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PORTUGUÊS

Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos com Secundário de S. Os Lusíadas e Mensagem


Martinho do Porto

Mensagem, de Fernando Pessoa

Estrutura e valores simbólicos


Os 44 poemas que constituem a Mensagem encontram-se agrupados em três partes, ou seja, as etapas
da evolução do Império Português – nascimento, realização e morte. No “Brasão”, primeira parte, estão os
construtores do Império, na segunda parte, “Mar Português”, surge o sonho marítimo e a obra das
descobertas; na terceira parte, “O Encoberto”, há a imagem do Império moribundo, com a fé que a morte
contenha em si o gérmen da ressurreição, o espírito do império moral e civilizacional na diáspora lusíada.
A obra começa com a expressão latina “Benedictus Dominus Deus noster que dedit nobis signum
(“Bendito o Senhor Nosso Deus que nos deu o sinal”), anunciando, de imediato o sentido simbólico e
messiânico que o percorre. Cada uma das partes da obra inicia-se também com uma expressão latina: na
primeira, surge “Bellum sine bello” (“Guerra sem guerra”) a sugerir, pelo jogo dos oximoros, que, no início,
havia um espaço que tinha de ser conquistado, pois fazia parte de um desígnio; na segunda parte, ocorre
“Possessio maris” (“Posse do mar”), a traduzir o domínio dos mares e a expansão; na terceira parte, surge
“Pax in excelsis” (“Paz nos céus”), que marcará o Quinto Império. A obra termina com a expressão “Valete
Frates” (“Felicidades, irmão”), acreditando no desígnio de um Reino de Fraternidade, graças ao Quinto
Império e assumindo um carácter de incentivo (“Força, irmãos”) para a construção desse novo Portugal.
A primeira parte – “Brasão” – começa pela localização de Portugal na Europa e em relação ao
Mundo, procurando atestar a sua grandiosidade e o valor simbólico do seu papel na civilização ocidental
quando afirma “O rosto com que fita é Portugal!”. Depois, define o mito como um nada capaz de gerar os
impulsos necessários à construção da realidade; apresenta os Portugueses como um povo heróico e
guerreiro, construtor do império marítimo; faz a valorização dos predestinados que construíram o país; e
refere as mulheres portuguesas, mães dos fundadores, celebradas como “antigo seio vigilante” ou “humano
ventre do Império”.
A segunda parte – “Mar Português – inicia-se com o poema “Infante”, onde o Poeta exprime a sua
concepção messiânica da História, mostrando que o sopro criador do sonho resulta de uma lógica que
implica Deus como causa primeira, o homem como agente intermediário e a obra como efeito. Nos outros
poemas, evoca a gesta dos Descobrimentos com as glórias e as tormentas, considerando que valeu a pena.
No último poema da segunda parte, “Prece”, renova o sonho. Em “Mar Português” procura simbolizar a
essência do ideal de ser português vocacionado para o mar e para o sonho.
A terceira parte – “O Encoberto” – encontra-se tripartida em “Os símbolos”, “Os avisos” e “Os
tempos”. Com os primeiros, começa por manifestar a esperança e o “sonho português”, visto que o actual
Império encontra-se moribundo. Mostra a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição. Nos
três avisos, define os espaços de Portugal; com os cinco tempos, traduz a ânsia e a saudade daquele
“Salvador/O Encoberto”, que, na Hora, deverá chegar, para edificar o Quinto Império, cujo espírito será
moral e civilizacional.
Mensagem recorre ao ocultismo para criar o herói, “O Encoberto”, que se apresenta como D.
Sebastião. Note-se que o cultismo remete para um sentimento de mistério, indecifrável para a maioria dos
mortais. Daí que só o detentor do privilégio esotérico (oculto; secreto) se encontra legitimado para realizar o
sonho do Quinto Império. Para Fernando Pessoa, que fez a iniciação do rosacrucianismo1, só alguns
aparecem predestinados a decifrar o sentido das sombras do mundo sensível (influência platónica). O nosso
mundo sensível e Portugal só se cumprirão por força e vontade criadora do mundo inteligível (perceptível),
onde está a ideia como verdadeira realidade perpétua e essencial.

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Entre as várias interpretações da simbologia Rosa-Cruz, é possível no poema “O Encoberto” ver na rosa o círculo, que exprime
as ideias de perfeição, e a cruz, que representa todos os elementos até os conseguir alcançar (a fraternidade Rosa-Cruz, que
Fernando Pessoa defende e cujo símbolo é comum a alguns rituais da maçonaria, aparece como sociedade secreta que sonhava o
advento de um mundo pacífico e feliz).
1
2
Realização
“Mar
Português”

O sonho
A concretização

A ordem
espiritual
no
Universo

De um povo heróico “Senhor, a noite veio


e guerreiro a construtor e a alma é vil”
do império marítimo

A A
ordem ordem
espiritual no espiritual
Homem em Deus

1 3
Nascimento Império espiritual emergente: Morte
“Brasão” “O Encoberto”
“Ó Portugal, hoje
O Quinto Império
Os construtores és nevoeiro… O império
do Império É a hora!” material
moribundo

O sebastianismo e o mito do Quinto Império


O sebastianismo é abordado por Fernando Pessoa como mito que exprime o drama de um país
moribundo “à beira mágoa”, a necessitar de acreditar de novo nas suas capacidades e nos valores que
antigamente lhe permitiram a conquista dos mares e a sua afirmação no mundo. Diz Fernando Pessoa (in
Obra Poética e em Prosa, vol. III), “Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que
caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso d’El-Rei D. Sebastião que
os portugueses da saudade Imperial projectaram a sua fé de que a família se não extinguisse”.

