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onde estar no momento presente

por, henrique de sousa

isso não é mais do que sintetizar o próprio pensamento, no entanto, não pretendo que
isso seja considerado como algo mais que um ensaio ou tentativa, uma sugestão.
das questões que o aparelho circense me traz até as reverberações que surgem à sua
prática. e quando digo “momento presente” refiro-me a não se preocupar muito com o
“foi” ou com o “será”.
me interessa ter ataques bem-sucedidos à realidade do consenso, rupturas em direção a
uma ação mais intensa e abundante. se a corda lisa não puder ser usada nesse projeto,
então a corda lisa - tida como é no imaginário popular - deverá ser superada.
assim como a noção da técnica circense, no que tange sua reprodução, domínio ou
chancela sua habilidade sobre a mesma. partindo de um pressuposto que, a “imagem
real” ou seja, aquilo que meu corpo reproduz e se assemelha com a figura posta, deva
assim caracterizar o seu labor. tendo em vista, uma tentativa de trunfo do mundo
ocidental, sobre o eixo colonizado, uma perspectiva ordinária sobre o que viria a ser o
Agora, o circo que não existe. ou o circo que está sendo criado agora. ou o circo de
amanhã. o circo que ninguém sabe. o circo que está aí. logo, a aplicabilidade disso, em
um contexto representativo sobre o que se questiona enquanto cena, processo formativo
ou composição estética gera um outro olhar, para também pensarmos a nós mesmos,
nossas especificidades locais que não corroboram com mecânica de importação, e
oriundo disso, a equivalência de continuar invocando esse “padrão de movimento” já
nos traria outras leituras, não de entendimento ou execução da coisa, mas de
possibilidade, falamos português entretanto não somos portugueses, ainda bem, estamos
em outro momento, em que a circunstância submissa já não se sustenta, e nenhuma
tentativa arbitrária mudaria isso. mesmo em vertigem a contaminação seria fatal. como
um anagrama infinito. para além da linguagem. acredito que todo esse aparato de
repasse da cartilha europeia das artes circenses configura uma manutenção de Estado,
que deva ser desconfigurada, dissolvida e assim elucubrar um outro momento, de
técnica, expressão e afins.
dito isso, o quanto deveríamos nos aprofundar na relação com a linguagem circense ou
modalidade específica para construir outras possibilidades ? será que devemos esperar
até que o mundo inteiro esteja livre do controle político antes que umx únicx de nós
possa dizer que conhece a liberdade - no sentido mais literal da palavra - ? como
investigar novas possibilidades a partir de um repertório já compacto e denso que nos é
disponibilizado ? não pretendo responder nada disso aqui. também não pretendo iniciar
uma revolução, acredito que ela nos levaria ao mesmo lugar em algum certo momento,
um karma.
mas pergunto a mim mesmo constantemente essas coisas pra me situar do espaço e
como opero nele.
algo como a relação que desenvolvo com o aparelho corda lisa, a sensação que sinto de
mim em um duplo - uma vez tendo mencionado o outro olhar gerado a partir desse
percurso em processos investigados dentro do co-laborátório - as vezes como separação
e outras como desdobramento, um treinamento também de cumplicidade ainda que em
solitude. há uma analogia sobre o cavalo, nos termos do candomblé, ao que diz respeito
à cumplicidade, que se você pensar a cavalgada perfeita, dizem aqueles que andam a
cavalo, é quando existe uma simbiose entre cavalo e cavaleiro, quando guia vira guiado.
então, entendi isso como uma espécie de utopia na existência, no meu caso de conseguir
chegar a essa simbiose com a corda, de não me sentir me observando com olhar
limitado ao método, treinamento ou sensação. usar o cérebro de verdade, tatear isso de
maneira simples, de o cérebro pensar a si próprio, de querer se desligar do córtex frontal
e ligar um cérebro mais primitivo, mais ancestral no sentido de que ele nos permita
andar sem pensar em um pé a frente do outro, um de cada vez, como uma forma de
investigação.
não necessariamente essa investigação se dê sempre no sentido físico e literal, mas
voltar-se a si uma vez que tenha embarcado nessa “viagem a cavalo”, ou seja tem a ver
com ciência e ritual, ciência no sentido da distância que se é preciso para se observar o
objeto, e ritual na criação do duplo objeto que na verdade sou eu próprio - em dado
momento catabolizado pelo corda - a minha memória, a minha ascendência, os meus
desejos, paixões, sonhos, e me deslocando do meu lugar eu entendo o quanto daquilo
representa essas ideias, a noção de identidade, o que quer que seja, até as saudades. e se
dissociar daquilo que se é, me expande a visão e sensação para além dos símbolos,
como se fosse acordar em um quarto desconhecido, sem todo aquele aparato que ti
garante, ti tranquiliza. sem roupas, imagem, adereços e móveis.
gosto da palavra “insurreição” que a propósito encontrei em um livro de hakim bey -
que muito me aproxima desse processo - que um amigo mencionou uma vez enquanto a
gente discutia sobre alguma coisa que deva estar por aqui.
o trecho em questão é esse “a insurreição é o momento proibido, uma imperdoável
negação da dialética. ela dança no alto do poste e sai pela ventarola da tenda, uma
manobra de xamã executada a partir de um “ângulo impossível” em relação ao
universo. a História diz que a Revolução chega a ter “permanência”, ou ao menos
duração, enquanto a sublevação é “temporária”. nesse sentido, uma sublevação é
como uma “experiência de apogeu” em oposição à consciência e à experiência
“ordinárias”. como os festivais, as sublevações não podem acontecer todos os dias - ou
seriam “extraordinárias”. mas esses momentos de intensidade dão forma e significado
para uma vida inteira. o xamã retorna - não se pode ficar no telhado para sempre -,
mas as coisas mudaram, transformações e integrações ocorreram - criou-se uma
diferença.”
é nesse espectro de uma ideia que ainda não existe mas já se está posta pela justaposição
dos nossos corpos em confronto com nossos desejos, subir no aparelho aéreo para
existir lá no momento presente, no ponto zero, subir para chegar ao futuro, mas não se
chega porque só é solúvel o presente, daí então se desce para que se produza outras
matérias. como a operação de guerrilha que hakim propõe, em se que libera uma área
(de terra, de tempo, de imaginação) e que depois se dissolve para se refazer em outro
lugar, em outro momento, antes que o Estado - ou nesse caso a própria estrutura cênica,
cultural ou social - consiga destrui-la.
tal como essa escrita ensaísta, enquanto circo dada a vontade e necessidade, mas isso de
não se definir a linguagem da cena ou sua transversalidade, porque não há uma
definição pra ela, desse modo pensando por essa possibilidade assim que ela é nomeada
(representada, mediada), ela deve desaparecer deixando para trás uma casca vazia, para
brotar outra vez em outra parte, outra vez invisível por ser indefinível nos termos do
“Espetáculo”.
e nesse paradoxo de proposição lidar de outra maneira com a corda, com a acrobacia
aérea, tecer fios de cobre junto a sua estrutura já existente, é uma vontade, em busca da
tentativa. construir outros espaços, ser nômade conforme a existência peça, tomar essa
busca como estopim para outra existência, talvez acrobaticamente.