira refeição, pe­
tisco. “ Você está fam into; vá fazendo com isto uma boqui­
nha” . (Lan tern a Magica n. 567 de 1898). “ O nosso homem
p r’a fa zer uma boquinha, comeu uma gallinhá in teira ” . (A
Pim enta n. 84 de 1902).
Bordo — Giro, passeio; Dar um b ordo; lugar, situação,
passagem: Aqui por estes b ordos?; caminho, direcção: Mudar,
v ira r de bordo.
Bôrdoa — Bordoada, pancadaria, tunda. “ Um caco engra­
çado: um velh o desconjuntado deu muita bordoa num moço
gereba” . (Lan tern a .Magica n, 20 de 1882). “ Já fui um bom
sapateiro, Já em poeta me a rvo rei; H oje sou um caloteiro,
Mas bordoa nunca d e i” . (A Pim enta n. 2 de 1901)
Bordoada — O mesmo que bicada": í)a r uma bordoada
da branca.
Bordoada d e cego — A torto e a direito, pegue onde pe­
s a r.
Borga — D irecção origin aria da giria portugueza. e usa-
4a com as suas próprias expressões de pandega, orgia, pas­
seio nocturno. “ O que elle quer é andar na borga, sem ler
cuidado com o trabalho” . (A lb erto Bessa).
B oré — Instrumento musico dos indios, feito de canna
ou taboca. “ Boré, ou buré, corruptela de im byré, alterado
em byré, buré, o soprado, o que se sopra, gaita do gen tio” .
((T h e o d o ro Sampaio)..
Bórócótó — Consignamos .este vocábulo pelo que escreve
Beaurepaire Rohan, uma vez que o desconhecemos por com-'
pleto, e nem mesmo o encontramos doculuenfadamento ci­
tado. “ (Bahia, Pernambuco, Piauhy, Matto G rosso) terren o es­
cabroso, obstruído de calhaus, excavações alti-baixos e ou­
tros quaesquer accidentes que embaraçam o transito. E tym .
A generalidade deste vocábulo, em províncias tão afastadas
umas das outras, me faz pensar que elle tem a sua origem na
fingua tupy ou outra qualquer lingua indisena; nada porem
me autoriza a re s o lte r a questão. Tambem pronunciam Bro<-
cotó” .
Borracha — Sacco de couro usado no sertão para a con-
ducção d’agua em v ia g e m . “ De couro era a borracha para
carregar agua” . (Capistrano de A b re u ). “ Em viagem ou ser­
viço dorm e o sertanejo debaixo das arvores, com a provisão
de agua em borrachas de couro, pendente de um ga lh o ” .
Irin eo J o ffily ). “ Menina da saia branca, Da jan ellin hâ dò
meio, Da-me úma gotta d’ agua, Das borracKiithas do seio .
(T ro v a s popula,res). O vocábulo vem de igual, com - que em
Portugal se chama a um odrisinho ou sacco de couro, em fo r
ma de pêra, completamente vedado, e p ro p rio para conter lí­
quidos, e com tal expressão já em voga entre nós no século

124
X V II, como se vê destes versos de * G regorio de Mattos, em
um dos seus rom ances: “ Não estar sem ter borracha, Seja
de bom ou máo vin h o ” . Os termos Borracheira, carraspana#
bebedeira, e Borracho, o individuo que bebe m uito c Vive
sempre embriagado, não ha duvida que vêm das taesS b orra ­
chas de vinho. “ Não é tacha beber p or borraícha quando não
ha taça., ‘'P ro lo q u io ).
Borrachudo — Especie de mosquito de agudo ferrSo.
Borradura — L ig e ira e grosseira pintura de çasa:. Man­
dar passar uma borradura.
B o r r a r -o mappa — Indiscripção no falar, revelação- de
alguma cousa occulta, em segredo, ou um acto leviam en-
te praticado, sem segunda intenção,, que con corre para d iffi-
cultar ou im pedir mesmo a realisação de um deliberado pro-
posito, de um negocio qualquer em andamento.
Bosta — T olice, asneira, sandice, e dahi os derivados
bosftejar, b o stifero, de exprtessÕes obvias. “ Ninguém pode
supporlal-o a bostejar” . ( A Am erica Illustrada n. 14 de 1883).
“ Um fona cabuloso quer a pülso im p in gir as suas modinhas
bostiferas” . ( A Pim enta n. 59 de 1902).
Bota — Nas locuções: Ar,ranjar um par de botas; empre-
hender uma cousa qualquer de vantagem própria, ou tecer
uma in triga. Bater a bota; fugir, desapparecer, por-sê ao fre s ­
co; m orrer, “ A rápazeada que folgava no bumba da Varzea
deu tamanha vaia na Y á yá Prata, que envergonhada bateu a
bota para o R e c ife ’*. (A P im en ta). “ Quando o m arido da Car-
linda bateu a bota, o Reginaldo- im aginou substitüil-o seift pa­
dre nem p reto r” . (A rth u r A zev e d o ). “ O sachrista tem sempre
o badalo em vista se alguem bate a bota” . (A Pim enta n. 39 de
1902). E scova botas; um typo ahi qualquer, um troca tintas,
um João ninguém. “ Este escova-botas, e outros m alvados da
mesma enxurrada de Luiz do Rego, que fizeram arrastar por
estas ruas os cadaveres das victim as de 1817” . (A V o z do
Brasil n. 66 de 1848). “ Esse escova-botas parece um bom tra­
p a c e iro !” (O Barco dos Traficantes n. 50 de 1858). B orra-bo­
tas; pessoa sem im p oitan cia; que não m erece consideração.
” E ’ um borra-botas em quem ninguém acredita” . (A lb erto
Bessa). Botas de sete leguas; um individuo que anda muito.
Canhão de bota; mulher feia, repellente. M etter as botas; de­
tratar, falar mal de alguem. “ Mettendo em todos a bota, Sem
respeitar posições, E inda menos os galões nacionaes” . (A
D errota n. 7 de 1883). O homem das botas; designação indire-

125
cia de uma pessoa de respeito, de certa ordem, de quem não
se quer declinar o nome p or dados m otivos. “ O homem da
capa preta, foragido, fo i pegado quando sem capa, conversava
am igavelm ente com o homem das botas” . (A Pim enta n. 85 de
1902). Uma bota! negativa perem ptoriam ente pronunciada.
Botada — O dia inicial dos tiabalhos de moagem dos en ­
genhos de assucar, festivam ente celebrado pelo p roprietário
da fazenda, o senhor do engenho, precedendo ao acto da bo­
tada das prim eiras cannas na moenda, pelas pessoas mais gra­
das presentes, a cerim on ia religiosa da benção da fabrica, se­
gundo antiga e tradicional usança. “ O dia da botada não tem
igual, pelo reboliço que o caracterisa, na grande propriedade...
Um grande jantar se realisára ení casa de M anoel Carneiro p or
occasião da botada do engenho, ao qual compareceu F e lix Jo­
sé Machado, govern ador da capitania” . (F ra n k lin T a v o ra ). “ Em
Setembro os cannaviaes das ladeiras, já sazonados, começam
a am arelíecer. Então começam os preparativos para a bota­
da do engenho.” (A lfre d o Brandão).
Botar — Term o vulgar portuguez, com as mesmas accç-
pções do verbo deitar, mas de uso menos polido,, na phrase de
Aulete; entre nós, poreni, não é, e como muito bem. escreve
Teschauer, no Brasil é termo usual, popular, empregado no
jornal, no livro , no parlamento, na sala, no gabinete, na ven ­
da na praça, na roça e na cidade, concluindo: “ E p o r mais
que certa imprensa influenciada p or jornalistas portuguezes,
p orfie em substituir o nosso brasileirism o botar p o r deitar,
pôr, ouve-se o vocábulo nacional a cada passo nos salões, nas
assembléas, nas rodas populares, e nas dos homens de letras” .
Pondo de parte o termo, portanto, nas suas diversas accep-
ções vulgares, que são geraes, só temos que attender as phra-
ses em que figura entre nós, acaso de um caracter nacional:
Botar a alma pela bocca; cançado, exhausto, fatigado. Botar
a cabeça de fó ra ; apparecer, surgir; Botar a c o rrer; fugir, des-
apparecer. Botar a faca aos peitos; im por, obrigar. Botar agua
na fervu ra ; convencer, confundir, fazer calar. Botar alguém
a p erder; causar a (sua perda, ruina. Botar a mão no fogo; ga­
rantir pela innocencia de alguem. Botar a moer, ou somente
botar; diz-se do engenho que começa a moagem na epoca do
safra, da maturação da canna, da sua colheita, “ O engenho
B ujary tinha que. botar dentro de uma semana” . (F ra n k lin Ta-
v o ra ). Botar a procissão na rua; p ôr em campo uma revolução,
o seu rompimento, o exp lod ir da Bernarda. “ O Club botando

126
a procissão na rua fez uma chacina, e o governo que tem medo
de sangue, vae bater bandeira” . (A Lanceta n. 26 de 1890).
“ Quando uma nova conspiração apparecer, de verdadé, cora
todos os requisitos da le ir com iprocissão na rua, com o se diz
na grria das bernardas,, ninguém acreditará na p o lic ia ” . (A
P ro vijicia n. 98 de 1916). Botar as manguinhas de fó ja , êx-
hibir-se, exceder-se, descobrir-se, patentear as suas manhas.
“ Botando as manguinhas de fóra, tem perdido esse pouco con ­
ceito que havia ad qu irid o” . (O Vapor do Rio Form oso n. 16
de 1857). Botar barro á parede; em pregar os meios para con­
seguir qualquer cousa. Botar bucho; encher-se, locupletar-se.
“ A hqmanidade, coitada, vae gemendo no repuxo; Entanto,
nessa embrulhada Muita gente bota bucho” . (Jornal do Reciffe
n. 44 de 1915). Botar carvão na machina, ou sebo no calca­
nhar; andar depressa. Botar feitiço, olhado? quebranto; male-
ficio, sortilégio, para causar mal a alguem. Botar livros a b a i­
x o ; estqdar, investigar, pesquizar, fazer diligencias para achar,
descobrir, elucidar um dado assumpto. Botar nas nuvens; elo­
giar calorosam ente. Botar no matto; botar fora. Botar nos
cornos da lua; o mesmo que botar nas nuvens. Botar o coração
á larga; não se im pressionar. Botar o dedo na ferid a ; desco­
b rir, atacar as m azellas do seu contendor. Botar o dedo no
suspiro; prevalecer-se* de vantagens oecasionaes para im por
condições onerosas, humilhantes. Botar o negocio a perder;
concorrer, m aliciosa ou ingenuamente, para o m allogro de um
negocio qualquer. Botar o pé á parede; oppor-se, resistir.
Botar o fpreto no branco; firm ar em papel form al o trato de
um negocio, um' compromisso qualquer, cercando-o assim das
devidas garantias, á m orrer e á v iv e r; N egocio de boccorio
não s erv e ; bote o preto no branco. Botar os bofes p^la bocca;
fa la r muito, discutir com interesse. Botar os podres na rua;
descobrir mazellas. alheias . Botar os pontos nos i i; accentuar,
affirm ar, perseguir. Botar por ahi afora; desprezar, ridicu lari-
sar, não liga r im portância. Botar sal em carnje podre; reme-
dio em negocio perdido. Botar sal na m olleira; lição, e x p e r i­
ência que se tira de um lo gro . Esta locução v.em do hespanhol:
P on er a algono sal em la m ollera. Botar-se de fó ra ; exim ir-
se. innocentar-se, escapulir-se de uma responsabilidade qual­
quer para a term inação de um negocio. Não botar em sacco
roto; não esquecer, desprezar uma offensa.
Bóte — Pulo, salto, arrem esso; golpe brusco, rápido, c ei-
teiro ; dar o bote; o bote ida cobra. “ As cobras se enroscam
no ensaio do prim eiro b ote” . (O Diabo a quatro n. 20 de 1875).
“ São Bento! Tom ara nós que uma surucucu’ trahíra dê um
bote no Vam berto, porque é mão estudante” . (A Pim enta n.
10 de 1908). “ A cascavel não foge, como fazem as outras co­
bras, quando avista uma pessoa ou animal qualquer; e ao con­
trario. prepara-se para da,r o b ote” . (D r. Eusebio M. Costa).
Abandono, desprezo, traição, ingratidão, vingança. “ A h i está
quem ha muito o espera para dar-lhe o bote c e rte iro ". (O V a ­
p or do R io Form oso n. 20 de 1857). “ O sujeito tem as manhas
das astutas serpentes; enrosca-se e baixa-se para dar o b ote” .
(A m erica Illustrada n. 47 de 1880). “ F ilia d o ás phalanges do
Conselheiro João A lfred o, vae servindo o patrão emquanto
não chega a occasião de dar o b ote” . (Lan tern a Magica n. 82
de 1884). Pacote de rapé, de libra e meia lib ra: um bote, m «io
bote de rapé. “ A carta vinha émbrulhando um boté de rape
que com prei” . ( A V oz do Brasil n. 32 de 1848). “ A casa de
Bragança glo rifico u o amoniaco pelo fabuloso consumo de
botes d e ra p é” . (O Diabo a quatro n. 61 de 1876).
Bôto — M am ifero m aritim o (Phocen a brasiliensis) a que
os indios davam o nome de P irá jagoára, e muito abundante,
principalm ente nos mares do archipelago de Fernando de N o ­
ronha. O boto, como é corrente, protege os naufragos e os
cadáveres do ataque e voracidade dos outros peixes.
Bouba —. Fram boezia, ferid a ou pustula de máo caracter,
tenaz e de cura d iffic il: Ferida muito agourada vira em bouba.
(D ic t a d o ). D iz Langaard, que o rigin aria a m oléstia da Costa
d’A frica, fo i provavelm ente introduzida no B rasil pelos ne­
gros, vindo dahi ser mais fam iliar a elles, que aos brancos.
Boxar — Esmurrar. “ Os policiaes agarravam com v io lê n ­
cia a um pobre aleijado que esmolava, e boxaram -lhe estupi­
damente o rosto” . Pernambuco n. 264 de 1913). Vem do inglez
box, o jogo do murro.
Bozó — , Júgo de dados nos cafés e hoteis, para se decidir
á sorte, a quem cabe satisfazer as despesas feitas. “ E ’ p rec i­
so não confundir o copo de sola com o b o zó ” . (A Pim enta n.
618 de 1907). “ O bozó, a banca bahiana, o quina, e o duque,
jogos fam iliares e absolutamente innocentes, decidem qual o
pato que tem de pagar a c e ia .” (Jornal Pequeno n. 96 Je
1916). “ Ninguém mais na Bôa Vista poderá decidir nos dados,
em jogos innocentes como o bozó, uma cerveja ou uma gazo-
z a . ” A P rovín cia n. 137 de 1916).
Brabeza — Acção, cousa, qualidade do que é brabo. “ Não
lemos medo de suas brabezas” . (A Peia n. 8 de 1904). “ Mamãe
se damna com as brabezas do Joaquim M aria” . (A Pimenta 11,
550 de 1907).
Brabo — Genista, indomável, m alcreado: Um homem, um
merjiino brabo. N ão domesticado, feroz, selvático: Um boi
brabo. De boi manso me guarde Deus, que do brabo me guar­
darei; O Boi brabo na terra alheia se faz manso. (D ic ta d o ).
Bravio, sanhudo, h o rriv el: Mar brabo. Silvestre, agreste, dam-
oinhò: Fructos brabos. Valentão, capanga, brigão. “ Dec-se no
largo dá igreja um te rriv e l sarilho, no qual os brabos solta­
ram um preso do poder da p olicia ” . A Lanterna Magifca n.
432 de 1894). “ O A belard o! Brabo enorme, que promette chi­
cote e couro cru’ a todo mundo” . (A Pimenta n. 75 de 1902).
“ P ’ra lá! Você é brabo; eu cá só conheço pau pela casca” .
^Idem , n. 405 de 1906). “ Confundem os eruditos, escreve
/feschauner. brabo com bravo; ou melhor, rejeitam brabo co-
mv -<cioso; mgs o povo brasileiro distinguem sempre: homem
brabo é homem zangado, que se enfurece p or qualquer cousa,
capaz de violências; homem bravo, é o que não teme o p eri­
go . Ninguém diz cavallo bravo, mas sim b rab o” . D erivados:
brabeza, brabura, ferocidade.
Bragánha — Troca, negociata, certos arranjos particulai-
mente referentes a cavallos: Queres braganhar o teu cavallo
com o meq? “ A instrucção dos matutos não passa de pedir vis­
ta nas execuções de braganhas de cavallos” . (Caneca, 1822).
Branca — Aguardente de canna, cachaça. “ Da branca be­
ba, danço o bahiano” . (O Clamor Publico n. 42 de 1845). “ Vá
ser taberneiro, e venda toucinho, bacalháo e o seu copinho da
branca” (O P ovo n. 20 de 1857). “ Dê-me da branca um copi­
nho, Qu’eu quando bebo não caio” . (Juvenal G alen o).
Branco — O senhor do escravo; tratamento de respeito e
submissão que os pretos davam aos homens brancos: Meu
branco. Nós somos brancos, cá nos entendemos. (P ro loq u io
p op u lar). “ O Japiaçu’ ia a bordo saber das noticias para as
leva r a seu branco” . (O Postilhão n. 25 de 1846). “ Branco
diz que negro bebe, N egro bebe agoniado; Quando negro vai
na venda, Acha copo já muiado” . (F o lk -lo re Pernam bucano).
Brando — Na locução: No brando; na maciota, sem es­
palhafato. “ O Chrispim veio quietinho, no brando, depois de
estar destacado alguns dias em Fernando de N oron h a” . (L a n ­
terna Magica n. 271 de 1889). “ Considerando no brando, na
ventura, ai quem me d e ra !” (Idem , n. 579 de 1898) .
Branquidade — A dicção, equivalente ou referente á
brancura, branquidão, á cor branca do homem, é somente em­
pregada nas questões de raça, para demonstrar origens puras,
sem mescla: Apurar branquidade; vindo dahi, talvez, esta lo ­
cução chula de abençoar: Deus te faça branco p ’ ra honra de
teus parentes. “ Estabelece distincções odiosas porque deu-se
o tratamento de Dom a uma senhora e <se apresenta discutin­
do branquidade” . (O Azorrague n. 29 de 1845). “ Se quizeres
discutir branquidade, começai p o r vós m esm o” . (Jornal do
R ecife n. 67 de 1881). “ T e rrív e l falatorio deu-se aqui nesta
cidade por causa de branquidade” . (Lanterna Magica n. 56 de
1883).
Branquinha — Aguardente de canna, cachaça. “ Engole
um copo da branquinha para p rovocar a musa” . (O Piparote
n. 1 de 1904). “ Sou amante da branquinha, Do caju’ sou ca­
marada, Sou amigo do copinho Quando sorvo uma bicada” .
(A Pim enta n. 640 de 1908). Trela, experteza, acto mão, com-
prom ettedor, e consoantemente com a expressão particular
que tem no Ceará de escamotagem, furto: Fazer uma bran­
quinha. “ Sabe todo o mundo que a accepção vulgar e geral do
lerm o fam iliar branquinha, é a de ladroeira feita com experte­
za ou velh acaria” . (O A rtilh eiro n. 29 de 1843). "Guardo
v iv o e atilado; não hei de deixar passar esta branquinha” .
(O Guarda Nacional n.u 7 de 1843). “ Pozeram -lhes a calva ao
sol publicando todas as suas branquinhas, patifarias e mal­
versações” . (O Form igão n. 26 de 1850).
B razileira — Aguardente de canna. “ Mandei o meu cria­
do com prar na venda um tusta da brasileira, e tomei um tra­
go da gloriosa afim de clarear as idéas” . (A Pimenta n. 536
de 1907). “ P ro h ib ir a venda da aguardente é um escandalo...
P roh ib ir1 a propagação da brazileira no Brasil, é o cumulo da
audacia” . (Idem , n. 548).
Bredo* — Nam orico, tijollo. assim, ou no d im iin iitivo:
Fazer um bredinho. “ Tão pavorosa vinha e desbragada, que
aos namorados fez deixar o b red o” . (Am erica Illustrada n.
11 de 1877). “ Do meu bredo a visinha já caçu’ a; ingrata! que
uma vez me poz na rua” . (O Etna n. 36 de 1882). “ O Alphoo
faz os seus bredinhos com uma roupinha só, coitado! pelo
que é conhecido p or canario sem muda” . (A Pimenta n. 629
de 1908).
Brejo — Terren o baixo, plano ou pouco accidentado, si-
tuadp entre collinas, fresco, irrigado, e de grande fertilidade.
A cidade sertaneja do Brejo da Madre de Deus está situada
ein um valle ou brejo form ado pelas serras do Prata, do Es­
trago e do Am aro, e dahi a sua denominação. Consoantemen-
te, existem no Estado, com a denominação de Brejo, B reji-
nho e Brejão varias situações, lugarejos, engenhos, riachos e
collinas. Certas ruas retiradas, secundarias, de cass ordiná­
rias. onde as mulheres de vida facil e de baixa esphera p ro ­
curam a sua habitação. “ A policia lembrou-se de fech ar o
Brejo, o que escandalizou a muitos homens pacatos, qüe ali
fazáam a sua ronda depois das n ove” . (Lanterna Magica n.
165 de 1901). “ Caras novinhas surgiram no Brejo, e o coiois-
nio se m ultiplicava” . (A Pimenta n. 58 de 1902). “ O bispo te­
ve a lembrança de crear o Asylo do Bom Pastor, para recolher
qs estrellas decahidas do firm am ento do B re jo ” . (Idem , n.
553 de 1907).
Breque — Especie de freio dos carros de viação ferren,
e dos bondes de tracção electrica e animal. D erivado: Bre-
cuisttt.
Breve — Saquinho de paiino ou couro, contendo uma
oração qualquer, muitas vezes banal, pendente do pescoço por
uma fita ou torça.1, e supersticiosamente usado a impulsos de
piedosas creanças ou como garantia contra toda a sorte de
perigos e difficuldades. “ Trazem pendente do pescoço um
tram bolho chamado breve da m arca” . (O Carrapuceiro n. 67
de 1842),- “ Uma oração prodigiosa, um breve, cosido dentro
de um saquinho de setim, e preso a um rosário” . (F ra n k lin
Tavorta).
Brigona — Fem inino de brigão. “ O Joca Pindahyba é um
typo innnensamente supersticioso, tanto quanto é brigona sua
excellentissim a m ulher” . (Jornal do R ecife n. 186 de 1916).
B rigai — Censurar, admoestar, reprehender, ralhar: U
mestre levou todo o santo dia a brigar com a gente por qual­
quer asneira. Não faça isto que o padre briga.
B rilhareto ou Brilharetur — Acto louvável, acção gene­
rosa, exhibição satisfactoria, com pleta. “ Em mim está o pro-
posito de fazer um brilh aretu r” . (O Diabo a quatro n. 10 de
1877).
Brijhatura — Bravata, fanfarronice, arreganho, audacia,
insolência. “ O redactor d’ 0 Epamindndas acostumado a bri-
lhatur&s brilhou sobrem aneira com o artigo: O que é a m ode­
ra çã o?” (O E quin oxial n.'21 de 1832).
Brisa — Bebedeira, carraspana: Andar, estar na brisa.
“ O D elfim na b-tísa immerso, p r’ a coió tem experteza” . A P i­
menta n .' 67 de' 1902). Quebradeira; Pa pindahyba; apitando.
“ Estou numa nfisa m edonha!! O cavalheiro não tem um ni-
ckel d isp o n ível?” (Idem , n. 8 de 1914).
Brocada — O mesmo qüe bolada, furada: Tomar, levar
uma brocada.
Brocar — Arrom bpr, na giria dos gatunos. Cortar, c e i­
far, derrubar a fo ice. “ Se é matto ou capoeirão, broca-se, is ­
to é, a foice se derrubam os arbustos ficando as arvores” . CP.
de Am orim Salgado). “ A palavra broca, no centro de Ala
goas, significa derrubada de mattas ou capoeiras para fazer
roçados” .. (A lfre d o Brandão). “ O derrubamento das mattas
continua de um modo p a v o r o s o .. . Os terrenos acham-se con ­
vertidos em b ro c a s .” (D ia rio de Pernambuco n. 300 de 1916).
Broinha — . Saboroso bolinho de massa de mandioca com
assucar, ovos e castanha de caju’ .
Brom ar — D egenerar, corrom per-se, perder-se: Não sei
como um moço de tão boa educação, tim ido, ingênuo, e tão
bem comportado, bromou assim. O termo vem de igual, vulgár
nos engenhos para designar o estrago d o ; caldo da canna, por
uma circumstancia qualquer, de modo a não cristalizar e se
transform ar em assucar broma (m ascavado) e melaço.
Brbnze — V iolão: Cantar ao bronze choroso. “ O p rofes­
sor decidia no bronze a suã modinha pred ilecta” . (A Pim enta
n. 9 de 1902) v “ Olha o chorado! A Jovita já está se esquen­
tando. R epinica o bronze.” (V iria to C o rreia).
Brósio — Manchas esbranquiçadas e de form as irregu la­
res, que appareçam ao correr de certas madeiras, como o
am arello, e de um tecido m olle, frouxo, tornando-as im prestá­
veis ou depreciadas para construcção e m arcenaria. “ Consta
que as madeiras compradas para a ponte suspensa do Caxangá
•são taes, que não o ffeiecem duração alguma, porque é quasi
toda de am arello com bijógiq, .; M adeira com b ró sio ” . (O
Guarda Nacional n. 83 de 1843).
Bróte — Especie de bolacha, pequena, arredondada, ha­
vendo ainda uma m enor chamada brotinho.
Bruaca — Mulher velha feia, repellente. “ Meu yôyô, dis­
se a bruaca, Rapazes da mesma laia, Gordos papões, eu conhe­
ço P o r deputados da p raia” . (O Brado da Razão n. 3 de 1848).
“ Parto sem saudade dos velhotes, das velhas e das bruacas” .

132
(C orreio de Olinda n. 4 de 1891). Sacco de couro cru* para
a conducção de matalotagem. “ De couros duros ou molles,
Fazem-se saccos, surrões, Bruacas, odres, colchões” . (P ed ro
Affonso R egueira). “ Todas as manhãs, cingindo ao lado a
bruaca de provisões, segue o sertanejo para o m atto” . (Irin eo
J o fffly ). Bebedeira, carraspana. “ O Serpa, porem, lá ficou
cuhido numa bruaca medonha” . (A Pimenta n. 9 de 1914) .
Bruta — O m aior prêmio, a sorte grande de uma loteria.
“ A mulher sahiu tão contente como" se tivesse tirado a brutà
de mil contos” . (A Derrota n. 6 de 1883). “ O bilheteiro che­
gou á janella, e diz á mocinha: meu amor você pegou a bruta” .
(A Pimenta n. 18 de 1902). Grande, enorme, forte. “ Chico
Bato tem uma bruta musculatura” . (Jornal do Reci/e n. 91 de
1914). Supimpa, magnifico, appettitoso. “ O Ferreira prepara
para domingo um bruto sarapatel” . (A Província n. 61 de
1916). D erivado: Biutal. “ O Canuto viu-se em betas, numa
trança brutal, muito encrencada.” (Pernam buco n. 29 de
1913).
Brutamonte — Homem de estatura elevada, agigantado, ho-
m en zairão. “ José não podendo supporíar a affronta de ver
sua irmã apanhar de um sanhudo brutamonte, investiu contra
c lle ” . (Jornal ,do R ecife n. 202 de 1916). Xa giria portugueza.
e com a voz de brutamontes, tem o termo a expressão de bruto,
alarve, selvagem, grosseii ã o ; e Aulete que assim o registra,
com a indicação de plebeo, diz que deriva de bruto, e este do
latim brutus. Mas encontrando nós, como mais remoto ponto
de partida um indivíduo com o nome de Brutamonte, carcerei­
ro turco, que teve sob a sua gua: da e vigilancia a cinco pares
de França, aprisionados em batalha, ao tempo de Carlos Mag­
no; e um outro Brutamonte, alentado governador da praça de
Tim orante, e o mais valente cabo de guerra do íe i serraceno
Abderraman (seculo Y J II), cremos que vem dahi o termo em
allusão ás suas agigantadas estaturas, ou quando muito, ás suas
crueldades, brutezas mesmo.
Bucha — Comida de d iffic il digestão; engano, logro, espi­
ga, canudo, máo negocio; Tom ar uma bucha. Na bucha: imine-
riiatamente, incontinente, sem demora, ao pé da letra: Respon­
der, pagar na bucha.
Buchada — Especie de comida feita com as vísceras e os
intestinos do carneiro ou bode, reduzidos a xecado, convenien­
temente condimentados, envolvidos tudo na pelle do proprio
bucho do animal, e assim cozido.. “ A x^enetração gastronômica

133
foi uma supimpa buchada de carn eiro” . (A Pimenta n. 603 dc
1907).
Bucho — B a r r ig a , es t o m a g o , b a n d u lh o ; Encher o bucho,
Botar bucho: A b u s i v a m e n t e t i r a r g r a n d e s p r o v e n t o s n o e x e r c i ­
d o de um c a r g o ou e m p r e g o q u a lq u e r . Bucho de piaba: F a l a ­
dor, in c a p a z de g u a r d a r um s e g r e d o .
Budum — C a tin ga , m a u c h e i r o . “ Os a n im a c s em je ju m
b u sca va m p e lo budum as c e r o u la s do C h i e h o r r o ” . (A Carranca
ii. 1 de 1847). " Q u a n d o sua, é que lh e e x h a l a o c h e ir u m e de
budum.” (A m erica Illustrada n. 22 de 1883). D e r i v a d o : Budu-
nhento, fe t id o , que tem m a u c h e i i o . “ P e g a i ahi q u a l q u e r desses
budunhentos m o la m b o s , o da u lt im a esc ola , que tem a m e sm a
lin g u a g e m q u e o de alto c o t h u r n o ” . (O Brado da Razão n. 22
de 1849). Budum é um t e r m o e v i d e n t e m e n t e a f r i c a n o ; e q u a n ­
d o os n e g r o s , n o te m p o do t r a f i c o e da e s c r a v i d ã o a v u lt a v a m
e n t r e nós, f i g u r a v a e n tre os fe t ic h e s dos seus c a t im b ó s ou f e i ­
t iç a ria s , um que tin h a o n o m e de santo budum.
B u g re — D escon fia d o , a rred io , re tra h ido, selvagem m es­
m o, s e g u n d o a o r i g e m da d icç ã o , c o m o um n om e d e s p r e c ia t i v o
d a d o aos nossos a b o r í g e n e s .
B u m b a — B o m b o , z a b u m b a : V i v a o p a io e bata o b u m b a .
Q u a n d o m ais b a tia o bumba, m ais se a b ria o co m p a ss o das
suas p e r n a s ” . (Am erica Illustrada n. 48 de 1877). T u n d a , b o r ­
doada, pancadaria velha. “ À o p p o s iç ã o e s c o lh e s e m p re u m de
n ós, e bumba n elle, id e st, s o v a b o a p a r a a ju ste de c o n t a s ” .
(Marmota n, 2 de 1844) . “ F o g o ! Bumba, no canectí!” . (A Peia
n. 3 de 1903). B a q u e de um a q u e d a : Bumba, no chão. A b r e v i a ­
tura de Bumba meu boi. “ X o s p r e s e p io s , nos b r o d i o s e nos bum-
bas t e v e e lle sem p re o seu p r i m e i r o a s s e n t o ” . (O Clamor Pu­
blico n. 69 de 1845). “ A b r i tod os vo ssa s po rta s. D esta m u sic a
a o signal, V i n d e v e r os fig u r in s D este bumba nacional” . (O Es­
queleto n. 2 de 1846) . “ A s p r im e i r a s fig u r a s do bumba d a n ç a m
d e s b r a g a d a m e n t e ” . (Lanterna Magica n. 553 de 1898).
Bumba-canastra — B r i n q u e d o de m e n in os , q u e co n s iste
ern a p o i a r a c a b e ç a c as m ãos no c h ã o e v i r a r o c o r p o p a r a a
f i e n t e , c a h in d o de p é . “ E lle s r o l a v a m ás c a m b a lh o ta s ; e v i r a -
bumba-canastra m u ita s v e z e s ” . (A Carranca
v am e r e v i r a v a m
n . 65 de 1846), “ O su prad ito , de bumba-canastra, a tra v e s s o u o
g r a d il que sep ara as c a d e ir a s do j a r d i m ” . (A Pimenta n. 6 de
1914).

Bumba meu boi — Po p u la r e t r a d ic io n a l auto ou dram a


p a s to ril, r e p r e s e n t a d o á n o it e e ao ar liv r e , cuja fo l g a n ç a , tão

134
M i l g a r em ep o ca n ão nuiito a fastada, p e r t e n c e , na p h ra s e de
T h e o p h i l o B r a g a , á fo i ma do t h e a t r o h i e r á t i c o das festas p o ­
p u la r e s do X a t a l e R e i s . E n t r e nós, p o r e m , o B u m b a meu boi
n ã o s o m e n te e x h i b i d o n a q u ella s epocas, c o m o t a m b e m em va ria ',
outras, p r i n c i p a l m e n t e p e l o C a r n iiv a l c fe s t i v id a d e s r e lig io s a s
de a r r a y a l ; m as h o je é r a r o a p p a r e c e r a sua r e p r e s e n t a ç ã o m e s ­
m o em taes festas, e assim, q u asi q u e c a h in d o em desuzo, v a e
desapparecendo. X o nosso F o l k - l o r e P e r n a m b u c a n o estu da m o s
o auto deáde as suas o r ig e n s h is t ó r ic a s até a c o n s ig n a ç ã o de
um a das suas v e r s õ e s , a m ais c o m p le ta ao n osso v e r .
B u m b a r — B a ter, dtir p a n ca d a , e s b o r d o a r . “ N ã o p o d e s tres
n a m o r a r , P o r q u e d ep o is v ã o tres p a es As tuas costas b u m b a r ” .
(A m e ric a Illu s t r a d a de 2 de N o v e m b r o de 1873). “ O esc o m -
ín u n g a d o já butnbou tod os os p a r e n t e s '’ . ( A P im e n t a 11. 13 de
1 9 1 4 ). A d ic ç ã o seg u n d o C a n n e c a tim , v e m do c o n g u e z bumba,
com taes expressões, e p o i tanto, in t r o d u z i d a p e lo s escravos
a fric an o s.
B u m b u m de j a l é c o — G ro t e s c o , em d e s a lin h o , m a l a r r a n j a ­
do 110 v e s t i r . O A n t o n i o c o m a q u e lla rou pa, que p a r e c e q u e o
d e fu n t o e r a m ais g o r d o , n ã o tem que v e r um bu m b um de j a ­
lé c o .
B u n da — Xadegas. assento, c a c h o r r o , o t r a z e ir o . M oraes
r e g is t r a já o term o, com o b r a s i le i r o , escrevendo: ‘"X a d eg a s ,
ca d e ir a s de g e n t e a lc a t r e i r a , e s c ra v a s v a d ia s d !assen to e n g r o s ­
sado, c r ia n d o b u n d a ” . A u le t e r e g is t r a - o ta m bem , c o m o tal, m as
d a n d o - lh e a e r r ô n e a e x p r e s s ã o de n a d e g a s v o lu m o s a s . B u n d a é
um t e r m o g e n e r ic o , q u e r se tra te das v o lu m o s a s q u e r não, uma
v e z q u e o c c o r r e p a r a q u a l i f i c a r á q u e lla s a p h r a s e B u n da de b a ­
la io, ou as i n t e r j e c t i v a s : um pé de bu n da r e s p e i t á v e l ! U m kio s-
q u e a r r o j a d o ! e p a r a as q u e n ão o são, as lo c u ç õ e s B u n da c h o ­
cha, batida, chata. S o b r e a e t y m o l o g i a do v o c á b u lo , d i z M o r a e s
qu e v e m , t a lv e z , de binda, t e r m o d ’ A n g o la .
B u ra c o — Gg,sa, h a b ita ç ã o , l u g a i e s e q u i v o c o s : N ã o sei 0
M a n o e l em q u e b u ra c o se m ette, que n in g u é m o v ê : V i v o m et-
t id o a q u i neste b u ra c o , e n ão p o n h o p é na ru a . C ó rte , d e p r e s ­
são, p a ssa g em , d e s v io , c a m b õ a , e da h i B u r a c o do S an tia go , h o je
c a m b ô a da T a c a ru n a , e o n o m e de F o r t e do B u raco, d a d o á f o r ­
ça situ ada n o i s t h m o de O li n d a f r o n t e i r a a q u e lla situ ação, c o n s ­
tru íd a n o s éc u lo X V I I , e b e m a ssim d e n o m in a ç õ e s iguaes de a l ­
gu m a s serra s e l o c a lid a d e s da nossa c h o r o g r a p h i a . “ V i v a o V i ­
c e n te da n o iv a , V i v a a n o i v a do V i c e n t e ! V i v a a g é n t e do B u ­
ra co , V i v a o B u r a c o da g e n t e ” . { T r o v a s p o p u l a r e s ) . F a lt a , la-

135
cuna, mão de arranjo. “ P r e s t e m as suas contas, e n ão h a ja bu­
raco no f e c h a r do b a l a n ç o ” . (Jornal do Recife, 1 9 1 6 ). A d v i n h a *
çã o de buraco: 0 q u e é, que q u a n t o m a is se t ir a m ais c r e s c e '1
Olha o buraco! D i c t a d o p o p u la r, de s im p le s t r o ç a , uma v e z que
n ão tem um a e x p r e s s ã o p r ó p r i a , p a r t i c u l a r . E m o u tr o s tem pos,
p o r e m , tin h a uma p a r t e c o m p l e m e n t a r , h o j e qu asi q u e e s q u e c i­
d a : Olha o buraco, cavalleiro velho. Olha o buraco! é um dito
qu e se v u lg a r is o u de f o r m a e x t r a o r d i n a r i a nesta c a p it a l . Qua­
si em tod a p a r t e q u e se anda, p e l o f a c t o m a is in s ig n ific a n t e , o
olha o buraco v e m á b a i l a ” . (Jornal do R e c i f e 11. 193 de 1915) .
Buranhém — P a u b r a n d o e f l e x i v e l , c o n h e c i d a s a p o tac ea
d a nossa f l o r a , e d o q u a l são g e r a lm e n t e fe it o s o s ca b o s dos
c h i q u e ir a d o r e s dos a l m o c r e v e s . “ D a m ã o , em ve>. do chiqueira-
dor de buranhem, que t r a z ia , p e n d i a a g o r a uma c a t a n a ” . ( F r a n -
klin T a v o ra ). Chib ata, b e n g a la , c a c e te do m e s m o p a u ” . “ Os p a ­
rasitas de seu q u ila t e le v a m -s e a doses de buranhem” . (Am erica
Illustrada de 24 de A g o s t o de 1873). “ S e n h o r D e le g a d o , se os
m atu tos desse lu g a r tiv e s s e m c o r a g e m e usassem do buranhem,
v o c ê é q u em p a g a v a a e l l e s ” . (Lanterna Magica n. 153 de 1886).
“ Então o buranhem t r a b a l h o u no c i r c o da T o i re ” (A Pimenta
n . 532 de 1907). A d ic ç ã o é de o r i g e m i n d íg e n a , e seg u n d o T h e o -
d o r o S a m p a io é um a c o r r u p t e la de ibyra-nhé, a lt e r a d o em ibu-
ranhêj bura-nhem, pau doce.
Buraqueira — B u ra c os.
Burra — G ra n d e, im m en sa , e x t r a o r d i n a r i a . “ A R e g i n a está
num a p o n t a burra. Já tem c r i a d a ” . ( A Pimenta n. 607 de 1907).
“ Q ue re ssa ca burra estou eu c o m ella , des d e d o m i n g o ! ” (Id em ,
n, 10 de 1914). “A Jo sep h a tomou um a agna bu rra , f i c a n d o
c o m p le t a m e n t e sem j u i z o ” . (Jornal do R ecife n. 218 de 1916).
Burundanga — C o n fu s ã o , d e s o r d e m , b a l b ú r d ia : A casa de
J o s é é tão c h e ia de burundanga, que é um h o r r o r . Co u sa ou n e ­
g o c i o d i f f i c i l , c h e io de o bstá cu los, e n t r a v e s e r i s c o s : Cousas de
burundangas n ão é c o m m i g o . O b je c to s i n s ig n ific a n t e s , n in h a ­
rias, p i n o i a s . “ Basta que o fu t il m e r c a d o f r a n c e z de q u i n q u i l h a ­
rias, c i p o s in h o s e burundan,gas, nos l e v e p a r a o v e l h o murido
g ros sa s s o m m a s ” . (O Verdadeiro Regenerador n. 4 de 1844).
N ã o r à r o , m a s p o r s im p les g r a c e jo , t e m o t e r m o a e x p r e s s ã o de
brandão, o r i g i n á r i o da m e i a lin g u a dos n e g r o s a fr ic a n o s , q u e
nas p r o c is s õ e s da sua i r m a n d a d e do R o s á r i o d i z i a m a z a fa m a -
dos aos c o n f r a d e s : L a r g a burundanga ( o b r a n d ã o ) p en a no
nendanga ( o p e n d ã o ) . E x c e p c i o n a l m e n t e e n c o n t r a m o s o v o c á ­
b u lo c o m a e x p r e s s ã o de p e n n a : “ O r a e s ta ! E m p u n h o a pen n a

136
P*ra e s c r e v e r , só p e lo d ia b o ... E s to u la r g a n d o , c o m p a d r e ,
IV u m a v e z a bu ru n d a n ga , P o i s a c a b e ç a m e a rde, C h e g a - m e a
r a i v a e a z a n g a ” . ( O C a m p e ã o n. 50 de 1962). E m f i m , n a t u r a l­
m e n te n o s e n tid o de d ií f i c u l d a d e s e p e r ig o s , e sem d u vid a os
o c c o r r ç n t e s aos n a v io s que d e m a n d a m o p o r t o do R e c i f e , p e lo s
seus b a i x i o s e esc o lh o s , e n c o n t r a m o s esta q u a d r h i h a n o c y e l o
das nossas trovas p o pu lares. “ Quando fores a Pernam buco
P r o c u r a b r ig u e ou pa ta ch o , Que é b o m p a r a a v ia g e m Das hu-
ru n d a n ga s de b a ix o ” . O v o c á b u lo é r e l a t iv a m e n t e m oderno.
B lu tea u n ão o re g is tra , p o i e m M o r a e s já o co n s ig n a , c o m o t e r ­
m o f a m i l i a r , c o m as e x p r e s s õ e s de lin g u a g e m m e n o s po lid a , a l ­
g a r a v i a , c it a n d o a F i l i n t o E ly sio , (o Padre Fra n cisco M anoel
d o N a s c im e n t o , f a l l e c i d o em 1819), que n a t u r a lm e n t e e m p re g o u
o t e r m o c o m a q u e lla s e x p r e s s õ e s , o q u e assim co n s titu e a sua
g e n e s e h is t ó r i c a e a sua f e i ç ã o o r i g i n a r i a m e n t e p o r t u g u e z a ; e
levado ao p lu ra l, bu ru n da n ga s, c o m o fr a n d u la g e n s , cousas de
pouco va lo r. D a b i, c o m e x c e p ç ã o de C o n s ta n c io , até C â n d id o
de F i g u e i r e d o , e o u tr o s e s c r ip t o r c s , v e m o v o c á b u lo r e g is t r a d o ,
qu asi que, c o m o o d e f in iu M o ra e s , e c o m m ais umas tantas a m ­
p lia ç õ e s , m as ern c e r t o s p o n t o s e n c o n t ra d a s c o m as p a r t i c u l a ­
re s expre ssõ es, c o r r e n t e s e v u l g a r e s e n t r e nós, c o m o v im o s .
B u s c a - v id a — D il ig e n t e , vid eiro , tra ba lh ad or in fa tig á vel
t r a b u c a d o r da v i d a ; tra ta nte, v e l h a c o , g a t u n o . Vem de lo n g e
of t e r m o , p e l o m e n o s c o m estas u ltim a s e x p r e s s õ e s , e j á v u l g a r
r m M in a s G eraes, em t e m p o s idos, c o m o se v ê deste fa cto , qu e
encontram os c o n s ig n a d o num p erio d ico do R ec ife, O Vapor
dos T r a f ic a n t e s , no seu n. 45 de 1858: “ E s t a n d o p r e s o na c a d eia
de S. J o ã o í F E l * R e i , p e lo c r im e de fu rto , c e r t o i n d i v í d u o p o r
alcu n h a O B u sc a-v id a , f e z o seg u in te r e q u e r i m e n t o ao o u v i d o r
da c o m a r c a : “ O B u s c a -v id a está p r e s o , S en h o r, m a n d a i- o s o l ­
ta r; Que e ll e s o lt o bu sca a v id a , E preso, com o a buscar” .
Despacho: “ Se o B u s c a - v id a está p r e s o , P r e s o se d e i x e f i c a r :
P o i s na c a d e ia n ão fu rta , E so lto p o d e f u r t a r ” .
B u t e — D e n o m i n a ç ã o de t r o ç a a u m a e n f e r m i d a d e q u a lq u e r
p a i a c h a s q u e a r de q u e m a s o f f r e : D e u - lh e o b u te ; E s tá a ta c a d o
d o m al do bute. N o G lo s s á r io C e a r e n s e p o r e m , e n c o n t r a m o s o
v o c á b u lo c o m a e x p r e s s ã o de m o lé s t ia da p e ll e e n t r e os p reto s
vin d o s d *A frica . Trata-se assim, de um a p a la vra o rigin a ria ­
m e n t e a f r ic a n a .
B u tes — C a lç a d o : E stes butes já n ão p r e s t a m ; estão d e v e n ­
d o im p o s t o á p r a i a . C r e m o s que o t e r m o v e m de bute, pé, da
g ir ia portugueza e decorrentem ente a lo c u ç ã o D a r a os butes,

137
f u g i r , e v a d ir - s e , desapparecer, correr, com o registra A lb e r to
Bessa.

B u z in a — F a l a t o r i o co n s ta n te, i m p e r t in e n t e , e s t r id e n te ;
g r i t a r i a de cria n ça s, a t o r d o a d o r a , de encom m odar, desespe­
r a r . ‘‘ A r r e c o m ta n ta b u z i n a . . . P a r e c e q u e essa m e n in a b eb eu
a gu a de c h o c a l h o ” . ( L a n t e r n a M a g i c a . 553 de 189 8).
B u z io — E e p e e i e de b u z in a ou t r o m b e ta f e i t a de um bu/.io
o u c a r a m u jo g r a n d e , c o m um o r ifíc io p ratica d o na base, p o r
o n d e se so p ra , p r o d u z i n d o u m s o m r o q u e n h o . m as a gu do , e s ­
t r id e n t e , q u e se o u v e a g r a n d e d is t a n c ia . O toq u e do b u z io é
u z a d o p e lo s o a n o e ir o s e j a n g a d e i r o s p a r a c h a g a r o v e n t o nas
c a lm a r ia s , os c o m p a n h e ir o s , e os fr e g u e z e s ao m e r c a d o do p e i ­
x e q u a n d o v o l t a m das p e s c a r ia s ; o a sso gu eirn p a r a a n n c n c i a r
c a r n e barata, e p a r a a la r m a , p e d i d o de s o c c o r r o . O b u z io assim,
c h a m a -s e a ta p u ’ , 110 C e ará .
Buzugo — C ou sa m a l fe ita , m a l a c a b a d a ; Is to n ã o é co rd u ­
r a de g e n t e : é u m bu z u go .
B u z u n tã o — Sujo, im m u n d o , p o r e o . O t e r m o , b e m c o m o 0
seu d e r iv a d o , bu zu ntar, é de o r i g e m a fr i c a n a , s e g u n d o S y l v i c
R o m e r o . A u le t e , p o r e m , r e g i s t r a 0 term o besuntão, com o fa­
m i l i a r de e x p r e s s õ e s ou ira s.
c
Cabaça — E s p e c i e de cu ia ou c o it é d o fr u t o do c a b a c e i r o ,
c u i e ir a ou co itezeira (C resce n tia cu jete, E in n .). oval ou es-
p h e r i c o , s e r r a d o ao m e i o e e x t r a h i d o o m i o l o q u e o e n c h e p o r
t

c o m p le to . “ As ca ba ça s são usadas com o u te n s ílio s de ca sa .


A b e r t a s em duas b an das, t ir a d a a p o l p a e seccas, s e r v e m a gui-
za de lo u ç a de b a r r o . ” ( H . K o s t e r ) Ca ba ça , o u e n g o , ca co , p a r a
d e s ig n a r , geralm en te, um in d ivid u o d e s a c isa d o , s em ju iz o , de
cabeça d e s m io la d a , dessas, q u e na p h r a s e d o p o eta , P o r fó r u
só tem c a b e llo , Por dentro nenhum m iolo . “ H a h om ens que
tem ca b eç a, O u t r o s ha que t e m c a b a ç a ; A f f i r m a m que o M i y -
ses é desta u lt im a r a ç a . ” (D e uns v e r s o s p o l í t i c o s de 186 31.
" X e s t e t e m p o em q u e se e m b a r a ç a t e m ca b a ça e n ã o c a b e ç a .”
(A Ill u s t r a ç ã o n. 9 de 1885) O r a g r a ç a s ás c a b e ç a s ! (L o c u ç ã o
p o p u la r de a le g r ia , s a tisfa çã o ).
Cabaço — O cham ado Cabaço de có llo (C u cu rb ita la g e -
nária, L i n n ) , q u e a t tin g e a g r a n d e v o lu m e , de um a ca sca g r o s -
sa-ie c o n s is te n te , e x t e r i o r m e n t e p a r d a c e n t a , e q u e t i r a d o t o d o o
m io lo , serve de vaso para a conducção d ’agua, g u a r d a r f a r i ­
n ha e o u tr o s usos d o m é s tic o s , .e c o m m u m e n t e m u i t o u sa d o na
\ e n d a g e m de m e l e c a l d o de c a n n a . V e m dah i o d i c t a d o : P e r ­
d e i m e l e c a b a ç o , na o c c o r r e n c i a de um p r e j u i z o , du plo . “ D e i ­
xou v . s. sem m e l e sem ca b a ço , c o m o d iz o m e u a m i g o Zc
P o v o .” (J orn al do R ec ife n. 301, 1 91 7). H onra, p u re z a , v i r ­
g i n d a d e . P o u c o v u l g a r : ca b eç a, q u e n g o , c a c o . “ A m u sa fo i- s e -
me e m b o ra ... A m in h a b o la ... é um ca b a ço , (M ep h isto p h c-
les n. 20 de 8 8 2 ).
. . . . Cabanáda — Xom e p elo qual se d e n u n c io u a re volu çã o
qu e i r r o m p e u em p rin c ip io de 1832 nas m attas de J a c u h y p e

139
e Panellas de Miranda, pugnando pela restauração do reinado
do im perador D . Pedro I, que abdicara a corôa no anno an­
terior, e qtfe somente terminou depois de lima porfiada luta
de perto de quatro annos, antes pela persuasão que pelo po­
der das armas, graças a intervenção pastoral do bispo dioce­
sano D . João da Purificação Marques Perdigão. “ Temos v is ­
to crises ameaçadoras em Pernambuco, como a Abrilada, Se-
tembrisada e Cabanada.” (O Cometa n. 4 de 1843) “ Concluí­
da a cabanada, o Arara sahiu do Jiquiá e vem para a povoa­
ção de Afogados” . (O Arara n. 3 de 1845). “ No tempo da
cabanada casou-se o pae do X estor” . (Lanterna Magica n. 545
de 1859).
Cabano — O sectário da revolução da Cabanáda, ou antes
segundo as nossas chronicas, Guerra dos Cabanos. E xp lo­
dindo em 1853 no Pará uma revolução com os mesmos intui­
tos da nossa Cabanada, tiveram os seus adeptos a igual deno­
minação de cabanos, que, como entre nós, se tornou despre-
sivel, e dahi estes versos das nossas trovas populares: Eu não
sou cabana Lá do Pará; Sou menina bôa, Gente sinhá. “ Pu­
nam-se os cabanos porque elles são verdadeiros salteadores
e assassinos premeditados da vida dos seus semelhantes. ” (Voz
do Povo Pernambucano n. 32 de 1833). “ Talvez que os caba­
nos daqui, e os cabanos do Pará podessem ajudar-se no san­
to principio do interesse para legitim arem a sua re v o lta .” (O
Carapuceiro n. 20 de 1837). Cabano, como termo portuguez,
designa o animal que tem as orelhas derrubadas, descahidas;
um cavallo cabano; um porco cabano; e dahi, applicado entre
nós aos indivíduos que tem as orelhas grandes e muito aber­
tas: orelhas de cabano, ou acabanadas. A denominação, po­
rém, dos rebeldes da cabanada, vem dos ranchos ou cabanas,
que occupavam nos seus acampamentos nas mattas de Ja-
cuhype e Panellas de Miranda. “ “ Os defensores da patria cos­
tumavam dorm ir a somno largo, e tão largo, que de uma feita
acordaram á força de repetidas facadas dos habitantes das ca­
banas, que aproveitando-se da opportunidade que lhes offere-
cia a occasião conseguiram fazer algumas m o rtes.” O Tupi-
nambá n. 12 de 1832). O qualificativo, porem, ficou, e annos
depois de terminadas as lutas, dizia um periodico do Recife,
chasqueando dos seus adversários politicos: ” Mas fala baixo,
que os cabanos estão em b a ix o .” (O Clamor Publico n. 14 de
1845).

140
Cabeça de prego — Furunculo, leicenço, ou tumor peque­
no e duro que nasce á superfície da pelle.
Cabeção — Cabeça grande: Cabeça de comarca, cabeça
de nós todos; a parte superior da camisa de mulher, unida
a fralda e substituída quando o panno se estraga. “ Duas cou­
sas me contentam. E são da minha paixão: Perna grossa, ca-
belluda, P eito em pê no cabeção.” (T rovas p o p u la res). “ Visto­
sos cabeções de que pendem não sem acertadas combinações,
bicos e rendas bemfeitas e elega n tes... Os cabeções arren ­
dados e decotados, os seios quasi de fo r a .” (F ra n k lin T a v o ­
r a ). “ Grenha, no ar„ em cabeção de camisa e de mãos nas
ilhargas.” (Jornal do R ecife n. 200 de 1917). O term o com
esta expressão, vem porem de longe, como se vê de um r o ­
mance joco-serio de meiados do seculo X V II, H istoria da
Cota M arota: ” A h ! meu tempo, tempo amado, Em que as ma­
tronas honestas Com seu cabeção de talho Que os peitos co­
bria ap en as... Era para vêr a Cota Como agoniada e tremula,
Cabeção, saia e cabello, O manto, a cinta, as chinellas.
Cabeça-secca — Alcunha do captivo no tempo da escra­
vidão, e tida como deprimente, injuriosa. “ E* noite, e o si­
no da matriz de Santo Antonio está dobrando; isto quer di­
zer que são horas das cabeças-seccas recolherem -se as ca­
sas de seus sen hores.” <0 .Campeão n. 194 de 1862). A lo ­
cução ficou, em virtude daquelle costume, de imposição p o li­
cial, vindo dahi a retirada de uma visita ou terminação, de
uma palestra ao toque de nove horas, como cabeça-aecca.
N ò nosso F olk -lore Pernambucano tratamos do assumpto mais
demoradamente. A locução tem tambem voga em São Paulo,
mas exclusivamente para designar o soldado de p olicia.
Cabeceiras — As origens ou nascentes de um rio ou ria ­
cho “ A bacia do São Francisco, perto das suas cabeceiras,
tornou-se a região de preferencia dos mais antigos d*entre es­
ses intrépidos e x p lo ra d o res.” (M . de O liveira L im a ). “ O rio
Parahyba não tem pela margem direita nenhum affluente im ­
portante, a não ser o rio da Serra, já perto de suas cabecei­
ras” . (Irin eu J o f f i l y ) . “ As aguas do meu riacho, Correm lá
das cab eceiras.” (Cancioneiro do N o rte ).
Cabeçote — Cabeços dos dois páus extremos da armação
de cangalha, e de postura um tanto saliente á esteira que a re ­
veste; e atadas aos quaes, pendem latteralmente dispostas a
carga do animal, os cambitos, caçambas, ou caçuaes, garajáos
e capoeiras de aves. “ Francisco tirou um fusil do sacco vasio
que pendia do cabeçote de cangalha. ” (Fran klin T a v o r a ),
C abelleira — V a le n t ã o , d e s te m id o , a u d a z . “ Mas se e n t r e ­
tanto, a ssim o q u i z e r e m os C a b e lle ir a s , r e c e b e r ã o r e s p o s t a im
m e d ia ta m en te.” (O G u a rd a N a cio n al n. 15 de 184 3). “ E lle
t e m u m n o p ie g l o r i o s o ao p é dos C a b e l l e i r a s . ” (O A ra ra n. 1
de 184 5). A dicção v e m do a p p ellid o de C a b e ll e ir a , de u m
m a m e lu c o de n o m e José Gom es, c e l e b r e b a n d id o , e f f e c t i v a m e n -
te a u daz e d e s te m id o , e c h e fe de u m a q u a d r i lh a de m a l f e it o r e s ,
q u e e m m e i a d o s d o s e c u lo X V I I I l e v a r a m o c r i m e e o t e r r o r
p o r tod a p a r t e . O C a b e l l e i r a qu e d e ix o u de si t ris t ís s im a c e ­
l e b r i d a d e , t e v e p e la s suas fa ç a n h a s o seu n o m e c a n t a d o p e l o
ly ra popu la r c o n t e m p o r â n e a , da q u a l são v u l g a r is s im o s estes
v e r s o s : “ F e c h a a p o r t a gen te, C a b e l l e i r a ahi v em , M a t a n d o m u ­
lh e re s , M e n in o s t a m b e m . ”
C a b e l lo — S o b r e esta d ic ç ã o o c c o r r e : A n d a r , esta r de ca-
b eílo em pé: p reven id o , d es con fia d o . C a b e ll o á nazarena;
c e r t o m o d o n o c o r t e e p e n t e a d o d o c a b e llo , q u e já t e v e m u ita
v o g a , m as a in d a n ã o d e t o d o e s q u e c id o . O rig in a ria de P a r is ,
t e v e l o g o a o seu a p p a r e c im e n t o a p p la u so s e o p p o s iç õ e s , e in -
c o r e n d o n o a n i m o d o n oss o c r i t i c o L o p e s Gam a, e s c r e v e u e l l e
um a r t i g o acrem ente verberando a nova moda d e c a b e ll o s á
nazarena a que deu p u b l ic i d a d e no seu p eriod o O Carapu-
ceiro nu 14 de 1840) . “ A C a b e lleira nazarena de M a r i a T h e -
r e z a ” . ( A P i m e n t a n. 10 de 191 7). C a b e l lo de c u p i m : p ic h a im ,
c a r a p in h a . “ Você m e chama de n e g r o , D o c a b e ll o d e cupim ,
A g o r a v o c ê m e d i g a : q u a n t o s c o n t o s d eu p o r m i m , ” (V e rs o s de
des a fio ). C a b e ll o de e s c a d a : o d o m e s t iç o , c u jo c r e s p o , e f f e c
t i v a m e n t e , é a s s im . “ P a l l i d o , ca b e ç a p e q u e n a , c a b e l lo s p r e t o s
fo rm an d o esc a d in h a s.” ( A P i m e n t a n. 39 de 190 2). C a b e ll o de
fo g o : verm e lh o . C a b e ll o de espeta c a ju ’ ; gr o s s o , d u ro , e s p e ­
ca d o , i n d o m á v e l á b a n h a , a o p e n t e e á e s c o v a , e a ssim c h a m a d o
do co stu m e q u e t e m o q u an dú , m a m i f e r o r o e d o r , de e s p e t a r o
c a ju ’ n os e s p in h o s do dorso para o co n d u zir. E’ desse ca-
b è í l o assim, c o m o o d o in d io , q u e v e m esta q u a d r in h a p o p u la r :
“ C a b ô c o n ão v a i p ’ r o céo, N e m qu e seja r e z a d o r , Q u e t e m o
c a b e l lo d u ro , Espeta Nosso S e n h o r . ” C a b e ll o de o iti co m id o
ás a v e s s a s ; a r r e p i a d o , d isp o sto s a o c o n t r a r i o d o c o r r e r n a tu ­
r a l d o s c a b e llo s , c o m o fica o o i t i c o m as f i b r a s t r a n s v e r s a e s
d e p o is de t i r a d a tod a a m assa qu e e n v o l v e o caroço, de m o ­
do o p p o s t o ao seu c o r r e r , assim ás avessas co m id a . C a b e llo
de p o r c o e s p i n h o ; o m e s m o q u e de espeta c a ju ’ , e m a llu s ã o aos
p r o n u n c ia d o s e s p in h o s de q u e é r e v e s t i d a a p e l l e d o m a m i f e ­
ro ro ed o r v u lg a r m e n t e c o n h e c i d o c o m esse n o m e . C a b e l lo de
a u a n d u ’ ; o m e s m o q u e de esp eta c a ju ’ e p o r c o esp in h o. Ca-

142
b e llo de r o m p e f r o n h a ; o m e s m o que de c u p im . C a b e ll o de
s a m b a m b a ia ; a r r e p ia d o , e r i ç a d o , n ã o p e n l e a d o . C a b e ll o na
venta ( s u je it o d e ) : a r r e li a d o , d isp osto , genista, q u e n ão a g u ­
enta d e s a f o r o s . “ A g u e n t a - t e c o m e lle , q u e tem san gu e n o o lh o
e c a b e ll o na v e n t a ” . ( F r a n k l i n T a v o r a ) . D o e r o c a b e l l o : d e s ­
c o n f i a r , t e m e r , r e c e i a r , “ B e m d o ia aos m o r a d o r e s do R e c i f e o
c a b e llo , c o m a n o t ic ia destes b o a to s que de f ó r a v i n h a m . ” (D e
um a c h r o n i c a da G u e rr a dos M ascates, 1710). N ão fazer bom
ca bello: agradar, s a tis fa z e r, co n v ir “ Não fa z m u ito bom ca­
b e l l o "atirar as u rtiga s u m lu g a r r e n d o s o , c o m o o de d e l e g a d o
f i s c a l ” . ( J o r n a l do R e c i f e n. 241 de 1916). P o r o n d e andou , qu e
tão b o m c a b e ll o cr e o u ? ( D i c t a d o ) .

