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Os sentidos como instrumentos de comunicação

Os nossos sentidos são instrumentos de comunicação que facilitam a nossa


relação com o ambiente. Oferecem informação e contribuem para a nossa
apropriação do espaço através de impressões e experiências sensoriais:
podemos perceber, experimentar, reconhecer, avaliar e construir o ambiente.
Cada órgão sensorial tem uma estrutura específica que lhe permite responder
a estímulos sensoriais específicos. A fisiologia e a fenomenologia sensoriais
actuais descrevem as relações homem | ambiente baseadas em 12 sentidos.
Estes referem-se a três categorias espaciais: acção, impressão e significado.

Acção – Físico
Tacto – contacto directo. Permite-nos experienciar as fronteiras e divisões
entre os nossos corpos e o mundo exterior.
É o garante da certeza da nossa existência.
Vida | Conforto – é activado pelo desconforto. Informa-nos sobre a nossa
qualidade de vida.
Movimento – controla os nossos movimentos e a sua relação com os
movimentos gerados no meio ambiente.
Equilíbrio – Que nos permite manter de pé, numa postura correcta.
Fundamental na nossa orientação espacial, e na busca pelo equilíbrio e
ordem estrutural.

Sensação – Mental
Cheiro – fornece informação sobre as substâncias no ambiente e a presença
da matéria. Comunica as nuances e qualidades dos ingredientes.
Paladar | Qualidade – activa a nossa percepção para o real e o natural,
distinguindo-o do que não o é. Num sentido mais alargado activa a nossa
percepção para a estética, a qualidade e a adequação.
Visão – é o sentido mais abrangente, suporta e complementa a informação
fornecida pelos outros sentidos.
Permite-nos: perceber visualmente as formas e os movimentos, os materiais
e as estruturas; ver a luz e a cor, nas suas infinitas nuances, a diversidade
visual do ambiente.
Temperatura – relaciona a nossa temperatura com a do ambiente.
O nosso bem estar requer uma determinada “temperatura”, relacionada com
a qualidade espacial, a cordialidade das relações sociais, e a real
temperatura ambiente.

Significado – espiritual
Audição | Proporção – experimentar sons comparado a sentir a proporção,
a qual está relacionada com a sensação de harmonia.
Traz-nos o que a visão não alcança.
Palavra – ilustrada pela expressão verbal, a sua clareza e precisão. Cada
língua tem a sua arquitectura e colorido tonal, a qualidade do que ouvimos
conduz-nos a diferentes estados de alma.
Pensamento – Entender os conteúdos conceptuais da linguagem. Requer
sensibilidade e intuição para entender comunicação não verbal – linguagem
corporal, gestos e expressões faciais.
Do Eu – Permite-nos detectar o Eu dos que nos rodeiam. Exige
distanciamento e preconceitos. É um instrumento de relacionamento
interpessoal, e que nos permite ultrapassar mal entendidos.

(resumo de tradução livre , pp 11 a17, Meerwein, G., e tal. (2007). Color – Communication in
Architectural Space. Basel: Birkhauser. Isbn-13:978-3-7643-7643-7596-6
Percepção e experimentação do espaço

... existe outra dimensão da sustentabilidade muito Importante: a


experiência do meio edificado. Trata-se de uma dimensão que, quando
exaustivamente explorada, contribui determinantemente para um inter-
relacionamento positivo entre as pessoas, os espaços , para uma maior
qualidade de vida.
Quando o meio edificado em que habitamos, em que trabalhamos ou
que visitamos, é atractivo, este aspecto facilita o desenrolar das funções
que alberga e inspira dignidade sendo muito provável que nos
identifiquemos com estes espaços, apesar de publicas, como sendo
nossos. Esta sensação de pertença faz com que alteremos
positivamente os nossos comportamentos relativamente a esses
espaços e também para com as outras pessoas. (Tirone 2008, p.14)

• Ver é captar as características dominantes nos objectos. A imagem que


temos de um objecto é-nos facultada pela sua “pele” – ela é o interface
entre o utilizador e o objecto, é o primeiro contacto (quase sempre
visual), e será o remanescente sedimentado na nossa memória das
coisas.
A sociedade actual vive sob o domínio da visão sobre os outros
sentidos, por esse motivo, a qualidade visual dos objectos é
fundamental na criação de referenciais para os cidadãos, podendo
apelar à interacção de todos os sentidos.

• O espaço exterior público é uma unidade, um todo, composto de


múltiplas partes, dependente de muitas variáveis. Todos os elementos
interferem na leitura de cada um, e na percepção do todo.
A sedução que os espaços exercem sobre o cidadão envolvem relações
entre escala, volumes, cor, luz, textura e heranças sócio–culturais entre
os constituintes do espaço e, entre estes e o utilizador.
Um espaço exterior público qualificado é um espaço diversificado,
habitado por elementos visuais com significado, capazes de expressar e
motivar emocionalidade.
Variedade e diversidade qualificam os espaços – a esterilidade
sensorial dos espaços e objectos minimalistas têm-se revelado negativa
para as emoções: não propiciam a proximidade e a interacção,
promovendo o distanciamento e a passividade das pessoas, em relação
às outras pessoas e aos espaços.
O ser humano necessita de ambientes diversificados, onde familiaridade
e diversidade coexistam, que lhe permitam identificar referenciais ao
mesmo tempo que conquista descobertas, de modo a que possa
construir imagens mentais geradoras de competências para agir com
meio ambiente. No entanto, não quer isto dizer que seja necessária
complexidade para se alcançar riqueza de informação; espaços e
objectos podem aparentar simplicidade formal e serem abundantes em
informação, proporcionando diferentes leituras de acordo com o ponto
de vista.
Desta teia de conexões entre espaço / objecto / escala / ponto de vista /
observador, constrói-se a imagem dos espaços exteriores habitados.

