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aS = § ‘'SOTIAWAG KNOHINV. Tn, - = eS _ = = = = Sa = = = = Se oer? & ANTHONY DE MELLO DESPERTANDO PARA O EU Traducdo Coneeieao Aparecida Gimenez we eS en (Cima baskerndobio st Best eto, Antony 15813997, Desperate purse bs / Any dea; SoCo pss Gnes.— Saal fades parcatingy stent: ".Aecortecinern: enol: Tens 2frngecn:13 ‘Tiulo origina: Awareness (© 1990 by The Center for Spiritual Exchange, Ine, a ene 0 acon com Dosey, Direitos exclusives para o Brasil cedidos ‘Agneta Seiliane de Livros, Jornsise Revistas Ltda ‘Av, Ralmundo Pereira de Magathes, 3305 ‘CEP 05145-200— Sho Paulo— Brasil Caps: Carlos Perrone EditoraSiiiano, 1981 iodo Bantam Doubleday Del Publishing Group, Ine, Sumario PREFACIO, 9 (© DESPERTAR, 15 POSSO LHE SER DTIL NUMA REAVALIACAO?, 15 SOBRE © TIPO CARACTERISTICO DE ECOISMO, 18 QUERENDO A FELICIDADE, 20 ESTAMOS FALANDO DE PSICOLOGIA NESTE CURSO DE ESPIRITUALIDADE?, 21 RENUNCIAR NAO E A SOLUGAO, 25 OUVIR E DESAPRENDER, 25 A MASCARA DA CARIDADE, 28 © QUE VOCE TEM EM MENTE?, 36 BOM, MAU OU SORTUDO, 40 NOSSA ILUSKO COM RELAGAO AOS OUTROS, 41 AUTO-OBSERVACAO, 46 A CONSCIENCIA SEM A AVALIAGAO DE TUDO, 48 ‘A ILUSAO DAS RECOMPENSAS, 53 ENCONTRANDOSE, 54 DESNUDANDO-SE ATE O FU, 57 SENTIMENTOS NEGATIVOS COM RELAGAO AOS OUTROS, 62 ‘A DEPENDENCIA, 64 COMO A FELICIDADE ACONTECE, 67 MEDO — A RAIZ DA VIOLENCIA, 74 CONSCIENCIA E CONTATO COM A REALIDADE, 75 BOA RELIGIAO — A ANTITESE DA INCONSCIENCIA, 76 ROTULOS, 36 OBSTACULOS A FELICIDADE, 87 QUATRO PASSOS PARA A SABEDORIA, SI TUDO ESTA CERTO COM O MUNDO, 97 ‘SONAMBULISMO, 100 ‘A TRANSFORMACAO COMO COBIGA, 10 UMA PESSOA TRANSFORMADA, 109 ALCANCANDO 0 SILENCIO, 113 PERDENDO A CORRIDA, 118 VALOR PERMANENTE, 121 DESEJO, NKO PREFERENCIA, 125 APEGANDOSE A ILUSAO, 125 ABRACANDO AS MEMORIAS, 130 ‘TORNANDO-SE CONCRETO, 155 PERPLEXO POR PALAVRAS, 145 CONDICIONAMENTO CULTURAL, 146 A REALIDADE SELECIONADA, 150 DESPRENDIMENTO, 155 AMOR VICIADO, 138 MAIS PALAVRAS, 161 AGENDAS OCULTAS, 162 DANDO CONSENTIMENTO, 165 MINAS ADAPTADAS, 165 ‘A MORTE DO EU, 169 VISAO INTERIOR E ENTENDIMENTO, 171 NKO FORCE, 175 TORNANDOSE REAL, 17 IMAGENS ADAPTADAS, 178 AMOR: NADA A FALAR, 180 PERDENDO © CONTROLE, 182 QUVINDO A VIDA, 184 © FIM DA ANALISE, 186 (8 MORTOS ADIANTE, 189 ‘A TERRA DO AMOR, 192 DESPERTANDO PARA O EU CTTEEE CC CECECEEEEEEEEE EEE FE Prefacio Certa ocasido entre amigos, peditam a Tony de Mello que dissesse algo sobre a natureza de seu traba- Iho. Ele levantou-se e contou uma hist6ria, que mais tarde repetiria em suas conferéncias, e que voc reco- nhecerd em seu livro Song of the Bird [Cangio do pas- saro]. Para minha surpresa, ele disse que a histéria se referia a mim, Um homem encontrou um ovo de aguia © 0 colocou no ninho de uma galinha. A aguiazinha nasceu com a ninhada de pintinhos cresceu ali com eles. Durante toda a sua vida, a guia fez exata- mente 0 que os pintinhos faziam, pensando que fosse uma galinha. Ciscava a terra A procura de minhocas ¢ insetos. Cacarejava ¢ batia as asas, at- riscando um véo rasante. Passaram-se os anos, e a guia envelheceu. Um dia avistou no céu um passaro majestoso. Ele 9 yoava de forma graciosa entre as fortes correntes de ar, quase nao batendo suas poderosas asas dou- radas, A yelha guia olhava para 0 oéu admirada. — Quem é aquela? — perguntou. — A tainha das aves, a éguia. Ela pertence a0 céu. Nés pertencemos a terra: somos galinhas — tespondeu-lhe a vizinha. E assim, a guia viveu e morreu como gali- nha, pois era isso que ela pensava ser. Se fiquei surpreso? No inicio, senti-me insultado! Estaria ele me comparando a uma galinha de quintal? De certo modo sim, ¢ nao. Insulto? Nunca. Nao era do feitio de Tony. Mas ele estava dizendo a mim e a todas aquelas pessoas que, do seu ponto de vista, eu era uma “guia dourada”, inconsciente da altura que poderia alcangar. Essa hist6ria fez-me entende: grandeza do ho- mem, seu amor sinecro ¢ 0 respeito pelas pessoas on- quanto se diz a verdade. Era exatamente o que Tony propunha em seus tra- balhos: despertar as pessoas para a realidade de sua grandeza, Este era Tony de Mello em sua melhor forma, revelando a mensagem da “consciéncia”, vendo a luz que somos para ns mesmos € para os outros, reconhe- cendo que somos melhores do que supomos Este livro traz Tony em pleno yéo, fazendo justa- mente isto — em didlogo vivo e interagéo —, mencio- nando todos os temas que alegram os coragées daque- les que os ouvem, 10 Manter 0 espitito de suas palavras vivo, e passar sua espontaneidade com sensibilidade para as paginas deste livro, foi a tarefa que enfrentei apds sua morte Quero agradecer o grande apoio que recebi de George McCauley, $.J., Joan Brady, John Culkin e tantos outros. ‘As horas estimulantes e divertidas que Tony pas- sou comunicando-se com pessoas reais foram maravi- Thosamente registradas nas paginas que se seguem. Aprecie o livro. Deixe as palayras entrarem em sua alma, e ouca, como o proprio Tony sugeriria, com 0 coragio. Escute as histérias que ele tem para contar, e vocé estar escutando sua propria hist6ria. Permita-me leva-lo com Tony — um guia espiri- tual —, um amigo que vocé tera pela vida toda. J. Francis Stroud, SJ. Centro de Espiritualidade De Mello Universidade de Fordham Bronx, Nova York 1 O despertar Espiritualidade significa despertar. ‘A maioria das pessoas, mesmo nfo sabendo, est dormindo, Elas nascem adormecidas, vivem adormeci- das, ctiam scus filhos nesse estado de sonoléncia, mor- rem sem jamais despertar. seas pessoas néo conseguem entender 0 encanto & a beleza daquilo a que chamamos de existéncia humana. Como € sabido, todos os mfsticos — catélicos, cristéos, ndo-cristiios — so unfinimes no mesmo ponto: em que tudo esta bem! Embora tudo esteja uma verdadeira dro- ga, tudo esté bem: Estranho paradoxo, com certeza. Mas, tragica- mente, a maioria das pessoas jamais consegue perceber que tudo esta bem porque elas esto dormindo, Blas esto tendo um pesadelo. No ano passado, na televisio espanhola, ouvi a histéria de um senhor que batia & porta do quarto de seu filho. 13 — Jaime — diz ele —, acorde! — Néo quero me levantar, papai — responde 0 filho. — Levante-se, vocé tem que ir & escola — grita © pai. — Nio queto ir & escola — diz Jaime. — Por que néio? — pergunta o pai. Por trés razGes — diz Jaime. — Primeira: por- que néo tem a menor graga; segunda: as criangas me aborrecem; ¢ terceira: eu odeio a escola. — Bem, darei trés motivos pelos quais voce deve ir escola. Primeiro: porque 6 seu dever; segundo: voce fem quarenta ¢ cinco anos; e tereeiro: vocé é o diretor. Acorde, acorde! Voe8 cresceu! Estd grandinho para car dormindo. Acorde! Chega de brincar com seus brin- quedos! — completa o pai. A maioria das pessoas diz que quer sair do jardim- de-infancia, mas nfo acredite nelas. Nao acredite nelas! Tudo o que elas querem que vocé faca € consertar seus brinquedos quebrados, — Devolva minha esposa, meu emprego, meu di- nheiro, Devolya minha reputagdo, meu sucesso. Isso 0 que elas querem; elas querem seus brin- quedos de volta cm seus lugares. $6 isso. Até mesmo os melhores psic6logos afirmardo que essas pessoas nio querem ser curadas realmente. © que elas querem é alivio, a cura € dolorosa Vocé sabe que 0 despertar nfo agradavel. Voce esté bem e muito confortével em sua cama. E ir- ritante ser acordado, F por isso que o guru inteligente néio tenta acordar as pessoas. Espero ser sabio o bastante, ¢ nfo fazer qualquer tentativa para desperté-lo, caso voce esteja adormecido, 14 Isto realmente néio me interessa, embora, as vezes, eu diga: — Acorde! : : © que realmente me importa é fazer minhas na dangar a minha danga. Se vocé tirar proveito cise. oti mo; se nfo, que pena! Como dizem os arabes; “A na: tureza da chuya € a mesma, mas ela faz com que espi mheiros crescam nos pantanos ¢ flores nos jardins Posso the ser util numa reavaliacao? Voct acha que pode ajudar alguém? Nao! Oh, nfo, nfio pode mesmo! Nao espere que ou vé ajar quem guer que sea, Nem tampouso pero prejudicaralguém, Caso voce se cinta prejud- tado, voo’ mesmo € 0 responsével; ¢ caso sinta-se aj dado, o mérito ¢ seu. Seu, de verdade! ‘Voo8 acha que as pessoas 0 ajudam? Nao, elas nio o ajudam. Vooé acredita que elas o apéiam? Cave, nea sendin em grip Be tm pia onde hayia ume frei, Ela me disse: __ Nao me sinto apoiada pela minha superiora. — 0 que a senhora quer dizer com isso? — per- guntei 15, — Bem, minha superiora, a superiora provincia- na, nunca vem ao noviciado pelo qual sou responsével. Nunca me dirige uma palavra sequer de apteciagio. — Certo, entdo vamos encenar uma pega, Faca- mos de conta que sou sua superiora. Vamos fingir que eu sei, exatamente, o que ela pensa sobre vocé. Entdo eu digo (fazendo 0 papel de superiora): “Sabe, Mary, a razio pela qual eu nfo venho a provincia que vocé administra € porque aqui nao hé problemas, Eu sei que € vocé quem dirige, entdo tudo corre bem”. Como voce se sente agora? — Sinto-me étima — ela responde. — Esté bem, yocé se importaria de sair da sala por uns minutos? Faz parte do exercicio. Assim que ela deixa a sala, converso com os ot- tros membros do grupo: — Continuo sendo a superiora, ok? Mary, que est 14 fora, é a pior diretora que ja tivemos na histé- tia de nossa provincia. O motivo pelo qual nao you ao seu noviciado, é que nao suporto yer 0 que ela faz. E simplesmente hortivel. Mas se eu the disser a verdade, isto s6 faré com que aquelas novicas sofram ainda ais. J4 estamos treinando uma outra para substitut-la dentro de um ou dois anos. Nesse meio tempo, achei que seria melhor dizer-lhe coisas boas para poupé-la. © que vocés acham? — Bem, na verdade, era a nica coisa a fazer em tais circunstancias — eles responderam. Pedi, entGo, a Mary que voltasse para © grupo, ¢ perguntei se ainda se sentia bem, “Oh, sim”, ela res- pondeu, Pobre Mary! Pensava estar sendo apoiada quando, na realidade, nao estava, 16 Se A yerdade é que a maior parte das coisas que sen- timos e pensamos, conseguimos incutir em nés mes- mos, em nossas mentes, incluindo essa histéria de es- tarmos sendo ajudados pelas pessoas Vocé acredita que ajuda as pessoas porque as ama? Bem, entiio tenho algo a dizer para vocé. ‘Vocé nunca se apaixona por pessoa alguma, Mas, sim, pela idéia preconcebida, preconceifuosa ou nao, “gar: voce nunca se apaixona por pessoa alguma, voc ‘ama a idéia que faz daquela pessoa. Nao é exatamente da mesma maneira que voc€ deixa de amar? Sua idéia muda, nao €? Vocé realmente confia nas pessoas? Néio, voce ja- mais confiou em pessoa alguma. Pare de mentir! Faz parte da layagem cerebral que a sooiedade nos faz. Voce jamais confia em pessoa alguma, apenas no jul- gamento que faz desse individuo. : Entao do que esta reclamando? O fato é que voce nao gosta de admitir: “Meu julgamento foi precipi- tado”. eee Nao parece muito lisonjeiro, certo? Entao, é mais facil dizer: “Como voc’ pode me desapontar?” Entio, [4 vai: na yerdade, as pessoas nfo que- rem crescer, ou mudar, ndo querem ser felizes. Certa vez, ouvi, de alguém muito sabio: “Nao tente fazer as pessoas felizes, voc s6 encontrard pro- blemas. Nao tente ensinar um porco a cantar, pois ape- nas conseguiré perder tempo, e deixaré o porco ir- ritado”. E como o executivo que entra num bar, senta-se, e vé um camarada com uma banana no ouvido — sim, 17 uma banana no ouvido. E per que deveri E pensa: “Serd cat adverti-lo? Nao, nfo é da minha conta”. Mas aquele pensamento : © aborrece. drinques, ele dirige-se ao rapaz, e dis: ee — Com licenga, , ah, o senhor esta fe eee hor esté com uma ba- — 0 que? — Vocé esté com uma banana no ouvido. —~ 0 que foi? — Vocé est com uma banana no ouvido — Fale mais alto, , por favor, diz o camai Estou com uma banana no ouvido! a setae ties € init Desist, desist de uma vez po ‘odes, Faga sua parte e saa. se ees titarem prove : timo, caso contrério, que péssimo! - Sobre o tipo caracteristico de egotsmo ee A primeira coisa que eu quero que voeé entendaa realmente queira despertar, é é na : auei , € que voc’ nilo que: ee ne passo é ser honesto o ieee admitir para si mesmo a i nto que nao Vocé nfo quer ser feliz. Se Vamos tentar um pequeno teste? Levard exata- mente um minuto. Feche os olh i ; 08, ot se preferir, fi de olhos abertos. Nao importa. ne ee 18 ¥ 5 CePA TEEN D DET EEE EEE Pense em alguém que vocé ame muito, alguém que esteja bem ligado a vocé, alguém que The seja muito precioso, e diga para essa pessoa, em pensa- mento: “Eu preferiria ter a felicidade a ter vocé”. Veja o que acontece. “Eu preferiria ter a felici- dade a ter yocé! Se eu pudesse escolher, sem divida eu. escolheria a felicidade.” Quantos de vocés se sentiram egoistas ao dizer isso? Muitos, pelo que me parece. Vejam como sofre- mos uma lavagem cerebral. “Como pude ser tio egoista?” Mas veja quem esté sendo egofsta. Imagine al- guém dizendo para vocé: “Como vocé péde ser to egofsta a ponto de escolher a felicidade a mim?” Vocé nfo sentiria vontade de responder: “Descul- peme, mas como voce pode ser to egofsta pare exigit que cu escolha voc$ acima de minha prépria felici- dade?!” Certa vez uma mulher me disse que quando ela era crianca, seu primo jesuita organizou um retiro na igreja de Milwaukee. Ele iniciava cada conferéncia com estas palavras: “A prova do amor €é o sacrifi- cio ea medida do amor é a abnegacio”. Que maravilhoso! Entdo perguntei a ela: — Vocé gostaria que eu te amasse a custa de mi- nha felicidade? — Sim — ela respondeu. ‘Nao é encantador? Nao seria maravilhoso? Ela me amaria a custa de sua felicidade e eu a amaria & custa de minha Telicidade;_essim ter feriamos das possons infelizes, mas wm armor eterno! 19 Querendo a felicidade Eu dizia que nao queremos i outras coisas. Ou eee ee ae ct condicionalmente. Estou pronto para ser feliz conn, que eu tenha isso ou aquilo e outras coisas, Mas que ser sinceros com nossos amigos, com o nosso anes ot com qualquer pessoa: $ ed — Voce ¢ minha felicidade. Doce me recuso sr eli ___E to importante entender isso! Na : sério, Ndo conseguimos entender a felicidade som. Aprendemos a colocar nossa felicidade nelgs, Entdo essa 6 a primeira coisa a ser feita se cui mos despertar; € 0 mesmo que dizer: se quiseen, amar, ter liberdce, pez espiritanidad, Nests espiritualidade a coisa mais prética do monte, _ Desafio qualguer um a pensar em al ain mais prético que a espiritualidade como cus defiay nao piedade, no devogio, nio religiao, nao adocnugo, mas espiritualidade — despertar, despertar! Vela ose, ta tristeza ha por toda parte — a solidag. 2 te tanta confuséo, 0 conflito nos coragdes den meee” conflito interno, conflito externo. ee ‘Vamos supor que alguém Ihe ge eee a a ee epee tremenda perda de energia, de satide, de sana oe vem desses conflitos e confusGes. Vocé gostaria? E se alguém nos mostrasse ui uns aos outros de verdade e ieee oe ee consegue pensat em algo mais prético que igo? °° Se ew nao puder ter de emog&o que 20 % ee TINY CUT TETEEETEE TTT Mas 0 que as pessoas acabam fazendo? Acham que um grande negécio € mais pratico, que a politica & mais pratica, que a ciéncia é mais pratica. De que adianta mandar um homem & Lua quando nds mal conseguimos viver na Terra? Estamos falando de psicologia neste curso de espiritualidade? ‘A psicologia € mais prética do que a espirituali- - dade? Nada é mais prtico do que a espiritualidade. que o pobre psicblogo pode fazer? Ele s6 consegue ali- viar a tensio, Eu sou psicdlogo, pratico psicoterapia ¢ carrego esse grande conflito dentro de mim quando tenho que escolher entre psicologia e espiritualidade. Gostaria de saber se isso faz sentido para alguém aqui, pois para mim nfo fez durante muitos anos. Posso explicar. Eu no conseguia ver sentido até que, de repente, descobri que_as pessoas tém_que so- frer’o bastante num relacionamento_para que elas se desiludam com todos os relacionamentos, Nao € ter- tivel? Elas devem sofrer 0 bastante em um relaciona- mento antes de despertar ¢ dizer: “Estou cansado disso! Deve haver um modo de vida melhor em que néo se dependa de outro ser humano”. E 0 gue fazia eu como psicoterapeuta? As pessoas me procuravam com os seus problemas de relaciona- mento, comunicagio, etc., ¢, as vezes, 0 que eu fazia 21 era dar uma pequena ajuda. Sinto muito em dizer, mas, as vezes, essa ajuda era indtil, pois as pessoas conti- nuavam dormindo. Talvez, fosse necessério que elas s0- fressem um pouco mais, que isso tocasse bem no fundo a ponto de se chegat & seguinte conclusfo: “Estou can- sado de tudo”. Sad Vocé s6 quer se livrar de uma doenga quando esté doente. A maioria das pessoas procura um psicdlogo ou jwiatra para obter alivio, Repito: para obter_alfvio. vi Vou contar a histéria do pequeno Johnny, que todos diziam ser mentalmente retardado. Mas é claro que nfio era, como voc8 poderé perceber pela histéria. Johnny esti na aula de modelagem na escola que freqiienta para criangas especiais, pega um pouco de massa e comega a modelar. A professora se aproxima: — Oi, Johnny. = i — O que ¢ isso que voce tem nas mios? — Isso 6 um monte de estrume de vaca! — Eo que voc® esta fazendo com isso? — Estou fazendo uma professora. “O pequeno Johnny regrediu” — a professora logo pensa. Entio, ela chama 0 diretor, que est pasando por ali, e diz: a oe — Johnny esté regredindo. O diretor se aproxima dele e diz: — Oi, filho, — Oi. — O que vocé tem ai na mio? 22 : ROTATE ETT ETE — Um monte de estrume de vaca! — O que vocé est fazendo? — Um diretor — ele diz. O diretor acha que é um caso para o psicdlogo da escola. — Encaminhe-o para o psic6logo! © psicdlogo ¢ um rapaz brilhante. Aproxima-se do garoto: : — oi — Oi — Johnny responde. — Eu sei o que vocé tem nas suas mos. — 0 qué? — Um monte de estrume de vaca! — Certo. — E eu sei o que vocé esté fazendo. — 0 qué? Vocé esti fazendo um psicdlogo! — Enrado. Nao tenho estrume suficiente! E disseram que o garoto é retardado! Pobres psicdlogos. Na verdade, eles estiio fazendo um bom trabalho. Hé casos em que a psicoterapia é de uma ajuda incrivel, porque quando vocé esté a ponto de enlouquecer pode tornar-se um psicdtico ou mistico, Tss0 € que € ser mistico, 6 oposto do lundtico, “Voc8 sabe se jd despertou? E quando vocé se per- gunta: “Estou louco, ou so os outros que esto?” E verdade. Porque estamos loucos. O mundo todo esté louco. Lundticos inveterados! ‘A Gnica razao pela qual nao estamos internados é que somos um niimero muito grande. Somos loucos. Vi- vemos de loucas idéias sobre 0 amor, relacionamentos, 23 felicidade, alegria, tudo. Acredito que somos loucos a Ponto de, se concordamos sobre algo, como pode- mos ter certeza de que est& errado! _ Toda idéia nova, toda grande idéia no inicio era minoria de um. Aquele homem chamado Jesus Cristo — minoria de um. Todos diziam algo diferente daquilo que ele estava dizendo. Buda — minoria de um. Todos dizendo coisas diferentes do que ele dizia. «Ache que foi Bertrand Russell quem disse que toda grande idéia comeca como blasfémia”. Uma ob- servacdo muito bem colocada, Voc8 ainda vai ter que ouvir muitas blasfémias! “PJe blasfemou!” Pelo fato de as pessogs serem loucas, lunéticas, quanto antes yor perceber,, melhor serd para sua satide mental ¢ espiritual. No confie nelas. Nao confie em seus melhores amigos. Desconfie deles, pois séo muito espertos. Assim como voce 6, com relagdo aos outros, embora provavelmente vocé nao saiba. Ah, yocé tio astuto, sutil c esperto. Voce esté fingindo. Parece que nao estou sendo muito cortés, nao é? Mas repito: vocé quer despertar. Voce esté fingindo, e nem sabe. Vocé acha que estA sendo téo amével! Ah! Quem vocé esté amando? Até sua dedicagdo The da uma sensagao de bem-estay, nao 6? “Estou me sacri- ficando! Estou lutando poy um ideal!” _Mas voce esté tirana proveito disso, nao esté? Vocé esté sempre tiranda proyeito de tudo o que faz, até que desperte. __Entéo, 14 vai: primeiro passo. Perceba que vocé néo quer acordar. E muita dificil despertar quando vocé foi induzido a pensar que um pedago de jornal yelho € um cheque no valor de 4m milhéo de délares. Como é dificil livrar-se desse Pe cjaco de jornal velho! 24 VV Ay aa Renunciar nao é a solucao A qualquer hora que estiver renunciando vocé se desilude, Que tal isso! Vocé se desilude. Toda vez que renunciar a alguma coisa, vocé estaré amarrado a isso a que renunciou para sempre. Hé um guru na India que diz: “Toda vez que uma prostituta se aproxima de rifle ft falates enn DE Gus Oct aaa Vida que leva ¢ sO quer Deus. Mas toda vez que um sacerdote se aproxima de mim, s6 fala em sexo”. Muito bem, quando yocé renuncia a alguma coisa, fica preso a ela para sempre. Quando vocé luta contra algo, fica amarrado a isso para sempre. Enquanto vocé luta, dé forca a esse inimigo. Vocé da tanta forca a ele quanto o utiliza para brigar. Isso inclui comunismo ¢ tudo mais. Entéo voce deve “receber” seus demOnios, porque quando luta contra cles, vocé Ihes dé forca. Nunca Ihe disseram isso? Quando yoo’ renuncia a algo, voc’ fica preso a isso, A_Gnica maneira de se livrar do problema é en- xergar através dele, Nao renuncle, compreenda. Se vooé entender seu verdadeiro valor, nfo teré que renun- ciar, Ele desaparecerd. Mas é claro que sc voc€ nao vit isso, se for levado a pensar que ndo seré feliz sem isso ou aquilo, ou outras coisas, estard perdido. O que nés precisamos fazer por vocé nao é 0 que a chamada espiritualidade tenta fazer, isto é levélo a fazer sactificio, renunciar a coisas. F indtil, vocé ainda esté dormindo. O que precisamos fazer € ajudé-lo a enten- der, entender, entender. Se entendeu, esse descjo pas- sara, Em outras palayras: se voc8 despertou, esse dese- jo simplesmente passaré. 25 Ouvir e desaprender Alguns de nds, conseguem despertar pela dura realidade da vida. Sofremos tanto que acabamos des- pertando, Mas algumas pessoas acabam dando de cara com a vida novamente, continuam sonémbulas, nunca despertam. Infelizmente, nao Ihes passa pela cabeca que pode haver uma forma melhor. Se vocé ainda nao Ievou um chacoalhao da vida, e nao sofreu o bastante, entao hé um outro modo: ouvir. Nao estou dizendo que vocé tenha que concordar comigo. Isso nfo seria ouvir. Pode acreditar em mim, nao tem importancia se vocé concorda comigo ou nao, porque concordar ¢ discordar tém a ver com pa- lavras, conceitos e teorias, e nada tém a ver com a ver- dade, pois a verdade no pode ser expressada em pala- vras. De repente ela € vista como resultado de uma certa atitude. Entfo, vocé pode estar discordando de mim e, ainda assim, ver a yerdade. Mas deve haver uma atitude de sinceridade e boa yontade para desco- brir-se algo novo. Isso é importante, e nao 0 fato de voc’ concordat comigo ou nao. Afinal de contas, muito do que estou passando aqui para yocé é teoria. Nenhuma teoria cobre a realidade de forma adequada. Entfo posso falar nfo sobre a ver- dade, mas sobre os obstdculos & verdade. Esses eu posso descrever, a verdade néo. Ninguém consegue, Tudo o que eu posso fazer 6 dar uma descrigao de suas men- tiras, para que voce possa livrar-se delas. O que eu posso fazer é desafiar suas crengas ¢ o sistema que 0 faz. infeliz, O que eu posso fazer ¢ ajudé-lo a desapren- der. E com isso que o aprendizado da espiritualidade se 26 preocupa: desaprender quase tudo que aprendeu, Von- tade de desaprender, ouvir. Voc8 est ouvindo, como a maioria das pessoas faz, a fim de confirmar 0 que vocé jé pensa? Observe suas reagdes quando eu falo. Certamente vocé ficard surpreso, chocado, escandalizado, irritado, aborrecido ou frustrado. Ou entdo poderé até dizer: “Otimo!” Mas yocé est ouvindo o que confirmard aquilo que vocé j4 pensa? Ou esté ouvindo para descobrir algo novo? Isso € importante, e muito dificil para quem est4 adormecido. jesus veio proclamar a boa nova ¢ foi rejeitadg. Nao porque era bom, mas pel Tato de_ser novo. Nés odiamos o que € novo. Odiamos! E quanto antes encatarmos esse fato, melhor. Nao queremos no- vidades, especialmente quando nos incomodam, quan- do enyolvem mudangas, quando envolvem fer que a fembro-me de um encontro que tive com um je- suita, de citenta sete anos, na Espanha. Ele foi meu professor e reitor na India ha trinta ou quarenta anos. Assistiu A minha palestra e comentou: “Eu deveria té-lo ouvido ha sessenta anos, ¢ sabe de uma coisa? Es- tive errado a vida toda!” Meu Deus, imagine s6! E como deparar-se com as maravilhas do mundo. Isso, senhoras e senhores, € fé! Uma abertura para a yerdade, nao importam as conse- giiéncias, nfo importa para onde ela o leve, também nao importa se voce nem sabe para onde ela o levard. Isso é f6. Nao crenca, mas £6. Suas crengas The dio, muita seguranca, mas a fé € inseguranca, Vocé nao conhece, est pronto para seguir, esid receptivo! Pronto para ouvir. E, preste atengdo, estar receptivo ndo signi- 27 fica ser ingénuo, engolir tudo 0 que 0 orador esté pas- sando, Ah, nao! Vocé deve desafiar tudo o que eu estou dizendo. Mas desafie com uma atitude compreensiva, néo uma atitude de teimosia. E desafie tudo mesmo. Lembre-se das palayras adordveis de Buda: “Monges e doutos nao devem aceitar minhas palavras por respeito, mas de- vem analisé-las como um ourives analisa 0 ouro — cortando, raspando, derretendo, polindo”. Dessa forma, vocé estar ouvindo. Teré dado um, outro grande passo para o despertar. O primeiro passo, como eu ja disse, é admitir que nao quer despertar, que nao quer ser feliz, Hé muita resisténcia dentro de voc8, O segundo passo € estar pronto para entender, ouvir, desafiar todo o seu sistema de crenca. Nao ape- nas creneas religiosas, politicas, sociais ou psicoldgicas, mas todas elas. Estar pronto para avalié-las novamente, na metéfora de Buda. E eu the darei aqui muitas opor- tunidades para realizar isso. A mascara da caridade A caridade &, na verdade, o egoismo disfarcado de altruismo. Vocé diz que € dificil aceitar poder haver ‘ocasides em que ndo é honesto, tentando ser amavel ou digno de confianga, Vamos simplificar da melhor maneira_possivel, mesmo sendo rude ¢ radical, pelo menos para comegar. 28 Hi dois tipos de egoismo, O primeio tipo & aque- Je onde eu me dou o prazer de agradar a mim mesmo, (© que costumamos chemar de egocentrismo. © segundo é quando eu me dou o prazer de agra- dar aos ouiTos, Setia um tipo mais refinado de egofsmo. © primeito tipo € bem evidente, mas o segundo esté bem escondido, sendo, assim, mais perigoso, por- que conseguimos nos sentir notaveis. Ea senhora ai, madame, que diz viver sozinha e dedicar algumas horas de seu tempo & pardquia. Mas também admite que o faz por uma questao de egoismo — sua necessidade de ser titil — e sabe também que precisa ser titil de modo que sinta estar contribuindo ‘um pouco para o bem do mundo. No entanto, afirma que, pelo fato de eles também precisarem de sua ajuda, 6 uma troca de favores. Vocé est quase entendendo! Temos 0 que apren- der com voc8. Esta certo. “Eu dou algo, recebo algo em troca”, diz a mulher. Fla esté certa. Fu saio para ajudar, dou alguma coisa, recebo alguma coisa. E bonito, verdadeiro. Isso ‘no & caridade, 6 egofsmo iluminado. E 0 senhor, cavalheiro, que clama ser o evangelho de Jesus, basicamente um evangelho de interesse pré- prio. Aleangamos a vida eterna por nossos atos de cari- dade. “Vinde, benditos de meu Pai, possui o reino que vos esté preparado desde a criagdo do mundo, porque tive fome, ¢ destes-me de comer; tive sede, ¢ destes-me de beber.” 29 Vové diz que isso “bate” com o que estou afir- mando. Diz que, quando olhamos para Jesus, obser- vamos que seus atos de caridade foram atos do mais puro interesse proprio para ganhar almas para a vida eterna. E, por ai, vocé percebe o impulso e significado da vida: a conquista do interesse préprio por atos de- caridade. Tudo bem. Mas veja, vocé est trapaceando por- que trouxe a religiéo para o assunto. Isso é vélido, é legal. Mas como seria, se eu lidasse com os evangelhos, com a Biblia e com Jesus até o fim desta avaliacao? Digo isso agora para complicar ainda mais: “Tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber”, ___E 0 que cles responderam? “Quando? Quando fizemos isso? Nao sabiamos.” Eles estavam inconscientes! ___ As vezes me ocorre um pensamento terrfvel. Ima- gino o Mestre a dizer — Tive fome, e destes-me de comer. — Certo, Senhor, nds sabemos — respondem as pessoas que estio & direita, — Eu nfo estava falando com vocés — 0 Mestre responde. — Isso no estd no script. Vocés nao deve- riam saber. Nao € interessante? Mas vocé sabe. Voc conhece © prazer interno que sente ao praticar atos de caridade. Ah-ah! Est4 certo! E 0 oposto de alguém que diz: “O que ha demais no que fiz? Ora, fiz algo e recebi algo. Eu ndo tinha idéia de estar fazemdo alguma coisa boa. Minha mao esquerda nao sabia o que a direita estava fazendo”. 30 CRETE EEE ET Voe8 sabe que um bem nunca € tio bom como quando voc8 tem consciéncia de que o esté praticando. Voeé nunca é tio bom como quando sabe que 0 é. Ou, como diria o grande Sufi: “Um santo é santo até que saiba que 0 &”. Inconsciente! Inconsciente! Alguém pode fazer objegio a isso, e perguntar: “Nao é prazer que recebo em dar, a vida eterna nao 60 aqui ¢ 0 agora?” Eu nio saberia dizéJo. Eu defino 0 prazer como prazer, ¢ nada mais. Pelo menos por enquanto, até comegarmos a falar em religiao. Mas quero que voc® entenda desde jé que a religido nao esté — repito: no esté — necessariamente ligada & espiritualidade. Por favor, deixe a religido fora disso por enquanto. Tudo bem, entio voc questiona a respeito do sol- dado que cai sobre uma granada para evitar que os outros se machuquem. E o homem que levou um cami- nhfio carregado de dinamite para o campo americano em Beirute? “Amor maior que esse, ninguém tem.” Mas os americanos nfo pensam assim. O homem que leyou o caminhao agiu deliberadamente, Ele foi desumano, nfio foi? Mas ele nfo pensava dessa forma, pode ter certeza, Ele achaya que ia para o céu. Assim como 0 soldado. Estou tentando apresentar um quadro de aco onde nao haja indugo, onde vocé tetha despertado ¢ o que faga seja feito através de voce. Sua ago, nesse caso, se torna um acontecimento. “Deixe que isso seja feito para mim.” Nao estou excluindo isso, Mas quando € vocé quem o faz, estou 3 procurando egofsmo, mesmo que seja apenas para ci- tar “Serei lembrado como um grande herdi ou “Nao conseguiria continuar vivendo se no tiyesse feito isso, Jamais viveria com o pensamento de ter fugido”. Mas lembre-se: no estou excluindo o outro tipo de aco. Eu no disse que nfo existe uma agdo sem egofsmo. Talvez exista. Vamos explorar este aspecto. Uma mie salvando uma crianga — salvando sew filho, voc8 diz. Mas por que ela nao salva o filho do vizinho? E 0 dela. E 0 mesmo que um soldado morren- do por seu pats. Tantas mortes desse tipo me aborrecem, e me per- gunto se elas no seriam o resultado de uma lavagom cerebral, Mértires me aborrecem. Acho que eles sio persuadidos. Martires muculmanos, hindus, budistas, cristaos, todos sofreram lavagem cerebral! Eles tém em mente que devem morrer; que a mor- te € uma grande coisa. Eles nfo sentem coisa alguma, mergulham de cabega. Mas nem todos; entéo, ouga com atenc&o. Eu nao disse fodos cles, mas nio des- carto a possibilidade. Muitos comunistas sofrem lava- gem cerebral (vocé jd esl4 pronto para acreditar nisso), a ponto de estarem preparados para morrer ‘As vezes acho que 0 processo usado para fazer, por exemplo, um Sao Francisco Xavier é o mesmo uti lizado para produzir um terrorista. Voc@ pode manter um homem por trinta dias numa reavaliag&o, conse- guindo que ele seja devoto ardoroso de Cristo, mas sem um pingo de autoconsciéncia, Nenhuma autocons- ciéneia. Ele pode tornar-se um grande chato; conside- rar-se um santo. Minha intengdo nao € difamar S40 Francisco Xa- vier, que provavelmente foi um grande santo, mas 32 ETT era um homem dificil de se conviver. Ele era um chefe desprezivel mesmo! Faca uma pesquisa. Indcio sempre tinha que intervir para consertar © que esse bondoso homem fazia por intolerdncia, B preciso ser bem intolerante para se alcangar o que ele conseguiu. “Em frente, pessoal, nao parem — nfo im- porta quantos corpos caiam pelo caminho.” Alguns criticos de Sao Francisco Xavier dizem exatamente isso, Ele demitia os homens, e esses, pot sua vez, recorriam a Infcio, que dizia: “Venham até Roma e conyersaremos @ respeito”. E Inécio os readmitia as escondidas. Qual o grau de autoconsciéncia nessa situacdo? Quem somos nés para julgar? Néo estou dizendo que nfo haja uma motivagio pura. Estou dizendo que tudo o que fazemos € por nosso interesse proprio. Tudo. Quando fazemos algo por amor a Cristo, € egois- mo? Sim. Quando yocé faz algo por amor a qualquer pessoa, é por egoismo. Vou explicar 0 porqué. Vamos supor que yocé more em Phoenix e ali- mente mais de quinhentas criangas por dia, Vocé se sente bem fazendo isso? Bem, question porque ds vezes voce pode se sentir mal mesmo. E é por isso que ha pessoas que fazem coisas para nfo terem que carregar um sentimento ruim. B chamam isso de caridade. Elas agem sem sentimento de culpa. Isso nao ¢ amor. Mas agradeca a Deus, voce faz coisas para as pes- soas e é agraddyel. Que maravilhoso! Vocé é um indivi- duo saudével porque é egofsta, Isso saudavel. 