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Ao longo da Mensagem, a figura de D. Sebastião evoluiu de símbolo de um príncipe infeliz,
desaparecido em Alcácer Quibir, no areal (primeira parte), para o mito que vai na “última nau, ao sol
aziago”, mas que surgirá entre a cerração” com o “pendão ainda / Do Império” (segunda parte), para,
guardado com Deus, regressar para criar o Quinto Império. É apresentado, também, como “O Encoberto” ou
“O Desejado”, que volta com o santo Graal (terceira parte).
Recorrendo a outros mitos como o das “Ilhas Afortunadas”, lugar do não-tempo e do não-espaço,
“terras sem ter lugar”, Fernando Pessoa considera que aí o “Rei mora esperando” até ao dia de encontrar
condições para regressar e fundar o Quinto Império.
As “Ilhas Afortunadas” fazem parte da tradição clássica, pois já em autores gregos aparecem
referidas como paraísos, local do repouso dos deuses e dos heróis míticos. É aí, nesse lugar, cuja presença só
se capta no sono através de sinais auditivos e pelo som das ondas, que se encontra “O Desejado”.
De acordo com o ocultismo, Pessoa procura uma certa legitimação da existência de um poder
absoluto, de um chefe excepcional, detentor do privilégio esotérico, capaz de realizar o sonho do Quinto
Império.
O conceito de Quinto Império, que surge na Bíblia e se tornou mito nas interpretações que sucederam
ao longo dos tempos, é retomado por Fernando Pessoa, na obra Mensagem, que anuncia um novo império
civilizacional, que, como o Padre António Vieira, acredita ser o português. O “intenso sofrimento patriótico”
leva-o a antever um império que se encontra para além do material. No esquema pessoano, o Quinto
Império, sendo espiritual, inicia-se com o Império espiritual da Grécia, como afirma no poema “O Quinto
Império”: “Grécia, Roma, Cristandade, / Europa – os quatro se vão / Para onde vai toda idade. / Quem vem
viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?”
Ao longo de Mensagem, sobretudo da terceira parte, Pessoa exprime a sua concepção messiânica da
história e sente-se investido no cargo de anunciador do Quinto Império, que não precisa de ser material, mas
civilizacional.
Reavivando o mito sebastianista, anunciando o Quinto Império, Pessoa procurou, tal como Camões,
ser voz da consciência de identidade de que Portugal necessitava e necessita.

O discurso na Mensagem
Na obra Mensagem, a voz narrativa da épica tradicional dá, constantemente, lugar à voz lírica, num
discurso analítico-crítico, que reflecte sobre o passado heróico de conquistas, vibrando com o espírito do
povo português, e expressa a visão e as emoções do “eu” face ao acontecimento histórico, muitas vezes num
tom profético. Os poemas, em geral breves, apresentam uma linguagem metafórica e musical, bastante
sugestiva, com frases curtas, apelativas e, frequentemente, aforísticas (sentenciosas), onde abundam a
pontuação expressiva e as perguntas retóricas.
Desde o início, Pessoa pressagia ou ousa profetizar um futuro que cumpra Portugal. Em “Brasão”,
“Os Campos”, “Os Castelos”, “As Quinas”, “A Coroa” e “O timbre” são marcas de afirmação do passado,
de mágoa do presente e de antevisão do que há-de vir. Em “Mar Português”, há um presente de glórias, que
já não existe, mas que faz parte da memória-alma portuguesa, capaz de fazer renascer uma nova luz, de
permitir o advento do Quinto Império. Em “O Encoberto”, depois de manifestar a crença num regresso
messiânico, considera que, após a tempestade actual, a chama há-de voltar e a luz permitirá o caminho certo.
Por isso, acredita que “É a Hora” de traçar novos rumos e caminhar na construção de um Portugal novo.

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Mensagem
Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum

Primeira parte
“Brasão”
Bellum sine bello

I Os Campos Primeiro / O dos Castelos


Segundo / O das Quinas

Primeiro / Ulisses (fundador mítico de Lisboa)


Segundo / Viriato (fundador da Lusitânia)
Terceiro / O Conde D. Henrique (deu origem ao Condado Portucalense)
II Os Castelos Quarto / D. Tareja (inicia a dinastia de Borgonha)
Quinto / D. Afonso Henriques (1º rei português, o fundador de um reino e
aquele que deu origem a uma dinastia)
Sexto / D. Dinis (fundador de uma cultura)
Sétimo (I) / D. João o Primeiro (originou a dinastia de Avis)
Sétimo (II) / D. Filipa de Lencastre (fundadora da dinastia de Avis)

Primeira / D. Duarte, Rei de Portugal


Segunda / D. Fernando, Infante de Portugal
III As Quinas Terceira / D. Pedro, Regente de Portugal
Quarta / D. João, Infante de Portugal
Quinta / D. Sebastião, Rei de Portugal