C a b id e d e E m p r e g o s — In d ivíd u o s que ex erc e cu m u la tiva ­


m ente v a rio s ca rg os , de m ais ou m e n o s p r o v e n t o s . “ E x p u ls o
do D ia rio de Pernam buco e d e m it t i d o de to d o s os e m p r e g o s
estaduaes que exercia, era 11111 c a b i d e ! ” (Pernam bu co n. 296
de 1913).
C a b id e lla — G u iz a d o de g a l li n a c e o s d o m é s tic o s p r e p a r a d o
c o m o san gu e d i s s o l v i d o em vin a gre . “ Uma c a b id e ll a f e i t a a
c a p r i c h o ” . ( L a n t e r n a M a g ic a n. 128 de 1885) “ E n t r e a esp osa
na c o s in h a p a r a m atar a g a llin h a e preparar a c a b id e lla ” .
(Id e m , n. 493 dc 1896). M oraes e os lex ico go s seus succes-
so res r e g is t a m o t e r m o , m as c o m o u m g u iz a d o de m o d o d i f f e -
rente do que tem c u rs o na nossa c u lin a r ia , uma vez que é
e x c lu s i v a m e n t e p r e p a r a d o com, os m ío lo s da g a llin h a , p a to ou
p e r u ’ em m o lh o p a r d o . S e g u n d o M o ra e s , trata-se de u m v o c á ­
b u lo de o r i g e m a ra b e, e iá r e g is t r a d o n o s ec u lo X V I p o r F e r -
não Mendes P in to .
C a b in h o — C o r d e l , b a r b a n t e ou c o r d ã o g r o s so , e s p e c ie de
corda m u it o d e lg a d a . O term o vem de cabo, e a ssim n o di-
m i n u it i v o , o m e s m o que c a b o f i n o , c o r d i n h a .
C a b o c la —- ín d ia , ou m u lh e r o r i g i n a r i a de q u a l q u e r casta
i n d í g e n a ; t r a t a m e n t o in t im o , a f f e c t i v o , a um a m u lh e r , e e m t o m
i n t e r j e c t i v o , c o o in e x p r e s s ã o de a d m ir a ç ã o a de u m p o r t e e l e ­
g a n te e de b e l l o t v p o f e i c i o n a l : que c a b o c la b o n it a !
C a b o c li n h o — P e q u e n o e d e li c a d o p assaro, de b e l l o can to,
a in d a n ã o estudado, s a lv o se o é sob o u t r o n o m e q u e n ã o este
c o m q u e é v u lg a r m e n t e c o n h e c id o e n t r e nós, q u e v e m da sua
c o r p a rd a , a c a b o c la d a , t ir a n d o á fo lh a s e c c a .
C a b o c li n h o s — D i v e r t i m e n t o p o p u l a r á im i t a ç ã o das fes ta s
dos in dios , c o m a is a p p r o x i m a d a m e n t e o o s s i v e l do c a r a c t e r í s ­
tico dos seus usos e co stu m es, p a r t i c u l a r m e n t e a ttin en tes, ao
ves tu á rio , b a ila d o s e m usica, e g e r a lm e n t e só e x h ib i d o s p e l o
c a r n a v a l, “ Desses fo l g u e d o s t y p i c o s do c a r n a v a l c o n v e m d e s ­
tacar os c a b o c lin h o s , re s to de d i v e r s ã o i n d í g e n a . ” ( R o d r i g u e s
de C a r v a l h o ) .
C a b o c lo — “ Ao gentio m an so, ou r e d u z i d o á civilização
se c o m e ç o u des d e lo go (á co lon iza çã o do B ra sil) a cham ar
caa-rboc q u e q u e r d iz e r , t i r a d o ou p r o c e d e n t e do m a tto, d o n d e
nos v e i o o v o c á b u l o ca b ô co , c o m o a in d a h o je o p r o n u n c io u o
hom em rú stico , ou c a b o clo , com o já o adoptou o portuguez
— brasileiro . (T h e o d o ro S a m p a io ). C on soantem ente já em
m e ia d o s do secu lo X V I I I h a v ia e s c r ip t o o n o ss o c o n t e r r â n e o
Loreto C o u t o : “ O n o m e c a b o c o r o , que c o m e r r o se e s c r e v e e
p r o n u n c ia c a b o c lo , d e r i v a dos n o m e s ca-ab e oca, d o s q u a e s o
p r i m e i r o s i g n i f i c a matto, e o s e g u n d o casa, e v e m a d iz e r , ho­
m e m q u e tem casa no m a t t o . . . O n o m e de c a b o c o r o s f o i i m ­
p o s t o aos i n d io s em seu p r i n c i p i o , p o r q u e m u ito s d e lle s v i v i a m
d is p e r s o s p e lo s m a tto s em ca ba n as que form avam de ram os
e f o l h a s de a r v o r e s . ” Q u a n to a nós, p a r t ic u la r m e n t e e m P e r ­
n a m b u co , a m a is r e m o t a n o t i c ia q u e t e m o s do v o c á b u lo , v e m
da p r i m e i r a m e ta d e do s ec u lo X V I , c o m o a c o n s ig n a F r e i M a ­
n o e l C a la d o , e s c r i p t o r da e p o c h a , r e f e r i n d o - s e aos a b o r í g e n e s
da c a p it a n ia : “ In d i o s P o t y g u a r e s aos qu aes n o B r a s i l c o m m u -
m e n t e c h a m a m ca b o c o l o s ” . V e m d a h i a sua v u l g a r i s a ç ã o , e o
seu uso a té m e s m o o f f i c i a l , c o m o co n s ta da o b r a Informação
g e r a l da C a p it a n ia de P e r n a m b u c o , de m e i a d o s do s e c u lo X M 1 I ,
q u e t r a t a n d o dos a ld e ia m e n t o s in d íg e n a s d o seu d is t r ic t o , e
m e n c io n a n d o a r e s p e c t i v a p o p u la ç ã o , d iz que e r a m de in d i o s
C a b o c lo s da lin g u a g e ra l, ou p a r t ic u l a r i s a n d o as d ifferen tes
tribu s a que p e r t e n c i a m ; e t r a t a n d o o p p o r t u n a m e n t e das qua­
lid a d e s de pessoas de que se c o m p õ e o paiz, e s c r e v e s o b r e o
a s s u m p t o : “ C a b o c o lo s são os i n d i o s q u e m o r a m na c o s ta e f a ­
l a m a lin g u a g e r a l . ” D e a c c o r d o c o m esta c la s s if ic a ç ã o , e n c o n -
fr am ios a c a rt a r e g i a de 22 de m a i o de 1703, s o b r e n e g o c i o s
dos in d io s , e d irigid a ao D esem bargador C h ristovã o S oa res
R e y m a n , q u e fa z r e f e r e n c i a aos c a b o c o lo s , c o m o a q u e lle s que
v i v i a m na m a r in h a , isto é, n o l i t o r a l . S e g u n d o um a v e r s ã o qu e
encontram os, fo i este nom e dado aos i n d io s p e lo s eu ro p eu s,
e m r e p r e s a l i a ao de E m b o - a b a s , de um a a v e calçuda. d o p a iz ,
c o m q u e e lle s os a p p e li d a r a m , e m a llu s ã o ás suas c a lça s c o m ­
p r id a s . V ocá bu los d ep recia tivo dos in d io s , de despreso m e s­
m o, t o r n o u - s e tão i n j u r i o s o p a r a elles, q u e o g o v e r n o da m e ­
t r ó p o l e , p a r a e v i t a r os seus i m p e t o s de r e a c ç ã o , e m e s m o p a r a
c o n t o n t a l- o s , b a i x o u um A l v a r á em 4 de a b r i l de 1735, niitn-

144
dando que o ouvidor expulsasse da comarca, dentro de um
mez, sem appello nem aggravò áquelles que os chamassem por
esse epitheto da cabouculo ou outro qualquer injurioso, con­
cluindo mesmo, que os casamentos de colonos portuguezes, com
índios não eram infamantes, e antes m otivo de consideração
e preferencia para os cargos públicos. Consoantemente com
estas idéas de dignidade e de prestigio aos indios, o Marquez
de Lavradio, vice-rei do Brasil, por uma portaria expedida em
6 de Agosto de 1771 rebaixou a um delles do posto de capi­
tão m ór p or ter casado com uma negra, e assim manchado o
seu sangue e mostrando-se indigno do cargo. O vocábulo p o­
rém,que out’ora tinha uma expressão depreciativa, injuriosa
mesmo ao in feliz aborígene como vimos, constitue hoje, e v in ­
do naturalmente já de longe, uma dicção fam iliar de affecto,
intima, carinhosa mesmo: Meu caboclo; Caboclo velh o; que bo­
nita cabocla! Phrase e ditados populares: Somos caboclos na
mesma aldeia; Espingarda em mão de caboclo; Nam oro de ca­
boclo; Caboclo não quer m ingáo; mingao no caboclo; Caboclo,
gato põe ovo?
Cabocó — Moraes registra cavocó, e manda vèr covocó,
que define como term o do Brasil: “ O caneiro ou levada, por
onde despeja a agua que sahe dos cubos das rodas dos enge­
nhos de moer as cannas de assucar, e por elle sahe ao rio tu
baixa. “ Beaurepaire Rohan, porém, escreve cabocó, como ter­
mo corrente na Bahia, e o mesmo que “ covocó, e registrando
depois a este consigna a mencionada definição de Moraes, con­
cluindo: ” Na Bahia dizem Cabocó e Cóbócó, e em Alagoas Ca­
vou co” . A dicção, porem com as suas variantes, vem de ca­
vouco, ou cabouco, como escreve Aulete, com as expressões
de cava, valia, e dahi a corruptela de cabocó entre nós, e no1
meadamente, o do extincto engenho de São Pantaleão, do M on­
teiro, cuja corrente, emanando do grande açude de Apipu.cos
desce por uma levada que desagua no rio Capibaribe, o que
deu o nome de Cabocó ao povoado que se extende do seu ter­
mo, e correndo margem abaixo do rio Capibaribe chega a p o­
voação do Poço da Panella. “ Adeus, Maricas do Cabocó; Vem
tu’ commigo porque vou s ó .” (O Clarim n. 13 de 1878).
Cabóge — Valdevinos, pelintra. “ N o pastoril do Campo
Grande appareceram uns tantos caboges” . (A Pimenta n. 3 de
1908). “ Qual nada. Não me conte lerias, seu caboge. (A v a n ­
ça n. 33 de 1915).
Caboré — Ave de rapina, nocturna, especie de mticho ou
coruja. (Athena brasilliensis, Lath )., bem com o o coboré-m i-

145
rim de menor porte (Athena erassirostris, V ie il.), como indica
o seu nome. “ Ave M a ria ... Os pios dos tristes Caborés já se
tornam ferin o s’’ . (N elson F irm o ). Da solidão o tacito socego
Apenas, com seus guinchos, o interrom pem Jurucutús e cabo'
réés sinistros.” (A. J. de M e llo ). N o alto S. Francsico ha uma
ilha denominada do caboré, descriptos por F . H alfeld. Pessoa
môrena, tirando a caboclo ou este mesmo em pequeno; expres­
são intima de a ffectivo tratamento ás crianças ou mesmo a pes­
soas adultas. ” “ Ai Cascaio, Cascaio, meu caboré. Quem quizer
moça bonita o lé ” .(V ersos de uma ch u la). Com o nome de ca­
boré houve uma tribu de indios tapuios, que habitava no inte­
rio r do R io Grande do Norte, como consta de documentos of-
ficiaes de 1713 e 1714 do governo de Pernambuco p roviden cian ­
do sobre um levante que fizeram aquelles índios, unidos com
os da tribu gandoim. (R evista do Instituto A rch eologico e Geo-
graphieo Pernambucano n. 83-86). Caboré é uma dicção de
origem indigena, corruptela do caa-poré, salto do mato, segun­
do Martins, em allusão ao andar aos saltos da ave assim cha­
mada.
Caborge — P eixe de agua doce, de lagôas e brejos, que ca­
minha p or terra esgotado o poço em que vivia á procura de ou­
tro por amor á subsistência. “ P eixe que cania especie de sapo
amphibio que cobre-se de espumas” . (Fern an do H a lfe d ) Com
o nome de Caborge ha um riacho e uma collin a no município
de Bom Conselho, Montoya dá este vocábulo como origem in ­
digena, corruptela de caborey, folhas ruins, inúteis.
Cabra — Mestiço de negro e mulato. “ Ao mestiço deu-se
o nome de cabra, bode, e outros titulos malsinantes” . (S ilvio
R om ero) “ Joaquim de Sant’Anna, cabra ferro, pronunciado,
Pernam buco” . (Lista dos presos de 1917). Valentão, d esordei­
ro, capanga, apaniguado de mandão de aldeia, ou como m e­
lhor define o typo estes versos de desafio constantes da nossa
poesia popular. “ Sou cabra do boqueirão, Onça tigre de ron ­
car, Que matta sem sangqe, E ngole sem m astigar” . Dizem que
o vigário do Poço da Panella vai mandar buscar os seus cabras
do sertão.” (A Lanceta n. 9 de 1890). Esperto, sabidorio, e em
sentido especial, como escreve Franklin T avora n’ Q Cabelleira,
e tambem em Pernam buco, voz synonima de homem, ou talvez
mais particularm ente de homem forte, sugeito destimido e
petulante; e em sentido muito vulgar, e ao contrario de ex ­
pressões depreciativas, para indicar um homem bom, franco,
generoso: Um cabra as direitas. — “ V iola minha viola, V iola
do coração! “ Canta uma cabra pachola. Tocando numa
funcção” . (Lanterna Magica n. 912 de 1908). Como escreve
Bluteau, deram os portuguezes este nome de cabra a alguns
indios, porque os acharam ruminando, como cabra, a erva be­
tei, que quasi sempre trazem na bocca, vindo dahi o hediondo
vicio de mascar fumo. Este qu alificativo dado não vingou, na­
turalmente pelo concurrente de caboclo, de vulgarisação geral,
ficando então para designar a já conhecida casta de mestiços,
e decorrentem ente, as suas outras expressões. Na epocha, p o ­
rem, das lutàs travadas em p rol da nossa emancipação politi-
ca, e quando os epithetos injuriosos entre brasileiros e p or tu
guezes reciprocam ente se chocavam, chamavam-nos tambem es •
tes de cabras, e chegou mesmo a apparecer uma insultuosa p aro ­
dia ao nosso Hym no da Independencia, cujo estribilho dizia as­
sim: “ Cabra gente brasileira, Do gentio de Guiné, Que deixou
as cinco chagas, Pelos ramos do ca fé” . Dictados: Quando ca­
bra bicho é gente, que dirá cabrinha gente? Não ha doce ruim,
nem cabra bom. A cabra vende azeitonas e apregoa mel. B ê­
bado como uma cabra” . “ O besta da gallego, bebado como uma
cabra, roncava como um porco baié” . (A Pimenta n. 36 de 1902).
Cabra — cabriola — T e rriv e l papão para metter medo aos
meninos, e contel-as nas suas travessuras. Segundo os nossos
contos populares, a cabra-cabriola é um h o rrivel monstro, de
enormes fauces e dentes agudissimos, a deitar fogo pelos olhos,
pelas narinas e pela boca, e que nas suas excursões nocturnas,
para dar pasto á sua voracidade, astuciosamente penetra nas
próprias habitações, e devora quantos meninos encontra. Em
um desses contos o monstro fala assim: “ Eu sou a cabra-ca­
b riola. Que come meninos aos pares, Tambem com erei a vós,
Uns carochinhos de nada” .
Cabrahiba — A rvore de grandes dimensões, attingindo mes­
mo a mais de 50 metros de altura. E ’ empregada em construcção
c iv il e na mercenaria, pela belleza do seu amago, e tem um
cheiro balsamico muito agradavel. Ha duas especies conheci­
das, a branca e a rosa, mais o autor dos Diálogos das grandezas
do Brasil trata de uma Cabarahyba, madeira de côr roxa, m ara­
vilhosa para obras primas, que naturalmente constitue uma ou­
tra especie.
Cabralhada — V. Cabroeira. “ A cabralhada está toda apa-
lavrada” (D r. ApriSio Guimarães).
Cabra-macho — O cabra ultra valentão, destimido, feroz,
ferrabraz, respeitado mesmo pelos proprios cabras, como no
Ceará o Cabra topetudo e em Sergipe o Cabra onça. “ O mano
da menina é “ cabra macho.” (A m erica Illustrada de 17 de maio

147
de 1874). “ 0 Lulu’ dizia com fan fa rrice: eu sou cabra macho” .
(A Pimenta n. 71 de 1902) “ O Ventania é cabra zarro; O V e n ­
tania é decidido; Mostrou sempre á Lagarticha Que é elle ca­
bra macho” (A Vaca do B u rel)
Cabrão — Esposo de m ulher in fiel, mas indifferente, tole­
rante, consentidor mesmo. Este, vocábulo é antigo, como se
vê da sua consignação nas Ordenações Affonsinas (m elados do
seculo X V ), com a voz origin aria de cabrom, mas na accepção
de bode, segundo Moraes. Transform ado em cabrão com o
c o rrer dos tempos, é assim registrado p or Bluteau, como sy-
nonymo de carnudo, consentidor, dando porem a sua d efin i­
ção em cornudo, que manda v ê r: M arido de mulher adulte­
ra, consentidor, documentando esta sua particular accepção
com um trceho latino das Satyras de Juvenal. Moraes, mais
de seculo depois, registra o termo, como vulgar, seguindo-se-
lhe Constando, de accordc ambos com a definição de Bluteau,
em cornudo. Dahi p or diante vão desapparecendo dos nossos
lexicons, do termo cabrão, aquella particular expressão, muito
embora V ieira o faça em cornudo. Cândido de Figu eiredo re ­
gistra o vocábulo cabrão, como popular, dando-lhe porem uma
expressão que não lhe é própria. Aulete apenas o 'consigna
com a de bode, até que em fim ficou somente restricto á giria
portugueza, como o registra A lberto Bessa com a própria ac­
cepção conburrentemente vulgar e corrente entre nós. Os Ca­
brões celebres, porem concomitantemente com os seus quasi
que confrades da Irmandade de S. Cornelio, já tiveram a hon­
ra da sua consagração em uma obra especial, traduzida do
francez soh o titulo de H istoria dos coitadinhos celebres.
Cabra velho — Fin orio, sabido, experiente, p revenido; Ca­
bra velho da fiança. “ Mestre Barnabé, cabra velho, capadó­
c io ” .(O Cruzeiro n. 102 de 1829).
Cjabreiro — Astucioso, sagaz, sabidorio. D.Carlota é ca­
breira, e para passar p or solteira, quando sai, não leva com-
sigo a filh a ” . (A Pim enta n. 61 de 1902). Sou bicho muito ca­
breiro, Tenho a mania exquisita D e conquistar moça bonita” .
(O Estado de Pernambuco n. 51 de 1914).
Cabresto — Im posição humilhante, pressão, coacção, do­
m ínio: Trazer alguem pelo cabresto, eonsoantemente com a
locução portugueza, P ô r o barbecacho a alguem, aliás vulgar
entre nós.
Cabriolet de ch ifre — Os carros de engenho puxados a

148
bois: Fizem os o percurso da estação ao engenho em cabtriolet
de chifre, convenientemente arranjado.
Cabrito — Cabra ou mulato quando criança ou moço, e
muito usado no dim inutivo como que para suavisar o termo.
“ D irei sem reserva, que a mãe fo i c a b rita .” (O Papangú n.
1 de 1846). “ E segundo o antigo mytho, Tambem Fauno fo i
cab rito” . (L u is Gam a). Concurrentemente com o qu alificativo
de cabra dado aos brasileiros pelos portuguezes na epocha da
independencia, com o vimos, 'chamavam-nos tambem de ca­
britos, em represalia aos epithetos depreciativos que receb i­
am “ Dizem certos marinheiros, Que tudo aqui é cabrito.” (D e
uns versos políticos de 1833). “ Alerta guerreiros lusos! Aca­
bem-se esses cabritos insolentes, sem pejo, vergonha e leis” .
(A Voz do Brasil n. 32 de 1848).
Cabrocha — Nom e com que se designa um indivíduo ainda
joven pertencente á casa dos cabras. (Beaurepatre R oh a n ).
“ Tendo, a cabrocha, leve o diabo a desgraça” . Am erica Illus.
trada n. 30 de 1878). (O cabrocha emudecera o viola, e afinoii-
a em seguida” i(V iriato C o rreia). M ulher branca e pedra fina,
Mulata, cordão de coyro, Cabrcchinha é dengosinha, Negra íe-
mea surrão de couro” . (Da uns versos sertanejos).
Cabroeira — Reunião, grupo, ajuntamento dos chamados
cabras, ou mesmo em geral, do povilhéo. “ O José Marianno te­
ve bonitos rasgos, e a cabroeira acclamava-o o seu verdadeiro
Messias” . (Lantertaa Magioa n. 502 de 18% ). “ O delegado de
policia marchou á testa de uma cabroeira valente, t conseguiu
aprisionar os salteadores” . (D r. Olintho José M eira).
Cabuçu’ — Certa especie de abelhas, muito vulgar, que
naturalmente é a mesma a que Jeronymo V illela chama ca-
puxú. O vocábulo, como escreve Theodoro Sampaio, é corrup­
tela de caba-uçú, o vespão, o maribondo.
Cabuloso — Maçante, impertinente, insuportável, rabu­
gento. “ Chô, velha pretenciosa, rabugenta e cabulosa” . (A P i­
menta n. 14 de 1902). “ O zumzum cabuloso de um bezou ro” .
(Tdem, n. 24). — “ Uns vinte typos cabulosos e roidos, atira­
ram os chapéos no p alco” . (Idem , n. 3 de 1908)
Cabungo — Antigo bispote de barro, vidrado, com aza, de
fórm a um pouco afunilada, e de variados tamanhos. “ Outro
que tem um beiço do tamanho do de urinol vid ra d o ” . O
C.omefca n- 28 de 1844). “ Asqueroso vaso de pobre b arro” . (O
Careteiro n. 2 de 1863). Desapparecendo de cidade com a
■substituição (tos m o d e r n o s va so s de p o r c e la n a , lo u ç a e agatha,
e n ã o r a r o a in d a u sa do no i n t e r i o r , p r i n c i p a l m e n t e nas casas,
p o b r e s , f i c o u o v o c á b u l o p o r e m , e m c o n c u r r e n c i a c o m os qu e
tê m os n o v o s vasos, ou em t o m d e p r e c i a t i v o , a p p li c a d o ao cb-i-
p é o , ou a u m i n d i v i d u o q u a lq u e r , c o m o voz de desprezo, de.
d e s d em . Os b is p o t e s a ssim c h a m a d o s e r a m o rigin á rio s da B a ­
hia, e d e o n d e , c o n c u r r e n t e m e n t e c o m o u tras o b r a s d e c er a -
m ic a d e f a b r i c a ç ã o lo ca l v in h a m de a n t ig a i m p o r t a ç ã o , como
se v è de u m a lista das m e r c a d o r i a s e fa z e n d a s im p o r t a d a s du-
q u ella p r o c e d ê n c i a e m 1746, em q u e f i g u r a Louça de barro v i­
drada. “ Cabungo velho é t e n e n t e ” . (A Marmota Pernambuco
Ji. 31 d e 1850). V o c á b u l o de o r i g e m a fr ic a n a , da l in g u a bu n d o -
a n g o le n s e , in terroga Macedo S oa re s, a b o r d a n d o o a ssum pto,
se v e m d o s u b s ta n tiv o quimungi, s e r v i d o r , o u se d o a d j e c t i v o
de igu a l expressão sig n ific a n d o privado. D eriva d o ; Cabuii-
gueiro, d e e x p r e s s ã o o b v ia .
Caçamba — Esp ecie de caneca ou b a ld e de m a deira ou
m eta l, p r e s o a uma c o rd a , pa ra se t i r a r agu a d o s p o ç o s ou a-
c im b a s ; Onde vai. a corda vai a caçamba ( D i c t a d o p o p u l a r ) .
A r m a ç ã o de m a d e i r a ao m o d o de c a ix ã o , p r e s a aos c a b eç o tes
da c a n g a lh a dos a n im a e s p a r a a c o n d u c ç ã o de certa s cargas,
em g e r a l a reia , b a r r o e t ijo lo s . “ P o n h a os t i jo l o s s o b r e a ca­
ç a m b a ” . ( A Carranca n. 15 de 1847). “ O sr. C a rn e iro trocou
a gr a d e , o b a r c o e as caçambas p o r um a tosca fa r d a de t e n e n ­
te c o r o n e l . ” (O Azerragne n. 38 de 1845). O v o c á b u lo , s e g u n ­
do C a n e c a tim , é de o r i g e m a fr ic a n a , e tem a e x p r e s s ã o de vá*
s ilh a ; e é de v o g a a n tig a e n t r e nós, c o m o se v è d o n o m e Ca­
çamba de um a lo c a li d a d e e de u m r i o nos l im it e s da p a r o c h ia
de Q u e b r a n g u lo , em A la g o a s , o u tr’ora te rrito rio pernam bu­
ca no, e a in d a d o ria ch o Caçabinha, qu e desagu a no m e n c i o ­
n a d o r io .

Cação — P e i x e de c o u r o , d e p e s c a r ia do a lto (S q u a lu s
mustelus), o C a ç u r i d o s in d io s , e d o q ú a l são c o n h e c id a s as
e s p ecies: C a çã o -p a n ã , esp a d a r te, f i d a l g o , v i o l a , e o li x a ou,
m ij ã o , d e i n f i m a q u a lid a d e . D esta s e s p ecies, n o m e a d a m e n t e o
f i d a l g o e o l ix a , t a m b e m são m u it o a b u n d a n te s nos m a r e s de
Fern an do de N oronha. “ Eu com i cação, A r r o t e i c h a r é o , N o
m e io do m undo O lh a n d o p r a o c é o ” . (F o lk -lorc pernambu­
cano).
Caçar — P r o c u r a r , v ê r , i r ein busca de u m a cou sa q u a l ­

150
quer. “ Empenhando o regulamento eleitora l,-o pobre homem
caçava na lei um artigo em que firmasse uma exdruxula de­
cisão” . (Irin e o J o ffily ). “ Açucena quando nasce Tom a conta
do jardim ; Eu tambem ando caçando Quem tome conta de
m im ” . (T rovas populares).
Cacaracá — Cousa de pouca importância, de nenhum va­
lor, insignificante mesmo. “ Não quer que se lhe falle em gen­
te de cacaracá, porque se lhe dá im portância” . (O Artilh eiro
n. 40 de 1843). “ Poz uma taberna de cacaracá na praça da
Bôa Vista” , (O Barco dos Potoleiros n. 16 de 1864). “ Eu não
sou soldado de cacaracá” . (O Guarda C ivico n. 3 de 1878).
Cacarecos — Trastes velhos, ordinários, de pouco valoç,
desconcertados; troços: Andar com os cacarecos na cabeça;
isto é, em mudanças continuas. “ O ffereço os cacarecos ao Ins­
tituto, lim po a casa e estou socio correspondente” . (L a n ter­
na Magica n. 204 de 1887). “ Arrum o a trouxa o,s cacarecos
ajunto e damno-me, nem sei mesmo p’ ra onde” . A Pimenta n.
590 de 1902.
Çacetada — Uma historia maçante, inetrm inavel; cousa
desagradavel, enfadonha; conversação fastiliosa, prolongada.
“ O Vicente vai abrir-nos as portas do theatro Santo Antonio,
e proporcionar-nos noites de gosos, ou cacetadas? (O Etna
n. 11 de 1882). “ Desculpem os leitores a tremenda cacetada
que acabam de le v a r” . (O Tam oyo n. 10 de 1890).
Cachucha — Bailado popular, de origem hespanhola, da
Andaluzia, e que introduzido entre nós na p rim eira metade
do seculo passado teve grande voga nos theatros e reuniões
particulares, por largos annos. Dançar a cachucha, o gracio­
so bailado, constituía as delicias do nosso p ovo naquelles
bons tempos. “ Findo o prim eiro acto Caetano Fernandes dan­
çará a Cuxuxa” . (D ia rio de Pernambuco n. 533 de 1830). “ V en ­
de-se um par de castanholas próprias para dançar a caxuxa
ou outra qualquer dança. (Idem , de 1 de outubro de 1831).
Vem de então esta quadrinha de uma chula, ainda de todo
não esquecida, cuja musica, talvez, seja a do p roprio' bailado:
“ M aria Cachucha Quem é teu pimpão? E ’ um moço bonito
Chamado Janjão” . M aria Cachucha, parece-nos, f o i , alguma
dançarina de nota na execução do bailado, e assim vulgarm en­
te chamada, vindo dahi sêr a dança conhecida no R io de Janei­
ro com aquelle nome, ainda corrente, como assim se v ê em
uma revista contemporânea daquella cidade. “ Sahi de casa a
assobiar. E ’ tão bom a gente assobiar. . . Eis o omnibus! Sal­
to para elle e installo-me ainda com a Maria Cachucha nos
la b io s ... Pob re do meu assobio! Coitada da Maria Qachucha!”
CFon fon n. 18 de 1914).
Cacimba — E specie de poço cavado na terra, para abaste­
cimento d’agua, de form a quadrada ou circular, e revestido de
parede de tijo lo solto do fundo até quasi ao m eio para deixar
passar as aguas subterrâneas, e dahi para cima, até conveni­
ente altura, sobre o solo, feita de argamassa, tendo essa par­
te superior o nome de bocca da cacimba. O Marquez de Basto,
donatario de Pernambuco, nas suas Memórias diarias de la
guerra dei Brasil, impressas em M adrid em 1654, fez re feren ­
cia a umas. cacimbas chamadas de Am brosio Machado, situa­
das no extreito sul da ilha de Santo Antonio, ao tempo da
invasão hollandeza, em 1630. Nas immediações dessas cacim­
bas construíram os hollandezes um forte a que deram o no­
me de Fred erico Henrique, mas a que os nossos chamavam
das cacimbas, perdendo depois pela imposição do nome vu l­
gar de fortaleza das Cinco Pontas, que perm anece. “ A agua
que se tira das cacimbas da visinhança do P ilar, em Itamara-
cá, é de má qualidade” , (ft. K o s te r). Cacimba m eieira: a que
serve a duas propriedades, e situada ao correr da respectiva
linha divisória ficando uma metade para cada lado. Tapa-ca-
cimbas: Mulher amatutada, toleirona, malamanhada: Um
rancho de tapa-cacimbas. “ Quem quizer tapa-cacimbas, fale ao
padre S afelefele” . (D iá rio de Pernambuco n. 214 de 1829). Ca­
cimba é um term o d’ A frica, nome de uma tribu ali situada, da
qual, concurrentemente com outras, veio para o Brasil avul­
tado numero de escravos.
Caco — Tabaco feito com o fumo aberto em folhas, tor­
rado ao fogo em um espeto, e depois m oido em uma quenga,
ou em um caco de louça de barro, e dahi o nome de caco, òu
tabaco de caco. “ Gosta de tomar caco de corrim boque” . (A m e ­
rica Illustrada de 1 de Setembro de 1872). “ Fumo torrado a
capricho. Tabaco de caco” . (A Pim enta n. 16 de 1901). Cacos
Mesmo que cacarecos. Andar com os cacos na cabeça.
Cacoete — Convulsão nervosa de tregeitos e momices ha-
bituaes. Moraes consigna Cacoéthe, que im porta o mesmo,
com as expressões de máo habito corporal,' como o de quem
lorce o rosto, ou faz outros taes gestos e ademães feios. “ Des­
se cacoete lhe p roviera uma volta no cangote, que o tornára
um~tanto corcunda” . (José de Alencar, Guerra dos Mascates).
“ Senhora, não seja boba. T ire a mão da retaguarda. Isto é
fe io ; que cacoete!” (Lan tern a Magica n. 449 de 1895). “ O F i­
gueira é o homem de mais tregeiíos e caco|êtes que eu xenho
visto” (Gazeta do P ovo n. 2 de 1844).
Caçoleta — Medalhão de ouro, de abrir, para collocar re ­
trato. “ Trajava de branco, e trazia sobre si um lin do colar
de ouro, acompanhado de uma bonita caçoleta com o seu re­
trato” . (O Maná n. 18 de 1883). “ T raz a bolsinha na mão, ao
pescoço a caçoleta” . (Am erica Illustrada n. 12 de 1883). Ba­
ter a caçtolêta: m orrer.
Caçolêtada — Pandadaria, peteleco, cascudo: Dar, lievar
uma caçolêtada.
Cacos — Diabruras, estroinices, arrelias: Fazer os cacos.
"O Mutuquinha tem feito os cacos em Sirinhaném ” , (O Vapor
do Rio Formoso n. 21 de 1857).
Çaçuá — Cesto grande, feito de cipós rijos, com azelhas
dos mesmos cipós, para as prender aos cabeçotes da cangalha
do animal, e assim lateralm ente dispostos, destinados á con-
ducção de cargas divessas. Um par de caçus*es com batatas,
côcos, milho, melancias ou outros quaesquer geneilos, cons-
titue a carga de um animal. O caçuá, como algumas especies
balaios ou cestos, são feitos de um cipó rijo, apropriado ao
fim (A rg ilia pulchra) da fam ilia das Bignomiaceas, e p o r isso
conhecido pelo nome vulgar de Cipó de cesto. “ Da beira do
rio levaram o peixe para o engenho em caçuás, tão grande
fóra a pescaria” . (F ra n k lin T a vora ). Segundo S ylvio Rom ero
caçuá é um termo de origem africana, mas estudando Theo-
doro Sampaio a sua etym ologia, como nome de uin engenho
de assucar situado no municipio da Escada, escreve: “ Se fô r
tupi, como parece, é corrupção de cáa-açoa, cáa-çoá, caçoá, e
finalm ente cassuá. significando cobertura, ou chapéo de páo,
tapagem de páo, tecido de páo, isto é, tecido ou trama de páo
ou de cipós. O nome cassuá póde v ir ainda de cassu-á ou me­
lhor, ca-çu-á. Cauçú é uma vespa grande tambem denomina­
da cabuçú; sendo caba ou cauá e p or contracção cá, vespa;
uçú, grande. Cauçú alterou-se em caçú, como se observa fr e ­
quentemente no Sul. Caçu-á significaria, nesse caso, vespão
em pé, vespão assanhado” .
Caçula — O últimos dos filhos dc um casal; o filh o mais
moço de todos, segundo a própria expressão originaria, ca-
zuli, vocábulo da lingua bundo-augolense. “ Os caçulas advi­
nham, e possuem tambem a virtude de fazer passar a chuva
jogando-lhe um punhado de cinza” . (F o lk -lo re Pernam buco).
“ H avja um homem que tinha tres filhos: João o mais velho,
o outro Manoel e o caçula José.” (Paulo Tavares O irmão ca­
çula). “ O Tempo, a creançinha loira, filha caçula da im pren­
sa pernambucana” . (Pernam buco n. 324 de 1913). Pizar m i­
lho ao pilão. “ Ouvio, sorprezo, o bater de uma ca çu la ... E
drou para onde lhe chegava aos ouvidos o som levantado pelo
alternado bater das mãos de pilão sobre o milho. Fazia a ca-
cula uma rapariga e uma mulher já de idade” . (F ra n k lin T a ­
v o ra ).
Caculo — O que excede, em quantidade, ás medidas de
grãos e cereaes na venda dos mesmos: Uma .cuia de m ilho ou
farinha bem caculada. O termo porem, é uma corruptela de
co-gúlo: “ Medida aco-gulada, mensura cumulota” . (P ad re B.
P ere ira ). Com o nome de Caculo ha um , antigo engenho no
município da Victoria.
Cacumbú —* Machado, foice, enxada ou outras quaesquer
ferramentas já reduzidas e gastas pelo uso, e assim, quasi que
inservivois. “ Consiste toda a ferram enta da cosinha em um ca-
ç-umbú da faca” (A Marmota Pernambucana n. 46 de 1850).
“ Deixou-m e um tear de esteiras. Um cacumbu’ de enxada” ,
(D e uns versos sertanejos).
Cacunda — Corcova, giba; es;paduas, dorso ou costas:
Carregar na cacunda, ás cosi ás; Trepar-se na cacunda de ou­
trem, (Jominal-o, exploral-o. “ Baca"marte, bacamartello. E*
aquelle biolinho, Que bato na cacunda E faze calincunou” .
(D o auto africano Os Congos). “ Na cacunda do tatú tamanduá
aguenta sol; Quem dá e torna a tomar, vira a cacunda para o
m ar” . (D ita d o s ). Registrando Cândido de Figueiredo o ter­
mo, diz que é brasileiro; e como escreve Macedo Soares, vem
do bundo macunda, plural de rieunda; ou preferentem ente,
segundo Cannecatirn, da mesma lingua, mas de ocacunda,
corcova.
Cacundé — Antigo bordado de roupa branca, sendo as
respectivas peças recortadas em fazenda da mesma especie
da que a tinha de receber, e convenientemente sobrepostas
cm ponto de debrum. “ Substituíam ao lo, ou véo, em certas
idades, p elo lençol de cacundé, de matames e de rendas, e os
havia de preço elevadíssim o” . (João B rigid o).
C acu rutá,— A crista do gallo e outros gallinaceos; Uma
gallinha cacurutada. Referindo-se o periodico O Postilhão ao
presidente da província o Conselheiro Chichorro da Gama,
no seu n. de 27 de F evereiro de 1847, chama-o de Orangutan-
go caeurutado. O termo é uma corruptelá de cocoruta, o alto
da cabeça, ponto em volta do qual estão dispostos os cabel-
los, como assim fica crista ou cacuruta dos gallinaceos.
Cadaver — “ O cadaver” é o credor, e o credor é o cada-
ver v iv o que nos segue, que nos acompanha, que busca a nos­
sa companhia contra a nossa vo n ta d e.” (Am erica Illustrada
n. 38 de 1877)'. “ Isso de frequentar palacio, tomar chá e as­
sistir banquetes, póde ser bom para confortar o estomago,
mas não dá para enterrar cad averes.” (O João Fernandes n.
39 de 1887). “ Conheço as leis com todos os seus recursos para
zombjar das irritações dos cadaveres que dão para perseguir
a hum anidade.” (O Tam oyo n. 8 de 1890).
Cadeados — Argolas ou brincos das orelhas.
Cafageste — Estudante de preparatórios, ou cascabulho,
na giria académica. “ Não ha cafageste, que não seja um poço
de scien cia .” (Lanterna Magica n. 41 de 1882). Rapazola, p e­
lintra; typo dé baixa esphera, v a d io .” De paletosinho curto,
apertado, e com ar de cafageste.” (A m erica Illustrada, 1843).
“ Cafagestes e vagabundos preparavam-se para fazer arruaças
e desorden s.” ( A P rovín cia n. 255 de 1915).
Cafanga — Apparencia de desprezo, indifferença, fin ­
gidas esquivanças, affectação de recusa de uma cousa que inti-
mamènte se almeja, que se quer; synonym o de embuste, se­
gundo S ylvio R om ero; ou preferentem ente, como éscreve
Beaurepaire Rohan, registrando o termo como originariam en­
te pernambucano, desdem simulado p or aquillo que se deseja;
recusa apparente daquillo que é o fferecid o. A isso chamam
botar cafanga. “ A Ursula quer casar se, apezar de botar mui­
tas cafan gas.” (Am erica Illustrada n. 27 de 1879). “ Não bo-
ffes cafanga g a n jã o ... Não te engambelaremos, nem te chinga-
renios, p in o ia .” (Idem , n. 25 de 1883). “ Você sabe o que é?
Sei, mas tenho vergonha de d izer. Ora, diga, deixe-se de ca­
fa n g a .” (A Pimerfta n. 87 de 1902). Cafanga, segundo S ylvio
Rom ero, é um vocábulo de origem africana.
Cafarnaú — Diabo — “ Olho v ivo com esse cafarnaú. T i-

155
bil vai-te para as Areias-gordas.” (O Brado do P ovo n. 53 de
1855). — Um lugar distante, rem oto: M orar, metter-se num
cafarnaú, onde o diabo perdeu os sapatos, ou Judas os cal­
ções. Não atinamos com o porque de taes expressões a este
vocábulo, quando, naturalmente, vem de Cafarnaum, antiga c i ­
dade da Palestina, onde o Salvador começou a revelar a sua
divina m issão.
C afedório — Café: Vamos ao cafed orio. A dicção vem de
um annuncio de Café do Rio, que sahindo a composição unida
lia-se: Cafedório, com o é corren te,
C a fife , — Infortúnio, moléstia pertinaz, acabrunhadora;
caiporism o, contrariedades, atrazos na vida. “ Os beribericos
buscam o sul, onde vão levar os cafifes da m oléstia.” (Am erica
Illustrada n. 19 de 1879). M alefício, feitiçaria, mandinga: En-
cafifar. “ Não sei que almas damnadas botaram-me c a fife .”
(Lanterna Magica n. 536 de 1897). “ O povo não está para
amolações nem c a fife s .” (A Pimenta n. 532 de 1907). Term o
de origem africana.
Cafúa — Prisão de collegio. “ Silencio, berra o professor!
Seu Argem iro, se continua, mando arrastal-o para a ca fú a .”
(Jornal de R ecife n. 209 de 1915). D erivado: Encafuar.
Cafunar — Jogo de castanhas de cajú, consistindo em im-
pellil-as com um impulso dado com o dedo m edio sobre o pol-
legar, afim de cahirem dentro de um pequeno buraco cavado
na terra. O que fize r m aior numero de pontos, ganha a p ar­
tida, ficando com as castanhas recolhidas. “ Quando pequeno
passava o tempo cafunandò castanhas.” (A m erica Illustrada,
de 1 de Junho de 1873). “ Quem quizer jogue a ponga, jogue
castanhas, a cabra-cega, o jogo das Ires pedrinhas. ” (A Lan ­
ceta n. 5 de 1889).
Cafundó — Lugar ou ponto de reunião de gente má, de
baixa esphera; lugar distante dos centros populosos, ermos,
e onde tudo é d iffic il: M orar nos cafundós de Judas. “ Logo
pela perda de minha fortuna, reconheci a im possibilidade de
v iv e r na cidade, retirei-m e para este Cafundó, onde habito
tranquillamente ha muitos an n os.” (Beaurepaire R oh a n ). Ca­
fundó figura na nossa chorographia como nome de alguns ria ­
chos, engenhos e lugarejos, e entre estes, um nas cercanias
do R ecife. “ Os meninos do club carnavalesco Innocentes do
Cafundó, farão hoje o seu setimo e espaventoso en sa io .” (P e r ­
nambuco n. 46 de 1914).
Cafuné — M enino; pessôa nimiamente baixa, franzina; g o l­

156
pe dado na orelha, por detraz, com o dedo index ou medio,
subitamente correndo sobre o pollegar; dar um cafuné na o r e ­
lha; estalinho dado com as extremidades dos dedos pollegar
e indicador na cabeça de outrem, como quem mata piolho,
produzindo uma agradavel sensação: dar cafunés. “ Eu adoro
uma yaya Que quando está de maré, Me chama m uilo em se­
gredo P ’ra me dar seu cafuné. Não sei que geito ella tem, N o
re vo lv er dos dedirihos, Qu’eu fecho os olhos, suspiro. Quando
sinto os estalin h os.”
Cafute — 0 diabo, e, concurrentemente no dim inuitivo,
cafutinhO ” Torn'ou-se mau e filh o do “ cafute” . (A Am erica
Illustrada n. 3 de 1878.
Cafuz — F ilh o de negro com in dio. (Euclides da Cunha,
“ Os Sertões” ) . “ O cruzamento do indio com o negro deu em
resultado uma linda raça mestiça, côr de azeitonas, cabellos
corridos, e que é conhecida no N orte com o nome de cafui: o;i
curiboca, e no Sul com o de Caboré.” (Couto de Magalhães,
“ O Selvagem ” ) . N o D iccionario Portuguez e Braziliense, p o ­
rem, vê-se que cafuza era particularmente a negra (negra, ou
cafuza), com a palavra tupica correspondente, tapanhúna, de
quê occupando-se Martins, da-lhes as expressões de preto, pre­
ta, cafuz, cafuza. Chamavam-se, tambem, cafuz aos indios alfor-
reados,” que são aquelles que seus senhores em seus testa­
mentos, deram por forros, e os que procedem destes, os quaes
são livres. (P ro visão regia de 6 de Outubro de 1720). “ índios
cafuzes a que chamam alforread os” . (Id em de 22 de N ovem ­
bro de 1721) Essas duas provisões foram dirigidas ao go ver­
nador do Maranhão e constam do Catalogo dos Manuscriptos
da Bibliotheca Publica Eborense, T . I pags. 123-4. Na Bahia
tem curso o vocábulo, mas applicado a certa casta de homens
de côr, como se vê desde trecho de Braz do Amaral, escreven­
do sobre um motim que alli houve em 1858: “ N o pelourinho
encontrou o chefe de policia um homem de côr, o cafuz P e ­
dro José de Sant’Anna, guarda nacional de Brotas, que ar­
mado de uma tranca, dirigia os grupos assaltantes.”

Cagacibito — Passarinho de canto ainda' não estudado, a


não ser que o seja sob outro nome. Jeronym o V ilella fala dos
Sibitos na sua poesia “ A minha terra natal” , naturaln(iente
para attender á m etrificação dos versos.
Caga-sebo — Casa de vender livros velhos, usados.

157
Cahir A mesma expressão que na giria portugueza, co­
mo escreve A lberto Bessa: “ Deixar-se enganar, acreditar em
mentiras; emprestar dinheiro a quem não paga” . Cahir como
um patinho, cahir na esparrella, no laço, na arapuca.
Cahir n’agua — Pagar, satisfazer, desobrigar-se. “ O m e­
nino Antonico cahiu n’agua como um p a tin h o .” (A Pimenta
li. 5 de 1902). “ Todas as pessoas que iam ver o moleque g i­
gante cahiam n’agua, como dizem os pândegos, isto é, paga­
vam 200 réis em arame c o rre n te .” (Lanterna Magica n. 769
de 1905).
Cahir -na vida — Perder-se, prostituir-se. “ Sinhá cahiu
na vida, como se costuma dizer na giria do O rago.” (A Pimen­
ta, n 3 de 1902).
Caiá — P eix e de agpa doce.
Caiação — P or caiadura, feita a cal ou tabatinga, argila
branca. “ Apezar de velho, mas bom caiador, v ive ainda do
seu trabalho de caiação. (A Pimenta, n. 566 de 1907).

Nossa brocha é tão macia,


Tão ligeira a nossa mão,
Que ninguém tem mais valia
N o vai-vem da caiação
(G regorio J u n io r),

“ A influencia da brocha velha na caiação de casas no­


v a s .” (Jornal do Recife, n. 42 de 1915.)
Caiado — Epitheto injurioso dado aos homens brancos
pelos de côr na epocha das agitações politicas da nossa in-
uependencia nacional, e que de todo ainda não se extinguiu” .
De uns versos da epocha:
M arinheiros e caiados
Todos devem se acabar
Porque só pardos e pretos
O paiz hão de habitar.

R efere Caneca que em umas arruaças que houve no R e ­


cife em 1822, a v il canalha clamou: “ Morram os Caiados. ” *E
muito que seja hoje juiz em Pernambuco o dr. Thomaz X a­
vier Garcia de Alm eida, o malvado que pretendeu d ivid ir ' as
raças e plantar a guerra de m orte entre ellas, que ousou p ro ­
vocar os nossos irmãos para tentarem o exterm ínio dos caia­
dos, como elle se e x p rim ia .” (O V erdadeiro Regenerador,
n. 25 de 1845). Moraes registra o termo com a expressão f i ­
gurada de mulato caiado de branco; claro que parece branco.
Caiador — Homem de idade provecta, fraco, inutilizado;
lio velho que não serve” , que, na phrase da “ Marmota P e r­
nambucana” (n. 54 de 1850), entra no numero das cousas que
nada prestam. “ Si o negro é caiador, entendemos que será
uma iniquidade prendel-o, porque não pode fazer mal a nin­
guém. Os caiadores, mormente os que andam por ai á tôa, o
mais que fazem é a lv e ja r .” (O Diabo a Quatro, n. 160 de
1878)

Do quitute do casorio
Quiz ella ter o sabôr;
Mas o Zé, facto notorio,
Era um triste caiador

(A Pimenta n 52 de 1902)
Cai-Cáe — Andar d ifficil, vacillante, tremulo, p rop rio do
velho, ou produzido por uma enferm idade qualquer; O João
está abatidissimo; o seu andar é d ifficil, muito cai-cáe.
Caiobim — Planta medicinal, citado p or Jeronymo Vi-
le lla .
Caipira ■— Certo jogo constante de uma taboa quadrada e
numeradamente disposta, para o acerto das paradas p or meio
de dados, e usado p or gente de baixa esphera. “ Um passeio á
Encruzilhada seria muito agradavel se houvesse uma certa o r­
dem e uma sym etria nas barracas, tratando-se em prim eiro lo-
gar de extinguir o m aldito jogo do C aipira” . (A Pimenta n. 28
de 1901). “ Muito cedo ainda, já o caipira im perava no centro
da feira, em mesa descoberta, sem recato, á vista de todos” .
(Jornal Pequeno, n. 182 de 1913). Este vocábulo, muito corren ­
te em S. Paulo para designar o camponez, o matuto, como se diz
entre nós, deriva, como escreve Beaurepaire Rohan, seguindo
opiniões, do tupi caapora ou currupira, explanando-se a resp ei­
to, e tratando de seu uso em Portugal, e muito vulgar, em P o n ­
te do Lima, si bem que, com as accepções de sovina, mesqui­
nho, não duvida que o homonimo seja de origem brasileira, le ­
vado por algum minhoto de regresso á P atria. Alberto Bessa
consigna o termo, já com um caracter geral na giria portugueza,
mas com as expressões de vadio, malandro, declarando, porem,
que fo i colligid o por Salema Garção. Segundo T heodoro Sam­
paio, o nome caipira empVegado em S. Paulo para designar o ho­

159
mem rústico ou roceiro, vem do tupi caipira, isto é, do verbo
cai, queimar e da particula apassivadora pira, significando quei •
mada, que é como se dissesse o homem das queimadas, ou que
trata de queimadas. E accrescenta no Vocabu lário: “ Pode ser
ainda caipir, o vergonhoso, o tim ido, o achado” , achando assim
o sentido com que a dicção é empregada naquelle Estado. E ntre­
tanto, Theophilo Braga escreve o seguinte na introdução do li­
vro de Alberto Bessa, referindo-se ao termo em Portu gal: “ Cai­
pira, como injuria plebeia, vem do hebreu Kipur, form ula de
espiação, e porventura da condemnação da crença dos cabirás” .
Quanto a nós, temos em presença duas palavras homonymas
de origens diversas, e dahi as suas particulares expressões.
Caipora — Genio m alfasejo da m ithologia dos indios bra-
silienses, de máu agouro encontra-lo, e dahi chamar-se caipora
ao homem a quem tudo vai ao revez (Gonçalves D ia s ); ao in fe ­
liz, ao perseguido da fortuna, apesar dos seus esforços no tra ­
balho e deligencias nas labutas da vida. “ Era um caipora o
F e lix ; pobre triste, desesperado, de amargura em am argura” .
(A Pimenta n. 10 de 1902). “ Tenho sido um caipora em minha
vida; tenho arrastado um soffrim ento insano” . (Idem , n. 532
de 1907). “ O individuo caipora, o leitor já sabe como é: tudo
na vida lhe é adverso” . (Jornal do R ecife n. 193 de 1918). A n ­
dar em maré de caipora: Em azares e desventuras.” “ D ecid i­
damente ando em maré de caipora” (A Pimenta n. 539 de . . .
1907). Foi-se nas azas da caipora!: Desappareceu; poz-se ao
fresco; m orreu; esticou a canella; bateu a linda plumagem! O
vocábulo é uma corruptela do tupi caá-y-porá, que quer dizer
o que mora, habita ou frequenta a matta. Como variante do mi-
tho temos o curupira, um e outro já convenientemente estudado
no nosso Folk -lore Pernambucano.
Caiporinha — Figura secundaria do auto popular do Bum­
ba meu boi, representando um caboclinho de tanga, com uma
enorm e cabeça, arranjada com uma urupema coberta com um
pano branco, convenientemente disposto, e apertado em to r­
no do pescoço, deixa vêr dois o rificios correspondentes aos
olhos, symbolisando assim o p roprio mitho do caipora, conso-
antemente com as nossas legendas populares: “ Um medonho
caboquinho com um cachimbo no queixo, montado num p o r­
co-espinho” .

160
Caiporismo — Má sorte, desdita, infelicidade, remar con­
tra a maré. “ Que caiporism ó! Não vá o diabo da negra ab o rta r!”
(A Pimenta n. 74 de 1902).

“ Mas quando dá o caiporismo


Em tudo bate a sezão
O beribere apparece
Incha a perna, incha a m ão” .

(C ancion eiro do N orte)

"O caiporism o infiltrou-se no couro do rapaz, que não


houve agua quente que o salvasse.” (Jornal do R ecife n. 92 de
1915).
Caitetu’ — Anim al da ordem dos pachidermes (D icotylos
torquatus, Cuv.) especie de porco do matto, o Tayatytú dos Ín ­
dios, segundo Gonçalves Dias, e dahi o seu nome vulgar de
caitetu’ ou caititu’ . Anim al já rarissim o na nossa fauna, quasi
que somente o encontramos nas florestas da zona sertaneja.
Um indio da tribu dos Tuxás, do alto S. Francisco, faltando na
redacção do “ D iario de Pernam buco” (n. 282 de 1916) respon­
de á pergunta si atirava bem de flecha: “ Ma;o um passarinho
voando, um peixe nadando, e pego um caitetu na carreira .”
“ No alto daquelle mesmo rio, nas immediações da ilha do
Assumpção ha uma outra denominada do Cailetú, instrumento
usado na fabricação da farinha de mandioca, para ralar a p ar­
te neberosa da raiz da planta depois de descaeada” . “ Usa-se
ainda o caitetu, instrumento antigo, que consta de um cylin dro
de madeira cravejado de diversas serrilhas de ferro eíjque se
m ove á força de braços humanos, por intermedio de uma ro l­
dana. Pulverisada a mandioca é submettida á compressão, em
prensas” (A lfre d o Brandão). Segundo A rarioe Junior, o nomu
de caitetú que dão ao rodete de desmanchar a mandioca, vem
da roncaria que produz, quando em movimento, semelhante á
que faz o animal deste nome, desde que o enfurecem .
Caixa d’agua — Beberrão habitual, em constante em bria­
guez; tanque, deposito, reservatório d’agua. “ Pode calcular-se
em 5, 206 braças a extensão da linha do encanamento desde o
açude de Apipucos até a Caixa d’agua ou reservatório da Bôa
Vista” . (.!. F. Abreu e L im a ). O trecho (ta rua Gervasio Pires,
que parte da Santa Cruz. e termina na rua da Conceição, teve
originariam ente a denominação de Rua da Caixa d’agua, por
alli ficar situado o grande reservatório, construído em 1844 e
com capacidade para abastecer a cidade por quatro dias.
Caixa de catarro — O nariz, as ventas. “ M arejei, cont' i
ponto, fiz um riscado e arrumei outra outra porrada na caixa
de catarro do camarada.” (A Pimenta 11. 487 de 1908).
Caixeiro vassoura — O novato, que varre a casa. “ P o r ­
que é que um tal Castro, caixeiro vassoura da Rosa dos A l­
pes, quer ser mais que os ou tros?” (A Pimenta 11. 72 de 1902)
“ O caboge é um simples caixeiro vassoura de livrn via .” (Idem
n. 13 de 1914).
Cajuáda — Rebida refrigeran te feita do siimnio do cajá.
agua e assucar, ou antes, o que se chamava ponche de cajú,
cantado cm bellissimos versos pelo nosso poeta Natividade
Saldanha, em uma das suas odes; esse “ ponche agridoce do
louro cajú, o pom o suave, ao cheiro e ao paladar, que se Atlan-
la gosara os d ’oiro deixando, nem quizera vel-os.” “ A Lou-
renço offereceu Marianninha uma tijellinha de cajuada.”
(Franlclin Tavora, O M atuto). “ Comeram dentro da sé tabo-
leiros de pasteis, bolinhos com cajuada.” (Am erica Illustrada
n. 1 de 1881.
Cajual — Floresta, abundancia de cajueiros, o bello ana-
cardium da nossa flora, a que os indios davam a expressão
particu lar de acajutíba, ou eoncurrejnteniente, ' cajuhipe, de
raju, ipe, com a expressão de mu lugar abundante de cajuei­
ros, ou de cajús. “ Tom aram os hollandezes por entre um ca-
jual, e por um largo caminho que vem dar n « v illa de O lin ­
da.” (Calado, 1648). “ E ’ este vinho de cajú entre os indios
estimado sobre todos os outros; e ser senhor de um destes
cajuáes, para o effeito delle, é ter o m orgado mais pingue.”
(Simão de Vasconcellos, 1668). “ Quando menos pensava deu
consigo em um cajual.” (Fnanklin T a v o ra ). Com 0 nome de
Cajual ha uma serra no município de Agua Preta, assim ch a­
mada pela abundancia de cajueiros que a lli se encontra. O ca­
jueiro em Ferfnando de Noronha, fructifica o anno inteiro.
(M ario Melo — Archipelago de Fernando de N oron h a).
Cajueiral — O mesmo que cajual. “ O casal de negros ti­
nha por. occupação tratar dos cajueiros existentes e plantar
162
novos, afim de que se não extinguissem os cajueiraes.”
(F ran klin T a vorà ).
Cajús — A idade, os annos de vida. “ D. Miquileta, senho­
ra que já lhe bate á p oria o seu quadragésimo cajú.” (O V a­
por dos Traficantes n. 240 de 1800). “ Miss Pepa não póde oc-
cultar os seus 52 cajús, e bem m adu ros.” (Lanterna Magica n.
553 de 1898). “ O Domingos Soares chupou mais um cajú do
halaio de sua existencia. (A Pimenta n.° 80, de 1902). “ Mais
um cajú Itepou-se ao meu costado.” P io P ip a ro te). Esta re ­
presentação dos annos pelo cajú vem da contagem dos mes­
mos, que faziam os indios, servindo (le base o anno lunar,
que terminava na epoeha da floração do cajueiro. “ P elo aca-
jú contam os naturaes da terra seus annos: o mesmo é dizer
tantos annos, que tantos acajús.” (Sim ão de Vasconcellos).
A . J. de M ello nos seu id ylio Itae, apresenta-nos como protogo-
nista da peça uma belfa india pernambucana, apaixonada,
que lamentando a morte do pae no assedio do castello de
Olinda, os seus infortúnios e a perda de uma irmanzinha de
sete annos arrebatada pelos invasores, tristemente exclam a:
“ Coitadinha! Sete vezes apenas vira era flores O cajqeiro des­
de que nascera!” A epocha da fruetificação do cajueiro, da
colheita dos seus fructos, o acajú, era para os indios a sus­
pirada estação da fartura de viveres e da abundancia de pra-
zeres, das festas e das orgias, prolongadas, e de uma em bria­
guez constante produzida pelo cauim, acajú-im, o vinho de
cajú, que a seu modo fabricavam . A dicção acajú, entre elles,
tinha a expressão de anno, estação, e uma phrase particular,
acajú etá, exprim ia a idade, os annos de vida do indivíduo,
para a contagem dos quaes guardavam de anno uma castanha de
cajú; acajú itimaboera, ou itimbiera, cujo processo era desig­
nado p o r uma locução própria, acajú roig, segundo Gonçal-
vse Dias. M arcgravi que esteve em Pernambuco na p rim ei­
ra metade do secuío X V II, escreve isto mesmo na sua H isto­
ria rerum naturalium Brasilie, sem duvida consultada poi
aquelle escriptdr. Vem dahi o vulgarissimo qu alificativo de
anno p or cajú, e consequentemente a frase: já tem os seus
cajús, para in dicar uma idade provecta, e esta, inquerindo-se
da de alguem. Quantas cajús tem você? Os nossos indios ain­
da guardam estas vetustas tradições dos seus antepassados,
como se vê de uma passagem de Martius (V iagem scientifica

163
pelo Brasil, 1817-1820) citada por A lfred o de Carvalho: —
“ Interrogando o sabio Martius a um indiosinho sobre a sua
idade respondeu-lhe: Onze aeajú que tebo; isto é, onze cajús
inteiros, querendo assim exprim ir que já completara o seu
undécimo anniversario.” — O cajú, como já se disse, entra na
lyrica nacional, já pela castanha, como pela flor, o sumo e o
cheiro agradavel do s a e o c a rp o e das folhas, e na bocca do
vulgo corre axiomaticamente: — Quem não come do cajú não
percebe das castanhas; Quando você ia aos cajús, já eu v o l­
tava com as castanhas assadas; Eu não sou çajú, isto é, tolo,'
besta! idiota, assim, ou com esta locução com plementar: que
nasce de cabeça p’ ra bãixo. “ Então mostrando talento, P r o ­
vando não ser cajú . V ai o nosso amigo Bento, E arranjou um
iaburú.” ;(0 Tico-tico n. 432 de 1914).
Calabar — Infame, desleal, desertor, transfuga, trai­
dor. “ Miseráveis calabares, desempenham o caracter de
traidores, e querem receber o salario da promettida
tra iç ã o .” (O Clamor Publico n.° 90 de 1846). “ Só os
calabares votarão em Chichorros e Ernestos. Para es­
tes, que não tem patria, que não tem honra, a lib er­
dade morreu para sempre.” (A Carranca n. 20 de 1847). “ Des-
presiveis calabares Da mais torpe condição, P o r um prato
de lentilha, Vendeu sem pejo a n a çã o .” (O P ovo n. 51 de
1855). A dicção é africana, e originaria dos escravos im porta­
dos do Reino de Calabar, na costa de Guiné. “ F o i aprehen-
dido o escravo de nome Antonio, nação Calabar.” (O Annun-
ciante n. 22 de 1846). Vem porem o termo, com aquellas ex ­
pressões, do appellido de um mulato ou mameluco chamado
Domingos Fernandes Calabar, que em 1632 desertou das f i ­
leiras do nosso exercito em campanha contra os invasores
hollandezes, e uniu-se a elles, servindo-lhes de guia, e dan­
do taes planos, que da sua defecção por diante começou o
inim igo a ter grandes vantagens na guerra. Cahindo o Cala­
bar prisioneiro em 1635, no p rop rio logar do seu nascimento,
a v illa de P orto Calvo, em Alagoas, fo i summariamente con-
demnado a m orrer enforcado* e esquartejado depois, — “ por
traidor e aleivoso a sua patria, e a seu rei e senhor,” —. como
escreve um escriptor coevo, Fr. M anoel Calado, que ouviu o
Calabar em confissão e o acompanhou ao patibulo.
Calabarismo — Conducta de calabar. “ Falta absoluta de
brio e vergonha; calabarismo com pleto” . (O Postilhão n.° 2
de 1846). “ T a l gente não deve ser punida porque é gente do
calabarismo.” (O Lidador 11. 168 de 1847).
Calabouço — Prisão para deliclos correcdonaes. E ’ as­
sim, que existindo uma cadeia publica tio R ecife, mandou o
governador José Cesar de Menezes, ein 1786, construir um
pequeno edificio para semelhante fim, no bairro de Santo
Antonio, o qual, vindo a cahir em ruinas, e não se prestando
mais para o fim da sua construcção, foi, convenientemente
accommodado, destinado para escola publica, em 1874. Vem
dahi o nome de Rua do Calabouço, e em que fo i construido, e
pelo qual é vulgarmente conhecida, apezar da nova denom i­
nação de 28 de Setembro, imposta pela m unicipalidade em
1884. Vocábulo portuguez, com as expressões de masmorra,
prisão funda, subterrânea, prisão m ilitar, entre nós porem,
tem a particular de xadrez ou enxovia, simplesmente prisão
correccional.
Calaçaria — Ociosidade, vadiação, pandega: Andar na
calaçaria.
Qalafatinho — Gamenho, namorado, pelintra. “ Os cala-
fatinhos de todo o calibre, torneiam o saráo, como peixes
n’agua, e com os olhos pendurados no rem echer das dançari­
nas.” (Lopes Gama, 1839).
Calangro — Especie de lagarto, saurio, de côr verde (T e-
ius Am eiva, S pix). Isto é que é obra! O calangro atraz da co­
b ra! — (D ictad o). “ O calangro mais a cobra Fizeram socieda­
de; O calangro no R ecife E a cobra na-' cidade,” (Versos p o ­
pulares). Epitheto dado aos liberaes constilucionaes. que sus­
tentavam a monarchia sob estes principios políticos, de en­
contro ás idéas do absolutismo apregoadas pelos columnas ou
corcundas, e os quaes apoiaram depois a situação politica que
subiu em 1831 com a triumphante revolução de 7 de A b ril c
a consequente abdicação do im perador I). Pedro I. “ Não ve­
des. que este facto vergonhoso Aos calangros vai dar glorias
immensas?” (A Colum neida).
Calão Pau que os vendedores ambulantes de legumes,
fructas, carangueijos, peixes e outros generos, carregam aos
hjmibros. e de cujas extremidades pendem as cambadas 011 os
balaios, presos em cordéis, contendo as suas m ercadorias.
“ Manoel Antonio, que estava armado de um calão, quiz fazer
uso do pau, mas não o conseguiu.” (O Tem po n. 98 de 1913).
Qalatus est boccorio — Calar a bocca; silenciar sobre um

165
«lado assumpto; não divulgar uma occurrencia ou acto qual­
quer. “ O que fazia o lobo do carcereiro pilhando ás mãos
o cordeiro? Eu sei c á ? . .. Calatus est boccario.” (O Vapor dos
Traficantes n. 141 de 1859). “ Portanto, neste assumptorum Não
aguentamos a esfrega; Calatus est boccorum .” (Barbosa Vian
na). Segundo o preceito desta locução occorre esta quadri-
nha popular; Eu fui no matto, Cortei meu cipó, T o rci bem
torcido, Calado é milhó.
Calcante — Andar a pé, puxar pelo pé, 110 calcante, pé de
calcante; o p roprio pe. “ F iz firm eza no alto do calcante e es
perei 0 supplicaníe.” (A Pimenta n. 6 de 1914). “ Não é justo
que se imponha aos catholicos a penitencia de virem no cal-
canÇe assistir as conferencias.” (Lanterna Magica v». 274 de
1889).
C.alco — Golpe de capoeiras, rapidámente dado com o pé
na perna do adversario para o fazer cahir; qualquer cousa
que se come para esperar pelas refeições.
Calçola — Calças de criança. “ Ella não é menina infan­
til que use de calçola a lhe cahir pelas botinas.” (Am erica
Illustrada de 13 de Julho de 1873).
Caldeirão — Especie de tanques naturaes, cavados nos
lagedos, de formas, dimensões c profundidades variadas, e
que desobstruídos, uma vez são encontrados entupidos de
terra, argilla ou piçarra, e recenendo as aguas pluvíaes, as­
sim se conservam na estação calmosa, sendo então de muito
proveito e utilidade na zona sertaneja, onde em geral, a agua
é pesada e salobra. “ Este meu boi Espacio M orava em dous
sertões. Comia nos cipoaes, Bebia nos caldeirões.” (F olk -
lore Pernam bucano)- A ’s desobstruções desses caldeirões,
tem-se encontrado, em geral, fragmentos fosseis em abundam
cia, e mesmo colossaes esqueletos de desconhecidos animaes,
infelizm ente não aproveitados. Alguns desses naturaes resei-
vatorios são de adm iravel belleza, e tão polidos, internamen­
te, como se andasse ahi o cinzel do artista. Algumas lo ca li­
dades, que figuram na nossa chorographia com o nome de Cal­
deirão, tiram-no da existencia de algum de?(ses tanques na
situjação, podendo-se incluir como tal a cidade de Taquaritin-
ga, originariam ente Itaquaretinga, segundo documentação a n ­
tiga, vocábulo de origem tupi, corruptela de itá-quar-tinga,
buraco de pedra branca, furna ou lapa branca. Desses caldei­
rões mencionaremos, particularmente, os do povoado Ala-

166
goiiihas, do município de Cimbres, um dos quaes, de form a
quasi circuar, mede de 30 a 40 metros de diâm etro; o de S.
Francisco, — uma m aravilha, cujo volume d ’agua tem a profun-
dezá de afogar gigantes; — • e o da fazenda Lagoa da Lagea,
em Aguas Bellas, com cerca de 30 metros de com prido sobre
perto de 20 de largo e pouco mais de um de profundidade,
como o descreve Branner.