33 Deixe-me resumir 0 que eu dizia sobre caridade sem interesse. Eu disse que hé dois tipos'de egofsmo; talvez seja melhor eu dizer trés. O primeiro, quando cu fago alguma coisa, ou melhor, quando me dou o prazer de agradar a mim mesmo; o segundo, quando me dou o prazer de agradar aos outros. Nao se orgulhe disso, Nao vd pensando que é uma grande pessoa, Na verdade vocé é uma pessoa muito comum, mas tem gostos refinados. Vocé tem bom gosto, mas 0 mesmo no acontece com sua espiritualidade. Quando crianga, vood gostava de Coca-Cola; agora, adulto, vocé aprecia uma cerveja gelada num dia quen- te, Vocé adoraya chocolate; agora, aprecia uma sin- fonia ou um poema. Seus gostos sio melhores. Voce continua sentindo prazer, s6 que agora 6 um prazer em agradar aos outros. Aqui entra o terceiro tipo, que eu considero 0 pior: quando voeé faz alguma coisa para nao carregar um sentimento ruim. Voc nao se sente bem ao fazé-lo; na verdade vocé até odeia. Esté se sacrificando por amor, mas est4 resmungando. Ah! como voc€ se conhece pouco se pensa que no age dessa forma. Se cu ganhasse um délar toda vez que fizesse algo que n&o gosto, estaria miliondrio agora. Vocé sabe como funciona. — Poderfamos conversar, padre? — Sim, vamos, entre! Eu nao quero conyersar com ele, detesto isso. Quero assistir aquele programa na televisio, mas como you dizer no? Nao tenho coragem. “Vamos, entre 34 Mas por outro lado fico pensando: “Oh, Deus, tenho que agiientar esse chato”. Nao me sinto bem conversando com ele, e nfo me faz bem dizer-lhe nfo, entio escolho o menor dos ma- les ¢ deixo-o entrar. Vou ficar feliz quando tudo ter- minar, e conseguirei até sorrir. Mas comeco a sesso: — Como vai? — Muito bem — diz ele. E fala sem parar. Comenta que gosta demais do semindrio, ¢ cu 14 pensando: “Ai, meu Deus, quando 6 que ele vai chegar ao ponto que interessa?” Finalmente cle chega, e eu, metaforicamente, atiro contra a parede: “Bem, qualquer idiota saberia resolver esse tipo de problema”. E 0 mando embora. “Ufal Consegui me livrar dele”, eu digo. E na manha seguinte, na hora do café (porque estou achando que fui rude), vou conversar com ele. — Como est a vida? — Otima — ele responde, — Sabe, aquilo que 0 senhor me disse ontem & noite ajudou muito, Podemos conversar depois do almogo? — Oh, Deus! Esse 6 0 pior tipo de caridade, quando vocé esta farendo algo para nao carregar um sentimento ruim. Vocé nio tem coragem de dizer que quer ficar sozinho. Vocé quer que as pessoas penser que yooe € um bom padre. Se vocé disser “Eu ndo gosto de magoar as pes- soas” sabe o que eu you dizer? “Pare de mentir! Eu nfo acredito em voce.” Nao acredito em individuo algum, que diga que nGo gosta de magoar as pessoas. Nés adoramos magoar, 35 especialmente algumas pessoas. E quando outra pessoa faz isso, nos deliciamos. Mas nao queremos nos magoar porque nés seremos 0 alvo, Ah! ai esté. Se nés magoarmos, estragaremos nos- sa imagem. As pessoas tero uma md impressio a nosso respeito, no gostarfo de nés, iro nos criticar, ¢ néo gostamos disso! O que vocé tem ent mente? A vida é um banquete. E a maior tragédia é que a maioria das pessoas esti morrendo de fome. E exata- mente sobre isso que eu estou falando. Tenho uma boa histéria sobre algumas pessoas que estavam numa jangada na costa brasileira, Elas es- tayam morrendo de sede e nem se dleram conta de que aquela ‘gua, onde estayam flutuando, era doce. O rio corria para mar com tanta forca que, bem ali onde clas estayam, a égua era doce. Mas nem perceberam. (O mesmo acontece conosco. Estamos cercados de amor ¢ alegrias. Mas a maioria das pessoas niio conse- gue entender, O motivo: elas esto hipnotizadas; esto adormecidas Imagine um mégico que hipnotiza alguém para que essa pessoa nfo yeja o que tem ali e veja o que nfo tem. E isso! Arrependa-se! Desperte! Nao lamente pelos seus pecados. Por que chorar por pecados cometidos quando voeé estava dormindo? Vai chorar por coisas que fez 36 y PTET TEE em estado hipnético? Por que voc’ quer identificar-se dessa forma? Desperte! Desperte! Arrependa-se! Assuma uma nova mentalidade, um jeito diferente de ver as coisas! Pois “o reino est aqui!” E raro o cristZo que leva isso a sério. Eu disse que a primeira coisa a ser feita 6 acordar, encarar o fato de que vocé no gosta de ser despertado. Vocé preferiria ter todas as coisas que o fizeram acte- ditar serem preciosas, Zo importantes para sua vida. A segunda coisa a ser feita € entender. Entenda que talyez vocé tenha idéias erradas, e que essas idéias estejam influenciando sua vida, tornando-a uma enorme bagunga e impedindo que vocé acorde, Idéias sobre amor, liberdade, felicidade, e assim por diante. E nfo 6 fécil ouvir alguém que desafie idéias que se tornaram {io preciosas para voc’. Existem alguns estudos interessantes sobre lava- gem cerebral, que mostram que voc sofre 0 proceso quando assume ou “introjeta” uma idéia que ndo é sua. E 0 engracado & que yocé se prepara para morrer por essa idéia, Nao € estranho? O primeiro teste para perceber se vocé sofreu la- vagem cerebral ou introjetou convicgdes e crengas ocor- re no momento em que elas so atacadas. Vocé fica chocado, reage emocionalmente, est pronto para mor- rer por uma idéia que nunca foi sua. Os terroristas ¢ santos (assim chamados) adotam uma idéia, absorvem-na por inteiro, e ficam prontos para morrer por ela. Nao 6 fécil ouvir, especialmente quando vocé se envalve emocionalmente com uma idéia, E mesmo quando vocé nfo esté envolvido, nao é BE fécil; voce estaré sempre oy, Seu condicionamento, sua hipnose, Voc interpreta tudo que est sendo dit mos de seu estado hipnotico, Oe u Se ici progtamago, Como a garota guy gone onamento out Tea Palesira sobre agricultura © di eae i me, 0 se- nhor sabe que concordo co: mo melhor esterco & 0 de cavalo vein Sea x nos dizer qual seria a idade ideal de cavalo?” _ Weia de onde ela parte. Todos nbs temos noss posigdes, nfo 6? E damos ouvidee’s Hos = — Henry, como vooé _ — Henry, Mudou! Vocé era ti ¢ ficou tio baixinho; era to forte, seer een yee Sua pele era clarinha, agora voce Bore ts Maetinno- aconteceu com voce, Henry? Seine ae — Eu nfo sou Henry, sou John — Oh, voc’ mudou de nome também? Como vocé vai fazer com : cutem? A coisa mais diffcil do my iF nfo gustenoe ence Voce unde & oui, entergen quer ver 0 que hé de bom no sistem coments? Vers acha que um comunista quer vex sare ht th bonne saudével no regime capitalist? Woon gr oe Pom & mem rico se preoeupa com os pyceesens 2 um ho” Nao queremos olhar, por 9 fi reccatanne NE eenee eo ee Pale perde o conirole da vida que tag nem ro, nat Vooe beads precatiamente conso- ‘indo sua programagio, que pessoas assim es- Pata despertar voce 1 juventude ou uma gi pronto para aprender ice ‘ © Dtecisa de energia, forca, mice inteligéncia. Precisa estar alg0 NOVO.As chances de des- nde 38 WOVERUUUURRUUEONROOTENQNOUNIUED , pertar estfio na proporgdo direta ao tanto de verdade que vocé consegue ver sem ter que fugir. Quanto yoct esta pronto para assumir? Quanto de tudo a que voce tem afeigdo vocé esté pronto pata destruir sem fugir? Est4 pronto para pensar em coisas novas, no fami- liares? ‘A primeira reagdo é de medo. Nao que tenhamos medo do desconhecido. Voc nao pode temer 0 que nao conhece. Ninguém tem medo do desconhecido. O que voce teme &a per a daquilo que jé conhece. Como exemplo, eu disse quie tudo 6 que fazemos est contaminado de egoismo. Nao é facil ouvir isso. Mas pare para pensar, vamos nos aprofundar. Se tudo 0 que voce faz vem do interesse préprio — egclarecido ot: nio —, como voce se sente com re- lagdo & sua caridade e todas as suas agdes? O que acon- tece com elas? Aqui vai um exereicio. Pense em todas as boas ages que voce tem feito ou em algumas delas (j4 que estou The dando apenas alguns minutos). Agora en- tenda que elas brotaram do sett interesse proprio, voce sabendo ou nao. © que acontece com o seu orgulho? Sua vaidade? © que acontece com aquele sentimento bom que voce se deu, aquele tapinha nas costas toda vez que fazia algo que achava ser por caridade? Tudo desapareceu, niio é? (© que acontece com aquele vizinho que voc’ via com maus olhos, achando-o to egoista? Tudo muda, nao €? “Bem, meu vizinho nado tem gostos tao refinados quanto os meus”, voc di 39 Vocé mais petigoso do que parece. Jesus Cristo parece ter tido menos problemas. Ele teve problemas com pessoas que se consideravam boas, Outros tipos, como as que se achavam egoistas mesmo, nao The de, ram problema. Consegue ver como isso liberta? Ei, desperte! E libertagdo. E maravilhoso! Estd deprimido? Talvez esteja, Nao é maravilhoso perceber que vocé néo é melhor que ninguém neste mundo? Vocé est desapontado? Veja o que descobrimos! O que acontece com a sua vaidade? Vocé gostaria de se sentir melhor que os outros. Mas veja como des- cobrimos a mentira! Bom, mau ou sortudo O egoismo, a meu ver, parece vir de um sentimen- to de autopreservacio, que é nosso primeito e mais pro- fundo instinto, Como optar pelo néo-egofsmo? Seria o mesmo que optar pelo nao-ser. O que quer que seja, 0 que estou dizendo é: Pare de sentir-se mal por ser egoista; somos todos iguais Certa vez ouvi algo muito bonito sobre Jesus, A pessoa nem eta crist&: “O mais adorével em Jesus era que Ele se sentia tao & vontade com pecadores porque sabia que nao cra melhor que eles!” Nés nos diferenciamos dos outros — de ctimino- sos, por exemplo — somente naquilo que fazemos ou 40 PEE EEE TELE EEE T EEE ttt deixamos de fazer, nao naquilo que somos. A tnica di- ferenga entre Jesus e aquelas pessoas é que Ele estava acordado e elas nao. : Observe as pessoas que ganham na loteria. Vocé jé ouviu alguma delas falar “Estou tZo orgulhoso por receber este prémio, nfo por mim, mas pelo meu pafs, minha sociedade”? — ‘Alguém fala assim quando gariha na loteria? Nao. Porque ele teve sorte, sorte. Gente na lo- teria, primeiro prémio. Hé do que se orgulhar? i ‘Da mesma forma, se yoo’ alcangasse 0 entendi- mento, seria por egofsmo e por sua sorte, Vocé quer gléria nisso? Por qué? Vocé nao fon segue ver que estupidez € ter vaidade de suas boas a ? ES eer nfo era um homem ruim, era estdpido. Era estipido, nao ruim, Ele nfo parou para pensar. Certa vez alguém me disse: “Ouso ndo parar para penser, pois se o fizesse, nao saberia como comegar novamente”. Nossa ilusdo com relagdo aos outros Entio, se voce parar para pensar, vai perceber que nfo hé coisa alguma de que se orgulhar. E o que isso tem a yer com 0 relacionamento das pessoas? Do que voce esta reclamando? 41 Um jovem veio queixar-se de sua namorada que © havia desapontado; ela o trafra Vosé esperava por algo melhor? Espere pelo pior, vyoc® est lidando com pessoas egoistas Vocé & 0 idiota — vocé a endeusou, nfo foi? Achaya que ela fosse uma princesa. Voc achou que as pessoas fossem boas. Pois nfo sfo! Elas so tio més quanto vocé — mis, voc entende? Estéo dormindo como voce; 0 que vocé acha que elas vio procurar? Seu préprio interesse, como voc. Nao hi diferenga. ‘Voc8 consegue imaginar como seria bom se nunca mais yoc€ se desiludisse, ou ficasse decepcionado, ot se sentisse rejeitado? Voc8 quer despertar? Quer felici- dade, liberdade? Aqui esté: abandone suas falsas idéias. Veja atra- vés das pessoas. Se vocé vir através de si mesmo, es- tard enxergando através de todos. Enido voc8 passaré a amar os outros. Caso contrério, passard o tempo todo pteso as idéias erréneas que faz das pessoas, as ilusdes quie constantemente se chocam com a realidade: Provavelmente é muito dificil para muitas pessoas entenderem que todos, exceto aquele que j4 despertou, podem ser egoistas e buscar seu interesse de forma gros- seita ou refinada. Isso leva vocé a ver que nfo hd nada com que se decepcionar, se desiludir. Se voce estivesse em contato com a realidade, nao teria se decepcionado, Mas vocé escolheu pintar as pessoas com cores brilhantes; escolheu nao enxergar atrayés do ser hu- mano, porque escolheu enxergar através de si mesmo. Agora, voo8 esté pagando o preco. 42 3 TUT -. Antes de discutirmos isso, deixe-me contar uma hist6ria. Certa vez, alguém me perguntou: “Como é estar esclarecido? O que é estar acordado?” E como o mendigo que perambulava pelas ruas de Londres 2 procura de um lugar para dormir. Mal havia conseguido um pedaco de pio. Finalmente chegou perto do rio Tamisa. Fazia frio. Enrolow-se em seus farrapos, e quando se preparava para dormir, um mo- torista, dirigindo um Rolls-Royce, encostou 0 carro! Uma jovem muito bonita descou ¢ disse para o men- digo: — Meu pobre homem, o senhor esté pensando em passar a noite aqui, no rio? — Sim — respondeu ele. — Nao permitirei que isso acontega. O senhor vem comigo, para a minha casa. Vai passar uma noite muito confortdyel, vai comer muito bem. E ela insistiu para que entrasse no carro. Bem, ento foram para uma linda mansao, com grandes jar- dins, Foram recebidos pelo mordomo, que atendeu as ordens da moga: “James, por favor, ctiide para que este senhor seja Ievado ao quarto de empregados seja bem tratado”. James obedeceu as ordens, A jovem tirava a roupa para dormir, quando se lembrou do héspede. Sait pelo corredor, vestindo alguma coisa, pegou almofadas e foi até 0 quarto onde o mendigo fora colocado. Viu que a luz estava acesa, bateu & porta delicadamente, abrit-a e encontrou o homem acordado. — Qual € 0 problema, meu senhor, nfo foi bem tratado? — Nunca tive uma refeicfo to gostosa. 43 — Sua cama nfo esté quentinha? — Sim, esté étima. — Talvez voc’ precise de companhia. Por que vocé nao me dé um cantinho? — disse ela. E quando ela se aproximou dele, ele se afastou e caiu no Témisa. Ab! Por essa vocé nao esperava! Esclarecimento! Esclarecimento! Acorde! Quando vooé estiver pronto para trocar suas ilusdes por realidade, seus sonhos por fatos, voce teré descoberto tudo. E tera descoberto que a vida, finalmente, se torna significativa. A vida se torna bonita. Hé uma hist6ria sobre Ramirez, um velho que mo- rava em seu castelo numa colina. Fle olhava pela j nela (estava na cama, paralitico) via seu inimigo, tao yelho quanto ele, se apoiando em uma bengala, subin- do a colina — vagarosamente, demonstrando muita dor. Ele leyou aproximadamente duas horas ¢ meia para chegar. Nao havia coisa alguma que Ramirez pu- desse fazer, era a folga dos empregados. O inimigo abriu a porta, foi direto até seu quarto, colocou a mao no bolso, puxou uma arma, — Finalmente, Ramirez, vamos acertar os pon teiros! Ramirez tentou conversar em seu melhor estilo: — Ora, vamos, Borgia, vooé nao pode fazer isso. Vocé sabe que no sou mais aquele jovem que Ihe mal- tratou anos atrds, ¢ vocé também nao é 0 mesmo. Pare com isso! — Oh, nao, suas doces palavras n&o vo me im- pedir de cumprir esta missao divina, O que eu quero é vinganca e nao hé nada que vocé possa fazer. 44 — Mas ha! — disse Ramirez. — O qué? — pergunta seu inimigo. — Bu posso despertar — disse Ramirez. E foi o que ele fez, ele despertou; isso € esclare- cimento. Quando alguém Ihe di — No hé nada que vocé possa fazer. — Hé sim, eu posso despertar — yor diz, De repente, a vida nfo € mais aquele pesadelo de antes. Desperie! ‘Alguém levantou uma questéio. O que voc acha que foi? — Vocé esté esclarecido? — perguntou ele. © que vocé acha que respondi? — O que importa? Quer uma resposta melhor? Minha resposta seria: “Como posso saber? Como voce pode saber? O que importa?” Sabe de uma coisa? Se voce desejasse demais al- guma coisa, vocé estaria em apuros! E sabe 0 que mais? Se eu fosse esclarecido e vocé me ouvisse porque eu sou esclarecido, entio vocé estaria em apuros! Vocé esté preparado para ser persuadido por uma pessoa iluminada? Vocé sabe que pode ser persuadido por qualquer pessoa. O que importa se essa pessoa é esclarecida ou no? Mas, veja, queremos nos encostar em alguém, nfo queremos? Queremos nos apoiar em qualquer um que achamos ter conseguido éxito. Adoramos ouvir que as pessoas conseguiram chegar 1a, Isso nos da esperangas, nao 6? Para que vocé quer esperangas? Nao é uma outra forma de desejo? 45 Voce quer esperar por algo melhor do que o que tem agora, no €? Caso contrério, ndo estaria espe. rando. Mas, ento, se esquece que tem tudo agora, ¢ no sabe disso. Por que nao concentrar-se no agora, em vez de esperar por momentos melhores no futuro? Por que no entender o agora, em vez de esquecé-lo e ficar esperando pelo futuro? O futuro nfo € apenas uma armadilha? Auto-observagado ___A Gnica forma de alguém ser ttil a voo® € desa- fiando suas idéias. Se vocé estiver pronto para ouvir ¢ pronto para ser desafiado, ha uma coisa que pode fazer, mas ninguém pode ajudé-lo. ‘ Que coisa é essa que é a mais importante de todas? E a chamada auto-observacio. __ Ninguém pode ajudé-lo nesse caso, Ninguém pode ditar um método. Ninguém consegue demonstrar uma técnica, __ A partir do momento em que vocé adota uma téc- nica, voc’ est sendo programado novamente. _Mas a auto-observagao — observar a vocé mesmo — € importante, Nao é 0 mesmo que auto-absorcao {ensimesmamento]. Auto-absoreao € autopreocuipacao, onde voce se preocupa com voog, sé com voce. Estou falando em auto-observagiio. O que 6 isso? Significa observar tudo em voce ¢ ao seu redor, o mais distante possivel, como se fosse outra pessoa. O que 46 : = essa iiltima afirmagio significa? Que voc8 nfo deve personalizar 0 que esté acontecendo com vocé. Que deve encarar as coisas como se vocé nio tivesse li- gacao alguma com elas. A razo pela qual yore sofre com sua depressiio & suas ansiedades é que vocé se identifica com elas. “Es- tou deprimido”, diz. Mas isso é mentira. Vocé nfo esté deprimido, Se quiser ser mais preciso, entio pode di- zer: “Estou experimentando uma depressio no mo- mento”. Mas yocé mal consegue dizer: “Estou depri- mido” Vocé niio é sua depressfo. Isso é um tipo estranho de trugue da mente, um tipo estranho de ilustio. Vocé se desiludiu ao pensar — embora nio esteja consciente disso — que vocé é sua alegria ou as emogbes que sente. “Estou encantado!” Certamente nao est encantado. O ‘encanto pode estar em vocé agora, mas espere um mi- nuto, jé vai mudar; nao vai durar: nunca dura; conti- nua mudando: esté sempre mudando. ‘As nuyens vém e yo: algumas so escuras, outras brancas, algumas so grandes, outras pequenas. Se qui- sermos seguir a analogia, voc8 seria o céu observando as nuvens, Voc8 é um observador passivo. Isso € cho- cante, especialmente para alguém da cultura ocidental, Voc nfo esté interferindo. Nao interfira. Nao “conserte” coisa alguma. Assista! Observe! © problema das pessoas é que clas se ocupam em consertar coisas que nem entendem, Estamos sem- pre consertando as coisas, nfo 6? Nunca nos damos conta de que as coisas néo precisam ser consertadas. Isso € uma grande revelagao. Elas precisa ser enten- didas, Se vocé as entendesse, elas mudariam. 47 A consciéncia sem a avaliacao de tudo Vocé quer mudar o mundo? Que tal comegar com voc’? Que tal transformar-se primeiro? Mas como conseguir isso? Através da observacio. Através do en- tendimento. Sem interferéncia ou julgamento de sua parte. Porque aquilo que vocé julga, voc nao consegue entender. “Ele ¢ comunista.” Ao dizer isso de alguém, seu entendimento estacionou. Vocé colocou um rétulo nele. “Ela é capitalista.” O entendimento parou ai, yocé co Jocou um rétulo na moga. E se esse rétulo carregar no- tas de aprovacao ou desaprovagio, muito pior! Como vocé pode entender 0 que aprova ou 0 que desaprova? Tudo isso parece um mundo novo, nao é? Sem julgamento, sem atitude: simplesmente ob- serya-se, estuda-se, verifica-se, sem o desejo de mudar © que é, porque se vocé deseja mudar o que esti dentro daquilo que acha que deveria ser, yocé nao entende mais, Um treinador de cies tenta entender um co para que ele possa treinar o animal para executar certos tru- ques. Um cientista observa o comportamento das for- migas sem nenhuma intengao a nao ser a de estudé-las, para aprender 0 maximo sobre elas. Ele ndo tem outro objetivo. Ele nao esté tentando treind-las ou receber al- guma coisa delas. Ele est interessado em formigas, quer aprender 0 méximo sobre elas, Essa é sua atitude. O dia em que vocé adotar uma postura como essa, experimentaré um milagre, Voc’ mudaré — sem es- 48 TEUTEECEEE {UCtEtNettt tt p(t forgos, corretamente, A mudanga acontecer, yoo’ nfo terd que provocar. Quando a consciéncia se estabelecer em voc’, 0 mal desaparecerd, qualquer que seja, e 0 bem seré ado- tado. Vocé ter que experimentar isso por si préprio. Mas isso requer uma mente disciplinada. E quando eu digo disciplinada, nfo estou falando em esforgo. Estou falando em algo mais. Vocé j4 observou um atleta? Sua vida toda 6 es- parte, mas que vida disciplinada ele leva! E observe um rio quando ele corre para o mar. Ele cria suas pr6- prias margens. Quando hé algo dentro de voc$ que se move na diregio certa, esse algo cria sua propria disciplina. Bo momento em que vocé é mordido pelo hichinho da consciéncia. Oh, € to maravilhoso! B a coisa mais maravilhosa do mundo; a mais importante, a mais ma- ravilhosa. Nao hé coisa alguma no mundo to importante quanto o despertar. Nada! E é claro que a disciplina também tem seu proprio caminho. Nao hé coisa melhor do que estar desperto. Voeé preferitia viver na escuridio? Voce preferi- ia agir e nao ter consciéncia de suas palavras? Voce preferiria ouvir as pessoas ¢ nfo entender 0 que ouve, ver as coisas ¢ nfo saber o que est vendo? Como disse Sécrates: “A vida inconsciente no vale a pena set vivida”. Isso é uma grande verdade. ‘A maiotia das pessoas nfo vive uma vida cons- ciente. Elas vivem vidas mecfnicas, pensamentos meca- nics — geralmente os de outra pessoa —, emogdes me- cfinicas, atos mecfnicos, reagSes mecfinicas. 49 Quer ver como yocé é mec&nico? “Cara, que camisa linda vocé » se sente bem 20 ouvir iso. Por cause, queen oe pelo amor de Deus! Vocé sente orgulho. | As pessoas vao me visitar na India ¢ dizem: « lugar adoravel, essas érvores" ae Sue le ponsavel), “esse climal” E jé estou me comings bee até que me pego nesce estado e digo: “Ei, voc conn imaginar alguma coisa tio estipida quanto ecsn? Se no sou responsdvel por essas drvores; ‘nae fal rare escolhi 0 local. Nao dou ordens a0 terme wm mente acontece’ ore Mas o eu entrou na a ic cenindolbomMelsinfs hemteinitei te oes cultura e “minha” nagao. Como voc8 peje ser theres pido? E isso mesmo que eu quero dizer, Disem nat nha grande cultura indiana tem produusido todes cane misticos, Bu no os produzi. Nao sou responsivel noe eles, Ou entio dizem: “Aquele seu pais eava pobreza repugnante”. Eu sinto vergonha. Mas nao fin eu avec, © criou, O que esté acontecendo? Voce #4 varen ne cae i parou para “Eu acho vocé to charmoso”, alguém diz. E logo me sinto maravilhoso. nova Pees tee ae bem). Qualquer dia desses vou escrever um livre ¢ ote tulo serd Eu sou um asno, voce éum asno, A coisa man maravilhosa do mundo é yoo’ sentir aberiemonte cues um asno. B inerivel. Quando as isa, ‘bertamente que & pessoas dizem para mim: — Voeé esté errado, — O que voed esperava de u ade um ae a asno? — eu res- 50 CERECT TEETER E EEE EEE ff CHOtttt p Desarmados, todos devem estar desarmados. Na libertagdo final eu sou um asno, e vocé também. Nor- malmente funciona assim: eu aperto um botdo, vocé sobe; aperto outro © vor’ desce. E voc’ gosta disso. ‘Quantas pessoas vocé conhece que nfo sfo afcta- das por elogio ou culpa? “Isso nao é humano”, di- zemos. Humano significa que voce tem que ser um pouco macaco, para que torgam 0 seu rabo e vo’ faga o que deveria estar fazendo. Mas isso € humano? Se vocé me acha charmoso, significa que agora voc€ esté de bom humor, nada mais. ‘Também significa que me encaixo na sua lista de compras. Todos nés carregamos uma lista, ¢ € como se vocé tivesse que estar a altura dessa lista — alto, mo- reno, bonito, de acordo com os meus gostos. “Eu gosto do som da yoz do Anthony.” E quando voc? diz que esté apaixonado? Voce nfo esté apaixonado, seu asno idiota. A qualquer momento que se apaixonar — hesito em dizer — estard sendo particularmente asinino. Sente-se e observe 0 que esta acontecendo com yoos, Esté fugindo de vocé mesmo. Quer escapar. Uma vez alguém disse: “Agradeca a Deus pela realidade, ¢ pelas formas de se fugir dela” Entdo é isso 0 que est acontecendo, Somos to me- cAnicos, to controlados. Escrevemos livros sobre ser~ mos controlados e a marayilha que é sermos assim. A necessidade que voc® tem de ouvir as pessoas dizendo que vocé esta bem, Que maravilha é estar na priséo! Ou, como alguém me disse ontem, estar em sua gaiola. St Vocé gosta de ficar preso? Vocé gosta de ser con- trolado? Deixe-me falar uma coisa: se voce ja sen tiu-se bem quando as pessoas disseram que vocé estava bem, enti esté se preparando para sentin-se mal quan- do disserem que voc esté mal. Jé que vive para preen- cher as expectativas dos outros, € melhor voce observat como se veste, como penteia os cabelos, se sens sapa- tos esto limpos — em resumo, se vive A altura das malditas expectativas dos outros. Voc8 Chama isso de humano? E 0 que vocé descobriré quando se observar! Voce ficaré horrorizado! O fato € que nao est4 nem bem, nem mal. Vocé pode se ajustar ao humor em vigor ou as tendéncias da moda! Isso significa que voc® ficou bem? O fato de estar bem depende disso? Dependle do que as pessoas pensam de voce? Jesus Cristo deve ter ficado muito “mal” se se- guirmos esses padroes. Vocé nfo esti bem, ¢ nao esté mal, vocé € vocé. Espero que essa seja a grande desco- berta, pelo menos para algumas pessoas. Se pelo me- nos trés ou quatro fizerem essa descoberta. durante nosso convivio, que marayilha! Extraordin rio! Acabe com essa hist6ria de bem e ma; acabe com todos 0s julgamentos e simplesmente observe, analise Voeé faré grandes descobertas que Ihe mud arao. Pode acreditar em mim, voc no terd que fazer o minimo esforco. Isso me faz lembrar um camarada em Londres apés a guerra. Ele estava sentado, segura rdo no colo um pacote embrulhado com papel pardo.; jeto grande, pesado, era um ob- 52 CCE EEE EEE © cobrador do énibus se aproximou dele e per- guntou: — 0 que voo8 leva af no colo? — Uma homba que nfo explodiu, Nés a desentet- ramos do jardim e vou levé-la para a delegacia, — Vocé nfo vai querer carregé-la no colo, Co- loque-a embaixo do banco — disse 0 cobrador. A psicologia e a espiritualidade (como geralmente entendemos) tiram a bomba do sett colo e a colocam embaixo do banco. Elas nfo resolvem os seus ptoble- mas. Elas trocam esses problemas por outros proble- mas, [sso ja Ihe ocorreu? Voc8 tinha um problema, agora 0 troca por um outro problema. Vai ser sempre assim até que consigamos resolver o problema chamado “yoo8”. A ilusdo das recompensas Até o momento, no chegamos a lugar algum. grandes misticos e mestres do Oriente questionard “Quem é vocé?” Muitos acham que @ questo mais importante do mundo 6; “Quem é Jesus Cristo?” Errado! Muitos acham que a questéo é: “Hé vida apés a morte?” Er- rado! guém parece estar ligado ao problema: hé vida antes da morte? Por experiéncia, eu sei que aqueles que nfo sabem o que fazer com esta vida sao aqueles que mais se preocupam com 0 que vio fazer em uma outra vida. 53 Um sinal de que voce ; pam eee A oe J4 despertou é quando nao yee aconte, éxima vi Voe€ nio se preccupa com iar et Proxima vida, teressado e ponto final de ieee Vocé sabi i oe ‘ae 8 aes 8 Vida eterna? Vocé acha que é a jacole UeGE soe Sn tedlogos Ihe ditao que war pai i a caves tempo. O que ¢ ne eee id se aes No entanto, os misticos nos di a eee eo GEES. Como soa isso? B a s pessoas ficam mu it ae © aflitas wot wuando eu I Pi ees © passado. Elas tém tanto orgulh ed passado! Elas estdo loucas! Deixe dice! we Quando yoo! ouvir: "Anes. edo” peeche cee OuNit? “*Arrependa-se de seu pas euceee Brande perturbagdo religi Acorde! E iss. i “chore por seus pecados”. oauuee sttenenderse, No chorar. Entenda! Desperte °P°T*e! Entenda, pare de Encontrando-se Os grandes mi importante do mundo € "Ce, JZ2™ 4 A esto mais “O que € 0 Eu?” O que em sou eu?”, ou melhor, : esse is: - Eu? O que 6 essa coisa que ae ee chamo de Vocé quer me di: Pe Bos izet Que a entende tudo tece no mundo e no entencle iso ghee ns te Boor: ? izer que 54 iitt tf es —_— —— —_— —_ — a= ed a—_ = —« — —_ — —_ co) a a —) —_ _ a a <—_ entendeu 0 que 6 astronomia, butacos negros, quasar, ciéncia do computador, e nfo sabe quem vocé 6? Cara, voc ainda esté dormindo. Vocé é um cien- tista adormecido. Quer dizer que voce entendeu. quem 6 Jesus Cristo? Quem fez yoo’ entender? Descubra isso primeiro. Isso é 0 fundamento de tudo, néio €? E pelo fato de nfo, entendermos isso que temos todas essas guerras religiosas estipidas — mugulmanos jutando contra judeus, protestantes Tutando contra ca- tdlicos, ¢ todo esse lixo. Eles nado sabem quem siio, porque se soubessem, nio haveria guerras. Como a garotinha que pergunta ao garotinho: — Vocé é presbiteriano? _- Nao, n6s pertencemos a um outro mal! Mas o que et gostaria de solicitar aqui agora é @ auto-cbservagiio. Vocé esta me ouvindo, mas esté prestando atencaio a todos os outros sons além da minha yoz? Vocé tem consciéncia de suas agdes quando me ouve? Se nao es- tiver consciente, vai ser persuadido. Ow ent&o vai ser {nfluenciado por forgas que esto dentro de yor, das Gquais nfo tem consciéncia. E mesmo que tenha cons- ciéncia de como reage a mim, vocé esté consciente de onde vem essa reacdo? Talvez voc’ ndo esteja me ouvindo mesmo; talvez seu pai esteja me ouyindo. Vooé acha isso possivel? & claro que sim. Freqientemente, em meus grupos de te~ rapia, encontro pessoas que nfio esto ali Encontro seus pais, mies, menos elas, Nunca estiveram 16. “Eu vivo agora, nao cu, mas meu pai vive em mim.” 35 Bem, isso € literalmente yerdadeiro. Eu poderia Pegar os seus pedacos e monté-lo: “E esse pensamento vem do papai, da mamée, da vov6, do vov6, de quem?” Quem estd vivendo em voce? E horrivel quando vocé percebe isso. Vocé acha que esta livre, mas provayelmente n&o hé um gesto, um pensamento, uma emogao, uma atitude, uma crenga que nfo venha de outra pessoa. Nao € horrivel? E vocé nao sabe. Fale de uma vida mecnica que se estampou em voc’. Vocé se sente forte com relagao a certas coisas, e pensa que € vocé quem esta se sentindo forte com relacdo a elas, mas esta mesmo? Vai ser necessério uma grande dose de conscién- cia para entender que, talvez, essa coisa que voce chama de Eu 6 nada mais que uma aglomeragdo de suas experiéncias passadas, seu condicionamento e pro- gramagao, E doloroso. De fato, quando voct comega a des- pertar, sente muita dor, E doloroso ver suas ilusGes se- rem estilhacadas. Tudo 0 que achaya que havia cons- trufdo se desmorona. Isso é arrependimento; isso € des- pertar. Ent, que tal tomar um minuto, af onde voce esta sentado agora, para se conscientizar daquilo que esta sentindo em seu corpo, daquilo que se passa em sua mente, ¢ 0 seu estado emocional? Que tal se conscientizar do quadro-negro, se es- tiver de olhos abertos, da cor das paredes e do material de que sao feitas? Que tal se conscientizar do meu rosto e da reagao que tem ao meu rosto? Voce tem uma reaciio, quer es- teja consciente ou nao, ¢ provavelmente no é a sua teagdo, mas uma que the cond 56 URILNELEDEENEDTEN EEE: E que tal se conscientizar de algumens das coisas que eu acabei de dizer, embora isso no secja conscién- cia, porque agora é s6 meméria? : Conscientize-se de sua presenga ness a sala. Diga para voc8 mesmo: “Estow nesta sala”, E como se estivesse fora de voc8 o-lhando para voc’, Perceba um sentimento diferente daqruele que tem ao olhar para os objetos da sala. Depois. perguntare- ‘mos; “Quem é que est4 me fazendo enxerggar? Estou olhando para mim. O que é una Eu? O que 6 eu? * Por enquanto basta que et me observe, mas s° vyoos se pegar condenando a si mesmo ou se aprovando, no pare, apenas se observe. Estou: me condenando; estou me desaprovando; estou me aprovando. Apenes observe © ponto final. Néo tente mudar isso. S6 perceba o que esté aconte- cendo, Como eu disse antes, auto-observa cao significa assistir e observar tudo 0 que est4 acontecendo em vyoos e ao seu redor, como se estivesse acomtecendo com outra pessoa. Desnudando-se até o Eu Sugiro um outro exercfeio agora, Pegue uma folha de papel e escreva uma répida nota que descreva voo8 © As forntes formas de aia roferentes a plane “eu” slo wie das intencionalmente pelo autor para diferenciar, no ver humano, © ¢0#p0 spiritual (Eu) do corpo fisico (eu). (N. do E.) 57 — por exem| éci eae iplo, homem de negécios, padre, ser hu- : see: judeu, qualquer coisa, ercel Fae Be ae alguns escreyem coisas como ttil, pe- woe os eae vivo, impaciente, concentrado, fle- ae Ae ‘@ aca humana, estruturado demais. be von os tito» a meu ver, da auto-observagao. Como vesse Observando uma outra pessoa fae aloe voc’ tem o Eu observando o thado cada vez mais tilssalon a se caieactees hi ‘il6sofos, misticos, cientistas, psi- célogos;'o Eu pode observargeu fe se AN os fnimais nfo conseguem fazer isso Cee oe de inteligéncia para fazé-lo, fa. B inmpleg oboe 880ra € metafisicas néo € fi ee servacio © senso comum. no o.cu. Na yerdade algae ae a nase Be Cae ae alguns desses misticos nos di- consciéncia das coisas; entao pessaros oy eascitncie te caste isas; ent&o passamos & consciéncia de ‘que € 0 eu); e finalmente chegamos & consciéncia do pensador. Coi sador, Pensador. Coisas, pensamentos, pen- losofi 2 iC us estamos Procurando é o pensador. O pense: Hap a * Como eu posso saber o que € o Eu? ae iets tespondem: “A faca pode se cortar? O pode se morder? © otho pode se yer? O Eu pod se conhecer?” 3 Mi ie ee py cepede com algo muito mais pré- ; cidit © que o Eu nao &. Vou bi devagar en aaa ‘gar porque as conseqiiéncias sio devastadoras. De- pendendo do seu ii Ba Raerival! Ponto de vista isso pode ser 6timo 58 4 ) CEEPPEEEEEETET EE ETEE ECT E EET x Ouga: Serei cu? meus pensamentos? Os pensamen- tos que estou pensando? Nao. Os pensamentos vém & ‘yao; et nfo sou meus pensamentos. Serei eu meu corpo? Dizem que milhdes de células do nosso corpo so troca- das ou so renovadas a cada minuto, assim, ao final de sete anos, néo temos uma célula viva sequer entre aque- las que tinhamos hé sete anos. Células vem € vio, ‘orescem e morrem, Mas parece que o Eu persiste. En- tao, eu sou meu corpo? P claro que nao! O Eu é algo mais que 0 corpo. Vocé pode dizer que o corpo faz parte do Eu, mas é uma parte mutante, Continua se moyendo, continua mudando. Damos 0 mesmo nome para ele, mas ele muda constantemente. Exatamente como temos 0 mesmo nome para as Cata- tatas do Nidgara, mesmo que suas Aguas estejam mu- dando a todo momento. Usamos 0 mesmo nome para uma realidade que esté sempre mudando. E quanto ao meu nome? Eu € meu nome? E claro que nfo, porque cut posso trocar meu nome sem trocar Eu, E minha carreira? Minhas crengas? Digo que sou catélico, judeu — 6 parte essencial do Eu? Quando eu mudo de religido, o Eu muda? Tenho um novo Eu ou &o mesmo Eu que mudou? Em outras palavras, meu nome € parte essencial do eu, do Eu? Minha religiao 6 parte essencial do Eu? Mencionei a garotinha que pergunta ao menino: “Voce é presbiteriano?” Isso me faz lembrar da histéria de Paddy. Ele andaya pelas ruas de Belfast e de repente sentiu uma ‘arma em seu pescogo. “Voce € cat6lico ou protestante?” Bem, Paddy tinha que pensar rdpido, e disse: “Sou ju- 59 deu”, E ouviu uma voz dizer: “Sou 0 érabe de maior sorte de toda Belfast”. Os rétulos sdo to importantes para nds. “Sou republicano”, Mas é mesmo? Vocé nfo esté querendo dizer que quando muda de partido tem um novo Eu. Néo €0 mesmo yelho Eu, s6 que com novas convicgdes politicas? Um homem questiona seu amigo: — Voeé esté pensando em votar para os repu- blicanos? O amigo responde: — Nio, vou yotar para os democratas. Meu pai foi democtata, meu av6, meu bisavd. — Que logica mais maluca. Quer dizer que se seu pai fosse ladrdo de cavalos, seu avé, seu bisav6, entio © que vocé seria? — Ah, entéo eu seria republicano. Passamos muito tempo reagindo aos r6tulos, os nossos € 0s dos outros. Identificamos os rétulos com © Eu. Catélico ¢ protestante sao rétulos freqiientes. Sei 2 histéria de um homem que foi falar com um padre: — Padre, quero que o senhor reze uma missa para © meu cachorro, O padre ficou indignado. — 0 qué? Rezar missa para um cachorro? — Era um bichinho de estimagio. Eu adorava aquele cachorro e gostaria de the oferecer uma missa. padre respondeu: — Nés nfo oferecemos missas para cachorros aqui. Tente em outra pardquia, Quem sabe alguém faca isso para o senhor. 