IV A Coroa Nun’ Álvares Pereira

A Cabeça do Grifo / O Infante D. Henrique


V O Timbre Uma Asa do Grifo / D. João, o Segundo
A Outra Asa do Grifo / Afonso de Albuquerque

Segunda parte
“Mar Português”
Possessio maris

I - O Infante
II - O Horizonte
III - Padrão
IV - O Mostrengo
V - Epitáfio de Bartolomeu Dias
VI - Os Colombos
VII - Ocidente
VIII - Fernão de Magalhães
IX - Ascensão de Vasco da Gama
X - Mar Português

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XI - A Última Nau
XII - Prece

Terceira parte
“O Encoberto”
Pax in excelsis

Primeiro / D. Sebastião
I Os Símbolos Segundo / O Quinto Império
Terceiro / O Desejado
Quarto / As Ilhas Afortunadas
Quinto / O Encoberto

Primeiro / O Bandarra
II Os Avisos Segundo / António Vieira
Terceiro / (“’Screvo meu livro à beira-mágoa”)

Primeiro / Noite (3 partes)


Segundo / Tormenta
III Os Tempos Terceiro / Calma
Quarto / Antemanhã
Quinto / Nevoeiro

Para melhor compreender a Mensagem


Ilhas Afortunadas
Fazem parte da tradição clássica. Já em autores gregos aparecem referidas como paraísos, local de
repouso dos deuses e dos heróis míticos.
Em Mensagem, Fernando Pessoa fala das Ilhas Afortunadas como mito e símbolo, surgindo como
local fora do tempo e do espaço onde os mitos do Quinto Império, de O Encoberto, do Sebastianismo
esperam para se concretizarem. As Ilhas, cuja presença só se capta no sono através de sinais auditivos e pelo
som das ondas, surgem como lugar do não-tempo e do não-espaço, são “terras sem ter lugar”, onde se
encontra o “Desejado que virá fundar o Quinto Império, onde o Rei mora esperando”.

Mostrengo
Presente na Mensagem, de Fernando Pessoa, corresponde à figura do Adamastor de Os Lusíadas, de
Camões. Como este, é o guardião do Mar Tenebroso, no cabo das Tormentas, mais tarde da Boa Esperança.
A figura do Mostrengo mantém toda a simbologia do fantástico que se contava e que amedrontava mesmo
os mais corajosos. O poema de Fernando Pessoa simboliza as dificuldades sentidas pelos portugueses na
conquista do mar, contrapondo o medo com a coragem que permite que o homem ultrapasse os limites. Ao
mesmo tempo, mostra a atitude de coragem do marinheiro português perante aquele ser “imundo e grosso”,
vencendo os seus medos. O “homem do leme” torna-se o símbolo do Portugal que não tem medo e é
representante de um povo de coragem que quer dominar os mares.

Ocultismo
Ocultismo ou ciência oculta é uma doutrina com teorias e práticas cujo objectivo é entender a vida,
desvendando os segredos da natureza, da humanidade, do espírito, de tudo. O ocultismo acredita que há um
propósito, um plano superior, na existência de qualquer coisa criada e na evolução do Universo.
Fernando Pessoa, na Mensagem, utiliza o ocultismo para criar o herói, “O Encoberto”, que se
apresenta como D. Sebastião. Procura uma certa legitimação da existência de um poder absoluto, de um
chefe excepcional, detentor do privilégio esotérico, capaz de realizar o sonho do Quinto Império.

Ordem Rosa-Cruz

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Ordem Rosa-Cruz ou rosacrucianismo refere-se a organizações, geralmente denominadas ordens ou
fraternidades, de carácter secreto, não sectário, que seguem ritos iniciáticos e práticas esotéricas, e que
ensinam a necessidade da busca do conhecimento e a cooperação entre as pessoas.
De acordo com a lenda, a Ordem Rosa-Cruz foi fundada por Christian Rosenkreuz (1378-1484),
cavaleiro alemão que estudara artes ocultas com mestres de Damasco, do Egipto e de Marrocos. A fundação
da Ordem terá acontecido na Alemanha, em 1407. A existência de Christian Rosenkreuz é, no entanto, posta
em causa por vários rosacrucianos, que vêem o nome como um pseudónimo de algumas personagens
históricas, como, por exemplo, o filósofo, estadista e ensaísta inglês Francis Bacon (1561-1626).
As variações dos símbolos da rosa e da cruz permitem a distinção das diversas fraternidades.

Quinto Império
Surge na Bíblia e torna-se mito nas interpretações que sucederam ao longo dos tempos. Em Portugal,
Bandarra (1500?-1556), Padre António Vieira (1608-1697) e Fernando Pessoa (1888-1935) reformulam o
mito.
De acordo com a Bíblia, Nabucodonosor, rei da Babilónia (604-562 a.C.), queria que os sábios lhe
revelassem o sonho que tivera e a sua interpretação. O sonho era uma enorme estátua com cabeça de ouro,
peito e braços de prata, ventre e ancas de bronze, pernas de ferro e pés de ferro e barro, além de uma grande
pedra que se desprendeu da montanha e lhe triturou os pés, fazendo tudo em pedaços. Foi o profeta Daniel
que lhe revelou e decifrou, mostrando-lhe que o nascimento e a queda de impérios acontecem pela vontade
de Deus, embora pareça dos homens essa missão. Daniel profetizou que depois da grandiosidade do Império
da Babilónia, sucederiam outros, que de acordo com as interpretações mais correntes são o Medo-Persa, o da
Grécia e o de Roma, sendo o Quinto Império universal.