Caldo — Succo de canna de assucar: Caldo de canna. E n­


tornar o cald o : Botar um negofcio a perder. Cjaldo requenta­
do: Evasiva, pannos quentes, remendo, uma tardia justifica­
ção. De caldo requentado e amigo reconciliado, nunca bom
bocado. (D ic ta d o ). Estar a caldos de Sallinha: Em máos len-
çóes.
Calête — Compleição, constituição physica: Calête robus-
o, forte; calête delicado, fraco. Este termo, muito vulgar
entre nós, é porem de origem portugueza, como a registra
Bluteau, mas, mandando vêr compleição, temperamento, que
respectivamente define; e Moraes, que naturalmente o encon­
trou entre nós, tambem o consigna, mas com a designação de
cíhulo, escrevendo calête, e restricto á compleição, constitui­
ção do corpo forte, robusto. Os modernos, autores, porém,
como Aulete e Cândido de Figueiredo, não registram o termo.
Calhambeque — N avio pequeno, velho, ordinário, arrui­
nado; uma carruagem assim.
Calhambóla — O escravo fugido, reunido em quilombo
ou mucambo, ou mesmo, isoladamente; refugiado nos mat
tos. “ Negros fugidos que vivem em quilombos e se chamam
vulgarmente calhambolas.” (A lvará de 3 de Março de
1741). Caneca, Itinerário, 1821 emprega o term o na ac-
cepção de inim igo, porquanto reíere a morte de um calham-
bola espião, um homem livre, que bavia sido >rabo de esqua­
dra de artilharia em Pernambuco, particulirisando depois:
“ Appareceu-nos depois um calhambóla, que depois de falar
como amigo das disposições dos povos dos Carirys, entrou a
seduzir nossos soldados, para irem servir aos Romêos, e pelo
que fo i fu zilado” . Calhambóla, como escreve Beaurepaire
Rohan, é uma corruptela de cahembóra, vocábulo tupy que
se deriva do verbo acahem, eu fu jo; e os selvagens o applica-
vam tanto ao que andava fugido, como ao que tinha o costu­
me de fugir. Quando se referiam áquelle que havia fugido,
ainda que. não fosse mais que uma vez, chamavam-lhe ca-
nhembára.
Caliangú — A ve de cerlo porte, que lira o nome do seu
proprio canto, que assim parece pronunciar. Jeronymo Vil-
Iela a menciona.
Callo — Calote, seixo: P regar ou pasSar um callo; levai
ou tomar um callo. “ E se o meu amigàlhão, Trahindo, pre-
gou-mc o callo, Os outros de que não fallo, P o r certo o que
fa rã o ? ” (O Cometa n. 7 de 1843). “ Se podesse passava o cal­
lo no ch ifre do mundo in teiro .” (Am erica Illustrada n. 24 de
1881). “ O tempo de festa é a safra dos m acieiros; mas tam­
bem, muitos callos elles soffrem .” (Lanterna Magica n. 474
de 1895).
Calombo — Tumor, caroço, inchação. “ E lla! E lla t ... Tem
beiço grosso e redondo, tendo no meio um calom bo.” (O Te-
legrapho n. 1 de 1850). “ O mar se encheu de*calombos, Come­
çou o bote a v ir a r . ” (C ancioneiro do N o r te ). “ Escravo fu gi­
do: Rosa, nação rebolo, de dez a onze annos, com um calom ­
bo no braço.” (D ia rio de Pernambuco de 1 de Dezem bro de
1831). Aulete registra o termo, como do Brasil, com as accep­
ções de coagulo; sangue ou leite coagulado, desconhecidas
entre nós.
C.almorrear — Espancar. “ E o que direi eu do Sr. Sonâm­
bulo com o seu —- calmorreando meia duzia de palmatoadas?
— Ora, calmorrear, que dizer espancar; c quem dirá, sem esta
doudo, — espancar palmatoadas no Sr. Redactor da Palm ató­
r ia ? ” (Palm atória dos Toleirões n. 13 de 1833). Moraes regis­
tra o termo como fam iliar, com as expressões de calmar golpes
espancar, e figuradamente, enganar; os lexicons modernos,
porém, não o mencionam.
C alor de figado V itiligo, affecção caracterisada pela
apparição de placas brancas, lisas, sobre a p elle das partes
genitaes, das mãos das faces, do pescoço e ás vezes de grande
parte do corpo.
Calugi — Espelunca, casa ordinaria, lugunre, immunda,
situada em lugares escuros, e onde se acoita gente da mais
baixa condição, ou serve de ponto de reunião ou parada de dc
sordeiros, vagabundos e gatunos. “ O m aroto m orava em um
cãlugi na rua do F ogo.” (A V oz do Brasil n. 34 de 1848). “ Um
calugi onde existe uma sucia de borracheiros, larapios e va­
dios” (O Barco dos Patoteiros n. 24 de 1864). “ Os generosos
proprietários dos calugis visitam diaria ou semanalmente os
seus inquilinos.” (A m erica Illustrada n. 46 de 1880). Calugi,

168
que nos parece termo de origem africana, deu o nome a dous
antigos engenhos situados nos municípios do Brejo da Madre
de Deus e de Goyanna; mas tratando deste ultimo A lfred o de
Carvalho na sua' monographia O tupi na chorographia per­
nambucana, o dá como origin ário daquella lingua, e corrup­
tela de earú-g-y, rio da comida ou do alimento.
Calundú — Frenesi, máo humor, faniquito, neurosia, ir­
ritação, impertinência. “ Este amor não é teu, E ’ de Raphael;
Raphael quando fô r é de quem quizer; Atura minhas raivas,
Meus calundús.” (D a chula O ladrão do padre&inho). “ Se não
fosse hoje, que estou com os meus calundús, você e elle h avi­
am de v êr o bonito.” GFranklin T a v o ra ). Sobre a origem do
termo, Beaurtpaire Rohan crê que se trata de um vocábulo
africano, e que na sua infancia ouvira-o muitas vezes pronun­
ciar pelos escravos da raça africana; e Macedo Soares, notan­
do a circumstancia de Baptista Caetano opinar que vem do
guarany, como tambem Th eodoro Sampaio, accrescentamos
nós, é da mesma opinião, dizendo que calandú, na Angola, é
parte de feitiçaria, e termo já recolhido p or G regorio de Mat­
tos (seculo X V II) nestes versos; “ Que de quilombos que tenho
Com mestres superlativos, Nos quaes se ensinam de noite. Os
calundús e feitiços.” Quilombo, como se sabe, é uma dicção
bundo-angolense. Notando depois que o termo é assim corren­
te em varias localidades, e que no R io Grande do N orte (c o ­
mo tambem na Parahyba) dizem lundú, conclue que isto con­
firm a a sua etym ologia angolense. P o r sua vez, já o Dr. José
F erra ri tinha escripto em uma nota ao Canto V I do seu poe­
ma Engenheida: “ O que os pretos nagôs chamam Calundú é
um supposto qualquer santo de sua terra natal. Aquelles que
dizem sentir em si o Calundú, ordinariam entne é p o r m olés­
tia conjuncta a descontentamento, imaginação, superstição,
etc., que tal presumem. Qualquer moléstia fisica desconhecida,
c sobretudo as affecções moraes, as attribuem ás vezes a Ca­
lundús que entram em seus corpos. Em fim, escreve João R i­
b eiro o seguinte, ficando assim bem firm ada a origem africa­
na do vocábulo: “ Em verdade o Kalundú dos nagôas ou joru-
ou o Kalundú (plural Ilundu) dos angolenses é o deus
qiie governa os destinos do homem; é para esta entidade so­
brenatural que appellam os in felizes e desgraçados christãos
que p or vezes se soccorrem das superstições dos barbaros e de
seus manipansos. Tristes, notalgicos, quasi mentecaptos, con­
versam ás vezes os miseros negros com os seus calundús. Em

169
um livrin ho iilteressante sobre Cotumes angolenses, refe-
vindo-se ás danças do quizombo que precedem os casamentos,
diz Ladisláo Batalha que os pretos nestas oceasiões se reco­
lhem silenciosos — porque creem que do recolhim ento ao lar
provem a clareza e a solemnidade dos pensamentos inspirados
pelos calundús benevolos.” — Trata-se, portanto, de um ter­
mo africano, como aliás, assim já ficára definido na obra Com­
pendio narrativo do P regrin o da Am erica, impresso em 1731:
“ E chegando o Mestre dos Calundús (um escravo aricano)
perguntei-lhe: Dizei-me, filho, que cousa é calundus? O qual
com grande repugnância e vergonha ine disse: que era uso
de suas terras, com que faziam festas, folguedos e advinha-
ções.” Entre nós, com as consignadas expressões, é o termo
calundú muito vulgar, intimamente e fam iliarm ente mesmo,
como vimos das suas abonações; e com relação a ser tam­
bem um supposto qualquer santo nagô, segundo F e rra ri e João
R ibeiro, parece-nos que são vestígios seus o Santo Budum,
que figurava entre os fetiches dos catimbós ou feitiçarias dos
africanos.
Calunga — Boneco, figurinhas de madeira, barro ou ou­
tra qualquer substancia; bibelots, brinquedos de criança. “ O
menor apregoava calungas de massa e outros brinquedos de
creança.” (Jornal Pequeno n. 67 de 1915). Extensivamente
tem o vocábulo uma expressão depreciativa e de ridículo ati­
rado sobre um indivíduo qualquer. “ Estamos dispostos a fa ­
zer uma liga, quando houver m ister excluirmos da scena p o ­
lítica certos calungas, que só servem para presepios e thea-
tros.” (O Guarda Nacional n. 106 de 1844). “ Então só lhe ser­
ve ser presidente, embora seja presidente calunga?” (O F o r ­
migão n. 6 de 1850). “ Concordamos na exclusão de certos ca­
lungas, mas não podemos soffrer pacientemente que sejam
apresentados outros calungas.” (O Paladim n. 14 de 1851).
Vem dahi, e ainda com applicação outra, a vulgarissima lo ­
cução: Fazer figura de calunga de papelão. Palavra africana,
com as expressões de boneco, manequim, espantalho, estafer­
mo, figura na nossa poesia popular mesclada de africanismo,
como frequentemente, no auto dos Congos, e em algumas chu­
las, mas com expressões equivocas, como nestes versos do es­
tribilho de uma delias: “ Aletê, aletè, calunga, Mussunga, mus-
sunga é . ” A dicção, não sabemos por que analogia, deu o n o­
me a uma leguminosa da nossa flora (Simaba ferruginosa, St.
H il.) de preeonisadas virtudes medicinaes. N o visinho esta­

170
do da Parahyba apparcce 11111 riacho do Calunga, mencionado
11a caria de sesmaria de 25 de Setembro de 1816, concedendo
uma sorte de terras a João Nunes de Magalhães capitão mór
da V illa de Flores, em Pernambuco.
Qalungagem — Macaquice, tregeito, dequebro, graçola,
esperteza; cousa ridicula, desprezivel, sem importância algu­
ma. “ As eleições entre nós era mesmo uma cousa de calun-
gãgem, que devia acabar no fogo, e as suas cinzas atiradas ao
m ar.” (O Diabo a quatro 11. 22 de 1875). “ Deixe os amores
para quem póde gosal-os sem fazer calungagens.” (A m erica
Illustrada n. 44 de 1877). Desgraça pouca é bobagem, e müita
é calungagem. (D ictado popular).
Cama — Queixa, enredo, intriga Fazer a cama a alguém:
contar, referir, denunciar uma falta ou máo procedimento.
“ D eixe estar o camarada; em o tenente coronel voltando, eu
lhe farei a cama.” (O Guarda Nacional 11. 7 'd e 1843). “ Sa­
bes que eu tenho bom coração. Antes quiz aconselhar-te do
que fazer-te a cama.” (F ran klin T a vora ).
Gama de vento — Cama iosca, de armação de madeira, de
abrir p fechar com o lastro ou leito de lona pregada ao correr
com broxas próprias, de ferro ou de cobre, chamadas de
cama de vento, ficando, quando aberta, com os pés cruzados,
eni forma de x. “ O Ximenes, antigo fabricante de parafuzos e
brochas de cama de vento.” (Jornal do R ecfie n. 79 de 1915).
“ Macia cama de vento, Colchão de palha bem fina.” (C a n c io ­
neiro do N o rte).
Camafonge — Fm typo ahi qualquer, grotesco, despresi-
vel. Beaurepaire Rohan consigna o vocábulo como vulgar em
Pernambuco, Parahyba e R io Grande do Norte, com a expres­
são de moleque travesso, que desconhecemos, quanto ao nosso
m eio; mas com o que se harmonisa a de ente vil, que diz ex­
pressar nas Alagoas. A dicção, á seu juizo, parece sêr de o ri­
gem africana, com o que não estamos longe de concordar. E f-
íectivam ente, em uns versos tirados com essa feição, encon­
tramos: “ O’ diabo sem vergonha! Que cara de camafonge tem
voçuncê.” “ Chegando á rua do Crespo encontrou-se com dous
camafonges.” (Lanterna Magica n. 125 de 1885). “ Está ficando
um pouquinho melhorada a camafonge Argentina Pintadinha.”
(A Pimenta n. 5S6 de 1907). “ O que chama ao camafonge? —
S afad orio!” (A m erica Illustrada n. 20 de 1883).
Camaleão — Especie de lagarto de côr verde (Iguana tu-

171
beculata, L a u re n ti); a que os hollandezes chamavam
Iguana, como se vê da descripção de M arcgravi, e os
indios, Geneby. Comiam elles o camaleão, e diziam ser
bôa carne. O autor dos Dialògos das grandezas do Brasil trata
desta especie de saurios, dizendo que são grandes, formosos
e de côr verde, mas que, mudam de côr, e perece que se susten­
tam de vento. Vem desta crendice popular, que como assim sê
vê, já vulgar em tempos remotos, o conhecido dictado: Eu não
sou camaleão que come vento. Durão (Caramurú, C. V I I estr.
L V III ) trata do phenomeno e assim o explica: “ Vê-se o cam a­
leão, que não se observa, Que tenha com o os mais, p or ali­
mento Ou folha, ou fructo, ou nota carne, ou herva, Donde a
plebe affirm ou, que o ambiente fe rv a De infinitos insectos, p or
sustento Creio bem que se nutra na campanha De quantos del-
les respirando, apanha.” Buraco, depressão, atoleiro nas es­
tradas produzidas pelas chuvas. O cavallo o conhece p or tal
modo, apezar de disfarçado pelas aguas, que o evita, desviando
de rumo á sua approximação. “ Caminhos lamacentos, pedrego­
sos, e cheios de atoleiros e camaleões ou buracos” . (Lanterna
Magica n. 253 de 1889). Camaleão, nesta accepção, é uina c o r­
ruptela de camaleão, se bem que, com expressões outras.
C2amarada — Amasia, concubina. “ Quem tiver o seu se­
gredo Não conte a mulher casada, Que a mulher conta ao ma­
rido E o m arido á camarada.” (T ro va s populares). In d iv í­
duo ao serviço de outrem, mediante salario. “ Tem os quinhen­
tos nobres, temos quatrocentos escravos e duzentos camaradas”
(F ra n k lin T a v o ra ). Conhecidos, companheiros de troças e
pandegas. F o i p or catfsa de camarada, diz um proloquio p o ­
pular, que o carangueijo perdeu a cabeça; e a gente que se
offende com este qualificativo, responde com enfado: — Ca­
marada' é b oi de carga.
Camarão — Gatilho de espingarda. “ Já estou de pé atraz
arma ao rosto, camarão engatilhado” . (C a n eca ). Crustáceo
decapodeo, especie de pequena lagosta, de agua doce, de côr
quasi preta e luzidia, a que os indios chamavam Poti, e de
agua Salgada, esbranquiçado, a que davam o nome de Putipe-
ma. Juiao de camarão; tresloucado, adoidado; desmiolado, co­
mo o crustacio, que tem os intestinos na cabeça. “ Não quer
discutir, e dahi o amontoado de insultos que atira, chaman­
do doudos aos que p referem isto a ter o juizo de camarão do
L y r a . ” (Jornal do R ecife n. 22 de 1915). Verm elho como ca­
marão torrado; corado, afogueado. Não deixar passar camarão

172
pela malha; nada deixar passar incólume, sem reparo. “ O
João-pobre tem dous olhos amarellados, tão vivos e agudos,
que não lhe escapa camarão pela m a lh a .” (O João Pobre n.
1 de 1844).
Camaras de sangue — Evacuação dysenterica sanguínea.
Camarazal — Floresta de camará ou cambará (hantana).
da nossa flora, cuja voz tinha já entre os indios a correspon-
denae de camaratiba, camarás em abundancia. N o município
da G loria do Goitá ha um engenho com o nome de Camarazal,
e como rem iniscência indigéna figura na nossa chorographia
a túpica dicção correspondente, porem já alterada em Cama-
ratuba, como denominação de algumas serras e riachos.
Camarinha — Quarto de d orm ir. “ T em mais estas casas
uma camarinha, em que mora Lourenço Bunhel desde o p ri­
m eiro de D ezem bro de 1654, em preço de seis m il réis p or um
anno.” (In ven ta rio dos prédios construídos no R ecife pelos hol-
lan d ezes). P o r aqui se vê que a dicção vem de longe, como
ainda expressam estes versos da conhecida parteada em que
as crianças pedem a benção a Dindinha Lua: “ Chô, chô, gal­
linha, V ai p ’ra tua cam arin ha.” “ Um sobrado de dous anda­
res, na travessa de S. Pedro, tendo cada andar umá sala de
frente e uma pequena cam arin ha.” (O P ovo n. 22 de 1857).
“ Nasceu no tempo em que quarto se chamava cam arin ha.”
(Lan tern a Magica n. 452 de 1895) A dicção vem de camara,
expressando assim, uma pequena camara de dorm ir, consoan-
temente com as de camarim e camarote. Dá-se tambem o no­
me de camarinha aos esconderijos que os m alfeitores praticam
nos mattos, e de onde só sahem á noite para atacar os v ia n ­
dantes. As camarinhas dos mangues do isthmo de Olinda, em
outros tempos, deixaram tristíssima celebridade nos annaes
dos crim es. Dá-se em fim o mesmo nome ás aberturas ou es­
paços varios que aparecem nos cannaviaes provenientes do
córte e furto da canna “ D entro dos cannaviaes appareciam
vastas camarinhas, obra dos la d rõ e s .” (F ra n k lin T a v o r a ). “ O
calangro atraz da cobra, Da cobra jararaquinha, Não mordas
cobrinha verde N o entrar da cam arinha.” (T ro va s popula­
res) .
Camarú — A rvo re da zona sertaneja. Attinge a mais de
60 metros, é muito abundante, e a madeira que fornece é de
grande duração pela sua rigidez, quer em obras de construc-
ção, quer de m arcenaria.
Cambado — Pés contaminados de bichos (pulex pene-

173
trans), que d.escurados ficam disformes, volumosos, difficu l-
tando, assim o andar. Todo moleque cambado é regrista. “ As
pernas finas, a barriga inchada, dos pés cambada.’’ (Mephis-
topheles n. 20 de 1882). “ A mulata, si é bonita, Quasi sem­
pre é sem-vergonha. Casa com negro cambado, Pare moleque
pam onha.” (Lanterna Magica n. 464 de 1895). “ Era preciso
que eu me chamasse Ped ro de Lima, para obrar esta acção
de negro cam bado.” (Franklin Tavora)
Cambange — O penis.
Cambão — Pedaço de pau preso a cordas nas extrem ida­
des, para a conducção de cães, preso em uma delias: Cachor­
rinho de cambão; Onde vai o cão vai o eambão. (D ic ta d o s ),
Apparelho com que unem duas juntas de bois ao carro de car­
ga dos engenhos e usinas: Bois de cambão. “ Ambos juntos,
ajoujados, emparelham num cambão”. (O Paladim n.'“ 11 de
1851). Individuo que invariavelm ente acompanha a outro i
Encabonar se; andar encambonado; cachorrinho de cambão.
O braço direito auxiliado pela mão do esquerdo no jogo de
força, queda de braço, dizendo-se assim, quando é convencio­
nado, a mão e cambão. Amante predilecto, afeiçoada, do peito,
“ Mulatinha do caroço, N o pescoço, Aqui está o teu cambão.
Meu lad rão” . (I)a chula: A mulatinha do caroço).
Cambar — Acalcanhar o calçado pelo máo pizar, ficando
assim o salto com ido de um lado: Comer queijo. “ Um pobre
diabo com uns cambados cothurnos de procedência in d ig en a .”
(O Diabo a quatro n. 138 de 1878). “ Zé povo possue apenas
hoje, uma camisa, uma roupa de Osford e um par de botinas
cambadas. (Jornal do Recife n. 161 de 1916).
Cambembés — Lugares escusos. “ Suas sympathias em to ­
dos os montes e valles de Pernambuco, sua solidariedade em
todos os becos e cambembés do R e c ife .” (O Brado da Ra­
zão n. 1 de 1848).
Cambista — Individuo que compra bilhetes de especta-
ios para depois os vender com agio” . Uma fom e de que a
policia deve aliviar os habitués do nosso theatro, é a dos srs.
cambistas. (O Diabo a quatro n. 143 de 1878). “ Até um certo
caixeiro, fez-se de cambista no ly ric o . (O Binoculo n." 3 de
1882). “ Mamãe se damna com os cambistas do Theatro Santa
Is a b e l.” (A Pimenta n. 405 de 1906).
Cambito — Comprida forquilha de pau, que em numero
de quatro, é presa na extremidade de uma das pernas aos
cabeçotes da cangalha, ficando a outra aberta para fóra, e dis-

174
postas assim, duas de cada lado, accommodam particularm en­
te a conducção de cannas, varas, lenha e capim. D erivados:
Cambitar, fazer o serviço de cargas em cambitos; e cambiteiro,
o que se emprega nesse serviço. “ Cambiteiro, cambiteiro, O n ­
de foram cambitar? Cambita canna caiana, Bota p ’ro enge­
nho c e n tra l.” (C ancioneiro do N o r te ). “ Pelas estradas alva­
centas, passa o bando alegre dos òambiteiros, os carregadores
de cannas” . (A lfre d o B ran dão). O termo cambito vem do tupi
acambi, forquilha, correia de duas pernas, compasso, forcado.
(Baptista C a eta n o ).
Cambitos — Os pés: Lavar os cambitos.
Cambôa — Estreito, canal ou braço de rio que pènetra
pela terra a dentro, com mais ou menos extensão, largura e p ro ­
fundidade, e que enche e vasa com o fluxo e reflu xo da maré.
“ O predio fica situado alem de uma cambôa, pela qual se pas­
sa por cima de uma p in gu ela.” (O Guarda Nacional n. 40 de
1843). “ A cambôa do Gazometro é antiquíssima, e por onde
pescadores e homens do trabalho costumam fazer a travessia
do C a p ib arib e.” (Jornal Pequeno n. 17 de 1915). Cambôa da
Tacaruna, de Ariquindá e outras, bem como alguns lugares com
o nome de Cambôa, que figuram na nossa chorograp h ia. O
vocábulo, com a particular accepção que tem entre nós, vem
assim de epocha remota, uma vez que — as cambôas que m e­
deiam entre o R ecife e Olinda furam doadas p or D . Brites de
Albuquerque, governadora de Pernambuco em nome de seu
íilho, o donalario da capitania, (meiados do seculo X V I) a
um João Pires Camboeiro, de cujos proventos tirou grandes
vantagens, vindo dahi, talvez, aquelle seu appellido de Cam­
boeiro. Cambôa, entre os indios, tinha o nome de igarapé, o
caminho da canôa, o furo, o braço, o esteira. (T h eo d o ro Sam-
p ia io ). Cremos que a dicção cambôa, no sentido vulgar aue
tem entre nós, é regional, uma vez que no norte, pelo menos
do Amazonas ao Piauhy, ainda se mantem o nome indigena de
igarapé, e no sul tem o de gambôa, que não exprim e a cousa,
uma vez que este term o é particularm ente dado ao fructo da
gamboeira, variedade do m arm eleiro, da flora portugueza; ao
passo que cambôa é um vocábulo vernáculo, si bem que, com
a expressão de lago, esteiro á beira mar, com porta, por onde
entra o peixe com a maré, e fica em secco na vasante, segun­
do a definição de Moraes.
Cambrião — Jettatore, pés frios, olhos de secca pim en­
teira; indivíduo invejoso, ambicioso, que acompanha sempre
a um pobre diabo, perseguindo-'o, contrariando-o em quanta
aspiração, pretenção, ou negocio tenha.
Cambrone — Latrina, apparelho de exgoto ou drainage.
Esta vulgar denominação vem do nome do iniciador e con-
tractante desse serviço entre nós, o engenheiro francez Car­
los Luiz! Cambrone, em 1858, cujo serviço de installação dos
apparelhos nos prédios do perim etro da cidade do R ecife, ape-
zar de lavrado o respectivo contracto naqueHe anno, só teve
inicio muito depois, em virtude da L e i P ro vin cia l n. 522 de
20 de Maio de 1868. O systenia, originariam ente adoptado, era
o de conducção das matérias em barris apropriados paca as
officinas da empreza, em Santo Am aro, e ahi, convenientem en­
te aproveitadas com destino a usos diversos. Um periodico
da epocha dizia: “ Mr. Cambrone prepara os seus apparelhos
de dissecação das matérias fe c a e s .” (O P olitico n. 8 de 1861).
Veio desde então o qu alificativo de cambrone dado ao serviço
que ficou com a nova empreza, a R ecife Drainage, e extensi­
vo ás latrinas e apparelhos. “ Entre outras cousas de arromba,
temos cambrone dentro de casa.” (A m erica Illustrada de 19
de Dezem bro de 1871). P o r uma circumstancia singularissima,
filiava-se ao genero de serviço do empresário, a conhecida res­
posta que um general, fran cez como elle, e do mesmo apellido,
deu a um general britânico, que depois do revez da batalha de
W aterloo intima-o a render-se; e dahi as chulas e os ditos
de troça, entre o vulgo, e registrados mesmo *por certa ordeni
de p eriodicos; “ Se queres casar T e r cousa que vos abone,
Ireis vos habilitar Nas torneiras do Cambrone.” (O Vapor dos
Traficantes n. 240 de 1860). “ I)eixa-te de falar em pessoas que
de ti não se lembram nem mesmo para lhes deitar fóra os the-
souros do cam brone” (O Campeão n. 104 de 1862). “ Que bom
artilh eiro Que bicho valente! Com polvora cambrone Mette m e­
do a gente” . (O Anão n. 28 de 1863). Concurrentemente com
tudo isto, surgiram varios derivados, de obvias expressões, no­
meadamente cambrone, cambronico, cambronisar, cam brologi-
co, cam bronifico, incidentemente empregados; e os que fica­
ram, de cambrone, latrina, apparelho de drainage, e cambro-
neiro, o operário do serviço de concertos, desobstrucções, etc.
Cambumba — P eixe de agua salgada muito vulgar nos ma­
res do archipelago de Fernando de Noronha.
Cambumbeiro — Operário que muito mal sabe o seu o ffi-
fic io ; albardeiro, porcalhão. “ Os nossos patricios são habeis
artistas, mas são p referidos os cambunbeiros que vem da es-
tranja” . (A V oz do Brasil n. 58 de 1848).
Cambundá — Linguagem incorrecta fallada ou escripta,
ao modo dos africanos; o mesmo que cassange.” Como é possivel
argumentar com uma besta, que não sabe o que diz? Não en­
tendemos o cambundá” (O Clamor Publico n. 14 de 1845). P a ­
lavra africana, e naturalmente nome de alguma tribu ou região
local, como se in fere destes versos do estribilho de uma jo r ­
nada d’Os Congos, folguedo african o: “ E lê lê, M aria cambun­
dá. Maria faz angú para nosso curiá.” N egro cambundá, nos r e ­
cordamos de ter ouvido frequentemente pronunciar no tempo
em que os-africanos abundavam entre nós, e mesmo lido algu­
res.
Camélia — Mulher perdida, de vida facil. “ F o i arrebatado
do extasi em que estava pelo perfum e de duas camélias que
acabavam de apparecer no jardim .” (O Etna n. 10 de 1881).
“ A camélia Julieta pretendeu escripturar-se na Companhia
Gustavo Campos.” (A Pim entai n. 32 de 1902).
3

Camelicaceo — T olo, ignorante, estúpido, sandeu.


Cam elorio — O mesmo que camelicaceo.
Camindongage — Mentira, lisonja, cavillação, fingim ento:
N ão venha com as suas camindongages p ’ra minha banda, que
commigo não se arranja.
Caminhão — Carroça grande, forte, para o transporte de
carga pesada, puxado a tres ou quatro animaes. “ F o i atro-
pellado p or um caminhão o balaeiro José P ed ro ” . (Jornal P e ­
queno n. 60 de 1916). *
Cam inheiro — Antiga denominação dos estafetas, ou cor­
reios pedestres, para o in terior e provincias lim itrophes. “ A
Administração do C orreio de Pernambuco precisa de quatro
caminheiros destros e possantes, e estáveis para a communica
ção desta p rovín cia com as da Parahyba e Ceará, ganhando
quatrocentos réis d iários” . (E dital publicado' n’ 0 Cruzeiro
n. 120 de 1829.
Caminho de rato — O repartim ento ou divisão dos cabellos
no penteado, tortuosamente feito. “ Olhe, repare bem na m i­
nha cabeça e tenha o cuidado de cortar-me os cabelos bem cur­
tos, sem deixar apparecer caminhos de ratos” (O Tam oyo
n. 17 de 1891).
Camiranga —- Especie de urubú (Cathartes), assim já cha­
mado pelos indios, por ter a cabeça verm elha, como exprim e
o vocábulo.
Camisão — Vestido de camisa, em camisa^ em camisão. “ V ir
em fraldas de camisa, ou como vulgarmente se diz, em cami-
são” (O Braco dos Traficantes n. 8 de 1858). “ A cantora Mme.
H enry se exhibiu em saia e camisa porque assim requeria n
peça” . (Am erica Illustrada n. 12 de 1878). “ 0 menino já ha­
via completado a idade de doze' anos, e ainda andava de ca-
misão.” (Lan tern a Magica n. 504 dé 1896).
Campana — Term o da giria dos gatunos, que quer dizer:
o que fica de vigia, emquanto os companheiros fazem serviço.
Campainha cahida — Longa e encommoda inflammação na
uvula, appendice conico do véo palatino, situado na parte su­
p erio r da hocca, a que o vulgo da o nome de campainha; e da­
hi, com resultado da moléstia (E squin en cia) o entumeciinento
c dilatação daquelle orgão, ficando assim mais com prido, calti-
do, a denominação vulgar do phenomeno, de Campainha cahida
e a sua cura, a de Levantar campainha cahida.
Campanha — Um sujeito alegre, folgazão ,experto; indica­
ção indirecta de um certo typo. “ Os taes campanhas, á falta de
nicles, marchavam no calcante para a B ôa-V iagen i.” (A P i­
menta n. 620 de 1907). “ Conheço um campanha que levanta-se
pela hora do sol” . (Idem , n. 3 de 1914).
Campestre — Campo de pastagem, extenso, de vegetação
rasteira. “ Quando eu passei no campestre, V i uma rez lá deita­
da. (A Vacca do B u rel).
Campina — Magarefe, topador de boi, conductor de boia­
da. “ De taes bois, nem os campinas, ao menos dão n o tic ia .” (O
Vapor dos Traficantes n. 243 de 1860).
Camumbembe — Vadio, mendigo, indivíduo que pertence á
relé do povo. (Conselheiro João A lfre d o C orreia de O liveira,
apud Beaurepaire R ohan). “ Os camumbembes acudiram á casa
de vivenda pelo estrondo que ouviram. Dá-se o nome de ca­
mumbembes aos matutos moradores dos engenhos” . (O C la­
rim n. 12 de 1878).
Camundongo*— Madeira de construcção civil. Term o da
lingua bunda-angolense, de uma tribu ou nação africana, ser­
via de designação dos escravos da sua procedência: Um negro
camundongo, ou de nação camundonga. “ Uma escrava do gen­
tio de Angola, nação camundongo” . (O Cruzeiro n. 74 de 1829).
“ Fugiu um negro de nome João, de nação camundongo.” (D iá ­
rio de Pernambuco de 4 de Outubro de 1837). O termo tem
curso no R io de Janeiro, S. Paulo e outros estados para desig­
nar o rato pequeno a que nós chamamos catita.
Camunhéca — Bebedeira, p ifã o: Tom ar uma camunhéca.
Este vocábulo é um modismo de camoáca, da giria portugueza,

178
com as expresões bebedeira que faz somno; entorpecimento,
grande somnolencia.
Camurim — P eix e de agua salgada (Centropom us undeci-
malis, N o b ) . Nos Diálogos das grandezas do Brasil vem já men­
cionado o camorim, como um peixe muito sadio e assaz esti­
mado para doentes, com se pescarem em grande quantidade. O
term o é uma corrupetela de camuri, nome vulgar do peixe en ­
tre os indios, e dahi Camuricy, rio dos camurins, e Camurigy-
mirim, pequeno rio ou riach o dos camurins, constantes da nos­
sa chorographia, mas com as suas originarias denominações
m odificadas em Camorim e Camorizinho, o que igualmente se
nota com o nome de Camorim de uns engenhos situados nos
municípios de S. Lourenço, Goyanna e Agua P reta.
Camurupim — P eix e do mar, pescado grande e de bom co­
mer, cujas escamas são do tamanho de um meio quarto de pa­
pel, como escreve o autor dos Diálogos das grandezas do Brasil.
E ’ o camoropi dos indios, ou camborapi, corno tambem era cha­
mado. O camuripú-guaçú ou camurupim-açú. (M egalope atran-
íicus, Cuv.), é naturalmente uma especie m aior do peixe.,
Canalhismo — Acção própria da canalha; procedim ento
infame.
Canalhocracia — Cousas da canalha; o canalhismo como
principio, pratica c acção. “ Da v il canalhocracia desse der­
radeira m ão” . — (G A rtilh eiro n, 74 de 1843).
Canalhocrata — Sectário da canalhocracia. “ Tom avamos
sempre parte na defensiva de nossos concidadãos perseguidores
por déspotas canalhocratas” (Á Carranca n. 6 de 1847). “ Sera
c rive i se tornase assim tão canalhocrata Este lord, este fidalgo,
De orgulhoso aristocrata? (O Artista n. 4 de 1847). “ Gente
de sangue azul, grandes da terra embora filhos de qualquer po­
bretão, ou de qualquer canalhocrata dos nossos dias.” (L a n ter­
na Magica n. 271 de 1889).
Canana-capêta — P eix e da agua doce (Acanthius histrix
S pix), muito vulgar, principalmente, no rio de S. Francisco,
e tão feio quanto saboroso.
Canario da terra — Pasaro canoro (Sycalis brasiliensis)
da fam ilia dos F rin gilides de uma bella cor amarello-gemma,
com a fronte e o cocuruto de tons avermelhados, e a que os
indios davam o nome de Guiranheen-catú, segundo M arcgravi,
que perdeu pelo vulgar de canario da terra, pela sua semelhan­
ça com o europeo ou do iraperio, assim chamado p or ser o ri­
ginário das ilhas Canarias, no oceano Atlântico. Passaro de

179
briga, valente, tem um bello canto, que nas suas variações tem
os nomes de canto corrido e de estalo Antes de tomar aquel~
las bellas cores á p rim eira muda, é todo pardacento, e dahi,
então o seu nome de canario pardo Canario matúca, fraco,
m ofino, máo de briga.Canario turuna, forte, valente, bom de
briga. “ Um homem de talento, que entre a briga de canarios
e uma conversação de politica, deixa a segunda e com os olhos
brilhantes, segue as peripecias do combate entre os cantores a-
lados” . (Jorn al do R ecife n. 157 de 1916). Canario sem muda,
o indivíduo qu e.an d a sempre com a mesma roupa, que não
muda. “ Esse fona é m ettido a namorado, mas a respeito de rou­
pa, é canario sem muda.” X A Pim enta n. 86 de 1902). “ O Alpheo
faz os seus bredinhos com uma roupinha só, coitado!, pelo que
é conhecido p or canario sem muda.” (Idem , n. 629 de 1908).
D eriva d o: Canarista, apaixonado creador de canarios para dei-
tal-os a b rigar.
Canastra — As costas, espaduas; giba, corcunda. V ira r de
bumba canastra, isto é, de costas.
Canastreiro — O mascate que vendia as suas mercadorias
accommodadas em canastra, especie de cesta, larga e chata. “ Já
temos o canastreiro, que inde fede aos seus beirames.” (G re-
go rio de M attos)
Canastro — O mesmo que canastra. Dar cabo do canas­
tro; quebrar, arrebentar o canastro. “ Quasi que ha pouco,
fico sem o canastro, lá para o sul. (O Form igão 7 de 1850).
“ Um dia, duvidando o sujeito do trato, eu estrom pei-lhe o
canastro.” (O vapor dos Traficantes n. 175 de 1859).
Cançaço — Intenção, desejo, manha; pretenções dissi­
muladas, cafanga. D escobrir, conhecer o cançaço.
Cancan — Ave canora e de bella plumagem da ordem
Deodactyli (C yon ocorax A ca h e).
Canceira — Contrariedade, raiva, paixão. “ Eu não vou
á sua casa P ’ra não me encher de canceira; Pois seu, pae é
homem velho, E sua mãe é falad eira” . (F o lc -lo re Pernambu­
ca n o ). Im pertinente insistência, desarrasoada pretenção, ma­
nia mesmo; trabalhos, cuidados, tolerancia a contra-gosto de
certos hábitos e costumes, que destoam das normas de vida
intima e social. Nesta accepção encontramos o termo já em
fins do seculo X V III, na seguinte decima do bispo do Mara­
nhão I). F r. Antonio d e P a d u a e Bellas,^ chasqueando do ou­
vidor Manoel Antonio L eitão Bandeira, que tinha o costume
de passear com a cabeça descoberta, e as mãos atraz das cos­
tas pegando no chapéo: “ Manoel, minha canceira, Um pouco

180
estás emendado, Já trazes o penteado Pouco acima da m oleira.
Mas ainda tens uma asneira, E asneira do diabo! E lla de li
dará cabo, Se não a deixas de repente. Será pois acção de
gente T razer o chapéo no ra b o ? ”
Candeia — Especie de lampada ou candieiro, de metal,
com quatro bicos para luzes, produzidas por pavios de algodão
alimentadas a azeite: A candeia que vai adiante alumia duas
vezes. Casquilho, elegante, bonito, gracioso, fino, apurado,
não só em relação a pessoas como a cousas: Uma menina, uma
sala candeia. “ Oh! que rapariga candeia! exclamou o Ignacio
Majcambira.” (F ra n k lin T a v o ra )
Candeinhas — D ifficuldades, apertos numa situação d if­
ficil, perigosa: V êr candeinhas; certa perturbação na vista, nos
sentidos, causadas por medo, susto, d ô r ; Sentir umas candeinhas.
Candieiro — Folguedo infantil, de dança e canto, proprio,
obedecendo a letra a estes versos inciaes: “ Anda á roda can­
dieiro, Anda a roda sem parar; Todo aquelle que errar, Can­
dieiro ha de fic a r . ”
Candoblê — Dança, bailado: o passo do candoblê. “ Vejam
que doçura do passinho do candomblé da fradalhada da troça
carnavalesca Frades deportados!” (Jornal do R ecife n. 45 de
1814). “ Na Bahia, porem, candomblé, segundo Beaurepaire Ro-
han, é uma especie de batuque de negros com exercicios de
feitiçaria e como simples folguedo, semelhante ao candombe
das províncias ineridionaes e ao maracatú de Pernam buco; con­
cluindo, que deve ser um vocábulo de origom africana, como
igualmente suppõe Sylvio Romero, que escreve candomblé,
com a expressão de dança. Vocábulo já de voga antiga entre
nós, tinha, porem, originariam ente, expressão differente, como
sè vê do n. 7 do periodico O Am igo do Povo, de 1829, chas-
queando de um p olitico da epocha, a quem chamava o Marqüez
de Candom blé: Vós molecões do Haiti, Raparigas de Guiné,
Recebei na patria vossa O Marquês de Candom blé” . Ao que
parece, o termo nos veio da Bahia, onde tinha curso já em
epocha anterior, como se vê do n. 5 do re ferid o periodico,
quando iniciou a sua campanha contra o alludido politico, es­
crevendo em nota ao respectivo artigo a sua expressão, o que
prova, que se tratava então de um vocábulo desconhecido em
Pernam buco: “ Candomblé. E ’ na Bahia, no lugar chamado Ca­
bula . A lli é que os escravos e as m eretrizes hiam tomar ventura
levadas por uma impostora de nome N icacia. E ’ o mesmo que a
Cruz do Patrão no R ec ife .” O Lib eral Afogadense n. 2 de 1845,
porem, escreve Candomblé, effectivam ente dizendo que é cer-

181
to logar na Bahia. Depois encontramos o termo já em vóga com
outra expressão: “ O seu Doutor, parece-se tanto com o meu,
como um palacio com um candomblé, a que o nosso vulgo cha­
ma a uma cabana, ou casinha de triste apparencia.” (O A rtilh e i­
ro n. 21 de 1843). As expresões, porem, de batuque de negros
acompanhados de feitiçarias, ou — sessão de feitiçarias e bru­
xedos dos africanos celebradas ein lugares reservados, — se­
gundo o Padre Etienne Brasil, tiveram tambem vóga entre nós;
e já remotamente tratando o D iario de Pernambuco ( 11. 104
de 1829) de uma sociedade secreta que então havia no Recife,
refere, que em um artigo publicado n’Abelha Pernamubucana
se dava por certo a existencia da tal nigromancia e candomblé.
Como expressão depreciativa, 011 de troça, tambem teve vul-
garisima corrente entre nós, como se vê de alguns periodicos
da prim eira metade do seculo passado, nomeadamente O A r ti­
lheiro, que tomando á sua conta a um chefe politico em e v i­
dencia, só o chamava de morgado ou Marquez de Condomblé,
ou simplesmente, o Candomblé. Finalm ente, tem o termo tam­
bem curso no R io d Janiro, já em vóga em meiados do seculo
passado, como consta de uns versos publicados no jorn al A
Patria, de N icteroy, de 15 de Outubro de 1859, firm ados pel’ 0
Dr. Candomblé, e vulgar, com a expressão de quarto pequeno
e escuro reservado para guardar trastes velhos, bahús, etc. (M a­
cedo Soares). Sobre a etym ologia do vocábulo parece-nos que
vem, ou é o mesmo que candombe, cerem onia africana do cul­
to, dança sagrada, samba, cangirê, em honra e louvor da d i­
vindade, isto é, a dança sagrada dos feiticeiros, dos curandei­
ros de quebrantos e olhados, dos dispensadores da fortuna,
como assim encontramos definido o termo candombe.
Càndonga — Feitiço, encanto, paixão; pessôa estimada,
querida, prezada. “ Arnáo, aonde estás? Estás na cinza? Não
Ursula, minhas candongas; estou aqui me aquecendo ao olhi-
pho do s o l.” (O Barco dos Traficantes n. 12 de 1858). “ Se­
reno da madrugada Cahiu no talo da couve; Quem me dera
que eu cahisse Néstes teus braços, candongas.” (Versos popu­
lares) . Segundo S ylvio Rom ero, candonga é um vocábulo a fr i­
cano com a expressão de m entira. Bluteau não o registra, mas
como se vê do Palito métrico, tinha curso em Portugal, ou pelo
menos na giria acadêmica de Coim bra em meiados do seculo
X V III: “ M ille cabriolas, candongas, m illeque tr o v a s .” Moraes
porem o registra como cnulo, com accepções outras, e Auletc
como vulgar, seguindo a moraes nas suas definições.
Caneca — Especie de caçamba ou pequeno balde de m a­
deira ou metal, preso a uma corda, para se tirar agua das
cacimbas ou p oços. Emquanto não houve a concurrencia das
canecas de folha, e das de zinco importadas do estrangeiro,
tinham uso exclusivo as de madeira, feitas nas officm as de
tanoaria, vindo dahi c appellido de Caneca dado a Domingos
da Silvr Rabello, tanoeiro, estabelecido em Fóra de Portas,
e pae do legendário F rei Caneca, distintíssimo pelo seu pa­
triotismo, sabedoria e m artyrio. “ Caneca fo i alcunha da fa ­
mília, porque Domingos R abello era ta n o e iro .” (D r. A p rigio
Guim arães).
Caneco — Nas phrases: Bumba no caneco, dar, bater, es­
covar; e Pintar o caneco, fazer o diabo, pintar a manta. “ Na
rua da Pitanga existem umas mocinhas que pintam os canecos.”
(A Pimenta n. 10 de 1914).
Canga — O jugo que prende o boi ao carro, certa arma­
ção de varas, triangularmente dispostas, tendo a base exten­
são superior, e que se põe ao pescoço das cabras e porcos para
im pedir a sua entrada nos cercados alheios. “ O fiscal de A fo ­
gados que acabe com os porcos e cabras que andam soltos pela
povoação, e sem canga.” (O Povo n. 102 de 1858). Exigência,
imposição humilhante, acção de mando, supremacia, correcti­
vo: P ô r a cangà ao pescoço de alguem; Fazer conhecer can­
ga de branco. “ Estou vendo que devemos levar a espiga, e su­
jeitar o pescoço á canga” . (C aneca). Vocábulo de origem in d í­
gena, é corruptela de acanga, cabeça, ponta, extremidade.
Cangá — Instrumento musico africano, feito de canna ou
bambú, com orifícios, e tendo as extremidades fechadas pelos
gommos da própria canna.
Cangaceiro — M alfeitor reunido em quadrilha, que in fes­
ta as estradas do interior, atacando os viajantes, e até mesmo
as propriedades e povoados, retirando-se corn os despojos das
suas rapinas, e não raro deixando victimas das lutas travadas.
Gente de má indole, estúpida, perversa, presla-se, assalariada-
mente, a vinganças de alheias e ruins paixões, e bem assim ao
serviço de vulgares e ambiciosos mandões de aldeias, ao desa­
bafo das suas contrariadas ambições, dos seus caprichos, ás
mais torpes perseguições e vinganças, e ainda, reunidamente.
em numerosos grupos armados, a intervenções nos comicios
poiticòs. “ “ E xpor a vida ao punhal dos cangaceiros do A c c io li” .
(Pernam buco n. 165 de 1913). “ A psichologia dessa gente,
malaventurada e m aléfica, que nos sertões do norte do Brasil,
do Piauhy á Bahia é diversamente designada pelos nomes de
valentões, jaSunços ou cangaceiros, ainda está por fa z e r .. .
Producto grosseiro duma sociedade ainda em in fim o estádio
cultural, o cangaceiro é sempre p rotervo e ig n ó b il.” (A lfre d o
de C arvalho)
Cangaço — Troços, quimbembes, toscos e ordinários ob­
jectos de uso domestico de uma casa pobre, humilde, cujo con-
juncto bem expressa a locução qu alificativa de m obilia de pote
e esteira, e concurrentemente os vocábulos derivados, de can-
gaçaria, cangaceira, cangaço e cangaçaes, sendo este ultim o re ­
gistrado p or Moraes como term o do Brasil, ou antes de Pernam ­
buco, onde escreveu o seu Diccionario, definindo: a m obilia de
um pobre, ou escravo.” Tom ou os cangaços ás costas para ar-
rumal-os no P e n e d o .” (O Clamor Publico n. 9 de 1845). O p e­
dúnculo e espatha do couqueiro, que se desprende e eahe quan­
do está secco. “ Os dedos engilhados, finos e nodosos, como
cangaço de côco ” (O Carapuceiro n. 68 de 1842). Volum e e
collecção, m olho. “ Este cangaço de petas nasceu no mesmo dia
em que nasceu o diabo” . (A Carranca n. 54 de 1845). “ Comple­
xo de armas que trazem consigo os m alfeitores que infestam
as estradas do in te r io r .” Euclides da Cunha, (O s Sertões). “ O
assassino fo i á feira debaixo do seu cangaço. . . O Cabelleira
empunhou o pedaço da faca, unica arma que lhe restava do ter-
riv e l cangaço.” (F ra n k lin T a v o ra ) O vocábulo, originariam en­
te empregado na accepção de peduculo e espatha do coquei­
ro, cangaço de côco, ou cangaço, como se chama em Alagoas,
vem da lingua tupi; e como escreve A lfred o de Carvalho, tra ­
tando do engenho Cangaçá situado no m unicípio de S. Louren-
ço da matta, é uma corruptela de acang-açab, galho secco, ou
cortado, que perfeitam ente se accommoda áquella expressão
originaria do termo. Não é acceitavel, portanto, o que escreve
Beaurepaire Rohan, dizendo que é vocábulo portuguez, valen-
do-se de Aulete, que por conta própria diz que cangaço é o mes­
mo que engaço, isto ,é, o peciolo dos cachos de uvas, a parte
grosseira que fica dos fructos exprim idos, bagaço.
Cangalha — Pernas tortas para dentro, com o as do alicate.
Cangapé — L ig e iro golpe, á falsa fé, s..bre a barriga da
perna de um adversario, em luta, para o fazer cahir; pontapé
que ao m ergulho o banhista, lige iro e geitosainente dá no com ­
panheiro dentro d’agua, em animada brincadeira. — “ Menino
com quem brinquei cangapés, couces no rio .” (O Campeão n ...
50 de 1862). Figuradam ente, tem a mesma expressão de ponta­
pé, vindicta, desabafo, despreSo, ingratidão. “ Em máos len-
çóes está Mr. Vauthier: Mr. segure-se que o cangapé é certo

184
(O Guarda Nacional n. 91 de 1844). “ Muito breve o tal A ffon -
sinho Leva o triste cangapé.” (Sentinella da Liberdade n. 29
de 1848). Sobre a etim ologia do vocábulo, estamos de acordo
com o modesto parece, de Beaupaire Rohan, que não é mais
do que a alteração de cambapé, que ein portuguez exprim e a
mesma idéa.
Cangary — Chrisallida, envolucro ou casulo dentro do qua
se opera a transformação da lagarta em borboleta. O vocábu­
lo é evidentemente de origem tupi.
Cangaty — P eix e d’agua doce.
Cangica — Especie de ja p é preparado com a mistura de
dous de qualidades differentes, ou com torrado ou tabaco de
caco; especie de papa, ou creme de milbo verde (S ilvio R om ero)
preparado com a massa ou fubá do milho, com leite de côco
e assucar, cujo prato tem logar distincto nas mesas das nossas
festas fam iliares e particularmente, nas de S. João” Os gas-
tronomos, não perderam vasa de apertar a bôa cangica, o bolo
de bacia e o tradiccional pé de m o lequ e.” (A Pimenta n. 8
de 1901). “ Dengosa, linda e pequena, M inht flo r de tiririca,
Eu gosto mais de você, Do que um prato de cangica ” (T r o ­
vas pop u lares). Tratando Beaupaire Rohan dq vocábulo, e
nesta ultima expressão, diz que não ha motivos para escrever­
mos cangica, uma vez que a dicção não tem, nem pode ter ou­
tra origem senão a de canja, que como se sabe, e Sulete define
é caldo de gallinha com arroz; ao passo que a cangica, quer na
expressão pernambucana ou do Norte, quer nas dos Estados
do Sul, tem por elemento capital, o milho, verde ou secco, e
não o arroz. Esla errônea etym ologia, porem, não é isolada,
uma vez que uns dão o termo como de origem africana, e ou­
tros como asiatica, quando é puramente brasileira, origin aria­
mente indígena, quer derivada do guaranv quer do tupy; e
quem com provadamente o diz, são duas aotoridades competen­
tíssimas na m atéria: Baptista Caetano e Theodoro Sampaio.
N o prim eiro caso vem de caguã-i-yi, m ilho quebrado e co­
sido; e no segundo, uma corruptela de cangi, mole, brando, ou
de acangic, grão mole ou cosido.
Cangoeira — Instrumento musico dos indios, á especie de
flauta, simples ou dupla, feita de ossos humano.
Cangoncha — Voz depreciativa; um João ninguém ou troca-
tintas ahi qualquer. “ Ora sô cangoncha, por quem é, não deixa
os amigos. O Esqueleto n. 12 de 1846, antigo sob o titulo: Uma
cangonchada).
Congóte — O occiput, cachaço, ou a parte posterior do pes­
coço, o cangote da giria portugueza. “ As odiferas exhalações
do seu perfum ado cangóte.” (A m erica Illustrada n. 5 de 1879).
“ O teu unico defeito era gostar de fazer cócegas no cangote da
Kente,’' ( A Lanceta n. 155 de 1913). “ Desse cacoete lhe p ro vie ­
ra uma volta no cangote, que tornava um tanto corcunda. ” (José
de A len ca r).
Cangueiro — Acabado, fraco, abatido, pesado, de pernas
bambas, mal andando. “ Andava o homem de passos furtados,
cahe aqui cahe acolá, e tão cangueiro, que parecia um endemo-
niado.” (O P ovo n. 108 de 1858).
Cangúlo — Dentuç;a, de dentes estufados, pronunciadamen­
te salientes, como sãol os dentes dd peixe deste nome, de agua
salgada, e muito vulgar, tanto rios nossos mares como nos do
archipelago de Fernando de N oronha; e dahi locuções: Bocca
de gangulo; dentes de gangulo, ou acangulados. “ Rosa, casange
bem preta, dentes de cangulo.” (D ia rio de Pernambuco n. 25
de 1831).
Canha — Aguardente de canna, cachaça. Vem sahindo um
tremulo chupista, á milagrosa canha devotado.” (O Barco dos
T rafican tes n. 6 de 1858). Com os nomes de canha ha um en­
genho e um riacho no município da Victoria.
Canhão — As pennas ao surgir da pelle das aves, ao em­
plumar, ou quando mudam. “ O urubú quando nasce, oh! gen­
te, E ’ pellado, sem canhão.” (Versos de uma chu la). Não ter
penna nem canhão: indifferente, nada sentir. Mulher feia, re-
pellente, um alcaide. “ Chamar-se a uma senhora de coruja, é
um modo polido de dizer-se-lhe que é um canhão” (O Diabo
a quatro n. 131 de 1878). “ Pois não sabes, Michaella, que já és
um canhão?” (A Pim enta n. 14 de 1902). “ Este lacinho de f i­
ta que achei pisado no chão, de certo não se acredita que p er­
tence a um can h ão.” (Idem , n. 75). Concurrentemente com o
termo, ou para ainda mais accentuar a sua expressão nesta ae-
cepção, a locução: Canhão de bota. “ Deixe-se de imm orali-
dades, magrela, canhão de bota.” (A D errota n. 15 de 1883).
Canhenga — Apertado, imprestável, sovino, chifre de ca­
bra. Tem este nome um trecho da povoação de Bebcribe.
Canhoto — O diabo. — Cruz, Canhoto!
Caniçalha — 0 mesmo que canzoada, multidão de cães, e
figuradamente, canalha, gente vil. “ Os desregramentos dessa
abjecta e torpe caniçalha.” (A Carranca n. 06 de 1846). “ V o ­
tos para nós ambos, caniçalha P ra e ira !” (O Clamor Pubilco

186
n. 92 de 1840). “ P ovo?, populaça, caniçalha, ou cousa cpie não
tem significação alguma.” (O Campeão n. 8 de 1861).
Caniço — Perna fina. “ Andam bandos de pernas pelas ruas
Bojudas, grossas, magras e caniços. Algumas encobertas e ou­
tras nuas. Mas, palavra, apezar de teus feitiços: Hão de ser
toda a vida dous caniços!” (Tercetos de um soneto a n o n y m o ).
Caninana — Cobra longa, de escamas aguçadas amarellas
e pretas (C oluber procilostom a; N ie m v ), já descripta por Pi-
sonis em meiados do seculo X V II, em Pernambuco, com es­
te nome vulgar de caninana. E ’ uma das mais terriveis e v e ­
nenosas. Segundo Barboza Rodrigues, não dá botes, mas ac-
commette, dando pulos rápidos, violentos sobre a cauda, ora
|Je cabeça erguida, e correndo tão ligeira, que o povo diz que
vôa. Koster diz mesmo que a caninana é tambem conhecida
por voadora, porque dá saltos prodigiosos, e que enrolando-
se em torno de um galho de arvore d’alli atira-se sobre os ani­
maes e sobre as pessoas. Mulher genista, insurportavel, mal-
creada, insolente, levada dos diabos, e assim chamada em allu-
são ao te rrivel e mencionado ophidio.
Canindé — Especie de arara, e de uma bella plumagem.
Já vem mencionado nos Diálogos das grandezas do Brasil, co­
mo um passaro pequeno, mas de cauda muito comprida, e Du­
rão no seu poema O Caramurú diz que é elle, qual iris reluzen­
te pela belleza de coloração que ostenta. O vocábulo canindé
vem do tupi, e segundo Theodoro Sampaio, é corruptela de ca­
nindé, anegrado, retinto, tisnado, escuro.
Canjanja — Cousa bôa, appetitosa, saborosa: Uma bôa
canjanja. “ O sapateado foi gostoso, mesmo gostoso que só can­
janja.” (Jornal do R eeife n. 40 de 1916).
Canna — Aguardente, cachaça. “ A patricia, a que na cor­
te chamam Paraty, tem no norte o nome de canna.” (A Du-
queza do Linguarudo n. 117 de 1877). “ A canna me abraza
num ganço te r r iv e l.” (Aza-negra n 6 de 1882). “ A canna
b ra s ile ir a ... Entra em sala, salões, igrejas e con ven tos... Não
ha banho, silão ou cajuada, Pestiqueira, folia, jogatina, Mão
de vacca, pasteis ou feijoada, Que não ienha um golinho da
mais fin a .” (O Etna n. 31 de 1882).
Cannavial — Partido de plantação da canna de assucar
(Saccarum offecin aru m ). “ Vem cá, Cabelleira, Anda me con­
tar, Como te prenderam no c a n n a v ia l? ... Eu me v i cercado
de cabos, tenentes, Cada um pé de canna Era um pé de gente.”
(Versos do C a b elleira ). “ Em Setembro os cannaviaes das la~

187
deiras, já sazonados, começam a am arellecer. ” (A lfre d o Bran­
dão) . “ Nas cercanias do R ecife, em todas as direcções, vêem-
se casas, e o apparecimento de cannaviaes aqui e ali alegra o
scen ario .” (Charles W aterton ). O vocábulo appareceu entre
nós com a introducção da cultura da canna de assucar na
colonia, na segunda metade do seculo X V I, á construcção dos
nossos prim eiros engenhos, ao principio, sem extensões ge-
raes, uma vez que os indios chamavam Ubatuba ao cannavial,
term o que já possuíam, derivado de ybá-tyba, com que chama-
vom ao cannavial bravo, frechai, tabocal, bamburral, ou com
a variante de Candyba, como escreve Gonçalves Dias, até que
depos surgiu dentre elles mesmos o vocábulo h yb rido de
Canna-tyba, com a expressão de abundancia de cannas, p ro ­
priamente cannavial. Vem dahi a origem do nome de Ubatuba,
de um velho engenho situado ho m unicípio de Agua P reta.
Canneado — Tonto, embriagado com aguardente de canna,
e dahi o term o.
Cannelão — Golpe com o pé sobre as cannelas do adver­
sário para o derrubar: Dar um cannelão. Levar a pau e corda,
á pulso e a cannelão. (D ic ta d o ).
Cannela-preta — Lauracea muito commum na nossa flora
Agathophyllum aromaticum, (L in n e o ), cuja madeira é em pre­
gada na construcção c iv il.
Cannelas — Pernas, como bem define este ditado de mu­
lher de baixo calão dirigid o a quem diz alguma cousa das
suas pernas: — Pernas são cannelas; m . .. p’ ra quem olha
p’ra ellas.” Consoanteinente dizem estas locuções populares:
Dar de cannelas, andar, desapparecer, põe-se ao fresco; E sti­
car a canella, m orrer; Bôas cannellas, andador; Rapazeada da
eannela suja, o povo m ollecorio; e Estirar as cannelas, an­
dar, passear. “ Estando com disposição de estirar as cannel­
las, isto é de dar um passeio, fui até S. José vêr u m ain en in a
escovada.” (A Pimenta n. 557 de 1907).
Canneludo — Appellido depreciativo dado pelo partido
pernambucano aos seus adversários, osmascates, no m ovi­
mento recolucionário de 1710. “ O peior de tudo isto, o nosso
mal, está em não se ter feito em Pernambuco a justiça» que,
por seus crimes, mereciam os canelludos.” (F ra n k lin T a v o r a ).
O termo, porem, ficou, extensivo a qualquer pessoa, com o
mesmo tom depreciativo. “ Não chegou a casar com um cane-
ludo que tivesse o appellido de C avalcan ti.” (O Mocó n. 3
de 1851).