60 © homem se afastou e disse para o padre: — Que pena! Eu gostava tanto do meu cachorro, estava até pensando em oferecer um milhao de délares pela missa. Eo padre disse: — Espere um minuto, por que o senhor nfo disse que 0 cachorro era catélico? Quando vocé € pego em rétulos, que valores eles tém, até onde o Eu interessa? Poderiamos dizer que 0 Eu nao é nenhum dos rétulos que colamos? Os rétulos pertencem ao eu. O que muda constantemente é 0 eu. O Eu sempre muda? O observador sempre muda? © fato 6 que nao importa os rétulos que yoos tenha em mente (exceto, talvez, 0 ser humano), vocé os colocaré no eu. O Eu nao é nenhuma dessas coisas. Entdo quando voc8 sai de yoo e observa 0 eu, voce nao se identifica mais com o cu. O sofrimento existe no eu, assim, quando voos identificar o Eu com o eu, comecaré 0 sofrimento. Diga que vooé esté com medo, ou desejo, ou an- sioso. Quando 0 Eu nao se identifica com dinheiro, nome, nacionalidade, pessoas, amigos, ou qualquer qua- lidade, nfo seré ameagado. Ele pode ser muito ativo, mas nao est4 ameacado. Pense em qualquer coisa que causou ou esté causando dor, preocupagio ou ansie- dade. * Primeiro: voc8 consegue reconhecer o desejo que esta sob esse sofrimento, que ha alguma coisa que yoo€ deseja muito, ou nfo estaria sofrendo! Que desejo é esse? Segundo: nfo é simplesmente um desejo: hé uma identificagdo af. Vocé tem que dizer para vooé mesmo: 61 “O bem-estar do Eu, € a quase existéncia dele, esta li- gado a esse desejo”. Todo softimento € causado pelo fato de eu me identificar com alguma coisa, quer dentro ou fora de mim. Sentimentos negativos com relacdo aos outros Em uma de minhas conferéncias, alguém fez a se- guinte obseryacio: “Quero dividit com voc uma coisa maravilhosa que aconteceu comigo. Fui ao cinema e, logo depois, trabalhar, tendo sérios problemas com trés pessoas. Ent@o pensei: tudo bem, vou fazer o que aprendi no filme, vou sair de mim, Por umas horas fiquei em con- ato com meus sentimentos. Como eu havia me sentido mal diante daquelas pessoas! Eu realmente as odiava Af, pensei: Jesus, 0 que eu posso fazer com relagdo a isso? Comecei a chorar porque percebi que Jesus mor- reu por tantas pessoas ¢ elas nao conseguiram mudar. Nagquela tarde fui ao escritério e conyersei com os trés, Contei-thes meu problema e eles me entenderam. Nao estava mais bravo com eles, néo os odiava mais”. Toda vez que tiyer um sentimento negativo com relagdo a qualquer pessoa, voc esté vivendo uma ilu. so. Hé alguma coisa errada com voc’. Nao esté vendo a realidade. Alguma coisa dentro de yocé tem que mu- dar. Mas 0 que fazemos quando nos sentimos assim? 62 esté certo. “Ele € culpado. Tem que mudar.” Nao! O mundo Vocé é quem tem gue mudar. Um de yocés disse que trabalha em uma institui io, Durante uma reuniao de funciondrios alguém ine- vitavelmente diz: “A comida daqui cheira mal” A nutricionista entra em érbita. Ela identificou-se com a comida: “Qualquer pessoa que ataque a comida, cstaré atacando a mim; sinto-me ameacada” Mas o Eu nunca é ameacado, apenas o eu. Vamos supor que vocé testemunhe uma injustiga, alguma coisa obviamente errada, Nao seria uma reagao normal dizer que aquilo no deveria estar acontecen- do? Vocé se envolyeria para corrigir uma situagio que esté errada? Alguém esté machucando uma crianca bem na sua frente. O que yocé acha disso? Espero que nfo tenha entendido que seu compor- tamento deva ser passivo. Eu disse que, se nao tivesse sentimentos negalivos, voce seria muito mais efetivo, porque quando os sentimentos negativos chegam, vocé fica cego. O eu entra na histéria ¢ tudo fica desorgani- zado, Onde tinhamos um problema, agora temos dois Muitos entendem de forma errada que nao ter senti- mentos negatiyos como raiva, ressentimentos e édio sig- nifica que vocé nada fi Oh nao, no! Voce niio esté emocionalmente afe- tado, mas entra em agiio. Vocé fica sensivel com rela- Giio as coisas € Ss pessoas que o cercam. O que mata a sensibilidade 6 0 que muitas pessoas chamariam de in- dividualidade condicionada: quando vocé se identifica tanto com o eu a ponto de hayer eu demais na histéria para que vo com indiferenca. Mas as emogies negativas item que isso acontega. 63 Entdo, do que chemariamos o tipo de paixéo que motiva ou ativa energia para se fazer algo com relagio a maldades? O que quer que seja, nao é reagao; & acéo. Vocé quer saber se existe uma experiéncia antes que algo se torne uma fixacdo, antes da identificagao se instalar. Um amigo morre. Parece certo e muito humano sentir tristeza, Mas qual é a reagio? Autopiedade? Por que voot esté chorando? Pense nisso, © que eu estou dizendo vai soar horriyel para voc’, mas eu Ihe disse que estou vindo de um outro mundo. Sua reagdo é perda pessoal, certo? Sentir-se triste pelo eu ou por outras pessoas a quem o seu amigo fazia feliz. Mas sig- nifica que vocé esta sentindo muito por outras pessoas, que se sentem tristes por elas mesmas. Se elas no es tivessem tristes por elas mesmas, ento pelo que esta- riam? Nunca sentimos dor quando perdemos algo que nos era facil, algo que nunca fentamos possuir, ‘A dor € um sinal de que fiz. minha felicidade de- pender_dessa_coisa_ou pessoa, pelo menos até certo ponto. Estamos to acostumados a ouvir 0 oposto disso que 0 que eu falo soa desumano, nao é? A dependéncia Mas isso € 0 que todos os misticos esto nos dizen- do. Nao estou dizendo que 0 eu, a personalidade con- dicionada, no v4 herdar seus modelos comuns. Fomos 64 condicionados dessa forma. Mas surge a questiio quan- to A possibilidade de se viver completamente sozinho. Todos nds dependemos um do outro para todos os tipos de coisas, nfio €? Dependemos do acougueiro, do padeiro, do homem que faz castigais. Interdepen- déncia. Isso é bom! Construimos a sociedade dessa forma e dividimos fungSes diferentes para pessoas diferentes, para o bem de todos, para que possamos viver melhor e mais efeti- vamente — pelo menos, assim esperamos. Mas depender de uma outra pessoa psicologica- mente — depender emocionalmente — implica 0 qué? Significa depender de um outro ser humano para Pense nisso porque, se o fizer, 0 préximo passo, estando consciente disso ou no, serd exigir que a outra pessoa contribua para a sua felicidade. Daf haveré um outro passo — 9 medo; medo da perda, da alienacdo, da rejeicio, do controle miituo. O amor perfeito nao envolye medo. Onde hé amor, nao hé exigéncias, expec tativas, dependéncia. Eu nio exijo que vocé me faca feliz; minha feli- cidade no esta em voce. Se tiver que me deixar, nado sentirei pena de mim; adoro sua companhia, mas néo me apego. Eu gosto que seja sem apego. O que na verdade eu aprecio niio é voc’; é algo maior que nés dois. & algo que eu descobri, um tipo de sinfonia, uma orques- tra que toca uma melodia na sua presenga, mas quando vocé parte, a orquestra nfo para, Se eu encontrar uma outra pessoa, cla toca uma outra melodia, que também € muito bonita, E quando cu estou sozinho, ela con- 65 tinua tocando. Hé um repertério imenso que nao péra de tocar, E isso que significa despertar. E por isso que somos hipnotizados, induzidos, adormecidos. Parece terrivel perguntar, mas voc8 pode dizer que me ama se precisa de mim psicolégica ou emocionalmente: para que seja feliz? Isso vai de encontro ao ensinamento universal de todas as escrituras, todas as religides, todos os misticos. “Como € isso que perdemos ha tanto tempo? Mas como eu no percebia isso?”, me questiono varias vezes. Ao ler essas coisas tio radicais nas escrituras voce quer saber se esse homem é louco. Mas apés alguns ins- tantes comega a achar que todos sfio loucos. “A menos que vocé odeie seu pai, sua mae, seus irmaos ¢ irmas, a menos que renuncie e desista de tudo que _possui, ndo permitirei que voc8 seja meu disci pulo.” Voe8 deve jogar tudo fora. Nao € rentincia fi- sica, vooé sabe; € facil. Ao se livrar de suas ilusGes, voce, finalmente, estaré em contato com a realidade, ¢ acre- dite, nunca mais ficard sozinho, nunca mais. Nao se cura a solid’o com contato humano, C se a solidao por contato com a realidade. Ah, eu tenho tanto o que falar sobre isso! Fazer contato com a realidade, desistir das ilusGes, fazer con- taio com o real. O que quer que seja, nao tem nome. Sé conseguimos saber 0 que é quando desistimos do irreal. Vocé s6 sabe 0 que & estar sozino quando desiste do apego, quando desiste de sua dependéncia. Mas o pri- meiro passo ¢ desejar isso, caso contrério, nem conse- guird chegar perto, 66 i. —_ Pense na sua solidao. A companhia humana ja conseguiti resolvé-la? Serve apenas como distracéo. H4 um vazio lé dentro, nao €? E quando esse vazio aperta, © que voce faz? Vocé foge, liga a televisao, o radio, 1é um livro, procura distrag#o. Todo mundo faz isso. F o grande negécio do momento, uma indiistria orge- nizada para nos distrair. Como a felicidade acontece Entre em yoo’. Observe-se. E por isso que eu disse que a auto-observacdio & uma coisa to bonita, tio ex- traordindria. Apés uns instantes yoc8 ndo tem que fa- zer esforgo algum, porque, quando as jlusdes comegam a desmoronar, yoc8 passa a conhecer coisas que nao po- dem ser descritas. Tudo se transforma e vocé passa a se dedicar & consciéncia. Observe essa histéria do discfpulo que se dirige ao mestre e dit — O senhor poderia me dar uma palavra de sabe- doria? Alguma coisa que me desse fora para viver? Bo dia de siléncio do mestre; entao ele apanha um bloco, onde esté escrito: “Consciéncia”. Quando o discfpulo yé isso, ele diz: — Tio resumido. © senhor nfo pode dizer mais alguma coisa? Entao, o mestre pega o bloco e¢ escreve: “Cons- cigncia, consciéncia, consciéncia” 67 — Sim, mas o que isso significa? — pergunta 0 discipulo. © mestre pega o bloco novamente e responde: “Consciéneia, consciéncia, consciéncia significa — consciéneia”, E isso 0 que significa observar-se. Ninguém pode The mostrar como fazé-lo, porque senfo estaria Ihe dando uma técnica, estaria programando vocé. Mas ob- serve-se. Quando vocé conversa com alguém, se iden- tifica com a conversa? Quando vocé se zangou com alguém, tinha cons- ciéncia que estava zangado, ou apenas se identificava com sua raiva? Depois, com mais tempo, estudou o caso € tentou entendé-lo? De onde vinha? O que o causou? Nao conheco outra forma de consciéncia. Vocé s6 muda aquilo que entende. O que vocé nao entende € nao tem consciéncia, reprime. Vac8 nfo muda. Mas quando entende 0 problema, ele muda. “Esse crescimento da consciéncia é uma coisa gra- dual, ou é tipo uma bomba explodindo?”, alguém per- gunta. Hé algumas pessoas de sorte que conseguem se conscientizar rapidamente. Outras conseguem de forma mais lenta. Elas comegam a ver as coisas. Descartam suas ilusGes, fantasias ¢ comecam a ter contato com fatos. Nao existe uma regra geral. Hé uma hist6ria fa- mosa do ledo que se aproximou de um rebanho de ove- Ihas e, para seu espanto, encontrou um lefo entre as oyelhas, Era um ledo que havia sido ctiado pelas ove- 68 has, desde filhotinho. Berrava como oyelha, corria como ovelha, O lefo foi falar com ele, ¢ quando o “leao-ovelha” ficou de frente com o leao de yerdade, cle estremeceu, — O que vocé esta fazendo entre as ovelhas? — © ledo perguntou. — Eu sou uma oyelha — respondeu o “ledo- ovelha” — Oh, nao, vocé nao é. Venha comigo. Entdo, ele levou o “lefo-ovelha” até um Lago e disse: — Olhe. Quando o “Jefo-ovelha” viu seu reflexo na 4gua, soltou um rugido muito forte, e naguele momento se transformou. Nunca mais foi o mesmo. Se vooé tiver sorte e os deuses decidirem ajudélo, ou se for presenteado com a graca divina (use qualquer expresso teolégica que the agrade), vocé pode, de re- pente, entender o que é 0 Eu, e nunca mais seré o mes- mo, nunca mais. Nada conseguird atingi-lo e ninguém magoard yoo’ novamente. Vocé nao tera medo de quem quer que seja, ou do que quer que seja, Néo extraordinério? Voc8 viveré como um rei, como uma rainha. B isso o que significa viver na realeza. Nao essa bobagem de ter sua foto no jornal ou ter muito dinheiro. Isso € tolice. Vocé nao tem medo de pessoa alguma porque esta muito contente por ser ninguém. Voce nfo liga a mi- nima para o sucesso ou o fracasso. Eles nfo significam coisa alguma, Honra e desgraca nfo significam coisa alguma! Se voce se fizer de bobo, isso nao significa coisa alguma também. 69 Nao € um estado de espirito maravithoso? Algu- mas pessoas atingem o objetivo a duras penas, paso a passo, através de semanas, meses de autoconsciéncia. Mas he prometo uma coisa: n&o conbego uma pessoa se- quer que se conscientizou e percebeu a diferenca em questo de semanas. A qualidade de vida das pessoas muda, néo € pre- ciso que elas empreguem a fé nisso, Elas a véem; elas esto diferentes. Reagem de modo diferente, Na ver- dade, reagem menos e agem mais. Vocé passa a ver coisas que jamais vira antes. Voc8 tem mitito mais energia, est muito mais vivo. As pessoas acham que se nao tivessem anseios se- riam intiteis. Mas, na verdade, perderiam sua tensao. Livre-se do medo do fracasso, de suas preocupa- ges de vencer © voc seré vocé mesmo. Vocé néio con- seguitia dirigir com o freio de mao puxado. Relaxe. Eu me dei ao trabalho de memorizar um ditado aGorével de Tranxu, um grande sdbio chinés: “Quando © arqueito nao atira para competir, ele tem todas as suas habilidades; quando atira para disputar uma me- dalha, j fica nervoso; quando atira para disputar um troféu, fica cego, vé dois alvos e se descontrola. Sua habilidade nao mudou, mas o prémio o divide. Ele se preocupa. Pensa mais em vencer do que em atirar, ¢ a necessidade de vencer consome sua forga” Nao € essa a imagem da maioria das pessoas? Quando vocé vive por nada, vocé tem todas as habili- dades, toda sua energia, yoce esté descontraido, nao se importa, pode vencer ou perder. Agora hé vida humana para voce. B isso que é a vida. Aquilo que s6 pode vir da consciéncia, E na cons- 70 eUOULETT TEETH ti ciéncia voc’ entenderé que a honra nfo significa uma coisa, E apenas uma convencio social. E por isso que 0s misticos e profetas nfo se aborreciam. Honra ou des- graca nfo tinham significado algum para eles. Viviam em um outro mundo, no mundo dos acordados. Sucesso ou fracasso nao tinham significado algum para eles. Sua postura era: “Eu sou um asno, voc$ € um asno, entfio, onde est o problema?” Certa vez alguém disse: “As trés coisas mais difi- ceis para um ser humano nao sao as proezas fisicas ou acontecimentos intelectuais” Elas sao, primeira: transformar 6dio em amor; se- gunda: incluir_o excluso; tercelra: admitir que yoo estd cerrado. Mas essas so as coisas mais féceis do mundo se yoo8 nao se identificar com 0 eu. Vocé pode dizer coisas desse tipo: “Eu estou er- rado! Se vocé me conhecesse melhor, veria com que freqiiéncia eu erro. O que voc esperava de um asno?” Mas se eu néio me identificar com esses aspectos do eu, yor’ nao consegue me magoar. No comego, 0 velho condicionamento apareceré e vocé ficara depri- triste, vai chorar e tudo mido e ansioso, Voeé ficaré “Antes do esclareeimento, eu ficava deprimido: pds 0 esclareeimento, continuo me deprimindo.” Mas hé uma diferenga; eu no me identifico mais com a de- pressio. Sabe o que isso significa? Voce sai de yocé ¢ olha para a depressiio, e nao se identifica com ela, Nao di um paso para que ela v4 embora; tem yontade de continuar com sua vida, enquanto ela passa através de voce © desaparece. Se n vocé n&o sabe 0 que isso significa, tem que ficar na expectativa. E a ansiedade? L4 vem ela, e vocé nem se preocupa. Que estranho! Voeé esté ansioso, mas isso no o preocupa. Nao € um paradoxo? E vocé quer deixar essa nu- vein se aproximar, porque quanto mais lutar contra ela, mais forca estaré dando para ela. Vocé quer ficar observando, enquanio cla passa. Voce pode ser feliz com sua ansiedade, Nao € uma loucura? Voce pode ser feliz com sua depressio. Mas nao pode ter uma idéia errada sobre felicidade. Voc achava que a felicidade_ fosse agitacdo ou emocdes? E isso que causa depressio. ‘Ninguém the disse isso? a _Vocé esté vibrando, certo, mas esté preparando 0 caminho para a préxima depressio, Esta vibrando, mas a ansiedade esta bem atrés de yocé: como posso fazé-la dutar? Isso 6 vicio. Gostaria de saber quantos néo-viciados esto len- do este livro. Se vocé estiver no grupo, saiba que ha bem poucos. : Nao_despreze_os_viciados em Alcool_ou_drogas: talvez voe8 seja tao viciado_quanto eles. A primeira vez que recebi um sinal desse mundo novo, foi terrivel. Eu entendia o que era estar sozinho, sem um lugar para descansar, deixar o outro livre ou libertar-se, ser especial para_ninguém e amar a todos — porque o amor faz isso. Ele brilha sobre os bons & os maus; faz com que a chuya caia, da mesma forma, sobre os santos e os pecadores, E possivel uma rosa dizer “Darei meu perfume para as pessoas boas que me cheirarem, mas vou es- condélo das pessoas més”? 2 Imagine uma lampada: “Darei minha luz pata as pessoas boas e a esconderei das mas”. Ou uma érvore: “Darei minha sombra &s pessoas boas que vierem des- cansar debaixo de mim, mas a esconderei das pessoas més”. Essas_sfo imagens do que o amor é capaz, Ble sempre esteve af, nos encarando, embora nunca tenha- mos nos preocupado em vélo. Estamos mergulhados naquilo que a nossa cultura chama de amor, com stias cangGes e poemas — isso nfo é amor, € 0 oposto. desejo, controle e posse, E manipulagao, medo e ansie- dade — nao € amor. Disseram-nos que a felicidade 6 uma aparéncia trangiiila, uma estincia de férias, Ela nfo € isso, mas temos maneiras sutis de fazer nossa felicidade depender de outras coisas, que estejam dentro ¢ fora de nds. “Re- cuso-me a set feliz até que minha neurose passe”, voc diz. ‘Tenho boas noticias para voce: vocé pode ser \gora, com sua neurose. Quer noticia melhor? H4 uma tinica razio para yocé nao estar experi- mentando aquilo que na India chamamos de anand — alegria, alegria feliz razilo para vor 10 estar sentindo alegria agora, ¢ & porque yoo’ esti pensando ou se con: centrando naquilo que niio tem; senio estaria feliz. Vocé est se concentrando naquilo que ni tem. Mas agora yoo? tem tudo 0 que precisa para ser feliz Jesus falava sobre bom senso com Ieigos, pessoas famintas e pessoas pobres. Ele estava falando sobre a boa nova: “O reino perten i Hé uma tinics 3 Mas quem ouve? Ninguém esté interessado; eles preferem ficar dormindo Medo — a raiz da violéncia Dizem que hé duas coisas no mundo: Deus e medo; amor ¢ medo sao as duas coisas, Hé somente um mal no mundo: © medo; ha somente um bem no mun- do; 0 amor. As vezes recebe outros nomes: felicidade, liberdade, paz, alegria, Deus, ou 0 que quer que seja, rotulo realmente nao tem importancia, E nfo hé um mal sequer onde voc’ néo encontre vestigios do medo. Nenhum. Ignorancia e medo; ignorncia causada pelo medo, € de onde vem todo o mal, é de onde vem sua violén- cia, A pessoa que & completamente calma, incapaz de um ato de violéncia, nao tem medo. $6 quando esta com medo voc8 fica zangado. Pense na iiltima vez. que vocé se zangou. Continue. Pense na iiltima vez que vocé se zangou e procure 0 medo por tras disso. O que vocé temia perder? O que yoo tinha medo que tirassem de yoc8? E dai que vem a raiva. Pense em uma pessoa zangada, talyez alguém que yoeé sinta medo. Vé como esse alguém esti assustado? Ele esté tao assustado que acaba se tornando assustado de verdade, ou entio niio estaria zangado. Pois bem, hf somente duas coisas: amor e medo. 14 8 ttt Eu preferiria deixar essa reavaliagdo do jeito que est, desestruturada, e passar de um assunto para outro, yoltando aos temas novamente, para que voc8 possa entender o que estou dizendo. Se no pegar vocé na primeira, pega na segunda vez, 0 que nao atinge uma pessoa, pode atingir uma outra, Tenho temas diferentes, mas so todos sobre a mesma coisa. Chame de cons- cigncia, chame de amor, chame de espiritualidade, li- berdade ou despertar, ou o que quer que seja. Na ver- dade, é tudo a mesma coisa. Consciéncia e contato com a realidade Observar tudo dentro e fora de vocé, e quando alguma coisa estiver acontecendo, vé-la como se esti- vesse acontecendo com outra pessoa. Sem fazer comen- térios, sem julgamento, sem interferéncia, sem tentar mudar, apenas entender. Quando voce fiz: so, vai comecar a perceber que, cada vez mais, esti se “desidentificando” do eu Santa Teresa de Ayila disse que Deus Ihe dew uma graga extraordindrin até o fim de sua B claro ) moderna, mas é 0 que real- ilo” com ela mesma. que nao usou essa expr mente se reduz na “desidentific Se alguém tem cfncer, ¢ cu niio conhego a pessoa, isso nem me afeta. Se eu tivesse amor e sensibilidade, talyez pudesse ajudar, mas nfo estou afetado emocio- nalmente. 15 Se vocé vai fazer uma prova, isso nao me afeta de modo algum, Posso até ser bem filoséfico e aconselhar: “Bem, quanto mais vocé se preocupa com a prova, pior fica. Por que vocé nfo descansa um pouco, em vez de se matar de estudar?” Mas, se fosse comigo, eu agiria de modo diferente, no €? A raziio é que me identifico com 0 eu — com minha familia, pais, posses, meu corpo, comigo. Como seria se Deus me desse o dom de conseguir nao chamar essas coisas de minhas? Eu estatia desligado, “desiden- icado”, Isso 6 0 que significa perder a identidade, negé-la, morter por ela. Boa religido — a antitese da inconsciéncia Durante uma de minhas conferéncias, uma pessoa me perguntou; E quanto @ Nossa Senhora de Fatima? O que 0 senhor acha dela? Quando me fazem perguntas desse tipo, me lem- bro de uma histéria em que transportavam de aviao a imagem de Nossa Senhora de Fatima para uma roma- ria, Ao sobrevoar o sul da Franga, 0 avio comegou a balancar e fazer um barulho como se fosse partir ao meio. E a imagem milagrosa gritou: — Oh, Nossa Senhora de Lourdes, rogai por nés! E tudo ficou bem. Nao foi maravilhoso, uma “Nossa Senhora” ajudando uma outra “Nossa Senho- 1a"? 76 Hé uma outra histéria de um enorme grupo de pessoas que foi a uma romaria na cidade do México para venerar o santudrio de Nossa Senhora de Guada- lupe. Ficaram sentados diante da imagem em sinal de protesto, porque o arcebispo da diocese nomeou “Nossa Senhora de Lourdes” padroeira da diocese. Eles tinham certeza de que Nossa Senhora de Guadalupe estava muito triste, por isso estavam protestando, para re- parar a ofensa Esse é o problema com a religiio, se vocé nao ob- servar de fora. Quando falo com hindus, eu Ihes digo: — Seus sacerdotes nfo vao ficar felizes ao ouvir isso (notem como estou sendo prudente), mas Deus fi- caria muito mais feliz, segundo Jesus Cristo, se voces fossem transformados, em yez de ficarem idolatran- doo. E quando falo com mugulmanos, digo: — Seu aiatolé e seus mulds nao vao gostar de ouvir isso, mas Deus vai ficar muito mais feliz se vocés se transformarem em pessoas améveis, em vez de fica- rem repetindo: “Senhor, Senhor”. Ib muito mais impor- tante que vores despertem, F espiritualidade, 6 tudo Se voces tiverem isso, terio Deus. Entio estario orando “em espirito © em verdade”, Voo ‘Tenho uma historia para mostrar sobre 0 que a re- ligido pode fazer, contada pelo cardeal Martini, arcebis- po de Mildo. A histria é sobre duas pessoas que esta- vam se casando. Blas hayiam combinado com paroco que usariam 0 pitio da para dar uma recepeao. ¢ torna amor, é transformado em amor! 7 Mas choveu ¢ eles nao podiam dar a festa; entao, con- versaram com o padre: — Haveria algum problema se fizéssemos a come- moracao dentro da igteja? Ele no gostou nem um pouquinho da idéia, mas eles disseram: — Vamos s6 comer um pedaco de bolo, cantar a gumas cangées, tomar um pouco de vinho, e entao vamos para casa. Conseguiram persuadir 0 padre. Mas por serem bons italianos que amam a vida, cles beberam um pouco de vinho, cantaram uma miusiquinha, dai bebe- ram mais um pouquinho, cantaram mais, e em meia hora havia uma grande festa dentro da igreja. E todos se divertiam a valer. O padre estava muito nervoso, andando de um lado para outro na sacristia, abor- recido com aquele barulhao que o pessoal fazia. O sa- cristo entrou e o vit naquele estado: — O senhor esté tao tenso. — E claro que estou. Ouga que barulho eles estiio fazendo, e na casa do Senhor, pelo amor de Deus! — Bem, padre, eles nao tinham onde ficar. — Eu sei disso! Mas precisavam fazer toda essa algazarra? — Nao devemos nos esquecer, padre, que Jesus Cristo estava presente numa bodas. — Eu sei que Jesus Cristo estava presente num banquete de bodas, vocé nao tem que me dizer isso. Mas eles nfo tinham © ostensério ali! Vocé sabe que, as vezes, o ostensério se torna mais importante do que Jesus Cristo, Quando a oracio se 78 2 ow TCE torna mais importante do que o amor, quando a Igreja se torna mais importante do que a vida. Quando Deus se tora mais importante do que 0 vizinho. E assim vai. Isso é perigoso. Na minha opinido, era pata isso que Jesus estava chamando a nossa atencdo — as ptimeiras coisas bé- sicas! © ser humano é muito mais importante que o sabé, Fazer 0 que eu lhe digo, isto 6, tornar-se o que eu estou Ihe indicando, ¢ muito mais importante que dizer: “Senhor, Senor”. Mas 0 seu mulé nao vai gostar de ouvir isso, The garanto. Seu padre néo vai gostar de ouyir isso. Geralmente néo. Entdo é sobre isso que estamos conversando. Es- piritualidade. Despertar. E, como eu disse, € muito mais importante, se yoo’ quiser despertar, entrar naquilo que chamo de “auto-observagio”. Dése conta daquilo que voc esté dizendo, fa- zendo, pensando, de como esté agindo. Conscientize- se de onde yocé esté vindo, conscientize-se dos mo- tivos. A vida inconsciente nao vale a pena ser vivida, A vida inconsciente 6 mecanica. Nao é humana, € programada, condicionada, Seria melhor ser uma pedra ou um pedago de madeira, No pais de onde venho, voce encontra milhares de pessoas que moram em pequenos casebres, em extrema pobreza, pessoas que mal conseguem sobreviver, traba- Thando o dia todo, trabalhando duro mesmo; dormem e entio acordam pela manha, comem alguma coisa, e co- megam tudo de novo. Entio, voce se senta ¢ tudo o que a vida reserva pa 79 E de repente yocé percebe que 99,999% das pes- soas aqui nao estéo em. situaco melhor. Vocé pode ir ao cinema, andar de carro, fazer uma viagem. Vocé acha que est melhor que elas? Vocé est tio morto quanto elas. Como uma maquina — um pouco maior, mas uma méquina, Isto € triste. E triste pensar que as pessoas passam pela vida assim As pessoas atravessam a vida com idéias fixas; nunca mudam, Elas simplesmente no t8m conscién- cia do que esté acontecendo, Parecem um pedaco de madeira. Isso nao é humano, So marionetes sacudidas por todos os tipos de coisas. Aperte um bot © vocg obterd uma reagdo. Voce pode quase prever como essa pessoa vai reagir. Se eu estudar uma pessoa, eu posso Ihe dizer como vai reagir. Com meu grupo de terapia, as veres, escrevo num pedaco de papel como a sesso vai comecar © as res- postas. Voe8 acha que isso é ruim? Bem, néo ouga pessoas que dizem para yoo’: “Esqueca-se! Saia para amar os outros”, | Nao dé ouvidos a elas! Elas estéo todas erradas. A pior coisa que vocé pode fazer é esquecer-se quando se anula no ato de ajudar. Presenciei isso de forma eficaz muitos anos atrés, quando fazia estudos de psicologia em Chicago. Era um curso de aconselhamento para padres, especialmen- te dirigido para aqueles que atuavam nessa area e que concordassem em trazer uma fita gravada para a aula Eramos, aproximadamente, vinte. Quando chegou a mi- nha vez, mostrei uma fita que havia gravado numa en- treyista com uma jovem 80 instrutor colocow a fita num gravador ¢ comega- mos a ouvir. Depois de cinco minutos, ele parow a fita e perguntou: — Algum comentario? E alguém me fez uma pergunta: — Por que voc’ fez essa pergunta a cla? — Nao tenho consciéncia de ter feito uma per- gunta. Na verdade, tenho quase certeza de néo ter feito pergunta alguma — respondi. — Fez sim — disse ele. Eu tinha quase certeza, porque naquela hora eu estava seguindo o método de Carl Rogers consciente- mente, que é o do individuo orientado e nao diretivo. Vocé nio faz perguntas, no interrompe, nem dé con- selho. Entéo eu estava consciente de que nao deveria fazer perguntas. Houve uma discussio entre nds e 0 instrutor deu uma sugesti — Por que nao voltamos a fita? Para meu horror, Id estava uma pergunta enorme, to grande quanto o edificio Empire State. E o mais in- teressante é que eu ouvi a pergunta trés vezes. A primei- a, presumivelmente, quando a fiz; a segunda quando ouvi a fita no meu quarto (pois eu queria levar uma fita boa para a aula), e a terceira quando a ouvi na sala de aula, Mas cla nao foi registrada! Eu néo estava consciente, Isso sempre acontece em minhas sessGes de tera- pia ou em minha orientacho espiritual, Nés gravamos revista, ¢ quando o paciente escuta a fita, di Sabe, et nto ouvi o que dizia durante a entre- vista, Eu s6 ouvi o que o senhor dizia quando ouvi a fita. BL O mais interessante € isso, eu nfo ouyi o que ew dizia na entrevista. E chocante descobrir que estou di- zendo coisas, numa sessio de terapia, das quais néo tenho consciéncia. A importancia delas sé aparece depois. Vocé chama isso de humano? “Esquega de vocé mesmo e sai outras pessoas”, voce diz, Depois de ouvirmos a fita toda, 14 em Chicago, o instrutor perguntou: — Algum comentério? Um dos padres, um senhor de cingtienta e cinco anos, que eu ja conhecia, disse: — Tony, gostaria de Ihe fazer uma pergunta pes- soal. Tudo bem? — Sim, continue, Se eu néo quiser, nfo respondo — Essa mulher da entrevista é bonita? Sabe, com toda honestidade, eu estava em estado de desenvolvimento (ou subdesenvolvimento), onde no percebia se uma pessoa era bonita ou nfo. Eu no me importava com isso. Ela era uma oyelha do rebanho de Cristo; eu era um pastor. Distribuindo ajuda, Nao é Gtimo? Foi assim que fomos treinados, Entio pergun- tei: . — O que é que isso tem de importante? — Vocé nao gosta dela, gosta? — 0 qué? — eu disse. Jamais me ocorrera ter gostado ou detestado al- gum individuo, Gosto da maioria das pessoas, tive um caso que registrei na consciéncia, mas minha atitude foi quase neutra. ao encontro de 82 — 0 que faz o senhor me perguntar isso? Passamos a fita novamente, e ele disse: — Ouga a stia voz. Note como ela fica doce. Voce esté imritado, nfio esté? Eu estava, ¢ s6 me conscientizei ali. E 0 que eu dizia para ela de forma indireta: — Nao volte. Mas eu nao tinha consciéncia daquilo. Meu amigo padre disse: — Fla é mulher. Ela entender4 isso. Quando seré sua préxima sesso? — Na proxima quarta-feira — respondi. — Eu acho que ela nfo vai — ele disse. Ela nfo foi. Esperei uma semana, ela nfo apare- ceu. Esperei mais uma semana, e ela nao apareceu. Entao telefonei, Quebrei uma de minhas regras: no ser resgatador. ‘Telefonei para ela e disse: — Lembra-se da fita que vocé permitiu que eu gravasse para a minha aula? Ela foi de grande ajuda, porque chamou minha atencao para todas as coisas (cu nao contei aquilo para ela!) que tornariam a sesso mais efetiva. — Esti bem, eu voltarei — disse ela. E voltou, A antipatia continuava ali, mas nao es- tava interferindo. Vocé controla aquilo que tem cons- cincia; aquilo que yoc® nfo tem consciéneia te con- trola, € como se fosse sempre um escrayo do que voce nao tem consciéncia. Quando tem consciéncia, se li berta. Ela esté 1 mas vocé niio é afetado, nao é con- trolado, nao se torna escravo. Af esté a diferenga. 83 Consciéncia, consciéncia, consciéncia, consciéncia Nesse curso fomos treinados para ser observadores par- ticipantes. Quer dizer, estou conversando com vocé e, ao mesmo tempo, estou do lado de fora observando vocé e me observando. Quando eu ougo voc’ é muito mais importante para mim que eu me ouga, Caso con- trério, ndo te escutarei, ou estarei distorcendo tudo o que diz, Estarei atingindo vocé a partir do meu proprio. condicionamento. Estarei reagindo a vocé em todos os tipos de minhas insegurancas, minha necessidade de ma- nipular, meu desejo de conseguir, irritagdes e senti- mentos dos quais’posso nfo estar consciente. Entdo, € espantosamente importante que eu me ouga quando estiver ouvindo yoos. E para isso que estévamos sendo treinados, para adquirir consciéncia. Nem sempre voce tem que se imaginar flutuando no ar. S6 para ter idéia do que estou falando, imagine um motorista bom, dirigindo um carro, concentrado na- quilo que vocé est dizendo. Na verdade, ele pode até discutir com yocé, mas perfeitamente consciente da si nalizaco, No momento em que qualquer coisa desagra- davel acontecer, no momento em que houver qualquer ruido ou batida, ele ouviré de imediato, e dira: “Tem certeza que fechou aquela porta 14 atras?” Como fez isso? Ele estava consciente, estava aler- ta, Sua atenc&o estava mais propagada. Ele estava ab- sorvendo todos os tipos de coisas. O que estou defendendo aqui ndo € concentracao. Isso no importa, Muitas técnicas de meditagao inou- tem concentraca@o, mas eu desconfio disso. Essas téc- nicas envolvem violéncia, e freqiientemente envolvem mais programagio e condicionamento. O que eu de- 84 fendo é consciéncia, que nao €é o mesmo que concentra- Go. A concentracao é um projetor de luz, um holofote, Vocé esta aberto para qualquer coisa que entre no campo de ado de sua consciéncia. Vocé pode até se dis- trair, mas quando estd praticando consciéncia, nunca se distrai. Quando a consciéncia esté ligada, nao ocorre distrago, porque yocé est sempre consciente do que possa acontecer. Estou olhando para algumas 4rvores © estou. me preocupando. Estou distrafdo? $6 me desligo se me concentrar nes aryores. Mas se eu tiver consciéncia de que estou preocupado, também, isso nao € distragao. Preste atencdio onde sua atengfo vai. Quando alguma coisa vai sair errada ou algo desagraddvel acontece, yoo8 percebe na hora. Alguma coisa vai sair erradal No momento em que qualquer sentimento nega- tivo entrar na conseiéncia voce seré alertado, Voce € como o motorista. Eu contei que Santa Teresa de Avila pediu a Deus a graca de “desidentificar-se” com ela mesma, Vocé ouye criangas falarem dessa maneira. “Tommy tomou seu café da manha”, diz uma ctianga de dois anos. Ele nfo diz “eu”, embora ele seja Tommy, Ele diz “Tommy” — em terceira pessoa. Os misticos se sentem assim. Eles se “desidentificaram” consigo mesmos e estfio em paz. Era dessa graga que Santa Teresa estava falando, Esse é 0 Eu que os mestres misticos do Oriente insis- tem para que as pessoas descubram, Bos do Ocidente também! E pode incluir Meister Eekhart. 