Você está na página 1de 85

A História da

Caligrafia, da
Tipografia e da
produção de
letras. Contada
e ilustrada por
Paulo Heitlinger
em 2019.
tipografos.net
Intro
A História da Caligrafia,
da Tipografia e da produção Venda do formato e-book:
de letras. Contada e ilustrada termos e condições
por Paulo Heitlinger em 2019. Este livro é vendido por Paulo Heitlinger em for-
tipografos.net ma de exemplar personalizado, que identifica di-
gitalmente o seu proprietário.
O livro/PDF pode ser impresso pelo proprietário
e partes escolhidas também poderão ser projec-
Autor e paginação: Paulo Heitlinger. tado em sala de aula, se for esclarecida qual a ori-
Copyright 2011 - 2019 by Paulo Heitlinger. gem deste documento e o seu autor.
Uma publicação da série e-books da tipografos.net. O proprietário deste exemplar também pode-
rá copiar curtos trechos de texto, para simplifi-
Todos os direitos reservados para a língua portuguesa car o processo de citações. Contudo, o exemplar
e para todas as outras línguas. comprado não poderá ser transferido a outras
pessoas!
Este exemplar pessoal não pode ser vendido ou oferecido A «transferência» deste exemplar a outra pessoa
a outras pessoas que o proprietário deste exemplar. que não o seu comprador é facilmente detectável
e servirá para o autor optar imediatamente pelos
procedimentos jurídicos que considere necessá-
rios, para salvaguardar os seus interesses comer-
ciais e os seus direitos de autor.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Intro / página 3

Temas
Epígrafes.............................................................. 105
Temas Capitalis Monumentalis..................................................106
Miliários..........................................................................133
Intro........................................................................ 2
Capitalis geométrica....................................................... 136
Bem-vindo!....................................................................... 8
Capitalis condensada......................................................148
Rustica lapidar................................................................167
Prólogo...................................................................10
Letras sem-serifa romanas...............................................184
A pedra que tudo explicou................................................. 11
Letras pintadas a pincel...................................................187
O Fenício, primeiro alfabeto fonético...............................14
Letras ornamentadas...................................................... 195
A Escrita do Sudoeste Peninsular..................................... 20
Letras pixelizadas...........................................................199
As primeiras escritas fonéticas em território português e
A Cursiva romana.......................................................... 206
espanhol........................................................................23
Quadrata librária............................................................ 213
Letras sefarditas, 1............................................................ 42
Rustica librária.............................................................. 220
Árabe.................................................................... 49
Decadência..........................................................225
Letras árabes.................................................................... 50
Letras tardo-romanas.....................................................227
Lápide dupla de Évora....................................................... 51
Versais orientais.............................................................. 231
Roma..................................................................... 62
Romanas Visigóticas........................................... 233
A primeira letra global......................................................63
Os Visigodos em terras hispânicas................................... 235
As formas das letras romanas........................................... 68
Evolução da versal visigótica...........................................237
Os glifos romanos............................................................ 72
Escrita visigótica librária.................................................252
Composição de texto.........................................................83
Os suportes...................................................................... 86 Unciais, as redondas.......................................... 260
Do barro ao chumbo........................................................ 87
A fase arcaica.................................................................. 261
Letras de vidro................................................................. 92
Codex Sinaiticus.............................................................265
Poder e status................................................................... 96
A segunda vida da Uncialis............................................. 274
Gravar a pedra................................................................102
Unciais em pedra........................................................... 280
Os lapicidas.................................................................... 103
Versais insulares............................................................. 290
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Intro / página 4

A primeira Renascença...................................... 297 A Fraktur de Hitler..........................................................415


A Escrita Carolina........................................................... 301 Jornais conservadores.....................................................418
A Carolina na Península Ibérica..................................... 304 Góticas romanizadas, e outros híbridos...........................423
Letras no princípio de Portugal.......................................308 Behrens-Schrift.............................................................424
A Fraktur geométrica..................................................... 427
Códices, actas, cartas.......................................... 310
Romanas Humanistas........................................ 430
O scriptorium monástico................................................ 312
Os tabeliões medievais.................................................... 317 A Segunda Renascença....................................................432
Romanas humanistas em Portugal.................................449
Góticas................................................................. 319
Gutenberg.......................................................... 462
Da Itália: a Beneventana.................................................322
Gótica de Bolonha (1300-1400)...................................... 323 Tipografia mecânica...................................................... 463
Textura manuscrita......................................................... 325 Do manuscrito ao impresso............................................ 465
Punção, matriz, fundição, caractéres............................. 467
Góticas na Peninsula Ibérica...............................327 B-42: o primeiro livro produzido em série.......................471
A «Góticho-quadrada», epigráfica................................328 O Homem do Milénio.................................................... 473
Letras góticas manuelinas...............................................363 Tipos móveis................................................................. 474
A chancelaria régia .........................................................368 O valor dos tipos! .......................................................... 475
Gótica Rotunda, manuscrita...........................................378 Manufactura de tipos..................................................... 476
O puncionista................................................................ 478
Fraktur.................................................................385 A puncionista Nelly Gable.............................................. 479
A Fraktur histórica..........................................................387 Matrizes..........................................................................483
O cisma tipográfico......................................................... 391 Tipómetros e outros instrumentos..................................491
Deutsche Schrift, a escrita alemã.....................................393 Paicas e pontos............................................................... 493
Albrecht Dürer, co-autor da Fraktur.............................. 394 A composição manual.................................................... 495
Modisten, os expoentes da caligrafia alemã .................... 397 Ligaduras........................................................................ 512
O delírio da ornamentação maneirista...........................400
Oficinas................................................................524
A Fraktur americana...................................................... 405
Rudolf Koch e os irmãos Klingspor................................409 A célere expansão da Prototipografia..............................525
Disseminação pela Europa..............................................529
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Intro / página 5

Identificação dos tipos metálicos....................................530 Robert Granjon e as Civilités ..........................................619


Robert Estienne, teólogo impressor................................621
Caligrafia e Tipografia sefardita.........................532 François Guyot.............................................................. 626
Manuscritos hebraicos na Península Ibérica.................... 533 A Censura...................................................................... 628
Bíblia de Cervera............................................................537 A greve dos griffarins em Lyon........................................ 630
Prototipógrafos judeus em Portugal................................ 553 Evolução na Holanda e Flandres......................................633
Uma oficina tipográfica em Amsterdão........................... 561 Nicolaes Biestkens.........................................................640
Os Elzevier em Leyden e Amsterdam.............................. 642
Prototipografia em Portugal...............................563 A dinastia Enschedé de Haarlem.................................... 643
Manuel i., venturoso merceeiro...................................... 564 Johann Michael Fleischmann.........................................644
Valentim Fernandes........................................................565 Os holandeses portugueses............................................ 645
Germão Galharde, na senda de Fernandes...................... 569 Os Deslandes................................................................. 647
António Gonçalves.........................................................573 A Real Imprensa de Paris, 1640...................................... 648
António de Mariz, em Coimbra.......................................574 A Inglaterra lidera.......................................................... 654
Mechanik Exercises, de Moxon........................................655
As oficinas tipográficas mais famosas............... 576 Caslon, puncionista britânico.........................................657
Os ex-sócios de Gutenberg............................................. 577 John Baskerville of Birmingham.................................... 660
A quebra do sigilo...........................................................578 O Manuel Typographique de Fournier........................... 663
Anton Koberger, em Nuremberga.................................. 580 Les Didot....................................................................... 667
William Caxton, Inglaterra ........................................... 584 Tipografia espanhola......................................................673
Erhard Ratdolt, Veneza e Augsburgo...............................586 Josep Pradell, em Barcelona............................................675
Nicolas Jenson................................................................ 591 Bodoni, em Parma......................................................... 679
Aldus Manutius e Francesco Griffo................................. 594 A British Letter Foundry de Bell..................................... 686
A Idade de Ouro da Tipografia de França....................... 599 Vincent Figgins.............................................................. 688
Le Bé i.............................................................................601 J.E. Walbaum: Fraktur e Romanas.................................. 690
Antoine Augereau, a primeira vítima da Censura........... 603 Breitkopf: partituras famosas........................................ 692
Geoffroy Tory................................................................ 605 Benjamin Franklin, editor e tipógrafo............................ 694
Claude Garamond......................................................... 609 A American Type Founders Company............................ 696
Jacques Sabon.................................................................614 Máquinas de fundição de tipos .......................................701
Simon de Colines............................................................616 A Kelmscoot Press de William Morris............................ 702
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Intro / página 6

Theodore Low DeVinne................................................. 708 Cassandre...................................................................... 788


Goudy, o excêntrico........................................................710 A primeira etapa da Litografia em Portugal, 1823............ 789
Schriftgießerei Gebr. Klingspor..................................... 714 Rafael Bordallo Pinheiro, mestre da «Lythographia»... 795
Berthold Schriftgießerei, Berlin......................................717
Offset.................................................................. 798
Portugal e Brasil.................................................. 719
Fundição de tipos em Portugal....................................... 720 Gravura................................................................801
O primeiro impressor no Brasil e o despotismo joanino.. 726 Gravura com madeira.................................................... 802
Impressão Régia no Brasil.............................................. 730 Gravura com metal.........................................................805
Água-forte..................................................................... 808
Impressão............................................................ 733
O prelo de madeira......................................................... 734 Serigrafia..............................................................811
Albion e Columbia..........................................................737
O prelo de Lord Stanhope, 1795...................................... 740
Fototipia.............................................................. 813
Washington Press, 1821.................................................. 744 Fototipia a cores..............................................................819
A Estereotipia, 1727....................................................... 747 Fotogravura, Autotipia................................................... 821

Impressoras industriais..................................... 750 Máquinas de escrever.........................................822


As impressoras de König, 1811......................................... 751 Mecanografar e dactilografar..........................................823
As rotativas.....................................................................753 Letras monoespaçadas....................................................832
As minervas....................................................................755 Os mimeógrafos..............................................................836
Plano a plano..................................................................758
Composição mecânica....................................... 838
Imprimir madeira...........................................................761
Hippolyte Marinoni!..................................................... 764 A Typograph de Rogers...................................................839
A Linotype de Mergenthaler.......................................... 840
Litografia............................................................ 770 A Monotype de Tolbert Lanston......................................857
Revolução a cores............................................................771 Fotocomposição............................................................ 866
Alois Senefelder............................................................. 774 Analógica e digital......................................................... 868
Jules Chéret....................................................................785 Diatype e Diatronic.........................................................872
Toulouse-Lautrec.......................................................... 787 Desktop Publishing........................................................875
Adobe, os produtos........................................................ 876
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Intro / página 7

Wayfinding......................................................... 879 Art-Déco glamour.......................................................... 928


Uma introdução nostálgica............................................ 880 Caligrafias no estilo Art-Déco.........................................941
Londres, por exemplo.....................................................883 As Latinas...................................................................... 946
O mapa do Tube............................................................. 884 Brush, a letra pincelada.................................................. 947
Legible London.............................................................. 886 Lettering comercial........................................................ 948
Pictogramas................................................................... 889 Caligráficas do século 21................................................. 949
Metro de Bilbao com a fonte Rotis...................................893 alfabetos elementares...................................................... 951
A Metrolis em Lisboa..................................................... 896 Clãs de fontes..................................................................955
Quebrar dogmas: a Capitolium de Unger....................... 898
Bibliografias....................................................... 959
Estilos de letra....................................................900 Livros sobre Tipografia, publicados em português......... 960
Familias tipográficas?.....................................................901 Bibliografia geral........................................................... 967
Gotische Rotunda.......................................................... 903
Historische Fraktur ....................................................... 905 Índice remissivo................................................. 975
Venezianische................................................................ 907 Índice remissivo............................................................. 975
Garaldes........................................................................ 908 O autor Paulo Heitlinger................................................ 987
Transição....................................................................... 909
As Didones.....................................................................910
As sem-serifas modernas................................................. 913
A Futura......................................................................... 915
A célebre Gill Sans..........................................................916
As Egyptians...................................................................918
Letras de madeira............................................................919
Italiennes....................................................................... 920
Die Moderns...................................................................921
Scripts............................................................................922
Arte Nova.......................................................................923
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Intro / página 8

Bem-vindo!

Q
uando se tornou claro que o meu livro Alfa- Convenções e modos de escrever Como usar este e-book

O
betos não iria ser vendido fora de Portugal, s termos tipográficos portugueses foram Este documento digital proporciona um
quis dar melhor divulgação e continuação frequentemente completados com os res- elevado grau de interactividade. O Índi-
a esta publicação. A solução foi divulgá-la em for- pectivos termos ingleses e alemães, tor- ce de Temas permite saltar directamen-
mato digital. Mas actualizada, e mais abrangente. nado esta publicação (também) num glossário te para a página assi­nalada. O Índice Re-
Senti a necessidade de alargar o âmbito do livro, ilustrado. missivo, no fim do livro, também. Um
para poder integrar seis anos de investigação em Os termos já bem conhecidos pela maioria dos clique em «Temas» leva o leitor de vol-
muitos domínios. Além disso, as experiências feitas leitores deste livro, que ocorrem constantemente ta à página 3. Clique em «Índice Remis-
no Typeface Design e no meio universitário reforça- no universo das letras, do desenho de fontes digi- sivo» para saltar até lá. Os links internos
vam a ideia que o livro deveria de ser alargado, para tais e do Design editorial, não foram assinalad0s – as referências cruzadas – também são
conter a abrangência de temas que o título sugere. com itálicas: font, type, typeface, designer, graphic interactivos. Os hyperlinks exteriores
Deste modo, esta edição digital contêm os melho- design, layout, display, print, download, newsletter, (URLs) activam o seu browser e abrem a
res textos do livro Tipografia e do livro Alfabetos, online, software, web-site, etc. página web em questão.
assim com vários artigos publicados nos Cadernos. Expressões menos comuns, por exemplo, on Boa navegação!
O novo formato, DIN A4 ao largo, leva uma screen ou autohinting, essas sim vão assinaladas com
representação gráfica adequada à leitura on-screen, e itálicas.
tira proveito dos mecanismo de navegação do for- Para mais fácil identificação, as épocas, as esco-
mato PDF. Dei muita atenção ao facto de que cada las, os movimentos culturais e artísticos, as corren-
vez mais documentação está acessível pela Internet. tes ideológicas e também todos os «ismos» foram
O leitor encontrará dezenas de links que lhe facilita- escritos com letra maiúscula no princípio das pala-
rão o acesso a extraordinários sites. vras: Art-Déco, Arte Nova, Art Nouveau, Bar-
A Tipografia demorou 550 anos a evoluir – roco, Calvinismo, Constru­ tivismo, Dadaísmo,
regista-se para 1455 o primeiro livro impresso com Estilo Internacional, Escola Suíça, Humanismo,
tipos móveis de metal – mas hoje assistimos a uma Idade Média, Idealismo, Império Romano, Fun­cio­
grande mudança: cada vez mais o impresso é substi- nalismo, Renascença, Romantismo, Maneirismo,
tuído pelo livro digital.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Intro / página 9

Marxismo, Modernismo, Neo-Classicismo, Protes- Seguindo a mesma linha, optei por grafar todos Esta forma de grafar simplificará a identifica-
tantismo, Rocócó, Surrealismo, Verismo, etc. os nomes de letras, fontes, siste­mas de escrita, carac- ção dos temas deste livro, assim como estará em
As únicas excepções são aquelas doutrinas ou téres tipográficos (assim como todos os nomes de sintonia, sempre que possível, com designações
instituições que optaram conscientemente por estilos de letra), com letra maiúscula no princípio semelhantes, usadas noutras línguas: Transicio-
uma grafia só com minúsculas: neue typographie, das palavras: Antiqua, Blackletter, Bastarda, Capi- nais (Transitionals), Sem-serifas (sans-serif, inglês,
hfg (abreviatura para hochschule für gestaltung, uma talis Monumentalis, Carolina, Chanceleresca, Civi- seriflos, alemão). Também foi considerado impor-
famosa escola em Ulm). lité, Didone, Egípcia, Escrita Direita, Escrita Ver- tante que esta terminologia não esteja em contradi-

T
ambém as disciplinas do saber merece- tical, Fraktur, Garalde, Gótica, Gótica Rotunda, ção com as designações usadas em centenas de web-
ram sempre letra maiúscula: Matemática, Grotesca, Itálica, Kurrent, Latine, Letra Inglesa, -sites, devotados ao Typeface Design comercial.

R
Arquitectura, Geometria, Ciências Natu- Letra Francesa, Moderna, Minúscula, Romana, esta-me expressar um sincero «Muito
rais, Física, etc. De igual modo se assinalam os pro- Scotch, Sem-se­ri­fa, Serifa-grossa, Script, Transicio- obrigado!» aos amigos que me ajuda-
cessos de produção e as tecnologias descritas neste nal, etc. ram a dar melhores conteúdos às seguin-
livro, por exemplo: Banda Desenhada, Branding, tes páginas: Peter Karow, Birgit Wegemann, Jorge
Caligrafia, Composição, Cro­mo­lito­grafia, Design, Silva, José Gameiro, Isabel Medeiros, Dino dos San-
Este­reo­tipia, Fotocom­posição, Foto­grafia, Foto- tos, Miguel Sousa, M.M. Malaquias, Nick Shinn,
montagem, Ilustração, Imprensa, Infografia, Linó- Mark Jamra e o já falecido Kurt Weidemann.
tipia, Marketing, Publicidade, Tipografia, etc.
Janeiro de 2019
Paulo Heilinger
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 10

Prólogo

Glifos de crua beleza. Escrita do Sudoeste. Museu Arqueológico Provincial de Badajóz.


Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 11

A pedra que tudo explicou

A
Escrita hieroglífica egípcia, usada na pri-
meira banda da pedra gravada mostrada ao
lado, ocupa uma posição singular na evo-
lução das escritas ideográficas em transição para
os alfabetos. A Escrita hieroglífica também dispu-
nha duma variante de escrita rápida, mais prática:
a escrita hierática cursiva, utilizada nos textos reli-
giosos sobre papiro. Mais tarde apareceu a Escrita
Demótica, mais popular e muito divulgada; é esta
forma de escrita que forma a parte central da famosa
Pedra de Roseta.

N
o Egipto, por volta de 1.500 a.n.e., foi esta-
belecido um alfabeto fonético com 22 ou
23 glifos, representando letras conso­an­tes;
as vogais não eram registadas. Contudo, os Egíp­
cios, mais interessados no aspecto mágico que no
funcional da sua escrita, nunca substituíram os hie-
róglifos pelos glifos fonéticos que tinham desen­
volvido e aperfei­çoa­do; preferiram usar uma escrita
com forte redun­dância, que combinava aspectos
alfabéticos e fonéticos com os hieróglifos.

A pedra com inscrições encontrada em Roseta (Raschid)


mostra o mesmo conteúdo em três sistemas de escrita:
Hieróglifos, Demótico e Grego. Jean-François Champollion
decifrou as formas escritas egípcias comparando os três textos
da Pedra de Roseta. Ilustração: Wallis Budge, Books on Egypt
and Chaldaea – Volume XVII, The Rosetta Stone. Londres, 1904.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 12

A
Pedra de Roseta foi crucial para a com- Esta estela regista um
preensão dos hieróglifos egípcios. Exibida decreto promulgado em
dentro dum templo, esta estela foi remo- 196 a.n.E., na cidade de
vida a acabou por ser usada como material na cons- Memfis, em nome do rei
trução de um forte na cidade de Roseta (Rashid), Ptolomeu V, registado em
no delta do Nilo. Foi descoberta aí em 1799 por um três formas: o superior

soldado da expedição francesa ao Egipto. está na forma hieroglífica,

A Pedra de Roseta despertou logo enorme inte- o do meio em Demótico e


o inferior em Grego.
resse, pois poderia conter uma tradução do idioma
egípcio, até então por decifrar. As tropas britâni-
cas derrotaram os Franceses no Egipto em 1801, e
a Pedra passou para o Reino Unido. Transportada
para Londres, está em exibição no Museu Britânico
desde 1802, onde é o objecto mais visitado.

A
primeira tradução completa do texto
grego surgiu em 1803; a decifração dos tex-
tos egípcios foi anunciada por Jean-Fran-
çois Champollion em 1822. Os principais facto-
res para esta decodificação foram a descoberta de
que a Pedra oferecia três variantes do mesmo texto
(1799); que o texto em Demótico utilizava caracté-
res fonéticos para os nomes estrangeiros (1802); que
o texto em hieróglifos não só também o fazia, como
tinha semelhanças profundas com o Demótico
(Thomas Young, 1814); e que, além de serem utili-
zados para soletrar estes nomes, os caractéres foné-
ticos também eram utilizados para palavras nativas
do Egípcio (Champollion, 1822–1824).
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 13

Fenícios no Alentejo

O
«Tesouro do Gaio», datavél para o século
vii a.n.E., é um conjunto de pequenas
peças em ouro, prata, marfim e em mate-
riais menos nobres. Foram encontradas em 1966
na Herdade do Gaio, próximo de Sines, e consti-
tuem uma das provas empíricas que os Fenícios/
Púnicos frequentavam as costas do território hoje
português.
Neste tesouro púnico de simbologia egípcia está
figurada, nas arrecadas, a deusa Hathor (uma deusa
muito venerada no Egipto ligada ao amor, ao ero-
tismo, à fecundidade, à maternidade) e gravado em
relevo, no sinete em marfim, o escaravelho de Tut-
mosis III, com o olho de Horus – deus-sol, que pro-
tegia o nascimento das crianças.
Trata-se de um conjunto de jóias de mulher. A
partir das afinidades com o Tesouro de Aliseda, clas-
sifica-se o conjunto do Gaio na matriz tartéssico-
-púnica e estabelece-se o século vii como datação
provável. no Sul de Portugal; considerando que este período
A impressão de luxo é dada pela quantidade das se caracteriza pela presença de objectos típicos do
contas e pingentes e pela filigrana das arrecadas e comércio fenício, como os anforiscos e os colares de
da gargantilha de ouro (na foto), peças centrais do contas de pasta vítrea e de âmbar e as jóias em ouro,
espólio. de que sobressaem as arrecadas e o colar de placas
O «Tesouro do Gaio» constitui um valioso tes- articuladas, que integram o mesmo «Tesouro do
temunho arqueológico e patrimonial, caracterís- Gaio» temas aqui clara evidencia da presença fení-
tico do chamado «Período Orientalizante», um cia/púnica na costa do Alentejo e, deste modo, uma
dos mais expressivos aspectos da I Idade do Ferro bela introdução ao seguinte tema.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 14

O Fenício, primeiro alfabeto fonético

O
berço da maior parte das formas de escrita
modernas foi, uns 3.500 anos atrás, o Pró-
ximo Oriente. Além da escrita hieroglífica
egípcia, apareceram nesta zona a Escrita cuneiforme
suméria e a primeira Escrita alfabética semita –
ambas baseadas em ideogramas. Finalmente foram
os Fenícios, povo semita de navegadores e comer-
ciantes, que criaram o primeiro alfabeto, composto
por 22 consoantes, e que se escrevia da direita para
a esquerda. Era uma escrita consoantica, que asso-
ciava a cada consoante uma vogal correspondente.
Inscrição bilingue, em latim (no topo) e púnico (em baixo).
Os diligentes Fenicios espalharam a sua escrita pela Das 22 letras fenícias derivaram
O latim lê-se da esquerda para a direita; o púnico, que é um
Grécia e pelo resto do Mediterrâneo. importantes sistemas de escrita, derivado do fenício, da direita para a esquerda. O registo
Foram portanto os Fenícios os primeiros a escre- como o Hebraico, o Grego, o Aramaico e relata que o edifício foi pago e dedicado ao novo-rico local
ver com um alfabeto. No próprio termo encontra- o Latino. Também a Escrita do Sudoeste é Annobal Rufus. Teatro romano de Lepcis Magna, Líbia.
mos as duas primeiras consoantes fenícias: alef e Foto: Sebastià Giralt.
um derivado directo do alfabeto fenício.
beth. Por volta de 1000 a.n.e, os Fenícios, ma­ri­nhei­
ros e comerciantes com forte sentido prático, re­­ce­
beram a Escrita Proto-sinaítica e adopta­ram-na gra­ Os sistemas de escrita árabe e hebraico
dual­mente até formularem aquele que seria a base ainda conservam uma característica
de todos os alfabetos usados actual­mente no Oci- obtida do Fenício: escrevem-
dente e por todas (!) as línguas in­do-­europeias. se da direita para a esquerda.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 15

A
s letras fenícias são descendentes directas
do sistema proto-sinaítico. A palavra sinaí­
tico é um adjectivo que significa relativo ao
monte Sinai; contudo, o Proto-sinaítico não é seme-
lhante ao Sinaítico. Até ao século xviii a.n.e., a
Península do Sinai esteve sob o domínio egípcio e o
seus habitantes semitas tomaram um certo número
de signos hieroglíficos para anotarem a sua língua.
Assim como o Proto-sinaítico, também o Fení-
cio é um alfabeto fonético de consoantes, um abjad. Moeda com inscrições gregas e fenícias.
(Um abjad é um sistema alfabético contendo um
glifo por consoante; as vogais foram omitidas nesta
fase arcaica dos sistemas de escrita fonética.)
A maior diferença entre o Proto-sinaítico e o
Fenício é de natureza gráfica. As formas dos glifos
fenícios são nitidamente mais abstractas e lineares,
quando as comparamos com os signos mais picto-
gráficos do Proto-Sinaítico.
Fenícia foi o nome que os Gregos deram, no pri-
meiro milénio a.n.e., à franja costeira do actual
Líbano e Norte de Israel, desde a região de Tri-
poli, no norte, até Akko (Acre), no sul. Os diligen-
tes Fenícios tinham reconhecido a supe­riorida­de de
um alfabeto fo­né­tico sobre os com­ple­xos sistemas
de escrita baseados em pictogramas. E preferiram
não aderir aos sistemas de escrita cuneiformes.

O
Duas estatuetas de argila, uma deusa grávida e um
alfabeto fenício foi decifrado em 1758, cavaleiro montando um cavalo alado, interessantes
pelo abade francês Barthélémy d’An­dlau testemunhos do sincretismo na cultura fenícia,
(1447 – 1476), um letrado do Século das fotografados por J.P. Dalbéra, do Musée des
Luzes, que se apoiou em textos bilíngues (inscri- Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée
http://www.mucem.eu
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 16

ções greco-fenícias da Ilha de Malta), assim como «Desde as idades mais remotas, diversos sistemas de
nas legendas de moedas de Tiro. Primeiro identifi- registo do pensamento, abstractos ou figurativos,
antecederam aquilo que chamamos <Escrita>.
cou nomes próprios (Tiro, Melqart, etc.), a seguir
A invenção do sistema alfabético pelos povos do
iden­tificou palavras simples, e finalmente fez a com- Médio-Oriente, cerca de 1200 anos a.C., foi uma
paração com as versões gregas. A maior dificuldade etapa decisiva na história da Humanidade. Ao
no decifrar residia na falta de textos longos, já que decompor a linguagem falada num determinado
número de símbolos fonéticos (ou letras), o alfabeto
os textos conhecidos se reduziam a dedicatórias aos permitiu que se registassem com uma mesma escrita
deuses e textos em monumentos funerários. todas as línguas daquela região, estabelecendo assim
Pouco a pouco, os arqueólogos desenterraram vínculos muito fortes de comunicação entre os
povos.
manifestações do mesmo alfabeto ao longo das O alfabeto pode ser considerado o primeiro acto de
rotas das expedições marítimas, nos empórios e um certo humanismo mediterrâneo, nascimento
colónias fenícias fundados no Mediterrâneo. e fundamento da nossa cultura e das nossas

A
sociedades modernas.» Ladislas Mandel, 1998.
expansão comercial e cultural fenícia pelo
mundo da Antiguidade foi o principal
motor de propagação do alfabeto que foi
o «pai» de dúzias de outros alfabetos. O comér-
cio com os Fenícios levou à introdução da Escrita do
Sudoeste no território hoje português e espanhol.
O motivo que animou os Fenícios a utilizar um
alfabeto fonético foi o aspecto prático e utilitá-
rio. Os produtores de bens e os comerciantes terão
achado este sistema de escrita apropriado para fazer
registos, relatórios e contas.
Um alfabeto simples, com poucos glifos, mas
extremamente funcional, pois servia para anotar
eficientemente os fonemas de diferentes idiomas.
Para nós, o alfabeto fenício é o mais importante
tronco na árvore genealógica dos alfabetos. O alfa-
beto árabe, o hebraico, o grego e o romano, todos
têm um ascen­dente comum: o alfabeto fenício.
Inscrições em rochas na Península do Sinai.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 17

Deste modo, não admira que o primeiro alfabeto


usado em território português (Escrita do Sudo-
este) também seja um derivado directo do sistema
de escrita dos Fenícios, visitantes assíduos das cos-
tas marítimas da Península Ibérica, onde estabelece-
ram empórios para fazerem comércio com as popu-
lações locais.
Os Fenícios criaram entrepostos comerciais
ao longo das costas do Mediterrâneo, também
em Cádiz, Adra, Almuñécar, Málaga (Espanha),
chegando até às costas atlânticas: Castro Marim,
Tavira, Rocha Branca, Faro, Lagos, Lisboa, etc.

N
o Norte de África fundaram uma das suas
principais colónias: Cartago (= Nova
Cidade). Cartago, situada perto do centro
da cidade de Túnis, na Tunísia, foi uma das grandes
potências da Antiguidade, disputando com Roma
o controlo comercial e militar do Mediterrâneo.
Nessa disputa tiveram origem as três Guerras Púni-
cas, após as quais Cartago foi destruída.
O sistema de escrita fenício continuou em uso,
em forma do Púnico (uma escrita mais cursiva), até
200 – 300 n.e.

Escrita de prestígio

E
No início do primeiro milénio a.n.e., o sistema de scrita fenícia. Museu ao ar livre de descoberto lajes de pedra com cenas de caça,
Karatepe-Arslantas, Turquia. Karatepe, navegação e também religiosas, e forneceram
escrita fenício gozava de prestígio além-frontei-
uma fortaleza dos Hititas, é uma estação inscrições bilingues (fenício e hieróglifos
ras. Os Hebreus e os Arameus, que se instalaram na
arqueológica perto do rio Jeihan, na hititas) — o que facilitou muito a tarefa de
zona do Sinai dois séculos antes, adoptaram várias
Turquia meridional, escavada entre 1946 e decifrar a escrita hitita. Mais imagens em
padrões culturais dos Fenícios – entre eles, o alfa-
1949. As escavações de Karatepe, puseram a www.hittitemonuments.com/karatepe.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 18

beto. E começaram a escrever textos no seu idioma,


usando glifos fenícios.
A partir da primeira metade do século ix a.n.e., a
escrita hebraica tomou um rumo próprio; a escrita
aramaica fê-lo a partir da primeira metade do século
viii a.n.e. A partir do século viii a.n.e., o sistema
fenício deixou de ser «internacional», converten­
do-se num sistema de escrita «nacional», tal como
o Aramaico e o Hebraico. ¶

Bibliografia comentada
Aubet, M. E. Tiro y las colonias fenicias de Occidente. Consejo Sup.
de Invest. Cientificas. Belaterra. 2009.
Calvet, L.-J. Histoire de l’écriture. Plon. Paris. 1996.
Coulmas, Florian. The Writing Systems of the World. Blackwell
Publishers Ltd. 1989.
Cross, F. M. The Invention and Development of the Alphabet. In:
Senner, Wayne M (editores). The Origins of Writing. Lincoln.
Univ. of Nebraska Press. 1991.
Daniels, Peter T.; Bright, William (editores).
The World’s Writing Systems. 1996.
Degering, Hermann. Die Schrift. Atlas der Schriftformen des

E
Abendlandes vom Altertum bis zum Ausgang des 18. Jahrhunderts. ntre os textos mais importantes para a história Photograph Collection da Library of Congress, EUA.
1952.
dos alfabetos, avulta a inscrição em memória de Por baixo da fotografia nesta página, a famosa inscrição
Diringer, David; Freeman, Hilda. A History of the Alphabet.
Ahiram, rei de Biblos, mandada gravar por volta fenícia.
Headley-on-Thames. Gresham Books. 1983.
Diringer, David. History of the Alphabet. 1977. de 1.000 a.n.e. pelo seu filho, sobre um sarcófago Outras inscrições, igualmente de cariz real, remontam à
Diringer, David. The Story of the Aleph Beth. 1958. reutilizado. Esta inscrição, considerada a primeira época persa, quando a cidade-estado de Sidon alcançou
Druet, Roger; Gregoire, Herman. Prefácio de Roland Barthes e verdadeiramente fenícia, integra 19 das 22 letras do uma posição dominante na costa marítima fenícia.
François Richaudeau. La Civilisation de l’Écriture. Artheme alfabeto e já mostra elementos de separação entre as Os seus reis fizeram gravar grandes dedicatórias aos
Fayard & Dessain et Tolra. 1976.
palavras. O sarcófago foi descoberto pelo arqueólogo deuses da cidade e cunhar sobre as suas tumbas avisos
Fischer, Steven R. A History of Writing. Reaktion Books. 2005.
Frankenstein, Susan. Arqueología del colonialismo: el impacto francês Pierre Montet em 1923, no sítio de Jbeil, no aos ladrões que ousassem pilhar os sepulcros. O uso de
fenicio y griego en el sur. Barcelona. Grijalbo-Mondadori. 1997. Líbano (a Biblos histórica), e pertence ao Museu cunhar moedas, que apareceu nesta época, ocasionou a
Nacional de Beirute. Foto: G. Eric and Edith Matson legendagem de moedas com nomes de reis.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 19

Földes-Papp, Károly. Vom Felsbild zum Alphabet:


Die Geschichte der Schrift von ihren frühesten Vorstufen bis zur
lateinischen Schreibschrift. Belser Verlag. Stuttgart. 1984. a H B KLMN O R S T ZP Q R S W X Yh p s t
Günther, H; Ludwig, O. Schrift und Schriftlichkeit.
Ein interdisziplinäres Handbuch. Berlim e Nova Iorque. 1994.
Haarmann, Harald. Geschichte der Schrift. Verlag C.H.Beck.
Escrita fenícia, fonte digital.
München. 2002. Uma História da escrita.
Hans J. Nissen, P. Damerow, R. Englund. Archaic Bookkeeping.
University of Chicago Press. 1993.
Healey, John. The Early Alphabet. London. British Museum. 1990.
Jensen, Hans. Die Schrift in Vergangenheit und Gegenwart. Berlim.
1958.
Logan, Robert K. The Alphabet Effect: The Impact of the Phonetic
Alphabet on the Development of Western Civilization. Nova Iorque.
William Morrow and Company, Inc. 1986.
Mandel, Ladislas. Ecritures, miroir des hommes et des sociétés. Atelier
Perrousseaux éditeur. 1998. Obra também publicada no Brasil,
em 2006, pela Edições Rosari, sob o título Escritas - espelho dos
homens e das sociedades.
Mandel, Ladislas. Du Pouvoir de l’écriture. 2004.
Martín, J.A. Catálogo documental de Los Fenicios en Andalucía.
Junta de Andalucía. 1995.
Naveh, Joseph. The Early History of the Alphabet. Leiden: E.J. Brill.
1982. Também: Magnes Press. Hebrew Univ. Jerusalém. 1987.
Ouaknin, Marc-Alain; Bacon, Josephine. Mysteries of the Alphabet:
The Origins of Writing. Abbeville Press. 1999.
Prados Martínez, Fernando. Los Fenicios, del Monte Líbano a las
Columnas de Hércules. Marcial Pons Editores. 2007.
Seipel, Wilfried (editor). Der Turmbau zu Babel, Ursprung und
Vielfalt von Sprache und Schrift. Catálogo da exposição sobre
Linguagem e Escrita realizada no Kunsthistorisches Museum
Wien. Viena. 2003.
Saggs, H.W.F. Civilization Before Greece and Rome. Yale. Yale
University Press. 1991.
Schmandt-Besserat, Denise. How Writing Came About. University
of Texas Press. 1992.
Tsirkin, J. B. The Phoenician Civilization in Roman Spain. Gerión 3.
1985.
Fenikeliler ait yazı (sistema de escrita fenício)
A Escrita do Sudoeste
Peninsular

A Estela da Abóbada, achada no sítio


arqueológico de Gomes Aires, em Almodôvar,
é uma das poucas que inclui figuração.
No centro, emoldurado pelas bandas com
glifos, vemos um guerreiro armado, em pose
agressiva. Esta estela documenta o primeiro
sistema alfabético usado em Portugal.
Muitas das estelas com Escrita do Sudoeste
provêm do Baixo Alentejo e puderam ser
datadas – aproximadamente –, a partir das
necrópoles a elas associadas.
Estas necrópoles tinham inicialmente túmulos
circulares e depois túmulos elaborados em
forma rectangular.
As datas assinaladas para as pedras funerárias
oscilam entre os séculos vii e v a.n.e.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 21

Fragmento de uma estela exposta no


Museu Arqueológico de Faro, Portugal.
Escrita do Sudoeste. Os glifos são muito
semelhantes aos do alfabeto fenício.
Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 22

Fragmento de uma estela inscrita exposta no


Museu Arqueológico de Badajóz, Espanha.
Escrita do Sudoeste. Os glifos são semelhantes aos
do alfabeto fenício. Bibliografia: La estela inscrita
de Siruela, Badajoz, José M. Otero, José L. Melena,
Universidad de Salamanca. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 23

As primeiras escritas
fonéticas em território
português e espanhol
É para o século vi a.n.e. que se data
a primeira escrita com base fonética na
Península Ibérica. Em muitas etapas da
evolução da Pré-História para a História,
o uso da escrita acompanhou o
desenvolvimento do urbanismo, da
economia mercantil e da plena evolução
das classes dirigentes e elitistas.
Em território ibérico, estes processos Fragmento de uma estela, Museu Arqueológico de Beja.

já tinham sido iniciados nos povoados


fortificados do Calcolítico – mas sem
o aparecimento de uma escrita.

P
ovoados fortificados, centros de poder,
foram iniciados já no Calcolítico (3.000
– 2.000 a.n.e.), mas não foram acompa­ Valores fonéticos dos glifos da Escrita do Sudoeste, segundo o
nhados pelo aparecimento de um sistema de escrita. Museu Arqueológico Provincial de Badajoz, Extremadura, Espanha.
Esta escrita foi importada, muito mais tarde, do
Mediterrâneo. Foi trazida pelos Fenícios e repre-
senta a mais antiga grafia fonética detectada não
só em solo português e espanhol, como em toda a AE HI BKL M N OR ST U Z À Ç Ì ÈÍÎ Ô Û Ùé
Europa Ocidental.
Escrita do Sudoeste, fonte digital.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 24

A chamada Escrita do Sudoeste ou Tartéssica ou As estelas, sejam de carácter funerário,


Sudlusitana, da Idade do Ferro i no Sul de Espanha ou votivo ou cumprindo outras funções,

e Portugal, foi desenvolvida pelos Tartessos, nome são elementos frequentes nos espólios

pelo qual os Gregos conheciam os habitantes das datáveis para a Idade do Ferro europeia.

actuais regiões da Andalu­zia, da Extre­ma­dura espa-


As imagens de espadas e achas de
nhola, do Baixo Alentejo e do Algarve.
ferro, gravadas em relevo nestas estelas
As inscrições que hoje conhecemos foram
expostas no Museu Regional de Beja
maiori­taria­mente achadas nas áreas mais aciden­
(www.museuregionaldebeja.net)
ta­das entre o Alentejo e o Algarve (em especial, na não nos deixam dúvidas sobre o
Serra do Caldeirão), no território das nascentes dos carácter bélico e agressivo das
cursos de água desta região (Sado, Mira, Arade) e sociedades que usavam a Escrita do
dos três subsidiários do rio Guadiana (ribeiras de Sudoeste.
Oeiras, Vascão e Foupana). Em território hoje português e
A zona estende-se até Badajoz, na Extremadura espanhol, na Idade do Ferro verificou-
espanhola. Contudo, há que salientar que desde as se a ocupação dos territórios celtas,
prospecções do casal de arqueó­lo­gos alemães Georg lusitanos e tartéssios pelas legiões
e Vera Leisner (de 1940 a 1960), nunca mais se fez do Império Romano.

alguma prospecção e inventariação arqueo­lógica


sistemática em Portugal. A divisão do período em Idade do

O
Ferro I e Idade do Ferro II, como o fez
s glifos do alfabeto da Escrita do Sudoeste
Armando Coelho na sua obra Cultura
(veja tabela na primeira página do artigo)
Castreja, permite diferenciar com
são claramente derivados do alfabeto
maior precisão as dinâmicas sociais e
feníci0. A escrita teria 27 signos, o número que se
culturais.
regista numa estela aparecida em Espanca (Castro
Verde, Beja); esta inscrição mostra um abecedário
gravado por alguém que possuía destreza, e outro
imitado, por baixo, por um aprendiz.
Nos glifos do Alfabeto de Espanca, os primei-
ros catorze têm formas e valores fonéticos idên­ti­
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 25

cos. Os cinco glifos que se seguem, embora apre-


sentem um traçado semelhante, podem correspon-
der a fonemas diferenciados. Os últimos oito con-
sideram-se relativamente independentes, adopta-
dos para suprir a falta de glifos que completassem
o sistema. Sem contar com as variantes de algumas
letras, conhecemos hoje cerca de 40 glifos diferen-
tes. O que é que nos transmitem?
A escrita foi considerada «complexa» e «inde-
Estela de Siruela, Badajoz. Desenho exposto no Museo
cifrável», mas o facto é que tem sido decifrada, Arqueológico Provincial de Badajoz. Os glifos são muito
pouco a pouco; a sua leitura começa a ser possível. semelhantes aos do alfabeto fenício.
Conhecemos mais de oitenta textos, muitos que são
fragmentos, quase todos gravados em estelas feitas
com a pedra de xisto que abunda na área da sua difu-
são. Alguns textos parecem não ter qualquer con-
texto funerário.

P
odemos ler – foneticamente – uma boa
parte das sequências gravadas nas inscri­
ções, mas ainda não decifrámos os conte-
údos. O que significam? Pouco sabemos sobre a(s)
língua(s) em que estão escritas. Sendo a linguagem
desconhecida, as dificuldades de interpretação dos
textos são grandes, agravadas pela dificuldade de
isolar palavras, pois quase sempre faltam separado-
res. Contudo, já temos um primeiro repertório de
sequências de glifos, que podem corresponder a
«palavras». Existem correspondências com nomes
de origem indo-europeia.

O conjunto de glifos de Espanca.


Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 26

Um conjunto de inscrições funerárias apresenta Estela da Herdade do Pêgo I,


no final uma sequência de glifos, com ligeiras varian- Rio Mira, Ourique, Alentejo.
tes – uma fórmula do tipo «aqui jaz». A compa- Museu Arqueológico de Beja. Era
ração com línguas conhecidas permite incluir o sobretudo em estelas funerárias –

idioma representado nas línguas indo-europeias. pedras tumulares talhadas em xisto


ou grés – que as sociedades do
Admitiu-se a ligação com vestígios toponímicos
Sudoeste ibérico faziam inscrições;
da região. Neste contexto integram-se, por exemplo,
as estelas eram colocadas ao alto
os nomes de lugares terminados em -ipo (aos quais
sobre as sepulturas dos defuntos da
pertence a cidade andaluza de Ventipo, mas também
classe dirigente.
Olisipo, Lisboa) e em -oba e -uba (onde se inclui A Necrópole da Herdade do Pêgo
Ossonoba, Faro, bem como Corduba, Córdova). ocupa um pequeno cabeço de
xisto de vertentes suaves. Nas suas
As características da Escrita do Sudoeste

D
imediações está o habitat com
o ponto de vista da classificação de siste- o mesmo nome, relacionado com
mas de escrita, a Escrita do Sudoeste não é esta necrópole. A necrópole, que
nem propriamente um alfabeto, nem um apresentava o aspecto de uma
silabário, mas sim uma escritura mista, um semi- calçada compacta de xisto, ocupava
-silabário. À semelhança das outras escritas paleo- uma área de 830 m2. Era composta
-hispânicas, apresenta glifos com valor silábico para por 38 monumentos funerários, de

as oclusivas, e glifos com valor alfabético para o que se conservavam, no momento


da escavação, 35, todos justapostos.
resto das consoantes e vogais.
Fotos: ph.
A característica distintiva desta escrita é a siste-
mática redundância vocálica dos signos silábicos, um
fenómeno que nas outras escritas paleo-hispâni-
cas é apenas residual. Este aspecto, descoberto por
Ulrich Schmoll, permite classificar a maior parte
dos glifos desta escrita em silábicos, vocálicos e
consonânticos.
Jesús Rodríguez Ramos, num artigo derivado Escrita do Sudoeste aplicada a uma
da sua tese de doutoramento, explica o carácter da lápide funerária. Museu de Beja.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 27

Escrita do Sudoeste: «De las escrituras paleohis-


pânicas de las cuales tenemos un mínimo de datos
para poder trabajar, sólo nos podemos plantear la
sudlusitana como la más próxima al modelo feni-
cio. La forma de sus signos es la más similar al feni-
cio (más apartada está la íbera meridional y mucho
más la levantina) y es la más antigua documentada
(al menos desde los siglos vi – v a.C.).»
«El funcionamiento de la escritura sudlusi-
tana no se conoce a la perfección, pero hay algu-
nos aspectos claros. Se trata de un alfabeto redun-
dante, no algún signario prefenicio. Un semisilaba-
rio, en el que de forma paralela al íbero se dispone
de cinco signos para cada uno de los tres órdenes de
consonantes oclusivas (verosímilmente velar, den-
tal y labial); correspondiéndose en principio cada
uno al uso exclusivo ante un signo vocálico especí-
fico. La apariencia formal de la escritura es como si
a cada silabograma del íbero se le añadiera sistemá-
ticamente el signo de la vocal ya incluida en dicho
silabograma (ba + a, be + e, etc.) pero, desde un
punto de vista estructural y funcional, corresponde
a un alfabeto.»
«Con todo, las inscripciones que han llegado

A
hasta nosotros no siempre se atienen ortodoxa- que deben corresponder a tradiciones epicó- s estelas apresentam uma escrita sinistrorsa (escrita
mente a la regla general, sino que se aprecian lo que ricas, por lo que son de difícil clasificación y que se lê da direita para a esquerda), de estrutura
parecen ser simplificaciones y evoluciones diversas complican sobremanera el establecimiento de semi-silábica, datável para os séculos vii e vi a.n.e.,
en un grupo minoritario; además de unas pocas ins- regularidades a la hora de analizar el material.» derivada do alfabeto fenício. O abundante uso de vogais

cripciones que utilizan formas de signos atípicas y Fim da citação. abre a hipótese de estarmos perante uma língua falada num
limitado espaço geográfico. Estela fotografada no Museu de
Almodôvar. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 28

E
ntretanto, embora a lentíssimo conta- Estela da Fonte Velha, Bensafrim.
-gotas, os quase inertes administrado- Como se verifica em boa parte das estelas
res da Arqueo­logia portuguesa permitem grafadas com a Escrita do Sudoeste, o texto
algum acesso à realidade das sociedades da época. é enquadrado por duas linhas paralelas,
Uma necrópole da Idade do Ferro (descoberta que definem o alinhamento dos glifos.

há 37 anos!) abriu em 2008 ao público: a Necró-


A distribuição e a organização do texto são
pole do Pardieiro, no concelho alentejano de Ode-
quase sempre parecidas. No modelo mais
mira. Podemos agora visitar dez sepulturas num
frequente, vemos uma única sequência
sítio arqueo­lógico onde foram achadas três lápi-
contínua, em forma de U invertido, iniciada na
des epigrafadas com Escrita do Sudoeste e duas este-
parte inferior direita e terminada no lado oposto.
las decoradas com marcas de pés, no Monte do Par-
dieiro, a cerca de três quilómetros de Corte Malhão, A orientação sinistrorsa é a mais frequente:
na freguesia de São Martinho das Amoreiras.

N
da direita para a esquerda. A posição dos
as sepulturas do Pardieiro também foram caractéres é extroversa: o topo dos glifos está
achadas prendas funerárias, como colares dirigido para o exterior da estela; a linha de base
de contas de pasta vítrea e de âmbar, pin- está orientada para o centro.
gentes de cornalina (ágata, pedra preciosa), peças
de cerâmica e algumas armas de ferro, como facas e Apesar de se tratar de um fenómeno geográfica
pontas de lança. e cronologicamente limitado, a existência de
Outro sítio visitável, Fernão Vaz, está integrado muitas particularidades atípicas do padrão

no Circuito Arqueológico da Cola, situado a cerca mediano faz crer que não se praticou uma
grande uniformização, pois as inscrições
de 15 km da vila de Ourique, e ao qual se tem acesso
conhecidas mostram diversos particularismos.
pela estrada IC1, que liga Lisboa ao Algarve. A par-
tir de 1970, os arqueólogos conseguiram locali-
zar em Fernão Vaz vários monumentos funerá-
rios, onde foram recolhidas inscrições com Escrita
do Sudoeste, juntamente com armas de ferro, cerâ-
micas de origem mediterrânea, jóias fenícias, anéis
com escaravelhos egípcios – objectos provenientes
do Mediterrâneo Central e Oriental.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 29

Estas descobertas permitiram identificar uma


civilização entre os finais do século viii e o século
v a.n.e.; agora faltava perceber a dinâmica social dos
habitantes desta zona e a forma como se relaciona-
vam com os empórios fenícios e as importações de
elementos culturais trazidos por estes comerciantes.

