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Working Paper no 001

Universidade Federal de Pernambuco

Crises de mobilidade urbana

Anderson Trindade
Sérgio Benício

Recife, 2017
Geralmente, novas soluções tecnológicas que começam a operar no tecido
urbano passam a disputar pessoas e, posteriormente, espaços, fragmentando ainda mais a
cidade (GRAHAM e MARVIN, 2001). Apesar de inovações representarem um leque de
possibilidades à sociedade, sobretudo na questão da mobilidade urbana, diferentes modais
de transporte podem gerar disputas por espaços, tanto relacionados à fixidez quanto à
velocidade. Diante da hegemonia dos motores, por exemplo, a coexistência de veículos
motorizados e de veículos de tração humana ou animal parecem ser absurda no mesmo
espaço compartilhado para diferentes velocidades, o que sinaliza a emergência de
antagonismos e de potenciais conflitos. Algumas cidades, como é o caso da cidade de
João Pessoa1, já vem desenvolvendo normas proibindo o trânsito de veículos de tração
animal em suas ruas, inclusive.
Por outro lado, essas incompatibilidades são contextuais, podendo existir
localidades que lidam bem com tais coexistências, a exemplo de Campina Grande, onde
o transporte de tração animal segue regulamentado por legislação municipal, de modo
que os carroceiros cadastrados tem suas carroças emplacadas e podem transitar
livremente pelas ruas da cidade2. Em cidades maiores, como Recife3, essa prática está
sendo analisada, diante de possíveis problemas de congestionamento e irritabilidade dos
demais motoristas, o que pode ocorrer mesmo com a presença de ciclistas nas ruas. Com
isso, queremos mostrar que as diferentes velocidades também fragmentam as cidades e
sinalizam a necessidade de políticas regulatórias de espaços e políticas de mobilidade
urbana, diante de crises de mobilidade que param a cidade, literalmente.
Se focarmos no setor de transporte de pessoas em carros, os serviços prestados
por taxistas foram marcados por crises anteriores ao Uber. Em determinadas cidades, o
monopólio do setor taxis pode ter sido quebrado pela presença de motos e Kombis sendo
utilizadas com a mesma finalidade, por exemplo. Em outras cidades, o monopólio dos
taxis pode não ter sido ameaçado ou mesmo nem chegado a existir, sinalizando sérias
dificuldades de deslocamentos e, naturalmente, o surgimento de transportes alternativos
a partir de iniciativas empreendedoras locais. Esse cenário reflete, sobretudo, dificuldades

1
Cf. matéria intitulada: “Trânsito de veículo de tração animal passa a ser proibido em João Pessoa”. Fonte:
http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2016/02/transito-de-veiculos-de-tracao-animal-passa-ser-proibido-
em-joao-pessoa.html
2
Cf. matéria intitulada: “Veículos de tração animal terão chips, placas e faixas refletivas em Campina
Grande”. Fonte: http://www.falaprefeitopb.com.br/2016/05/veiculos-de-tracao-animal-terao-chips.html
3
Ver matéria intitulada: Câmara do Recife vai discutir a regulamentação da Lei de Tração Animal”. Fonte:
http://m.noticias.ne10.uol.com.br/grande-recife/noticia/2017/03/20/camara-do-recife-vai-discutir-a-
regulamentacao-da-lei-de-tracao-animal-669103.php
logísticas de cidades interioranas desassistidas por políticas públicas de mobilidade, de
modo que a intermodalidade só vem a beneficiar a população local, principalmente a
tração animal em conjunto com motos, carros etc.
Já nas grandes cidades, a intermodalidade também tem potencializado a
mobilidade ao procurar interligar bairros e mesmo cidades de uma mesma região
metropolitana. Parte do trajeto pode ser percorrido de metrô, de ônibus, de táxi ou moto-
taxi, de bicicleta etc. Nesse sentido, a lógica inovadora do Uber também incrementou a
intermodalidade ao lançar, por exemplo, o Uber bike, que consiste em um carro adaptado
para o transporte de bicicletas, de modo que o usuário do serviço pode dividir sua rota
entre o carro e a bicicleta, além do serviço também estar disponível via barcos e
helicópteros em algumas cidades. Dessa forma, o Uber também representa uma possível
solução à crise de mobilidade, não só nesse caso de combinação de formas de
deslocamento, mas também por se mostrar alinhado às políticas públicas da Lei Seca, por
exemplo4. Além da multa aplicada ao motorista que dirige sob efeito de álcool, a
comodidade do Uber associada ao preço mais em conta que os Taxis, tem feito motoristas
deixarem seus carros em casa, o que pode contribuir para diminuição de acidentes. Porém,
um efeito inesperado disso é a diminuição da demanda por estacionamentos privados
pagos e dos serviços de manobristas, por exemplo.
Com isso, tentamos evidenciar que as disrupções dos aplicativos, em especial do
Uber, tanto representa crises para uns setores profissionais quanto soluções para outros,
ameaçando não apenas aos taxistas, mas a todo um sistema de mercado. No entanto, por
se tratar de uma problemática recente, cujos efeitos ainda se encontram em
desdobramento, somente poderão ser percebidos aos poucos. O principal efeito causador
de distúrbio na ordem preestabelecida, a partir do qual o referido APP passou a ganhar
destaque na mídia, foi a ameaça percebida pelos taxistas. Inicialmente, o setor de taxis
começou a cobrar medidas municipais que impedissem a chegada dos serviços de
transporte por aplicativos. À medida que os dispositivos legais desenvolvidos e aprovados
pelo setor legislativo e executivo municipais foram sendo analisados pelo setor judiciário,
eles passaram a ter seu efeito suspenso por ir de encontro a textos da Constituição Federal
Brasileira, abrindo espaço à atuação da Uber.

4
Cf. matéria da Folha de São Paulo intitulada: “Uber e medo de multa fazem muitos, mas não todos,
deixarem carro em casa”. Fonte: http://temas.folha.uol.com.br/atropelados/habitos-na-direcao/uber-e-
medo-de-multa-fazem-muitos-mas-nao-todos-deixarem-carro-em-casa.shtml
Apesar de haver jurisprudência dando legitimidade aos novos serviços por
aplicativos, as medidas regulatórias se sucediam tentando fechar, simbolicamente, as
portas de cada cidade. Enquanto se discutia a legalização ou proibição dos mesmos nas
esferas municipais, o mesmo passou a ocorrer no âmbito federal. Isso aponta que alguns
desses efeitos se lançam também ao Estado Moderno, sobretudo à mentalidade do Estado
Regulador, o qual tenta regular os novos serviços de transporte de passageiros por
aplicativos, em diversos níveis (federal e municipal, no caso brasileiro), de forma que
alguns atos dos poderes executivo e do legislativo tem sido neutralizados pelo poder
judiciário. Isso pode revelar crises de sentido dessa mentalidade estatal reguladora,
motivadas principalmente por esse contexto hipertecnológico e hipermoderno.