Os Lusíadas, de Luís de Camões

Visão global
Os Lusíadas surgem como a epopeia das façanhas dos portugueses nos mares que os levaram à Índia.
Verdadeira alegoria do direito à imortalidade dos nautas portugueses pelos seus feitos históricos, esta obra
conta por fragmentos a história grandiosa de Portugal e os acontecimentos futuros, cuja visão os deuses são
capazes de antecipar.
Recorrendo à estrutura de poema, como a Ilíada e a Odisseia, de Homero, ou a Eneida, de Virgílio,
constitui uma narrativa que traduz as façanhas e o espírito do povo português, que foi capaz de trazer ao
conhecimento da Europa e da Humanidade povos desconhecidos, lugares ignorados e inóspitos (hostis) e os
caminhos marítimos para ligar os cinco continentes da Terra.
Na sua estrutura interna, Os Lusíadas seguem a organização da epopeia clássica, ao dividir-se em
quatro partes:

• Proposição (apresentação do assunto);


• Invocação (súplica da inspiração para escrever o poema);
• Dedicatória (oferecimento da obra a D. Sebastião);
• Narração (desenvolvimento do assunto, já a meio da acção – “in media res”.
Na sua estrutura externa, o poema é uma narrativa, em dez cantos, organizados em oitavas
(estrofes/estâncias de 8 versos), com versos decassílabos (10 sílabas métricas – geralmente
heróicos, com o acento na 6ª e 10ª sílabas) e rimas com esquema abababcc (rima cruzada nos
primeiros seis versos e emparelhada nos dois últimos).

Estrutura interna Proposição Na Proposição (Canto I, estâncias 1 a 3), Camões propõe-se a


(partes de Os (apresentação do cantar:
Lusíadas) assunto) − as navegações e conquistas no Oriente nos reinados de
D. Manuel a D. João III (estância 1);
− as vitórias em África de D. João I a D. Manuel (estância
2, vv. 1 a 4);
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− a organização do País durante a 1ª dinastia (estância 2,
vv. 5 a 8).
Invocação Há várias invocações:
(súplica da − 1ª (Canto I, estâncias 4-5) – súplica às ninfas do Tejo (às
inspiração para Tágides) para que o ajudem na organização do poema;
escrever o Poema) − 2ª (Canto III, estâncias 1-2) – súplica a Calíope porque
estão em causa os mais importantes feitos lusíadas;
− 3ª (Canto VII, estâncias 78-87) – súplica às ninfas do
Tejo e do Mondego, queixando-se dos seus infortúnios;
− 4ª (Canto X, estâncias 8-9) – nova invocação a Calíope.
Dedicatória Na Dedicatória (Canto I, estâncias 6 a 18):
(oferecimento da − oferecimento do poema a D. Sebastião (reflecte a
obra a D. esperança do povo português no novo monarca e,
Sebastião) sobretudo, na possibilidade de retomar a expansão no
Norte de África).
Narração Na Narração (a partir do Canto I, estâncias 19 e seguintes)
(desenvolvimento − a narração começa “in media res”, ou seja, quando a
do assunto, já a frota se encontra no Canal de Moçambique em rota para
meio da acção – “in Melinde (Canto I e II).
media res” Os acontecimentos anteriores surgem em analepse no
discurso do Gama ao rei de Melinde (Cantos III e IV).
Estrutura − Forma narrativa;
externa − Versos decassílabos (geralmente heróicos, com o acento rítmico na 6ª e 10ª
sílabas);
− Rimas com esquema abababcc (rima cruzada nos primeiros 6 versos e
emparelhada nos 2 últimos);
− Estâncias – oitavas;
− Poema dividido em dez cantos (1102 estâncias, sendo o canto mais longo o X,
com 156 estrofes, e o mais pequeno o VII, com 87 estrofes).

Existem quatro planos em que Os Lusíadas se desenvolvem e que se vão entrelaçando ao longo da
obra:
• Plano da Viagem (plano central);
• Plano da História de Portugal (plano encaixado);
• Plano da Mitologia (plano paralelo);
• Plano do Poeta (plano ocasional).

Planos Conteúdo Cantos em que


ocorrem
Plano da Viagem A narração dos acontecimentos ocorridos durante a viagem Cantos I, II, IV, V, VI,
(plano central) realizada entre Lisboa e Calecut: VII e VIII
− partida, peripécias da viagem, paragem em
Melinde, chegada a Calecut (Índia);
− regresso e chegada a Lisboa.
Plano da História Relato dos factos marcantes da História de Portugal: Cantos III, IV e VIII
de Portugal − em Melinde, Vasco da gama narra ao rei os
(plano encaixado) acontecimentos de toda a nossa História, desde
Viriato até ao reinado de D. Manuel I;
− em Calecut, Paulo da Gama apresenta ao Catual
episódios e personagens representados nas
bandeiras;
− em prolepse, através de profecias, é narrada a
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História posterior à Viagem de Gama)
Plano da Mitologia A mitologia permite e favorece a evolução da acção Cantos I, II, VI, IX e X
(plano paralelo) − os deuses assumem-se, uns como adjuvantes, outros
como oponentes dos portugueses) e constitui, por
isso, a intriga da obra;
− os deuses apoiam os portugueses: “Consílio dos
Deuses no Olimpo”, “Consílio dos Deuses
Marinhos”, “A Ilha dos Amores”, etc.
Plano do Poeta Considerações e opiniões do autor expressas, Canto III e fim dos
(plano ocasional) nomeadamente, no início e no fim dos cantos. cantos I, V, VI, VII
(neste, também no
início), VIII, IX e X