P
ouco nos interessa conhecer um sistema
de comunicação social – como é o caso da
Escrita do Sudoeste – se não o consegui-
mos relacionar com a organização social e política
das sociedades que o usaram. Para além de várias
descrições fenomenológicas, parece ser Virgílio-
-Hipólito Correia o único cientista que tentou per- Necrópole de Fonte Velha de Bensafrim (Lagos): lápides a vez de António dos Santos Rocha (1853 – 1910) bisbilhotar
ceber a dinâmica da sociedade que «honrava» os com Escrita do Sudoeste. Segundo Caetano de Mello Beirão, o local. Sobre as estelas com escrita do Sudoeste presentes
seus elementos de elite (que controlavam os centros 1986. nesta necrópole, Virgílio Hipólito Correia (1997) procedeu à
de poder da região) com estelas funerárias escritas, (Beirão é um dos especialistas desta área.) Nas proximidades sua sistematização. As duas primeiras estelas – Fonte Velha I
entre os séculos viii e v a.n.e. da Fonte Velha de Bensafrim (Lagos, Algarve) descobriu-se (J.1.3) e II (J.1.4) – haviam sido oferecidas a Estácio da Veiga
Refere este autor «uma situação conjuntural em um local habitado durante a I. Idade do Ferro, cujos habitantes em 1878 pelo prior de São Sebastião de Lagos. A estas somou-

que esses centros de poder não estavam verdadeira- implantaram estelas nas sepulturas dos seus membros de elite, se-lhe uma terceira estela – Fonte Velha V (J.1.5) – fruto das

mente nucleados, ou seja: em certa medida, que cre- usando a Escrita do Sudoeste. A variadade das inscrições nas escavações no local e que estaria reutilizada numa sepultura
estelas de Bensafrim é ampla e a distribuição geográfica dos (Hübner, 1893). Igualmente reaproveitada na construção de
mos ser correlativa à falta de nucleação de popula-
vários grupos também se revelou bastante complexa. uma outra sepultura estaria a estela recolhida por António
ção e à sua incompleta urbanização, vários tipos
A paleografia que distingue estes grupos mostra tendências dos Santos Rocha – Fonte Velha VI (J.1.1) –, hoje albergada no
de núcleos concentravam em si distintos tipos de
sistemáticas, que podem eventualmente corres­ponder a Museu Municipal da Figueira da Foz.
poder. Esta situação, que não tem sido suficiente-
distintas estruturas de ensino e apren­diza­gem; estruturas A estas quatro estelas, somar-se-ia ainda uma outra – Fonte
mente compreendida, nem conceptualmente, nem dotadas de alguma solidez e dura­bilidade. Estes grupos (clãs?) Velha III (J.1.2) – adquirida por José Leite de Vasconcellos
em termos de restituições históricas produzidas distinguem-se no terreno por uma linha divisória que atravessa para o Museu Nacional de Arqueologia. Nesta instituição
pela historiografia, é, quanto a nós, fulcral em toda as serras algarvias. encontram-se, desde então, as estelas I, II, III e V. Virgílio
a envolvência arqueológica do fenómeno da escrita No âmbito do projecto da Carta Arqueológica do Algarve Correia (1996) considera que estas epígrafes reportam-se à 3ª
(…) e dos problemas do período orientalizante, em (1877-1878), a Necrópole de Fonte Velha de Bensafrim foi fase da evolução da Escrita do Sudoeste, atribuindo-lhes uma
que a escrita se integra». alvo das atenções de Estácio da Veiga em 1878. Em 1897, foi cronologia do século VI a.n.E.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 30

E
stela com Escrita do Sudoeste, achada na Herdade do Monte Gordo,
freguesia de Rosário (Almodôvar), em plena planície alentejana, entre o
conjunto de Ourique e de Neves/ Corvo, fora da área serrana onde tem
ocorrido estelas em maior número. Encontrava-se reaproveitada como
umbreira de um Monte junto da estela pré-histórica do Monte Gordo e numa zona
onde devem ter aparecido 8 espetos de bronze (Vasconcellos, 1933).
A estela encontra-se mal conservada, mantendo-se em mau estado parte
do campo epigráfico. Nele se inscreveu um texto relativamente extenso, que
constituirá contributo relevante para o corpus textual associado a esta Escrita.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 31

Cerâmica de engobe vermelho com Escrita do


Sudoeste. Um fragmento recolhido numa escavação
no castelo de Moura, no âmbito de trabalhos
dirigidos pelo arqueólogo José Gonçalo Valente,
e inserido num conjunto material e estratigráfico
Estela de Capote, Higuera do século IV a.n.E. Neste mesmo tipo de cerâmica,
la Real (Badajóz). Foto: cronologias mais recuadas haviam sido indicadas

Vicente Novillo. 2005. por um fragmento proveniente do Castillo de Doña


Blanca – século VIII/VII –, e indiciadas ainda pelos
Catálogo de Estelas
grafemas que encontramos nas peças de Medellín e
Decoradas del Museo no Castro da Azougada, com cronologias dos séculos
Arqueológico Provincial VI e V a.n.E. O fragmento de Moura é importante
de Badajoz, Consejería pelo contexto arqueológico onde surge, com uma

de Cultura, Junta de cronologia segura. De acordo com a leitura de


Amílcar Guerra, à parte conservada deve ler-se:
Extremadura, Espanha.
*nabaor*, podendo provavelmente a primeira letra
de que se conserva o pequeno sector ser um a, pelo
que teríamos – com a peculiaridade de não haver
redundância – ]anabaor[.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 32

Estela da Cerca do Curralão.


No âmbito das relocalizações efectuadas em
2008 pelo Projecto Estela foi possível determinar
o local da descoberta acidental, no decorrer de
trabalhos agrícolas à mais de 30 anos, da estela
da Cerca do Curralão (Santos, 1980; Beirão,
Gomes, 1980: 25; Beirão, 1986: 134, Inscrição nº63;
Correia, 1996: 133, 165 e Untermann, 1997: 264,
265; inscrição J.11.3).
O local é situado na Ribeira de Odelouca,
importante linha de água que articula a
distribuição e a passagem entre as pequenas
povoações, naquela que coincide hoje na
delimitação administrativa concelhia e regional
entre o Alentejo (Ourique e Almodôvar) e o
Algarve (Silves).
Nesta área já era conhecido um núcleo de
estelas, nomeadamente as estelas da Corte do
Freixo e de São Martinho (Cortes, 1999). A este
conjunto pode-se agora associar com segurança Descoberta em 1979, a estela funerária procedente da Cerca do
a localização exacta da já conhecida estela da Curralão em Almodôvar, apresenta texto dextrorso embora disposto
Cerca do Curralão, cuja proveniência do achado em boustrophedon, onde se reconhecem 17 letras completas e 8
era incerta e referida a “local impreciso” e de incompletas, constituindo fórmula funerária, possivelmente formada
“cartografia impossível” (Correia, 1996: 133 e 165). por seis palavras. Estas corresponderão a nome próprio, etnónimo
A estela da Cerca do Curralão pode ser vista no menor, patronímico, cognome ou gamonímico e a etnónimo maior,
Museu de Arqueologia e Etnografia do distrito de usado como origónomo.
Setúbal, na exposição permanente aí patente. O estudo das epígrafes permite concluir que a Escrita do Sudoeste
Peninsular é alfabética e expressa uma língua indo-europeia, que
usou sete vogais e apresenta bom número de características fonéticas
e gráficas, permitindo integrá-la na grande família das escritas
arcaicas.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 33

Achados com Escrita do Sudoeste no


contexto geográfico dos outros sistemas
de escrita praticados na Península Ibérica
antes da invasão romana. Mapa exposto no
Museo Arqueológico Provincial de Badajoz,
Extremadura, Espanha.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 34

F
ace A do chumbo da Bastida de les Alcuses outras escritas paleohispânicas (à excepção do alfabeto
(Moixent, Valência). A Escrita Ibérica greco-ibérico), esta escrita tem glifos para consoantes
Meridional (ou Suroriental) é uma escrita similar e vogais, e signos que representam sílabas, como os
à Escrita do Sudoeste. Contudo, esta expressa silabários.
algo como a «língua tartéssica», enquanto que a A sua utilização é datada entre os séculos iv e ii a.n.e.
Escrita Ibérica Meridional expressa a «língua ibérica», no Sudeste da Península Ibérica (Anda­luzia Oriental,
como o fazem também a Escrita ibérica Nororiental Murcia, Albacete, Alicante e Valên­­cia). Escrevia-se da
e o alfabeto greco-ibérico. Como a maior parte das direita para a esquerda, como a Escrita do Sudoeste.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 35

B
ronze de Cortono. Proveniência
desconhecida. Sistema de
escrita: Signário ocidental.
Esta escrita exprime a língua
celtibérica. É uma adaptação directa
da Escrita Ibérica Nororiental. Como
a maior parte das outras escritas
páleo-hispânicas, integra glifos
que representam consoantes e
vogais, como os alfabetos, e signos
que representam sílabas, como os
silabários. Foi utilizada nos séculos
II e I a.n.E., no interior da Península
Ibérica (Guadalajara, Soria, Zaragoza).
Escrevia-se quase sempre da esquerda
para a direita.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 36

N
a Idade do Ferro peninsular, os contac- Sítio arqueológico de Fernão Vaz.
tos e o comércio a média e a longa distân- Ruínas do edifício rectangular descrito no
cia, com comerciantes fenícios, eram con- texto. Fernão Vaz designa os restos de um
trolados pelas élites locais. Já Maria Eugenia Aubet povoamento da Idade do Ferro, com uma

salientara em 1982 que a interacção com as regi- ocupação posterior medieval-islâmica.


Este pequeno sítio faz parte do Circuito
ões orientais do Mediterrâneo era controlada pelo
arqueológico do Castro da Cola, um
estrato dominante da sociedade.
percurso que surgiu como aproveitamento
A «penetração orientalizante» foi um processo
de trabalhos de arqueo­logia realizados no
de afirmação de uma élite, e a sua difusão na socie-
concelho de Ourique, no Alentejo.
dade peninsular foi um instrumento para garantir
A selecção dos locais foi orientada pela
essa dominância. Virgílio-Hipólito Correia disse a visibilidade dos sítios, mas também de
este propósito: «É indispensável abordar os fenó- modo a contribuir para desvendar uma
menos políticos se se quer com­pre­ender os fenóme- paisagem organizada em torno do rio Mira,
nos orientalizantes, entre eles a escrita.» que funcionou como elemento aglutinante

E
ntre os vários tipos de povoamento pratica­ das populações deste território.
dos nos séculos viii a v, foram importantes Dos cerca de 30 sítios conhecidos, foi
alguns povoados não-urbanos, mas locais seleccionado um conjunto de 15 que,
centrais de extensões territoriais significativas, que pelo seu estado de conservação, reuniam
incorpo­raram funções económicas e rituais. Um condições para uma apresentação ao

sítio deste tipo é Fernão Vaz – um edifício de planta público: os monumentos megalíticos de
Fernão Vaz 1, Fernão Vaz 2 e Nora Velha,
regular, composto por quatro longos compartimen-
o povoado calcolítico do Cortadouro, as
tos, de planta semelhante à dos Armazéns de Tos-
necrópoles da Idade do Bronze de Alcaria
canos. O acesso é feito por outro grande comparti-
1, Alcaria 2 e Atalaia, os povoados da Idade
mento rectangular, que forma um dos lados de um
do Ferro Porto das Lages e Fernão Vaz, as
grande pátio, onde se entra por um vestíbulo monu-
necrópoles e monumentos funerários da
mental com uma lareira proeminente. Idade do Ferro de Fernão Vaz, Nora Velha
Ao lado desta entrada, abrindo para o lado 2, Vaga da Cascalheira, Casarão e Pego da
oposto, existem duas outras salas; a do lado sul terá Sobreira e o povoado fortificado medieval
funcionado como santuário ou como depósito de (islâmico e cristão) da Cola. Foto: ph.
objectos rituais. Um raro conjunto de objectos,
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 37

incluindo um obelos, dois kiathoi e um vaso, tornam mordial na identificação de sepulturas de prestígio.
provável a hipótese de que algum tipo de libação ou Quer as inscrições, quer os grandes monumentos
ritual tivesse tido lugar nesta sala, ou noutra sala do funerários têm uma larga distribuição por muitas
edifício a que esta serviria de depósito. necrópoles que, na maioria dos casos, estão associa-
Neste edifício terão sido centralizadas várias das a pequenos povoados e não a centros urbanos.»
actividades de exploração de recursos naturais: a «O padrão de distribui­ção das inscrições e dos
cerca de 300 metros situava-se uma jazida mineira, sítios associados parece ser função da dispersão de
explorada no Calcolítico e de novo na Idade do recursos naturais. Assim, se as inscrições são indi-
Ferro; da exploração agrícola dependente de Fer- cador de um alto estatuto social na sociedade da
não Vaz conhece-se o pequeno habitat de Porto das época, esse estatuto estava directamente ligado a
Lages. unidades demográficas orga­nizadas em pequenos

F
ernão Vaz parece ser um paradigma, pois grupos, dispersos, que explo­ravam directamente
este padrão reproduz-se por outros povoa- áreas localizadas de recursos naturais particular-
dos dispersos pela planície do Baixo Alen- mente ricos.»
tejo. Também existiram povoados fortificados;
na zona de Fernão Vaz tal povoado terá existido A Estela de Mesas do Castelinho

O
sobre uma elevação próxima. Vários grandes monu­ sítio arqueológico de Mesas do Castelinho
mentos funerários rodeiam a área de Fernão Vaz. foi um povoado fortificado com quase três
À ocupação antiga de Cola pertenceram uma hectares e há nele vários vestígios da Idade
espada do Bronze Final, elementos de foice de sílex, do Ferro. O povoado terá sido fundado no século iv
uma fíbula de cotovelo e várias mós. À volta deste ou v a.n.e. As campanhas arqueológicas aí realiza-
povoado encontram-se várias necrópoles (Azinhal, das desde 1987 permitiram descobrir várias fortifi-
Mamoa do Marchicão, Nora Velha II e a reutiliza- cações, construídas na Idade do Ferro.
ção do Tholos da Nora Velha). A Estela de Mesas do Castelinho (imagem),

R
esume Virgílio-Hipólito Correia: «Com achada em Setembro de 2008 em bom estado de
os dados disponíveis, é sustentável que os conservação, é notável pela quantidade dos glifos
habitats não fortificados se distribuíam presentes. Com 86 signos, é a estela com a inscri-
de maneira semelhante à epigrafia, um factor pri- ção mais extensa de Escrita do Sudoeste. Contudo,

Estela de Mesas do Castelinho


Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 38

a bela peça não se encontrava numa necrópole; foi


descoberta por mero acaso numa zona já prospec-
tada pelos arqueólogos, com a inscrição virada para
baixo.
O mais recente achado de uma estela com Escrita
do Sudoeste deu-se no ano de 2008, durante pros-
pecções na povoa­ção de Corte Pinheiro, na zona
de Loulé. A Estela de Corte Pinheiro foi recolhida
pelos arqueó­logos Samuel Melro e Pedro Barros,
protagonistas do Projecto Estela. ¶

Bibliografia Escrita do Sudoeste,


Escritas ibéricas

Antunes, A. S. Testemunhos de literacia na margem esquerda do


Baixo Guadiana: os grafitos. In: Um conjunto cerâmico da
Azougada. Em torno da Idade do Ferro Pós-Orientalizante da
margem esquerda do Baixo Guadiana, MNA, Lisboa, 2010.
Barros, P., Melro, S. E Santos, P. J. Projecto Estela: primeiros
resultados dos trabalhos nas serras de Mú e Caldeirão. Revista
Xelb, 10, Silves, 2010.
Correa, J. A. R. Reflexiones sobre la lengua de las inscripciones en
escritura del sudoeste o tartesia, Palaeohispanica, 9, Institución
Fernando el Católico e CEACP, 2009.
Correia, V. H. A escrita do sudoeste: uma visão retrospectiva e
prospectiva, Palaeohispanica, 9, Institución "Fernando el

F
Católico" e CEACP, 2009.
ragmento de estela funerária, com Escrita do Sudoeste, proveniente de Alagoas, Salir, Algarve. Museu de
Gomes, M. V. Estela epigrafada, da I Idade do Ferro, da Cerca do
Curralão (Almodôvar, Beja), Musa, 3, MAEDS. 2010. Loulé, Algarve, Portugal. Foto: ph. A distribuição espacial das estelas revela uma concentração na serra de
Arruda, Ana Margarida. A Idade do Ferro pós-orientalizante no Mú e Caldeirão, entre o Algarve e o Baixo Alentejo. Aqui foram assinaladas dois conjuntos, um a Sul, na
Baixo Alentejo. Revista Port. de Arqueologia. Vol 4. nº 2. 2001. transição da Serra com o Barrocal, entre Benafim e Salir, onde foram encontradas as estelas da Fazenda
— Los fenícios en Portugal: Fenícios y mundo indígena en el centro y das Alagoas, Viameiro e Barradas e que com as estelas encontradas em Bensafrim (Lagos) e São Bartolomeu de
sur de Portugal. Cuadernos de Estudios Mediterráneos.
Messines (Silves) traçam o limite Sul da concentração de estelas com escrita do Sudoeste. O outro, a Norte, em
Barcelona. 1999-2000.
torno das Ribeiras do Vascãozinho, Vascanito e do Vascão, revela uma das três principais concentrações deste
tipo de vestígios epigráficos, que engloba sítios arqueológicos localizados em Loulé e em Almodôvar. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 39

— La epigrafía tartesia. In: Hertel, D.; Untermann, J. (editores).