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Canniço — Esguio, secco, magro, desfigurado; pernas f i­
nas. “ Mas, palavra, as tuas gambias, apezar de taes feitiços,
na phrase de um poeta, hão de ser toda a vida dous canniços.
Canninha — Aguardente de canna. “ O enthusiasta, o typo
gommeux dos presepios, é o homem do cajú e da canninha.”
(O Diabo a quatro n. 128 de 1877) . “ Quando o mulato entrava
em casa na canninha a mulher dava-lhe com o chinello no fun­
do das costas.” (A Pimenta n. 619 de 1907).
Cannista — Beberrão de aguardente de canna. “ Na con­
versa entram cannistas formados em v a le n tia .” (Lanterna
Magica n. 419 de 1894).
Cano — Cartola, chapéo alto, de pello de sêda. “ Porque
encapella o cano até as orelhas, lembrando aos seus com pa­
nheiros o tempo da m onarchia?” (O Alfin ete n. 9 de 1890).
Canôa — Certas emprezas ou negocios arriscados, p eri­
gosos, com prom ettedores: Nesta canôa não embarco eu. P e ­
quena embarcação fluvial, que demanda de pouca agua, por
não ter quilha e destinada á usos diversos, como div^-sos
são os seus systemas e dimensões, m ovidas a vela, vara ou .e-
mos. “ Chamam canôa os nossos nesses mares Batel de
um vasto lenho construido, Que excavado no meio, por dez
pares De remos, ou de mais, vôa im p e llid o .” (Durão, O Ca-
ra m u rú ). Escreve Fernando H alfeld, que as canôas do alto
S. Francisco são ordinariam ente de cem palmos de com pri­
mento com cinco de largura, e em geral, feitas de um só tron ­
co de vinhatico ou cedro, com dous remadores e um piloto
que dirige o lem e. As canôas deste systema vem dos indios,
para cuja construcção derrubavam os mais grossos troncos de
arvores que vegetavam á beira do mar e dos rios, excavavam -
nos com fogo, e alisavam-nos com instrumentos de pedra.
As canôas pequenas chamavam elles tgarités ou igaram irim , —
a canoinha, o barco pequeno; — e ás de dimensões regulares,
igáras, ou igaretinga, sendo estas de vela de pano branco, na­
turalmente o algodão, tecido por elles proprios. H avia ainda
os igaritins, que eram as canôas em que iam os chefes, e se
d ifferençavam das outras por terem um maracá na prôa, e to­
das, em geral, movidas a pequenas pás de m adeira. O vocá­
bulo, nas suas diversas accepções, vem de yg-yara, isto é, que
domina ou mora n’agua, fluctua ou sobrenada, vindo dahi cha­
marem os indios igara-açú, canôa grande, aos navios que ap-
pareperam ás prim eiras explorações, o que deu origem ao no­
me de Igüarassú, imposto á nossa Prim eira, mais antiga, mui­

189
to nobre e sempre leal Y illa de Santos Cosme e Damião, pelo
facto dé ser o porto, desde os prim eiros annos da colonia v i­
sitado por barcos que o attingiam com o concurso da maré
A mais remota noticia que temos do vocábulo canôa, dado en­
tre nós a taes embarcações, remonta-se ao anno de 1593, com
a frustrada tentativa de incêndio á flotilh a do pirata inglez
James Lancaster, ancorada no porto do Recife, p or meio de
cinco grandes canôas cheias de combustiveis ardentes, e alta
noite soltadas, com a corrente, de feição, para irem de encon­
tro aos navios. Posteriorm ente (meiados do seculo X V II) en­
contramos o termo registrado por Simão de Vasconcellos, tra­
tando das lutas dos portuguezes com os indios do R io de Ja­
neiro em lõ(37: — “ Canôas, ligeiras como o vento, a vinte e
trinta indios por banda, igualmente rem eiros e fre c h e iro s .”
— Canôa, na sua expressão de embarcação, barquinho, batel,
esquife, como escreve Zorobabel Rodriguez, é 11111 vocábulo
lucayo e de uso corrente na Meria, e propagado pelos hespa-
nhóes, como o ouviram dos proprios indios.
Cano de ferro — Especie de bengala, feita de um pedaço
de cano de ferro, de diâmetro accommodado ao fim, geralm en­
te dos que servem nos encanamentos d’agua 011 gaz carbonico.
“ Travaram lucta José F erreira e Mauricio Pereira, resultando
sahir este com diversos ferim entos a cano de fe rr o .” (Jornal
do R ecife n. 29(3 de 1915).
Canoeiro — Conductor de canôa. “ A minha prim eira v i­
sita foi a Olinda, em canôa, passeio que a fresca da manhã
tornava muito agradavel. Os canoeiros são geralmente negros
altos e robustos, bastando 11111 para cada canôa. Usam entre si
de titudos honoríficos correspondentes aos postos militares,
até o de coronel, eleitos por suffragio da corporação, e as
suas honras não são puramente nominaes. Sempre que 11111 ca­
noeiro de posto in ferio r ou subalterno encontra a embarcação
de 11111 superior, tem de saudal-o por meio de 11111a, duas, tres
ou quatro pancadas com a vara 11’agua; o numero das panca­
das é graduado pelo posto do individuo, o qual por sua vez
responde com uma só pancada. A omissão desta continência é
considerada 11111 crime entre a commiiidade aquatica, e sTijeita a
castigo. N o caso porem, de 11111 canoeiro, mercê da destreza
ou da sorte, vencer ao superior em velocidade, fica dispen­
sado de faíSer-lhe a continência.” (D an iel P. Kidder, 1840).
Esta corporação dos canoeiros desappareceu com a viação
ferrea, e com elle as suas solennidades religiosas, festejando

190
a N . S. do Rosário, em Olinda, e a N. S. da Conceição, no
R ecife, na capellinha que construíram elles 110 bairro de S.. F r.
Pedro Gonçalves em 1851, na travessa da rua do Apollo, e de­
molida em 1912 em observância do traçado das novas ruas e
avenidas reclamadas pelo melhoramento do porto.
Cantante — Despertador, na giria dos gatunos. Indica­
ção vaga, indirecta de uma dada pessôa. “ Fechou-se o tempo
Bati mão á pernambucana velha e enfrentei o can ta n te... A
viuvinha pratica todo sorte de escandalos com 11111 cantante
de Santo A m aro” (A Pimenta n. 3 e 10 de 1914).
Cantar — Pedir, rogar, solicitar com artifícios, labias e
manhas, como faz o expertalhão, o facadista, com 11111 pala-
vriado estudado, 11111a historia bem contada, para illu d ir os in­
cautos e conseguir os seus intentos, e dahi as locuções de P é de
cantiga, canto chorado, Canversa fiada, dados aos palavrados
de taes cantadas. Canta como uma sereia; canta mais que um
canario; hias se o m elro nada consegue na sua investida, Can­
ta bem, mas não entôa. Quando porem o cantante muda de ru­
mo, e parece contar 11111a historia mais ou menos procedente,
vem a phrase; Isto agora é outro cantar. “ Em presença de
tão solidas razões,- cantadas pelo tal sujeito, que tem labias, ef-
fectua-se o desejado plano.” (O Clamor Publico n. 15 de 1845).
Cantar de gallo, diz-se do indivíduo que se impõe em uma s i­
tuação qualquer, exercendo poderio e mando absolutos. Oc-
corre, em fim, estas locuções: Cantar no ouvido, segredar, in ­
trigar, m exiricar; Cantar uma ladainha, um subvenite, passar
uma reprehensão, 11111 carão, ou 11111a simples admoestação; c
cantar polincdio, desmascarar a alguém, por-lhe os podres
na rua. — Esta phrase é portugueza, mas de accepção outra.
Quem canta seus males espanta. (A n e x im ).
Cantar serena estrella — Perd er uma partida, ficar no ora
veja, contrariado, humilhado, enforquilhado. “ A comniissão
murchou as orelhas e desceu as escadas de palacio cantando
serena estrella.” (A Lanceta 11. 50 de 1890). "U zin e iro e coni-
missarios cantando serena estrella.” (Jornal Pequeno 11. 50
de 1916). Este dicto vem de 1877 da derrota de um certo p o lí­
tico nas eleições procedidas naquelle anno para deputados á
Assembléa Legislativa, sobre o que estampou o periodico hu­
m orístico Am erica Illustrada, na sua edicção de 10 de Março,
uma caricatura do alludido politico, cantando e tocando v io ­
lão, tendo em baixo esta quadrinha parodiada de uma canço­
neta então muito em vóga, cuja letra começava pelos dous pri-

191
nieiros versos: “ Serena estrella Que no céo não brilha, Gastei
meu cobre E levei forqu ilh a.” A troça cahiu no goto popular,
e dahi o dictado: Ficar cantando serena estrella.
Cantéo — Artista que lavra pedras e faz portaes, hum-
braes, vergas, soleiras e outros trabalhos de cantaria; o mes­
mo que canteiro, portanto. ?‘ Era Bartholom eo de côr preta,
cantéo, e homem de alguma in stru cção.” (F . P. do A m a ra l).
Canto — Casa, habitação, lugar, espaço. A igreja e s t a v a
tão cheia, que não tinha um só canto vasio. V iv e r retirado
no seu canto. T e r um cantinho onde metter a cabeça. “ E
tudo isto eu vejo do meu cantinho.” (O Ziguezigue, 1899).
“ Deixa-me neste cantinho a minha dor me m a ta r.” (J. Soares
de A z e v e d o ).
%
Cantofa — Agulha de bordar. “ Certo sugeito, que com
cara de sabujo, parece agulha cantofa.” ( 0 Clarim n. 8 de
1878). Cabellos. “ Sua enorme cabeça guarnecida de amara-
nhada cantofa” . (A Carranca n. 30 de 1845).
Canudo — Abelha mansa, domesticável, que produz pou­
co mel e alguma cêra. Os intestinos do b oi: canudo fino, ca­
nudo grosso.
Cão —1 O dem onio. Artes do cão; O cão atraz da porta;
Arrenego do cão “ Senhora dona da casa, Abra a porta, ac-
cenda a luz; Estamos com o cão em casa, Resemos o Credo
em c ru z .” (C ancioneiro do N o rte ). “ E* o cão se sahir de
casa em dias de ch u va .” (A Pimenta n. 574 de 1907). Cão le ­
proso; Cão sem dono; Um cão damnado, todos a elle; Vive»
como o cão com o gato. (D ic la d o s ).
Capa-bode — Sertanejo, o habitante do sertão. Nom e por
que era conhecida a musica Mathias Lim a.
Capação — Acção de capar, castrar o animal. “ Quero a
capação de volta e não de faca” . (O Cometa n. 21 de 1844).
Córte, suppressão, resumo. “ A opposição pernambucana quer
a Constituição P olitica sem as capações, que lhe hão feito
os pseudo monarchistas” . (O Guarda Nacional n. 101 de 1844),
Capadinho — Traducção em resumo de uma obra scientifi-
ca, desenvolvida, com plexa, facilitando assim o estudo disci­
plinar, e trazendo a -acquisição de obras volumosas e caras, e
escriptas em línguas estranhas. O vocábulo, ao que parece,
vem de capar, na accepção de cortar, tirar, extrahir, resumir, e
assim traduzir correspondendo ao burro da Siria dos estudan­
tes portuguezes; e appareceu entre nós com as questões de phi-
losophia de A. Charmá traduzidas em resumo pelo Dr. Antonio
Herculano de Sousa Bandeira, cujo livro , impresso no R ecife
em 1848, teve logo o nome de capadinho imposto pelõs estu­
dantes.
Capado — P orco castrado para ceva. “ Com uns agradinhos,
presentes de fructas e um cevado, arranjou um lugarzinho na
A lfandega” . (O Patuléa n. 9 de 1850). “ Vou para a casa aga­
salhar as minhas gallinhas e um capadinho emquanto é cedo” .
lA Sentinella da Liberdade n. 27 de 1848). Ahi o tendes nedio
e liso como um gordo capado” . (O Vapor dos Traficantes n.
224 de 1860).
Capadoçada — Cousa, acção, procedim ento de capadocio;
velhacaria, experteza, m aroteira. “ Duas capadoçadas na fo r ­
ma do costume” . (O Artilh eirp n. 49 de 1843). “ Deixem-se
pois dessas capadoçadas, porque perdem o seu tempo in util­
mente” . (O Azorrague n. 23 de 1845). “ Aquelle diploma de
ouro enviado ao José M ariano pelos povos e povas do R io de
Janeiro, é uma capadoçada do partido lib e ra l” . (O João F e r­
nandes n. 23 de 1886).
Capadocio — Espertalhão, trapaceiro, velhaco, ladino, as­
tucioso: um troea-tintas ahi qualquer. “ Uma cafila de com ­
pletos capadocios, cheios de todos os d efeitos” . (O Guarda
Nacional n. 90 de 1844). “ A p olicia deu em cima de uns capa­
dócios, qup estavam num cantinho engajados no gagáo” . (O
1'atuléa n. 9 de 1850). “ A parte inculta da população das c i­
dade^, a immensa cohorte de capadocios e cafagéstes.” (S y lv io
Rome,ro). D erivados: Capadoçada, já registrado; Capadoçagem,
capadoçal (Beaurepaire R o h a n ); Capadocismo (A ra rip e -Ju­
n io r).
Capa-gato — Q ualificativo de chalaça, depreciativo, dado
u individuo ahi qualquer.
Capanga — Guarda-costas, assalariado para satisfações e
vinganças, provocações e desordens eleitoraes, claque de mee-
tings e emprezas de semelhante jaez. Aulete já registra o ter­
mo, com o do Brasil, com as expressões de assassino assalaria­
do, caceteiro. “ São capangas todos os enviados para coagir a
voto nas eleições” . (O P ovo n. 89 de 1856). “ O padre mandou
v ir de P ajeu ’ de F lores quatro capangas para assassinarem o
xub-delegado dos A fogad os” . (O Alabam a n. l f de 1863).
“ P o r ser experto dapanga Do partido vencedor, Me deram por
quatro annos O diplom a de e le ito r” . (Juvenal G aleno).
Capão — Gallo castrado, ou capado, para ceva, de onde
vem o termo nesta accepção; e particularmente, o chamado
capão creador, quando se incumbe da creação de pintos, cio
que se desempenha tão zelosam ente como a p rópria fa llin h a .
“ Nunca mulher perdida amou a homem honrado, nem gallinha
gorda a capão” . (P ro lo q u io ). Um sujeito m olle, tím ido, partí­
cula: mente tratando-se de aventuras amorosas. “ T od o homem
que é capão faz m iserável papel” . (A Marmota Pernambucana
n. 22 de 1850). “ A maldita desta velha Quer fa zer de mim
capão” . íl)a chula Redondo, Sinhá). Para ainda mais accen-
tuar essa fraqueza e tim idez accorre a locução.' Capão d*
quenga. D inheiro de papel: um papel; um capão de dez, vinte
m il réis, etc. M aciço ou moita de matto, de extensão variada,
que isoladamente se destaca no m eio de uma planicie descam
pada, ou apenas coberta de pastagem ou vegetação r a s t e ir a . Q
arvoredo do capão é denso, pode ser mais ou menos alteroso.
“ constitue assim como que uma pequena floresta ou matta,
isoladamente disposia, uma ilha de matto em campina. “ Desde
longe dão na vi .ta esses capões. E ’ a p rin cipio um ponto n e­
gro, depois uma cupula de verdura, afinal mais de perto uma
ilha de luxuriante rama, um oasis para os membros lassos do
viajante exhausto dc fa d ig a .” (V iscon de de T au n av). ‘ Via-sc
dentro de um capão de matto que vinha m orrer á beira do rio,
uma casa de tacaniça” . (F ra n k lin T a v o ra ). “ As arvores agru­
padas em capão, quebram a m onotonia do descampado e abri­
gam dos raios do sol os animaes” . (A rth u r O rlan d o). “ O m at­
to que cresce ilhado no m eio do campo, escreve Theodoro
Sampaio, denominava-se entre os indios, caa-pãu, ilha de mat­
to no meio do campo, retalho ou nesga de matto, de que pro ­
cede o vocábulo capão, hoje geralm ente adoptado no Brasil
para sign ificar essa form a de vegetação. Algumas vezes se
diz tambem capuão, mas já derivado de outro vocábulo tupy,
caa-poan, matto redondo, e podendo sign ificar um oasis” .
Capar — Conquistar a confiança, as bôas graças de a l­
guém; cortar, supprimir, excluir, tirar, reduzir e dahi o termo
Capação, já registrado. T ira r alguma cousa de um volum e ou
peça de qualquer m ercadoria ou fazenda, de modo a não apre­
sentar vestígios de violação. “ Nos carregamentos dos navios
que lhe vinham consignados, capava todas as saccas de café.
carnau’ba, latas de chá, e tc .” (O Barco dos Patoteiros n. 8
de 1864) “ A 5 noite, os ratos da estação dirigem -se ao arínazem
e capam as pobres cargas” (Lanterna Magica n. 144 de 1886).
Capar de volta ; capar de faca: T o rce r os testículos do animal
afim de deixal-os completamente atrophiados; extrahil-os,
cortando-os a faca na sua ligação com os tendões. “ Quero a
capaçâo de volta e não de fa c a ” . (O Cometa n. 21 de 1844).
Capataz — O dem onio; chefe, mandão, superintendente.
E ntre nós, nos tempos coloniaes, houve uma companhia de
carregadores de fretes que era d irigida por um capataz, como
tambem, cada corporação de o fficio , tinha o seu. Cada porto
m arítim o tinha igualmente o seu capataz, c no do R ecife h a ­
via mais um, que d irigia o serviço de estiva, carga, descarga
e amarração dos navios, e um segundo capataz, para as substi­
tuições do cargo. Este erviço,' feito por pretos, geralm ente
escravos, passou depois para a Alfundega, mantendo o seu che­
fe a mesma denominação, até que, creada a secção da capata-
ria, teve o de administrador.
Capella — E ’ este o nome que se dá aos grupos de foliões
dos festejos populares sanjoanescos, ornados de capellas de
folhagem, marchando em grupos, em demanda do milagroso
banho e de volta, em animadoras passeatas. Os seus cânticos
obedecem sempre a estes tradicionaes versos de estribilho:
Capellinha de melão, E ’ de São João; E ’ de cravos, é de rosas.
E ’ de m angiricão. “ Os indios acodiam a todos os festejos dos
portuguezes com muita vontade, escreve F r . Vicente do Sal­
vad or em 1624, porque são muito amigos de novidades, como
no dia de S. João Baptista, p or causa das fogueiras e capellas” .
Cápemba — Este vocábulo é vulgar no Ceará para desig­
nar o envolucro do caixo da palm eira quando nova, ou o pé
da folh a: capemba da carnau’ba, da macambira, o pé da folha
do croatá. Entre nós, porem, apenas o conhecemos na phrase
Ganhar as capembas rajadas, com o que indicando matto, re ­
fugio, Homisio, e consoantemente com as locuções Ganhar o
matto, Ganhar o mangue, isto é. fugir, desappai ecer, occultar-
se.
Capenga *— Coxo, manco, p or qualquer defeito ou lesão
o rga n ica . . “ Mas que culpa tem a gente, Se a perna se não con­
form a, Para ou vir gritar somente: O tal capenga não fo rm a !”
(D r. V illasbôas). O vocábulo vem do tupi capê, o que tem osso
québrado ou torto: pernas tortas, coxo; S ylvio Rom ero, p o ­
rem, consignandoh) com iguaes expressões, suppõe-no de o ri­
gem africa n a . Rohan consigna o dictado Mais depressa se
apanha um m^ptiroso que um capenga, naturalmente assim
vulgar no sul, \íma vez que entre nós se diz assim: Mais de-
pressa se pega um menti/roso que um coxo.

195
Capeta ■— O demonio. Criuz, Capeta; phrase de esconjurio
ao dibao, com o quem d iz: Vade retro, Satanaz. “ O Capeta é um
diabinho que não é m alvado; é travesso e traquinas, é o que
se costuma chamar um diabrete” . (O lavo B ila c ). “ Em nome
do Capeta que sobre nós adeja, para leva r vossas almas coni-
sigo> Assim seja” . (O Barco dos Traficantes n. 29 de 1858).
E xperto, travesso, .traquinas, turbulento: um menino levado
do Capeta; encapetado. “ Poderíam os agarrar a esse menino
cápêta, para ó educar, toda a vezi que nos fizesse das suas” .
(Pernaipbuco n. 32 de 4 de 1913)” “ Transform ar-se de repen ­
te a fada gentil dos seus sonhos em um cápetinha de m il pec-
cados” . (José de A len ca r). Com o titulo O Capetinha circulou
entre nós, em 1889, um periodico critico e pilhérico, se bem
que de vida ephemera; e no Sabbaido de A llelu ia de 1897 sahiu
o numero uníco de uih jornaleco sob o titulo d’ 0 Capeta, Ó r­
gão neutralisado.
Capiba — Grande, volumoso, alentado: Siry capiba. Che­
fe, dunga, mandão. “ Referiu-m e José Bento Fernandes, que
cm tal Capiba dos Afogados tivera ordens de v ir prender-m e” .
(A , de Moraes S ilva ). Assim abonado o termo pelo nosso lexi-
cographo, em 1818, em carta d irigida ao Desem bargador Cas­
tro Falcão, enconti amol-o depois n’ 0 Cruzeiro n. 122 de 1829
em uma carta d irigida da Parahyba a um Capyba, e publicada
a pedido do mesmo Capyba; e em fim numa chula Ordem do
dia aue publica o period ico O Mesquita Junior no seu n. G de
1836, e firm ada p el’ 0 Capiba. Term o de origem indigena.
Capilé — Certa bebida fermentada, de uso popular. “ O
capilé andou nos cornos de Apollo, se impondo pela sua tra ­
dicional filma entre os matutos” . ( A Pim enta n. 1 de 1902).
“ Barracas iguaes áquellas que vendem gen gibirra e capilé, nos
presepes ruins da .Magdalena” . (Lan tern a M agica n. 811 de
1905). O te im o porem , é portuguez, se bem que o rigin ário do
francez capilaire, avenca, Bebida feita com xarope de avenca,
e assim já consignada no D iccionario de Moraes.
Capim — D inheiro, pagamento de ordenado, salarih, feria
de operários: Dia de capim. Nom e commum ás diversas espe-
cies de gramineas rasteiras que servem de pasto ao gado, de
cuja variedade trata particularm ente Alm eida P in to no seu
1905). O termo porém, é portuguez, se bem que o rigin ário do
forragem exótica, mas que receberam o nome indigena, ge-
nerico, de cap im : o capim de planta, oriundo de Guiné, e o

196
capim de Angola, desta procedência. “ O ajuntar-se as hervarí
na varzea, é causa de ser esta sempre muito humida, e con-
seguintemente muito disposta para criar o capim ” . (A n to n il).
Capim é um term o de origem indigena, corruptela de cáa-piy,
matto fin o ,ou de caá-fy, folha miuda fina, a gramma. O v o ­
cábulo assim usado, vem de epoca remota, uma vez que o autor
dos Diálogos das Grandezas do Brasil, escriptos em 1618, diz
já então, que o alimento ordinário dos cavallos é-uma herva a
que nesta terra chamam capim. O A lvará de 3 de Outubro de
1758 rèlativo a negocios do Maranhão, consigna o termo, e en­
tre nós a L ei P ro vin cia l n. 24 de 1836 trata do D izim o do ca­
pim de planta que se vender nos mercados do R ecife e Olinda,
cujo imposto, bem como o de Baixa de capim, vinham já de
epocas anteriores. Na nossa chorographia figuram com o no­
me de Capim duas serras situadas nos municipios de Quipapá
e Tacaratu’’, duas lagôas nos do Altinho e Bom Conselho, e um
riacho em Itambé, com o derivado de Capissurá, corruptela
de ca'pin-çur-á, capim de grão, ou semente saliente. F in al-
meilte, constitue um dos, elementos çom probatorios da antigui­
dade do termo vulgarissim o p ro loq u io : P ’ ra burro velho ca­
pim novo.
Capinar — Lim par o campo, roçar o matto, cortár o ca­
pim para alim entação dos animaes: I r capinar. “ Encontrado
em uma roça, càpinando, cercam-na e o desgraçado cae
tfapassado com tres balas” . (O Guarida N acional n. 39 de
1843) Capinar, escreve Couto de Magalhãesi, é verbo de raiz
tupica, p or lim par o matto.
Capinheiro — O que corta, conduz ou vende capim . ” Um
escravo de nome Pedro, nação Congo, capi|nheiro” . (D ia rio
de Pernambuco, n. 13 de 1829). “ Capinheiro de meu pae, Não
me cortes meus cabellos” . (D o romance popular: A M adrasta).
Em Alagoas diz-se capinar. “ Toadas soltas dos capineiros ro :
Iam pelos ares, ora em notas agudas e~ vibrantes, ora em re ­
quebros languidos e vagarosos” -. (A lfre d o Brandão).
Capinzal — Plantação de capim, terreno coberto de capim,
ou commumente, baixa de capim. “ Joanna chegou ia porta que
dava para o pequeno cercado onde o capinzal crescia, e solíoii
o innocente p risio n eiro ” . (F ra n k lin T p v õ ra ). “ As labaredas
correm sobre o- capinzal com in crivel velocidade” . (Gustavo
B arroso). “ N o basto capinzal, ao pé da arvore, apparentemen-
te debatia-se um gafanhoto verde pallido, como que enredado
nas h ervas” . Charles W aterton ). O vocábulo vem dos indios,

197
e precisamente com as expressões ditas, com o corresponden-
le de caa-pituba.
Capiongo — i Triste, calado} espantado; desconfiado, receio»
soj retrah ido. “ Capiongo, ficar de olhos com pridos” . (A m erica
Illustrada de 28 de Setembro de 1873). “ Sempre v iv ia capiongo,
descontente” . (Lan tern a Magica n. 110 de 1885). Consignando
S ylvio Rom ero o verbo capiongar, furtar, como de origem a fri­
cana, parece que o vocábulo vem dahi.
Capiscar — Saber, com prehender, entender. “ Não capis-
a m o s o italiano, e muito menos capiscamos a musica” . (A m e ­
rica Illcstrada n. 17 de 1882). “ Não capisco essa historia de
primo ca rtello ” . (Lan tern a Magica n. 749 de 1903).
Capitão — A nossa flora registra varias especies de plantas
com este nome, havendo mesmo uma que tem a particular de­
nominação de Capitão de Pernambuco, todas da fam ilia das
Um belliferas, e bem assim uma com a de Capitãozinho, da fa ­
m ília das Olacineas.
Capitão de campo — Agente de policia que em outros tem­
pos havia em cada freguezia, e tinha a seu cargo a captura de
escravos fugidos para os entregar a seus senhores, mediante
uma certa recompensa pecuniaria; ou antes, caçadores de ne­
gros, a o s q u a e s a lei em regulamentos especiaes concedia p o ­
deres descricionarios contra áquellas m iseráveis creaturas que
fugiam do jugo da escravidão. Em geral o cargo de capitão de
campo era exercido p or gente da mais bàixa esphera, negros
livres mesmo, ignorantes, analphabetos, mas corajosos, e de
uma valentia selvagem, unida a uma crueldade ainda mais sel­
a g e m , vindo dahi o dictado popular, que ficou: Quem não tem
coragem não amarra negro. Originariam ente nomeados pelas
camaras municipaes, passou depois essa incumbência ao chefe
qe policia, que a manteve até a extincção do cargo, pelos annos
fie 1887, no periodo da campanha abolicionista Capitão d »
campo, Veja que o mundo virou ; F o i ao matto pegar negro, Mas
o negro 0 a m a rro u .” (D o acto popular do Bumba meu boi").
Sobre o Capitão de campo escrevemos um detalhado estudo,
q :n. vem publicado no Jornal do R ecife de 21 de Agosto de 1901.
Capiuma — P eix e de agua salgada (H oem ulon quadrilinea-
•urn, Cuv.).
Capivára — Am phibio herbivoro, (H ydroch oerus capiDara,
C u v J , que habita á margem dos rios. E ’ o m aior animal da
ordem dos Roedores. O ^utor dos D iálogos das grandezas do
Brasil já se occupai da Capivara, semelhante á lontra, e con
soantemente F r. Vicente do Salvador, que escreve: “ Outros
animaes ha a que chamam capyguaras, que quer dizer com edo­
res de herva, andam sempre n’agua tirados, e quando sahem a
pascer pelos valles e margens dos rios, alguns o tomam e criam
em casa fora d’agua, pelo que se julgam por carne e não por
pescado” . Capivara, capyguara, como vimos, ou capibara, eo
mo tambem se dizia, é corruptela do tupy caapi-uára o come­
dor de capim, o h erb ivo io, alterado em capivara. (T h eod oro
Sam paio). E ’ de capivara que vem a denominação do nosso rio
Capibaribe, corruptela de caapluar-y-pe, alterado em capibar-
y-b e„ rio das capivaras segundo aquelle escriptor, consoante-
mente com o que se lê no Glossaria linguarum brasiliensium
do d r. Martius: lugar de capivaras ou capibaras, de capivara,
porco selvagem, e yby, ou ipe, lugar. Locus animalis capivara.
C-apoeira — Trech o de matto, ralo, fino, enfezado, que es­
pontaneamente nasce e cresce em um abandonado roçado, ou
em uma certa zona depois das derrubadas e queimadas. “ A '
roça extincta dava-se o nome de có-coéra e tambem cópoera, de
que procede o vocábulo capueira, com o . sign ificativo que vu l­
garmente se lhe dá de roça abandonada e invadida pelo matto,
visto que o mesmo vocábulo tambem procede de caa-poéra, mat­
to extincto, op que já uma vez fo i cortado” . (T h eodoro Sam­
paio). “ Este supplicante, que já podia estar enterrado nas
capoeiras de S. Bento, escapou não sei com o” . (O Patuléa n.
9 dc 1850) . “ Desde o prin cipio do banquete, que esse cão es»
lava á espera e á espreita por detiaz de umas capoeiras” . (L a n ­
terna Magica n. 259 de 1889). “ Lourenço tinha de olho uma
meia legua de massapé, que estava em cap oeiro” . (F ran klin
T a v o ra ). Cesto grande, achatado, feito de cipó rijo, com uma
bocca na parte superior, para a conducção de aves, formando
duas uma carga, presas por azelhas no cabeçote da cangalha
do cavallo. “ Quando as criações estavam auginenladas, Fran ­
cisco mettias-as nas capoeiras, e ia vendel-as em Goyanna” .
Franklin T a v o ra ). “ Nas proxim idades da festa mandou o r o ­
ceiro ao magistrado uma capoeira de gallinhas.” (D r. Castro
Lopes). Gallinha de campo não quer capoeira. (A d a g io ). Lucta
ou especie de exercício ou jogo athletico, praticado por in di­
víduos de baixa esphera, vadios, desordeiros, e no qual esgri­
mem os luetadores cacetes e facas, e servindo-se ainda, em
passos proprios, que obedecem a umas certas regras e p re c e i­
tos, dos pés e da cabeça, valentes, ageis e ligeiros, vencem o
adversarm . Fm iae.s jogos, introduzidos pelos afixcanos, se-

199
«ftiiiitu rwiiu
flH C iH T tll.o I t ^ i C ü |

gundo Beaurepaire Rohan, não raro, succumbe um dos luctado-


res, ou mesmo gravemente feridos, são victimados ambos. Vem
dabi tambem a extensão do termo ao individuo que se exercita
no jogo da capoeira, que aliás é tambem extensivo hoje a io ­
da a sorte de desordeiros pertencentes á ralé do povo, entes
perigosissimos, por isso que, sempre armados, matam a qual­
quer pessoa inoffensiva, só pelo prazer de matar. N o nosso
Folk-lore Pernambucano deixamos convenientemente estudado
o typo do capoeira' entre nós. “ O José era insigne na capoeira” .
(Am erica Ulustrada n. 1873). “ Um individuo, julgando-se mui­
to engraçado, vinha na frente, á mod'a capoeira” . (A Pimenta
n. 28 de 1901). “ Vieram 59 capoeiras do R io de Janeiro, en­
viados pelo go vern o ” . (N oticias de F^rtiando de Noronha, 1890),
O termo, nesta aceepçâo, já era vulgar naquePa cidade cm
182-1, como consta do Aviso do m inistério da Jusliça de 28 de
Maio, ordenando ao mandante geral da policia da côrte o cas­
tigo immediato dos capoeiras, afim de cessarem as desordens
e distúrbios por elles praticados, e no que cumpria agir com a
rraior energia. Derivados: Capoeirada; ^apoeiragcm ; >aj.< e i­
ras; cneapoeirado. ‘ A po!.ei:i fez farta colheita de capoeira?.
Pois pezar disto houve no mesmo dia scenas de capoeiragem ” .
(O Diabo a quatro n. 143, de 1878). “ Um tracto de terreno en-
capoeiratlc, ende se rd r'rou o cem iterio dos çholericos' ( A l ­
fred o Brandão).
Capoeirão —- Exlensa e baixa capoeira, cuja vegetação tem
iiltingiíio a grande desenvolvim ento. Augm eutrtivo de capoei­
ra, é concurrentemente o capueruçú dos indios, que assim já
distinguiram um phenomeno do outro. “ O alto que fica para
os lados do poente, era coberto p or um capoeirão quasi matta” .
(A lfre d o Brandão). “ Raros são os restos das prim itivas mattas;
o que só se vê são capoeirões ou mattas em form ação” . (Irin c o
J o ffily ). A b rir num capoeirjão: correr a bom correr.
Capote — A gordura que reveste uma peça de carne. “ Não
ha no mundo Um m ercador do seu lote, Que saiba vender á
gente, Carne secca de capote” . (O Barco dos Batoteiros n. 84
de 1866). Um individuo qualquer, uma certa pessoa. “ Chegou-
se a elle um capote, e disse-lhe, não se desfaça da prenda, meu
caro.” (O Carapuceiro n. 20 de 1^47). A gallinha de Guiné ou
da ín dia (Num ida Meleagris, L in n .), que tem em Portugal o no­
me de Estoufraca, originado do seu proprio canto. Tratando
M aragravi dos gallinaceos de Pernambuco, menciona a galli-
íilia africana, vulgarmente conhecida p or guiné, ou capoute, co­
mo elle escreve.
Capoteira — Especie de toucado que as mulheres usavam
em outros tempos, talvez ao modo das actuaes capotas. “ Se a
mulher sahia fóra, tinha a sua capoteira” . (O C a rap u ceiio).
Capuába — Bebedeira, carraspana: Tom ar uma capuába.
“ Gente que nenhuma occupação tem alem do samba e da capuá­
ba. CO Tam oyo n .5 de 1890). Casa de gente pobre, choupana
despresível. “ Quando fô r tempo de tocar fogo na capuaba. é
só dizer... Emquanto o diabo esfrega um olho, o mocambo fica
torrad o” . (Fran kü n T a v o ra ). O vocábulo é conhecido em vá­
rios Estados, mas com expressões diversas, entro as c v a r j, a l­
gumas de accordo com a sua origem indigena e pertencendo,
segundo Beaurepaire de Rohan tanto ao dialecto tupy com o ao
guarany, neste, significando casa, e naquelle, quinta ou herda­
de, onde ha cása. E ’ assim que no Ceará tem a expressão de
casa velha.
Capuabeiro — Indivíduo que v iv e sempre embriagado, que
toma capuabas. “ Monsieur C apu ab a... Q francez da capuabei-
r a ... Conter o capuabeiro. (O Campeão n. 30 de 1862). “ E ’
mesmo um descuido das autoridades dar-se tanta liberdade aos
capuabeiros, gancistas e m amoeiros para berrarem uma noite
inteira ao som de um v io lã o ” . ( A A m e ric à 'Illustrada n. 31 de
1883). “ A calungagem capuabeira do cortiço alfandegado” . (O
Barco dos Patoteiros n. 18 de 1864.)
Capuxu’ — V ulgar especie de abelhas mansas, que produz
s o ffriv e l m el.
Caquear Vêr, buscar, procurar, rem exer, revolver, des­
arrumar.
Cara — Term os e locuções;: Cara de assento: qu alificativo
de troça, de ridicu lo á physionom ia de alguem de quem se quer
chasquear. “ D eixe que tome pagode com quem tem cara de as­
sento” . (O R atão). Cara de anjo papudo: cheia, gorda. Cara de
lua cheia: redonda, gorda. Cara ,de mamão macho: simples qua­
lific a tivo de troça. Cara de poucos am igos: de feio aspecto, an-
tipathica; com expressões de zanga, contrariedade. “ O velho
anda indignado, com cata de poucos am igos” . (Jorn al do R e­
cife n. 44 de 1916). Cara dura (V .). Mostrah cara fe ia : aborre­
cimento, zanga, inaccessibilidade. O ccorre então a phrase de
uni intim o: M elhor cara traga o dia de amanhã; ou esta de
quem se sente encommodado com isso: Si v . mostra a sua cara
feia, eu mostro a minha torcida. T orcer, v ira r a cara: gesto de
desdem, de desprezo. A cara mostra o que é; Cara de cavaillo.
(D iactados).

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Cará — P eix e de agua doce.
Caraçá — Cará enorme, feia, horripilante.
Caracachá — Placa de condecoração. “ E ’ pena que os ca-
racachás se não principiem a distribuir p or todos aquelles que
íuzem alguma cousa em ben eficio da humanidade” . (A m erica
Illustrada n. 35 de 1881). “ Não tenho uma carta de bacharel, e
dous ou tres caracachás no p eito ” . (Lan tern a Magica n. 4 de
1882). Instrumento rústico, a especie de maracá usado nos b ai­
lados populares e nas reuniões de catim bó. “ Alguns caeaca-
ehás, depostos sobre o m ovei prin cipal do catimbó, confundi­
am-se com as dadivas ali collocadas” . (D ia rio de Pernambuco
n . 105 de 1915).
Carachué — Amante de mulher perdida. “ Toinha, tome
vergonha na lata, pois o seu carachué não lhe serve de nada-
(A Pim enta n. 48 de 1902). “ A Cabeção tomou enorme carras­
pana para abafar as maguas porque o cairachué a desprezou.”
(Idem , n. 498 de 1906).
Cara-dura — F ogo de salão, a especie de phosphoro, que
riscado na p rópria caixinha desprende, respectivamente, uma
!uz de cores differentes. “ Mandou encaixotar uns pacotes de
caixas de cara-dura, que tinham sobrado do sortim ento dos fo ­
gos de S. João” . (A P ro vin cia n. 180 de 1913). Indivíduo des­
pudorado, falto de b rio e de vergonha, cynico, impassível, em
cuja cara nenhum insulto faz móssa. “ Não sabemos quem seja
o cara-dura, que quer m arear a reputação de um cidadão honra­
d o ” . (Lan tern a M agica n. 123 de 1885). “ Antigamente, ao in d i­
víduo sem esclupulo, cynico, mettediço, e que representava p a ­
peis tristes e pouco airosos, chamavam introm ettido, sem v e r­
gonha, taralhão, guaderio, etc. Mas todos estes epithetos não
tinham uma applicação geral: era preciso um, que tivesse um
caracter generico. F o i o que os modernos fizeram com a pala­
vra Cara-dura” . (A Lanterna Magica n. 228 de 1888). Esta
locução, como se apregoa, vem dos annos de 1883, quando num
dos theatros do R io de Janeiro fo i representada uma scena cô ­
mica intitulada: Cara-dura, com o consoantemente escreve o
D r, Castro Lopes em 1884: “ Não ha mais de tres annos, se­
gundo nos parece, surgiu d’entre a geringonça plebéa, ninguém
sabe como, nem qual o introduetor da phiase, a exclamação
popular: Cara-dura!” Entretanto, encontramos vestígios seus
entre nós, em epoca mais afastada, como se v ê de um periodico
do R ec ife : “ Salvai pela poupa Ao nobre republico, De má ca­
tadura, Que alem de a ter dura, Quer mais dita-dura” . (O Brado

202
da Razão n. 27 de 1849); e quando, talvez, ainda mal firmada
110 R io de Janeiro, ou mesmo desconhecida, já entre nós o pe­
riodico illustrado, Mephistopheles, a registrava no seu n. 20 de
28 de Julho de 1882: “ O celeberrim o F errer F o i no Pires pa-
teado, P o r querer de cara-dura Se m etter a nam orado” . Estes
factos porem, não podem causar extranheza, porquanto, como
escreve o p roprio dr. Castro Lopes, “ quando no nosso theatro
foi representada a scena comica intitulada Cara-dura, já ha
dous mil annos antes, no theatro de Roma, na comedia O Eu-
micho. de Terencio, dizia na oitava scena do quarto acto um
personagem a outro: Os durum! que litteralm ente traduzido é
Cara-dura” . Seja como fôr, vem porem, daquella epoca que r e ­
gistramos' a vulgarisação da phrase entre nós com as suas e x ­
pressões próprias, e já corrente então, appareceu em 1885 um
tango intitulado Carã-dura (A m erica Illustrada n. 7 ); vogava
uma chula que tinha por estribilho: Assim v ive muita gente,
Assim nassa p or honrado, Cara-dura no presente, Sem vergonha
no passado” . (Lanterna Magica n. 116 de 1885); e em 1886 ap­
pareceu na cidade da V ictoria um p eriodico satyrico com o ti­
tulo d’ 0 Cara-dura, sem contar ainda com a sua figuração co­
me titulo de cordões ou clubs carnavalescos, e marca de cigar­
ros de diversas fabricas, com expressivas caricaturas do typo
do cara-dura. Estava, portanto, firm ada a locução.
Carafunchar — O mesmo que caquear.
Carahyba — Arbusto da flora sertaneja, e dahi o nome de
Carahybas de um riacho e de um povoado no municipio da Bôa
Vista, naquella zona. Carahyba, como escreve T heodoro Sam­
paio, é uma form a contracta do termo carahy, appellido do ho-
rnem branco entre os tupvs, e que ainda o encontramos com
as adjectivações de forte, valente, sabio, sagrado. Já o erudito
Georgi M acrgravi havia registrado o termo, colhido em P e r ­
nambuco, escrevendo: in genere autem vocant onnes europeos
et advenas Caraiba, intenque P e ro ” .
Carambola — Fugido, oeculto, homisiado. “ ü Padre Bar-
boza, confessor dos caram bolas” . (O Mesquita Junior n. 6 de
1836). “ Você la nas. Tres-ladeiras era um pobre caram bola” .
Am erica Illustrada n. 4 de 1885). O vacabulo é, naturalmente,
coruptela do tupy caiambó-la, calhambola, habembóra, o escra­
vo que anda fugido e se acouta ordinariam ente nesses esconde-
douros a que chamam quilombo ou mocambo. Caneca, no seu
itin erário (1824), fala ainda, frequentemente, em calhambolas,
deixando perceber aquellas expressões, como particularmente

203
nestes dous trechos: “ Um calhambola p or nomé Eugênio Go­
mes, desertor de um batalhão de Pern am bu co. . . P erto da noi­
te tomaram-se dous calhambolas, que vinham sahindo do mat-
l o ” . Cremos que a transform ação de calhambola em carambola,
vem da cultura, entre nós, da terebinthacea indiana, o çaram*
boieiro, que vem dessa epõca, no Jardim Botânico de Olinda,
cujo fructo tem o nome de carambola.
Cara-metade — A consorte. “ Você, minha cara-metade,
veslir-se-ha de Ignez Sorèl, e eu de D unois” . (O Carapuceiro
n. 22 de 1847). “ O Rodrigues e sua cara-metade tratam de ar­
ranjar as malas afim de seguirem para Manáos” . (A Pim enta
n. 3õ5 de 1907). “ O homem se pode considerar em duas ine-
,'ades: uma bôa e outra má. Separal-as em solteiro c d iffic il:
casando-o, porem, a metade má é semp e a «ara-metade. (Q ua­
sím odo).
Caraminguás — Cacarecos, troços, cousas ordinarias, de ne­
nhum v rlo r; moveis, aprestos de viagem . Segundo Beaurepaire
Rohan, o vocábulo vem do guarany cara-menguá, que sign ifica
cofre, caixa, etc., tendo os npssos tupinambâs o corresponden­
te de caramemoan, de iguaes expressões.
Caraminhola — Turbante, toucado ou gorra, como se vê d;t
descripção de uma solemne procissão que houve no R ecife em
1745, e na qual, entre os seus differentes grupos e figuras alle-
goricas, se via uma, representando a Asia, cingindo-lhe a ca­
beça uma. caram ilhola agaloada, de m olde francez, constánte
do rarissim o liv ro Summa triumphal da nova e grande celebri­
dade do glorioso e in victo m artyr S. Gonçalo Garcia, impresso
em Lisboa em 1753. Cremos que se trata de um termo chulo,
de corrente local, uma vez que os vocabulários antigos não o
mencionam, se bem que Bluteau registre o de Caraméola, com
as expressões de artificio e engano para alguem escapar, e zom ­
bar da pessôa com quem trata, vin d o dahi, naturalmente, a sua
transformação em Caraminhola, com as equivalentes de enre­
dos, sophrismas, mentiras, patranhas, levado assim registrado
p or M oraes. “ Quem te metteu essa carfeminhora na cabeça?”
A rlh u r A zev e d o ). Seja como for, já era o term o vulgar entre
nós em meiados do seculo X V III, como vim os, e corrente em
1822, já com as suas modernas expressões, cpmo se vê destes
trechos de escripto de Caneca, daquelle anno: “ O modo com
que este patife apresenta esta caraminhola, é tal, que não ha
desaforo que o e m p a re lh e ... Se fosse attendivel essa carami-
uhola de querermos hoje republica, porque a quizemos em 1817,

204
muito m al estava Pedroso que fo i um dos cabeças daquella r e ­
volução” .
Caramujo — Ouro de baixo quilate, falso; ouno francez.
Caramuru’ — V . Chimango.
Caramutange — Grosseirão, estúpido, ignorante, selvagem,
com o assim se chamava ao negro novo, ou recentemente che­
gado da A fric a .
Caranguejeira — Especie de aranha, arachneide pulmo­
nar (M ygale avincularia, L atr.) coberta de pellos compridos,
venenosa, a m aior da especie, e dahi o nome de Nhandu’ gua-
çu\ aranha grande, que tinha entre os indios, pu Jandu’ açu’ ,
como registra Gonçalves D ia s . O nome vulgar de carangue-
jèirai vem, naturalmente, da sua semelhança com o caranguei-
jo, e de tempos remotos, uma vez que em 1606 já era c orren ­
te, com o escreve o padre jesuita Lu iz Figueira, do Collegio
de Olinda: “ Nesta triste serra dos C orvos parece que se ajun­
taram todas as pragas do B rasil: innumeraveis cobras e ara­
nhas a que chamam caranguejeiras, peçonhentissimas, He cuja
ipordedura se d iz que m orrem os homens” .
Carangueijo — Folguedo infantil, constante de uma dan­
ça em roda, com canto e letra acompanhada ou marcãda a
palmas e bater de pés, sob este motte constante in icial da le ­
tra: Caranguejo não é peixe, Caranguejo p eixe é; Caranguejo
só é p eixe Na enchente da m a ré .” (V . uçá).
Carão — Especie de Ardea ou garça; expressão de fo r ­
quilha ao não encontrar de uma cousa que se vae v e r com in ­
teresse, ou á negativa de um pedido ou pretenção qualquer;
vepellão solemne, uma lavagem com pleta: Carão não mata,
mas incha a lata; Carão não mata, mas maltrata. D efin in do
João R ib eiro o vocábulo dá-lhe uma expressão limitada, es­
crevendo: “ Reprehensão dada em publico a uma Criança.
Aquelle que a dá, passa um carão; aquelle que soffre, leva um
carão” . Antigo vocábulo portuguez, tem porem expressões
differentes, como consta dos seus lexicon s.
Caraôlho — T o rto dos olhos, vesgo, zarolho. “ T áo carao-
lha, que nunca se sabia, quando a bruxa olhava para qual­
quer o b je c to .” (O Carapuceiro n. 25 de 1839). “ Estão em pre­
gados na pintura do theatro uns alejados, outros cegos, outros
earaolhos.” (O Guarda N acional n. 38 de 1843). “ O caraolho
D ionisio embebedado, toca a fa la r da vida alheia” . (O P ovo n.
109.-de 1858).
Carapanã — Mulher de vida facil. “ A carapanã Nazinha
deu mandado de despejo á cigarreira do seu c o r tiç o ... iíncon-
i ramos numa chuva medonha a carapanã Am elia B o i” . (A Pi-
nientaf n. 544 de 1907). Carlapanã, segundo Beaurepaire Rohan,
é um mosquito pernilongo, especie de Culex, do valle do Am a­
zonas .
Carapatu’ — Papão de intim idar as crianças, que assim
iigura nas nossas populares Cantigas de acalentar: “^Galae,
menino, calae, Calae que lá vem Tutu’ ; Que no matto tem um
bicho, Chamado Carapatu’ ” ,
Carapéba — P eix e do mar (Sm aris acarapeba, L ic h ts t.).
de escamas, e de uma cor branca, de tons prateados, já regis­
trado entre nós p elo autor dos D iálogos das grandezas do
Brasil, e no R io de Janeiro, por L éry, em 1557: “ Tem os outro
peixe chamado acarapeh, chato, muito gordo, e de optima
carne” . O nome vulgar, geral mesmo, de carapéba, origin ário
do tupy acará-peba, yem a ser; acara, peixe, ou nome do pei­
x e; e peba, pequeno, meudo, in ferior, e bem assim acara-tin-
ga, acará branco, como effectivam ente é o ' p e ix e ,' para o dis­
tinguir das especies acara-una, preto, e acara-pitanga, v e r ­
melho .
Carapecu’ — B aci^ de estudante, que serve para tudo, co­
mo indica o proprio termo convenientemente decomposto.
Carapicu’ — P eix e do mar. Seu nome vem do tupy, cor­
ruptela de acara-pocu’ , acará ou cará com prido, longo ou es­
guio
Carapinima — Pequeno crustáceo, tambem conhecido com
o nome de m arinheiro, e já descripto por M arcgravi com o
de Grapsus carapinima. Varias especies, muito communs,
Carapitanga — P eix e do mar, de escamas. (M esoprion
chrisurus, Cuv.) muito apreciado pelo seu sabor. E ’ de um
bonito verm elho, e dahi o seu nome, de origem indigena,
acará-ipitanga, acará verm elho, para o distinguir do branco,
o acará-tinga. O autor dos Diolagos das Grandezas do Brasil
já o menciona como uma sorte de pescado medianamente gran­
de, e muito gostoso. E ’ naturalmente o verm elho, mencionado
p or Durão-
Cara-suja — A ve da ordem dos trepadores ou zigodactv-
tas (Conurus cruentatus).
Cariaíu’ na — Passaro de uma bella côr negra, luzidia, as-
setinada. (Cassicus versicolar. L in n eo ), de fa c il domesticação.
e muito apreciado pelo seu cantar suave e agradavel; p eix e de
ugua salgada (Serranus carau’ na, C u v.); o b oi da p elle preta.
“ Eu tenho o meu boi espacio, Muito preto, carau’ n a” , eom as
variantes de carau’ no em Alagoas, e crau’ no no R io Grande
do Sul; a mulher de côr p reta. “ A carau’na é uma ave de car­
ne negra e cabellos carapinhos” . (Araeriça Illustrada de 23
de N ovem bro de 1873). “ Estes fréguezes gostam muito das
cousas pretas. Et sexnper amantes carKJu’nas” . (Idem . de 4
de Outubro de 1874). “ De uma carau’na, daquella que uor
conselho dos médicos fo i comprada para m elhora da «auçlc
de um' dos reis de Portugal, e que depois fo i chocar no pala-
eio da Palhavã,' descendeu um arcebispo” . (Lan tern a Magtca
n . 464 de 1895). Carau’ na é corruptela do tupy guirá-una, pas­
saro preto, c dahi o nome de grauna que tem a ave no Ceara
o Piauhy, por exem plo mais conform e com a sua origem In­
dígena.
Caravela — Medusa; ou alforreca (P h ysalia pelagica, La-
m arck), que se encontra á beira mar, entre as algas, caustica
ao tocar-se, e de uma bella côr transparente, que se combina
eom o azul celeste, verde e carm im . “ Como é rubra a cara-
vclla é tambem a minha b ella ” . - ( O Telegrapho n. 1 de 1850).
“ Os afogadenses são caritativos e generosos, ainda mesmo p a ­
ra estes ingratos, que, como caravelas entregues á descripção
das ondas, aportaram em varios paizes” . (O L ib era l Afoga-
donse n. 1 de 1845).
Carcamano — O italiano, assim depreciativam ente chama­
do. “ Mama em grosso o carcamano, e abusa da bonhomia do
f.)ovo pernapibucano” . (O Vapor dos Traficantes, n. 234 de
1&60). “ O vigário de Muribeca é um carcamano; e para o en­
tenderem. resolveram os seus freguezes aprender o italian o” .
<0 Diabo a quatro n, 160 de 1878). “ Anda percorren do as ruas
ila cidade uma em igração de carcamanos a tocar e a cantar
chulas de la santa te rra ” . (A D errota n. 23 de 1883).
Carcará ou caracará — Especie de ave de rapina, diurna.
(P olyboru s vulgaris, V ie ill.). Anda aos pares e aos pulos, co­
me insectos e cobrinhas, e quando urgido pela fom e, se atira
á rez morta, putrefacta, tomando parte no immundo repasto
dos urubu’ s. Vocábulo de origem tupy, vem de carae-carae,
o arranhador, o arranha-arranha.
Cardeado — Cavallo que tem o pelo mesclado de preto e
branco, predom inando porem o preto: “ Um cavallo ruço-pom-
bo, De crinas acastanhadas E listra preta na testa E a cau­
da cardeada.” (O Boi espacio) Corruptela de cardão, termo
vern ácu lo.
Cardeal — Passaro canoro, que tira o seu nome da bella
côr verm elha da sua plumagem . E ’ talvez uma especie do
Sangue de boi, de igual coloração.
Carépa — D ic çã o 1vernacula de accepções diversas, e f i­
gurando mesmo na giria portugueza com a expressão de sarna
entre nós apenas Se encontra na vulgarissim a phrase: L e ­
vado das carepas, àpplicada a um individuo desabusado, le ­
vado do diabo, ou acabado p or trabalhos, infortúnios e m o­
léstias, não tendo, portanto, isoladamente, um sentido proprio.
“ Fr. Miguel, és peior, que um anti-papa, Pouco me im porta
leve-te a carepa” . (A Carranca n. 57 de 1846). São umas deva-
dinhas das carepas, estas ciganas” . (Jornal do R ecife n. 62
de 1916).
Carguejar — O mesmo que alm ocrevar. “ A pés no chão,
vaquejando gado, lavando cavallos, e cargue.iando” . (O Clamor
Publico h. 84 de 1846).
Caridade — Os carros de segunda classe dos trens de ca­
minho de ferro : Andar, viajar na caridade. E nterro feito pela
assistência pública ás pessoas indigentes, conduzindo os cadá­
veres em vehiculos proprios, os chamados carros de cariJade,
mn form a de urna, e que de uma só viagem levam ao cem i­
tério diversos ataúdes” . “ O carro da caridade publica, condu­
ziu do Hospital P ed ro I I para o cem iterio de Santo Am aro, os
cadaveres de tres indigentes” . (Jornal Pequeno n. 87 de 1915).
Desses pobres indivíduos assim tão humildemente levados á
seputura, e que acabaram os seus dias. na mais triste penúria,
ou nas enxergas dos hospitaes, diz o povo neste dieta do ins­
pirado pelas Virtudes Theologaes; “ Viveu na Fé, m orreu na Esr
perança, e fo i enterrado na Caridade” . “ P o r diligencia de a l­
guém da visinhança, a carroça da caridade conduziu õ òadà-
ver ao cem iterio” . (O Campeão n. 19 de 1861). “ O desempenho
da peça fo i um enterro de caridade” . (A m erica Illustrada de 4
de F e ve re iro de 1872). “ O cadaver de M aria fo i rem ovido em
carro de caridade.” (A P rovín cia n. 20 de 1915).
Cariman — Pequeno bolo preparado com a massa de mar. -
dioca e agua, em form a de discos, achatados, e seccos ao sol,
para papas e mingáos. “ Cuidai no vosso carvão e ven der as
carimans.” ( A Duqueza do Linguarudo n. 94 de 1877). C ari­
man c um vocábulo de origem indigena, particularm ente ap-
plicado á farinha de mandioca, fina como a de trigo ; mas na
accepção de bolo cru’ dê mandioca, vem de uma corruptela de
quirin-má, bolo tenro ou piinhado de cousa branda, pois que
quirin, quir-in significa succo brando, macio, uma massa flu i­
da; c mã, bolo, punhado, m olho.” (Theodoro Sampaio); Ga­
briel Soares emprega o vocábulo, mas para designar a' farinha
feita da mandioca puba; Pisonis, porem, escrevendo entre nós,
já o emprega para designar o bolo feito da mandioca ipuba,
descrevendo depois o mingáo de cariman, com o igualmente
M aregravi, nestes termos: —- Eadem mandioca puba sciata ad
ignem potest adservari in usus et vocatur carimã” .
Carinhanha — P eix e de agua doce muito abundante, p rin ­
cipalmente, no alto São Francisco. Vem dahi o nome de; Cari­
nhanha, de um m unicípio ali situado, cujo territo rio faz parte
da nossa antiga comarca do R io São Francisco provisoriam ente
encorporada* á Bahia em 1827. G vocábulo, como escreve The
o d ò ío Sampaio, é corruptela de cari-nhenhê, o cari ronca,
sitio onde esse p éixe faz ruido.
Carionga — Mulher de vida facil, dissoluta, devassa, de
baixo calão. “ A carionga E lvira já está sem cotação.” (A P i-
rnentgi n. 491 de 1906). Carionga é um term o naturalmente
africano, uma vez qué tem o nome de D .C arion go, o chefe do
folguedo africano Os Congos, com a dignidade de re i “ Ora
viva, viva, viva Nosso rei Dom Cariongo* Que nos dá grpssa
mamata, Que nos dá grosso gim bongo.” (O Campeão n. 6 de
1861). D. Cariongo é tambem um qu alificativo de referen cia a
uma pessôa de quem não se quer declinar o nome p or dados
m otivos: Não sabes, aquelle D . Cariongo andou hoje p or aqui.
Caritó — Lugar escuso, onde jse reune gente baixa e de
de má reputação; cesebre; quarto ou com partimento pequeno,
acanhado; casa de habitação. “ Apenas acabou1 de falar, eis
que sahe do carito ou gabinete, uma figura humana de h o r­
renda catadura.” (O Careteiro n. 2 de 1853). “ Chegada ao ca­
ritó do
t
dr. Reguinho a commissão prom otora da manifestação,
notou-se a falta do orador.” (Jornal do R ecife n. 35 de 1916).
Caixa de madeira com tampa gradeada para a ceva de guya-
muns; especie de gaiola de madeira em que se exportam os a-
famados carangueijos de Fernando de N oronha; e no ser­
tão, uma caixa qualquer, para guardar certos" objectos, como
se vê destes versos locaes: “ Deixou-me um ga rfo de páu,
Tres dedaes num caritó. Eu saltei a janella, Que encheu-
me o corpo de nós, E na carreira que dei R ebentei uns caritós.”
Carnaubal — Floresta de carnaubeiras, a bella e utilissi-
ma palm eira (Capernica cerifera, M artius), que abundente-
mente vegeta na zona sertaneja deste e de outros Estados do
norte.” “ O povoado do E spirito Santo assenta sobre as m ar­
gens do rio Moxotó, bordadas de carnaubaes.” (S everin o H en­
rique de O liv e ir a ).. “ A margem esquerda do canal é coberta
de um grande carnaubal.” (Fernando H alfeld, O rio de São
Francisco. “ As grandes varzeas do Apody são cobertas de car­
naúbas.” (M anoel F erreira N o b r e ).
Carnaubeira — Bella e preciosa palm eira que vegeta no in­
terior do Estado em terrenos arenosos, algumas vezes, e ge­
ralm ente nos valles e ás margens dos rios e das lagoas, em ter­
renos planos, como, nomeadamente, se vê no valle do r io M o­
xotó. O prim eiro naturalisla que estudou e descreveu a car­
naubeira fo i .o d r. Arruda Camara, que em um artigo a re s ­
peito, publicado em 1797 no Palacio Portuguez, revista lisboeta
de grande acceitação, e dahi a sua denominação geral de A r-
rudaria carifera; Martius porém, deu-lhe a de Copernica c eri­
fera. Os hollandezes vconheceram-na, e M arcgravi trata da
planta sob o nome de Carnaiba, fazendo já mensão da cêra
que produz. A carnaubeira, como escreve Moraes, dá-se no
sertão de Pernambuco, e produz — uma especie de sêbo vege­
tal de que se fazem velas, que dura mais, e é mais forte e
enxuto que o sêbo vaccum. “ Em Pernambuco floresce a car­
naubeira, a arvore da vida, como a chamou Humboldt, com a
qual se fazem habitação, se fabrica toda a m obília - de uma
casa, e até vinagre, assucar,, e luz, produzida pela cêra, que
p or séculos alumiou o Brasil in teiro.” (A rth u r O rla n d o ). A
lém de taes productos, fornece ainda a prodigiosa planta f i ­
bras rijas c brilhante^ e uma espefcie de cortiça, farinha se­
melhante a maizena e uma gomma como a do sagu’ da índia
Oriental, vinho e alcool; o olho produz um palm ito de agra-
davel paladar, o fructo a especie e tamanho, e a sua folhagem,
em form a dé leque, depois de secca e extrahida toda a cêra,
serve para a fab rico de esteiras, chapéos, balaios, abanos e
outros objectos. De tudo isto, particular e detidamente se oc-
cupa o d r. Arruda Câmara em um longo o ffic io d irigid o ao
governador de Pernam buco Caetano P in to .d e Miranda Monte-
negro, da v illa de Goyanna em 26 de N ovem bro de 1809, em
solução do Aviso de 9 de Junho do mesmo anno, dirigid o ao
governador, o qual, entre outros assumptos, pedia in form a­
ções sobre a carnaubeira. Aquelle o fficio , que constitue um p re­
cioso documento para a historia da botanica brasileira, e par­
ticularmente para a da carnaubeira, fo i encontrado p or nós

210
no archivo da Secretaria do Governo, em original, e publica­
do na sua integra, no D iario de Pernambuco, de 28 de N ovem ­
bro de 1886.
Carneação — Acção de carnear, isto é, malar a rez para
alim entação; emboscada que faz a onça para a presa de gado
miudo, uma caça de qualquer especie, e mesmo do bezerro nos
curraes, para o matar e com er.” “ Havia uma onça que mo­
rava em uma serra, e só descia de lá de cima para fazer car­
neação.” (Conto pernambucano d’A Onça e o B oi)
Carne de sol — Carne de boi, disposta em mantas, salga­
da, e secca ao sol. E ’ o xarque sertanejo.
Carne de vacca — Madeira de eonstrucção.
Carne do Ceará — A carne secca, salgada, ou de x a r­
que, que apezar da sua actual procedência do Rio Grande do
Sul e do R io da Prata, ainda é assim vulgar e correntemente
chamada entre nós, mantendo-se d’est’arte a sua tradicional
denominação, pelo facto da sua originaria procedencla do
Ceará, principalm ente dos portos do Aracaty e Camocim, con­
duzidos os seus carregamentos em sumacas veleiras e de gran­
des portes. Como data averiguada da existencia do seu com-
m ercio entre nós, encontramos, que em 1746 vinham já do Ce­
ará carnes seccas de boi, sendo assim de presumir, que, já en­
tão tivesse o genero o nome particular de carne do Ceará, pela
sua procedência. Positivam ente sabido, porem, já o tinha erçi
1788, como documentadamente encontramos, e pelos annos de\
1811, como escreve Koster no seu liv ro de viagens: “ Outr’ora
exportavam do Ceará para as outras capitanias muita carne de
boi salgada; mas hoje todo o paiz recebe as suas provisões do
R io Grande do Sul. Entretanto, a que chega a Pernambuco con­
serva sempre o nome de carne do Ceará.” “ Indo um homem
comprar carne do Ceará em uma taberna no A tçrro dos A fo ga ­
dos, levou duas facadas.” (O Povo n. 81 de 1856). “ Apresentou-
nos um prato travesso de Carne do Ceará ardida com couve e
girim um .” (A Tempestade n. 12 de 1858). “ 0 homem pegou de
um facalhão de cortar carne do Ceará, e partiu feio e fo r te ” . (A
Pimenta n. 394 de 1906).
Carne do sertão — ü mesmo que carne de sol, e assim con-
currentemente chamada pela sua procedência sertaneja, onde é
prepaarda em geral, nas fazendas pastoris.
Carne fresca — A carne do gado abatido em um dia e ex ­
posta á venda no outro. “ Bateu-se na questão das carnes fre s ­
cas.” (A Lanceta n. 16 de 1890). “ Adeus peixe, adeus jejum !
Agora é a carne fresca que está na p on ta!” (A Pimenta n. 552
de 1907).
Carnegão — Corruptela de carnicão, porção de matéria
purulenta e dura que se form a nos furunculos e outros tumo­
res ” Massa mais ou menós dura, a que o vulgo dá o nome de
carnegão.” (D r. Theodoro Lan gaard) Moraes registra carni-
ção, porem manda vêr carnegão, que define. “ P o r esses sapa­
teiros remendões, republica será de carnegões.” (A Lanceta
n. 4: de 1889).
Carneirada — M oléstia endemica nas margens do rio São
Francisco, por occasião da sua vasante. Segundo a opinião de
Langaard, que a descreve, é m olestia de origem africana. F e r­
nando H alfeld faz referencias a essas carneiradas do dito rio,
— íebres interm ittentes mais ou menos perigosas, maleitas ou
sezões, carneiradas. — Term o portuguez, denomina as febres
endêmicas elas regiões tropicaes da A fric a .
Carneirinho — Peqiienas ondas, baixas, espumosas que
avançam celeres impulsionadas p or vento rijo, assemelhando-
s<: assim a um rebanho de carneiros cm disparada.
/
Carne secca — O mesmo que a carne do Ceará ou xarqu e;
o com merciante deste genero. “ Na rua da P raia ha um carne-
secca, que diariamente tem jogos prohibidos no fundo seu a r­
mazém.” (A Trom beta n. 1 de 1849). “ Não te inflam es carno-
secca, qüé eu jamais me in flam arei.” (O P ovo n. 183 de 1859).
Carne viva — A carne do gado no p ro p rio dia em que é
abatido.
Caroára — Abelha mansa, dom esticável, que produz sof-
friv e l m el. Molestia que ataca os bezerros geralm ente de ida-
da muito tenra.” “A c»roára que causa serios damnos m a­
tando ou aleijando os bezerros, é a nosso vêr a artbrite dos
renascidos.” (A p olon io P ere s )
Carôcha — M ulher velha, repellente; barata, bruxa. “ Ca­
rocha vendeu a saia P o r aguardente da praia; Agora, minha
carôcha, N em aguardente,-nem saia.” (Versos p op u lares). Ca­
rôcha é um vulgar insecto (carabu s), òccorren do uma espe-
eie m ènor com o nome de carocho. “ Eu sou a Cabra-cabriola,
come meninos aos pares, Tam bem com erei a vós Uns caro-
ch irth o sd e nada.” V. Chupado das carochas.
Caroço — Opinião, rigidez, intransigência. “ D eixa a bichh
nha que é de caroço; não lhe faças mais cortezias.” (A ^ e r i-
ea Illustrada de 13 de Junho de 1873). “ Quanto a mim, p éK
dendo um osso, damnado, m eio anarchista, quiz sustentar o ca­
roço, me conservei monarchistíK ” ( A Pim enta n. 81 de 1902).
Birra, teiró, m alquerença. “ Mamãe se damna com o caroço da
menina de luto do becco do Carmo, com a sua visinha,” (A
Pim enta n. 541 de 1907).
Caroçudo — Opimoso, intransigente, b irren to. “ Mulher
voluntariosa e caroçuda, que quando se agastava, tangia bôas
palmatoadas no basbaque do m arido.” (O Carapuceiro n. 13
de 1837).
Carolas — Libras esterlinas na gyriu dos gatunos^
Çarôna — Manta de couro fino, curtido, que se colloca
sobre a. sella, com bolços, em form a de alforges. “ P ra m on­
taria, carona” . (A Pim enta n. 12 de 1912). Calote, seixo.
“ Durante á sua estada na Bahia, a Laura, morou em m afa'd e
dez casas passando caronas em todas as abbadessas.” (A P i­
menta n. 381 de 1905) . “ Para quem passa caronas, um con ­
selho aqui vou dar: trate sempre de applicar bofetões, mur­
ros, taponas.” (Idem , n. 12 de 1912). Beaurepaire Rohan con­
signa o vocábulo com 'expressões outras, correntes nas pro-
vincjas m eridionaes e outras do norte, e dizendo que é de o ri­
gem castelhana.
Carpina — T erm o dado ao carpin teiro que se occupa dos
trabalhos de madeira das construcções civis, para o distinguir
do carpin teiro de construcções navaes, cujo term o asim ficou,
e perm anece. Á dicção vem, originariam ente, de carpina,
como os indios chamavam ao carpinteiro de casas, uma vez
que tinham qo seu idiom a: carapaná-ihu’ a, m adeira; carapin,
verb o transitivo, raspar a casca grossa ou escama, descascar,
lavrar, cercear, cortar em volta; e o adjectivo cerceado, apa­
rado, cortado, curto, breve, pequeno. (Baptista Caetano)
Concurrentemente, carapindar, é tambem uma expressão indi-
gena, significando lavrar, cercear, aparar, o trabalho do car­
pinteiro, portanto, e dahi a corruptela carapina> como ainda
escrevem Martius e Gonçalves D ias. O vocábulo carpina man­
tem assim a feição indigena, originaria, de carapina, e não é
d iffic il fix a r os pontos cardeaes de sua evolução até perder por
com pleto a form a p rim itiva. Vindfc» de epochas afastadas, e na­
turalmente logo no alvorecer da colonia, quando concurren­
temente com outros artistas portuguezes veio o carpinteiro, es­
crevia nos fins do seculo X V II G regorio de Mattos, que v ivia
entre nós: “ Mechanica disciplina Vem a im por p or derra­
deiro, O confessor m arcineiro Ao peccador carapina.” N a se­
gunda metade do seculo X V III assim usava da vetusta e c o r­
rente dicção o nosso poefa Felippe Benicio Barbosa“ O Fona
rei das pataratas, Traçado a meia noite de batina, P o r casa de
um e outro carapina, Enconnnendando rótulas baratas” . Fi-

213
nalmente Moraes, que escreveu o seu D iccionario entre nós
consigna carapina, ‘o carpinteiro, e cita a P rovisão do Conse­
lho U ltram arino de 20 de A b ril de 1736, em que se fala de ca­
rapina, verificando-se assim que até mesmo officialm ente, e na
metropole, tinha curso o vocábulo. Vem portanto, a sua trans­
form ação em carpina de epocha posterior ao apparecim ento do
referid o D iccionario, fixadam ente a sua quarta edição, de
1831, de modo que, o p eriodico Cova da Onça já escrevia car­
pina no seu n. 6 de 1835, como tambem Lopes Gama, em 1837,
no seu O Carapuceiro, demonstrando-se portanto a evolução da
sua corrente vulgar, até que tomou vulto e definitivam ente fi­
cando, não se emprega mais senão assim, e de um modo ge­
ral, consoantemente com estes versos dos nossos dias, do p oe­
ta cearense Juvenal Galeno: “ Na o fficin a do ferreiro , Do car­
pina, ou serrador.”