85 Rotulos oe ° ae nao é saber quem o Eu é, ou o que 'u é. Vocé nunca conseguiré. Nao ha palayras para explicar. : O importante € se livrar dos rétulos. Como dizem Os mestres zens japoneses: “Nao procure a verdade: simplesmente abandone suas opinides” : a Beane ee teorias; nfo procure a verdade. M3 : a 1e Yoo€ esié procurando! Se vocé deixar ay logmatico, percebera a diferenca. Alguma coisa elhante acontece aqui. Se yocé abandonar seus 16- tulos, sentird a diferenga O que eu quero dizer com rétulos? Todo rotulo que vo sim cé conseguir ir ‘3 talvez, “ser humano”, So eae ne ee oe um Suna Razofvel; nao diz muito. Mas quando voce diz “Eu sou bem-sucedido”, isso € coe Sucesso nao faz parte do Eu. E uma coisa que vem e vai; esté aqui hoje, pode nao estar aqui amanha., Isso nao € 0 Bu. ae So et es “Eu fui um sucesso”, voc a ou na escuridao. Vor I tificou com 0 sucesso. ee seacaec’ esi seita quando voce dla: “Eu sou um racasso, um advogado, tim executive” rear oe he 2 ae vai acontecer se voce se identi car com estas colts, Vai se apegar a clase se preoct eee ae ‘ elas poderem fracassar, e ¢ dai que nto. E o que eu queria dizer quando 86 chamei a sua atengdo: “Se vocé est sofrendo, voré esté adormecido”. Quer um sinal de que despertou? ‘Aqui esta: vooé est sofrendo. © sofrimento é um sinal de que voce néo esté em contato com a verdade. Voet sofre para que possa abrir os olhos para a ver- dade; para que possa entender onde esta a falsidade. Como uma dor fisica, que o faz entender que hé uma doenga. © sofrimento mostra que hé falsidade. © so- frimento acontece quando voc entra em conflito com a realidade. Quando: suas ilus6es’e"falsidades entram’em,con- fligo:com a realidade, voce sofre. De outro modo, isso ‘nao aconteceria. Obstdculos a felicidade © que eu vou dizer poder parecer um pouco im- ponente, mas é verdade. Se voce entender isso, atingiré © segredo do despertar. Sera feliz para sempre. Nada, nada poders magoé-lo. F como jogar tinta preta no ar; ele néo se conta- mina, Voo8 nunca conseguiré pintar 0 ar de preto. Nao importa o que acontega com voeé, jamais seré contaminado. Vocé permanece em paz. Hi seres humanos que {4 alcangaram esse estigio, fo que eu chamo de “ser humano”. Nao no sentido de set uma marionete, manipulada, deixando que os acon- 87 tecimentos ou outras pessoas digam como yocé deve se sentir, Voce diz que isso é ser vulnerdvel, Ah! Eu digo que isso é ser marionete! Entdo quer ser marionete? Aperto um boto e voce dese; gosta disso? Mas se vocé se recusar a se identificar com qual- quer um desses rétulos, a maioria das suas preocupa- des desaparecerd. Mais tarde, falaremos sobre 0 medo de uma doen. ga e da morte, mas geralmente voc? se preocupa com o que vai acontecer com sua carreita Um exeeutivo sem muito prestigio, cingtienta ¢ cinco anos, esté tomando cerveja num bar: “Bem, ve- jam meus colegas, eles conseguiram”. Que idiota! O que ele quer dizer com “eles con- seguiram”? O nome deles sai no jornal. Vocé chama isso de sucesso? Um é presidente da empresa; 0 outro é presidente do Supremo ‘Tribunal; o outro é nem sei © qué. Macacos, todos eles. Quem determina o que significa ser um sucesso? Essa soviedade estipida! A maior preocupago da so- ciedade ¢ manter a sociedade doente! E quanto antes yooé perceber isso, melhor. Doentes, cada um deles. Malucos. Voeé se tornou presidente do asilo lunético ¢ tem orgulho disso, mesmo que isso nao signifique coisa al- guma. Ser presidente de uma companhia nada tem a yer com ter sucesso na vida, Ter muito dinheiro nada tem a ver com ter sucesso na vida. Vocé é um sucesso quando desperta! 88 Enifo, vocé nfo tem que se desculpar, nao tem que dar explicagGo alguma para quem quer que soja; no deve dar a mfnima para 0 que as pessoas pensam a seu respeito ou o que dizem sobre voce. Vocé nao tem preocupagio; é feliz. Isso € 0 que eu chamo de sucesso. Ter um bom emprego, ou ser famoso, ou ter uma grande reputagfo nada tem a ver com a felicidade ou sucesso, Nadal E totalmente irrele- vante Esse executivo esté realmente preocupado ¢ com © que seus filhos pensardo, com 0 que a esposa pen- saré, Ele deveria ser famoso. Nossa sociedade e cultura incutem isso em nossas mentes 0 tempo todo. Pessoas que conseguiram! Con- seguiram o qué? Conseguiram se tornar asnos. Porque gastaram toda a sua energia para conseguir algo que nfo tem valor, Eles esto assustados e confusos, sfio mario- netes, como todos os outros. Veja de que modo eles desfilam pelo paleo. Como se irritam se perceberem uma manchinha na camisal Ficam assustados s6 de pensar que podem nfo ser ree- leitos, Vocé chama isso de sucesso? Eles sao controlados, so t20 manipulados! Séo pessoas infelizes, miserdveis. Nao curtem a vidal Esto sempre tensos ¢ ansiosos. Vocé chama isso de humano? E sabe por que isso acontece? Por uma tinica ra- zo: eles se identificaram com algum rétulo, Identifi- caram o Eu com o dinheiro, 0 emprego ou a profissfio. Eles cometeram esse erro. Vocé conhece a histéria do advogado que recebew a conta do encanador? 89 — Ei, o senhor esté me cobrando duzentos déla- res por hora? Eu nio ganho isso trabalhando como ad- vogado! — Eu também nfo ganhaya isso quando era advo- gado! — respondeu o encanador Vocé poderia ser encanador, advogado, executivo ow padre, mas isso nfo afeta o Eu essencial. Nao afeta voce. Se eu mudar de profissio amanha, é como se es- tivesse trocando de roupa. Eu sou intocével. Vocé é sua roupa? Voce é seu nome? Vocé é sua profissdo? Pare de se identificar com essas coisas, Elas vém e vio. Quando vocé conseguir entender isso, nenhuma critica o afetara. Nenhuma lisonja poderé afeté-lo tam- bém, Quando alguém diz que “voc é uma grande pes- soa”, do que est4 falando? Esta falando sobre o eu, nao estd falando sobre o Eu. O Eu nao ¢ grande nem pe- queno; nao é um sucesso, nem um fracasso. O Eu néo € nenhum desses rétulos. Essas coisas vém e vio. Essas coisas dependem do critério que a sociedade estabelece. Essas coisas dependem do seu condicionamento, do hu- mor da pessoa com quem voce estéi conversando no mo- mento. Isso nada tem a yer com o Eu. © eu geralmente € egofsta, tolo, infantil — um grande asno. Entao, quando vocé diz que é um asno, eu respondo que jd sabia hé muito tempo! O ego condicionado — 0 que voc® esperava? Eu jé sabia hé muito tempo. Por que vocé se identifica com ele? Que idiotice! Isso nao é 0 Eu, é0 eu. 30 Voce quer ser feliz? A felicidade ininterrupia nao é produzida. A felicidade verdadeira nfio ¢ causada, Vocé nao pode me fazer feliz. Vocé nao é minha feli- cidade. Se voc perguntar para a pessoa que despertou se ela € feliz, sabe 0 que ela responde? “Por que nao?” A felicidade € nosso estado natural. A felicidade € 0 estado natural das criancinhas, a quem o reino per- tence, até que elas sejam contaminadas e poluidas pela estupidez da sociedade e da cultura, Voeé nfo tem que fazer coisa alguma para adq rir felicidade, porque a felicidade nfo pode ser adqui rida. Alguém sabe por qué? Porque nds j4 a temos. Como vocé pode adquirir algo que j4 tem? Ento, por que yoc€ nfo tenta? Por- que tem que desistir de alguma coisa. Vocé tem que de- sistir das ilusdes. Vocé fem que adicionar coisas para ser feliz; tem que desistir de alguma coisa. A vida é facil, é maravilhosa! Sé6 é diffcil no que respeito s ilusdes, ambigdes, cobica, anseios. Sabe de onde essas coisas yém? Elas vém da sua identifica- gio com todos os tipos de rétulos! Quatro passos para a sabedoria A primeira coisa a ser feita 6 entrar em contato ‘com 08 sentimentos negatiyos, dos quais yo’ nem tem consciéncia. ot _ Muitas pessoas tém pensamentos negativos ou estéio deprimidos ¢ nem sabem. Quando elas entram em contato com a alegria € que percebem como estavam! E muito diffeil lidar com um caso de cfncer que voc’ detectou. Voc’ no consegue livrar-se das brocas do algodao de sua fazenda se nio sabe da existéncia Ou. delas. ___ A primeira coisa de que vocé precisa € ter cons- ciéneia de seus sentimentos negativos, Que sentimentos nnegativos? Melancolia, por exemplo. Vocé se sente de- primido e mal-humorado. Vocé sente édio de vocé mes- mo, sente-se culpado. Acha que a yida nao tem a menor graca, nao tem sentido; se magoa, fica nervoso, tenso. Entre em contato com esses sentimentos primeiro. © © segundo passo (esse € um programa de quatro % etapas) é entender que 0 sentimento est4 em vocé, n& Ee area SME Cia ce ifastin eaidonte aca ceo que as pessoas sabem? Elas nao sabem, actedite em mim. Sao doutores e reitores de universidades, mas nao conseguem entender isso! Eu nao aprendi a viver na escola, Ensinaram- me todas as outras coisas. Um homem pode bem dizer: “Eu tenho tima educacio, levei anos para obté-la”. A Vocé sabe o que a espiritualidade 6: desaprendet Desaprender todo esse lixo que nos ensinaram, Os sentimentos negativos esto em vocé, no na realidade. Entao, pare de tentar mudé-la. Isso é lou- cura! Pare de tentar mudar as pessoas. Desperdicamos ‘todo o nosso tempo ¢ energia tentando mudar o externo, tentando mudar nO8s0s cOnjuges, chefes, amigos, ini- migos e todo mundo. Nao temos que mudar coisa al- guma. Os sentimentos negativos estio em vocé. SHES UTNE ESIUEe a HIvOS estan em (vO0els 92 Ninguém no mundo tem o poder de fazer voce infeliz. Nao hé acontecimento que possa perturbé-lo ou magoé-lo. Nao ha condigao, sitiagao ou pessoal Nin- guém the disse isso? ‘As pessoas dizem exatamente o contrério. B por isso que vocé se encontra nesse estado. Nunca Ihe dis- seram isso, no €? Mas esté bem evidente. Vamos supor que a chuva acabe com um piqueni- que. Quem se sente negativo? A chuva? Ou voce? O que causa 0 sentimento negativo? A chuva ou @ sua Teagao? Quando vocé bate o joelho na mesa, a mesa est bem. Ela esté ocupada em ser o que ela foi feita para ser —— uma mesa, A dor estd no seu joelho, nfo na mesa, Os misticos tentam nos dizer que a realidade esta bem. A realidade nao é problemética. Os problemas esto apenas na mente humana, Podemos acrescentar: na estdpida mente humana adormecida. Tire todos os seres humanos deste planeta ¢ a vida continuaré a existir! A natureza continuaré com toda a energia e amor. Onde estaria o problema? Nao haveria problema! YVocé criou 0 problema. Vocé é o problema. Voce se identificou com 0 eu, e af esta o problema. O sen- $y timento esté em vor’, niio na realidade. © terceiro passo: nunca se identifique com esse entimento, pois ele nada tem a yer com o Eu, Nao tente definir seu ego essencial sob 0 aspecto desse sen- timento. Nao diga “estou deprimido”, Se quiser dizer “isto € deprimente”, que tudo bem! wie 93 ser dizer que a depressao esté ali, tudo bem; se vocé preferir dizer que a melancolia se instalou ali, tudo bem. Mas néo diga “estou deprimido”. Vocé esté se definindo com base nesse sentimento. 1380 € ilusio; voc’ est cometendo um erro. Hé uma deprésso no momento; hé sentimentos que magoam, mas nfo dé bola! Passaré. Tudo passa, tudo. Suas depressdes e emocdes nada tém a yer com a felicidade. Elas sf como os movimentos do péndulo. Se yocé procura emogdes, prepare-se para a depressio, ord aterjanmiaaene treparece pata.c dapoetGl péndulo do relégio vai de uma extremidade 2 outra! Isso nada tem a ver com o Eu; nada tem a ver com a felicidade. E 0 eu. Se voce se lembrar disso, se repe- tir para vocé mesmo milhares de yezes, se tentar dar esses trés passos milhares de vezes, vocé conseguiré! ‘Talvez nem precise dar os trés passos. Bu néo sei; no hé regra para isso. Mas faga-o mil vezes, e teré feito a maior descoberta de sua vida, Para o inferno com aquelas minas de ouro no Alasca, O que yocé vai fazer com esse ouro? Se voce nao € feliz, no consegue viver. Entao, encontrou 0 ouro, O que importa? Voeé é um rei, uma princesa. Voce estd livre; nfo liga mais para essa histdria de ser aceite ou rejeitado, isso nao faz diferencal Os psicélogos nos falam que é importante obter um senso de posse. Besteira! Por que vocé vai querer pertencer a alguém? Isso nao importa mais. Um amigo me contou que hé uma tribo africana onde 0 pecado capital é punido com ostracismo, 94 = Se vocé fosse chutado de Nova York, ou de qual- quer outro lugar, vocé morreria. Por que o africano morreu? Porque ele fazia parte da-estupidez comum da humanidade. Ele achava que nao conseguiria yiver se nfo pertencesse & sociedade. Isso € muito diferente da maioria das pessoas, ou nfio? Ele se convenceu de que precisava pertencer. Mas voc8 nfo tem que pertencer a alguém, alguma coisa ou algum grupo. Vocé nem precisa estar apaixonado! Quem disse para vocé se apaixonar? O que vocé precisa é estar livre, voce precisa amar. E isso; € a sua natureza, Mas voc esté me dizendo que quer despertar desejo, quer ser aplaudido, ser straenie ¢-feF am monte de maca- quinhos correndo atrés de voc6. Voce esté perdendo ‘empo. Acorde! Vocé nao precisa disso. Pode ser muito feliz. sem essas coisas. ‘A sua sociedade nfo vai gostar de ouvir isso, porque voce se assusta quando abre os olhos ¢ entende. Como controlar um individuo assim? Ele nao precisa de voes; sua critica nfo o ameaga. Ele nao liga para o que voc’ pensa ow diz a seu respeito. Ele cortou todos os cordoes, nao é mais uma marionete. E inerfvel! “Bntéio, temos que nos livrar dele, Ele diz a yer- dade; néio tem medo; deixou de ser humano.” Humano! Olhe! Finalmente um ser humano! Libertou-se_da_es- crayidio, saiu da prisiiol ar ~~ Nada justifica um sentimento negativo. Nossos mifsticos estiio quase roucos de tanto chamar a nossa atengiio! Mas ninguém ouve, © sentimento negativo esté em yor’ ado dos hindus, 0 “Mergulhe no fd, © livro sag ise para Arjuna: 95 ae © calor da batalha e deixe seu coraco aos pés do Se- nhor”. Que afirmagdo maravilhosa! Yocé nfo tem que fazer coisa alguma para adqui- rir felicidade, © grande Meisier Eckhart fez uma afirmagao muito bonita: “Nao se aleanga Deus adicionando coi- sas 4 alma, mas por um processo de subtragéo”. Vocé nio precisa fazer coisa alguma para ficar livre, desista de algo. Entio vocé se liberta. Isso me faz lembrar do prisioneiro irlandés, que cavou um tinel na prisio e conseguiu fugir. O fim do tinel daya bem no meio do patio de uma escola onde criancinhas brincayam. Ao sait do ttinel, no conseguit se conter e comegou a pular € gritar: — Como é doce a liberdade! Como é doce a liber- dade! Como é doce a liberdade! Uma garotinha olhou para ele com desprezo e disse: — E desde quando para comer doce tem idade? ‘A quarta etapa: Como mudar as coisas? Como mu: dar yor’ mesmo Pree, Hé muitas coisas que vocé deve entender, ou me- Ihor, apenas uma coisa, que pode ser dita de vérias maneiras. Imagine um paciente que vai ao médico e fala 0 que esta sentindo. O médico diz: — Muito bem, entendi todos os seus sintomas. Sabe 0 que eu you fazer? Receitarei um remédio para 0 seu vizinho! — Muito obrigado, doutor, Estou me sentindo bem melhor agora — responde o paciente. 96 4 Isso nfo é um absurdo? Mas é exatamente esse 0 nosso comportamento. A pessoa_adormecida_sempre acha que se sentiré melhor sé uma outra pessoa mudar. Vocé sofre porque esté dormindo, mas vocé esta pen- sando. “Como a vida seria maravilhosa se os outros se transformassem; como seria maravilhoso se meu vi- inho se transformasse, minha esposa, meu chefe!” Nés sempre queremos que os outros se transfor- mem para que nés fiquemos melhor. Mas jé lhe passou pela cabega 0 que aconteceria com vocé se, por exem- plo, sua esposa, ou marido, mudasse? Vocé continuaria to vulnerdvel quanto era antes; tio idiota quanto antes; tio adormecido quanto antes! F yoc€ quem tem que mudar, é yocé quem precisa de remédio. “Eu me sinto bem porque 0 mundo esté cer- to.” Voce continua insistindo. Errado! O mundo esta certo porque eu me sinto bem. £ isso © que todos os misticos estiio dizendo. Tudo estd certo com 0 mundo Quando vocé despertar, quando vocé entender, quando voce enxergar, o mundo ficaré certo. Nés sempre somos perturbados pelo problema do mal. Preste atencfio nessa histéria incrivel de um garo- tinho que caminhava pela margem de um rio, Ele viu um crocodilo preso’numa atmadilha, A vitima falou com ele: 9o7 — Vocé teria pena de mim e me soltaria daqui? Posso até ser feio, mas a culpa nfo é minha, vocé sabe. Eu fui feito assim, mas tenho um coracao de mae. Eu sai 2 procura de alimentos para os meus filhotes ¢ caf nesta armadilha! — Mas, se eu tirasse voc’ dessa armadilha, vocé me mataria! — responde o garoto — Vocé acha que eu faria isso com quem me salvou? — perguntou 0 crocodilo, Ento, 0 menino se convenceu de que deveria ti- rar 0 crocodilo dali, Em meio a facanha, 0 crocodilo 0 prendeu entre os dentes, — EF isso que ganho fazendo boas agdes! — disse © menino. — Bem, nfo leve isso para o lado pessoal, filho, € a lei do mundo, é a lei da vida. O menino discordou e 0 crocodilo 0 questionou: — Entfo, por que vocé nao pergunta a outra pes- Soa se as coisas néo so exatamente assim? © menino viu um péssaro num galho: — Passaro, vocé acha que 0 crocodilo esti certo? — O crocodilo esta certo — di: Veja 0 meu caso, Um dia eu voltava para o ninho com ‘comida para os meus filhotinhos. Imagine como eu me senti ao ver uma cobra atacando meu ninho. Ela devo- rou meus filhotes, um a um. Gritei, chorei, mas foi ind til, Ble esté certo, essa é a lei da vida, o mundo é assim. — Viu? — respondeu o crocodilo. — Espere ai, quero perguntar para alguém mais. — Esté bem, vamos lf — disse © crocodilo Um burro velho passava por ali. 98 _— Burro — disse 0 garoto —, yoo® acha que o crocodilo esta certo? — 0 crocodilo tem toda razio — disse o burro. Veja minha histéria, Trabalhei feito um escrayo para 0 meu dono, durante toda a minha vida, A custa de um pouco de comida, Agora que estou vetho e sou intitil, Ele me soltou. E estou aqui vagando pela floresta, es. perando que alguma besta me ataque © dé um fim & mninha vida, O crocodilo esté certo, essa € a Iei da vida, yundo. isso ¢ 0 Miu? — disse 0 crovodilo — Vamos! — Quero mais uma chance — disse 0 garoto —, uma Gitima chance. Deixe-me perguntar para mais um ser, Nao se esqueca de que fui bom para voce, — Esté certo, sua tltima chance — disse 0 cro- codilo. ‘© menino viu um coelho e perguntou: — Coelho, 0 ctocodilo est certo? © coelho se sentou e questionou o crocodilo: — Vocé disse isso para 0 garoto _— Sim — respondeu 0 crocodilo. __ Espere um minuto — disse 0 coelho, — Vamos discutir esse problema, ; — Sim — disse 0 crocodilo. __ Mas como podemos discutir se o geroto esté preso em sua boca? Solte-o. Ele tem que participar da discussao também — argumentou o coelho, — Vocé é muito esperto. Se eu solté-lo, ele foge — disse 0 crocodilo, _— Pensei que voce fosse mais inteligente. Se cle tentasse fugir, voc o mataria com uma rabanada — respondeu o coelho. 99 — Razodvel! — disse 0 crocodilo, e soltou o garoto. — Fuja! — disse o coelho. E 0 menino escapou. — Vocé nao gosta de carne de crocodilo? — o coelho perguntou para o menino, — O pessoal da sua vila poderia preparar um belo almoco! Vocé nfo sol- tou 0 crocodilo; ele ainda est4 na armadilha, Por que vocé nao chama o seu pessoal e prepara um banquete? Foi exatamente isso que o menino fez. Ele correu até a vila e chamou os cagadores. Mataram 0 crocodilo. O cachortinho do garoto também veio, e quando viu o coelho, perseguit-o, agarrou-o ¢ abateu-o! Mais tarde, © garoto apareceu e viu o coelho morto. — F, 0 crocodilo estava certo, 0 mundo é assim, essa é a lei da vida. Nao hé explicagio para todo o softimento, a tor- tura, a destruicio, 0 mal e a fome do mundo! Vocé pode até tentar explicar com suas formulas religiosas, mas no conseguir, Porque a vida é um mistério, o que significa que sua mente pensante nfo consegue expli- cé-lo. E para isso que vocé tem que despertar, ¢ de re- pente passar a perceber que a realidade nao é problema- tica — vocé é 0 problema. Sonambulismo ‘As Escrituras esto sempre nos alertando de que nunca seré poss{vel entendé-las enquanto nao desper- tarmos. 100 Os adormecidos Iéem a Biblia e crucificam 0 Mes- sias a seu proprio modo. Vocé tem que despertar para entender as Escritu- ras. Ao despertar, elas comecam a fazer sentido! Isso é a realidade. Mas vocé nunca conseguiré explicar com palayras. Vocé preferiria fazer alguma coisa? Mas ai, temos que ter certeza de que nao esté entrando em aco 6 para se liyrar de seus sentimentos negativos. Muitas pessoas entram em ago s6 para fazer coi- sas piores ainda. Elas yém do amor, elas yém de sen- timentos negativos, Elas yém da culpa, raiva, ddio; de um senso de injustiga, ou o que quer que seja. Vocé deve ter certeza do seu “ser” antes de entrar cm agdo. Vocé deve ter certeza de quem vocé é antes de agir. Infelizmente, quando os adormecidos entram em aciio, substituem uma crueldade por outra, uma injus- tiga por outra, e assim por diante. Como diz Meister Eckhart: “Vocé nao sera sal- vo (ou acordado; chame como quiser) por suas agdes, mas pela sua vida, Voos seré julgado nao pelo que yoes faz, mas pelo que voct é”. Que beneficios yoo@ recebe ao alimentar famin- tos, dar de beber a quem tem sede, visitar prisbes? Lembre-se do que Paulo disse: “Se eu der meu corpo pal queimado, ¢ todos os meus bens para os pobres ¢ niio tiver amor (,..)" Ea sua existénela que vale, nao suas ages. Entdo voc’ pode enirar em agiio, ou nao! Voeé nio pode tomar uma decisiio enquanto nio acordar, 101 Infelizmente a preocupacdo se concentra em mu- dar 0 mundo, n&o no despertar. Ao despertar, voce saberd o que fazer, ou o que nao fazer. Vocé sabe que alguns misticos sio muito estra- nhos, Como Jesus, que disse algo assim: “Eu nao fui enviado para essas pessoas; me limito a0 que devo fa- zer agora. Mais tarde, talyez” Alguns nao falam. Misteriosamente, alguns cantam, cangées, Alguns estao trabalhando. Nunca sabemos. Eles sfo uma lei para si mesmos; sabem exatamente 0 que deve ser feito. “Mergulhe no calor da batalha, e mantenha seu coracio aos pés do Senhor”, como eu disse antes. Imagine que vocé néo esteja bem, num tremendo mau humor, e esteja sendo levado para um lugar ado- réyel no campo. A paisagem é linda mas yocé nfo esta a fim de ver coisa alguma. Depois de alguns dias, vocé passa pelo mesmo lugar e diz: “Meu Deus, onde eu es- tava que nao percebi tudo isso?” Tudo fica bonito quando vocé se transforma. Ob- serve drvores e montanhas através de janelas molhadas pela chuya, tudo fica manchado e sem formato. Voce tem vontade de sair e mudar as érvores e as montanhas. Mas, espere um momento, vamos examinar a jenela. Quando a chuva parar, voce vai olhar pela janela ¢ vai perceber que tudo ficaré diferente. Nés vimos as pessoas e as coisas nao como sao, mas como nds somos. E por isso que, quando duas pes- soas olham para alguma coisa ou para alguém, tém duas reagdes diferentes. Lembra-se do que leu nas Eserituras sobre tudo transformar-se em bem para aqueles que amam a Deus? 102 Quando voce finalmente despertar, néio tentard fazer coisas boas acontecerem; elas simplesmente acontecem. De repenie vooé entende que tudo aquilo que acon- tece com voc’ & bom. Pense em algumas pessoas de seu convivio, e que yoo gostaria que mudassem. Vocé as considera mal- humotadas, irresponsdveis, falsas, ou 0 que quer que seja, Mas quando voce estiver diferente, elas serdo dife- rentes. Essa é uma cura infalivel e miraculosa. Quando voc’ se transformar, elas serao diferentes! E elas sentirdo que yore esta diferente também! Alguém de quem voc8 tinha medo pareceré muito frégil. Alguém que parecia ser rude, parecerd assustado. De repente, ninguém mais conseguiré magoar vocé. T. como se voce deixasse um livro sobre a mesa € eu o apanhasse ¢ dissesse: “Voce esté me forgando a pegar este livro. Eu tenho que pegé-lo ou nio’ ‘As pessoas se ocupam em acusar todo mundo, eul- par todo mundo, culpar a vida, culpar a sociedade, cul- par os vizinhos, Dessa forma é impossivel mudar. Voc continuaré num pesadelo, nunca acordara. Comece este programa mil yezes: a) identifique os sentimentos negativos em voce: b) entenda que eles estfio em voc8, nfo na rea lidade externa; ¢) nfo faga deles parte essencial do Eu; eles vém e vaio; d) entenda que, quando voce s se transforma. nsforma, tudo 103 A transformacao como cobica Ainda temos uma grande questo: “Bu faco alguma coisa para me transformar _Tenho surpresas para voc8, muitas noticias boas! Vocé néo tem que fazer coisa alguma. Quanto mais faz, pior fica. Tudo o que tem a fazer é entender. Pense em alguém com quem vocé trabalha ou con- vive e no gosta; este alguém o deixa de mau humor. Vou ajudé-lo a entender 0 que esté acontecendo. A primeira coisa que precisa entender € que esse sentimento negativo esté dentro de voc. O responsavel por ele é vocé nao a outra pessoa. Outro em seu lugar se sentiria muito bem na presenca dessa pessoa; eles nao se afetariam. Vocé se afeta. __ Agora, entenda um outro ponto. Voce faz exigén- cias, tem expectativas com relacdo & pessoa. Consegue entender isso? Entdo, diga para essa pessoa: “Bu nao tenho o direito de exigir coisa alguma de voce” Veja 0 que acontece com vocé ao fazer isso, Se ha resisténcia para dizé-lo, quanto yocé vai descobrir do seu eu! Liberte o ditador que ha’ em voce, liberte o ti- rano. Vocé se considerava tao bonzinho, néo é? Mas eu sou tirano, vocé é tirano. Uma pequena variagio para a minha afirmagao: “Eu sou um asno, vocé é um asno”, Eu sou ditador, vocé € ditador. Eu quero ditigir a sua vida; quero dizer 0 que vocé deve ser, ¢ como deve se comportar, e é melhor que yoed se comporte da maneira que eu quiser, ou me castigarei tendo senti- mentos negativos. Lembre-se do que eu Ihc disse, todos sao loucos. 104 Uma mulher me contou que seu filho recebeu um prémio no colégio por ter sido um excelente esportista. Hla ficou feliz por ele, mas teve yontade de dizer-the: “Nao se glorifique por causa desse prémio, porque ele © est langando no tempo, e vai chegar uma hora em que Voce nao conseguiré mais”. Ela ficou num dilema: como evitar que ele tivesse desilusées futuras sem acabar com sua alegtia agora. Felizmente, ele aprenderé da mesma forma que ela, Nao importa se ela disser alguma coisa ou nao. Fla se transformaré e entGo saberé o que dizer, quando. © prémio foi-resultado de uma competi¢ao, que pode ser cruel se tiver édio. As pessoas se sentem bem dlerrotando outras, Vocé vence alguém. Nao € hotrivel? fi o que acontece num asilo de lunéticos! ‘Um médico american escreveu sobre os efeitos «a competigao em sua vida. Ele cursou a faculdade de wnedicina na Suiga, e havia muitos americanos 1é, Ele disse que alguns dos alunos ficaram chocados quando souberam que nfo havia notas, prémios, lista de cha- ‘ida, nem primeiro ou segundo da escola. Voc® pas- java ou nao. “ Alguns nao conseguiam entender aquilo. Quase [icamos loucos. Ach4vamos que havia algum tipo de inanipulagdo ali.” Entiio, alguns alunos decidiram mudar de escola. Aqueles que permaneceram descobriram um fato estra- ‘iho, que nunca tinham percebido nas universidades siwwericanas: alunos brilhantes ajudando os outros a pas- m de ano, dividindo notas- Seu filho freqiienta uma escola de medicina nos {ados Unidos e Ihe conta que, no laboratério, alguns 105 alunos desregulam © microseépio para que o préximo aluno perca trés ou quatro minutos para reajusté-lo Competigo. Eles t8m que se sair bem, tém que ser per- feitos, E ele contou: uma hist6ria que, embora real, pa- rece uma bela fabula. Numa cidadezinha da América havia um grupo que se encontrava todas as noites para fazer mtisica, O grupo era formado por um saxofonista, um baterista, um violinista, na maioria um pessoal yelho. Eles compartilhavam a alegria de fazer mtisica, embora ninguém soubesse tocar bem. Divertiam-se & beca, até que um dia resolveram procurar um novo maestro, que fosse ambicioso e soubesse dirigir. — Ei, pessoal — dizia o maestro —, vamos apre- sentar um concerto para a cidade Aos pottcas ele se livrou do pessoal que tocava mal, contratou miisicos profissionais, melhorou a or- questra ¢ todos eles viram seus nomes nos jornais. Nao foi maravithoso? Decidiram mudar-se para uma cidade grande ¢ tocar 14. Mas alguns dos yelhos chorayam e lamen- tayam: — Era to bom antigamente, Tocavamos mal, mas todos se divertiam Descobriram 0 significado da crueldade, embora ninguém interpretasse dessa forma. Veja como ficaram Toucos! Voce pode até me perguntar o que eu quero dizer quando afirmo: “V4 em frente e seja vocé mesmo, esté tudo bem, mas eu me protegerei, ett serei eu mesmo”. Em restimo, nao deixarei que yoo’ me manipule. Viverei minha vida; vou seguir meu caminho; serei livre para aceilar os meus pensamentos, seguir minhas 106 inclinagdes & gostos. Direi nao para vos. Se eu decidir que nao quero sua companhia, ndo & porque voc’ me causa algum sentimento negativo. Eu simplesmente pre- firo a companhia de outras pessoas. — Que tal um cinema esta noite? — voc’ me convida. — Sinto muito, eu prefiro ir com outra pessoa; gosto mais da companhia dele do que da sua, E fica tudo bem. Dizer nao para as pessoas — que maravilhoso! Faz parte do despertar. Vocé vive sua vida do jeito que bem quer. E enienda: isso ndo € egois- mo. Sabe o que é egofsmo?’ Ii exigir que as pessoas vivam suas vidas como voc@ quer. Isso € egoismo. egofsmo esté em exigir que alguém se adapte aos seus gostos, seu orgulho, seu luero, seu prazer. Isso é egofsmo. Entao me protegerei. Nao me sentirei obrigado a estar com voce, dizer sim para voce, Se eu achar sua companhia agradayel, you apreciéla. Mas cu nao te eyito mais porque yoo desperta sentimento negativo ‘em mim. Vocé nao tem mais esse poder. O despertar 6 uma surpresa. Quando yocé nao es- pera que alguma coisa acontega ¢ ela acontece, yoo fica surpreso, Quando a esposu de Webster o pegou beijando a empregada, ela dissé para ele que ficara muito surpresa. Webster, que era defensor de palayray precisas (com- preensivel, jd que cle escreveu um diciondrio), respon- deu: “Nao, minha querida, Eu estou surpreso, Voot est abismada!” ‘Algumas pessoas fazem do despertar um objetivo. Blas se determinam a chegar If, “Hu me recuso a ser feliz enquanto eu ndo despertar, 107 Nesse caso ¢ melhor continuar do jeito que esta, 86 tenha consciéncia de sua condigao. O simples des- pertar ja é felicidade, comparado & tentativa de reagir © tempo todo. As pessoas reagem de imediato porque esto dor~ mindo. Vocé entender que as vezes, inevitavelmente, reagiré, mesmo consciente, Mas 4 medida que a cons- ciéneia oresce, yor’ reage menos ¢ age mais. Nao im- porta. Veia esta histéria de um discipulo que comunicou ao seu guru que viajaria para um lugar bem distante a fim de meditar e esperaya obter esclarecimento. Ele mandava um relatrio para o guru a cada seis meses contando do progress que estava fazendo. “Agora entendo © que significa perder 0 egoismo”; dizia o primeiro relatério. © guru rasgou © papel ¢ 0 jogou no cesio de lixo. Apés seis meses, cle recebeu outro relatério: “Agora vejo sensibilidade em todos os seres.” O guru o rasgou. Um terceiro relatério dizia: “Agora en- tendo o segredo do ‘um’; do ‘muitos’ ” Esse também foi rasgado. E assim, todos os rela- trios que chegaram, por muito tempo. Até que nenhum mais chegou. O guru ficou curios, e um dia um de seus discfpulos decidiu ir para um lugar distante. “Por qué voc€ ndo tenta saber o que aconteceu com aquele companheiro?” Finalmente, ele recebeu uma mensagem que dizia: “Que diferenga faz?” E, ao ler isso, o guru festejou: — Ble conseguiu! Ele conseguiu! Ele conseguiu! Tenho uma histéria sobre um soldado no campo de batalha. Ele jogava sua arma no chao, pegava qual- 108 quer pedago de papel e 0 soltava, observando enquanto caia. Entio, ia para outro lugar e fazia a mesma coisa. Os outros soldados faziam comentérios: “Esse homem esté se expondo & morte, Ele precisa de ajuda”. Mandaram-no para o hospital e ele foi tratado pe- los melhores psiquiatras. Mas parece que nao surtiu efeito. Ele andava pelos cortedores pegando’ pedagos de papel, olhava tolamente para eles enquanto cafam no chao. Finalmente, os médicos decidiram: “Temos que afastar esse homem do exército”. Entio, conversatam com cle e the entregaram um certificado de dispensa. Ele o apanhou, examinou ¢ deu um grito: “B isso? E isso!” Ele, finalmente, conseguira. Comece a se conscientizar de sua situagio atual, nao importa qual seja. Deixe de ser ditador, Pare de controlar os outros. Um dia voc’ entenderé que, s6 pelo fato de ser consciente, j4 estaré ajudando as pessoas. Uma pessoa transformada Quando estiver & procura da consciéncia, nao faga exigéncias, E como obedecer as regras de trinsito. Se yoc nfo observé-las, paga multa, nos Estados Unidos, se dirige na mao direita ; na Inglaterra, pela esau na India, pela esquerda, Seivoce nflo obedecer essay normas, serd multado; nao hé espago para magoas, & fas Ou ex: 109 Pectativas, Vocé ay transito. ipenas tem que se ater as regras de Voce m culpa e tudo fo. Voce aberd dessa oes. 8 . Vocé sabera quando di j zeae q lespertar. &: Youé se senteculpado agora, como ea posso the ar seifiado? Como voc8 o entendera? sal 7 quad a ee Pesos irom imsitar Cristo mds guendo umn mad saxofone, ele néo se’ parece Vane samen 28 380 Pode imitar Cristo imitando seu sompor- {amento, Voobitem que ser Cristo. Entio, vood saberd Stafmenteo gue fazer em determinada situa, dado , cardter, assim p ae , carter, como o da com quem vové esté lidando. Ninguém ee om quem guém tem que dizer Mas faca isso, __._Mas faga isso, voct deve yer isto foi eo nao 0 levarg a lugar mini santas e voce ieee dona es Re SNR SU compart implica dein. detiy nfo hd como descrever compaixio para voce, de ode algum. Porave a eompaixao pode ser dura, ‘muito GaIGR pode a atregacar as mangas e causar ‘A compaixa : ‘I 1 io € todo tipo i muito delicada, mas ndo aoe aaa fee quando Voc se tornar amor — em tesumo, ‘Voce desistir de suas ilusdes'e atribuigdes — que voce “saberd”, ee Quando yoo se identifi ; © identificar men i 0s ficard em paz com tudo e com todos, Sabe por qué? Por € na i be ea vai mais ter medo de ser ma- 5 . ood i i it ee NGO vai mais querer impres: expli 110 Vocé consegue imaginar o aliviode nao fer que impressionar alguém? Felicidade, finalmente! Oh, que alfvio! Voce nio tem que sentir necessidade de explicar as coisas. Tudo esté certo. (© que hé para ser explicado? E yood nfo tem que se desculpar. Eu preferiria ouvir voce dizer que “despertou” a ter que ouvilo “pedir desculpas”. Eu preferiria ouvir voce dizendo: — Eu despertei desde a dltima vez que nos encon- tramos; 0 que eu fiz para voe8 no aconteceré nova- mente. Por que alguém exigiria um pedido de desculpas? Ha algo'a ser explorado aqui. Mesmo quando alguém tenha sido malvado, nao hé por que se desculpar. Ninguém pode agredir vocé. Essa pessoa se agride com o que ela pensou que voce fosse. Ninguém pode rejeitar vor’. Essa pessoa s6 esté rejeitando 0 que ela pensa que voce é. Ninguém 6 aceita ou deixa de acek: 160, ‘Até que as pessoas desperte tando ou rejeitando a imagem que fazem de yoos. Elas jmodelam uma imagem e passam a tejeité-la ou aceité-la. Veja como é atrasador se aprofundar nisso! B alf- vio demais! Mas como é fécil amar as pessoas quando voc’ entende isso! Como € facil amar todo mundo quando ‘Yyocs nfo se identifica com aquilo que imaginam de yoo’ bu 0 que as pessoas sfo. Fica facil amé-los, amar todo mundo! Eu observo, 0 eu, mas et no. penso do ew, Porque pensar nto eu causa danos também. Mas m4 m, elas estarfo acei- a respeito a0 observar 0 eu, estou sempre consciente de que isso & ponderacao. Na verdade, vocé nfo pensa no Eu ou no eu. E como se yoc8 estivesse dirigindo um carro; jamais per- de consciéncia daquilo que esté fazendo. Néo hé nada contra sonhar acordado, mas nao perea a consciéncia do que acontece ao seu redor. Voce deve estar sempre alerta. Como uma mie que, ao dor- mir, ndo ouve o barulho dos avides que sobrevoam sua casa, mas ouye o menor choro de seu filho. Ela esté atenta, est consciente neste sentido, Nao se pode dizer coisa alguma sobre 0 estado consciente; pode-se falar sobre 0 estado de sono. Nao se pode dizer coisa alguma sobre a felicidade, pois néo € possivel defini-la. Pode-se definir a miséria. Desista da infelicidade, e yocé saberd. © amor nao pode ser definido; o desamor pode. Desista do desamor, do medo, e voc’ entendera. Que- remos descobrir como as pessoas despertas so. Mas voce 86 saberé quando despertar Estou dando a entender que, por exemplo, nao de- verfamos fazer exigéncias de nossos filhos? O que eu disse é 0 seguinte: “Vocé nfio temo di- reito de exigir” Mais cedo ou mais tarde, a crianga vai ter que se liyrar de voc8, de acordo com as exigéncias do Senhor. E vocé nao vai ter direito algum sobre essa crianca. Na verdade, ele nao é seu filho, e nunca foi, Ele pertence a vida, ndo a vocé. Ninguém pertence a yocé. Estamos falando da educagao de uma crianga. “Se voce quiser almogar, é melhor entrar entre meio-dia e uma hora ou ficaré sem almoco, Ponto final. E dessa forma 112 que as coisas funcionam aqui. Voce € livre, de verdade, mas deve arcar com as conseqiiéncias.” ‘Quando eu falo sobre ndo ter expectativas ou fa- zer exigéncias dos ee eu - refiro a expectativas € igéncias para o met bem-estar. : a eat dos Estados Unidos, obviamente, tem que exigir das pessoas. O guarda de transite tem suas exigéncias. Mas essas exigencias so com telagio a comportamento — leis de transite, organizagio © © om andamento da sociedade, O cumprimento dessas Teis nao tem o intuito de fazer com que o president ou o guarda de trGnsito se sintam bem. Alcangando o siléncio perguntam 0 que aconteceré quando elas chegarem. Isso € curiosidade? : é Fstamos sempre perguntando como isso se encsi- aria naquele sistema, ot se iss0 faria sentido nacus context, ou o que sentiremos quando chegarmos 1é, Comece ¢ oot saberit; niio pode ser deserito. Como se diz no Oriente: “Aquele que sabe, nfo aquele que diz, nao sabi j Niio pode ser dito; s6 se diz do oposto. = © guru nio pode lhe dar a verdade, pois niio pode colocé-la em palavras, ou numa formula. Isso nfo verdade, nfo é a realidade. : ‘A realidade no pode ser colocada em uma f6r- mula, © guru pode apenas apontar 0s erros. Todos me 3 2 Ao desistir, yo’ conhecerd a verdade. E mesmo H /oc8 niio cons, five Biel ssi, VOCE no conseguird dizer o que ela é E como se Voc8 nunca tivesse experi ga verde e me perguntasse: ae — Que gosto tem? — Azedo! — eu diria, Tente 0 dt sma palavrs, eu tio voc8 do assunto sensatan inet iso. A maioria das pessoas no € mug Ht las dominam o mundo — as palavees dn ve } Por exemplo — e entendem tudo frraday — Azedo — eu digo, = Azedo como vin ima fre ‘gre ou como limdo? — voes = Nao, nio € azedo como limo, é azedo com: . é : . € aze 10 — Mas eu nunca i i i 2 2 Ak Xperimentei manga — yoce Vocé escreveria ‘uma tese sobre outras coisas, nao sobre mangas E no dia em que voeé finalmente experimen. uma manga verde, vocé dird: “Meu Doce, cons {ui Bobo. Jamais deveria ter escrito aquela tose. Foi exatamente o que : it4 Um grande fildsofo e tedlogo alemao escreveu um livro sobre o siléncio de Santo Tomés. Ele simplesmente nfo falava, No prdlogo do seu livro Suma teolégica, 0 resumo de toda sua teologia, ele diz: “Sobre Deus, no podemos dizer o que Ele €, mas exatamente o que Ele nao é, Eno nfo podemos falar como Ele é, mas exatamente como Ele nao 6”. Em seu famoso tratado sobre o De Sancta Trinitate de Boécio, ele diz que hé trés formas de se conhecer Deus: (1) na eriag&o, (2) nos atos de Deus apresenta- dos pela histéria e (5) na forma mais sublime do conhe- cimento de Deus — conhecer Deus tamquam ignotum (conhecer Deus como o desconhecido). A forma mais sublime para se falar sobre a Divina ‘Trindade € reconhecer que nfo sabe. Agora, essa nfo é «1 opiniio de um mestre zen oriental, mas de um santo canonizado, da Igreja Catélica Romana, o principe dos (eGlogos hé sécttlos, Conhecer Deus como desconhe- cido. Como Santo Tomas mesmo disse: como impossivel de conhecer. A realidade, Deus, a divindade, a verdade © 0 amor sio impossiveis de conhecer, 0 que significa mn ser compreendidlos pela mente pensante. que nfo pod Isto leyantaria muitas quest6es porque viyemos da ilusio de que sabemos, Nos nao sabemos. Nao po- demos saber. O que 6 0 Biblia, entio? & uma sugestio, uma ica, nao uma descrigao, O fanatismo de um fiel que ppensa saber tudo causa mais danos que duzentos tra- paceiros unidos. F terrivel ver o que os figis fazem por pensar que sabem. Nao seria maravilhoso se todo mundo admitisse que nao sabe? Uma grande barreira cairia, Nao seria marayilhoso? 115 Um homem, cego de nascenga, me pergunta: — O que é isso que chamam de verde? Como descrever a cor verde para uma pessoa que nasceu cega? Usa-se analogia: — Accor yerde é algo como uma miisica suave. — Oh, como uma miisica suave! — ele diz. — Sim — eu digo —, uma miisica suave e doce. Entdo um outro cego se aproxima de mim e per- gunta: — O que é a cor verde? Eu digo @ ele que € algo parecido com cetim ma- cio, gostoso de ser tocado. E no dia seguinte, percebo que os dois homens cegos esto se golpeando com gar- rafas, — E como uma miisica suave — um diz. — E como cetim macio — 0 outro diz. E assim vai, Nenhum deles sabe sobre que esto falando, porque se soubessem, ficariam quietos, Ficou pior ainda, nfo 6? E se um dia vocé vir esse cego sen- tado no jardim e perguntar: — Bem, agora voce jé sabe 0 que é a cor verde. — E yerdade — ele responde, — Essa manha eu jé ouvi um pouco dela! O fato € que vocé esta cercado por Deus ¢ nao O vé, porque voeé “conhece” Deus. O problema € a sua concepgao de Deus. Voce perdeu Deus porque ache que O conhece. Fo que acontece de ferrivel na teligiao. E 0 que os evangelhos diziam, que os religiosos “sa- biam”, por isso se livraram de Cristo. O conhecimento mais sublime de Deus é defini-lo como absolutamente indefinivel. Falam demais a res- peito de Deus; 0 mundo esti cansado disso. 116 Ha pouquissima consciéncia, pougufssimo amor, pouguissima felicidade, mas nfio vamos usar essas pa- layras também. Hé pouquissima desisténcia, ilusGes, crueldade; pouquissima consciéneia. F disso que o mun- do esta sofrendo, néo de falta de rcligiao. A religiio deveria conscientizar as pessoas, desperté-las. Veja no que nos tornamos. Venha até o meu pafs e veja as pessoas se ma- tando por causa de religiio. Voc8 encontrard isso em toda a parte. “Aquele que sabe, nfo diz; aquele que diz, no sabe.” Todas as revelacdes, embora divinas, nunca sao mais que um dedo apontado para a lua. Como dizemos no Oriente: “Quando o sébio apon- ta para a lua, tudo © que os idiotas conseguem ver & 0 dedo”. Jean Guitton, um escritor ortodoxo francés muito peitado, acrescenta um comentério terrivel: “Fre- qiientemente usamos o dedo para arrancar os olhos”. Nao é espantoso? Consciéneia, consciéneia, cons- ciéncia! Na consciéncia vocé encontra a cura; a verdade; a salyagio; a espiritualidade; 0 crescimento; 0 amor; despertar. Consciéncia. Eu preciso falar sobre palavras ¢ conceitos, pois tenho que explicar 0 porqué para voce. Quando olha- mos para uma érvore, na verdade, néo enxergamos. Quando olhamos pata uma pessoa, nao enxergamos, apenas pensamos que estamos enxergando. O que es- tamos vendo é algo que fixamos em nossa mente. Nés adquirimos uma impressfio e nos prendemos a ela, e continuamos olhando para uma pessoa através dessa impressiio, F. fuzemos isso com quase tudo. M7 Se vocé entender isso, vocé entender o encanta- mento e beleza de se estar consciente de tudo o que se passa ao sett redor. Porque a realidade est sempre ali: “Deus”, o que quer que seja, esté ali. Tudo esté ali E 0 pobre peixinho no oceano que diz: “Com li- cenea, estou procurando 0 oceano. Voeé pode me dizer onde fica 0 oceano?”* Patético, nfo €? Se nds simplesmente abrissemos 08 olhos e enxergdsse mos, entao entenderfamos! Perdendo a corrida Vamos voltar Aquela maravilhosa afirmagio do evangelho a respeito de perder-se para se achar. Isso Yocé encontra em todos os tipos de literatura religiosa, espititual e mistica. Como alguém pode se perder? Voeé jé tentou perder alguma coisa? Est4 certo, quanto mais voce tenta, mais diffcil se torna, Quando voc8 nao tenta que vocé perde 2s coisas. Vocé perde alguma coisa quando nao esté cons- ciente. Bem, como morrer para si mesmo? Agora, estamos falando sobre morte, nao sobre suicfdio. Ninguém nos disse para matar a identidade, mas para morrer. Causar dor e sofrimento pata o ego seria causar 0 proprio fracasso. Seria contraproducente Vocé jamais se enche de si mesmo como quando est sofrendo. Vocé nunca se preocupa consigo mesmo 118 como quando esta deprimido. Voc nunca esté tio pre- parado para esquecer de si préprio como quando esta feliz. A felicidade liberta voc do heroismo, O softi- mento, a dot ¢ a depresstio prendem voce ao egoismo. Veja como voe8 tem consciéncia de seus dentes a0 sentir uma dor de dente. Quando yocé nao tem dor de dente, nem mesmo se Iembra de que tem dentes; ot que tem cabeca, se voc8 nao sentir dor de cabega, Mas é muito diferente quando vocé tem uma dor de cabeca Iancinante. Entio, é errdneo pensar que a forma para se ne- gar 0 ego é causar-Ihe dor, interessar-se por abnegagao, mortificacdo, no seu sentido tradicional, Negat o ego, morrer para ele, perdé-lo, € entender sua yerdadeira natureza. Quando voc fizer isso, ele desapareceré, Vamos supor que alguém entre em minha sala: — Entre. Voc8 sabe quem & voce? — eu per- gunto. — Bu sou Napoleao — ele responde. — Nio o Napoleao.. - Exatamente, Bonaparte, o imperador francés, — Nao diga! E penso com 0s meus botdes: “E melhor eu lidar com ele cuidadosamente”. — Senie-se, Vossa Majestade. Bem, me disseram que o senhor é um excelente guia espiritual, ‘Tenho um problema espiritual, Estou muito an icho muito diffeil confiar em Deus. Veja © senhor, meu exército esti na Rtissia ¢ eu passo noites em claro tentando imaginar 0 que vai ncontecer. 080, 119 — Bem, Vossa Majestade, certamente posso re- ceitar algo para essa afligao. O que sugiro é que o senhor leia o capitulo VI de Mateus: “Considerai como crescem 0s lirios do campo: nfo trabalham nem fiam” A essa altura eu jé me questionava sobre quem era mais louco, o homem ou eu. Mas continuei atendendo o lunético. Exatamente como o sabio guru faz com voce no infcio, Ele leva seu problema a sério, pode até enxu- gar suas lagrimas. Vocé esté louco mas ainda nao sabe. Logo chegaré 0 momento em que ele vai puxar 0 tapete: “Saia daqui, voc8 nao é Napoledo” Nos famosos didlogos de Santa Catarina de Siena com Deus, Ele dizia para ela: “Eu sou aquele que &; voc & aquela que nao é” Vocé jd experimentou 0 seu nao-ser? No Oriente temos uma imagem disso, € a imagem do dangarino e a dana Deus é visto como o dangarino, a criago como Sua dana. Nao é como se Deus fosse o grande danca- rino e vocé fosse o pequeno. Oh, nao. Voce estd sendo dangado! Vocé j4 passou por isso? Entio, quando 0 homem cai em si ¢ percebe que nfo Napoledio, ele nao o deixa de ser. Ele continua a ser, mas de repente percebe que é algo diferente daquilo que pensava que fosse. Perder o ego de repente, perceber que vocé é algo diferente daquilo que pensava ser. Vooé achava que era © centro; agora se vé como uma particula. Vocé achava que era 0 dangarino; agora se vé como a danca. Sao apenas analogias, que yocé nao pode tratar literalmente. Elas dio uma dica, uma sugestdo; clas sao indicadoras, no se esqueca, Ento, yoo’ no pode forgé-las. Nao as trate muito literalmente, 120 Valor permanente Ao passarmos para uma outra idéia, hé toda uma questo de valor pessoal. Valor pessoal nfo significa autovalorizagiio, De- onde vem a autovalorizagao? Vocé a obtem com 0 si cesso no trabalho? Vocé a obtem por ter muito dinhe 10? Vocé a obiem por atrair muitos homens (no caso da mulher) ou muitas mulheres (no caso dos homens)? Como isso tudo & frégil! Como 6 transit6rio! Quando falamos sobre autovalorizacio, nfo esta- mos, na verdade, falando sobre como somos refletidos nos espelhos das mentes das outras pessoas? Mas temos que depender disso? Vocé entende 0 que € valor pessoal quando nao mais se identifica com essas coisas passageiras. Eu néo soit bonito porque todos dizem que sou. Eu niio sou nem bonito nem feio. So coisas que vém © viio. De repente, eu posso me tornar uma criatura feia, mas ainda sou Eu, Posso fazer uma cirurgia pléstica ¢ ficar bonito novamente. O Eu realmente fica bonito? Vocé precisa de muito tempo para refletir sobre esas coisas. Eu as jogo para voce numa répida suces- jocé parar para entender 0 que estou dizen- ncontraré uma mina de ouro. Eu sei ro que descobri quando encontrei essas coisas. Experiéncias agrad4veis tormam a vida linda. Ex- periéncias dolorosas levam ao crescimento. As expe- rigncias embelezam a vida, mas néo leyam ao cresci- mento ent si mesmo, Ojgue leva ao crescimento sao as experiéncias dificeis, fletir, vooe © eso} 121 O softimento enfatiza um ponto onde vocé ainda nio cresceu, onde precisa crescer, ser transformado. mudar. Ah, como voc cresceria se soubesse usar esse so- frimento! ‘Vamos nos limitar, por enquanto, ao sofrimento psicol6gico, a todas as emogoes negativas que sentimos. Nao perca seu tempo com apenas uma. Eu jé disse 0 que vocé deve fazer com essas emogies. Observe a sua decepgdo quando as coisas nao saem do jeito que vocé queria! Observe o que ela diz sobre voc’, sem condenagio (ou voce se pegaré sen- tindo édio). Observe-a como se voc’ 2 obseryasse em outtra pessoa. Olhe para o desapontamento, a depressiio que vocé experimenta quando ¢ criticado. O que ela falou sobre vocé? Voeé ja ouviu falar sobre aquele camarada que disse: “Aquele que diz que se preocupa, nio ajuda? E claro que ajuda. Toda vez que eu me preocupo com al- guma coisa ela nao acontece!” Bem, certamente ela ajudou yoo E 0 outro que disse: “Neurética € a pessoa que se preocupa com algo que nao aconteceu no passado, Ela néo 6 como as pessoas normais que se preocupam com coisas que acontecerdo no futuro”, Essa é a questo, O que essa preocupacdo, ou an- siedade, diz sobre voc’? Todos os sentimenios negativos sdo titeis para.a consciéneia, para o entendimento, Eles the dio a opor- tunidade de senti-lo, de cbseryé-lo do lado de fora. No comego, a depressao ficara com voc’, mas voc’ terd cortado sua ligagdo com cla, Gradualmente, vooé 122 entenderé a depressfic, Quando vocé entendé-la, cla ocorreré com menos freqiiéncia, até que desapareca por completo. Talvez, a essa altura, ela nao teré tanta importéncia. Antes do esclarecimento, cu ficava deprimido, agora continuo deprimido. Mas gradualmente, ow rapi- damente, ou de repente, vocé chega a0 estado de vigi- lancia. E quando yocé desiste dos desejos. Mas lem- bre-se do que eu disse sobre desejos e anseios. Eu quis dizer o seguinte: “A menos que eu consiga © que desejo, me recuso a ser feliz”. Eu me refiro a casos onde a felicidade dependa do cumprimento do desejo. Desejo, nao preferéncia Nao sufoque o desejo, ou voc8 morrera. Vocé per- deria a energia e isso seria horrivel. Desejo, no sentido sauclavel da palavra, é energia, © quanto mais energia tivermos melhor, Mas nio reprima o desejo; entenda-o. Entenda-o. Niio procure realizar 0 desejo tanto quanto entender 0 deseo. E nfo renuncie aos objetos de seu desejo, en- tenda-os; yeja-o' & luz da yerdade. Considerando que, se yocé olhar para ele ¢ enxergé- Jo pelo valor’ que ele realmente tem, se voce entender como esta se preparando para a miséria, pata a decep- go, e para a doprossiio, o seu desejo sera transfor- mado naquilo que eu chamo de preferéncia, 123 Quando yocé passa pela vida com preferéncias, mas nfo deixa sua felicidade depender de nenhuma delas entéo vocé despertou, esté caminhando para 0 es- tado de vigilancia. Vigilancia, felicidade — chame do que quiser — € ovestado de ndo-desilusdo, onde yocé vé as coisas no como voce é; mas como elas so, na medida em que isto for possivel para um ser humano. Desista das ilu- s6es para que vocé veja as coisas, para que vocé veja a realidade. Toda vez que vocé esté se sentindo infeliz ¢ por- que aorescentou alguima/coisa a realidad, E isso que fez vocé se sentir infeliz. Repito: yocé acrescentou al- guma coisa & realidade... uma reagdo negativa em voc’. A realidade proporciona o estimulo, voce propor- ciona a reacdo. Vocé acrescentou algo através de sua reago. E, se voc examinar 0 que yoc8 actescentou, vai perceber que sempre hé uma ilusio ali, uma e géncia, uma expectativa, um anseio. Sempre. Exem- plos de ilusdes esto presentes por toda parte. Mas quando vocé escolhe .esse caminho, voc as descobre por si mesmo. Por exemplo, a ilusdo, o erro de pensar que, trans- formando 0 mundo exterior, vocé se transformard. Vocé nao se transforma se, simplesmente, transformar seu mundo exterior. Se conseguir um emprego novo, um novo cén- juge, um noyo lar, um noyo guru, ou ima nova espiri- tualidade, isso nao transformard voce. E como imagi- nar que, mudando de caneta, vocé estaré mudando sua letra; ou que sua capacidade sera transformada se mu- dar de chapéu. 124 Vocé néio muda, mas a maioria das pessoas gasta muita energia tentando moldar 0 mundo exterior para adequé-lo a seus gostos. As vezes elas conseguem por cinco minutos — e sossegam um pouco, mas ficam ten- sas mesmo assim, porque a vida esté fluindo,-a vida esté mudando constantemente. Entifo, se vocé quiser viver, nfo pode ter uma resi- déncia fixa. Vocé nao deve ter onde descansar. Voc? tem que fluir com a vida, Como o grande Confticio disse: “Aquele que est4 constanteniiente feliz, deve se mudar com freqiiéncia”. Vocé deve fluir. Mas continuamos nos preocupan- do com o passado, nao €? Nao nos apegamos as coisas do pasado, nés nos apegamos &s coisas do presente. “Quando voc’ comecar o seu proceso de transfor- mago, nao poderé olhar para trds.” Vocé quer apreciar uma bela melodia? Vocé quer apreciar uma sinfonia? Nao se prenda a algumas par- tes da mtisica, Nao se prenda a algumas notas. Deixe-as passar, deixe-as fluir. O prazer de se ouvir uma sinfonia esté em voo’ peiiitir que as notas musicais fluam. Ao passo que, se uma parte em especial despertar sua imaginagao & voce gritar para a orquestra: “Continuem tocando s6 essa parte!”, isso nfo seria mais uma sinfonia. Vocé conhece os famosos contos de Nast-ed-Din, o velho muld? Ele € uma figara legendaria, cuja nacio- nalidade € reclamada por gregos, turcos e persas. Ele transmitia seus ensinamentos misticos em forma de his- torias geralmente muito engracadas. E o fim da histé- ria era sempre sobre o proprio Nast-ed-Din, ‘Um dia Nasr-ed-Din estava dedilhando um viol&o, tocando s6 uma nota, Apés alguns instantes ele estava 125 cercado por uma multidao (isso aconteces numa feira livre), ¢ um dos homens que estavam ali disse: — Mulé, que nota bonita yocé esta tocando! Mas Por que vocé néo faz como os outros méisicos? Varie um pouco. — Esses tolos, eles esto procurando a nota certa. Eu jé a encontrei — respondeu Nast-ed-Din, Apegando-se a ilusao Quando vocé se apega 2 alguma coisa, vocé destréi a vidas quando ne pronde-s alguna coleas ve de viver Taro vote pode Tot om todas ot péginas Go evangelho, E isso se alcanca através do entendimento Entenda! Entenda uma outra ilusio, também, a de que a felicidade nao ¢ 0 mesmo que emogiio. 1ss0 é ‘uma outra ilusio, a de pensar que uma emogao vem de um desejo realizado, O desejo provoca a ansiedade!e, mais cedo ou mais tarde, vocé sofre as conseqiiéncias, Quando tiver sofrido o bastante, estaré pronto para petceber isso. Vocé esté se alimentando com emo- ges. E como alimentar um cavalo de corrida com do- ces ¢ bebidas. Nao se alimenta um cavalo dessa formal E como alimentar seres humanos com drogas, Vocé néio pode encher 0 estémago de drogas. Voce precisa de ali- mento bom, sélido, nutritive! Vocé tem que entender tudo isso por si mesmo. Uma outra ilusdo é a de que ouira pessoa possa_ fazer isso por vocé, talvez um salvador, um guru Ou um 126 mestre. Nem mesmo o maior guru do mundo pode dar um simples passo_por_vocé. Deve fazer isso sozinho. Santo Agostinho disse algo marayilhoso: “O pré- prio Jesus Cristo nao pode fazer coisa alguma_por seus ficis?- Seay Lembre-se daquele provérbio arabe: “A natureza da chuva € a mesma, mas ela faz com que espinhos ‘cresgam nos pantanos e flores nos jardins”. E voeé quem tem que fazer isso. Ninguém mais. B vocé quem tem que digerir seu alimento, quem tem que entender. Ninguém pode entender por vor’. £ yoc® quem n que procurar. Ninguém pode procurar por yocé. Voeé niio deve apoiar-se em pessoa alguma. Hé ainda uma outra ilusdo, a de que & importante ser respeitado, ser amado ¢ ser apreciado. Muitos di- zem que nds temos um anseio natural de: sermos ama- dos © apreciados, de pertencer a alguém. E mentira! Desista dessa iusto ¢ encontrar a felicidade. Nés/temos, um) anscio natural dé liberdade, um anseio de amor, mas nao de ser amado. As vezes, em minhas sessdes de psicoterapia, en- contro um problema muito comum: “Ninguém me ama. Como posso ser feliz?” E eu explico para a pessoa “infeliz”: “Vocé quer dizer qué nunca tem momentos em que se esquece que no € amado; vocé nao se sente feliz? E claro que sim’, Uma mulher, por exemplo, que se enyolve na his- toria de um filme. E uma comédia e cla esta rindo 127 muito, e nesse momento abengoado, ela se esquece que ninguém a ama! Ela esta feliz! Entdo, ela sai do cinema e a amiga, que estava junto, vai embora com 0 namorado, deixando-a so- zinha. Ela fica pensando: “Todas as minhas amigas tém namorado, s6 eu no tenho. Eu sou to infeliz! Ninguém me ama!” Na India, muitos dos nossos pobres estdio come- gando a comprar rédios, 0 que € um luxo. “Todos tém um rédio”, voc ouve alguém dizer, “menos eu; sou téo infeliz!” Até as pessoas comegarem a comprar rédios, elas eram muito felizes sem eles. E 0 que acontece com yoo’. Até que alguém the dissesse que vov€ nao seria feliz a menos que fosse ama- do, voce era muito feliz. Vocé pode ser feliz nfio sendo amado, nao sendo desejado ou nao sendo atraente para alguém. O que torna voog feliz ¢ 0 contato com a realidade. E isso que traz felicidade, um contato com a realidade a cada momento. E onde vocé encontrar Deus; é:onde vocé encontrard a felicidade. Mas a maioria das pessoas nfo est pronta para ouvir isso. Uma outra iluso € que os acontecimentos exter- nos tém 0 poder de magod-lo, as pessoas tém o poder de magoé-lo. Nao. & vocé que thes dé esse poder. Uma outra ilusdo: vooé ¢ todos esses rétulos que as pessoas colocam em yocé ou aqueles que voc’ mesmo colocou. Nao, vot nio ¢! Entio, ndo tem que se ape- gar a cles! 128 dia em que alguém me disser que sou um génio eu levar isso a sério, estatei em grandes apuros. Vocé consegue entender por qué? Porque eu you comegar a ficar tenso. Terei que corresponder a esse comentério, terei que me manter um génio. Apés cada palestra terei que me analisar: “Voce gostou da palestra? Vocé ainda acha que eu sou um genio?” Entende? Entio, o que precisa fazer é arrancar 0 rotulo! Rasgue-o, e estaré livre! Nao se identifique com esses rétuilos, eles significam 0 que outras pessoas pen- saram de yoc8 em determinado momento. Vocé é mesmo um génio? E um louco? F um mfs- tico? O que importa? Contanto que esteja consciente, ¢ viva a vida a cada momento! Que maravilhosas as palavras do eyangelho: “Olhai para as ayes do céu, que nao semeiam, nem ceifam (...) Olhai os Ifrios do campo (. . .) nao traba- tham nem fiam”. Esse é 0 yerdadeiro mistico falando, a pessoa iluminada, Entio, por que esta ansioso? Com toda essa ansie- dade voc€ consegue epreciar um simples momento de sua vida? Por que se preocupar com o amanha? Ha vida apés a morte? Eu sobreviverei apés a morte? Por que se preocupar com o amanha? Entre no hoje. Alguém disse: “A vida algo que acontece co- nosco enguianto estamos ocupados fazendo outros pla- nos". Nao € patético? Viva no presente. Essa 6 uma das coisas que voce perceberd quando despertar. Voc se encontrard vivendo no presente, sentindo o sabor de cada momento. Um outro bom sinal € quando voc ouve uma sinfonia, nota por nota, sem querer que cla pare. 129 Abracando as memorias Isso me leva a um outro tema, um outro tépico Mas esse novo t6pico esta muito ligado ao que estou dizendo sobre estar consciente de tudo aquilo que actescentamos a realidade, Vamos a ele. Um jesufta estava me contando, um dia desses, que, alguns anos atrds, ele dava palestras em Nova York, onde porto-riquenhos nfo eram muito populares na época por causa de algum incidente. Todos diziam coisas horriveis contra eles. Entfo, em suas palestras ele dizia: “Deixem-me ler algumas das coisas que as pessoas de Nova York andaram dizendo sobre certos imigrantes”. © que ele lia eta, na verdade, o que as pessoas hayiam dito sobre os irlandeses, sobre os alemaes ¢ sobre todos os outros imigrantes que vieram para Nova York anos antes! Ele se expressaya muito bem: “Essas pessoas no trazem delingiiéncia consigo; elas se tor- nam delingiientes quando enfrentam certas situagdes aqui. Nos temos que entendé-las. Se voc€ quer que a situagio melhore, € intl reagir ao preconceito. Enter da, em vez de condenar™ E dessa forma que vocé provoca mudangas em voeé. Nao condenando, nao dando nomes, mas enten- dendo 0 que esta acontecendo. Nao se condene como um grande pecador. Nao, nfo, nfo, nao! A fim de obter consciéncia, voc$ tem que enxer- gar, © no consegue faz8-lo se for preconeeituoso. 130 Para quase tudo © todas as pessoas olhamos de forma preconceituosa. Eo bastante para desanimar qualquer um. Quando eu encontro um amigo que nio vejo hé muito tempo, dow-lhe um forte abraco: “Bi, Tom, que bom ver voc8”. Quem eu esto abragando, Tom ou a lembranca dele? Um ser humano ou um corpo? Estou achando que cle ainda é aquele cara atraente, que ele se en- caixa na idéia que faco dele nas minhas memérias ¢ associagdes. E por isso que eu o abrago. Apés cinco mi- nutos eu acho que ele mudou, endo me interesso mais por ele. Eu abracei a pessoa errada. Vocé quer ver como é verdade: uma freira da In- dia sai para fazer uma reavaliacao. Todos da comu- nidade comentam: “Bem, nés sabemos que faz parte de seu carisma: Ela esté sempre freqiientando pales- tras e reavaliag6es; nada vai fazer com que mude” ‘Agora, acontece que a irm& mudow realmente nesse seminério, ou grupo de terapia, ou 0 que quer que seja. “Meu Deus, voce realmente conseguit uma boa auto-avaliacdo, néo?”, todos dizem. Ela conseguit, e cles podem ver a diferenga em seu comportamento, em seu corpo, em sett rosto. Voeé pereebe quando hé uma mudanga interna. Ela sempre se revela em seu rosto, em seus olhos, em seu corpo. Bem, a freira volta para a comunidade, € uma ver que essa comunidade € preconceituosa, eles vaio conti- nuar olhando para cla com olhos preconceituosos. Eles sfo os tinicos que nfo conseguem ver mudanga alguma rela, 134 “Oh, bem, ela parece um pouco mais animada, mas esperem um pouco e ela ficaré deprimida nova. mente.” Em algumas semanas ela estd deprimida nova- mente; ela esté reagindo reacio deles. E todos eles comentam: “Viu, nds avisamos: ela néo mudou”’ Mas o pior de tudo é que ela havia mudado, s6 que eles nfo perceberam. A percepcao tem conseqtién- clas devastadoras no que se refere a amor em relagdes humanas, A __ Qualquer que seja o relacionamento, ele certamen- te impde duas coisas: clareza de percepeao (porque somos capazes disso; algumas pessoas argumentariam que até certo ponto podemos alcancar a clareza de per- cepedo, mas et nao acho que alguém argumentaria que seria aconselhavel itmos ao encontro disso) e exatidio de resposta. Vocé responde com mais exatidio quando perce- be com clareza. Quando a sua percepcio é distorcida, sula resposta néo é exata Como vooé pode amar alguém que nem yé? Vocé realmente vé alguém a quem esta ligado? Vocé real- mente vé alguém a quem teme e, portanto, néo gosta? Nés sempre odiamos aquilo que tememos. “O temor do Senhor é 0 comego da sabedoria”, dizem as pessoas. Mas espere um pouco. $6 espero que elas entendam o que estéo dizendo, porque nds odia- mos 0 que tememos. Quando yocé tem medo de alguém, vocé detesta aquela pessoa, Vocé detesta tanto quanto a teme. E vocé nem consegue ver a pessoa, porque suas emogdes entram no caminho. Agora, 0 mesmo acontece quando voce se sente atrafdo por alguém. Quando o amor verdadeiro entra 132 na hist6ria, voc néo gosta mais ou deixa de gostar das pessoas no sentido comum da palavra, Voc’ tem esses sentimentos muito claramente e responde de forma exata Mas nesse nivel humano, seus gostos, suas aver sdes, suas preferéncias e atragdes continuam no cami- nho. Entio, vocé deve ter consciéncia de seus preconcei- tos, de seus gostos, de suas aversGes ¢ de suas atragoes. Eles esto todos presentes, vém de seu condicionamento. Como vocé pode gostar de coisas que eu no gosto? Porque a sua cultura € diferente da minha. Sua cria- Go € diferente da minha. Se eu lhe oferecer algo para comer, que eu aprecie, voc recusaria com nojo. Ha pessoas, em certas partes da India, que ado- ram carne de cachorro, enquanto outras morrem de nojo. Por qué? Condicionamento diferente, programa- go diferente. Os hindus se sentiram mal comendo carne bovina, mas os americanos a apreciam, e muito. “Mas por que cles ndio comem carne boyina?” Pela mesma razfio que vocé nfo come seu cachorrinho de estimagio. A mesma raziio, A vaca, para 0 campo- nés hindu, tem o mesmo significado que o cachorrinho tem para voos, Ele néio quer comé-la, Ha um precon- ceito cultural contra o fato de comer um animal que € to necessario na agricultura, etc. Entdo, porque eu me apaixono por uma pessoa? Por que me apaixono por um tipo de pessoa e nfo por outro? Porque estou condicionado. Eu tenho, no subconsciente, uma imagem especial de pessoa que me atrai, que chama a minha ateneao, Entiio, quando eu en- contro essa pessoa, eu me apaixono. Mas cu a vejo? 133 Nao! Eu a verei depois de me casar com ela; € quando acontece 0 despertar! E € quando o amor pode come- gar. Mas apaixonar-se nada tem a yer com 0 amor em si. Nao é amor, € desejo, desejo ardente. Vocé quer, no fundo do corag&o, que aquela cria- tura adordvel diga que vocé a atrai. Isso Ihe dé uma in- erfvel sensacao. Nesse meio tempo, todos comentam: “Que diabo ele vé nela?” Mas € 0 condicionamento — ele nfo a esté vendo. Dizem que 0 amor € cego. Acredite-me, nfio ha nada tao claro quanto o amor verdadeiro, nada. E a coisa mais clara do mundo. O apego, o habito, a fixa- G0, 0 desejo e 0 anseio sao cegos. Mas o amor verda- deiro nao é. Nao chame esses sentimentos de amor. Mas, naturalmente, 0 mundo tem sido profenado nas linguagens mais modernas. As pessoas falam sobre fazer amor e apaixonar-se. Como o garotinho que pergunta para a garotinha — Vocé jé se apaixonou? — Nao, mas eu j4 gostei. Entdo, sobre 0 que as pessoas esto falando quan- do elas se apaixonam? A primeira coisa de que preci samos € clareza de pereepedo. Nés ndo conseguimos perceber as pessoas clara- mente porque nossas emogées, condicionamentos, gos- tos eaversdes estio no caminho. Temos que lutar contra esse fato. Mas temos que lutar contra algo muito mais fundamental — nossas idéias, nossas con- clusdes, nossos conceitos. Acredite ou ndo, todo con- ceito que deveria nos ajudar a entrar em contato com a realidade acaba sendo uma barteira para que isso acon- 134 teca, porque, mais cedo ou mais tarde, as palavras nfo serao 0 conceito. Pois conceito ¢ realidade ndo so a mesma coisa, Eles séo muito diferentes. E por isso que eu disse que a barreira final para encontrar Deus é a palavra “Deus” em si e 0 conceito de Deus. Se nfo tomar cuidado, o conceito entra no caminho. Ele deveria ser de grande utilidade, pode até ser, mas pode também ser uma barreira, Tornando-se concreto Toda vez que tenho um conceito, € algo que eu poderia aplicar a um ntimero de individuos. Nao es- tamos falando de uma pessoa concreta, um nome em particular como John e Mary, que ndo tem um signi- ficado conceitual. se aplica a qualquer ndimero de in- dividuos, individuos incontaveis Os conceitos silo uniyersais. Por exemplo, a pala~ yra “folha” poderia ser aplicada a cada folha de uma &r- vore; a mesma palayra se aplica a todas as folhas. Além disso, a mesma palayra se aplica a todas as folhas de todas as drvores, grandes, pequenas, tenras, secas, ama- relas, verdes, marrons, folhas de bananeira. Entdo, se eu disser para yocé que vi uma folha esta manha, voc8 realmente néo teria idéia do que eu vi. Vamos ver se voce entende isso. Vocé realmente tem uma idéia daquilo que cu nao vi, Eu néo vi um 135 animal. Eu nao vi um cachorro. Eu nao yi um ser hu- mano. Eu nao vi um sapato. Entfo yocé tem uma vaga idéia daquilo que eu vi, mas nao é uma idéia particu- larizada, nao € concreta, “Ser humano” refere-se nao ao homem prim io ao homem civilizado, nao a0 homem adulto, nao & crianga, nao ao masculino ou feminino, nao a uma idade em particular, nao a essa cultura ou aquela, mas a0 conceito. O ser humano € encontrado concreto; voc nunca encontra um ser humano universal como 0 do seu con- ceito, Entdo, o seu conceito aparece, mas nunca é com- pletamente apurado; falta singularidade, falta a reali- dade. © conceito é universal. Quando eu Ihe dou um conceito, eu Ihe dou algu- ma coisa, e no entanto dei tio pouico O conceito € muito valioso, muito ttil para a cién- cia. Por exemplo, se eu disser que alguém é um animal, seria um comentério preciso de um ponto de vista cien- tifico. Mas nés somos algo mais do que animais. Se eu disser que Mary Jane é um animal, isso é verdade; mas porque eu omiti alguma coisa sensivel sobre ela, € falso; estou sendo injusto. Quando eu chamo uma pessoa de mulher, isso verdade; mas hé muita coisa nessa pessoa que no se encaixa no conceito “mulher”. Ela é sempre essa mulher tnica, particular, conereta, que s6 pode ser anelisada, no conceituali- zada. A pessoa conereta eu tenho que ver por mim mesmo, eu tenho que analisar, eu tenho que intuir. individuo pode ser intuido, mas nao pode ser concei- tualizado. Uma pessoa est além da mente pensante. Muitos provavelmente tém orgulho de serem chamados de ame- 136 ricanos, assim como muitos hindus tém orgulho de se- rem chamados de hindus. Mas 0 que é “americano”, 0 que € “hindu”? £ uma convencdo; nao faz parte de sua natureza. Tudo o que vocé tem € um rétulo. Vocé realmente nao conhece a pessoa. O conceito sempre omite ou deixa escapar alguma coisa muito importante, alguma coisa preciosa que sé é encontrada na realidade, que é a si gularidade concreta. O grande Krishnamurti disse algo lindo: “O dia em que vocé ensinar o nome do passaro a crianca, ela nunca mais veré 0 péssaro”. Como é yerdade! A pri- meira vez que a crianga vir aquele objeto vivo, téo fo- finho, se movimentando, e vocé disser para ela “par- dal”, j& no dia seguinte todo objeto fofinho semelhante que cla encontrar vai chamar de pardal. Se vocé nfo olhar para as coisas através de seus conevitos, vocé nunca ficara cheio, aborrecido. Toda coisa ¢ tinica, Cada pardal é diferente de outro pardal, apesar das semelhancas. Ter semethangas é de grande ajuda; assim pode- mos abstrair, para que possamos ter um conceito. E de grande utilidade do ponto de vista da comunicagao, da Mas também € muito ilusério e um grande obstéculo para que se possa ver esse individuo concreto. Se tudo o que yoc€ experimenta & © seu conceito, vocé nao est experimentando a rea- lidade, porque a realidade € concreta. O conceito é uma ajuda para levar vocé a realidade, mas quando yocé chega 4, tem que intuir ou analisé-la diretamente. ‘A segunda qualidade de um conceito 6 que ele & estético, enquanto a realidade est4 em curso. educagiio © da cign 137 Usamos 0 mesmo nome para as Cataratas do Nié- gara, mas todo aquele volume de agua esté mudando constantemente. Vocé tem a palayra “rio”, mas a égua ali esté mudando constantemente. Voc8 tem uma pa- lavra ali para o seu “corpo”, mas as células de seu corpo esto sendo renovadas.constantemente ‘Vamos supor que haja uma ventania muito forte, © que eu quieira que as pessoas do meu pafs tenham uma idéia do que seja um furacdo ou um vendaval ameri- cano. Entao, ett coloco o vento numa caixinha e volto para casa, “Olhem para isto.” Naturalmente, nao é mais um vendaval, certo? Porque foi capturado. Ou, se eu quiser que voc tenha idgia do que seja o fluxo de um rio eu 0 trago em um balde, ele para de fluir A partir do momento em que voc? coloca as coisas dentro de um conceito, elas deixam de fluir; elas ficam estéticas, mortas, Uma onda é essencialmente movi- mento, ag80; quando vocé a congela, ela deixa de ser onda Os conceitos sdo sempre congelados. A realidade flui. Finalmente, se nds acreditarmos nos misticos (ndo € preciso muito esforgo para entender isso, nem mesmo acreditar, mas ninguém consegue vé-lo imediatamente), a realidade € um fodo, mas palavras e conceitos frag- mentam a reslidade. E por isso que é to dificil traduzir de uma Hingua para a outra, porque cada lingua divide a rea- lidade de forma diferente A palayra inglesa home é impossivel de ser tra- duzida em francés ou espanhol. “Casa” nfo é bem home (lar); home tem associagdes que so peculiares a lingua inglesa. 