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Colegio: Linguagem/ Critica Direc Chaslotte Galves ni Puleinelli Orlandi Consetho Biiturial: Chastote Galves Eni Puleinelt Orland (presidente) Marilda Cavalcants Panto Otoni FICHA CATALOGRAFICA Benveniste Emile, 1902-4976. ‘rable de Unplsie geral 5 tratgio de Mara Bane fin Gloria Novak e Marin airs Nev revi do’ Pol jan, SP Poot Iau Nicolan Sam, 3. ek Campings, SP Eitors da Unlerade Paiadoal de Campinas, 1991 — (ingasgen et) ISHN as-7U30159 EMILE. BENVENISTE PROBLEMAS DE LINGUISTICA GERAL I Tr dus: Maria da Gliria Novak Maria Luiza Neri Revisfo do Prof, Isaac Nicolau Salum 1991 proveito da frase verbal, introduz-se, is vezes, no proprio seio do verbo “ser” uma diferenciago, Eo caso do espanhoi com a clissica distinglo entre ser e estar. Nio & fortuito, sem divida, © fato de que a distinglo entre ser, ser de essénci, © estar, set de existincia ou de circunstincia, coincide em ampla medida com a que indicamos entre a frase nominal ea frase verbal para lum estado lingulstico muito mais antigo. Mesmo que nio haja continuidade historica entre as duas expressdes, podemos ver no fato espanhol a manifestagio renovada de um trago que marcou profundamente a sintaxe indo-curopéia. O emprego concorrente de dois tipos de assergo, sob formas diversas, constitul uma das soluges mais instrutivas para um problema que se apresentou fem muitas linguas ©, por vezes, em varios momentos da sua evolucao. 12 CAPITULO 14 ativo e médio no verbo'!?? A distingdo entee ative passivo pode fornecer um exemplo de uma categoria verbal propria para desencaminhar os nostos hibitos de pensamento: parece necessiria — ¢ muitas linguas «a ignoram; simples — ¢ temos grandes dificuldades em interpre- tila; simétriea ~ © abunda em expressies discordantes, Nas ‘nossas proprias linguas, nas quais essa distingo parece impor-se ‘como uma determinasio fundamental do pensamento, ela € tio ppouco essencial ao sistema verbal indo-curopeu que a vemos ormar-se no decurso de uma historia que nio & tio antiga [Em lugar de uma oposigio entre ativo © passivo, temos no indo- ccuropeu histérico uma divisio tripla — ativo, médio, passivo —, ‘que reflete ainda a nossa terminologia: entre a bvépyerx (= ativo) © 0 m0; (= passivo), o$ gramiticos gregos instituiram uma classe intermediaria, “média” (weed), que pareceria fazer a transigio entre as duas outras, supostamente primitivas. A doutri- na helnica, porém, no faz senifo transpor em conccitos a parti= caularidade de um certo estado de lingua. Essa simetria das trés “voces” nada tem de orginico, E claro que se presta a um estudo 4e sincronia lingtistica, mas para um dado periodo da histéria do grego. No desenvolvimento geral das linguas indo-européias, (5 comparatistas estabeleceram hi muito tempo que 0 passivo € uma modalidade do médio, do qual procede © com 0 qual suarda lagos estreitos mesmo depois de constituirse em cate- goria distinta. O estado indo-curopeu do verbo caracteriza-se, 127. Jounal de poyhao, fnew. 1980, PALE ins asim, por uma oposigio de das ditesessomente, ativa e mia, Segundo a denominasio tradicional, E, entio, evidente que a significagio dessa oposigio deve ser, dentro da eategorizac do verbo, totalmente outta do que se poderia imagina, partindo de uma lingua em que reina =0- mente a oposgio entre oativo eo passvo. Nose trata de con- sidera a distingdo“ativo-médio como mais ou menos auténtica ave a distin “ativo-pasivo™, Uma e outra sfo comandadas ‘elas necessidades de um sistema lingistico, € 0 primeto ponto testi em reconheceresss necesidades,inelusive ade um periodo intermedirio em que médio e passivo coexistem. A tomarmos, porém, a evolusio nas suas duas extremiades, vemos