Carpinteiro — Especie de ave de ordem dos trepadores


ou zigodactylas (D ryopicu s erithrocephalus, L in n ).
Carranca — Usos e costumes archaicos, fora da moda, con-
dfcmnados'; um individuo im pertinente, insuportável, rabujento.
“ Ora vejam, qúe loucura, Que refinada sandice, Querer um
velho carranca Sêr amado... oh! que to lic e !” (O Povo n. 56 de
1855). D erivados: Carrancisnto, carrancice. “ Não me fala aqui
esta senhora senão em virtudes. Quem ha que dê mais fé des­
sas carran cices?” (O Carapuceiro n. 6 de 1842).
Carranquinha — Dança com musica e letra própria, que
começa: A dansa da carranquinha, de que provém a sua vu l­
gar denominação entre nós, mas evidentemente, produeto de
uma corruptela em face dos versos da lettra do R io de Ja­
neiro, que começam: A moda das taes anquinhas, racion al­
mente acceitavel, como referentes á extincta moda das anqui­
nhas.
Carrapachim — Este vocábulo, sem expressão própria, fi­
gura apenas em uma phrase de concordância irón ica ou de
condescendencia, e naturalmente como simples elem ento de
consonância. “ Pois sim, carrapachim .” (Lan tern a Magica n.
116 de 1885).
Carrapateira — Arbusto agreste, da fam ilia das Euphor-
biaceas (R icinus communis, L in n .), cujos fruetos, os carrapatos,
produzem o oleo de. ricin o ou mamona, e o azeite de carrapato.
Alm eida P into descreve a planía com o nome de carrapateiro,
e assim o registram os nossos lexicons a partir de Moraes, mas
o vulgo diz uniformemente, correntemente, carrapateira; e
214
como muito acertadamente escreve A lberto Bessa, a linguagem
popular é como é, e não como deveria sen ,... e estando a r e ­
colher o que se ouve e não o que se devia ouvir, consoante-
mente, registramos assim o termo como é vulgar entre nós.”
“ Nunca v i carrapateira Botar cacho na ra iz; Nunca v i moça
solteira T er palavra no que d iz .” (T ro va s p op u lares). “ Se­
mentes oleosas como. as da mamoneia ou carrapateira” . (D r .
Dias M a rtin s ).' N o Ceará tem tambem o vocábulo igual gra-
phia, havendo mesmo um rio chamado Carrapateira, que nasce
na juncção dos contrafortes da serra de Mombaça.
Carrapatinho — Madeira de construcção.
Carrapato — Nas locuções: Pegado como carrapato. Car­
rapato com tosse. “ O O liveira tem um typo de carrapato com
tosse.” (A Pimenta n. 63 de 1902). “ Disseram que elle tinha
a doença da princeza encantada, que é mal de am ores. N ão
faltava outra cousa! Carrapato com tosse, não ha duvida.”
(Jornal Pequeno n. 18 de 1916) . A mulher não casa com o
carrapato por que não sabe qual é o macho nem a fe m e a .” “ E
vão dizer que a mulher Não casa com o carrapato” . . . (E s-
trellas de Junho, R ecife, 1916). Os indios davam ao carrapato,
o conhecido insecto parasita da classe dos arachimedeos, que
ataca o gado, o nome de jatiu’ca.
Carrapeta — A creança; um individuo m agro e demasia­
damente b aixo. “ Apparece uma senhora pouco mais volum o­
sa que uma carrapeta.” (O Carapuceiro n. 5 de 1837). “ O tal
carrapeta, esse pequinitate Joaquim V illela, quê tanto m in­
guou em tamanho como cresceu em refalsam ento e am bição.”
(O Camarão n. 4 de 1848). “ Os carrapetas da troça carnava­
lesca são ainda menores que os anões que trabalharam no
Santa Izab el.” (O Estado de Pernambuco n. 49 de 1914). P e ­
queno pião feito de b ilro de fazer renda. “ B ilro curto é ca r­
rapeta.” (A Pim enta n. 3 de 1902). “ E ’ Y a yá toda chupêta,
gira mais que carrapeta.” (O V apor do Rio Form oso n. 15 de
1857). “ O Chiquinho quando dança, parece uma carrapeta
doida, a girar no meio da casa. (A Pim enta n. 31 de 1902).
Carrapetão — Mentira, falsidade. “ Que mentira descarada!
1874). “ Os jornaes publicam ás vezes muitos carrapetões, valha
a verdade.” (A Lanceta n. 16 de 1890).
Carrapicho de cigarro — Planta de abundante vegetação
e de grandes virtudes medicinaes.
Carrasco — T erren o secco, ou pedregoso, ou coberto de
uma vegetação espessa, porem de pouco porte, fraca especie de
mata anã composta de arbusculos de caule e ramos esguios, com

215
quasi um m etro de altura, e geralm ente conchegados entre si,
— Matto ralo e baixo. (S y lv io R o m e r o ). “ Em que carrasco
escondeu-se A encantada L a g a rtich a ?. . . Muitos vaqueiros de
fama Nos carrascos eu d e ix e i... Despediram-se uns dos ou­
tros, N o carrasco se internaram .” (Versos sertanejos). A nos­
sa flo ra registra um arbusto agreste com o nome de carrasco
descripto p or Alm eida P in to.
Carregado — N ocivo, que faz mal, causa damnos á sau’de,
como se diz de certas carnes e peixes que bolem com os hu­
mores. “ Bellas tainhas de Alagoas alcunhadas, mas so mui­
to carregadas.” ( A Pim enta n. 545 de 1907). Não engeito peru’
p or magro, nem pato p or carregado. (D ic ta d o ).
Carrego — Passo, pisada, andadura do cavallo. “ O andar
do cavallo: tem bons carregos. (M o ra e s ). “ Um cavallo lazão-
caxito, muito bonito e gordo, com todos os carregos, e de mui­
to bôa figu ra ” . (O Cruzeiro n. 120 de 1829).
C arreirão — Carrqira vertiginosa; correr a bom correr:
A brir num carreirão.
Carretilha — Peça de metal, tendo na extrem idade do
cabo uma pequena rpda dentada em linhas curvas, m ovediça,
para cortar a massa de fo rra r bolòs, pasteis de carne, sequi-
lhos, etc.
Carreto — A carga que um homem pôde conduzir á ca­
beça: Fazer por carretos a mudança de uma casa; ajustar,
pagar por carretos.
Carroção — Q mesmo que caminhão.
Cartola — Chapéo alto de pello de sêda. “ As tabocas
elevaram-se quinze covados acima das mais altas c a rto la s.”
(A m erica illustrada n. 21 de 1878). “ Dez m il réis uma car­
tola lu zid iã !” (A Pim enta n. 14 de 1902). “ Rapaz pachola,
Que usa cartola, V ai n’Avenida Cavar a v id a .” (íta lo B ertin i).
O vocábulo vem de quartola, o casco ou b a rril de meia pipa
ou quarto de tonel. “ S. E xc. muniu-se immediatamente de
uma quartola decente e condigna á sua elevada p osiçã o . ” (O
Diabo a quatro n. 51 de 1876),, A cartola, cujo vocábulo é
geralm ente corrente, porem que, entre nós, particularmçnte,
tem os concurrentes de bacorinha, cano e catim plora, é um
chapéo de origem ingleza, e o centenamo do seu apparecimen-
to, fo i festivam ente celebrado em Londres em 1913. D e riv a ­
do: encartolado.
Cartucho — Indivíduo de baixa estatura e gorducho.
Caruára — Comichões, sarna, boubas.
Carurú — Bredo caruru, Phytolacca muito vulgar entre
nós; certa especie de cipó da nossa flora, sem classificação
conhecida; o mesmo que angú ou angpzô. “ Não imaginam o
appetite que sinto continuadamente pelo tal- carurú.” (O Pa-
pa-angú 1 de 1&46). “ L á na Praça Dezesete E ncontrei certa
coquete Da terra do carurú.” (A Pimenta n. 16 de 1901). E ’
a Bahia, de onde é origin ário o carurú, incontestavelmente
um dos bons pratos da sua particular e tão apreciada cosi-
nha; e constituindo a famosa iguaria, na phrase de Beaure-
paire Rohan, uma especie de espárregado de hervas e quia­
bos, principalm ente, o seu qu alificativo é um vocábulo de
origem indigena, com a expressão de folha ou herva grossa,
inchada, aquosa, folha mucilagihosa, segundo Baptista Cae­
tano; ou corruptela de caá-rerú, prato de herva ou de f o ­
lhas, como pode ser tambem, ao juizo de Th eodoro Sam­
paio.
Carvalhista — Partidario do presidente Manoel de Car­
valho Paes de Andrade, chefe do movim ento revolu cion ário
de 1824, que proclam ou a Confederação do E qu a d or. Con-
vulcionada toda a provincia, constituíam os carvalhistas
uma grossa corrente, e tão enthusiastas e exaltados, que che­
garam mesmo a usar de um penteado particular, chamado
cabellos á carvalhista. Dentre esses exaltados patriotas oc-
cupava figura de destaque uma mulher de nome Clara, distin-
ctissim a guerreira das hostes republicanas, que levada de en-
thusiasmo partidario desprezou os seus appellidos de fam í­
lia, portuguezes todos, adoptando então o nome de Clara M a­
ria do Café Carvalhista, que figura somente nas nossas tra-
disionaes legendas populares, uma vez que as chronicas e
jornaes corvos a esqueceram por completo^ “ Se m orriam
190 soldados carvalhistas, era o boato do dia, que tinham m or­
rido 200 m orgadistas. ” (O Cruzeiro n. 161 de 1829). “ Em
1824 pára se liv ra r dos carvalhistas fugiu para o matto, onde
occultou todas as suas joias e d in h eiro s.” (lidem, n. 177).
Carvoeira — Cova de .certa extensão, largura e profu n ­
didade pnde se deita lenha para o fab rico do carvão. “ O si­
tio, pelo lado do sul, confinava com as terras onde o senhor
do engenho Bujary tinha umas c a rv o e ira s ... O rapaz reco ­
nheceu que se achava nas carvoeiras onde tempos atraz lhe
tinham ido tão mal as cousas.” (F ra n k lin T a v o ra ) — V . cova.
Casaca — Homem de condição c iv il assim chamado para
distinguir do m ilitar; servente de repartição publica, p rote­
gido, e que não faz o serviço que é p ro p rio : Servente casaca.
Caso, questão cabedal. “ Ora não faça casaca disso, que já
217
a* muita gente bôa tem succedido essa caçoada.” (O Vapor
dos Traficantes n. 186 de 1859). ‘'Injuriou-se delia d izer que
não queria casar como vm c? Ora moço, não faça casaca dis­
t o . ” ( A D errota n. 10 de 1883).
Casaca de couro r— O sertanejo, em allusão ás suas ves­
tes de serviço feitas de couro.
Casa cheia — Pessôa alegre, affavel, prazen teira; agra •
davel, maneirosa, insinuante, que sabe fazer ás honras de
uma sala: A Maria é uma casa cheia!
Casa de tolerancia — V . Recurso.
Casadinha — Mulher casada que não se conduz bem .
“ De uma bella casadinha Indo na rua m orar, A fim de á no-
m arar' Illu de ao bom do m arido E é delia bem q u e rid o .” (O
Barco dos Traficantes n. 68 de 1858)1
Casado na igreja verde — O que v iv e em união illèg iti-
ma, em concubinato. “ Menina assim nunca perde O v icio
de passear; E portanto ha de casar Em bora na igreja v e r­
d e . . . Os molequitos, productos daquella união na igreja v e r­
de, traquinam pelos campos ein grande a lg a za rra .” ( A P i­
menta n. 23 de 1901).
Casaveque — Corruptela de casabeque, tem a >sua própria
expressão de casaquinho ou casaco, de que usam as mulhe­
res. “ Meninas de casaveque, e de chapéo de barraca. (Q Vapor
dos Traficantes n .. 95 de 1859). “ De balão e casaveque, e p e­
neira na cabeça.” (O Campeão n. 38 de 1862). “ Na vespera do
Natal o m ulherio tratava de enfeitar os- seus casaveques de la­
ços em profusão.” (A Pim enta n. 29 de 1901).
Casca — Roupa, vestimenta, traje. “ Cuidar-se mais da
casca, finalm ente, que do p rop rio m io lo ? ” (L e o v ig ild o Ju­
n io r) .
Cascabulho — A espiga ou sabugo do m ilho depõis de
li rada toda a palha que o envolve e os grãos que o revestem
encravados nos alvéolas. A fim de que as gallinhas b reve­
mente larguem o choco,, dependura-se-lhes no pescoço uma
quenga de côco, um cascabulho, ou então atravessam pelas
ventas uma penna da própria ga llin h a .” (O Telegrapho n.
4 de 1850). Cascabulho de m ilho não é hom e; Quem não
póde com a carga não a tom e. (D ic ta d o ). Ophibio de ven e­
no violento, assim chamado porque ás vezes toma a fôrm a
de um cascabulho de milho, estudante do curso de humani­
dades ou p rep aratoria n o. “ O Olindense do D iario N o v o não
deixa de sêr algum cascabulho.” (O Guararapes n. 17 de
1844). P o r aqui se vê que o vocábulo, com esta expressão,
já vêm de longe, remontando-se, acaso, ao tempo da installa-
ção do Curso Juridico de Olinda, em 1828. “ Famoso brodio,
ou como o denominaram m elhor os cascabulhos olindenses,
grande d eboch e!” (O Esquelito n. 6 de 1846). “ Uns pobres
tolos cascabulhos de cartola nos trens de O lin d a .” (O C or­
reio de Olinda n. 2 de 1891).
Casca grossa — Grosseirão, ignorante, estúpido. “ O es­
tiolado Antoninho, póde muito bem v ir a ser um grande v e ­
getal. Poderá não dar fructo; mas dará forçosam ente bôa
cortiça. Já não é pouco ter a casca-grossa.” (O Diabo a qua­
tro n. 74 de 1876). “ Sentimento humanitário o casca-grossa
não te m .” (A Pimenta n. 393 de 1905).
Casçar — Applicar, impor, prom over, processar: cascar
lima supensão, demissão, um processo, e dahi a phrase: Cas­
car o Anno do Nascimento em cima. Botar deitar, atirar, ex ­
por.' “ Compadre, ha nesta terra, Certos sujeitos safados, Que
precisam ser cascados.” (D erro ta n. 7 de 1883).
Cascarrinha — 1Especie de trança de fitas estreitas, ou de
palinha fina, para enfeite de vestidos e chapéos.
CascaVel — Especie de pomba (colu m ba), assim chama-
mada p o r em ittir quando vôa, um som semelhante ao choca­
lhar da cobra deste nome: Rola cascavel; venenoso ophidio
(C rotalushorridus), a Bocininga dos indios, como assim já
a registra o P . José de Anchieta (1560), com o mesmo que
cobra que retine, que chocalhar, pois tem na cauda uns gui­
zos que resoam quando caminha; ou a Maracá boya, como
a define Gonçalves Dias, com a mesma expressão, vindo
dahi o seu nome vulgar de cobra cascavel. “ Praga de cas­
cavel não mata m o c ó .” (D ic ta d o ). Mulher genista, m alcria­
da, iasu p p ortavel. “ Moça ciumenta, e que ralha todos o.s
dias com o marido, é cobra cascavel.” (A m erica Illustrada
de 17 de Agosto de 1873). Boicininga, segundo T heodoro
Sampaio, é corruptela de m b oy-cynynga,.cobra resonante, co­
bra chocalhante, a cascavel; altera-se não raro para b oiei-
nunga, e boiçununga, Anchieta.
Cascavilhar — Indagar, pesquizar, investiga; procurar
com interesse uma cousa qualquer revistando e mexendo
em tudo. “ T ive sempre muita vontade de campar p or littera-
to, e p or isso ando sempre a cascavilhar uns termos esquisi­
tos, antigos, para encaixar na con versação.” (M arm ota n. 2
de 1844). “ CascaVilhei todos os muafos e todos os soca võ es.”
(Jornal de R ecife rí. 45 de 1914). “ Rem exo, cascavilho no
bestunto do meu intellecto, e debalde, nada e n co n tro .”
(Idem , n. 50). Encontramos o desusado verbo escascaviar,
que corresponde ao vulgar cascavilhar, assim consignado:
“ Vamos desta vez escascaviar peccados velhòs e mofentos,
com a nossa prudência sabida e toda a decencia p o s s ive l. ”
(O P ovo n. 17 de 1855).
Cascudo — Pequeno peixe de rios e lagos (L a rica ria ma-
culata, Leeep.), de casca grossa e consistente, provindo dahi
o seu nome vulgar; velho grostesco, teimoso, impertinente, in-
supportavel: Um velho cascudo; um individuo ingênuo, tolo,
de facil exploração: Pae de cascudo. Pancada sobre a cabeça
dada com a mão aberta ou fechada; bordoada, tunda, surra:
D ar levar uns cascudos. “ O Sr. Corja que na sua missiva tan­
to falou em cascudo, se nunca pensou, pouco depois, levar tan­
to cascudo!” (O Diabo a quatro n. 9 de 1875). “ O sexo enru­
gado aúdou lá aos cascudo, o que poz em revolução toda a
igreja .” (A m erica Illustrada n. 1 de 1880). “ Na farça eleito-
toral quiz levar tudo a cascudo.” (Pernam buco n. 223 de 1913).
Caseira — Concubina, mulher que v ive com um homem
á laia de esposa. “ O padre a quem Deus haja, tinha a sua ca­
seira.” (A m erica Illustrada de 7 de Janeiro de 1872). “ A R o ­
mana, caseira do Zé G arrote.” (V iria to C o rreia ) “ Thim oteo
renunciára a pretenção de trazer sopeada a caseira.” (F ran -
klin T a v o ra )
Caseiras — Hem orrhoidas. Quando o Manoel está ataca­
do das caseiras só o diabo o pode supportar. “ Um roncar de
tripas em consequência da idade e 'd a s caseira s.” (A m erica
Illustrada de 2 de Junho de 1872). “ A maldicta das caseiras
fizeram -m e brincadeiras da pelle do in im igo.” (Idem , de 7 de
Dezem bro de 1873). “ E lle apenas é enconnnodado pelos a r­
dores da inspiração e . . . pelas caseiras, que lhe sobem á ca­
beça! (O Diabo a quatro n. 36 de 1876).
Caspite! — D icção in terjectiva de cumprimento, saudação,
e ás vezes na locução: Caspite dom ine!, de iguaes expressões.”
Caspite! B on ito! O Sr. J. B. de Senna é o guapo orador effec-
tivo do dia 12 de Outubro.” (D ia rio de Pernambuco n. 505
de 1830). “ Caspite! com reveren cia minha com adre Zephi-
n h a!” (O Paladim n. 36 de 1852). “ Caspite! não ha no mundo
um m ercador do seu lote.” (O Barco dos Patoleiros n. 84 de
1866). O termo, porém, já tem os seus eajús, uma vez que o en­
contramos neste versos do nosso poeta L . F . de Carvalho Cou­
to fallecid o em 1808: “ Caspite! minha senhora! Estou-lhe mui­
to obrigado; Enganei-me. Paciên cia! Não serei mais enganado.”
Casquinho — Metal branco empregado no fab rico de ob-
jectos diversos, principalm ente de usos domésticos. “ Perdeu-
se uma fiv e lla de casquinho dourado.” (D ia rio de Pernam ­
buco n. 371 de 1830). “ Vende-se castiçaes, palmatórias, sal­
vas e tinteiros de casquinho.” (Id em n. 398 de 1834).
Cassaco — Timbú, gambá, saruê, ou sariguê, m am ifero da
ordem dos marsupios, sendo este seu nome vulgar, corrupte­
la de comsacco, da especie de bolça ou sacco que a femea tim ­
bú ou cassaco tem na bariga onde recolhe os filhos segundo
Paulino Nogueira. Trabalhador de estradas e serviços de cam­
p o. “ O gallego acaba agora de passar uma quengada em um
caixeiro e diversos cassacos.” (A Pim enta n. 1G de 1914). R e ­
duzido a um cassaco do cisco da limpeza publica.” (Lanterna
Magica n. 740 de 1903). “ Os cassacos da usina Só comem car­
ne de b oi; Trabalham a m il e quinhentos, Recebem cruzado e
d ou s.” (C ancion eiro do N o r te ).
Cassange — F alar incorrectam ente como os africanos
cassánges falavam o portuguez. “ Os apartes do Sr. Carneiro
da Óunha, appellidado pelo S r . Lopes Gama por deputado
cassange.” (O Gualda N acional n. 38 de 1843). “ Mamãe se
damna com o phraseado cassange do Augusto B e llo .” (A P i­
menta n. 532 de 1907). Escripto incorrecto, inçado de de­
feitos de linguagèm . “ A linguagem dessas folhas é fastidosa
e nojenta, e o seu estylo atira-se muito para o Congo ou
Cassange.” (O Guarda Nacional n. 21 de 1848). “ Que lin ­
guagem d e . . . ra lé! Responda-me com franqueza: Isso é cas­
sange ou não c ? ” (Jornal do R ecife n. 29 de 1914). “ Ha
quem diga, porém, que elle é mestre em cassange Pois pensa
e fala e escreve em lingua de zu lú s.” (D ia rio de Pernambuco
n. 225 de Í9 15 ).
Castanha — Nom e vulgar de diversas fructas indígenas,
embora nenhuma relação tenha com a Castanea vulgaris p ro ­
veniente da Europa. (Beaurepaire R oh a n ). Entre nós porem,
á dicção castanha, se associa logo a idéa da do cajú, cuja
noz ou amêndoa, além das suas preconisadas virtudes e ap-
plicações varias, assada ou confeitada, é saborosa, e de um '
paladar superior ao das amêndoas doces. “ De varias côres
são os cajús, bellos, Uns verm elhos, outros amarellos. E co­
mo varios são nas varias cores, Tambem se mostram varios
nos labores; E creou a castanha, Que é m elhor que a de Fran ­
ça, Italia, H espan h a.” (M. Botelho de O liv e ira ). A castanha
chôcha, mirrada, sem noz, tem o nome particular de casta-
tanha mandinga.” (Id em n. 50 de 1907). Rosário de castanha,
applicada tambem a uma casa' parecida assim com o seu feitio :

221
cara de castanha mandinga. “ Um typo qualquer de m agricela
com o rosto de castanha mandinga. (A Pim enta n. 6 de 1901).
“ Joanninha é feia, e chôcha, é castanha mandinga.” (Id em n. 50
de 1907). Rosário de castanhas.” (Lan tern a M agica n. 12 de
1882).Cafunar castanha: jogar as castanhas. Quebrar a casta­
nha: humilhar, subjugar, abaixar a grimpa. Quando você ia
aos. cajús, já eu voltava com as castanhas assadas; Castanhas
não são dendês. (D ictad os). Vocábulo portuguez, de origem la ­
tina, (catanea), adoptaram-no os indios com a voz de catanha,
com o escreve Martius, despresando assim as denominações que
tinha no sèu idiom a de acaguacaia, acagite, itamboera, regis­
tradas* p or M arcgravi. Era com a castanha do cajú que os in ­
dios faziam a contagem da sua idade, depositando uma, annu-
almente, em uma vasilha qualquer.
Castanholas — Este term o é o mesmo que castanhetas, do
vernáculo: Estalido que se dá com os dedos, fazendo resaltar
o dedo grande sobre o pollegar; trinco. “ Lourenço cahiu no
m eio da roda, fez o seu sapateado, deu meia duzia de cas­
tanholas, e atirou uma embigada na rapariga que lhe ficava
mais p e r t o .” (F ra n k lin T a v o r a ). “ E lla fugia miudinho, to­
cando castanholas com os dedos, e deslisando serena, ligeira,
subtil, nas pontas dos p é s .” (F a b io Luz;). “ Ao afinar da viola,
Quando estala a castanhola, Ferve a dança e o desafio.” (M ello
Moraes F ilh o ). Usados assim nas danças populares, bem como
para acentuar a expressão de certas phases, têm uso geral
na Maçonaria, como manifestações de applausos, concordân­
cia, approvação, segundo mesmo os seus proprios rituaes. D e­
riv a d o : Castanholar. “ A Jovita sahiu em passinhos miudos,
castanholando os dedos aos requebros maiores dos quadris bo­
ju d o s .” (V iria to C o rre ia ).
Casteado — Anim al de raças cruzadas; individuo que não
é branco puro. Aquelle sujeito não é lá muito Christão: é um
pouco casteado.
Castello — Casa de habitação de rapazes, geralm ente do
com m ercio. “ Tom o o p rim eiro bond de H erva l e quebro para
o castello afim de apertar a b o ia .” (A Pim enta n. 45 de
1902). “ Achava-me no meu castello, apreciando um havana,
quando ouço bater apressadamente a p o rta .. . Era a p olicia.”
(O Piparote n. 1 de 1903).
Castiçado — O mesmo que casteado.
Castigo! — D icção interjectiva do populacho eivado de
superstições na occurencia de um phenomeno extraordinário,
como terrem otos, inundações, estiagens, epidemias, graves e

222
lastimáveis acontecimentos; ou quando um indivíduo blas-
phema contra a divindade e a religião, ou por actos indignos e
de perversidades é victima de infortupios e irreparáveis des­
graças. Castigo! Castigo de Deus! Castigo dos Céos! A dicção
figura com iguaes expressões na giria da ilha de S. Miguel
dos Açores, segundo o vocabulário local do general Henrique
das Neves, citado por Alberto Bessa.
Catana — Na phrase jMetter a catana, falar mal de outrem,
detractar, dizer cobras e' lagartos, acqepções estas que p e rfe i­
tamente se harm onizam com a origeril da palavra catana, que
segundo Bluteau vem do vocábulo japonez katana, espada, al­
fange, terçado, faca, armas cortantes, e dest’arte consoante-
menie com as expressões da locução correspondente de C o r­
tar a pelle alheia. E ’ assim, que D . Francisco Manoel de M ello
dizia já no seu tempo (meiados do seculo X V II) a um desses
tristes maldizenteç, cortadores da pelle alheia: “ Pois você é
bôa catana.” A introducção do vocábulo em Portugal vpio das
relações commerciaes que os portuguezes tiveram com os ja-
ponezes nos séculos X V l e X V II; e estudando Gonçalvez V ia ­
na a sua origem philologica, cita uns versos do poema quinhen­
tista Malaca conquistada, do notável poeta Francisco de M i­
randa, em que o termo vem ja assim empregado na accepção
própria de arma de combate: “ E nos deram do mal já tardo
aviso, Mil crises, m il catanas d’ im p roviso” . Entre nós, porem,
já o term o era corrente na segunda metade do seculo X V II,
como se vê deste verso de G regorio de Mattos em um dos seus
romances: “ Golpes, catanadas, tiro s ;” e assim até presente­
mente: “ A qu illo que reluz dalli do canto são espadas, catanas
e parnahybas. . . Da mão, em vez do chiqueirador de bura-
nhein, que trazia, pendia agora uma catana fóra da b a in h a .”
(F ra n k lin T a v o ra ). O term o ‘ teve tambem entrada na Hespa-
nha, com a voz de catan, e naturalmente teve tambem exten­
são nas suas colonias, como occorreu em Portugal. Que che­
gou ao Chile, comprovadamente, colhemos de Zorobabel Roiz,
que escreve, contemporaneamente, que o povilh éo dá o nome
depreciativo de catana ao sabre dos policiaes e serenos, citan­
do esta quadrinha do E l H uérfano: “ De la cintura le pende
Una cortante catana, Que a la coSa mas pequena Sale fuera de
su v a in a .”
Cata-piolhos — 0 dedo pollegar, assim chamado na co­
nhecida parlenda do jogo dos dedos. Numa variante portu-
gueza dessa parlenda tem porem o nome de mata-piolhos; mas
entre nós é vulgarissima aquella expressão de cata, consoan-

223
temente com esta quadrinha das nossas trovas populares: Co­
madre, minha comadre, Comadre bastante ingrata; Venha ca­
tar-me piolho, Que ha muito tempo não cata.”
Cataporas — Nom e vulgar da varicella ou variola ben ig­
na, concurrentemente com o de bexigas doudas. Vocábulo
de origem indigena, é uma corruptela de tata-póra, fog o que
irrom pe, afogueadamente da pelle, ou fogo interno, interior,
segundo Gonçalves . Dias.
Catatáo —* Enredo, m exerico in triga; accuSação, qu ei­
xa, denuncia: Fazer um catatáo. “ Depois Naçú arma, A o po­
bre patáo, Um tal catatáo, Que o põe azuado” . (A Carranca
n. 22 de 1847). Castatáo é um antigo term o da giria portugue-
za. que Bluteau regista como da chularia, com as expressõe*
de dar com um pau, castigar, e Moraes, igualmente, e já com
outras. Os modernos lexicons, porem não o registam.
Ca te espero — Bacalháo (Gadus merlangus), o conhecido
peixe secco, espalmado, geralm ente origin ário da T erra Nova,
um..dos principaes generos alim entícios. “ Quaresma! Tem po
do peixe, mas em que o pobre estala gramando no catispero.”
tA Pim enta n. 545 de 1907).
C ategorioo — Serio, form alista, enfatuado, pretenciofio,
“ Apezar do seu categorismo marcial, algumas cousas me reve­
lou em phrase curtas e cortadas” . (O P ovo n. 62 de 1855).
“ E nérgico como um cavalheiro visigodo, tem o categor^co do
Chanceller Germ ano” . (A m erica Ulustrada de novem bro de
1872).
Catimbau ou catimbó — Mandinga feitiçaria, sortHegio,
casa de feiticeiros, sessão ou pratica de feitiçarias. “ O sub­
delegado do C ordeiro deu cerco e busca numa casa de catim­
bau.” (Jornal do R ecife n. 66 de 1918). “ Na rua do Gerimú,
em Afogados, existe uma casa conhecida por Catimbó, onde
sq.praticà toda a sorte de bandalheiras, relativam ente a b r u ­
xedos, descidas de reis, subidas de principaes, e caboclos de
Lonada.” (A Pimenta n. 89 de 1902). “ O Catimbó é tambem
uma crença como qualquer outra. (Lan tern a Magica n. 806
de 1905). “ O catimbó continua a ser explorado, e as seus adep:
tos são numerosos” . (D ia rio de Pernambuco n. 105 de 1915).
D erivados: Catimbozada, catim bauzeiro ou catim bozeiro, “ P re ­
sos os catimbauzeiros, momentos depois foram eles postos
em liberdade.” (Jornal do R ecife n. 66 de 1918). “ A catim bó-
zeira exigiu da Cotinha que a consulta íosse paga adianta-
dumente.” (Á Pim enta n. 497 de 1906). “ Um outro ponto tam ­
bem minado p or catimbozeiros, é o Feitosa” . (D iá rio de Per-

224
nambueo n. 154 de 191G). Não raro, porem, occorre a variante
de catimbáo, com as mesmas expressões do vocábulo, e assim
figura mesmo conto nome de um arraial no m unicipio de
Buique e de uma serra tambem ali situada; e como igualm en­
te assim se vê nos vocabulários de Beaurepaire Rohan, Ro-
dolpho L en z e Zorobabel Rodrigues, mas com accepções dif-
ferentes, servindo apenas estas mensões parà demonstrar §
curso de extensão que tem o termo. Como ponto mais rem o­
to do em prego desta variante, encontramós o nome do peixe
de agua doce, P irá catimbáo, consignada p or Alexandre R o ­
drigues F erreira e citado p or Gonçalves Dias, e, como termo,
esta mensãò: “ Innumeras são as victim as do espiritismo, do
catimbáo, da feiticeira africana, do fanatismo re ligio so ” .
(Pernam buco n. 310 de 1913). Sobre a sua etym òlogia e origem
segundo o D iccion ario portuguez e brasiliense (1795), vem
do dialecto tupy do Amazonas, com a expressão de sarro; e
com o escrevem Martius e Gonçalves Dias> catimbáo repoty
significa sarro de cachimbo, vindo catimbáo, isoladamente,
ao juizo de A lfre d o de Carvalho, como corruptela de çáatin-
inibai, matto, ou folh a branca ruim, catinga ruim, que pode
muito bem ser o fumo, tabaco, a nicotina tabacum, de Linneo
Catimbáo, segundo uma definição que encontramos, é cachim­
bo de tubo com prido e fumarento, e como escreve Moraes
cachimbo pequeno, velho, vindo dahi, naturalmente nas sessões
de feitiçarias, catimbós oit catimbáos, figurar ò cachimbo co­
mo um dos principaes obj.ectos de mesa, e convenientemente
usado segundo o grotesco cerim onial do acto. Tem os assim
a etym ologia do vocábulo segundo as expedidas opiniões.
Surge porem uma duvida: Catimbáo era um term o corrente
em Portugal, e já em vóga nos albores do seculo X V III como
com prova o seu registro p or Bluteau, com a expressão de
homem ridiculo, que o abona com este anexinr ou dictado
portuguez, sem duvida; o rigin ário de epochas anteriores: “ D i­
zei ao mestre Catimbáo, que se vá embora e dai-lhe com o
páo.” Como perece a elle, o term o vem de cantibai, nome de
uma peça de madeira, corrente entre os carpinteiros e m ar­
ceneiros francezes. Registrando Moraes o termo, com o chulo,
e do Brasil, cachimbo pequeno velho, como sem duvidas a
dá aquella mesma definição, ainda era corrente enr Portugal,
sim o encontrou em vóga entre nós. O vocábulo, porém, já não
apparece nos modernos lexicons portuguezes. Entretanto, f i ­
ca assim registrada a controvérsia.
Catimplora — Sorveteira; cartola ou chapéo alto. “ A enor
me e mais collossal jaca branca é a em que anda mettido o cra-
neo do Perrezas. E como é bonita a catim plora do nosso ami­
g o !” ‘(A m erica Illustrada n. 6 de 1880). O vocábulo é portuguez
e antigo, mas já em desuso e fóra de mensão nos modernos
diccionarios. Lopes Gama o consigna, tratando de uma velha
casquilha, mettida a namorada, mas com uma expressão equi­
voca, parecendo-nos comtudo, com a de um chapéo enorme,
descommunal: — “ Se vê olhar attentamente para ella algum
moço, que naturalmente está admirando a cascata, ou rindo
daquella catimplora, já se persuade que filou um amante.” (O
Carapuceiro n. 16 de 1837). Bluteau consigna o termo, porem
manda vêr cantimplora, que pela expressão que dá, parece que
vem dahi o nome de catim plora dado á sorveteira,.
Caatinga — Uma das zonas divisórias do territorio do Es­
tado, caracterisada por accidentes geographicos particulares,
e outras circumstancias especiaes de clim a e vegetação; ter­
ras approximadas ao sertão, e fechadas ou cobertas de car-
rasqueiros e outros vegetaes da flora sertaneja. “ Chama-se
catinga o mais do sertão, que está pelo menos afastado vinte
leguas do mar, que é terra secca, de pouca agua.” (G abriel
Soares de Souza). “ Em uma das minhas missivas lh e decla­
rei que m orava nas catingas, entre rudes e grosseiros entes.”
(A Tempestade n. 25 de 1858). Matto de pouco porte, enfezado,
que na estação calmosa perde a sua folhagem, cerrado, ou es­
parso, form ando grupos distinctos. “ Alguns altos, povoados
de catingas de ju re m a ... A varzea das Crioulas é uma gran­
de planicie cercada de catingas.” (Caneca, Itin e rá rio ). V iv ia
nessas montanhas. Nessa catinga c e rr a d a ... C orro fora nes­
tes campos, C orro dentro da catinga.” (C an cion eiro do N o r ­
te ). D erivado: Catingueiro; P erfe ito conhecedor das catingas,
muito pratico nas suas entradas e cáminhos. “ Nesse tempo
tinham ido A Pajehú v e r um vaqueiro, D ’entre muitos que lá
tinha, V iera o mais catingu eiro. . . Este como experiente E ser
homem catingueiro Marcou muito bom tempo De mandar os
seus vaqueiros.” (Versos sertanejos). Catinga, vocábulo de
origem tupi, segundo Th eodoro Sampaio, tem a expressão de
— matto espinhento, retorcido e áspero, que cobre uma terra
arenosa e quasi esteril, dominando largas extensões' denom i­
nava-se no tupi: caatinga, matto branco, ãlvacénto, de • que
procede ó vócabulo catinga, affeiçoado já ao portuguez e mui­
to commummente empregado no noirte do Brasil, mas, de
fácto, bastante expressivo porque pinta o aspecto particular
d essa vegetação, n o t o m gèral, acinzentado e esbranquiçado:**
Gonçalves Dias dando ao vocábulo a mesma etym ologia de caa­
tinga, d iz que tem a expressão de matto rasteiro, enfezado, e
dahi chamar-se catinga a zona de vagetação paupérrima;
Martius, a de matto alvo, rasteiro; Baptista Caetano, escreve
que se trata de uma corruptela do guarani caati, matto branco;
e assim, consoantemente, outros escriptores. Beaurepaire Ro-
han, porem, divergindo de todas estas opiniões escreve; “ Es­
pecie de mattas enfezadas que se estendem pelo in terior do
Brazil, desde a parte septentrional de Minas Geraes, Goyaz e
sertão da Bahia, até o Maranhão. Lon ge de apresentarem mas-
siços impenetráveis como esses que caracterisam nossas flo ­
restas prim itivas, consistem geralm ente as catingas em arvo­
redos tortuosos, e a m aior parte das vezes sufficientem ente
separadas uma das outras, de maneira a facilitar o transito
de um cavalh eiro; e ha vaqueiro que na perseguição de uma rez,
correra por ellas a galope, bem que com manifesto perigo de
vida. Muito se tem discutido a etym ologia de catinga, coinu
denominação das mattas de que tratamos. Pessoas ha que, f ir ­
mando-se apenas na estructura actual deste vocábulo, o fa ­
zem d erivar de caá-tinga, matto branco. Esta interpretação
não tem o m enor fundamento. Com effeito, as catingas nada
apresentam que justifique o em prego do adjectivo branco
para as qu alificar. O que as torna notável, como pude obser­
var nas minhas viagens pelos sertões, é que, passada a esta­
ção das chuvas, perdem completamente a folhagem e ficam,
durante parle do anno com o aspecto de mattas seccas. Foi
desse facto que parti para resolver a questão de um modo ra­
zoável. Catinga não é mais do que a contracção de caa-tinga,
significando mattas seccas, arvoredos seccos.” O illustre es-
criptor desce ainda a outras ordens de considerações em jus­
tificação das suas idéas sobre o assumpto, e com as quaes nos
confessamos de plenissimo accordo, pelo menos quanto a Per^
nambuco, onde o que se chama catinga, é exatamente o que
se amolda ás suas observações. Seja como fôr, o vocábulo
íem uma corrente que se prende ao seculo X V I, como vimos
da sua definição dada p or Gabriel Soares, escriptor do tem­
po. Catinga tem tambem a expressão de fartum, cheiro forte,
desagradavel, que se exhala de qualquer cousa, ou substancia
deteriorada, em decomposição, e bem como do corpo humano,
sobre tudo dos africanos, e de certos vegetaes e'anim aes.
“ Não defumeis com catinga O Marquez de Candomblé.” (O
A m igo do P ovo n. 7 de 1829). “ O amante de Syringa Tinha
pello e má caatinga.” (L u iz Gama) N egro p reto côr da noite
Tem catinga de xexéo; Tom ara Nossa Senhora Que negrò
não vá ao céo.” (T ro va s populares). Nesta accepção é tam­
bem o term o registrado em alguns vocabulários pxtranhos, e
Lenz assim se exprim e com relação á Argentina, exem plifica-
damente, citando a Granada: “ O lor sufocante e desagradabie
que despiden ■ naturalmente algunos animales. Intenso olor
de la transpiracion de los negros.” D erivados: Catinga, ca-
tingoso, catinguento, de expressões obvias. “ Já pela escada
abaixo, patife; já me está a catingar o aroma de senzalla
(O Vapor do R io Form oso n. 15 de 1857). “ Besta, e namorado,
catingoso ou fedoren to.” (A m erica Illustrada n. 54 de 1877).
A nossa flora registra varias especies de vegetações com o
nome de Qatinga, das fam ilias das leguminosas, labiadas e
meliaceas, e duas outras especies com o de catingueira, das
fam ilias das leguminosas e euphorbiaceas. Finalm ente, na
nossa orn ith ologia figura uma especie de ave com o nome de
Catinga de cacjjorro (Danocobius brasiliensis), da ordem Deo-
dactylis. Catinga, na accepção de máo cheiro, é um vocábulo
originariam ente indigena, ou propriam ente african o? São desen­
contradas as opiniões a respeito, limitando-nos apenas ao
juizo de Couto de Magalhães, que diz, que é um verbo de raiz
tuplca com a expressão de exhalar máo cheiro; e Bluteau, que
é uma palavra de Angola, com a expressão de fed o r de negros,
como de raposinhos, citando estes versos-do poeta coevo Fran ­
cisco de Souza d’Abrada: “ Que os taes im itar pertendam A
poesia de Angola Cuja catinga os consola, Como conclusão
negreira.” Em vóga assim o term o em Portugal no tempo de
Bluteau, o éncontramos ainda corrente, como chulo ou popu­
lar, em meiados do seculo X V III como se vê destes versos do
Palito métrico, da troça acadêmica de Coim bra: “ M ille immun-
ditias assorbet, m ille catingas, P e r nunquam limpas semper
eundo manus.” A b i fica a controvérsia.
Catingujeiro — Indivíduo da zona da catinga que trabalha
no serviço de campo das uzinas e engenhos, assim chamado
para o destinguir do corumba e do trabalhador local.
Catita — Rato pequeno, equivalente á dicção africana de
camundongo, como è chamado no sul. “ Rato pequeno é cati­
ta.” <0 A lfin ete n. 12 de 1890). “ Certa mó de b igorrilh as c
tratantes, ratinhos catitas, que lambiam os sobejos do Barão.”
(O Sete de Setembro n. 4(5 de 1816). “ Conhecem os leitores
nhi ratinho catita, lá das bandas da Caixa E con om ica?” (L a n ­

228
terna Magica n. 18 de 1882). “ A gatinha regalava-se em aga-
danhar um catita que lhe apparecera” . (A Lanceta n. 154 de
1913).
Catolé — Indivíduo pequeno, de haixa estatura; um pi-
néo, e dahi a phrase: Catolé põe-te em pé, para o caracteri.
zar, como figurando-o de cócoras, agaixado. Catolé é o
fructo de,um a palmeira deste nome, que abundantemente .ve­
geta nas mattas e na zona sertaneja.
Catôta — Pernas tortas: Pernas de Catôta. O vocábulo è
o nome vulgar de uma planta sylvestre da nossa flora, a So-
anum piper, que tem a particuaridade de se enroscar sobre os
outros vegetaes, entortando-se assim, de cujo phenomeno, na­
turalmente vem dar-se o seu nome ás pernas tortas. O catar-
rho resequido das narinas, “ Comes catôta, comes rem ella” .
(A Pimenta n. 14 de 1902).
Catraia — Mulher feia, horrivel, repellente; da vida aira-
da, baixa, vil, desabusada. “ Senhora, tenha juizo, T ire a mão,
largue esta saia; Isso de mão no vestido Só é p ro p rio de ca­
traia.” (Lanterna Magica n. 449 de 1895). “ Itam orando com
catraias você passa a tarde toda.” (A Pim enta n. 35 de 1902).
" A policia providen cia no sentido da catraia Marietta ser
menos escandalosa.” (Idem , n. 64).
Catropôça — Amasia, concubina, h ’ nesta accepção que
conhecemos o termo em sua corrente vulgar; entretanto o
encontramos masculinisado, e com outra, im percébivel:
“ Gallego de nascimento, de figura é catrapoço” . (Mephisto-
pheles n. 11 de 1882).
Catreváge — T roça de pelintra; gentalha. O termo vem
de caterva: Magna et comitanti caterva, diz-se de um bando
de vadios, ou de gente mal comportada.
Catucár oh cutucár — T ocar ligeira e occultamente em
alguém com os dedos, o cotovello, ou mesmo com os pés, co­
mo signal com municativo de advertência, desagrado, rep rova­
ção, na occurrencia de uma leviandade, inconveniência, exces­
so, destempero; ou para chamar a attenção sobre qualquer
«ousa que occorre de presente; instigar, ferir, golpear. “ O
garoto do tangedor, á proporção que berra pelo nome dos
bois, cutuca-os com o ponteagudo ferrão ou açoita-os com o
chiqueirador.” (O sw aldo A raú jo ). O verbo catucar, como es­
creve Beaurepaire Rohan, na variante catucar, que registra,
tem p or origem, como diz, o verbo cutúca da lingua tupi, que
significa palpitar, picar, tocar de leve, sendo estas accepções

229
vulgares entre nos, como vimos. Couto de Magalhães diz igual­
mente, que é um verbo tle raiz tupica, (le uso geral, com a ex­
pressão de tocar com a ponta; Gonçalves Dias escreve tucá-
lucá, dar murros, donde a gente do povo fbz o verbo datucar.
acotovelar; e Martius, emfim, consigna o verbo catúca, picar,
stcchen, e tuca tuca, dar murros.
Caturra — Criança nedia, soccada, gorducha; individuo
de baixa estatura, catolé, pinêo.
Cauhila ou cauhira — Sovina, avaro, tacanho, mesqui­
nho, C hifre de cabra, Unhas de fom e. Beaurepaire Rohan re ­
gistra o vocábulo com estas mesmas expressões, e confessan­
do ign orar a sua etym ologia, accrescenta; “ recordo-m e p o­
rem, que na minha infancia ouvi muitas vezes usarem delie
os africanos, dizendo indifferen iem en te cauhila e cauhira.” E
assim é, uma vez que na Ceará tem o term o a voz de cauhira,
com a mesma significação, e mesmo entre nós, concurrente
mente com a de cauhila. “ Tinha o nosso homem o costume
dc gabar-se de ser cauhira, sempre que se tratava de mulhe­
res” . (A Pim enta n. 13 de 1912). “ Dar-te na bolça, cauhira,
geitosa e funda facada” . (D iário de Pernambuco n. 29 de
1907).
Cavação — Acção de cavar; o emprego de todos os meios
possíveis para arranjar dinheiro em mão de quebradeira, em
apertadas emergencias, ou p or viciada e torpe especulação,
filh a da malandragem. “ Cavação e malandragem são irmães
gemeas, mas só p or parte da máe, que é a pindahyba.” (Dom
JCiquote). “ A cavação, meus senhores, é a ultima palavra da
sabedoria humana.” (Jorn al do R ec ife n. 27 de 1916j. P ro cu ­
rando fazer suas cavações, esses indivíduos circulam nos
bonds e trens fápiando os passageiros.” (D ia rio de Pernam ­
buco n. 158 de 1913).
Cavalla — P eix e do mar, de pescaria do alto (Cybíum
cavalla, Cuv.). E ’ a guarapicú dos indios, que tomou o nome
de cavalla. e já assim corrente desde tempos remotos, como
consta dos Diálogos das grandezas do Brazil, pór ser á seme ­
lhança, ou da mesma especie, de um p eixe dos mares de P o r ­
tugal, assim chamado. Em: Fernando de Noronha tem o nome
de cavalla-aipim . E xcellente, como são todas as cavallas que
se tomam neste estado do Brazil, na phrase de um escriptoi
quinhentista, saborosa, bonita, pela sua pelle de preto e
branco de tons prateados, terminando, para a parte in ferio r
em discos daquella óôr, e attingindo mesmo a um metro, e o
peixe predilecto dos banquetes c das mesas fartas e deliea-
das, e assim, de preço elevada, apezar da sua abundancia nos
nossos mares, contrasta com o ciassico e humilde bacalháo do
pobre, vindo dahi o dictado: Còmer bacalháo e arrotar ca-
valla, de expressão obvia, concorrente com o paulista: Co­
mer sardinha e arrotar tainha.
Cavallão — Homem alentado, de grande e s ta tu ra :'«o *
memzarrão.
Cavallariano — C avalleiro; o fazendeiro creador de gado
da especie cavallar. “ O cavallairiano de Pernambuco que traz
eavallos do Pajehú, paga 31000 p or cabeça, atravessando o
territo rio da Parahyba.” (S everin o H enrique de O liveira ).'
Cavàllice — M alcreação, grosseria, estupidez; com er com
um appetite devorador, brutal, descommunal. “ Disse que nao
havia, de aturar as suas oavallices.” CAmerica .Illustrada n.
27 de 1881).
Cavallinhos — Circo de representações équestres e acro;
baticas. “ Trabalh a"n o largo de palacio uma companhia eques­
tre, a que nós vulgarmente chamamos de cavallinhos.” (Ma-
phfelopheles n. 32 de 1882). “ O gosto que tem o povo pelos
fõgos de vista só pode encontrar riv a l no que ha pelos caval­
linhos.” (A m erica Illustrada de 11 de Outubro de 1874). “ N o
N orte só o Furtado Coelho, a Lucinda, òu então, um circo d e
cavallinhos.” (O João FernandèS n. 13 de 1886). R elativa­
mente, porem, o term o já vem de lon ge: “ Um dos aventurei­
ros am ericanos da Companhia de Cavallinhos, que aqui apor­
tou, praticou um acto escandaloso e audaz.” (A voz do B razil
n. 30 de 1848).
Cavallo — Phrases e proloquias populares: Andar como
cavallo de matuto; Cavallo alugado não cança; C avallo dado
não se abre a b occa; Cavallo grande besta ,de pau; Cavallo
peiado não salta vallad o; Cavallo peiado tambem com e; Ca­
vallo velh o não toma andar; Comer com o cavallo; N o correr
do cavallo não se encherga o cavalleiro; O cavalo engorda
com a vista de seu dono; O olho do dono engorda o cavallo;
Passar de cavallo a burro; P o r um cravo se perde um cavallo;
Praga de urubú não mata cavallo; Púxado como cavallo de
matuto: Quem com pra cavallo compra cuidados; Quem faz
o cavallo é o cavalleiro; Quem quer cavallo sem tacha anda
a pé.
Cavallo d ’agua — M onstro fabuloso do r io S. Francisco, de
existeficia gerada pela superstição p op u la r.’ E ’ nocivo, e os
barqueiros temem o seu encontro.

231
Cavallo no caminho — Entrave, obstáculo, dif ficu ldade:
Neste negocio ha cavallo no caminho.
Cavallo do cão — Nome vulgar do insecto M yrm eleon
form icaria, da ordem dos Neurópteros.
Cavallo de flexa — Vergontea que brota como o caule da
canna brava, (Anthoxanthium gigans) da fam ilia das Gra-
minaceas, sem nós e extensa, tendo do meio para a extrem ida­
de as suas florinhas, esbranquiçadas ou de um cinzento arro­
xeado, dispostas em compridos filamentos, que pendem como
uma especie de cabelleira. “ Cortam esta parte, levam-na em
feixes ao mercádo, onde é vendida para differente.s usos, sen­
do mui procurado pelos meninos, que enfeitam esses filam en­
tos com fitas, deitam-lhe redas, e chamam lhe cavallo de
flecha. Cavalgam e brincam, montando sobre a parte nua da
flecha.” Alm eida P in to ).
C(avallo marinho —■ O ehefe do folguedo popular o Bum-
ba meu boi. “ Cavallo marinho Vem se apresentar A p ed ir li­
cença, Para o boi d a n sa r... Cavallo marinho Dança bem ba-
hjano, Bem parece ser Um pernambucano. (D o respectivo
auto). j
Cavallo de pau — N avio. “ Ajuntar o pau brazil para ir
no cavallo de pau.” (T yp h is Pernambucano n. 11 de 1824).
Cavanhaque — A barba do queixo. “ T raz na ponta do
queixo sua barbinha á C avaignac” . (O Barco dos Patoteiros
n. 18 de 1864). V iva quem tem b igode! Quem tem cavanha­
que é bode. (D ic ta d o ). O termo vem do nome do general
francez Cavaignac, de grande nomeada pela sua attítude na
revolução de 1848, de quando data entre nós.
Cavar — Procurar, indagar, pesquiz'ar; descobrir, encon­
trar, achar. “ Não sei como a vossa reportagem tão activa,
ainda não cavou o que se está passando na nossa aduana” .
(Pernam buco n. 365 de 1912). Procurar obter dinheiro, por
qualquer meio, em mãos de quebradeira, ou por m alandra­
gem. “ Passa o dia cavando para o jan tar” . (O João Fern an ­
des n. 10 de 1886) . “ Cava o pobre e o rico, Cava toda a gen­
te ” . Versos dol Club dos Caiadores, 1915). Cavar a vida, lidar,
trabalhar, atirar-se ás labutas da vida; ou pela malandragem,
andar a m order a humanidade. “ Rapaz pachola Que usa car­
tola, Vai p ’ra avenida Cavar a v id a ” . (íta lo B ertin i). D eriva­
do: Cavador, o que cava. “ Não supponha brincadeira; Mas e l­
le, illustre doutor, Falando desta maneira Mostra quanto é
cavador” . (Jornal do R ecife n. 72 de 1913). “ Bicho por bicho!

