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SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 – A HISTÓRIA DE TEREZA

CAPÍTULO 2 – A HISTÓRIA DE JOSÉ E CARLA

CAPÍTULO 3 – A MINHA HISTÓRIA


CAPÍTULO 1 – A HISTÓRIA DE TEREZA

Tudo começou em algum vilarejo esquecido no Nordeste do Brasil. Uma


família numerosa onde havia apenas a mãe e os muitos filhos. Os pais nunca
permaneciam ao lado dos filhos para sustentá-los e a jovem mãe sempre
apaixonada era sempre enganada e sempre com mais um filho pra cuidar e
sua situação cada vez mais difícil. Chegou a perder um dos filhos. Morreu de
fome. E assim os dias se passavam.
Para que ninguém mais morresse de uma forma tão brutal, todos na
família trabalhavam, exceto Severino, até então filho caçula que com quatro
anos ainda não andava. O trabalho era árduo. Deviam capinar fazendas
enormes, tão grandes que do início ainda não se via o fim. Quando se acaba de
capinar toda a fazenda, o início dela já estava com o mato numa altura muito
alta, ou seja, o trabalho nunca acabava. O salário? Algumas poucas moedas
por dia e um monte de gravetos para poder servir de lenha para o fogão em
casa. A situação foi apertando e então a jovem mãe teve uma idéia. Foi
conversar com sua mãe:

- Mãe, minha vida não ta dando certo aqui. Tenho que arrumar outro lugar pra
viver. Vou tentar a sorte em outro lugar.
- Não seja estúpida menina. Pra onde você vai? Admita, você não conhece
ninguém em nenhum outro lugar. Se está ruim aqui, pode ficar muito pior em
qualquer outro lugar.
- Por que a senhora não vem comigo? Podemos tentar a sorte em alguma
cidade grande....
- Não!
- Nem vai escutar o que tenho a dizer?
- Não. Se quiser arriscar a sair de perto dos seus e ir para a morte, fique a
vontade. Mas você estará sozinha. Eu nasci aqui nesse lugar, cresci aqui e
quero morrer na minha cidade.

Desapontada mas ainda com esperança, a jovem mãe juntou durante


um tempo as moedinhas, trabalhou mais do que nunca e conseguiu a
passagem de ônibus para o Rio de Janeiro. O dinheiro não era muito, então
procurou um quartinho num cortiço. Era o mais barato deles e também o mais
sujo. O banheiro era comunitário e estava em péssimas condições. Não tinha
condições de se sustentar pro muito tempo, pois eram muitos os filhos, sete
pra ser exato. Sentiu saudade de sua mãe, de sua rede, que era simples, mas
muito melhor do que aquele chão imundo. Naquele quartinho apertado e sujo,
as lágrimas desceram como nunca antes. Custou a dormir. Apenas quando o
sono se tornou mais pesado que a tristeza, adormeceu.
Não podia continuar chorando. No dia seguinte foi procurar emprego.
Não tinha com quem deixar os filhos, então deixou a responsabilidade com os
dois filhos mais velhos. Era um casal que apesar de o menino ser mais velho,
tinham poucos meses de diferença.
Ao entardecer daquele mesmo dia, aquela mãe voltava para casa. Com
um sorriso no rosto e um saco de pães quentinhos. Conseguira o emprego de
empregada doméstica numa casa de uma família muito rica. Naquela noite foi
a primeira vez que seus filhos comiam pão. Todos estavam muito felizes.
Durante o dia, os filhos haviam limpado toda o quarto. Aquele lugar estava
finalmente começando a ficar agradável. Moraram ali por um bom tempo.
Severino já tinha começado a andar e a falar, pois não estava mais desnutrido.
Todos os filhos tinham entrado pra escola. José e Maria, com onze anos
estavam na primeira série. Sentiam vergonha, mas não desistiram.
Depois de um ano, o patrão de Tereza, a jovem mãe de nossa história,
começou a notar a sua beleza. Apesar de ser pobre, Tereza se cuidava muito
bem e era muito bela. O único problema era que esse homem era casado. Ele
conteve esse desejo bom alguns meses, mas um dia quando chegou mais cedo
em casa, sua esposa havia deixado um recado na geladeira dizendo: “Tive que
resolver uns problemas do nosso filho na escola e vou passar no mercado
depois. Voltarei só à noite”. Foi a oportunidade perfeita para que ele pudesse
executar seu plano.

- Tereza. Venha cá. – Gritou ele. Ela se aproximou e ele continua


- Pare de trabalhar. Você merece um descanso. – Nesse momento, ele pegou
suas mãos frágeis e olha em seus olhos.
- Olha a suas mãos. São tão lindas para trabalhar tão pesado assim.
- Por favor senhor, o senhor é casado. Não quero problemas com a sua esposa.
Vocês formam um casal tão bonito. – Respondeu ela tirando as suas mãos de
entre as mãos de seu patrão muito assustada.
-Tereza, minha esposa jamais vai ficar sabendo. Estamos aqui só nós dois e há
alguns meses que tenho olhado diferente pra você, eu sinto que te amo. Eu
não quero a minha esposa. Quero você.
- Desculpe te dizer senhor, mas eu não amo o senhor. Quero este emprego,
não um marido.
- Tudo bem Tereza, me desculpe.