Na tradição épica, Camões mantém a presença de um narrador principal, Vasco da Gama (o herói
individual), que representava o povo português (o herói colectivo). Este herói narra a História de Portugal e
a viagem desde Lisboa até Moçambique. Ao narrador principal cabe o relato da viagem de Vasco da Gama
desde Moçambique até à Índia e toda a viagem de regresso. É ele quem passa a função aos outros narradores
secundários: Paulo da Gama, que, em Calecut, explica o significado das 23 figuras representadas nas
bandeiras; e a Fernão Veloso, que descreve o episódio dos “Doze de Inglaterra”; ou a Júpiter, que, através de
profecias, anuncia aos Portugueses “feitos ilustres” no Oriente; ao Adamastor, que vaticina “ventos e
tormentas desmedidas”, “naufrágios, perdições de toda a sorte” para a gente ousada que navegou nos seus
mares; à Ninfa Sirena, que descreve glórias futuras dos Portugueses; e a Thetis, que aponta os lugares onde
os Portugueses hão-de realizar feitos heróicos.
Os Lusíadas não cantam apenas a viagem marítima e a História portuguesa, mas revelam, também, o
espírito do homem da Renascença que acredita na experiência e na razão. A “Ilha dos Amores”, no fim da
obra, é bem o símbolo da capacidade dos Portugueses na exploração dos mares, graças às experiências
marítimas e ao seu espírito de aventura e à sua vontade indómita de conhecerem e, assim, estabelecerem a
harmonia no planeta, aproximando o Oriente e o Ocidente.

Mitificação do herói
A epopeia os Lusíadas relata a viagem à Índia e, entrecortando-a com episódios do passado e
profecias do futuro, mostra a história do povo que teve ousadia da aventura marítima. A intenção em exaltar
os heróis que construíram e alargaram o Império levou Camões a torná-los verdadeiros símbolos da
capacidade de ultrapassar “a força humana” e de merecerem um lugar entre os seres imortais.
Os navegantes e, em especial, o comandante das naus, Vasco da Gama, ultrapassam a sua
individualidade ou a particularização do herói colectivo, que é o povo português. São símbolo do heroísmo
lusíada, do seu espírito de aventura e da capacidade de vivência cosmopolita.
Numa leitura simbólica, a viagem, mais do que a exploração dos mares, exprime a passagem do
desconhecido para o conhecimento, da realidade do Velho Continente e dos seus mitos indefinidos ou sem
explicação para novas realidades de um planeta a descobrir.
Nos vários episódios e no recurso à mitologia, há elementos simbólicos importantes que podem
ajudar na interpretação dessa mensagem humanista e de exaltação lusíada que Camões nos deixou.
Ao contrário dos épicos anteriores (Homero ou Virgílio), Luís de Camões não escolheu um herói
individual que motivasse o título da sua obra, mas procurou que a sua epopeia anunciasse a história de todo
o povo da “geração de Luso”, “invicto e forte (…)/a quem nenhum trabalho pesa e agrava”. Os navegantes,
que chegaram à Índia, e todos os heróis lusíadas merecem realmente a mitificação. Os deuses não são mais
do que seres da fábula ou da lenda, criados pelos homens para justificarem o que lhes parecia de difícil
explicação (Canto X, est. 82).

Reflexões do Poeta: críticas e conselhos aos Portugueses


O Poeta faz diversas considerações, no início e no fim dos cantos de Os Lusíadas, criticando e
aconselhando os Portugueses.