• É extremamente importante contemplar a escala do peão na cidade,


porque, para que as pessoas se possam mover a pé, é necessário que
os contextos o permitam, de forma segura e confortável. .... O meio
edificado que contempla a escala do peão está a Incentivar a que as
pessoas se movam a pé, sem poluir , com maior acessibilidade a toda a
diversidade que a cidade oferece. (Tirone 2008, p.50)

• ... a diversidade na cidade é importante para nos mantermos


estimulados e interactivos com o meio que nos rodeia. Também porque
quanto maior for a interactividade com o meio, mais os nossos sentidos
podem colher informação e transformá-la em estímulos que nos fazem
aprender, crescer ou mesmo reagir.
Dada a sua importância, a diversidade deve ser motivada à escala dos
planos e contemplar diversos níveis... (Tirone 2008, p.52)

Revestimentos Cerâmicos:
contribuição para a qualidade dos espaços

• Os revestimentos, para além das suas qualidades funcionais,


proporcionam ao Ser Humano a possibilidade de “ocupar” as
superfícies. O ornamento, seja qual for a sua formalização, é uma
expressão atávica do Homem, faz parte da sua natureza. A intervenção
sobre a pele do objecto, obra da mão do Homem, é um acto de posse,
de humanização, que confere aos espaços espírito de lugar, torna-os
abertos, e compreendidos ao olhar do utilizador.
A concepção do espaço exterior público deve propiciar e privilegiar as
relações e vivências positivas aos seus utilizadores, estimular a
interacção entre pessoas, e entre pessoas e construído – deve ser um
espaço vivido, um lugar sentido.
Este espaço deve ser palco das necessidades funcionais, espirituais,
emocionais e existenciais das pessoas; proporcionar espaço às
expressões pessoais e colectivas, ao social e ao artístico. No novo
espaço urbano, arte e função coabitam o mesmo espaço, são o mesmo
objecto. A democratização da arte trouxe-a para junto do público,
conferiu-lhe funcionalidade e proximidade; e dessa forma, os sítios
converteram-se em locais, com significado para o cidadão.

• A “maleabilidade” que o revestimento cerâmico apresenta face ao


edificado, aderindo-lhe como uma pele que o envolve, que o protege
das agressões exteriores, com uma durabilidade funcional bastante
significativa, adequa-o a revestir diferentes tipos de equipamentos, em
condições diversas.
As dimensões do módulo possibilitam a sua utilização em formas
planas, ou curvas, a existência de elementos de remate, como cantos e
faixas, dão qualidade aos acabamentos, e reforçam o valor dos
elementos arquitectónicos.
As suas características físicas permitem-lhe manter a sua aparência,
sem necessidade de manutenção periódica dispendiosa, por períodos
de tempo muito alargados.

• Para além das suas características funcionais, como revestimento da


arquitectura, revestimento cerâmico é também um material importante
para artistas plásticos. A sua riqueza enquanto material cerâmico, de se
moldar e transfigurar sob a mão criativa; as potencialidades visuais dos
vidrados que o recobrem, e realçam as qualidades da superfície,
conferindo-lhe brilho e cor, oferecem um manancial de possibilidades
expressivas e comunicativas para os sentidos, fruto das suas
qualidades sensíveis.

• A articulação do revestimento cerâmico com outros materiais de


construção e de revestimento tem-se revelado pacífica e harmoniosa,
sendo possível verificar essa articulação em milhares de edifícios em
Lisboa. Por exemplo, um revestimento de azulejos, pelo brilho do
vidrado que cobre a superfície, destaca-se das demais superfícies
contíguas, pintadas ou rebocadas, observando-se variações na
percepção da saturação da cor, conforme o reflexo do brilho é visível do
ponto de vista do observador, ou não, o que não acontece com uma
parede rebocada e pintada. Com os pavimentos Lisboetas, de calçada
portuguesa, o revestimento azulejar estabelece um diálogo visual
dinâmico, entre a reticula ordenada e rigorosa da aplicação do azulejo e
a mutação dessa ordem, materializada na construção da calçada de
pedra, acetinada, polida, pelo desgaste do tempo. Calçada e azulejo,
seguem o principio ordenador primordial, e ambos oferecem muito mais
ao desfrute, que apenas uma rede quadriculada, os olhos podem
passear sobre o que apreciam, deambulando das paredes para o chão,
encontrando familiaridade e diferença. O contraste entre as qualidades
de uns e de outros, conferem sentido à escolha de cada material.

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