O patrão se afastou dela mas não havia desistido. A cada dia que se
passava ele estava mais certo de seus sentimentos por Tereza. Muito
espertamente, mandou entregar flores no quartinho onde Tereza morava. Eu
disse quartinho? Depois de um tempo bancou uma casinha para que ela
morasse com os filhos. Isso sem que a esposa soubesse, é claro. No começo
Tereza pensou em não aceitar, mas pensou em dar uma vida melhor para os
filhos. A esposa do patrão de Tereza começou a desconfiar do marido. Ele não
era o mesmo. Estava muito alegrinho, fazia piadas de tudo, a cumprimentava
pela manhã com um “Bom dia!”, coisa que não fazia há alguns anos. Enquanto
isso, Tereza foi ficando com o coração amolecido devido aos presentes e ao
carinho de seu patrão. Mudou de comportamento com ele, passou a tratá-lo
mais amigavelmente. Tornaram-se confidentes. Tereza passou a escutar todas
as reclamações que seu patrão tinha com relação a seu casamento, emprego,
tudo. Não demorou muito e Tereza percebeu que também havia se apaixonado
por este homem. Com medo do que poderia acontecer pediu para conversar
com “seu chefe”.
- Quero me demitir.
- O QUÊ? – Disse quase que gritando. – Você não é feliz aqui? O que foi que eu
fiz errado dessa vez?
- Na verdade. A culpa não é sua. Sou eu. Eu descobri que... que...
- Pelo amor de Deus, o que você descobriu!?
- Ah, esquece! Isso não faz diferença.
- Claro que faz, eu quero saber!
- Eu descobri que eu gosto de você. Por isso é que eu quero me afastar. –As
lágrimas desciam.
- Mas se você gosta de mim assim como eu gosto de você, aí mesmo é que
devemos ficar juntos.
- Mas não é certo! E você sabe disso.
- Pare de chorar Tereza, não quero te ver assim. Olha... estive pensando. Vou
me separar de minha mulher. Quero ficar contigo. Eu te amo.

Ele não pensou duas vezes. Não aceitava a idéia de perder Tereza para
qualquer outro homem. Como um louco, a agarrou e a beijou com muita
paixão. Tereza passou alguns poucos segundos resistindo, mas logo depois se
entregou a seus sentimentos. Para a infelicidade dos dois, não perceberam que
a maçaneta da porta havia girado e que entrava na sala, onde ambos estavam,
a esposa do patrão de Tereza.

- O que é significa isso? Eu não posso sair de casa que vocês me traem assim.
Eu pensei que você amava... Tereza, eu confiei em você! Ordinários! Quero que
morram os dois. Tereza, tá na rua! Vamos... suma daqui. – Tereza sai dali em
prantos. A mulher continuava a gritar.
-E quanto a você. Nem preciso dizer. Acabou, ouviu bem? E quer saber...
- Cala boca! – Interrompe ele – Nosso casamento já tinha acabado há muito
tempo, só você que não tinha percebido. Era conveniente estar ainda com
você, mas agora isso não faz mais sentido. Pode ficar com a casa, depois eu
mando os papéis.

A mulher continuava a xingar dezenas palavrões existentes e alguns


novos. Enquanto isso o marido apenas se afastava e afastava até não ouvir
mais a voz de sua mulher irritante. Comprou uma casa onde após se divorciar
oficialmente de sua mulher morou com Tereza e seus filhos. Tiveram uma filha
juntos. Esta não passara fome, estudou em ótimas escolas, e não conheceu o
que era dificuldade na infância. Nunca se casaram. Foi uma decisão dos dois.
Ela achava que esse tipo de coisa não fora feita para ela. Era uma mulher de
origens muito humildes e não achava que precisava daquilo para demonstrar
seu amor. Ele não queria porque seria muito criticado pela família e amigos
que já conheciam a história e gostavam de sua antiga mulher. Seria
embaraçoso se em seu casamento a sua família não aparecesse. Família de
Tereza já era certo de que não fossem. Moravam muito longe. E durante todo
esse tempo Tereza perdera todo o contato com os seus pais. Enfim, apesar de
tudo isso, eram felizes.
Seis anos mais tarde, uma grave doença atingiu o “esposo” de Tereza.
Ele morreu de câncer aos quarenta e um anos. Tereza tinha trinta e quatro.
Chorou a morte de seu amado por muitos meses. Ele era muito rico, mas como
não esperava a morte tão cedo não havia mudado o seu antigo testamento
onde deixava toda a sua fortuna para obras de caridade. A única coisa que ele
havia feito foi um plano funerário que acabou garantindo a Tereza uma certa
quantia em dinheiro e com algum esforço conseguiu comprovar um
relacionamento com ele e obteve uma pensão mensal. Tereza não pôde mais
manter todo aquele luxo que tinha antes. Mudou-se para uma casa menor,
viveu uma vida mais simples com aquele dinheiro. Não era nada de se encher
os olhos, mas era suficiente para viver bem com todos os filhos.
Não foi dessa vez que Tereza caiu, mas sua história, bem como a de
seus filhos nunca mais seria a mesma.