138 Toda lingua tem palavras e expressdes nao tradu- ziveis, porque estamos dividindo a realidade ¢ acrescen- tando alguma coisa ou subtraindo, e o uso continua mudando. A realidade é um todo e nds a dividimos para fa- zer conceitos, ¢ usamos palavras para indicar partes diferentes. Se yocé nunca tivesse visto um animal, por exem- plo, ¢ um dia encontrasse um rabo — s6 um rabo — © alguém dissesse: “Isto é um rabo”, voce teria idéia do que aquilo seria, se no soubesse o que € um ani- mal As idéias, na verdade, fragmentam a visGo, a in- tuigdo ou a experiéncia da realidade como um todo. I. exatamente isso 0 que os misticos esto querendo nos dizer. As palayras nao podem lhe dar a realidade. Elas apenas apontam, indicam, Vocé as usa como indica- dores para chegar & realidade. Mas, uma vez chegando 14, seus conceitos serao intiteis. Certa vez um padre hindu teye ums discussio com um filésofo, que afirmaya que © obstéculo final para Deus era a palavra “Deus”, 0 conceito de Deus O padre ficou chocado com isso, ¢ 0 fildsofo disse: “O asno que 0 senhor usa para se locomoyer nao 6 0 meio pelo qual o senhor entra na casa, O senhor usa 0 con- ceito pa 1 Id; entiio desmonta e entra” Vocé nao precisa ser mistico para entender que a realidade é algo que nao pode ser captado por palavras ou conceitos. Para conhecer a realidade, voce tem que conhecer além do conhecimento. Essas palavras tocaram um sino? Aqueles que conhecem The Cloud Of Unknowing [A nuyem do des- 139 conhecido] reconhecem essa expresso, Os poetas, os pintores, os misticos, e os grandes fildsofos tém inti- midade com a sua verdade. “Bem, 6 uma drvore.” Mas hoje, quando estoy olhando para uma érvore, no vejo uma arvore. Pelo menos, nao yejo 0 que estou acostumado a ver. Vejo algo com o frescor da visio de uma crianca. Nao tenho palavras. Vejo algo tinico, in- teiro, fluindo, ngo fragmentado, E estou admirado. Se voc€ me perguntasse 0 que vi, sabe o que eu responderia? Que nao tenho palavras. Nao hé palavras para a tealidade, Porque assim que eu der uma palavra para ela, nds voltamos aos conceitos novamente. E se eur nao posso expressar essa realidade que é visfvel aos meus sentidos, como expressar 0 que nao pode ser visto ou ouvido? Como encontrar uma pala- vra para a realidade de Deus? Vocé esté comecando a entender 0 que Santo Tomés de Aquino, Agostinho e todos os outros estavam dizendo, e 0 que a Igreja en- sina constantemente quando diz que Deus é mistério. € ininteligivel A mente humana. O grande Karl Rahner, em uma de suas tiltimas cartas, escreveu para um jovem alemao viciado em drogas que Ihe pedira ajuda, — Vocés, tedlogos, falam sobre Deus, mas como esse Deus poderia ser releyante em minha vida? Como ele poderia me tirar do mundo das drogas? — per- guntou o rapaz. — Devo confessar com toda a honestidade que, para mim, Deus é, e sempre sera, um mistério absoluto. Eu nao entendo o que ¢ Deus; ninguém pode entender. N6s temos sugestdes, insinuagdes; nés balbuciamos, tentando colocar em palayras inadequadas, o mistério. 140 Mas nio ha palayras para Ele, nao hé uma sentenca — respondeu Rahner. E conversando com um grupo de tedlogos em Lon- dres, Rahner disse: “A tarefa do tedlogo é explicar tudo atrayés de Deus, ¢ explicar Deus como inexpli- cael!” Mistério inexplicavell Nao se conhece, nfo se pode dizer. Diz-se: “Ah-ah...” As palavras sfio indicadoras; elas nfo so descri- Ges. Tragicamente, as pessoas caem na idolatria por- que pensam que é ali que se concentra Deus, a palavra a coisa. Como voe8 pode ser to louco? Mesmo no que se refere a seres humanos, ou érvores e folhas, e animais, a palayra nao é a coisa, E voc diria que, onde Deus se concentra, a palavra € uma coisa, Do que esté falando? Um erudito, famoso no mundo todo, fez este curso em Sao Francisco e me disse: Meu Deus, depois de ouvir yoe8, entendo que me deyotei a um fdolo a vida toda! Nunca me passowt pela cabega ser devoto de um idolo, Meu {dolo nfo era feito de madeira ou metal; era um {dolo da minha mente, Esses silo os deyotos mais perigosos. les usam uma substncia muito sutil, a mente, para produzir seu Deus. Minha proposta 6 a seguinte: levar yoo8 & cons- ciéncia da realidade ao seu redor. Consciéneia significa observar; observar 0 que esté acontecendo dentro de vocé e ao seu redor. “Acon- tecendo” é muito preciso: Arvore, grama, flores, ani- mais, rocha, tudo 0 que fax parte da realidade esti se 141 movimentando, Observe-se! Como é essencial para 0 ser humano nfo s6 obseryar-se, mas observar tudo o que faz parte da realidade! Vocé esté aprisionado por seus conceitos? Voce. quer se libertar? Entao, olhe, observe, passe horas ob- servando. Observando © qué? Qualquer coisa, Observe o tosto das pessoas, 0 formato das arvores, um péssaro em vo, um monte de pedras, a grama crescendo. Faga contato com as coisas. Olhe para elas. Com esperanca, yocé conseguira romper esses padrdes tigidos que todos nds desenyolyemos, esses pensamentos ¢ palavras que nos impuseram. Com esperanga, nds veremos. O que vamos ver? Isso que escolhemos chamar de realidade, isso que esté além de palavras e conceitos. Esse € um exetcicio espiritual — ligado & espi tualidade — ligado 20 libertar-se da gaiola, do aprisio- namento dos conceitos ¢ palavras, Que triste seré passarmos pela vida, e nunca vé-la com os olhos de uma crianga! Isso nfio quer dizer que vocé deva desistir de seus conceitos totalmente; eles so muito preciosos, Embora comecemos sem eles, os conceitos ttm uma fungdo muito positiva. Gragas a eles, desenvolvemos nossa inteligéncia, Nés somos convidados no a ser criangas, mas a ser como criangas. Nés temos que sait de um es- tagio de inocéncia e ser expulsos do paraiso; temos que desenvolver um Eu e um eu através desses conceitos. Bem, entdo precisamos retornar ao paraiso. Preci- samos ser recompensados novamente. Precisamos nos livrar do velho homem, da yelha natureza, do ego con- 142 dicionado, ¢ voltar ao estgio de crianca, Mas sem ser uma crianga, Quando comecamos a vida, olhamos para a rea- lidade maravilhados, mas ndo é uma surpresa inteli- gente como a dos misticos; é uma surpresa sem forma, surpresa de crianga, Entdo, a surpresa morre ¢ é subs- tituida pelo tédio quando desenvolvemos a linguagem, as palavras e os conceitos, Entao, com esperanga, se ti- yermos sorte, voltaremos A surpresa novamente. Perplexo por palavras Dag Hammarskjéld, 0 primeiro secretatio-geral 1s Nagoes Unidas, disse de forma muito bela que “Deus nao morre no dia em que deixamos de acreditar em uma divindade pessoal. Mas nés morremos no dia em que nossas vidas deixam de ser iluminadas pelo brilho do milagre renovado a cada dia, a fonte que ‘4 além de toda razio”. Nés nfio temos que discutir por causa de uma pa- lavra, porque “Deus” 6 apenas uma palavra, um con- ceito. Nunca se discute sobre realidade; nés apenas dis- cutimos sobre opiniGes, conceitos e julgamentos; desis- ta de seus conceitos, desista de suas opinides, desista de seus preconceitos, desista de seus julgamentos, & voce enxergard isso. “Uma vez que nao podemos saber o que Deus é, ‘mas somente o que Deus nao é, nao podemos conside- 143 rar como Deus é, mas apenas como ele néo é.” Esta 6a introdugdo de Santo Tomés de Aquino em seu livro Suma teoldgica Eu jé mencionei 0 comentério de Santo Tomés sobre o De Sancta Trinitate de Boécio, onde vimos que © grau mais elevado do conhecimento de Deus é conhe- cer Deus como 0 desconhecido, tanquam ignotum. E em seu Questio Disputaia de Potentia Dei, Tomés diz que “isso ¢ 0 definitivo no conhecimento humano de Deus — saber que nés nao conhecemos Deus”. Esse cavalheiro era considerado o principe dos te6- logos. Ele era um mistico, e hoje ¢ um santo canoni- zado. Estamos pisando em, solo muito bom. Na India, nés temos uma expresso em sfnscrito para esse tipo de coisa: “neti, neti”. O significado é 0 seguinte: “nio é isso”. O proprio método de Tomis referia-se a isso como caminho negativo. C. S. Lewis escreveu um diério, quando sua es- posa estava morrendo. O didrio chamava-se A Grief Observed [Um softimento observado]. Ele casou-se com uma americana, a quem amava muito. Dizia aos amigos que Deus havia Ihe dado, aos sessenta anos, 0 que havia Ihe negado aos vinte. Ele mal havia se ca- sado € a esposa morreu de cancer apés um longo sofri- mento. Lewis dizia que toda a sua fé se acabara, como um castelo de areia. Ele foi o grande apologista cristo, mas quando uma desgraga se abateu sobre sua casa, ele se ques- tionou: “Deus é um Pai que ama ou Deus € 0 grande vivisseccionista?” 144 Hé uma evidéncia muito boa para ambos! Eu me lembro de quando minha mae contrait c&ncer; minha irma disse para mit — Tony, por que Deus deixou que isso aconte- cesse com a mamie? — Minha querida, no ano passado, um milho de pessoas morreram de fome na China por causa da seca, e vocé nao levantou uma questfio sequer. As vezes, a melhor coisa que pode acontecer co- nosco € sermos despertados para a realidade, pela cala- midade, para entdo termos {é, como Lewis fez. Ble dizia que nunca tivera diividas antes quanto a pessoas mortendo de fome, mas quando sua esposa morreu, ele nao estaya mais tao certo. Por qué? Porque era muito importante para cle que ela vivesse, Lewis, como voc8 sabe, é 0 mestre das comparag&es € analogias. “como uma corda, Se alguém perguntar para voce se ela suporta 0 peso de sessenta quilos, voce res- ponde que sim. Bem, entéio vamos pendurar seu me- Thor amigo nela, Entdo, voce diz: ‘Espere um pouco. Deixeme tentar a corda noyamente’. Voc8 nao tem tanta certeza agora.” Lewis também disse, em seu didrio, que nio po- demos sabe na sobre Deus, ¢ que até mesmo. nossa perguntas sobre Deus sao absurdas. Por qué? E como um cego de nascenga que Ihe pergunta se a cor verde & quente ou fria. Neti, neti, nfio é isso. E longa ou curta? Nao é isso. E doce ou azeda? Nao é isso. E redonda, oval ou quadrada? Nao é isso, no € isso. © cego nfo tem palavras nem conceitos para uma cor da qual ele n&o tem idéia, nao tem intuigao, nao 145 tem experiéncia. Vocé s6 pode falar com ele usando analogias. Nao importa o que cle pergunte, voc8 sé pode responder que nao é isso, C.S. Lewis disse, em algum lugar, que ¢ como per- guntar quantos minutos hd na cor amarela. Todos po- deriam estar levando a questo a sério, discutindo-a, brigando por ela. Uma pessoa sugere que hd vinte ¢ cinco cenouras na cor amarela, e uma outra diz que ndo, que ha dezessete batatas, e de repente elas estdo brigando. Nao € isso! Isso é 0 méximo em nosso conhecimento hu- ‘mano sobre Deus, saber que nds ndo sabemos. Nosso grande problema € que sabemos demais. N6s achamos que sabemos, esse € nosso problema; entfo nunca des- cobriremos. Na verdade, Santo Tomés de Aquino no foi s6 tedlogo, mas também grande fildsofo: “Todos os esforcos da mente humana nao conseguem esgotar a esséncia de um simples v6o”. Condicionamento cultural Eu j@ disse que as palavras so limitadas, Quero acrescentar algo mais sobre palavras. Hé algumas delas que correspondem a nada, Por exemplo, em sou hindu. Agora vamos supor que eu fosse um prisioneiro de guerra no Paquistao ¢ me dissessem: “Bem, hoje vamos levé-lo até a fron- teira para que vocé dé uma olhada no seu pais”. 146 Entio, eles me levam até a fronteira, e eu dou uma olhada dali ¢ penso: “Oh, meu pais, meu lindo pafs. Vejo vilas, érvores ¢ colinas. Essa € a minha terra natal!” ‘Apés alguns minutos, um dos guardas diria: “Des- culpe-me, cometemos um erro. Temos que avancar dez milhas”, A que eu estaria reagindo? A nada. Continuaria me concentrando em uma palavra. India. Mas dryores nao so a India, arvores sao arvores. Na verdade, nao hé fronteiras ou limites. Eles foram colocados ali pela mente humana; geralmente por politicos esttipidos ¢ avarentos. Uma vez meu pats foi um; agora se divide em quatro. Se nao tomarmos cuidado, pode ser dividido em seis, Entéo, teremos seis bandeiras, seis exércitos. E por isso que voc’ nunca me verd saudando uma ban- deira. Eu abomino todas as bandeiras nacionais porque elas sdo idolos. O que estamos saudando? Eu satido a humanidade, nao uma bandeira com um exército ao seu redor, As bandeiras estiio na cabega das pessoas. Seja como for, hd milhares de palavras em nosso dicionario que nao correspondem a realidade, Mas elas disparam. m nds! io vamos comegar a ver coisas que nao esto ali, Na yerdade, podemos ver montanhas hindus quando elas nao existem, e vemos hindus que também nfo existem. O seu condicionamento nativo existe. Meu con cionamento hindu existe; mas isso nfo é uma coisa muito feliz. 147 Atualmente, nos paises do terceiro mundo, fala- mos muito sobre “falta de cultura”. O que é isso que chamamos de “cultura”? Nao estou muito feliz com 0 mundo. Quero dizer que voce faz alguma coisa porque foi condicionado a fazé-la? Vocé gostaria de sentir al- guma coisa porque foi condicionado a sentila? Isso no 6 ser mecénico? Imagine um bebé americano que foi adotado por um casal russo, ¢ levado para a Riissia. Ele nfo tem nogdo de que nasceu americano. Ele é criado falando russo; vive e morre pela Rtissia; odeia os americanos. A crianca € marcada com sua propria cultura; é im- pregnada pela propria literatura. Ela olha para o mun- do:através dos olhos de sua cultura. Agora, se voc€ quer vestir sua cultura do modo como veste suas roupas, tudo bem. A mulher hindu usa um séri, a americana usa uma roupa diferente, a japonesa usa quimono. Nenhuma delas se identifica com suas roupas. Mas vocé quer usar sua cultura mais atentamente. Vocé tem orgulho de sua cultura. Ensinam vocé a ter orgulho dela. Deixe-me colocar isso da forma mais eficaz pos- sivel, Um amigo jesuita disse: — Toda vez que vejo um mendigo, néo consigo dar esmola. Aprendi isso com minha mée. Ela oferecia uma refeic&o a qualquer pobre que passasse, mas nao dava dinheiro. — Joe, 0 que vocé tem nao é uma virtudes 0 que vocé tem € uma compulsdo, boa do ponto de vista do mendigo, mas uma compulséo simplesmente. 148 Lembro-me de um outro jesuita que nos disse num encontro ém nossa provincia de Bombaim: “'Tenho oi- tenta anos, sou jesuita hé sessenta e cinco. Nunca perdi uma hora de meditagfio; nunca”. Agora, poderia ser muito admiravel, ou poderia ser também uma compulsio. Nenhum grande mérito nisso, se for mecanico. A beleza de uma aco nfo vem de ela se tornar um. hébito, mas de sua sensibilidade, consciéncia, clareza de percepsiio e exatidao de resposta. Posso dizer sim a um mendigo, ¢ nao a outro, Nao sou forcado por al- gum condicionamento ou programacio de minhas ex- periéncias passadas ou de minha cultura. Ninguém es- tampou algo em mim, ou, se o fizeram, nao tenho qual- quer reagao a isso. Se voc tiyesse uma experiéncia ruim com um americano, ou fosse mordido por um cachorro, ou ti vesse problemas com um certo tipo de alimento, vocé seria influenciado por essa experiéncia pelo resto da yida, Isso & péssimo! Vocé precisa se libertar disso. Nao carregue experiéneias do passado. Na verdade, nao carregue nem as experiéneias boas Aprenda o que significa experimentar alguma cols completament » desista dela e passe para uma outra experiéncia sem ser influent terior, Voce estard yiajando com pougufssima bagagem. Vocé saberd o que é a vida eterna, porque a vida eterna 0 agora, no agora sem tempo. $6 assim voce entrard na vida eterna, Mas quantas coisas carregamos conos- co! Nunca nos propomos a tarefa de nos libertarmos, de desistirmos da bagagem, de sermos nés mesmos.. Sinto muito quando eu vejo que a todos os luga- res onde eu v4, encontro mugulmanos que usam sua reli- 149 gido, suas preces e seu Alcorao para fugir dessa tarefa E 0 mesmo se aplica a hindus ¢ cristfos. ; Vocé consegue imaginar 0 ser humano que nao é mais influenciado por palayras? Vocé pode Ihe dar muitas palavras, e ele Ihe daré muito. Vocé pode dizer que € 0 cardeal-arcebispo nfo sei das quantas, mas ele ainda Ihe dara muito; ele yeré voce como voce é. Ele nao se deixa influenciar pelo rétulo. A realidade selecionada _ Quero dizer uma coisa mais sobre nossa percep- Go da realidade. Vou apresenté-la em forma de ana- logia. : O presidente dos Estados Unidos tem que receber alimentacao dos cidadaos. © papa em Roma tem que receber alimentagéo da Igreja toda. Ha literalmente milhdes de coisas que poderiam ser enviadas a eles, mas eles dificilmente poderiam recebé-las todas, e muito menos digeri-las. Entio, eles tém pessoas de con- fianga para resumir, controlar, selecionar coisas; no final das contas algo chega a suas mesas. Bem, isso 0 que acontece conosco, Cada poro ou célula viva de nosso corpo e cada um dos nossos sentidos esté sendo alimentado pela tealidade. Mas estamos selecionando coisas constante- mente. 150 Quem a esté selecionando? Nosso condicionamen- to? Nossa cultura? Nossa programacao? O modo pelo qual fomos ensinados a ver as coisas ¢ analisé-las? Até a nossa linguagem pode ser um filtro. Hi tanta selecdo que, as vezes, vocé nfo percebe as coisas que esto ali. E sé olhar para um parandico que esta sempre sendo ameacado por alguma coisa que nao esté ali, que esté constantemente interpretando a realidade em termos de certas experiéncias do pasado, ou de certo condicionamento, Mas hé um outro capeti- nha fazendo a selec também. E 0 chamado desejo, anseio. A raiz do sofrimento € 0 desejo. Ele distoree destr6i_a_percepeaio, Medos e desejos esto & nossa -procura, Samuel Johnson disse que “saber que se vai para © cadafalso dentro de uma semana faz a mente de um homem se concentrar maravilhosamente bem”. Vocé risca tudo ¢ se concentra no medo, ou de- sejo, ou anscio. Somos drogados de varias formas quando somos jovens, Somos criados para precisar das pessoas. Para provagio, apreciagiio, aplauso de sucesso, Sao pala- yras que nao correspondem a realidade, SA0 conven- ¢Ges, coisas inventadas, mas nfo percebemos que elas nao correspondem a realidade. O que € sucesso? E o que um grupo decidiu cha- mar uma coisa boa. Outro grupo decidiré que a mesma coisa é ruim. O que é bom em Washington pode ser ruim em um monastério cartusiano. Sucesso em um cft- culo politico pode ser considerado fracasso em outro qué? Para ac para o que se costuma ch 151 circulo, Sao apenas convengées. Mas nds as tratamos como realidade, nao? Quando somos jovens somos programados para a infelicidade. Nos ensinam que, para ser feliz, precisa- nygs de dinheito, sucesso, um belo parceiro na vida, um bom emprego, amizade, espiritualidade, Deus — vocé dé o nome. A néo ser que voce tenha essas coisas, voc’ nio vai ser feliz, € 0 que nos dizem. Isso é 0 que chamo de fixagio. Uma fixacdo € uma crenga de que sem algo voeé nao vai ser feliz. Uma vez que nos convencemos disso — e isso entra em nosso subconsciente, fica selado nas raizes do nosso ser — estamos perdidos. “Como posso set feliz se no tenho boa satide?”, vocé diz, Mas you the dizer uma coisa. Jé encontrei_pessoas morrendo de cdncer que estavam felizes. Mas como podiam estar felizes se elas sabiam que iam morrer? Mas estavam. “Como posso ser feliz se nZio tenho dinheiro?” Uma pessoa tem um milhao de délares no banco e se sente insegura; outra pessoa praticamente ndo tem dinheiro, mas no parece sentir inseguranga alguma. Ela foi programada de modo diferente, s6 isso. E ind- til aconselhar 0 homem rico sobre o que fazer; ele pre- cisa de entendimento. Os conselhos nio ajudam muito. Vocé precisa entender que foi programado; é uma crenca falsa. Veja-a como falsa, veja-a como fantasia. Como as pessoas esto vivendo as suas vidas? Elas esto preocupadas em lutar, lutar, lutar, lutar. E 0 que costumam chamar de sobrevivéncia. Quando o americano de classe média diz que est ganhando a vida, nao € 0 dinheito que ele ganha, ah 152 nfo! Ele tem muito mais do que precisa para viver. Venha ao meu pais e voce verd isso. Voc8 niio precisa de todos esses carros para viver. Vocé nfo precisa de um aparelho de televisio para vi- ver. Voc8 no precisa de maquiagem. Voeé nfo precisa de todas esas roupas. Mas tente convencer o ameri- cano de classe média disso! Ele sofreu lavagem cere- bral; ele foi programado. Entao, ele trabalha e se em- penha para conseguir 0 objeto desejado, que o deixara feliz. Ouga esta histéria patética — sua hist6ria, minha hist6ria, a hist6ria de todo mundo: “Enquanto eu no conseguir esse objeto (dinheiro, amizade, qualquer coisa), nfo conseguitei ser feliz; tenho que me empe- nhar para consegui-lo, e quando consegui-lo tenho que me empenhar para conservé-lo, Eu consigo uma emo- glo tempordria, Ob, estou tio emocionado, eu con- Segui! Mas por quanto tempo? Alguns minutos, alguns dias, no maximo”. Quando vor seul carro novinho, quanto conseguir tempo sua emogio vai durar? Até que sua préxima fixagito soja ameagadal A verdade sobre uma emogio 6 que voce se cansa dela depois de algum tempo, Disseram-me que a prece era a grande coisa; disseram-me que Deus era a grande coisa; disseram-me que a amizade era a grande coisa. E sem saber 0 que a prece realmente significava, ou, sem saber © que Deus era, sem saber o que a amizade realmente significava, nés entendemos muito sobre essas coisas. Mas, apés algum tempo, nés nos aborrecemos com elas — nos aborrecemos com a prece, com Deus, com 153 a amizade. Nao € patético? E nfo hé saida, simples. mente nio hé saida. Foi a nica alternativa que rece- bemos — ser feliz. Ndo nos deram outra alternativa Nossa cultura, nossa sociedade e, sinto muito em dizer isso, até mesmo a nossa teligifio, nfo nos de- ram outra alternativa. Vocé foi nomeado cardeal, Que grande honra! Honra? Vocé disse honra? Usou a palavra errada. Ago- ra, outros vao aspirar a esse cargo. Vocé caiu naquilo que © evangelho chama de “o mundo”, e vai perder sua alma, © mundo, o poder, o prestigio, a vit6ria, 0 su- cesso, a honra, etc., so coisas que nao existem. Voce ganha o mundo mas perde a alma, Sua vida toda fica vazia e sem alma. Nao hé coisa alguma ali S6 hé uma safda: ser desprogramado! Como fazer isso? Conscientizando-se da programagio. Vocé nao consegue se transformar por um esforgo da vontade; voce nio consegue se transformar através de ideais vocé nfo consegue se transformar através de novos hébitos. O seui comportamento pode se transformar, mas voc nfo. Vocé s6 se transforma através da cons- ciéncia e do entendimento. Quando vocé vé uma pedra como pedra, ¢ uma tira de papel como uma tira de papel, vocé nao acha mais que a pedra 6 um diamante precioso, ou que a tira de papel é um cheque de um bilhao de délares Quando voce vé isso, voc’ se transforma. Nao hé mais violéncia na tentativa de se mudar. Ou entao, o que vocé chama de mudanca é simplesmente mudar os mé- yeis de lugar. Seu comportamento € mudado, mas nao voce. 154 Desprendimento ‘A Gnica maneira de se transformar ¢ mudar seu entendimento, Mas o que significa entender? Como conseguimos isso? Considere como somos atraidos por virias fixa- es; estamos nos empenhando em organizar o mundo para que possamos manter essas fixagGes, porque 0 mundo € uma ameaca constante para clas. Eu tenho receio de que algum amigo deixe de me amar, ele pode se aproximar de outra pessoa. Tenho que me manter atraente para conquistar essa outra pessoa. Alguém me induziu a pensar que preciso desse amor. Mas eu niio preciso, cu nfo preciso do amor de nin- udm, Eu s6 preciso entrar em contato com a realidade. Preciso me libertar dessa prisio, dessa programacéo, esse condicionamento, dessas crengas falsas, dessas fantasias; cu preciso vir para a realidade. A realidade é adoréyel; é uma coisa tao maravi- Ihosa! A vida eterna é o agora. Nos estamos cercados por ela, como o peixe no oceano, mas nao temos a mi- nima nogdo disso. Estamos muito distrafdos com essa fixagao. ‘Temporariamente, o mundo se reorganiza para adequar nossas fixagdes, entéo dizemos: “Sim, que le- gall Meu time venceu!” ‘ Mas espere; ja passa; amanh voce estaré depri- mido, Por que continuamos fazendo isso? Faca este pequeno exereicio por alguns minuto: pense em alguém, ou em alguma coisa que voce queira muito; em outras palavras, alguém owt alguma coisa 155) sem a qual voc8 nao consegue ser feliz, Poderia ser 0 seu emprego, sua carreira, sua profissio, seu amigo, seu dinheiro, qualquer coisa, E voce diz para essa coisa ou pessoa: “Eu realmente nfo preciso de vocé para ser feliz. Estou me iludindo ao acreditar que nao serei feliz sem voc’. Mas eu nao preciso de vocé mesmo para ser feliz. Voc ndo é minha felicidade, vocé néo € minha alegria”. Se a sua fixacdo for uma pessoa, ela néo gostaré de ouyir isso, mas va em frente, Vocé pode dizer isso mentalmente. Seja como for, voce estaré fazendo con- tato com a verdade; vocé estard destruindo uma fan- tasia, A felicidade é um estado de ndo-ilusio, do desis- tir da ilusao. Ou tente um outro exereicio: pense em uma época em que foi magoado, e achou que nunca mais seria feliz (seu marido ou esposa morreu, 0 melhor amigo © enganou, perdet todo o seu dinheiro). O que acon- teceu? O tempo passou, ¢ yocé conseguiu uma outra fixagio ou conseguiu conquistar uma outra pessoa; 0 que aconteceu com a velha fixagdo? Vocé nfo pre sava dela para ser feliz, nao é? Servi de licdo, mas nunca aprendemos, Nés so- mos programados; somos condicionados, Como bom no depender emocionalmente de alguém. Se voc’ pu- desse entender isso, estaria se libertando, se prepa- rando para um vOo. E um dia talvez completaria 0 véo, Eu tive receio de fazé-lo, mas conversei com Deus, e disse a Ele, que no precisava dEle. Minha primeira reago foi: “Isso € 0 oposto de tudo 0 que aprendi”, 156 ‘Agora, algumas pessoas querem fazer excecio dessa fixagao, se ela for Deus. “Se Deus é 0 Deus que ea acho que deveria ser, nao vai gostar se eu desistir dessa minha ligagdo com Ele!” Tudo bem, se voce achar isso, a menos que enten- da que Deus nao vai ser feliz, ent&io esse “Deus” no qual voc esté pensando nfo tem nada a ver com o Deus real. Vocé est pensando num sonho; est pensando em seu conceito. As vezes, vocé tem que se livrar de Deus, a fim de encontré-Lo. Muitos misticos dizem isso. Nés estamos tio cegos por catisa de tudo, que nao conseguimos perceber que sao essas fixagdes que ma- goam mais que os relacionamentos. Lembro-me de como eu ficava receoso em dizer a um amigo intimo que eu nao precisava dele, que eu ser muito feliz sem ele, “Posso ser feliz sem . Fao dizer isso, eu acho que posso apreciar sua companhia completamente — sem ansiedades, sem cid- m posse, sem apego. If bom estar com voc’ sem pegar a voce. Vocé é livre, et também!” mes, § me Mas para muitas pessoas isso é muito estranho. Fiu level muito tempo para entender, © veja que sou jesuita, cujos exercieios espit io todos sobre isso, embora eu tenha perdido pontos, porque minha cultura e sociedade me ensinaram a yer as pessoas com base em minhas fixacdes. Gosto de fazer graga ¢, as vyezes, para ver as pessoas de modo mais objetivo, como terapeutas e direiores espirituais, fago comentétios: “Ele é um grande homem, um grande homem, ett real- mente gosto dele”. Mais tarde descubro que € por isso que cle gosta de mim e et gosto dele, Eu me analiso e yejo a mesma 157 coisa noyamente: se voce esté preso a apreciagdes ao elogio, vai ver as pessoas em termos da amea- ga que fazem & sua fixagio, ou o Fato de elas alimen- tarem essa fixacdo. Se vocé é politico e quer ser eleito, como acha que vai encarar as pessoas? Como vai guiar seu interesse por elas? Voc se preocupard com a pes- soa que Ihe dard 0 voto? Se vocé se interessa por sexo. como vai olhar para os homens, ou mulheres? Se vocé quer poder, isso da vida a sua visto de seres humanos. Uma fixacdo pode destruir sua capacidade de amar. __ Oque amor? Amor é sensibilidade, amor € cons- ciéneia. Vou dar um exemplo; estou ouvindo uma sin- fonia, mas se tudo o que eu escuto é 0 som das bate- tias, nao ouco a sinfonia. © que € um coraedo apaixonado? Um coracio apaixonado & sensivel a0 todo da vida, a todas as pes- Soas; um coragio apaixonado nfo se endurece para qualquer coisa, Mas no momento em que voc se fixa no sentido que dou da palavra, entado yocé esta blo- queando muitas outras coisas. Vocé 6 tem olhos para © objeto de sua fixagiio; 56 tem ouvidos para a bateria; © coragGo endureceu. Além disso, est cego, porque nao vé mais o elemento de sua fixacdo de modo obje- tivo; ndo ha nada tao claro quanto 0 amor. Amor viciado © coragio apaixonado permanece leve e sensivel. Mas quando vocé esté para obter isso ou aquilo, voce 158 fica desumano, duro ¢ insensivel. Como voc’ pode amar as pessoas, quando precisa delas? Voce s6 pode usélas. Se eu precisar de voce para ser feliz, eu tenho que ‘usar voc’, tenho que manipulé-lo, tenho que encontrar formas de yencer vocé. Nao posso permitit que seja livre, Bu s6 consigo amar as pessoas quando as tiro de minha vida. Quando eu morro pela necessidade de pessoas, entdo estou bem no meio do deserto. No co- mego parece horrivel, parece solitério, mas se voc’ espe- rar um pouco, vai descobrir que nao é solidao de modo algum, E um tetiro, é estar sozinho, ¢ 0 deserto comega a florescer. Entio, finalmente, vocd saber o que é 0 amor, 0 que é Deus, 0 que é a realidade. Mas no inicio pode ser dificil, a menos que voce tenha um grande entendi- mento, o« tenha sofrido o suficiente. E uma grande coisa 6 fato de jé ter sofrido, Sé entiio voc€ pode se cansar disso. Vocd pode usar 0 softimento para acabar com 0 sofrimento. A maioria das pessoas continua sofrendo simplesmente. vezes, tenho entre Isso explica 0 conflito que, 6 papel de director espiritual © o de terapeuta, Vamos aliviar o sofrimento — diz o terapeuta, Vamos deixé-lo sofrer. Ele se cansard dessa forma de se relacionar com as pessoas, € se libertaré finalmente dessa dependéncia emocional — diz o dire- tor espiritual. Posso oferecer um paliativo ou remover um o&n- cer? Nao é facil decidir. Uma pessoa descontente hate um livro sobre a mesa, Deixe-o bater o livro sobre a mesa. No pegue 159 ° livro, est4 tudo bem, Espiritualidade € consciéncia, consciéneia, consciéncia, consciéncia, consciéncia, cons- ciéncia. Quando a sua mae ficava zangada com vocé, nao dizia que havia algo errado com ela, e sim que havia algo errado com vocé; ou entao ela nao estaria zangada. Bem, eu fiz a grande descoberta de que se vocé, mac, fica zangada, hé algo errado com vocé. Entdo, seria melhor lidar com sua raiva. Fique com ela ¢ trate dela. Ela nao é minha. Se ha algo errado comigo ow nao, examinarei isso independente de sua raiva. Eu nao vou ser influenciado por sua raiva. O engracado & que quando eu posso fazer isso sem sentir qualquer negativismo com relagdo ao outro, eu consigo ser bem objetivo com relacdo a mim tam- bém. $6 uma pessoa muito consciente pode se recusar a pegar a culpa e a raiva, e dizer: “Vocé esté tendo um ataque. Que pena! Eu ngo sinto a menor yon- tade de salvar yocé, e me recuso a me sentir culpado!” Eu nao vou me odiar por qualquer coisa que eu tenha feito, Isso € que é culpa. Eu nao vou me dar um sentimento ruim e me torturar por qualquer coisa que tenha feito, seja certa ou errada. Estou pronto para analisd-la, observé-la e dizer: “Bem, se eu errei, foi inconscientemente” __Ninguém comete erros conscientemente. E por isso que os tedlogos dizem de forma tao bonita que Jesus ndo cometeu erros, Isso faz muito sentido para mim, porque a pessoa iluminada nfo pode cometer erros. A pessoa iluminada é livre. Jesus era livre, e por ser livre, ele ndo poderia cometer erro algum. Mas uma vez que vocé pode errar, vocé nao esté livre. 