232
Cavador Que nem conhece a p ro fis sã o .” (Idem , n. 44 de
1915).
Caxerenguengue — Este vocábulo, que nos parece, deu
origem ao de caxengue, muito vulgar, apenas o encontramos
citado por Lopes Gama (O Carapuceiro n. 58 de 1842), entre
as cousas mais geraes entre nós, como um vocábulo da lingua
búnda, ou angolense, mas <em a sua precisa expressão. Gon­
çalves Dias o consigna como nome de um m am ifero, sendo as­
sim de origem tupy; e Beaurepaire Rohan o registrando,
com a voz de caxirenguenge, faca velha, sem cabo, com o as­
sim se chama em Matto Grosso e nas províncias meridionaes,
diz que no sentido figurado tem a expressão de homem ou
animal rachitico, enfezado e assim consóantemente com ca­
xengue, simples abreviatura, como mais facil a pronuncia.
Cachiiinguengue, com o escreve Paulino Nogueira, emprega-
se vulgarmente no Ceará com applicação geral a tudo quan­
to parece sem préstimo, um ente, um objecto inutil, setn va­
lor, e quanto á sua etym ologia, que é- voz hybrida, composta
do vocábulo guarany quixiri, resto de faca, faca que se gas­
tou e ficou faquinha, quicé, corrom pido em cachirin, e do v o ­
cábulo bunda ndengui, pequeno, corrom pido em guengue, c i­
tando a Macedo Soares. -
Caxito — O cavallo de côr verm elha, escura, tirando a
preto, mais pronunciadamente nesta, preto-caxito, e menos,
aiazão-cr-xito. “ N o pasto do Posto Zootechnico estava uma
egua rodada, typo commum, com um poldrinho de um mez,
caxito” . (D ia rio de Pernambuco n. 253 de 1915).
Cazuzinha — Pequeno insecto de agudo ferrão.
Cebola quente — Esta locução é exclusivamente applica-
da ás mulheres assanhadas, desenvoltas, quentes, lascivas, li­
bidinosas m e:m o. “ A minha prima é o que se chama uma ra­
pariga da cebola, quente. (A Pimenta n. 89 de 1902). “ Mamãe
se damna com a assanhamento de certa viuva da cebola quen­
te, da rua de H ortas” . (Idem , n. 461 de 19u8).
Cebolinho — Especie de cebola pequena, muito commum
c usada nos adubos culinários ou em conserva. Da fam ilia do
cebolinho: cabeça branca e o talo verde. (D ictado popular,
de expressão b r e je ir a ).
Cégo — Sem fio, gume; não amolado, não aguçado: um
machado c é g o ; uma faca cega. Olha o cégo, o anus. Cégo é
quem não vê p or uma peneira; O p eio r cego é o que não quer
ver; Cego não come manteiga (P r o lo q u io s ). Guia de cego, o
que o conduz; Bordoada de cego, a torto e a direito.
Ceiata — Ceia farta, alegre, ruidosa, expansiva. ^Depois
da ceiata do Penna, eis que tudo fica em sobresaltos” . O Guar­
da N acional n. 20 de 1848). “ O Oscar v iv ia e m 1constantes o r­
gias e passava as noites na~mesa do jogo, em çeiatas com mu-
jheres pernósticas” . (A Piipenta n. 11 de 1901).
Ceixupira — P eix e de agua salgada (Scom ber niger,
B lo ch ).
Cêpo — Castigo, prisão, privação de sahir á rua. Estar,
ficar no cêpo, no tôco. “ F o i am arrado a um cêpo, como se
1'osse um cach orro” . (Sentinella da Liberdade n. 21 de 1848).
Cercado — Certa area de terreno cercado e com porteira
de entrada, onde fica situada a casa de vivenda das fazendas,
engenhos ou qualquer propriedade ru ral. Os cercados dos en­
genhos onde se soltam os animaes do serviço. (H . K oster).
“ Faço-te companhia até o cercado do engenho” . (F ra n k lin
T a v o ra ). T ia c to de terra de cultura, cercado para im pedir a
entrada de animaes: Um cercado de milho. A cerca de varas
ou estacas que fecha o recinto de uma propreidade rural, ou
uma certa p aite destinada a qualquer fim . “ Vá dizer ao se­
nhor do engenho Que o cercado está no chão. Vá logo ao maí-
io T ire um cento de cipó Nem que seja m ororó P ’ra fazer a
amarf-ação” . (T ro va s populares).
Ceremonia — Um pouco da comida que é costume deixar-
se em cada prato nas refeições em casas alheias, p or parecer
mal com er tudo: D eixar a ceremonia.
Cesto — Especie de balaio feito de tim bó ou cipó rijo, com
aza para a sua conducção a mão ou enfiada ao braço. Cestei­
ro que faz um cesto faz um cento, assim tenha timbó e tempo.
(D ic ta d o ). Um cesto e um sambuiá: abundancia, quantidade.
“ O homem tem um cesto e um samburá de filhos, e outros
tantos compadres e amigos, em todas as p olíticas” . (O Ta-
nioyo n. 17 de 1891)V “ T rago um cesto e um samburá de lem ­
branças para os am igos” . (Jorn al Pequeno n. 13 de 1916).
Um cesto rôto: individuo falado;-, que não guarda segredos,
e em quem não se pode con fiar.
Cevado — Porco. “ Esse animal suino, vulgo bacorinho,
cevado ou p o rco ” . (O Sete de Setembro n. 37 de 1846). “ Ma­
tuto não diz p orco; diz cevado, e antes de pronunciar a pala­
vra, diz sempre com o devido respeito. (Lanterna Magica 11.
446 de 1894). O teim o, porem, já vem de longe: “ O cevado
só depois de m orto se aproveita delle: como-se-lhe a carne,
guarda-se-'lhe a banha, apanha-se-lhe o sangue, não se lhe

234
perde os miúdos, e finalm ente tudo se lhe aproveita. (C om ­
pendio narrativo do P eregrin o da Am erica, 1731).
Chá — Certa especie de rosa já mencionada por Jeiony-
nio V ille la ; gracejo, debique, zombaria. “ P ’ra mais agravar
a dor Aqui do nosso pachá, O proprio Brasil (pap el) Com
ele tomou seu chá.” (Gazeta do P ovo n. 4 de 1844).
Chá de bico — C lister; ajuda, como commumente diz o
vulgo. “ N o dia em que esse deputado provar a grande effica-
<ia dos clysteres, a Camara toda ferida da m aior sensação
pedirá em altos brados ao governo que lhe mande servir o
chá de bico. (A Lanceta n. 29 de 1890). “ Charlatqes, para
quem á^ua fria é rem edio e que para todas as enfermidades
receitam bichas e chá de bico.” (Idem , n. 34).
Chá de garfo — Ceiata, servindo-se depois o chá. “ Em
um certo dia que a L ily fez annos, sua mãe im provisou um
modesto chá de g a r fo ” . (A Pim enta n. 31 de 1902). “ Em se­
guida ao ensaio fará o club uma passeiata, regressando de­
pois para a sua sède onde haverá um chá de ga rfo .” (Jornal
Pequeno n. 29 de 1916). Debique, pilhéria, troça; graças de
máo gosto, zom baria. “ O Lins não desdenhou ultimamente de
tomar o seu chá de garfo com m igo” . (A P rovín cia n. 280 de
1915).
Chabóla — Golpe de mão fechada entre as nadegas. Dar.
tomar uma chabóla.
Chafarica — Insignificante casa de negocio; bodega, tas­
ca. “ Quanto a críticos, temol-os até pelas próprias chafari-
cas” . (A m erica Illustrada de 19 de N ovem bro de 1871). “ Cho­
ro dia e noite só em me lem brar de que com aquelle cobri-
nho podia augmentar a minha chafarica” . (Idem , n. 36 de
1830) .
Chafra — Soldado de policia, na giria dos gatunos.
Chaleira — Ventas, nariz; o bico da chaleira. “ Dando
nós um escorregão, Aos apupos de uma vaia, Ire is de chaleira
aq chão.” (O Ratão n. 1912). Adulador, lisonjeiro, baixo,
servil, capacho. “ P ’ ra onde quer que me vire, vou encontran­
do um chaleira.” (Lanterna Magica n. 752 de 1904). “ E ’ nos
partidos politicos que se tornam mais salientes os homens
chaleiras” . (Idem , n. 764). “ Ha chaleiras de toda a especie:
sem bico, sem aza, sem tampa, e até sem fundo” , (Idem , n.
795 de 1905). D erivados: Chaleiração^ “ Tem havido tantas
chaleirações, que a gente não sabe se está assistindo, effe-
ctiygm ente, grandes apotheoses aos bem feitores de Pernam-

235
buco” . (Lan tern a Magica n. 808 de 1905). Chaleirada: “ A
chaleirada tem ■pintado o Simão” . ( A Pim enta n. 403 de
1905). Chaleirar: “ Saber o gráo de adiantamento na arte de
engrossar, de chaleirar, como de ordinário se d iz . ” (A Lan ­
ceta n. 96 de 1913). “ O cheiro do incenso é tudo. Não chalei­
rou, peccou” . (A Lanterna M agica n. 751 de 1903). Chalei-
rism o: “ Nada de chaleirism o com os patrões. A adulação não
adiantará cousa alguma” . (A Pim enta n. 498 de 1906). “ Os
charlatães vivem em procissão continua nas palmas das mãos
do chaleirism o tão em m oda” . (Lan tern a Magica n. 741 de
1903).
Chama — Passaro de gaiola com alçapão, pai a com o seu
canto chamar a outros para a péga. “ Dentro da gaiola vai a
chama” . (M acedo Soares). A este termo, que tambem é c o r­
rente no sul, occorre o vernáculo Reclamo, que Macedo d e ­
fin e: A ve ensinada, ou domesticada, que chama cantando ou-
.tras para os laços, ou rêdes.
Chamar ao rego — A d vertir, admoestar, corrigir, chamar
á ordem, ao cumprimento de deveres.
Chaman aos peitos — Apropriar-se, comer, lo gra r. Os
bens do pobre oiphão, o tutor chamou aos peitos.
Chamarra — . Batina, habito talar do clérigo secular.
Cham baril — As carnes molles, brandas e nervosas do
boi;., certa comida feita com evtas carnes, á semelhança da
panèllada. Um succulento almoço de chambaril. “ V. Excia.
almoça chambaril ou mão de vacca? (A m erica Illustrada n.
35 de 1878).
Qhamboqueiro — Malamanhado, desageitado, grosseirão
sem esmero no porie, no andar e no trajar; com uma roupt
que não fica bem p or mal talhada, mal an a n ja d a .
Chambre — Veste talar, para homem, geralm ente feita
de chita, apertada á cintura com fitas da mesma fazenda, e
•só usada ao levantar da canta, ou muito intimamente em casa.
“ Um palitot machucado e mal feito como um chambre. (A
Lanceta n. 41 de 1890) . Abriri de chambre: Desapparecer, fu­
gir, por-se ao fresco. “ Os estouros do m otor da luz eléctri­
ca, continuaram, e o pessoal julgando que se tratava de um
rolo abriu de cham bre” . (Pernam buco n. 180 de 1913). O
vocábulo é um gallicisrno, e simples abreviatura do robe de
chambre dos francezes.
Chambrear — Comer, tomar parte nas refeições alheias,
serrar mesmo. Chambrean os pirões alheios.

236
Chambrudo — O mesmo que chamboqueiro.
Chamego — Aperto, conchego, frevo. “ Depois de extin-
cto o velho carnaval, Vem outro outro carnaval chegando:
Com todo o seu prazer descommunal, Os chamegos passados
renovando” . (A Lanceta 11. 105 de 1913). Colloquio intimo,
carinhoso, animado, em conchegos. “ A Ritinha e o prim inho
Ozias viviam todos os dias 1111111 chamego a rie lia d o ” . (A P i­
menta 11. 81 de 1902). “ Do amor sentindo o latego, ella gos­
ta do cham ego” . (O G riílo n. 2 de 1902). “ Pode ser extrava-
gancia o amor num carro: mas ahi o chamego é tão gosto­
so” . . . (A Pim enta 11. 550 de 1907). D erivados: Chamegar.
‘ Na rua da Concordia chamega um coió numa amolação es­
candalosa” . (A Pimenta n. 84 de 1902). Chamegal: “ E assim
estiveram os dous, em colloquio chamegal, até o fim da fes­
ta” . (A Pimenta , n. 552 de 1907).
ChamurVo — D espresivel, in significan te, que não vale
nada; ignorante, estúpido, casca-grossa. “ A p olicia de A fo ­
gados apezar de cocha, 011 chamurra, ainda assim vai andan­
do 0 seu cam inho” . (O Clamor Publico n. 38 de 1845). “ Tam ­
bém ha no R io Grande do N orte um doutor chamurro de no­
me A rm ário B e ze rro ” . (A Caipora Pernambucana n. .2 de
1852). “ Breve teremos o escommungado, cocho chamurro,
lambem feito senador” . (O Esqueleto n. 3 de 1846). Cremos
que este vocábulo vem do castelhano chamorro, tosqueado,
como os hespanhoes antigamente chamavam os portuguezes,
cm tom d ep reciativo. “ A grenha hirsuta, cortada mui curta,
segundo a moda de então, moda que dera aos portuguezes a
alcunha nacional de cham orros” . (A lexan d re H ercu lan o). Os
portuguezes depois deram e: se appellido aos partidários da
carta constitucional de 1826.
Chamuscar — Fazer um trabalho apressadamente, sem
esmero e sem cuidado, albardeiradam ente.
Chan de barriguinha — Passo rasgado, um tanto livre,
lascivo mesmo, dos bailados carnavalescos de certos clubs e
cordões” . Seguiram-se as danças carnavalescas, salientando-
se o chan de b a rrig u in h a ... A rapazeada do cordão mostrou
que sabe fazer 0 seu, nos arremessos do chan de barrigui­
nha” . (Jornal do R ecife n. 45 e 53 de 1914).
Chantage — N egocio illic lto , esqaindaloso, ím m oral, de
má fé; burla, velhacaria, treta, ardil; conto de vigário. “ O
Im parcial denuncia, sob d titulo A lta Chantage, um facto que
agita as rodas governam entaes” . (D ia rio de Pernambuco n.
88 de 1916). “ São dessas chantages que usam certos in divi-
duos corroidos pelo m icrobio do v ic io . ” (Jorn al do R ecife
íi. 197 de 1916). Este vocábulo já com os foros de cidade, é
um escusado gallicism o, e do qual vem já o derivado chan­
tagista, q u e . igualmente vai caminhando. “ Quando se procu­
rava syndicar do facto, o esperto chantagista dá ás de v illa
D io go ” . (Pernam buco n. 154 de 1913).
Chapa — P h iases vulgares, communs, corriqueiras, se
diças, commumente usadas na conversação, e mesmo em es-
criptos e peças oratOrias. “ Sympathica artista, chaipa dos
nnnuncios de espectáculo” . (O Diabo a. quatro n. 152 de
1878). “ Deu pela espora um mancebo, que trepando-se na
tribuna da imprensa (chapa com mum), exclam ou: Ego sum !”
(Idem , n. 182). “ Discursos abundantes de chapas, que sc
acham em todas as boccas e em todos os jorn aes” . (L a n te r­
na Magica n. 261 de 1889). “ Se a donzella digo: E ’ s bella, és
divina, és g u a p a ... Gritam todos: isto é chapa” . (Idem , n.
740 de 1903). Chapa de caixão. A que o eleitor recebe na
bocca da urna” . “ E leitor do partido, recebbi em todos os tem­
pos chapa de caixão, votando de cabeça b aixa” (O Estado
de Pernambuco n. 17 de 1914).
Chapelão — Augm entativo de chapéo; chapéo grande.
P elo sim e pelo não, levai o vosso chapelão. (D ictado po­
pular).
Chapellipa — Chapéo de fnulher. “ Enormes chapellinas
com pletavam o costume” . (João B rig id o ).
Chapelinho — Chapéo pequeno. “ Botou um ramo no
peito, na cabeça um chapelinho” . (A m erica Illustrada n. 15
de 1878). “ A Xandu’ já não anda com a cabeça ao fresco;
usa chapéo, um bonito chapelinho” . (A Pimenta n. 74 de
1902). “ Um paletó de côr, e um chapelinho de palha era o
seu uniform e ord in á rio ” . (O Barco dos Traficantes n. 8 de
1858).
Chaprudo — Mal feito de corpo, desageitado, desgracio­
so, grosseirão; malamanhado, chamboqueiro, chamhrudo. E n­
contramos num vocabulário da •giria da ilha de S . M iguel do
archipelago dos Açores o term o chaprão, com as mesmas ex­
pressões do nosso chaprudo.
Charlata — P o r charlatão. “ A qu illo é um fin o r io . .. é um
ch a rlata!” (A m erica Illustrada de 17 de M arço de 1872).
“ Bismarck, o grande charlata, devia esconder a lata, se ou­
visse o Bento fa la r” . (O Diabo a quatro n. 86 de 1877). “ O
collega da imprensa alagoana indubitavelm ente ha de ser urii
charlata de fo rç a ” . (Idem , n. 106).
Charco — Cousa vulg.arisada, conhecida, que hinguem
ign ora. “ E porque o meu vivei*-Nesta terra ficou charro, Me
compraram João Gaspar E José da Costa B arros” . (Rom an­
ce pastoril d’0 Boi lis o ).
Charutaria .— Estabelecim ento de ven der charutos, c i­
garros, fumos e artigos de fumantes.
Charuto — Vinho com uma certa dosagem de mel de pau
ou de abelhas. Moleque, homem preto. “ Urri charuto criado
dé uma republica entendeu de fazer um discurso ás massas,
e sahiu-se de tal modo que fugiu corrido aos gritos de: Cala
a bocca, c h a ru to ... A o com eçar a quadrilha appareceu na
sala um charuto todo se requebrando” . (A Pimenta ns 59Ü
e 608 de 1907).
Chato-marôto — Especie de insecto parasita p rop rio do
homem ('perdiculus pulis), o chato, ou piolh o ladro, a que o
vulgo chama piolho Lazaro.
Chavasca — Um instrumento contundente qualquer: Met-
ter a chavasca, dar umas chavascadas, chavascar. “ Meu San­
to O nofre fazei com que certo velho rabugento leve umas
chavascadas de pelar o couro para não andar se enxerindo
com uma mocinha de cheta” . (A Pim enta n. 5 de 1908).
Chefança — D irecção, acção de chefe, mas em tom de­
p reciativo. “ Botando as manguinhas de fóra, tem perdido
esse pouco conceito que havia adquirido durante o tempo de
>ua chefança” . (O Vapor do Rio Form oso n. 16 de 1857).
“ Que, emquanto estou na chefança, Com o leme da go ver­
nança, Quero loigo sem tardança, A todos con decorar” .
(Barbosa V ian n a).
Chefatura — A repartição central de policia, dirigida
pelo respectivo chefe desse ramo de serviço publico: Chefa­
tura de 'policia.
Chefe — Sabidorio, espertalhão, estr uíeiro: Aquelie su­
jeito é um chefe. Chefe de peça: ultra chefe. “ O Gregorio é
um chefe de peça, facadista de prim eira ordem ” . (A Pim en ­
ta n. 559 de 1907).
Chefête — Q ualificativo de ridiculo, depreciativo, dado a
um chefe p olitico ou de um serviço qu alquer; chefe im pro­
visado, sem im portância e prestigio. “ Sem o placet govern a­
mental chefete algum ousará praticar brilhaturas” . (O Es­
tado de Pernambuco n. 80 de 1914). “ Chefetes que buscam

239
esconder a sua nullidade p or traz de umas suppostas reac­
ções policiaes” . (A Ordem n. 25 de 1918).
Chefia — D irecção, acção de mando, de chefe.
Chefiar — D irigir, ter a seu cargo a superintendência de
um serviço ou missão qualquer.
Chêga — Reprehensão, reprim enda; sóva, tunda: Dar um
chêga. O teim o vem, talvez, do dictado: Chegar a roupa aos
couros.
Cheio — Em briagado: Cheio como um ovo. Cheio de não
presta; doente, achacado.
Cheira-banana — T olo , parvo, amalucado; um pobre dia­
bo. “ O grande cheira-banana tambem quer ser nam orado”
( 0 Barco, dos Traficantes n. 54 de 1858).
Cheirar — Poupar, zelar, cuidar com esm ero; usar com
discreção de uma cousa qualquer para não se estragar e
durar muito; cousa apreciavel, de cheirar e guardar. “ Uma
t
collecção de rôxas de cheirar e guardar” . (Jornal do R e . c ife
n. 52 de 1916). Passar p or um logro, engano, preterição:
Cheirar vara; tomar uma cheirada. “ H avia no jardim tudo,
menos musica. Ninguém soube o m otivo de semelhante chei­
rada” . (Jornal Pequeno n. 40 de 1916). Cheinar a defunto:
imminencia de hom icídio. “ O A rlindo retirou-se do rôlo com
medo do resultado que já estava cheirando a defunto” . (A
Pimenta n. 629 de 1908). Cousa que não cheira a cobre: de
graça, presenteada, De bobus a n icolau .-
Cheiro — Cheirar carinhosamente a alguem: Dar um
cheiro. “ Recebe somente um cheiro N o cogote, extraordina
rio, P elo teu an n iversario” . Jornal do R ecife n. 205 de 19I2C
“ Deram um punhado de abraços e cheiros em Arlequim , e sc
foram na m aciota” . (Idem , n. 50 de 1914).
Cheirume — O mesmo que odor, aroma, cheiro, mas com
as expressões de máo, insupportavel. “ Quando sua, é que
elle exhala o cheirume de budum” . (A m erica Illustrada n
22 de 1883). “ Não mudar de roupa para não mudar de chei­
rum e” . (Idem , n. 31).
Chendengue — M agricelo, enfezado, chimbute. “ Quem
namora um chendengue, não quer casar, não” . (Am erica II-
lustrada de 12 de Outubro de 1873).
Chêrêta — Velho gaiteiro, mettido a conquistador. “ Este
chereta é o mais cabuloso que conhecem os.” (A Pimenta n.
56 de 1902). “ Pesça logo este chereta, que elle cai como um
patinho” . (A Peia n. 9 de 1904). “ O Mattos anda mettido a
ehereta, procurando conquistar a sinhá M arietta” . (A P i­
menta n. 10 de 1908).
Cherne — P eixe de agua salgada, tão vulgar nos mares
do Iittoral do Estado como nos do archipelago de Fernando
de Noronha, e assim chamado pela sua semelhança com o de
igual nome, muito commum, nas costas de Portugal.
Chia — Sujeito m ofino, fraco, pusillanime, safra da pan­
cada. “ Ora vá se catar. T od o o mundo sabe que você é ch ia ;
isso de muita gomma é titica” . (Jornal do Recife, n. 41 de
1915).
Chiada — Caçoada, pilhéria, troça. “ Tom ar chiada cem
o sr. Nabuco, este amigo e creatura nossa!” (O Diabo a qua­
tro n. 8 de 1875).
Chiadela — O mesmo que chiada.
Chiba — Páo de bater, naturalmente abreviatura de chi­
bata: M etter a chiba. “ Lem bra-te que a industria é triste e
perigosa, e que o fim do presepista é chiba e cadeia” . (A
Derrota n. 20 de 1883).
Chibar — Comprar, figurar, ostentar. “ V ê r um pobre fo ­
cas Que ás cascas v iv i,,D a noite p ’ra o dia chibar muito ai­
roso” . (A Carranca n. 18 de 1847). “ Eu já velho, a chibar
de b on ito! Ide senhora, não devo aturar-vos” . (J. C. de M e­
nezes e Souza).
Chiça! — D icção in terjectiva, accentuadamente pronun­
ciada, com as expressões de: F o ra ! Solte! Largu e! Não pe­
gue! Cuidado! A lto lá!
Chicáca — Bodega, chafarica, tasca. Na lingua do C on ­
go se encontra o vocábulo xicaca, que nada tem de commum
com o espirito da nossa dicção.
Chicharro — P eix e do mar, da mesma especie e nome do
que abunda nas costas de Portu gal. Alm a de chicharro, diz-se
para chasquear de alguem.
Chichello — Sapato velho, ordinário, em chanqueta ou
aehinellado; indivíduo de baixa esphera, um João ninguém,
um troca-tintas ahi qualquer. “ Emprehende a honra sua Em
pôr! nos cornos da lua O reinado dos ch ich ellos'’ . (D e uns
versos políticos de1 1836). “ Isto é uma provocação chamar-
nos ch ich ello s!” (O Form igão n. 5 de 1850). “ Se o povo me
coadjuvar, verá pomo se combate essa nobreza de chichellos” .
(A Duqueza do "Linguarudo n. 133 de 1878). Chichello me
prende, sapato me solta. (D ictado popular) O vocábulo é

241
uma contrafacção dc chinela, ou chinelo, preferentem ente,
como vulgarmente se diz entre nós, e Moraes o consigna c o ­
mo termo chulo, com a expressão de sapato relho, não mais
figurando, porem, nos modernos lexicons.
Chichôrras — Nom e dado a umas febres que apparece-
ram no tempo da presidência do Conselheiro Antonio Pinto
Chichorro da Gama (1845-1848), pelos seus adversários p o lí­
ticos. “ O vulgo denominou as febres que ha mezes tem aqui
ceifado algumas vidas, Febres Chichôrras” . (J. 15. Fernandes
Gama). “ N o tempo do Chichorro houve umas febres cha
madas chichorraticas, que atacou a quasi toda a população” .
(Sentinella da Liberdade n. 37 de 1848). Concurrentemente,
na mesma epocha, houve os collarinhos a Chichorro, usados
á imitação dos delle, pela gente do seu partido, os quaes p er­
durando, ainda os alcançamos mantidos p or uns velhos li-
heraes que vinham do seu tempo.
Chicolateira — O nariz, as ventas: esfregar, quebrar1, ar­
rebentar a chicolateira; rosto, cara, cabeça, na giria dos ga­
tunos do R io de Janeiro.
Chicoprompto — O peixe bacalháo.
Chicotada — Indirecta, chincada.
C h ifre de cabra — Sovina, tacanho, imprestável.
Chimango — Partido politico organisado no R io de Ja­
neiro pelos liberaes para defender a idéa do projecto de m aio­
ridade do im perador D . P ed ro II, e que viu os seus esforços
coroados de bom exito com a sua decretação em 1840, de en­
contro ao partido Caramuru’ (con servador), que vigorosa­
mente a com batia. O partido Chimango echoou em Pernam ­
buco, e permanecendo mesmo depois da maioridade teve p or
orgão das suas idéas o D iario N ovo, que appareceu em 1842.
F o i este partido que teve entre nós, posteriorm ente, a p ar­
ticular denominação de Praeiro, e p or fim a de Liberal, até
a sua disisqlução em 1889, com a proclam ação da republica.
Chimango era uma denominação depreciativa, dada já aos li-
peraes desde os annos de 1834, em allusao ao m ilvago chi-
mango, especie de carcará ou caracará, que se alimenta de
carne corrupta, de vermes, larvas e insectos.
Chimbica — M entiroso, fiteiro, contador de lorotas; e
depreciativam ente, assim chamado um indivíduo qualquer1.
Chimbica é, naturalmente, um vocábulo de origem africana,
parecendo-nos assim, que vem de schimbika, term o que ex-

242
pressa entre cs .proprios africanos um dos meios pelos cpiacs
o escravo pode se liv ra r do captiveiro 011 procurar um novo
senhor.
Chitnbimba — . Pelintra^ Valdevinos, troc^a-tiintas. “ Os
chimbimbag A ffon so e Adolph o escandalisam os m oradores
da rua da Saudade com um namoro desbragado” . (A Pim en­
ta n. 54 de 1902).
Chimbute — Indivíduo pequeno, magrissela, enfezado. “ O
Lemos, chimbute, do Consulado” . (A m erica Ulustrado de 31
de Dezem bro de 1871). “ O Arnaldo, Chimbute, porteiro do Ci­
nema P a th é .” ( A Pim enta n. 13 de 1914).
Chimpar — F alar franca e claram ente; desmascarar a um
individuo, rudemente atirando-lhe em rosto duras e humilhau-
tes verdades, exprvuando um acto máo, um procedim ento in ­
correcto, pondo-lhe assim a calva á m ostra: Chimpar na venta,
na cara. Aulete registra o vocábulo como termo popular, mas
com expressões diversas.
China — Mulher de typo fricion al de caboclo; predilecta,
amante; de vida facil, avoadeira. “ Sèm m orar na China tem O
Samuel Pinto uma china, Coisa rara, para-fina” . (M ephisto-
pheles n. 26 de 1882). “ Uma noite a vagar pelas estradas, vi
uma bella china no postigo” . (A Pimenta n. 19 de 1902). Bara-
vo china! Quem não sabe lêr não se assigna. (D ictad o). O ter­
mo tem tambem curso no R io Grande do Sul: “ Oh! china, mu­
dai teu nome Que teu nome me atorm enta” ; e vai ainda alem,
como se vê da sua consignação no Vocabulário chileno de Lenz,
e com as mesmas expressões que tem entre nós: “ Nina, mu-
chacha, m ujer dei pueblo b a jo ... querida, manceba, m ujer pu­
blica; exprecion carinõsa, un diminutivo, chinita” ; que cor­
responde ao nosso chininha. Vem dahi, no Perú, B olivia e
Chile, nomeadamente, de par com o termo, o derivado achi-
nado, que corresponde ao nosso acaboclado.
Chincada — Indirecta pesada, p ilhéria causticante.
Chinfrim — Cousa ridicula, insignificante, ordinaria, con­
soante com as expressões de reles, cousa que não presta, se­
gundo Aulete, registrando o vocábulo como termo popular; no
Ceará, porem, é a denominação dada aos bailes canalhas: “ Nas
pontas de ruas, vai animado o xinfrim , o fo r ro b o d ó .” (C an cio­
neiro do N o r t e ). D erivados: “ Chrinfrinada, “ O actor João Gil,
apezar do tour de force que empregou, fez ch in frin ad a.” (M e-
phistopheles n. 22 de 1882). “ A passeiata dos caixeiros não
deixou nada á desejar em ch in frin ad a.” (O Etna n. 26 de
1882). C h rin frin eira: “ N o meio da grande luta, Da colossal
chrinfrineira, Só unia voz não se escuta: A voz dos Pires F e r­
r e ir a .” (C yran o & C .).
Chinica — “ Escrem ento. “ Uma barriga enorme, verd ad ei­
ro deposito de chinica.” (A Pimenta n. 621 de 1907).
Chique — Bonito, elegante, apurado; no rigo r da moda.
“ As moças chiques querem fazer tijolos sem b a r r o .” (A Du-
queza do Linguarudo n. 140 de 1878). “ Onde vai, sinhá, tão
chique? (Joaquim N o rb erto ). Chique massa! Na peneira não
passa. (D ictado p o p u la r). D erivado: Chiquismo. “ Um apru­
mo inglez, e uma certa petulancia no andar garboso de menina,
davam-lhe um chikismo e um realce áquellas formas tornea­
das, que a faziam crer um verdadeiro a n jo .” (O Diabo a qua­
tro n. 12 de 1875). “ O chiquismo de quem sentia o paladar de
alguma cousa bôa.” (A m erica Illustrada n. 5 de 1877). An-
lete registra o vocábulo mantendo porem a sua fórm a origin a­
ria de francez r Chie ( x i - k i ) .
Chiquechique — Cactacea da nossa flora, que vegeta no
sertão; ave do arcliipelago de Fernando de Noronha'. “ Do
Chiquechique o piado Entristece toda a g e n te .” (Jeronym o Vi-
l e l la ) .
Chiqueirador — R elho ou chicote de alm ocreve para tan­
ger os anim aes.” Desconfiou que um pobre matuto que es­
tava a lli por perto da botica com um chiqueirador queria dar-
lhe com e lle . ” (O Guarda N acional n. 43 de 1843). “ Da mão,
em vez de chiqueirador de buranhém que trazia, pendia-lhe
agora uma catana fóra da b a in h a .” (F ra n k lin T a v o r a ).
Chiqueiro — Um dos compartimentos dos curraes de pes­
caria, de onde não póde mais sahir o p eixe que nelle entrar;
certo espaço de terra fechado com uma cerca de estacas ou
fachinas para a creação de gallinhas ou p orcos. “ O ’ que perú
im pertinente! Xô, xô, bicho! Y a i para o chiqueiro.” (A D er­
rota n. 9 de 1883). “ Casa de porco é c h iq u e iro ..- O cachor­
ro está latindo, Lá p ’ra banda do chiqueiro; Cala a bocca, ca­
chorrinho, Não sejas m e x eriq u e iro .” (T ro va s populares). Uma
casa em desarranjo, porca, immunda. “ A sala das audiências
já não é aquelle chiqueiro de outr’o r a .” (A m erica Illustrada
de 3 de Março de 1872).
Chiquito — Calçado de criança, ordinário.
Chira — Certa especie de peixe, que só a encontramos
mencionada p or Jeronym o V ille la nos seus versos.
Chocar ^ Acovardar-se, esmorecer, e submetter-se; re ­

244
cuar, fugir, no ardor de uma contenda, de uma luta; dar parte
de fra co . “ Seu Pinto, você aqui não cisca; eu corto-lhe os es­
p o r õ e s ... Eu sou o Pin a. E o P into chocou.” (Lan tern a Ma­
gica n. 840 de 1906). “ Depois que appareceu na N ova Veneza
o poeta Leandro, a musa do Sr. F . G. chocou!” (P h ilo c ritic o
n. 1 de 1899). “ Então o Glodoaldo chocuu, hein? Só se elle
fosse a ra ra .” (Pernam buco n. 173 de 1913).
Chopp — Cerveja pasteurisada, isto é, não cozida, e assim
usada somente no p rop rio dia de fabricada p or fica r deterio­
rada no seguinte. O uso do chopp entre nós vem da installa-
ção da fabrica denominada C ervejaria Pernambucana, em
1914. “ Foram erguidos muitos brindes e offerecid o um chopp
a todos os eirçum stantes. ” (Jornal do R ecife n. 63 de 1916).
(U m chopp péde outro chopp” . (A P rovín cia n. 64 de 1916).
Chopp duplo: servido um copo de capacidade dupla dos o rd i­
nários. “ O chopp duplo mantem no R io de Janeiro o preço
habitual de 400 r é is .” (A P rovín cia n. 59 de 1916). Casa de
vender chopp. “ Os allemães toçnaram cerveja no Chopp da
rua das F lo r e s .” (D ia rio de Pernambuco n. 78 de 1916). “ Os
cinemas, os cafés e os chopps estiveram concorridissim os. ”
(A P rovín cia n. 64 de 1916). O termo vem do allemão schop-
peul, copo grande, de aza, de um quartilho ou meio litro, de­
rivado do latino scaphium. N o sul da Allemanha, antigamente,
tinha o nome de schoppeul uma medida para liquidos, mais
ou menos correspondente a meio litro .
Choramingas — Indivíduo que v ive a lamentar-se de máos
negocios, difficuldades, penúria, contratempos; a queixar-se
dos proprios males. D erivados: Choramingar, choraminguento.
Corruptela do termo fam iliar portuguez, choramigas, chorar
por qualquer cousa.
Chora minha amiga — Lamúria, choradeira, jerem iada;
uma cousa constante, habitual, impertinente, cabulosa. Ahi
vem o Antonio com a sua chora minha amiga.
Chôto — Mau andar do cavallo, incominodo, e dahi cho-
tão, chotona, o cavallo e a egua que andam de choto, e chotar
ou chotear, andar de choto. “ Mandei fazer um chicote Tendo
na ponta um botão, P ’ra te mettê nas costellas Cavallo veio
chotão. .. Ha quatro coisas no mundo Que atromenta um
christão: E ’ uma casa de goteira, E um cavallo chotão, Uma
muié ciumenta E um menino c h o rã o .” (Versos sertanejos).
“ T ra z cabellos de cigano, de maneira que quando choteia por
ahi a cavallo é uma perfeita caricatu ra .” (A Carranca n. 6 de

245
1842). “ Tu não prestas senão para chotear de jaqueta de galão
atraz de teu s en h o r.” (F ra n k lin T a v o r a ).
Chouriça — Especie de doce feito com sangue de porco
condimentado com ervadoce.
Chove não molha — Duvidas, indecisões, dubiedade, eva­
sivas, subterfúgios; não atar nem desatar. “ Para evitar delon­
gas, para evitar chove não molha, vai o homem correndo pedir
ao m inistro novamente a tê ta .” (A Lanceta n. 26 de 1890). “ O
prim inho que não era rapaz de chove não molha, resolveu lo ­
go a qu estão.” (A Pim enta n. 39 de 1902). “ O sujeito compra
passagem da prim eira secção, morando no Arraial, e descul­
pa-se com os conductores com chove não molha.” (Idem , n.
73).
Christão — Este termo é somente usado quando se fala
de um individuo de quem se duvida da sua honestidade, f ir ­
meza, sinceridade e caracter; ou de quem se suspeita da sua
pureza de casto, e dahi d izer-se: Aquelle sugeito parece que
não é lá muito bom christão; F ilh o de cobra d’agua com ja ­
caré; e que Em pequeno coçou a orelha com o pé, como faz
o cabrito. “ Quer o presidente le v a r tudo de vencida nas e lei­
ções, chamando á sua respeitável presença todos os em prega­
dos públicos que julga pouco christãos.” (O Clamor Publico
n. 89 de 1846). % i/

Christo — Paciente, resignado, bonachão; vietim a de es­


peculações, expertezas, explorações: o Pagador das tropas; O
Queiroz, que paga p’ ra nós. “ O W a lfrid o fo i o christo d as'u lti­
mas quengadas do pintor V iria to .” (A Pimenta n. 86 ^de 1902).
Chuladio — Embriagado.
Chumbado — O mesmo que chulado. “ N o recreio appare-
ceu um individuo completamente chumbado, que quiz a pulso
tomar parte na fe s ta .” (Jornal do R ecife n. 482 de 1916).
Chumbeiro — Designação depreciativa do portuguez fta
epocha das nossas lutas emancipacionistas, que ficou p or muito
tempo, mas hoje quasi que esquecida. “ Este nefando jirocedi-
mento não pertence senão aos tramas dos chumbeiros.” (O L i ­
beral n. 19 de 1824). “ M orram todos os chu m beiros.” (C o n ­
versa política, 1825). “ O espirito chumbeiro dar fim á lib e r­
dade já p ro m e tte ... Dos chumbeiros presentes vai mamando,
E só os miguelistas o re sp e ita m ... Sabem 'da Europa-os chum­
beiros ás barcadas, Nos quaes a m aroteirá só c o n fia .” ( A Co-
lu m n eid a ).

246
Chumbergar — Gostar da pinga; beber demasiadamente,
em briagar-se. “ Passa todo o anno lectivo de m ortorio e chum*
bergando em santo o c io .” (O Foguete n. 5 de 1845). “ Fre-
guenta os ship chandlers, aonde tudo chu m berga.” (America
Illustrada n. 48 de 1877). “ Na rua em copo não péga; Porem
em casa Chumbrega.” (C ancioneiro do N o r t e ). O vocábulo
vem, naturalmente, de Xumbergas, appellido ou alcunha do
governador Jeronym o de Mendonça Furtado (V . Xtfmbergas)
acaso por ser dado ao uso immoderado de bebidas alcoolicas,
conceito que parece autorisar este verso de J. Soares de A ze­
vedo: “ São Zoesxumbergas d’oiro a trèscalar cachaça” , atten-
dendo assim á origem do termo pela sua expressão clara de
um bebedo endinheirado. Xumbergar devia ser a graphia p re­
fe rív e l do termo, attendendo a sua bem p rovável origem ; mas
encontrando nos trechos da sua documentação escripto com
c h, assim o registram os.

Chumbinho — D in h eiro; moeda de qualquer especie; bens


de fortuna. “ Aquella moça, alem de vistosa e peixão, era
possuidora, dizia-se, de uns chumbinhos avultados.” (A Penna
n. 8 de 1899). "G eren te defende os carros de chumbo e o chum­
binho dos accionistas da com panhia” . (Lanterna Magica_n. 674
dc 1901). “ Quem está no serviço sou eu; divida o chumbinho”.
(Idem , n. 514 de 1890). “ Justiça do Am azonas! Bem b o m ...
Ü chumbinho governa o inundo!” (Id em n. 687 de 1902).
Chumbo — O mesmo que chumbinho. “ Vamos ter m eno,
chumbo nas algibeiras, e vamos ter mais sellos no orçam en­
t o . ” (Lan tern a Magica n. 651 de 1901). “ Pincelando de verde
a humanidade, foi-se o homem á cata de chumbo, que não pou
de alcançar no R e c ife .” (Pernam buco n. 280 de 1913). Bala
de qualquer arma de fogo. “ Você remexeu-se, passo-lhe
chumbo.” (Jornal do R ecife n. 91 de 1914).
Chupado das carochas — Magro, excessivamente pallido,
sem pinga de sangue, viclim a uas carochas, o conhecido inse­
cto Coleoptero pentamero, que, segundo a crendice popular,
chupa o sangue da gente, como os vam piros.
Chupeta — Charuteira, cigarreira, p iteira; bico de b orra­
cha da mamadeira. “ Aos tres annos, já esperto e crescido f i ­
cava entretido na chupeta, a mamar, a m am ar.” (A Pimenta
n. 28 de 1902).
Chupitar — Chupar, sugar, mamar. “ Jove quando foi m e­
nino, Chupitou leite c a p rin o .” (L u iz G am a). “ Quando os in-
dús apanham um insecto que lhes esteja a fazer cócegas ou a
chupitar o sangue, deitam o bicharoco sobre algum christão
d espreven id o.” (C arlos de L a e t).
C h u rin a d a — Indirecta, insulto, injuria, accenação. “ Umas
churinadas atiradas em combate le a l. ” (A m erica Illustrada n.
8 de 1877). Na giria portugueza encontramos o verbo churi-
nar, esfaquear, assassinar, de onde, naturalmente, vem o nosso
vocábulo. A lb erto Bessa escreve que churinar é talvez corru­
pção de chacina.
Chuva — O ajudante do director do presidio de Fernando
de Noronha, na giria dos degredados; bebedo, no gariço. “ Os
nossos chuvas berravam , pedindo passaporte para abrigareni-
se no palacete do C a p ib arib e.” (A Pimenta n. 59 de 1902). Be­
bedeira, embriaguez. “ Cabeça virada é chuva.” (O A lfin ete n.
10 de 1890). “ Entraram no Café R uy e serviram-se de alguns
licores sahindo na chuva.” (A Pimenta n. 14 de 1902). “ E n­
contramos numa chuva medonha a carapanã Am elia B o i. ”
(Idem , n. 544 de 1907). Abundancia, quantidade, fartura.
“ P elo que vejo o Thesouro, tem dinheiro como chuva. (P ern a m ­
buco n. 194 de 1913). Chuva de caroço: Forte, torrencial. Chu­
va de cajú: Chuva leve, ligeira, que apparece pelo estio, na
epocha da floração dos cajueiros. “ O tempo estava enxuto
não obstante se mostrarem os campos borrifados das chuvas
do cajú.” (F ra n k lin T a v o ra ). “ Em certa zona do littoral do
Ceará, nas serras de Baturité, na Ibiapaba em algumas outras
ha em Novem bro poucas chuvas, finas, chamadas chuvas de
cajú.” (D r. Moura B rasil). A estas chuvas davam os indios o
nomes Acajú acai piracóba. Dictados: Chuva com sol casa a
raposa com o rou xin ol; Não ha sabbado sem missa, domingo
sem chuva e segunda sem preguiça; Chuva não quebra osso;
Chuva como cabello de gia !; Esperar que chova p ’ ra criar
minhocas; Quer chova quer faça sol é sempre assim.
Chuvada — Chuva súbita,' rapida e abundante: Dar uma
chuvada.
Cigarra — Insecto da fam ilia das cicadarias (Cicada tim-
panum, F a b .) a que os indios davam o nome de Jakirana. Diz
o vulgo, correntemente, que a cigarra é victim a do seu muito
cantar, de um rechinar agudissimo, vindo dahi estourar pelas
costas, m orrendo assim, e consoantemente, esta locução popu­
lar de uma negativa form al, perem ptória: Nem que estoure
pelas costas como cigarra, consentir, dar ou fazer qualquer
cousa. Diz-se tambem, que da sua carcaça medra o cipó co­
nhecido por japecanga, de virtudes m edicinaes. A cigarra só
apparece ás proxim idades do inverno. T eve o insecto, o rig i­
nariamente, o nome de Cegarrega, como registra Mcraes, des­
crevendo-o; e consignando depois o vocábulo cigarra, diz que
é o mesmo que cegarrega, como Bluteau já havia feito regis­
trando este term o. Descreve elle o insecto minuciosamente, e
na parte histórica chega até V irgilio , que o menciona em um
dos seus versos como o nome de cicadis, d ’onde vem cicada, de
quasi citó cadens, porque v ive pouco. Term o portuguez, por*
tanto, fo i naturalmente imposto á nossa jakirána, p or ser da
mesma especie da cigarra de Portugal, onde ha mesmo este
adagio citado p or Moraes: Faze tua seara, onde canta a cigar­
ra. “ Cigarra! levo a ouvir-te o dia in leiro Gosto da tua trefa-
ga cantiga, Mas vou dar-te um conselho, rapariga: Trata de
abastecer o teu celleiro .” (O legario M arianno)
C igarreira — Pequeno tubo de ambar, madeira ou gesso,
onde se mette o cigarro para fum ar. “ Amanhã quero ver-vos,
coioiada, flo r á lapella, cigarreira á b o c c a .” (A Pim enta n. 25
de 1902).
Cinco mandamentos — As mãos, em allusão ao numero dos
dedos. Mandar na cara os cinco mandamentos: dar uma b o fe ­
tada.
Cinco m il — Q ualificativo de ridicula dado pelos conser­
vadores ou guabirús, aos liberaes ou praeiros, originado de
uma noticia publicada no D iario N o vo sobre as manifestações
de regosijo pela subida do seu partido ao poder com a organi­
zação do m inistério liberal de 2 de F evereiro de 1844, e na
qual mencionava uma grande passeiata que houve, composta
de cinco mil pessoas, numero evidentemente exagerado, p ro vin ­
do dahi o qu alificativo. Appareceu então um Hym no nacional
dos cinco mil, á im itação do da Independencia, e chasqueando
dos praeiros. ( A Barca da V igia n. 9 de 1847). O Padre João
Capistrano de Mendonça, extrem ado liberal, teve então o ap-
pellido de Capellão dos cinco m il. Resolvendo, porem, elle,
publicar um p eriodico politico, que começou a circular em 2
de Setembro de 1847, deu-lhe mesmo o titulo de — Hum dos
cinco mil — tendo por epigraphe: Trem ei oh ! guabirús, dos
cinco m il!, e no qual violentam ente os atacava. V eio dahi ap-
parecer logo — A Capistranada em 19 de Setembro de 1847.
Epistola ligeira, — insultuosamente o atacando, bem como aos
cinco m il. Este qualificativo, porem, não teve grande trajectó­
ria, permanecendo o velho de Praieiro.

249
Cipahuba — Madeira, mencionada p or Jeronym o V ilella
na sua poesia — A minha terra natal.
Cipó — Nom e generico de varias especies de vegetaes da
nossa flora, em geral trepadores, pertencentes a diversas fami-
lias, e de variadas applicações medicinaes e industriaes, dentre
os quaefc, de um fino, flex iv el, é tirado o cipó, especie de chi­
bata ou tabica. “ Zarpdndo para Maceió A lli tive pouca sorte;
Fiaeram-me c’um cipó Tom ar o rumo do n o r te .” (A Pim enta
n. 587 de 1907). M^fta o cipó bem de rijo E nunca lhe dôa a
m ã o .” (Barbosa V ia n n a ). Cipó de b o i; o mesmo que umbigo
de boi. “ Certa moça de Sant’Anna, p or m otivo de ciume, disse
que mandaria dar uma surra de cipó de boi em um ra p a z .”
(A Pim enta n. 628 de 1908). Cobra de cipó: Vulgar especie de
ophidio, assim chamado, como escreve Koster, pela sua seme­
lhança com o arbusto que lhe dá o nome; é tida por veneno­
sa. O vocábulo é corruptela do tupi i-ci-pó, ou filam ento que
se pega ás arvores, liana, nome generico das plantas sarmen-
tosas. (T h eo d o ro Sam paio).
Cipoáda — Indirecta, chincada, p ilhéria mordaz, picante.
C i p o a l — Embrulho, enredo, embaraço, com promettimen-
to; situação d iffic il sem meios faceis de sahida, como quem se
vê m ettido num cipoal, matta cerrada de cipós, d’ onde não saí
facilm ènte quem nella entra, im pedido de caminhar, m archar.
“ Lourenço tinha o espirito preso a certa ordem de idéas que
o en volvia como em cipoal, mais inestrincavel do que o enre­
dado bam burral por onde ia.” (F ra n k lin T o v o ra ) “ P ois agora
é que dei fé Aonde estou eu metido: N o meio d’ um ciopal, E
muito bem tecido, Que quero sahir não posso, E já me julgo
p erdido.” (C ancioneiro do N o rte )
Cipó-pau — Cipó grosso, forte, rijo ; pau de bater. “ Has de
vêr nas tuas costas um cipó-pau trabalhar” . (O Barco dos T ra ­
ficantes n. 54 de 1858). “ Manda assim por assim uma s o ffrive l
tempestade de cipó-pau no lombo do outro.” (O Campeão n. 104
de 1862). Cipó-pau vem do nome vulgar do p rop rio arbusto,
trepador, da fam ilia das Sapindace»s, de que é tirado, sendo
asim fu exivel, de facilm ente vergar. “ Diseram até que as nos­
sas costas haviam de experim entar a elasticidade de um cipó-
pau.” (M ephistopheles n. 10 de 1883).
C irro da morte — Estertor tracheal que se manifesta no
periodo agonicó devido á mucosidade acumulada no larynge.
Ciscador — Instrumento constante de uma estreita travessa
de ferro armada de dentes ponteagudos, com um cabo com ­

250
p rido de madeira, destinado á lim peza do solo. In divíduo que
trabalha com ciscador. “ Aqui terás nos ciscadores, uma le ­
gião de homens até a medula. (Jornal do Recife, n. 44, de 1915).
Ciscar — Arredar, revo lver, espalhar o cisco, com o fazem
as gallinhas á cata-de insectos e vermes. “ Vem depois um p in ­
tainho, Que embora cisque muito e apresadinho, 0 b ico não
trab alh a.” (Barbosa V ia n n a ). Juntar e rem over o cisco das
ruas e dos campos, ou como define Moraes, lim par a terra que
se vai arar, dos gravetos e ramos que o fogo não queimou;
Açular ou instigar os cães a m order; Arreliar-se, zangar-se,
bravejar, fazer explosões. “ Ou vai ou racha! Ou entra ou ar
rebenta! Commigo é nove e dez não form a! Estou ciscando! Es­
tou dam nado!” (Lan tern a Magica, n. 877 de 1907).
Cisqueiro — v Amontuado de cisco; deposito de lix o . “ Aca­
bamos de ver o R am iro passar num carro da lim peza publi­
ca para o cisqueiro.” (M ephistopheles n. 18 de 1882).
C ivilism o — Systema politico que combate o predom ínio
m ilitar na política do paiz.
C ivilista — Adepto do civilism o; cultor distincto do D i­
reito C ivil.
Clavinote — Arm a de fogo, mais curta que a espingarda.
“ João de Souto examinou rapido a escorva do seu clavinote,
que ia ser apontado por olho de atirador qile nunca errou
veado aos sa lto s.” (D r. A p rigio Guimarães). “ Clavinote e car-
tucheira, P ’ra quem anda na c a n g a ç o ... Quando estou no
meu destino, Naquelle destino forte, Não temo ponta de faca
Nem bala de clavinote. (C ancion eiro do N o rte ) O termo vera
de clavina, especie de espingada.
Cobra — Estar, fica r cobra: irritado, zangado', escolerisa-
do. 9Não! quero ir mais longe porque elle pode pensar que eu
estou cob ra” . (Jornal do R ecife n. 58 de 1916). “ O pessoal do
Holophote está cobra.” (A Lanterna n. 1 de 1917). Dictados:
A cobra quando entra n’agua deixa o veneno em terra: A p ri­
m eira pancada é que mata a cobra; Cobra que não anda não
apanha sapo; Ruim como as cobras; Estar com o cobra que p er­
deu a peçonha; Cobra não m orde a mulher gravida; D izer co­
bras e largatas: delatar, d iffam a r” . Eu ouvi elle na porta do
S ilveira dizendo cobras e largatos do am igo Bastião” . (Jornal
do R ecife n. 27 de 1916).
Cobra d’agua — O phidio aquatico. “ A cobra d ’agua é fr e ­
quente’ no riacho que corre em Jaguaribe. Tem muitas vezes de
oito a dez palmos de com prim ento e a grossura de um braço;
o dorso é preto e reluzente, e o ven tre am arello claro. O povr
a tem p or venenosa, mas ouvi sustentar o contrario. (K . K o «-
te r). F ilh o de cobra d’agua com jacaré: dictado para chas-
quear do mestiço alvacento.
Cobre — D inheiro. “ Muita gente tem cahido com seu co­
bre, e alguns senhores de engenho deram quantias avultadas.”
(O Cometa n.° 1 de 1843). “ D iz e lá, com toda a instancia, \
esse cançado home, que me mando esse cobrinho ,Se lem bre
de quem tem fo m e .” (A Carranca n. 54 de 1845). “ Com o
cobre que tinha comprou terras da banda do r io ” . (C oelh o
N e tto ). Cahir com os cobres, pagar, satisfazer; Não sabe a
cobre, cousa que não custou dinh eiro. O term o com esta pár-
ticular expressão já vem de longe, com o se vê destes versos
do Padre Antonio Gomes Pacheco, de 1775: “ Tudo isto postr
no cobre, E bem reduzindo á China, Bem chega para comprar
mos D ’ aguardente duas p ip a s .”
C obreirov — Corruptela de cobrêlo, herdes miliares, erup­
ção cutanea, com prurido e dor ardente. “ Pedro, que tendes?
Senhor, cob reiro. Pedro, curai. Senhor, com que? Aguas das
fontes, H ervas dos m ontes” . (O ração para curar o cob re iro ).
O vocábulo vem de cobra, porque segundo a crendice popu­
lar, a moléstia é proveniente da roupa de vestir ou de cama,
sobre a qual passou uma cobra ou qualquer outro bicho pe­
çonhento, crendice esta que vem já de longe, dos proprios in ­
dios, que davam aç cob reiro o nome de Boya nugára, especie
de cobra, segundo Gonçalves Dias.
Cocáda — Feridas na cabeça; doce de côco, de assucar
branco ou não, e em ponto forte para fica r consistente ao se­
car, disposto em form a de discos, a especie de bolacha, ou
cortadó em talhadas; e jíelo mesmo processo, as cocadas de
laranja e de mamão. “ De côco se faz cocada” . (A Marmota
Pernambucana n. 23 de 1850). “ A cocada é o doce do povo,
é o doce patriotico e dem ocrático, e é a sobremesa dos p o ­
bres, e alem disto tem a particularidade de excitar o prazer de
se beber um bom copo de agua fresca; a cocada une-se p e r­
feitam ente com os ovos, e então fica parecendo um doce de
o u r o .” (Idem , n. 47). “ Lem bre-se que lhe mandei quatro
vinténs de cocada” . (Lanterna Magica n. 441 de 1894). “ Com
trabalho embora pouco, faz o seu bolo. de côco, que ovulgo
chama cocada” . (A Pim enta n. 9 de 1902).
Cocão — Peças que ficam aos lados extrem os da mesa
dos carros de carga dos engenhos, dentro das quaes gira o
eixo das respectivas rodas do v e h ic u lo .” “ Caminhavam os
carros de bois, carregados, os eixos rinchando imprensados
nos cocões, numa musica dolente c lo n gín q u a .” (A lv a ro So-
d r e ).
Coché — Coxo, manco. Dá-lhe coché com a ponta do pé.
(D ictado p o p u la r). “ O signal desta vaquinha? Cara branca
punaré, T raz o ferro do Burel, não tem cauda, é coché”
(A Vacca do B u rel).
Cochichóla — O mesmo que o cocheichnlo da giria portu-
gueza (K u xi-xó-lu ), e com as suas próprias expressões de quar­
to ou recinto muito acanhado; casa muito pequena. “ A Ri-
tinha habitava uma cochicholasinha em Fóra de Portas.”
(A Pimenta n. 36 de 1902).
Cochilar — Estar com somno e accentuadamente mani-
festal-o, assentado ou mesmo de pé: Estar aos cochilos; pas­
sar pelo somno, dorm ir ligeiram ente. “ Sob o alpendre todo
o dia Vê-se branca rede armada, N ella a velha está d eita d a ...
Cochila; encosta a cabeça.” (X . de Castro) “ Deus perm itta
que tu morras No sereno cochilando” . (T ro va s populares).
Este termo de origem africana, vem já de longe, como se vê
da sua consignação nestes versos de G regorio de Mattos: Ou
se põe de im proviso A cuchilar como n egro” .
Cochilo — Acção de cochilar; descuido, escorrego litte-
rario, profissional; Cochilo de H om ero: Aliquando dormitat
Horm erus. “ Dos mestres não faço pouco, Acceito o quináu
tra n q u illo .. . Todos dão o seu cochilo, E eu sou muito d or­
m inhoco” . ( Jatyr, S etta s).
Côco — Nom e generico dado ao frueto de qualqiíer es­
pecie de palmeira, porem, mais vulgarmente, ao do coqueiro
da ín dia. (Cocos n u c ife ra ). Côco velado; o que não tem agua,
e somente a amêndoa, completamente secca, solta do endo-
carpo. Côco comido da lua; o que não contem a amêndoa no
seu todo, 011 apenas uma parte qualquer. Côco velho é que
dá azeite. (D ;e ta d o ). — “ Quando o gato engeita côco E a moça
casamento, ou o côco tem pimenta, Ou a mõça, im pedim ento” .
(Versos pop u lares). Calado como um côco; Calar-se, nada re s ­
ponda francam ente; Quem é que come o queijo do vigário?
E o sachristão calado como um côco” . (Jornal do R ecife n. 275
de 1915). Chapéo de côco: duro, de cópa semi-espherica. “ O
general envergava terno de frack de casemira escura e chapéo
de côco” . (Idem , n. 112 de 1916). Côco de beber agua: a quen­
ga ou endorcapo do côco, com um cabo torneado, para tirar
agua das jarras ou potes. “ Da quenga do côco fazem-se vasos,
como côco para beber agua, uma especie de tijela (cu ia) e dif-
íerentes objectos” . (J. de Alm eida P in to ). Os côcos desta es-

253
pecie já raramente apparecem na cidade pela concurrenda dos
modernos, de metal, que em todo caso mantem quasi que o
mesmo feitio e o proprio nome, dos antigos. Em outros tem­
pos, porem, nas casas abastadas, usava-se do côco de prata.
“ Uma jarra velha e um côco negro, ferrugento, cheio de bura­
cos” . (A m erica Illustrada n. 31 de 1882). “ Bebendo após o al­
moço dous côcos d’ agua, o patusco rapaz vai á janella vêr a
visinha namorada” . (O João Fernandes n. 17 de 188(5). O vocá ­
bulo com esta expressão vem já longe: “ O escolteto pediu um
púcaro de agua, e a pobre velha lhe trouxe a agua em um côco.
por não ter outra cousa em que lhe dar.” (O Valeroso Lucideno,
1648). “ Doze côcos para beber agua.” (R eceita dos mantimen­
tos que levou uma expedição m ilitar de soccorro ao R io de Ja­
neiro em 1736). Cabeça; Cabeça de côco. “ Ser poeta é ter no
côco, a scentelha da inspiração.” (M ephistopheles n. 1 de 1883).
Dança popular, ao som de cantigas, com as suas cadencias m ar­
cadas a palmas, e com acompanhamento de viola ou violão.
De lettras differentes, mas convenientemente aceommodadas ao
canto original, obedecem sempre a um estribilho continuo,
respondido em côro pelos bailadores, como este, por exemplo,
de uns versos de côco de Jatobá de Tacaratu’, na zona serta
neja: “ Tatú no matto, Anda de gibão; Este côco é bom? Será
ou não.” Esta dança é originalm ente nossa, mas de ram ificação
quasi que geral em todo o norte, e em vóga desde muito.” Um
matutinho alegre, dançador, a quebrar o côco e riscar o bahia-
no no m eio de uma sala.” (D ia rio de Pernambuco n. 246 d e . ..
1829). “ Encontrei um matuto no A terro dos Afogados, que
se esganiçava cantando o Côco de F rei M ig u e l... O côco da
Em biribeira E ’ côco de F re i M iguel; Este frade está tão feio,
Que parece um papa-mel.” ( A Carranca n. 62 de 1846). “ Ma-
ria-dentinho e o Pucha-coiro batiam duros o côco, dando pas­
sos e furta-passos.” (O Brado do P ovo n. 1 de 1855). “ Passei
na roça dançando, Aqui a polka insolente, A lli um côco que­
brado.” (A Pimenta n. 30 de 1901). “ O nosso cardeal se fosse
consultado sobre o m axixe, p or certo aconselharia que o subs­
tituíssem pelo côco pernambucano” . (C yren o & C ia ).
Côcô — Excremento, sugidade. “ Coitado! nem ao menos sa­
be, que guano é côcô de passarinho.” (O Esqueleto n. 11 d e . ..
1846). “ Triste nuelo da praia o côcô tem por alm oço” . (O
Foguete n. 13 de 1845). “ Não o que tem o diacho da barriga,
que lança côcô para fóra.” (A Duqueza do Linguarudo n. 128
de 1878).
Cócó — Penteado de mulher no alto da cabeça, ficando os

254
cabellos enrolados e presos, ou mais abaixo, na parte pos-
le rio r da mesma, obedecendo a form as diversas.— “ Uma m on­
tanha de cabelos, formada no alto da cabeça e muito estimada,
sob o nome de cócó.” (João B rig id o ) — “ A L o ló ficou repu bli­
cana desde a ponta do cócó até ao calcannhar d ireito.” (A P i­
menta n. 81 de 1902). — “ Cabellos de cócó á moda b oeiro.”
(Lan tern a Magica n. 813 de 1905). “ Se faz um cócó p’ra cima
0 couro do cangote extranha” . (V ersos Populares) Cócó de
vintem ; cócó ranheta: pequenos, mal arranjados. — “ V erá mui­
ta moça de cócó ranheta, quebrando de quando em vez uns
olhares 'para o pelintra que passa.” (Lan tern a Magica ri. 443
de 1894).
Cocoré — P alavriado ,ou tirada de graças: Deixe-se de
cocorés commigo.
C ocorejar — Espiar, observar, acompanhar; não deixar de
vista; agradar insinuar-se: Cocorejar a alguem com um fim
qualquer.
Cocoricar ou cucuricar — O cantar do gallo. “ Um gallo
que estava agasalhado num dos ramos da mangueira, cocuri-
cou por duas vezes, annunciando a manhã” . (A Carranca n. 65
dç 1846). “ Um gallo cocuricou numa faveira próxim a á lata­
da o p rim eiro canto: era meia noite.” (Abdias N e ve s ) “ Anun­
ciando oito horas O gallo cucuricou; E lá na torre da igreja
A mesma hora soou.” (A N o ite ). O uvir cantar o gallo e não
saber onde. (D icta d o ). “ Não sabem a quanto andam, nem de
que lado faz o gallo cucurucu’ ” (O Athleta n. 5 de 1843). “ H a­
verá cacarejos e cucurucu’s que applacarão. a umafarta dis­
tribuição de m ilh o.” (D ia rio de Pernambuco n. 57 de 1916).
D erivado: Cocorêjo. “ O gallo cantando, enche o espaço ale­
gremente nas notas de um co co rejo ” . (Lan tern a Magica n. 492
de 1896). O term o sob qualquer modo, é uma voz onom atopai­
ca originada da própria expressão do canto do ga llo.
Cócório — Cantante, cantador; fin o rio sagaz, expertalhão:
O João é um cabra fino, cocorio. “ Adolpho que é gallo coco-
rio, não canta no terreiro do M ello.” (O Clarim n. 7 de 1878).
Cocoróte — Carolo, pancada que se dá na cabeça de al­
guem com o nó do dedo m edio fechando a mão.“ Pancada
com os dedos na cabeça.” (S ilvio R om ero). Dar uns coco­
rotes, umas cocoretadas- “ Estamos quasi a jurar que D. Am bro-
sina levou pelo menos alguns pesados cocorótes” . (A Lanceta
n. 122 de 1913). O term o é, evidentemente, uma corruptela
de piparote; porem, segundo Beaurepaire Hoh.-m. como essa

255
pancadinha* se dá ordinariam ente sobre o cocoruto da cabe­
ça, nascerá dahi, talvez, o nosso vocábulo.
Codorio — T rago de vinho ou de aguardente. Tom ar um
codorio. “ Se huizer tomar lá o seu codorio, Os desencaiches
meus afoito lêa ” . (D e um soneto do Passaro B ra s ile iro ). “ Se
não me der um codorio, Am igo, não canto mais.” (Juvenal Ga­
len o ) “ Era um capadocio, Fregu ez*do codorio.” (D e uns v e r­
sos p o p u la re s ). Codoria, prim itivam ente quadore, segundo
João R ibeiro, exem plificando com uma passagem das In fer-
jnidades da lingua (1759) vem, como diz, de uma phrase do
latim da missa: quod ore sumpsimus. 0 p rim itivo quadore tem
na giria portugueza a voz de codore, mais approxim ada da
phrasé origin aria — quod ore.
Côfo — Especie de cesto ou samburá,de usos diversos,
e de uma form a particular, destinado á pesca de camarões e
peixes meudos: “ As mulheres indias colhem os fructos e os
levam para a casa em uns côfos muito grandes feitos de p al­
ma. lançados sobre as costas.” (F re i Vicente do S alvador)
O term o vem dos african d cóffu, armadilha de pescar, feita de
bamba trançado, a especie de tubo, e muito usado na A fric a .
Coió — Nam orador, galanteador; o namorado, a nam ora­
da: meu coió. minha coió. “ E* no D erby onde os coiós dão os
mais alegre signal de vida.” (O G rillo n. 2 de 1901). “ L á vai
de carinha feia A gentil Peia. Cortando a pelle de coió Sem
sentir dó.“ ( Peia n. 1 de 1903). “ Os coiós por falta de luz na
ponte agrediram uma senhora; felizm ente não correu risco
porque era uma parteira.” (Lan tern a Magica n. 779 de 1(04).
D erivados: C oióiação; Coióiada; C o ióial; C o io ia r; C o ió i'c «‘
Coioismo. “ Eu não sou nenhum sandeu; de coioida estou fa r
to.” (À Pim enta n. 5 de 1902). “ A minha coioiada disse-me
um dia: V ocê já não me ama.” (Idem , n. 86). “ Na palestra lit-
íeraria o fanfa Cordeirinho leu a chronica Semanal C o io ia l” .
(Idem , id e m ). “ Uma camaradinha que tü conheces andava
coioiando uma m enina.” (Idem , n. 17 de 1901). “ O homem ;sof-
fre da mania do coioismo m olhado” . (O G rillo n. 2 de 1901).
O vocábulo coió é origin ário do R io de Janeiro, onde é cor­
rente na lettra do Jogo da carreira, que S ilvio R om ero con sig­
na nos seus Çgntos Populares (1883), mas sem uma expressão
clara: “ Quem é o durão? Sou eu só. Olha lá que te pégo.
Não pega, não, Ora bate, coyó; «— e assim, parece-nos, que
a consignação dos seguintes versos, em que figura o íormo,
em um period ico illustrado do R ecife, e anteriorm ente ao ap­
parecim ento do re fe rid o liv ro de Rom ero, que são elles ori-

256
ginarios daquelle jogo fluminense, e portanto, já vulgarisa-
do o vocábulo entre nós: — “ Ora bate moleque, Ora coió.”
(Am erica Illustrada n. 8 de 1879). “ Ora bate m o le q u e .. Ora
bate coió P ed ro Jorge comeu só.” (Idem , n. 35 de 1881).
Entretanto, somente depois, decorridos annos, que o termo teve
vóga popular entre nós, creou raizes, e radicou-se por com ple­
to ” . Ultimamente veio-nos do Rio, para substituir os muitos
termos adequados aos galans das graciosas estrellas, a pa­
lavra coió. A palavra não tardou a generalisar-se, e tres ban­
queiros de bichos reuniram-se um dia e fundaram uma banca
de jogo sob o nome d’ Os tres Coiós.” (Lanterna Magica n. 673
de 1901). Consoantemente, e no ardor da vóga do term o da
moda, fo i installada, no mesmo anno, uma associação dra-
matica com o titulo de Verdadeiros Coiós, e no carnaval do
anno seguinte fez proezas um Club dos Coiós. De par co:n a
vóga do vocábulo, surgiram os seus derivados, como vi nos,
e em fim, a locução Coió sem sorte: “ Nam orado vagabundo
in feliz, especie de jacaré que passa todo o santo dia a cho­
car ovos nas esquinas.” (A Pimenta n. 65 de 1902). “ Estou
na rua com o triste nome de coió sem s o rte !” (Idem , n. 6 d e . ..
1901).
Coirão — Mulher a toa, detestável; velha, “ A Julieta an­
da na ponta e dando sorte. Ha certos coirões que tem geito pa­
ra cavar a vida.” (A Pimenta n. 621 de 1907).
Coité — O fructo da bignoniacea coiteseira (Crescentia
cujete, L in n eo), da nossa flo ra ; especie de cuia feita do mes­
mo fructo, partido pela metade, e tirada do pericarpo ou cas­
ca, toda polpa que contem. “ Deixou-me um bule de barro,
Seis marimbas, tres coités.” (A herança de dindinha') Segun­
do Baptista Caetano, o termo é corruptela de cui-êtê, vaso real,
cuia grande, ou capaz, cuia bôa.
Coivara — Fogueira, queima da vegetação já cortada e
secca para aproveitam énlo do respectivo terreno á plantação,
de um roçado. “ Limpa da roça, queimada para roça; roça ou
cultura que se prepara; leito ou assento dç r o ç a ... A derru­
bada ou limpa para a roça denoininava-se (entre os indios)
có ou cópichaba; e a roça no acto de queimar-se cô-y-uára,
de que se fez p or coruptela coivara.” (Theodoro Sampaio)
“ Roça queim ada” . (Pereira Coruja) D erivados: Coivara; En-
coivarar. “ Toda a zona onde onde o fogo lavrou é um immenso
coivaral.” (Gustavo Barroso) “ Secco o matto, fiz a canna E
acabando de asseiral-o Puz-lhe f o g o . .. que buraco! Não custou
encoivaral-o.” (Juvenal Galeno)
Colher — Na phrase — Metter a sua colh er: metter-se em
conversa e negocios alheios; metter-se onde não é chamado.
“ Não consentia e nem podia consentir que um padre viesse
metter a sua colher onde não era chamado” . (M ephistopheles
n. 25 de 1882).
Colhereira — Especie de rola (colum ba), a que os indios
chamavam A yarja
Colla — Filança de estudante na prova escripta do exame,
copiando cautelosa e dissimuladamente o ponto sorteado. “ Bur­
ro : Rapaz de grande cabeça e orelhas grandes, que antes de
ser collado, fabrica collas em exames” . (A Pimenta n. 65 de
1902).
Collar — Copiar o ponto sorteado na prova escripta de
exames; arranjar, conseguir, obter, logra r. O João só collou
casar com a Maria porque o pae já não existe; se fosse vivo,
elle não collava isto.
Collete curto — L eva e traz, alcoviteiro, correio de na­
m orados. “ Casamentos commumente arranjados por interm e­
diários, como os que o nosso povo pintorescamente alcunha
de colletes curtos” . (M . de O liveira L im a ). “ Engraçado é
que eu, sem querer, fiz papel de respeitável collete curto” .
(Jorn al Pqueno n. 28 de 1916).
Collete de couro — Especie de camisa de força que no
in terior se emprega na conducção de presos perigosos para
evitar a sua fuga.
Columna — Absolutista, corcunda ou realista, que traba­
lhava contra o systema constitucional, e depois pela restau­
ração do reinado de D . Ped ro I, que abdicara em 1831. Esta
denominação vinha de uma associação secreta fundada no
R ecife em 1828 com o titulo de Columna do Throno e do Altar,
com o fim de proclam ar o absolutismo, governando o im pera­
dor sem Tram bolho, isto é, sem Constituição, como assim cha­
ma vam-na os corcundas. A Columna fo i dissolvida em 1830,
por intervenção do governo, mas ficaram os columnas, a fe r­
rados ás suas idéas, espalhadamente conspirando, uma ve/,
que desaparecera o seu centro de acção. Para ridicularisar,
os columnas e a sua decahida associação, escreveu o P ad re
Miguel do Sacramento Lopes Gama um poema heroie-com ico
intitulado A Columneida impresso no R ecife em 1832, o qual
assim com eça: “ Da form osa Columna os grandes feitos que
pejam os annaes da m a roteira,. . . Tudo quero cantar p or
nova traça Se a tanto me ajudar genio e chalaça” .