que una forma verbal ativa se opde em prineiso lugar a uma forma média, depois a uma forma pastva. Nests dois ipos de oposiglo, eta- mos diate de eategoriasdierenes, © mesmo o termo que thes © comum, 0 “tivo, nfo pode ter, apesto a0 “"médio", 0 mesmo sentido que tem se'se opGe a0 “passivo”. O contraste que nos 6 familiar entre ativo passivo pode figurarse ~ de forma um tanto arosscira, mas iso € suficiente, aqui — como o da aio aida ¢ da aedosofrida. Em compensaco, que sentido atibure- ‘mos A distingo entre avo © médio? E 0 problema que examni- ‘naremos sumariament, ‘Convém modir bem a importnciae a suaglo dessa cate- sora entre as que se exprimem a0 verbo. Toda forma verbal Tinitapertencenecessariamente a uma ou utradites,¢ mesmo certas formas nominais do verbo (infiitvos, partiipios) igual mente se submetem. Equivale a dizer que tempo, modo, pessoa, nmero tm uma expresso diferente no tivo e no médio. Est mos realmente diante de uma catepora fundamental, que se liza, no verbo indo-europeu, is outras determinagbes morfolbgicas © que caracterza propriamente 0 verbo indo-curopes & 0 fato de 86 fazer referéncia a0 sujeito, nfo ao objeto. AO contrtio ddo verbo das linguas caucasianas ou amerindias, por exemplo, éste no inelui nenhum indice que assnale o termo (ou 0 obet0) do proceso. & imposivel asim, diante de uma forma verbal isola, dizer se €transitiva ou intransitiva, positiva ou negativa no su context, se comport tim regime nominal ou pronominal, singular oa plural, pessoal ou ni, et. Tudo é apresentado © Ist crdenado com relago ao sueito. Entretanto, as categoria verbais ue se unem nio sio todas igualmente especficas: a pessoa se marca também no pronome: 0 nlimero, no pronome e no nome. Restam, pois, o modo, o tempo e, acima de tudo, a "voz", que & didtese fundamental do sujito no verbo; denota uma certa ide do sujeito relativamente ao processo, ¢ por meio dessa tude esse processo se encontra determinado no seu principio. Sobre sentido geral do meio, todos os lingistas concordam ‘mais ov menos, Rejeitando a definigio dos gramiticos gregos, fundamo-nos hoje a distinglo que Panini, com admiravel discer- nimento para o seu tempo, estabeleceu entre 0 parasmaipada, “palavra para uma outra” (~ ativo), € © armanepada, “palavra para si" (= médio). Se a tomamos literalmente, vemos que de fato destaca oposigées como as que cita o gramatico hindu: sinser. yaat, “ele sacrifica (para outro, enquanto sacerdote)” & ‘alate, “ele sacrifica (para si mesmo, como ofertante)"""). Nao pPoderiamos duvidar de que essa definigao corresponde, grosso ‘modo, a realidade. Falta, porém, que se aplique tal qual a todos ‘0s fatos, mesmo em sinscrito,e que analise as acepedes bastante diversas do médio. Quando se abarca o conjunto das liiguas indo-européias, os fatos surgem as vezes to dfieis de aprender, que, para cobri-os todos, devemos contentar-nos com uma for ‘mula bastante vaga, que se encontra mais ou menos idéntica em todos os comparatistas: © médio indicaria somente uma certa ‘elagdo da agdo com 0 sujito, ou um “interesse” do sujelto na ago. Parece que nllo se pode precisar mais, a no ser mostrando cempregos especializados, em que o médio favoriza uma acepeio restrita, ue & ou possessiva ou reflxiva ou reciproca, ete. Somos assim levados de uma definigo muito geral a exemplos muito particulares, dividides em pequenos grupos e ji diversifcados. ‘Tem certo ponto em comum, essa referencia ao aiman, a0 “para si" de Panini, mas escapa ainda & natureza lingilstca dessa re- feréncia, sem a qual o sentido da ditese corre 0 rsco de nao ser mais que um fantasma, TER Uiliamos neste ang, de props, os exempls queso ctados em tor or abalone pramitiencomparda 135