Aubet, M.E. Zur Problematik des orientalisierenden Horizontes auf
Andalusien zwischen Vorgeschichte und Mittelalter. Köln-
der Iberischen Halbinsel. In: Niemeyer, H.G. (ed.) Phönizier im
Weimar-Wien. Böhlau, pp. 75-114. 1992.
Westen. Mainz. Madrider Beiträge 8, pp. 309-31. 1982.
— El signario de Espanca (Castro Verde) y la escritura tartesia. In:
Beirão, Caetano de Melo. Cinco aspectos da Idade do Bronze e da
Untermann, J.; Villar, F. (eds). Lengua y cultura en la Hispania
sua transição para a Idade do Ferro no Sul do país. Actas das ii
prerromana. Actas del V coloquio sobre lenguas y culturas
Jornadas Arqueológicas da Associação dos Arqueólogos
prerromanas de la Península Ibérica (Colonia, 1989).
Portug. Lisboa. AAP, II. 1972.
Salamanca. Universidad, pp. 521-562. 1993.
— Une civilization protohistorique du Sud du Portugal. Paris. De
— La epigrafía del Sudoeste: Estado de la cuestión. In: Villar, F.;
Boccard. 1986.
Encarnação, J. d’ (eds). La Hispania prerromana. Actas del VI
— Epigrafia da I Idade do Ferro do Sudoeste da Península Ibérica: coloquio sobre lenguas y culturas prerromanas de la
novos dados arqueológicos. In: Estudos orientais, vol. 1. Presenças Península Ibérica (Coimbra, 1994). Salamanca, Universidad;
orientalizantes em Portugal. Da Pré-História ao período romano. Coimbra, Universidade, pp. 65-75. 1996.
Lisboa. Instituto Oriental. 1990.
— La epigrafia del suroeste. In: Arqueologia Hoje I: Etno-
— Novos dados arqueológicos sobre a área de Fernão Vaz. In: arqueologia. Faro, Univ. do Algarve, pp. 132-145. 1990.
Manjarres, J. e Alvar, J. (eds.) Homenaje a J. Mª Blazquez.
— El pueblo de las estelas: Un problema epigráfico-lingüístico. In:
Madrid, Ed. Clásicas, pp. 285-302. 1994.
Las lenguas paleohispánicas en su entorno cultural (Curso da
— Grafitos da Idade do Ferro do Centro e Sul de Portugal. Actas del la U.I.M.P.P., 4/9-X-1993). Valencia: Real Academia de
III Coloquio sobre Lenguas y Culturas Paleohispanicas. Cultura Valenciana, pp. 233-250. 1996.
Salamanca, pp. 465-502. 1985.
Correia, Virgílio-Hipólito. Algumas considerações sobre os centros
Beirão, Caetano de Melo; Correia, V. H. A cronologia do povoado de poder na Proto-história do Sul de Portugal. Revista de
de Fernão Vaz. Revista Conimbriga, 30, pp. 5-11. 1991. Guimarães, Volume Especial, II, Guimarães, pp. 699-714.
Beirão, Caetano de Melo; Gomes, M. Varela. A I Idade do Ferro 1999. Uma discussão competente dos contextos sociais da
no Sul de Portugal, Epigrafia e Cultura. Lisboa, MNAE, Cat. região e do período em questão.
Exp. 1980. — A epigrafia da Idade do Ferro do Sudoeste da Península Ibérica.
Beirão, Caetano de Melo, Tavares da Silva, C., Gomes, M.V. e Porto. Editora Etnos. 1996.
Gomes, R.V. Depósito votivo da II Idade do Ferro de Garvão. — Os povoados da Idade do Ferro do Sul de Portugal. In: De Ulisses
Notícia da primeira campanha de escavações. Revista O a Viriato: o primeiro milénio a.C. Lisboa. Ministério da
Arqueólogo Português, IV-3, pp. 45-135. 1985. Estela funerária com Escrita do Sudoeste. Museu de Cultura. pp. 82-87. 1996.
Chamorro, Javier G. Survey of Archacheological Research on
Almodôvar, Alentejo, Portugal. Foto: ph. — A escrita pré-romana do Sudoeste peninsular. In: De Ulisses a
Tartessos. American Journal of Archaeology, Vol. 91, Nr 2, 4. Viriato: o primeiro milénio a.C., pp.88-94, 1996.
pp. 197-232. 1987.
Faria, António Marques de. Uma inscrição em caracteres do
Coelho, L. Epigrafia prelatina del S. O. peninsular portugués. Actas Sudoeste achada em Mértola. Revista Vipasca. Aljustrel. 3, 1994.
del I Coloquio sobre Lenguas y Culturas Prerromanas de la Correa, José Antonio. Los semisilabarios ibéricos: algunas
cuestiones. ELEA 4, pp. 75-98. 2004. Faria, António Marques de; Soares, António M. Monge. Uma
Península Ibérica (Salamanca, 1974). Salamanca:
— Singularidad del letrero indígena de las monedas de Salacia (A. inscrição em caracteres do Sudoeste proveniente da Folha do Ranjão
Universidad, pp. 201-211. 1976.
103). Numisma. Madrid. 177-179, pp. 69-74. 1982. (Baleizão, Beja). Revista Portuguesa de Arqueologia 1-1, 1998.
— Inscrições da necrópole proto-histórica da Herdade do Pêgo,
— El signario tartesio. In: Gorrochategui, J.; Melena, J. L.; Frankenstein, S. Regional development in the first Millennium BC:
Ourique. O Arqueólogo Português III- 5, pp. 167-180. 1971.
Santos, J., (ed.) Studia palaeohispanica. Actas del IV coloquio The Phoenicians in Iberia. In: Kristiansen, K. e Jensen, J.
Collis, J. Reconstructing Iron Age society. In: Kristiansen, K. & (editores). Europe in the First Millennium B.C. Sheffield
Jensen, J. (eds.) Europe in the First Millennium B.C. Sheffield sobre lenguas y culturas paleohispánicas (Vitoria/Gasteiz,
1985), Vitoria-Gasteiz: Universidad del País Vasco, pp. 275- Archaeological Monographs, 6, pp. 41-4. 1994.
Archaeological Monographs, 6, 1994.
284. 1987.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 40

Guerra, Amilcar. Novos monumentos epigrafados com escrita do Samuel Melro, Pedro Barros e Amílcar Guerra. Projecto Estela:
Sudoeste da vertente setentrional da Serra do Caldeirão. Revista do museu para o território. Revista Almadan online. n.º 16,
Portuguesa de Arqueologia, 5-2, 2002. Descreve a Estela de 2008. Centro de Arqueologia de Almada. www.almadan.
São Martinho, São Marcos da Serra. publ.pt
— A Escrita do Sudoeste, In: A Escrita das Escritas, coordenação Sauren, Herbert; A. Sidarus. As lápides de escrita ibérica do
de L.M. Araújo. Lisboa. Museu das Comunicações. 2001. Museu Regional de Beja - Leitura e tradução. Actas das III
Gomes, Mário Varela. Estela epigrafada e necrópole da Idade do Jornadas, tomo I. Beja. 2005.
Ferro, de Barradas, Benafim (Loulé). Revista Al-ulyã, 5, Loulé. — The Word in Punic and Iberian Inscriptions. Boletín de la
Câmara Municipal de Loulé, 1996. Asociación Española de Orientalistas. Madrid. 41, 2005.
Hertel, D.; Untermann, J., (editores). Andalusien zwischen 279-286.
Vorgeschichte und Mittelalter. Köln-Weimar-Wien. Böhlau. — The Iberian inscriptions deciphered. Internal proves. El Periodo
1992. Orientalizante. Actas del III Simposio Internacional de
Hoz, Javier de. El desarrollo de la escritura y las lenguas de la zona Arqueología de Mérida: Protohistoria del Mediterráneo
meridional. Tartessos, pp. 523-587. 1989. Occidental (2003). CSIC, Instituto de Arqueología. Mérida.
Anejos de Esp 35. 2005. 519-534.
Hoz, Javier de. El origen de la escritura del S.O., Actas del III
Coloquio sobre lenguas y culturas paleohispánicas, 1985. Schmoll, Ulrich. Die südlusitanischen Inschriften. Wiesbaden.
1961.
Hoz, Javier de. El origen oriental de las antiguas escrituras y el
desarrollo de la escritura del Algarve. In: Estudos orientais, vol.1. Soares, A.M.M. Povoado da Misericórdia (Margem esquerda do
Presenças orientalizantes em Portugal. Da Pré-História ao período Guadiana, Serpa). Ocupações humanas e vestígios metalúrgicos.
romano. Lisboa. Instituto Oriental. 1990. Revista Vipasca, 5, pp. 103-116. Aljustrel. 1996.
Lopez Castro, J. L. La colonización fenícia en el Sur de la Península Tavares, A. A. (ed.) Os fenícios no território português. Estudos
Ibérica. 100 años de investigación. In Actas del Seminário La Orientais. Actas do colóquio Os fenícios no território português:
colonización fenícia en el Sur de la Península Ibérica. 100 años de estado da questão. Lisboa 1990. Lisboa. Instituto Oriental da
investigación. Almeria, pp. 11-81. 1992. Universidade Nova de Lisboa, 4. 1993.
Navarro, António José Lopes. A escrita pré-romana do Algarve e Torres Ortiz, M. La cronología absoluta europea y el inicio de la
sudoeste: estudo e decifração. 2.ª ed. Faro. Tipografia União. Fragmento de uma estela funerária, com Escrita do colonización fenicia en Occidente. Implicaciones cronológicas en
1990. Sudoeste, proveniente de Vale dos Vermelhos, Algarve. A Chipre y el próximo Oriente. Complutum. Madrid:
Universidad Complutense. 9. pp. 49-60. 1998.
Naveh, J. Early History of the Alphabet. Jerusalém. The Magnes estela de Monte dos Vermelhos foi encontrada há mais de
Press. 1982. Tovar, A. The ancient languages of Spain and Portugal. Nova
100 anos num curral. Museu de Loulé, Algarve, Portugal. Iorque. 1961.
Rocha, A. dos S. Estações pré-romanas da Idade do Ferro nas
Foto: ph. / Foto oficial. Velaza, Javier. Epigrafía y lengua ibéricas. Barcelona. 1996.
vizinhanças da Figueira. In: Memórias e Explorações
Arqueológicas. II. Coimbra. Universidade de Coimbra. 1971. Wagner, C. Balance de la investigación durante los ochenta sobre
Untermann, Jürgen. Monumenta Linguarum Hispanicarum. IV:
Rodríguez Ramos, Jesús. La escritura ibérica meridional. Tartesos y colonizaciones prerromanas en la Península Ibérica y
Die tartessischen, keltiberischen und lusitanischen Inschriften.
Zephyrus 55. pp. 231-245. 2002. estado actual de la cuestión. In: Tartesos y el periodo
Wiesbaden. Dr. Ludwig Reichert Verlag. 1997.
orientalizantes. Hispania Antiqua, 17, pp. 419-434. 1993.
— La lectura de las inscripciones sudlusitano-tartesias. Faventia — Monumenta Linguarum Hispanicarum. III: Die iberischen
22/1. pp. 21-48. 2000. Online em — Santuarios, territorios y dependencia en la expansión fenicia
Inschriften aus Spanien. Wiesbaden. Dr. Ludwig Reichert
ddd.uab.es/pub/faventia/02107570v22n1p21.pdf arcaica en Occidente. Antiguedad: Religiones y Sociedades
Verlag. 1990.
(ARYS), 3, pp. 41-58. 2000.
— El Origen de la Escritura Sudlusitano-Tartesia y la Formación de Untermann, Jürgen. Zum Stand der Deutung der ‘tartessischen’
Alfabetos a partir de Alefatos. Rivista di Studi Fenici. pp. 187- Wagner, C.; Alvar, J. Fenicios en Occidente: La colonización
Inschriften. In: Eska, J. F. ; Gruffydd, R. G. e Jacobs, N. (Eds.)
222. vol. 30, 2, Consiglio Naz. delle Ricerche. Roma. 2002. agrícola. Rivista di Studi Fenici. Roma. 17. 1. pp. 61-102. 1989.
Hispano-Gallo-Britonica. Essays in honour of Professor D. Ellis
Evans. Cardiff. University of Wales Press. 1995.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 41

P(ublio)·Clodameo /
Corocaudi / f(ilio)·Seaueo[n]i
Estátuas indígenas, inscrições latinas L(ucius)·Sest/
ius·L(ucii)·l(ibertus)·Coroc/audius /

A G
lgumas estátuas de guerreiros, do Noro- uerreiros. Século I n.E. contu(bernalis) /
este da Península Ibérica, testemunham As esculturas de guerreiros frater et Tubene(n)
lusitano-galaicos constituem
a penetração cultural das populações s(es)·f(aciendum)·c(urauerunt)·
uma das manifestações
indígenas pelos invasores romanos. A sociedade
plásticas mais destacadas do mundo
castreja, patriarcal, de competição agressiva,
castrejo do Noroeste peninsular.
regia-se por uma hierarquia em que o guerreiro
Dos 30 exemplares documentados,
ocupava a posição mais importante. A presença apenas quatro se reconhecem
de jóias e de armas nos túmulos revela-nos essa epigrafados: as estátuas de Meixedo
elite guerreira. (Viana do Castelo ‑ na imagem
A organização das famílias revela-nos uma à esquerda); de Santa Comba
estrutura gentílica da sua sociedade – era refe- (Cabeceiras de Basto), de São Julião
rida nas fontes epigráficas com a designação de (Vila Verde) e de Rubiás (Ourense).
gentes ou gentiliates. Os Lusitanos viviam unidos A estátua de guerreiro mostrada à
entre si por laços de sangue ou parentesco e não direita vem de Boticas, Vila Real.
pelo território ocupado. O tipo de governo era a No Guerreiro de Meixedo, o texto
chefia militar, na qual o líder era eleito em assem- encontra-se dividido por três áreas: a
primeira na parte frontal, sobre o saio e
bleia popular, escolhido os que se distinguiam sob o escudo; a segunda desenvolve-se
pela coragem, valor, capacidade de liderança e sobre o saio e sobre a perna direita; a
vitórias obtidas em guerra. terceira, sobre a perna esquerda.

Os autores gregos referiam-se a estes chefes Em cima: a leitura do texto, fortemente


militares como hegoumenos, isto é, líder, chefe, abreviado, é da autoria de Armando
Redentor.
e os Romanos, dux. No entanto, o nome de reg-
nator (rei), e príncipe, também foram referidos.
O hospitium, em que se adoptavam estranhos
na comunidade, seria também um costume dos
Lusitanos. Apiano (95 — 165, autor da Histó-
ria Romana) revela-nos a existência de uma pro-
priedade comuni­tária.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 42

Letras sefarditas, 1

A
rqueólogos da Universidade de Jena (Ale-
manha), encontraram em 2012 uma das
mais antigas evidências da presença judaica
na Península Ibérica, durante escavações perto de
Silves, no Algarve. Numa placa de mámore, com
40 x 60 cm, podemos ler o nome Yehiel, seguido de
letras ainda não decifradas. Os arqueólogos pen-
sam ser uma lápide funerária (imagem em baixo).
A datação do achado tem como base os restos zoo-
lógicos que estavam junto da inscrição. A matéria
orgânica, datada por radiocarbono, aponta para
cerca de 390 n.E. A mais antiga evidência arqueo­
lógica associada à cultura judaica no actual territó-
rio português é também uma lápide com inscrição
em latim e uma gravura de um menorá (candelabro
com sete braços) datado de 482 n.E.

E
m cima: Epitáfio da judia Isidora, escrito em versais romanas, em latim. Tarracona. Texto: (lulab) (menora)
Hi(lulab)c est (menora) (lulab) / memoria bone(!) re/cordationis Isid/ora filia bene me/morii(!) Ionati et Ax/
iaes(!) pauset ani/ma eius in pace cu/m omne(!) Israel(!) / [a]men amen amen. Século IV-V. Tarragona. Foto: ph.
Os testemunhos mais antigos são já de época romana avançada: uma lápide funerária encontrada em Adra
e hoje perdida, provavelmente do século III, que procedia do enterro de uma garota judia, certamente escrava; e a
famosa lápide de Tarragona, na qual se combinam inscrições em latim com símbolos judaicos.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 43

N
a descoberta de Silves não se trata apenas
de uma data excepcional, mas também
de um contexto invulgar. Nunca antes se
detectaram evidências judaicas numa villa romana.
Durante o Império romano, por volta da data da
inscrição, os Judeus escreviam habitualmente em
Latim, por receio de represálias. O Hebraico, tal
como se encontra na laje, só passou a ser utilizado
após o declínio da supremacia romana, respectiva-
mente durante o período de migrações populacio-
nais ocorridas durante o século VI ou VII.

G
eralmente a informação relativa às comu-
nidades judaicas na região do Sul de Por-
tugal provem na sua maioria de escritu-
ras. Durante o Concílio de Elvira, cerca de 300 n.E.,
foram decretadas regras repressivas da conduta dos
Judeus. Na Península Ibérica, a população judaica já
seria bastante numerosa – mas as evidências arqueo-
lógicas no território português continuam omissas.
Já em Tarragona, por exemplo, foram encontrados
vários testemunhos de uma comunidade judaica em
época tardo-romana.

O
alfabeto hebraico é utilizado para escrever
o Hebraico, língua semítica pertencente à
família das línguas afro-asiá­ti­cas. Este alfa- dência dos sistemas de escrita arcaicos que também Epitáfio hebraico, Museo Sefardi, Toledo. Século xi.

beto, um dos mais antigos, é escrito da direita para a deram origem ao alfabeto fenício.
esquerda, assim como o alfabeto árabe. Depois da conquista da Judeia pelos Romanos
O alfabeto hebraico só utiliza glifos para con- ( Jerusalém foi destruída em 70 n.E. pelo general
soantes, pois as vogais são representadas por sinais Tito, pondo fim à Revolta Judaica), o Hebraico foi
diacríticos, chamados nikud ou sinais massoréticos. pouco usado como língua falada. Contudo, na diás-
Por estas características, torna-se óbvia a sua descen- pora, os Judeus que continuaram religiosos dedica-
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 44

ram muito esforço à alfabetização, com o propósito


de fazer os fiéis lerem os textos originais da Bíblia
hebraica e das múltiplas obras religiosas e filosóficas
que a acompanham.