258
Comadre — A cabra (C apra hircus). “ A ’ cabra que ama­
menta uma creança dá-se o tratamento de comadre, term o
usado ente a mãe e a madrinha de um menino, e isto é tão
geral, que as próprias cabras que não tiveram a honra de
amamentar os seus jovens amos, são tambem chamadas p or
com adres” . (H . Koster, 1810). Amasia de padre. “ N o bico
de prôa Embarcavam-se os padres Com suas com adres” . (O
Brado da Razão n. 27 de 1849). “ Se o bispado não bispou O
Rezende, santo padre, F o i pofque, dizem más linguas, Desco­
briram -lhe a com adre” . (O Mocó n. 5 de 1851). “ Apenas,
porem, collado, mandou o vigário v ir uma comadre de quem
já tinha dous a filh a d o s.” (O Patusco n. 13 de 1886). “ Visto
á janella avistaram Um monsenhor, um bom padre, Que afa­
gava uma creança E ao lado t in h a . . . a com a d re.” (V ersos p o­
p u lares). Odio de padre não respeita a com adre. (P ro lo q u io ).
Comboça — Amasia, concubina
Comboço — Parceiro, com panheiro, m alu n go.” O Vas­
soura anda de olhos vesgos como seu com boço o Japiassú.”
(O Esqueleto n. 3 de 1846).
Comboio — Especie de caravana de aninlaes de carga,
que desce do in terior conduzindo generos de producção lo ­
cal: um comboio de algodão, farinha, milho, e tc .; e que de
retorn o conduz fazendas e generos diversos. “ Todos os lotes
ou com boios de animaes, que entrarem nesta praça com cargas
ou sem ellas, serão conduzidos a passo, atados uns atraz dos
outros, e levados pelo m eio dasruas até o lugar do sen des­
tin o .” (Posturas da Camara do R ecife, decretadas em 1831).
“ Numerosos com boios de cereaes e de m ercadorias estrangei­
ras partiam dos brejos e das praças da Parahyba e do R e c ife ” .
(Irin c o J o ffily ). “ De caminho para o R ecife cruzamos nu­
merosos camboyos que, pesadamente carregados, seguiam para
o in te r io r .” (D an iel P . K id d e r ). “ Calango fo i á Jurema C’mn
com boio de fa rin h a .” (Versos sertan ejos). D erivado: Coin-
b oieiro; a gente do comboio, que o acompanha” . Passageiros
e com boieiros do in terior de Pernambuco, que atravessam o
r i o . ” (Fernando H a lfe ld ). Especie de chefe do com boio, h o ­
mem de confiança do fazendeiro, que faz as despesas da v ia ­
gem. a entrega da m ercadoria no seu destino, e de reg re sso
conduz nova carga. O terno, com esta accepção entre nós,
parece-nos, que vem da epocha in icial da cultura do algodão
no in terior, na segunda metade do seculo X V íI l.
Comelança — Rapinagem, traficancia, ladroeira. “ Não tre ­
pida em lo gra r os incautos com os seus planos de com elança” .
(A Pim enta n. 10 de 1914). Este vocábulo é um modismo de
comedela, que Aulete registra como termo popular, com as
expressões de extorsão, subtração, roubo astucioso.
Comer — T er, julgar, presumir, suppor, “ Alguns o tem
com ido p or medico, e elle é padre, mas sem c o le ira .” (A C ar­
ranca n. 57 de 1846). “ Ninguém o coma por besta, pois sabe
bèm atar os m o lh o s.” (O Vapor dos Traficantes n. 137 de
1859).
Comer de onça — O homem preto. “ Na ponte do Caxan-
gá Fizeram uma geringonça; Bacalháo é com er de negro,
N egro é comer de o n ç a .” (T ro va s p op u lares). O qu alificativo
vem do que se diz da onça, que nos seus ataques contra o
homem, para dar pasto á sua voracidade, o re fe re o preto ao
branco, na concurrencia dos dous, e atirando-se contra aquella,
sempre que o encontra. E ffectivam ente, tratando o autor dos
Diálogos das grandezas do Brasil (1618) do terrivel felino, es­
creve: “ A homem branco não ouvi dizer nunca que matassem,
mas aos indios e negros de Guiné sim, quando se acham muito
fam in ta s.”
Comer queijo — Acalcanhar o calçado para dentro ou
para fó ra .
Comer safado — Comer grosso, aguentar com o repuxo;
ver-se em difficuldades, passar p or torturas, por aquillo que
o diabo engeitou, “ N o fim da joça a bahiana comeu safado.”
(A Pim enta n. 388 de 1905. “ Arm azenarios de assucar com en­
do s a fa d o .” (Jornal Pequeno n. 50 de 1916). “ E ’ o cumulo da
fome, comer s a fa d o .” (A Pim enta n. 5 de 1908).
Cometa — C aixeiro viajante. “ A ingratidão e o esqueci­
mento são os signaes que caracterisam aos cometas, caixeiros
v ia ja n tes .” (A Pim enta n. 15 de 1901). “ Na casa de banhos
dos Arrecifes, p or suspeitas, fo i revistada uma grande mala
pertencente a um cometa allem ã o . ” (Idem , n . 12 de 1902).
Cometário — Casa de pasto, hotel ordinário, mosqueiro.
(G iria dos ga tu n o s ).
Como seiscentos diabos — Abundancia, quantidade, gran­
de numero. “ Na festança houve grandes comes e beb^s, mu­
sica de pancadaria e discursos como seiscentos diabos” . (\
Pim enta n. 563 de 1907). Com iguaes expressões ocorrem
ainda as phrases: Como terra; como form iga; como cabelio de
gia, com relação a chuva; e como trinta. ” Quando v i a policia
quiz correr mas já era tarde. A h ! fo i zinco como trin ta” . (A
Pim enta n. 487 de 1906).
Compadre — Tratam ento intim o entre camaradas da ga-
rotagem. “ F o i uma roição roxa seu com oadr» • nunca pensei
ter cabeça tão f o r t e .” (A Pim enta n. 27 de 1902).
Compadresco — Modismo do term o portugucz Compadrio,
e com as suas próprias expressões figuradas: Fam iliaridade,
intimidade, favoritism o; protecção exagerada e contra a justi­
ça. “ Uma administração que não fosse de compadresco p ro ­
cederia de outro m o d o .” (O Lidador n. 98 de 1846).
Companhia do olho v ivo — T ro ç o de gatunos. “ Saibam
que o contrabando é perfeitam ente igual ao furto com chaves
falsas e todo o processo de une usa a companhia do olho
v i v o . ” (A Lanceta n. 39 de 1890).
Compassar — . Fazer de novo uma éscripta escolar, ou p ro ­
va de exame, p or algum erro commettido, le ira iná ou bor-
ra d e la .
Com prar — Escutar, ouvir, observar, com interesse e aí-
te n ç ã ô u m a conversa ou uma cousa qualquer, prevtmidamen-
te, com segunda tenção. Com prar p’ ra vender, ouvir p’ ra d e­
pois contar; Comprar em segunda mão, ouvir já de um segun­
do; Vendeç como comprou, contar a cousa com o soube.
C on ch am blan cia Harmonia, uniform idade, concordân­
cia: Isto com aquillo não faz concham blancia: são cousas hc-
terovonínQ. Fvn sn «ão. pnthn«iíi<!mo, satisfação. — “ Nas
conchamblancias da lucta, sustenta a nota, m u latá.” (A P i­
menta n. 30 de 1901). “ Um osculo e um arrocho cheios de con­
chamblancias” . (Pernam buco n. 55 de 1914) “ Os suineiros,
alegres, pintaram o demonio nas conchamblancias de um fre v o
m acho” (Jornal do R ecife n. 53 de 1914).
Concliz — Passaro, de bella plumagem, da ordem dos Deo-
dacstylis (Agelaius au ran tiu s). “ N o bosque immenso espesso
que fcordava o prado, Cantava o terno, consono C o n clix ” . (Je-
ronym o V i le l la ) . Este passaro tem o capricho de não fazer
ninho: mas urecisando de um para o seu auasalho, vê o que
lhe agrada, investe contra o seu dono, o desaloja, e toma con­
ta da casa alheia. Concliz é uma voz onom atopaica que vem
do p rop rio canto do passaro.
Condurú — Urticacea da nossa flora, que attinge a uns
30 metros, de optima qualidade pela sua duração em qual­
quer em prego; é de um bello verm elho, e já fo i muito usada
na mercearia, principalm ente nos tempos coloniaes. Ha uma
outra especie, o Condurú roxo, tambem de optima qualidade
e iguaes applicações.
Conferente — Agente do govern o que funcciona nos des-

261
pachos de im portação e exportação nas re p a rtiç õ ef e postos
ficaes federaes e estaduaes.
Confundir o genero humano com Manoel Germano — Con­
fundir uma cousa com outra; trocar as bolas. “ F.’ preciso não
confundir seu Germano com o genero humano, desde que já
falei na costella” (Jornal Pequeno n.° 20 de 1910).
Congos — Antiga e desusada folgança dos pretos africa­
nos, geralm ente escravos, e celebrada como rem iniscências
patrias nas festas religiosas, principalm ente de N . S. do Rosá­
rio, sua padroeira, constituindo uns autos com certos tons
guerreiros, e escriptos, mescladamente, em versos africanos e
portuguzes. N o nosso F o lk -lore Pernambucano estudamos
particularm ente o assumpto, concluindo com a consignação de
um desses autos mais ou menos completo.
Conquibos — D in h eiro. (A tarefa dessa bôa gente, ainda
pssim mesmo, tem produzido alguma cousa de conquibus” . (O
Clamor Publico n. 10 de 1845). “ Porem os conquibus F ica­
ram na pança: Tom aram os nós Mais outra p ita n ça .” (A Car­
ranca n . 24 de .1847). Sobre a etym ologia deste vocábulo,
consignamos estas observações, que encontramos sobre a co­
nhecida phrase, referen te a dinh eiro: A qu illo com que se com ­
pram os melões. “ Esta phrase vem naturalmente, do latim
comquibus, aquillo com que, com o acressimo de se compram
os m elões; e dahi chamar-se a dinheiro conquibus, ou antes,
com o devia ser — cum quibus” .
Consolo — M ovei de sala, a especie de banca, mas obe­
decendo a outros moldes, e de ornamentação superior. Os p r i­
m eiros consolos que apparceram entre nós, em meiados do
seculo passado, foram os chamados á Luiz XV, e origin ários da
França, de onde vem o p rop rio termo, de Console, com esta
expressão; Table de salon adossée au mur.
Constantino — A lcoviteiro, medianeiro, leva e traz, onze
letras, como tantas tem o nome Constantino.
Constembla — Mulher de vida facil, reles, a toa. “ A ton -
selhamoâ a constembla Ciposinho que mude este ap p ellid o” .
(A Pim enta n. 395 de 1905). “ N o dia que a tal constembla
se arreliar, não ficará ninguém v iv o no R e c ife .” (Idem , n.
498 de 1906). “ Essa constembla anda a pegar todos os boi ei r os
e geladeiros para os conduzir ao seu immimdo pardieiro” .
(Idem , n. 649 de 1908).
Conta de carocinho — Conta de despezas exageradas, de
arranjos e conveniências, como as de cheque, de grão-capitão.
Contas — Rosário, corôa, terço. “ Uma mulher já idosa,
que resava nas suas con tas.” (O Guarda Nacional n. 25 de
1843). “ Quem vier a Pernambuco Traga contas p ’ra rezar;
Pernambuco é purgatorio Onde as almas vão penar” . (T rovas
p o p u la res). -Não é da sua conta nem do seu rosário. (D ieta
d o ) . O term o vem das contas globulares, de substancias d iv e r­
sas, com que se fazem os rosários.
Contéco — D inheiro; o mesmo que conto de réis, ou sim­
plesmente conto. “ Quando a celeberrim a Com m ercial ar­
rebentou, eu lhe devia uns vinte con tecos.” (O Barco dos
Patoteiros n. 1 de 1864). “ Educado no tempo em que um
casamento feliz custava alguns contecos” . (A m erica Illustra-
da n. 16 de 1877. — “ Posue o sufficiente para v iv e r: uma for-
tunasita de uns oitenta contecos” . (Aza Negra n. 7 de 1882).
Conto de vigário — Engano, logro, artificiosam ente pas­
sado aos incautos. “ Não chores. H ei de casar com tigo embora,
se fôr preciso, uns contos de vigário passar por êste mundo
a fo r a .” (A Pimenta n. 86 de 1902). “ O conto do vigário ain­
da pespega a basbaque matutaria que vem ao R e c ife ."(D ia r io
de Pernambuco n. 238 de 1915). Esta locução é de origem
extranha; mas apparecendo, com a pratica dos seus fins, teve
concurrentemente, fóros de cidade.
Contrafeito — Chama-se assim ao papagaio, a vulgarissi-
ma e apreciada ave trepadora (Psittacus) da nossa ornitholo-
gia, que por contrafacção, fica com as cores verm elhas e ama-
rella, convenientemente dispostas, sobre a verde, que lhe é
própria, ostentando-se assim com uma plumagem linda e va­
riada. “ Os papagaios são de côr verde-am arella, qnando não
contrafeitos pelo h om em .” (Arth ur O rla n d o). “ Os papagaios
são abundantes, e os habitantes os contrafazem, variando-lhes
as pennas, de côr escarlate e am arella com o humor de rans
rajadas. Os papagaios assim contrafeitos e que falam, ven-
dem-se por alto p r e ç o .” (Fernando H a lfe ld ). Papagaio que
fala muito vai para Lisbôa. (D ictad o). “ E ’ sabido que o san­
gue de sapo concorre para a maudança do matiz verde das
pennas do papagaio, para o verm elho um tanto mosqueado
de a m a re llo ... Não houve mais papagaio verde; todos fica ­
ram lindamente papagaios con trafeito s.” (A P ro v in d a n. 172
de 1915).
Contra-metade — Metade da metade, ou uma quarta p a r­
te do liquido da antiga medida de garrafa: contra-metade de
azeite, de vinagre, etc. “ Um rapazito parou á porta da bo­
dega, e mandou m edir contra-metade de aguardente” . (Fran -

263
klin T a v o r a ). “ A quenga de tirar leite, Contra-metade de
azeite” . (Versos sertan ejos).
Contra-peso — Encargo, onus, trabalho que vem a mais
das obrigações communs, ordinarias; difficuldades, encommo-
dos, contratempos, revezes, que surgem depois de outros.
Alem do peso de uma grande fam ilia, mais este contra-peso
a g o ra !
Conventilho — Casa de habitação de mulheres perdidas.
“ As pobres raparigas são m iseravelm ente exploradas pelas
donas de casas ou conventilhos, abbadessas cham adas.” (A
Pim enta n. 550 de 1907).
Conversa — Explicação, satisfação, ajuste de contas: T e r
uma conversa; havemos de conversar. Conversa fiada: A ffec -
tação, subterfúgio, simulação, mão de estrad irice; historia,
lorota, pantomima “ A peste bubônica é uma conversa fiada,
uma historia para inglez v è r . ” (A Pim enta n. 19 de 1902).
“ Zé povo está farto de conversas fiadas e de lorotas.” (P e r ­
nambuco n. 177 de 1913). Conversa com prida fa z quem quer.
(D ic ta d o ).
Copáço — Corruptela de copazio; copo grande, liquido
que enche um copo. “ Term inam sempre as suas prosas com
um copaço de g in g ib irra . ” (A za N egra n . 9 de 1882) .
Copeiro — Um dos tres fypos dos antigos engenhos d’agua,
cuja roda se m ove com a que vem do alto, dando-lhe assim uma
grande força m otriz. “ O engenho copeiro é o m elhor porque
rarissima vez sente falta de aguas.” (L o re to C ou to).
Copiar — Especie de terraço junto ás salas de refeições
das casas de habitação, com um p eitoril de alvenaria e aber­
turas de passagem, descoberto, ou com coberta sobre pilares
ou esteios. “ N o copiar da casa alegrem ente illum inado pelas
candeias, o côco estava feb ril e anim ado” . (A lfre d o Brandão).
O vocábulo vem do tupi, copiára, alpendre, varanda, segundo
Gonçalves Dias.
Cóque — Certo penteado de mulher, no alto da cabeça,
natural ou postiço. “ Onde deixaria o meu coque? Estive hon-
tem em tanta p arte” . . . (A m erica Illustrada, 1872). “ Tem uns
modos especiaes, quer no andar, no vestir, quer no falar, no
penteado do coque” . (Idem , n. 15 de 1882).
Coração de negro — A rvo re de grande porte, da fam ilia
das leguminosas. A madeira que fornece é considerada de p r i­
m eira qualidade, pela sua resistência e incorruptibilidade, e
muito usada nas construcções civis e navaes. R efere Koste-
que encontrando nas suas excursões entre nós uma de
vores, perguntara a um preto que o acompanhava, qual o seu
nome, e que este lhe respondera; Coração de homem!
Coral — Certa substancia um tanto consistente, de um
verm elho vivo, ao modo de coral, na côr e na disposição, que
os crustáceos criam dentro do casco quando estão g o rd o s .”
Estes guaiamuns, com serem de m aravilhoso comer, criam
dentro em si grandes e form osos c o ra e s.” (D iálogos das gran ­
dezas do B ra sil). Bello ophidio (E laps corallimus, N ieu ro ), a
Ibibóca dos indios, cujo nome vulgar de cobra de coral, vem
da sua bella coloração, de um escarTate vivissim o, côr de
fundo da pelle escamosa, tendo transversalmente dispostas,
lista brancas e pretas. “ V êr a azul borboleta que e s v o a ç a ...
E a cobra de coral rojar no p ó . ” (F ra n k lin D o ria ).
Corcunda — Realista emperrado, retrogrado, absolutista
aferrado, intransigente. “ Sim, senhor, eu sou corcunda, E
m orro pelo meu r e i . ” (Conversa política, 1825). Nas luctas
da nossa independencia era tido como tal, particular e depre­
ciativamente, todo o portuguez, e dahi uma vinheta que si
via no periodico, O Maribondo, (1822), representando um in ­
dividuo de enorme corcunda (portuguez), a dar pulos, aco-
çado por um enxame de maribondos (b ra zileiro s ), que esvoa­
çavam de uma arvore.
Corda — De caranguejo (cam bada); de roupa; de crauá.
Mamão de corda (C arica microcarpa, L in n .) assim vu lgar­
mente chamado p or vir o fructo pendente da extrem idade de
um com prido pedunculo. Um pedaço de corda de enforcado
dá felicidade a quem o possue. Roupa de corda: ordinaria,
feita sem medida, c assim exposta á venda. Levar a pau e
corda: violentam ente. Dançar na corda bamba: en forcar. Os
hollandezes chamavam por zombaria, a pena de garrote in-
flin gid a aos prisioneiros de guerra, Dança de corda, mandan­
do-os assim, immediatamente, montar guarda entre o céo e a
terra, como diziam. Voluntário de corda: o individuo recru ­
tado, ou que, constrangidamente, marchava para a campanha
do Paraguay (1865-1870). Dictados: A corda quebra pela p ar­
te fraca; A corda muito puxada, arrebenta; Apertar a corda
ao pescoço; Espichado como corda de vio la ; Estar com a
corda no pescoço; Dar corda para se enforcar; Moscas por
cordas, mosquitos p or arames.

Cordão — Ala dos préstitos procissionaes; grupo de fo ­


liões carnavalescos. “ Esses que acompanham o Senhor dos
Passos com o mesmo ardor com que acompanharam o frevo
dos cordões, pelo carr i v a l . ” (A rch ivo Maçonico n. 79 de 1913).
“ Esteve bem o ensaio effectuado pelo apreciado cordão carna­
valesco 18 de M a rç o .” (Jornal Pequeno n. 38 de 1914).
Cordear — 1D eterm inar o alinhamento de uma rua, ou
de um predio que se vai construir, de accordo com o traçado
do respectivo arruamento: Cordear, dar cordeação, cujo ser­
viço era feito pelo cordeador da municipalidade, depois en­
genheiro cordeador. “ O cordeador José G rillo, encarregado
pela Gamara Municipal desta cidade, para fazer a bôa d irec­
ção dos prédios que se forem construindo.” (D iá rio de Per-
nambo n. 160 de 1831).
Côr de burro quando foge — C ôr exquesita, equivoca,
sem uma qualificação possível. “ A cartola do Euclides é da
côr de burro quando fo g e.” (A Pim enta n. 13 de 1914).
C oribóca — Producto do in dio com o negro, como assim
já o definiu M arcgravi: “ Natus ex patre brasiliensi et matre
ethiopissa vocatur Curiboca.” Deste cruzamento p rovem um
typo de côr de azeitona, com cabellos corridos, grossos e
multo negrosi, e assim semelhante ao abyssinio. Coriboca, cu­
riboca, ou cajiboca, tem accepçoes diversas em outros Esta­
dos, com o em geral nos do sul, onde se dá este nom e ao que
entre nós se chama mamaluco, isto é, o mestiço oriundo do
branco com o in d io; no Ceará, porem, é o homem de côr es­
cura, entre, cabloclo e negro. (Juvenal G aleno). “ E ra um sa.
bra coriboca, de nariz achamurrado.” 1(0 Rabicho da Geral,
d a). Como synonimo de coriboca, temos o termo cafuz. Co­
mo uma nota curiosa sobre o facto desse cruzamento, men­
cionamos uma P ortaria do vice-rei, o Marquez do Lavradio, de
6 de Agosto de 1771, dem ittindo á um chefe indio do posto de>
capitão m ór da sua gente por ter casado com uma negra e
assim haver manchado o seu sangue e se mostrado indigno
do cargo.
Corim ã ou curimã — P eixe de escamas (M ugil curema,
Cuv.), do mar e dos rios, até onde chega a influencia da
agua salgada, mas particularmente creada em viveiros onde
attinge a grande desenvolvim ento. “ A corim ã ovada, que lhes
fôrm a em dous lados quatro gibas.” (G re g o n o de M attos). A
corimã. que o vulgo estima, na phrase de Santa Rita Durão, é
peixe de feição das tainhas, porem m aior e mais gordo, e já as­
sim mencionado nos Diálogos das grandezas do Brasil. Tratan ­
do Fr. Vicente do Salvador da capitania do R io de Janeiro, e
mencionando a prodigiosa abundancia de peixe que havia no

266
rio Magé particularisa as fataças (tainhas adultas, Au lete) ou
• orimans, como os indios brazis lhes chamam. “ As corimães
do v ive iro do Maneco, em Afogados.” (O Azorrague n. 57 de
1846). Vocábulo de origem indigena, vem dahi o nome de
Corémay, de um riach o que corre na ilha de Itamaracá, cor­
ruptela de corimã-y, rio das corimans. (A lfre d o de C arvalh o).
C,orió -TP Passaro canoro (P itylu s nayatus, Desc.) apre­
ciadíssimo pelo seu hello canto, gosando de particular p red i­
lecção dos amadores de passaros cantores os coriós de Goyan-
na. “ Francína, não te recordas, D o corió tão mimoso, Que
cantava harm onioso Da rom eira num g a lh in h o ? ,.. A h ! que
saudades eu tenho Do corió que cantou.” (Jeronym o V ilel-
la ).
Córlas — Bilis, “ Confessai-vos, e botai fóra a bilis negra
da hypocrisia, e outras corlas e fezes” . (O Binoculo n. 9 de
1882).
Cornimboqué ou corrim boque — Ponta de chifre de b oi
cabra ou ícarneiro, para guardar o torrado ou tabaco de caco.
“ Cornimboqué é tabaqueiro” . (A Marmota Pernambiucana n.
31 de 1859). “ Procurem descobrir o fabricante do cornim-
boque, cujo tabaco tanto faz espirrar.” «(Lanterna Mjagica n.
8 de 1882). “ Mettendo esta sucia N o meu Corrim boque, Pa
rei delle tampa O grande Batoque.” /(O Papa Angú n. 1 de
1846). “ Gosto de tomar caco de corrim boque.” (A m erica II-
]ustra4a de 1 de Setembro de 1872). Passado pelos corrim bo-
ques díe A p o llo : Sabidorio, fino, expertalhão. “ Passado no
corrim boque do demp/ de engenho fin o .” (O R atão).
Çorno — M arido vilipendiado pela mulher, mas na ig ­
norância dos seusc desvios. O vocábulo com esta expressão,
coiicom itahtem ente: com outras accepções, é antigo, como se
vê de Moraes, abonando-o, neste particular, com alguns tre­
chos de eS(Criptores dos séculos X V e X V I. JBluteau porem,
assim não o encara, mas registra o term o cornudo, m arido de
m ulher adultera, naturalmente em voga no seu tempo, no que,
modernamente, apenas é seguido p o r Vieira, desapparecendo
assim do term o corno aquella definida expressão, uma vez que
Aulete e Cândido de Figueiredo assim não mais o attendem,
chegando m esm o , aquelle escriptor, apezar dessa omissão, a
dizer, <jue é excluido de conversação polida. O term o porem
ficíou na giria portugueza, como o registra a expressão popu­
lar concurrentemente vulgar, entre nós, onde ainda taes in ­
felizes são designados como membros da im aginaria Irman-

267
ciade de S. Cornelio.. Alem de corno, aperreado. (Dictado),.
Um corno!: recusa, replica, negativa perem ptória. D erivado:
cornear.
C o r ó — P eixe de mar ((Pristipom a coró, Cuv.)
Corôa ou crôa — Banco, baixio, na embocadura dos rios
ou no seu curso, ficando algumas descobertas nas marés scc-
cas ou vasantes: as corôas de Santo Am aro no rio Beberibe;
a Corôa dos Passarinhos, no Capibaribe, ao sul do porto in te ­
rio r do. R ecife, nas proxim idades da ilha do Pina. Das corôas
de areia do alto ao baixo S. Francisco, faz Fernando Halfeldi
particulares referencias. “ O nivel da extensa Corôa dos Pas­
sarinhos, nos pontos mais altos, não passa de um metro aci­
ma das aguas minimas.” (A lfre d o Lisbôa). “ O forte da popu­
lação é o marisco-pedra, tirado nas corôas quando a vasantc
as descobre.” (T ra n k lin T a v o ra ) “ O cadaver appareceu b o i­
ando na corôa de Santo Am aro.” (Jornal do R ecife n. 127 de
1916). O termo, como taes accepções entre nós, tem voga as­
sim já desde muito longe, como se vê deste trecho de uma
carta de Jeronym o de Albuquerque dirigida a Ravardiere, do
forte de Santa Maria no Maranhão, a 21 de N ovem bro de 1614:
‘‘ Vieram francezes de Itapari a esta corôa de areia, que me
jaz defronte, e pozeram bandeira branca de paz.”
Coroado — Padre, depreciativam ente. “ Em olhar p ’ra
m im um c’roado Ninguém sabe o que me custa.” (O Diabo n.
6 de 1883).
Coronel — A rvo re de s o ffriv e l madeira de construcção
civil. \
Cororós — D in h eiro; Anda lá; deixa-te de lezeiras, e
passa os cororós p ’ra cá.
Corpinho — E sp e:ie de collete, justilho ou corpeta, peça,
de vestuário jusfà' ao peito, que as mulheres usam por baixo
do fato.
Corpo fechado ;— Inimune de feitiçarias e catimbós, e li­
vre de todos os males e perigos, da mais certeira pontaria de
uma arma de fogo, e até mesmo do veneno das cobras, gra­
ças aos prodígios do mandingueiro, que tem o poder de f e ­
char o corpo ás pessoas para assim gosarem de taes
imferm idades. Goncorrentemente com esse poder do man­
dingueiro, ha uma oração especial para fech ar, o. cor­
po, de ,uma effica cia in fa llivel, segundo a crendice popular,
e que começa assim: “ T rago o meu corpo fechado com as

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chaves do santo sacrario. “ V. Exc. tem um talisman, a lhe
assegurar a vantagem de têr o corpo fe c h a d o ... e não ha mal
que lhe entre.” i(0 Jornal do R ecife n. 152 de 1916). “ Está de
corpo fechado: não ha bala, não ha faca, não ha mandinga,
que cause demno áquelle corpo.” (C oriolan o M edeiros).
C órre-córre — Azafama, agitação, alvoroço. “ Faz gosto
vêr a bella rapaziada da Distracção da T o rre num v iv o c o r­
re-corre nos dias das suas festas.” (A Pim enta n. 31 de 1962).
C orredeira — Rochedos submersos no leito de um rio,
dando assim á corrente m aior velocidade pelo pouco fundo
em taes situações, difficultando ou im pedindo a navegarão. E ’
desse c orrer das aguas — em velocidade extrema, rolando ce-
leres em caixões e borbotões — sobre os rochedos, que vem
a etym ologia do termo. — “ Melhoradas as corredeiras da
Bôa Esperança e Varzea da Cruz, deu um resultado de nave­
gabilidade de 402 kiloms., no rio Parnahyba, a partir de sua
f o z . . . Estão entregues ao transito de vapores mais quatro
corredeiras importantes, que impediam a navegação em de­
manda do baixo Parnahyba.” (F a la de abertura da Assem-
bléa P rovid en cial de Piauhy em 1885). Fernando H alfeld, no
seu R elatorio sobre a exploração do rio S. Francisco (1852-
1854), fala já das suas corredeiras nomeadamente a do Be­
zerro, sobre a qual tem as aguas uma velocidade de seis p al­
mos em um segundo. O termo não tem ainda codificação nos
lexicons portuguezes.
C orred or — Osso do boi que contem tutano. “ Naquelle
tempo batia-se corredor no almoço, no jantar e na ceia, para
extrahir o tutano, muito apreciado pelos sertanejos, p or ser
considerado entre todas as comidas como a que dava m ais.
v ig o r.” (Iré n eo Jioffily). Vereda, caminho estreito, tortuoso,
sobre campos de vegetação rasteira, ou alta, cortando assim
uma capoeira ou m attagal; pedaço de terreno estreito e lim ­
po dentro de um capão. (A lto S. Fran cisco). Como vestígios
dessa denominação particular de taes caminhos, resta-nos
ainda a de C prredor do Bispo, que conduzia ao palacio epis­
copal da Soledade, e ainda correntem ente mantido, apezar
de constituir hoje uma bella, larga e extensa rua com extra-
nha denominação o ffic ia l; e roncurrentem ente, o C orredor
da Torre, estreito caminho de passagem entre os extinctos
engenho<s da Magdalena e T orre, convertido presentemente
numà extensa avenida que chega até á margem direita do Ca-
pibaribe. “ Subimos a serra da Borborem a pelo logar chama-
do Estreito do Embuzeiro, que é um estreito corredor entre
duas pontas de serra” . (C aneca).
Correia — Instrumento de castigo, composto de duas ou
tres pernas, ou tiras de sola, presas nas extremidades supe­
riores. “ P o r qualquer travessura ainda apanhava com as cor­
reias.” (O Carapuceiro n. 75 de 1842). D erivado: Correiada.
“ Tem conseguido vib ra r valentes correadas, engasopando m ui­
to que se julga quengo” . (A Pim enta n. 10 de 1901).
C orreição de form igas — Invasão, ataque de formigas, em
numero prodigioso, incalculável, nas casas, celeiros e campos
de plantação, resultando grandes damnos e prejuízos pelos es­
tragos causados. A phrase já vem de tempos remotos, como
se vê destes versos do poeta seisentista G regorio de Mattos:
^ A lli entra a fradalhada Qual form iga em correição.”
C orrer as igrejas — V isitar na Quinta-feira de Endoenças
ou Maior, como vulgarm ente se diz, as igrejas em que, depoií
da Missa solemne do dia, fica em exposição o Santo Sepul-
chro.
C orricar — O mesmo que An dejar; C orrer montes e val-
les.
Corriqueiro — Que anda sempre a corricar, andejar;
roupa simples commum, de uso ord in ário: um vestido c o rri­
queiro.
Corrupião — Passaro canoro, de bella plumagem e facil
domeslieação.
Corruscubico — D iffic il, máo, perigoso. “ Pelas altas re­
giões da politica as cousasa andam corruscubicas, fegundo as
ultimas noticias telegraphicas.” (Lan tern a M agica n. 17 de
1882)..
.Çoitado — P reterido, desprezado, abandonado. “ Por
todá parte que ando Vão me cortando a ra iz; N ão sei Sc o
córte fo i brando, Mas fui cortado! In fe liz ! (A Semana n.° 3
de 1890). “ Menina que na janella, Com certo ar de lezeira,
Passa quasi todo o dia, Stá cortada, é tribofeira. (O C orreio
de Olinda n.° 1 de 1891). “ P o r toda parte que ando Sempre en­
contro namorados; Uns tolos, outros sabidos, Uns na ponta,
outros cortados.” (Quadras populares). Meu bem, estou corta­
do ahi? (D itado pop u lar). — “ O Veras passando á noite na
rua Bella alguem perguntou-lhe com a voz mais amorosa des­
te mundo: Meu bem, estou cortado a h i? ” (A Lanceta n. 26 de
1890). O ditado deu assumpto e titulo a um interessante e
ichistoso m onologo de G regorió Junior, representado e im ­
presso então.
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Corta-mortalha — M edico in feliz ou inepto cujos doente,*
não escapam.
Cortar — Falar mal, deprim ir, diffam ar: Cortar a pelle
alheia, Cortar a p elle e o couro. Im pedir, desprezar, aborre­
cer. “ Eu tenho pela Francisquinha um am or louco, que em­
bora ella me córte lia de ser minha.” (O Sino da Sé n. 1 de
1890). Cortar lingua: falar uma lingua extranha. “ O moço até
sabe cortar linguas. Cortar linguas? Sim. Diz-se de uma pes­
sôa que as sabe falar.” l(A P rovin cia n. 209 de 1915). Cortar
as azas, os esporões: reprim ir, conter, subjugar, vencer. “ Eu
que sou negro nas cores Mas não negro nas acções, Si fosse
atraz de malvado Cortava-lhes ios esporões.” (F o lt-lo re P e r­
nambucano).
Córte — Uso commum, ordinário. M etter no córte: passar
a usar ordinariam ente uma roupa ou cousa qualquer reserva­
da a certos dias.
C ortelleiro *— Boi manso, que vem sempre ao curral, p or
opposição ao barbatão, que é sempre amontado. (S y lv io R o­
m ero). “ Eu tinha o meu boi espacio, Que era meu boi cortel­
le iro .” (O Boi espacio, versão de S ergipe). “ O vocábulo tem
sua origem no radical .córte, term o portuguez, significando
pateo, curral, casa destinada á habitação de animaes domés­
ticos.” (Beaurepaire R ohan).
Cortezia — A ffin id ad e: T io por cortezia.
Cortiço — Conjuncto de pequenas habitações, reunida-
mèfife dispostas, form ando pateos ou arruamentos; casa em
que, distinctamente, habita muita gente. “ A junta de hygie-
ne visita as cocheiras, dá conselhos e desinfectantes, e entra
pelos cojstiços de alfange em punho.” t(0 João Fernandes n.
14 de 1886). “ O dinheiro que Nazinha trouxe esgotou-se, e
ella viu-se obrigada a se aboletar em um cortiço da rua das
T rin ch eiras.” (A Pim enta n. 497 de 1906). O qu alificativo
vem da analogia de semelhantes asas com os cortiços das
abelhas.
C ortir a bebedeira, a mona — Passar o tem po dos seus
effeitos, soffrendo os encommodos que provoca, e depois de
profunda somnolencia, o mau-estar que advem, ficando as­
sim na resaca. “ Depois de cortida a mona vos apoderaste
de um liv ro e nunca mais. o restituíste.” (Lan tern a Magica n.
10 de 1882), “ A senhora era casada; Porque largou seu m ari­
do? Porque bebia sinhanninha, E vinha cortir com m igo.”
(C ancion eiro do N o rte ).
Coruja — Especie de ave de rapina, nocturna (Athena
cunicularia molina, Ch. Bonap.) a que os indios davam o no­
me de jurucutú ou Orocuriá, segundo Gonçalves Dias.
Corujão — Poltrão, indolente', preguiçoso.
Corumbá ou curumba — F in orio, experto, m itrado, sabi-
dorio: Eu cá sou corumba velh o ! Vocês não me embrulham.
Homem de baixa condição, mal trajado, a toa; sertanejo que
desce para o serviço de campo das uzinas e engenhos. “ D e i­
xaste o b rio nos valles do Pajeú, lá, onde salta o veado, onde
cresce o curumba?” (M ephistopheles n. 2 de 1883). “ E* pena
que esta gente do Luzitano se persuada que isto aqui é uma
terra de botucudos e corumoas.” (Lan tern a Magica n. 793 de
19(15).
Corupira — Especie de demonio ou genio do mal da my-
thologia indigena, que segundo Anchieta, ataca os indios nos
bosque, e os açoita, atormenta e mata. Os versos populares
da legenda pernambucana do nosso Carupira, representam-no
um menino gentio, de cocai e fraldão de pennas, armudo de
arco e flexas, e montado numa queixada nas suas excursões
nocturnas. N o nosso iFolk-lore Pernambucano estudamos o
m ytho e registramos a sua popular legenda.
C orvina — *Peixe do m ar (Otolithus guatucopa, Cuv.), a
quatucapa o u ' cururúca dos indios, nomes que perdeu pela
sua semelhança com a corvina de Portugal. H a uma especie
de agua doce.
Coscas — Carruptela do cócegas. “ Seu maroto, deixe-se
dfi. safadeza de fazer cosquinhas nas mãos das moças quando
as aperta.” (O Maná n. 19 de 1883). D eriva d o: Cosquento.
Costado — Taboa larga, grossa, especial para certas obras
de carpintaria ou tornearia. As menos grossas tem o.n q m e de
costadfnho: Um costado ou costadinho de amarello.
Costella — Esposa, com panheira do lar. “ A costella mos­
trando o focinho ao marido, poz-se a reprehendel-o aspera­
mente.” (Lan tern a M agica n. 423 de 1894). “ V iv e r nas cellu-
las sombrias sem ter uma c o s te lla ... D orm ir s,ó até dizem que
faz mal, que é peccado.” ( A Pim enta n. 8 de 1902). — “ D iz
a historia que o pae da humanidade Do barro se creou, e da
costella que d elle se extrahiu, nasceu mais bella A mãe E va
das mãos da D ivindade.” (A U rtiga n. 1 de 1861). Costella de
vaccâ: O phidio venenoso, que attinge a grandes dimensões.
Costella mindiriha: As ultimas eostellas, as mendolsas, peque­
nas, que não chegam a fechar com o sterno, e assim vu lgar­
mente chamadas mindinhâs, isto é, minimas, pequenas.
Costelleta — Pequeno lanço de barba junto ás fontes.
“ Um dandy de costelletas e pence-nez” . (O Diabo a quatro n.
30 de 1876). — “ Um moço encadernado a chagrin, costelletas
a franceza, bigodès á m ilitar.” (M ephistopheles n. 7 de 1883) *
“ Regular estatura, usa lu n e ta s... Tem bigode grisalho e cos­
telletas; (A Pimjenta n. 27 de 1902).
Cotia — Pequeno animal, quadrúpede, roedor (C aria acu-
ty, L im .), habitante das mattas, c caça muito apreciada pela
sua bôa carne. Um dia, um dia, cachorro de paca mata cotia.
(D ictado matuto). Vocábulo de origem tupi, corruptela de acu-
ti ou acuty, segundo M acgravi, significa vigilante, e Gonçal­
ves Dias, esperar, acautellar, espreitar, e dahi este nome do
animal, conclue como se dissessem cauteloso, com o quem vai
pé ante pé.
Cotó — Anim al sem rabo, ou de rabo cortado. “ Fiquem
certos os taes ratos, que os hei de reduzir a preás, sem que
saibam cpiem lhes tosqueia os rabos até os p ôr cotós.” (A
Tempestade n. 3 de 1847). Cachorro cotó não passa pinguela.
(D itado popular) “ Um cachorro cotó, vadêa um rio cheio, a
nado, mas não transpõe uma pinguela” . (Pernam buco n. 311
de 1913). Moraes registra o termo com as expressões de es­
pada curta ou faca de matto, abonando-o com esta phrase de
M anoel Bernardes, escriptor do seculo X V II: — “ As espadas
degeneraram em cotós.”
Cotôco — Pedaço, resta de uma vela “ O Sr. Passos Gui­
marães va i obter o p rivile g io de vender tochas de páos com
cotocote de velas na ponta para acompanhamento das p rocis­
sões.” 1(0 Tam oyo n. 21 de 1891). Minino, pessôa de baixa es­
tatura: um cotoquinho de gente. O que fica de um rabo cor­
tado. “ V ocê teve rabo, que inda tem cotoco.” (D e uns versos
populares). “ Perténee a fam ilia dos cotocos, que provém dos
chipanzés; e quem duvidar destr classificação, queira apal-
pal-o na extrem idade in fe rio r que achará cotoco.”
(A m erica Illustrada n. 14 de 1882). Contar historias de dia
faz crear cotoco. (A d agio)
Cotúbia ou cutúba — Prestigioso, bichão; astuto, manho­
so, fin ório. “ E* um bicho cu tu ba... Reune as suas glorias nos
pleitos que venceu contra o cutuba.” (Pernam buco ns. 167 e

273
169 de 1913). “ \manhã, a rapaziada cotuba dos Lanceiros,
realisn o $eu ensaio geral.” (Jornal Pequeno n. 33 de 1915).
Courinho — P elle de cabra, secca, para exportação, p ro ­
veniente das zonas centraes e sertanejas. “ Duzentos reis por
kilo de courinhos de cabra e carneiro.” (Orçam ento do Esta­
do, 1914-15). T erm o geral nos estados do Norte entre a Ba­
hia e o Ceará.
Couro — Bacalháo, peia, relh o: Metter os couros. “ Velhas
mcltida a namoro, é falta de couro.” (Lanterna Magica n. 501
de 1896).
Çousa-leita — Feitiçaria, bruxedo, mandinga. “ O curan­
deiro faz cousa-feita; isto é, bota feitiço em alguém.” (Gus­
tavo B arroso). “ E lla apparece todas as noites tran sform a d a ...
Até parece cousa-feita!” (A Pim enta n. 15 de 1901). “ D izia
José Elias, a todos que perguntavam pelo seu estado de sau’
de, que tinha cousa-feita.” (Pernam buco n. 313 de 1913).

Cousita — Certas cousas, umas tantas cousas, mais ou


menos insignificantes. “ Procissão de semana santa, missas,
confisões e outras cousitas mais.” (A Lanceta n. 107 de 1913).
Cóva — O mesmo que barroca, e particularmente ainda,
com a voz de cóva, abertura no rosto, na barba; e no diminu­
tivo, concavosinho, que está naturalmente na ponta da bar­
ba, ou se faz no rosto, quando alguém se ri, como define M o­
raes. “ Andava sempre alegre, a rir, e quando ria, Mostrava
no rostinho a cóva encantadora.” (D e um soneto anonym o).
Pequenos montículos de terra dispostos em campo lim po so
bre os quaes se faz a plantação da mandioca, macacheira; é
o mesmo que matombo. “ Todos os m oradores ficam obriga­
dos a plantar 300 covas de mandioca p or cada peça de traba­
lho. negro e negra ou© tiv e r.” (E dital do governo hollandez
de 15 de A b ril de 1640). “ Minh’ avó quando m orreu Deixou-
me bem d ota d in h a ... Umas mil covas de roca. Um alaueire
de farinha.” (A Herança de D indinha). Cóva de carvão: o mes­
mo que carvoeira. “ Lourenço descobriu ao longe um vulto
acocorado á beira de uma das covas. .• O raoaz atirou o neero
não sobre a areia, mas dentro da cova próxim a, onde havia
nm abvsmo de foso, parte ainda em chammas, parte iá em
carvões.” (F ra n k lín T a v o ra ). Cova rasa; sepultura no chão.
“ A pedido nue fizera o extinto, a exhumacão se fez em cóva
rasa.” (A P rovín cia n. 154 de 1915). F erro de cova: fe rro de
cavar, encabado. “ R evolvia com um ferro de cova o barro
cahido das p a re d e s ... O chão fôra re vo lv id o a ponta de es­
pada ou de ferro de cova.” (F rà n k lin T a v o ra ). O que o b e r­
ço dá só a cova tira. (A d a g io ).
Çôvado e meio — Farda de soldado: O rapaz está p erd i­
d o; preguem-lhe o côvado e meio no costado.
C oveiro — Individuo que p or inépcia, relaxam ento, ou
certos fins olccultos, concorre para a extincção de uma em-
preza ou corporação qualquer. “ F o i um dos coveiros de Co-
rym batina Recifense, e p or signal arranjou-se, herdando O
seu e x p o lio ” (A Pim enta n. 64 de 1902).
C ovilh ete — Engenho de fab rica r assucar, m ovido a agua,
mas re^ebendo-a em m eio da roda de m ovim entação dos ma-
chinismos. Ao pavilhete dá-se tambem o nome de meio cop ei­
ro.
Côxo — Especie de gam ella ou banheira, oblonga, feita
de um' só tóco de madeira, e de largura e com prim ento p ro ­
porcionados a que uma pessôa se banhe commodamente*
“ Grande caixa de madeira, escavada num tronco, do feitio
de canôa” . (Gustavo B arroso). “ Um côxo de m ellado onde
as' bestas bebem ” . (O V ap or do R io Fortnoso n. 9 de 1857).
“ Jambo enche os côxos e senta á beira d’agua olhando o
m anancial” . (D ia rio de Pernambuco n. 105 de 1916).
Crauá ou crauatá — . Especie de b rom elia da nossa flora,
tambem conhecida p o r caruatá ougravata de rede, pela ap-
plicação das suas fibras no fab rico de redesi de pescar. São
lam bem usadas no de cordas, de boa qaulidade, pela sua
rigidez, e vulgarm ente conhecidas p o r cordas de crauá.AÍ-
menda P in to registra tambem uma especie vulgarm ente co­
nhecida p or Gravatá assu’, caroatá assu’ ou piteira.
C raveiro — F ogo de salão á especie de pistola. “ As m o­
ças queimam craveiro, P o r ser fogo p ro p rio d elias” . (B a rb o ­
sa V ian n a).
C red o! — D icção in terjectiva de admiração, espanto,
h orror, aversão. “ Mané Sinhá gritou com o ardor da mala­
gueta: C red ó! Posso o qu eí” (A Pim enta n. 84 de 1902), “ T i­
vemos occasião de v e r a Luizinha dançar no p astoril da En­
cruzilhada. Estava tão mal am an h ad a... Crfedó, pasto!ra!”
(A Pim enta n. 611 de 1907).
Crescer — In vestir, aggredir, p a rtir; arrancar com im-
pecto, disposições hostis contra alguem . N egro cresceu, apa­
nhou. (D ictad o) Cresceu, cahiu; Partiu m orreu. (Versos do
c a p o e ira ).
275
Cria — Em outros tempos, o escravo nascido e criado
na casa dos seus senhores: Cria d e casa. “ D iz-se das crian­
ças das escravas; v . g. as escravas com as sua» crias” (M o­
raes). “ As crias de casa, não raro filh os dos mesmos senho­
res ou de seus filhos com c re o ^ a s , v ivia m na m aior in tim i­
dade das fam ilias” . (A ffo n s o C lá u d io). Vende-se uma ne­
gra da Costa com uma cria de peito. (O Cruzeiro n. 23 de
1829). “ A linda mulatinha, a cria da fazenda, A todos en­
cantava, a todos seduzia” . (D e um soneto anonym o). “ O ca
pitão Pedrosa tinha em casa uma cria appettitosa” , (A rth u r
A zeved o).
Crioulo — F ilh o ou descendente de africano nascido no
paiz; o homem p reto. “ Era preto, natural de Pernambuco, e
não podemos concluir se de pais já nascidos na terra, ou
vm dos de Angola ou Guiné, mas só que era crioulo, que as­
sim chamam aos que nascem no p aiz” . (F r . Jaboatão). P o r
extenção é o termo crioulo tambem applicado, em geral, aos
homens brancos e de outras castas, para in dicar p erfeito co­
nhecimento das pessoas, causas e factos occorridos, vindo
dahi a phrase: crioulo da terra, ou quando fala o p roprio
indivíduo: somos crioulos da terra. E ’ assim, que escreven­
do o nosso lexicographo A . de Moraes Silva á Junta do Go­
verno P ro vis o rio da P rovín cia em 4 de Março de 1823, e re ­
ferindo-se a uns embusteiros que em 1817 appareceram r.o
districto da sua capitania-mór, extorquindo dinheiro bois e
cavallos para as tropas que marchavam contra o R ecife, con-
clue: “ e não eram senão ladrões mascarados, e um delles
crioulinho branco aqui mesmo da M uribeca” . “ Compra-se
uma mulata ou crioula, ou ainda mesmo negra d’A n gola” .
(O Cruzeiro n. 92 de 1829). “ Os meus irmãos oriundos da
Costa d’A f i ‘ica, os crioulos natos, oidwdãos como nós, são
assaz contentes da energia e sublimidade da nossa penna” .
(O Mesquita Junior n. 1 de 1836). Term o originariam ente
hespànhol (de c rio llo ), veio, naturalmente, da influencia da
dominação castelhana em Portugal (1580-1640) com os seus
reflexos entre nós, que acompanhamos a sorte da m etropole,
e dahi já eorrènte em Pernambuco na prim eira metade do
seculo X V II, como escreve M arcgravi no seu liv ro impresso
cm 1648, tratando da população de Pernam buco: “ Natus hic
ex utrisque parentibus nigritis apipellatur c riô lo ” . Já havia
então a distineção entre o preto nascido na Á fric a e o nas-

276
eido no paiz, sendo aquelle conhecido p o r negro da costa
ou mina, e este p or crioulo, como p or sua vez tambem, coji-
temporaneamente, escreve F r . M anoel Calado: “ Sahiram do
A rrec ife um negro mina e um crioulo, sendo tomados pelos
nossos soldados” . Um Compromisso da irmandade de N . S.
do Rosário de Olinda, de 1706, prescreve que a sua adminis­
tração se com porá de doze mesarios, sendo seis crioulos e
seis angolas; e consoantemente assim Nuno Marques P ereira
registra o vocábulo .em 1731, escrevendo sobre um facto em
que figuram quatro mulheres, sendo duas pardas, uma branca
e outra crioula. Canna crioula: a que se cultiva para o fa b ri­
co do assucar desde tempos remotos, e concurrentemente ain­
da com as de novas especies introduzidas na lavoura, a par­
tir da de Cayenna, em 1810.
Pão crioulo — Certa especie de pão p elo preparo parti­
cular da massa, do seu fa b rico .
Croinha — Moço que traja de batina e roquete, e auxilia
o clero no serviço do culto ecclesiastico. “ De thuribulo na
mão, vê-se-o na igreja, Mettido na roupeta; EUe é croinha” .
(O Etna n. 25 de 1882). “ O sachristão de S. José, anda sem­
pre com o crfoinha M anoel Caetano” (A Derrota n. 6 de
1883). O vocábulo vem de corôa, a tonsura ecclesiastica, e é
empregado no dim inuitivo porque alguns desses croinhas,
que se dedicam ao sacerdocio usam já da prima tonsura, de
circum ferencia in fe rio r a dos padres, e dahi croinhas, por
serem pequenas.
Cruangy — ■ M adeira de coiístrucção civil. Nom e de um rio
que banha o m unicipio de Timbauba, é corruptela de curuã-g-y,
rio das curuanhas ou cruanhas, arvore silvestre, que cresce
em abundância nas suas margens. (Alfredo de Carvalhp), vin
do dahi a origem do nome do vegetal.
Crueira — Trabalh o de costura mal acabado; especie de
tumor secco, esbranquiçado, que infesta a cabeça das gallinhas
e outras a ves; a parte grossa da m andioca ralada para fa r i­
nha, que não passa nas malhas da peneira ou urupema, mas
que depois é aproveitada, e cozida ao forno, dando assim uma
farin h a grpssaC ordinaria, que tem o mesmo nome de crueira.
Em falta de farinha, crueira serve. (Adagio matuto). A dicção
vem de corêra, com que os in d io s , chamavam as cascas ou ras­
pas im prestáveis retiradas da massa da mandioca, depois de
ralada, destinada ao fab rico da farinha, e dahi p or corruptela
a palavra crueira, á feição portugueza. (Theodoro Sampaio.)