160 Mais palavras Mark Twain colocou isso de forma muito boa quando disse: “Estava tio frio que se o termémetro caisse mais um grau, terfamos morrido congelados”. Nés nos congelamos em palavras. Nao € 0 frio do lado de fora que importa, mas sim o termémetro. Nao 6a realidade que importa, mas o que voce diz. para si mesmo sobre ela. Contafam-me uma histéria adordvel sobre um fa- zendeiro da Finlandia. Quando estavam delimitando as fronteiras russo-finlandesas, o fazendeiro tinha que de- cidir se ele queria ficar na Réssia ou na Finlandia. Apés muito tempo ele disse que queria ficar na Finlén- dia, mas nfo queria que os oficiais russos se ofendessem. Os russos foram conversar.com ele e perguntaram por que cle escolheu a Finlandia: “Eu sempre tive vontade de viver na Russia, mas na minha idade acho que nfo suportaria um outro inverno russo”. Russia e Finlandia sio apenas palavras, concei tos, mas néo para seres humanos; no para seres hu- manos Ioucos, Quiase nunca yemos a realidade. erta vez, um guru estaya tentando explicar, para algumas pessoas, como os seres humanos reagem as palayras, se alimentam de palavras, vivem de palavras, mais que de realidade. Um homem se levantou ¢ pro- testou : — Eu nfo concordo que as palavras tenham tanto efeito sobre nés. — Sente-se, seu filho da puta — disse o guru. © homem ficou possesso: 161 _ > Yooé se diz iluminado, guru, mestre, mas de- veria é ter vergonha na cara — Perdio, cavalheiro, eu me empolguei. Mil des- culpas; foi um lapso; perdoe-me — respondeu o guru Finalmente o homem se acalmou. — Usei apenas algumas palavras para provocar uma tempestade dentro de voce; e apenas para acal- mélo, ndo € mesmo? — explicou-se 0 guru Palavras, palavras, palavras, palavras, como con- seguem nos aptisionar se nao forem usadas de modo adequado. Agendas ocultas Ha uma diferenga entre conhecimento e conscién- cia, entre informac&o e consciéncia, Eu apenas disse que nao se pode praticar o mal com conhecimento ou informaco, quando vocé sabe que algo é ruim. “Pai, perdoai-os, pois eles ndo sabem 0 que fa zem.” Eu interpretaria desta forma: “Eles néo tem consciéncia do que esto fazendo”. Paulo disse que foi o maior dos pecadores, porque perseguiu a Igreja de Cristo, Mas ele acrescentou que 0 fez inconscientemente. Ou, se eles tivessem conscién- cia de que estayam crucificando 0 Senhor da Gléria, no teriam agido desse modo, Ou: “Viré o tempo em que vocé seré perseguido, e cles estario pensando que © fazem para servir a Deus”. Eles ndo esto conscientes. Bles se baseiam em co- nhecimento e informacao 162 Tomés de Aquino explicou isso muito bem quando disse que “Toda vez. que alguém peca, esta pecando sob 0 pretexto do bem”. Eles esto cegos; esto yendo algo muito bom, mesmo que saibam que € ruim; esto racionalizando porque esto procurando algo sob o pretexto do bem. Alguém me deu duas situagSes nas quais achou dificil estar consciente. Ele trabalhava em uma indds- tria que recrutava muitas pessoas; muitos telefones to- cavam, trabalhava sozinho, cercado de muito barulho © pessoas zangadas. Ele achava muito dificil manter-se sereno. A outra situacao era quando estava dirigindo, em meio a buzinas estridentes e pessoas que s6 falavam palayrdes, Perguntou-me se conseguiria se livear desse nervosismo e ter paz. Vocé pereebeu onde esté a fixagiio? Paz. Sua fi- xagiio & paz e calma, “A menos que eu nao tenha paz, nio serei fe Ja Ihe ocorreu © pensamento de que yo’ pode estar feliz ent meio a uma tensiio? Antes do esclare- cimento, cu ficava deprimido; apés o esclarecimento, cu continuo deprimido. Vocé ji ouviu dizer de pessoas que ficam tensas tentando relaxar? Se uma pessoa estiver tensa, ela s6 observaré sua tensio, Vocé nunca se entenderd se procurar se transfor- mar. Quanto mais yocé tenta se transformer, mais di- ficil fica. Vocé € convidado A consciéncia, Sinta 0 barulho do telefone; sinta seus nervos irritados, sinta a sensa- ¢&0 do volante do carro. Em outras palavras, venha para a realidade e deixe que a tensio, ou a calma, tome conta dela propria. Na verdade, vocé tera que permitir 163 que isso acontega, porque estard muito ocupado entran- do em contato com a realidade. Deixe acontecer 0 que tiver que acontecer, paso a passo. A transformagao ver- dadeira seré causada pela realidade, nao pelo seu ego. A consciéncia deixaré que a realidade transforme voce. Vocé se transforma conscientemente, mas tem que aprender, Nesse ponto estar entendendo o que se quer dizer com isso. Talvez jé tenha um plano para se tornar consciente. Seu préprio ego disfarcado, tentando em- purrar para a consciéncia. Obserye-o! Vocé encontrara resisténcia; haverd problemas. Quando se esté ansioso para ficar consciente o tempo todo, vocé pode detectar a ansiedade benigna A pessoa quer despertar, descobrir se esté cons- ciente"ou nao. Faz parte do ascetismo, néo da conscién- cia, Parece estranho numa cultura onde somos treina- dos para alcangar objetivos, chegar a algum lugar, mas nna verdade nfo hd onde chegar porque voce ja esid Id Os japoneses interpretam isso muito bem: “O dia em que vocé parar de viajar, vocé teré chegado”. Sua atitude deveria ser a seguinte: “Eu quero estar cons- ciente, estar em contato com 0 que quer que seja, ¢ deixar que acontega o que tiver que acontecer; se ¢: tiver acordado, dtimo, e se estiver dormindo, étimo”, A partir do momento em que voce alcancar um objetivo e tentar consegui-lo, estara procurando a glori- ficacdo do ego, a promogiio do ego. Vocé quer o senti- mento bom de té-lo feito. Quando yocé “o fizer”, nem saberd. Sua mao esquerda ndo saberd o que sua mao d- reita esté fazendo. “Senhor, quando fizemos isso? Nao estévamos conscienies.” 164 ‘A caridade nunca 6 to adordvel como quando se perde a consciéncia de que se est praticando caridade. “Vocé quer dizer que eu 0 ajudei? Eu estaya me diver- tindo. S6 estava fazendo a minha parte, Se fez bem para vocé, maravilhoso! Os parabéns so para vocé, nao para mim.” Quando vocé conseguir, quando estiver conscien- te, no se preocupardé mais com os rétulos “acordado” ou “adormecido”. Uma das minhas dificuldades aqui é despertar sua curiosidade, nfo sua cobiga espiritual. Vamos desper- tar, vai ser marayilhoso. Pouco depois, ndo importa; voce esté consciente porque vive. A vida inconsciente nao_vale a pena ser vivida. E vocé deixaré a dor to- mando conta de si mesma. Dando consentimento ‘Quanto mais voce tenta se transformar, pior acaba indo, Isso significa que um certo grau de passividade se fez necessério? Sim, quanto mais voce resiste a al- guma coisa, mais forga dé a ela. Acho que esse € 0 significado das palavras de Je- sus: “Quando alguém Ihe bater na face direita, oferega- Ihe a face esquerda”. Vocé sempre dé forgas aos deménios com quem Iuta, Isso é muito oriental. Mas se fluir junto com o inimigo, vocé 0 vence. Como lidar com 0 mal? Nao lute com ele, entenda-o! Ao eniendé-lo, ele desapare- 165 cera. i a Viaag ome lidar com a escurido? Nao é esmurrando-. yee ans® expulsa ecuridio do seu quarto com uma } Voc’ acenée a luz. Quanto mais voce briga is real ela se torna para vocé, ¢ A com a escuridao, ma mais cansado yoce cs Guanido voes acende a luz da consciénci, a a ee ae ee pedaco de papel é um cheque de Femur ciao. eta. Ah, 0 evangelho diz. que devo “ello, devo desstr, se eu quiser a vida eterne. aie val substitu uma cobiga —- uma cobica es- canta © agen Qutra? Antes voc® poseuia um ego expe- ca cing ok fom un ego espiritual, mas voce tem um , assim, refinado'e mais dificil de enfrentar. , ee renuneia a alguma coisa, vocé esta ligado SaaS am Nee de renunciéla, eu olhar para ela Fevee ieeag, 88° milo 6 um cheque de um bilhao de dé- » 1880 € um pedaco de papel”, no h4 com o que lutar; no hé o que renunciar. Minas adaptadas ae meu pais, muitos homens so educados com a Sette a 4s mulheres sao um rebanho. “Casei-me - Me Me pertence, é mi el aoe Pe , 6 minha posse”, € 0 que Eles sa ; Een se0 culpados? Prepare-se para um choque: pelbtinado, como muitos americanos nao tém culpa come yéem os russos. Suas lentes, ou per- 166 nao! cepgées, simplesmente foram tingidas de uma determi- nada cor, e é dessa forma que eles olham para o mundo. © que os torna reais, o que os conscientiza de que estéo olhando para o mundo através de lentes colo- ridas? Nao hé salvacdo até que eles percebam o pre- conceito. ‘Assim que voce olhar para o mundo através de uma analogia, estaré perdido. Nenhuma realidade se adapta a uma ideologia. A vida esté além disso. E por isso que as pessoas esto sempre procurando um signi- ficado para ela. Mas a vida nao tem significado; ela nao pode ter significado, pois este é uma iérmula; significado é algo que faz sentido para a mente. Toda vez que voc pet- che a realidade, vocé dé de cara com alguma coisa que destr6i a idéia que fazia Vocé s6 encontra o significado quando vai além dole, A vida s6 faz sentido quando voc€ a percebe como mistério, ¢ nao faz sentido para a mente concep- tualista. Nao vou dizer que a deyogao nao € importante, may afitmo que a divida é muito mais importante que 4 deyogiio, Em todos os lugares, as pessoas esto pro- curando objetos para adorar, mas néo acredito que as gjam con atitudes e con- jentes dest pessous viege Como serfamos felizes se os tertoristas adorassem menos suas ideologias e questionassem mais! No entan- io, nao gostamos de aplicar isso a nés mesmos; acha- mos que estamos certos, e os terroristas errados. Mas o que é terrorista para voce, é um mértir para outros. Solidio é quando voce sente falta das pessoas; iso- lamento € quando esté se apreciando. Lembre-se do 167 dito espirituoso de George Bernard Shaw. Ele estava numa daquelas festas chatas, onde se fala muito ¢ ndo se diz coisa alguma. Alguém perguntou se estava se divertindo, “E a tinica coisa que estou apreciando aqui”, ele respondeu. Vocé nunca se diverte com os outros quando nao passa de um escrayo para eles. A comunidade nao é formada por escravos, por pessoas que exigem que as outras pessoas as fagam felizes. A comunidade é for- mada de imperadores e princesas Vocé € um imperador, nio um mendigo; vocé € uma princesa, nao um mendigo. Nao se pede esmola numa comunidade de verdade. Nao ha apego, nao ha ansiedade, nao ha medo, nfo ha ressaca, nao hé posse, nao hé exigéncias. ‘Uma comunidade se faz de pessoas livres, nao de escravos. Essa é uma verdade simples, mas tem sido aba- fada por toda uma cultura, incluindo a cultura religiosa, que pode Ihe manipular se vocé nao tomar cuidado Algumas pessoas véem a consciéncia como um ponto alto, um planalto, o que esta além do viver cada momento como ele é. Isso € alcangar um objetivo da consciéneia. Mas com a consciéncia verdadeira nao ha onde ir, nao hé o que alcancar. Como chegamos a essa consciéncia? Através da consciéncia. Quando as pessoas dizem que querem experimen- tar cada momento, estéio falando sobre consciéncia, ex- ceto pelo “querer”. Vocé nao quer experimentar a cons- ciéncia; vocé experimenta ou nao. Um amigo meu foi para a Irlanda, Ele me contou que, embora seja um cidadio americano, tirou pas- saporte de irlandés, e o fez pois tinha receio de viajar com passaporte de americano. Se algum terrorista se 168 aproxima dele, e pede para ver o passaporte, ele diz que é irlandés, Mas quando as pessoas sentam-se a0 seu lado no avigo, elas nfo querem ver rétulo; querem conhecer esse homem, como ele realmente é. Quantas pessoas passam a vida comendo nfo 0 alimento, mas 0 cardépio? Um cardApio é apenas uma indicago de algo que se encontra disponivel. Vocé quer comer o filé, no as palayras. A morte do eu Alguém pode ser completamente humano sem conhecer a tragédia? A tinica tragédia que existe no mundo ¢ a igno- rdneia; todo o mal vem dela. As Gnicas tragédias que cxistem no mundo so 0 fato de as pessoas estarem adormecidas ¢ a falta de consciéncia, Delas vem 0 medo, ¢ do medo yém todas as outras coisas, mas a morte nfo é uma tragédia, Morrer 6 marayilhoso; ela 86 é horrivel para as pessoas que nunca entenderam vidi Vocd s6 tem medo da morte quando tem medo da vida. $6 0s mortos tem medo da morte. Mas as pessoas que estdo vivas ndo temem a morte. Um autor american colocou isso muito bem quando disse que o despertar é a morte de sta cren: ga na injustiga e na: tragédiay O fim do mundo para uma lagarta é uma borboleta para o mestre. 169 Morte é ressurrei¢ao. Nao estou falando sobre a ressurreigdo que aconteceré, mas sobre a que esté acon- tecendo agora. Se vocé morresse para o passado, se morresse para cada minuto, vocé seria uma pessoa que esta viva por completo, porque um individuo vivo é aquele que esté cheio de mortes. Nés estamos sempre morrendo para as coisas. Es- tamos sempre nos livrando de tudo pata estarmos com- pletamente vivos e para ressuscitarmos a todo momento. Os misticos, os santos e outros fazem grandes es- forgos para despertar as pessoas, Se elas nao desperta- tem, sempre terfo essas doencas, como fome, guerras violencia. Nao hé nada pior que pessoas adormecidas, pessoas ignorantes. Certa vez, um jesuita escreyeu para o padre Ar- rupe, seu superior, perguntando sobre o valor relativo do comunismo, socialismo e capitalismo. O padre Ar- rupe deu uma resposta adorévell “Um sistema € tio bom ou tao ruim quanto as pessoas que o usam”, cle respondeu As pessoas com boas intengdes podem fazer com que 0 capitalismo, 0 comunismo ou o socialismo fun- cionem perfeitamente. Nao pega para que o mundo se transforme — transforme-se primeiro. Entao, dé uma boa olhada para ‘© mundo, para que voc consiga mudar o que acha que deve ser mudado. Tire a venda de seus olhos. Se vocé no o fizer, perderd o direito de mudar qualquer pes- 30a, ou. qualquer coisa, Até que tenha consciéncia de vocé mesmo, vocé nao tem o direito de se intrometer com 0 mundo, com ninguém. 170 Agora, 0 perigo de tentar mudar os outros, ou mudar as coisas quando vocé nfo est consciente ainda, € que voce pode estar transformando as coisas para sua propria conveniéncia, seu orgulho, suas convicgoes e crencas dogmiticas, ou apenas para sliviar sous sen- timentos negativos. Eu tenho sentimentos negativos; entio é melhor que vocé se transforme para que eu me sinta melhor. Primeiro, trabalhe com seus sentimentos negati- vos para que quando for transformar os outros, vocé nfo o faca com 6dio ou negativismo, mas com amor. Pode parecer estranho, também, que as pessoas possam ser duras com as outras ¢ ainda amélas. O ci- rurgifio pode ser enérgico com o paciente e ainda estar amando, O amor pode ser muito exigente, na verdade. Visdo interior e entendimento M peti et © que a autotransform palayr dio imp6e? Eu j4 re- 1 tanta agora you fragmenté-lo , ma Primeiro, visdo interior. Sem esforgos, sem cultivar hé- bito, sem ter um ideal. Os ideais causam muitos danos. Vocé fica preo- cupado o tempo todo com o que deveria ser, ¢ néio com o que &. E dessa forma, vocé esté impondo o que deve- ria estar numa realidade presente, nunca tendo enten- dido o que ela significa. 171 Deixem-me dar um exemplo de visio interior do ponto de vista de minhas experiéncias como conse- Iheiro. Um padre se aproxima de mim e diz. que est4 com preguiica; ele quer produzit mais, ser mais ativo, mas esta com preguica. Eu lhe pergunto o que “preguica” significa. Em outros tempos, diria para ele: — Vejamos, por que voc’ nao faz uma lista das coisas que vocé quer fazer todos os dias, ¢ ai, toda noite as verifica, ¢ isso Ihe daré um sentimento bom; construa um hébito. Ou, ento, eu diria — Quem é seu santo padroeiro? — Siio Francisco Xavier — ele diria. — Veja como ele trabalhou. Vocé deve meditar sobre o trabalho dele, e comece a se mexer. Essa seria uma forma, mas sinto muito em dizer que é superficial. Fazé-lo usar sua forca de vontade, esforco, nfo dura muito tempo. Seu comportamento’ pode mudar, mas ele nao, Agora, vamos mudar de diregao. Digo: — Preguiga, o que é isso? Descreva 0 que voce quer dizer com preguica. Hé milhdes de tipos de pre- guica. Vamos analisar o scu tipo de preguica. — Bem, eu nunca consigo fazer as coisas. Eu no tenho vontade de fazer coisa alguma — Mas desde o momento em que vocé acorda? — Sim. Eu acordo pela manha e nao encontro um motiyo pelo qual deva me levantar. — Enlao, vocé esté deprimido? — Pode-se dizer que sim, Eu sou um pouco re- traido. — Vocé sempre foi assim? 172 — Bem, nem sempre. Quando eu era mais jovem, era mais ativo. Quando eu estava no seminério, era cheio de vida. — Entéo, quando isso comegou? — Ah, mais ou menos trés ou quatro anos atras. — Aconteceu alguma coisa? — eu pergunto. Ele demora um pouco para responder. — Se voeé teve que pensar tanto, nada de muito especial pode ter acontecido ha quatro anos. E no ano antes de tudo isso? — Bem, fui ordenado naquele ano — ele res- ponde, — Nada de especial aconteceu naquele ano? — cu pergunto, Houye uma coisinha, 0 exame final de teolo- fia; eu repeti, Fiquei um pouco decepcionado, mas j4 supetel, O bispo estava pensando em me mandar para Roma, para lecionar no semindrio. Eu gostei muito, mas como cu repeti no exame, ele mudou de idéia e me mandou para esta paréquia. Na verdade, houve in- justiga porque. Perceba como héjraiva aij ele nao stiperott: Agora comega a ser trabalhado. Tem que resolver esse proble- ma de decepgao. E indtil pregar-Ihe um sermao. E int- til dar-Ihe um conselho. Temos que fazé-lo encarar essa raiva © decepedo, e colocar um pouco de visio intetior’ nisso tudo, Quando ele conseguir trabalhar com isso, voltara & vida novamente. Se eu Ihe dese uma exor- taco ¢ Ihe dissesse como seus irmios e irmas casados trabalham, isso o faria simplesmente sentir-se culpado. Ele n&o tem a visio interior que vai curé-lo, Entao, essa é a primeira coisa. 175 Hé uma outra tarefa, o entendimento. Vocé real- mente acha que isso iria fazé-lo feliz? Vocé ja com- preendeu que sim? Por que voc€ queria lecionar no seminério? Porque queria ser feliz, Voc$ achaya que sendo professor, tendo um certo status e prestigio, seria feliz, Seria? E melhor que se aplique 0 entendimento aq Conseguir distinguir entre o Bu e 0 eu € de grande importancia para “desidentificar” 0 que esté aconte- cendo. Deixe-me dar um exemplo. Um jovem jesuita veio me visitar; ele era um rapaz adordvel, extraordinirio, charmoso, talentoso — tudo. Mas tinha uma estranha mania. Com os empregados era um terror. Chegaram até a dizer que os agredia; isso quase virou caso de policia. Sempre que era encarregado dos gramados da igreja, ou encarregado da escola, ou 0 que quer que fosse, o problema aparecia Ele fez uma avaliagio de trinta dias para meditar, dia apés dia, sobre a paciéncia e amor de Jesus com agueles que nfo sio privilegiados, etc. Mas eu sabia que nao ia surtir efeito algum Quando a ayaliacdo terminou, cle voltou para casa e ficou bem por trés ou quatro meses. (Alguém disse que a maioria das avaliagdes comeca em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, e termina da mesma forma, agora ¢ para sempre e por todos os séculos. ‘Amém.) Depois disso, ele voltou & estaca zeto € me pro- curou novamente. Na época, cu estaya muito ocupado. Embora ele tivesse vindo de uma outra cidade da India, eu no po- deria vé-lo, Entfo, sugeri que, se ele quisesse, poderia me acompanhar em minhas caminhadas noturnas, pois era a tinica hora em que eu podia conversar com ele. 174 Entio, fomos caminhar juntos, Eu jé 0 conhecia, ¢ quando estévamos caminhando, tive um sentimento es- tranho. Quando tenho um desses sentimentos estra- nhos, geralmente, fago uma yerificagio com a pessoa em questo, Estou sentindo que vocé esconde alguma coisa de mim. Vocé est escondendo? — perguntei-the, — © que yoc8 quer dizer com esconder? Vocé acha que eu faria essa viagem, pediria para conversar com vocé para esconder alguma coisa? — perguntou ele indignado. — Bem, é uma sensagdo engracada que estou sen- tindo, s6 isso; achei que deveria verificar com voc8 — completei. Continuamos nossa caminhada. Hé um lago bem pr6ximo do lugar onde moro, Lembro-me da cena como se fosse hoje. — Poderfamos nos sentar em algum lugar perguntou el — Esté bem — respondi. — Vocé esté certo. Estou escondendo algo de voce. E, ao revelar isso, comegou a chorar: — Vou contar-the algo que nunca contei a pessoa alguma, desde que me tornei jesuita. Meu pai morreu quando eu era pequeno e minha mae teve que trabalhar. Ela limpaya lavatérios e banheiros, e as vezes tinha que trabalhar até dezesseis horas por dia para conse- guir nos sustentar. Tenho tanta vergonha disso que es- condo de todos e me vingo irracionalmente, por ela e por toda a classe de serventes. O sentimento foi transferido. Ninguém conseguia entender por que esse homem tao charmoso agia dessa 175 forma, mas a partir do momento em que percebeu isso. os problemas se acabaram. Ele sentiu-se melhor Nao force __ Meditar sobre e imitar o comportamento de Cristo no ajuda, Nao é uma questdo de imitar Cristo, € uma questo de tornar-se o que Cristo foi. E uma questo de tornar-se Cristo, conscientizar-se, entender o que esté acontecendo dentro de yocé. ‘Todos os outros métodos que usamos para a auto- transformacao poderiam ser compatados a empurrar um carro. Vamos supor que vocé tenha que viajar para uma cidade distanie. O carro quebra no meio do ca- minho. Bem, que péssimo! O carro quebra. Entéo, nés arregacamos as mangas e comecamos a empurré-lo, até chegarmos & cidade distante. “Bem, conseguimos!” E dai, empurramos 0 carro até uma outra cidade! “Che- gamos! Conseguimos, nfo é?” Mas voc® chama isso de yida? Sabe do que yooé precisa? Vocé precisa de um mecAnico para verificar © catro ¢ trocar a yela de ignico. Vire a chave agora © 0 carro funciona. Vocé precisa do especialista — vooé precisa de entendimento, visdo interior, consciéncia — néio pre- cisa empurrar. Nao precisa fazer forea. E por isso que as pessoas ficam tao cansadas, 10 fracas. Nés fomos treinados para ficat insatisfeitos co- nosco. E dai que, psicologicamente, vem o mal. Esta- 176 mos sempre insatisfeitos, estamos sempre descontentes, sempre empurrando. Vi em frente, se esforce mais ¢ mais. Mas hé sempre aquele conflito interno; hé pou- qufssimo entendimento, Tornando-se real Um dia inesqueciyel de minha vida foi na India. Um grande dia mesmo, o dia seguinte A minha ordena- co, Sente-me num confessionério. Tinhamos um je- sufta incriyel em nossa pardquia, um espanhol, que eu conheci mesmo antes de ir para o noviciado, Um dia antes de ir para 1A, achei que seria melhor me confessar, e nfo teria que dizer ao mestre que Faria isso. Hayia muita gente na fila do confessiondrio para conyersar com o padre espanhol; ele sempre cobria os olhos com um lengo de cor violeta, e resmungava al- guma coisa, dava a peniténcia e mandava voc embora. Ele s6 hayia me encontrado duas vezes ¢ me cha- maya de Antonie. Entao, fiquei na fila, ¢ quando che- gou a minha vez, tentei mudar a yoz para me confessar. Pacientemente, ele ouviu minha confissao, deu-me a peniténcia, me absolyeu e disse: “Antonie, quando vocé vai para o noviciado?” Bem, fui para a paréquia um dia apés minha or- denagao. Eo velho padre me diss — Vocé quer ouvir confiss6es? — Tudo bem — respondi — Sente-se no meu confessiondrio — disse ele. 177 ee Meu Deus, sou um homem santo — pensei sentar no confessionério. % Ouvi confissées por trés horas. Era Domingo de Ramos e a8 pessoas vinham 2 igreja para as oragées cuted ti deptimido, no pels coisas que havia es ado, porque havia sido preparado para aquilo; eu estava chocado por nada ; Sabe 0 que me deixou deprimido? A percepeao de que eu estava dando pequenos chaydes para aquelas essous: “Agora, reze para a Nossa Senhora, ela ama Lembre-se que Deus esté do seu lado” _,_Esses chavoes podem curar um cancer? E estou lidando com um cdncer, a falta de consciéncia e rea- lidade. Entéo, jurei a mim mesmo nesse dia: “Apren- derei, aprenderei, para que néo mais repita isso. Pa- dre, 0 que 0 senhor disse era verdade, mas totalmente inditil”. [ Conseiéneia, visio interior. Quando voce se tor- nar um perito (¢ logo voce se tornaré um), no terd que fazer curso de psicologia. Quando vocé comecar a se observar, desistir desses sentimentos negativos, encon- traré uma maneira para explicar isso, E pereeberé a transformagao, Mas entio teré que enfrentar o grande Vildo, e esse vildo é a condenacao, 0 édio e a auto-insa- tisfagio, Imagens adaptadas aca emes mais sobre falta de esforeo em transfor- 1aga0. Pensei numa imagem agradével para isso: um 178 barco a vela. Quando um barco a ela recebe um vento forte, ele desliza tio sem esforco que 0 timoneiro nfo tem nada a fazer senfo aproar. Fle nao faz esforco algum; nfo empurra o barco, Esta é uma imagem do que acontece quando a mudanga é atingida através da consciéncia, através da compreensio. Eu repassava algumas de minhas anotacGes e en- contrei algumas citagdes que vao de encontro ao que estou dizendo. Como esta: “Nao hé nada tio cruel quanto a Natureza. Todo 0 Universo, nfo pode es- capar dela e, ainda assim, nfo 6 a Natureza que fere, mas 0 proprio corago da pessoa”. Isso faz sentido? Nao é a Natureza que fere, mas 0 préprio coragio da pessoa, Ha também a histéria de Paddy, que caiu de um ‘andaime e levou uma bela pancada. Perguntaram: “A queda machucou yoos, Paddy?” B ele disse: “Nao. Foi a parada que me machucou; no a queda”. Quando voc’ corta a égua, ela nao se fere; quando voc’ corta algo sélido, ele quebra. Vocé tem atitudes sdlidas dentro de si; voc8 tem ilusGes solidas dentro de si; isso € 0 que dé pancadas na Natureza. E onde yor’ se machtca, é de onde vem a dor. Eis uma adordvel citagio: ¢ de um sébio oriental, embora ett ndo me lembre qual, Como acontece com a Biblia, 0 autor nao importa. As palavras € que so im- portantes. “Se o olho esta desobstrufdo, isso resulta em visio; se 0 ouvido esté desobstruido, o resultado € 0 sentido de audicéo; se 0 nariz est desobstrutdo, o resultado € 0 sentido de olfato; se a boca esta desobs- truida, o resultado é o sentido de paladar; se a mente estd desobstruida, o resultado é a sabedoria. 179 A sabedoria acontece quando voc quebra bar- reiras que vocé mesmo ergueu atrayés de seus conceitos © condicionamentos. A sabedotia nao 6 algo que se ad- quite; a sabedoria nao € experiéncia; a sabedoria nao é aplicar as ilusdes do passado aos problemas do presente. Como alguém me disse enquanto eu estava fazendo meu curso de graduacao em psicologia em Chicago, al- guns anos atras: “Freqtientemente, na vida de um padre, a experiéncia de 50 anos é a experiéncia de um ano re. petida 50 vezes”. Vocé obtem as mesmas solugdes as quais recorrer: esta é a maneira de se lidar com os al. codlatras; esta é a maneira de se lidar com padres: esta € a maneira de se lidar com freiras; esta é a maneira de se lidar com uma divorciada. Mas isso nao € sabedoria. Sabedoria 6 ser sensivel a esta situacdo, a esta pessoa, nao influenciado por qualquer remanescéncia do. pas. sado, seus residuos de experiéncias passadas. Isto é bem diferente do que a maioria das pessoas esta acostumada 4 pensar, Eu acrescentaria outta frase as que li: “Se o coragao esta desobstruido, o resultado € amor". Tenho falado bastante sobre o amor, nestes dias, embora eu ja tenha dito que nada pode ser dito, realmente, sobre 0 amor. S6 podemos falar sobre 0 néo-amor. $6 podemos falar sobre vicios. Mas sobre o amor em si, nada pode ser dito explicitamente Amor: nada a falar Como eu descreveria o amor? Decidi citar uma das meditacdes que estou escrevendo num novo livro 180 meu. Eu a citarei devagar; yoo€ meditaré sobre cla, conforme seguimos, porque eu-a colocarei aqui de ma- neira suscinta para que possa completé-la em 3 ou 4 minutos; de outro modo, levaria meia hora. E um co- mentério sobre uma frase do evangelho. Eu estivera pensando sobre outra reflexo, de Platéo: “Nao se pode transformar um homem livre em um escravo, pois um homem livre, é livre mesmo na prisio”. E como outra frase do evangelho: “Se uma pessoa fizer vocé avanger uma milha, avance duas”. Vocé pode achar ‘que me transformou em escravo, colocando uma carga sobre minhas costas, mas no o fez. Se alguém esté ten- tando transformar a realidade exterior estando fora da prisio para se sentir livre, 6 um verdadeiro prisioneiro. A liberdade nao esté em circunstncias externas; a li- berdade mora no coragao, Quando alcangar a sabedo- ria, quem poderd escravizar voc’? De qualquer modo, veja a frase do evangelho que mencionei anteriormente: “Ele mandou o povo embora, ¢ depois subiu & mon- tanha para orar sozinho. Fez-se tarde e ele permaneceu 1a sozinho”. Isso & que é amor. Ja the ocorreu que vocé 86 pode amar quando esté s6? O que significa amar? Significa ver uma pessoa, uma situaco, uma coisa, do jeito que ela realmente &, no como voce a imagina. E dar a ela a resposta que merece. Dificilmente pode-se dizer que voc’ ama o que nem mesmo yé. E 0 que nos faz nao ver? Nosso condicionamento. Nossos conceitos, nossas categorias, nossos preconcei- tos, nossas projecGes, os rétulos que tiramos de nossas culturas e de nossas experiéncias passadas, Ver € a coisa mais érdua de que um ser humano pode se encarregar, porque requer uma mente disci- plinada, alerta. Mas a maioria das pessoas preferiria 181 mergulhar em preguiga mental do que encarat © pro- blema de ver cada pessoa, cada coisa em seu presente momento de frescor. Perdendo o controle Se yocé deseja entender o controle, pense numa criancinha a quem sejam ministradas algumas drogas. Conforme as drogas penetram o corpo da crianca, ela se torna viciada; seu ser todo clama pela droga. Ficar sem a droga é um tormento tio insuportavel, que é pre- ferivel morrer. Pense nesta imagem — 0 corpo se tornou viciado na droga. Isto & exatamente o que nossa sociedade fez a voo€ quando vocé nasceu, Nao foi permitido a vocé usufruir da comida sélida, nutritiva da vida — isto é, trabalho, brincadeira, alegria, riso, a companhia de pes- soas, os prazcres dos sentidos e da mente, Foi minis- trada a droga chamada aprovagao, apreciagao, atengao. Vou citar um grande homem, chamado A. S. Neill. Ele é 0 autor de Summerhill [Liberdade sem medo (Summerhill)]. Neill diz que o sinal de uma crianga doente é ela estar sempre rondando scus pais, estar in- teressada em pessoas. A crianga saudavel nfio tem inte- resse algum em pessoas, ela esta interessada em coisas, Quando uma erianga tem certeza do amor de sua mae, ela a esquece; sai para explorar o mundo; é curio- sa. Ela procura um sapo para por na boca — esse tipo de coisas. 182 Quando uma crianga fica rondando sua mie, é mau sinal; ela € insegura. Talvez sua mae tenha tentado sugar amor dela, ¢ nao dar-lhe toda a liberdade e segu- ranga que quer. Sua mie tem sempre ameagado, de mods sutis, abandoné-la. Assim, nos foram ministradas vérias drogas: apro- vacio, atengo, sucesso, ascensao, prestigio, sair com © nome no jornal, poder, ser o padrao. Foram-nos mi- nistradas coisas como ser o capitao do time, liderar a banda, etc. Tendo tomado essas drogas, tornamo-nos yiciados © comegamos a ter horror a perdé-las. Pense na perda de controle que vocé sentiu, o ter- ror diante da idéia de fracasso, ou de cometer erros, da idéia de critica por parte de outras pessoas. nto, vocé se tornou coyardemente dependente dos otttros ¢ per- deu sua liberdade. Os outros agora tém o poder de torné-lo feliz ou miserdvel. Vocé implora por suas drogas, mas, tanto quanto odeia o sofrimento que isso implica, se acha completa- mente sem esperanga. Nunca hé um minuto em que, consciente ou inconscientemente, yoré nao esteja ciente ‘ou em harmonia com as reagdes dos outros, marchando ao rufar dos tambores deles. Uma boa definicsio de uma pessoa desperta: uma pessoa que ndéo marcha mais ao rufar dos tambores da sociedade, que danga ao ritmo da mtisica que surge de dentro. Quando 0 ignoram ou o desaprovam, vocé expe- rimenta uma solidao tio insuportavel que se agarra noyamenie as pessoas e implora pela droga reconfor- tante chamada apoio e encorajamento, reafirmacao. Vi- ‘ver com pessoas nesse estado implica uma tenséo per- manente. 