A
s línguas/dialectos que os Judeus desen-
volveram e adoptaram na diáspora, nome-
adamente o ladino e o jidisch, não estão
relacionadas com o hebraico. O Jidisch (falado na
Europa Central e nos países do Leste) é um dia-
lecto do alemão medieval que é expressão da cultura
asquenazi (a dos Judeus da Europa Central e Orien-
tal). A palavra asquenazi vem do termo hebraico
medieval para designar a Alemanha: Ashkenaz.
Sefarditas (em hebraico sefardi; plural, sefar- Em cima: Inscrição
dim) é o termo genérico que designa os Judeus que hebraica, Tarragona,
viveram em Portugal e Espanha. (Sefarad é a pala- Espanha. Foto: ph.
vra hebraica que designa a Península Ibérica.) O
Ladino, falado na Península Ibérica, baseado no
Castelhano e no Português, com empréstimos do
Árabe, foi o idioma dos Judeus sefarditas; ainda é
falado por cerca de 150.000 pessoas em comunida-
des sefarditas em Israel, nos Balcãs, na Grécia, no
Próximo Oriente e em Marrocos.
Orientada por um estilo próprio de ritual litúr-
gico, a cultura sefardita criou costumes e tradições

E
pitáfio do rabi Abraham Satabi, fragmento de lápida de arenisca do século XIII, procedente
culinárias, poéticas, musicais, da arte do livro, etc.
da necrópole da Aljama de Soria. Pode tratar-se apenas da metade da lápide original.
Depois das seguinte páginas, com ilustrações refe-
Os caractéres foram incisos muito profundamente, incluiu-se elementos decorativos
rentes à cultura sefardita, esta temática continua
curviformes, distintos em cada um dos lados; uma raridade entre os modelos conhecidos da
mais tarde.
epigrafia hebraica hispânica. Texto: «Naquele momento a visão cessou […] / ao morrer um sábio,
um homem […] / […] um rabi cheio de […] / […] Abraham Satabi».
Procede do cemitério judeu de Soria, Espanha.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 45

F
ragmento de epitáfio em
pedra caliça. (Puente Castro).
Princípios do século XII. Museu
de León. León. Foto: ph.

F
Epígrafe hebraica. ragmento de
Museu de León. León, epígrafe hebraica.
Espanha. Foto: ph. Tarragona, Espanha.
Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 46

Inscrição. Antiga Sinagoga de Belmonte.

B
elmonte está localizado entre a Covilhã e a Guarda,
aos pés da Serra da Estrela. No bairro da Judiaria,
a primeira Sinagoga data de 1297, dela hoje resta
apenas uma inscrição.
A Comunidade Judaica de Belmonte é uma comunidade
peninsular herdeira da antiga presença histórica dos
Judeus sefarditas.
Durante toda a época da Inquisição, conseguiu preservar
muitos dos ritos, orações e relações sociais. Apesar da
pressão para a diluição na sociedade católica portuguesa,
muitos dos belmontenses cristãos-novos continuaram a
casar-se apenas entre si durante séculos.

Em 1989 a Comunidade foi reconhecida oficialmente e


em 1996 inaugurou a Sinagoga Beit Eliahu (Filho de Elias),
precisamente numa das ruas da antiga judiaria.
Também o cemitério judaico foi aberto em 2001.
Desde 2005 está igualmente aberto ao público o Museu
Judaico, que retrata a história da presença sefardita em
Portugal, usos, costumes – e que integra um memorial
sobre as vítimas da Inquisição.
Sinagoga de Belmonte, Rua Fonte Rosa,
Lápide na Sinagoga de Belmonte.
6250-041 Belmonte, Portugal
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 47

D
evia ser sumptuosa – em termos da época
medieval em que foi construída, a sina-
goga situada na então Judiaria Grande de
Lisboa, no ponto mais próximo da Igreja da Mada-
lena, que ficava então frente à cerca da Judiaria. Tal-
vez tivesse sido intencional a presença de um tem-
plo cristão, dedicado à judia arrependida Miriam de
Migdal, junto ao bairro dos Judeus lisboetas.
A única descrição que temos da Sinagoga
Grande de Lisboa foi deixada pelo médico alemão
Jeronimus Münzer, que visitou a Espanha e Por-
tugal em 1494, num itinerário escrito em latim.
A tradução em espanhol, de Júlio Puyol (Bole-
tim da Biblioteca da Real Academia de la Histo-
ria) reza assim: «El sábado, vigilia de San Andrés,
visité su sinagoga. No había estado nunca en uno de
estos templos. En un patio que hay delante de ella,
crece una parra gigantesca, cuyo tronco mide cua-
tro palmos de circunferencia. El interior, arreglado Lápide da Grande Sinagoga de Lisboa, século XIV.
con extremada pulcritud, tiene una cátedra o púl- «hum lugar de sseda [cadeira, na interpretação de
pito para predicar, por el estilo del de las mezqui- Elias Lipiner] na esnoga grande de Lisboa, na nave Judeus de Portugal, todas as sinagogas do reino pas-
tas; ardían diez enormes candelabros con cincuenta do meo em que see assentava Yuda Abrabanel seu saram para a posse do rei.

M
o sesenta luces cada uno, además de otras muchas padre”. ais tarde, Manuel I. fez doação do edi-

O
lámparas, y las mujeres colócanse en lugar separado s Judeus pagavam à Comuna uma pensão fício da Sinagoga grande de Lisboa aos
del de los hombres, alumbrado, de igual modo, con anual pelos lugares reservados que manti- frades da Ordem de Cristo, em troca do
profusión de luces.» nham na sinagoga. Mas tinham o direito convento que estes mantinham no Restelo, onde

Q
ue a sinagoga tinha pelo menos três naves, de os transmitir por venda, ou por herança. Assim viria a ser construído o Mosteiro dos Jerónimos.
sabemos pelo inventário dos bens apreen- se explica que João ii. se tenha apropriado dos três O edifício da sinagoga foi transformado pelos fra-
didos a Isaac Abrabanel, quando este fugiu lugares pertencentes a Isaac Abrabanel, de um dos des, devidamente autorizados pelo Papa, na Igreja
para Castela, por ter sido acusado de implicação quais fez doação, em 1486, a Mousem Zarco, seu da Conceição (Velha), que o Terramoto de 1755 des-
na tentativa de subversão do Duque de Bragança: alfaiate. Em 1497, quando da conversão forçada dos truiu totalmente.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Prólogo / página 48

Letras quadradas hebraicas. Lápide


comemorativa da Sinagoga de Girona,
século XIV, encontrada em 1888.
(Museu d'Història dels Jueus,
Girona). Foto: Olybrius.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 49

Árabe
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 50

Letras árabes
Considerando o longo tempo que durou
o domínio islâmico do território que é
hoje Portugal, é lastimável que se tenham
conservado tão poucos testemunhos
dessa cultura. Uma razão deve-se, sem
dúvida, ao facto que os grandes centros
de poder se encontram em Córdova,
Medina al-Zahra, Granada, Toledo, Badajóz,
Sevilha e outras cidades andaluzes.
Em Portugal conhecemos vestígios em
Lisboa e no Al-Gharb (Silves, Faro).

O
s Árabes tinham grande apreço pela Caligra-
fia. Copiar um texto alcorânico era conside-
rado um acto meritório de um Muçulmano
pio. Os epitáfios que conhecemos continham frequente-
mente ao lado de dados pessoais do defunto, tais como
o nome, filiação etc, a data do falecimento, e também
trechos do Alcorão. Entre os monumentos de epigrafia
árabe conhecidos em Portugal, existe no Museu de Faro
uma lápide que serviu de pedra de ensaio a uma inscrição
proveniente de Silves. A reforçar a hipótese apresentada
pelo arabista americano A.R. Nykl, é o facto de ambas as
lápides, tanto a lápide funerária E-6562 como a que lhe
serviu de pedra de ensaio, nomeadamente a E-7417, são
feitas em mármore do mesmo tipo, isto é, em mármore
cinzento da região de Mértola.
Lápide com inscrição árabe, Mértola.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 51

Lápide dupla de Évora


Lápide de forma rectangular, incompleta.
As características da lápide, o tipo de
Seis linhas de texto árabe em cúfico arcaico
escrita e a referência à reconstrução da e, originariamente, tendo em conta as
cidade, permitem ligar esta inscrição prováveis dimensões, deveria possuir pelo
à restauração de Évora e datá-la para menos nove linhas. Cronologia: 302 H. (914-
915 n.E.) Suporte: mármore.
o ano de 914-915 n.E., corroborando as
Proveniência: subsolo do edifício do Museu
informações do cronista Ibn Hayyán,
de Évora, 1968.
factos que a tornam notável.

E
m 1968, quando se procedia às obras de
desaterro da cave do Museu de Évora, (o
antigo Paço Arquiepiscopal) foi encon-
trado um fragmento de lápide com inscrições ára- feta, merecedor de toda a sua complacência – que o saque da cidade por Ordonho II, pouco tempo
bes nas duas faces. Servia de cabeceira a uma sepul- Deus nos guie através dele pelo bom caminho. Esta antes deste ocupar o trono da Galiza. Foi no início
tura. O fragmento é constituído por uma peça cidade foi reconstruída…» deste século, precisamente a 13 de Muhárram de 301
única de mármore com 40 cm de altura, por 63 de H (18 de Agosto de 913 n.E.) que, segundo os cro-

É
largura e 6 de espessura. Calculando o seu tamanho uma peça importante hispano-árabe, não nistas, Ordonho, ao tempo rei vassalo da Galiza,
original a partir do texto e tendo em conta as for- só por ser das raras inscrições em cúfico cercou Évora com um grande exército. Devido ao
mas mais comuns na Espanha Árabe, é de admitir arcaico encontradas em Portugal, mas mau estado das muralhas, a cidade foi rapidamente
que a lápide deveria ser quadrangular. sobretudo pela notícia da reconstrução da cidade. tomada.

A
quase totalidade da lápide é ocupada Infelizmente, por falta das linhas finais, não dá O governador Marwán Ibn Abd al-Málik ibn
pelo campo epigráfico, com as letras em outras informações quanto a datas ou personalida- Ahmad foi morto na mesquita, enquanto a cidade
relevo, delimitado por uma moldura lisa. des ligadas à reconstrução. Apesar disso, o sítio em era teatro de grande chacina. No dia seguinte,
O texto: «Em nome de Deus, o Clemente, o Mise- que foi encontrada, a própria lápide em si (face B) Ordonho partiu vitorioso, levando em cativeiro
ricordioso. (Dou testemunho que) não há outro e as notícias que possuímos de cronistas árabes e quatro mil mulheres e crianças.
deus senão Deus, Ele só, - que não tem associado cristãos, permitem concluir que se refere à recons-
e que Muhammad é o seu servo eleito e o seu pro- trução de Évora no princípio do século X, após
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 52

U
m texto árabe, o volume V do Al-Múqta- entre o final da dominação Almorávida e o início
bas do cronista cordovês Ibn Hayyán, veio da Almóada, vulgarmente chamado de Segundas
trazer elementos inéditos e importan- Taifas.

D
tes sobre a sorte de Évora após a vitória de Ordo- esde 539, ano da revolta em Évora con-
nho. Ao descrever os acontecimentos do ano 301 tra os Almorávidas, até 552, Ibn Wazir
H, acrescenta que, tendo Évora ficado deserta, o está em dependência ou de Ibn Qasi ou
senhor de Badajoz, Abd Alláh Ibn Muhâmmad al- de Ibn Hamdín ou dos almóadas, à excepção de um
-Jilliqi, temendo que alguns dos bérberes das ime- curto período que vai dos finais de 542 (meados de
diações lá se metessem e lhe viessem a causar preo­ 1148) — expulsão dos Almóadas de Sevilha — ao
cupações, destruiu as suas torres e as muralhas. início de 546 (2.° quartel de 1151) data da homena-
Ficou Évora abandonada até que o mesmo senhor gem a Abd al-Mumiin, em Salé. É neste período
a reconstruiu no ano seguinte, 302 H. (27.7.914 a dada fazer por Abu Muhâmmad Sidray Ibn Wazir que parece lógica a sua proclamação como rei e será,
16.7.915 n.E.) para o seu aliado Mas’úd Ibn Sa’dún al-Qaysi, figura conhecida no Andaluz nos meados portanto, dessa data a presente inscrição.

Q
as-Shurunbaqui. do século XII n.E. Os títulos que lhe são atribuídos uanto à construção em causa, nada se sabe.

O
reverso da lápide (imagem) recebeu, cerca al-Imám, al-Mansur bi-Llah, já conhecidos de ins- Onde hoje está a Catedral de Évora, pode
de dois séculos depois, outra inscrição com crições numismáticas, levam-nos a concluir que, ao ter existido a mesquita principal e, nas pro-
a escrita em posição inversa à primeira. O tempo, seria rei de Taifa. ximidades, a alcáçova. O facto da construção ter

D
campo epigráfico, rebaixado, é delimitado pelo que a data apenas resta a indicação da centúria merecido ser assinalada com uma inscrição, faz
resta de uma moldura lisa estreita e que, tal como o de quinhentos (século xii), pois, devido à supor tratar-se de uma obra de relevância. A ins-
relevo das letras, quase desapareceu em virtude de estrutura da datação árabe em que as cen- crição é testemunho de uma época conturbada e
um desgaste profundo. tenas são colocadas após as unidades e as dezenas, reconfirma em Évora a soberania de Abu Muhâm-

T
radução: (…) (em) quinhentos e (….) estas estariam nas linhas anteriores desaparecidas. mad Sidray Ibn Wazir, Rei de Taifa.
Ordenou a sua construção o imã al-Man- Todavia, o que se conhece da vida de Ibn Wazir
sur bi—Llah Abu Muhâmmad Sidray Ibn permitirá uma hipótese de datação mais precisa
Wai’r al-Qaysi. E terminou sob a direcção do Vizir ao tentar identificar a altura em que, como senhor Bibliografia
(…) Abu Abd Alláh Muhâmmad. É uma inscrição independente, se teria proclamado rei. São pou- Borges, Artur Goulart de Melo. Duas inscrições ára-
comemorativa de fundação, mas não sabemos a cas, e por vezes um tanto confusas, as informações bes inéditas no Museu de Évora. In: A Cidade de
que construção se refere. Sabemos sim que foi man- que possuímos do acidentado período que se situa Évora, n.ºs 67-68, 1984-1985.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 53

L
ápide epigrafada. XIII d.C. Período Islâmico. Dimensões (cm): A:
20; L: 16,5; espessura: 4,3. O fragmento tem forma triangular. Leva
uma inscrição em árabe, incompleta, disposta em cinco linhas, da
primeira subsistindo apenas a parte inferior, em escrita Nashhi
em relevo. Do lado esquerdo tem uma espécie de moldura em cordão
e em baixo existe uma margem sem inscrição. A lápide é executada
em mármore granolamelar cinzento da região de Mértola. Lápide
proveniente de Mértola, sendo desconhecidos outros pormenores.
Lápide epigrafada incompleta, subsistindo apenas cinco linhas de escrita
em caracteres nashhi em relevo, de execução pouco cuidada e sem
pontos diacríticos. A análise do texto não permite nenhuma conclusão
quanto a seu conteudo dado que apenas a segunda linha faz sentido,
lendo-se:» noventa e quinhentos», sendo o resto do texto composto
por junção de letras. A. R. Nykl, arabista americano, que a examinou
nos anos quarenta no âmbito do levantamento da epigrafia árabe em
Portugal por ele empreendida, avançou a hipótese de que a lápide em
apreço constituir uma espécie de pedra de ensaio, reconhecendo nela a
mão do mesmo aritífice que teria executado a lápide E 6562, proveniente
também de Mértola, no acervo do MNA, coincidindo a segunda linha da
pedra de ensaio com a nona linha do texto da lápide acabada E 6562. Lápide com inscrição árabe,em caractéres cúficos. Mértola:
Campo Arqueológico de Mértola.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 54

Fragmento de lápide funerária


Tradução: “Em nome de Deus, o [Clemente,
o Misericordioso.] Este é o sepulcro de […]
Ibn Khãlis […] Muhammad Ibn al-[…]”
Séc. XI-XII. Museu de Mértola – Núcleo
Islâmico. Bibliografia: Macias, Santiago.
Mértola: o último porto do Mediterrâneo.
Mértola: Campo Arqueológico de Mértola,
vol 3, pp.46. 2005.

Lápide tumular. Inscrição em letras cúficas.


Museu Arqueológico de Badajóz.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 55

Texto do epitáfio: «Só Deus é eterno! Tenha Deus


piedade (de quem está aqui sepultado); por favor, tu que
me estás vendo, contempla este lugar um momento. Para
ele (este lugar) teve de passar.»

