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Dados Internacionais de Catalogagio na Publicagio (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Tardif, Maurice © trabalho docente : elementos para uma teoria da docéncia como profissio de interagées humanas / Maurice Tardif, Claude Lessard ; traducao de Jozo Batista Kreuch. 5. ed. ~Petrdpolis, RJ : Vozes, 2009. ISBN 978-85-326-3165-7 ‘Titulo original: Le travail des enseignants 1. Ensino — Trabalho em grupo 2. Interagio em educagio 3. Pritica de ensino ~ Canadé ~ Québec 4. Professores ~ Trabalho ~Canadé — Québec 5. Sistemas de ensino ~ Canadi ~ Québec I, Lessard, Claude, 1. Titulo 05-2820 cpp-37 es para catilogo sist le docente e pedagogia : Educagio 371.1 Pritica docente Cignelas pedagégicas : Educagio 371.1 Maurice Tardif Claude Lessard 0 trabalho docente Elementos para uma teoria da docéncia como profissio de interagdes humanas ‘Tradugio de Joo Batista Kreuch y EDITORA VOZES Petropolis, 2 tabaio dosent docentes fazzm com os diversos objetivos eas conseqiléncias de suas opgbes ¢ decisdes sobre sua propria atividade a. E nesse espirito que propo- mos a nogio de “trabalho curricular”, para compreender os processos de in- (expretagio, transformagio e adaptagio com os quais os docentes realizam seu mandato de trabalho. Depois de situar os quadiros organizacionais da docéncia no ambiente es- colar e de evidenciar a dinémica interna de seus objetivos, passamos, entio, a abordar seu objeto de trabalho, que nos parece essencialmente formado por relagdes interativas que unem os professores aos alunos. O capitulo 7 trata das representagdes ¢ das expectativas dos professores com relaga0 aos alunos, € apresenta as dinimicas interacionais € comunicacionais cotidianas entre sm lasse. Esse capitulo se prope a visuali- ‘questdes relacionadas aos resultados ou produtos da agao docente, suas tec nologias. Por meio de tais desenvolvimentos, pretendemos apresentar de que modo as interagdes humanas que constituem o trabalho docente mar- ‘cam profundamente todos os outros componentes do processo de trabalho, tendo efeitos sobre o préprio trabalhador e modificando profundamente 0 cconjunto das suas relagdes, suas ages e sua identidade profissional Em suma, esta obra propde uma visio panorimica do trabalho dos pro- fessores hoje, mas mutrida e, esperamos, enriquecida ¢ matizada pela pesqui- sa de campo nas escolas, nas classes e junto aos profissionais da docéncia a ‘quem demos a palavra para que nos dissessem com suas proprias palavras {que eles fazer, vivem, pensam e sentem. Ao mesmo tempo, a obra quer co- locar em evidéncia as condigSes, as tensdes € os dilemas que fazem parte des: mo a vivéncia das pessoas que o realizam diariamente, Escrevemos este livro com a esperanca nio sé de dara conhecer melhor a realidade do trabalho dos professores, mas também de demonstrar a importéncia de se analisi-lo para compreender ‘mente nossas sociedades, onde o ser humano se assume mais ¢ ms mo como objeto de ago e projeto de transformacao, Oo trabalho docente hoje: elementos para um quadro de anilise [esse primeiro capitulo, apresentamos esclarecimentos sobre nosso cam- po de investigacio e nosso quadro de anilise e interpretagio. Antes de mais nada, gostarfamos de definir o interesse desta obra 1.1. Por que estudar a docéncia como um trabalho? Com efeito, por que abordar 0 ensino em ambiente escolar a partir do angulo analitico do trabalho? Em que essa perspectiva contribui, de algum ‘modo, para aclarar a natureza da docéncia? Cinco espécies de motivos situa dos em diferentes niveis de andlise fundamentam nossa abordagem da do- céncia como um trabalho interativo, Iremos exp6-los longamente, visto que fa perspectiva que preconizamos nio atraiu, até agora, a atengao dos pesqui- sadores. E mecessério, portanto, justificar e mostrar sua pertinéncia e sua ne- cessidade. Num primeiro momento, deixaremos claro o status crescente que os offcios eas profissdes humanas interativas vm adquirindo na organizasio socioecondmica do trabalho; num segundo momento, situaremos a docén- ‘cia nessa organiza¢io; num terceiro, vamos discutir modelos de trabalho do- cente impostos pela organizacio industrial; num quarto momento, diremos Slgumas palavras sobre a necessidade de vincular a questio da profissionali- Zacio do ensino com a da anilise do trabalho docente; ¢ enfim, num quinto momento, sero destacados os postulados que justificam nossa abordagem © a importancia que damos 3 interacio humana na andlise da docéneia 1.1.1. Panorama do trabalho interativo e reflexivo Aimportincia do trabalho sobre a matéra inerte (matérias-primas, pro- dutos derivados, artefatos