183 “O inferno so as outras pessoas”, disse Sartre. Quando voce esté nesse estado de dependéncia, sempre tem que se comportar da melhor maneira; nunca pode decepcionar, tem que viver de acordo com as expecta- tivas. Estar com pessoas € viver em tensfo. Estar sem elas traz a agonia da solidfo, porque sente falta delas. Vocé perdeu sua capacidade de vé-las exatamente como siio e de responder a elas de maneira apropriada, porque sua percepcao esta encoberta pela necessidade de obter suas drogas. Vocé as vé entéio como apoio para conse- guir suas drogas ou uma ameaga de que as retirem de voce. Voeé esté sempre olhando para as pessoas, cons- ciente ou inconscientemente, através desses olhos. Eu vou conseguir o que quero delas ou nao? E se néo pude- rem nem apoiar nem ameacar minha droga, nfo estou interessado nelas. E uma coisa horrivel de se dizer, mas eu imagino se ha alguém de quem nfo se possa dizer isto, Ouvindo a vida Bem, voce precisa de consciéncia e de alimentagio. Precisa de alimentacao boa e saudével. Aprenda a usuftuir da s6lida comida da vide, Boa comida, bom vinho, boa gua. Experimente-os. Perca a cabeca e encontre seus sentidos. Isto é ali- mentagao boa e saudavel, Os prazeres dos sentidos e os prazeres da mente. Boa lcitura, quando voc aprecia um bom livro. Ou uma boa conversa, ou pensamento. E maravilhoso! Infelizmente, as pessoas enlouqueceram 184 © esto cada vez mais viciadas porque nfo sabem como aproyeitar as coisas agradayeis da vida, Entao estfo se interessando cada yez mais por estimulantes artificiais Nos anos 70, o presidente Carter apelou ao povo americano para que se interessasse pela austeridade. Pensei comigo mesmo: Ele nfo deveria dizerIhes para serem auisteros, ele deveria na verdade dizer-lhes para apreciarem as coisas. A maioria deles perdeu a capaci- dade para a diversio. Realmente acredito que a maioria das pessoas em pafses ricos perdeu essa capacidade. Elas tém que ter aparelhos cada vez mais caros; nfo conseguem aprayeitar as coisas simples da vida. Ento, entro em lugares onde se tem a mais linda miisica © onde yocé compra discos com desconto; eles esto todos estocados, mas eu nunca vejo ninguém ou- vindo-os — niio ha tempo, nao hi tempo, nfo hé tempo. Bles so culpados, nfo hd tempo para aproveitar a vida, Esti com excesso de trabalho, vai, va, va. Se voce realmente aprecia a vida ¢ os simples pra- s dos sentidos, ficaria pasmo. Vocé desenvolveria aquela extraordindria disciplina do animal. Um animal jamais come demais, Em seu habitat natural, ele nunca tera excesso de peso. Nunca beberdé ou comeré algo gue nao seja bom para a sua satide, Vocé nunca en- contra um animal fumando. Ele sempre se exercita tanto quanto precisa — observe seu gato depois de ele ter tomado seu café da manh§, veja como ele relaxa, E veja como entra em agio, olhe a elasticidade de seus membros ¢ a vivacidade de seu corpo. Perdemos isso. Estamos perdidos em nossas mentes, em nossas idéias ¢ ideais ¢ assim por diante, E isco sempre segue, segue, segue adiarte, E temos um conflito fntimo que os ani- mais no tém, Estamos sempre nos condenando e nos fazendo sentir culpados. 185 Voeé sabe do que estou falando. Eu poderia ter dito sobre mim mesmo o que um irmao jesufta me disse alguns anos atrés: *Ponha aquele prato de doces longe, porque diante de um prato de doces ou chocolates, perco minha liberdade”. Isso era yerdade para mim também. Perdia minha liberdade diante de todos os tipos de coisas, mas nfo mais! Me satisfago com pouco e gosto muito disso. Quando vocé aprecia algo intensamente, precisa de muito pouco. E como as pessoas que estio ocupadas planejando suas férias; elas passam meses planejando- as, chegam ao local ¢ entéo esto ansiosas para fazer as reservas para 0 vo de volta. Mas esto tirando fotos, ¢ mais tarde as mostrarao num élbum, fotos de lugares que nunca viram, s6 fotografaram. um simbolo da vida moderna, Nao posso prevenir vocé o suficiente sobre este tipo de asceticismo. Diminua o ritmo ¢ experimente e sinta o cheito, cuga, deixe seus sentimentos ficarem yivos, Se quiser uma estrada real para o misticismo, sente-se calma- mente e ouga todos os sons ao seu redor, Nao focalize nenhum som em especial; tente ouvi-los todos. Oh, verd os milagres que acontecem com yoo quando seus sentidos ficam desobstruidos. Isso é extremamente im- Portante para o processo de transformagio. O fim da andlise Gostaria de mostrar a diferenca entre andlise consciéncia, ou informagao de um lado e visio interior 186 de outro. Informagio nao é visio interior, anélise ndo consciéncia, conhecimento nao é consciéncia. Suponha que eu viesse com uma cobra enroscada em meu brago © dissesse: “Vocé pode ver a cobra enrolada em meu brago? Acabei de verificar em uma enciclopédia, e des- cobri que esta cobra é uma vibora de Russell. Se ela me picasse, eu morreria em menos de meio minuto. Vocé iria sugerir gentilmente maneiras pelas quais cu pudes- se me livrar desta criatura enroscada em meu braco?” Quem fala assim? Eu teria informacdo, mas no teria consciéncia alguma Ou digamos que eu estivesse me autodestruindo com dleool: “Por favor, descreva maneiras pelas quais eu possa me livrar deste vicio”. Uma pessoa que dissesse isso nao teria consciéncia alguma. Ela saberia que estava se autodestruindo, mas nao estaria ciente disso. Se estivesse, 0 vicio cessaria naquele minuto. Se eu estivesse ciente do que a cobra realmente cra, eu no a tiraria de meu braco; ela seria tirada através de mim. 8 disso que estou falando, essa a mudanca da qual estou falando, Vocé no se auto- transforma; no sou eu me transformando. A mudanga ocorte através de voc’, em vocé. Esta é a melhor ma- neira que conseguti para me expressar. Vocé vé a trans- formagio acontecer em vocé, através de yoo’; na sua consciéncia, ela acontece. Vocé nao a faz. Quando voce a faz, € mau sinal; ela nao vai durar muito. E se durar, Deus tenha piedade das pessoas com as quais voé con- vive, porque voce estaré sendo muito rigido. Pessoas convertidas com base no édio ou auto-insatisfagao so de consciéneia praticamente impossivel. Alguém disse: “Se voc quiser set um mértir, case-se com um santo”. Porém, na consciéneia, yoo’ mantém sua stavidade, 187 sua sutileza, sua gentileza, sua abertura, sua flexibilida- de, ¢ nao force coisa alguma, e a transformagao ocorre. Lembro-me de um padre, em Chicago, quando eu estudava psicologia; ele dizia: “Vocés sabem, eu tinha toda a informagéo de que precisava; eu sabia que lcool estava me matando e, acreditem, nada transfor- ma um alcodlatra — nem mesmo o amor de stia esposa ou filhos. Ele os ama de verdade, mas isso ndo o trans- forma, Eu descobri algo que me transformou. Estava tomando um trago certo dia sob uma garoa muito fina. Abri os olhos e vi que aquilo estava me matando. Eu vi ¢, apés esse dia, nunca mais tive vontade de beber uma gota sequer. Na verdade, até j4 bebi um pougui- nho depois disso, mas nunca o suficiente para me pre- judicar. Eu néo poderia fazé-lo e ainda nfo posso”, E sobre isto que estou falando: consciéncia. Nao informacdo, mas conseiéncia. Um amigo meu, que costumava fumar demais, dis- se: “Sabe, ha muitas piadas sobre o fumo. Elas nos di zem que ele mata as pessoas, mas veja os egipcios; esto todos mortos, e nenhum deles fumava”. Bem, certo dia ele teve sérios problemas nos pul- mées, entao foi ao nosso instituto de pesquisa do eéneer em Bombaim. O médico Ihe disse: “Padre, 0 senhor tem duas manchas em seus pulmdes, Pode ser cancer, entdo deverd voltar no més que vem” Ele jamais tocou em outro cigarro depois disso. Antes, ele sabia que o cigarro iria maté-lo; agora ele estava cignte disso, Essa € a diferenga O fundador de minha ordem religiosa, Santo Ind- cio, tem uma boa expresso para isso. Ele chama de experimentar e sentir a verdade — no conhecé-la, mas experimenté-la e senti-la. Quando voc8 a sente, voce 188 se transforma, Quando a conhece em sua mente, nao se transforma, Os mortos adiante Eu freqiientemente digo as pessoas que a verdadei- ra mancita de viver € morrer. O passaporte para a vida 6 imaginar-se em seu ttimulo, Imagine que voce esteja em seu caixéo. Em qualquer postura que Ihe agrade. Na India, colocam-se os mortos de pernas cruzadas, as vezes siio carregados assim até a pira ardente. As vezes, também, esto simplesmente deitados. Entéo imagine- se deilado © morto. Agora, olhe para seus problemas desse ponto de vista. Tudo muda, no 6? ‘Que meditagio adordyel. Adoravel! Pratique-a todos os dias, se tiver tempo. £ inacreditavel, mas voc8 ficaré mais vivo, Tenho uma meditacdo sobre isso num livro meu, Wellsprings [Fontes]. Vocé vé seu corpo se decompor, entéo vé os olhos, depois 0 p6. Todas as ve- zes que falo a respeito disso as pessoas dizem “Que horror!”, mas o que hé de to horroroso nisso? Fa rea- lidade, meu Deus do céu! Mas muitos de vocés nao querem ver a realidade. Nao querem pensar na morte. As pessoas nao vivem; a maioria de vocés nfo vive, estd simplesmente mantendo os corpos vivos. Isso nao é vida, Voc8 néo-vive até que realmente nfo dé a mf- nima impottdncia se esté vivo ou morto, Nesse momen- to vos vive. 189 Quando estiver pronto para perder a vida, viverd. Mas, se estiver protegendo sua vida, estard morto. Se yoeé se sentar no sétio ¢ disser a si mesmo “Vamos, desca!”, e disser entdo, “Ah, nfo, jé li sobre pessoas que descem escadas. Elas escorregam e quebram © pescogo; & perigoso demais” Ou ento nao atravessa ruas porque diz: “Vooé sabe quantas pessoas so atropeladas quando atraves- sam a rua?” Se nao atravessa uma rua, como poderd atravessar um continente? E se nao se livrar de suas pequenas e tolas crengas e convicgées e olhar para outro mundo, estaré motto, completamente morto; a vida teré pas- sado por vocé. Estaré sentado em sua pequena prisio, amedrontado; yooé perder seu Deus, sua religiao, seus amigos, todo tipo de coisas. A vida foi feita para 0 jo- gador, realmente foi. E isso que Jesus dizia. Vocé esti pronto para arriscar? Voce sabe quando estd pronto para arriscar? Quando descobrir isso, quan- do souber que isso que as pessoas chamam de yida nio é realmente vida. As pessoas pensam, de forma errada, que viver manter o corpo vivo. E entfo, ame 0 pensamento sobre a morte; ame-o. Volte sempre a ele. Pense no encanto daquele cadaver, daquele esqueleto, daqueles ossos se desfazendo até que haja somente um punhado de pé. Apés isso, que alivio! Alguns de vocés provavelmente néo sabem do que estou falando neste momento; esto apavorados demais para pensar nisso. Mas é um alivio tio grande quando vocé pode olhar para tris, para sua vida, desta Perspectiva! 190, Ou entdo visite um cemitério. E uma experiéncia tremendamente purificadora e bela, Vocé olha para um nome ¢ diz: “Meu Deus, ele viveu ha tantos anos, hé dois séculos; deve ter tido todos os problemas que tenho, deve ter tido muitas noites de insénia. Que lou- cura, vivemos por to pouco tempo!” Um poeta italiano disse: “Vivemos num lampejo de luz; a escurid’io comeca, e é noite para sempre”. somente um lampejo, e nés o desperdicamos. Nés 0 desperdicamos com nossa ansiedade, nossas preocupacées, nossas inquictudes, nossos fardos. Agora, quando vocé faz essa meditagao, pode aca- bar com a informagio; mas voc’ pode acabar com a consciéncia. E nesse momento de consciéncia, vocé esté novo. Pelo menos até que dure. Entdo saberd a diferen- ga entre informacao e consciéncia. Um amigo meu, astrénomo, estava recentemente me falando a respeito das coisas fundamentais em astro- nomia, Eu nfo sabia, até que ele me contou, que quando voc vé o Sol, vocé o est vendo onde estava oito mi- nuttos e meio atrés, nao onde ele esta agora. Porque um raio de Sol leva oito minutos para chegar até nés. Entao voc’ nfo o esté yendo onde est4; agora ele esté em outro lugar. As estrelas também tém nos enviado luz por centenas de milhares de anos. Entio, quando esta- mos olhando para elas, elas podem nfo estar onde as vemos; podem estar em outro lugar. Ele disse que, se imaginarmos uma galdxia, um universo inteiro, esta nossa Terra ficaria perdida na cauda da Via Léctea; nem mesmo no centro. E cada uma das estrelas é um Sol e alguns séis so tao grandes que poderiam conter 0 Sol ea Terra e a distincia entre eles. Numa estimativa moderada, hé cem milhdes de galaxias! O universo, 191 como 0 conhecemos, est4 se expandindo a uma veloci- dade de dois milhdes de milhas por segundo. Fu ouvi isto tudo fascinado e, quando saimos do restaurante onde estivéramos comendo, olhei para cima ¢ senti algo diferente, uma perspectiva diferente da vida. Isso consciéncia. Entao yoc8 pode colher todos ‘esses fatos como simples fatos (¢ isso é informacio), ou repentinamente ter outra perspectiva de vida — o que somos, 0 que ¢ este Universo, 0 que € a vida humana? Quando yoed tem essa sensacdo, isso € o que quero dizer quando falo de consciéncia A terra do amor Se nés realmente vissemos as ilusdes sob 0 prisma do que elas podem nos dar ou tirar de n6s, estariamos alerta, A conseqiiéncia de nao agir assim é espantosa e inexordvel. Perdemos nossa capacidade de amar. Se vooé deseja amar, deve aprender a ver novamente. E, se deseje ver, deve aprender a desistir de sua droga. E assim simples. Desista de sua dependéncia. Liberte-se dos tentéculos da sociedade que envolveram e sufoca- ram seu ser, Voce deve deixé-lo de lado. Externamente, tudo continuaré como antes, mas embora continue no mundo, nao seré mais dele. Em seu coracao, vocé agora estard finalmente livre, se estiver completamente s6. Sua dependéncia da droga morrer4. Vocé nao tem que ir ao deserto; est bem no meio das pessoas; gosta delas imensamente, Mas elas no tém mais o poder de fazer 192 vocé feliz. ou miserdvel. B isso que significa solidao, na solidao sua dependéncia morre. A capacidade de amar nasce, Nao se vé mais os outros como meios de satis- fazer nossos vicios, S6 quem jé tentou isso conhece os terrores do ptocesso, E como convidar a si mesmo para a morte, E como pedir ao pobre viciado em drogas para desistir da tinica felicidade que ele jamais conheceu. Como substituir isso com 0 gosto do pao e frutas ¢ 0 gosto puro do ar da manha, a dogura da Agua do riacho que desce da montanha? Enquanto ele esté se esforcan- do em seus sintomas de afastamento, e 0 vazio que sente dentro de si agora que a droga se foi, nada pode preenché-lo, exceto a droga: Vocé pode imaginar uma vida na qual se recuse a se divertir e a ter prazer com uma simples palayra de apreciago, ou descansar sua cabega sobre o ombro de alguém para ter apoio? Pense numa vide na qual nfo dependa de ninguém emocional- mente, de modo que ninguém mais tenha que fazer voce feliz ou miserdyel. Vocé se recusa a precisar de qual- quer pessoa em especial ou a ser especial para alguém, ou a chamar alguém de seu. Os pdssaros no céu tém seus ninhos e as raposas suas tocas, mas voc nfo ter lugar algum para descansar sua cabeca em sua jornada através da vida. Se algum dia chegar a este estégio, final- mente saberé o que significa enxergar com uma visio que € clara ¢ desnublada pelo medo ou pelo desejo. Cade palavra ali € medida. Enxergar finalmente com uma visdo que é clara e desnublada pelo medo ou pelo desejo, Voce saberé o que significa amar. Mas para chegar & terra do amor, yocé deve atra- vessar os sofrimentos da morte, pois amar pessoas sig- nifica morrer para as necessidades de ter pessoas, e set totalmente s6. 193 Como vocé conseguiria chegar 14? Através de uma consciéncia incessante, da infinita paciéncia e compai- x#o que teria por um viciado em drogas. Através do desenvolvimento de um gosto pelas boas coisas da vida para se contrapor & sua sede pela droga, Que coisas boas? O amor pelo trabalho que vocé aprecia fazer pelo amor dele mesmo; o amor pelo riso e intimidade com pessoas 8s quais nao se apega ¢ das quais nao de- pende emocionalmente, mas cuja companhia aprecia, Também ajudard se voce tiver atividades que possa de- senvolver com seu ser total, atividade que goste tanto de desenvolver que, enquanto esté nela, 0 sucesso, 0 recomhecimento e a aprovacao simplesmente nada sig- nificam para yocé. Ajudaré também se retornar A natu- reza, Mande as multiddes embora, suba as montanhas ©, em siléncio, comungue com as Arvores e as flores, animais ¢ péssaros, com o mar e as nuyens, o céu ¢ as estrelas. Jd mencionei que um excelente exercicio espiri- tual ¢ ficar olhando para as coisas, estar ciente das coi- sas ao seu redor. Com esperanca, as palavras € os con- ceitos cairfio por terra, e vocé verd, fara contato com a tealidade, Essa 6 a cura para a solidao. Geralmente pro- curamos curar nossa solidao dependendo emocional- mente das pessoas, ou através da coletividade, ou do barulho. Isso nao representa cura alguma. Volte para as coisas, volte para a natureza, volte para as monta- nhas. Ento vocé saberé que seu coracdo trouxe-o de yolia ao vasto deserto da solid&o, nao ha ninguém 14 a0 seu lado, absolutamente ninguém, No comeco, pareceré insuportavel. Mas € s6 por- gue vocé nao esté acostumado a solidio. Se conseguir ficar lé por algum tempo, o deserto desabrochara repen- tinamente em amor. Seu coracéio explodiré numa can- 194 #0. E seré primavera para sempre; a droga sairé; voc’ Set4 livre, Entio entendera o que é liberdade, o que é 40t, © que € felicidade, o que 6 realidade, o que é ver- ace © Ue € Deus. Voc’ verd, saberé além dos con- 1.28 do condicionamento, dos vicios e das ligagdes. 'SS0 faz sentido? Deixeme terminar com uma bonita hist6ria. Havia poy Homem que inventou a arte de fazer o fogo. Ele pe- f0u suas ferramentas e foi pata uma tribo, ao norte, put estava muito frio, um frio congelante. Ensinou as Pessoas de la fazer fogo. As pessoas ficaram muito in- prssadas. Ele mostrou-thes as utilidades do fogo — Poderiam cozinhar, se aquecer, ete. E eles ficaram fuuito agradecidos por terem aprendido a arte de fazer 0 80. Mas antes de poderem mostrar sua gratidfio, o hhomem desapareceu, le no estava preocupado em re- ceber o Teconhecimento ou a gratiddo, estaya preocu- Pado com o bemestar deles, Ele foi 8 outra tribo, onde novamente comegou a catia" © Valor de sua invengio. As pessoas também ¢stavam interessadas 1, um pouco interessadas demais Pata que seus religiosos ficassem tranqiiilos; comegaram ¢ Rolar que aquele homem estava levantando multiddes Thot2¥am perdendo sua popularidade, Entéo decidiram, marse dele. Envenenaram-no, crucificaram-no, ou 0 Aue voce preferir que tenham feito com ele. Mas fica- "aM entio com medo de que as pessoas se voltassem Contra cles; entio foram espertos, astuciosos. Sabe o ate fizeram? Pegaram um retrato do homem e coloca- Fam-no no Principal altar do templo. Os instrumentos ff fazer fog0 foram colocados A frente do Telrato e ol dito as pessoas que deveriam severenciar 0 retrato © 98 instrumentos; e foi o que fizeram durante séculos. 195 A veneragao e a adoracio continuaram, mas néo houve mais fogo. Onde esta o fogo? Onde esta o amor? Onde esta a droga arrancada de scu sistema? Onde esté a liber- dade? E disto que se ocupa a espiritualidade. Infel mente, temos uma forte tendéncia a perder isto de vista, nao é? E sobre isto que Jesus Cristo falou. Mas damos énfase demais ao “Senhor, Senhor”, nio? Onde esté o fogo? E se a adoracéo nao leyar ao fogo, se nao evar ao amor, se a liturgia nfo levar a uma percepoao mais clara da realidade, se Deus no levar a vida, de que serve a religido a néo ser para criar mais divisio, mais fanatismo, mais antagonismo? Nao é de falta de religiao, no sentido mais simples da palayra, que o mundo esté sofrendo; € de falta de amor, falta de cons- ciéncia. E 0 amor € gerado através da consciéncia, ¢ através de nada mais; nada mais, Compreenda os obs- taculos que vocé esté colocando no caminho do amor, da liberdade, da felicidade, ¢ eles cairio por terra. Acenda a luz da consciéncia ¢ a escuridao desapare- cerd. Felicidade nao é algo que vocé adquire; amor nao € algo que se produz; nao € algo que se possui; amor é algo que possi vocé. Vocé nao possui o vento, as estre- las, a chuva, Vocé nfo possui essas coisas; se rende a elas. E essa rendi¢do ocorre quando voce esta ciente das suas ilusGes, quando esta ciente de seus vicios, quando esta ciente de seus descjos e medos. Como eu disse an- teriormente: em primeiro lugar, a visio psicolégica inte- rior € de grande ajuda; entretanto, a anélise nao o é: andlise ¢ paralisia. A visio interior nao € necessariamen- te andlise, Um de nossos grandes terapeutas americanos expressou isso muito bem: “E a experiéncia ‘ah-ah’ que conta”. A simples anélise nfo é de ajuda alguma; ape- 196 nas dé informagao. Mas, se voc8 pudesse fazer expe- tigncia “ah-ah”, isso seria visdo interior. Isso seria a transformagao. Em segundo lugar, a compreensfo de seu vicio € muito importante. Vocé precisa de tempo. Meu Deus, tanto tempo desperdicado em adoracao e cangbes de Touvor e que poderia ser to bem empregado na com- preensio de si mesmo! ‘A comunidade no se produz juntando-se eelebra- Ges litdirgicas, Vocé sabe, bem no fundo de seu co- ragdo, como eu também sei, que tais celebragGes ser- vem apenas para cobrir diferengas. A comunidade é ctiada compreendendo-se os obstdculos que colocamos em scu caminho, compreendendo-se os conilitos que surgem de nossos temores € nossos desejos. Nesse mo- mento surge a comunidade. Devemos sempre tomar cut- dado para nfo tornar a adoragio apenas mais uma distragao do importante negécio que 6 a vida. E viver no significa trabalhar no Governo, ou ser um homem de negécios, ou praticar grandes atos de caridade. Isso nao € viver. Viver € fazer cair todos os impedimentos e viver 0 momento presente com ale- gtia. “Os passaros no céu (.. .) eles nao trabalham nem fiam” — isso 6 viver. Comecei dizendo que as pessoas esto adormeci- das, mortas. Pessoas mortas dirigindo governos, pes- soas mortas fazendo grandes negécios, pessoas mortas educando outras; torne-se vivo! A adotacdo deve con- tribuir para isso, ou entéio 6 initil. E cada vez mais — voc sabe disso e eu também. — estamos perdendo a juyentude em todos os lugares, Os jovens nos odeiam; nfo estao interessados em tet mais medos e mais culpas sobre eles. Nao esto interes- 197 sados em mais serm@es € exortagdes. Mas esto inte- tessados em aprender sobre 0 amor. Como posso ser feliz? Como posso viver? Como posso experimentar essas coisas maravilhosas sobre as quais os misticos falam? Entao 6 essa a segunda coisa — compreensio. __ A terceira € nao identificar, Alguém me perguntou hoje, enquanto cu vinha para cé — Vocé ja se sentiu abatido? — Cara, eu fico por baixo de vez em quando, sim. Tenho meus ataques. Mas eles nfo duram muito tempo, realmente no duram muito. O que eu faco? Primeiro asso: eu no identifico, Aqui aparece um sentimento depressivo. Em vez de ficar tenso ou de ficar irritado comigo mesmo, eu compreendo que estou me sentindo deprimido, desapontado, ou o que quer que seja. Se- gundo passo: admito que esse sentimento esté em mim, no em outra pessoa, por exemplo, na pessoa que nao me escreveu uma carta; admito que nao esté no mundo exterior, esté em mim porque, enquanto penso que ele estd fora de mim, sinto-me justificado em me agarrar a meus sentimentos, Nao posso dizer que todos se sen- tiriam dessa maneira; na verdade, s6 as pessoas idiotas iam assim, s6 pessoas adormecidas. Terceiro nao me identifico com o sentimento. Eu ndo sou esse sentimento, “eu” no estou s6, “eu” nao estou de- primido, “eu” nao estou desapontado. O desaponta- mento esté Id, pode-se ver. Vocé no acreditaria 0 quao rapidamente ele desaparece. Tudo de que vocé esta ciente continua mudando; as nuvens continuam se mo- vendo. Conforme faz isso, vocé também consegue todas as visGes interiores para saber porque as nuvens vinham em primeiro lugar, 198, ‘Tenho uma étima citagdo aqui, algumas sentencas que eu escreveria em letras de ouro. Eu as escolhi de um livro de A. S. Neill, Summerhill [Liberdade sem medo (Summerhill)]. Primeiro vou dar uma explicagao prévia. Vocé provavelmente sabe que Neill lidou com edu- cago durante quarenta anos. Ele desenvolveu um tipo de escola independente. Recebia meninos e meninas ¢ simplesmente deixava-os livres. Se voc quer aprender a ler ou escrever, étimo! Se vocé nao quer aprender a ler e esctever, timo! Vocé pode fazer o que quiser de sua vida, desde que no in- terfira na liberdade dos outros. Nao interfira na liber- dade de ninguém; de outro modo voce estaré livre. Ele dizia que os piores alunos vinham até ele pro- venientes de conventos, Isto acontecia no passado, 16- gico. Dizia que levavam aproximadamente seis meses para se curarem de toda a raiva ¢ todo o ressentimento que tinham reprimido. Eles se rebelavam por seis me- ses, Iutando contra o sistema, A pior de todas foi uma garota que, pegando uma bicicleta, foi até a‘cidade, evitando as aulas, evitando a escola, evitando tudo. Mas, uma vez que se curavam de sua revolta, todos queriam aprender; até mesmo protestavam: “Por que nao temos aula hoje?” Mas s6 tinham cursos daquilo em que estavam in- teressados. Estavam transformados. No comeco, os pais ficaram com receio de enviar seus filhos a essa escola; eles diziam: “Como vocé pode educé-los se néio os disciplina? Vocé tem que ensind-los, gui -los”. Qual 0 segredo do sucesso de Neill? Ele pegava as piores criangas, aquelas que todos os outros tinham rejeitado e, dentro de seis meses, estavam todos trans- 199 formados. Veja o que ele dizia — palavras extraor néias, santas palavras: “Toda crianga tem um deus dentro de si. Nossas tentativas para moldar a crianca transformarao o deus em um deménio. As criancas yém para a minha escola, pequenos deménios, odiando o mundo, destrutivas, com péssimos modos, mentirosas, ladras, com temperamento agressivo. Em seis meses elas esto felizes, saudaveis, incapazes de fazer qualquer mal”. Estas palayras so palavras admiréveis, vindas de um homem cuja escola na Inglaterra é regularmente inspecionada por pessoas do Ministério da Educagio, e por qualquer diretor ou diretora ou qualquer outra pes- soa que queira ir até 14, Espantoso! Era o carisma dele. Vocé nao faz esse tipo de coisa de maneira simples; tem que ser um tipo especial de pessoa. Em algumas de suas conferéncias para diretores e diretoras ele diz: — Venham até Summerhill e vocés verao que to- das as drvores frutfferas esto carregadas de frutas; nin- guém tira as frutas das érvores; nfo hé desejo de atacar a autoridade; eles sio bem alimentados ¢ néo hé ne- nhum ressentimento ou raiva. Venham a Summerhill e yocés nunca encontrario uma crianga defeituosa com apelidos (vocés sabem como 2s criangas podem ser ctuéis quando alguém gagueja). Vocés nunca encon- trarao alguém irritando um gago, nunca, Nao ha vio- Iéncia alguma naquelas criangas, porque ninguém pra- tica violéncia alguma contra elas, por isso. Ouga estas palayras reveladoras, sagradas. Temos pessoas assim no mundo. Nao importa o que os eruditos,” os padres, ou os tedlogos digam, hé e sempre houve pessoas que nao brigam, nao tém citimes, nem confli- 200 tos, nem guerras ou inimigos, nada! Elas existem em meu pais, ou, sinto em dizer, existiram até um tempo relativamente recente. Tive amigos jesuitas que foram viver e trabalhar entre pessoas que, eles me garantiram, eram incapazes de roubar ou mentir. Uma freira me disse que, quando foi para o nordeste da India para trabalhar entre algumas tribos de 14, as pessoas nfo trancavam nada. Nada era roubado, nunca, e eles nunca mentiam — até que o goyerno hindu e os mis- sionérios apareceram Toda crianga tem um deus dentro de si; nossas tentativas para moldar a crianca transformam o deus em deménio. Hé um 6timo filme italiano dirigido por Federico Fellini, Oito e meio, Em determinada cena ha um Irmo cristéo que sai para um piquenique ou excursio com um grupo de garotos entre oito ¢ dez anos. Estao numa praia, caminhando, quando o Irmao se afasta com trés ‘ou quatro deles, Eles encontram uma mulher mais velha, que ¢ uma prostituta, e dizem para ela: — Oj — Oi — ela respondeu. Ento eles dizem: — Quem € yoo’? E ela responde: Sou uma prostituta Eles nfo sabem 0 que isso significa, mas fingem que sabem. Um dos meninos, que parece saber um pouco mais que os outros, diz: — Uma prostituta é uma mulher que faz certas coisas se yoo’ pagar a ela Eles, entao, perguntar — Ela faria essas coisas se nds pagdssemos? 201 — Por que nao? — foi a resposta. Entao eles fazem uma yaquinha e dao a cla o di- nheiro, dizendo: — Voce faria certas coisas agora que The demos © dinheiro? Ela responde: — F claro, garotos, o que voeés querem que eu faga? A tinica coisa que ocorre aos meninos é que ela tire as roupas, E ela o faz. Bem, eles olham para ela; nunca haviam visto uma mulher nua antes. Nao sabem © que mais fazer, entao dizem: — Vocé quer dancar para nds? — Claro — ela diz. EntZo todos se retinem, cantando e batendo pal- mas; a prostituta mexe seu traseiro e eles se divertem imensamente, O Irmao presencia tudo. Ele corre pela praia e grita para a mulher. Ele a manda vestir as rou- pas, e 0 narrador diz: “Naquele momento as criangas foram corrompidas; até entdo elas eram inocentes, lindas”. Este nao é um problema incomum. Conheco um missionério bastante conservador na India, um jesuita. Ele veio a uma de minhas palestras. Enquanto eu desen- volyi esse tema, durante dois dias, ele sofreu, Ele yeio até mim, na segunda noite, e disse: “Tony, nao posso Ihe explicar 0 quanto estou sofrendo ao ouvir voce”. E eu disse: “Por que, Stan?” Ele respondeu: “Vocé est4 revivendo em mim um problema que reprimi du- rante vinte ¢ cinco anos, um terriyel problema. Pergun- tei a mim mesmo varias vezes: Serd que nfo estraguei meus figis tornando-os cristéos?” Este jesuita néo era um liberal, era um ortodoxo, devoto, pio, conservador. 202 Mas achava que tinha corrompido um povo feliz, amé- vel, simples ¢ ingénuo tornando-os cristdos. Os missiondrios americans que foram para as Ilhas dos Mares do Sul com suas esposas ficaram hor- rorizados ao ver as mulheres virem a igreja com os seios descobertos. As esposas insistiam para que vies- sem mais decentemente vestidas. Entéo os missionarios deram camisas a clas. No domingo seguinte, as mulhe- res vieram usando as camisas, mas com dois grandes buracos nelas, para maior conforto, para melhor yen- tilacdo. Elas estavam certas; os missiondrios estavam errados. Bem... yoltando a Neill. Ele diz: “Nao sou um génio, sou simplesmente um homem que se recusa a guiar os passos das criancas”. Mas, e quanto ao pecado original? Neill diz que toda crianga tem um deus dentro de si;, nossas tentati- vas para moldé-la transformarao o deus em deménio. Ele deixa que as criangas formem seus préprios valo- res, e os valores so, invariavelmente, bons e sociais. Vocé consegue acreditar nisso? Quando uma crianga se sente amada (0 que significa: quando uma crianca sente que voce esta do lado dela), cla esta bem. A crianga nao experimenta mais a violéncia. Nenhum medo, en- tao, nenhuma violéncia. A crianga comega a tratar as coutras do modo como é tratada. Vocé tem que ler esse livro. E um livro sagrado; realmente. Leia-o; ele revo- lucionou minha vida e minha maneira de lidar com as pessoas. Comecei a ver milagres. Comecei a ver a auto- insatisfagdo que tinha se enraizado em mim, a compe- tigdo, as comparagées, a maneira de achar que nada é bom 0 suficiente, etc. Vocé pode objetar, dizendo que se nfo tivessem me empurrado, eu nfo teria me tornado 203 © que sou. Seré que precisei de todo esse empurtdio? E. de qualquer modo, quem quer ser 0 que sou? Quero ser feliz, quero ser puro, quero ser amAvel, quero estar em paz, quero ser livre, quero ser humano. Vocé sabe de onde vém as guerras? Vém da pro- jego externa que fazemos do conflito que temos inter- hamente. Mostre-me um individuo no qual nao haja um conflito interior ¢ eu mostrarei um individuo no qual ndo hé violencia alguma. Haverd aco efetiva, até mesmo dura, nele, mas nao haveré ddio. Quando ele age, ele o faz como um cirurgiéio; quando age, o faz como um professor bondoso que age mentalmente como uma crianga retardada. Vocé nao os culpa. Vocé os entende; mas se inclina para a agio. Por outro lado, quando se inclina para a agao com seu proprio ddio e sua propria violéncia néio enderegada, voc’ compée o erro. Vové tentou apagar o fogo com mais fogo. Vocé tentou acabar com uma enchente acrescentando mais Agua a ela; Repito o que Neill disse: “Toda crianga tem um deus dentro de si, Nossas tentativas para moldar a crianga transformardo 0 deus em um deménio. As criangas vém para a minha escola, pequenos deménios, odiando o mundo, destrutivas, com péssimos modos, mentirosas, ladras, com temperamento agressivo. Em seis meses elas estio felizes, saudaveis, in- capazes de fazer qualquer mal. E eu nao sou um génio, sou simplesmente um homem que se recuisa a guiiat os passos das criangas. Eu as deixo formar seus préprios valores, ¢ estes sao invariavelmente bons e sociais. A re- ligido, que forma as pessoas, faz também as pessoas mas, mas a religiao encarada como liberdade torna todas as pessoas boas, pois destréi o conflito interior (acres- 204 centei a palayra “interior”), que transforma as pessoas em deménios.” Neill também diz: “A primeira coisa a fazer quando uma ctianga yem para Summerhill € destruit sua consciéncia”. Presumo que vocé saiba do que ele esta falando, porque eu sei. Vocé nao precisa de consciéncia quando tem sua sensibilidade. Yoo€ nao é violento, nao tem medo. Vocé provayelmente pensa que isto é um ideal inatingivel. Bem, leia esse livro. Tenho encontrado individuos aqui e ali que, de repente, se deparam com essa yerdade: a raiz do mal esté dentro de vocé, Quan- do comega a compreender isso, voce para de exigir coi sas de si mesmo, para de ter expectativas de si mesmo, para de empurrar vocé mesmo e entdio compreende. Alli mente-se de comida saudavel; de boa qualidade. Nao estou falando de comida real, estou falando de pér- do-sol, de natureza, de um bom filme, um bom livro, trabalho agradavel, boa companhia; e com esperanca vos dar4 fim a seus vicios com relacio aos outros sentimentos. Que tipo de sentimento vocé tem quando esté em contato com a natureza, ou quando estd envolvido no trabalho que ama? Ou quando esté conversando com alguém, cuyja companhia voce aprecia, com completa abertura e intimidade, sem dependéncia? Que tipo de sentimentos vocé tem? Compare esses sentimentos com os que vocé tem quando yence uma discuss, uma corrida, se torna popular, ou quando todos estéo aplaudindo vocé. Estes tiltimos sentimentos eu chamo de sentimentos terrenos; os primeiros eu chamo de sentimentos da alma. Muitas pessoas ganham o mundo e perdem suas almas. Muitas pessoas vivem vazias, vi- 205 das sem alma, porque esto se alimentando de populari- dade, apreciaco e glorificagdes, de frases como “Estott bem, vocé esté bem”, olhe para mim, sirva-me, agiiente- me, dé-me valor, ou se alimentando de bancar o patrao, ter o poder, vencer a corrida. Voce se alimenta disso? Se é assim, vocé est morto, Vocé perdeu sua alma ‘Alimente-se de outros matetiais, mais substanciosos. Ent&o vera a transformagdo. Dei a vocé um pro- grama completo de vida, nao dei? 206 impueo nap afcnos 30