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Por um lado, refere os “grandes e gravíssimos perigos”, a tormenta e o dano no mar, a guerra e o
engano em terra; por outro lado, faz a apologia da expansão territorial para divulgar a Fé cristã, manifesta o
seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português.
Nas suas reflexões, há louvores e diversas queixas aos comportamentos. Se realça o valor das honras
e da glória alcançadas por mérito próprio, lamenta, por exemplo, que os Portugueses nem sempre saibam
aliar a força e a coragem ao saber e à eloquência, destacando a importância das letras. Se critica os povos
que não seguem o exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do Mundo,
não deixa de queixar-se de todos aqueles que pretendem atingir a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a
ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem. Daí, também, lamentar a
importância atribuída ao dinheiro, fonte de corrupções e de traições.
Lembrando o seu “honesto estudo”, “longa experiência” e “engenho”, “Cousas que juntas se acham
raramente”, confessa estar cansado de “cantar a gente surda e endurecida” que não reconhecia nem
incentivava as suas qualidades artísticas.
Merecem destaque os momentos em que o Poeta:
• refere aquilo que o homem tem de enfrentar: “Os grandes e gravíssimos perigos”, a tormenta e o
dano no mar, a guerra e o engano em terra (Canto I, estâncias 105-106);
• destaca a importância das letras e lamenta que os Portugueses nem sempre saibam aliar a força e a
coragem ao saber e à eloquência (Canto V, estâncias 92-100);
• realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito próprio (Canto VI, estâncias 95-99);
• faz a apologia da expansão territorial para divulgar a Fé cristã; critica os povos que não seguem o
exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do Mundo “e, se
mais mundos houvera, lá chegara” (Canto VII, estâncias 2-14);
• lamenta a importância atribuída ao dinheiro, fonte de corrupções e de traições (Canto VIII,
estâncias 96-99);
• explica o significado da Ilha dos Amores (Canto IX, estâncias 89-92);
• se dirige a todos aqueles que pretendem atingir a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a
ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem (Canto IX, estâncias
93-95);
• confessa estar cansado de “cantar a gente surda e endurecida” que não reconhecia nem
incentivava as suas qualidades artísticas. Mesmo assim, reafirma-as nos últimos quatro versos das
estâncias 154 do Canto X, ao referir-se ao seu “honesto estudo”, à “longa experiência” e ao
“engenho”, “Cousas que juntas se acham raramente”;
• reforça a apologia das Letras (Canto V, estâncias 92-100);
• manifesta o seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo
português (Canto X, estâncias 145-156).

Para melhor compreender Os Lusíadas


Calíope
Musa da poesia épica. Filha de Zeus e Mnmósine (memória), é uma das noves musas, que têm por
missão a inspiração dos seres humanos para que estes se tornem criativos na arte e na ciência. As outras
musas são Clio (musa da história), Tália (musa da Tragédia e da harmonia musical), Érato (musa da poesia
erótica), Urânia (musa da astronomia), Polímnia (musa da poesia sacra), Terpsícore (musa da dança e do
canto) e Euterpe (musa da poesia lírica).

Fogo-de-santelmo
Fenómeno meteorológico que ocorre, geralmente, em ocasiões de forte trovoada e que se caracteriza
por pequenas descargas eléctricas (projecções e irradiações luminosas de cor azul-violeta) nas pontas
metálicas ou nas partes salientes dos aviões, devido à concentração do campo eléctrico atmosférico nas ditas
zonas. É muitas vezes acompanhado de um zumbido ou estampido.

Máquina do mundo
Diz respeito ao cosmos, ao sistema do mundo. De acordo com a visão grega e ptolomaica, através
das notas de Pedro Nunes, no Tratado da Esfera a partir de trabalhos como De Sphaera do astrónomo inglês
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Sacrobosco, seguidas por Camões em Os Lusíadas, o mundo apresentava uma região celestial e outra
elementar.
A Máquina do Mundo, desde Ptolomeu, tinha a Terra no centro e em seu redor, em círculos
concêntricos (homocêntricos), Diana (Lua), Mercúrio, Vénus, Febo (Sol), Marte, Júpiter e Saturno.
Envolvendo estes sete céus, havia o Firmamento, seguido pelo Céu Áqueo ou Cristalino, depois o Primeiro
móbil, esfera que arrasta todas as outras consigo. Por último, ficava o Empíreo.

Mitologia
A palavra mito (“mythos”) apresenta-se como uma codificação da realidade ao apresentar uma face
explícita e outra oculta. A sua face externa é traduzida simbolicamente na explicação da realidade e
modelação da conduta; a sua face oculta acontece a um nível mais profundo de relações vitais, de difícil
explicação. Os mitos são crenças que têm origem num fundo emocional e se revelam através de um jogo de
imagens e símbolos. Os mitos procuram manifestar situações profundamente humanas de sentimentos e
desejos ou dar explicações elementares do Universo e da vida, sem a elucidação rigorosa da ciência, da
filosofia e da teologia. Surgem, em geral, como forças ocultas, ligadas às emoções, ao inconsciente, à
imaginação, ou são fenómenos da Natureza que o ser humano não consegue explicar.

Nereidas
Filhas de Nereu e Dóris, as Nereidas (ou nereides) são divindades marinhas que presidiam ao mar.
personificavam os seus caminhos e os seus aspectos aprazíveis. Com frequência, são representadas a
cavalgar no dorso de monstros marinhos.

Ninfas (do grego nymphé e do latim nympha)


Na mitologia grega, são divindades femininas secundárias que habitam os campos, as florestas e os
mares. Encontram-se associadas à fertilidade, personificando a fecundidade da Natureza. Há diversos grupos
ou categorias, entre as quais se podem citar as Nereidas e as Oceânides, que são Ninfas marinhas; as
Crenéias, as Náiades e as Pegéias, que habitam, respectivamente, as fontes, os rios e os lagos; as
Hamadríades (e Dríades), que são protectoras das árvores; as Napéias, que vivem nos vales e selvas; ou as
Oréades, que moram nas montanhas.
Camões, na Invocação de Os Lusíadas (Canto I, est. 4-5), fala das Tágides como ninfas do Tejo.
Trata-se de um neologismo, criado anteriormente por André de Resende (em 1545, numa anotação ao seu
poema “Vincentius”) e que o épico utiliza para que o ajudem na organização do poema.