técnicos, utensilios, miquinas, dispositivos mate is, vegetais, et) & considerdvel,jé que cle festé na base das sociedades industrais modernas, Nessas sociedades, até um 15 OQ trabalno dogente ¢, 0 trabalho material foi considerado o arquétipo do tra- balho humano e, mais amplamente, da atividade humana, definida de acordo com as orientagées tedricas, como prixis ou atividade produtiva. Tanto os ‘marxistas como os funcionalistas ¢ os liberais, passando pelos psicélogos ¢ os engenheiros do trabalho e os ergénomos, tiraram os modelos teéricos do tra- largamente da esfera das atividades humanas sobre a matéria e sobre os artefitos técnicos. Seguindo o movimento comunista ¢ as abordagens criticas, (Escola de Frankfurt, neomarxismo, etc.), a sociologia do trabalho tentou defi- nira identidade e a a¢i0 dos atores sociais pelo satus de que gozavam no siste- ‘ma produtivo de bens materiais, esse mesmo caracterizado por critérios como a modemnizagao, a divisio do trabalho, a especializacio, a racionalizagio, ete. Era, portanto, o fato de estar envolvido por relagoes sociais de produgio que definia o trabalhador e, mais que isso, o cidadio. Essas relagies sociais de pro- dugio, por sua vez, eram vistas como o coracio mesmo da sociedade, € 0 tra- balho produtivo, como o setor social mais essencial, aquele pelo qual se garan- tiam 20 mesmo tempo a produso econdmica da sociedade € seu desenvolvi- mento material. Na verdade, é ainda a mesma visio que esti por tris, hoje, das Ideologias desenvolvimentistas e neoliberalistas ppassado muito rect sses modelos clissicos de trabalho procedem substancialmente de cinco postulados (de Coster & Pi 998; Touraine, 1998): rabalho industrial produtor de bens maieriais € 0 paradigma do tra- + esse paradigma estende sua hegemonia tedrica e pritica is demais ativi- dades humanas, * os agentes sociais se definem por suas posig6es no sistema produtivo; + as posiges centrais sio ocupadas pelos detentores (capitalistas) e os produtores (operérios) de riquezas materiais: + enfim, o sistema produtivo € 0 coragao da sociedade e das relagSes sociais. [Esses postulados nao refletem apenas as idéias dos teéricos, de socidlo- gos ou de econ a5, mas estdo de acordo com a ideologia dominante na sociedade industrial e com seu ethos, como 0 analisou, por exemplo, Weber rite d capitalismo (1967). Esse ebes remete a uma moral fi 8, p. 58) assim res tear seu justo lugar na sociedade, passa pela assungio de ‘uma fungio e papéis preciss figadas ao tabalho, Qual 60 lugar da docéncia e qual o significado do trabalho dos professo- res em relagio a esses postulados e ao ethos que eles impdem? Fundamental ‘mente, 0 ensino é visto como uma ocupacdo secundéria ou periférica em re- lagio ao trabalho material e produtivo. A docéncia e seus agentes ficam nisso subordinados a esfera da produgio, porque sua missio primeira é preparar ‘os filhos dos trabalhadores para o mercado de trabalho. O tempo de aprender zndo tem valor por si mesmo; é simplesmente uma preparagio para a "verda- deira vida", ou sea, o trabalho produtivo, 20 paso que, comparativamente, ‘a escolarizagao 6 dispendiosa, improdutiva ou, quando muito, reprodutiva. [Em grande parte, a sociologia da educacio, adotando, nesse ponto, as ideclo- gias sociais, interiorizou essas representagSes e trouxe essas categorias para dentro do campo da anilise do ensino. Desse modo, os agentes escolares tém sido vistos como trabalhadores improdutivos (Braverman, 1976; Harvis, 1982), seja como agentes de reprodugio da forga de trabalho necesséria & tengo ¢ a0 desenvolvimento do capitalismo (Bowles & Gintis, 1977), s como agentes de reprodugio sociocultural (Bourdieu & Passeron, 1970). mais ou menos no mesmo sentido ~ ou seja, enquanto agentes de uma ins- igo repressiva que gera problemas sociais ¢ reforga as desigualdades na .e do sistema socioecondmico — que tém sido tratados outros agentes de servigos pablicos, tais como os funcionérios da justica e do sistema carcers- rio, do servico social, da satide, ete. Contudo, esta visio do trabalho nio corresponde bem 3 realidade soc econdmica das sociedades modernas avangadas'. A primeira tese que preten- demos defender € a seguinte: loge de ser uma ocupasosecndria ou prifrca em rla~ sia hegemonia do uma das chavs para compre ‘xsi das transfommagies auais das scidades do trabalho, Esta tese se apéia em quatro constatagbes: 1.4 expressio “sociedades modemnas avancadas”, emprestada do soctélogo britinico Anthony Giddens (1987; 1996), indica que nés ainda estamos na faseda modemidade € Zo auma pos-modemidade (Lyotard, 1976) vilida somente para alguns fendmenos tados a uns poucos setores das sociedades modemnas avangadas. 17