Proveniência: Frielas, Loures. Período Islâmico. Século XII. Lápide


funerária em mármore. Dimensão: altura 33,5 cm, largura 51,5 cm,
espessura 4,5 cm. Museu Nacional de Arqueologia. O fragmento
de forma rectangular, é a parte superior de uma lápide funerária
decorada com uma moldura em relevo no interior da qual está

E
inscrito um arco, também em relevo, que contém a inscrição em
stela comemorativa da construção dum alminar. Alto
árabe insculpida, em caractéres cúficos.
relevo talhado, 419 x 394 x 46 mm. 969 n.E. Procedên-
Nas extremidades da parte superior do espaço entre a moldura e o
cia: Córdova. Oito linhas de caractéres cúficos floridos em arco situa-se a primeira linha da inscrição que constitui um epitáfio.
relevo de 7 mm. Esta peça foi estudada, entre outros autores, por As restantes 5 linhas encontram-se no interior do arco.
Lévi-Provençal, que a considerou única, tratando-se da comemora- O campo epigráfico delimitado pelo arco ogival mede: A: 26cm e L: 36
ção da edificação dum edifício religioso por um particular. cm. Um aspecto estético a realçar é a presença de um arco, elemento
de ornamentação bastante frequente nas lápides peninsulares.
Em Portugal são conhecidas outras lápides que empregam o arco
como elemento ornamental, nomeadamente uma da Madragoa e
outra da Praça da Figueira (Liosboa), ambas no Museu da Cidade
(Lisboa) e uma outra, no Museu de Évora.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 56

Lápide funerária de Abu Bakr


Yayã ‘Abd Allâh Ibn al - Huwãrī

Pertenceu à colecção de Estácio da Veiga,


que a encontrou em 1877 encravada
“no revestimento do lado nordeste” da torre
do Castelo de Mértola. Museu de Mértola.
Museu de Arte Islâmica.
Lápide rectangular, mais larga na parte
superior, quase totalmente preenchida
pelo campo epigráfico com treze linhas,
em relevo, num cursivo compacto e sem
diacríticos, numa paginação pouco cuidada
e muito irregular.
Dimensões: 445 x 260 x 70 mm
Cronologia: 598 H./1202 n.E.
Bibliografia: Torres, Cláudio; Macias,
Santiago (coord.) (2003): Museu de Mértola:
arte islâmica: guia do museu. Mértola:
Campo Arqueológico de Mértola. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 57

Inscrição funerária árabe, em letras


cúficas. Mértola. Núcleo de Arte
Islâmica. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 58

Estela Funerária

E
ste placa epigráfica foi encontrada embutida
numas antigas paredes postas a descoberto,
quando se abriam as fundações para a construção
do edifício nº 19 da Rua das Madres, na Madragoa, Lisboa.
A estela tem o topo quadrangular rodeado por uma mol-
dura, definindo o campo epigráfico, ocupado pelo texto
e por motivos decorativos: o arco simbólico e dois discos
com folha lanceolada.
O texto, gravado em relevo, está relativamente bem
conservado, excepto na primeira linha onde apenas se con-
segue ler “Allah”. O restante texto é uma citação do Corão
(Sura LV, 26-27): “Tudo o que se encontra sobre a Terra
desaparecerá. Só a face do teu Senhor permanecerá aureo-
lada de majestade e nobreza”.
A citação corânica, os motivos decorativos da estela e o
tipo de letra, um cúfico arcaizante, permitem atribuir uma
data do final do século XII ou dos inícios do século XIII.
Esta estela testemunha a importância da comunidade
islâmica a residir em Lisboa, tendo pertencido a um dos
cemitérios muçulmanos (almocavares) da cidade.
Desactivados na época de Manuel I. e por determina-
ção régia, foi permitida a reutilização de todos os elemen-
tos pétreos aí existentes, nas obras públicas. Que triste.

Calcário. Séc. XII – Séc. XIII. Proveniência: Rua das Madres, 19,
Lisboa, Portugal. Dim.: 545 mm X 479 X 94mm.Nº Inventário:
MC.ARQ.RM.65.EP.0001. Museu da Cidade de Lisboa.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 59

L
ápide comemorativa da construção de uma torre.
Mármore. Silves, Faro. 624 Hégira (1.227 n.E.) Escrita
em cursivo nasrida, muito floreado e decorativo. Na
terceira linha o nome de quem a mandou construir foi
deliberadamente apagado. Museu Arqueológico de Faro,
Algarve, Portugal. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 60

I
nscrição comemorativa árabe, em
letras cúficas. Al-Andalus, período
dos Reinos Taifas, cerca de 1085.
Transcrição para a lingua castelhana:
(´Basmala. Tasliyya. Ha ordenado la
gran señora Umm Rasid Abu-l-Husayn
Ubayd Allah, hijo de al-Mu´tamid `alá
Allah, al-Mu`ayyad bi-nasri-llah, Abu-
l-Qasim Muhammad b. ´Abbad (que
Dios le ayude asistiéndole y apoyándole,
e ilumine a ambos), la erección de este
alminar en su mezquita (Dios le guarde),
buscando una generosa recompensa. Se
terminó, con la ayuda de Dios, bajo la
dirección del visir y secretario Abu-l-
Qasim b. Hayyay (Dios le favorezca) en
el mes de sa`ban del 478´) [Fonte: Oliva
e outros, 1985].

L
ápide funerária.
Museu
Arqueológico de
Faro, Algarve,
Portugal. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Árabe / página 61

Alcorão
Este manuscrito está entre os poucos
Alcorões datados sobreviventes
da Peninsula Ibérica islâmica.

F
oi concluído em Sevilha, em 1226 n.E.
(624 A.H.). Foi resgatado da destruição
feita pela Reconquista cristã por Muçul-
manos que fugiram da Espanha para o Norte da
África.
Em 1535, quando o imperador Carlos V (1500
–1558) conquistou Túnis numa expedição contra
os piratas bárbaros, as suas tropas confiscaram o
Alcorão e levaram-lo de volta para a Europa.
Posteriormente, o precioso manuscrito pas-
sou para Johann Albrecht von Widmanstet-
ter (1506 –1557, diplomata e orientalista), cuja
biblioteca mais tarde se tornou a base para a
Biblioteca da corte de Munique.
O texto foi posto em pergaminho na escrita
andaluza condensada. O dourado predomina na
coloração da página dupla de abertura, nos títu-
los das suras (capítulos), nos marcadores dos ver-
sículos e nos ornamentos nas margens que se
referem às prostrações e à divisão do Alcorão em
secções.
A página final com o colofão foi adornada
com uma roseta rodeada por uma moldura qua-
drada. O manuscrito encontra-se hoje na Biblio-
teca Estatal da Baviera, em Munique, Alemanha.
Data: 1226. Sevilha. Idioma árabe.
Roma
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 63

A primeira letra global

N
o século i a.n.E, finalizando uma lenta O que provocou a grande mudança foi manejada com gestos rápidos. Penso que as
evolução percorrida ao longo de 700 anos, que a tradição caligráfica romana exis- grandes inscrições monumentais foram
os Romanos usavam um alfabeto versal tente – arte de alta sofisti­cação e qua- desenhadas in situ por um mestre calí-
muito seme­lhante ao nosso, no qual faltavam apenas lidade –, penetrou no universo das grafo, e em seguida cortadas na pedra
as letras J, V, W e Z. letras gravadas em pedra. William por um gravador, sendo a gravação ape-
Os Roma­nos não só desen­vol­ve­ram o «nosso» Richard Lethaby (retrato ao lado), o nas a fixação do escrito.» Poucos anos
alfabeto, com os seus valores foné­­ticos, mas tam­bém fundador da Central School of Arts depois de Lethaby ter formulado estes
a for­ma das letras, a sua esté­tica e até as suas relações and Crafts, formulou em 1912: significativos comentários, foram des-
recíprocas – os espaçamentos entre as letras que «Os caractéres romanos que hoje cobertas as pinturas murais de Pompeia,
hoje se chamam tracking e kerning, assim como os são as nossas letras – embora as suas pri- que as cinzas do vulcão Vesúvio tinham con-
melhoramentos ópticos e contracções designados meiras formas nos tenham chegado apenas em servado intactas. Aí se pôde confirmar a excelente
por ligaduras. versões gravadas em pedra – devem ter sido escritas escrita rápida (rapid writing) da qual Lethaby
No decorrer do século i a.n.E., as formas das com um pincel largo e duro, ou ferramenta compará- falára. Mais tarde, o epigrafista norte-americano
letras em inscrições romanas alteraram-se radical vel (flat, stiff brush, or some such tool). Edward M. Catish iría novamente confirmar o

A
e permanentemente. Substituindo as letras mono- disposição de traços fortes e finos, e tam- comentado por Lethaby. Mas será importante fixar
lineares (hastes de grossura constante) começam a bém o feitio exacto das formas curvas, que o estudioso britânico falava das «grandes ins-
aparecer cada vez mais frequentemente formas com foram produzidos por uma ferra­ menta crições monumentais».
modulação, ou seja, com nítidas diferenças entre
traços fortes e finos.
Surgem letras serifadas, surge a Capitalis. Esta
mudança de padrão estético tem sido justificada
com mudanças nos suportes, pois passou a usar-se
AbCDEFGHIKL M
mármore em vez de pedras mais brandas. Mas tam-
bém os Gregos, já quatro séculos antes, gravavam
as suas letras sobre mármore, e faziam belas letras
NOpQrst vx Y Z
pequenas, geométricas, sem serifas e monolineares.
Alfabeto latim arcaico, com letras de grossura constante e de traçado simples. Digitalização do autor.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 64

Neste livro falaremos destas, mas também de muitas A expansão à escala mundial

N
outros estilos de letras romanas, que terão sido dese- o sistema político e colonial que foi o
nhados de outro modo, seguindo outros padrões maior, o mais potente e o mais duradouro
estéticos e beneficiando de outros processos império da Antiguidade, os Romanos
de execução, adaptados a outros suportes. impuseram a primeira letra global. Nos vastos ter-
ritórios ocupados durante séculos, as letras roma-

O
s Romanos usaram, quase sempre em para- nas substituíram quase todos os outros sistemas de
lelo, sete diferentes tipos de letra. escrita autóctones (só o grego foi tolerado). Conhe-
I. A Capitalis Monumentalis era eleita para cemos, por exemplo, lápides em língua lusitana, mas
figurar em epígrafes de pom­pa e circunstância, grafada com letras latinas.
para celebrar datas importantes, conquistas, O alfabeto latino é utilizado para escrever a lín-
feitos militares, chefes políticos e divindades. gua portuguesa, as línguas da Europa Ociden­tal e
II. A Capitalis Quadrata, variante manuscrita da Central. Através do latim falado pelos invasores, o
Capitalis lapidar, era usada para todos os docu- alfabeto latino expandiu-se com o Impé­rio romano.
mentos importantes, escritos com um cálamo Na metade oriental do Império, incluindo a Gré-
sobre papiro. A poesia e a prosa literária escre- cia, a Ásia Menor, o Ponto e o Egipto, continuou-se
viam-se com a Quadrata. a usar o grego como língua franca, mas o latim foi
III. A Capitalis Quadrata condensada, que propor- falado na metade ocidental do Império.
Imagem e texto: saliente-se que em muitas lápides se
cionava economia de espaço. conjugavam elementos escultóricos ou pictóricos com
As linguas românicas – castelhano, francês, pro-
IV. A Rustica, letra de ducto muito caligráfico, as letras.
vençal, catalão, português, galego e italiano – evolu-
quase sempre condensada, também proporcio- íram do latim e continuaram a usar o alfabeto latino.
nava economia de espaço; pintava-se em pare- O alfabeto latino disseminou-se entre os povos
des, esculpia-se em pedra, gravava-se em metal germânicos do Norte da Europa durante a propa-
(por exemplo, para escrever diplomæ militaris) VI. Para cunhar marcas e logótipos, usaram le- gação do Cristianismo. Na Idade Média, entrou em
e escrevia-se em documentos de papiro. tras de formas simplificadas, geométricas, com uso entre os polacos, checos, croatas, eslovenos e
V. Para a grafia de documentos menos importan- pouca modulação na grossura das hastes, muitas eslovacos, assim que estes adoptaram o Catolicismo;
tes, muitas vezes fei­tos à pressa, riscava-se a Cur- vezes sem serifas, ou com serifas muito pequenas. os eslavos orientais adoptaram em geral o Cristia-
siva em tabuinhas de cera ou de madeira, usan- Além disso, desenvolveram uma anotação
VII. nismo Ortodoxo e o alfabeto cirílico.
do um estilete (stilus). Esta tinha as característi- taquigráfica. As línguas bálticas (lituano e letão), assim como
cas de uma minúscula, com hastes ascendentes o finlandês, o estoniano e o húngaro, também usam
e descendentes. o alfabeto latino.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 65

Com a colo­ ni­


zação ultramarina, os idiomas
castelha­no, português, inglês, francês e holandês
disseminaram o alfabeto latino pelas Américas, Aus­
trá­lia, partes da Ásia, África e Pacífico.

M
uitos linguistas consideram o uso de gli-
fos fonéticos (com, ou sem diacríticos)
o sistema mais funcional de escrita.
No entanto, a maioria das línguas ocidentais que
adoptaram o alfabeto latino não são «foneticamente
correctas», já que o mesmo som pode ser represen-
tado por caractéres diferentes (C, Q e K, por exemplo)
ou dois sons diferentes pelo mesmo caractére
(i de ministro e i de ideia).
Uma experiência frustrante para qualquer
criança portuguesa que aprende inglês (ou vice-
-versa) é constatar que até às simples vogais são asso-
ciadas sons diferentes. Estas ambiguidades diluem o
aspecto racional do alfabeto latino.
Para atenuar este efeito, introduziram-se mais
diacríticos, acentos foné­ticos que servem para alte-
rar a pronúncia de cer­tas letras, conso­ante o idioma
para o qual são empregues. •

São muito escassas as representações do alfabeto grego


na região hoje portuguesa – autênticas raridades. Placa
funerária patente em Mértola. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 66

Lápide funerária, gravada com


letras gregas. Mértola, Baixo Guadiana,
Portugal. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 67

AOH N
B
asicamente, as formas e as
proporções das letras roma-
nas «clássicas», concreta-
mente, as da Capitalis Monumenta-
lis, inserem-se em formas simples. A
a sua tipometria orienta-se pelas for-
mas geométricas quadrado, tri­ ân­

VG D X
gulo e circulo. Num quadrado, ou no
triângulo que cabe nesse quadrado,
cabem o V, A, X, O, N, H, C, G, D
e T. Outras letras ocupam metade
desse quadrado; são essas o E, F, S e
L. Algumas letras são mais largas que
esse quadrado – o M – e uma é mais
estreita que metade do quadrado: o I.

M
P, B e R ocupam posições intercalares.

ES FL I
O Q tem um valor próprio, devido à
sua cauda. Todas estas indicações são
valores aproximados.
A criatividade dos artesãos pro-
duziu numerosas variações, de modo
que é inútil fixar «cânones absolu-
tos». •

R P B
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 68

As formas das letras


romanas

O
carácter geral das letras versais romanas
lapidares (Kapitalschrift, alemão; capi-
tals, inglês) deve-se ao facto de que estas
letras ditas maiúsculas se formam pela conjugação
de linhas direitas, horizontais, verticais e diagonais
– com a excepção de algumas letras de origem mais
antiga, de formas curvas. Dentro deste quadro geral,
as diversas épocas, as diferentes formas de monu-
mentos epigráficos e os diferentes suportes deram
origem a uma apreciável gama de variações. Dentro
desta enorme panóplia de formas, poderão ser dis-
tinguidos os seguintes grupos:

A. Letras versais de formas irregulares e toscas,


sem alinhamento preciso dos traços horizontais e
verticais; as distâncias entre as letras também não
são cuidadas. De modo geral, aqui os traços são de
grossura constante; ou seja, as formas não apresen-
tam modulação. Os terminais não são cortados, nem
apresentam os acabamentos próprios das letras seri-
fadas. Este grupo poderá ser subdividido em:
A. 1. Letras versais arcaicas, da época em que a
letra não mostrava origens caligráficas.
A. 2. Uma letra de características semelhan-
tes, mas já praticada nas épocas depois da influên- ...letras versais arcaicas, da época em que a letra
cia caligráfica nos padrões das letras. Estas letras não mostrava origens caligráficas.
Lapidário do Museo de León, Espanha. Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 69

mostram formas detorieadas pelo desleixo, pressa e


incompetência na execução dos lapicidas, assim como
pela escolha inapropriada dos suportes, e demais
condicionantes.
B. Uma letra versal de formas regulares e de evi-
dentes qualidades estéticas. De modo geral, as ins-
crições são feitas num único padrão de letra, ou, por
vezes, numa equilibrada construção, incluindo, por
exemplo, uma Capitalis Monumentalis e uma Capi-
talis Condensada. Não faltam exemplos de combina-
ções desse género.
Estes magníficos exemplos são típicos dos últi-
mos séculos da Républica romana. Durante os reina-
dos de Trajano e Adriano, encontramos as mais cui-
dadas e brilhantes execuções lapidares da letra for-
mada caligráficamente, de formas quadradas – as lit-
terae quadratae.