Samorim
Samorim ou Samori (do malaiala tamudri ou samutiri, e do sânscrito samudri, rei do mar) era o título
do soberano de Calecut, na costa do Malabar (costa ocidental da Índia). O termo Samorim, no antigo
malaial, equivalia à designação indiana de Rajá atribuída aos soberanos da região.

Tétis
Nome que pode ser atribuído a duas divindades: com a grafia Tétis ou Thetis, é uma das Nereidas e
de Dóris; Tethys, ou também com a grafia Tétis, uma das Titânides, filha de Gaia ou Gé (a Terra) e de
Ouranos ou Úrano (o Céu).
A nereida Tétis é criada por Hera, tendo-lhe sempre uma grande afeição. Amada por Zeus, de acordo
com a lenda, resistiu-lhe para não magoar Hera, a esposa do soberano dos deuses; ou, segundo outra versão,
foi este que a não quis por temer uma profecia segundo a qual o filho que com ela fosse concebido o iria
destronar. Consta também que foi amada por Posídon (Neptuno), o deus do mar. mas é com Peleu, um ser
mortal, que acaba por casar e de quem tem sete filhos, entre os quais Aquiles. Camões, em Os Lusíadas, diz
que o Adamastor se apaixonou pela nereida Thetis, mas esta recusou o seu amor.
A titânide Tethys é esposa do Oceano e uma das divindades primitivas, que personifica a
fecundidade “feminina” do mar. Tem três mil rios e três mil Oceânidas (ninfas marinhas). São suas irmãs
Teia, Témis, Mnemósine, Febe e Reia (mãe de Zeus) e tem como irmãos os titãs Oceano, Céu, Crio,
Hiperíon, Jápeto e Crono (pai de Zeus).

Tromba marítima
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É uma massa de vapor ou de água, erguida em coluna e animada de um movimento rápido, agitada
por ventos ciclónicos, podendo atingir cem metros de altura e cerca de dez metros de diâmetro. É geralmente
acompanhada de ventos fortes, de relâmpagos, de chuva e de granizo, sendo muitas vezes aliada a um
movimento de aspiração, que levanta, no mar, uma coluna de água perigosa para os navios que se encontram
na sua passagem.

Mensagem: relação intertextual com Os Lusíadas


Os Lusíadas são uma alegoria, com a intriga dos deuses mitológicos a darem unidade à acção e a
favorecerem o seu desenvolvimento. Eles exprimem as forças e dificuldades que se apresentavam ao espírito
humano na aventura marítima, mas não são mais do que seres efabulados para o Poeta mostrar que são os
nautas e todos os heróis lusíadas que merecem a mitificação. Ao longo da epopeia, Camões procura mostrar
a capacidade dos Portugueses que, ao construírem e alargarem o Império, permitiram o encontro entre o
Ocidente e o Oriente.
A Mensagem é mítica e é simbólica. Surge tripartida, a traduzir a evolução desde a sua origem,
passando pela sua fase adulta até à morte, a que se seguirá a ressurreição. A primeira, “Brasão”, corresponde
ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos
dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos. Na
segunda parte, “Mar Português”, surge a realização e vida; refere personalidades e acontecimentos dos
Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. Mas, porque “tudo
vale a pena”, a missão foi cumprida. Na terceira parte, “O Encoberto”, aparece a desintegração, havendo,
por isso, um presente de sofrimento e de mágoa, pois “falta cumprir-se Portugal”. Anseia-se pela
regeneração, que será anunciada por símbolos e avisos. “O Encoberto” mostra a imagem do Império
moribundo, a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição, capaz de provocar o nascimento
do império espiritual, moral e civilizacional na diáspora lusíada, isto é, a esperança do Quinto Império.
Numa aproximação intertextual entre Os Lusíadas e Mensagem, observa-se que Fernando Pessoa
recolheu em Camões alguns mitos, símbolos e factos, mas percebeu que era necessária uma outra proposta
para reinventar a Pátria:
• Camões vê Portugal como cabeça da Europa (Canto III, est. 17, 20 e 21); Fernando Pessoa
valoriza o seu papel na civilização ocidental ao colocá-lo como o rosto “com que fita” o mundo
(“O dos castelos”);
• o épico fala dos heróis que construíram e alargaram o Império Português, para que a sua memória
não seja esquecida, enquanto Pessoa escolhe aquelas figuras históricas predestinadas a essa
construção imperial (D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. João, o Primeiro…), mas, através delas,
procura simbolizar a essência do ser português que acredita no sonho e se mostra capaz da utopia
para a realização de grandes feitos;
• n’Os Lusíadas há a viagem à Índia; na Mensagem temos a avaliação do esforço, considerando que
a glória advém da grandeza da alma humana, apesar das vidas perdidas e toda a espécie de
sacrifícios dos nautas, mas também de mães, filhos e noivas;
• a fantasmagoria do Adamastor mostra que o homem tem de superar-se para ultrapassar os
problemas com que depara, enquanto o Mostrengo permite contrapor o medo com a coragem que
permite que o homem ultrapasse os limites;
• Camões fala de Ulisses e de outros mitos, contudo Pessoa mostra a importância do mito como um
nada capaz de gerar os impulsos necessários à construção da realidade (“Ulisses”); os mitos
permitem a Pessoa fazer a apologia da sua missão profética (basta recordar os mitos do
Sebastianismo, do Quinto Império, do Santo Graal, das Ilhas Afortunadas e do Encoberto). Pessoa
considera-se investido no cargo de anunciador do Quinto Império.