277
Cruviana — Preguiça, indolência, m alandrice: Apertar a
cruviana. Este vocábulo tem tambem curso no Ceará, mas com
a expressão de frio .
Cruvelão — M adeira de construcção civil, tirada da a rvo ­
re do mesmo nom e.
Cu’ ba — In dividuo poderoso, influente, atilado, m atreiro.
Se queres obter o em prego que desejas, dirige-te ao commenda-
dor, que é o cuba desta com arca. Quizeram illu d il-o; mas elle
se houve como um p erfeito cuba. Não conhefcemos este vocá­
bulo, e jamais o ouvimos pronunciar; entretanto o registra­
mos uma vez que Beaurepaire Rohan assim o fez, como term o
pernambucano. T heoton io R ib eiro registra o term o como cor­
rente em Alagoas com a expressão de velhaco de quatro cos­
tados.
Cuca — Sabido, fin orio, expertalhão. “ M estre Cuca serviu
de creado m or” . (Lan tern a M agica n. 45 de 1883). Espera, es­
preita, tocaia. “ O H oracio, o F e lix e outros estão na cuca es­
perando o brado“ . (Jorn al do R «c ife n. 29 de 1916). Rohan
registra o vocábulo como corrente em Pernam buco e Alagoas,
com a expressão de. m ulher velha e feia, especie de feiticeira,
que pode com seus sortilégios causar mal á g e n te ; e que tam­
bem lhe chamam coroca, curuca é curumba* que desconhece­
mos com aquella accepção.
Cu’ da mãe Joanna — Cousa a tôa, sem dono, que a todos
é licito mexer, devassar, se apropriar mesmo. “ A escripta de
uma casa de com m ercio não é . . . da mãe Joanna, nem pode
ser devassada” . (Jornal do R ecife n. 232 de 1916).
Cu’ de pinto — Costura frouxa, mal feita.
Cu’ roto — De frequente ventuosidade.
Cu’ de vacca — Especie de abelha (T rig o n a H elleri, F rie-
si), assim vulgarmente conhecida em Pernam buco e Alagoas,
de ninhos ou cortiços muito populosos, mas produzindo pouco
mel, de sabor muito acidulado, e cera de um odor terreno
muito pronunciado.
Cuéra — Valente, audaz, destemido; velhaco, experto.
“ E ncontrei o Zé P erigoso gosmando muito, dizendo que so
elle era cuéra, e que não via ninguém adiante d elle” . (A P i­
menta n. 494 de 1906). “ O dito que se ouvia em birrou a mui­
tos cuéras.” (Pernam buco n. 104 de 1914). “ Sabem o que elle
quiz, elle, o cuéra de tino? T od o estado uma uzina, elle sendo
o u zin eiro” . (Jornal do R ecife n. 297 de 1915). Th eodoro Sam­
paio registra o termo como um adjectivo tupy, com estas ex­
pressões, entre outras: velhaco, esperto, entendido.
Cuérrimo — Cousa insignificante, sem valo r; trabalho
porcamente acabado; forte, agudo, doloroso: iun incommodo,
um soffrer cuérrimo. “ In feliz, o que fazes? Supporto os cuér-
rimos m artyrios da minha desditosa sorte” . (A m erica IIlus-
irada n. 47 de 1778).
Cuia — Antiga medida de cereaes e. outros generos, cons­
tante de cinco tigellas bem caculadas, e em certos logares cen-
traes com capacidade superior, correspondendo cada tijella a
um litro, e ainda dê todo não abolida no connnercio e m erca­
dos ou feiras do interior, e nem mesmo na capital como nome
vulgar da nova medida decimal, dizendo-se correntemente, uma
cuia de farinha, de milho, etc. “ L ib ra de carne a pataca, E
cuia de farinha a sello Não fazem muito bom cab ello” . (O V a ­
por dos Traficantes a- 192 de 1860). O term o porem é anti­
quado, como se vê desta passagem de um ebronista de meia-
dos do seculo X V III (Sim ão de V asconcellos), tratando de uma
h o rriv e l fom e que houve na Bahia em 1564: “ Os indios das al­
deias levados do aperto, chegaram a vender-se a si mesmos
p o r cousas de com er; e houve tal, que entregou s-ua liberda­
d e p or uma só cuya de farin h a” . Especie de vasilha feita da
coité, o frueto da bigoneacea cabaceira, coitezeira ou cuieira
(Crcscentia cujete, L in n eo ), partido ou serrado pelo m eio no
sentido longitudinal, produzindo assim cada frueto duas cuias.
“ A cabaça quando inteira tem este nome, e quando aberta em
duas bandas, chama-se cuia a cada banda” . (H . K o s te r). A
cuia é applicada a diversos usos domésticos. Na roça serviam-
se delia os escravos, e serve-se ainda a gente pobre, tanto á
guisa de prato para comida e farinha, como de tijella para
café ou copo para agua e outros liquidos. Nas mesas, ainda
mesmo de casas abastadas, figuram, ordinariam ente, as cuias
como pratos ou vasos para farinha de mandioca, mas neste
caso são preparadas com bonitos lavoures brancos em fundo
preto, ou envernizadas de cores, interna e externamente, co­
mo as que são assim preparadas no Pará e Amazonas. O ter­
mo cuia é extensivo a qualquer vaso que tem a form a ou a
serventia da cuia natural para faiin h a, como as de metal, de
prata, em outros, tempos, de madeira, com as aduelas de co­
res differentes e de tartaruga ou chifre, destinadas áquelle
mesmo fim . A llelu ia ! A llelu ia ! P eix e no prato, farinha na
cuia! exclamação de alegria ao rom per da alleluia, cuja lo ­
cução fo i assim maliciosamente in vertida por um periódico
politico de meiados do seculo passado, chasqueando dos seu>
adversários, quando então já era vulgar: A llelu ia ! A llelu ia!
1’ erfid ia no prato, mamata na cuia. Dar na cuia dos cuiabos:
descobrir manhas alheias, penetrar' num segredo. Lavar-se em
agua de cuia: ser feliz e venturoso em sua vida. “ S. S. é f e ­
liz ; nasceu im pellicado, lavou-se em agua de cuia.” (Jorn al
do R ecife n. 122 de 1916). Tom ar na cuia dos quiabos: passar
pbr uin revez qualquer. O termo cuia, segundo Beaurepaire
Rohan, pertence á lingua tu py. M encionando M ontoya os no­
mes de diversas vasilhas que os indios guaranys faziam com
a cabaça, cita a iacui, definindo: calabaço como plato grande,
de cujos utencilios domésticos é este o que tem denominação
que mais se approxim a do term o cuia.
Cuiambuca — O fructo secco do cabaceiro, ou coitezeira,
com uma abertura circular na extrem idade superior, feita á
serragem, e tirado todo o m iolo, destinado assim para conter
agua e outros liquidos, ou para guardar dinheiro, ouro ou ob­
jectos pequenos. Graças as cabeças, cuiambuca de pae M atheusí
exclam ação de alegria, contentamento, adm iração.
C u id a -d -ó-d ó'— Tento, atfenção, sentido; muito cuidado.
Cujo — Um individuo de quem se fala porem que, p o r c er­
tas conveniências não convem declinar o nom e; designação
vaga. O term o é assim simplesmente usado, ou concurrente-
mente com o de supplicante. “ A ’ vista do occorrido, o cujo
desapontou, e arrependeu-se dos arranjos da sua patota” . (O
Vapor dos Traficantes n. 202 de 186Q). “ Faça a apresentação do
cujo, que v eio cah ir neste seio de Abrahão” . (Jorn al do R e­
c ife n. 27 de 1916)
Culatra — Nadegas.
Cumbuca — O mesmo que cuiambuca, porem mais vulgar,
“ Deixou-m e um pé de macuca, Dous limõesi numa cumbuca” .
( A Herança de D idinh a). “ D. Ignacia tinha pressa de se ver
Jivre da rapariga e p or isso tratava do enxoval, que, em bora
pobre, para com pral-o fo i preciso ir á cumbuca de seus oiros
velh o s” . (R od olph o T h eo p h ilo ). Arm adilha, esparella, em que
cahem os incautos e inexperientes. “ A gora fo i muito manso
D eitar abaixo a arapuca, Prom ettendo d ’outra feita Não pôr
a mão na cumbucaw. ( A Lanceta n. 26 de 1890). “ E ’ um ve­
lho ladino, nem á mão de Deus Padre mette mão em cumbuca” .
(Pernam buco n. 167 de 1913). Macaco velho não mette a mão
em cumbuca. Este anexim, muito' vulgar no paiz, quando se
quer dizer, que é muito d iffic il illu d ir e enganar a um homem
experiente e reflectido, é de origem tupy, como diz Couto de
Magalhães, que assim o encontrou entre os indios, no seu pro-
p rio idiom a, e até rim ado Macaca tuivé inti omund-o i dó cui-
ambuca opê.-O anexim occorre deste facto: Para caçar o ma­
caco, introduz-se uma espiga de m ilho em uma cumbuca, elle
m ette a mão, segura a espiga, e p or não ter o instincto de lar-
gal-a, apezar de sua decantada astúcia, fica preso pela mão,
que estando cheia não pode sahir por onde entrára vasia. Co­
mo o cabaço está preso p or uma corda a um objecto fixo, to r ­
na-se im possível a fuga. O macaco velho, porem, tendo visto
assim logrados muitos de seus companheiros, não se deixa ca­
hir na arm adilha. O autor de uma obra de começos do seculo
X V II (D iálogos das grandezas do B rasil), refere já esse modo
de pegar o macaco, mas em vez de cabeço ou cumbuca, diz que
era uma botija de bocca estreita. Dar graças a Deus e louvores
ás cumbucas; Bocca de velha é cumbuca; dictados sertanejos.
Cumieira da casa — O chefe da fam ilia. Quando cahe a
cumieira, vem a casa abaixo.
Cumu’a — Latrina.
Cupim — Insecto da or dem dos himenopteros, fam ilia dos
form icidas, vindo dahi chamarem-no geralm ente Form iga do
Brasil, sem distineção daa suas tres especies conhecidas, ca-
racterisadas p o r cores distinctas e tamanhos variados. Deste
nocivo, voraz e destruidor insecto, deixou-nos o nosso choro-
grapho M . A yres do Casal particular descripção, iendo já se
occupado delle o historiador seissentista F r . Vicente do Sal­
vador, como uma casta de foiímigas, com o nome de cupy. Pa-
nella ou casa de cupim: habitação do insecto, 110 chão, nas a r­
vores e nos telhados das casaa, tendo o ia a form a de m ontícu­
los, arredondados, e ora a de cones, que attingem a grandes
circum ferencias e alturas, e das quaes partem extensas linhas
cobertas, á especie de tunel, e em direcções diversas, mas con­
vergentes aos pontos de ataque, e pelas quaes transita em le ­
giões enormíssimas o vora z insecto. Cupim de igreja: in di­
víduo que se mette em confrarias e irmandades, e trabalha
em p roveito proprio, viven do assim da igreja, cujo telhado, 11a
phrade do rifão, sempre goteja. “ Os cupinsi da devoção da Con­
ceição roeram o adereço de Nossa Senhora, muitos objeclos,
e até mesmo uns cobres que h a v ia ... Na irmandade do Bom
Jesus ha tambem cupins.” (A D errota n. 4 de 1883) Cabello
de cupim: Pichaim ou de carapinha. “ Você me chama de ne­
gro Do cabello de cupiip, A gora você me diga: Quantos contos
deu p o r m im ? ” (D e uns versos de D «s a fio ). O toutiço dos
touros, avolumado, pela sua semelhança com a casa do cupim-
"P equ en a corcova lúâtrosa que os tom os têm 110 pescoco” .
(Gustavo B arroso). “ Mê parente, tem coidado, l)iz um negro
junto a m im : Esse boi traze c u p im ... Esse boi pedaça gen te” .
(A m erica Illustrada n. 12 de Janeiro de 1873). “ Seu cupim
era grande e tão roliço Como em outro não vi igual tou tiço” .
(João Cariolano de Souza Lima, O touro fu s co ). O nome vu l­
g a r de cupim dado ás tres differen tes especies de térmitas, é
de origem tupica, e vem de. cupiji, como assim chamavam os
indios indistinctamente a qualquer delias.
Cupineira — Certa especie de abelhas, que habitam na*
casas ou panellas de cupim, de cuja circumstancia vem a sua
denominação vulgar de cupineira, e concurrentemcnte a de
cop ira ; fóra disto, habitam tambem nas paredes das casas
principalm ente de taipa. São muito mansas, inoffensivas. p o ­
rem nada produzem .
Curado de cobra — Immune do effeito nocivo da m orde­
dura dos ophibios; liv re de certos accidentes e contratempos
da vid a ; nada lhe pega. O empregado publico inactivo, p or
aposentadoria ou jubilação, extensivamente, p or exem plo, 6
curado ide cobra, porque sem tem er repressões de especie al­
guma, pode livrem ente agir, e particularm ente, segundo as suas
convicções p olíticas. “ Uma das escravas do engenho Salgado,
em Ipojuca, fôra m ordida p o r uma cobra; estava inchada, o
sangue sahia-lhe pelos olhos, a bocca e os ouvidos; ia p ere­
cer. Mandaram chamar um feiticeiro ou curado de cobra m o­
rador na visinhança; elle não pôde ir logo, porem, mandou...
o seu chapéo. Colloearam -no sobre a moribunda, que imme-
diatamcnte fico u a lliv ia d a .” (L . F. de T o le n a re ).
Curcuranas — Bernardino de Souza registra este termo
como usado no littoral do sul da Bahia, designando alagadiços
e brejos perto do m ar. Não tem o term o curso entre nós; en­
tretanto parece que já o teve, vindo dahi, naturalmente, a de­
nominação da Povoação das Curcuranas, nas proxim idades do
mar, junto á povoação e praia da Bôa Viagem , situada em ter­
reno baixo, cheio de alagadiços, e notadamente uma grande
lagôa com uns 18 klm s. de extensão, que pelo in vern o aug-
mentando de volume se communica com o rio Jordão um pou­
co ao sul da povoação da Boa Viagem. Um documento o ffic ia l
publicado no D iario de Pernambuco de 2 de Outubro de
1837 fala do lagoal das Curcuranas; e. tratando V ita l, de O li­
veira do riach o do Pina, no seu R oteiro da Costa do Brasil,
drz que, parece ser sangradouro dos alagaJ«>s das Curcuranas.
O termo, que alguns antigos documento‘s registram com a
variante de Corcuranas, vem, segundo A lfre d o de Carvalho,
mais remotamente, de caracurana, caracuarana, descobrindo-
lhe assim uma origem tupy. Seja como fôr, o term o é antigo
entre nós, porquanto a referid a povoação já era assim deno
minada na prim eira metade dõ seculo X V JI.
Curêma — Dunga, afamado, bichão. “ Este braço que e?-
tão vendo, tem botado abaixo emquanto o in im igo esfrega um
olho, muito curema rebingudo” . (F ra n k lin T a v c ra ). Não sabe­
mos de onde vem este term o. Entretanto, como consta da car
la regia de 26 de Junho de 1709 dirigid a ao govern ador da
Parahyba João de M aya da Gama, havia naquella capitania
uma tribu de tapuyas bellicosos e valentes chamados Cure-
mas.
Curica — A ve da ordem dos trepadores (Ç hrysotis oesti-
nus). "Casta de ouirg casta de papagaios, a que chamam c »-
riquas, ainda que não sejam tão formosas, quando dão em fa
lar, o fazem muito bem ” . (D iálogos das grandezas do B rasil)
Curicáca — A ve ribeirinha. (íb is sylvatica, V ie ll.) Se­
gundo Theothonio R ibeiro é voz onomatopaica.
Curinga — T im on eiro de barcaça de navegação costeira;
o dous de páos dos baralhos das cartas de jogar. Pular fóra
como curinga: sahir, retiçar-se, desapparecer, como pula fóra
o curinga, em certos jogos, em que não entra.
Curingão — O nove de páos das cartas de jogar, assim
chamado no jogo T rin ta e um.
Curral — R ecinto mais ou menos espaçoso, cercado de
varas ou esteios, com uma porteira de entrada, para recolher
o gado de qualquer especie. Curral de p eixe: Arm adilha de
pesca levantada á beira mar “ Os curraes de peixe são feitos
de estacas cravadas no fundo arenoso; p or m eio de travessas
e ligaduras pendem varas, nos in tervallos das estacas, tão
próxim as umas das outras que não deixam passagem ao m e­
nor p eixe. A linha de estacas geralm ente começa na praia e
corre em linha recta para o mar á distancia de dez, vinte
ou trinta braças, conform e a profundidade d’agija, e então
descreve um cercado de form a entre um quadrado e um c ir­
culo, com aberturas do lado de terra; p or estas o p eixe entra
na enchente da maré, e não póde mais sahir na vasante,
sendo depois facilm ente apanhado com uma r e d e .” (D an iel
P . K idder, Impressões de um missionário methodista em P e r­
nam buco). “ A povoação de Taquara tem na praia varios co-
queirós e curraes de apanhar peixes” . (Estatística de 1774).
"V en d o no R io Doce muito peixe cahir num curral, o padre
fo i benzel-o, do que resultou não cahir mais nem uma sardi­
nha sequer no re ferid o c u rra l.” (O Guarda Nacional n. 6 de
1846). Os indios chamavam aos seus pesqueiros P irá tyba,
lugar ou sitio de muito peixe, ou simplesmente Pari, cerca
feita de cannas para apanhar peixe, o curral de p eixe. (T h e o ­
doro S a m p a io ). A niais remota noticia que encontramos da
construcção regular do curral entre nós remonta-se ao anno
de 1694, quando o capitão P ed ro Lelou, o alferes reform ado
Bartholom eu Correia B ravo e Balthazar Aranha de Araújo le*
vantavam na praia de Páo Am arello os prim eiros curraes de
peixe que se viram em Pernambuco, segundo um documento
o ffic ia l.
Corrusc.úbico — Máo, d ifficil, trabalh oso: Tempos corrus-
cubicos. *“ As cousas andam m eio curruscubicas” . (A m erica II-
lustrada n. 18 de 1879).
Çurúca — V elho impertinente, abuzado, cabuloso, rabu­
gento; fino, experto, sabidorio: Um velho curuca; um Curuca
velh o. O termo é, naturalmente, um modismo de coroca, do
tupi, que Gonçalves Dias registra como vulgar no Maranhão,
applicado aos velhos adoentados, no que fo i seguido p or Beau-
repaire Rohan. Tem tambem assim curso no Pará, segundo
Chermont de Miranda, na accepção particular de velho ca­
duco pela idade.
Curumatá, Crumatá ou Corim atã — P eix e de agua doce,
de escamas (Salmo curimatá, B lo c h ). Gonçalves Dias escreve
curymatá, ‘peixe d’agua doce. “ Curimatá é reputado p or savel
de Poçtugal, porque é da própria feição, e tem tantas espi­
nhas como e lle . ” (D iálogos das grandezas do B ra s il). V ocá­
bulo de origem Tupi, segundo Baptista Caetano, corruptela
de quiri-mbatã, p eixe salmão, muito tenro, ou muito verm e­
lh o. Consoantemcnte escreve Theodoro Sampaio, que o nome
do rio Curimatáhy ou Corumbatáhy, é corruptela de cori-
matã-y, rio das coriniatás; o que igualmente occorre com o
nome da nossa Ilha do Corom atá ou Crumatá, no alto S. F ra n ­
cisco, poíico abaixo da v illa da Bôa Vista.
Curuquêrê — Lagarta ou larva de uma borboleta que ata­
ca o algodoeiro, destruindo não somente as suas folhas e ma-
çães, como roendo os proprios galhos e hastes. As femeas
sãò'\le uma prolixidade espantosa, e depositando os seus ovos
na planta, dentro de poucos dias se transformam em p e rfe i­
tos insectos. “ As borboletas do curuquêrê permanecem, du-
rante o dia, escondidas entre as plantas e ao p ôr do sol co­
meçam a voar visitando os algodoeiros onde depositam os
seus o v o s .” (Jornal do R ecife n. 95 de 1916).
Cururú — Sapo grande, venenoso, de extraordinaria fo r ­
ça magnética, e um dos maiores da especie dos batrachios.
Sapo negro, cujo leite produz ophtalmia e cegueira (G o n ­
çalves D ia s ); o roncador, o que ronca, sapo grande, Pipa-
cururú (T h eo d o ro Sam paio). Cláudio d’A b b eville registra já
o sapo cururú, no Maranhão, tão grandes que — alguns ha
que tem mais de um pé ou pé e m eio de diâm etro, -r- “ Um
sapo nascido é gia, Sapo velho é cururu’ . ” (A P rovín cia n.
60 de 1916). “ Sapo cururu’ Da beira do rio, Quando o sapo
canta Cururú tem fr io . Eu mandei chamar o padre Cabacinha
de timbú, Eu pensava que este padre, Era o sapo cururu’ . ”
(V ersos populares)- “ N o capinzal da beira da lagôa, os curu-
rús infatuados e barulhentos assustavam as timidas ro la s . ”
<Inglez de Souza). Nom e generico do sapo na linfeua tupi
mas applicado a uma das maiores especies aesses batrachios,
como escreve Beaurapaire Rohan, concordantemente com os
citados escriptores, discorda porem S ylvio Rom ero, dizendo
que cururú e um term o african o.
Cuscús — Especies differentes de bolos feitos com o fubá
do milho, ou do arroz, ou da mandioca, humedecidos com
agua, leite de côco, assucar e sal, e assim preparada a massa,
e deitada na cuscuseira, ou em uma tigela, de bocca para
baixo, e resguardada com um pano para não cahir o bolo
cru’ , leval-o a cozer ao vapor da agua a ferver em uma vasi­
lha ao fogo. Essas tres especies differentes do apreciado bolo
são designadas, respectivamente, com os nomes de Cuscús
de arroz, de mandioca e de m ilho. Cuscu’s é um velho termo
portuguez, origin ário do arabe, cuscus, segundo Moraes, mas
com uma particular expressão, que nada tem de comnium
com as nossas. “ O caxeiro, logo pela manhã, faz pinto de
um nicoláo na gaveta do patrão e compra um cuscús.” (A P i­
menta n. 580 de 1907). “ Come de noite cuscús E de dia ra ­
p ad u ra.” (O Destino d ts Am antes).
Cuscuseira — Vasilha apropriada para cozer ao vapor
d’agua a massa preparada para o cuscús, nas suas tres especies
differentes. São de barro ou metal, semi-esphericas, e reves­
tidas de pequenos orif;'cios.
Cuscuseiro — Vendedor de cuscús. “ Povos e povas, cíon-
zellas e matronas, verdureiros e cuscuseiros, dizei-nos, quem

285
foi a belleza de alta sociedade, que andou procurando a casa
de uma comadre na rua da A le g ria ? ” (A Pimenta n. 584 de
1907).
Cusparada — Cuspir com certa expressão, por escarneo ou
desprezo; cuspir abundante: Dar uma cusparada. “ Não ha cus­
parada de desprezo bastante vingativa para esse degenerado” .
(A Republica n. 153 de 1912). “ Deram elles prasenteiramen-
te a face para servir de alvo da inlamante cusparada.” (A O r­
dem n. 140 de 191(5).

286
D
Dala — Prancha larga, que se lança do caes para os na­
vios ou alvarengas, para transito e serviço de carga e des­
carga de mercadorias.
Damnaçâo — A lvoroço, barulho, contenda, algazarra.
Damnado — Atirado, destemido, valente: Um cabra oam-
iladò! “ Mas o damnado rodeia. Còrta a frente do animal, E
de geito, no Espacio, Desfecha golpe m ortal” . (O Boi Espa­
c io ). Arreliado, estabanado, levado do diabo. “ Que negra
damnada Só i Mariana, Que amarra a saic Com gitirana. Se
a corda se quebra A negra se damna, Salta no fogo, Queima
a pestana. (Cantigas populares). Bom, m agnifico, supimpa:
O pastoril está bom que está damnado!
Damnar-se — Arribar, fugir, desapparefcer; pôr-se ao
fresco: Damnar-se p’ra Catende. “ Arrum o a trouxa, os caca­
recos ajunto, e damno-me, não sei mesmo p ’ra o n d e .” ( a
Pim enta n. 590 de 1902).
Damnisco .— Zangado, furioso, desesperado: 0 João com
a cheirada que tomou na sua pretenção está damnisco! V io ­
lento, arreliado, precipitado; A qu illo é um cabra damnisco,
da pá virada. Intensidade, violência, furar: A peste da b ex i­
ga está damnisca. “ Quem diria que o Sr. Constantino da-
quelle bom tempo, seria hoje tão damnisco no almirautado
da sua guardam oria?” (America Illustrada n. 33 de 1880)
“ Um allemão damnisco, e feio como a fom e” . (Idem , n. 17
de 1883). “ Os foliões do Feitosa passaram num peso damnis­
co” . (Jornal do Recife n. 54 de 1914).
Dança de ratos — Confusão, desordem, barburdia.

287
Dar — Nas locuções: Dá a quem dá; a quem não dá, não
dá não (Toada dos sinos da Sé, como diz o v u lg o ). Dar as
tintas: Arranjar, prevenir, preparar. Dar cabo: Dar fim, acu
bar, inutilizar, qupbrar; pegar, prender, subjugar, m atar. “ Par-
'iram todos dizendo: Vamos dar cabo do b o i” . (O Boi L is o ),
Dar cabo ao machado: F a cilita i, dar confiança. Dar com »■
*

verruma no prego: Estrepar-se, pilhar um veneno qualquer.


Dar com os burros n’agua: Perder-se num negocio ou empreza
Dar conta do recado: Desempenhar-se satisfactoriamente de uma
incumbência, ou dos misteres da sua p rofissão” . — Musicista
competente, que dá conta do recado” . (A Pim enta n. 39 dt
ty(J2). Dar corda p ’ra se enrorcar: inadvertidam ente concor­
rer para prejuisos proprios. Dar de gambias: Anotar, pôr-se
ao lresco, fugir “ Houve um desarranjo no auto, e não que­
rendo ficar de molho, dei de gambias” . (Jornal Pequeno n,
51 de 1916). Dar de redea; Mudar de rumo. caminhar. Dar
cm agua de varrela: Fracassar, perder-se Dar na cuia dos
quiabos; o mesmo que Dar na fin a : D escobrir, comprehender,
penetrar num pensamento occulto, em certos intentos. Dar o
bóte: Prender, segurar, ferrar, vingar-se. Dar o seu dia santo:
Im por, mandar, grim par. “ Em fim e por derradeiro Fui gallo
do seu p oleiro Elles dava os dias santos” . (G regorio de M at­
to s ). Dar pancas: Pintar o caneco. Dar pano p’ra mangas: Con­
cessão, auxilio, vantagens. Dar um doce: Recompensa, mimo,
presente “ Dou um doce a quem disser quem é o pae da cre-
ança” . (A Pimenta n. 9 de 1908). “ Caro leitor, dou um doce,
Si a resposta tú me deres: O que haveria se fosse O mundo só
de m u lheres?" (Idem , n. 20 de 1901). D ar um pulo, dar um
salto: T ocar de passagem em certa parte, ou ir ligeiram ente
e vo lta r. Dares e tomares: Discussão, disputa, satisfações.
Tanto fa z dar-ihe na cabeça, como na cabeça dar-lhe. (D icía-
d o ).
Da Silva — Legitim o, exacto, correcto, conform e. Segundo
João R ibeiro, trata-se de um epitheto ou um supplemento ar­
b itrá rio de vozes, com que mais ou menos completamente mas­
caramos certas palavras, como pelo accrescimo — da Silva, —
exem plificando: Pintadinho da Silva, concluindo: — parece
dar ares de exactidão e precisão á idéa já p or si intensa do
dim inutivo pintadinho. — “ Quem joga dama p ’ra re i está dou*
dinho da S ilva” . (A m erica Illustrada n. 26 de 1881). A*s v e ­
zes apparece tambem assim a locução: da Silva e M ello. “ Sou
um perfeitíssim o cartomante, Inteirinho, da Silva e M e llo ” .
(Jornal Pequeno n. 30 de 1917).
Debicar — Ridicularisar, escarnecer, zombar, flautear; to ­
mar alguem á sua conta, p’ra seu palito, divertim ento e troça.
D erivados: Debique, debicatorio.
De bobus a N icolá o — De graça, sem receber pagamento,
sem remuneração alguma pela prestação de um serviço qual­
quer. “ O M j o r Pataca requereu a sua reform a. Já estava can-
çado de prestar serviço de bobus a N ic o lá o ” . (A Lanceta n.
27 de 1890) Sobre a origem desta phrase escreve o D r. Cas­
tro Lopes: “ Quando alguem p or algum serviço ou trabalho não
recebe paga, nem recompensa alguma, diz o õnvo: F o i de bo­
bus a nicolau. Em latim dir-se-hia: “ Nec abobus, nec la u s.”
(N em um obulo é, nem um ceitil, nem um real, nem uma
moeda de v a lo r minimo, nem lo u v o r ). Quem poderá negar
que este nicolau é o nec laus latino, estropiado pela lingua p o ­
pular, e o de bobus a corruptela de nec obu los?”
D ebochar — O mesmo que debicar. D eriva d o : Deboche:
Eu não quero deboches com m igo.
Debute — Objecto de va lo r. (G iria dos gatunos).
De cabo a rabo — De p rin cip io a fim.
D ecidir — Executar, falar, cantar, tocar. “ O professor A ze­
vedo decidia no bronze a sua modinha predilecta. (A Pim enta
n. 9 de 1902).
D eclinar — Indicar, manifestar, revelar o nome de alguem
en volvid o em um facto qualquer: o homem contou a historia,
mas não declinou o nome do personagem . E ’ o caso do dictado:
P regar o sermão e não bater no púlpito.
D ed ica — In s in u a ç ã o , i n d i c a ç ã o ; m e ia s p a l a v r a s , ou p r o -
priam eq te soprar, com as m e s m a s expressões qu e A u le t e dá
a este t e r m o : D a r a d e d i c a ; D a r um a d e d i c a .
. De estou ro — Uma co u sa b e lla , b o n it a , su p im p a , m a g n i ­
fic a . “ Vem vêr o qu e é u m a c r ia d a dé e s t o u r o ” . ( A P im e n ­
ta n . 26 de 190 2).
D e fo g o b a ix o — Q u ie to , c o n fu s o , a m u a d o , m u r c h o .
D e fo g o m orto — E n g e n h o q u e n ã o tra b a lh a , p a r a d o : E n ­
genho de fo g o m orto.
D e fron te — D i f f e r e n t e , de o u t r o m o d o , ao c o n t r a r i o : A h !
isto a g o r a é ca so d e f r o n t e .
D efu n to — Q u a lifica tiv o que as v iu v a s dão ao fa llecid o
esposo para não p r o n u n c ia r o seu n o m e . “ D. M a r ia , ca sa da
e m seg u n d a s n ú p cia s, p o ssu e u m a q u a lid a d e n m it o b ô a : nunc?
fa la n o seu d e f u n t o . ” (L a n t e r n a M agica n. 442 de 189 4). “ O
m eu q u e r i d o d e f u n t o n ã o d o r m i a sem d a r tres e s p i r r o s ” . (I d e m ,
n. 803 de 190 5).
289
Defunto sem choro — Indivíduo desprezado, sem p rotec­
ção, sem ter quem lhe dôa.
Dégas — Q ualificativo que um indivíduo que fala dá. a si
p róp rio. “ Cá o dégas, isto é, eu, a minha pessôa, não vai nis-
t . . . . . . .

s ó . . . E para que se lem brem do degas, A todos vós neste mo


ínento Convido para o casam ento.” (A Pimenta n. 15 de 1901)
■‘Ao chegar estreitou sem demoras cá o degas nos braços r o ­
liç o s .” (A Pimènta n. 3 de 1902).
Degringolada — Derrocada, desastre, destroço; descala­
bro, desgraça, m iséria. “ Grande baixeza, horrorosa queda que
pasmaria a nação, se já não estivessemos acostumados a p re­
senciar taes degringoladas” . (A Soberania n. 6 de 1877).
D e meia cara — De graça, sem com prar; de bobus a ni-
colau. “ Os assignantes d’0 Diabo. e aquelles que o têm de
-meia cara hão de ter muito prazer èm saber noticias dos au­
gustos viajantes” . (O Diabo a quatro n. 55 de 1876). “ Lá em
Olinda, no convento de S . Bento, come-se de m eia-cara” .
(O BJnocuIo n. 21 de 18821. “ Não é, nem fo i beocio viven do
como vai, de m eia-cara” . (Pernam buco n. 127 de 1913). Cou-
za insignificante, má, sem im portância e v a lo r: uma festa, um
pintor de-, m eia-cara. “ O R ecife é a cidade dos mil encantos,
onde não faltam assumptos ao chronista de m eia-cara” . (A
Pi menta n . 590 de 1907).
De meia jóta — O mesmo que de Bobus a nicolau.
Dendê — Pitéo, gostosidade, ou cousa bôa, apreciavel. “ Fez
honlcm o seu dendê cm frente a nossa tenda de trabalho o
velho maracatú Porto R ic o ” . (Pernam buco n. 104 de 1914).
Cousa d iffic il obstáculo: Ahi é que está o dendê, consoante-
mente com as locuções: Ahi é que está o buzilis; Onde o carro
péga. Castanhas não são dentes: Cousas differentes, distinctas.
Dendê é o fructo da palm eira exótica o dendezeiro (E lais gui-
necensis, L in n .)
Dengo — Delicadeza, a fe cta ç ã o , sensibilidade; exagerado
melindre, susceptibilidade, pudor; modos affectados, esquivan­
ça, desdem. “ Os teus requebros, os teus dengos derretem-me
to d o .” (M ephistopheles n. 11 de 1882). “ D eixa de dengo,
Rita, te apruma! D eixa de luxo, grita o d en tista .” (A Pimenta
n. 24 de 1901).
Dengoso — Cheio de dengos. “ Mulata dengosa, sabe con­
quistar a amisade do pato p or m eio de caricias fingidas e es­
tudadas.” . (Jornal do R ecife n. 91 de 1914). “ Nada ha que
mais prenda E nos fale ao coração, Do que a mulata dengosa.
A requebrar num salão” . (A Lanterna n. 3 de 1917). “ As ca-
chopas do club Vassourinhas, iam mesmo num passo dengoso
(Pernam buco n. 104 de 1914).
Dente-queiro — Dentes do siso ou cabeiros os dous ú lti­
mos queixaes ou molares, que, tardiamente nascem, já na ida­
de v iril.
Dentista — Charlatão, pantom ineiro, mentiroso, enganador:
Que dentista! Este termo, concurrentemente entre nós, é assim
tomado da giria portuguesa, como o registra A lberto Bessa.
De orelha;.em pé — Prevenido, desconfiado: Andar de o re ­
lha em pé.
De parafusos frouxos — Amalucado, idioia, derrranjado da
bola, de m iolo m olle.
Depauperado — D ebilitado, extenuado, fraco, sem fo r ­
ças.
Dependencia — Accrescim o de pequenas construcções na
parte posterior de uma casa em seguida á sala das refeições,
e alinhadamente dispostas, nomeadamente a saleta de cópa, des­
pensa, cozinha, banheiro, quartos para criados etc.
Derna — Corruptela de desde, e assim, com as suas p ró ­
prias expressões. “ Derna muito tempo que nós quer ter um
jorn al que trate dos interesses de nossas famias e de nossos
escravos que os abolicionistas querem to m a r.” (O João F e r­
nandes n. 37 de 1887). “ Já tava ti esperando derna demanhã,
reisinha” . (A Pim enta n. 547 de 1907). Este vocábulo é apenas
corrente entre o ignaro povilhéo.
D errengo — D erriço, derretim ento, cahidos, m e-deixas. “ Se
encolerisava com derrengos e com olhares m atreiros” . (L a n ­
terna Magica n. 110 de 1885). D erivados: Derrengado, derren-
gar-se.
Derrubada — Destruição de um capoeirão ou trecho de
matta, pelo machado e pelo fogo, para a extracção de m adei­
ra, lenha, ou preparo de um terreno para plantação ou ro ­
çado, seguindo-se depois o destocamento e a coivara afim de
fica r completamente lim po para receber a sem enteira. “ D e­
pois da derrubada, depois da destruição, vem o refloram ento
da terra cultivada” . (F a b io L u z ). Demissão de empregados
públicos, de confiança p olitica ou não, pelo partido que sobe
ao poder, afim de encartar os seus adeptos. “ Com a assenção
do novo m inistério, houve geral derrubada” . (Beaurepaire Ro-
h a n .)
Desabotoado — Dissoluto, desenfreiado, arreliado; solto de
lingua, inconveniente.

291
Desabrochar — E xp lodir em franquezas, dizer o que sen­
te, não ter mais condescendencias; fazer revelações, confessar
um crim e ou uma falta qualquer.
Desadouro — Confuzão, balbúrdia, fecha-fecha. “ Nunca se
viu d elirio igual, enthusiasmo tão esquentadiço. F o i um desa­
d ou ro !” (Jornal do R ecife n. 45 de 1914) . “ F o i um desadouro:
fechou-se o te m p o .” (Id em n. 9 1).
D esafio — P re lio poético entre dous cantadores tendo cada
um poç alvo a conquista da victoria . Occasional, pelo encontro
dos poetas, ou pelo p révio desafio e emprazamento certo, de
lugar, dia e hora, e perante uma reunião mais ou menos nu­
merosa de apreciadores e partidários dos contendores, tomam
elles os seu$ lugarós, fren te a frente, afinam as violas, e rompe
o torneio, que deve ser igualmente disputado, na mesma ca­
dencia, tom dos versos, e golpe a golpe, pelas respostas, de
accordo com as atiradas perguntas, ou consoantes com os con­
ceitos em ittidos. E nessas pugnas empenham-se no correr de
horas, e as vezes fica a victoria indecisa pelas encontradas o p i­
niões dos apreciadores, que, partidários de um ou outro, abso­
lutamente não consentem que se proclam e a derrota do seu
heroe. “ Enterreiram -se, adversários, dous cantadores rudes.
As rimáS saltam e casam-se em quadras muita vez bellissimas.
— “ Nas- horas de Deus, amen, N ão é zombaria, não! Desafio
o mundo in teiro P ’ra cantar nesta funcção” . — O adversario
retruca logo, levantando-lhe o ultim o verso da quadra; — “ P ’ra
cantar nesta- funcção, Am igo, meu camarada, acceita teu desa­
fio O fama deste sertão!” — E ’ o começo da lucta que só te r­
mina quando um dos bardos se engasga nume rima d iffic il
e titubea, repinicando a machete, sob uma avalanche de risos
saudando-lhe a derrota” . (Euclides da C unha). Em um desses
desafios, nos nòssos sertões, em que um dos contendores não
acudiu aos versos atirados, o seu adversario investe-o com uns
e .depois outros, e sem resposta alguma rompe com estes, que
pozeram termo ao prelio, pacificam ente, graças á intervenção
das pessoas presentes: “ Cala a bocca, bestalhão. Não soubeste
respbnder? Metti-te o freio nos queixos, A sella mandei fa ­
zer . ”
Desarroihar — O mesmo que desabrochar, falai .
Desarrumado — Desempregado, sem trabalho nem occu-
pação alguma: Andar enfiando agua, descontando letras, em
cavações.
Desasnado — Instruído nos prim eiros rudimentos da ins-
trucção prim aria ao entrar na escola; sem acanhamento, emba­

292
raço, tim idez, “ Sentia-me desasnado, e entrava sem receio nas
folganças do c o lle g io .” (A n ton ió C a rm elo .)
Desbambado — Mal arranjado no trajar, com roupa que
não assenta bem; sem modo e compostura no andar.
Desbandeirar-se — Abrir-se, rom per em desabafos e ex­
plosões, dizer os seus sentimentos, e exceder-se mesmo dando
por paus e por pedras.
Desbaratar-se — O mesmo que desbandeirar-se, desabro­
char, d esarrolh ar.
Descachelado —- Aberto, roto, em máo estado: uns sapatos
descachelados. S ylvio Rom ero registra descachelar, arrega­
nhar, como um termo de origem africana.
Descadeirado — M oido p or uma bôa sova de pau.
Descalabro — Damna contratempo, prejuiso, perda, desgra­
ça, d e rro ta .” A guerra fo i a causa do descalabro das nossas
fin an ças. A anarquia reduziu a náção ao m aior descalabro que
se póde im aginar ..N o encontro que tivem os com o inim igo sof-
freu este o mais com pleto descalabro” . (Beaurepaire R o h a n ).
Descampinado — Solto, andejo, desenvolto, na m alandra­
gem, a correr seca e meca.
Descascar — Arrancar, sacar, tirar; desembainhar, empu­
nhar. “ O h !'p a tife ! espera que já te a rra n ja m os... E descas­
cam as bicudas de P asm ad o.” (A m erica Illustrada n. 14 de
1883). “ Este vem com a faca descascada, aquelle com a pisto­
la arm a d a .” (F ra n k lin T a v o r a ).
Descomponenda — O mesmo que descompostura, nas oc-
cupações de — phrascs, discursos e escriptos que se dirigem
a1 alguem para o injuriar ou envergonhar; invectiva, ultraje,
affron ta. •— “ Depois de muitos doestos e apartes atacantes,
descomponendas, bravatas e desafios ficou tudo era n ad a.” (O
Barco dos Traficantes n. 26 de 1858). “ Agora vaes-me pagar
as grandes descomponendas” . (A m erica Illustrada n. 14 de 1883).
“ Não tomaremos em consideração as tolissimas descomponen­
das qüe fazem parte do seu program m a” . (D ia rio de Pernam ­
buco n. 354 de 1916).
Descongelo — Esconjurio, imprecação, graça. “ Eu te des­
con gelo! D ei o fóra, e nunca mais v i a m u lata.” (Jorn al do
R ecife n. 51 de 1914). “ Eu te descongelo, atrazo de fim de
mez!... Grita uma velha ao sentir pisar-lhe os callos” . (Idem ,
n. 54). T e descongelo, cara de m artello. (D icfad o p o p u la r)
Descontar letras — Estar sem occupação, desarrumado,
sem m eio de vida algum, em cavação.
Desconversar — Fazer-se desentendido, dissimular, procu­
rar uma evasiva; mudar de assumpto em desvios de uma ques­
tão que não agrada, não convem ; calar-se, e deixar passar uma
indirecta ferina, picante. “ Desconversa bonito, reproduzindo
ipsis verbis um trecho do seu editorial A Convenção N a cion al” .
(D ia rio de Pernambuco n. 6 de 1913). “ O Julio Soares me
vinha passar um bilhetinho da Kermesse, mas eu desconver­
sei” . ( A Pim enta n. 83 de 1902).
Descortino — Sagacidade, penetração, vistas largas: Poli-
tipo de grande d escortin o.
Desculpa de papa-terra — Pallida, fraca, sem nexo e fun­
damento, com prom ettedora mesmo. “ Desculpa de papa-terra é
sezões, diz o p o v o .” (Pernam buco n. 317 de 1913).
Descupir7$e — Diz-se de uma costura mal acabada, de
pontos frouxos, a descopir-se, desmanchar-se.
Desejo — A vontade, o desejo, que a mulher no seu estado
interessante ou de esperanças, segundo a expressão moderna,
m anifesta de com er alguma cousa, e que não o satisfazendo,
diz o vulgo, provem dahi abortar, nascendo então o feto dc
bocca aberta como manifestação do não attendido d e s e jo ...
Desencabeçar — Induzir, aconselhar mal, chamar ao vicio,
ao erro, deitar a perder.
Desencavar — Pesquizar, procurar, esmerilhar, cascavi­
lh ar; achar, conseguir, descobrir, encontrar.
— Onde fo i você desencavar tanta cousa que ninguém sa­
bia?
D esfructavel — Ridiculo, todo; alvo de zombaria, troça,
chacota, pelo falar, modas e pretenções. “ Não lhes parece que
o João quer dar visos de rom ântico, ou desfructavel, que é o
mesmo, segundo o diccionario dos meninos de a gora?” (O Te-
legrapho n. 3 de 1850).
“ Mulher, que v iv e á janella Quer de noite, quer de dia,
Que é feia e quer ser hella, Que se diz moça e já é t ia . . . E,
desfructavel.” (A m erica Illustrada de 27 de Outubro de 1872).
“ Rapazes do que ha de mais selecto, mais chic e de mais des­
fructavel, que a nossa sociedade conhece pela denominação de
perús.” (O Diabo a quatro n. 111 de 1877). D erivado: Desfru-
cte.
Desgoelado ou esgoelado — Vestuário mal talhado, deco­
tado de mais, deixando apparecer a guela. “ Casacas desgoela-
das com corpo de põe-m esa” . — (O Carapuceiro n. 10 de
1847).
Desgraceira — P o r desgraça. “ Mas, coitado, na tolice, era
aquella desgraceira.” (A Pim enta n. 4 de 1902). “ Não me quiz
dar p or ven cido. F o i aquella desgraceira. Quasi fico esm ore­
cido INÍão durmi a noite in te ir a .” (Idem , n. 25). “ Oh! Lulú!
Que d esgraceira!! N o mesmo instante te apanho!” (Jornal do
R ecife n. 26 de 1914).
Deslambido — Sem vergonha, descarado, im prudente: Cara
deslambida.
Desmanchar a merenda — P ô r a calva á mostra, desman­
char a figu ra.
Desm anivar — Arrotear, desbravar, lim par, tirar o grosso;
arranjar, desembaraçar, conseguir alguma couSá, ven cer uma
d ifficu ld a d e . “ Entrega a tua questão a um bom advogado, que
elle desmaniva is t o .” (Beaurepaire R ohan).
Desoccupe o beco! — Intim ação a alguem para deixar um
assento ou lugar em que está. “ Renda-se para o meu socego,
renda-se ou desoccupe o b eco” . (A Lanceta n. 45 de 1890).
Despacho — O mesmo que chabola: Dar um despacho.
Desparafusado — O mesmo que — De parafusos frouxos.
Desparafusar-se — Aborrecido, irritado, rom per em exp lo­
sões. “ A b orrecid o o pobre homem de ouvir as sandices do in ­
dividuo, desparafusou com elle, como dizem os manos” . (L a n ­
terna Magica n. 207 de 1887) .
Despencar — Cahir desastradamente de grande altura.
“ Quando o rapaz se achava no ponto o mais elevado da arvore,
perdeu os sentido, despencou, e m orreu da queda” . (B eau re­
paire R oh an ).
Despensario — Estabelecim ento de beneficcncia, com as­
sistência medica, fornecim ento de rem edios e outros auxilios á
pobreza. O prim eiro estabelecimento deste genero entre nós,
fo i o Despensario O ctavio de Freitas, da L iga Pernambucana
contra a tuberculose, inaugurado em 1904. “ O Padre José Ve-
nancio' de M ello lançou a idéa piedosa da fundação de um des-
pénsarió para os p o b re s .” (D ia rio de Pernambuco n. 356 de
1916).
Despescar — Fazer a pesca dos viveiro s de peixe, em ge­
ral, pelà quaresma.
Destabocádo — A rreliado, exaltado, inquieto, turbulento;
solto de lingua, de franqueza rude, inconveniente, grosseiro,
im m oral mesmo. “ Os credores receberão letras sacadas pelo
Barros Xupista, aceitas pelo destabocado Abrantes, e garantidas
pelo Sant’Anninha e P itu ’ ” . (O Camarão n. 3 de 1848). Um
pardo velh o zangado, destabocado, irrita d o ” . (A m erica Illus-
tr a d a n . 14 de 1879). N o Ceará, porem, onde o vocábulo tam­
bem tem curso, diz-se do indivíduo adoudado, que, sem respei­
tar as conveniências, dá p or paus e p or pedras. “ Sou cabra des-
tabocado” . (Juvenal G aleno).
“ Destinado — A rreliado, commettendo desatinos, dando
por paus e por pedras: Aquelle diabo estava hoje destinado;
só tocado de cachaça.
Destino — Momento, acto, acção do destinado; a sua crise
de exaltação e desatinos. “ Quando estou no meu destino, V en ­
ço até m il paraguayos” . (Juvenal G alen o). “ Quando estou no
meu destino, Sou rei dos cabras damnados” . (C ancion eiro do
N o rte ).
Destocar — Arrancar os tocos e raizes da vegetação, que
ficaram da derrubada e coivara de um terreno destinado á
plantação de um roçado.
Destrirtchâr — Apurar, esmiuçar, resolver, in dividu ar; d i­
zer, expor miudarnente, precisam ente. “ V ocê diz que sabe mui­
to, P ois me déstrinche esta conta: V inte e cinco guardanapos,
dois vinténs em cada ponta? — Sim, senhor, destrincharei Con­
form e me parecer: D oze patacas e meia Quantos m il réis vem
a s e r? ” (Versos de D esa fio).
Desunhar — C orrer a bom correr, fugir, desapparecer.
Detractar —- D izer mal, diffam ar, in ju riar.
Diabo — O typo legendário ou m ythologico do diabo, uni­
versalm ente conhecido desde os tempos biblicos, nada teria de
particular entre nós, se não occorresse uma corrente vulgar
de uns tantos adagios e dictos ou locuções populares, que sup-
pomos de um caracter regional, uma vez que não os encontra­
mos codificados ou registrados em partes extranhas, e nem
mesmo em Portugal, a não ser, unicamente, Ser da pelle do
diabo, mas com expressões differen tes das que tem entre n ó s.
Se o diabo tem diversos nomes, como, historicamente, Anjo
máo ou das trevas, Belzebuth, Dem onio, Lu cifèr, Asmodeu, e
modernamente Mephistopheles, na legenda do Fausto, de Goe*
the; e m ythologicam ente o de Plutão; tem particularm ente en ­
tre nós, e de um exclusivo caracter regional, os de Am aldi­
çoado, Arrenegado, Cafute ou Cafutinho, Cão, Capataz, Capêta,
Droga, Excommungado, Ferrabraz, Furia, Fute. Maldito, IVÍo-
fino, Não sei que diga, Pé de pato, T ição, Tisnado, e Sujo; occor-
rendo ainda os nomes de Demo, Diacho, Inim igo, e Tinhoso, da
giria portuguèza, porem vulgarissimos entre nós. O vocábulo dia­
bo tem tambem *curso no augm entativo e no dim inuitivo, em tons
depreciativos, mas neste ultimo, coneurreíitemente, expressões
de affecto e carinho: Que diabinho bonito, engraçadinho! São
estes os alludidos adagios, ditados e locuções populares de ex ­
pressões obvias: A gente trabalha para Deus; para si e para o
diabo; A quem o diabo torna uma vez, sempre lhe fica ò gei-
to; Artes do diabo; Bem com Deus, bem com o diabo; Bom
como d iab o!; Cada um em sua casa, o diabo não tem o que
fazer; Comer o pão que o diabo amassou; Da pataca do sovi­
n a 'o ' diabo tem tres tostões e dez réis; Da p elle do diabo; D ia­
bos te carrreguem para as profundas do in fern o ; Estar com o
diabo no couro; F eio como diabo; Hom em dò diabo; L e v a ­
dos dos,diabos; Nem que o diabo estoure ou toque rabeca; Nós
tem o diabo nas tripas e os frades nos cordões; O diabo ajuda
aos seus; O diabo de Casa F o rte; O diabo é da côr que o p in ­
tam; O diabo é sujo; O diabo foge da cruz; O mal ganhado o
diabo o leva; O diabo não é tão feio como d pintam ; O diabo
não é tão máo como se d iz; O diabo não faz graças para nin­
guém se r ir ; O diabo quando tem fom e come moscas; O diabo
tambem reza; O diabo tanto encapa até que um dia desencapa;
O diabo tem duas capas; Pintar o diabo; Quando o diabo reza,
enganar te quer; Quem anda em demanda, com o diabo anda;.
Quem com o diabo anda, com o diabo acaba; Quem deve a
Deus paga ao diabo; Quem diabos compra, diabos vende;
Quem é besta pede a Deiis que o mate e ao diabo que o car­
regue; Quem fala só fala com o diabo; Tres o diabo fe z; Um
pobre diabo carregado de esteiras velhas; Vá para o diabò
que o carregue; V iva Deus e m orra o diabo!
Diacho— Corruptela de diabo, vulgarm ente usada como que
para âmenisar a sua expressão perante pessoas de considera­
ção e respeito. “ Um gato de estima perdido, ó diacho! ( A L an ­
ceta n. 52 de 1890). “ A i! me largue o babado! A i! me largue,
diacho! Que diacho de padre! (D a chula ,0 ladrão do- podresr-
nho). “ Este diacho de moleque que é assim m estoo.” (In g le z
de Souza). O term o é tmbem muito usado no dim inuitivo: “ Era
mui bonitinho O diachinho d elia ” . (V ersos de um lundu’ ). O v o ­
cábulo diacho figura na giria popular portugueza, e Moraes já o
registra como vulgar entre nós.
Dia de São Nunca — Santo im aginario, que não existe, e
que assim não tem dia no kalendario, vem dahi a resposta a um
pedido qualquer, de satisfazel-o no dia de S. Nunca á tarde,
como uma escapatória, uma evasiva, porquanto semelhante dia
jamais chegará. Diz-se porem p or chacota, que esse dia é o
de todos os santos, a 1 de N ovem bro, em que entra o S. Nunca.
“ 0 ladravaz aprasava sempre o pagamento para o dia de S.
Nunca.” (D ia rio de Pernambuco n. 131 de 1917). 0 dicto é
originariam ente portuguez, e muito antigo, uma vez que as­
sim o encontramos registrado neste trecho de uma carta dos
habitantes de V im ieiro d irigida ao general inglez L o rd W el-
lington, á proposito da expulsão dos francezes de Portugal:
“ Agora podemos dorm ir a somno solto, o nosso medo está nas
malvas, e a vinda do inim igo será no dia de S. Nunca á tarde.”
N o Chile ha uma phrase correspondente a esta para sua p ró ­
pria accepção, e assim registrada por Zorobabel R odrigu ez:
“ liasta el tiempo de chochos!; o para el tiempo de chochos!;
pâra nunca jamas, para las calendas griegas, o la chilena, para
el dia de San Blanco, que no tiene cuando” .

Dia de São Pagamião — Santo tambem im aginario como


S. Nunca, tem porem dia certo, que é o de pagamento da feria,
salario ou vencim ento de qualquer procedência: H oje é dia de
S. Pagam ião! “ Não tende visto juizes, que só fazem justiça
áquelles, que lhe tem offerecid o, ou cousas leves que voam,
ou de peso e bom tinido, por serem muito devotos do Santo
Pargar-me-hão, que muita gente festeja dentro da palma da
m ã o?” (O Barco dos Patoteiros n. 84 de 1866).
Diaraque — Objectos sem valor, na giria dos gatunos.
Diarista — Empregado secundário de uma repartição ou
serviço publico, sem titulo de nomeação, e que percebe os
seus vencimentos p or estipulada diaria, semanal oú mensal­
mente paga, em folh a especial.
Dias máos — Aziagos, de contrariadades, nefastos, in fe li­
zes. Na giria do jogador de cartas é muito commum este phra-
seado á sâhida de paus, como trunfo; Para passar os dias máos
das penas em que vivo, paus digo; que talvez se rem onta á
epocha da introducção do jogo em Portugal, no reinado de D .
Jcão I I I (seculo X X V I) ou se prenda, contemporaneamente, á
seguinte quadra epigrammatica de Camões, consignada nas
suas obras completas sob esta ru brica: “ A uma senhora, que jo ­
gando perto de uma janella lhes cahiram tres-páos, e deram
na cabeça de Camões: Para evitar dias máos Da triste vida que
passo, Mandem-me dar um baraço, Que já cá tenho, tres páos.”
A allusão é obvia. O poeta dos Luziadas pedia um baraço para
o garrote, pois já tinha os tres páos para armar a forca.

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D indinho ou Dindo -— P o r padrinho, como assim chamam
as creanças aos seus padrinhos e avós, e á lua dindinha, a
quem pedem-lhe a benção, como se vê da conhecida e res­
pectiva parlenda. “ P o r qualquer travessura ainda apanhava
com as correias, se não tinha a fortuna de apadrinhar-se com
o dindinho ou dindinha.” (O Carapuceiro n. 75 de 1842). D in­
dinho me deu um canario, e dindinha uma b on eca .” (B eau re­
paire R ohan).
Dinheirão —- Modismo do termo dinheirama da giria por-
tugueza, e com as suas próprias expressões de muito dinheiro,
e que entre nós tem ainda as de subido preço, muito caro.
“ As missas estão por um dinheirão, e o tempo é de festa” .
(Lanterna Magica n. 413 de 1894). “ O sebo está muito caro,
Está valendo um dinheirão. (Versos populares). “ Mas o dono
da fazenda Sem pôr o seu gado á venda, Vai ganhar um d i­
nheirão.” (Bastos T ig r e ).
D inheiro — Nos dictados e locuções populares: Dinheiro
custa a ganhar. “ Menina levante a saia Móde a saia não sujá,
Que saia custou dinheiro, D inheiro custa a gan h á.” (T ro va s
p op u la res). D inheiro é sangue e sangue não se dá. Dinheiro
fro u x o : abundante,, prodigamente gasto. M arinheiro é damna-
do por dinheiro. — “ Quem dinheiro tiver fará o que q u iz e r.”
v— Eu tive dinheiro e não fiz o que quiz. — “ Cala-te louco:
o dinheiro fo i p o u co .”
D ireito — Leal, franco, sincero; seguro, de confiança: Um
cabra direito, ou ás direitas. “ O Sebastião é -um homem direito,
incapaz de com prom etter.” (A lb erto Bessa). O vocábulo tem
curso na giria portugueza com iguaes expressões.

Discurseira — P or discursos; falação, verb orréa. “ E f i ­


cou, até quando se acabou tão in fern al discurseira” . (A m e ri­
ca Illustrada n. 21 de 1878). “ Houve discurseira, muita lorota
e muito engrossam ento.” (A Pim enta n. 3 de 1902). “ O co­
nhecido ex-bicheiro fez discurseira em um bond da rua d’Au-
rora . (Id em ; n. 63).
Disfaróe — Derretimentn, riso expressivo, dengo, affe-
ctação, requebram ento: Moça disfarçada.
Disparar — Arrancar, partir precipitadam ente, com im-
pelo, com violên cia: O disparar do cavallo. “ Disparei com
medo da velha Procopia, que segundo diz o vulgo, está com
o diabo no c o u r o ... Disparei a toda velocidade... Creio que
algum espirito corred or se apoderou de m im ” . (Jorn al do

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MVMTtCI m ui! u iriu u
P t i l . C âR T tLL#

R ecife n. 58 de 1916). O vocábulo é corrente no Chile com


iguaes expressões. “ A l sentir que elabaga el sereno los^la-
drones dispararam saltando la tapia” . (Zarabâbèl R od rigu ez).
D iterio — Peiada, chufa, graçola, pilhéria. “ Os taes Coiós
obrigam as fam iilas a passarem pelo m eio da rua, e h a ja d i-
te rio s !” ( A Pim enta n. 625 de 1968).
D ivagarzinho — Vagarosamente, lentamente, sem pressâ.
a passos lentos, sem força. “ O telegrapho terrestre caminha
agora mais divagarzin h o” . (A m erica Illustrada n. 50 d e *1878).
Variante: D ivagarinho.
D ivina — Este vocábulo é exclusivam ente applicado a
uma senhora cheia de dengos, affectações, desdens e derreti-
mentos; A Sinhasinha estava hontem toda d ivin a! Insuppov-
tavel!
D ivisa — Corrente do galé, na giria dos presidilarios.de
Fernando de Noronha.
Dobradiça — Certo passo de dança carnavalesca, no fu ror
do frevo, quando o homem, servindo de pino, leva uma dama
em cada braço. “ E se foram na maciota, no peso das dobra­
diças, aos soluços da orchestra” . (Jornal do R ecife n. 50 de
1914). “ Gostoso não se poude conter e entrando na dobra­
diça, lá se fo i se esbandalhando” . (A P rovín cia n. 50 de 1914}.
Dobradinha — Guizado de dobrados com feijão branco'.
Dobrado —, Individuo valente, (G iriá dos gatu n os). Mu­
sica de marcha m ilitar: Passo dobrado. “ A banda de Iinhá
vem gemendo um dobrado supimpa” . (Lan tern a M agica n. 509
dc 1896). “ As tropas em ordem de marcha, ao som de vibrán-
tes dobrados, desfilaram em frente ao p avilh ão” . (Tornai do
R ecife n. 248 de 1916).
D obrar a lingua — F alar com respeito, acatamento e cor-
tezia. “ Caninana é tu’ . . . T u ’ não; dobre a lin gu a l” (Jornal
do R ecife n. 44 de 1916).
D obrar ou montar o cabo — Vencer uma difficuldade, su­
bir, elevar-se, enriquecer. “ O Ulysses o cabo monta com pan-
iio de toda a g r e y ” . (A Lanceta n. 23 de 1890). A locução,
quer de um modo quer de outro, não ha duvida que vem da
descoberta e passagem do Cabo da Bôa Esperança, por Bar-
tnolomeu Dias em 1487, im pondo-lhe o nome de Tormentoso,
em lembrança! dos perigos e procellas p or que passou ao do-
bral-o, e ao qual Camões chama de Torm entorio, D. Fr. F ra n ­
cisco de S. Luiz, das Tormentas, e p or outros escriptores
mantida a denominação origin aria de Torm entoso, mas que
ficou aquella de Bôa Esperança, imposta p or D . João II. Dez

300
annos depois occorre a viagem de Vasco da Gama em busca
do caminho das Índias, em cuja derrota dobrou o cabo T or-
mentorio depois de tres dias de lutas e perigos pelo mar agi-
lado e ventos ponteiros que sopravam, episodio esse que é
genialm ente cantado por Camões nos seus Luziadas, ideali-
sando o celebrado cabo, numa bella ficção poética, no perso­
nagem m ythologico do Adamastor.
D odóe — Doença, encommodos de saude; situação affe-
ciada que dóe ao tocar-se. “ A mulata velha precisa tomar ti-
zanas; está toda dodóe” . (Lan tern a Magica n. 536 de 1897).
Doente — Seriamente com prom ettido p or uma falta g ra ­
ve, e sob o peso das suas consequências.
D oidello — O mesmo que adoidarrado. “ Grande doidelio
estonteado, Muda de vida, te d igo: A mania casamento Para
ti é um p erig o ” . (Z izin a S. E sm eralda).
D oléro — Bello, vistoso, elegante: Um rapaz d oléro; Uma
mulher dolera.
Dom Cariongo — V . Carionga.
Domisedéa — Im pertinência, graçolas, aborrecim entos,
exigências: Não venha com os seus domisedéas cá para a m i­
nha banda. Pretenciosidade, form alism o, im pertinência, en-
joam ento: Um sujeito cheio de domisedéas
Dona — Tratam ento de respeito a uma senhora cujo no­
me se ignora, ou de Sinhá Dona na bocca do cam ponio; ca­
seira, esposa. “ Com prei uma casa para minha dona” . (O
Desespero n. 8 de 1880).
D onzella — Columna de madeira, em geral de tornearia
e jacarandá, e de altura proporcionada, em que, em outros
tempos, se collocavam os candieiros de latão, com dous b icos
para pavios, alimentados com azeite de côco ou de carrapato,
“ Thereza e Am elia cosem, á luz de um apetrechado candieiro
de latão chamado de d on zella” . (D r. A p rigio Guim arães).
Vem dahi a phrase de duvidas ou de consciência, de Donzella
de candieiro. “ A N yla, naturalmente seduzida- pelo seu amor
ideal de donzella de candieiro. trocou o lar fam iliar pelo an­
tro pestilento de uma megéra. ( A Pim enta n. 565 de 1907).
D ôr de viuva — Diz-se da que é fortem ente produzida pe-
ii.s traumatismos do cotovello.
D orm ência — Entorpecim ento, falta de acção; dim inui­
ção ou cessação da sensibilidade em ama parte qualquer dn
corpo, principalm ente nas extrem idades: Dorm ência dos pés'
das mãos, das pernas, etc. “ A dorm ência que se manifesta em
uma e outra extremidade, p or causa de te-la conservado por
aigum tempo em posição constrangida, com prim indo os n er­
vos e im pedindo parcialm ente a circulação, costuma cessa.,
logo que cessa o obstáculo, m ovendo a parte, dando alguns
passos, etc. P orem este estade de dorm ência manifesta-se tam ­
bem como um .symptoma de varias moléstias graves” . (D r.
Langaard). Barriga cheia, pé dorm ente; vou p ’ra cama, que
estou doente. (D ictad o).
Dorm ente — Insensível, imprudente, deslavado, cara-du-
ra; surdo a admoestações, conselho», reprim endas. “ Vai t-
lá, preguiçoso. Isto é, carinha dorm ente” . (Lan tern a Magica
n. 574 de 1898).
Dorm inhar — P o r dorm ir. “ E ’ sacerdote de succo; sabe
o latim dorm inhando” . (Lan tern a Magica n. 77 de 1884). N e ­
gligencia, pouco caso, desprezo; no ligar attenção, importan
cia a cousa alguma. “ Você está dorminhando com m igo? Pois
está enganadoj Eu lhe mostro de quantos paus se fàz uma
jangada” .
Douda — Especie de form iga muito vulgar e abundante.
As form igas doudas são miudinhas e pretas, e assim chamadas
como escreve Koster, em razão de não seguirem caminho r e ­
cto, mas espalharem-se por todos os lados, correndo aqui c
alli, sem designio ou ordem apparente.
Douradinhas — Moedas de ouro. (G iria dos gatunos).
Dourado — Madeira de construcção c iv il; p eixe do mar
(Corinhaena hippurus, Cuv.) muito abundante e saboroso, e
que entre os indios tinha o nome de P irá miu’ na (Gonçalves
D ias), e tambem de agua doce, tendo no rio S. Francisco o
nome de Jutubarana. Andar de banda como dourado. (D i­
ctado popu lar). O autor dos Diálogos das grandezas do Brasil
já o m enciona; e chama-se assim pela sua côr de um bonito
am arello-dourado, consoantemente com o nome Perajuhy, de
origem tupica, de um engenho situado no municipio de Iga-
rassu’, que segundo A lfred o de Carvalho é corruptela de pirá-
yu’ -y, rio do p eixe amarello, ou do dourado.
Dous dedos — Nas phrasos; Dous dedos de grammatica,
um tanto em briagado; com uma mão de cinzento. “ Já não v i­
nha bom ; já trazia os seus dois dedos de gram m atica” . (A lb e r ­
to Bessa). Dous dedos de raiva, zangado. O João quando es­
tá com dous dedos de raiva, só o diabo o pode aguentar. Dous
dedos de prosa, palestra ligeira.
Dous pesos e duas medidas — Duas opiniões ou resolu­
ções oppostas sobre cousas da mesma especie; juizo, decisões
encontradas em questões iguaes, ou objectos de idêntica natu­
reza. Esses dous pesos e duas medidas não honraram a um
jurisconsulto” . (A Lanceta n. 44 de 1890).
Droga — O diabo. “ Mas o droga não quiz chufas” . (O
N ovo Mesquita de Capote n. 2 de 1847). “ O diabo da velha de­
pois que comeu bolos e bebeu vinho apresentou-se indemo
niada como todos os drogas” . (A Duqueza de Linguarudo n.
140 de 1878). “ No matto és conhecido pelo droga e dizem que
és o anti-Christo” . (A m erica Illustrada n. 34 de 1881).
Duas cabeças — Pequena cobra (Am phisbena alba, Le*
sep.), de uma côr branca ligeiram ente azulada, de especies dif-
ferentes, e que v ive na terra. D iz M acgravi que os indios
chamavam-na Ibiára, e os portuguezes Cega, mas que em ge
rai tinha o nome de Puas cabeças, que ainda mantem, e que
segundo F r . Vicente do Salvador, é porque tanto mordem
com o rabo como com a cabeça.
Dunga — Mandão, chefe, homem de Influencia local; co-
fãjoso, arrojado, valentão. "A té o nossso B arrella é hoje um
dunga acabadinho. (O Clamor Publico n. 3 de 1845). “ Bravo,
que maganão. E ’ o dunga da nação.” (O Guarda Nacional n
5 de 1848). “ Amanhã hei de dar com esse dunga, disse Mar-
colin o” . (F ra n k lin T a v o ra ). Dunga da travessa: qu alificativo
particular de certos dungas. “ Os bandidos dungas da travessa
trataram a cousa dc resto” . (O Vapor dos Traficantes n. 94 de
1859).
Duque — O mesmo que bozio. “ E* o quina e o duque o
jogo da moda. Um copo e cinco dados são bastante para fa ­
ze-lo funccionar... Os que perdem são obrigados a pagar a
ceia ou outra cousa mais modesta” . (Jorna! Pequeno n. 99 de
1916).
Dureza — H ypertrophia do baço ou figado, mal do baço,
originado de sezões, para curar o qual