A
ntes e depois da Era dos Antoninos (Nerva,
Trajano e Adriano), observamos uma
letra mais alongada (condensada); na pri-
meira fase cavada mais profundamente na pedra, Lápide funerária exposta no Museu de Évora.
na segunda mais superifical. Com a degeneração do O facto de esta inscrição ter sido realizada
gosto e das qulificações dos artistas e artesão, a quali- sobre um lápide de xisto dificultou seriamente
dade caligráfica da escrita lapidar piora. No que toca o trabalho do lapicida. Mais do que gravadas,

as inscrições em monumentos públicos, a letra é, de as letras foram riscadas neste material pouco

modo geral, de melhor qualidade. É óbvio que, tam- adequado ao propósito. Foto: ph.

bém nas fase de excelência, se detectam suficientes


exemplos de má qualidade; alguns quisemos incluir
na escolha feita para a presente documentação.
As características das letras de alta estética distin-
guem-se pela uniformidade e regularidade das linhas
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 70

direitas e curvas; assim como nas distâncias observadas entre elas (o


que hoje ze traduz no conceito de kerning) e nas justas proporções
da largura e da altura. Na modulação, é importante as relações do
contrastes entre traços finos e grossos...
Nesta categoria das letras versais mais conseguidas, mais bem
proporcionadas e bem formadas ainda podemos diferenciar:
1) Letras quadradas;
2) Letras oblongas, condensadas;
3) largas;
4) inclinadas.
Dentro deste quadro – discutível, sem dúvida – existem uma
quantidade de aberrações: letras invertidas, da esquerda para a
direita, ou mesmo de cima para baixo. Letras com hastes alonga-
das, na tentativa de embelezá-las. Ou simplesmente letras mal-
feitas, conforme estão documentadas na publicação «Cultura
Visigótica», do mesmo autor.

Lápide funerária de Públio Júlio Tangino.


Século i n.E. Achada em São Pedro do Corval
(Reguengos de Monsaraz, Alentejo, Portugal),
exposta no Museu de Évora. ME 1812.
p(ubli) iuli g(ai!) f(ilii) / gal(eria) tang/ini
an(norum) l h(ic) s(itus) e(st) s(it) t(ibi) t(erra)
l(evis)
O facto de esta inscrição ter sido realizada sobre um
lápide de xisto dificultou seriamente o trabalho do
lapicida. Mais do que gravadas, as letras foram riscadas
neste material pouco adequado ao propósito. Fotos:
ph.

Nesta página: inscrições pautadas por linhas auxiliares.


Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 71

O
decalque de inscrições latinas e gre-
gas (latin squeeze, rubbing, paper
impression, inglês; cliché, estam-
page en papier mouillé, francês; Abklatsch,
alemão) tem sido uma técnica amplamente
usada para reproduzir inscrições da Anti-
guidade. Quando ainda não era comum (ou
difícil) fazer a fotografia de uma dada ins-
crição, os epigrafistas recorriam a esta téc-
nica de decalque sobre papel húmido
para obterem reproduções em negativo.
Infelizmente, esta variante da técnica foi feita
sem coloração do papel (ink rubbing, como o
faziam os Chineses), de modo que resulta difí-
cil obter os contornos exactos de cada uma das
letras de um texto. O que resulta útil para um
epigrafista, é pouco proveitoso para um
Decalque de uma inscrição latina.
desenhador de letras...

A
s letras das inscrições romanas gravadas em pedra eram
pintadas? Preenchidas com côr, para melhorar con-
trastar com as pedras alvas? Existe pouco evidência que
nos mostre resíduos de pigmentos nas formas cavadas pelos lapi-
cidas. Tudo indica para que as letras pintadas a vermelho (a cor
que se observa mais frequentemente) tenha sido adicionada por
antiquários e epígrafistas zelosos. Aliás, o facto que as letras gra-
vadas eram formadas em três dimensões (largura, altura, pro-
fundidade) não aponta para que esse efeito fosse aplanado pela
pintura, que, necessariamente, reduz as formas das letras a duas
dimensões... •
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 72

Os glifos romanos
O eixo de inclinação do Q e do O
é uma característica das letras

O
alfabeto latino foi tomado dos Gregos e romanas derivadas directamente
dos Etruscos. A primeira alteração que o do modo como eram desenhadas:
alfabeto sofreu, foi a introdução do G para com um pincel largo.
diferenciar os sons G e K – uma iniciativa de Spu-
rius Carvilius Ruga, um liberto que abriu a primeira
escola de Gramática em Roma. Nesta época terá sido
abandonado o Z dos Etruscos.
Quando a Républica Romana terminou, depois
da conquista da Grécia (146 a.n.E.) as letras gregas
Ypsilon e Zeta foram adicionadas ao fim do alfa-
beto, em forma do Y e do Z – para que os Romanos
pudessem escrever adequadamente nomes e palavras
gregas.

N
o século ii a.n.E. ficou fixado o alfabeto
latino de 23 letras, que se manteve sem
grandes alterações durante todo o Império.
A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, Q,

N
R, S, T, V, X, Y, Z. as inscrições também identificamos sinais
O glifo V corresponde tanto ao som vocálico /u/ tido (antisigma) para o som /PS/, um F invertido diacríticos. No latim escrito, o diacrítico
como ao consonântico /v/, do mesmo modo que o (digamma inversum) para representar o /ü/, e meio denominado apex (plural: apices) era um
I representa os sons /i/ e /j/. Em nenhuma inscri- H (sonus medius), para representar o /W/. Estas acento fonético com a forma semelhante ao nosso
ção romana vemos as grafias U e J, pois estas foram chamadas letras claudianas não sobreviveram o seu acento agudo ( ´ ); era colocado sobre as vogais que
introduzidas no Renascimento para distinguir os inventor. deviam ser pronunciadas longas. A forma deste
valores vocálicos dos consonânticos. Assim como os Gregos, os Romanos usaram acento pode variar, mesmo no contexto de uma só
A única tentativa séria de alargar o espectro foné- letras para representar os números. Uma barra hori- inscrição.
tico do alfabeto latino foi a iniciativa do imperador zontal sobre a cifra servia para multiplicar por mil, e O sicilicus, com forma parecida ao nosso acento
Claudio de introduzir três novas letras: o C inver- uma caixa para multiplicar por cem mil. circumflexo, indica que a letra sobre a qual vai posto
deve ser lida duas vezes.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 73

Os Romanos usaram a pontuação para separar segundo o ordinator encarregado de traçar as letras
as palavras – e para fins decorativos, no princípio sobre a lápide, para depois ser gravada a cinzel.
ou fim da linha. Esta pontuação era colocada a meia As letras eram primeiro pintadas sobre a pedra
altura da linha • A forma de pontuação mais fre- com um pincel mais ou menos largo, segurado dia-
quentemente empregue era o triângulo com o vér- gonalmente. Este método de pré-traçar as formas
tice para baixo; com menos frequência aparecem os antes de aplicar o cinzel explica as variações de gros-
quadrados. No século i n.E. aparece a forma de folha sura de traço das letras latinas, a partir da Era Impe-
• (hedera distinguens), e no século ii também se rial – como no «A» mostrado em baixo. Se tam-
usa o círculo. bém explica a existência, assim como as formas espe-

A
s formas das letras romanas seguem sim a cíficas e os alinhamentos das serifas, tem sido um
ortodoxia dum padrão praticado em todo tema muito discutido, mas os especialistas não che-
o Império, mas também mostram particu- garam a conclusões definitivas.
laridades regionais e expressão individual, variando

C
aracterizada por três tipos de inscrições
– funerárias, votivas e honoríficas – a epí-
grafia latina do período imperial obedecia
a formulários pré-definidos, que constituem indi-
cadores da tipologia das inscrições. Por exemplo: a
presença de fórmulas como D.M.S. (consagrado aos
deuses Manes), H.S. E. (aqui está) e S. T. T. L. (que a
terra te seja leve) não deixa dúvidas quanto ao carác-
ter funerário da inscrição. •
Ligaduras romanas.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 74

Luz e sombra

Note que as letras das


inscrições lapidares
apresentavam um belo efeito
tridimensional, obtido pela
gravura na pedra, um corte
que tinha necessariamente
alguma profundidade.
Assim, o aspecto das letras
gravadas variava con­soante
o ângulo de incidência da
luz do dia. Porém, quando se
transportavam as letras para
o gesso liso de uma parede
ou para um pergaminho (e
mais tarde para o papel),
perdia-se este maravilhoso
efeito... Foto: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 75

Serifas Um ângulo de iluminação pouco comum põe em evidência o esmerado cuidado


posto no traçado das finíssimas serifas. Estas formas terminais tornáram-se um
elemento distintivo das mais elegantes letras elaboradas por lapicidas romanos.
Museo de la Romanización, Calahorra. Foto: Manuel Ramirez Sanchez.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 76

Edward M. Catich

N
ascido em 1906 (Stevensville, Montana) e falecido
em 1979 (Davenport, Iowa), o padre norte-ame-
ricano tornou-se uma das mais consideradas per-
sonalidades no mundo da Epigrafia e do Typeface Design.
Docente, calígrafo, ilustrador e lapicida, Catich é especial-
mente lembrado pela análise das letras romanas inscritas no
pedestal da Coluna de Trajano, em Roma. A sua principal tese
é que a Capitalis Monumentalis da época augustina foi sem-
pre pré-desenhada com um pincel largo, daí originando as for-
mas características, a modulação do traço e as serifas. Come-
çou como aprendiz do letrista (sign-writer) Walter Heberling.
Catich formou-se no St. Ambrose College (1931 – 1934) e rece-
beu o seu Masters em Arte na University of Iowa. Partiu para
Roma em 1935 para estudar na Pontifical Gregorian University Dos apontamentos de Catich: a letra M, pré-desenhada com uma trincha (em verde), pelo
for Holy Orders, onde também estudou Arqueologia e Paleo- ordinator e depois esculpida na pedra pelo lapicida (em vermelho).

grafia. Aí descobriu a sua vocação para estudar as letras roma-


nas. Fundou o Departamento de Arte da St. Ambrose Univer-
sity e aí fez docência durante 40 anos, até à sua morte em 1979.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 77

Planeamento e cooperação

A
produção de um texto epigráfico na época romana foi um
processo mais ou menos complexo, que constava, na maior
parte dos casos, das seguintes fases:

•• Redacção prévia do texto sobre papiro ou outro material.


Provavelmente elaborado com a caligrafia cursiva, a que os
romanos chamavam forma.
•• Ordinatio, ou seja, o traçado das linhas auxiliares horizontais, e
o traçado das letras da inscrição com um pincel (brocha), uma
ponta de metal, ou um carvão. Este trabalho de esquisso era feito
pelo ordinator, que também era responsável pela paginação, a
disposição das letras, seus tamanhos, etc.
•• incisão definitiva da inscrição pelo lapicida, que gravava na pedra
(mármore, grauvaque, granito, xisto) com um cinzel ou uma goiva.
Esta descrição, demasiado sumária, não precisa um factor impor-
tante: que entendimento e que sintonia havia, Capitalis Rustica: desenho de letras muito próximo das formas caligráficas.
de caso a caso, entre o ordinator e o lapicida?
Que conhecimentos e que experiência
tinha o ordinator de caligrafia, para saber
passar adequadamente o ductus cali-
gráfico à incisão da pedra? Em muitos
casos observamos um gravado muito
fiel aos padrões caligráfico; noutros
casos, o lapicida parece recusar delibe-
radamente o traçado do pincel e impôr
um desenho muito linear, geométrico e
com letras de exagerada simetria. •

Desenho de letras muito linear, geométrico e com glifos de exagerada simetria.


Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 78

L
inhas auxiliares são essen-
ciais para garantir um con-
junto de letras de tama-
nho homogéneo. Já os artifices
romanos o sabiam, e para tal, risca-
vam na pedra dois traços auxilia-
res para cada linha de texto: a linha
de base (baseline, na Tipografia
moderna), e a altura das maiúscu-
las. Em trabalhos de gravado realiza-
dos mais apressadamente, esses tra-
ços não eram apagados. Tarragona.
Foto: ph. •

U]lpiae fil[iae] / [---]A mater. Roman


Museum em Butchery Lane, Canterbury,
Kent. Foto: Linda Spashett.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 79

Capitalis quadrata. Em trabalhos mais tos-


cos, como este mostrado no Museu Monográ-
fico de Conímbriga, o lapicida exagerou na
grossura dos traços auxiliares – o que de pouco
lhe valeu, porque o desenho das suas letras não
mostra qualidade. Não é exacto, nem belo,
nem homogéneo.
Lápide funerária procedente da cidade romana
Conímbriga, Condeixa-a-Velha, Coimbra,
Portugal.
scaevinus et / silo scaevae / dauto-
nis f(ilio) / patri suo / f(aciendum)
c(uraverunt)
Fotos: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 80

Diferentes tamanhos

C
ertas letras, por exemplo o T, I e L, eram
ocasionalmente gravadas em tamanhos
aumentados. Observe a forma do T, entre
o N e o U. A letra foi ligeiramente aumentada em
altura (para permitir melhor espaçamento entre as
letras?) Museu de Conímbriga.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 81

Na inscrição ao lado, observa-se o


mesmo aumento da altura do T.
gato cabiri / f(ilio) civi viro-
man/duo demioncae / coniugi
eius / athamae et atrecto / gati
fili(i)s / bienus gati f(ilius) pie /
de suo f(aciendum) c(uravit)
Refer.: CIL 13, 08342 = RSK 00313 =
IKoeln 00417 = AE 1891, 00144
Foto: Elena
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 82

Capitalis quadrada, elegante. Epitáfio a Licinia. Campo epigráfico: 43,5 × 43 cm.


Módulo letras: 4,5-5,5. Nas linhas 1, 2, 4 e 5, I longae; acentos nas linhas 3 e 5; na linha 6, as duas
letras finais em nexo e apenas com 2 cm de altura. Proveniente de Asturica Augusta (Astorga).
Liciniae / Sparsi fi(liae) / Procillae / Luci / Lusi / Asturicae [-------]
Museu Romano, Astorga, León, Espanha. Fotos: ph.
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 83

Composição de texto

A organização de
conteúdos complexos

A
composição de textos longos, com uma orga-
nização complexa de conteúdos, deixou-nos
admiráveis exemplos. Os Romanos surpreen-
dem-nos com a qualidade da organização de textos com-
plexos. As lápides mostradas nesta e nas seguintes pági-
nas são bons exemplos de escrita lapidar, que nos com-
pensam da quase inexistência de textos librários deste
género. Outros documentos complexos foram as pla-
cas de bronze inscritas com leis municipais; documen-
tadas em detalhe no livro «As letras dos Romanos», do
mesmo autor.

Fragmento de um calendário romano.


A K(alendae) Ian(uariae) [f(astus)]/ Aesc(ulapio)/
B f(astus)/ C c(omitialis)/ [ // ]/ E f(astus) feriae/
Imp(eratoris) Caesar(is)/ F f(astus)/ G c(omitialis)/ XXXI/
[ // ]/ B Eq(uirria) [n(efas) p(iaculum)]/ C c(omitialis)/
XXIIX/ [ // ]/ B c(omitialis)/ XXXI / [ // ] / XXX / [ // ] / [G
Tu]bil(ustrium) / [H] q(uando) r(ex) c(omitiavit) f(as) /
[A c(omitialis)] Fortunae P(ublicae) p(opuli) R(omani).
Museo Epigrafico, Roma. Foto: Kleuske
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 84

Fasti Praenestini

E
sta lápide exemplifica uma organização com-
plexa do texto, alcançada com uma hierarquia
de tamanhos de letra que distingue quatro dis-
tintos corpos de letra. O «texto corrido», o tamanho
mais pequeno, é representado por uma Capitalis Rus-
tica de nítido cariz caligráfico, escrita em versaletes. As
letras grandes, usadas para o alfabeto, têm uma estética
parecida à da Capitalis Quadrata.
Os Fasti Praenestini são um calendário composto
pelo pontifex maximus para regular o calendário
público da cidade. Descreve os dies fasti e os dies nefasti
que dictavam se era ou não possível exercer actividades
como as de litigar em tribunal. Este calendário terá sido
composto entre o ano 6 e 10 a.n.E. pelo gramático Ver-
rius Flaccus, tutor dos netos do imperador Augusto.
Era exibido no forum de Praeneste (Palestrina), situ-
ado a sul de Roma, um monumento em hemiciclo.
Museo Nacional de Roma, Palazzo Massimo.
Foto: Ian W. Scott
Procurar no texto: CTRL+F Alfabetos / Temas / Índice remissivo / Roma / página 85

Hierarquia de conteúdos, supor-


tada por três diferentes corpos de
letra. Texto corrido a duas colunas,
em Capitalis Rustica.

Octavia L et ) L Arbuscula
V A XXIII et Mensens X
Tuccia ) L. Urbana, Mater Eius
terminus est vitae nostrae tertius et vicensimus
annus cum me florentem mei combussere parentes /
vixi ego, dum licuit, superis acceptior una
quoi nemo potuit verbis maledicero acerbo / crudele, pater, funus nati vidisse
videris / et pia complexu mater spoliata senescens / at tu, dulcis soror exts-
tincto me solare parentes / crudelis pluton, nimio saevite rapinae
parce, precor, nostram iam lacerare domum / te, lapis, optestor: leviter super
ossa residas / ne nostro doleat conditus officio
desine iam frustra, mater mea, desine fletu / te miseram totos exagitare dies
/ namque dolor talis non nunc tibi contigit uni / haec eadem et magnis regibus
acciderunt
cil vi. 7872(?)

Interesses relacionados