Os Lusíadas, de Luís de Camões e Mensagem, de Fernando Pessoa

Camões, n’Os Lusíadas, e Fernando Pessoa, Em Os Lusíadas, Camões conseguiu fazer a


na Mensagem, cantam, em perspectivas síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão; na
diferentes, Portugal e a sua história, realçando a Mensagem, Pessoa procura a harmonia entre o
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expansão marítima e o alargamento da fé. mundo pagão, o mundo cristão e o mundo
Enquanto o primeiro celebra o apogeu e esotérico (do ocultismo).
pressente a decadência do Império, o segundo Os Lusíadas, publicados em 1572, são a
retorna às origens e às descobertas marítimas, principal obra épica da Renascença. Luís de
mas situa-se na fase terminal do processo de Camões, influenciado pelo mundo antigo, pelas
dissolução do mesmo Império. epopeias clássicas de Homero (Ilíada e Odisseia)
A epopeia Os Lusíadas celebra a acção e de Virgílio (Eneida), canta o povo intrépido
grandiosa e heróica dos Portugueses que deram (corajoso), historia a viagem de Vasco da Gama e
início ao grande império que se estendeu pelos as descobertas, exaltando o espírito do povo
diversos continentes. Ao relatar a viagem à Índia, português que foi capaz da formação de Portugal e
entrecortando-a com episódios do passado e da expansão imperial. Tomando o povo como
profecias do futuro, mostra a história do povo herói colectivo, Camões reelabora a história,
que teve a ousadia da aventura marítima, “dando celebra o apogeu e pressente a decadência do
novos mundos ao mundo”. Império.
O poema épico-lírico Mensagem canta, de Mensagem é a única obra completa publicada
forma fragmentária e numa atitude introspectiva, em vida de Fernando Pessoa. Contém 44 poemas,
o império territorial, retratando o Portugal que se escritos entre 21 de Julho de 1913 e 16 de Março
encontra em declínio a necessitar de uma nova de 1934. A sua publicação acontece em 1 de
força anímica (psicológica). Depois de relembrar Dezembro de 1934, dia das comemorações da
um passado de heroísmo e de grandezas, ousa Restauração de 1640. Concorrente ao “Prémio
profetizar, numa perspectiva messiânica, um Antero de Quental”, foi preterida (excluída,
futuro que cumpra Portugal, um novo império rejeitada) a favor de Romaria, uma colectânea de
civilizacional, que identifica como Quinto versos do padre Vasco Reis, que ilustrava a fé do povo,
Império. como convinha ao regime de então. Pessoa teve de se
Enquanto Camões nos dá conta do heroísmo contentar com o prémio de segunda categoria. Hoje é
reconhecida como uma obra capital da poesia
que permitiu a construção do império português,
portuguesa. Os seus poemas, apesar de compostos em
Fernando Pessoa procura libertar a pátria de um momentos diversos, têm como fio condutor da sua
passado que se desmoronou e encontrar um novo unidade a visão mítica da pátria.
heroísmo que exige grandeza de alma e Em 1912, Fernando Pessoa escrevera: “E a nossa
capacidade de sonhar. grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que
não existe no espaço, em naus que são construídas
daquilo de que os sonhos são feitos”. Na Mensagem, há
uma voz saudosa e magoada de passado, mas, ao
mesmo tempo, o sonho de um novo Império,
alimentado pelo sentimento sebastianista.

• Os Lusíadas e Mensagem cantam, em perspectivas diferentes, a grandeza de Portugal e o sentimento


português.
• Nas duas primeiras partes da Mensagem é possível um diálogo com Os Lusíadas; em “O Encoberto”,
Pessoa situa-se no momento em que o Império português parece desmoronar-se por completo e,
assume, então, o cargo de anunciador de um novo ciclo que se anuncia, o Quinto Império, que não
precisa de ser material, mas civilizacional.
• Os Lusíadas são uma narrativa épica, que faz uma leitura mítica da História de Portugal. Em estilo
elevado, canta uma acção heróica passada e analisa os acontecimentos futuros, cuja visão os deuses
são capazes de antecipar.
• Fernando Pessoa, no poema épico-lírico, canta, de forma fragmentária e numa atitude introspectiva, o
império territorial, mas retrata o Portugal que “falta cumprir-se”, que se encontra em declínio a
necessitar de uma nova força anímica (psicológica).
• Camões, n’Os Lusíadas, propõe o povo português como sujeito da acção heróica.
• Camões inicia Os Lusíadas com “As armas e os barões assinalados”, mostrando que os nautas foram
escolhidos para alargarem “a Fé e o Império”.
• Camões procura perpetuar a memória de todos os heróis que construíram o Império português;
Fernando Pessoa descobre a predestinação desses heróis, para encontrar um novo heroísmo que exige
grandeza de alma e capacidade de sonhar, quando o mesmo Império de mostra moribundo.
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• Os nautas, incluindo Vasco da Gama, são símbolo do heroísmo lusíada, do seu espírito de aventura e
da capacidade de vivência cosmopolita.
• Em Os Lusíadas, Camões conseguiu fazer a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão; na
Mensagem, Pessoa procura a harmonia entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico
(do ocultismo).

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